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Simpósios sobre Literatura Brasileira Contemporânea

Este simpósio discute a literatura brasileira contemporânea e seu papel na formação de leitores. Apresenta como obras atuais, que trazem temáticas e formatos próximos dos leitores, podem envolvê-los mais e contribuir para o desenvolvimento de uma leitura crítica. Debate também como certas perspectivas na literatura contemporânea questionam relações de dominação e valorizam narrativas de grupos marginalizados.

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Simpósios sobre Literatura Brasileira Contemporânea

Este simpósio discute a literatura brasileira contemporânea e seu papel na formação de leitores. Apresenta como obras atuais, que trazem temáticas e formatos próximos dos leitores, podem envolvê-los mais e contribuir para o desenvolvimento de uma leitura crítica. Debate também como certas perspectivas na literatura contemporânea questionam relações de dominação e valorizam narrativas de grupos marginalizados.

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PROGRAMAÇÃO DOS SIMPÓSIOS

XVI CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC – 2019

PROGRAMAÇÃO DOS SIMPÓSIOS (versão preliminar - em progresso):

1 - A CONTEMPORÂNEA LITERATURA BRASILEIRA: POÉTICAS DO


SÉCULO XXI EM DEBATE
Coordenação: Prof. Dr. Marcio Markendorf (Universidade Federal de Santa Catarina); Profa.
Dra. Camila Morgana Lourenço (Universidade do Vale do Itajaí); Profa. Dra. Josiele Kaminski
Corso Ozelame (Universidade Estadual do Oeste do Paraná).

Resumo: Ao problematizar o estatuto do contemporâneo, Giorgio Agamben (2009) lança uma


questão provocadora, enquadrando-o como um qualificativo móvel no espaço-tempo e de
natureza intempestiva. Complementarmente, apoiando-se em uma leitura de Nietzsche via
Roland Barthes, a contemporaneidade deveria ser percebida, em relação ao presente, por
meio de um duplo movimento, o de desconexão e o de dissociação. Desse modo, estaria, no
cerne da noção de contemporâneo, uma paradoxal condição de não coincidência com o
próprio tempo social, bem como certo traço anacrônico/discrônico. De forma sumarizada,
Agamben postula que a contemporaneidade “é uma singular relação com o próprio tempo,
que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, essa é a
relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo”
(AGAMBEN, 2009, p. 59), ao entender que coincidir plenamente com a época e seus referentes
impede a contemporaneidade justamente por impossibilitar que ela seja percebida. Neste
sentido, o teórico parece dar à categoria algum aspecto disruptivo muito similar àquilo que se
atribui com frequência à modernidade. Acaso seja tomada essa posição como postulado para o
contemporâneo, logo se vê que não se trata de um qualificativo adequado para o espectro
mais recente da produção literária — isto é, não se pode dizer literatura contemporânea sem
incorrer em alguma crise teórica.

Por outro lado, Leyla Perrone-Moisés observa que a literatura contemporânea é um olhar para
o passado que se configura como “citação, reescritura, fragmentação, colagem,
metaliteratura” (PERRONE-MOISÉS, 2016, p. 149), não podendo, nesta perspectiva, ser
concebida como de vanguarda, mas, sim, ao modo de narrativa tardia. Para a autora, a partir
da espectrologia de Derrida, a contemporaneidade é explicada pelos fantasmas do passado,
enterrados cedo demais. “A literatura atual, assim como seu contexto social, filosófico e
político, se ressente de uma situação desajustada e potencialmente terminal” (PERRONE-
MOISÉS, 2016, p. 168).

Além disso, nos estudos de Karl Erik Schollhammer (2009), há uma revisitação da conceituação
de Agamben, algo que direciona para outra interpretação possível: ao contrário da
descontinuidade/obliquidade em relação ao presente, conforme argumenta o pensador
1
italiano, a autoria contemporânea brasileira possuiria urgência em se relacionar com a
realidade histórica (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 10), para quem é condizente entender “que a
urgência é a expressão sensível da dificuldade de lidar com o mais próximo e atual, ou seja, a
sensação, que atravessa alguns escritores, de ser anacrônico em relação ao presente,
passando a aceitar que sua ‘realidade’ mais real só poderá ser refletida na margem e nunca
enxergada de frente ou capturada diretamente” (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 11). Com
semelhante perspectiva, Beatriz Resende (2008) assinala que tal espectro da produção literária
evidencia fortes traços de presentificação, de retorno do trágico e do tema da violência. No
que diz respeito à primeira característica, haveria certa tendência para uma dupla negação, o
do passado historicista e o de uma exploração utópica do futuro, condições que privilegiam o
tempo-hoje, seja na força dada a espaços sociais marginalizados/periféricos, seja no trabalho
com a velocidade narrativa a partir do crescimento da produção de histórias breves. Nesta
esfera, vale lembrar Regina Dalcastanè (2012), que assinala fissuras no cânone, ao
circunscrever obras da ficção brasileira contemporânea que reivindicam o “acesso à voz” e
organizam-se estética e eticamente a partir das pautas do lugar de fala, o que colabora para a
ampliação de uma “limitada fauna de personagens” na cena brasileira e para o
desenvolvimento de estratégias de resistência das minorias.

