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12. Compropriedade (apontamentos)
12. 1. Noção
1. Nos termos do n.º 1 do art. 1403.º, “existe propriedade em comum, ou
compropriedade, quando duas ou mais pessoas são simultâneamente titulares do direito
de propriedade sobre a mesma coisa.” 1
12. 2. Regime jurídico
a) Constituição
2. São fontes da compropriedade o acto negocial, a usucapião (do mesmo modo
que um único sujeito pode adquirir por usucapião, também uma pluralidade de pessoas é
apta para tanto, caso se comportem como comproprietários), o testamento, a decisão
judicial ou, finalmente, a disposição legal.
Dir-se-á, então, que a compropriedade pode ter fonte voluntária, legal ou judicial.
3. No primeiro caso integrar-se-ão o negócio jurídico (por exemplo, dois ou mais
sujeitos acordam adquirir uma coisa certa e determinada em conjunto) e o testamento (por
vontade do de cuius, herdeiros e/ou legatários sucedem-no como comproprietários).
Também resultará de uma vontade comum a constituição de uma compropriedade
por usucapião: para tanto, bastará que vários sujeitos, simultaneamente, exerçam uma
posse, em termos de compropriedade, pública e pacífica, durante um determinado período
de tempo, sobre coisa certa e determinada. Depois, quando ao requisito da invocação,
temos que, segundo o art. 1291.º, “a usucapião por um compossuidor relativamente ao
objecto da posse comum aproveita igualmente aos demais compossuidores.”
4. Há, depois, casos em que a própria lei determina o surgimento de uma
compropriedade. É o que sucede nos casos previstos nos arts. 1358.º (presunção de
1
A comunhão, tal como a conhecemos na modernidade — excepto a comunhão de mão comum
—, tem origem romana. A comunhão romana designa a espécie de propriedade comum a dois ou mais
titulares, em que se atribui a cada um deles uma fração ou quota ideal sobre o todo, o suporte da figura
encontrando-se na característica da exclusividade. O sistema admite apenas um único proprietário em
concreto sobre determinada coisa. Justamente por este motivo surgiu a teoria da propriedade ideal, em que
se atribui uma fração ou quota pro indiviso sobre o todo. A base da comunhão romana é a affectio societatis.
Diversamente, na comunhão germânica, cada contitular é proprietário pro parte. Logo, existe a
propriedade da coisa, mas esta corresponde a duas ou mais pessoas em comum, detentoras de quotas da
coisa.
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comunhão de valas, regueiras e valados), 1359.º, n.º 2 (presunção de comunhão de sebes
vivas) e 1371.º (presunção de compropriedade de parede e muro) 15.
5. Entre as hipóteses de constituição de compropriedade por decisão judicial,
salienta-se a constante do art. 1370.º — comunhão forçada em parede ou muro alheio.
Neste caso, o proprietário de um prédio confinante pode adquirir comunhão num
muro de meação, no todo ou em parte, pagando metade do valor da parede ou do muro e
do solo sobre que estiver construído.
b) Poderes dos comproprietários
I. Regime jurídico relativo à quota de cada consorte
6. Na compropriedade, a cada um dos comproprietários cabe, em exclusividade,
um direito sobre a sua quota na comunhão. Isto mesmo resulta, explicitamente, da
primeira parte do n.º 1 do art. 1408.º: “o comproprietário pode dispor de toda a sua quota
na comunhão ou de parte dela”. Assim sendo, quanto à quota (ou parte dela), a regra é a
de que cada consorte faz com ela o que bem entender: alienar (vender, doar, permutar…)
ou onerar pela constituição de uma hipoteca (cfr. art. 689.º, n.º 1).
Nos termos do n.º 3 do art. 1408.º, a disposição da quota está sujeita à forma
exigida para a disposição da coisa. Bem entendido, a mesma regra valerá para os casos
de oneração (não poderá, por exemplo, constituir-se uma hipoteca sobre a quota tendo
por objecto um prédio sem que tal vontade seja expressa em escritura pública ou em
documento particular autenticado — v. art. 714.º).
7. Porém, quando o comproprietário pretenda vender ou dar em cumprimento a
sua quota, beneficiando um estranho à comunhão, está obrigado a dar preferência aos
outros comproprietários (art. 1409.º, n.º 1).
