Simpósios sobre Literatura Brasileira Contemporânea
Simpósios sobre Literatura Brasileira Contemporânea
Por outro lado, Leyla Perrone-Moisés observa que a literatura contemporânea é um olhar para
o passado que se configura como “citação, reescritura, fragmentação, colagem,
metaliteratura” (PERRONE-MOISÉS, 2016, p. 149), não podendo, nesta perspectiva, ser
concebida como de vanguarda, mas, sim, ao modo de narrativa tardia. Para a autora, a partir
da espectrologia de Derrida, a contemporaneidade é explicada pelos fantasmas do passado,
enterrados cedo demais. “A literatura atual, assim como seu contexto social, filosófico e
político, se ressente de uma situação desajustada e potencialmente terminal” (PERRONE-
MOISÉS, 2016, p. 168).
Além disso, nos estudos de Karl Erik Schollhammer (2009), há uma revisitação da conceituação
de Agamben, algo que direciona para outra interpretação possível: ao contrário da
descontinuidade/obliquidade em relação ao presente, conforme argumenta o pensador
1
italiano, a autoria contemporânea brasileira possuiria urgência em se relacionar com a
realidade histórica (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 10), para quem é condizente entender “que a
urgência é a expressão sensível da dificuldade de lidar com o mais próximo e atual, ou seja, a
sensação, que atravessa alguns escritores, de ser anacrônico em relação ao presente,
passando a aceitar que sua ‘realidade’ mais real só poderá ser refletida na margem e nunca
enxergada de frente ou capturada diretamente” (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 11). Com
semelhante perspectiva, Beatriz Resende (2008) assinala que tal espectro da produção literária
evidencia fortes traços de presentificação, de retorno do trágico e do tema da violência. No
que diz respeito à primeira característica, haveria certa tendência para uma dupla negação, o
do passado historicista e o de uma exploração utópica do futuro, condições que privilegiam o
tempo-hoje, seja na força dada a espaços sociais marginalizados/periféricos, seja no trabalho
com a velocidade narrativa a partir do crescimento da produção de histórias breves. Nesta
esfera, vale lembrar Regina Dalcastanè (2012), que assinala fissuras no cânone, ao
circunscrever obras da ficção brasileira contemporânea que reivindicam o “acesso à voz” e
organizam-se estética e eticamente a partir das pautas do lugar de fala, o que colabora para a
ampliação de uma “limitada fauna de personagens” na cena brasileira e para o
desenvolvimento de estratégias de resistência das minorias.
Longe de desejar demarcar novos limites para um debate conceitual ainda bastante
divergente, fragmentado e provisório, opta-se pelo uso do qualificativo “contemporâneo” para
se referir à produção ficcional do século XXI. O intuito deste simpósio, portanto, é agregar
estudos teóricos e analíticos que estejam debruçados sobre narrativas da contemporaneidade,
desenhando um amplo espectro da diversidade e da multiplicidade de obras, tendências e
abordagens. Para tanto, este simpósio vai reunir apostas de crítica, sob o ponto de vista da
literatura comparada, envolvendo: produções ficcionais fora do consagrado eixo Rio de
Janeiro-São Paulo; o “levante” de uma literatura engajada, tal como a literatura LGBTQI+; a
discussão em torno da literatura negra e/ou produzida nas periferias dos grandes centros; o
florescimento do fantástico e da cientificção em contraponto à tradição realista da literatura
brasileira; bem como o boom de narrativas memorialistas e autoficções.
Referências:
PROGRAMAÇÃO
2
16/07 (TARDE)
“OS RESISTENTES PINTAM COM TINTA, ESCREVEM COM PALAVRAS, ESCULPEM NA PEDRA”:
NOTAS SOBRE O CONCEITO DE RESISTÊNCIA A PARTIR DE UMA PROPOSTA DE LEITURA DE OS
RESISTENTES (2001), DE ALEXEI BUENO.
17/07 (MANHÃ)
SLAM DAS MINAS RJ: O CORPO E A VOZ DA MULHER NAS BATALHAS POÉTICAS DO RIO DE
JANEIRO
17/07 (TARDE)
3
COMO SHERAZADE ÀS AVESSAS E OUTRAS HISTÓRIAS: A MEMÓRIA NOS ROMANCES DE MARIA
VALÉRIA REZENDE
18/07 (MANHÃ)
Marcio Markendorf
18/07 (TARDE)
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LITERATURA CONTEMPORÂNEA E TRADIÇÃO: RELAÇÕES INTERTEXTUAIS ENTRE CONTOS DE
CÍNTIA MOSCOVICH E CLARICE LISPECTOR
Resumo: O letramento literário – que tem início desde os momentos em que a criança ouve as
primeiras canções de ninar, as histórias contadas por pessoas mais próximas, as declamações
de poemas e quadrinhas em quaisquer eventos – é um processo que se constrói vida afora,
nos muitos espaços culturais, sociais, digitais. Contudo, a escola – enquanto ambiente
privilegiado de desenvolvimento da competência literária – desempenha papel fundamental
na formação do leitor, sobretudo quando se pensa na atualidade marcada pela pluralidade de
textos, de suportes e pela heterogeneidade dos leitores. Nesse universo do heterogêneo,
como formar leitores? Quais textos escolher? Quais práticas de leitura suscitar? Considerando
tal contexto, cremos que a leitura de obras contemporâneas da literatura brasileira pode
contribuir fortemente com a formação do leitor literário crítico, uma vez que a oferta e a
exploração de textos literários que tragam formatos e temáticas mais próximos do universo
dos leitores podem acarretar maior representatividade e envolvimento dos leitores jovens.
Como afirma Giorgio Agamben em O que é o contemporâneo?, é preciso mergulhar “a pena
nas trevas do presente”. Ler o contemporâneo a partir das reflexões de Agamben implica,
entre outros caminhos, observar como determinadas perspectivas ou abordagens na literatura
brasileira contemporânea vertem-se como espaço de reflexão, de contestação e de
rompimento com as estratégias de dominação centro-periferia, através da valorização das
narrativas produzidas por grupos marginalizados em confrontação com o valor simbólico
cultural da produção literária dita canônica. Ler o contemporâneo é também rever as escolhas
e os olhares, é ouvir as vozes dissonantes sufocadas das minorias e destacar-lhes sua presença;
é, ainda, a promoção de um espaço dialógico e tensional, que rompe com o discurso único,
com a história única e homogênea do cânone nacional, tão esvaziado de representações
significativas de específicos grupos sociais brasileiros. Dessa forma, a proposta desse simpósio
5
é pensar na formação do leitor de literatura brasileira contemporânea como corresponsável
no projeto de transformação social. O diálogo com Paulo Freire (1983), em Pedagogia do
oprimido nos auxilia a pensar esse leitor literário como sujeito da ação-reflexão, um leitor que,
“emancipado”, “emancipa”. O princípio freireano de emancipação enquanto possibilidade alia-
se ao que adverte Jacques Rancière em seu texto “O mestre ignorante” sobre a necessidade da
emancipação contra o processo de embrutecimento do sujeito. Ele propõe que o “círculo da
emancipação deve ser começado” (Rancière, 2002, p. 29-30). Frente a processos de opressão
ressignificados em nossa sociedade, que precisa se reinventar, como deve se posicionar esse
leitor literário na trilha movediça do contemporâneo? Nessa perspectiva, que vincula literatura
brasileira contemporânea e ensino de literatura, objetiva-se promover reflexões e debates
sobre a leitura literária e sua relação com aspectos da literatura brasileira contemporânea.
Tratar-se-á de questões relacionadas ao processo de formação dos leitores de literatura e ao
lugar da literatura contemporânea no ensino, na escola, bem como em outros espaços sociais
e culturais, inclusive a leitura por meio das tecnologias digitais, tendo em vista os valores e as
exigências culturais, sociais, éticas e políticas da sociedade contemporânea. Desse modo, as
propostas de trabalhos poderão abordar diálogos acerca de práticas de leitura e modos de
incentivá-la a partir do repertório de obras da literatura brasileira contemporânea. Tais
questões podem estar relacionadas a condições de produção, de circulação e do consumo de
literatura infantil, infantojuvenil e juvenil; metodologias de trabalho com o texto literário;
metodologias de ensino de literatura voltadas à Educação Infantil, ao Ensino Fundamental e ao
Ensino Médio; políticas públicas de promoção do livro literário; presença da literatura em
materiais didáticos. Propõem-se também diálogos que construam uma ponte entre a produção
acadêmica e a formação de leitores de literatura em trabalhos que envolvam: experiências
educacionais construídas em relação com a literatura; conhecimento teórico-prático das
manifestações literárias infantojuvenis; tendências atuais da literatura infantojuvenil; obras
das literaturas afro-brasileira e indígena em que esses sujeitos sociais sejam protagonistas;
relações entre a literatura adulta e infantojuvenil e a formação de professores. Espera-se que
investigações que relacionam a leitura literária e literatura brasileira contemporânea possam
contemplar aspectos como diversidade, representação, identidade, alteridade,
intertextualidade, dialogismo, polifonia, escritas e falas autobiográficas, efemeridade e liquidez
da vida contemporânea, entre outros. Todos os trabalhos trarão como preocupação central a
formação do leitor de literatura e a busca de caminhos para essa formação a partir da leitura
de obras contemporâneas da literatura brasileira, entendendo literatura em um conceito mais
amplo que apenas as obras canônicas. Entre os teóricos que subsidiam estudos voltados para
esta proposta de simpósio podem ser relacionados – além dos já citados Giorgio Agamben
(2010), Paulo Freire (1983) e Jacques Rancière (2002) –, Antonio Candido (1998), Roger
Chartier (2009), Teresa Colomer (2003), Rildo Cosson (2014), Peter Hunt (2010), Marisa Lajolo
(2001, 2017), Regina Zilberman (2017), Michèle Petit (2010). O recorte cronológico envolvendo
as obras literárias de autores brasileiros abrange as produções a partir de 1970.
Referências:
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: ______. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades,
1998.
6
CHARTIER, Roger. A aventura do livro do livro: do leitor ao navegador: conversações com Jean
Lebrun. Trad. de Reginaldo Carmelo Corrêa de Moraes. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo; Editora UNESP, 2009.
COLOMER, Teresa. A formação do leitor literário: narrativa infantil e juvenil atual. Trad. de
Laura Sandroni. São Paulo: Global, 2003.
COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
HUNT, Peter. Crítica, teoria e literatura infantil. Trad. de Cid Knipel. São Paulo: Cosac Naify,
2010.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: uma nova outra história.
Curitiba: PUCPRESS, 2017.
PETIT, Michèle. A arte de ler: ou como resistir à adversidade. Trad. de Arthur Bueno e Camila
Boldrini. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.
RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual. Trad. de
Lílian do Vale. Rio de Janeiro: Autêntica, 2002.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (Tarde)
AUTORAS DE SEUS DIAS: A ESCRITA LITERÁRIA DAS MULHERES NEGRAS NA SALA DE AULA
19/07 (Manhã)
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3 - A POESIA NA SALA DE AULA
Coordenação: Profa. Dra. Andresa Fabiana B. Guimarães (IF SUL DE MINAS e USP) e Profa. Dra.
Mei Hua Soares (Faculdade Cásper Líbero)
Resumo: Para Anatol Rosenfeld (ROSENFELD, [1965] 2006), o lírico é o mais subjetivo dos
gêneros porque centrado em uma voz que exprime estados de alma, vivências e emoções,
plasmando as vivências de um EU no encontro com o mundo. Antonio Candido (CANDIDO,
1996), ao asseverar sobre as relações que podem ser estabelecidas entre prosa e poesia,
ressalta o caráter híbrido que pode envolver os textos poéticos. Paul Valéry, ao defender a
estética de Mallarmé, ressalta ainda a recusa e a negação como potências literárias e poéticas
(CAMPOS, 2011). Mas quando a poesia adentra os ambientes escolares e institucionalizados,
como isso se dá?
É sabido que o trabalho com a poesia tem sido sistematicamente relegado a um plano
secundário nas escolas. Nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCNEM, 2006), há
um questionamento acerca de “onde estaria o erro na formação escolar dos leitores para a
linguagem poética?” A explicação tem como base a não exploração das potencialidades dessa
linguagem de alto valor estético, que fazem do leitor um co-autor no desvendamento dos
sentidos, presentes no equilíbrio entre ideias, imagens e musicalidade. Acredita-se que “a
exploração dos efeitos de sentido produzidos pelos recursos fonológicos, sintáticos,
semânticos, na leitura e na releitura de poemas poderá abrir aos leitores caminhos para novas
investidas poéticas” (p. 74), por isso propõe-se a ampliação na escola dos circuitos de poesia,
buscando novas formas de circulação social destes textos, o que permitiria ver e entender a
arte poética como uma prática social integrada à vida cotidiana.
Nesse sentido, o trabalho com a poesia parece se revelar instrumento valioso no tocante à
formação escolar, para além de um caráter utilitário. No entanto, se pensarmos nos conceitos
de sociedades disciplinares (FOUCAULT, [1975] 2009) e de sociedades de controle (DELEUZE,
[1992] 2010), verificaremos que a escola apresenta pontos de intersecção na reprodução de
formas de poder e, portanto, a poesia, por se dar no campo da linguagem, na sua forma mais
apurada e potente, também poderia consistir em valiosa ferramenta reflexiva e
transformadora. Porque desestabiliza, reverte (a língua inclusive!), desordena, traz à tona o
inesperado, o inseguro, faz estranhar. Talvez esteja aí a causa de seu maior incômodo, se
considerarmos a perspectiva daqueles que se formaram leitores buscando um significado pré-
determinado e inflexível para o texto poético. E, sem dúvida, é nessa desestabilização
provocada pela linguagem estética que reside a sua maior contribuição: diz, não dizendo
diretamente; expressa o que há de mais subjetivo, trazendo, em suas entranhas, o coletivo.
9
elemento corrosivo do instinto poético da infância, que vai fenecendo, à proporção que o
estudo sistemático se desenvolve, até desaparecer no homem feito e preparado supostamente
para a vida? (ANDRADE, 1974)”. Na sequência, o poeta responde: “Receio que sim”.
Ao adentrar o espaço físico e simbólico da escola – em seus diferentes níveis – que práticas de
leitura e de escrita envolvendo poesia podem se revelar potentes? A poesia, ou o fazer poético
é ensinável? Como se dá a exploração de um discurso tão libertário e surpreendente em um
terreno de regras, lições, planejamentos e expectativas mais precisas e mensuráveis? Como
explorar um texto que requer sensibilidade, agudeza de sentidos e senso lógico também, em
um território marcado por tantas outras exigências e metas mais conteudísticas e objetivas?
Quais metodologias e didáticas são adequadas para se lidar com o gênero em questão? Como
é a recepção discente em relação ao texto de acentuado valor estético? Pensando nos cortes,
estranhamentos e aporias que a arte e a literatura envolvem, quais os riscos advindos desse
diálogo entre o fazer poético e a sala de aula?
Referências
ADORNO, Theodor. Palestra sobre lírica e sociedade. In: ______. Notas de literatura I. Jorge M.
B. de Almeida (trad.). São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003, p. 70 e 77. [1957].
ANDRADE, Carlos Drummond de. A educação do ser poético. In: Jornal do Brasil, Rio de
Janeiro, 1974. Disponível em: [Link] Acesso em: 11/03/2018.
FFLCH/USP, 1996.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis (RJ): Vozes, [1975] 2009.
ROSENFELD, A. “A teoria dos gêneros”. In: O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 2006.
ROUXEL, A.; LANGLADE, G. & REZENDE, N. (org.). Leitura subjetiva e ensino de literatura. São
10
Paulo: Alameda, 2013.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
Resumo: Em Não incentivem o romance e outros ensaios (2007), Alfonso Berardinelli diz que o
romance, após a segunda metade do século XX, não procura mais realizar grandes ousadias
formais, como se tudo o que pudesse ser transformado enquanto forma de resposta à sua
sociedade já tivesse sido alcançado. Dessa forma, o autor afirma que “O século XX, o século da
crise do romance, está se invertendo. A autocrítica do romance (e de toda a arte) segue a
autocrítica da autocrítica. Ou seja, a renúncia à crítica, o retorno aos mitos e a todo tipo de
mito” (2007, p.177). Logo, de acordo com o crítico italiano, o romance contemporâneo deixa
de lado a exploração do aspecto formal para enveredar, novamente, em direção aos mitos,
dado que estes, por conterem algo de eterno, ainda conseguem oferecer caminho possível às
respostas do que o romance é enquanto produto de seu tempo. Nesse sentido, certas
constantes parecem assolar a prosa brasileira contemporânea, objetos distintos para cada
escritor aparecem repetidas vezes como mote de romances, algo que soa, muitas vezes, como
uma obsessão, mas que pode indicar uma tentativa de busca de solução do problema que se
deixa entrever por sutis alterações na construção romanesca e que podem indicar possíveis
mudanças, algo que ainda não conhece destino certo mas já se percebe a caminho de, como
observa Perrone-Moisés em Mutações da literatura no século XXI: “Como o conjunto da
sociedade atual — na política, na economia, na moral, na tecnologia —, a literatura vive um
interregno, aquele momento em que as regras antigas já não existem e outras, na melhor das
hipóteses, ainda estão em gestação” (2016, p.149). Entre os exemplos possíveis, encontramos
os romances de Ana Paula Maia, nos quais o retorno obsessivo pela narração de figuras
masculinas presas aos conflitos com sua brutalidade, surge encarnado na repetição de
protagonistas como Edgar Wilson e Bronco Gil das obras Entre Rinhas de Cachorros e Porcos
Abatidos (2009), Carvão Animal (2011), De Gados e Homens (2013), Assim na Terra como
Embaixo da Terra (2017) e Enterre Seus Mortos (2018); Nuno Ramos, autor cujas obras
revelam a trajetória sisifica na procura por vencer (ou tentar vencer) a linguagem verbal por
meio do mergulho na matéria imagética, que surge através de composições com urubus,
piche, areia, juncos, cães mortos, e tantos outros “restos, resíduos, cantos, cacos, lixo”, como
destaca Leyla Perrone-Moisés, que se mesclam à linguagem verbal no intuito de superar a
insuficiência da palavra escrita em obras como Cujo (1993), Balada (1995), O Pão do Corvo
(2001), Ó (2008), Adeus, Cavalo (2017). Mais um nome contemporâneo que ressignifica o
esforço contínuo por uma repetição infrutífera é Ronaldo Correia de Brito, que em livros como
Galileia (2008) e Dora Sem Véu (2018) traz a voz de protagonistas que se deslocam da capital
pernambucana para o sertão cearense, revelando a angustia de um retorno forçado ao local
que não se deseja ganha destaque. João Anzanello Carrascoza, cujo dilema é semelhante, na
medida em que suas obras também revelam um “escritor de afetos arcaicos”(s/n, 2016), faz
com que os diários pertencentes a Trilogia do Adeus - Caderno de um Ausente, Menina
Escrevendo com Pai e A Pele da Terra - e Aos 7 e aos 40 (2013) apresente a trajetória sísifica
não só pela via da temática explorada em seus contos, mas, principalmente, pela estrutura
narrativa. Uma fácil percepção do conceito que exploramos aqui também pode ser alcançada
na apreciação da obra de Luiz Ruffato, a partir da busca obsessiva por retratar o cotidiano do
proletariado brasileiro, o que acaba por se converter em projeto literário, isso tanto nos cinco
volumes que formam o seu ambicioso trabalho intitulado Inferno Provisório, quanto em obras
como Eles Eram Muitos Cavalos (2001) e De Mim Já Nem se Lembra (2007). Por fim a essa
breve lista, é possível citar Milton Hatoum, cujos romances apresentam a constante tentativa
de construir narradores que, apesar de se encontrarem aparentemente à margem dos fatos
12
principais, são testemunhas de ruínas familiares simbólicas, como é o caso das vozes dos
narradores personagens de Relato de um certo oriente (1989), Dois Irmãos (2000), Cinzas do
Norte (2003) e Órfãos do Eldorado (2008). Tomando os exemplos acima citados, propomos
uma leitura da literatura brasileira contemporânea a partir do mito de Sísifo: a necessidade de
narrar é premente, por isso a tarefa se faz ainda que por um caminho pelo qual o resultado
final já se antevê como insatisfatório – o romance se conhece, está consciente das limitações
pelas quais se construirá, ao mesmo tempo que reconhece a eminência da mudança, e por isso
retoma a tarefa de levar a pedra até o alto do cume, posicionando-a, transformando-a, de
modo que um dia ela deixe de retornar ao espaço conhecido.
PROGRAMAÇÃO
18/07 (MANHÃ)
Winnie Wouters
Resumo: O tema da viagem foi e continua sendo amplamente explorado na literatura. Ele pode
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ser observado em algumas das mais famosas epopeias, tais como a Odisseia de Homero,
Beowulf e Os Lusíadas, de Camões, e está presente na obra de grandes escritores, como
Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, Jonathan Swift e As viagens de Gulliver, Ulysses, de James
Joyce, entre outros. Estabelecendo um paralelo entre a viagem e a experiência humana,
Todorov (1993) afirma que as trajetórias e os relatos realizados por um indivíduo estão
interligados. Para ele, a viagem no espaço simboliza a passagem no tempo, mas o
deslocamento físico também contribui para sua mudança interior. Seja relacionado ao caráter
material ou espiritual dessa trajetória, um dos aspectos que mais chama atenção sobre o tema
é que, ao permitir colocar o indivíduo diante do outro, a viagem contribui na construção da
identidade, seja individual, cultural, política ou ideológica. Mendes (s/d) afirma que aquilo que
se chama identidade literária, onde se cruzam questões de identidade pessoal e social, acaba
sempre por revelar uma dimensão estrangeira, que é uma das manifestações do Outro. Nesse
sentido, o tema adquire grande importância nos textos de autoria feminina na medida em que
engloba toda uma representação simbólica do movimento na construção identitária, no qual a
viagem aparece, não raras vezes, como uma experiência formadora.
Tendo em vista essa relação entre o público e o privado, entre o centro e a margem, o tema da
viagem esteve associado por muito tempo ao universo masculino. Eric Leed (1991) afirma que,
historicamente, os homens viajavam e as mulheres não, ou viajavam somente sob a égide dos
homens, reforçando uma espécie de regra em que o mundo exterior e a exploração fossem
domínios unicamente masculinos.
O movimento das mulheres nos mostrou que, desde a inserção feminina na esfera pública na
segunda metade do século XX, o mundo privado, onde lhes eram reservados os papéis de filha,
mãe ou esposa, tornou-se insuficiente, uma vez que limitava sua liberdade de tomar decisões,
bem como seu direito de se expressar. A partir deste posicionamento, as mulheres
reafirmaram a importância de sua voz, consideradas enquanto sujeitos dotados de identidade
própria. A mulher que aqui encontramos já não é apenas olhada, ela olha também; não é mera
leitora, ela escreve e, por meio de seus textos, temos acesso à sua própria experiência, sua
própria perspectiva.
14
Sendo assim, buscamos refletir, neste simpósio, a respeito do tema da viagem pelo viés da
escrita de autoria feminina, tendo como foco a pluralidade dos olhares dessas mulheres-
viajantes e de suas histórias, observando a relação entre o deslocamento e a construção de
sua identidade.
Referências:
BOHLS, Elizabeth A., Women travel writers and the language of Aesthetics 1716-1818.
Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
BOTTON, Alain de. A Arte de Viajar. Trad. Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
LEED, Eric J. The Mind of the Traveler – From Gilgamesh to Global Tourism. Basic. New York:
Basic Books, 1991.
LEITE, Miriam L. Moreira. Livros de viagem. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 1997.
PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. Tradução Angela M. S. Corrêa. São Paulo:
Contexto, 2013.
TODOROV, Tzvetan. El viaje y su relato. In: Las Morales de la historia. Tradução de Marta
Beltrán Alcázar. Barcelona: Paidós, 1993.
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Tradução Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso. São Paulo:
Tordesilhas, 2014.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
15
VIVER ENTRE CULTURAS: A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE EM MAR AZUL (2012), DE PALOMA
VIDAL
16/07 (TARDE)
17/07 (MANHÃ)
16
O DESLOCAMENTO E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA EM NO SEU PESCOÇO, DE
CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE
17/07 (TARDE)
18/07 (MANHÃ)
17
VIAGEM E RESISTÊNCIA: UMA LEITURA OCIDENTAL SOBRE O CONCEITO DE VIAGEM NO
IMAGINÁRIO COLETIVO DAS MULHERES MARROQUINAS NA OBRA DE FATIMA MERNISSI
18/07 (TARDE)
19/07 (MANHÃ)
Marcela Lanius
19/07 (TARDE)
19
A CAÇA AOS TROUXAS E SEUS REFLEXOS NA CONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA
HERMIONE GRANGER DE HARRY POTTER
Naiana Ghilardi
Coordenação: Profa. Dra. Marinei Almeida (UNEMAT); Profa. Dra. Renata Beatriz Rolon (UEA);
Prof. Dr. Epaminondas de Matos Magalhães (IFMT)
O espaço da nação, sob múltiplo olhar, enquanto categoria abstrata, apta a contínuas revisões
e mediações, ocupa um lugar complexo e central neste debate. A proposta visa abordar o
“questionamento sobre a identidade e a função da literatura nacional pelo filtro da articulação
entre sistema textual específico em que se configura e os elementos de recepção que a
sustentam e legitimam, de onde não se podem ausentar conceitos como valor, comunidade,
instituições culturais e história” (MENDONÇA, 2008). Esta discussão possibilitará, portanto,
uma ampla reflexão sobre variados temas abordados na produção literária produzida nos
países africanos, bem como no Brasil sob o crivo da africanidade, sobretudo os diálogos,
sentidos e circulações que estas permitem pensar.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
17/07 (MANHÃ)
22
IDENTIDADE E AFROPOLITANISMO: AS PERSONAGENS FEMININAS DE "AMERICANAH" E
"PRECISAMOS DE NOVOS NOMES"
17/07 (TARDE)
Jordan Rogers
18/07 (MANHÃ)
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MUSICAL CONTEMPORÂNEO
Referências:
FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud. Volume XIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KLEIN, Melanie. Inveja e Gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1993.
25
LACAN, Jacques. O Seminário - Livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
26
A TRADUÇÃO DA CULPA EM MACBETH SOB O OLHAR DE FREUD E NIETZSCHE
Vera Spinola
17/07 (MANHÃ)
27
SOBRE A CATÁSTROFE ÍNTIMA DA LINGUAGEM: A CONFISSÃO DA ANGÚSTIA NO CONTO A
CARTOMANTE, DE MACHADO DE ASSIS
17/07 (TARDE)
28
Flávia Valéria Salviano Serpa
Eider Madeiros
18/07 (MANHÃ)
29
8 - AMAZÔNIA COMPLEXA E RESIDUAL
Coordenação: Prof(a). Dr(a). Cássia Maria Bezerra do Nascimento (UFAM); Prof(a).
Dr(a). Mirella Miranda de Brito Silva (UFRR); Prof(a). Dr(a). Adriana Helena de
Oliveira Albano (UFRR)
Resumo: Djalma Batista (2006, p. 11) afirma que “falar da Amazônia, em qualquer dos
aspectos – fisiográfico, social, intelectual – é aventurar-se alguém a enfrentar senão o infinito
pelo menos o indefinido”. Ao escolhermos a arte literária da e na Amazônia, reconhecemos a
necessidade do estudo de uma multiplicidade de saberes que ultrapassam o cientificismo e o
exótico. Reconhecemos que a literatura reproduz as relações humanas na Amazônia, sempre
permeada de significados infindáveis. A Amazônia do passado recebeu cultura e arte
propagada na Europa e na Ásia, trazida por imigrantes de várias partes do mundo, que cá
chegavam em busca da riqueza do mundo inexplorado da floresta. Em seguida, a História
registra como migrações de diversas partes do Brasil e de outros países compuseram a
Amazônia, fazendo, ainda mais, desta região um complexo emaranhado de culturas e
diversidade:
Das palavras de Djalma Batista (2007), somos levados aos termos operacionais dos estudos
residuais e à certeza da complexidade amazônica, ao mesmo tempo, do valor da teoria da
complexidade sobre a florestas e espaços urbanos presentes da prosa e na poesia da
Amazônia.
Nesse contexto, a apontamos também a Complexidade para a análise literária dessa Amazônia
concebida a partir de uma teia de interações que “[...] não compreende apenas quantidades
de unidades e interações que desafiam nossas possibilidades de cálculo: ela compreende
também incertezas, indeterminações, fenômenos aleatórios. A complexidade num certo
sentido sempre tem relação com o acaso (MORIN, 2015, p. 35). A Complexidade, de Morin,
propõe uma reformulação dos estudos científicos sobre o homem. A ciência tradicional de
busca por uma verdade, e por consequência um desvendamento do que se convenciona
chamar de real, promove uma busca por perceber como o ser humano se relaciona com o
ambiente, e que resultados estas interações promovem.
Referências:
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 5ª ed. Porto Alegre: Sulina, 2015.
PONTES, Roberto. Poesia insubmissa afrobrasilusa. Rio de Janeiro: Oficina do autor; Fortaleza:
Edições UFC, 1999.
PROGRAMAÇÃO
31
17/07 (TARDE)
Realizar estudos teóricos da linguagem literária na sua relação com outras linguagens
pressupõe estabelecer aproximações, contrapontos e distinções, para melhor compreender o
parentesco e a parentalidade de gêneros artísticos manifestados nessas linguagens. Daí a
relevância em explorar relações dialógicas entre Literatura e outras artes apreendidas como
fatores geradores de identidades em cada uma dessas formas artísticas, assumidas como fonte
criativa de acentuada produtividade nos dias atuais.
Alguns teóricos que subsidiam estudos dotados de propósitos como estes podem ser
representados por Haroldo de Campos, Júlio Plaza, Giorgio Agamben, Mario Bellatin, Walter
Benjamin, Theodor W. Adorno, Roland Barthes, Susan Buck-Morss, para quem “A coletividade
do século XX [...] constrói sua identidade na base da imagem ao invés da palavra” (BUCK-
MORSS, 2009, p. 28) e forma uma comunidade transnacional, embora o signo verbal continue
habitando os mais diferenciados espaços textuais verbais e não-verbais.
Nessa direção, pretende-se socializar, neste simpósio, estudos que tratem das relações entre
textos de diferentes sistemas de linguagem, averiguando, por exemplo, até que ponto os
aspectos relativos à continuidade/descontinuidade, à compleição formal das obras articulam-
se e podem ser entendidos como fenômenos inerentes à produção, à complexidade ou
simplificação estética e de como tudo isto proporciona relações de fruição artística e
“consumo”.
Referências:
AGAMBEN, Giorgio. Profanaciones. Trad. Flávia Costa e Edgardo Castro. Buenos Aires: Adriana
Hidalgo, 2005.
BARTHES, Roland. Realismo ¿mito, doctrina o tendencia histórica? Buenos Aires: Quadrata,
2004, p. 91-101.
BELLATIN, Mario. El arte de enseñar a escribir. México: Fondo de Cultura Económica, 2006.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: _____. Magia e
técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo
Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985. v.1. (Obras escolhidas).
DIDI-HUBERMAN, G. O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Editora
34.1998,
GUIMARÃES, César. Imagens da memória. Entre o legível e o sensível. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 1997.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Libia Castañeda
16/07 (TARDE)
34
Allaidy da Silva Barbosa Gonçalves
“COMO VAI VOCÊ, GERAÇÃO 80?”: UMA LEITURA INTERARTÍSTICA DE JOÃO GILBERTO NOLL E
LEONILSON
17/07 (MANHÃ)
A SOBREVIVÊNCIA DA NINFA
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17/07 (TARDE)
A MECÂNICA DA LARANJA
18/07 (MANHÃ)
Resumo: Fortemente atrelada e nutrida pela Criação Literária, a Psicanálise surge na virada do
século XIX para o século XX, em um contexto de ebulição marcado por mudanças, inovações,
evoluções e modernizações – mas também por conflitos – nos mais diversos âmbitos da vida
humana. Por conseguinte, a Psicanálise teve em seu nascedouro a presença significativa da
Arte Literária. Tanto é assim que, em seu texto “Soll die Psychoanalyse an den Universitäten
gelehrt werden?” [“A Psicanálise deve ser ensinada nas universidades?”], após mostrar os
limites e incongruências no ensino da Psicanálise com o sistema acadêmico, Freud (1919)
afirma que, se a Psicanálise tivesse algum lugar em seu seio, seria numa assim chamada
“Universitas Literarum”. Diversos textos de Freud dão direta ou indiretamente testemunho de
o quanto o saber necessário à Psicanálise deve muito mais à Literatura do que à própria
Medicina, de onde partiu esse método clínico. Não à toa, talvez, Richard von Krafft-Ebing
(apud Gay, 1994), um dos grandes especialistas médicos contemporâneos de Sigmund Freud,
procurou destituir o valor das teorias psicanalíticas chamando-as de um “conto de fadas
[Märchen] científico”. Na verdade, o claro tom pejorativo presente nessa crítica ganha uma
conotação muito distinta em 1930, quando Freud é agraciado com o Prêmio Goethe – honraria
literária concedida em Frankfurt am Main desde o ano de 1927. Ressalte-se que o célebre
crítico literário suíço Walter Muschg (1930), que também era psicólogo e germanista,
enalteceu Freud em seu ensaio “Freud als Schrifsteller” [“Freud como Escritor”], no qual lemos
a emblemática afirmação de que Freud teria usurpado a palavra “sonho” do vocabulário
literário, trazendo-a para o meio científico. Muitos outros grandes autores literários
contemporâneos de Freud, tais como Thomas Mann, Hermann Hesse, Stefan Zweig, também
deram testemunho da profunda admiração que nutriam pela prosa freudiana e por sua
capacidade como escritor. Não à toa, os assim chamados casos clínicos de Freud, suas
“Krankengeschichten”, eram lidos por seus contemporâneos como verdadeiros romans-à-clef.
A título de ilustração, a influência de E. T. A. Hoffmann é indiscutível na elaboração da
categoria do Unheimlich (Freud, 1919a). É verdade que alguns dos intentos iniciais do médico
austríaco em aproximar sua invenção da Literatura o levaram ao questionável caminho das
psicanálises de autor, mas cabe aqui ressaltar as felizes colocações em seu texto “Der Dichter
und das Phantasieren” [“O poeta e o fantasiar”] (cf. Freud, [1908] 1982), no qual os autores
literários são enaltecidos como grandes colaboradores no desvendamento do psiquismo
humano. Destaque-se, portanto, a importância da(s) literatura(s) de que se serviu Freud, um
leitor voraz e eclético que soube recorrer ao psicologismo de autores como Shakespeare,
Goethe, Schiller, Dostoiévski, dentre outros, visando a construir suas teorias psicanalíticas,
como atestam Pontalis & Mango (2014) em sua obra sua Freud com os escritores, ou ainda
Rouanet (2003) com seu detalhado estudo intitulado Os dez amigos de Freud, dedicado a uma
dezena de autores de diferentes nacionalidades, todos da predileção do pai da Psicanálise.
Como resultado da revolução causada por Freud, a mesma Psicanálise que se deixou
influenciar pelo saber literário será também tema constantemente presente no universo da
37
Criação e da Crítica Literária desde aquela época até os dias atuais. Desse modo, também
havemos de observar que a convivência de Freud com alguns autores de sua época, como
ocorreu, por exemplo, com Arthur Schnitzler, revela uma possibilidade de influências
recíprocas. Por outro lado, no tocante à não convivência – apesar da contemporaneidade –
tomemos o exemplo de Franz Kafka, coetâneo de Freud, em cujos escritos, diários e coletâneas
epistolares não se encontram registros bastantes que mostrem uma influência de um sobre o
outro. De qualquer modo, o autor tcheco-judeo-alemão apresenta em suas obras fartos temas
mediante os quais se vislumbra como ele se aprofundava nos meandros da psique humana.
Voltando nosso olhar para o Brasil, observamos um profícuo e atualizado diálogo entre a
Literatura e a Psicanálise, enquanto em outros países outras interfaces com a Filosofia, a
Linguística ou até mesmo a Antropologia ou a Topologia tiveram maior repercussão. Nesta
perspectiva, em nosso simpósio serão bem-vindos trabalhos que preferencialmente (mas não
apenas): a) examinem as marcas do legado de Freud em obras literárias nacionais ou
estrangeiras; b) perscrutem a influência da Literatura (em particular ou de modo geral) na obra
de Freud; c) verifiquem e comentem criticamente o processo de tradução de obras de Freud
em que as marcas literárias por ele colocadas funcionem como chave para a compreensão de
contextos psicanalíticos; d) abordem obras literárias brasileiras ou estrangeiras criadas sob a
ótica da Psicanálise; e) analisem e comentem obras de autores brasileiros ou estrangeiros cuja
compreensão pode ser facilitada mediante a perspectiva psicanalítica; f) apontem e comentem
citações literárias indiretas – ou seja, originalmente sem indicação de fontes – feitas por Freud
em seus escritos; f) examinem, em traduções brasileiras, a problemática da escrita freudiana
entre cientificismo e literariedade.
Referências:
GAY, Peter. Sigmund Freud – uma vida para nosso tempo. Trad. Denise Bottman. São Paulo:
Cia. das Letras, 1994.
FREUD, Sigmund. Der Dichter und das Phantasieren. In: Freud, S. Bildende Kunst und Literatur.
Studienausgabe Band X Frankfurt am M. Fischer Taschenbuch Verlag, 1982.
FREUD, Sigmund. Soll die Psychoanalyse an der Universität gelehrt werden? In: Gesammelte
Werke – chronologisch geordnet. Frankfurt am M. Fischer Taschenbuch Verlag, [1919] 1999.
MUSCHG, Walter. Freud als Schriftsteller. Munique: Kindler Verlag, [1930] 1975.
PONTALIS; Jean-Bertrand. MANGO, Edmundo Gómez. Freud com os escritores. São Paulo: Três
Estrelas, 2014.
ROUANET, Sergio Paulo. Os dez amigos de Freud. Vol. 1 e 2. São Paulo: Companhia das Letras,
2003.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
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RAÍZES LITERÁRIAS DO PENSAMENTO FREUDIANO: A FICÇÃO A SERVIÇO DE UMA VERDADE
16/07 (TARDE)
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11 - AUTORITARISMO, TERROR DE ESTADO E TESTEMUNHO: UM NOVO
CICLO DE MEMÓRIA CULTURAL
Coordenação: Prof. Dr. Fabio Weintraub (Universidade Federal de São Carlos); Prof. Dr.
Antonio de Padua Fernandes Bueno (Universidade Estadual de Campinas); Prof. Dr. Paulo
Roberto de Souza Dutra (Stephen F Austin State University – Estados Unidos da América)
Nestes tempos atuais, de negacionismo histórico em relação ao passado recente e aos crimes
da ditadura, bem como de recrudescimento autoritário, espera-se debater neste simpósio não
apenas essas obras, mas também a literatura de outros países que tenham passado por
dificuldades na transição política e na superação do passado autoritário, como, por exemplo, a
produção literária dos H.I.J.O.S. (Hijos e Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el
Silencio, organização argentina que congrega os descendentes dos mortos e desaparecidos
pelo terror de Estado) na Argentina.
40
pela “violência institucional”. No Brasil, trata-se principalmente da tortura e dos
desaparecimentos forçados, bem como do genocídio indígena e do genocídio da juventude
negra e periférica, que vêm suscitando uma forte produção literária, inclusive nas chamadas
literaturas periféricas.
Referências:
ATENCIO, Rebecca J. Memory’s Turn: Reckoning with dictatorship in Brazil. Madison: The
University of Wisconsin Press, 2014.
AXAT, Julián; REATI, Fernando. La poesía es un diálogo con los muertos… Entrevista a Julián
Axat. Avatares del Testimonio en América Latina. Kamchatka, núm. 6, 2015, p. 865-877.
KUCINSKI, Bernardo. K. - Relato de uma Busca. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
41
Júlia de Campos Lucena
Izabel Fontes
16/07 (TARDE)
42
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: FAZENDEIRO DO AR DECADENTE OU SOBREVIVENTE NO
INFERNO?
Fátima Ghazzaoui
17/07 (MANHÃ)
Cleia da Rocha
Berttoni Licarião
17/07 (TARDE)
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Carlos Eduardo Bione Sidronio de Lima
VOLTO SEMANA QUE VEM": A INSISTÊNCIA DO DESEJO DE VIDA NO NOVO CICLO DE MEMÓRIA
CULTURAL BRASILEIRA
Fabio Weintraub
Resumo: A palavra “cânone” vem da do grego kanón que faz referência a uma espécie de vara
que servia como unidade de medida. Logo, quando falamos de cânone na literatura estamos
nos referindo a um grupo de obras que são valorizadas de acordo com parâmetros pré-
estabelecidos. Conhecemos os livros que fazem parte do cânone como “clássicos”, livros que
não devemos deixar de ler para entender a História da Literatura do nosso país. É o que se
afirma.
Um livro para ser visto como clássico precisa ter um valor estabelecido por um grupo que não
está isento das influências sociais, estéticas, ideológicas, etc. Roberto Reis (2005) afirma que “a
literatura tem sido uma das grandes instituições de reforço de fronteiras culturais e barreiras
sociais, estabelecendo privilégios e recalques no interior da sociedade”.
44
A literatura, portanto, tem sido um ambiente de disputa de diferentes grupos sociais que
buscam a voz em primeira pessoa que durante muito tempo foi mediada por outras falas
distantes de sua realidade. São vozes que interferem no status quo e causam atravessamentos
que têm levado os estudos críticos a repensarem continuamente, ao longo do tempo, os
espaços e as trajetórias canônicas da literatura.
Se a mulher tiver experiências resultantes de uma vida de escolhas próprias, não da reclusão
ou repressão, mas que desconstruam o estereótipo criado para ela, o cânone da literatura e a
produção de mulheres se modificará consideravelmente. De acordo com Reich, para se obter
a mudança, seria necessário adotar um comportamento libertário, pois o verdadeiro prazer
não pode conviver com a opressão. A massa controlada pelo sistema, dominada, domada, é
condenada a insignificância, e, assim, privada de atingir graus de consciência mais autônomos.
Ela é podada e impotente, e é essa impotência de pensamento criativo e crítico a preconceitos
que caracteriza o homem comum. Isso se dá porque o sistema, através de seu mecanismo de
controle defendeu-se previamente contra qualquer tentativa de subversão às regras em voga,
e somente, através da libertação, o indivíduo poderá se tornar um ser íntegro e crítico – “Um
homem não é estúpido ou inteligente: ele é livre ou não é”, denunciavam os muros parisienses
dos anos 70. Ao se adotar um olhar libertário sobre si mesmo e seu lugar no mundo,
desestabiliza-se a estruturas engessadas do cânone literário e revisa-se as posturas e os
critérios adotados pela historiografia literária. Percebemos, assim, que há uma herança
cultural que endossa e estimula uma seleção de autores pela maior aderência à ideologia e aos
valores reinantes.
O Cânone, a partir de sua relação de poder, reforça a dominação eurocêntrica que pode ser
vista na sua própria alcunha: “Cânone Ocidental”. Por Ocidente, inferimos uma série de
exclusões que estão fora do seu campo semântico como o “oriental”, o “africano”, o indígena,
etc. Dessa maneira, o cânone ocidental também estabelece um padrão para a literatura que
estará ligada às classes dominantes que reafirmam os jogos políticos e sociais de poder do
ocidente.
Este simpósio não pretende valorar a obra de acordo com seu comprometimento com as
pautas de lutas sociais, mas, sim, expor criticamente a conjuntura de sua produção. O
simpósio, dessa forma, se interessa por trabalhos que se voltem para discussões de questões
relacionadas a revisão do cânone a partir do resgate de autores em seus diferentes gêneros
literários dentro de uma perspectiva histórica e de análise crítica.
Referências:
45
CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 3ed. Rio de
Janeiro: Ouro sobre Azul, 2001.
RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala?. Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2017.