Longe de desejar demarcar novos limites para um debate conceitual ainda bastante
divergente, fragmentado e provisório, opta-se pelo uso do qualificativo “contemporâneo” para
se referir à produção ficcional do século XXI. O intuito deste simpósio, portanto, é agregar
estudos teóricos e analíticos que estejam debruçados sobre narrativas da contemporaneidade,
desenhando um amplo espectro da diversidade e da multiplicidade de obras, tendências e
abordagens. Para tanto, este simpósio vai reunir apostas de crítica, sob o ponto de vista da
literatura comparada, envolvendo: produções ficcionais fora do consagrado eixo Rio de
Janeiro-São Paulo; o “levante” de uma literatura engajada, tal como a literatura LGBTQI+; a
discussão em torno da literatura negra e/ou produzida nas periferias dos grandes centros; o
florescimento do fantástico e da cientificção em contraponto à tradição realista da literatura
brasileira; bem como o boom de narrativas memorialistas e autoficções.

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.

DALCASTANÉ, Regina. Literatura brasileira contemporânea – um território contestado.


Vinhedo: Editora Belo Horizonte, 2012.

MOISES, Leyla-Perrone. Espectros da modernidade literária. In: Mutações da literatura no


século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p.149-169.

RESENDE, Beatriz. Contemporâneos – Expressões da Literatura Brasileira no Século XXI. Rio de


Janeiro: Casa da Palavra, 2008.

SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização


Brasileira, 2009.

PROGRAMAÇÃO

2
16/07 (TARDE)

“OS RESISTENTES PINTAM COM TINTA, ESCREVEM COM PALAVRAS, ESCULPEM NA PEDRA”:
NOTAS SOBRE O CONCEITO DE RESISTÊNCIA A PARTIR DE UMA PROPOSTA DE LEITURA DE OS
RESISTENTES (2001), DE ALEXEI BUENO.

Saulo Martins dos Santos

A (R)EXISTÊNCIA DA MEMÓRIA EM JULIÁN FUKS

Josiele Kaminski Corso Ozelame

SILÊNCIO E OPRESSÃO: AS VOZES SEM SONORIDADE

Sérgio Linard Neiva Pimenta

17/07 (MANHÃ)

A CONTEMPORANEIDADE DE CAROLINA MARIA DE JESUS

André Natã Mello Botton

LITERATURA NEGRA PERIFÉRICA: POR UMA OUTRA REPRESENTAÇÃO DAS MARGENS

Mercia De Lima Amorim

SLAM DAS MINAS RJ: O CORPO E A VOZ DA MULHER NAS BATALHAS POÉTICAS DO RIO DE
JANEIRO

Marina Ivo de Araujo Lima

17/07 (TARDE)

3
COMO SHERAZADE ÀS AVESSAS E OUTRAS HISTÓRIAS: A MEMÓRIA NOS ROMANCES DE MARIA
VALÉRIA REZENDE

Camila Torres e Ricardo Magalhães Bulhões

MEMÓRIA E DESCOLONIZAÇÃO NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: O


INVENTÁRIO DAS COISAS AUSENTES E COM ARMAS SONOLENTAS, DE CAROLA SAAVEDRA

Ilse Maria da Rosa Vivian

AGREGAÇÃO E DISPERSÃO: MEMÓRIA E IDENTIDADE EM INFERNO PROVISÓRIO VOLUME 1:


MAMMA, SON TANTO FELICE, DE LUIZ RUFFATO

Luiz Fernando Etelvino Benevenutto

TEMPO E NARRATIVA EM CADERNO DE UM AUSENTE

Eduardo da Rocha Marcos

18/07 (MANHÃ)