A ratio legis facilmente se descortina. Por uma parte, o direito de preferência só
se coloca quando se pretende vender a um terceiro estranho, porque o que o legislador
pretende é a redução do número de proprietários, visando, assim, atingir a propriedade
15
A exclusão da presunção faz-se pela presença de um dos sinais elencados no n.º 3 do art. 1371.º:
a) a existência de espigão em ladeira só para um lado (situações em que num muro existe, por exemplo, um
pedaço de metal inclinado para o prédio a que pertence; as águas pingam para esse terreno); b) haver no
muro, só de um lado, cachorros de pedra salientes encravados em toda a largura dele (porque aquela pedra
saliente suportará nova construção daquele lado; logo, o muro, em princípio, pertence ao proprietário do
prédio do lado em que está a pedra); c) não estar o prédio contíguo igualmente murado pelos outros lados.
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exclusiva, ou seja, pôr termo à compropriedade — é bem-sabido que as coisas exploradas
em comum tendem a ser fonte de conflitualidade. Por outro lado, esta obrigação real 16
não existe para os casos de doação, pois que tal colocaria em causa o carácter intuitu
personae deste negócio jurídico; nem se constituirá em caso de permuta, muito
provavelmente porque dificilmente o titular do direito de preferência será capaz de
colocar o comproprietário disponente na mesma situação em que se encontraria com a
celebração do contrato com o terceiro.
Concedendo o comproprietário preferência aos consortes e havendo mais do que
um interessado na aquisição da quota, esta será adjudicada a todos, na proporção das suas
quotas (art. 1409.º, n.º 3).
II. Regime relativo à coisa comum
8. Olhando agora para a extensão dos poderes dos comproprietários sobre a coisa,
encontrar-se-á um regime jurídico diferente em função do tipo de acto que se pretenda
praticar. Sendo certo, porém, que o mote é dado pelos arts. 1403.º, n.º 2 e 1405.º, n.º 1.
9. O primeiro pacifica qualitativamente os direitos dos consortes: “os direitos dos
consortes ou comproprietários sobre a coisa comum são qualitativamente iguais, embora
possam ser quantitativamente diferentes”.
Nada impede, porém, que os seus direitos já possam ser quantitativamente
diferentes — como se acrescenta no restante texto do n.º 2 do art. 1403.º. Pense-se na
situação em que vários comproprietários, com “entradas” em dinheiro de valor diferente,
compraram um imóvel: aquele que entrou com 50% poderá ter um peso maior nas
decisões que peçam a maioria do que aqueles que entraram com montantes de valor
inferior. Porém, note-se que o legislador entrega aos consortes o poder de decidir, no
título constitutivo (originariamente ou não) como hão-de ser quantitativamente
diferenciados os seus direitos sobre as quotas partes ideais do direito de propriedade. De
qualquer modo, não se pronunciando os consortes sobre esta matéria, as quotas
presumem-se, todavia, quantitativamente iguais na falta de indicação em contrário do
título constitutivo (parte final do art. 1403.º, n.º 2).
16
Sobre as obrigações reais, v. supra.
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10. Já nos termos do n.º 1 do art. 1405.º, “os comproprietários exercem, em
conjunto, todos os direitos que pertencem ao proprietário singular”. Separadamente,
participam nas vantagens e encargos da coisa, em proporção das suas quotas e nos termos
dos artigos seguintes (ainda o mesmo preceito).
i. Uso da coisa comum
11. Por regra, qualquer comproprietário, pode usar a coisa comum (art. 1406.º, n.º
1). Muito embora, o deva fazer com duas limitações: não a empregar para fim diferente
daquele a que ela se destina quando tal impossibilite o uso a que os restantes consortes
têm direito; e não privar os outros consortes do uso a que igualmente têm direito (ainda,
n.º 1 do art. 1406.º).