REIS, Roberto. Cânon. In: JOBIM, José Luiz. Org. Palavras da crítica: uma introdução. Trad.
Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
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Necessidade De Novos Estatutos Da Crítica: Pauliceia De Mil Dentes E Multidão
17/07 (MANHÃ)
17/07 (TARDE)
Resumo: Pensar a experiência literária ligada à enunciação e à voz nos coloca diante de um
desafio que articula e transforma os campos de investigação relativos ao corpo, à historicidade
e à própria ontologia. Afinal, a performance de uma enunciação, sobretudo a literária,
desdobra o encontro dos corpos, afetos, contextos e temporalidades heterogêneas dos modos
de inscrição e de leitura, correlacionando os diferentes materiais, linguagens e mundos que ela
mobiliza e que a mobilizam.
Quando transitamos entre as marcas linguísticas e os corpos que as atravessam, não se trata
mais de perscrutar a relação entre o dado e o construído, mas de habitar os limiares entre eles
– como entre a voz e a escuta – e as formas de vida que performam. Entramos assim em um
fluxo de re-enunciações – de onde deriva a noção de historicidade radical (Meschonnic) – que
coloca em questão não apenas os modos como lemos, mas a própria ontologia da escrita e da
leitura, abrindo um campo de investigações daquilo que chamaremos de ontografias do
sentido. Como na multiplicidade de sentidos do sentido (direção, afeto, mundo sensível e
práticas de significação), a legibilidade do mundo se confunde com os modos de existência, a
literatura toca a antropologia, a historicidade dessa experiência (que produz sentidos
múltiplos) se faz na e pela composição de mundos.
Passa por aqui uma imbricação em diversos sentidos do aparelho formal da enunciação
(Benveniste), das heterogeneidades enunciativas (Authier-revuz), do caráter performativo da
linguagem (Austin), da vocalidade (Zumthor), do oral e do ritmo (Meschonnic), da
equivocidade ontológica do signo e sua vida enigmática (Maniglier). Em todos eles, em
diferentes graus e modos, somos levados a uma experiência da enunciação como contra dicção
(Lucas) entre o discurso e sua dicção, na qual os pontos de vista e as posições enunciativas (de
personagens, narradores, leitores etc.) estão sempre em descompasso, em variação no corpo-
a-corpo da enunciação, do leitor e dos seres de ficção, que se obliquam e se alterocupam em
seus posicionamentos múltiplos e diferidos (Nodari).
Com isso, torna-se necessário também repensar os modos de acoplagens entre o corpo e a
experiência literária. Nessa região ontológica equívoca, a posição-sujeito da enunciação se
torna uma expeausition, uma vibração de um ato de pele, para falar com Jean-Luc Nancy, ou
um nó rítmico (Meschonnic), ou ainda o lugar paradoxal da voz (Lacan, Mladen Dolar). Longe
de ser a exposição da intimidade de um si autoidêntico e de seus afetos previamente
48
constituídos, como em um reality show ao melhor estilo Marie Kondo, experimentamos
ontologias variáveis que percorrem diferentes circuitos de sentidos e afecções (como a voz e o
olhar), e os acoplam uns aos outros, reinventando as forças e formas de relação entre eles,
bem como entre sensações corporais e as materialidades (da fala aos recursos digitais)
acoplados à performance. Voltamos aqui à modulação entre escalas e grandezas heterogêneas
de fluxos de matéria, energia, tempo e espaço, constituindo corporalidades heterotópicas
(Cesarino) ou pós-orgânicas (Haraway).
Referências:
Dolar, Mladen (2006). A voice and nothing more. Cambridge: MIT press.
________________ (2012). "O objeto voz” (tradução de Clóvis Salgado Gontijo Oliveiro) in:
Prometeus, 5, número 10, p. 167-192.
Haraway, D. (2000). “Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do
século XX”. In T. Tadeu (Org.), Antropologia do ciborgue (T. Tadeu, Trad., pp. 33-118). Belo
Horizonte: Autêntica.
Lacan, J (2004). Seminaire X – L’Angoisse. Paris: Seuil.
Provase, L (2016). Lastro, rastro e historicidades distorcidas: uma leitura dos anos 70 a partir
de Galáxias. Tese de Doutorado apresentada ao Departamento de Teoria Literária e Literatura
Comparada da Universidade de São Paulo, 2016.
___________ (2014). “Luto, Antropofagia e a Comunidade como dissenso”. In: Penna, João
Camillo; Dias, Ângela. (Org.). Comunidades sem fim. [Link]: Rio de Janeiro, v. 1.
Zular, R. & Lucas, F (2016). “Desencontrários – ecos de Leminski”. In: Malufe, Annita Costa;
Junqueira, Maria Aparecida (orgs). Poesia: entre-lugares. São Paulo: Dobradura Universitário,
p. 41-81.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
50
A ESCRITA COMO PERFORMANCE E A TRADUÇÃO COMO CONTRAPONTO
16/07 (TARDE)
A VOZ DOS TRABALHADORES DA CASA DE FARINHA EM "NOTAS SOBRE UMA POSSÍVEL A CASA
DE FARINHA", DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO
17/07 (MANHÃ)
Roberto Zular
51
17/07 (TARDE)
18/07 (MANHÃ)
18/07 (TARDE)
Lucius Provase
52
BARTLEBY DO BRASIL: O GESTO INTERROMPIDO NA POESIA DE PAULO HENRIQUES BRITTO
19/07 (MANHÃ)
19/07 (TARDE)
53
Amanda Luiza da Silva
Se o século XIX marca o início propriamente dito da luta pela formação de uma realidade
nacional, não podemos desprezar toda a produção artística anterior, que contribuiu para a
formação do que definimos como “ser brasileiro”. A Europa, à medida que amplia suas
conquistas, traz com ela sua arte e seu comércio, participando, assim, dessa definição, apesar
da evidente limitação em sua forma de ver o mundo.
E nesse diálogo com as ideias advindas da Europa, o imaginário tem um papel preponderante,
responsável pela formação de conceitos e crenças que são incorporados em muitos
movimentos que se desenvolvem no Brasil, não deixando imune o sistema literário brasileiro.
Alternando entre a ficção e o contexto sócio-histórico, a literatura brasileira vai se constituindo
e encontrando o seu lugar na sociedade.
No intuito de provocar uma reflexão sobre os estudos literários e culturais no Brasil de hoje,
este simpósio busca respostas a algumas perguntas que consideramos essenciais neste
processo: Como entendemos a literatura, hoje, com novos suportes e abordagens de escrita e
de leitura? Em um mundo em que a circulação de ideias e a troca de influências são facilitadas
pela tecnologia, em que tempo e distância estão reduzidos, ainda podemos falar em literaturas
54
nacionais, mais precisamente em literatura brasileira? Qual a função do estudo de literatura,
hoje, na escola e na universidade? Considerando as nossas experiências literárias do passado,
como fazer face às textualidades contemporâneas, no diálogo com as literaturas e teorias
europeias? Como formar novos leitores?
Não pretendemos fornecer respostas; mas enfrentá-las pode nos proporcionar alguns
avanços, pois, o que nos impressiona na circulação das ideias europeias no Brasil, ainda hoje,
é a famosa questão da ‘pedagogia’: em termos de colonização, em termos de crítica, em
termos de história. Nós, do lado de cá do Atlântico, estaríamos ainda ‘aprendendo’,
assimilando, introjetando? Mais uma questão sobre a qual precisamos refletir.
PROGRAMAÇÃO
17/07 (MANHÃ)
Denise Dias
17/07 (TARDE)
55
LA ISLA ANTROPOFÁGICA: O QUE PASSA ENTRE OSWALD DE ANDRADE E ANTONIO BENÍTEZ-
ROJO
18/07 (TARDE)
Elair de Carvalho
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16 - CIRCULAÇÃO, TRAMAS E SENTIDOS NA LITERATURA JUDAICA
CONTEMPORÂNEA
Coordenação: Profa. Dra. Kênia Maria de Almeida Pereira (UFU); Profa. Dra. Lyslei Nascimento
(UFMG); Profa. Dra. Nancy Rozenchan (USP)
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Isadora Sinay
Lyslei Nascimento
16/07 (TARDE)
Mesa 1
Gabriel Steinberg
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POESIA E MÚSICA NA TRAMA DE E A NOIVA FECHOU A PORTA, DE RONIT MATALON
Nancy Rozenchan
Saul Kirschbaum
Mesa 2
17/07 (MANHÃ)
RELAÇÕES INTERTEXTUAIS: O CORPO EM "CARTA AO PAI" E "POR QUE SOU GORDA, MAMÃE?"
17/07 (TARDE)
Késia Oliveira
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Resumo: A Literatura para crianças e jovens responde, atualmente, por uma gama de
possibilidades de abordagem que a torna, praticamente, um campo específico, visitado por
diferentes teorias e propiciador de variada produção no que tange aspectos ligados à pesquisa
no âmbito mais teórico ou prático.
Refletir sobre a literatura mais direcionada ao público infantil e juvenil implica pensar relações
que se tecem em torno, por exemplo, da autoria, por vezes na dupla articulação textual e
imagética, em que o olhar se volta para as ilustrações e o design do livro, bem como das
produções textuais em diferentes gêneros literários e linguagens, obrigando à observação de
experimentações que revelam fecundidade na composição artística. Além disso, emergem
pesquisas que se voltam para o reendereçamento a crianças e jovens de obras escritas
originariamente para o público adulto, sinalizando o alargamento de fronteiras entre esses
públicos e a consequente adaptação a novos projetos gráficos mais condizentes ao tratamento
dispensado a livros infantojuvenis, o que se vê em obras de escritores como Mário Quintana,
Fernando Pessoa, Saramago. Nesse sentido, destaca-se o processo intenso de assimilação dos
contos de fadas e narrativas populares, que não se destinavam ao público infantil, iluminando,
por um lado, a dimensão universal de obras da tradição, oriundas da oralidade e geralmente
marcadas por estratégias ligadas ao maravilhoso, e, por outro, tonalizando a definição do tipo
de texto próprio à infância, ultrapassando-se, na visão de Hunt (2010), fronteiras da cultura
erudita e popular. Assim, há que se considerar tanto a apropriação de narrativas literárias da
tradição e o processo de adaptação/recriação, obras relidas e publicadas em outras linguagens
e mídias, como as novas produções, que evidenciam, por vezes, o cenário ideológico
contemporâneo, repensando estereótipos e representações sociais, bem como estratégias
discursivas e hipermidiáticas que exigem novas habilidades e competências de leitura.
O caráter da produção literária para crianças e jovens também promove uma trama de
conexões que levam a pensar nos agentes sociais e culturais que emergem nessa relação,
como família, escola, biblioteca, editoria (com editores, revisores, tradutores, artistas plásticos,
ilustradores), mercado editorial, livraria, agentes que legitimam e promovem a circulação das
obras, por vezes constrangendo-as a padrões ideológicos restritivos: se a literatura infantil e
juvenil alargara-se à focalização de temas antes considerados tabus (RODARI, 1982),
observando a preocupação de educar o leitor pelo diálogo instaurador de múltiplos pontos de
vista, parece que assistimos a um recrudescer dessa abertura, observado em polêmicas recém
instauradas nas mídias sociais. Reafirma-se a necessidade de validar a efervescência de vozes,
na esteira da polifonia sustentada por Bakthin (1981), com vistas à multifacetada experiência
literária, levando em conta a diversidade de aspectos e sentidos a serem considerados no ato
da leitura crítica de textos que se apresentam em variados gêneros, linguagens e suportes e
em que se incluem processos como criação, circulação, mediação, recepção. Todo texto
literário, cabe ainda ressaltar, é sempre atravessado, de forma clara ou velada, por outros
textos que o precederam ou lhe são contemporâneos, constituindo-se essencialmente
dialógico e intertextual.
Outro ponto relevante que cumpre destacar é a abrangência dos estudos à roda da literatura
infantil e juvenil e dos processos que abarcam a leitura literária. As pesquisas apontam, na
visão de Ceccantini (2004), tanto para concepções mais aplicadas, direcionadas à formação do
leitor e ao desenvolvimento da criança, como para focos mais teóricos, “mais preocupados
com a autonomia do objeto focalizado e suas relações com a série literária e a histórica” (2004,
p. 23). O campo de estudos se alarga a várias áreas do saber, por meio de olhares
interdisciplinares e multissemióticos, propiciando pesquisas teóricas e práticas no âmbito de
diferentes ciências. Acredita-se fecundo o diálogo desta literatura com discursos produzidos
61
por outras esferas de conhecimento, como a educação, a psicologia analítica e do
desenvolvimento, a psicanálise, a história, a mitologia, a semiótica, a análise do discurso etc.
Face ao exposto, este simpósio, no âmbito de sua proposta, pretende aceitar trabalhos e
fomentar debates que promovam reflexão e alargamento conceitual em torno da literatura
para crianças e jovens, no que tange diferentes perspectivas, como: funções e fronteiras dessa
literatura; análises críticas de obras literárias em diferentes gêneros, linguagens e suportes,
sob fundamentação teórica diversificada; práticas de leitura e metodologias inovadoras;
presença de textos e autores de e sobre literatura para crianças e jovens em livros didáticos e
meios de comunicação; aspectos relacionados a produção, circulação e recepção; temas
contemporâneos ligados a questões polêmicas importantes na formação de crianças e jovens,
como identidade, representações étnico-raciais, de gênero, de faixa etária, de diversidade
cultural etc., bem como representações mais próximas do verismo (ZILBERMAN, 2003) ou
articulando a presença do maravilhoso e do fantástico, no âmbito do insólito ficcional.
Referências:
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
UM ESTUDO SOBRE REINAÇÕES DE NARIZINHO, DA CIA DAS LETRINHAS, A PARTIR DAS NOTAS
DE RODAPÉ E DAS IMAGENS DAS PERSONAGENS
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17/07 (MANHÃ)
EU SOU O QUE VEJO: UM ESTUDO ACERCA DA TEMÁTICA NEGRA NOS LIVROS DE LITERATURA
INFANTIL
VIDA NAS HISTÓRIAS E HISTÓRIAS DE VIDA: UM CONSTRUTO SOBRE LITERATURA PARA NÃO
ADULTOS E A REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA DO “FIM DA VIDA"
17/07 (TARDE)
Clarissa Rosas
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FÁBULAS URBANAS DE ITALO CALVINO: MARCOVALDO OU AS ESTAÇÕES NA CIDADE
A BOLSA AMARELA, DE LYGIA BOJUNGA, E ANA Z, AONDE VAI VOCÊ?, DE MARINA COLASANTI:
NARRATIVAS EM PROFUNDIDADE
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Maisa Barbosa da Silva Cordeiro
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Luciana Conti
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Coordenação: Prof. Dr. Daniel Marinho Laks (UFSCar); Prof. Dr. Maximiliano Gomes Torres
(UERJ-FFP); Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim (UFSCar).
O termo perseguição diz respeito a uma série de fenômenos e pode abarcar desde os tipos
mais cruéis, exemplificado pelos tribunais da inquisição até o simples isolamento do
divergente caracterizado pelo ostracismo social. No livro Perseguição e a arte de escrever, Leo
Strauss cita exemplos de perseguição nos meios literários e culturais na Atenas dos séculos V e
IV a. C, em alguns países muçulmanos do início da Idade Média, na Holanda e na Inglaterra do
século XVII e na França e Alemanha do século XVIII. Ademais, Strauss defende que um breve
passar de olhos nas biografias, ou mesmo na folha de rosto dos livros de alguns dos principais
pensadores da história do conhecimento – Protágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles,
Maimônides, Descartes, Hobbes, Espinosa, Locke, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Kant –,
basta para revelar que eles ou testemunharam ou sofreram perseguição durante certo período
de suas vidas. Em muitos casos essa perseguição perpassa o simples isolamento social e se
configura como um desconhecimento de si, numa busca incessante daquilo que Foucault
chamou de “critério de normalidade de padrões”.
A história da perseguição ao livre debate e a livre investigação, como já dito acima, não se
localiza somente no passado distante. Ao longo do século XX, diferentes espaços geopolíticos
conviveram com momentos de instabilidade econômica e política que culminaram em
distensões do sistema de pensamento liberal e das formas democráticas de organização do
Estado. Esses momentos propiciaram campo fértil para produções de modalidades nacionais
de superação autoritária dos períodos de crise em diversos países. A instauração de regimes de
caráter autoritarista contou, em várias ocasiões, com dispositivos específicos de produção da
norma, aparelhos culturais que criavam um sistema de enquadramento ideológico, a fim de
produzir o consenso.
67
sistema de policiais, tribunais especiais, perseguições políticas, prisões, exílios e até mesmo
assassinatos. Agora, em pleno século XXI, vemos essas dinâmicas de perseguição a minorias -
sociais, étnicas, raciais e sexuais - e cerceamento de corpos e de liberdades basilares iniciando
um novo ciclo.
O presente simpósio pretende abrigar trabalhos que debatam sobre a produção literária e
cultural durante momentos de perseguição política a minorias, englobando tanto análises
sobre movimentos e obras produzidas nos períodos específicos de resistência ao controle
político e ideológico quanto produções posteriores que retomem os acontecimentos passados
sob um viés crítico. Ainda busca pensar o poder para além de uma hierarquia de comando
vertical, mas, também, como atravessador dos tecidos sociais. Ou seja, uma estrutura que se
performatiza nas práticas discursivas e não discursivas como mecanismos
disciplinares/normatizadores que se naturalizam e se consolidam nos processos de
subjetivação dos sujeitos, afetando seus modos de ser e de agir, sobretudo no que se refere ao
gênero e às sexualidades.
Referências
BUTLER, Judith. Corpos em Aliança e a Política das Ruas: notas sobre uma teoria performativa
de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra, 2014.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: o uso dos prazeres. São Paulo: Paz e Terra, 2014.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: o cuidado de si. São Paulo: Paz e Terra, 2014.
PELLEGRINI, Tânia. Gavetas Vazias: ficção e política nos anos 70. São Carlos: EDUFSCar, 1996.
STRAUSS, Leo. Perseguição e a Arte de Escrever: e outros ensaios de filosofia política. São
Paulo: É Realizações, 2015.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
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Mesa 1: “Literatura, perseguição e violência”
16/07 (TARDE)
“NOS TEMPOS DO AMOR QUE MATA: A AIDS E O PARADIGMA IMUNITÁRIO NA OBRA DE CAIO
FERNANDO ABREU”
17/07 (MANHÃ)
17/07 (TARDE)
“UM ROMANCE SOBRE A PELE, OU COMO DESCOBRIR QUE NÃO SE PODE MORAR NOS OLHOS
DE UM GATO”
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“POR MEIO DA EXOTOPIA – O GESTO REBELDE DE ALEXANDRA LUCAS COELHO
18/07 (MANHÃ)
19 - CRÍTICA LIBERAL
Coordenação: Prof. [Link] Vinicius de Freitas (UFMG); Profa. Dra. Karla Fernandes Cipreste
(UFU)
Resumo: A crítica liberal constitui uma vertente do pensamento crítico que, através de um
resgate da tradição liberal – no cruzamento de suas dimensões política, filosófica, econômica e
cultural - e de um reconhecimento de sua ressurgência na cultura contemporânea, busca criar
uma alternativa ao pensamento anti-moderno. José Guilherme Merquior, em "Tarefas da
crítica liberal" (As ideias e as formas, 1981, p. 28-36), assim define o termo: “Porque se
encontram em risco dois valores fundamentais: A independência do espírito e a objetividade
do conhecimento – necessitamos, com urgência de uma crítica liberal. A missão política da
crítica liberal é combater a intolerância ideológica. Sua tarefa epistemológica – sua missão no
campo do conhecimento – é restaurar o sentido da objetividade”. Essa última tarefa se volta
contra uma mentalidade pretensamente “humanística” contemporânea - como coloca entre
aspas o próprio Merquior – que rebaixa o humanismo à permissividade epistemológica e à
71
indulgência indiscriminada face a teorias e interpretações, a qual se revela verdadeira
abdicação intelectual. Em poucas palavras, esse humanismo rebaixado confunde liberdade
crítica com licença relativista e elogio do irracionalismo. Retomar as noções de independência
do espírito e de objetividade do conhecimento implica, assim, em uma revisão desse mesmo
humanismo, em direção a figuras mais universais e menos locais. Sob o ponto de vista da
cultura, a crítica liberal procura recuperar o papel afirmativo da Modernidade, em oposição às
duas vertentes críticas que permanecem hegemônicas no interior dos estudos literários, sejam
elas a modernista, de cunho eminentemente revolucionário, e a pós-moderna, de cunho
predominantemente desconstrucionista, ambas antimodernas. Assim, o simpósio acolherá,
com grande interesse, trabalhos sobre o pensamento liberal, em especial no que concerne à
literatura e à cultura, de autores tais como José Guilherme Merquior, Ernest Gellner, Roger
Scruton, Eric Voegelin, Theodore Dalrymple, Daniel Bell, Friedrich Hayek, Ludwig Von Mises,
Tzvetan Todorov, Brian Boyd, Luc Ferry, Alain Renaut, André Comte-Sponville, David Hirsch,
Daphne Patai, Raymond Aron, Ortega y Gasset, Isaiah Berlin, Helmut Schoeck, Lionel Trilling,
Frank Kermode, Alan Sokal, Thomas Sowell, Eduardo Gianetti, Julián Marías e Raymond Tallis,
entre outros, que constituem um corpus bibliográfico à espera de investigação pelos estudos
literários e culturais.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
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cânone literário e do próprio conceito de literatura. Destarte o apontado anteriormente, é
evidente que há uma relação estreita entre a Crítica Textual (ou seu apontamento amplo
entendido como Filologia) e a Hermenêutica. A Crítica Textual nos dá subsídios para
interpretarmos textos, pois, como disse Carlos Reis, em entrevista publicada na Revista
Convergência Lusíada, no ano de 2005, trabalhar com Crítica Textual é um “corpo a corpo com
o texto”, impedindo, por exemplo, que situemos os textos literários em uma abstração. Como
afirmam Rosa Borges e Arivaldo Sacramento de Souza é “[...] precisamente contra a abstração
dos textos” [...] que se vê a relevância da crítica filológica. Nela, não se faz a oposição binária
entre texto físico/material versus texto abstrato [...]” (2012, p. 54). Tal citação é importante,
pois aponta para a importância da Crítica Textual, pois nesse ínterim consegue englobar,
concomitantemente, tanto aspectos da materialidade textual quanto da formação e da
circulação de seus sentidos literários. Como é perceptível, nosso campo de estudo trabalha
com a historicidade e, sempre que possível, com fontes primárias. Essa particularidade permite
com que pesquisadores em geral tenham acesso a textos que, ou são pouco acessados, ou que
deixaram de circular. Dessa feita, contribuem para o resgate de leituras correntes de
determinado lapso temporal, mas que não tiveram sua transmissão interrompida, por
exemplo, pelo realinhamento de concepções do cânone literário ou por censura ideológica ao
seu conteúdo. Para ilustrar nossa afirmação, verificamos que não é muito comum
encontrarmos citações, comentários, referências acerca do capítulo final da primeira, da
segunda e da terceira versões, publicadas respectivamente em 1875, 1897, 1880/1889, de O
Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós. Nelas, há referências à Comuna de Paris. Também
não é comum encontrarmos referências acerca das variantes da primeira edição de “O
Alienista”, de Machado de Assis, saída em A Estação, de 15 de outubro de 1881 a 15 de março
de 1882, em relação à segunda, também publicada pela Lombaerts & C, dessa vez em formato
livro, na coletânea de contos intitulada Papéis Avulsos, em outubro/novembro de 1882. Logo,
vimos que a Crítica Textual trabalha interdisciplinarmente com outros campos de
saber/disciplinas, tais como a Literatura, a Linguística, a História, principalmente a Cultural
(vide trabalhos de Chartier, como por exemplo: Os desafios da escrita) e a Sociologia. Esta
abertura caleidoscópica de relações nos ajuda a desenvolver uma visão mais propensa sobre a
mutabilidade textual bem como nos desenvolve uma capacidade de cunho mais aquilino para
perceber os processos de mudança e, então, resgatar os textos e desenvolver comentários
sobre eles em um exercício de “escovar a história a contrapelo”, propiciando discursos de
resistência e de abertura ao diálogo com o que foi silenciado, numa possibilidade de redenção
(BENJAMIN, 2012) de parte da história dos vencidos e das minorias e de gêneros textuais
literários não tão aclamados pela Academia. Nossa proposta, por meio deste Simpósio, é
trabalhar com todos esses aspectos da pesquisa em Crítica Textual/Filologia, privilegiando o
processo de formação, transmissão, apagamento e recepção de textos e de sentidos por meio
do exame de suas materialidades e de seus sentidos formados também por essas
materialidades, sem esquecermos de estratégias de preparação de edições que se aproximem
ou que sejam representações de redações autorais, sem esquecermos do estudo de edições
que se distanciam dessas representações, mas que fazem parte do estudo da história da
transmissão desses textos. Assim procuramos contribuir para a divulgação da Crítica Textual no
âmbito dos Estudos Literários e também para o estudo da Crítica Textual como resgate de
autoras, de autores, de leituras, de sentidos de textos que foram silenciados, contribuindo
também para a construção de histórias da literatura mais plurais e inclusivas.
Referência:
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. “O Alienista”. In: A Estação. Jornal Illustrado para a familia.
74
Rio de Janeiro, Lombaerts & C. 15 out 1881 -15 mar1882.
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da História. In: ---. Magia e técnica, arte e política.
Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas I. Tradução Sérgio Paulo
Rouanet. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 241-252.
CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. Tradução Fulvia M. L. Moretto. São Paulo: Unesp,
2002.
REIS, Carlos/ CUNHA, Maria do Rosário (eds). O Crime do Padre Amaro. Edição crítica das
obras de Eça de Queirós. Lisboa: IN/CM, 2000.
REIS, Carlos/CASTRO, Ivo/MONTEIRO, Ofélia de Paiva. Sobre edições críticas: uma entrevista.
In: Revista Convergência Lusíada, no 21, 2005, p. 345-351.
PROGRAMAÇÃO
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18/07 (TARDE)
PROGRAMAÇÃO
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A MONSTRUOSIDADE LATINO-AMERICANA SOB A ÓTICA DE SILVIANO SANTIAGO
Deborah Scheidt
17/07 (MANHÃ)
Pedro Brum
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A lei 11.892/08 se erige como possibilidade de ponte entre a academia e o “chão da escola”.
Em 2008, a lei 11.892/08 instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e
Tecnológica o que viabilizou um espaço pedagógico que se configura hoje como significativa
possibilidade para atrelar resultados de pesquisas acadêmicas à prática de sala de aula. Isso
78
porque os Institutos Federais de Educação tem em sua gênese a vocação do Ensino, além da
obrigatoriedade na promoção de pesquisa e extensão em seus campi. Contudo, não se pode
negar que o ensino técnico brasileiro surgiu a partir de três pilares que vão de encontro às
disciplinas subjetivas e reflexivas: o treinamento das classes mais pobres para o mundo do
trabalho, as influências do modelo tecnicista americano associada à repressão vivenciada
durante o regime militar e a visão capitalista que reforça a submissão da classe subalterna à
classe dominante (MARTINS, 2000, p. 105). Os pilares identificados por Martins (2000) revelam
que “a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é
indispensável para uma camada social não o é para outra” (CANDIDO, 1995, p. 173). Essa
lógica alienante segue na contramão do que Antonio Candido aponta como função da
literatura em seu caráter humanizador (cf. Ibidem, p. 176). Ou seja, o espaço que deveria
possibilitar o enlace da teoria da pesquisa com a prática de sala de aula, por vezes, não
consegue se estabelecer.
g) projetos que usem o texto literário como meio para debater gênero e etnia na escola;
l) reflexões sobre a seleção e escolha de textos literários para o trabalho educativo no espaço
das EBTTs.
Referências:
79
CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 3. ed. rev. e ampl. SP: Duas Cidades, 1995.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. SP: Paz e
Terra, 1996.
PROGRAMAÇÃO
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PRÁXIS DOCENTE NO ENSINO MÉDIO DAS ESCOLAS TECNOLÓGICAS: QUE PRECISA SER DITO?
17/07 (TARDE)
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AUTORIA FEMININA NOS LIVROS DIDÁTICOS DO PNLD 2018: ENTENDENDO O CÂNONE
Cristiane Côrtes
SOBRE ELAS, POR ELAS: AUTORIA E REPRESENTAÇÃO FEMININA NAS ARTES VISUAIS
Moema Sarrapio
READING CLUB UFES: UMA PRÁTICA EXTENSIONISTA QUE PROMOVE LEITURA E DISCUSSÃO DE
CONTOS DE AUTORIA FEMININA
18/07 (TARDE)
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A PRÁTICA DA ESCRITA CRIATIVA E A PRODUÇÃO DE CURTAS-METRAGENS NAS AULAS DE
LÍNGUA PORTUGUESA/LITERATURA: UMA ESTRATÉGIA AO ESTÍMULO À ESCRITA E À LEITURA
NA EDUCAÇÃO BÁSICA
82
brasileiras uma crise persistente no processo de formação de novos leitores. Tais dados, e já
desde 1950, dão conta que, apesar do amparo de várias teorias de leitura, estudos e
pesquisas, de metodologias e modelos, as escolas não têm, com exceções destacadas,
conseguido intervir de maneira eficaz na formação do gosto pela leitura nem no efetivo
letramento literário. Nota-se, assim, que há impasses e questionamentos quanto à
participação efetiva (por interesse pessoal, prazer etc.) nesse processo de escolarização da
literatura, ao lado de excelentes pesquisas e experiências que discutem e vislumbram a
possibilidade real dessa relação literatura-escola. Ainda, é importante considerar a leitura
literária não como ato independente, individual e solitário, mas (inter)ação coletiva, em que as
perspectivas para o indivíduo – entendido como aluno-leitor – só podem ser devidamente
encaradas em uma dinâmica culturalmente sócio-histórica, tanto quanto é decisiva a presença
(ativa) do professor e a presença (passiva) do autor que fala no texto, entre as palavras.
Considere-se, também, que tal problema se confirma nos livros didáticos (LDs), já que também
nesses prevalece o reducionismo, presente seja no campo das propostas de atividades, que
reforçam o biografismo historicista, seja no restrito e desatualizado corpus literário, seja ainda
no engessamento dos conceitos de gêneros textuais apresentados. Ressalta-se, enfim, a visão
de leitura como interação, via texto, entre leitor e autor – que não deve ser confundido com o
escritor. Isso porque o diálogo via leitura não poderia ser instaurado simplesmente entre o
leitor e a materialidade linguística, uma vez que esta não pode, de fato, interagir com quem,
ou o que, quer que seja. Nesse sentido, é fundamental entender que tal dialogia implica muito
mais que uma dada interação entre dois elementos distintos (BAKHTIN, 2010). Seguindo essa
perspectiva, e mantendo o foco na escola como espaço (ainda virtuoso) também de formação
de leitores literários, o presente simpósio pretende agrupar trabalhos de pesquisas cujos
objetos de estudo englobem os envolvidos no processo de letramento literário em espaços
escolares (mediadores/professores e leitores/alunos) apresentando discussões teóricas e
práticas que versem sobre a recepção do texto literário em contextos escolares. Portanto,
interessam trabalhos de professores e pesquisadores, de distintas perspectivas teóricas e
metodológicas, que: a) analisem as relações entre sociedade, educação e literatura
apresentando problemas, perspectivas, propostas, pesquisas e práticas; b) proponham
discussões a respeito de perspectivas (teóricas e metodológicas) em circulação sobre educação
literária, ensino de literatura, didática da literatura e letramento literário; c) apresentem
propostas diversas de trabalho com o texto literário em espaços escolares, inclusive trazendo
experiências com novos suportes de leitura; e, d) sistematizem reflexões a respeito da
formação e das práticas de professores para a mediação no ensino de literatura (da educação
básica a de ensino superior). O objetivo essencial, sempre considerando a contemporaneidade
e seus elementos constituintes, é reunir pesquisadores para uma reflexão sobre os rumos do
letramento literário, identificando e divulgando discussões e experiências de leitura literária
criativas e eficazes para o espaço escolar; sobretudo, o objetivo é o de propor alternativas
aplicadas, reais, concretas para a situação atual acima apresentada.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
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ELEMENTOS PARA A DISCUSSÃO DE POLÍTICAS PARA A DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO À
LEITURA A PARTIR DE DUAS PESQUISAS SOBRE PRÁTICAS LEITORAS DE JOVENS
Kátia Chiaradia
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Marcos Scheffel
Juliana Fermino
Diego Grando
17/07 (MANHÃ)
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LITERATURA NA REDE: BOOKTUBERS COMO MEDIADORES DE LEITURA
17/07 (TARDE)
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categoria genérica única, na qual se pressupõe uma sociedade imaginária, geralmente
ambientada no futuro, com estrutura própria e que, ao contrário da utopia, apresenta um
universo mais degradado que o contemporâneo, a manifestação de termos como “distopia
crítica” (BACCOLINI, MOYLAN, 2003) e “ustopia” (ATWOOD, 2011) colocam em evidência a
pluralidade de definições do subgênero.
Teóricos como Alexandra Aldridge ainda estabelecem uma relação entre a distopia e os temas
científicos e tecnológicos típicos da ficção científica (ALDRIDGE, 1984), excluindo obras
canônicas como 1984, de George Orwell, de sua classificação. No entanto, estudiosos, como
M. Keith Booker, abrem a definição de distopia ao relacioná-la com a crítica às condições
sociais ou sistemas políticos existentes (BOOKER, 1994), permitindo que outros tipos de ficção
especulativa sejam vistos como distópicos e não apenas a ficção científica. Propomos neste
simpósio discutir conceitos de distopia, bem como tecer um debate sobre narrativas distópicas
contemporâneas que, além de tratar da sociedade de controle e do medo do autoritarismo,
têm enfatizado a destruição ambiental e as ansiedades em relação ao corpo.
Muitas vezes, as narrativas distópicas recorrem ao transhumanismo para refletir sobre formas
de impulsionar a evolução do intelecto e da fisionomia da espécie humana, aumentando assim
a expectativa de vida e a “liberdade reprodutiva” e eliminando doenças que comprometam a
capacidade de performance do ser humano (BOSTROM, 2005). É nesse sentido que o
transhumanismo relaciona-se com o conceito foucaultiano de biopoder, pois à medida que se
estende a vida e se aprimora o corpo, amplia-se também a capacidade de força de trabalho,
regulam-se as formas de reprodução e excluem-se aqueles que não podem ou não conseguem
adequar-se aos padrões (HALL, 2017). Ao intensificar a centralidade e a sobrevivência do ser
humano, surge também a discussão sobre uma nova era: a do Antropoceno. Popularizado em
2002 pelo químico Paul Cruzten, este termo tem sido usado por um grande número de
cientistas e pesquisadores para discutir as alterações que o planeta sofreu por causa da
interferência humana nos últimos anos (TREXLER, 2015).
Nosso simpósio tem como objetivo discutir obras literárias, filmes e séries que reflitam sobre
cenários distópicos. Abrimos espaço para contribuições que contemplem a distopia em relação
às mudanças climáticas, ao autoritarismo e nacionalismo, ao controle sobre os corpos,
principalmente no que se refere a minorias identitárias, e também às questões tecnológicas e
científicas no transhumanismo e no Antropoceno.
Referências:
ALDRIDGE, Alexandra. The scientific world view in dystopia. Ann Arbor: UMI Research Press,
1984.
87
ATWOOD, Margaret. Ana Deiró (trad.). O conto da aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017 [1985].
__________. Léa Viveiros de Castro (trad.). Oryx e Crake. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
__________. In Other Worlds: SF and the human imagination. New York: Nan A.
Talese/Doubleday, 2011.
__________. Márcia Frazão (trad.). O Ano do Dilúvio. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.
BACCOLINI, Raffaella e MOYLAN, Tom (Orgs.). Dark horizons: Science fiction and the dystopian
imagination. New York: Routledge, 2003.
BOOKER, M. Keith. Dystopian literature: a theory and research guide. Wesport, CT: Greenwood
Press, 1994.
BOSTROM, Nick. “The Defense of Posthuman Dignity”. In: Bioethics n. 19, 2005, pp. 202-214.
BUTLER, Octavia. Carolina Coelho (trad.). A Parábola do Semeador. Campinas: Editora Morro
Branco, 2018.
JACOBY, Russel. Imagem imperfeita: pensamento utópico para uma época antiutópica. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
TREXLER, Adam. Anthropocene Fictions: The Novel in a Time of Climate Change. Virginia:
University of Virginia Press, 2015. Edição Kindle.
ZEH, Juli. Marcelo Backes (trad.). Corpus Delicti: um processo. Rio de Janeiro: Record, 2013.
PROGRAMAÇÃO
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O COMPONENTE EPISTEMOLÓGICO EM O CONTO DA AIA (1985), DE MARGARET ATWOOD
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A ANGÚSTIA DA INCERTEZA: SÍNDROME PRÉ-TRAUMA EM BOCA RATON E GHOST AND
EMPTIES, DE LAUREN GROFF
Resumo: Este simpósio tem por objetivo abrir espaço para reflexões sobre arte e
conhecimento. Busca-se entender os princípios que orientam as diferentes posturas
epistemológicas e suas consequências no modo de organização estética do romance, como
possibilidade de legitimação de um conhecimento sobre ser e estar no mundo. Tomando-se
como base o teóricos como Lukács (1979) e Goldmann (1967) buscou-se fundamentar uma
concepção histórico-cultural da produção dos conhecimentos como construtos orientados por
estruturas psíquicas que são homólogas à vida social. Lukács (1979, p.75) acredita que cada
fenômeno social “deve ser visto como parte de um complexo dinâmico de interação com
outros complexos, como algo que é determinado – interna e externamente – por múltiplas
leis”. Aqui reside o princípio da dialética a partir da qual é possível “compreender e explicar”
os fenômenos dentro de sua singularidade, particularidade e totalidade. Em A origem da
dialética, Goldmann (1967, p.21) afirma que “todo aquele que se propõe estudar um sistema
filosófico do passado, deve primeiro compreender as ligações entre os elementos
fundamentais desse sistema e as condições sociais nas quais vivem os homens em cujo seio
nasceu e se desenvolveu”. Esse princípio goldmanniano pode ser aplicado à análise de
qualquer produção cultural (literatura, ciência, arte, religião, mitologia etc.). De acordo com
Goldmann (1972b), o trabalho do investigador consiste em revelar a estrutura significativa que
sustenta todo comportamento humano a partir da compreensão dos traços de singularidade
dessa atividade a qual só poderá ser compreendida se inserida dentro de uma estrutura mais
vasta que lhe permita perceber os traços gerais do fenômeno dentro de uma totalidade. Desse
modo, se todo fenômeno (literatura, ciência, arte, religião etc.) tem um número maior ou
90
menor de totalidades relativas, conforme destaca Goldmann, e se cada uma dessas totalidades
tem sua significação particular no interior dos grupos sociais que produziu o fenômeno e nos
quais se encontram as categorias mentais que estruturaram o fenômeno “a inserção dessa ou
daquela visão do mundo em certas épocas precisas, resulta da situação concreta na qual se
encontra os diversos grupos humanos no decurso da história [...]” (GOLDMANN, 1979, p. 94).
Qualquer epistemologia que tenha a pretensão de explicar qualquer aspecto da realidade
deve, segundo Goldmann, ter em mente que todo fenômeno humano deve ser analisado como
processo, ou seja, dentro das relações que viabilizaram a construção dessa realidade. Para ele
(1972, p.16), os fenômenos humanos se dão de maneira dialética e só desse modo é possível
compreendê-los e explicá-los. “Talvez possamos precisar aqui os conceitos de compreensão e
de explicação: a descrição de uma estrutura significativa e de seus vínculos internos é um
fenômeno de compreensão. Mas a tentativa de descrever o futuro da estrutura mais vasta
(pois é claro que estamos sempre em presença de uma estrutura relativa composta de
estruturas parciais e que faz parte, ela própria, de estruturas mais vastas) tem um valor
explicativo relativamente à estrutura englobada.” Goldmann (1993, p.108) escreve que “o
estudo das grandes obras filosóficas e literárias demanda um trabalho de análise
extremamente cuidadoso, já que no limite é preciso tentar depreender a partir da visão de
conjunto tanto o conteúdo como a forma exterior da obra. Desse modo, a produção literária
deve ser tomada não apenas como um simples registro (mimesis) da realidade. Ela é, antes de
mais nada, a materialidade no campo da abstração da consciência possível de uma classe
social. Mesmo quando apresenta um conteúdo diferente daquele presente na consciência
coletiva, ela é, na estrutura (forma), homóloga à consciência coletiva de sua classe social e
deve, segundo Goldmann (1972, p. 64), “ajudar os homens tomar consciência de si mesmos e
de suas próprias aspirações afetivas, intelectuais e práticas”. Sendo assim, o presente
Simpósio, “Epistemologias do Romance: percepções estéticas e sociológicas como
possibilidades de questionamentos sobre a existência”, tem interesse por estudos que
exploram a relação entre literatura e sociedade de modo a sondar aspectos existenciais que
emergem da narrativa ficcional e que possibilitam reflexões sobre os modos de ser e estar no
mundo, tomando como referência os elementos estéticos inerentes à narrativa ficcional tais
como enredo, narrador, tempo, espaço, personagens e a visão de mundo por ela
representada.
Referências:
GOLDMANN, Lucien. A criação cultural nas sociedades modernas. Trad. Rolando Roque da
Silva. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972.
________. Ciências humanas e filosofia: o que é Sociologia? 12ª ed. Trad. Lupe Cotrim Garaude
e José Arthur Giannotti. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1993.
LUKÁCS, Georg. Ontologia do ser social: princípios ontológicos fundamentais de Marx. Trad.
Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Ciência Humanas, 1979.
91
PROGRAMAÇÃO
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MEFISTÓFELES: O MAL COMO NECESSIDADE EXISTENCIAL
É importante ressaltar que na carreira Erico atuou não só como escritor de ficção, mas
também como tradutor, editor, conselheiro literário e agente político – aqui em consideração
à sua atuação na política de Boa Vizinhança (1933-1945), quando esteve por duas vezes nos
Estados Unidos nos anos 1940, e depois dela, entre os anos 1953 e 1956, quando assumiu o
93
cargo de diretor do Departamento de Assuntos Culturais da antiga Pan American Union, hoje
Organization of American States ou “Organização dos Estados Americanos” (OEA) em
Washington D.C.. Em vista dessa ampla atuação e aos moldes referidos sobre como ela se
desenvolveu, é justo afirmar que Erico aproxima-se da figura do intelectual fruto da
modernidade, já que ele por vezes assemelha-se a um crítico social que ganha voz no espaço
público por meio de sua obra ou graças a ela, como já mencionado. Ainda nesse sentido, é
possível notar que, com a presença pública que conquistava, o escritor desenvolve sua obra à
medida que se via demandado a desenvolver e manifestar seus posicionamentos políticos.
Dessa forma, cabe destacar que Erico passa a ocupar um lugar em um diálogo que se estende
para além das fronteiras do Brasil e do literário, cujo trabalho e presença são reconhecidos em
diversos países do globo, haja vista as traduções de suas obras e a interlocução política
estabelecida com outros escritores e intelectuais. Nesse sentido, identificamos uma rede de
associações, termo do francês Bruno Latour (2012), em que os atores não são somente os
escritores, mas também as próprias obras. Trata-se de objetos/atores considerados como
mediadores, ou seja, instâncias que não somente transportam significados em um social
construído de associações, mas como instâncias que podem transformar, traduzir, modificar e
até distorcer significados em uma “rede em trabalho” ou, como Latour (2012, p. 65) menciona,
uma worknet.