UMA POÉTICA DO CONTÁGIO EM O TRIBUNAL DE QUINTA-FEIRA, DE MICHEL LAUB

Marcio Markendorf

A POESIA COMO MÉTODO: LEITURA DE AFFONSO ÁVILA

Kaio Carvalho Carmona

A CRÍTICA SOCIAL NA POESIA VISUAL DE TCHELLO D’ BARROS

Renata da Silva de Barcellos

18/07 (TARDE)

4
LITERATURA CONTEMPORÂNEA E TRADIÇÃO: RELAÇÕES INTERTEXTUAIS ENTRE CONTOS DE
CÍNTIA MOSCOVICH E CLARICE LISPECTOR

Eduarda Cristina Lima

A POÉTICA INSÓLITA DE VERÔNICA STIGGER EM GRAN CABARET DEMENZIAL

Camila Morgana Lourenço

DESVELANDO IDENTIDADES: REALISMO E SUBJETIVIDADE EM RIO-PARIS-RIO, DE LUCIANA


HIDALGO

Ana Carolina Schmidt Ferrão

2 - A LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA NOS CAMINHOS DA


FORMAÇÃO DO LEITOR
Coordenação: Profa. Dra. Bruna Paiva de Lucena (UnB-SEDF); Profa. Dra. Gislene Maria Barral
Lima Felipe da Silva (UnB-SEDF); Profa. Dra. Mirian Hisae Yaegashe Zapone (UEM).

Resumo: O letramento literário – que tem início desde os momentos em que a criança ouve as
primeiras canções de ninar, as histórias contadas por pessoas mais próximas, as declamações
de poemas e quadrinhas em quaisquer eventos – é um processo que se constrói vida afora,
nos muitos espaços culturais, sociais, digitais. Contudo, a escola – enquanto ambiente
privilegiado de desenvolvimento da competência literária – desempenha papel fundamental
na formação do leitor, sobretudo quando se pensa na atualidade marcada pela pluralidade de
textos, de suportes e pela heterogeneidade dos leitores. Nesse universo do heterogêneo,
como formar leitores? Quais textos escolher? Quais práticas de leitura suscitar? Considerando
tal contexto, cremos que a leitura de obras contemporâneas da literatura brasileira pode
contribuir fortemente com a formação do leitor literário crítico, uma vez que a oferta e a
exploração de textos literários que tragam formatos e temáticas mais próximos do universo
dos leitores podem acarretar maior representatividade e envolvimento dos leitores jovens.
Como afirma Giorgio Agamben em O que é o contemporâneo?, é preciso mergulhar “a pena
nas trevas do presente”. Ler o contemporâneo a partir das reflexões de Agamben implica,
entre outros caminhos, observar como determinadas perspectivas ou abordagens na literatura
brasileira contemporânea vertem-se como espaço de reflexão, de contestação e de
rompimento com as estratégias de dominação centro-periferia, através da valorização das
narrativas produzidas por grupos marginalizados em confrontação com o valor simbólico
cultural da produção literária dita canônica. Ler o contemporâneo é também rever as escolhas
e os olhares, é ouvir as vozes dissonantes sufocadas das minorias e destacar-lhes sua presença;
é, ainda, a promoção de um espaço dialógico e tensional, que rompe com o discurso único,
com a história única e homogênea do cânone nacional, tão esvaziado de representações
significativas de específicos grupos sociais brasileiros. Dessa forma, a proposta desse simpósio