12. Trata-se, aqui, porém, de uma disposição supletiva.
O que significa que, por acordo, os consortes podem definir diferentes tipos de
uso da coisa comum ou, até, dividir o uso dela (nomeadamente, por turnos), sem que daí
decorra, evidentemente, uma divisão da coisa. Por exemplo, nada impede que, em relação
a um prédio rústico, os comproprietários definam que um deles usará a metade norte do
terreno ao passo que o outro usará a metade sul; ou que a utilização de um automóvel
descapotável que adquiriram em comum seja partilhada pelos meses do Verão. Uma
estipulação deste género não impede, porém, que qualquer um deles continue a afirmar-
se como proprietário de todo o prédio/automóvel, realizando, eventualmente, benfeitorias
necessárias na metade cujo uso foi reservado para o outro.
ii. Fruição da coisa comum
13. A fruição da coisa comum pertencerá a todos os comproprietários, mas a
proporção dos proveitos que cada um deles recolherá pode ser diferente. O critério que a
lei oferece é o da proporção das quotas — art. 1405º, n.º 1.
14. Muito embora o texto da lei o não diga expressamente, parece-nos que esta é,
contudo, uma norma supletiva. Não vemos razão para impedir os comproprietários de, no
uso da sua autonomia, organizarem a partilha dos frutos de modo não correspondente à
quota que a cada um deles pertence. Pense-se no caso de os comproprietários, para
benefício de um deles, acordarem que o que é titular da menor quota é, todavia, o que
receberá a maior parte dos frutos.
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iii. Administração ordinária da coisa comum
15. Da administração da coisa comum cuida o art. 1407.º.
Logo na primeira parte do primeiro número desta norma se remete para o disposto
no art. 985.º, pelo que estes dois preceitos têm sempre de ser aplicados e
interpretados conjuntamente. Assim, por determinação do n.º 1 do art. 985.º, “na falta de
convenção em contrário, todos os sócios têm igual poder para administrar”. Isto quer dizer
que qualquer um dos consortes — desde que, no título constitutivo, não lhe tenha sido
retirado o poder de administrar — pode, então, tomar a decisão que mais conveniente
considere para a coisa comum. As despesas daí decorrentes sendo, depois, distribuídas
entre os restantes consortes, na proporção das suas quotas (arts. 1405.º, n.º 1 e 1407.º, n.º
2).
16. Poderá, porém, ocorrer que o comproprietário, antes de tomar determinada
decisão, informe os restantes consortes ou que estes tomem conhecimento de que ele se
prepara para a tomar; ou, ainda, que o acto que ele já decidiu praticar ainda não tenha sido
realizado. Em qualquer uma destas situações se abre um hiato entre a decisão e a
efectivação dela que permitirá o dissenso — ou, melhor, a oposição por qualquer um dos
consortes.
Para estas situações a lei prevê um procedimento próprio que tem por objectivo
determinar o mérito da oposição e que, fundamentalmente, consiste em apurar a vontade
da maioria. Coligindo os n.ºs 2 e 4 do art. 985.º, esta maioria encontrar-se-á na reunião
do maior número de consortes — portanto, maioria per capita. Acrescenta, contudo, o n.º
1 do art. 1407.º que esta maioria tem de representar, pelo menos, metade do valor das
quotas.
Assim, se tal maioria — per capita e representativa de pelo menos 50% do valor
das quotas — aprovar a oposição, o comproprietário-administrador não poderá praticar o
acto pretendido (ou terá de interromper o processo de realização). Caso contrário, será o
acto anulável e o seu autor responsável pelo prejuízo a que der causa (art. 1407.º, n.º 3).
Já se a oposição não merecer a aprovação prevista na lei, o acto poderá ser praticado,
sendo simplesmente desconsiderada a referida oposição.
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17. Por vezes, não será possível perfazer a maioria nos termos que acabámos de
descrever. Nestes casos, qualquer um dos comproprietários poderá recorrer ao tribunal,
que decidirá segundo juízos de equidade (art. 1407.º, n.º 2). 17
18. Realizados os actos necessários à conservação ou à fruição da coisa comum,
as despesas daí decorrentes serão divididas entre os comproprietários na proporção das
suas quotas (art. 1411.º, n.º 1). Trata-se de uma obrigação real, pelo que o comproprietário
poderá eximir-se do seu cumprimento pela renúncia ao direito que a sustenta — parte
final do n.º 1 do art. 1411.º —, pela forma prescrita para a doação (art. 1411.º, n.º 3). Ou
seja, por escritura pública ou documento particular quando a coisa sobre a qual o direito
de propriedade comum existe seja um imóvel; por escrito particular, quando se trate de
um bem móvel (cfr. art. 947.º).