A referida teoria do Ator Rede, de Bruno Latour (2012), dá-nos subsídios para propor um
simpósio que visa discutir aspectos da obra de Erico Verissimo não em vias solipsistas, mas
cujos traços apontam para a mencionada relação obra e vida, assim como para a inserção
intelectual do escritor. Trata-se de observarmos e discutirmos, a partir da obra literária, o
contexto maior em que ela se insere. A partir da produção literária de Erico Verissimo – que
compreende romances, contos e narrativas de viagem –, assim como em consideração a suas
atuações específicas mencionadas aqui – de tradutor, editor, conselheiro literário e agente
político –, abrigaremos trabalhos no presente simpósio que de alguma forma apontem para a
ideia de um projeto literário de um a(u)tor que constantemente chama atenção para a relação
entre obra e vida sem que caiamos em biografismos simplicistas sobre a produção do escritor.
Referências:
BOECHAT, Fernanda Boarin. O vaivém dum gato: interfaces entre ficção e realidade nas
narrativas de viagem Gato preto em campo de neve e A volta do gato preto de Erico Verissimo.
415 f. Tese (Doutorado em Letras), Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2017.
BORDINI, Maria da Gloria. Criação literária em Erico Verissimo. Porto Alegre: L&PM Editores:
EDIPUCRS, 1995.
MINCHILLO, Carlos Cortez. Erico Verissimo, escritor do mundo. São Paulo: Edusp, 2016.
94
VERISSIMO, Erico. Um lugar ao sol. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1936.
______. As mãos do meu filho: contos e artigos. Porto Alegre: Edições Meridiano,1942.
______. Fantoches e outros contos e artigos. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1956.
______. Gato preto em campo de neve. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1956.
______. Um certo Henrique Bertaso: pequeno retrato em que o pintor também aparece. Porto
Alegre: Editora Globo, 1972.
______. Solo de clarineta: memórias. Porto Alegre: Editora Globo, 1973. vol. 1
______. Solo de clarineta: memórias. Porto Alegre: Editora Globo, 1976. vol. 2
______. A volta do gato preto. 11. ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1980.
______. Breve história da literatura brasileira. Tradução de Maria da Glória Bordini. São Paulo:
Editora Globo, 1997.
______. A liberdade de escrever: entrevistas sobre literatura e política. Org. Maria da Glória
Bordini. São Paulo: Editora Globo, 1999.
______. O tempo e o vento, parte I: O Continente I. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.
95
______. O tempo e o vento, parte I: O Continente II. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.
______. O tempo e o vento, parte II: O Retrato I. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.
______. O tempo e o vento, parte II: O Retrato II. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.
______. O tempo e o vento, parte III: O Arquipélago I. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.
______. O tempo e o vento, parte III: O Arquipélago II. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.
______. O tempo e o vento, parte III: O Arquipélago III. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
96
Coordenação: Adeítalo Manoel Pinho (UEFS-BA); Maria de Fátima Gonçalves Lima (PUC-GOIÁS)
Resumo: Esta proposta é a continuação de simpósio realizado nos Congressos Abralic de 2015,
em Belém- PA, no Encontro 2016, no Rio de Janeiro, no Congresso Internacional 2017, no Rio
de Janeiro e 2018 em Uberlândia, MG. Dado o êxito das apresentações e discussões naquelas
oportunidades e por ser do âmbito do Projeto Procad/Capes PUC-Rio/UNEBSalvador/UEFS-
Bahia/PUC-Goiás, que irá até 2019, consideramos esta proposta decisiva para as atividades do
projeto. A continuação da proposta e realização do simpósio expressa ainda mais a
consolidação de um grupo de trabalho multi-institucional e em instância nacional dentro do
projeto. Para delinear os desafios presentes no título deste Simpósio, e aqui propostos para
seguir como um convite instigador a pesquisadores interessados na atualidade das práticas
culturais, artísticas e teórico-críticas, elegemos, no pequeno e exitoso ensaio de Giorgio
Agamben, uma das suas postulações a O que é o contemporâneo: "Contemporâneo é aquele
que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro." A
imagem potente de um "escuro" do tempo delineia metaforicamente a problemática a ser
compartilhada pelos pesquisadores, em vertentes ou perspectivas compatíveis com seus
objetos de interesse e investigação. Tal imagem se impõe quando se constata que, nas últimas
décadas, na área dos estudos literários como nas ciências humanas, ocorreram alterações que
reconfiguraram os pilares do território disciplinar, abalando o domínio de objetos previsto, o
elenco de instrumentos, métodos e, expressivamente, o corpo das proposições aceites como
horizonte teórico dos estudos de literatura, outras artes e da cultura. Tais alterações
repercutiram predominantemente na diluição de fronteiras entre as disciplinas, na
multiplicação inovadora das questões e temas de investigação plausíveis para cada uma delas
e na ampliação dos instrumentos conceituais e técnicas que as singularizam. Em paralelo às
alterações no plano epistemológico, são expressivas também, nas últimas décadas, as
alterações que ocorrem no âmbito da cultura e no campo artístico, especialmente no domínio
do literário. No primeiro caso, a noção de "cultura" alargou-se, extrapolando a legitimidade
que lhe atribuíram – igualmente, mas em circunstâncias diversas – o empreendimento
civilizacional iluminista, o Estado nacional moderno e as elites cultas na alta modernidade
estética, tornando a cultura e, principalmente, o valor cultural focos de instabilidade, conflito e
disputa, por forças que saíram dos bastidores e passaram a disputar a significação cultural. Os
dois eixos da significação e valor que atravessaram a área de Letras, afetando o âmbito dos
estudos comparados: por um lado, problematiza-se a ligação mutuamente legitimadora entre
literatura e nacionalidade, parte do processo de constituição dos estados modernos e matriz
de toda a historiografia que por um século pautou os estudos da literatura; por outro, dá-se a
contestação ao confinamento do valor cultural à esfera erudita, às artes canônicas e,
consequentemente, à separação entre arte, cultura e o que pensadores como Edward Said e
Stuart Hall designaram como a "mundanidade".Em grande parte, emanam deste cenário de
mudanças epistemológicas e culturais o "escuro do tempo" ou os desafios do contemporâneo,
que constituem o campo temático do debate aqui proposto, que deverá confrontar-se com o
caráter intempestivo, insurgente ou disruptor da contemporaneidade, sistematizando e
provendo instrumental teórico e crítico para lidar com as suas diversas dimensões ou
concreções. O deslocamento ou a recusa de hierarquias instituídas tanto na dimensão
epistemológica quanto na dimensão artísticocriativa geram a oportunidade para que estejam
sob o foco deste Simpósio – como desafios que emergem das zonas de sombras do
contemporâneo – as formas, expressões e domínios de experiência recalcados ou preteridos e
sua potência intempestiva, tais como: (a) o corpo, em sua materialidade e enquanto superfície
97
de inscrição e energia ético-estética; (b) os afetos, enquanto força disruptora a dar ensejo a
outras formas de experiência e representação das vivências; (c) o comum e o cotidiano
enquanto categorias transversais da cultura, a mobilizar uma rede de significados que
remetem a espaços periféricos, tanto no cenário político e sociocultural quanto nos cenários
textuais e artísticos; (d) a violência, a exclusão e a cidade como figurações do presente que
convulsionam os limites da representação ao instaurarem, em diversas linguagens artísticas;
(e) a lógica do testemunho, do biográfico e do documental, em flagrante desafio à
compreensão estabilizada do que seria próprio do domínio ficcional. Ao acolher as
perspectivas dos estudos de literatura e de outras linguagens artísticas, bem como dos estudos
de produções, práticas e políticas da cultura, incorporando as dimensões de materialidade, de
performatividade e de insurgência, próprias das estratégias criativas da atualidade, este
Simpósio ambiciona empreender não apenas uma discussão estética e política que possibilite a
acolhida analítica das forças e das formas artísticas e culturais do presente, mas – e
principalmente – acentuar uma potência inovadora e transformadora que possa afetar práticas
investigativas, formativas e educacionais na sociedade brasileira contemporânea.
REFERÊNCIAS AGAMBEM, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó:
Editora Argos, 2009. HALL, Stuart. Da diáspora. Org. Liv Sovik. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.
SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
98
16/07 (TARDE)
Késia Brasil Pereira Nacif (PUCGO) e Maria de Fátima Gonçalves Lima (PUCGO)
CONTEMPORÂNEIDADES
17/07 (MANHÃ)
Resumo: A fala de si mesma na terceira pessoa, chamando-se pelo próprio nome, ocorre bem
antes de compreender que também pode utilizar a primeira pessoa. Em seguida, todos
utilizam “eu” para falar de si, mas esse “eu”, para cada um, remeterá a um nome único que
poderá, a qualquer momento, ser enunciado. Todas as identificações (fáceis, difíceis ou
indeterminadas) acabam fatalmente convertendo a primeira pessoa em um nome próprio.
Para Lejeune (2008), um autor não é uma pessoa. É uma pessoa que escreve e publica.
Inscrito, a um só tempo, no texto e no extratexto, ele é a linha de contato entre eles. O autor
se define como sendo simultaneamente uma pessoa real, socialmente responsável, e produtor
de um discurso. Para o leitor, que não conhece a pessoa real, embora creia em sua existência,
o autor se define como a pessoa capaz de produzir aquele discurso e imaginá-lo, então, “a
partir do que ele produz. [...] se a autobiografia é um primeiro livro, seu autor é
consequentemente um desconhecido, mesmo se o que conta é sua própria história, falta-lhe,
aos olhos do leitor, esse signo de realidade que é a produção anterior de outros textos (não
autobiográficos), indispensáveis ao que Lejeune chama de “espaço autobiográfico”.
Autoficção, termo utilizado contemporaneamente para se referir à autobiografia ficcional,
teve como precursor Doubrovsky (1977) em seu romance Fils. A noção de autoficção, de
acordo com esse autor, difere da teoria proposta por Lejeune (2005) na medida em que um
autor pode optar por contar sua vida em 1ª ou 3ª pessoa, utilizando os elementos ficcionais a
serviço de uma busca pela autoficção. No entanto Gusdorf ( 1991) afirma que as teses sobre a
escrita de si foi o centro das discussões do seu trabalho e continha um estudo crítico do que
seja autobiografia.“Cet arrièreplan commémoratif d’une expérience de vie, menée à bien dans
la peine, dans la joie et dans l’honneur, sous-tend d’une manière inapparente ce livre.
(GUSDORF, 1991,p.12). No que diz respeito à literatura de testemunho, o estudo
memorialístico é importante porque apresenta diversas partes da obra em que personagens
rememoram as experiências traumáticas vividas individual ou coletivamente. Essa presença,
no texto literário, revela personagens angustiados com a situação desumana a qual foram
submetidos; podem caracterizar lembranças do convívio familiar, que retornam à mente do
narrador. A memória coletiva é formada por lembranças dos indivíduos, ou seja, de vários
grupos dos quais eles fazem parte. Paul Ricoeur (2007) chama a atenção para o fato de a
memória e a história estarem juntas, ainda que de modo conflitivo. A contribuição de
Seligmann-Silva (2003), Halbwachs (2006) e de Candido (2006), considerando que todos os
acontecimentos e narrativas se passam no convívio em sociedade, viabilizará reflexão e
entendimento sobre as narrativas de si escritas por mulheres em todas as épocas. Mesmo
assim a posição de Gusdorf (1991) rebate alguns conceitos propostos por estes teóricos e
100
como ele mesmo afirma: “On appelle « mémoires » d’un personnage le récit fait par lui-même
des événements de sa vie, curieux pluriel, au sujet duquel les lexicographes ne semblent pas
s’être interrogés. Or les mémoires appartiennent au genre autobiographique, avec une
insistance sur les événements objectifs plutôt que sur le vécu subjectif ; mais la ligne de
démarcation entre Mémoires proprement dits et Autobiographie n’est pas claire ; les mémoires
sont des autobiographies, même si la réciproque ne semble pas être vraie. (GUSDOR,
1991,p.14). Com relação á escrita de si através das outras artes vimos obras literárias
pertencentes a este gênero transpostas ao cinema, aos quadros, em formato de graffiti nos
muros da cidade ou vice verso, é possível ver telas, e filmes serem traduzidos aos textos ou ás
músicas. Nesse sentido Santaella ( 2004) explica que o letor do século XXI é o “leitor
movemente, aquele que surge do mundo em movimento, dinâmico, mundo híbrido, de
misturas químicas, um leitor que é filho da Revolução Industrial e do aparecimento dos
grandes centros urbanos: o homem na multidão” (SANTAELLA, 2004, p.19).Assim sendo, este
simpósio pretende contribuir para a reflexão dos textos produzidos em prosa, poesia e outras
artes no contexto da história, da memória, das literaturas de si, recebendo propostas de
trabalhos que debatam os escritos produzidos por autores oriundos da América Latina ou que
nela se fixaram adquirindo nacionalidade latino Americana.
Palavras-chave: Escritas de si; narrativas em prosa, poesia e outras artes. escritores latino
americanos
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
101
Marília do Nascimento Costa
16/07 (TARDE)
EXISTINDO MORRO SENDO: MEMÓRIA DE SI EM ESTAR SENDO. TER SIDO DE HILDA HILST
17/07 (MANHÃ)
102
AS ESCRITAS DE SI NAS CARTAS POÉTICAS DE ANA CRISTINA CÉSAR
17/07 (TARDE)
VERDADES CONSTRUÍDAS
103
URDIDURAS DO RESSENTIMENTO EM HILDA HILST
Como observa Starobinski (1970), as escritas pessoais, pautadas pela memória e pela
(re)construção de imagens do passado e de si, sempre apresentaram uma tendência a
desembocarem na invenção, a despeito das promessas de sinceridade e fidelidade à
experiência vivida. Embora sempre tenha havido fronteiras entre as escritas de si e o universo
ficcional, elas somente foram problematizadas pelos escritores a partir do século XX.
O termo autoficção foi lançado pela primeira vez por Serge Doubrovsky em Fils, publicado em
1977. De acordo com Jacques Lecarme, a autoficção consistiria em um dispositivo muito
simples, “uma narrativa cujo autor, narrador e protagonista compartilham da mesma
identidade nominal e cuja denominação genérica indicia que se trata de um romance” (2014,
p. 68). A novidade deste dispositivo instauraria um novo pacto ambíguo diante do leitor, uma
vez que, agora, se a coincidência entre narrador/protagonista/nome do autor levaria a uma
confiança no caráter factual da narrativa, a caracterização do texto como ficção levaria a uma
104
suspensão dessa mesma confiança.
Este Simpósio propõe-se a estimular o debate sobre as escritas de si, abrangendo trabalhos
que as abordem enquanto forma de expressão marcadamente literária, isto é, enquanto
documento relevante para ramos distintos dos estudos literários (historiográficos, biográficos,
hermenêuticos); em suas consequências para noções-chave da crítica (como o conceito de
autor), bem como para variadas correntes da teoria literária; como ponto de indagação
privilegiado na compreensão de diferentes obras em língua portuguesa e estrangeira – enfim,
como forma de reabrir a discussão em suas inflexões contemporâneas mais sugestivas,
capazes de aclarar a literatura de ontem e de hoje.
Referências
BARTHES, R. A morte do autor. In Rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo: Martins
Fontes, 2004.
LEJEUNE, P. Autoficção & CIA. In: NORONHA, J. M. G. Ensaios sobre a autoficção. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2014.
ROAS, D. A ameaça do fantástico: aproximações teóricas. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
105
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
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REINALDO SANTOS NEVES: ROMANCE LATO SENSU
17/07 (MANHÃ)
17/07 (TARDE)
107
CONSIDERAÇÕES SOBRE ESCRITAS DE SI NOS CAHIERS DE PAUL VALERY
18/07 (MANHÃ)
18/07 (TARDE)
108
LITERATURA DE SI E PERTENCIMENTO: A CONSTRUÇÃO DE UMA PAISAGEM LITERÁRIA EM O
CEMITÉRIO DOS VIVOS, DE LIMA BARRETO
PELA ÚLTIMA VEZ, FILOSOFIA: CLARICE LISPECTOR E A VIDA COMO OBRA DE ARTE
No campo da ficção, que não se opõe ao real, mas que age em dissenso, as narrativas
constituem uma forma particular de pensamento e de produção de conhecimento. Há um
adensamento intelectual na literatura no final do século XIX. Machado de Assis, Dostoiévski,
James Joyce, Samuel Beckett, Virginia Wolff, Marcel Proust, Jorge Luis Borges e muitos outros,
além de provocarem uma reinvenção na escrita, passaram a colocar a questão da existência,
do pensamento reflexivo e da condição do sujeito moderno em primeiro plano. O narrador se
torna um dispositivo-chave para tais processos críticos de escritas ficcionais. Vale lembrar que
109
tal quadro se deu a partir de um diálogo com autores como Freud e Nietzsche – diálogos esses
de mão dupla, já que ambos viam na ficção uma usina de força para seus temas e questões.
Além disso, áreas como a psicanálise e a filosofia propuseram formas narrativas desafiadoras
para os seus campos de saber e demais áreas da escrita. Ao permitir novas maneiras de pensar
a ficção, as noções oriundas da arte da performance também contribuem para a discussão.
Referências:
110
BARTHES, Roland. O grau zero da escrita: seguido de novos ensaios críticos. São Paulo:
Martins Fontes, 2004.
CHIARA, Ana, SANTOS, Marcelo, VASCONCELLOS, Eliane (orgs). Corpos diversos: imagens do
corpo nas artes, na literatura e no arquivo. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2015.
GIL, José. “Sem título”: Escritos sobre arte e sobre artistas. Lisboa: Relógio d’água, 2005.
GIL, José. “Abrir o corpo”. In: Lygia Clark – da obra ao acontecimento: Somos o molde. São
Paulo: Ed. Pinacoteca, 2005, p. 63-66.
HUBERMAN, Georges Didi. O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34,
1998.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34, 2005.
ROLNIK, S. “Uma terapêutica para tempos desprovidos de poesia”. In: Lygia Clark – da obra ao
acontecimento: Somos o molde. São Paulo: Ed. Pinacoteca, 2005 pp. 13-27.
111
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Ciro Lubliner
16/07 (TARDE)
A FORMA HUMANA
Beatriz Castanheira
17/07 (MANHÃ)
Isabel Jasinski
17/07 (TARDE)
113
ANA HATHERLY, "PENSAMENTO-ACTO"
Julia Klien
Raïssa de Góes
18/07 (MANHÃ)
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32 - ESCRITORES BRASILEIROS NO EXTERIOR, ESCRITORES
ESTRANGEIROS NO BRASIL: INTERMEDIAÇÕES E RELAÇÕES COM
OUTRAS ARTES
Coordenação: Profa. Dra. Márcia Valéria Martinez de Aguiar (Unifesp); Profa. Dra. Maria
Cláudia Rodrigues Alves (Unesp); Prof. Dr. Valter Cesar Pinheiro (UFS)
Resumo: Quando se trata de refletir sobre a publicação e a recepção de uma obra em terras
estrangeiras, muitos são os elementos que entram em consideração. Que razões levam à
escolha, para edição, de um autor em determinado país ou época? Que papel têm os agentes
literários, os passadores, os editores, os tradutores, os discursos políticos e sociais, os projetos
editoriais e as estratégias de difusão de outras artes, como cinema, artes plásticas e música,
nessa escolha? Em outras palavras, como a singularidade de certo texto será atualizada em
dado horizonte histórico, geográfico e literário? Essa problemática abrange pesquisas sobre a
presença de autores estrangeiros no Brasil e, inversamente, investigações sobre a presença de
escritores brasileiros no exterior.
Inúmeros são os estudos que examinam as afinidades entre autores estrangeiros e brasileiros
ou o modo como certos escritores foram acolhidos no Brasil, refletindo sobre a maneira como
foram traduzidos e/ou aclimatados em solo brasileiro em determinado período de nossa
história. Numerosos também são os ensaios sobre a edição de autores brasileiros no exterior
em que são analisadas as diversas variáveis que vieram a definir sua presença nesses países.
Um dos casos mais conhecidos é o de Jorge Amado: se, nos Estados Unidos, sua tradução, na
década de 1940, insere-se no quadro da política de boa vizinhança idealizada pelo presidente
Roosevelt, na França, sua edição correspondeu à sua militância comunista de então. Quanto a
Guimarães Rosa, publicado na Itália, França, Alemanha e Estados Unidos ao longo dos anos
1960, como explicar a defasagem, na França, entre a crítica positiva de Corpo de baile e
Grande sertão: veredas e o fraco nível de venda desses livros, enquanto na Alemanha o
romance do escritor mineiro esgota rapidamente três edições? Outros exemplos: Joaquim
Nabuco, Ribeiro Couto e Sérgio Milliet tiveram algumas de suas obras publicadas
exclusivamente no exterior. O primeiro, em razão do contexto político; o segundo e o terceiro,
por terem vivido parte de suas vidas fora do solo nacional. Podemos observar que esse
fenômeno acontece também em sentido inverso: tal é o caso do recentemente publicado
Diálogo entre filhos de Xangô (correspondência entre Pierre Verger e Roger Bastide, com notas
e prefácio de Françoise Morin e tradução de Regina Salgado Campos), editado exclusivamente
no Brasil em 2017. Outros exemplos poderiam ainda ser lembrados, como Georges Bernanos
que, exilado no Brasil, escreveu, em sua língua natal, obras que seriam inicialmente publicadas
por seu editor no Rio de Janeiro. Quanto à relação interartes, encenações teatrais –
como Morte e vida severina, laureada no IV Festival Mondial du Théâtre Universitaire de Nancy
em 1966 – e realizações cinematográficas – como Orfeu Negro, Palma de Ouro em 1959, O
pagador de promessas, Palma de Ouro em 1962, e Vidas Secas, Giano d’Oro em 1965 – teriam
impactado a recepção literária posterior dessas obras? A boa recepção de nossa música –
particularmente a popular – teria igualmente aberto espaço para outras formas de
manifestações artísticas brasileiras no exterior?
Por diferentes que sejam as circunstâncias da edição de um texto no exterior, é preciso que o
pesquisador as considere em sua análise: em que língua foi inicialmente escrita a obra
estudada? No caso de ter sido traduzida, de que perspectiva foi realizada a tradução? Como foi
escolhido o tradutor? Teve ele com o autor algum contato? Como a obra foi vista no sistema
115
literário ou político que a acolheu? Foi lida com base nos mesmos parâmetros em dois locais e
momentos diferentes? Que paratextos a acompanharam? Foi percebida em sua singularidade
ou assimilada ao conjunto das obras de mesma nacionalidade? Causou impacto ou deixou
indiferentes seus leitores? Que papel teria desempenhado, na recepção de um livro, o sucesso
crítico de filmes, peças teatrais, exposições ou canções? Apenas o estudo da publicação de
cada autor e obra em certo local e época pode responder a essas questões e formular aquelas
a serem debatidas.
Evolução do trabalho desenvolvido nas três últimas edições da ABRALIC, nos simpósios
“Diálogos Brasil-França: tradição e renovação” (2016-2017) e “Escritores brasileiros no
exterior, escritores estrangeiros no Brasil: experiências, textos e contextos” (2018), o
presente simpósio contempla diversas línguas e culturas e acolhe investigações que abordem
as experiências e o complexo processo de publicação e recepção de um escritor em um
determinado país, refletindo sobre as mediações que se estabelecem entre o texto original
e/ou traduzido, o seu horizonte de recepção – abarcando questões relativas ao possível
impacto que a divulgação de outras artes possa ter provocado em sua leitura – e os vários
atores que participam de sua edição, interpretação e divulgação em seu país de origem e/ou
no estrangeiro.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
116
16/07 (TARDE)
Norma Wimmer
17/07 (MANHÃ)
117
CONTEXTO SISTÊMICO DAS QUATRO TRADUÇÕES PARA O PORTUGUÊS BRASILEIRO DE MRS
DALLOWAY, DE VIRGINIA WOOLF
Franciele Graebin
17/07 (TARDE)
Valéria Augusti
Resumo: Uma das mais recentes e produtivas consequências do chamado giro afetivo (Gregg;
Seighworth, 2010), é aquela que relaciona os estudos do espaço e dos afetos - paisagens
afetivas em Depetris (2016), geografia afetiva em Pile (2009) e geografias emocionais em
Davidson, Bondi e Smith (2005), entre outros. Geografias, cartografias e mapas afetivos são
118
denominadores comuns que, em muitos casos, não só remetem a conceitos, metáforas ou
símbolos, mas que tratam, com efeito, da relação quase sempre tensa que se estabelece entre
os espaços - sejam eles urbanos ou rurais, reais ou ficcionais - e os afetos que suscitam ou que
são postos em circulação por diversos corpos que os habitam ou os atravessam.
A partir do século XX, vive-se no Brasil uma transformação social e cultural acelerada,
motivada pela introdução e intensificação de diversos projetos de modernização que trazem
consigo mudanças dos modelos de produção econômica e que consequentemente involucram
deslocamentos de população, assim como o nascimento das indústrias culturais e os meios de
comunicação de massa. Todas estas instâncias desempenham um papel na configuração de
novas e diversas formas de subjetividades que elaboram imaginários especiais vinculados a
estas experiências e põem em circulação diferentes afetos e formas de relacionamentos.
Atualmente, estas transformações assumem a face de um modelo neoliberal que se movem
em pequena e grande escala e que se promove como o único paradigma de modernização
possível. Assim, no percurso destes contextos históricos e sociais a relação entre espaços e
sujeitos se problematiza e de certa forma reflete as implicações e consequências de seus
embates. Por um lado, estes sujeitos enfrentam as condições e transformações a que os
submetem os próprios processos de modernização como uma experiência de restrição a um
espaço muitas vezes sentido como alheio e hostil, que se vive como um estreitamento ou
achatamento para a manifestação de seus afetos, cujo espectro fica visivelmente submetido à
vivência mais crua. Mas os próprios sujeitos entretecem uma configuração afetiva do espaço
desde a qual realizam suas relações sociais, suas identidades e suas práticas políticas e
culturais; enfim, espaços e afetos funcionam como um eixo de interligação, como uma trama
complexa na qual são os afetos dos indivíduos e seus regimes de corporalidade os que
desenham, delimitam e definem o estatuto de um lugar e as fronteiras de um espaço. Os
sentidos e os limites espaciais são efetivamente produzidos no vai e vem de um conjunto de
indivíduos, e dita produção pode ou não entrar em conflito com os movimentos de biopolítica
que definem os espaços e as regras dos deslocamentos fora e dentro dos mesmos.
Neste simpósio nos interessa analisar os modos em que esta relação entre subjetividades e
espaços é apresentada e analisada na narrativa e no cinema brasileiros desde inícios do século
XX em adiante, com o objetivo de vislumbrar um possível mapeamento do circuito de afetos
(Safatle) que abarque não só a submissão de corpos e espaços a emoções e afetos
predeterminados, senão também a sua potência produtiva e liberalizadora. Na história da
literatura e do cinema brasileiros do século XX podemos rastrear um catálogo de espaços que
têm sido efetivamente cartografados do macro ao micro, da manifestação das biopolíticas
modernizantes às experiências dos sujeitos que vivem nesses espaços e lhes outorgam
sentidos: são os sertões de Euclides da Cunha, mas também o sertão de Fabiano e Sinhá
Vitória em Vidas Secas de Graciliano Ramos e os sertões cinematográficos de Nelson Pereira
dos Santos e Glauber Rocha ou o de Riobaldo en Grande Sertão: veredas; é a selva amazônica
de Gálvez, mas também o Xingú de Nando em Quarup ou o olhar do retorno de Avá em Maíra,
e a selva de Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade; é a vivência de Pedro Rubião diante
das elites cariocas em Quincas Borba, e também de Macabea em A hora da estrela; é a vida na
favela nos contos de João Antônio, mas também a vida de Zé Miúdo de Paulo Lins, de Zé
Pequeno de Fernando Meirelles e Katia Lund ou o ódio favelado de Ferréz.
Referências:
DAVIDSON, Joyce; BONDI, Liz; SMITH, Mick (eds.). Emotional geographies. Ashgate:
Aldershot, 2005.
119
DEPETRIS CHAUVIN, Irene. Geographies of Love(lesness). Space and Affectivity in Viajo Porque
Preciso, Volto Porque Te Amo (Aïnouz and Gomes, 2009) and Turistas (Alicia Scherson, 2009).
Journal of Latin American Cultural Studies, vol. 25, nº 2, 2016.
GREGG, Melisa; SEIGHWORTH, Gregory (eds.). The affect theory reader. Durham: Duke
University Press, 2010.
MALPAS, Jeff (ed.) The place of landscape: concepts, contexts, studies. Cambridge, Mass.: The
MIT Press, 2011.
PILE, Steve. 2009. Emotions and Affect in Recent Human Geography. Transactions of the
Institute of British Geographers. Disponible en [Link]
[Link]/doi/epdf/10.1111/j.1475-5661.2009.00368.
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo.
Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Horst Nitschack
Rebeca Errazuriz
120
16/07 (TARDE)
Macarena Mallea
17/07 (TARDE)
Camila Carvalho
LAS CINCO ESTACIONES DEL AMOR DE JOÃO ALMINO: CIUDAD FICTICIA, AFECTOS REALES
Natalia López
121
AFECTOS Y PERIFERIA EN LA POÉTICA DE ALESSANDRO BUZO
Jorge Cid
122
● Naturalização de pressupostos e descomplexificação da teoria no ensaísmo de
Antonio Candido;
● Aporias e limites da teoria, crítica e historiografia candidianas;
● Candido, letras coloniais e outros regimes discursivos;
● O nacional-literário: vetos, sequestros e denegações;
● Candido, esteticismo e experimentalismo;
● Candido e a nostalgia do nacional-popular e da humanização;
● A teoria empenhada: famílias e heranças críticas;
● Eurologocentrismo e universalidade ideológica em Antonio Candido;
● Razão imperial, colonialismo e especificidade cultural em Antonio Candido;
● Direito à literatura e discriminação social;
● As premissas antropológicas do pensamento candidiano;
● Candidismo e cordialidade no campo dos estudos literários no Brasil:
sociabilidade, doxa e institucionalidade;
● Pós-humanismos, pós-modernismos, pós-colonialismos e a obra candidiana;
● Proposições cosmopolíticas no enfrentamento das cândidas alteridades: o pobre,
o caipira, o irracional, o primitivo e o iletrado;
● Antonio Candido em comparação e confronto com escritores, ensaístas, críticos
literários de diferentes extratos, países e linhagens;
● Estranhando as apropriações de Antonio Candido no ensino de literatura.
● Candido x Machado; Candido x Graciliano; Candido x Rosa; Candido x Clarice;
Candido x Mário X Oswald.
16/07 (MANHÃ)
(RISOS)
Marcos Natali
Marcelo Moreschi
16/07 (TARDE)
Eduardo Toro
124
17/07 (MANHÃ)
Mariana Ruggieri
17/07 (TARDE)
UMA LENTA E GRANDE DISSOLUÇÃO: NOTAS SOBRE ANTONIO CANDIDO E CLARICE LISPECTOR
125
35 - ESTRATÉGIAS NARRATIVAS NA LITERATURA DE EXPRESSÃO
PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA
Coordenação: Prof. Dr. Ulysses Rocha Filho (UFG); Profª. Drª. Tainara Quintana da Cunha
(FURG)
126
corresponde a uma periodização interseccionada com os fatores sociais e também, trata-
se de um fenômeno cujo dimensionamento está entrosado com a instância canônica, ao
mesmo tempo em que a ultrapassa, promovendo a revisão de valores estéticos e formais.
Quanto ao texto, a literatura faz-se lugar de transformações na figura da personagem, do
narrador, do tempo e do espaço enquanto elementos essenciais da narrativa permeada
pela intertextualidade, de acordo com Reis (2006), e graças à expressão fabuladora do
artista que experimenta sua própria inserção na obra literária. Na era da velocidade e
dos inúmeros deslocamentos (de sentidos, valores, identidades), a fabulação de
episódios descontínuos, heterogêneos e fragmentados aponta para a ultrapassagem do
tempo das grandes narrativas norteadas pela abrangência da totalidade. Neste sentido,
no Simpósio Estratégias Narrativas na Literatura de Expressão Portuguesa
Contemporânea serão aceitos trabalhos que visem à discussão da atualização de temas
nas obras do período delimitado sob os pontos de vistas da intertextualidade, do cânone,
da experimentação e do comparatismo, de onde possam advir contribuições que
fomentem a discussão a partir dos múltiplos olhares dos pesquisadores envolvidos, além
de agregar e entrecruzar experiências brasileiras e estrangeiras em que pese à
possibilidade de divulgar os estudos culturais e literários no âmbito dos Países de
Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
Palavras-chave: Gêneros literários. Fronteiras e ambiguidades. Literaturas de língua
portuguesa.
Referências:
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 8ª ed., São
Paulo: T.A. Queiroz, 2000.
CARVALHO, Alfredo Leme Coelho de. Foco narrativo e fluxo de consciência: questões de teoria
literária. São Paulo: Pioneira, 1981.
COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2ª ed., São Paulo: Contexto, 2014.
FERREIRA, Manoel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. São Paulo: Ática, 1987.
LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins
Fontes, 1992.
KRISTEVA, Julia. O Gênio do Feminino: a vida, a loucura, as palavras. Hannah Arendt. Rocco:
Rio de Janeiro, 2002.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart
Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
127
TUTIKIAN, Jane. Questões de identidade: a África de língua portuguesa. Letras de Hoje. Porto
Alegre, v. 41, n°3, p. 37-46, setembro, 2006.
PROGRAMAÇÃO:
17/07 (MANHÃ)
17/07 (TARDE)
128
“SORRY. I DON’T SPEAK ENGLISH”: A CONDIÇÃO MIGRANTE NAS NARRATIVAS DE INÊS
PEDROSA
Resumo: Os estudos retóricos e poéticos vêm recebendo uma atenção renovada nos últimos
anos, na academia, seja na esteira de trabalhos que procuraram resgatar a importância da
disciplina de Retórica, como os de George A. Kennedy (Classical Rhetoric and Its Christian and
Secular Traditions) e Brian Vickers (In Defense of Rethoric), seja, principalmente, na relação
dessa com a crítica literária, na tentativa de retomar uma relação íntima com as poéticas
anteriores à Modernidade. Se a crítica humanista e estilística de meados do século XX já
alertava para a importância de uma reconstrução histórica das formas de escritura, como já se
notava em Erich Auerbach, em seu clássico Mimesis, ou ainda no monumental Literatura
Europeia e Idade Média Latina, de Ernest Robert Curtius, seria necessário ainda um pouco mais
de tempo para que, no Brasil, houvesse um redirecionamento dos estudos literários nesse
sentido. Sinais do interesse global que tem azeitado a produção da pesquisa científica em tais
domínios ocorrem com a maturidade manifesta dos altos estudos acerca da obra de escritores
emblemáticos das letras luso-brasileiras, como o padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de
Matos. Assim, trabalhos como os de João Adolfo Hansen (A Sátira e o Engenho) e Alcir Pécora
(Teatro do Sacramento) são fundamentais para os estudos poéticos e retóricos no Brasil.
Também é notório o desenvolvimento da pesquisa sobre a obra teológica de Vieira, na
condição de réu do Tribunal do Santo Ofício, realizada pela profa. Adma Muhana, grandeza na
qual se inclui a edição dos “Autos do processo” de acusação a que o padre foi submetido
durante décadas do século XVII, pela Inquisição de Portugal, e a publicação de textos
proféticos do autor luso-brasileiro). Desse modo, esses trabalhos, dentre outros, foram
emblemáticos para o resgate dessas formas de representação, já que apontam para a
necessidade de reconstruir "arqueologicamente", nos dizeres de Hansen, textos anteriores ao
final do século XVIII, que, não raro, eram lidos pela crítica sob viés anacrônico, ou, pior ainda,
considerados de pouca ou nenhuma relevância para o leitor contemporâneo. Essa renovação
tende a romper um círculo vicioso de desinteresse e desconhecimento das letras escritas antes
que vigorasse a concepção dita “moderna” nas artes, pontualmente antes de meados do
século XVIII, quando, como se sabe, todo a forma mentis e a escrita foram profundamente
alteradas e mesmo rompidas. Observam-se, neste sentido, incentivos no mundo editorial,
traduzido na publicação de numerosas obras jamais editadas, colocadas presentemente no
circuito comercial de venda de livros, bem como estímulos no âmbito da pesquisa acadêmica,
129
em alguns (poucos) nichos dos estudos clássicos e classicistas, para se recorrer a dois termos
generalizantes, presentes na história literária. Isto posto, a tendência é que os estudos sobre
as práticas retóricas e os fazeres de poéticas reconquistem algum espaço nos currículos
escolares, no debate científico, no mercado livreiro, nas instituições globais de produção e
disseminação dos saberes, como bibliotecas, institutos, academias e universidades - domínios
de que vêm sendo predominantemente alijados por razões várias, cuja compreensão, debate e
rejeição fazem parte do interesse deste Simpósio da Abralic, dentre outros mecanismos de
ação reflexiva.
Assim, este Simpósio de "Estudos Retóricos e Poéticos" pretende discutir trabalhos nos
campos da poética e da retórica, especialmente voltados para corpora das letras antigas e
modernas (até o final do século XVIII), tendo como objetivos principais: elaborar um panorama
das atividades de pesquisa realizadas no Brasil sobre preceptivas e produções retóricas e
poéticas; estabelecer redes associativas de conhecimento e divulgação dessas pesquisas e de
seus objetos; definir mecanismos institucionais para a troca de informações; agregar
pesquisadores de temáticas afins com objetivo de divulgação de resultados de trabalhos;
vitalizar a produção acadêmica brasileira nos domínios dos estudos retóricos e poéticos. Para
tanto, propõem-se os seguintes eixos temáticos em que podem se inserir as propostas de
comunicação:
Espera-se, desse modo, que os trabalhos deste Simpósio mostrem antes ruínas letradas do que
construções atemporais anacronicamente idealizadas, recorrendo-se àquilo que enforma essas
práticas letradas em seus próprios tempos, em especial, às technai retórica e poética e às
matérias elaboradas tecnicamente, para que se compreendam melhor as especificidades de
tempos que não são os da “modernidade literária”.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
130
Ana Carolina dos Santos Castro
16/07 (TARDE)
Matheus de Brito
Leonardo Zuccaro
Marcelo Lachat
17/07 (MANHÃ)
NOTAS PARA UM ESTUDO DO ÍNDICE DAS COISAS MAIS NOTÁVEIS NAS LETRAS SEISCENTISTAS
LUSO-BRASILEIRAS
131
Jean Pierre Chauvin
17/07 (TARDE)
Janaina Kanitz
18/07 (MANHÃ)
Marcus De Martini
132
37 - ESTUDOS SOBRE AS NOVAS TENDÊNCIAS LITERÁRIAS
BRASILEIRAS CONTEMPORÂNEAS
Coordenação: Prof. Dr. Herasmo Braga de Oliveira Brito (UESPI); Prof. Dr. Alan
Bezerra Torres (IFCE); Prof. Dr. Edilson Floriano Souza Serra (IFMT)
Resumo: O presente Simpósio traz como foco o estudo comparativo das produções
literárias com intuito de analisar as suas configurações, circunscrevendo-se a uma
temporalidade que vai da década de 60 do século XX aos dias atuais. A literatura
brasileira contemporânea é heterogênea e de difícil definição. Ainda assim, algumas
tendências são claras em seu interior. Ao lado de um conjunto majoritário de obras que
se mantêm presas à ambientação e às preocupações mais tradicionais da narrativa no
país. Para empreender tal estudo, valer-nos-emos das análises destas diversas tendências
da Literatura Brasileira Contemporânea para configurá-las. Podemos ilustrar algumas
destas tendências que o Simpósio se propõe a discutir: Neorregionalismo, Autofficção,
Ecce Homo Fictus, Cidadania e Vulnerabilidade Histórica Contemporânea,
Centramento do homem moderno, Migração, deslocamento e tradução na literatura
brasileira contemporânea, Metaficção e romance histórico, A Descoberta do mundo em
si, Entre Representação e Autorrepresentação dos Neomarginalizados. Assim, temos no
tocante ao Neorregionalismo Brasileiro, como elementos para base da categorização: a
autonomia feminina, a predominância não mais do espaço rural, mas sim urbano, a
tônica da escrita como fator de resistência e de memória dos aspectos regionais.
Podemos exemplificar essas caracterizações do Neorregionalismo Brasileiro em obras
como: Beira Rio, Beira Vida de Assis Brasil - Sombra Severa de Raimundo Carrero -
Cinzas do Norte de Milton Hatoum - Coivara da Memória de Francisco
Dantas, Galiléia de Ronaldo Correia de Brito. Em relação à Autoficção entendida
“como um apagamento do eu biográfico, capaz de constituir-se apenas nos
deslizamentos de seu próprio esforço por contar-se como um eu, através da experiência
de produzir-se textualmente”. Entre os autores podemos citar: Silvano Santiago com O
Falso Mentiroso, Cristovão Tezza com O Filho Eterno. A literatura de tendência
denominada Ecce Homo Fictus, constitui-se em uma mescla de aspectos: biográficos,
ensaísticos, de críticas literárias e artísticas, e momentos históricos, em meio a
narrativas memorialistas. No Brasil, podemos citar a produção ficcional de Silvano
Santiago Em Liberdade e Machado, Ana Miranda com Boca do Inferno. Diante da
tendência Cidadania e Vulnerabilidade Histórica Contemporânea podemos destacar
poemas de Tatiana Pequeno da Silva, a ficção de Rubens Figueiredo, e as notas
autobiográficas de Marcus Vinicius Faustini, é possível identificar as configurações
representativas do deslocamento coletivo das classes populares urbanas apontando para
o passado histórico das tensões de raça, de classe, e de poder dentro. Em Centramento
do homem moderno, temos na prosa contemporânea a fragmentação narrativa ao
entendimento do homem moderno, observamos que na prosa brasileira a partir da
década de 1960, uma perspectiva de abordagem menos realista, influenciada,
principalmente, por Clarice Lispector e João Guimarães Rosa. Na tendência Migração,
deslocamento e tradução na literatura brasileira contemporânea uma pergunta chave é
a formulação dos conceitos de literatura, o contemporâneo e o brasileiro. Ou, seja, como
podemos pensar na literatura e, especificamente, a brasileira num momento
contemporâneo quando a literatura expande e existe fora do seu campo previamente
133
limitado à palavra escrita e quando a definição de nacionalidade em si existe em
contestação e expansão? Em Metaficção e Romance Histórico, observamos na sua
configuração um ecletismo formal, que faz o objeto percorrer as esteiras do ensaio e da
ficção, o romance exige a análise dos intertextos que compõem o tecido verbal, direta e
indiretamente em que os elementos essencialmente explícitos, constituídos por citações,
paráfrases e outras referências diretas, merecem ser investigados não como anexos, mas
suportes, partes constituintes da ideia de enredo e, até mesmo, da técnica dos autores.
Na tendência A Descoberta do mundo em si, temos na obra de Clarice Lispector uma
nítida representação da busca de respostas para o mistério do feminino, colocando a
mulher confrontada consigo mesma e com o homem. E, Entre Representação e
Autorrepresentação dos Neomarginalizados, observamos a possibilidade de notar a
emergência de novas vozes, especialmente no que tange à representação de grupos
sociais historicamente marginalizados (DALCASTAGNÈ, 2012).
Alguns dos teóricos a nos subsidiar nesta empreitada são: Araújo (2010), Bachelard (1993),
Bakhtin (2011), Bueno (2006), Candido (2000, 2006), Chiappini (2014), Martins (2014), Rocha
(2007), Williams (1989), Le Goff (2003), Ricouer (2007, 2010a, 2010b, 2010c).