5
é pensar na formação do leitor de literatura brasileira contemporânea como corresponsável
no projeto de transformação social. O diálogo com Paulo Freire (1983), em Pedagogia do
oprimido nos auxilia a pensar esse leitor literário como sujeito da ação-reflexão, um leitor que,
“emancipado”, “emancipa”. O princípio freireano de emancipação enquanto possibilidade alia-
se ao que adverte Jacques Rancière em seu texto “O mestre ignorante” sobre a necessidade da
emancipação contra o processo de embrutecimento do sujeito. Ele propõe que o “círculo da
emancipação deve ser começado” (Rancière, 2002, p. 29-30). Frente a processos de opressão
ressignificados em nossa sociedade, que precisa se reinventar, como deve se posicionar esse
leitor literário na trilha movediça do contemporâneo? Nessa perspectiva, que vincula literatura
brasileira contemporânea e ensino de literatura, objetiva-se promover reflexões e debates
sobre a leitura literária e sua relação com aspectos da literatura brasileira contemporânea.
Tratar-se-á de questões relacionadas ao processo de formação dos leitores de literatura e ao
lugar da literatura contemporânea no ensino, na escola, bem como em outros espaços sociais
e culturais, inclusive a leitura por meio das tecnologias digitais, tendo em vista os valores e as
exigências culturais, sociais, éticas e políticas da sociedade contemporânea. Desse modo, as
propostas de trabalhos poderão abordar diálogos acerca de práticas de leitura e modos de
incentivá-la a partir do repertório de obras da literatura brasileira contemporânea. Tais
questões podem estar relacionadas a condições de produção, de circulação e do consumo de
literatura infantil, infantojuvenil e juvenil; metodologias de trabalho com o texto literário;
metodologias de ensino de literatura voltadas à Educação Infantil, ao Ensino Fundamental e ao
Ensino Médio; políticas públicas de promoção do livro literário; presença da literatura em
materiais didáticos. Propõem-se também diálogos que construam uma ponte entre a produção
acadêmica e a formação de leitores de literatura em trabalhos que envolvam: experiências
educacionais construídas em relação com a literatura; conhecimento teórico-prático das
manifestações literárias infantojuvenis; tendências atuais da literatura infantojuvenil; obras
das literaturas afro-brasileira e indígena em que esses sujeitos sociais sejam protagonistas;
relações entre a literatura adulta e infantojuvenil e a formação de professores. Espera-se que
investigações que relacionam a leitura literária e literatura brasileira contemporânea possam
contemplar aspectos como diversidade, representação, identidade, alteridade,
intertextualidade, dialogismo, polifonia, escritas e falas autobiográficas, efemeridade e liquidez
da vida contemporânea, entre outros. Todos os trabalhos trarão como preocupação central a
formação do leitor de literatura e a busca de caminhos para essa formação a partir da leitura
de obras contemporâneas da literatura brasileira, entendendo literatura em um conceito mais
amplo que apenas as obras canônicas. Entre os teóricos que subsidiam estudos voltados para
esta proposta de simpósio podem ser relacionados – além dos já citados Giorgio Agamben
(2010), Paulo Freire (1983) e Jacques Rancière (2002) –, Antonio Candido (1998), Roger
Chartier (2009), Teresa Colomer (2003), Rildo Cosson (2014), Peter Hunt (2010), Marisa Lajolo
(2001, 2017), Regina Zilberman (2017), Michèle Petit (2010). O recorte cronológico envolvendo
as obras literárias de autores brasileiros abrange as produções a partir de 1970.

Palavras-chave: Literatura brasileira contemporânea. Formação do leitor. Leitura Literária.

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos, 2010.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: ______. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades,
1998.

6
CHARTIER, Roger. A aventura do livro do livro: do leitor ao navegador: conversações com Jean
Lebrun. Trad. de Reginaldo Carmelo Corrêa de Moraes. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo; Editora UNESP, 2009.

COLOMER, Teresa. A formação do leitor literário: narrativa infantil e juvenil atual. Trad. de
Laura Sandroni. São Paulo: Global, 2003.

COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2014.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

HUNT, Peter. Crítica, teoria e literatura infantil. Trad. de Cid Knipel. São Paulo: Cosac Naify,
2010.

LAJOLO, Marisa. Literatura: leitores e leitura. São Paulo: Moderna, 2001.

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: uma nova outra história.
Curitiba: PUCPRESS, 2017.

PETIT, Michèle. A arte de ler: ou como resistir à adversidade. Trad. de Arthur Bueno e Camila
Boldrini. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.

RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual. Trad. de
Lílian do Vale. Rio de Janeiro: Autêntica, 2002.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (Tarde)

AUTORAS DE SEUS DIAS: A ESCRITA LITERÁRIA DAS MULHERES NEGRAS NA SALA DE AULA

Andressa Marques da Silva

A POESIA NOS CADERNOS NEGROS: O TEMPO E A FORMAÇÃO DO LEITOR

Gustavo Tanus Cesário de Souza

MOVIMENTOS PARA DESCOLONIZAR O IMAGINÁRIO: LENDO A LITERATURA AFRO-BRASILEIRA

Maria Aparecida Cruz de Oliveira

SILVIANO SANTIAGO: VIAGEM AO MÉXICO – UMA EXPERIÊNCIA DE LEITURA CRÍTICA PARA


7
TRADUTORES EM FORMAÇÃO

Lucie Josephe de Lannoy

O LEITOR DA RESISTÊNCIA E A LEITURA DAS (A)DIVERSIDADES: A PRESENÇA DAS NARRATIVAS


DE TEMÁTICAS AFRO-BRASILEIRAS, E COMO REAGIR AO MITO DA DEMOCRACIA RACIAL
BRASILEIRA

Dalva Martins de Almeida

19/07 (Manhã)