Porém, sempre que o comproprietário que se pretende eximir do cumprimento da
obrigação por renúncia liberatória tenha aprovado a despesa em causa, será necessário
que os restantes comproprietários se pronunciem (n.º 2).
Embora a renúncia liberatória seja um negócio jurídico unilateral receptício18, a
verdade é que a lei admite, neste mesmo n.º 2, a revogação desta vontade sempre que as
despesas previstas não venham a realizar-se.
O destino da quota a cuja propriedade se renuncie é o que se descreve na parte
final do n.º 3 do art. 1411.º: será repartida, proporcionalmente, pelos restantes consortes.
O mesmo é dizer que os restantes consortes beneficiam de direito de acrescer.
iv. A administração extraordinária da coisa comum
19. O regime que até ao momento fomos descrevendo vale apenas para os actos
de administração ordinária ou de gestão corrente — isto é, actos tendentes a evitar a perda
e deterioração da coisa e actos que visem a frutificação normal da coisa. É verdade que a
a lei não o diz expressamente; mas só pode ser esta a conclusão permitida pela remissão
para o art. 985.º.
Que solução, então, se reservará para os actos que alterem o “casco do bem” (por
exemplo, converter uma vinha num pinhal) ou aos actos tendentes à frutificação anómala
17
É o que acontece, por exemplo, quando sejam apenas dois os comproprietários, ainda que um
seja titular de uma quota no valor de 51%.
18
V. supra a propósito do regime jurídico das obrigações reais.
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da coisa? O mesmo é perguntar: que solução valerá para os actos de administração
extraordinária?
20. Seguindo os ensinamentos de HENRIQUE MESQUITA, há que convocar o
disposto no art. 1024.19
Segundo este preceito, o arrendamento, desde que por prazo inferior a seis anos,
é considerado um acto de administração ordinária (n.º 1). E, adianta-se no n.º 2, quando
se trate de prédio indiviso, o arrendamento só será válido quando todos os consortes
prestem por escrito o seu assentimento, seja antes, seja depois da celebração do negócio.
Isto sem que se proceda a qualquer distinção em função da duração do contrato de
arrendamento. O que quer dizer que, independentemente de o arrendamento ser celebrado
por um prazo inferior a seis anos e ser, assim, um acto de administração ordinária, será
sempre necessária uma deliberação unânime dos consortes (diferentemente, então, do que
se dispõe nos arts. 1407.º e 985.º). Logo, por maioria de razão, qualquer acto de
administração extraordinária necessitará, igualmente, da unanimidade.
v. Actos de alienação e oneração da coisa comum
21. Sobre os actos de disposição e oneração da coisa comum dispõem os n.ºs 1 e
2 do art. 1408.º.
Aqui impedem-se os comproprietários, singular ou maioritariamente, de praticar
qualquer acto de disposição ou de oneração de parte especificada da coisa — e, por
maioria de razão, da coisa comum no seu todo. Trata-se de uma decisão que tem
necessariamente de ser tomada pela unanimidade dos consortes, sob pena de aplicação do
regime jurídico da alienação/oneração de coisa alheia. Além disso, a alienação de parte
especificada da coisa é nula também por impossibilidade do objecto, na medida em que
não pode constituir-se um direito de propriedade sobre parte, ainda que especificada, de
uma coisa (arts. 280.º e 408.º, n.º 2).
22. Este raciocínio permitirá, porém, considerar a hipótese de conversão do
negócio (inválido) de alienação de parte da coisa num negócio (válido) de alienação da
quota. Se o comproprietário não pode vender parte da coisa, porque está a vender coisa
de outrem, pode, contudo, vender, livremente, a sua quota na comunhão. Isto desde que
19
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o fim prosseguido pelas partes permita supor que elas o teriam querido se tivessem
previsto a invalidade e, ainda, desde que o negócio de alienação de parte de coisa contenha
os requisitos essenciais de substância e de forma do negócio de alienação da quota (art.
293.º)20.