Assim, esperamos contribuir para a produção de uma síntese compreensiva das tendências
literárias contemporâneas brasileiras. Evitando subsumir a literatura à pura dimensão lúdica,
pretendemos nos encaminhar para uma profundidade discursiva sobre as configurações das
tendências, suas influências e sua relevância diante do cenário mundial de homogeneização da
cultura.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
134
Alan Bezerra Torres
Daniele Santos
17/07 (TARDE)
Márcia Mucha
18/07 (TARDE)
135
O “DUPLO” NO CONTO “DESAPARIÇÃO” DE LETÍCIA WIERZCHOWSKI
Roseli Bodnar
Resumo: Nesta proposta de simpósio, o foco será a etnopoesia entendida como a relação
entre poesia - enquanto produção de conhecimento -, e sua relação com a
etnologia/antropologia, cujo objeto é o estudo do homem, o antropos. Assim, a etnopoesia
expressa a produção do conhecimento gerado por uma comunidade dada, em um espaço-
tempo específico, quer esteja essa comunidade no âmbito rural, quer esteja ela no âmbito
urbano, e sendo que tal conhecimento organiza-se também do ponto de vista estético. Esse
conhecimento organiza-se a partir de uma informação que é de ordem estética, com regras
que constroem um conhecimento específico, visível a partir dos dispositivos da poesia
impressa na página, ou nas inter-relações entre diferentes textos editados, ou também nas
condições de coleta de um material oral e que nos chega compilado sob a forma escrita. Cada
um desses elementos – outros decorrentes da pesquisa – deve ser trazido à tona no intuito de
circunscrever as condições em que deu-se esse conhecimento, e por quais transformações
passaram tais categorias analíticas presentes no material etnopoético. O que lemos é o
resultado desse conjunto de decisões. Tais análises revelam as categorias analíticas que
estruturam o material etnopoético, categorias essas passíveis de serem apreendidas por meio
da tradução. Porque é apenas pela tradução que esse material chega até nossas mãos. Decorre
daí a importância de refletir sobre a relação entre etnopoesia e tradução, esta última
entendida como espaço epistemológico para a construção e transmissão de conhecimento.
136
Eis porque, traduzir constitui-se em um diálogo entre diferentes tradições linguístico-culturais
em jogo, como, por exemplo, no caso da tradução das línguas indígenas, mas também de
línguas consideradas próximas. Esse diálogo considera a relação complexa entre tradições
linguísticas e culturais distintas, objetivando compreender a maneira como se deu essa
relação, e seu impacto no âmbito da tradução a partir de variáveis – para citar apenas um
exemplo - tais como a importância política das línguas e culturas em presença uma das outras.
Isto implica um efeito unilateral, quando não devidamente observado, da língua politicamente
mais forte sobre a língua politicamente mais fraca. No âmbito da tradução, essa relação deve
ser explicitada e dialogada, de maneira a não obliterar as categorias analíticas de uma das
línguas em questão, deixando que tais categorias sejam transpostas, sem controle, em
proveito de uma e, claro, em detrimento da outra. O problema é que, desta maneira, desfaz-se
as categorias analíticas – e suas relações cognitivas e epistemológicas - na base do
conhecimento. Da mesma maneira, tradução é o resultado de um processo longo e complexo
onde o que deve ser objeto da tarefa do tradutor – na perspectiva de Walter Benjamin - é
identificar a lógica que impera no texto, seu contexto histórico-social, as condições de coleta
do material caso estejamos falando de textos em outra dimensão temporal, ou estruturado na
base da oralidade. Esse é o processo que permitiu a construção do texto, expressão do outro
em sua alteridade. Por parte do tradutor, coloca-se a questão de como aproximar-se desse
lócus poético, composto por uma indissociabilidade entre língua e cultura multimilenárias, e
sabendo que o desconhecido é alcançado por meio do conhecido. Logo, referir-se à etnopoesia
implica em estudar também as variáveis tradutórias que conotam e denotam o texto, e não
apenas focar no resultado da tradução como algo desligado do contexto de sua produção. Por
etnopoesia entende-se que a poesia traz consigo uma concepção de mundo que deve ser
desvendada e não domesticada, nem apagada no âmbito da tradução.
Referências:
CADOGAN Leon. Ayvu Rapyta. Textos Míticos de los Mbyá-Guarani del Guairá. Asunción del
Paraguay. Biblioteca Paraguaya de Antropologia-vol. XVI. Fundación “Leon Cadogan”-Ceaduc-
Cepag. 1997.
CLASTRES Pierre. Le grand parler: mythes et chants sacrés des Indiens Guarani. Paris. Seuil.
1974.
CASANOVA Pascale. La République mondiale des Lettres. Paris. Seuil. Coll. “Points”. 2008.
137
ROSSI Ana Helena. Entrevista com Aryon Rodrigues. Traduzires. Postrad. v.1, n.2. 2012. p. 127-
131
PROGRAMAÇÃO
17/07 (TARDE)
TIHANOV, Galin, “Why Did Modern Literary Theory Originate in Central and Eastern Europe?
(And Why Is It Now Dead?)”, Common Knowledge, Vol. 10, No. 1, 2004. (Sobre as relações
entre o contexto intelectual da Europa do Leste, o formalismo russo e outras vertentes da
crítica literária).
SCHLÖGEL, Karl. Der große Exodus. Die russische Emigration und ihre Zentren 1917 – 1941.
Munique, 1994. (obra de referência que traz um amplo inventário crítico dos principais centros
de emigração russa).
WOLLF, Larry, Inventing Eastern Europe: the Map of Civilization on the Mind of the
Enlightenment, Stanford UP, 1994). (estudo sobre as representações e imagens de “Europa
Oriental” surgidas na Europa “Ocidental” no século XVIII).
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
Rafael Frate
140
FAZIL ISKANDER, WILLIAM FAULKNER, E A LITERATURA MENOR SOVIÉTICA
Cassio de Oliveira
17/07 (MANHÃ)
Evelina Hoisel
Martín Baña
Larissa de Assumpção
17/07 (TARDE)
141
O DIÁLOGO ENTRE LIMA BARRETO E DOSTOIÉVSKI
Jucelino de Sales
18/07 (MANHÃ)
Biagio D´Angelo
142
18/07 (TARDE)
19/07 (MANHÃ)
143
Thaís Figueiredo Chaves
Resumo: Machado de Assis é um escritor que revela, nas produções ficcionais, sua experiência
de leitor e de apreciador de arte, o que pode ser explicado por aspectos do contexto
sociocultural e por dados biográficos. Ambos parecem conciliar-se para registrar a progressão,
pari passu, da instalação de uma sociedade, que buscava afirmar-se no contexto das nações
civilizadas, e do processo de afirmação do mais reconhecido escritor brasileiro do século XIX.
Sob esse ponto de vista, dados do contexto sociocultural do Rio de Janeiro e a biografia de
Machado de Assis instituem fontes que, articuladas, alimentaram a memória do fazer artístico
do escritor e se fazem presentes em suas obras.
144
Nesse sentido, o simpósio acolhe comunicações que, sob uma perspectiva comparatista,
enfocam a relação do processo criativo de Machado de Assis com o sistema da literatura, com
outras manifestações artísticas e com o contexto histórico da produção e da recepção de suas
obras ficcionais. A partir desse foco centralizador, as comunicações podem tratar de aspectos
composicionais de narrativas e da instalação de significados metafóricos e alegóricos que,
frequentemente, tematizam eventos históricos; igualmente, podem restabelecer o diálogo dos
textos machadianos com outros textos literários e com elementos do teatro lírico e dramático,
da música e da dança que o escritor incorpora às suas criações. A reflexão poética que se
inscreve nos textos, a partir da qual Machado compõe a ficcionalização de uma teoria do fazer
poético, também tem espaço no âmbito do simpósio, que abrange, igualmente, trabalhos que
visualizem as marcas realistas que atravessam a prosa machadiana, revelando tensões
pessoais e sociais, de que o sistema escravista é exemplo, e os vínculos entre Machado e o
público leitor no Rio de Janeiro do século XIX e primeira década do século XX. A possível
convergência entre os projetos editoriais de periódicos em que Machado publicou e a
composição de suas obras é outro foco temático que o simpósio privilegia. Em síntese, o
simpósio contribui para a divulgação de pesquisas que adotam o enfoque comparatista e
valoriza a obra de Machado de Assis, vinculando-a ao momento sócio-histórico-cultural de sua
produção e de sua recepção.
PROGRAMAÇÃO
17/07 (TARDE)
18/07 (TARDE)
Desse modo, se o Estado brasileiro, muitas vezes, cooptou boa parte da idealidade para
(des)construir imagens e conceitos de povo (ensaios de nacionalidade patrocinados ou não
pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, ISEB, etc), em contrapartida, houve momentos
em que a literatura excedeu os padrões a que se dirigia, opondo o desterritorializado ao
territorializado (Deleuze), a terra à fronteira (Viveiros de Castro), o instinto à instituição
(Antelo). As figurações de povo e nação, assim, podem se disseminar transversalmente,
enquanto resistência a autoritarismos, liberação de corpos ou testemunho de violências.
147
populismos, com especial interesse nas experiências latino-americanas, sobretudo a brasileira.
Esperamos contribuições que investiguem: a) as figurações do povo, do popular e do
populismo nas literaturas e nas outras artes; b) novos trabalhos de arquivo que repensem o
nacional, as tradições populares ou expressões negadas pela historiografia tradicional; c)
reflexões teóricas sobre as aporias do termo povo (Agamben), sobre as mudanças dos públicos
de arte (Groys) ou sobre a construção da imaginação pública (Ludmer); d) a problemática das
distintas concepções que o termo populismo abrange, bem como a sua consideração como
fenômeno político efetivo (Laclau); e) questionamentos acerca da emergência de novos
“populismos”, especialmente aqueles relacionados com práticas e discursos
neoconservadores.
Referências:
AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Tradução de Henrique Burigo.
Belo Horizonte: UFMG, 2007.
BASTOS, Elide, RIDENTI, Marcelo, ROLLAND, Denis (Orgs.). Intelectuais e Estado. Belo
Horizonte: UFMG, 2006.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, 5v. São Paulo: Ed. 34,
1997.
GRAMSCI, Antonio. Cuadernos de la cárcel: literatura e vida nacional. 3. ed. México, D.F.: Juan
Pablos Ed., 1998.
LACLAU, Ernesto. La razón populista. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011.
LUDMER, Josefina. Aquí América Latina: una especulación. Buenos Aires: Eterna Cadencia,
2010.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985.
SARLO, Beatriz. Modernidade periférica: Buenos Aires 1920-1934. Tradução de Júlio Pimentel
Pinto. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
148
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Rachel Lourenço
17/07 (MANHÃ)
Luiz Nadal
Marcella Mesquita
149
EM “O MULO” HÁ UM POVO BRASILEIRO – A BRASILIDADE REPRESENTADA POR DARCY
RIBEIRO NA ANTROPOLOGIA E NA LITERATURA
18/07 (MANHÃ)
QUEM TEM O PODER? REFLEXÕES SOBRE O LÍDER POLÍTICO NOS ANOS TRINTA EM SAVERIO,
EL CRUEL (1936) DE ROBERTO ARLT
María Pape
Filipe Manzoni
Resumo: Neste simpósio, pretendemos acolher propostas de trabalho no campo dos estudos
da ficção fantástica, em sentido lato, que tenham como objetivo a compreensão dos
procedimentos insólitos de composição de espaço, tempo e personagens. A concepção de
ficção fantástica norteadora será a modal e, nesse sentido, os trabalhos poderão ter como
objeto de estudo diferentes vertentes do modo fantástico, como compreendido por Filipe
150
Furtado no E-dicionário de termos literários de Carlos Ceia, tais como o fantástico, o estranho,
o maravilhoso, a ficção científica, o gótico, o real(ismo) maravilhoso, o realismo mágico, o
realismo animista, dentre outras possibilidades que, pela diversidade, nos escapam. Para
Rosemary Jackson, principal base conceitual de Furtado, o fato de a literatura fantástica
abdicar de uma representação mimética do mundo propicia o alargamento de possibilidades
de construção literária. A estudiosa francesa Irène Bessière afirma, por sua vez, que a narração
fantástica não pode ser definida como uma categoria ou gênero literário, porque ela implica
uma lógica narrativa formal e temática. Bessière ainda assinala que a narrativa fantástica não
se define apenas pelo inverossímil, mas, especialmente, por meio da justaposição das
contradições dos variados inverossímeis que se fazem presente no nosso cotidiano.
Entendemos que a ficção fantástica, que desvela diversos níveis de inverossimilhanças e faz
irromper o insólito que nos rodeia, é deflagrada especialmente por um trabalho especial de
composição de espaços, tempos e personagens. São variadas espacialidades que instigam a
irrupção da ambientação insólita: não só os castelos góticos e as florestas soturnas, mas
edifícios que desaparecem ou que crescem indefinidamente, jardins que trazem mais de um
nível existencial das coisas e seres. O tempo que se instaura em um mundo ficcional do
fantástico revela-se insólito, como, por exemplo, a justaposição de tempos paralelos, o
ingresso em um outro tempo ou as temporalidades invertidas, cíclicas, expandidas,
congeladas, convergentes. A caracterização das personagens também implica a sugestão ou
explicitação de uma ordem insólita, que vai desde o corpo metamórfico ao corpo monstruoso,
sendo, enfim, personagens que se mostram a partir de uma diferença. Destarte, os trabalhos a
serem inscritos neste simpósio poderão partir de uma argumentação de ordem teórica, como
também refletir sobre a construção dessas variantes ficcionais por intermédio da análise de
obras que apresentem em sua trama a irrupção do insólito, procurando evidenciar recursos
em que o insólito seja desencadeado por intermédio de uma elaboração estética espacial,
temporal ou actancial. Temos a consciência de que a proposta do simpósio se abre “quase”
que indefinidamente, contudo, a abrangência não é total, uma vez que deixa fora de seu
conjunto as construções ficcionais que têm base em uma representação marcadamente
realista e não possibilitam a irrupção do insólito. Entretanto, admitimos que a abertura do
enfoque do simpósio é ampla, pois vai desde narrativas em que há apenas a sugestão de
eventos insólitos a narrativas em que o insólito é abertamente narrado ou aceito por
personagens e/ou leitores. A abertura ampla da proposta deve-se ao fato de pretendermos
demonstrar a enorme diversidade de formas de construção da ficção fantástica e, nesse
sentido, possibilitar a reflexão sobre alguns pontos polêmicos que envolvem os estudos dessas
variantes, como, por exemplo, rebater o fato de, na versão literária, estar encerrada
temporalmente nos séculos XVIII e XIX, e a ideia de que para haver o fantástico é necessário
que exista hesitação. A imagem de uma rede repleta de fios diversos possibilita-nos pensar
também na constituição da ficção fantástica, no enredamento do mundo diegético
apresentado por ela: um mundo em que espaços, tempos e personagens se intercalam, se
justapõem, se embaraçam para nos mostrar que o ilógico faz parte de nossa lógica cotidiana.
Consideramos esse mundo como rizomático, no sentido atribuído por Deleuze e Guattari,
porque um elemento – espaço, personagem ou tempo, por exemplo – pode se conectar
inesperadamente a outro e, na sequência desligar-se dele. A superposição de mundos ou de
possibilidades de mundos é, ao nosso ver, uma das estratégias de construção da obra
fantástica que, por essa perspectiva, pode ser entendida como heterotópica por natureza. A
ficção fantástica, com a apresentação de um mundo aparentemente tão insólito e plural, age
no sentido de promover a exageração ou o deslocamento do real e, por isso, sua
representação não apresenta uma negação do real, mas incita uma revisão dele. Para que a
revisão se concretize, é preciso mostrar que não existe “a” verdade, mas verdades, e dar um
151
foco diferenciado aos fatos expostos ordenadamente pelas instituições, que tentam discipliná-
los e arrumá-los, e é por esse motivo que a ficção fantástica promove constantes
deslocamentos – históricos e estéticos. Esperamos, portanto, que os trabalhos reunidos neste
simpósio demonstrem teórica e/ou analiticamente estratégias de construção da obra
fantástica (envolvendo tempo, espaço e/ou personagens) e descortinem a sua potencialidade
de revisão do real.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Danieli Tavares
POR PARTE DE PAI, DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS: A CASA DOS AVÓS COMO ESPAÇO
DO MARAVILHOSO
16/07 (TARDE)
17/07 (MANHÃ)
Flavio García
ARQUIPÉLAGOS DE UM PERSONAGEM
17/07 (TARDE)
153
Marcus Vinícius Lessa de Lima
18/07 (MANHÃ)
18/07 (TARDE)
154
43 - GÊNERO, CORPO E VIOLÊNCIA: REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA
LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
Coordenação: Profa. Dra. Cynthia Agra de Brito Neves (UNICAMP); Profa. Dra. Fernanda Valim
Côrtes Miguel (UFVJM)
Resumo: Quem são os sujeitos da ciência nas universidades e como constroem seus métodos,
objetos e espaços de circulação de saberes e de pesquisas? A quem servem esses
conhecimentos e com quais propósitos eles se articulam? Essas questões mais amplas se
aproximam da desconfiança recente na suposta objetividade científica dominante e de
interesses mais específicos no campo dos estudos literários contemporâneos ao sustentarmos
que as configurações estéticas das obras de arte não estão dissociadas de uma formação ética
das formas de vida. Defendemos que os textos literários podem “motivar empatias por parte
do leitor para situações importantes em termos éticos” (Ginzburg, 2013, p. 24). Nosso
interesse parte então de um questionamento sobre como a mulher vem sendo
discursivamente representada ou autorepresentada na literatura brasileira contemporânea e
como essas representações muitas vezes nos revelam temáticas da violência. Como são
narradas as violências de gênero? Como reconhecer o silenciamento histórico das vozes de
escritoras ao longo de nossa tradição literária canônica? Pode a literatura contemporânea
denunciar essas violências? A proposta deste simpósio surge como espaço constrangido de
privilégios que experimentamos na academia, mas igualmente como espaço para intervenção
política possível e urgente, como reconhece Heloisa Buarque de Hollanda (2018), no desejo de
enfrentar os retrocessos de nosso momento atual, explicitados recentemente em
depoimentos públicos de políticos, como o famoso: “menino veste azul e menina veste rosa” –
para ficarmos apenas com um dos exemplos controversos. Compartilhamos da formulação de
Hannah Arendt (2006) ao afirmar que “sem diálogo não há política” e do seu posicionamento
diante da tese da diferença entre culpa e responsabilidade. Segundo a filósofa, o lugar do
privilégio não pode se afastar da responsabilidade de agir, mesmo quando este lugar de
agenciamento político não se sente culpado pelas situações em que se manifestam as
desigualdades. O conservadorismo autoritário atual ameaça os debates em torno das questões
de gênero e feminismo, e isso não pode passar desapercebido. As discussões feministas têm
avançado no campo acadêmico nas últimas décadas, muito em função das lutas e articulações
dos movimentos sociais em várias partes do mundo. O nosso empoderamento recente parece
dialogar com os caminhos historicamente trilhados e com um exame crítico sobre os limites
dos avanços dessas discussões em amplas esferas. bell hooks (2000) argumenta que o
feminismo não é propriamente um movimento pela igualdade, mas uma luta contra a
opressão e contra a violência. A autora reconhece que as opressões não estão confinadas ao
sexismo, elas se expressam em outros locais, como nas relações de classe, no racismo e no
heterossexismo. Nancy Fraser (2006), em seu último livro, nos oferece um panorama
interessante em que coloca em perspectiva as sucessivas ondas feministas e suas principais
demandas, desde as lutas inicias em nome da justiça econômica – como a redistribuição de
papéis sociais e a remuneração no trabalho – até as demandas mais atuais – como o
reconhecimento das diferenças na igualdade e da igualdade na diferença, em que a noção de
gênero é recolocada sobretudo como construção cultural e historicamente constituída,
afastando-se das heranças dualistas, essencialistas e heteronormativas. Nesta última década,
assistimos ao crescimento da demanda pela justiça política, na qual a noção de “lugar de fala”
e o poder da linguagem são tomados como plano central das agendas e dos debates, o que
155
aponta para o fim da mediação discursiva e contesta a divisão excludente dos acessos da
mulher aos espaços políticos. Discussões como as de Gayatri Spivak (1988); Judith Butler
(1990), Regina Dalcastagnè (2012); Dijamila Ribeiro (2017) e Borges (2016) são importantes
para pensamos os modos como a literatura tem sido usada para recalcar manifestações
culturais, orais e escritas, de grupos culturalmente marginalizados e politicamente reprimidos.
Acreditamos ainda que a linguagem poética, ao desestabilizar os lugares fixos e hegemônicos
tradicionais, ultrapassa as contradições sociais e aponta para novas perspectivas de mudanças
possíveis, tal como o modismo dos slams. Nesse sentido é que a poesia pode ser uma arma
política, seja como espaço de memória, seja como resistência – ou reexistência, no neologismo
de Souza (2011). Por fim, compreendemos a violência de gênero a partir de uma perspectiva
histórica, (re)produzida por seres humanos em condições concretas e situadas, marcada pelo
patriarcalismo, a base mais primária dos valores culturais que sustentam nossos saberes
ocidentais e que precisam ser amplamente debatidos, assim como qualquer compreensão
universalista de juízo de valor. Este simpósio busca, portanto, reunir trabalhos e pesquisas de
diferentes reflexões críticas e teóricas interessadas nos debates aqui pontuados, sobretudo
nos modos como as mulheres vêm sendo representadas ou autorepresentadas na literatura
brasileira contemporânea. Interessa-nos as imagens estéticas das violências de gênero, como
são construídas, quais os impactos delas nos modos de constituição das personagens, nas
narrativas e nas poesias. A ideia é criar novas cartografias desses corpos femininos, baseadas
em uma política capaz de deslocar as bases da racionalidade ocidental, as perspectivas
eurocêntricas, os binarismos assimétricos e essencialistas.
Referências:
ARENDT, Hannah. O que é política? Trad. Reinaldo Guarany. 6 ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2006.
BORGES, Rosane da Silva. Esboço de um tempo presente. Rio de Janeiro: Malê, 2016.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Trad. Renato
Aguiar, 16 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
HOLLANDA, Heloisa Buarque. Explosão feminista. São Paulo: Cia das Letras, 2018.
HOOKS, bell. Feminist Theory: From Margin to Center. Second Edition. London: Pluto Press,
2000.
_______ Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
SOUZA, Ana Lúcia Silva. Letramentos de reexistência: poesia, grafite, música, dança:
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Trad. Sandra Regina Goulart Almeida.
156
Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Trad. José Carlos Bruni. São Paulo: Abril
Cultural, 1979. (Os Pensadores, XLVI).
_______ Cultura e valor. Trad. Jorge Mendes. Lisboa: Edições 70, 2000.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
157
Cynthia Agra de Brito Neves
17/07 (TARDE)
158
Giselle Leite Tavares Veiga
18/07 (TARDE)
MASTIGA LEMBRANÇAS, ESCREVE ESPERANÇAS: POR QUE SOU GORDA, MAMÃE?, DE CÍNTIA
MOSCOVICH
VOZES QUE NÃO SÃO OUVIDAS, CORPOS QUE NÃO TÊM LUGAR: A VELHICE EM MARIA
VALÉRIA REZENDE
159
44 - HISTÓRIA LITERÁRIA, CRÍTICA E HISTÓRIA DA TRADUÇÃO:
TRAMAS E SENTIDOS
Coordenação: Prof ª Drª Germana Henriques Pereira (UnB); Drª Marlova Gonsales Aseff (UFSC)
Resumo: A relação entre a história da tradução e a história literária se define por ausências e
conflitos, apesar de evidentes objetos e metas conjuntas. É fato que a literatura traduzida e,
principalmente, a atuação de escritores como tradutores até hoje receberam pouca atenção
nas histórias da literatura brasileira. Trata-se, evidentemente, de um paradoxo, pois, no caso
dos escritores-tradutores, os mesmos contribuem para a construção de um espaço literário
nacional e legitimam, no mesmo gesto, o capital literário das nações centrais, como salienta
Casanova (2002, p.179). No tocante à literatura traduzida, Even-Zohar pontua que “via de
regra, as histórias das literaturas mencionam as traduções quando não há maneira de evitá-las,
quando tratam, por exemplo, da Idade Média ou do Renascimento” (1990, p. 45). O problema
é que a referência pouco sistemática a casos isolados não permite que se alcance uma ideia
clara do papel exercido pela literatura traduzida em nosso sistema literário em diferentes
épocas ou, nas palavras de Even-Zohar, da posição ocupada por esse tipo de literatura no
nosso sistema. Entretanto, no campo da literatura, a tradução parece ser o veio fundamental
para se compreender as vogas estéticas e suas reconfigurações, a invenção de técnicas
narrativas e poéticas, bem como a renovação de temas e repertórios. Ignorar essa gama de
textos constitui-se num problema para a historiografia, uma vez que, como lembra Lefevere,
as reescrituras (entre elas, os textos traduzidos) “tendem a desempenhar um papel tão
importante no estabelecimento de um sistema literário quanto ao das escrituras originais”
(LEFEVERE 2007, p. 54), não somente porque a maioria dos leitores tem acesso aos textos da
tradição ocidental por meio de traduções, mas porque, como dissemos há pouco, esse sempre
foi um meio eficaz tanto de afirmar quanto de repelir modelos literários. Para Lambert, o
conceito de literatura nacional que costuma orientar as pesquisas e o ensino da literatura está
fundamentado sobre uma noção “ingênua” de fronteiras entre literaturas, sejam essas
políticas ou linguísticas (2006, p.24). Ele ressalta que os gêneros literários em nossa época são
bastante internacionais, mas que isso não os impede de assumirem também algumas
características locais. Por isso, lembra que “a identidade das literaturas nacionais parece
corresponder a realidades relativas e não a uma essência” (p. 34). No entanto, a insistência em
se estudar a literatura nacional buscando uma suposta “autonomia” é um paradigma que
ainda não foi devidamente rompido.
Isso tudo sem entrar na questão da tradução como criação e no modo como nossa cultura
entende o conceito de autoria. Antoine Berman lembra que nem sempre houve a
diferenciação entre tradução e criação, ao ponto de se considerar a primeira como uma escrita
secundária e de menor valor. A distinção entre um texto original e um texto secundário
(tradução, comentário, recriação, adaptação) não existia verdadeiramente na Idade Média,
fato que só começa a mudar no Renascimento, quando começam a aparecer as noções de
original e de autor tais como as conhecemos hoje (BERMAN, 2011, p. 91).
Tendo essas questões no horizonte, este simpósio acolhe estudos sobre traduções que
marcaram época na história literária brasileira, sobre antologias de poesia traduzida e coleções
de romances publicados no Brasil no século 20 e 21, reflexões sobre traduções e retraduções
de clássicos, de poesia, de prosa e de prosa poética. Serão igualmente bem-vindos estudos
sobre o trabalho tradutório de escritores brasileiros, tanto em relação às circunstâncias de
suas escolhas tradutórias, modos de traduzir, arqueologia da obra tradutória, relações com a
obra própria ou reflexões acerca do ato de traduzir.
160
Referências:
CASANOVA, Pascale. A república mundial das letras. Tradução de Marina Appenzeller. São
Paulo: Estação Liberdade, 2002.
EVEN-ZOHAR, Itamar. Polysystem studies. Poetics Today - International Journal for Theory and
Analysis of Literature and Communication, Volume 11, n.1., 1990.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
161
Natália Oásis de Oliveira
17/07 (MANHÃ)
A PEÇA TEATRAL "A STREETCAR NAMED DESIRE" TRADUZIDA NO BRASIL: ENTRE O PALCO E A
162
PÁGINA
18/07 (MANHÃ)
Marlova Aseff
164
literária ou não, de um distanciamento significativo entre duas ordens de realidade cultural”
(Ibid., p. 110); “[uma] língua segunda para dizer o Outro e, consequentemente, para dizer
também um pouco de si, de sua cultura” (Ibid., p. 111); e ainda: “Toda alteridade revela uma
identidade – e vice versa” (Ibid., p. 111). Interessamo-nos, aqui, pelas dinâmicas de cocriação
de imagens do Outro e de Si nos discursos, sem restrição de época ou gênero; mais
especificamente pela maneira como uma “imagem de si” se revela a partir de uma “imagem
do outro”, ao modo de “de uma tomada de consciência de um Eu em relação a um Outro”.
Como essa “tomada de consciência” se performa, por exemplo, na construção de personagens
narrativas a partir de um ponto de vista enunciativo? Desde seus primórdios – com Henry
James, Percy Lubbock, E. M. Forster –, a moderna teoria da personagem se vê assombrada
pela problemática do ponto de vista; depois do degredo a que a narratologia estruturalista a
relegou, ela retorna pela via de uma abordagem enunciativa e interacionista da narrativa (cf.
Rabatel). Tomando como mote a reflexão acerca da figuração como “conjunto de processos
discursivos e metaficcionais que individualizam figuras antropomórficas, localizadas em
universos diegéticos específicos, com cujos integrantes aquelas figuras interagem, enquanto
personagens” (REIS, 2018, p. 165), este simpósio se constituirá como espaço de teorização e
de análise da tomada de consciência de um Eu em relação a um Outro nessa performance
figurativa; em suma: da escrita do outro como escrita de si.
Referências:
AMOSSY, Ruth (Org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto,
2005.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4. ed. Trad. de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. 2. ed. Trad. de Paulo Bezerra. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 1997.
DUCROT, Oswald. Esboço de uma teoria polifônica da enunciação [1984]. Trad. de Eduardo
Guimarães. In: ______. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987. p. 161-218.
KLINGER, Diana. Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. 3.
ed. Rio de Janeiro: 7Letras, 2016.
RABATEL, Alain. Homo narrans: por uma abordagem enunciativa e interacionista da narrativa.
v. 1. Trad. de Maria das Graças S. Rodrigues, Luis Passegui e João G. da Silva Neto. São Paulo:
Cortez, 2016.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Nabil Araújo
16/07 (TARDE)
166
MÚLTIPLOS AGENTES DA OBRA: O PROJETO "CANÇÃO DE AMOR PARA JOÃO GILBERTO NOLL"
17/07 (MANHÃ)
Isabella Andrade
17/07 (TARDE)
167
CONSTRUINDO COM OS RESTOS: ENTRE UMA POLÍTICA DA IMAGEM E SUA QUIMERA
UMA PROPOSTA DE ABORDAGEM PARA A PEÇA AQUELE QUE DIZ SIM E AQUELE QUE DIZ NÃO
DE BERTOLT BRECHT
18/07 (MANHÃ)
“DUAS ALMAS EM UM PEITO”: ALFRED DÖBLIN, MÉDICO E ESCRITOR, POR ELE MESMO
18/07 (TARDE)
168
O PROFESSOR, DE CHARLOTTE BRONTË
19/07 (MANHÃ)
Regina Sa
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Mariana Cortez
16/07 (TARDE)
171
ENTRE ENSAIOS E NARRATIVAS: REFLEXÕES SOBRE O PROJETO ESTÉTICO DE JOSEFINA PLÁ
Resumo: “Clássico não é um livro (repito) que necessariamente possui estes ou aqueles
méritos; é um livro que as gerações de homens, urgidas por razões diversas, leem com prévio
fervor e com uma misteriosa lealdade” (Borges, 1999, p.169). Assim conclui Borges seu texto
“Sobre os clássicos”, no qual é possível notar que a experiência profunda da leitura sustenta a
literatura mais do que a própria materialidade do texto. Há também a indicação de uma
estreita relação entre leitura e segredo, afinal algo de imponderável cerca a passagem da
literatura enquanto potência para sua efetivação, sempre única, no ato da leitura. Com isso,
abre-se uma dificuldade para os estudos literários, nos quais, como alerta Compagnon (2006),
sempre houve uma “desconfiança” em relação ao leitor, de modo que ou se optava por ignorá-
lo, ou por formular uma teoria “como uma disciplina da leitura ou uma leitura ideal” (2006,
p.143). Leitores e leituras são fundamentais para a literatura ao mesmo tempo em que não
ocuparam um lugar destacado no debate crítico. Por essa razão, neste simpósio, eles serão
discutidos a partir de uma variedade de perspectivas que permita dar conta de sua
complexidade. Trata-se de uma reflexão plural que considera tanto as diferentes vozes de
leitores quanto as variadas formas possíveis de concretizar a leitura. Alguns dos eixos centrais
do simpósio são: teoria da leitura / recepção; ética da leitura; formas distintas de leitura;
recusa do literário; novos espaços críticos; pesquisas com leitores empíricos; e formação de
leitor. Com esses diferentes eixos, pretende-se estimular o debate sobre o papel da crítica
literária na contemporaneidade frente a um cenário marcado tanto por uma expansão nos
modos de ler quanto por uma persistente limitação de acesso à literatura, em meio à
problemática atual das diferentes conceituações do que seja o literário. Enfrentaremos, assim,
as seguintes questões: como a crítica literária, na sua manifestação majoritariamente
172
acadêmica, lida com a pluralidade de leitores e leituras (e os entraves a eles colocados), que
estão fora dos muros das universidades? As formas tradicionalmente valorizadas pela crítica
acadêmica são capazes de lidar com os desafios democráticos de novos leitores e suas
reivindicações? Como pontos a serem debatidos em torno dessas questões, indicamos: 1)
análise da recepção de obras literárias, verificando como se chegou ao seu estado atual de
apreciação; 2) análise de obras que tiveram grande impacto junto ao público, mas não
receberam equivalente recepção crítica; 3) análise de gêneros e suportes que colocam em
xeque os limites daquilo que é definido por literário e recebam alta valoração pelo seu público,
tais como HQs, narrativas de videogames etc; 4) discussão sobre formas contemporâneas de
leitura literária, como as realizadas em canais de booktubers e fandoms; 5) reflexão sobre o
caráter ativo da leitura, levando em conta aspectos como imaginação, criação e performance;
6) revisões bibliográficas sistemáticas sobre teorias da leitura; 7) apresentação de concepções
teóricas mais atuais sobre o lugar da leitura e do leitor nos estudos literários, ampliando um
debate ainda restrito à estética da recepção; 8) análise da representação de leitores no
discurso da crítica literária e em obras literárias; 9) pesquisas envolvendo leitores empíricos,
em especial para entender os critérios de valor que norteiam suas escolhas, muitas vezes
distanciado daqueles estabelecidos na crítica literária; 10) discussão sobre aspectos
importantes à leitura e ao leitor e que muitas vezes escapam aos parâmetros críticos: afetos,
fé, gosto, diversão; 11) discussão sobre o papel e a atuação de um tipo específico de leitor, o
crítico literário, considerando principalmente as implicações éticas de sua atuação em um país
com tantos não leitores; 12) reflexão sobre aqueles que, de alguma forma, se distanciam da
condição de “leitor ideal” prevista pela crítica: crianças, iletrados etc; 13) O não leitor, a recusa
da leitura e o lugar da cultura não letrada; 14) proposições de formas de intervenção e
mediação para difusão/debate da literatura junto a leitores reais em escolas, universidades ou
outros espaços. Os aspectos anteriormente apontados não esgotam o debate sobre leitores e
leituras, servindo apenas como um referencial para os participantes do simpósio. Outras
discussões e diversas perspectivas teóricas e metodológicas são bem-vindas.
Referências:
BORGES, Jorge Luis. Sobre os clássicos. In: Obras completas. São Paulo: Globo, 1999. p. 167-
169, v. 2
PROGRAMAÇÃO
17/07 (MANHÃ)
173
RECEPÇÃO LITERÁRIA E CONVERGÊNCIA DE MÍDIAS: UMA BREVE ANÁLISE DE "THE
HANDMAID’S TALE" (O CONTO DA AIA)
17/07 (TARDE)
174
Iara de Oliveira
18/07 (MANHÃ)
175
MUNDOS VISÍVEIS E TEORIA NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
18/07 (TARDE)
ANÁLISES SOBRE A LEITURA EM S., DE J.J. ABRAMS E DOUG DORST: A TRAJETÓRIA DE LEITURA
PELAS MARGENS E AS TÁTICAS E ESTRATÉGIAS DO LEITOR
Rômulo Bezerra
Arnon Tragino
O AMOR À LITERATURA
176
48 - LEITURAS CONTEMPORÂNEAS DE VIRGINIA WOOLF
Coordenação: Prof. Dr. Davi Pinho (UERJ); Profa. Dra. Maria Aparecida de Oliveira (UFAC);
Profa. Dra. Nicea Helena de Almeida Nogueira (UFJF)
Resumo: Em 1974, Julia Kristeva publicou Des Chinoises, no qual ela afirma que o suicídio de
algumas escritoras modernistas revela a impossibilidade de um sujeito feminino na linguagem
historicamente falocêntrica. “Eu que quero não ser” é o título de seu quinto capítulo, uma
formulação de Marina Tsvetaeva, e é lá que o suicídio de Virginia Woolf aparece como recusa
da ordem simbólica, o que permite que Kristeva qualifique Woolf como uma escritora que
escolheu “afundar sem palavras no rio” (1974, p. 157). A assinatura “Virginia Woolf” encena
um debate intenso nos estudos feministas da década de 70, no qual Kristeva se insere. Na
academia anglófona, A Literature of Their Own (1977), de Elaine Showalter, forma uma
geração de leitores que perceberão em Woolf o medo da identidade feminina, o que faz da
“mente andrógina” que Woolf anuncia ao final de A Room of One’s Own (1929) uma rota de
fuga do feminino nessas leituras críticas. Por outro lado, e em resposta a Showalter, Toril Moi
(1985) dirá que Virginia Woolf é uma escritora da desconstrução avant la lettre, que sabe que
história é texto e a escrita a sua produção, o que dá lugar central à androginia enquanto
antídoto para os binômios hierarquizantes da tradição metafísica, em especial na relação
masculino/feminino.
O que está em jogo nesse embate é o nome Virginia Woolf enquanto uma assinatura
modernista (Agamben, 2008) que ora lhe fecha no vocabulário dos formalistas de Bloomsbury,
ora no vocabulário do feminismo ginocêntrico, ou ainda na esteira da desconstrução de
Derrida e dos saberes rizomáticos de Deleuze. No entanto, como vêm revelando os estudos
woolfianos recentes, a questão estética em Woolf está inextricavelmente entrelaçada à
questão política que figura em sua obra. E essa questão é o feminino enquanto negatividade
profanada tanto pela forma quanto pela produção de sentidos de suas obras, o que lança a
autora em busca de novas formas de escrita em movimento de eterno devir-outro (Braidotti,
2011).
Nessa perspectiva contemporânea, todas as leituras críticas, teóricas e filosóficas de Woolf são
importantes para o que ela definiria ao final da vida como sua filosofia, seus momentos de ser
e não ser (“A Sketch of The Past”). Ao contrário dos embates entre o poético e o material, vale
pensar hoje como as leituras de Virginia Woolf do século passado não se excluem
mutualmente, mas são complementares no pensamento woolfiano, centrífugo por excelência
(Allen, 2010). Voltar aos textos woolfianos – sua produção ensaística, ficcional, biográfica e
autobiográfica –, nos permite achar os pontos de conexão em seu mosaico de perspectivas
(Banfield, 2000): os sentidos que sua forma deixa escorregar para o nosso presente. Ao pensar
o mosaico, fica claro que qualificar o mergulho de Virginia Woolf como “sem palavras” registra
apenas a cena que aconteceu no Rio Ouse – uma cena que, em 2019, após tantos anos de
pesquisa sobre a obra da autora, não sustenta a intensidade intelectual, o comprometimento
poético ou ainda o engajamento político de suas palavras cada vez mais vivas.
Na guinada estético-política dos estudos woolfianos (Zwerdling, 1986; Goldman, 1998 & 2004;
Braidotti, 2011), convidamos trabalhos que se debrucem sobre releituras de toda e qualquer
questão que sua vasta obra suscite – da forma do conto, ensaio e romance modernistas à
177
escrita de si ou a uma filosofia feminista. Assim, faremos de Woolf nossa contemporânea em
um diálogo sobre escrita, estética e política. Afinal, se levamos a sério os choques de realidade
que Virginia Woolf diz sentir ao escrever (cf. “A Sketch of the Past”), entendemos que a escrita
de Woolf está sempre dentro e fora de seu tempo, uma escrita contemporânea no sentido
agambeniano (2006), sempre referida ao passado do passado mas também à sua presença,
como formulou T.S. Eliot (1919). Hoje, quando tanto do que se anuncia na produção tardia da
autora parece mais uma vez ativar quadros de guerra incessantes (cf. Three Guineas, 1938),
não podemos ainda ter medo de Virginia Woolf. Desse modo, almejamos acolher trabalhos
que contemplem os seguintes temas, ou quaisquer outros que estejam em diálogo com a vida,
a obra e/ou o tempo de Virginia Woolf:
● Woolf e a Ecocrítica;
Referências:
AGAMBEN, Giorgio. What is the Contemporary?. In: AGAMBEN, G. What is an Apparatus? and
Other Essays. Tradução de D. Kishik e S. Pedatella. Stanford: Stanford University Press, 2009b.
[2006] P. 39-54.
ALLEN, Judith. Virginia Woolf and The Politics of Language. Edinburgh: Edinburgh University
178
Press, 2010.
BANFIELD, Ann. The Phanton Table: Woolf, Fry, Russell and the Epistemology of Modernism.
Cambridge: Cambridge University Press, 2000.
BRAIDOTTI, Rosi. Nomadic Theory: The Portable Rosi Braidotti. New York: Columbia University
Press, 2011.
GOLDMAN, Jane. The Feminist Aesthetics of Virginia Woolf: Post-Impressionism and the
Politics of the Visual. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.
KRISTEVA, Julia. About Chinese Women. Tradução de Sean Hand. In: MOI, Toril (Org.). The
Kristeva Reader. Oxford: Blackwell Publishers, 1986. [1974] P. 138-159.
MOI, Toril. Sexual/Textual Politics: Feminist Literary Theory. New York: Routledge, 1985.
SHOWALTER, Elaine. A Literature of Their Own: British Women Novelists from Brontë to
Lessing. Princeton: Princeton University Press, 1977.
ZWERDLING, Alex. Virginia Woolf and the Real World. Berkeley: University of California Press,
1986.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
Davi Pinho
179
VIRGINIA WOOLF NA MÍDIA E NO ESPAÇO ESCOLAR
17/07 (TARDE)
AFINAL, POR QUE DEVERÍAMOS TER MEDO DE VIRGINIA WOOLF, VIRGINIA WOOLF, VIRGINIA
WOOLF...?
18/07 (TARDE)
180
CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONTO NA OBRA DE VIRGINIA WOOLF
Luisa L S de Freitas
Marcela Filizola
Resumo: Pensar na cultura caribenha e guianense é pensar em territórios que durante anos
tiveram – e a ainda têm – sua cultura e linguagem violentamente substituídas pelas do
colonizador. Nessa dinâmica de apropriação e imposição, comum à maioria das nações
colonizadas, permeia a literatura a busca pela identidade e os percalços para sua expressão.
Primeiramente, deve-se levar em conta a influência de países dos continentes europeu e
africano na formação da identidade dos caribenhos e dos guianenses, tendo em vista o
processo colonizatório e escravocrata. Em segundo lugar, é preciso considerar também a
questão da diáspora. Conforme Hall (1999, p.1), “[...] a migração tem sido um tema constante
na história do Caribe” e, nessa conjuntura, as identidades tornam-se múltiplas. Sobre essa
multiplicidade de identidades, é relevante pensar que, nos estudos pós-coloniais caribenhos e
guianenses, encontramos duas correntes que abordam a questão da identidade. A primeira,
representada principalmente pelo pensamento de Frantz Fanon e Aimé Cesaire, entende que a
cultura caribenha deve buscar uma essência, uma identidade unificadora e fortalecedora dos
povos caribenhos. Já a outra vertente procura ressaltar a heterogeneidade dos povos de
181
origem caribenha e compreende a identidade como um elemento processual. Guardadas as
diferenças entre as perspectivas, observamos o desejo pela reconstrução do passado histórico
e por dar voz aos sujeitos silenciados pelo colonizador, ou, nas palavras de Spivak (2014), os
subalternos. Para a teórica indiana, são subalternos os sujeitos excluídos do mercado, da
representação política e legal, e impossibilitados de participarem plenamente do extrato social
dominante. Em Twentieth Century Caribbean Literature, Alison Donnel (2006, p. 5) aprofunda a
discussão e identifica quatro momentos críticos através dos quais os paradigmas da crítica
literária caribenha foram estabelecidos em torno de um conjunto de questões: 1)
anticolonialismo, nacionalismo; 2) migração e diáspora; 3) a centralidade da etnia afro-
caribenha; 4) a concepção das mulheres como duplamente colonizadas. Donnel aponta o início
da década de 1990 como o momento em que começaram a surgir estudos críticos sobre
narrativas de mulheres caribenhas, pela primeira vez consideradas como um conjunto distinto.