SILÊNCIOS E SILENCIAMENTOS NO ENSINO DE LITERATURA PARA ALUNOS SURDOS

Mirian Theyla Ribeiro Garcia

TECENDO OS FIOS DA LEITURA: UM OLHAR LITERÁRIO SOBRE AS OLIMPÍADAS DE LÍNGUA


PORTUGUESA

Gleiser Mateus Ferreira Valério

METÁFORAS CONCEITUAIS DE TEMPO E ESPAÇO NA LITERATURA DE DANIEL MUNDURUKU:


CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO

Telma Borges da Silva

REPRESENTAÇÕES DA VELHICE E DA AFETIVIDADE INTERGERACIONAL EM LIVROS-ÁLBUM


BRASILEIROS E PORTUGUESES PARA CRIANÇAS

Clara Cassiolato Junqueira

ENSINO DE LITERATURA E INCLUSÃO: A ABORDAGEM DAS DEFICIÊNCIAS EM LIVROS


DIDÁTICOS DO ENSINO FUNDAMENTAL II NO PNLD 2019

Gislene Maria Barral Lima Felipe da Silva

8
3 - A POESIA NA SALA DE AULA
Coordenação: Profa. Dra. Andresa Fabiana B. Guimarães (IF SUL DE MINAS e USP) e Profa. Dra.
Mei Hua Soares (Faculdade Cásper Líbero)

Resumo: Para Anatol Rosenfeld (ROSENFELD, [1965] 2006), o lírico é o mais subjetivo dos
gêneros porque centrado em uma voz que exprime estados de alma, vivências e emoções,
plasmando as vivências de um EU no encontro com o mundo. Antonio Candido (CANDIDO,
1996), ao asseverar sobre as relações que podem ser estabelecidas entre prosa e poesia,
ressalta o caráter híbrido que pode envolver os textos poéticos. Paul Valéry, ao defender a
estética de Mallarmé, ressalta ainda a recusa e a negação como potências literárias e poéticas
(CAMPOS, 2011). Mas quando a poesia adentra os ambientes escolares e institucionalizados,
como isso se dá?

É sabido que o trabalho com a poesia tem sido sistematicamente relegado a um plano
secundário nas escolas. Nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCNEM, 2006), há
um questionamento acerca de “onde estaria o erro na formação escolar dos leitores para a
linguagem poética?” A explicação tem como base a não exploração das potencialidades dessa
linguagem de alto valor estético, que fazem do leitor um co-autor no desvendamento dos
sentidos, presentes no equilíbrio entre ideias, imagens e  musicalidade. Acredita-se que “a
exploração dos efeitos de sentido produzidos pelos recursos fonológicos, sintáticos,
semânticos, na leitura e na releitura de poemas poderá abrir aos leitores caminhos para novas
investidas poéticas” (p. 74), por isso propõe-se a ampliação na escola dos circuitos de poesia,
buscando novas formas de circulação social destes textos, o que permitiria ver e entender a
arte poética como uma prática social integrada à vida cotidiana.

Nesse sentido, o trabalho com a poesia parece se revelar instrumento valioso no tocante à
formação escolar, para além de um caráter utilitário. No entanto, se pensarmos nos conceitos
de sociedades disciplinares (FOUCAULT, [1975] 2009) e de sociedades de controle (DELEUZE,
[1992] 2010), verificaremos que a escola apresenta pontos de intersecção na reprodução de
formas de poder e, portanto, a poesia, por se dar no campo da linguagem, na sua forma mais
apurada e potente, também poderia consistir em valiosa ferramenta reflexiva e
transformadora. Porque desestabiliza, reverte (a língua inclusive!), desordena, traz à tona o
inesperado, o inseguro, faz estranhar. Talvez esteja aí a causa de seu maior incômodo, se
considerarmos a perspectiva daqueles que se formaram leitores buscando um significado pré-
determinado e inflexível para o texto poético. E, sem dúvida, é nessa desestabilização
provocada pela linguagem estética que reside a sua maior contribuição: diz, não dizendo
diretamente; expressa o que há de mais subjetivo, trazendo, em suas entranhas, o coletivo.