Se assim suceder, quem aparecia como comprador da coisa passa a comprador de
quota, sendo-lhe concedida a possibilidade de tornar-se comproprietário. Naturalmente,
sendo ele um estranho à compropriedade, haverá que, antes de se sedimentar a sua posição
de consorte, conceder preferência aos restantes consortes (art. 1409.º).
12. 3. Extinção da compropriedade
23. Como os vínculos jurídicos não são — nem podem ser — perpétuos, qualquer
dos comproprietários é livre de decidir sair da comunhão. Isto mesmo é confirmado pela
primeira parte do n.º 1 do art. 1412.º: “nenhum dos comproprietários é obrigado a
permanecer na indivisão.”
Pode sair-se da comunhão simplesmente por alienação da quota (art. 1408.º, n.º 1,
primeira parte) ou por extinção da compropriedade22.
Quando a extinção da compropriedade pressupõe a divisão da coisa comum, esta
pode ser feita extrajudicialmente ou judicialmente. Ou, para usar das expressões legais,
“amigavelmente ou nos termos da lei de processo” (art. 1413.º, n.º 1).
24. Porém, acrescenta-se na mesma norma que o exercício deste direito
(irrenunciável, portanto) pode estar temporariamente impedido quando os consortes
tenham celebrado um pacto de indivisão.
Este pacto não pode ter duração superior a cinco anos (o que implica a redução a
este prazo de qualquer acordo a que tenha sido atribuído tempo de vigência superior —
art. 292.º) e não se renova tacitamente. Antes, para cada novo período de indivisão que
20
Claro está que se a parte da coisa que se pretendia alienar for superior ao valor da quota do
comproprietário alienante (por exemplo, alienou toda a coisa), então haverá que proceder, primeiramente,
a uma redução do negócio e, só depois, à sua conversão.
22
Naturalmente, se um dos comproprietários adquirir as quotas de todos os restantes consortes, a
compropriedade extinguir-se-á. Haverá, tão-só, propriedade singular. O que acaba por ser outro argumento
no sentido da teoria da comunhão (havia vários titulares do direito de propriedade e agora há apenas um,
sem que tenha havido qualquer acontecimento sequer tange inicial à coisa).
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se pretenda terá de haver uma nova convenção, pela qual as partes voltem a manifestar,
expressamente, a sua vontade de não exercer o direito à divisão (cfr. art. 1412.º, n.º 2)23.
a) Extrajudicial
25. A divisão “amigável” da coisa será relativamente simples quando ela seja
susceptível de ser materialmente dividida. Pense-se no exemplo de um prédio rústico, em
que os comproprietários acordam no parcelamento do imóvel em tantos novos imóveis
quantos forem os comproprietários. Sendo certo que há limitações legais que não podem
ser desprezadas, como as que constam do art. 1376.º: necessidade de respeitar a unidade
mínima de cultura (n.º 1) e impossibilidade de constituir novos prédios que logo
originariamente fiquem encravados (n.º 2). Em se tratando de um edifício, também
poderão os consortes escolher sujeitá-lo ao regime de propriedade horizontal (cfr. n.º 1
do art. 1417.º).
26. Mas, se a coisa for insusceptível de divisão (pense-se num automóvel), os
comproprietários podem sempre escolher atribuir a propriedade plena e singular dela a
um deles, os outros sendo compensados; ou, até, aliená-la a terceiro, dividindo entre eles
o preço. Aqui, uma vez que estamos no campo da divisão amigável, reina o princípio da
autonomia privada (com a evidente necessidade de cumprimento das normas
imperativas).
b) Judicial
27. Não conseguindo os comproprietários entrar em acordo quanto ao destino da
coisa comum, é possível recorrer ao tribunal, intentando uma acção de divisão da coisa
comum. Por ela pedirão, no confronto de todos os demais consortes, que, fixadas as
respetivas quotas, se proceda à divisão em substância da coisa comum ou à adjudicação
ou venda desta, com repartição do respetivo valor, quando seja de considerar indivisível,
indicando logo as provas (cfr. arts. 925.º e ss. CPCv).