Esses primeiros estudos feministas sobre o trabalho de escritoras caribenhas foram orientados
pelas demandas de uma crítica voltada para a diáspora negra. Já em relação ao quarto
momento crítico, Donnel introduz a noção de colonização dupla (“double colonisation”), que
para ela consiste numa descrição simplificada da complexa posição das mulheres negras
inseridas na ordem social patriarcal e colonial imposta pelo colonialismo e suas consequências
(DONNEL, 2006, p. 138). Conforme apontam os autores de The Empire Writes Back, o termo
firmou-se como uma descrição durável do status das mulheres no colonialismo (ASHCROFT,
GRIFFITHS, TIFFIN; 2002, 206). Donnel pontua que o termo de fato ofereceu uma identidade
ideológica para a escrita de mulheres afro-caribenhas – e ousamos dizer que isso ocorre
igualmente para a escrita das mulheres afro-guianenses e/ou crioulas –, que permitiu a sua
incorporação em estudos mais abrangentes sobre a escrita de mulheres negras, que surgiram
no final da década de 1980 e início da década de 1990. No entanto, a autora argumenta que o
termo também criou um discurso crítico em torno da invisibilidade e do silêncio, que não tem
sido útil para situar a escrita de mulheres caribenhas como parte de uma tradição ou história
literária regional de longa data. Donnel propõe como substituto o termo agente duplo
(“double agent”). Desse modo, no lugar de conceber as mulheres (escritoras) pós-coloniais
como duplamente destituídas de poder, Donnel coloca em primeiro plano a ideia do quanto as
escritoras caribenhas são capazes de mobilizar as questões de gênero, etnia e identidade
cultural como locais de resistência e afirmação. A noção de “agente duplo” alude ao domínio
da espionagem, disfarce e subterfúgio, bem como à capacidade de agência que passou sem
reconhecimento. Nesse sentido, o termo potencialmente abre possibilidades para as mulheres
caribenhas e suas obras literárias serem lidas como resistentes, textos rebeldes que exigem
uma compreensão mais específica e diferenciada da "mulher caribenha", tanto como posição
do sujeito como sujeito posicionado (DONNEL, 2006, p. 139). Essas questões também podem
ser identificadas na produção literária da região das Guianas – que compreende a Guiana
Francesa, o Suriname, a República da Guiana, o Amapá e parte de Roraima, no Brasil. Nesse
ponto, vamos ao encontro do pensamento de Pizarro, em Reflections on the historiography of
Caribbean Literature (1988), sobre a necessidade de se refletir sobre as delimitações dos
territórios caribenhos para além da definição mais tradicional do espaço compreendido pelo
mar do Caribe, abarcando outros países da América Latina que compartilham especificidades
histórico-culturais no que tange à escravidão, à exploração das terras, à pirataria, à tirania
(como os regimes ditatoriais), entre outras questões. Diante disso, esse simpósio é um convite
para dirigir o olhar ao trabalho de escritoras caribenhas e guianenses, radicadas ou não no
Caribe ou na região das Guianas, mas comprometidas com uma escrita situada. As
interlocuções com essas escritoras permitem explorar de que forma as questões morais,
políticas, religiosas, espirituais encenadas por esses textos são capazes de ampliar, contestar,
deslocar, ou propor novas travessias de fronteiras raciais, sexuais e culturais.
182
Referências:
ASHCROFT, Bill Frances; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen. The Empire Writes back: Theory and
Practice in Post-Colonial Literatures. New York: Routledge, 2002
HALL, Stuart. Thinking the Diaspora: Home-Thoughts from Abroad. Small Axe, Durham (North
Carolina), p. 1-18, 1999.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o Subalterno Falar? Tradução de André Pereira Feitosa e
Marcos Pereira Feitosa; Sandra Regina Goulart Almeida. Belo Horizonte: UFMG, 2010
PROGRAMAÇÃO
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Dieumettre Jean
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A GEO/CORPO-POLÍTICA DAS RELAÇÕES EM BEM-VINDOS AO PARAÍSO DE NICOLE DENNIS-
BENN
Referências
BENJAMIN, Walter. Passagens. Ed. Org. por Willi Bolle. Trad. Irene Aron e Cleonice
Paes Barreto Mourão. 3 vols. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.
BOLLE, Willi. “Um painel com milhares de lâmpadas” – Metrópole & Megacidade. BENJAMIN,
Walter. Passagens. Ed. Org. por Willi Bolle. Trad. Irene Aron e Cleonice Paes Barreto Mourão. 3
vols. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018, vol. III, p. 1707-1746.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Abril Educação, 1982.
SILVA JR, Augusto. R. Editorial. Cultura popular, oralidade e performance. Cerrados – Revista
do Programa de Pós-Graduação em Literatura (Poslit/UnB). V. 22, n. 35, 2013. p. 7-10.
Disponível em: [Link]
PROGRAMAÇÃO
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EM BUSCA DE UMA POÉTICA CERRATENSE CONTEMPORÂNEA
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GOIÁS E BRASÍLIA PELOS OLHOS DE JOSÉ GODOY GARCIA, POETA E PROSADOR
Resumo: Para Antonio Candido (2004) há uma ligação clara entre a Literatura e os Direitos
Humanos. O crítico propõe o direito à arte da palavra como uma necessidade essencial, uma
vez que ela constitui um dos acessos de cada ser humano a sentimentos diversos e à
consciência sobre as garantias que nos assistem. Neste sentido, há uma ampla construção
literária voltada para a constituição e cristalização dos direitos essenciais (fundamentais e
humanos) da pessoa e da própria democracia, como evidenciou a historiadora Lynn Hunt
(2009).
Seguindo o modelo ibérico que se instaurou na América Latina, da época colonial brasileira até
a atualidade houve momentos de centralização do poder político ou estatal e, paralelamente,
de resistência, podendo ser citadas as insurreições de Canudos, Farroupilha e Inconfidência
Mineira; já suas representações na literatura abrangeram autores como Euclides da Cunha,
Letícia Wierschowski, Tomás Antônio Gonzaga, entre outros. Da mesma forma, grandes
mudanças estruturais suscitaram manifestações da arte da escrita, tais como a Proclamação da
República, com Lima Barreto, Machado de Assis e outros; instauração do Estado Novo, com
Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro e David Nasser, por exemplo; e a ditadura militar
imposta de 1964 a 1985, com nomes como os de Ferreira Gullar, Rui Castro, Carlos Heitor Coni,
Alex Polari e Érico Veríssimo.
Vale lembrar que há uma preocupação constante com a manutenção das normas jurídicas
188
pactuadas em determinado período, buscando-se a denominada segurança jurídica, ou seja, a
previsibilidade sobre a aplicação do Direito. As consequências de suas mudanças são
analisadas pelos estudiosos da Justiça de Transição ou transitólogos, tais como Juan Linz
(2015), que entende que é necessário adotar uma série de medidas políticas e jurídicas que
buscam superar um regime autoritário e por consequência consolidar a nova democracia.
Como era esperado, os fatores e os resultados desses momentos são sentidos em outras áreas
do saber, como os estudos literários, que são marcados por variados escritos de resistência
que demonstram a micro história de cada um daqueles momentos. Podemos citar como
exemplo Bosi (2002), Sarmento-Pantoja. (2015), entre outros.
Referências:
BARBOSA, Rui. Amnistia Inversa: Caso de Teratologia Jurídica. Rio de Janeiro: Imprensa
Oficial, 1935.
BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São Paulo: Ouro sobre Azul, 2004.
FICO, Carlos. Além do Golpe: Versões e controvérsias sobre 1964 e a Ditadura Militar.
REIS, Daniel Aarão. Ditadura e Democracia no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
189
PROGRAMAÇÃO
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OUTRA LUTA CORPORAL: FORMAS DE CERCEAMENTO EM “DENTRO DA NOITE VELOZ”
Renan Nuernberger
Num primeiro momento, a aproximação entre Literatura e Direito pode parecer apenas um
exercício metafórico de linguagem. Mesmo se fosse o caso, já haveria uma forte contribuição
para a pesquisa porque a metáfora, que não é um fim em si mesma, preserva a capacidade
criadora da linguagem e, por consequência, do próprio direito. Um estudo metafórico, além
disso, também permitiria desvelar os possíveis projetos ideológicos ocultos por detrás de uma
linguagem jurídica que, situada na cultura, indevidamente se apresenta como neutra. Porém,
estudos de direito e literatura não se baseiam apenas numa aproximação aleatória. A
narratividade é ínsita ao direito. A maneira como os fatos e os sujeitos são esteticamente
ordenados numa decisão judicial demonstra como a narrativa jurídica não só descreve mas
igualmente prescreve. Assim, a pesquisa acerca das potencialidades narrativas em textos
literários pode permitir uma reflexão crítica e propositiva da maneira como o direito constrói
sua própria narrativa por meio de decisões, reflexões doutrinárias, exposições de motivos
legais e história constitucional.
Além disso, estudos sobre a relação entre literatura e direito não abrandam, mas sim
reforçam, o compromisso ético-social do direito. O reconhecimento da dimensão narrativa do
direito não admite o esmaecimento das fronteiras entre ficcionalidade e realidade, sequer
uma legitimação de práticas jurisdicionais que inventam suas próprias narrativas de justiça
despregadas do horizonte hermenêutico social em que se produzem. O objeto estético
exclusivamente literário, mesmo quando cria sua própria realidade, acaba evocando uma
191
realidade pré-existente ético-cognitiva. A narratividade do direito não é produzida de modo
desconectado das narrativas sociais que balizaram a elaboração legislativa e das narrativas
presentes que, no momento decisório, ressignificam os conceitos jurídicos vagos e
polissêmicos na facticidade da vida. O direito como narrativa deve ser sempre um ato
responsível, ou seja, dialogicamente responsivo e eticamente responsável.
Logo, a aproximação do direito com a literatura não reduz o potencial crítico da análise
jurídica. Não se trata aqui de uma mera delimitação de aspectos formais da justiça poética, tais
como: ritmo, entonação, articulação, motivo, gênero. Um olhar que se volte para o todo da
obra literária deve considerá-la em sua forma arquitetônica, percebendo, para além do
material, a tensão constante entre forma e conteúdo, uma complementaridade que não é
estranha ao direito no dialogismo estabelecido entre normas substantivas e processuais. Não
há, pois, como pensar a forma desconsiderando o conteúdo e vice-versa. O conhecimento
cultural se produz nesta fronteira, nesta intersecção. A compreensão dos vários tropos
narrativos permite apontar leituras diacrônicas que desestabilizam as leituras jurídicas
sincrônicas dadas.
Há, sempre, contudo, riscos no estabelecimento dessa interlocução entre Literatura e Direito.
O diletantismo e a superficialidade são ameaças sempre presentes.
Desta forma, é preciso ajustar o rumo das investigações, conferindo a elas maior rigor. De
acordo com as pesquisas mais articuladas na área, entre autores brasileiros e estrangeiros,
algumas perspectivas de investigação sobre as relações entre Literatura e Direito se
apresentam:
(1) textos literários que abordem elementos de direito, justiça, Estado, poder,
permitirão revelar olhares condensados diacrônicos, futuros plurais de um passado anterior à
realidade presente jurídico-estatal, que podem ou não ter se cumprido; textos literários fora
do cânone ocidental, por outro lado, permitirão a emergência de narrativas subalternas,
surpreendentes, que fogem da temporalidade hegemônica e do padrão normativo do direito –
alguns dos quais, inclusive, objeto de reapropriação por grupos historicamente excluídos das
esferas decisórias do direito e do Estado;
(3) a relação entre processos de construção de obras literárias e seus vínculos com o
Direito pode dar ensejo à análise de questões específicas de caráter normativo – mediante o
qual se investiga a regulação jurídica dada à Literatura, no que diz respeito à propriedade
intelectual, direitos autorais, liberdade de expressão, censura e outras repercussões.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
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NARRATIVAS DE ESTUPRO: A RELAÇÃO ENTRE A FICÇÃO E O CRIME DE ESTUPRO
Resumo: O presente simpósio pretende gerar discussões acerca das estratégias narrativas ou
líricas que, em obras literárias, questionam situações de opressão ou de desrespeito aos
direitos humanos. A literatura tem sido a arte comumente ensinada em sala de aula em forma
de disciplina nas grades curriculares de forma sistemática, em detrimento das demais artes.
Portanto, ela é uma das principais formas de difusão de ideias e de conscientização para as
novas gerações. Desde os primórdios, há registro da importância da preservação das narrativas
oficiais e pessoais como algo de interesse público, daí a importância dos narradores tribais na
preservação da memória, dos costumes, dos conhecimentos, das crenças e dos valores de uma
coletividade, o que também se expande para o campo das nacionalidades, já que não existe
um povo que não tenha ou não busque seu passado histórico ou mítico, preservado ou
reinventado. Também é à margem dos discursos oficiais que se abrem as fendas dos discursos
minimais, os quais preservam as marcas desejáveis e indesejáveis da memória de construção
de um povo. Mesmo nos discursos oficiais estão presentes as marcas das estruturas
ideológicas do discurso dos enunciadores autorizados, os quais preservam importantes dados
para que se leiam verdades evidentes ou camufladas. Porém, de forma inigualável, o texto
literário preserva, de modo intencional e não intencional, informações presentes no
193
subconsciente do(a) escritor(a)/poeta que se confundem com o conhecimento coletivo e se
tornam recorrentes em narrativas de países, lugares, épocas e escritores diferentes. Nessas
expressões, a presença dos minorizados por sistemas diversos, sejam esses protagonistas da
produção literária ou não, torna-se importante elemento a ser observado, já que, na
enunciação, o sujeito se projeta com suas ideologias e, através dessa projeção, consegue
atingir o espaço da recepção, que se transforma no campo profícuo para os debates e da
integração entre discurso e leitura. Tendo isso em vista, serão enfocadas, neste simpósio,
principalmente investigações sobre os modos como a literatura interroga ou subverte as
hierarquizações de raça, gênero, sexualidade e classe social presentes em coletividades
humanas. Espera-se que noções como colonialidade do poder, do saber e do ser perpassem
essas análises. Para Aníbal Quijano (2005), o eixo principal da colonialidade do poder é a ideia
de raça, que tem origem no período do colonialismo histórico, mas que sobreviveu a ele,
operando ainda na atualidade. A divisão racial da população mundial e a atribuição das formas
de trabalho menos prestigiadas às raças consideradas inferiores continuam estabelecendo
nefastas hierarquias que não apenas são retratadas pelos escritores como também acabam
influenciando as concepções em torno do fenômeno literário. Nesse sentido, a colonialidade
do poder envolve também a do saber, já que os conhecimentos considerados válidos são
principalmente aqueles dos grupos dominantes. Boaventura de Sousa Santos (2010), por
exemplo, percebe tal mecanismo no que denomina de pensamento abissal, responsável por
estabelecer um abismo, uma linha divisória radical, entre as epistemologias ocidentais ou
dominantes e as não ocidentais ou não dominantes. A visibilidade do pensamento abissal se
“assenta na invisibilidade de formas de conhecimento que não [se] encaixam” nas formas
dominantes de conhecer e que compõem os “conhecimentos populares, leigos, plebeus,
camponeses ou indígenas [situados] do outro lado da linha” (SANTOS, 2010, p. 33). Um
pensamento pós-abissal, por outro lado, seria aquele fundamentado numa “copresença
radical”, que “significa que práticas e agentes de ambos os lados da linha são contemporâneos
em termos igualitários” (SANTOS, 2010, p. 53). Assim, não existiria conhecimento mais
atrasado ou mais avançado, tradicional e moderno. Todos os conhecimentos devem ser
entendidos como simultâneos e igualmente relevantes para que o abismo seja superado. Isso
pressupõe que se deve combater também a ideia de superioridade entre diversas concepções
do fenômeno literário. Ramón Grosfoguel (2011) aprimora a noção de colonialidade com o seu
conceito de heterarquias. Assim, hierarquias raciais e econômicas devem ser interrogadas
tanto quanto as de gênero, as de sexualidade, as espirituais e, no que nos concerne mais de
perto, as literárias. Em outras palavras, a colonialidade do poder e do saber implica uma
colonialidade do ser, em que certas experiências do existir humano são consideradas inferiores
a outras. Dessa forma, são esperados trabalhos que partam desses pressupostos, explicitando
as relações da literatura com os direitos humanos e as lutas coletivas contra diversas formas
de opressão.
Referências:
SANTOS, Boaventura de S. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia
194
de saberes. In: SANTOS, Boaventura de S.; MENESES, Maria P. (org.). Epistemologias do sul. São
Paulo: Cortez, 2010.
PROGRAMAÇÃO
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Claudete Daflon
Evaldo Balbino
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Adriana Yokoyama
54 - LITERATURA E DISSONÂNCIA
Coordenação: Prof. Dr. André Dias (UFF); Prof. Dr. Rauer Ribeiro Rodrigues (UFMS); Prof. Dr.
Felipe Gonçalves Figueira (IFF/RJ)
Mikhail Bakhtin, falando sobre o grande tempo histórico e o trabalho dos escritores, chama
atenção para o seguinte fato: “o próprio autor e os seus contemporâneos veem, conscientizam
e avaliam antes de tudo aquilo que está mais próximo do seu dia de hoje. O autor é um
prisioneiro de sua época, de sua atualidade. Os tempos posteriores o libertam dessa prisão, e
os estudos literários têm a incumbência de ajudá-lo nessa libertação.” (BAKHTIN, 2003, p. 364).
Sendo assim, ao abordarmos a temática Literatura e Dissonância, temos clareza de que todo
autor, para o bem e para o mal, é antes de tudo um homem de seu tempo. Desse modo, aos
que se ocupam da investigação literária cabe a desafiadora tarefa de, dialogicamente,
atualizarem os diversos discursos literários produzidos nos mais variados tempos e espaços
históricos. Agindo assim, os estudiosos da literatura contribuirão para manter a vivacidade de
distintos autores e suas obras. Sobre a criação romanesca, o pensador russo adverte que “o
autor-artista pré-encontra a personagem já dada independentemente do seu ato puramente
artístico, não pode gerar de si mesmo a personagem – esta não seria convincente” (BAKHTIN,
2003, 183-184). Em outras palavras, nenhuma personagem é fruto do gênio criador de um
197
autor adâmico, pois a matéria de memória da literatura está no mundo social, local de onde os
escritores extraem os motivos para criar. De maneira análoga, a palavra do outro é
fundamental para a tomada de consciência de si e do mundo, segundo aponta ainda Bakhtin:
“como o corpo se forma inicialmente no seio (corpo) materno, assim a consciência do homem
desperta envolvida pela consciência do outro” (BAKHTIN, 2003, p. 374). Dessa forma, as
premissas bakhtinianas apresentadas aqui fundamentam o desenvolvimento das nossas
reflexões e ajudam a ampliar os sentidos das análises.
Do ponto de vista da historiografia literária, qualquer que seja o modo analítico proposto, os
problemas se sucedem, pois os últimos anos têm sido de deslocamentos incessantes dos
postulados teóricos. Tais deslocamentos transformaram em cada vez mais inglórios os
embates com o mundo concreto, considerando a acelerada mutabilidade das circunstâncias
sociais, políticas, históricas e das representações simbólicas, no âmbito das artes em geral e da
literatura em particular. Assim sendo, no estudo da circulação, das tramas e sentidos
construídos pela literatura cabe, inclusive, questionar as significações do conceito de
literariedade. Tal questionamento pode incorporar novas e dissonantes acepções ao termo,
tanto na perspectiva dos cânones consagrados, quanto dos cânones emergentes.
Referências:
BAKHTIN, Mikhail. Teoria do romance I: a estilística. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34,
2015.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.
BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Cia das Letras, 2002.
DIAS, André. Lima Barreto e Dostoiévski: vozes dissonantes. Niterói, RJ: Editora da UFF, 2012.
SARTRE, Jean-Paul. Que é literatura? Trad. Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 1989.
TEZZA, Cristovão. Entre a prosa e a poesia: Bakhtin e o formalismo russo. Rio de Janeiro: Rocco,
198
2003.
TEZZA, Cristovão. O espírito da prosa: uma autobiografia literária. Rio de Janeiro; Record,
2012.
VARGAS LLOSA, Mário. A verdade das mentiras. Trad. Cordelia Magalhães São Paulo: ARX,
2004.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
17/07 (MANHÃ)
200
CORPOS INFAMES, CORPOS INSUBMISSOS: A DRAMATURGIA E O TESTEMUNHO DO CÁRCERE
18/07 (MANHÃ)
"A LUA VEM DA ÁSIA", DE CAMPOS DE CARVALHO, E "A ROSA DO POVO", DE CARLOS
DRUMMOND DE ANDRADE: VOZES PERPLEXAS DIANTE DE UM MUNDO CAÓTICO
Adriana Marcon
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201
Ivani Maria Pereira
202
A palavra dramaturgia abrange dois sentidos: a escrita de um texto dramático e a passagem
das ideias (e palavras) para a cena. No entanto, há espetáculos em que não há texto escrito,
uma vez que o processo de criação começa (ou parece começar) imediatamente na cena
aberta – ou quando o espetáculo trabalha a memória e o testemunho: neste caso, o que é
dramaturgia?
PROGRAMAÇÃO
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203
AS PERSONAGENS SUBALTERNAS EM AÇÃO: A RECRIAÇÃO DO ESCRAVO PLAUTINO NO TEATRO
DE ARIANO SUASSUNA
18/07 (TARDE)
DRAMA DA VIDA
205
Palavras-chave: Literatura; ensino; educação literária; formação de leitores.
Referências:
BOSI, Alfredo. Por um historicismo renovado: Reflexo e reflexão em história literária. In; BOSI,
Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
LEITE, Lígia Chiappini de M. Invasão da catedral: literatura e ensino em debate. Porto Alegre:
Mercado Aberto, 1983.
ROCCO, Maria T. Fraga. Literatura/ensino: uma problemática. São Paulo: Ática, 1981.
ZILBERMAN, Regina; LAJOLO, Marisa. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 2009.
16/07 (MANHÃ)
Benedito Antunes
16/07 (TARDE)
17/07 (MANHÃ)
207
“MINHA COR, TUA COR, TODAS AS CORES" – PROPOSIÇÃO E ANÁLISE DE UM PROJETO DE
LEITURA LITERÁRIA
18/07 (MANHÃ)
Antonio Andrade
DAS LAÇOS QUE NOS LIGAM, DAS TEIAS QUE NOS APRISIONAM: PROGRAMAS DE FORMAÇÃO
DE PROFESSORES EM REDE FRENTE AOS CONTEXTOS PARTICULARES DE FUNCIONAMENTO
18/07 (TARDE)
208
DOS LUGARES ACOSTUMADOS À PRODUÇÃO DE DESEJO: LITERATURA COMO EXERCÍCIO
ESTÉTICO DA EXISTÊNCIA
Resumo: Este simpósio é um espaço para reflexões e discussões sobre as relações entre a
literatura e outras artes (música, pintura, dança, cinema, teatro). O estudo comparativo entre
artes e obras literárias, fundado na relação interartística, tem se apresentado de forma eficaz
quanto à capacidade de envolver e seduzir o leitor, constituindo o ponto inter-relacional para
o diálogo entre obras literárias, na perspectiva da intertextualidade, bem como entre a
literatura e outros sistemas semióticos artísticos. Afinal, já em si mesma, a complexidade do
literário se configura envolta por camadas cuja natureza, espelhada por sua linguagem, suscita
perceptíveis traços homológicos com outras linguagens artísticas. Este espaço se abre também
para experiências de leitura literária pela ótica das artes vivenciadas no ensino da literatura,
seja no âmbito da literatura oral, seja no âmbito da expressão da arte literária por meio dessas
outras artes, ou nas homologias possíveis de serem estabelecidas entre elas, como, por
exemplo, através da musicalização de poemas, ou ainda pelas letras de canções da música
209
popular brasileira que atingem a categoria de poesia; seja na possível visualização da obra de
arte por meio das artes plásticas, ou mesmo da encenação de obra literária. Este
procedimento tem demonstrado em atividades voltadas aos estudos e à pesquisa o grande
interesse por parte de metodologias educacionais contemporâneas, considerando que os
diferentes se compõem no todo. O propósito é tornar este espaço aberto para as pesquisas
que propendam à investigação das mais diversas e sutis relações entre a literatura e as outras
artes, dando, assim, mais visibilidade às múltiplas possibilidades dessa instigante atividade de
pesquisa. É público e notório, nos dias de hoje, o avanço do conhecimento por meio da inter-
relação entre as mais diversas áreas das ciências e, por conseguinte, das artes. É consensual
também o entendimento de que não se pode perder de vista que as coisas, os seres são um
todo, de cuja relação integrada e interacional depende a plenitude de sua existência. Nesse
sentido é que se pode afirmar que as mais diversas manifestações artísticas, guardadas suas
especificidades, permitem-se dialogicidades múltiplas consubstanciadas em proximidades e
diferenças. Aproximam-se pelo fato de que, dentre outros, todas elas têm o estético como
primeira plana. Este é o dínamo de seus fazeres. Move-as o belo como fator e resultado de
uma expressão que, sem obliterar a realidade, constrói – e com ela simultaneamente se
constrói – uma linguagem elevada à categoria do inusitado, do singular, em que a ética e a
moral se estabelecem sob o primado do estético. O olhar arguto do artista faz-se pelo viés da
percepção desautomatizada. Suas inquietações e inconformismos, instigados por fina
sensibilidade e visão crítica do mundo em que se inserem, fazem-no criar a obra de arte, cuja
dimensão poética não se alinha com este seu universo e tampouco dele se desaliena. Ao
contrário, configura-se como uma realidade, cuja beleza consiste na confluência da capacidade
de emocionar, sensibilizar, ao mesmo tempo em que confronta. Este procedimento, reitere-se,
é particular e comum a todas as artes. E sua comparação, tomando cada uma com sua forma e
linguagem, pode conduzir à consecução de realidades e visões daí resultantes, mas com
percepções também diferentes. Assim é que suas diferenças, em razão de suas peculiaridades,
permitem olhares múltiplos muitas vezes sobre os mesmos temas, possibilitando leituras
diversas e pertinentes. Compará-las, confrontá-las, sem dúvida, abrem para dimensões de
sentido, ampliando o campo de análise, interpretação e compreensão da realidade. A esse
respeito, em sua clássica Obra Aberta, Umberto Eco diz que “Das estruturas que se movem até
aquelas em que nós nos movemos, as poéticas contemporâneas nos propõem uma gama de
formas que apelam à mobilidade das perspectivas, à multíplice variedade das interpretações.
Mas vimos também que nenhuma obra de arte é realmente “fechada”, pois cada uma delas
congloba, em sua definitude exterior, uma infinidade de leituras possíveis. ” (Eco, 1969).
Portanto, é pautando-se nessas reflexões que este simpósio se propõe a dar continuidade a
um trabalho de pesquisa iniciado em 2008 quando da sua primeira proposição ao congresso da
Abralic realizado na USP e os seguintes: 2010 (Curitiba), 2013 (Campina Grande), 2015 (Belém),
2016/2017 na Uerj e 2018 em Uberlândia, cujos resultados podem ser observados em
publicações, troca de experiências e participação de pesquisadores em grupos de pesquisa em
diversos centros acadêmicos, enriquecendo a amplitude do conhecimento da Literatura
Comparada.
Referências:
ECO, Umberto. Obra Aberta: Forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. Tradução
Giovanni Cutolo. São Paulo: Perspectiva, p. 67, 1969.
210
_____. A Definição da Arte. Tradução José Mendes Ferreira. Rio de Janeiro:
Elfos Ed., Lisboa: Edições 70, 1995.
DORIA, Gustavo Alberto Accioli. Moderno teatro brasileiro: crônica de suas raízes. São Paulo:
Serviço Nacional do Teatro, 1975.
GONÇALVES, Aguinaldo José. Transição & Permanência. Miró / João Cabral: Da Tela ao Texto.
São Paulo: Iluminuras, 1989.
_____. Laokoon Revisitado: Relações Homológicas entre Texto e Imagem. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1994.
_____. Signos (em) cena: ensaios – variações acerca de modulação no trabalho de arte:
fragmentos críticos. Cotia – SP: Ateliê Editorial, 2010.
OLIVEIRA, Solange Ribeiro de. Literatura e Música: modulações pós-coloniais. São Paulo:
Perspectiva, 2002.
OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e Pintura – Um Diálogo em Três Dimensões. São Paulo:
UNESP, 1999.
TINHORÃO, José Ramos. Música popular: um tema em debate. São Paulo: Editora 34, 1997.
TATIT, Luiz. Análise semiótica através das letras. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
WISNIK, José Miguel. Sem receita: ensaios e canções. São Paulo: Publifolha, 2004.
_______. O som e o sentido: uma outra história das músicas. 2. ed. São Paulo: Companhia das
Letras, 1999.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
"THE PARABLE OF THE BLIND": A CEGUEIRA RETRATADA POR PIETER BRUEGHEL E POR
WILLIAM CARLOS WILLIAMS
16/07 (TARDE)
Daniel de Thomaz
“EU TIREI AS PALAVRAS DO JORNAL. NÃO MUDEI NADA. SÓ AS PALAVRAS.”: BOB DYLAN E O
212
CONTADOR DE HISTÓRIAS BENJAMINIANO
Eduardo Friedman
Elena Santi
17/07 (MANHÃ)
213
Francisco Antonio Ferreira Tito Damazo
17/07 (TARDE)
ESCREVER É
Mariane Tavares
214
18/07 (MANHÃ)
18/07 (TARDE)
19/07 (MANHÃ)
216
Patrícia Resende Pereira
19/07 (TARDE)
217
59 - LITERATURA E OUTRAS MÍDIAS: PROCESSOS E ESTRUTURAS DAS
RELAÇÕES
Coordenação: Dra Aurora Gedra Ruiz Alvarez (UPM); Dra Cristine Fickelscherer de Mattos
(UPM); Dra Daniella de Aguiar (UFU)
Resumo: Em Comparative Literature: Method and Perspective, de 1961, Henry Remak defende
além do cruzamento de fronteiras entre literatura e filosofia, história, ou ciências sociais,
também as relações entre as diferentes manifestações da expressão literária, bem como entre
a literatura e as artes em geral. Desde então, este último diálogo tem se mostrado cada vez
mais produtivo, principalmente com o advento das novas tecnologias, que geraram novas
mídias ou renovaram as mídias da tradição, vitalizando esses cruzamentos e ressaltando sua
presença. Nesta senda de pesquisa, surgiram os Estudos da Intermidialidade, liderados por
nomes representativos dessa área como, Claus Clüver, W. J. P. Mitchell, Liliane Louvel, Jürgen
H. Müller, Irina Rajewsky, Lars Elleström e muitos outros. Intermidialidade é uma noção que se
refere a todos os tipos de relação entre duas ou mais mídias, duas ou mais artes, mídias e
artes. Este fenômeno relacional ocorre em todas as culturas e épocas, tanto em atividades do
cotidiano como em atividades especializadas; não está restrito à arte erudita ou à
incorporação das novas mídias digitais e, portanto, exemplos são encontrados em diversos
contextos, desde práticas indígenas e ancestrais, até formas de comunicação do dia a dia. Os
problemas mais persistentes dos Estudos de Intermidialidade envolvem as formas de relação
entre as artes e as mídias, e a própria definição de mídia. Diversos autores propuseram
tipologias e classificações para descrever as possíveis relações entre duas ou mais mídias.
Nota-se que as práticas artísticas contemporâneas alargam e/ou dissolvem frequentemente as
fronteiras entre artes e mídias e podem, em assim fazendo, ampliar o conceito de mídia bem
como de intermidialidade. Deste modo, há uma importante relação de retroalimentação entre
o desenvolvimento conceitual e a criação artística. Dentro deste escopo, este simpósio se abre
aos interessados em contribuir com os estudos comparados entre a literatura e as diversas
mídias que com ela dialoguem, apreciando perspectivas conceituais acerca dessa relação,
processos intermidiáticos nela instalados ou diferentes possibilidades de leitura oferecidas
pelas várias soluções estéticas criadas por diferentes autores nessas interações, como nas
adaptações, por exemplo, ou em variadas formas de inscrição de referências intermidiáticas
estabelecidas nesses cruzamentos de fronteiras.
Referências:
ARBEX, Marcia (Org.). Poéticas do visível: ensaios sobre a escrita e a imagem. Belo
Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2006.
BOLTER, Jay David; GRUSIN, Richard. Remediation. Understanding New Media,
Cambridge, MA; London: MIT Press, 2000.
218
CLÜVER, Claus. Estudos Interartes: conceitos, termos objetivos. Literatura e
Sociedade 2: Revista de teoria literária e literatura comparada, Universidade de São
Paulo, São Paulo, p. 37-55, 1997.
______. Intertextus/Inter artes/Inter media. Aletria: Revista de Estudos de Literatura,
UFMG/FALE, Belo Horizonte, n. 14, p. 9-39, jul./dez. 2006.
CORSEUIL, Anelise R.; CAUGHIE, John (Org.). Palco, tela e página. Florianópolis:
Insular, 2000.
DINIZ, Thaïs F. N. (Org.). Intermidialidade e estudos interartes: desafios da arte
contemporânea. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2012.
DINIZ, Thaïs F. N. & VIEIRA, André Soares (Org.). Intermidialidade e estudos
interartes: desafios da arte contemporânea, vol. 2. Belo Horizonte: Rona Editora:
FALE/UFMG, 2012.
ELLESTRÖM, Lars. Media Borders, Multimodality and Intermediality. New York:
Palgrave Macmillan, 2010.
______. Media Transformation: the Transfer of Media Characteristics among Media.
Houndmills: Palgrave Macmillan, 2014.
GENETTE, Gerard. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Extratos traduzidos do
francês por Luciene Guimarães e Maria Antônia Ramos Coutinho. Cadernos do
Departamento de Letras Vernáculas. Belo Horizonte: UFMG/Faculdade de Letras,
2005. 99 p.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Tradução de André Cechinel.
Florianópolis: Editora UFSC, 2011.
MITCHELL, W. J. T. Picture theory: essays on verbal and visual representation.
Chicago/London: The University of Chicago Press, 1994.
MOSER, Walter. As relações entre as artes: por uma arqueologia da
intermidialidade. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, FALE/UFMG, Belo
Horizonte, n. 14, p. 40-63, jul./dez. 2006.
OLIVERIA, Solange Ribeiro de. Perdida entre signos: literatura, artes e mídias, hoje.
Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2012.
PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003.
RAJEWSKY, Irina O. Intermidialidade, intertextualidade e “remediação”: uma
perspectiva literária sobre a intermidialidade. Tradução de Thaïs F. N. Diniz e Eliana
Lourenço de Lima Reis. In: DINIZ, Thaïs F. N. (Org.). Intermidialidade e estudos
interartes: desafios da arte contemporânea. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2012.
_____. Potential Potentials of Transmediality: the Media Blindness of (Classical)
Narratology and its Implications for Transmedial Approaches. In: TORO, Alfonso 210
de. Translatio. Transmédialité et transculturalité en littérature, peinture, photographie
et au cinema. Paris: L’Harmattan, 2013. p. 17-36.
REICHMANN, Brunilda (Org.). Assim transitam os textos: ensaios sobre
intermidialidade. Curitiba: Editora Appris, 2016.
STALLKNECHT, Newton & FRENZ, Horst (orgs), Comparative Literature: Method and
Perspective. Carbondale: Southern Illinois University Press, 1961.
PROGRAMAÇÃO
219
Dia 16/07 (Manhã)
Fernando Velasco
17/07 (Manhã)
220
GRAFOS RELACIONAIS DE VAN GOGH
Camila Concato
221
19/07 (Manhã)
60 – LITERATURA E RELIGIOSIDADE
Coordenação: Dr. João Leonel (Universidade Presbiteriana Mackenzie); Dr. Marcos Aparecido
Lopes (UNICAMP); Dr. Alex Villas Boas (PUC/PR)
No século XX, com a suposta autonomia de um campo específico dos estudos literários, alguns
222
críticos e intelectuais se dedicaram à compreensão do fenômeno religioso na sua interface
com os diversos gêneros literários. Mas, em geral, a regra tem sido um silêncio obsequioso ou,
paradoxalmente, uma tolerância à diferença sem a pesquisa vigorosa do que é irredutível e
comum aos dois “objetos”. No entanto, é fato que a religião e suas expressões ocupam espaço
relevante, tanto na literatura mundial, quanto nas literaturas de língua portuguesa. As raízes
da própria ideia de literatura, como a conhecemos hoje, se encontram interligadas com o
sagrado e a religiosidade. Assim, a mélica e a épica gregas, por exemplo, não podem ser
plenamente compreendidas, se não considerarmos suas relações com o imaginário religioso
em seus contextos originais de produção. Momentos importantes da história da literatura
ocidental estabelecem conexões com a religiosidade: os poemas barrocos de Quevedo e
Gôngora, o teatro de Shakespeare, Os Lusíadas, de Camões, a prosa de James Joyce, ou os
contos de Jorge Luis Borges são alguns dos exemplos possíveis dessa relação instigante. No
caso específico da literatura brasileira, é possível percebermos o diálogo fecundo entre poesia,
representação ficcional e religiosidade, que já se inicia entre nós, por exemplo, nas práticas
letradas de um José de Anchieta e Gregório de Matos, perpassa o arcadismo, romantismo e a
obra de Machado de Assis. Ao longo dos séculos XX e XXI, a literatura brasileira continuará
esse diálogo nas obras de escritores como Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Cecília
Meireles, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, Ariano Suassuna, Milton Hatoum, Adélia Prado,
Hilda Hilst, Conceição Evaristo, entre tantos outros que poderiam ser citados.
Referências
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______; KERMODE, Frank. Guia literário da Bíblia. São Paulo: Editora Unesp, 1997.
ARMSTRONG, Karen. A Bíblia: uma biografia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
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islamismo. São Paulo: Cia. de Bolso, 2009.
______. Uma história de Deus. São Paulo: Cia. de Bolso, 2008.
BLOOM, Harold. Abaixo as verdades sagradas: poesia e crença desde a Bíblia até
nossos dias. São Paulo: Companhia de Bolso, 2012.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000 (Grandes
nomes do pensamento brasileiro).
EAGLETON, Terry. Como ler literatura: um convite. Porto Alegre: L&PM, 2017.
Ebook.
______. Teoria da literatura: uma introdução. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
ELIOT, T. S. Religion and Literature. In: KERMODE, Frank (Ed.). Selected Prose of T.
S. Eliot. New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1975. p. 97-106.
223
Espírito da letra, o: temas de literatura e teologia. Religião & Cultura. Departamento de
Teologia e Ciências da Religião – PUC/SP, v. III, n. 6, jul/dez, 2004.
FERRAZ, Salma. As faces de Deus na obra de um ateu. 2. ed. rev. e ampl. Blumenau,
SC: Edifurb, 2012.
FRYE, Northrop. O código dos códigos: a Bíblia e a literatura. São Paulo: Boitempo,
2004.
JASPER, David. The Study of Literature and Religion: An Introduction. 2nd.
[Link]: Wipf and Stock Publishers, 2009.
KNIGHT, Mark; MASON, Emma. Nineteenth-Century Religion and Literature: An
Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2006.
______; LEE, Louise (Eds.). Religion, Literature and the Imagination: Sacred Worlds.
London: Continuum, 2009.
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American Academy of Religion, Oxford University Press, v. LVIII, n. 4, p. 575-588,
1990.
KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras: retratos teológico-literários. São
Paulo: Loyola, 1999.
LEONEL, João. Religião e linguagem literária: contribuições da literatura para a
interpretação de textos religiosos. Reflexão, Puccamp, v. 41, p. 47-59, 2016.
LOPES, Marcos Aparecido. Da poesia como exercício espiritual. Forma breve
(Universidade do Aveiro, Portugal), v. 1, p. 133-146, 2014.
______. A santidade do poema: ascese da forma, metamorfose dos símbolos em Orides
Fontela. Teografias, v. 03, p. 185-198, 2013.
MAGALHÃES, A. Deus no espelho das palavras: teologia e literatura em diálogo. São
Paulo: Paulinas, 2000.
MALANGA, Eliana Branco. A Bíblia Hebraica como obra aberta: uma proposta
interdisciplinar para uma semiologia bíblica. São Paulo: Humanitas/Fapesp, 2005.
MILES, Jack. Deus: uma biografia. São Paulo: Cia. de Bolso, 2009.
MORI, Geraldo Luiz de; SANTOS, Luciano Costa; CALDAS FILHO, Carlos Ribeiro
(Orgs.). Aragem do sagrado: Deus na literatura brasileira contemporânea. São Paulo:
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NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza (Org.). Religião e linguagem: abordagens
teóricas interdisciplinares. São Paulo: Paulus, 2015.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
PERRONE-MOISÉS, Leila. Mutações da literatura no século XXI. São Paulo: Cia. das
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QUEIROZ, Maria Eli de. Machado de Assis e a religião. Considerações acerca da alma
machadiana. Aparecida (SP): Ideias e Letras, 2008.
VILLAS BOAS, Alex; SILVA CAMPOS, Darlene Aparecida. Patativa do Assaré:
Teologia e Literatura Latino Americana à maneira do Povo. Teoliterária: revista
brasileira de literaturas e teologias, v. 7, p. 53-87, 2017.
______. Teologia em diálogo com a literatura: origem e tarefa poética da teologia. São
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WOOD, James. Como funciona a ficção. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
ZABATIERO, Júlio P. T.; LEONEL, João. Bíblia, literatura e linguagem. São Paulo:
Paulus, 2011.
224
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
225
Maykol Vespucci de Oliveira.
17/07 (MANHÃ)
Cássio Lignani.
17/07 (TARDE)
226
RAZÃO E IMAGINAÇÃO EM C. S. LEWIS.
ENTRE A CRUZ E O ANEL: UMA ANÁLISE ACERCA DAS RESSONÂNCIAS DA PAIXÃO DE CRISTO NA
JORNADA DE FRODO BOLSEIRO EM O SENHOR DOS ANÉIS.
18/07 (MANHÃ)
O DIVINO E SEU EMBATE COM O HERÓI NOS SERTÕES DAS GERAIS: UM ESTUDO EM GRANDE
SERTÃO: VEREDAS.
18/07 (TARDE)
227
OBSESSÃO E RESGATE EM TRAMAS DO DESTINO.
João Leonel.
Referências:
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Memória, história, testemunho. Lembrar, escrever, esquecer. São
Paulo: Ed. 34, 2006, p. 49-57.
229
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
230
K.: RELATO DE UMA BUSCA E OS VISITANTES, DE BERNARDO KUCINSKI: UMA MATZEIVÁ PARA
ANA ROSA KUCINSKI E WILSON SILVA
Marina de Oliveira
17/07 (MANHÃ)
231
17/07 (TARDE)
18/07 (MANHÃ)
18/07 (TARDE)
UM “UMBIGO” QUE NÃO CABE EM SI: BRASÍLIA, BRAXÍLIA, BRASIL E O MUNDO EM VERSOS DE
NICOLAS BEHR
Wilberth Salgueiro
O tradutor Paulo Bezerra, no artigo Tradução como criação compara o movimento de traduzir
com o ritmo do adágio, um ritmo gradativo e lento de entrar em contato com outros valores
culturais, outra percepção, outra literatura e outra oralidade para depois retornar a si mesmo
e interpretar, recriar o ritmo da obra entendida em seu contexto referente. Como no adágio, é
preciso estabelecer uma sequência de passos e de posições complexas em um ritmo lento,
como que a primeira parte de um pas de deux clássico, para que o resultado final não gere
entendimentos equivocados que podem ser perpetuados na história justamente por uma
busca de literalidade que leva em conta apenas a palavra como referente.