Em crônica no Jornal do Brasil publicada em 1974, Carlos Drummond de Andrade levanta a


questão: “Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de
sê-lo? Será a poesia um estado de infância relacionada com a necessidade de jogo, a ausência
de conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos de viver – estado
de pureza da mente, em suma?”. O autor avança tecendo considerações a respeito da relação
intrínseca entre poesia, meninice, senso crítico e estético e sobre a pertinência da escola em
trabalhar com essas questões “Mas, se o adulto, na maioria dos casos, perde essa comunhão
com a poesia, não estará na escola, mais do que em qualquer outra instituição social, o

9
elemento corrosivo do instinto poético da infância, que vai fenecendo, à proporção que o
estudo sistemático se desenvolve, até desaparecer no homem feito e preparado supostamente
para a vida? (ANDRADE, 1974)”. Na sequência, o poeta responde: “Receio que sim”.

Fazendo coro aos questionamentos de Drummond, lança-se, nesta proposta, o desafio de se


pensar, mais detidamente, sobre o tema e permitir o compartilhamento de experiências bem
fundamentadas com a poesia no espaço da escola. O Simpósio A Poesia na sala de aula (o
primeiro aconteceu na ABRALIC em 2018) pretende se configurar de forma mais ampla:
abrigando experiências e pesquisas que envolvem o poético na escola, seja por meio de textos
em verso, em prosa, visuais, performáticos, como é o caso dos SLAMs - batalhas de versos -
considerado um novo fenômeno de poesia oral.

Ao adentrar o espaço físico e simbólico da escola – em seus diferentes níveis – que práticas de
leitura e de escrita envolvendo poesia podem se revelar potentes? A poesia, ou o fazer poético
é ensinável? Como se dá a exploração de um discurso tão libertário e surpreendente em um
terreno de regras, lições, planejamentos e expectativas mais precisas e mensuráveis? Como
explorar um texto que requer sensibilidade, agudeza de sentidos e senso lógico também, em
um território marcado por tantas outras exigências e metas mais conteudísticas e objetivas?
Quais metodologias e didáticas são adequadas para se lidar com o gênero em questão? Como
é a recepção discente em relação ao texto de acentuado valor estético? Pensando nos cortes,
estranhamentos e aporias que a arte e a literatura envolvem, quais os riscos advindos desse
diálogo entre o fazer poético e a sala de aula?

Palavras-Chave: Poesia – Manifestações Poéticas – Leitura Literária – (Leitura Subjetiva) –


Ensino

Referências

ADORNO, Theodor. Palestra sobre lírica e sociedade. In: ______. Notas de literatura I. Jorge M.
B. de Almeida (trad.). São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003, p. 70 e 77. [1957].

ANDRADE, Carlos Drummond de. A educação do ser poético. In: Jornal do Brasil, Rio de
Janeiro, 1974. Disponível em: [Link] Acesso em: 11/03/2018.

BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Orientações curriculares para


o ensino médio: linguagens, códigos e suas tecnologias. Vol. 1. Brasília: MEC/SEB, 2006.

CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2011.

CANDIDO, Antonio. Estudo analítico do poema. São Paulo: Humanitas Publicações /

FFLCH/USP, 1996.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, [1992] 2010.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis (RJ): Vozes, [1975] 2009.

OSAKABE, H. FREDERICO, E. Y. Literatura. Orientações curriculares do ensino médio. Brasília:


MEC/SEB/DPPEM, 2004.

ROSENFELD, A. “A teoria dos gêneros”. In: O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 2006.

ROUXEL, A.; LANGLADE, G. & REZENDE, N. (org.). Leitura subjetiva e ensino de literatura. São
10
Paulo: Alameda, 2013.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

O DESAFIO DO TRABALHO COM AS LINGUAGENS POÉTICAS NO ENSINO TÉCNICO INTEGRADO

Andresa Fabiana Batista Guimarães

A POESIA NA SALA DE AULA: A LEITURA COMO EXPERIÊNCIA CRIADORA

Marli Aparecida de Siqueira Batista Leite

MEMÓRIA, SUBJETIVIDADE E ALTERIDADE EM TEXTOS POÉTICOS AUTOBIOGRÁFICOS

Mei Hua Soares

PIQUENIQUE LITERÁRIO: A POESIA COMO ALIMENTO NA SALA DE AULA

Sue Helen da Silva Vieira

ENSINO E PRODUÇÃO POÉTICA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA COM ADOLESCENTES: A ESCRITA


COMO FERRAMENTA DE AUTOCONHECIMENTO E ESCUTA

Wallace Byll Pinto Monteiro Júnior

RECIPE OF LIFE, DE RUPI KAUR: UMA PROPOSTA DE LEITURA E ESCRITA COLABORATIVA DE


POEMAS EM LÍNGUA INGLESA NA EDUCAÇÃO BÁSICA

Layssa Gabriela Almeida e Silva Mello

4 - A TRAJETÓRIA SÍSIFICA LITERATURA BRASILEIRA


CONTEMPORÂNEA
Coordenação: Prof. Dr. Luis Eduardo Veloso Garcia (UENP-Jacarezinho Letras); Profa. Dra.
11
Winnie Wouters (FACESPI- Pedagogia)