Sinteticamente: é o autor quem começará por dizer se a coisa é susceptível de ser
materialmente dividida ou não, apresentando as provas, num sentido ou noutro. Depois,
se a coisa for susceptível de divisão material, tentar-se-á chegar a acordo; na falta deste,
23
No n.º 3 do art. 1412.º ainda se acrescenta que o pacto de indivisão apenas terá efeitos em relação
a terceiros — por exemplo, um adquirente da quota — se tiver sido registado (isto, bem entendido, quando
a coisa objecto do direito de propriedade seja coisa imóvel ou móvel sujeito a registo).
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cada um ficará com uma parte por sorteio. Sendo ela materialmente indivisível, haverá
uma conferência dos interessados com o objectivo de verificar se, por acordo, algum dos
consortes estará disponível para ficar, em propriedade plena, com o bem, os restantes
recebendo o respectivo valor em dinheiro. Não havendo acordo, será ele vendido a quem
der mais, incluindo terceiros (o que quer dizer os comproprietários, por falta de acordo,
podem acabar por perder a coisa).
12. 4. Natureza jurídica
28. Analisado o regime jurídico da compropriedade, estaremos agora na posse dos
dados necessários para tomar uma posição quanto à controvertida questão da natureza
jurídica da compropriedade.
Reservando-nos a uma análise das posições tomadas pela doutrina nacional,
podemos afirmar que são três as posições que têm sido avançadas para traduzir o
fenómeno da compropriedade: a pluralidade de direitos de propriedade sobre uma coisa,
a divisão ideal da coisa e a divisão do direito de propriedade.
a) Teoria da pluralidade de direitos de propriedade
29. Segundo a teoria da pluralidade de direitos de propriedade — adoptada, entre
nós, por OLIVEIRA ASCENSÃO24, MENEZES CORDEIRO25 e CARVALHO
FERNANDES26 —, a compropriedade é constituída por uma pluralidade de direitos de
propriedade iguais sobre toda a coisa (cada comproprietário é, então, titular de um direito
de propriedade), mas o direito de cada consorte é limitado pela concorrência dos direitos
qualitativamente iguais pertencentes aos demais.
b) Teoria da divisão ideal da coisa
30. Sinteticamente, segundo a teoria da divisão ideal da coisa, cada
comproprietário é titular de um direito pleno e exclusivo de propriedade sobre uma quota
ideal da coisa.
24
25
26
CARVALHO FERNANDES, Lições , op. cit., p. 334.
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Defendida, entre nós, por nomes como os de MANUEL RODRIGUES 27,
ORLANDO DE CARVALHO28 ou MOTA PINTO29, de acordo com esta posição a
comunhão e a compropriedade são figuras distintas, uma vez que a primeira se traduzirá
na titularidade de um mesmo direito por mais do que um sujeito; ao passo que na
compropriedade os vários sujeitos são titulares, cada um, de um direito próprio, que tem
por objecto uma quota-parte ideal (não concretizada ou especificada) da coisa (daí que
esta posição apareça por vezes designada como teoria da quota ideal da coisa).
c) Teoria da comunhão
31. Diz-nos HENRIQUE MESQUITA que a compropriedade não é mais do que
uma comunhão, pois que existe comunhão sempre que um direito patrimonial (de
natureza real ou não) pertença em contitularidade a duas ou mais pessoas.
De outro modo, na compropriedade identifica-se um único direito de propriedade,
que apenas apresenta a particularidade de ter vários titulares, a cada um pertencendo uma
quota ideal do direito.30
d) Posição adoptada
32. Parece-nos que a decisão tem de tomar-se aderindo a uma das duas últimas
teorias sinteticamente abordadas.
Isto porque nos parece que a primeira posição choca, de um lado, contra o
princípio superficies solo cedit — na medida em que pressupõe que existam vários
direitos de propriedade sobre a mesma coisa —; e, do outro, contra a própria natureza
absoluta dos direitos reais. Por outra parte, com a excepção dos poderes de uso e de
administração, os restantes direitos só podem ser exercidos em colaboração.
33. A linguagem usada no n.º 1 do art. 1403.º parece indicar no sentido da teoria
da comunhão. Recordemo-lo: “existe propriedade em comum, ou compropriedade,
quando duas ou mais pessoas são simultaneamente titulares do direito de propriedade
sobre a mesma coisa.”. Recebendo-se uma confirmação desta teoria da comunhão no art.