Segundo Paulo Henriques Britto, a tradução – e seus limites para a utilização deste conceito –
pode ser no seu caminho de travessia estrangeirizadora ou domesticadora.
Tanto uma como outra forma de lidar com a linguagem estabelece uma operação com
sentidos e não com significados, que deve afastar a ilusão da literalidade, uma literalidade
impossível de ser atingida salvo pelo jogo da poesia.
Como não se traduz uma língua, mas sim uma linguagem, que é “o mundo do sentido”, nos
termos de Octavio Paz, o suporte material constitui-se como um aspecto essencial à
compreensão das narrativas.
234
Neste sentido, literatura, cinema e teatro mudam suas estruturas textuais - entendendo texto
como tecido de linguagens - conforme os suportes que dialogam com suas relações de escrita,
leitura e respectivas formas de recepção.
Desse modo, não nos ateremos apenas a análises semântico-narrativas e, sim, trataremos das
tramas, memórias e sentidos no mundo contemporâneo que podem gerar a crise do
espectador e abrir espaço para a chegada de um “visitante” que engaja seu corpo de
observador em performance e exercício livre de suas capacidades e potenciais. Abrangeremos
então o texto literário, o roteiro e a criação cinematográficos, o texto teatral, sua divulgação e
sua apresentação, a adaptação e roteirização para televisão ou cinema, as traduções e
transcriações, o uso do corpo na linguagem teatral, além das perspectivas da memória e de
suas relações.
Para Antonio Negri, por exemplo, quando se fala de memória não há mais o lado de fora, nem
o nostálgico, nem o mítico, nem alguma urgência para a razão nos desengajar da
espectrabilidade do real. Não há mais nem lugar, nem tempo – e este é o real. A invocação do
fantasma como memória, capaz de expressar a persistência do passado no presente, está
nessa nova espectrabilidade ao alcance de uma ilusão real. Somente o ‘Unheimlich’ de Freud
permanece na ilusão que estamos inseridos.
Este simpósio temático, em resumo, tem como propósito reunir estudos que coloquem no
centro de sua reflexão os aspectos materiais e imateriais envolvidos na relação Literatura,
Cinema e Teatro com a chegada da contemporaneidade.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
VIDA E MORTE EM THE WIND THAT SHAKES THE BARLEY, DE KEN LOACH E PAUL LAVERTY
235
NOVOS DISCURSOS PÓS-COLONIAIS NA SÉRIE NO. 1 LADIES’ DETECTIVE AGENCY
17/07 (MANHÃ)
236
Vanessa Cianconi
É bem verdade que boa parte do conhecimento sobre esta Região ainda está por ser
construído. A diversidade de fronteiras e de culturas, dentro e fora das comunidades indígenas
locais, é um dos elementos que merece destaque. Tanto é que muitas pessoas que imaginam
ser este um espaço privilegiado em termos naturais – e mesmo humanos, como as existentes
entre as comunidades indígenas, de seringueiros e garimpeiros, por exemplo – não percebem
que esta diversidade abrange as culturas urbanas. Não sabem, também, que há universidades,
pesquisa, tecnologias em desenvolvimento neste meio/lugar. A imagem que prevalece, via de
regra, é a de um “lugar periférico”, subdesenvolvido ao extremo (“primitivo”, para alguns),
fechado em seus limites regionais, pobre, tomado pela floresta, em que há grande diversidade
de culturas indígenas e pouca intelligentzia.
No Brasil, em especial, este imaginário (a que chamaremos senso comum) construiu e mantém
a equivocada ideia de que além de una, enquanto região, a Amazônia é brasileira. Este
fenômeno é mais visível quando observamos os spans e fakenews que circulam na internet e
que alimentam, à custa de mentes menos esclarecidas, a paranoia de que querem tomar-nos a
Amazônia e internacionalizá-la. Mas além de abranger vastas áreas urbanas, como Belém e
Manaus (ambas com população acima de um milhão de habitantes cada), a Amazônia já é
internacional. Basta verificar a existência das outras amazônias fronteiriças: a venezuelana, a
boliviana, a colombiana, a peruana, a equatoriana...
O simpósio que propomos não pretende dar conta de toda esta diversidade cultural, mas
abrigá-la. Pretende contrastá-la, compará-la, tanto interna, quanto externamente,
questionando as fronteiras e limites de sua regionalidade/universalidade, além de mostrar
uma fatia desta construção/invenção em seus múltiplos aspectos. Ao abrigarmos trabalhos de
temática Amazônica, pretendemos exercer a comparação tanto no que concerne aos objetos
abordados em cada trabalho, na sua relação com o cânone central, quanto na relação entre
seus centros, como também nas relações constituídas entre centros, margens e periferias,
dentro e fora do âmbito amazônico, propondo sempre o necessário debate entre seus
autores/pesquisadores.
237
Nesse sentido, este simpósio objetiva a discussão acerca dos limites, das confluências
linguísticas e culturais da/na Amazônia, nas perspectivas da Teoria da Literatura, dos Estudos
Culturais e da História (e áreas afins), deslocando-se o eixo da análise da cultura, desfazendo
ideias já constituídas, com vistas a tornar possível o debate em torno das identidades híbridas,
de uma compreensão delas frente às estruturas globais e às novas configurações do lugar do
periférico, das fronteiras e das culturas, das migrações e a construção diaspórica que se
apresenta nesses contextos, bem como, da circulação, tramas e sentidos da Literatura neste
universo.
Nosso simpósio pretende privilegiar questões relativas à literatura (sua teorização, suas
possibilidades, suas categorias, o modo como se apresentam ao leitor os narradores, o que
propõem como narrativa, que tipo de intervenção pedagógica é feita a partir do objeto
literário, por exemplo); privilegiar a estética de contos, fábulas e mitos da literatura latino-
americana, de origem oral ou escrita. Também é nosso objeto de investigação a identificação e
interpretação de certo discurso identitário, a partir do estudo comparado de textos literários
diversos, enfocando questões culturais específicas, quase sempre oriundas ou emanadas, da
produção literária/mitológica amazônica, de sua circulação, tramas e sentidos.
Visa-se, deste modo, a compreensão das representações do ser amazônida, quer no habitat,
quer longe dele, em seus anseios locais/universais, seja através da leitura das diversas relações
de confronto entre a textualidade amazônica e a produção cultural na América Latina, ou do
levantamento crítico da(s) identidade(s) plasmada(s) na produção literária da Região. Neste
sentido, reunir-se-ão, inicialmente, professores pesquisadores das IFES de Roraima e do Acre,
bem como, vêm se somando a esses, nos últimos dez anos de reuniões nacionais e
internacionais da ABRALIC, pesquisadores dos demais estados amazônicos, bem como de
outras paragens, interessados em temas e textos literários oriundos desta, ou sobre a Região.
PROGRAMAÇÃO
17/07 (MANHÃ)
Gracielle Marques
238
A APLICABILIDADE DOS ESTUDOS BAKHTINIANOS EM NARRATIVAS DO ESCRITOR INDÍGENA
YAGUARÊ YAMÃ
17/07 (TARDE)
18/07 (MANHÃ)
239
UM VISÃO ETNOGRÁFICA DO SUL-MINEIRO A CERCA DO IMAGINÁRIO DE IMIGRANTES
PROVIDOS DE REGIÕES DE BIOMA AMAZÔNICO
240
especular e destacou a presença desta ideia de composição narrativa como uma constante
passível de identificação, da Antiguidade aos tempos modernos, esta consciência nos surge
como um método de investigação para melhor uniformizar o heterogêneo cenário aberto pela
relação das artes. Assim, importa não somente verificar a maneira como variadas obras podem
se relacionar, mais do que isso, torna-se relevante perceber a influência destas relações no
gesto criativo, em si mesmo. Uma obra que se constrói em abismo, segundo Dällenbach, vem
também se desdobrar numa ‘autotextualidade’, em outras palavras, numa ‘intertextualidade
autárquica’, passando a depender intrinsecamente do diálogo com outros textos e linguagens
para subsistir como forma autônoma e original. Sobreposição de camadas que logo se percebe
como um modus operandi muito expressivo e recorrente na literatura contemporânea, seja
em obras que ultrapassem o verbo escrito para alcançar novos domínios de visualidade e, até
mesmo, sonoridade; ou literaturas que vêm encontrar nas tecnologias eletrônicas, na
cibernética e na rede virtual, novos horizontes de possibilidades textuais. O conceito de mise
en abyme, desde os romances e apontamentos ensaísticos de André Gide, presta-se como
instrumento de análise comparatista, pois instaura numa obra a reflexividade direta por
outra(s) obra(s), seja através de semelhança ou de contraste. Jogo de reflexos a ser resgatado
por Dällenbach, ao definir uma narrativa em abismo como obrigatoriamente estruturada por
meio de um ‘relato espelhado’, assim como determina Umberto Eco (1989) em sua teoria de
espelhamentos, ampliando o caráter vertiginoso das artes que se alimentam
ininterruptamente. Diante disso, o simpósio propõe uma ampla discussão de obras que
recorram a caminhos em composição especular, seja no direcionamento de textos que
apontem para outros textos (obras dentro de obras), mas especialmente, no caso de
linguagens que se voltem para outras linguagens, desafiando a percepção e inovando as
estéticas contemporâneas. Acompanhando uma tendência dos estudos mundiais em literatura
comparada, como se pode constatar pela recente organização de um periódico internacional
da Università degli Studi di Verona (2014), integralmente voltado para pesquisas que
contemplem a mise en abyme como escopo principal de análise crítica, espera-se contribuir
aqui para a discussão e divulgação do tema. Diante da alta procura por esta proposta na XIV
ABRALIC, a renovação do simpósio visa oportunizar um maior contato entre pesquisadores
brasileiros que já se dediquem ao assunto.
Referências:
Bernardo, Gustavo. O livro da metaficcao. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2010.
______. Le récit spéculaire: essai sur la mise en abyme. Paris: Editions du Seuil (Poétique),
1977.
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1989.
GOULET, Alain. L’auteur mis en abyme (Valéry et Gide). Lettres Françaises: revista da área de
241
Língua e Literatura Francesa, Araraquara/FCL-UNESP/Laboratório Editorial, n. 7, p.39-58, 2006.
MISE EN ABYME: international journal of comparative literature and arts. Verona: Università
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Acesso em 23 Abr. 2016.
Stam, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Belo
Horizonte: UFMG, 2008.
______. Reflexity in film and literature – from D. Quixote to Jean-Luc Godard. New York:
Columbia University Press, (1985) 1992.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
17/07 (TARDE)
242
MATERIALIZAÇÕES DO INVISÍVEL NA POÉTICA DE ABBAS KIAROSTAMI
Fernando de Mendonça
Referências:
CERQUEIRA, Daniel et al. Atlas da Violência 2016. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2016.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
244
ESCRITORAS NEGRAS DA BAHIA: (RE)MAPEAMENTO E MOVIMENTOS
Fabiana de Pinho
17/07 (MANHÃ)
Fernando Rocha
245
Beatriz Schmidt Campos
17/07 (TARDE)
Laísa Marra
18/07 (MANHÃ)
Jéssica Schmitz
246
A PALAVRA QUE LIBERTA - UMA ANÁLISE DE HIBISCO ROXO DE CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE
E DE INFIEL DE AYAAN HIRSI ALI
18/07 (TARDE)
248
há fantasma sem memória. O tempo residual e a anterioridade que desencadeiam o presente
são pressupostos basilares da esfera imaginativa – que não a determinam necessariamente,
mas a influenciam. A relação das imagens com a memória na literatura e na arte
contemporânea, e com temporalidades disjuntivas, através de noções como as de anacronia,
representam também importantes pontos de passagem para a reflexão que este simpósio
procurará proporcionar. Por fim, a disposição do simpósio é abrigar comunicações que nos
permitam refletir sobre as relações entre mito, arte e memória – do ponto de vista da
literatura contemporânea em seu constante diálogo com as mais variadas linguagens artísticas
(teatro, fotografia, música, cinema e dança). Nessa reflexão, ao que parece, devemos buscar
compreender o percurso da imagem e do imaginário no pensamento estético moderno e
contemporâneo em seus vínculos com a cultura e com a sociedade.
Referências:
AGAMBEN, Giorgio. Nudez. Trad. de Davi Pessoa. São Paulo: Autêntica, 2014.
BATAILLE, Georges. O Erotismo. Trad. de Fernando Sheibe. São Paulo: Autêntica, 2013.
CALASSO, Roberto. A Literatura e os deuses. Trad. de Jônatas Batista Neto. São Paulo:
Companhia das letras, 2004.
_______. A semelhança informe: ou o gaio saber visual segundo Georges Bataille. [Link] Caio
Meira, Fernando Scheibe e Marcello Jacques de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015.
SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Além do visível: o olhar da literatura. Rio de Janeiro: 7 Letras,
2016. WARBURG, Aby. Histórias de fantasmas para gente grande: escritos, esboços,
conferências. Trad. de Lenin Bicudo Bárbara. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
OLIVEIRA, Alexandre et Al. Deslocamentos críticos / Itaú Cultural. São Paulo: Babel, 2011.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
249
Elizabeth Serra dos Santos
Nelson Marques
17/07 (TARDE)
18/07 (TARDE)
250
IMAGINÁRIO OCULTISTA NA VIDA E OBRA DE FERNANDO PESSOA
Resumo: O campo literário não se constituiu a partir do éter, possui trajetórias diversificadas.
Entretanto, essa pluralidade e multiplicidade de vozes e poéticas foi sendo recortada,
censurada por muitas vezes. Interessam-nos as narrativas e seus deslocamentos: relatos e/ou
ficção de viagens, as diásporas, a performance, as outras artes e, as identidades tecidas
dentro da pletora dessas poéticas. É sabido que tais deslocamentos nunca foram à base de
consenso: a colonização e outros processos movimentaram massas populacionais, quase
sempre, à revelia dos propósitos mais subjetivos. A literatura estava desconectada do real,
aparentemente, sempre abrigou em seu campo a necropolítica (MBEMBE, 2018), lançando as
vozes dissonantes, ora para o fundo do oceano, ora para as margens do cânone.
Referências
CARLSON, Marvin. Performance: uma introdução crítica. Trad. Thaïs Flores Nogueira Diniz;
Maria Antonieta Pereira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.
251
FRIEDMAN, Susan. Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. New
Jersey: Princeton U P, 1998.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições,
2018.
MILLS, Sara. Discourses of Difference: An Analysis of Women’s Travel Writing and Colonialism.
London and New York: Routledge, 1991.
PRATT, Mary Louise. Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation. 2nd ed. New York:
Routledge, 2008.
WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo, Companhia das Letras,
2008.
ZUNTHOR, Paul. A letra e a voz. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
TRAVEL NARRATIVES, WOMEN AND HUNTING GAMES: FLORENCE DIXIE’S ACROSS PATAGONIA
252
ANTÓNIO ALEIXO E ANTÔNIO VIEIRA: DIÁLOGOS IMAGINADOS OU BOCA E PAPEL: ESPAÇOS DE
FRICÇÃO DA PALAVRA POÉTICA
Daniel Bell
17/07 (MANHÃ)
Janda Montenegro
69 - NATURALISMO/NATURALISMOS
Coordenação: Haroldo Ceravolo Sereza (USP); Leonardo Pinto Mendes (UERJ); Pedro Paulo
Garcia Ferreira Catharina (UFRJ)
Referências:
BECKER, Colette & DUFIEF, Pierre-Jean (dir.). Dictionnaire des naturalismes. 2 vols. Paris :
Honoré Champion, 2017.
CASANOVA, Pascale. A República mundial das Letras. São Paulo: Estação Liberdade,
2012.
CATHARINA, Pedro Paulo. Revendo o naturalismo. In: MELLO, Celina & CATHARINA, Pedro
Paulo (org.). Cenas da literatura moderna. Rio de Janeiro: 7Letras, 71-90.
DUBOIS, Jacques. Les romanciers du réel. De Balzac à Simenon. Paris: Seuil, 2000.
MENDES, Leonardo & FERREIRA, Alexandre Amaral. Virgílio Várzea, escritor
naturalista. Soletras, n. 27, p. 233-253, 2014.
MENDES, Leonardo & OLIVEIRA, Paola. As trajetórias de Suicida ! (1895) e O terror dos
maridos (1896), romances naturalistas esquecidos de Figueiredo Pimentel. Soletras, n. 30, p.
118-138, 2015.
MENDES, Leonardo & DIAS, Riane Avelino. Pedro Rabelo, escritor naturalista. Soletras, n. 34, p.
285-311, 2017.
PELLEGRINI, Tânia. Realismo e realidade na literatura ; um modo de ver o Brasil. São Paulo,
Alameda, 2018.
SEREZA, Haroldo Ceravolo. O Cortiço, romance econômico. Revista Novos Estudos, n. 98. São
Paulo: Cebrap, mar. 2014.
SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.
ZOLA, Émile. O romance experimental e o naturalismo no teatro. Trad. Italo Caroni, Célia
Berrentini. São Paulo: Perspectiva, 1982.
PROGRAMAÇÃO
255
16/07 (MANHÃ)
Leonardo Mendes
17/07 (MANHÃ)
256
18/07 (MANHÃ)
Aline Moreira
Resumo: Desde a década de 1980, a literatura infantil vem passando por transformações
agudas tanto na temática – proliferação dos temas anteriormente visto como tabus – quanto
no formato – experimentalismos no livro impresso alçando-o a categoria de livro imagem e
objeto livro – (ZILBERMAN, 2005; COLOMER, 2003). Destacam-se também as subdivisões do
gênero em literatura digital e aplicativos literários, graphic novels, romances de fantasias e
suas séries, literatura para bebês, entre outras.
Portanto, refletir sobre a literatura endereçada à infância e à juventude, hoje, perpassa reaver
pontos, já colocados pela teoria e pela crítica, e elaborar novas indagações. Entre as questões,
já clássicas, figuram temas como: a definição do gênero; a discussão sobre sua potência
literária e estética; as complexas relações entre a formação do leitor e escola, família, mercado
editorial, autoria e interesse dos leitores; a relação palavra e imagem. No contemporâneo, tais
temáticas persistem ao lado de novas questões em torno da literatura digital, do livro imagem,
do livro objeto, da literatura para bebês, especialmente no que diz respeito ao acesso, à
legibilidade, à literariedade e à autoria. Tais temas remetem a questões sobre os suportes de
257
leitura e sinalizam para modos distintos de ler e de interagir com o texto (CHARTIER, 1998). As
interações com o suporte exigem do leitor outras habilidades de leitura. Em suporte digital, o
hipertexto apresenta uma estrutura multilinear, o que requer do leitor-usuário tomar decisões
na condução da leitura, delimitar os rumos do texto, a partir de alguns cliques (SANTAELLA,
2012). A multimodalidade textual encontra na dinamicidade da tela, a junção de escrita,
imagens, cenas, áudios, nas quais a manipulação direta oportuniza ao leitor-usuário múltiplas
possibilidades de leitura que não se restringem à linguagem verbal, mas multimodal.
Os elementos empregados nas narrativas digitais podem ser inalteráveis ou podem utilizar
mecanismos de hipermodalidade, quando diferentes categorias se integram na hipermídia,
tornando-se não lineares e não cronológicas, possibilitando ao leitor, escolhas quanto ao
percurso a ser seguido, o que possibilita a cada inovação de versão, o seu armazenamento.
(LEMKE, 2002)
Tem-se na potência da linguagem híbrida, presente na literatura infantil e por suas múltiplas
mediações, um crescente acesso de gêneros digitais direcionados às crianças. Essas tendências
indicam práticas discursivas em constante transformação envolvendo a expressão verbal e
não-verbal, a tradição e a vanguarda, a contação e a leitura, o impresso e o digital, o livro e o
objeto livro. Nessa mutação sígnica a infância lê e é escrita, determina e é influenciada,
registra-se e transforma acionando os estudos mais diversos e multidisciplinares à pesquisa e à
extensão.
Este simpósio centra-se em trabalhos acadêmicos voltados para a literatura infantil e juvenil
que inova seja na temática, na forma e/ou no gênero. Rompendo e ampliando barreiras
limitadoras sobre indicação de faixa etária, materiais mais indicados, definições de gêneros,
temas tabus, mídias mais adequadas. Pretende-se reunir os pesquisadores que atuam com a
literatura infantil e juvenil que escapa às classificações, que provoca e questiona métodos
tradicionais de formação de leitor, que desloca o mediador, que revê o papel da escola e da
família, que explora novos formatos e mídias, que dialoga, adapta ou reescreve a tradição oral
e seus contos em novos suportes, a literatura infantil e juvenil que encanta, questiona e
inspira.
Referências
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: o leitor ao navegador. São Paulo: Unesp, 1998.
COLOMER, Teresa. A formação do leitor literário: narrativa infantil e juvenil atual. Trad. Laura
Sandroni. São Paulo: Global, 2003.
KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. Reading Images: The Gramar of visual design: 2.
258
______. Introdução. In: KRESS, G. Multimodal discourse: the modes and media of
10 set. 2014.
ZILBERMAN, Regina. Como e por que ler literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva,
2005.
17/07 (TARDE)
18/07 (MANHÃ)
Douglas Menegazzi
Elizabeth Cardoso
18/07 (TARDE)
260
19/07 (MANHÃ)
Resumo: A atualidade exige que o texto literário, em diálogo com as outras formas artísticas e
midiáticas, seja não só pensado a partir de suas interações, interconexões, inter-relações pelos
Estudos Literários, mas também compreendido como essa imbricação está sendo trabalhada
no ensino da literatura, considerando que cada relação literária estabelecida provoca um novo
sentido. Entende-se que o leitor lê signos e por estes interagem com o mundo ao seu redor,
estabelecendo conexões consigo mesmo e com o contexto sociocultural. Esta proposta
objetiva discutir o texto literário e as tecnologias digitais voltadas à formação do leitor literário
contemporâneo e, dessa maneira, acolhe propostas que analisam as diversas formas pelas
quais o texto literário se inter-relaciona nos processos intersemióticos, ou nos de
intermidialidades. Sébastien Joachim (2012) afirma que a tradução intersemiótica foi outrora
chamada por Etienne Souriau de Literatura e outras artes. É pertinente entender que a
tradução intersemiótica ou transmutação foi por Roman Jakobson (1970, p. 65-72) definida
como sendo aquele tipo de tradução que “consiste na interpretação dos signos verbais por
meio de sistemas de signos não verbais”, ou “de um sistema de signos para outros, por
261
exemplo, da arte verbal para a música, a dança, o cinema ou a pintura”, ou vice-versa, como
acrescenta Plaza (1987, p. XI). Pela relevância da temática, é ponto de discussão neste
simpósio o fazer literário e o uso desse tipo de texto em sala de aula, tendo em vista as
implicações dessa forma de tradução entre os signos verbais e os não verbais. O ensino de
literatura, nos dias atuais, tem exigido do professor um olhar mais atento sobre suas ações em
sala de aula com o texto literário e sobre a forma como esse texto está sendo intermediado e
veiculado pelos novos suportes tecnológicos para a formação do leitor, como destaca Cosson
(2014). Dialogar sobre o ensino de literatura é também refletir sobre as várias relações em que
o texto literário mantém com as artes e as novas tecnologias digitais, ou seja, é interligar um
diálogo crítico e epistemológico entre literatura, artes e tecnologia digital. Flávio Kothe (1981)
diz, por exemplo, que a tradição literária com seus gêneros literários já consagrados pode
servir de engrenagem satisfatória para a similitude do sistema literário, dessa forma, fornece
trilhas de estudos para a inserção dos gêneros literários nos espaços do cinema, da televisão,
nas páginas da internet, como os blogs e plataformas de compartilhamento como youtube,
facebook dentre outros. A literatura atua amplamente na formação do homem, como é
evidenciado por Candido (2012), porque cumpre uma finalidade – a de humanizar. Assim,
refletir sobre as inter-relações do texto literário com os demais sistemas de reprodução e de
veiculação da produção artístico-literária é compromisso de quem lida com a literatura de
forma humanizadora. Neste sentido, considera-se fundamental a compreensão das diversas
maneiras como o texto literário está sendo veiculado e como essa diversidade intertextual está
repercutindo na leitura e na formação do leitor. Ao refletir sobre intermidialidade, deve-se
considerar a transposição midiática, combinação de mídias e pensar as referências
intermidiáticas, como discute Rajewdky (2012). Outro aspecto que cabe neste simpósio são as
discussões sobre adaptação do texto literário para outros sistemas sígnicos adaptados para os
meios digitais e como isso contribui com a formação do leitor. Vale ressaltar que as ideias
sobre adaptação são compreendidas, de acordo com Linda Hutcheon (2011, p. 30), em síntese,
como “uma transposição declarada de uma ou mais obras reconhecíveis; um ato criativo e
interpretativo de apropriação/recuperação; um engajamento intertextual extensivo com a
obra adaptada”. Por essas ideias, faz-se necessário pensar como na sala de aula estão sendo
trabalhados os processos adaptativos do texto literário e como estão sendo discutidos com os
leitores. Entende-se leitura do texto literário, à luz de Larrosa (2003), como formação e a
formação como leitura. Essa compreensão de leitura está relacionada à subjetividade do leitor,
porque se deve “pensar a leitura como algo que nos forma (ou nos de-forma ou nos trans-
forma), como algo que nos constitui ou nos põe em questionamento com aquilo que somos”
(LARROSA, 2003, p. 25-26). Por essa razão, o trabalho com a literatura nos dias de hoje não
pode se furtar, pois, de uma reflexão de como a leitura de tal texto deve ser problematizada
no ensino da literatura, considerando as novas tecnologias digitais, as relações interartes, os
estudos de bases culturais e os sistemas semióticos envolvidos.
Referências:
COSSON, Rildo. Círculo de leitura e letramento literário. São Paulo: Contexto, 2014.
262
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Florianópolis, SC: UFSC, 2011.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
A FOTOGRAFIA COMO AÇÃO CRIATIVA E POLÍTICA DOS ALUNOS DO IFPE, CAMPUS RECIFE, NA
RESSIGNIFICAÇÃO DO ROMANCE “O CORTIÇO”, DE ALUÍSIO AZEVEDO: O CASO DE VILA DA
FÁBRICA
Laura Assis
263
A FORMAÇÃO LITERÁRIA INFANTIL ATRAVÉS DA GAMIFICAÇÃO
Renata Andreolla
264
levado em conta o efeito provocado pelo fantástico: la transgressión que provoca lo
fantástico, la amenaza que supone per la estabilidade de nuestro mundo, genera
ineludiblemente una impresión terrorífica en los personajes como en lector. Vale considerar
que Roas sustenta a ideia de que a transgressão do fantástico provoca terror nos personagens
e no texto e, por terror, entende a ameaça à estabilidade do nosso mundo. Roas discute a
importância do leitor para a concretização do fantástico, ressaltando que o gênero só existe
com a participação do leitor, uma vez que cabe a ele o confronto entre a história narrada com
a realidade, considerando os contextos culturais envolvidos no processo de criação de obras
de caráter fantástico. Por isso, pode-se concluir que o fantástico depende sempre do que se
considera como real e este sempre depende do que se conhece. O estudioso italiano Remo
Ceserani (2006) aborda temas como a noite, a escuridão, o mundo obscuro e as almas de
outro mundo, a vida dos mortos, a loucura, o duplo, a aparição do estranho, do monstruoso,
do irreconhecível, as frustrações do amor romântico e o nada. De acordo com Ceserani, esses
temas permeiam e marcam a literatura fantástica como um modo literário. Nota-se que todos
esses temas levam o leitor ao campo do medo, da inquietação, já que suscitam algo de
desconhecido, incontrolável, obscuro, não explicado pelas leis da razão. Como se pode
observar, nessa breve exposição considerando alguns teóricos do fantástico, aqui entendido
como um gênero amplo, o termo apresenta diversas vertentes: maravilhoso, realismo mágico,
estranho, entre outros que não foram mencionados como o gótico, a ficção científica e a
fantasia. É importante lembrar que a mobilização do elemento fantástico/insólito podem se
dar através, especificamente, da personagem, do espaço, do tempo, da ação, etc ou por meio
articulação entre diferentes categorias narrativas. Assim, a proposta deste simpósio é acolher
comunicações que abordem o fantástico em suas diversas vertentes, tendo como corpus
narrativas de línguas estrangeiras ou de línguas estrangeiras comparadas com a literatura
brasileira.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
265
ENTRE A FÉ E A RAZÃO: O REALISMO MÁGICO EM “DOIS ANOS, OITO MESES E 28 NOITES”, DE
SALMAN RUSHDIE
NÃO ERA UMA VEZ: (SUB)VERSÕES DOS CONTOS DE FADA CLÁSSICOS EM SAGA ENCANTADAS
DE SARAH PINBOROUGH
16/07 (TARDE)
Josilene Pinheiro-Mariz
266
a mais importante representante do Gótico inglês no século dezoito. 210 anos de nascimento
de Edgar Allan Poe, crítico, poeta e contista renovador do Gótico nos Estados Unidos nas
primeiras décadas do século dezenove. 200 anos de “O Vampiro” (1819), de John William
Polidori, conto que introduz o personagem do vampiro na prosa. As diferentes efemérides
celebradas pela Literatura Gótica em 2019 relacionadas a eventos de mais de dois séculos
fomentam reflexões não apenas sobre o surgimento e desenvolvimento da tradição gótica,
mas também nos convida a indagar sobre o seu futuro. Afinal de contas, ao se pensar na
produção desta modalidade fantástica nos dias de hoje, quais são os rumos do Gótico hoje e
no futuro? Assim como os monstros que surgem e assombram sua narrativa como resultado
de ações e maldições de indivíduos para serem então combatidos, a Literatura Gótica é
marcada por fases em que ela ascende, como resposta a contextos histórico-culturais
específicos, se dissemina em formas variadas e parecer desaparecer em virtude do desgaste de
sua forma. Este ciclo tem início em 1764, com O Castelo de Otranto, estabelecendo um modelo
seguido por diferentes escritores e escritoras no que se refere ao espaço, linguagem, temas e
personagens explorados. Esta fase dura até fins do século dezoito quando a repercussão de O
monge (1796), de Matthew Gregory Lewis sinalizou o fim do gótico inglês de raízes
setecentistas abrindo caminho para as influências da Revolução Industrial e das teorias e
pesquisas científicas do século dezenove. Sob a sombra dos artistas românticos na Inglaterra e
nos Estados Unidos o Gótico se renova na forma tanto da criatura científica que ganha vida
pelas mãos de uma jovem rebelde quanto nos pesadelos vivos de viciados e loucos de um
escritor igualmente viciado e louco. Nesse meio tempo, o Gótico também se dilui para se
popularizar junto às camadas populares inglesas, atendendo aos anseios das massas por
histórias arrepiantes regadas a sangue e reviravoltas muitas vezes incoerentes. Esse foi o
período de reinado dos Penny Dreadfuls quando a violência de barbeiros serial killers descrita
em Sweeney Todd: O barbeiro demoníaco da Rua Fleet (1846-1847) se equiparava aos atos de
vampiros e lobisomens como em Varney, o vampiro (1845-1847) e Vagner, o Lobisomem
(1857). Todavia, com a aproximação do fim do século, o Gótico ressurgiu das sombras
fortalecido para abarcar as angustias e ansiedades do ambiente finissecular do Império
Britânico em uma Londres enegrecida pela fuligem das fábricas, temerosa das ameaças
externas e internas ao status quo e sacudida por posturas artísticas decadentes e teorias
científicas que discutiam o lugar divino do ser humano, a constituição da mulher e a função da
Arte. Atualizando temas e estruturas do Gótico setecentista, O estranho caso de Dr. Jekyll e
Mr. Hyde (1886), O retrato de Dorian Gray (1891) e Drácula (1897) o Gótico vitoriano mais uma
vez mostrou a relevância desta vertente do Fantástico como mediador cultural de seu tempo.
E no século vinte? Já no início do novo século o monstro gótico encontrou outro território para
assombrar: o Cinema. Foi na sala escura do Cinema que o Gótico encontrou terreno fértil para
estabelecer raízes, crescer e se disseminar até a década de sessenta, primeiramente dentro do
Expressionismo Alemão, na sequencia, na adaptação de obras da Literatura Gótica inglesa em
produções dos Estúdios Universal nos Estados Unidos e da Hammer Film Productions na
Inglaterra, além de filmes inspirados nos contos de Edgar Allan Poe de diretores como Roger
Corman. Foi a partir da década de setenta, porém, a partir da contemplação de questões
trazidas a tona pelos movimentos ligados a Contracultura e da emergente cultura da
Informática que o Gótico passou a estar, como salienta Fred Botting em Gothic (1996) “em
todos os lugares e em lugar nenhum”. Assim, retornamos a questão inicialmente colocada:
Quais são os rumos do Gótico hoje e no futuro? É a partir do contínuo reinventar-se desta
vertente do modo fantástico que este simpósio acolherá comunicações de pesquisadores e
pesquisadoras que abordem a mutabilidade, adaptabilidade e disseminação do Gótico na
Literatura e no Cinema no que se referem a temas, convenções ou estruturas narrativas.
267
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
GÓTICO FEMININO VERSUS GÓTICO MASCULINO: UMA ANÁLISE DAS VERTENTES GÓTICAS
SETECENTISTAS
Marina Sena
16/07 (TARDE)
Julio França
268
O GÓTICO URBANO NOS CONTOS INÉDITOS DE LÚCIO CARDOSO
17/07 (MANHÃ)
Patricia Hradec
“THE DEVIL IN THE BELFRY, AN EXTRAVAGANZA”, DE EDGAR ALLAN POE: O GÓTICO CÔMICO
Renata Philippov
17/07 (TARDE)
269
PRÁTICA DO ESTRANHAMENTO: A DISTOPIA GÓTICA DE “THE FLUTED GIRL”
Resumo: O Gótico, o Fantástico e a Ficção Científica são estilos que estabelecem profundo
diálogo, principalmente no tocante à estética, e aproximações temáticas. Apesar de se
tratarem de gêneros consolidados por determinada crítica literária, o Gótico e o Fantástico
foram relegados a uma literatura de baixo valor acadêmico, principalmente por conta do
conteúdo temático e por serem dependentes de outras formas, como o romantismo, por
exemplo, mas não alcançarem um determinado patamar. A Ficção Científica também ocupara
lugar desprivilegiado em tais discussões, tendo em vista a característica de literatura
especulativa que carregara durante muito tempo. O Grupo de Estudos em Ficção Científica e
Gêneros Pós-modernos na Era digital, – FICÇA – da Universidade Federal do Maranhão, tem se
debruçado em estudos, pesquisas e produções que resgatem textos que nos levem a esta
reflexão e sempre em diálogo com outras áreas do conhecimento e outras formas de
expressão artística. Por isso, este simpósio tem como objetivo discutir e analisar as mais
variadas relações entre literatura e outras artes no tocante às figurações do fantástico, do
gótico e da ficção científica. Com o intuito de analisarmos diferentes modalidades de discurso,
daremos espaço tanto ao discurso Literário quanto ao discurso cinematográfico e seus
múltiplos elementos de construção de sentido. Aqui será enfatizado, dentre outros aspectos, o
dialogo entre as literaturas brasileira e euroamericana no tocante às temáticas do Fantástico,
do Gótico e sua interface com a Ficção científica. Tendo em vista a emergência de uma estética
denominada afrofuturista, este simpósio também se abre para receber trabalhos que se
interessam por este gênero que valoriza elementos tradicionais com futurístico e se baseiam
na perspectiva do realismo mágico em estreita relação com a Ficção Científica. Atencão
especial será dada às figurações ficcionais do insólito Brasileiro por se tratar de um terreno
ainda pouco explorado no universo da crítica literária, como já falado. Do universo da
Literatura Euroamericana, contemplaremos obras de José Saramado, Horace Walpole, Michael
Ende, Edgar Allan Poe e Toni Morrisson, Philip K, Dick, Isaac Asimov, dentre outros. Para o
270
afrofuturismo, obras como a de Lesley Nneka Arimah, nascida no Reino Unido, mas de vivência
Nigeriana, é a nossa principal referências literárias. Para a construção do suporte teórico dos
trabalhos aqui debatidos traremos à baila as ideias de Tzvetan Todorov, H.P. Lovecraft, Irlemar
Chiampi, Joseph Campbell, Adam Robert, Paul Alkon, Darko Suvin , Homi Bhabha e Stuart Hall
entre outros. Nossa análise comparativa e crítica lançará mão de discussões já existentes em
âmbito nacional e internacional no tocante ao conceito de Literatura Fantástica, Literatura
Gótica e Literatura de Ficção Científica, além de outros gêneros relacionados a estes focando
nas relações entre as figurações e as representações do real ou ficcional, bem como nas
discussões em torno do conceito de Ficção Científica e seus subgêneros, sempre levando em
consideração fatores históricos, sociais e culturais que impulsionam a criação artístico-literária.
Percebe-se, principalmente com a Ficção Científica, que a forma de pensar/ver o futuro tem
relações profundas com a percepção que o indivíduo tem do presente, colocando os nossos
autores como agentes importantes na circulação de uma crítica contundente da realidade. A
compreensão de um texto com tal estilo e carregado de temas relevantes sobre a vivência do
homem em sociedade e as profundas consequências dessa relação, depende dos sentidos
apreendidos pelo leitor/espectador nas tramas das produções. A literatura fomenta discussões
que ultrapassam o tempo e o espaço, por isso, tais discussões podem ser conduzidas pelo viés
da memória e da importância de se recorrer ao passado para explicar fenômenos do presente
numa perspectiva futura. A Ficção Científica, e a ficção de uma maneira geral, nos permite
perceber o tempo numa profunda relação dialógica, rompendo barreiras tais como o que foi, o
que é e o que será.
Referências:
CALENTI, C.; WOMACK, Y.; ESHUN, K.; CLARK, A.; FREITAS, Kenia Cardoso Vilaca de (Orgs.).
Afrofuturismo: cinema e musica em uma diaspora intergalactica. Disponivel em:
<[Link] br/Afrofuturismo_catalogo.pdf>. Acesso em: 5 jul.
2016.
PROGRAMAÇÃO
271
18/07 (MANHÃ)
18/07 (TARDE)
FICÇÃO CIENTÍFICA POR MULHERES NEGRAS: OBRAS DE OCTAVIA BUTLER E NALO HOPKINSON
272
75 - O LUGAR DO OUTRO: REFLEXÕES SOBRE REPRESENTAÇÕES DA
ALTERIDADE
Coordenação: Profa. Dra. Rafaella Cristina Alves Teotônio (UFPE); Prof. Dr. Tiago Barbosa da
Silva (IFS)
Resumo: A ideia de lugar, parte do espaço com a qual se forma uma relação histórica,
relacional e identitária (AUGÉ, 2012), tem se diluído em razão do trânsito e do movimento,
característico das sociedades modernas, realizando-se sobremaneira enquanto ficção, já que
seus elementos básicos residem na crença no isolamento, perpassada, quase sempre, pela
ideia de cultura no singular ou específica de um meio, como diria Michel de Certeau (2012),
em seu A Cultura no Plural. Diante dessa realidade, o lugar do outro na representação literária
é quase sempre uma criação do sujeito-autor, encapsulando, de certa forma, um esforço de
leitura, uma tentativa de ver o outro, de ver o mundo, num diálogo que projeta, no sujeito
observado, em seu lugar, valores e visões que não correspondem, exatamente, a realidade
representada. A partir de Santos (2013, p. 636), pode-se dizer que, através das representações
do lugar do outro, o autor pode impor uma visão que concorre "para a produção e reprodução
de uma modalidade de violência simbólica," através da qual se naturaliza condições de
subordinação. Esse processo acontece através de palavras e expressões aparentemente
inofensivas que, normalmente, "utilizamos para pensar o mundo, mas sobre as quais não
pensamos" (ibid.), determinando uma posição para nós mesmos e também para o outro. Logo,
a diferença que se estabelece entre a posição de observador e a posição do observado, oculta
um mecanismo que, mesmo inconsciente, hierarquiza saberes e modos de viver, sobretudo se
considerarmos o lugar do enunciador nessa relação. Ainda segundo Santos (2013, p. 638), essa
estratégia rende-se àquilo que caracteriza a história da ocidentalização do mundo, na qual se
cria "uma 'estrutura de sentimentos,' impregnando de tal forma e com tal força nossa visão de
mundo que a tarefa de superação parece impossível." Essa verticalização dos sujeitos e de suas
práticas faz parte da conversão do espaço em lugar, revelando um processo que, mesmo
reprodutor de injustiças, participa ativamente da ordenação do que é visto, atribuindo
posições para as pessoas, construindo os lugares nos quais nos situamos e onde situamos o
outro. Trata-se de pensar, na esteira do que elaborou Mikhail Bakhtin (2011), acerca do termo
exotopia, que significa “olhar para fora de si". Para Bakhtin, no processo de criação da obra
literária o autor participa de um movimento de troca de olhares, nas quais as imagens do eu e
do outro se conectam. Em seus estudos, o teórico russo propôs-se pensar a relação do autor
com a personagem na mesma dimensão eu-tu. Ao criar um personagem, movido de sua
experiência singular diante do mundo, o autor busca, a partir da alteridade, revesti-lo de
“carne” externa. Para isso, precisa extrair de sua experiência enquanto pessoa, de seu olhar
para o outro, o sentido que resulta no acabamento de sua criação estética. Compreender,
identificar-se com o outro e produzir na conexão entre o lugar que ocupa o sujeito e o lugar
que ocupa o outro um espaço de sentido excedente. É sobre este sentido excedente, capaz de
cristalizar as imagens dos sujeitos no mundo da escrita, produzindo os saberes localizados
(HARAWAY, 1995) e visões sobre diversos grupos sociais que pretendemos analisar e discutir
neste simpósio. Como o outro, diferente de nós, do nosso lugar/espaço e, portanto, com um
lugar/espaço diferente é representado na literatura? Como o eu escreve o lugar/espaço do
outro ou como o outro, enquanto um eu, escreve o seu lugar/espaço na literatura do outro?
273
Em outras palavras, gostaríamos de discutir sobre as relações de alteridade na escrita literária.
Para isso, aceitamos trabalhos que analisem as relações entre autor, representações e
personagens, assim como os que discutam o lugar do outro-marginalizado/outro-diferente na
escrita do eu-hegemônico ou como o outro-não-hegemônico escreve na língua/literatura que
“não é sua” (DERRIDA, 1996). Deste modo propomos uma discussão sobre representações
literárias do lugar do outro, que viabilizem uma reflexão sobre o papel da literatura na
construção da realidade e das hierarquias sociais, descortinando aquilo que Édouard Glissant
(2005), em seu Introdução a uma Poética da Diversidade, chama de “drama da relação”, ou
do encontro-choque entre diferentes.
Referências:
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. Estética da Criação Verbal. Prefácio a edição francesa Tztevan
Todorov; introdução e tradução do russo Paulo Bezerra. São Paulo: Editora WMF Martins
Fontes, 2011.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (Manhã)
274
O LUGAR DO OUTRO NO DESENVOLVIMENTO DAS PERSONAGENS EM ROMANCES DE
FORMAÇÃO SOB A PERSPECTIVA BAKHTINIANA
16/07 (Tarde)
275
A SOMBRA E SEU CONTRÁRIO: AS IDENTIDADES E SUAS VERSÕES
17/07 (Manhã)
Resumo: Este Simpósio, intitulado O realismo artístico e a crítica literária dialética tem por
objetivo debater a relação entre literatura e vida social, especialmente a articulação entre a
experiência do capitalismo periférico e a discussão sobre o realismo artístico em suas relações
dialéticas. O conceito de realismo artístico foi desenvolvido desde a perspectiva dos estudos
literários por George Lukács, e possivelmente um dos aspectos mais fecundos desta teoria
se encontre em suas observações a propósito das consequências estéticas do desenvolvimento
do capitalismo ocidental.