Resumo: Em Não incentivem o romance e outros ensaios (2007), Alfonso Berardinelli diz que o
romance, após a segunda metade do século XX, não procura mais realizar grandes ousadias
formais, como se tudo o que pudesse ser transformado enquanto forma de resposta à sua
sociedade já tivesse sido alcançado. Dessa forma, o autor afirma que “O século XX, o século da
crise do romance, está se invertendo. A autocrítica do romance (e de toda a arte) segue a
autocrítica da autocrítica. Ou seja, a renúncia à crítica, o retorno aos mitos e a todo tipo de
mito” (2007, p.177). Logo, de acordo com o crítico italiano, o romance contemporâneo deixa
de lado a exploração do aspecto formal para enveredar, novamente, em direção aos mitos,
dado que estes, por conterem algo de eterno, ainda conseguem oferecer caminho possível às
respostas do que o romance é enquanto produto de seu tempo. Nesse sentido, certas
constantes parecem assolar a prosa brasileira contemporânea, objetos distintos para cada
escritor aparecem repetidas vezes como mote de romances, algo que soa, muitas vezes, como
uma obsessão, mas que pode indicar uma tentativa de busca de solução do problema que se
deixa entrever por sutis alterações na construção romanesca e que podem indicar possíveis
mudanças, algo que ainda não conhece destino certo mas já se percebe a caminho de, como
observa Perrone-Moisés em Mutações da literatura no século XXI: “Como o conjunto da
sociedade atual — na política, na economia, na moral, na tecnologia —, a literatura vive um
interregno, aquele momento em que as regras antigas já não existem e outras, na melhor das
hipóteses, ainda estão em gestação” (2016, p.149). Entre os exemplos possíveis, encontramos
os romances de Ana Paula Maia, nos quais o retorno obsessivo pela narração de figuras
masculinas presas aos conflitos com sua brutalidade, surge encarnado na repetição de
protagonistas como Edgar Wilson e Bronco Gil das obras Entre Rinhas de Cachorros e Porcos
Abatidos (2009), Carvão Animal (2011), De Gados e Homens (2013), Assim na Terra como
Embaixo da Terra (2017) e Enterre Seus Mortos (2018); Nuno Ramos, autor cujas obras
revelam a trajetória sisifica na procura por vencer (ou tentar vencer) a linguagem verbal por
meio do mergulho na matéria imagética, que surge através de composições com urubus,
piche, areia, juncos, cães mortos, e tantos outros “restos, resíduos, cantos, cacos, lixo”, como
destaca Leyla Perrone-Moisés, que se mesclam à linguagem verbal no intuito de superar a
insuficiência da palavra escrita em obras como Cujo (1993), Balada (1995), O Pão do Corvo
(2001), Ó (2008), Adeus, Cavalo (2017). Mais um nome contemporâneo que ressignifica o
esforço contínuo por uma repetição infrutífera é Ronaldo Correia de Brito, que em livros como
Galileia (2008) e Dora Sem Véu (2018) traz a voz de protagonistas que se deslocam da capital
pernambucana para o sertão cearense, revelando a angustia de um retorno forçado ao local
que não se deseja ganha destaque. João Anzanello Carrascoza, cujo dilema é semelhante, na
medida em que suas obras também revelam um “escritor de afetos arcaicos”(s/n, 2016), faz
com que os diários pertencentes a Trilogia do Adeus - Caderno de um Ausente, Menina
Escrevendo com Pai e A Pele da Terra - e Aos 7 e aos 40 (2013) apresente a trajetória sísifica
não só pela via da temática explorada em seus contos, mas, principalmente, pela estrutura
narrativa. Uma fácil percepção do conceito que exploramos aqui também pode ser alcançada
na apreciação da obra de Luiz Ruffato, a partir da busca obsessiva por retratar o cotidiano do
proletariado brasileiro, o que acaba por se converter em projeto literário, isso tanto nos cinco
volumes que formam o seu ambicioso trabalho intitulado Inferno Provisório, quanto em obras
como Eles Eram Muitos Cavalos (2001) e De Mim Já Nem se Lembra (2007). Por fim a essa
breve lista, é possível citar Milton Hatoum, cujos romances apresentam a constante tentativa
de construir narradores que, apesar de se encontrarem aparentemente à margem dos fatos