27
MANUEL RODRIGUES, A Compropriedade no Direito Civil Português, RLJ, Ano 589, pp. 17 e
ss.
28
29
MOTA PINTO, p. 258.
30
No mesmo sentido, SANTOS JUSTO
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1404.º, na medida em que o legislador estabelece que “as regras da compropriedade são
aplicáveis, com as necessárias adaptações, à comunhão de quaisquer outros direitos, sem
prejuízo do disposto especialmente para cada um deles”, depois de escolher, para epígrafe
da norma, a expressão “aplicação das regras da compropriedade a outras formas de
comunhão”.
Ou seja, a letra da lei parece indicar no sentido de que a compropriedade se
caracteriza pela existência de um único direito de propriedade sobre uma coisa certa e
determinada, embora esse direito pertença a dois ou mais sujeitos. Aos quais, em
consequência, se há-de reconhecer uma quota-parte ideal do direito de propriedade.
34. Continuando com HENRIQUE MESQUITA, e em crítica à teoria da quota-
ideal da coisa, não pode perder-se de vista que “uma quota ideal ou abstrata não pode
constituir objeto de um direito de propriedade”, já que o direito real de propriedade deve
incidir sobre coisa certa e determinada 31. De outro modo: a propriedade não pode não
deixar de ter por objecto uma coisa susceptível de constituir objecto dos direitos desta
natureza, não havendo, então, como aceitar um direito de propriedade, pertencente a cada
um dos consortes, que tenha por objecto uma parte ideal da coisa.
35. Num ramo do direito dominado pelo princípio da taxatividade, a palavra do
legislador assume uma importância nas opções dogmáticas não despicienda. De qualquer
modo, o regime jurídico da compropriedade acaba por confirmar que é a teoria da
comunhão a que mais fielmente traduz o fenómeno.
De outro modo: a construção tradicional fundada em quotas ideais da coisa não se
harmoniza com certos aspectos do regime da compropriedade, designadamente com os
preceitos legais que atribuem a cada comproprietário poderes de uso (art. 1406.º) ou de
administração (arts. 1407.º, 985.º e 1024.º) sobre todo o objeto do direito de
compropriedade. O que se quer dizer é que, se o direito de cada consorte incidisse apenas
sobre uma parte ou quota ideal da coisa, não se conseguiria justificar o facto de a lei
conferir a cada um dos consortes o poder de praticar actos que atingem a totalidade do
objeto. E esta disciplina fundamenta-se no art. 1405.º, em cujo n.º 1 o legislador afirma
que “os comproprietários exercem, em conjunto, todos os direitos que pertencem ao
proprietário singular” — ou seja, justamente porque todos são contitulares de um direito
de propriedade sobre uma coisa, ficcionando-se que o colectivo é um único ser, um único
31
HENRIQUE MESQUITA, Direitos Reais, op. cit., pp. 242-247.
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proprietário. Razão pela qual só em conjunto (como se fossem um só) podem onerar,
dividir ou alienar a coisa.
12. 5. Figuras próximas
a) Comunhão de direitos
36. Referimo-nos à comunhão de direitos como figura próxima apenas para
sublinhar que este é, obviamente, um instituto mais vasto, englobando todos os casos em
que um direito patrimonial (real ou não) pertence, em contitularidade, a dois ou mais
sujeitos. A compropriedade é, então, uma das manifestações da comunhão.
Como já indicámos, as regras da compropriedade são aplicáveis, com as
necessárias adaptações, à comunhão de quaisquer direitos, sem prejuízo do disposto
especialmente para cada um deles (art. 1404.º). O que tem como principal consequência
a concessão de um direito de preferência (arts. 1409.º e 1410.º) a todos os contitulares
(portanto, de qualquer direito) sempre que um deles pretenda vender ou dar em
cumprimento a sua quota no direito comungado.
b) Comunhão de mão comum
37. Também chamada de propriedade colectiva, fala-se em comunhão de mão
comum para qualificar os casos em que a propriedade incide sobre todo um património
(ex: património comum dos cônjuges, comunhão hereditária).
Como os membros da comunhão não são proprietários de bens específicos, não
podem dispor, nem onerar cada um deles, salvo quando o façam na qualidade de
administradores.