276
É importante ressaltar que o conceito de realismo é entendido não como uma periodização
literária, mas como categoria estética com dimensão ontológica, como parte essencial da
formação do homem como ser social. Trata-se, então, de debater as relações entre a vida
social e a forma literária de forma dialética.
O espaço do simpósio se oferece portanto como uma instancia onde problematizar estas
questões que tem a ver com a realização da arte literária, como forma estética que
proporciona apreender a conexão entre a sociedade , de um lado, com sua complexidade
histórica, e a obra de arte , por outo , com sua complexidade estética. Busca-se então debater
como a forma artística, é capaz de, enquanto forma estética, tornar-se conhecimento de uma
realidade desigual, devolvendo ao homem a possibilidade de enfrentar os limites impostos
pela desumanização em um mundo que se mostra hostil à arte, às relações humanizadas e à
emancipação do gênero humano.
Outras das consequências desta relação complexa entre arte e sociedade é a “hostilidade do
capitalismo ao nascimento de uma verdadeira cultura”. Ao ser a arte o autorreconhecimento
genérico dos indivíduos, e ter uma relação estreita e crítica com a vida social, o mundo
burguês o hostiliza. A vida burguesa se caracteriza pela repetição regular, sistemática, pela
rotina do cumprimento do dever, por aquilo que tem de ser feito sem consideração ao prazer
ou desprazer. Em outras palavras: o domínio da ordem sobre o estado de alma, do
permanente sobre o momentâneo, do trabalho pacato sobre a genialidade movida a
sensações.. A partir dessa compreensão fenomenológica da existência burguesa estabeleceu-
se uma contradição entre essa existência e a arte que passa a ser vista como o lugar da vida
verdadeira. A dificuldade em conciliar a ordenação do mundo burguês com a arte, culmina no
ideal da autonomia da arte frente à realidade objetiva, a arte pela arte. Esta problemática se
transformou em outra linha de estudos críticos do realismo.
Nesse sentido, este Simpósio propõe congregar trabalhos que abordem estudos teóricos e
críticos de autores diversos da literatura ocidental , seja em análises críticas de obras em
particular ou de proposições de comparação entre autores de línguas diversas, tendo como
chave metodológica o conceito de realismo. Assim, dentro desse escopo, esperam-se trabalhos
que: 1) contemplem leituras teóricas ou críticas de autores da literatura ocidental; 2) abordem,
de forma comparada, textos em diversas línguas, especialmente no âmbito da América Latina.
Considera-se, portanto, a complexidade e premência deste tema para a atualidade, e, por isso,
277
pretende-se um debate sobre a literatura produzida em regiões periféricas em relação à
atualidade do conceito de realismo como chave crítica, a fim de compreender a relação
sempre dinâmica e dialética entre a realidade social e as formas artísticas.
Referencias
ADORNO, Theodor. "Lírica e sociedade". Em: Benjamin, Walter et alii. Textos escolhidos. São
Paulo: Abril Cultural, 1983: 194.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Edvaldo A. Bergamo
278
DO HERDEIRO À NAÇÃO: A FIGURAÇÃO ARTÍSTICA DA DECADÊNCIA BURGUESA NOS
ROMANCES O NOME DO BISPO, DE ZULMIRA RIBEIRO TAVARES, E LEITE DERRAMADO, DE
CHICO BUARQUE
16/07 (TARDE)
17/07 (MANHÃ)
279
NOTAÇÃO REALISTA E REINVENÇÃO DO ROMANCE EM MACHADO
Resumo: Este Simpósio se origina de anotações de leitura das últimas três obras do escritor
pernambucano Osman Lins (1924-1978): Nove, novena (1966), Avalovara (1973) e A rainha
dos cárceres da Grécia (1976), empreendida pelas pesquisadoras. A partir da consciência de
que tais livros representavam uma profunda mudança no percurso escritural de Osman Lins,
destacaram-se alguns de seus aspectos formais como algo a ser aprofundado em investigação
futura, e um deles cresceu em importância à medida que o tempo foi passando: a questão do
sentido político enredado na trama em que está imersa cada uma dessas obras e a que ele
adere tão sutil e perfeitamente que já não é possível encará-lo senão como algo que instiga a
reflexão sobre a relação entre forma e conteúdo, entre literatura e sociedade, entre real e
280
ficção. No capítulo intitulado “O escritor e a sociedade”, o último do ensaio Guerra sem
testemunhas: o escritor, sua condição e a realidade social, Osman Lins deixa clara sua posição:
“O escritor não pode pretender abalar com os seus escritos as sólidas posições da insensatez,
da força, da maldade – mas também não pode ignorá-las; não pode submeter sua obra às
injunções do tempo – mas também não pode tender a agir como um ser fora do tempo. (...)
Não é mais possível, em nossa época, a um homem de instrução mediana, ignorar o conflito
básico com que nos defrontamos, a insurreição dos ofendidos contra os ofensores. (...) Assim,
não apenas o escritor, mas qualquer homem que, tendo consciência desses problemas, ou dos
problemas que com estes se relacionam, age como se os desconhecesse, é um traidor do seu
semelhante, quando não de si mesmo”. Tal posição é corroborada pelas palavras do pintor
catalão Antoni Tàpies em seu livro A prática da arte: “Tenho dificuldade em compreender o
ato de criação se não fizer depender tudo de uma atitude pessoalíssima e muito circunstancial,
tanto temporalmente como geográfica e culturalmente. Nunca consegui imaginar o artista a
trabalhar sub specie aeternitatis, desenvolvendo um conceito de Belo como valor imutável, tal
como não o consigo ver submetido a um programa ou ideologia que não responda a
circunstâncias, a fatos reais, que ele, como pensador independente, terá precisamente de
contribuir para desvendar”. O Simpósio aqui proposto pretende trazer à luz esse matiz de
Osman Lins, na tentativa de decifrá-lo: entender de que modo essa preocupação existe e e em
que medida participa de seu texto. Alguém que enxerga no ato de escrever uma espécie de
missão deve forçosamente trazer em seu discurso uma cor política.
Assim, esse Simpósio tem como finalidade receber trabalhos que enfoquem não apenas os três
livros anteriormente mencionados, mas tudo o que Lins produziu, aí incluídos também seus
primeiros livros, seus ensaios, artigos de jornais, seus depoimentos em entrevistas concedidas
a jornais e periódicos, o material contido em seu arquivo (como manuscritos e
correspondência com escritores e amigos), sua tese de doutorado. Serão bem-vindos trabalhos
que atestem de que modo e com que intensidade o sentido político expresso nos textos desse
autor é capaz de provocar o leitor; de como esse sentido está entranhado ou não na forma
artística ou no seu conteúdo; de que maneira suas experiências e leituras, bem como os
acontecimentos de sua época, forjaram seu discurso ficcional e não-ficcional. Por fim,
trabalhos que mostrem o percurso do pensamento político osmaniano em torno de sua
preocupação com a formação do hábito de leitura, levando-se em consideração fato concreto
que o motivava a escrever - a necessidade premente de fazer o brasileiro tornar-se um
verdadeiro leitor, pois afinal – segundo as palavras, ainda uma vez, de Antoni Tàpies em seu
livro já citado: “(...) a configuração da expressão artística está intimamente ligada ao problema
da liberdade da ‘sua’ leitura: ao fato de simplesmente se permitir que as pessoas possam ler.
Faz parte, por isso, do problema mais geral da alfabetização do país, da necessidade de
continuar a lutar, num nível diferente, contra aquilo que mantém o atraso de toda uma política
cultural, em suma, da política”. Para a consecução dos trabalhos, podem ser tomados como
referenciais teóricos os seguintes textos: 1) o de Hayden White intitulado El contenido de la
forma: narrativa, discurso y representación histórica (Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica S.A,
1. edición ,1992); Os problemas da estética, de Luigi Pareyson (São Paulo: Martins Fontes,
1997); A revolução da arte moderna, de Hans Sedlmayr (Lisboa: Livros do Brasil, s/d); A
necessidade da arte, de Ernst Fischer (Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983). Os dois últimos
foram extremamente lidos e citados por Osman Lins em seus ensaios e ajudará por certo na
compreensão do quanto as leituras desse autor entraram em seu bem urdido tecido ficcional.
PROGRAMAÇÃO
281
16/07 (TARDE)
Cacilda Bonfim
17/07 (TARDE)
282
DE CADA LIMITAÇÃO, UM APRENDIZADO: O BRASIL AOS OLHOS DE OSMAN LINS
Francismar Ramirez
18/07 (TARDE)
Ricardo Andrade
A DUPLA FACE DAS ÁGUAS, O SOPRO DA ARGILA: CRIAÇÃO E ANIQUILAMENTO, VIDA E MORTE
EM AVALOVARA E BRUMADINHO
Elizabeth Hazin
19/07 (TARDE)
283
CÁRCERES DA GRÉCIA
Em outro ensaio O esgotado, igualmente publicado no Brasil na obra organizada por Roberto
Machado, intitulada Sobre teatro, Deleuze analisa, desta vez Quad de Samuel Beckett e para
isso usa os conceitos de língua I, língua II e língua III. O que Deleuze chama de língua I seria
uma língua dos nomes, das relações sintáticas, também definida pelo autor como “imaginação
combinatória, ‘manchada de razão’” (p. 79). A língua II não é mais a dos nomes, mas a das
vozes que procede “por fluxos” misturáveis (p. 76), “imaginação manchada de memória’ (p.
79). Por fim, a língua III, a língua dos hiatos, dos buracos, dos rasgões; a língua “das imagens,
sonantes, colorantes” (p. 81).
A partir dessas reflexões, propomos, neste simpósio, discutir sobre de que maneira outras
linguagens (como a dança, o cinema, a música, o circo e as novas tecnologias) as línguas (as
línguas estrangeiras, as línguas de sinais – como LIBRAS – Línguas de Sinais Brasileiras) e as
experiências estéticas envolvendo pessoas com diferentes formas de deficiências físicas (ver
Pippo Delbono, na Itália; a peça Ícaro de Luciano Mallmann, no Brasil e outras) aliam-se ao
teatro transformando-o e criando esse devir-universal do qual fala Deleuze.
Para Jean-Frédéric Chevalier, que estuda a contribuição de Gilles Deleuze para o teatro na obra
Deleuze et le théâtre: rompre avec la répresentation (2015), apesar das poucas ocasiões nas
quais Deleuze escreveu sobre o tema, a arte é um bloco de sensações, um composto de
284
percepções e afetos. Dentro dessa perspectiva, a questão que nos interpela seria portanto:
como intensificar a percepção e a expansão do afeto e com isso provocar outras maneiras de
se recompor no mundo?
Em Différence et Répétition (1968) Deleuze afirma que: “a obra de arte deixa o campo da
representação para se tornar “experiência”, empirismo transcendental ou ciência do sensível”
(p. 39, tradução nossa, ênfase do autor). Nessa direção, Chevalier discute que para Deleuze o
teatro compreende todas as artes, as poéticas da língua e do movimento (CHEVALIER, 2015, p.
135). O teatro, dessa forma, não teria nada de fixo, mas apresentaria, de fato, uma capacidade
integrativa. É dessa capacidade própria à atividade teatral, dessa possiblidade, dessa
potencialidade que pretendemos tratar a partir de um ponto de vista interdisciplinar abrindo
espaço para pesquisas em dramaturgia, interpretação, dança, música, circo, educação,
psicologia e outras áreas que se interessem à intersecção das áreas afins que constam nesta
proposta.
Inspirados, portanto, nesta ideia do devir no teatro e de que, como para Deleuze (1968) “O
teatro é movimento real; e de todas as artes que ele usa, ele extrai um movimento real” (p. 18)
e levando em consideração a afirmação de Jean-Pierre Sarrazac que o “drama se desenvolve
fora de seus próprios limites, no exterior de si mesmo, por cruzamentos e hibridizações
sucessivas. O drama moderno e contemporâneo se dá inteiramente em linhas de fuga; está
sujeito a uma desterritorialização permanente” (p. 331, ênfase do autor), propomos o debate
sobre este teatro feito autrement, de outra forma, por múltiplas linhas de fuga, excitando a
vontade de devires múltiplos e explorando os possíveis.
Referências:
DELEUZE, Gilles. “Um manifesto de menos” e “O esgotado”. In.: MACHADO, Roberto. Sobre
teatro: Um manifesto de menos; O esgotado / Gilles Deleuze. Tradução Fátima Saadi, Ovídio
de Abreu, Roberto Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
DELEUZE, Gilles. Différence et répétition. Paris : Presses Universitaires de France – PUF, 1968.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
285
UMA EXPERIÊNCIA DE LEITURA CÊNICA DA PEÇA KANTAN (TRAVESSEIRO DOS SONHOS) DE
YUKIO MISHIMA COM EDUCANDOS DA GRADUAÇÃO QUE REFLETE SOBRE A EDUCAÇÃO
CRÍTICA LITERÁRIA COM TEATRO
17/07 (TARDE)
João Vicente
Roberta Cantarela
286
PERFORMANCE E REALIDADE: UMA EXPERIÊNCIA CÊNICA DA IDEIA SUICIDA PRESENTE NO
CONTO O QUE A GENTE NÃO DISSE DE LYA LUFT
287
identidades culturais singulares e deslocadas do tecido nacional. Assim, trejeitos indígenas,
caboclos, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e migrantes são exaltados e transparecem nas
obras de autores amazônidas, que reivindicam para si a condição de agentes, com o legítimo
direito de apresentar ao mundo as culturas das comunidades locais, outrora esquecidas e
excluídas, por meio de produtos literários, servindo de voz das minorias e impondo crise no
pensamento burguês local de cultura europeia, o qual teima em desconsiderar as vozes na
apresentação ao mundo dessa região. As obras que resultam dessa dinâmica causam fascínio
por conta da forma desprendida como esses escritores se embrenham na feitura de um texto,
revelando um universo no qual não há fronteiras entre o real e a representação imaginária, e
cujos sonhos e devaneios têm consequências reais que trespassam a redoma da vida rígida e
angustiante na Floresta. A efervescência literária vinda da floresta amazônica é um começo de
conversa que toma forma de análise que pavimenta a via para se penetrar no território do
imaginário e do mistério no coração da floresta, torrão que em pleno século XXI ainda não foi
totalmente desencantado, para dali produzir jogos despretensiosos entre linguagem, vivido e
devaneio.
Referências:
AZEVEDO, I. Marinho de. Puxirum: memória dos negros do oeste paraense. Belém: Instituto
de Artes do Pará (IAP), 2002.
LOUREIRO, João de Jesus Paz. Cultura Amazônica: uma diversidade diversa. In: Diversidade
Cultural Brasileira. Belém: Casa Rui Barbosa, 2009.
PAULINO, I. R. Entre les remous de l’imaginaire et les houles du réel : un regard sur la
littérature amazonienne brésilienne dans la contemporanéité. Em OLIVIERI-GODET, Rita
(org.). Cartographies littèraires du Brèsil actuel. 1ª ed. Bruxelles: Peterlang, 2016. v. 14.
REGO, Jose Lins do. Inglez de Souza e os naturalistas. Em: A manhã. Rio de Janeiro,
7/set/1941. [Suplementos literários].
SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaio sobre dependência cultural. São
Paulo: Editora Perspectiva, 1978.
288
SIMÕES, Célio. Retratos e Fatos Literatura Obidense. Crônica. I FECIMA. Óbidos, 2012.
Disponível em: [Link]
literatura-obidense/ Acessado em 22.12.2017.
SOUZA, Herculano Marcos Inglês de. O Coronel Sangrado. Coleção Cenas da Vida do
Amazonas. Belém: UFPA, 1968.
TUPIASSÚ, Amarílis. “Amazônia, das travessias lusitanas à literatura de agora”. In: Estudos
Avançados, vol. 19, nº 53, p. 299-320, ISSN 0103-4014, 2005. Disponível em:
[Link]/pdf/ea/v19n53/[Link]. Acesso em 30 jan. 2015.
VIEIRA, Edithe Carvalho. Amazônia: contos, lendas, ritos e mitos. Belém: Instituto de Artes do
Pará (IAP). 2010.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
Erika G M de Aquino
17/07 (MANHÃ)
Resumo: No prefácio à primeira edição (1948) de sua Análise e interpretação da obra literária,
cujo subtítulo é “introdução à ciência da literatura”, Wolfgang Kayser aponta para a
290
necessidade de que as ciências, inclusive aquela que denomina de ciência da literatura, façam
periodicamente uma revisão de suas concepções basilares. A acertada observação do
estudioso alemão continua atual, principalmente ao contemplarmos a multiplicidade de
enfoques críticos e orientações teóricas, surgidos no bojo das denominadas correntes críticas
pós-estruturalistas. Este simpósio pretende agregar pesquisas que se identifiquem tanto com
os fenômenos estritamente literários – ou seja, problemas de teoria, crítica e história da
literatura, questões sobre o cânone literário, valor, tradição literária, historiografia literária,
história da crítica literária – como pesquisas sobre temas literários em sentido mais amplo. O
que se busca são reflexões sobre realizações históricas no longo curso dos estudos literários, à
luz do debate ora em curso no meio acadêmico, entre orientações desenvolvidas no âmbito
dos estudos literários stricto sensu e diretrizes identificadas com os estudos culturais.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
291
Maria Aparecida Oliveira de Carvalho
17/07 (MANHÃ)
Danilo Barcelos
17/07 (TARDE)
292
81 - PERSPECTIVAS DA FICÇÃO PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA:
VOZES NARRATIVAS E POÉTICAS
Coordenação: Profa. Dra. Gabriela Silva (URI); Profa. Dra. Evelyn Blaut Fernandes (UFRJ); Profa.
Dra. Ilse Maria Vivian (UFSM)
PROGRAMAÇÃO
17/07 (MANHÃ)
293
DE MARIA TERESA HORTA
18/07 (MANHÃ)
294
UMA OUTRA VOZ, DE GABRIELA RUIVO TRINDADE: O AMÁLGAMA DE EXPERIÊNCIAS
QUE CONTAM A HISTÓRIA DE PORTUGAL
Gabriela Silva
19/07 (MANHÃ)
O DESEJO DE ESQUECER
Evelyn Blaut Fernandes
Resumo: A poesia teria empobrecido com o fim das vanguardas? A adjetivação global da
poesia ainda é possível? A modernidade foi superada? Essas perguntas nortearam as edições
passadas do Simpósio Poesia contemporânea: crítica e transdisciplinaridade. Agora interessa-
nos a performance e suas derivações. A vocoperformance, por exemplo, partindo do
295
pressuposto de críticos como Paul Zumthor, Philadelpho Menezes e Luiz Tatit, para quem, sob
diferentes perspectivas, mesmo em sua forma escrita tradicional, a poesia abriga uma
dimensão verbivocal, recupera a entoação embrionária da palavra grafada, ao mesmo tempo
em que produz a presença sequestrada da poesia com a hegemonia da comunicação escrita. O
fato é que a poesia contemporânea é notadamente marcada pela ruptura das fronteiras entre
gêneros, estéticas e éticas composicionais. Ou pela ideia de “pós-utopia”, pensada por Haroldo
de Campos (1997). Isso dificulta a apreensão holística do poema, que, por sua vez, tem exigido
o acionamento cada vez maior de saberes variados por parte do crítico, do leitor e de quem faz
poesia. Aliás, a poesia é algo que se faz? Para Marcos Siscar (2010), por exemplo, “o mesmo
processo de esvaziamento do contemporâneo é reconhecível, inclusive, em análises que
pretendem abordar de frente a literatura do presente” (p.171). Entre o “me dê um cigarro”
modernista de Oswald de Andrade e o “me segura que eu vou dar um troço” marginal
(desbundado) de Wally Salomão, há o desenvolvimento ético e estético do conceito
verbivocovisual dos concretos, que leva à poesia procedimentos feitos por precursores, tais
como Sousândrade. De modo mais evidente, tais artifícios serão trabalhados pelos poetas a
partir do início do século XX, com o acelerado desenvolvimento das tecnologias e mídias
audiovisuais. E toma corpo (o corpo do poeta, inclusive) a partir da década de 1960, no Brasil,
em especial, a partir da Tropicália, com sua abertura às possibilidades de relação antropofágica
entre as diversas perspectivas estético-artística-filosóficas. Mas pode ser identificado desde a
nossa poesia colonial (HANSEN, 2006). A Tropicália, tomada como uma releitura da
antropofagia oswaldiana, estimulou o amálgama do popular com o erudito. Foi quando a
política ganhou destaque nas Artes, em especial na canção popular, no caso do Brasil. É
também nesse período, entre 1960 e 1970, que, se por um lado, vivenciamos grande
emergência das teorias imanentistas, quando a crítica se concentra no texto em si, por outro
lado, percebeu-se também a demanda pelo debate coletivo da memória, o que levará à
produção de uma poesia empenhada na liberação do corpo. A poesia demanda mais do que
escrita e papel. Para Paul Zumthor (2007), se “a noção de ‘literatura’ é historicamente
demarcada, de pertinência limitada no espaço e no tempo”, a poesia é a arte “de uma
linguagem humana, independente dos modos de concretização e fundamentada nas
estruturas antropológicas mais profundas” (p. 12). Por isso, a partir da definição dada por
Giorgio Agamben (2009) para o que é o contemporâneo, pretendemos debater a
ressignificação das formas composicionais clássicas, ou seja, a permanência e as ressonâncias
de um discurso poético da tradição, em consonância com a modernidade na poesia atual. O
objetivo principal desse Simpósio é promover a reflexão sobre o universo estético e cultural da
poesia contemporânea, associando linguagens e instrumentos teóricos das diversas áreas
disciplinares - articulando elementos que transpassam entre, além e através das disciplinas e
dos suportes: música, canção, artes plásticas, fotografia, vídeo, internet -, a fim de iluminar a
atualidade da crítica de poesia. Crítica que reflete e refrata a crise de identidade e de
representação porque perpassa a poesia (CAMPOS, 1979; SISCAR, 2010); crítica que não é, a
priori, mais que a obra, mas, pelo contrário, absorve a obra. Vejam-se, por exemplo, a grande
quantidade de criações críticas, obras engajadas e críticas criativas que tem caracterizado boa
parte da produção atual. Topos que problematiza a própria divisão entre arte e não-arte. Bem
como a crítica encomendada que segue as leis de mercado. Portanto, esperamos reunir
pesquisadores em torno da poesia feita no presente recente, sabendo que este presente é e
está expandido. São bem-vindas ao simpósio as propostas de comunicações que versem sobre
a tentativa de estesia, leitura e crítica da poesia contemporânea, colaborando para conferir
maior aproximação à formulação conceitual dessa poesia. A proposta é tornar este espaço um
ambiente aberto às investigações das mais diversas e sutis abordagens do fazer poético, a fim
de desautomatizar e dar visibilidade à arte da palavra, na Academia, no ensino e no cotidiano.
296
Bibliografia:
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinicius Nicastro
Honesko. Chapecó, SC: 2009, Argos.
CAMPOS, Haroldo de. A arte no horizonte do provável. São Paulo: Perspectiva, 1977.
______. “Ruptura dos gêneros na literatura latino-americana”. In: MORENO, César Fernandez.
América Latina em sua literatura. São Paulo: Perspectiva, 1979.
______. O arco-íris branco. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
ECO, Umberto. Obra Aberta: Forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. São
Paulo: Perspectiva, p. 67, 1969.
PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003.
SISCAR, Marcos. Poesia e crise: ensaios sobre a “crise da poesia” como topos da modernidade.
Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2010.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich.
São Paulo: Cosac Naify, 2007.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
297
A VOZ DA MULHER NEGRA NA POESIA DE SARAU DE PERIFERIA E SLAM NA CIDADE DE SÃO
PAULO
Jackson Raymundo
17/07 (MANHÃ)
298
DA VOZ
17/07 (TARDE)
Suzy Zaparoli
83 - POESIA E TRANSGRESSÃO
Coordenação: Prof. Dr. Cristiano de Sales (UTFPR); Prof. Dr. André Cechinel (UNESC)
O arlequim que Mário de Andrade nos apresenta em muitos momentos de sua Paulicéia
Desvairada opera de maneira precisa na proposição de uma estética modernista para a
literatura brasileira. O modo como esse personagem aparece dentro da outra personagem,
299
São Paulo, evoca um dos temas mais caros ao grupo que se empenhou na utopia modernista
da década de 1920, a saber, o devaneio. Este, que carregava também um desejo de liberdade,
ganhou corpo em versos harmônicos – uma invenção formal de Mário. Essa refinada
artimanha de amalgamar forma e conteúdo não apenas colocou o poeta paulistano no centro
do movimento como também revelou um potente modo de transgredir. A transgressão,
sabemos, ocupa lugar cativo nas tentativas de teorização acerca do modernismo. No entanto,
não se pode baratear esse conceito no mero sentido de desvio ou negação de um sistema em
curso (seja este sistema estético ou ideológico), pois, como fez o autor de Macunaíma,
transgredir consiste sobremaneira em estabelecer contato com a tradição da qual se intenta
libertar. Modificar algo num sistema demanda transformação e não se transforma nada
encerrando a dialética entre a herança material-cultural e o novo que se pretende fazer
aparecer.
O ser contemporâneo de Agamben não é o que vê os limites do tempo e o nega, mas sim
aquele que estabelece dialéticas distintas e desestabiliza o dispositivo do tempo. Por isso o
arlequim de Paulicéia tentou cantar na cidade e foi levado pela polícia, porque seu canto não
compunha mais melodias como queria a industrialização moderna que tomava conta da
cidade, seu canto fazia harmonias com outros desejos, outros sonhos, oferecia outro ritmo. A
transgressão estava em se permitir devanear. Ela é uma das principais potências do que
chamamos modernismo em literatura. É uma potência que nos faz hoje acreditar que é
característico da poesia transgredir.
Tendo em vista o cenário maniqueísta que se transformou a arena pública dos debates que
tocam a política no Brasil hoje, e que esse binarismo chegou a colocar objetos de arte no
centro de uma discussão antes moralista do que estética, queremos com esse simpósio colocar
em questão o caráter transgressor da poesia nos meios em que ela ainda opera (e isso inclui
espaços instituídos, como universidades e escolas, e não instituídos, como circuitos que
independem do academicismo). Tendo em vista também que vivemos hoje cenários muito
antes distópicos do que o cenário utópico que sedimentou o ato de transgredir como marca da
poesia, queremos discutir a transgressão em diferentes momentos históricos, abrindo, com
isso, espaço para estudiosos dos diferentes períodos e tradições poéticas.
Seja pelo inutensílio de Paulo Leminski – para quem a rebeldia era um bem absoluto que se
manifestava na linguagem por meio da poesia –, ou pelos corpos riscados de Ana Cristina Cesar
– onde o contorno de um seio e os traços da escrita de um poema se confundiam na tentativa
angustiada de não separar a poesia da vida –, ou ainda na assumida luta inglória com o corpo
da linguagem a que se entregou Ferreira Gullar, o rastro estendido no tempo que faz de certas
escritas algo canônico (mesmo que em princípio à margem) parece trazer sempre a cicatriz de
uma subversão num sistema operante. Mesmo quando nos afastamos das constelações de
Mallarmé ou da postura mais radical de Rimbaud, encontramos vozes que permaneceram no
tempo e no espaço porque desestabilizaram algo, não legitimaram o status quo da vida ou da
literatura. E isso não é um mérito moderno, ocorre desde muito antes das interpretações
românticas que damos à história da literatura.
Enquanto Baudelaire parecia entender e explicar algo da Modernidade com seu cisne
atordoado no asfalto, ou com a passante que desperta paixões à última (e não à primeira)
vista, Walt Whitman libertava o verso com eloquência contagiante. Rilke equilibrava conteúdo
e forma de maneira cirúrgica não para dizer o que fazia a poesia moderna, mas para
escancarar justamente o que as teses sobre a lírica moderna não davam conta de explicar. De
certo modo foi o que fez também o marujo Neruda que não cessou de sonhar e se fazer lírico,
300
ou Hilda Hilst que ousou fazer de deus uma via de acesso sensorial (sensual) e não um fim.
Cecília, que transgrediu a objetividade triunfante de Drummond para assumir-se só e afinada
com uma subjetividade ibérica...
Enfim, o que entrelaça esses poetas, bem como tantos outros artistas, é o fato de não
deixarem estabilizar algo. Essa é a potência que nos interessa.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
301
Josivan Antonio do Nascimento
17/07 (MANHÃ)
17/07 (TARDE)
302
FERNANDO PESSOA E A ESCRITA DA SENSAÇÃO
Cristiano de Sales
Resumo: Dentre os desafios que a contemporaneidade impõe aos estudos literários, um dos
mais difíceis é lidar com a produção periférica. O conceito de periferia pode se referir a muitos
países das Américas, países com produção literária de pouco reconhecimento dentro de um
cânone literário pretensamente universal. Para além do ponto de vista nacional, “periferia”
também se refere à literatura das minorias, como negros, gays e mesmo mulheres, tendo em
vista que, em países como o Brasil, sua produção é minoritária dentro do campo literário. Este
simpósio propõe pensar literaturas que, do ponto de vista tradicionalista, podem ser
consideradas ainda mais periféricas: as literaturas feitas por indígenas das Américas, oriunda
em grande parte da oralidade, que circula em meios tanto escritos quanto orais. Assim como a
noção de primitivo, muitas vezes relacionada aos povos indígenas em carácter inferiorizante, a
noção de periferia traz à tona uma discussão sobre a centralidade de certas práticas
intelectuais. Ambos os termos são relativos a um modelo espacial e/ou cultural: de
uma civilização e/ou de um centro, respectiva e reciprocamente. A relatividade desses termos
significa que eles podem ser deslocados, principalmente para pensar tensões de poder
impostas por um cânone estabelecido, em geral, por homens brancos, de meia idade, oriundos
de camadas privilegiadas da sociedade.
Referências:
FIOROTTI, Devair Antônio; FERREIRA, Sonyellen Fonseca. Xununu Tamu: um genocídio contra
indígenas que não termina. In DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; CORREIA, Heloisa
Helena Siqueira; DANNER, Fernando (Orgs.). Literatura indígena brasileira contemporânea:
criação, crítica e recepção. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018. Disponível em [Link]
rafi .org/product-page/literatura-ind%C3%ADgena-brasileira-contempor%C3%A2nea-cria
%C3%A7%C3%A3o-cr%C3 %ADtica-e-recep%C3%A7%C3%A3o. Acesso: 20/01/2019.
MUNDURUKU, Daniel. Literatura indígena e o tênue fio entre escrita e oralidade. Overmundo,
Lorena, 30 nov, 2008. On-line. Disponível em: [Link] Acesso em: 21 jan. 2019.
304
OLIVIERI-GODET, Rita. “A emergência de autores ameríndios na literatura brasileira”. Ciclo de
Debates Cultura Brasileira Contemporânea: novos agentes, novas articulações. Departamento
de Teoria literária e literatura comparada – USP, 2017. Disponível em
[Link] DET_A
%20emerg%C3%AAncia%20de%20autores%20amer%C3%ADndios%20na
%20literatura%[Link] Acesso em: 21 jan. 2019.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
Ananda Machado
Desbloquear o imaginário sobre o espaço das Américas: amerindianidade como fio condutor
da americanidade
Rita Olivieri-Godet
17/07 (TARDE)
305
TESTEMUNHO DECOLONIAL EM PERSPECTIVAS INDÍGENAS CONTEMPORÂNEAS: O CASO
PARADIGMÁTICO DAS PALAVRAS DE UM XAMÃ YANOMAMI
Janaina Tatim
Pedro Mandagará
Kenneth Goldsmith
Resumo: Diversos pensadores têm apontado como uma das características mais
preponderantes das práticas artísticas da pós-modernidade – ou do pós-modernismo – a
tendência para uma certa recusa dos pressupostos de originalidade, de criação individual e de
propriedade autoral que em grande medida estiveram subjacentes ao processo histórico de
construção da Modernidade, sobretudo a partir do Romantismo e de seu programa literário,
conforme indicado, entre tantos autores, por M. H. Abrams em The Mirror and the Lamp:
Romantic Theory and the Critical Tradition, cuja hipótese geral assinala a passagem de uma
teoria mimética da representação enquanto espelho refletor de ações, para, no Romantismo,
uma teoria expressiva da arte: da arte como exercício da fantasia do sujeito.
No domínio poético específico que nos interessa, o estudo de Marjorie Perloff publicado em
2010, Unoriginal Genius: Poetry by Other Means in the New Century, possibilitou uma visão
sistemática destas questões em termos histórico-literários, fornecendo um conjunto de
elementos que nos permitem observar a força do fenômeno nas propostas das últimas
décadas à luz de um projeto como o do livro das Passagens de Walter Benjamin, passando
pelo concretismo brasileiro, na direção dos mais recentes exercícios provocatórios do norte-
americano Kenneth Goldsmith. A proposta de Perloff encerra um (aparente) paradoxo que
importa discutir, uma vez que o conceito de gênio sobre o qual assentou todo o projeto
filosófico e artístico moderno desde os grandes textos de Estética do século XVIII, ao pressupor
o papel fulcral que a natureza (physis) desempenha na formação do criador – de acordo com a
célebre fórmula de Kant segundo a qual o gênio seria a natureza dando regra à arte –,
dificilmente pode admitir uma vinculação à intencional falta de originalidade, dado que esta
pressupõe sempre algum tipo de trabalho (techné).
Referências:
ABRAMS, M. H. O espelho e a lâmpada: teoria romântica e tradição crítica. Trad. Alzira Leite
Vieira Allegro. São Paulo: Editora da Unesp, 2010. (ed. orig.: The Mirror and the Lamp:
Romantic Theory and the Critical Tradition, 1953)
BROCKELMAN, Thomas P. The Frame and the Mirror: On Collage and the Postmodern.
Evanston: Northwestern University Press, 2001.
ELIOT, T. S. Selected Essays. New York: Harcourt, Brace & New World, Inc., 1964.
GOLDSMITH, Kenneth. Uncreative Writing. New York: Columbia University Press, 2011.
JAMESON, Fredric. The Cultural Turn: Selected Writings on the Postmodern 1983-1998. London
| New York: Verso, 1998.
PEDROSA, Celia et alii (org.) Indicionário do contemporâneo. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2018.
PERLOFF, Marjorie. O gênio não original: poesia por outros meios no novo século. Trad.
Adriano Scandolara. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. (ed. orig.: Unoriginal Genius: Poetry
by Other Means in the New Century, 2010)
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
Paloma Roriz
O CONCRETO TRANS-EPOCAL
308
Gustavo Reis da Silva Louro
17/07 (TARDE)
TRÊS VARIAÇÕES DO HIPÓCRITA LEITOR EM ANA CRISTINA CESAR, PAULO HENRIQUES BRITTO
E MARCOS SISCAR
Pablo Simpson
18/07 (TARDE)
309
O CONFRONTO DA CRIAÇÃO: LEITURA E DESTRUIÇÃO EM TRÊS POETAS DE LÍNGUA
PORTUGUESA
Resumo: O tema deste Simpósio reafirma o nosso compromisso com a Declaração das Nações
Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, aprovada em 2007, ao convocar a comunidade
internacional a se mobilizar para assegurar total respeito pela dignidade, pelo bem-estar e
pelas liberdades fundamentais dos povos indígenas. O foco do Simpósio trata da s poéticas
indígenas em suas diferentes manifestações. Nesta perspectiva, serão bem-vindos trabalhos
em torno da literatura e das artes indígenas em geral, incluindo o cinema, as cantorias, a
contação de histórias, a pintura corporal, a dança, a música, os cantos xamânicos, o ato de
declamar, o grafismo rupestre e o grafismo urbano de autoria indígena, entre outras artes
visuais. Sendo o congresso da ABRALIC de teor acadêmico, serão bem-vindos, de toda maneira,
trabalhos que se façam acompanhar de performances ou representações. Além disso, em se
tratando das artes indígenas, que possuem, por natureza, viés transdisciplinar, também será
possível e desejável que temáticas como as dos direitos de indígenas sejam abordadas,
conjuntamente à temática das poéticas indígenas. Um exemplo da poética indígena reside no
poema declamado por Ailton Krenak (liderança indígena) no dia 3 de agosto de 2018, durante
uma roda de conversa sobre literatura indígena, no Congresso da ABRALIC, em
310
Uberlândia/MG; trata-se do poema “Continuum”, que ele escreveu em 2005, na Serra do
Cipó/MG. Continuum também pode ser o conjunto de acontecimentos sequenciais e
ininterruptos, tais como sugerem as reflexões da ABRALIC 2018 acerca de circulação, tramas e
sentidos na Literatura. Nesse ritmo, o Simpósio POÉTICAS INDÍGENAS EM FOCO nos aproxima
(em vários sentidos): das canoas, dos rios e riachos; das montanhas, das serras; das lutas, dos
sonhos; do programa “Voz Indígena” (junto à Rádio UFSCar, da Universidade Federal de São
Carlos, que já conta com 65 edições) liderado por João Paulo Riberio (indígena guarani), que,
em sua pesquisa de doutorado, propõe a poética do traduzir para o Nheengatu a obra “Vidas
Secas”, de Graciliano Ramos, abrindo, com isso, um leque de possibilidades: a valorização e
retomada das línguas indígenas; a valorização das culturas indígenas, incluindo-se, nesse caso,
o xamanismo, já que o acadêmico guarani propõe que o ato tradutório se dê na esteira das
práticas xamânicas, chamando-nos a lembrar a importância do xamã como um tradutor entre
mundos; a revisita da obra de Graciliano Ramos, por meio de uma abordagem que prevê o
multinaturalismo e o perspectivismo indígena. O Simpósio também abrange a poética do
sonho azul nos versos do mapuche Elicura Chihuailaf. A poética de Elicura denuncia a sua
condição de indígena exilado. Na entrevista ao site Crí[Link], ele comenta que apesar do
deslocamento, a poesia revela que a cada dia ele “aprende a apreciar o que significa habitar
no meio de uma diversidade tanto na natureza quanto entre os homens”. A percepção do
mundo indígena também é notória na poesia charrua de Maria Huebilu a nos lembrar que os
ancestrais continuam vivos em nós, assim como a crônica de Severiá Idioriê, entre outros
textos escritos por mulheres indígenas no volume 4, da Revista LEETRA Indígena, da UFSCar,
em 2014. Desse modo, seguimos, nesta XVI ABRALIC, no continuum – como diria o poeta –
entre literatura e outros saberes como sugere a voz da terra na poética indígena. E a propósito
do Ano Internacional das Línguas Indígenas – dedicado pela ONU ao ano de 2019 – cabe
reiterar o direito de sonhar um mundo melhor; o direito de intuir os sentidos da literatura
indígena e tudo que nos aproxime da poesia necessária, como sugere o poética do
“Continuum”, no rastro dos nossos ancestrais.
Referências:
IDIORIÊ, Severiá. Quem somos? Para onde vamos? Disponível em: [Link]
leetra/ docs/ leetra_vol4. Acesso em [Link].2019.
KRENAK, Ailton. Continnum. Poema declamado na Mesa “Vozes ameríndias”, Congresso da
Abralic/2018, Uberlândia, MG.
311
LEETRA Indígena. Volumes 1 a 18. São Carlos: UFSCar/ Grupo de Pesquisa LEETRA. Disponível
em: [Link]
RIBEIRO, João Paulo. Guia Turístico: Tikanga rikue: uma profética do traduzir. São Carlos:
Pedro & João Editores, 2018.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
ONÇA
POTIGUARA
17/07 (MANHÃ)
312
EXTUALIDADES INDÍGENAS COMO INSTRUMENTO DE RESISTÊNCIA
18/07 (MANHÃ)
PROGRAMAÇÃO
314
16/07 (MANHÃ)
16/07 (TARDE)
17/07 (MANHÃ)
315
Marina Silva Ruivo
A possibilidade de abrir espaço para discutir cooperações acadêmicas tem como objetivo
central reunir projetos de pesquisa que se alinham, sob uma perspectiva transdisciplinar e a
partir de movimentos transareais (Ette), para a compreensão de processos complexos e
316
diversos que envolvem questões de natureza contextual, olhares e sentidos produzidos sobre
regiões aparentemente – e muitas vezes tidas como - homogêneas, como a Amazônia, o
Pampa, o Pantanal, os Andes, articulando saberes que se integram na interface de estudos das
Literaturas, das Artes e da Formação de pesquisadores e estudiosos. A análise de diferentes
práticas de linguagens (produção linguística, literária e artística) e de práticas de formação,
mobilizando pressupostos téorico-metodológicos advindos dessas diferentes áreas de
interesse, se entrecruzam sob um viés transdisciplinar.
Referências:
Ette, Ottmar. Pensar o futuro: a poética do movimento nos Estudos. ALEA, Rio de Janeiro. vol.
18/2, mai-ago. 2016b, p. 192-209.
Pizzarro, Ana. Imaginario y discurso: la Amazonia. In: Jobin, José Luís [Link]. (org.) Sentidos dos
lugares. Rio de Janeiro: ABRALIC, 2005.
Ranciére, Jacques. A Partilha do Sensível, Estética e Política. Trad. Mônica Costa Netto. São
Paulo: Ed. 34, 2005.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
17/07 (MANHÃ)
318
AS POÉTICAS EM MOVIMENTO DE GRJASNOWA E VARATHARAJAH: AS POSSIBILIDADES DA
NOVA WELTLITERATUR NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA EM LÍNGUA ALEMÃ
DESMEDIDA DO SERTÃO
Resumo:A religião e a religiosidade se tornam importantes dentro do espaço colonial, justame
nte por serem elementos presentes na mentalidade e discurso tanto do colonizador como na
do colonizado. O tema é indissolúvel ao processo de colonização, uma vez que ambos os
grupos antagônicos se serviram do fenômeno religioso para
justificar a política colonial (colonizadores, missionários cristãos), ou resistir ao processo,
revidando a opressão e desconstruindo discursos, engendrando o processo de descolonização
(colonizado, curandeiros, pajés).
Dentro do mundo colonial (ou pós-colonial), o fato é que antes do processo de invasão, muitos
povos colonizados possuíam seu conjunto de crenças, mitos e rituais, a fim de adorar seu
passado e todos que nele habitam (antepassados, heróis, divindades teogênicas, etc.). Nisso, a
crença passa a ser a resposta para o não explicável, fonte de benção, de terra fértil, contra
epidemias, ou seja, consolo e resignação. A religião/religiosidade passa a ser reflexo desse
grupo agora “periférico”, “outremizado”, “invadido”, uma fundamentação de consolo e
legitimação que, por dar força em suportar as mazelas da colonização, faz dela (a religião e
suas práticas) um recurso social para dela fazerem sua fortaleza: “Nascemos fracos e indefesos
[...] o fiel que entrou em contato com o seu deus [...] se tornou mais forte. Ele sente dentro de
si, mais força, seja para suportar os sofrimentos da existência, seja para vencê-los”
(Alves, 1989:64). Da mesma forma, com o grupo invasor, que verá na Religião, pressupostos
para o domínio, supremacia e conquista de outros povos.
A crença não é um fenômeno isolado, desenvolve-se em um contexto plural, social, econômico
e cultural. Fé, crença e religião são da natureza humana, seja do vencedor ou do vencido, do
319
invasor ou do invadido, pois como observa Rubens Alves (Loiola, 2011:162) “quando se
esgotam os recursos da técnica’, florescem sempre um representante do sagrado: o padre, o
feiticeiro [...]” – e como tais personagens floresceram no confronto colonial!
Analisar a prática religiosa africana (tradicional ou não), bem como a cristã, em uma literatura
altamente política revela a verdadeira função das literaturas pós-coloniais. Mia Couto,
Chinua Achebe, Wole Soyinka, Boaventura Cardoso, Pepetela, Ben Okri, Ahmadou Kourouma,
Paulina Chiziane, Odete Semedo, entre outros autores africanos veem nas práticas religiosas
tradicionais de África, metáforas, símbolos e analogias altamente positivas para a construção
literária, cujo intuito é, além de despertar emoções através da poética, trazer reflexões,
denúncias e espaço para a reconstrução histórica e para a voz de etnias silenciadas. Esses
autores africanos, de produções literárias qualitativa e quantitativamente significativas, se
encontram em um projeto estético próprio dos estudos pós-coloniais, baseado em conceitos
de resistência, revide, contra argumentação, subversão, ou seja, elementos que visam o
discurso enquanto poder, como revela Foucault em Microfísica do poder (1979). Essas
produções africanas, em especial, têm a capacidade de produzir esse discurso literário
politizado, na relação entre colonizador e colonizado). As literaturas africanas abordam a
problemática colonial e pós-colonial análoga a elementos e fenômenos religiosos. O fato
particular das literaturas africanas em relação aos aspectos religiosos de suas obras está em
sua literariedade clamar uma africanidade e de acordo com Salvato Trigo (1981) um texto
literário africano “tem sua africanidade latente, quando procura a inspiração no
tradicionalismo religioso, isto é, no animismo” (p.147. Grifo meu). Em The post colonial
studies: key concepts Second edition (2007:188), Ashcroft et al., revelam a necessidade de se
começar a atrelar os estudos da religião junto com os estudos pós-coloniais, visto que os
escopos religiosos e políticos estão atrelados no âmbito colonial, e problematizam: “ Religion
could thereafore act either as a means of hegemonic control or could be employed by the
colonized as a means of resistence”. Mas não são apenas os teóricos que entendem o valor
dos estudos da religião ao estudo literário e pós-colonial. Muitos autores africanos, como
Chinua Achebe, Pepetela e Mia Couto, por exemplo, acreditam que escrever sobre África e
colonização sem dar a devida importância à religião, não é escrever sobre África e sobre o
colonialismo. Desta forma, este simpósio quer discutir, questionar e problematizar as
manifestações da religião e das religiosidades nas literaturas africanas pós-coloniais
(anglófonas ou lusófonas) tanto no âmbito do colonizador como do colonizado, através de
uma estética própria, que apresente as ambivalências, lutas simbólicas e o pensamento
político do mundo [pós] colonial.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
320
O IMAGINÁRIO E O SUNGUILAR NA LITERATURA ANGOLANA, O CASO DO CONTO DE JOFRE
ROCHA
Dejair Dionísio
321
universo de interesse. Vale ressaltar ainda que a leitura na BNCC (BRASIL, 2018), no tocante ao
ensino fundamental, compreende as práticas de linguagem que decorrem da interação ativa
do leitor/ouvinte/espectador com os textos escritos, orais e multissemióticos e de sua
interpretação, sendo exemplos as leituras para fruição estética de textos e obras literárias.
Particularmente, compreendemos a leitura literária como campo de investigação de processos
interpretativos do sujeito-leitor lendo aliando-as às práticas avaliativas. Nesse cenário, o que
propõem as pesquisas do ProfLetras? Este simpósio propõe reunir trabalhos desenvolvidos por
docentes pesquisadores desse programa para compartilharem suas experiências, tornando
possível delinear as contribuições que vêm produzindo para a Educação Básica. Que caminhos
o docente pesquisador têm desenvolvido no que diz respeito à formação de leitores literários
no ensino fundamental? Que orientações teóricas vêm subsidiando essas produções? Quais
são os aspectos convergentes e divergentes que marcam a produção de 42 universidades que
representam o total de 49 unidades do ProfLetras distribuídas pelas 5 regiões do país no que
diz respeito aos resultados desse grande esforço nacional? Convidamos, assim, esses
pesquisadores para este simpósio que visa constituir-se como um grande encontro para
diálogos, momentos de reflexão conjunta, trocas de experiências, buscando adensar a
dimensão crítica e reflexiva que deve orientar as práticas de ensino e de pesquisa que
envolvem o ensino de literatura, a formação de leitores na escola e o letramento literário.
Partimos do pressuposto de que o campo aplicado produz sua própria teorização, a rever,
refazer, reatualizar a dimensão teórica. Em outras palavras, esse campo pode permitir, além
de uma reflexão sobre as práticas, uma ponte mais que essencial sobre teorias, pondo-as à
prova para fortalecer a prática pela teoria e ampliar a teoria graças à prática. No caso das
pesquisas sobre a literatura na escola, a discussão demanda avanços, enfrentando ainda o
ranço de que pesquisar o ensino se trata de um problema menor para os estudos da área. Para
o ProfLetras, restam a urgência e o compromisso com a escola.
Referências:
_____. A formação do professor de literatura: uma reflexão interessada. In: PINHEIRO, A. S.;
RAMOS, F. B. (Orgs). Literatura e formação continuada de professores: desafios da prática
educativa. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2013. p. 11-26.
_____. Círculos de leitura e letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.
189p.
FIORIN, J. L. Objeto artístico e experiência estética. In: LANDOWSKI, Eric; DORRA, Raúl;
OLIVEIRA, Ana Cláudia (Orgs.). Semiótica, estesis, estética. São Paulo/Puebla: EDUC/UAP, 1999,
p. 101 – 118.
ROUXEL, A. Práticas de leitura: quais rumos para favorecer a expressão do sujeito leitor?
Cadernos de Pesquisa, v.42, n.145, p.272-283, jan./abr. 2012.
322
_____. Autobiografia de leitor e identidade literária. In: ROUXEL, Annie; LANGLADE, Gérard;
REZENDE, Neide Luzia (Orgs.). Leitura subjetiva e ensino de literatura. São Paulo: Alameda,
2013, p. 67 – 87.
SILVA, L. H. O. Não vejo o mundo com seus olhos: inquietações sobre a leitura e a literatura na
perspectiva da semiótica didática. In: BRITO, A. R.; SILVA, L. H. O.; SOARES, E. P. M. (Orgs.).
Divulgando conhecimentos de linguagem: pesquisas em língua e literatura no ensino
fundamental. Rio Branco: NEPAN, 2017, p. 195-211.
SILVA, L. H. O.; MELO, M. A. O que pode o leitor? EntreLetras (Online), v. 6, p. 120-132, 2015.
_____. Por um retorno ao texto e seus (dis)sabores: pesquisas sobre literatura no ProfLetras.
EntreLetras (Online), v. 9, p. 86-102, 2018.
XYPAS, R. A leitura subjetiva no ensino da literatura: apropriação do texto literário pelo sujeito
leitor. 1a. ed. Olinda: Nova Presença, 2018. 110p.
_____; ROUXEL, A. Ousar ler a partir de si: desafios epistemológicos, éticos e didáticos da
leitura subjetiva. Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 20, p. 10-25, 2018.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (MANHÃ)
323
CONTRIBUIÇÕES DA LEITURA LITERÁRIA NA FORMAÇÃO DE ALUNOS LEITORES NA PRIMEIRA
ETAPA DO ENSINO FUNDAMENTAL
16/07 (TARDE)
17/07 (MANHÃ)
Resumo: A busca por questões que configuram elementos constitutivos do fazer artístico no
espaço da narrativa é ação elementar para os estudos da Epistemologia do Romance. Desse
modo, a proposta deste simpósio assume ser reflexo de uma trajetória de olhares
assumidamente preocupados com a gênese do fazer romanesco, construída a partir do grupo
homônimo à teoria em questão. Com provocações que tangenciam ordens das mais diversas
áreas, propondo-se interdisciplinar, a Epistemologia do Romance é evocada aqui como ponto
de partida basilar para lidar com aspectos inerentes aos elementos que compõem o romance –
em consequência, outras artes. Da figura autoral ao leitor inquieto, perverso por natureza, o
debate que aqui se incita preocupa-se em reunir abordagens e reflexões que coadunem com o
espaço literário em um movimento intra e extratextual, cujos esforços transportam-nos para
questões importantes da arquitetura estética construída pelo sujeito que cria, abrangendo um
caráter que não se fecha em uma ou outra proposição teórica ou análise, mas que
contextualiza e relativiza possibilidades de interpretações a partir de gestos filosóficos que se
325
propõem comprometidos com várias áreas do conhecimento, especialmente a Filosofia e a
Literatura. Por ter em seu berço a necessidade de entendimento do humano a partir da arte, a
Epistemologia do Romance aproxima-se de uma linha entendida como metafísica, por compor,
em seu processo de análise uma configuração ontológica da arte que contempla olhares
contemporâneos no sentido de buscar as multiplicidades envolvidas no contexto da criação, da
recepção e, dialeticamente, da experiência estética. É um olhar metafísico por estar atrelado a
uma pretensão maior de assumir como possibilidade o conhecimento do objeto estético,
podendo ele ser literário ou não, cujas estruturas forneçam vestígios de escolhas importantes,
nascidas pelo ato criativo que também se propõe gestual: estético e filosófico. As influências
teóricas que corroboram para tais escolhas são oriundas de uma gama de estudiosos e
literatos, com destaque para Hermann Broch, Milan Kundera, Carlos Fuentes, Glauco Mattoso,
Eliane Brum, Michel Foucault, Immanuel Kant, Friedrich Hegel, G. Gadamer, dentre outros de
relevância evidenciada. As possíveis temáticas acolhidas na proposição aqui fomentada devem
atentar-se às mais variadas questões do sujeito moderno e contemporâneo, preocupando-se
em explorar o objeto estético, na busca por questões que possibilitem o pensar acerca do
humano a partir da forma sensível da arte, num movimento que se assuma ousado,
especialmente por ocupar espaços de discussão negligenciados em outras linguagens que não
a da forma da arte. Desse modo, procura-se aqui refletir em que ponto o olhar metafísico que
aceita problemas que são de caráter universal, como questões da condição humana, mas
representados pela forma da arte a partir do particular, são sustentados em um terreno
fecundo de discussão no que tangem as esferas da vida e suas propriedades ontológicas. O que
se coloca aqui como movimento dialético entre o universal e o particular, tensionados pela
arte, é o objeto construído com uma intencionalidade que deixa rastros, especialmente ao
esboçar motes que estão intrínsecos ao indivíduo, mas que refletem uma coletividade e um
comportamento passível de ser representado pelo espaço da arte. É importante reforçar que a
ocupação desse espaço não se dá, em muitas das vezes, de modo leviano e puramente
intuitivo. Ao contrário, em muitas obras são encontradas pegadas curiosas da intenção do
artista, por demonstrar consciência e racionalidade acerca de suas escolhas estéticas mais
propícias para dar conta de temas espinhosos do cotidiano humano. Dentre estes, o sexo, a
sexualidade, as relações afetivas discrepantes de uma moral vigente ou padronização ou
questões ligadas à morte e decadência humana ganham reverberação na narrativa literária – e
por que não em outras manifestações artísticas – por não se comprometerem com nenhum
elemento externo que os julgue enquanto valores e princípios éticos e morais. Assim sendo,
acredita-se que a proposta aqui apresentada possa contemplar possibilidades de discussões
sobre assuntos hodiernos que se apresentam problemáticos diante de um cenário atual
complexo, cujas reações à arte pairam sobre fenômenos da superficialidade e dificuldade de
compreensão daquilo que se quer dizer sobre nós mesmos e nossas mais emergentes
sensações. Nesse sentido, o simpósio “Questões metafísicas na literatura: epistemologia do
romance como debate ontológico do fazer artístico” demonstra especial interesse por
trabalhos que procurem refletir acerca de aspectos voltados à condição humana presentes nas
narrativas literárias, muitas vezes, silenciados pelas morais vigentes tais como: o belo versus o
feio, as relações corpo versus alma, sexualidades, erotismo, sedução, o riso nas suas mais
diversas manifestações, abjeções... Da mesma forma, pretende acolher trabalhos que
busquem pensar o romance moderno, sua constituição estética, história e trajetória pela
modernidade enquanto espaço de acolhimento dos conflitos e angústias humanas.
326
Referências
GADAMER, H. G. Verdade e Método 1. (Trad. Flávio Paulo Meurer) Rio de Janeiro: Vozes, 1997.
HEGEL, G. W. F. Cursos de Estética I. (Trad. de Marco Aurélio Werle – 2ª ed) São Paulo: Editora
Universidade de São Paulo, 2001.
KANT, I. Crítica da faculdade de juízo. (Trad. Valério Rohden e António Marques) Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2010.
_____. Crítica da razão pura. (Trad. Fernando Costa Mattos). Petrópoles, RJ: Vozes; Ed.
Universitária São Francisco, 2015.
KUNDERA, M. A cortina. Trad. Teresa Bulhões C. da Fonseca. São Paulo: Companhia Das letras,
2006.
_____. A arte do romance. Trad. Teresa Bulhões C. da Fonseca e Vera Mourão. Rio de Janeiro:
Nova fronteira, 1988.
MATTOSO, G. Manual do podólatra amador: aventuras & leituras de um tarado por pés. São
Paulo: All Books, 2006.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (Manhã)
327
Maria Veralice Barroso
17/07 (Manhã)
“ME DORMÍ AQUEL DÍA SOÑANDO EN QUE FUSILARÍAN OTRO Y DESEANDO QUE FUERA JUNTO
A MI CASA”: A REVOLUÇÃO MEXICANA SOB OLHOS INFANTIS
18/07 (Manhã)
Não obstante, no dia 24 de Janeiro deste ano, o deputado Jean Wyllys – identificado como
representante mais contundente da população LGBTQI+ e opositor declarado das ideologias
propaladas pelo governo presidido por Jair Bolsonaro – foi levado a desistir do mandato, para
o qual foi legitimamente eleito no ano de 2018, em função de ameaças feitas à sua vida,
ameaças essas semelhantes àquelas que vitimaram a parlamentar Marielle Franco, cujo
assassinato está há mais de 300 dias sem esclarecimentos conclusivos (não há como ler o
percurso destes últimos meses sem analisá-los como desdobramento do golpe jurídico-
político-midiático que destituiu a presidenta Dilma Roussef, democraticamente eleita, no ano
de 2016).
Este breve panorama sobre a atual situação política do Brasil revigora as palavras de Oswald
de Andrade, que viu a inclinação brasileira para o fascismo durante o elã modernista e,
exatamente por isso, torna necessário ler com atenção a advertência de Jessé Souza em A elite
do atraso: da escravidão à Lava Jato, em que nos impele a admitir que as colocações de
Sérgio Buarque e também as de Penumbra criaram a concepção do culturalismo racista
americano, que identificamos como o “vira-lata” brasileiro e que, segundo o sociólogo,
autorizou um “conjunto de ideias falsas que nos amesquinham e retiram nossa autoestima que
tornou possível a grande farsa do golpe de maio de 2016 e de todos os outros golpes
supostamente contra a corrupção” (SOUZA, 2017, p. 35).
Em Comunidades imaginadas, Benedict Anderson (2008, p. 34) aponta que uma nação é “uma
comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao
mesmo tempo, soberana”; segundo o historiador, ela é “imaginada como uma comunidade por
que, independentemente da desigualdade e da exploração efetivas que possam existir dentro
dela, a nação sempre é concebida como uma profunda camaradagem horizontal” (ANDERSON,
2008, p. 34, grifo do autor). As novas vozes que se colocam no cenário literário e cultural
brasileiro, anteriormente elencadas, vêm expondo as fraturas do projeto brasileiro de uma
comunidade imaginada e, consequentemente, de uma identidade nacional estável e
homogênea (fenômeno observado não apenas no Brasil, mas comum na pós-modernidade,
como aponta Stuart Hall).
330
quanto na medida em que ressignificam clássicos coloniais, românticos e/ou modernistas, que
se ocuparam da construção da identidade nacional brasileira. Deseja-se, assim, iniciar uma
reflexão que pode ser desdobrada ao longo dos próximos anos sobre a forma como o “homem
do século XXI” chegará enfim às efemérides que serão em breve comemoradas e a forma
como a literatura e a cultura elaboram este momento da vida social brasileira. VAE VICTIS,
disse o Penumbra. Mas permaneceremos aqui de mãos dadas.
Referências:
HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Edição Comemorativa 80 anos [1936-2016].
SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
PROGRAMAÇÃO
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NOVE MOTIVOS PARA TER MEDO DE DEUS: UMA LEITURA DE O RATO NO MURO, DE HILDA
HILST
Resumo: Este simpósio se propõe a dar continuidade ao debate sobre crítica literária
realizado nos congressos da ABRALIC ocorridos nos anos de 2016 e 2017, debate esse
que teve como um dos seus desdobramentos a publicação do ebook, lançado pela
própria ABRALIC, A crítica literária contemporânea e seu lugar no debate publico de
ideias. Decidimos retomar a reflexão sobre os caminhos da prática crítica por
percebermos que os debates anteriores, realizados nos eventos citados, abriram novos
horizontes de pesquisa e investigação, o que nos fez constatar o quanto estamos longe
de esgotar as possibilidades de pesquisas dedicadas ao tema.
Qualquer definição essencialista de crítica literária não leva em consideração o fato
incontornável de que a crítica é uma prática e, como todas as atividades humanas,
desenvolve-se numa dinâmica histórica de acordo com necessidades e demandas
circunstanciais e contingentes. A crítica, como a própria literatura, não é, mas se faz. A
questão da crítica se apresenta não como uma problemática abstrata, uma busca
obsessiva por definições últimas, baseada em disjuntivas teóricas, mas como uma série
de práticas reais, com seus objetivos específicos. Há demasiadas classes diferentes de
crítica, com finalidades completamente distintas, para que exista a possibilidade de se
construir uma teoria geral e última que dê conta de todas elas de forma satisfatória. E se
existem diferentes classes de crítica é porque há demandas diversas – necessidades
humanas distintas – relacionadas com o trabalho crítico. Para repensar a crítica literária
e sua função em nosso tempo, devemos partir do entendimento prévio de que a literatura
não tem um propósito imutável: ela participa do jogo social em que todos os propósitos
estão em contínua redefinição, tanto do ponto de vista individual como do coletivo. Por
conseguinte, pensar a crítica é pensar a sua necessária função social em determinado
momento de sua origem e circulação. Como afirma Fabio Akcelrud Durão (2016, p.11)
em O que é crítica literária?: “a crítica tende a implicar algum espaço concreto de
veiculação e a consequente existência de um público leitor, de uma esfera pública na
qual se inserirá [...]. É fundamental para a noção de crítica que ela mesma possa ser
criticada”.
Como sabemos, aferir o valor estético da obra literária é ofício complexo por uma série
de razões, dentre as quais poderíamos inicialmente elencar a longa tradição que a
literatura trilhou e, igualmente, a herança crítica acumulada num percurso milenar.
Especular sobre o vínculo entre o literário e e a formação cultural e social de valores
estéticos, por sua vez, potencializa esses impasses da crítica. Tal pluralidade exige do
332
teórico, portanto, um largo instrumental de saberes de interface: teorias sociológicas,
narrativas da História, reflexão antropológica, entendimento das ciências naturais e da
filosofia. Tudo isso deve ser utilizado com uma propriedade que nos livre do que
Roberto Acízelo de Souza (2006, p.147) qualificou, em seu Iniciação aos Estudos
Literários, como “passeios alegres” sem consistência e peso.
Semelhantes relações, que pretendemos estabelecer no presente simpósio, acentuam sua
dificuldade e urgência quando necessariamente teremos por temática não só as obras
literárias e a fortuna crítica do passado, como também a densa matéria especulativa que
se produz no contemporâneo. Aqui, naturalmente, o diálogo com o filósofo italiano
Giorgio Agamben (2009) é incontornável: a abordagem do que se faz hoje deverá
considerar a descontinuidade das linhas de força hegemônicas e enxergar as trevas dos
tempos atuais, esperando assim captar o que deles ainda lampeja. A velocidade e a
qualidade das transformações de lastro cultural e estético elaboradas pelas sociedades
(instabilidades de toda ordem: gêneros, identidades, critérios de valor literário e a
própria necessidade de valoração) pedem o exercício permanente do debate e do
pensamento coletivo – ações que o simpósio se proporá a agregar.
Daremos prioridade a propostas de comunicação que se alinhem com os seguintes eixos
temáticos: a) Crítica literária, meios digitais e meios de comunicação: reflexões sobre
booktubers; bookstagram; crítica literária e redes sociais em geral; blogs e sites
literários; pesquisas sobre suplementos literários, revistas literárias, programas de rádio
e TV dedicados a livros; b) Impasses e perspectivas da crítica acadêmica e/ou crítica
jornalística; c) Crítica literária, política e formações identitárias; d) Raça, gênero,
sexualidade e crítica literária; e) Revisões de momentos-chave da tradição crítica
brasileira ao longo dos séculos XIX e XX; f) Diálogos, em clave comparada, entre
ensaísmo literário brasileiro e hispano-americano. A partir de arcabouço teórico
interdisciplinar, atentos à pluralidade de perspectivas e abordagens de pesquisa,
esperamos fomentar um espaço fecundo de discussões críticas.
Referências:
DURÃO, Fabio Akcelrud. O que é crítica literária?. São Paulo: Nankin Editorial,
Parábola Editorial, 2016.
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos,
2009.
SOUZA, Roberto Acízelo de. Iniciação aos Estudos Literários. São Paulo: WMF
Martins Fontes, 2006.
PROGRAMAÇÃO
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18/07 (MANHÃ)
ENTRE TEXTOS E PARATEXTOS: UM ESTUDO DOS PREFÁCIOS DE PAULO RÓNAI PARA OBRAS
DA LITERATURA BRASILEIRA
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Andreia Carla Lopes Aredes
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“literariedade” dos textos, também variam historicamente, razão pela qual podem ser
analisadas de forma a compreender os dispositivos implicados na constituição dos
repertórios de obras canônicas e na exclusão daquelas que se situam fora de certas
“economias da escrita”. Em suma, trata-se de inscrever as obras no “sistema de coerções
que as limitam, mas também tornam possível sua produção e sua compreensão”
(CHARTIER, 1997:69) Partindo de tais pressupostos teóricos, o presente simpósio
pretende reunir pesquisadores que tenham por objetivo de pesquisa: 1) explorar aspectos
relativos aos suportes materiais por meio dos quais o gênero romance circula, aí
compreendidos paratextos editoriais, como páginas de rosto, frontispícios, prefácios,
notas de rodapé, ilustrações, etc; e aspectos relativos a sua circulação em periódicos,
como jornais e revistas 2) examinar e discutir a recepção de romances por comunidades
de leitores, sejam eles pertencentes a grupos especializados, como é o caso da crítica
literária ou marginalizados; 3) investigar as convenções interpretativas que orientam a
atribuição de sentido ao gênero por comunidades específicas de leitores, tais como
grupos religiosos, booktoobers, tradutores, censores, etc. Partindo do pressuposto
segundo o qual o processo de publicação, independentemente de sua modalidade,
consiste em um processo coletivo que envolve diversos atores e que seu modus
operandi varia no tempo e no espaço (DARNTON, 2008) este simpósio pretende
abrigar também aqueles que pesquisam a história, papel e forma de atuação de editores,
tipógrafos, tradutores, livreiros, etc na publicação e circulação desse gênero literário,
seja no formato livro, seja em periódicos. Neste caso, interessam os estudos sobre 1) a
circulação de romances no interior do território nacional ou entre o Brasil e outros
países; 2) as diferentes práticas tradutórias e sua interferência na publicação de
romances; a atuação de tradutores do gênero em território nacional ou não; 3) a atuação
de tipógrafos na publicação de romances no formato livro ou na imprensa periódica, as
técnicas de impressão utilizadas e seu impacto na produção editorial; 4) práticas de
venda e comercialização do gênero romance por livreiros e livrarias; 5) presença de
romances em gabinetes de leitura e bibliotecas. Finalmente, é necessário enfatizar que o
presente simpósio almeja reunir pesquisadores que discutam a produção, circulação e
recepção do gênero romance de preferência no século XIX.
Referências
CHARTIER, Roger. Crítica textual e História cultural: o texto e a voz, séculos XVI-
XVIII. Leitura: teoria e prática, Campinas, p. 67-75, n.30, 1997.
CHARTIER, Roger. Inscrever e apagar: cultura escrita e literatura (séculos XI-XVIII).
São Paulo: editora da UNESP, 2007.
DARNTON, Robert. O que é a história do livro? revisitado. ArtCultura, Uberlândia, v.
10, p. 153-167, jan-jun. 2008.
PROGRAMAÇÃO
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Edenilson Mikuska
CADÊ O CRIME QUE ESTAVA AQUI? A RECEPÇÃO DOS ROMANCES DE EDYR AUGUSTO
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tendências anticlassicistas ao longo dos séculos: tendências, e não fundamento, base de
criação. As teorias românticas do gênero literário respondem a outras questões, ligadas à
subjetividade autoral, instância não mensurável, avessa a regras impostas pela tradição. Eis o
âmbito propriamente literário de tal discussão, ao lembrarmos a insistência com que os textos
do Romantismo quebram as tradicionais barreiras normativas da arte dita clássica. Um texto
romântico, ou sentimental, ou irônico, em suma, caracteriza-se por um questionamento de
vários dos conceitos fundamentais da literatura. Além da preferência por uma teoria
expressiva da arte em lugar da teoria imitativa, os gêneros literários foram desrespeitados ou
substituídos por formas novas, que se aproximavam um pouco mais dos ideais românticos:
“Em sua rigorosa pureza, todos os gêneros poéticos clássicos são agora ridículos” (SCHLEGEL,
1997, p. 30). O romântico não deve ser confundido com um gênero ou estilo literário, sendo
antes um elemento formador de toda a poesia – que, não nos esqueçamos, é ou deveria ser
romântica (SCHLEGEL, 1997, p. 65) –, poesia que também não deve ser confundida com um
gênero específico. Esta indefinição de gênero passa por analogia para o romance, para os
fragmentos, para o drama romântico, para todas as formas mistas da poesia.
“O Romantismo pode ser esquematicamente caracterizado como uma trajetória que toma por
ponto de partida a forma primordial, se desenvolve por múltiplas formas particulares e busca
novamente, pela combinação destas, a unidade da forma” (SUZUKI, 1997, p. 17); o que nos
leva a concluir, em concordância, que qualquer reflexão crítica sobre o Romantismo tende a
ser uma reflexão crítica sobre as formas, ou, em outros termos, sobre os gêneros da literatura.
338
cortina diante da ordem transcendental da arte, descobrindo-a, juntamente com a existência
imediata da obra nela, como um mistério” (BENJAMIN, 1999, p. 93).
O simpósio aceitará, dessa maneira, trabalhos que queiram discutir, em qualquer contexto
nacional e/ou linguístico, as transformações dos gêneros literários sob a pressão romântica; as
implicações de tal ruptura na tradição literária; a reconfiguração histórica da noção de
mimese; as continuidades e descontinuidades da quebra com os gêneros clássicos promovida
pelo Romantismo.
Referências:
SCHLEGEL, Friedrich. O dialeto dos fragmentos. Trad. Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras,
1997.
PROGRAMAÇÃO
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17/07 (TARDE)
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A PÁTRIA SELVAGEM DE JOSÉ DE ALENCAR
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O ROMANTISMO REVOLUCIONÁRIO NAS VEREDAS DO GRANDE SERTÃO
Resumo: Embora a literatura não tenha qualquer responsabilidade com a realidade empírica:
as ciências, a teologia, a sociologia, i. e., com o homem de modo geral, é sempre um gesto
político pelo fato de estar – para o bem ou para o mal – sempre posicionada em relação aos
eventos circundantes nas sociedades ao redor do mundo. Para o bem porque há aqueles que
produzem uma escritura literária pautada pela ética, direitos humanos e respeito a todas as
pessoas independentemente de classe, raça, sexualidade, gênero, etc. Para o mal, estão
aqueles que produzem discursos com viés sexista, machista, misógino, de ódio e intolerância.
A atual ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, fez declarações (antes
e depois de assumir a pasta) desrespeitosas para determinadas pessoas: menino veste azul e
menina veste rosa; sexo entre pessoas do mesmo sexo é aberração; as feministas não gostam
de homem porque são feias, as feministas não gostam de homem porque homem nenhum
quis se casar com elas. Esses discursos, ademais de desrespeitosos, demonstram um
pensamento pautado na tradição familiar-sexual – homem vs. mulher; são sexistas pelo fato
de indicar o que é pensado/autorizado para homens – o masculino, e o que deve estar para a
ordem do feminino – mulheres, demonstrando uma clara dicotomia – geradora de violência
nas relações de gênero – entre homens e mulheres. Pese-se a isto a exclusão da comunidade
LGBT das diretrizes da pasta coordenada por Damares Alves, conforme a Medida Provisória
(MP 870/19) assinada pelo presidente da república Jair Bolsonaro. O que demonstra um modo
reacionário, injusto, desumano, de governar, pois o Brasil é a nação que mais mata LGBTs no
mundo; mais inclusive que em países onde a homossexualidade é crime de morte.
O modo caricato como a responsável pela pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, bem
como outros órgãos da atual gestão do Estado-nação, não pode passar incólume à crítica
humanística; faz-se necessária, então, uma análise destes discursos e/ou práticas por
intermédio das proposições dos Gender Studies. Em outras palavras, a crítica, a pesquisa, a
militância, o ensino, no âmbito dos Estudos de Gênero, devem se posicionar veementemente
contra estes ataques a determinados sujeitos que podem – agora em maior grau – sofrer
assédios, injúrias, violência de diferentes níveis e em última instância ter seus corpos
eliminados.
Existem textos literários que, na contra mão de um discurso pautado pelo ódio ao outro seja
pela sexualidade ou pelo gênero, podem nos oferecer pistas para pensar a existência, os
afetos, o dessilenciamento de sujeitos considerados, na esfera pública, de segunda categoria.
Neste sentido, a literatura se converte numa espécie de bússola em direção aos corpos
341
dissidentes – aqueles que não podem circular democraticamente nos espaços públicos – e
pode levar a sociedade a um entendimento em relação ao outro.
Embora haja os que ainda o fazem, tornou-se lugar-comum, um clichê, afirmar que a literatura
humaniza as pessoas; esta afirmação cai por terra quando está claro que uma sociedade
grafocentrada, livresca, onde muitos escrevem e o livro tornou-se um fetiche mercadológico,
pratica crimes hediondos contra seres humanos. A literatura não humaniza, ela não tem esta
função. Mas pode, por outro lado, dar voz a sujeitos violentados, massacrados, alijados, indicar
existências, outros modos de vivências, outras perspectivas corpóreas. Stella Manhattan, de
Silviano Santiago; alguns contos de Caio Fernando Abreu e de Marcelino Freire; Amora, de
Natalia Borges Polesso; a poesia de Angélica Freitas; o romance Dois rios, de Tatiana Salem
Levy; cantores como Johnny Hooker, Liniker, Juan Guiã, entre tantos outros, endossam que
essas pessoas – as que fogem ao padrão heteronormativo – existem, circulam na sociedade,
resistem, reclamam por direitos, publicizam seus corpos e afetos como um gesto político.
Referências
ACHUGAR, Hugo. Planetas sem boca: escritos efêmeros sobre arte, cultura e literatura. Belo
Horizonte: Editora da UFMG, 2006.
ADICHIE, Chimamanda. Sejamos todos feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
______. Para educar crianças feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas. São Paulo: Companhia. das Letras, 2008.
______. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? 1ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2015.
______. Corpos que ainda importam. In: COLLING, Leandro (org.). Dissidências sexuais e de
gênero. Salvador: EDUFBA, 2016.
______. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.
CALVINO, Italo. Usos políticos certos e errados da literatura. In: CALVINO, Italo. Assunto
342
encerrado: discursos sobre literatura e sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
______. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
______. A história da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978.
______. A história da sexualidade: o cuidado de si. São Paulo: Paz e Terra, 2014.
LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo
Horizonte: Autêntica, 2016.
MACIEL, Maria Esther. Literatura e animalidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
______. Os corpos literários que importam: a violência de gênero nas obras de Raduan Nassar.
In: NIGRO, Cláudia Maria Ceneviva et ali (orgs.). Corpos que (se) importam: refletindo questões
de gênero na literatura e em outros saberes. Campinas, SP: Pontes, 2018.
NIGRO, Cláudia Maria Ceneviva et al (orgs.). Literatura e Gênero. São Paulo: Cultura
Acadêmica; São José do Rio Preto, SP: HN, 2015.
RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2017.
_______. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2016.
SALIH, Sara. Judith Butler e a teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.
343
SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2010.
TIBURI, Marcia. Feminismo em comum: para todas, todes e todas. São Paulo: Rosa dos Tempos,
2018.
PROGRAMAÇÃO
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Luciane Bradbury
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A RESISTÊNCIA SUBALTERNA DE SONMI~451 EM CLOUD ATLAS, DE DAVID MITCHELL
Luciane Bradbury
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DE SODOMA OU A ESCOLA DE LIBERTINAGEM (2006), DO MARQUES DE SADE
*comédias: Os dois cavalheiros de Verona (1590-1); A comédia dos erros (1594); Trabalhos de
amor perdidos (1594-5); As alegres comadres de Windsor (1597-8);
* peças históricas: Henrique VI (partes 1, 2 e 3, 1591-2); Ricardo II (1595-6); Rei João (1595-7);
Henrique IV (partes 1 e 2, 1596-8); Henrique VIII (1613);
346
* peças-problema: Troilo e Créssida (1601-2); Bem está o que bem acaba (1604-5);
Em que pese a probabilidade de discordâncias acerca dessa seleção, podemos estimar que
aproximadamente cinquenta por cento da obra de Shakespeare são pouco ou pouquíssimo
conhecidos em nosso país, em comparação com seus grandes sucessos.
Por outro lado, é de conhecimento geral que algumas das comédias de Shakespeare, entre elas
A megera domada (1590-1), Sonho de uma noite de verão (1595-6), Muito barulho por nada
(1598), Como gostais (1599-1600) e Noite de reis (1600-1) são globalmente muito conhecidas
e, algumas delas, extremamente populares no Brasil, sendo constantemente encenadas,
apropriadas e transformadas em uma variedade de produtos midiáticos, como filmes,
musicais, óperas, pinturas, esculturas, etc. Algumas estatísticas mostram que Sonho de uma
noite de verão é a peça mais encenada em âmbito global. De todo modo, o foco nessas
comédias termina por deixar de fora uma série de outras, como já mencionamos, e situação
semelhante se dá no contexto dos dramas históricos, ao todo dez textos, dos quais apenas dois
são mais conhecidos, Ricardo III (1592-3) e Henrique V (1598-9). Em relação às peças problema
e aos romances, A Tempestade (1611), constitui exceção, tornando-se, mais que uma obra
dramatúrgica, um texto seminal para teorias críticas do século XX, como o pensamento pós-
colonial.
a) estimular discussões e leituras críticas de peças pouco lidas e pouco exploradas, nos
diferentes gêneros praticados por Shakespeare, levando em conta sobretudo o contexto
brasileiro de recepção;
347
c) discutir a história da formação de cânones internos à obra de Shakespeare;
Referências:
BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001
[1994].
BLOOM, Harold Shakespeare, the Invention of the Human. Londres: Fourth State, 1999 [1998].
BRADLEY, A. C. A tragédia shakespeariana. Trad. Alexandre Feitosa Rosas. São Paulo: Martins
Fontes, 2009 [1904].
DOBSON, Michael. The Making of the National Poet: Shakespeare, Adaptation and Authorship,
1660-1769. Oxford: Oxford University Press, 1992.
EDMONDSON, Paul; HOLBROOK, Peter, eds. Shakespeare's Creative Legacies: Artists, Writers,
Performers, Readers. London, Oxford, New York, New Delhi and Sydney: Bloomsbury, The
Arden Shakespeare, 2016.
GARBER, Marjorie. Shakespeare and Modern Culture. New York: Anchor Books, 2008.
LEVENSON, Jill L.; ORMSBY, Robert, eds. The Shakespearean World. London and New York:
Routledge, 2017.
SANTOS, Marlene Soares dos e LEÃO, Liana de Camargo, orgs. Shakespeare, sua época, sua
obra. Curitiba: Beatrice, 2008.
PROGRAMAÇÃO
348
TITUS ANDRÔNICUS- DA VIOLAÇÃO À SIMPLES OFENSA: AS PROBLEMÁTICAS DA
INTERPRETAÇÃO
17 de julho (tarde)
18 de julho (tarde)
349
OS DOIS CAVALHEIROS DE VERONA: UM SHAKESPEARE COM SOTAQUE BRASILEIRO
350
como categoria emergente decisiva para pensar o sistema multicultural em tensão. Da mesma
forma, interessa-nos dentro desse quadro, pensar o papel das Referimo-nos também às
produções intelectuais ligadas a temas como morte, perda, sacrifícios, acaso, erotismo como
violação dos limites, e sexualidade, percebidos como degradantes ao longo da história. e
subjetividade. Nestas, amplia-se a Entendemos que essas narrativas, e as reflexões que delas
se desdobram, ampliam nossa compreensão da mudança na forma de abordagem crítica da
narrativa ficcional no século XXI frente às transformações e percepções do leitor/espectador
no mundo. No mesmo sentido, como aprofundamento do debate sobre esse mundo fraturado
e sua reverberação no campo das práticas estéticas, interessam-nos refletir bem como sobre a
obra de poetas contemporâneos e sobre os modos e manobras de enfrentamento das
questões centrais do debate sobre a pós-modernidade que se referem à cena pós-moderna
(uma das acepções de contemporâneo adotadas), tais como o fim da noção de história
unitária, centralizada e conforme ao ideal europeu de progresso e civilização. Reforça-se,
assim, a urgência de debatermos a emergência plural e explosiva na cena contemporânea de
outras vozes, racionalidades e weltanschauungen “locais” (minorias étnicas, sexuais, religiosas,
culturais) estéticas e a crise do “princípio de realidade”. Nossa proposta é que os vários
vetores da produção textual contemporânea possam ser abordados na observação do que no
que impele à construção e desconstrução dos processos de subjetivação, tema recorrente dos
debates em nosso campo. Entendemos que a compreensão dos sentidos textualmente
projetados nos pede a abertura da reflexão interdisciplinar filosófica sobre a criação literária e
suas consequências epistemológicas, estéticas, hermenêuticas. Uma compreensão que se
sustenta na palavra, mas também no silêncio; na estrutura, nas fraturas, nos sistemas e em
seus sintomas, sejam manifestos ou latentes. Trata-se de expandir, portanto, o entendimento
do simbólico que (in) forma o texto, a partir dos leitores que somos, constituídos e de nossa
nossa função contingenciada de antenas e prismas do real.
Referências
BAKHTIN, Mikhail. Apud FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. São Paulo: Atica, 1988.
BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições70, 1981.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da
cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.
CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4ª
ed. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 2008.
ELIAS, Norbert. O processo civilizador – Vol. 1: Uma História dos Costumes. Trad. Ruy
Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. 2v.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, (1930) 1996. (Obras
psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. V. 21)
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença – o que o sentido não consegue transmitir.
Ed. PUC- Rio, Rio de Janeiro, 2010.
LEVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Petrópolis: Vozes, 2005.
PIGLIA, Ricardo. Uma proposta para o novo milênio. Trad. Marcos Visnadi. Lisboa, Buenos
Aires: Coletivo Chão da Feira, 2012.
ZIZEK, Slavoj (org). Um mapa da ideologia. trad. Vera Ribeiro. R J: Ed. Contraponto, 1996.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007. 2ª Ed.
PROGRAMAÇÃO
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352
PENSAR O MUNDO ECONÔMICO: OS CASOS DOS ESCRITORES BERNARDO CARVALHO E
TANCREDE VOITURIEZ.
17/07 (MANHÃ)
355
LOURENÇO, Eduardo. Do colonialismo como nosso impensado. Prefácio de
Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Lisboa: Gradiva.
SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
PROGRAMAÇÃO
16/07 (TARDE)
17/07 (TARDE)
Allysson Casais
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DE TORNA-VIAGEM A ORFEU REBELDE: MEMÓRIA E EXÍLIO EM RELATOS AUTOBIOGRÁFICOS
DE MIGUEL TORGA
18/07 (TARDE)
Viviane Vasconcelos
357
18/07 (TARDE)
Fernanda Duduch
Haidê Silva
Resumo: Em Por que ler os clássicos, Ítalo Calvino fala dos livros que nunca
terminarão de dizer aquilo que têm para dizer. Implicitamente, podemos reconhecer
nessa caracterização a ideia de que o texto clássico nunca deixou de encontrar olhos e
ouvidos dispostos a atualizar o que ele tinha para oferecer. Na diacronia de sua própria
transcendência, o clássico sempre alcançou sentidos humanos em busca dos mesmos
novos sentidos. O leitor - essa projeção alocada sempre nos limites do virtual e do
empírico – divide seu olhar entre a urgência das questões do seu tempo presente e a
perenidade das lições e das sensações do passado, de modo a (re)construir as
significações de obras ininterruptamente contemporâneas. A leitura de um clássico é
sempre uma apropriação anacrônica do que precisamos lembrar e do que almejamos
descobrir. Nesse sentido, não apenas a identidade dos leitores é mobilizada, mas
também o cânone identitário autoral que subjaz à formação do conjunto de obras
consideradas clássicas. A descoberta de si nos reflexos do texto acompanha a dinâmica
da redescoberta do outro nas entranhas das palavras.
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O Simpósio Literatura Brasileira: Identidades em movimento se propõe a oferecer
espaço para a apresentação de diálogos intertextuais, trans-históricos e intersubjetivos
que possibilitem a reflexão sobre a relevância permanente dos clássicos, considerando
que, como lembra Calvino, toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta
como a primeira. E como também diz Adolfo Casais Monteiro, a “obra literária, como o
camaleão, muda de cor conforme o lugar onde se encontra.”1
O sistema de produção da literatura, como o compreende Antonio Candido na Formação
da Literatura Brasileira (1959) forma-se pelos já conhecidos três elementos: os
produtores literários, ou seja, os autores; os receptores, que formam os diferentes tipos
de público, e o mecanismo transmissor, como ele mesmo afirma, uma linguagem,
traduzida em estilos. Esta abordagem se vale claramente da perspectiva do contexto de
circulação da obra literária, no qual estão presentes os produtores, os receptores e um
determinado estilo, no qual o conjunto de autores produz. Assim é que se torna possível
conceber a ideia de que há um estilo de época do qual os produtores de literatura são,
mais ou menos, conscientes, e ao qual aderem, uns mais que outros, como conjunto.
Antonio Candido defende que a produção literária no Brasil só se sustenta como
expressão de uma nacionalidade a partir do século XVIII, quando os poetas árcades,
vinculados ao contexto histórico e cultural mineiro, passam a produzir como grupo
consciente de sua identidade e de seu projeto artístico comum, dando espaço para que,
no século XIX, o Romantismo se instituísse como movimento artístico e literário
genuinamente brasileiro, considerando-se o conjunto de produtores de literatura e
também de receptores dessa produção.
A noção de estilo, neste sentido, está diretamente relacionada a um certo modo de a
literatura ser produzida como objeto textual; a essa noção somam-se as influências do
contexto social, econômico e cultural para que as características de cada época se
definam e se estabilizem de modo regular e também didático.
A perspectiva proposta neste Simpósio é, em certa medida, a problematização da
relativa estabilidade de que gozam as obras ditas clássicas na literatura brasileira, por
meio de abordagens em que o olhar e a dicção do presente as ressignifiquem em novos
contextos de leituras. Temos em mente a necessidade de que a experiência do presente
integre os sentidos que circulam pelas obras consagradas da literatura brasileira de
modo que a sua atualização se realize e, em alguns casos, inaugure-se, pelo e para o
olhar contemporâneo.
Para as intenções até aqui enunciadas, consideramos produtivo que sejam trazidas para
este Simpósio análises comparativas de obras produzidas desde os primeiros momentos
das manifestações literárias no Brasil, como as produções de José de Anchieta, por
exemplo, até as primeiras décadas do século XX, com os modernistas.
Os múltiplos discursos críticos do presente, confrontados com os contextos de produção
e circulação de obras da literatura brasileira, podem desvelar não apenas as trajetórias
cultural e intelectual ao longo da nossa história, mas também os movimentos de
transformação das identidades nacionais e individuais, processos que jamais se esgotam
e que nos solicitam para a sua interpretação permanentemente.
PROGRAMAÇÃO
1 CASAIS MONTEIRO, Adolfo. Clareza e Mistério da crítica. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
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17/07 (TARDE)
Silvana Oliveira
François Weigel
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