38. Independentemente da posição que se tome quanto à natureza jurídica da
compropriedade32, esta facilmente se distingue da comunhão de mão comum.
Por uma parte, nesta, duas ou mais pessoas são titulares (contitulares) de um único
direito sobre um património global, afecto a um fim específico e do qual fazem parte
32
Vide infra.
Mónica Jardim/Margarida Costa Andrade
direitos reais, de crédito, etc.33-34. Por outra parte, consequentemente e em regra, goza de
um regime especial de responsabilidade por dívidas. Depois, a comunhão de mão comum
apenas pode existir nas hipóteses previstas na lei (comunhão hereditária 37, comunhão de
adquiridos ou comunhão geral de bens no regime de casamento). Razão pela qual não
pode dar-se por extinta fora das hipóteses previstas na lei.
c) Sociedade civil
39. Encontra-se no art. 980.º a noção do contrato de sociedade civil: “contrato de
sociedade é aquele em que duas ou mais pessoas se obrigam a contribuir com bens ou
serviços para o exercício em comum de certa actividade económica, que não seja de mera
fruição, a fim de repartirem os lucros resultantes dessa actividade”.
Logo, o que especificamente distingue a sociedade da compropriedade é o facto
de aquela ter por escopo o desenvolvimento de uma actividade lucrativa e não a fruição
de uma coisa nos mesmos termos em que o pode fazer qualquer proprietário.
d) Concurso de direitos reais sobre a mesma coisa
40. Diz-se que há concurso de direitos reais sobre uma mesma coisa quando sobre
esta incidem direitos reais diferentes — por exemplo, A, proprietário de um imóvel,
constitui, sobre esta coisa, um direito de usufruto a favor de B.
Evidentemente, os titulares de direitos reais diferentes não são sujeitos colocados
em posição qualitativamente igual. E diz-nos a primeira parte do n.º 1 do art. 1405.º que
“os comproprietários exercem, em conjunto, todos os direitos que pertencem ao
proprietário singular”.
33
Na comunhão germânica ou de mão comum todos os consortes detêm a totalidade do direito,
trata-se de uma modalidade indiviso de comunhão, ou seja, não há qualquer divisão em quotas ou partes
ideais.
34
Segundo MOTA PINTO, “aqui, sim, há um só direito com vários titulares porque não se pode
pedir a indivisão dada a afectação especial do património a um fim específico, nem pode cada um dos
contitulares alienar uma quota de objeto (por exemplo, na comunhão conjugal, nenhum dos cônjuges pode
alienar uma quota do patrimônio conjugal ou pedir a divisão deste, enquanto durar a vida conjugal”
(Direitos Reais, op. cit., p. 258).
37
A existência da comunhão germânica apenas existe, como é evidente, nos entre os períodos que
correspondente ao chamamento e o momento imediatamente antes da partilha, envolvendo a herança
jacente e a herança pro indiviso.
Mónica Jardim/Margarida Costa Andrade
e) Propriedade horizontal
41. Vide infra.
12. Compropriedade ..................................................................................................... 1
12. 1. Noção .............................................................................................................. 1
12. 2. Regime jurídico ............................................................................................... 1
a) Constituição ...................................................................................................... 1
b) Poderes dos comproprietários ......................................................................... 2
I. Regime jurídico relativo à quota de cada consorte ....................................... 2
II. Regime relativo à coisa comum .................................................................... 3
12. 3. Extinção da compropriedade .......................................................................... 8
a) Extrajudicial ...................................................................................................... 9
b) Judicial .............................................................................................................. 9
12. 4. Natureza jurídica........................................................................................... 10
a) Teoria da pluralidade de direitos de propriedade ......................................... 10
b) Teoria da divisão ideal da coisa ...................................................................... 10
c) Teoria da comunhão ....................................................................................... 11
d) Posição adoptada ........................................................................................... 11
12. 5. Figuras próximas ........................................................................................... 13
a) Comunhão de direitos .................................................................................... 13
b) Comunhão de mão comum ............................................................................ 13
c) Sociedade civil................................................................................................. 14
d) Concurso de direitos reais sobre a mesma coisa ........................................... 14
e) Propriedade horizontal................................................................................... 15