12
principais, são testemunhas de ruínas familiares simbólicas, como é o caso das vozes dos
narradores personagens de Relato de um certo oriente (1989), Dois Irmãos (2000), Cinzas do
Norte (2003) e Órfãos do Eldorado (2008). Tomando os exemplos acima citados, propomos
uma leitura da literatura brasileira contemporânea a partir do mito de Sísifo: a necessidade de
narrar é premente, por isso a tarefa se faz ainda que por um caminho pelo qual o resultado
final já se antevê como insatisfatório – o romance se conhece, está consciente das limitações
pelas quais se construirá, ao mesmo tempo que reconhece a eminência da mudança, e por isso
retoma a tarefa de levar a pedra até o alto do cume, posicionando-a, transformando-a, de
modo que um dia ela deixe de retornar ao espaço conhecido.

PROGRAMAÇÃO

18/07 (MANHÃ)

O CONCEITO DE LIBERDADE NAS CANÇÕES DE RAUL SEIXAS: RESISTÊNCIA AOS PARADIGMAS


DO SISTEMA

Fábio Campos Coelho

DA POESIA MIÚDA À MEMÓRIA AFETIVA: AS TEMÁTICAS ESSENCIAIS DA PROSA DE JOÃO


ANZANELLO CARRASCOZA

Júlia Nunes Azzi

AS OBSESSÕES DO ESCRITOR NUNO RAMOS

Luis Eduardo Veloso Garcia

O DESTINO TRÁGICO DOS NARRADORES DE EVANDRO AFFONSO FERREIRA

Winnie Wouters

5 - A VIAGEM NA LITERATURA DE AUTORIA FEMININA:


DESLOCAMENTO E CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
Coordenação: Profa. Dra. Letícia de Souza Gonçalves (UFG); Profa. Dra. Talita Annunciato
Rodrigues (FATEC)

Resumo: O tema da viagem foi e continua sendo amplamente explorado na literatura. Ele pode
13
ser observado em algumas das mais famosas epopeias, tais como a Odisseia de Homero,
Beowulf e Os Lusíadas, de Camões, e está presente na obra de grandes escritores, como
Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, Jonathan Swift e As viagens de Gulliver, Ulysses, de James
Joyce, entre outros. Estabelecendo um paralelo entre a viagem e a experiência humana,
Todorov (1993) afirma que as trajetórias e os relatos realizados por um indivíduo estão
interligados. Para ele, a viagem no espaço simboliza a passagem no tempo, mas o
deslocamento físico também contribui para sua mudança interior. Seja relacionado ao caráter
material ou espiritual dessa trajetória, um dos aspectos que mais chama atenção sobre o tema
é que, ao permitir colocar o indivíduo diante do outro, a viagem contribui na construção da
identidade, seja individual, cultural, política ou ideológica. Mendes (s/d) afirma que aquilo que
se chama identidade literária, onde se cruzam questões de identidade pessoal e social, acaba
sempre por revelar uma dimensão estrangeira, que é uma das manifestações do Outro. Nesse
sentido, o tema adquire grande importância nos textos de autoria feminina na medida em que
engloba toda uma representação simbólica do movimento na construção identitária, no qual a
viagem aparece, não raras vezes, como uma experiência formadora.

Entender a identidade feminina como uma multiplicidade dinâmica de subjetividades e papéis


sociais nos dias de hoje, todavia, exige recuperar a história e os contextos que tornaram
possível essa construção através do tempo. As mulheres foram objeto de um relato histórico
que as relegou ao silêncio e à invisibilidade, na medida em que sua atuação se passava quase
que exclusivamente no ambiente privado da família e do lar. O espaço público pertencia aos
homens e poucas mulheres se aventuravam nele. Assim, a identidade feminina foi moldada
pela assimetria sexual, uma vez que esses discursos eram produzidos por homens. Relegado à
esfera doméstica, o corpo feminino foi silenciado, tornando-se objeto descrito pelo olhar e
pela voz masculina. A partir da ideologia naturalista burguesa, a identidade feminina foi sendo
assentada no biológico, no corpo, que passou a definir suas ações, sensações e sentimentos.
Nesse sentido, o corpo constituiu a base para a imposição de padrões e normas de
comportamento dentre os quais destacavam-se a beleza, a pureza, a sujeição, passividade e
dependência. Assim, o corpo feminino passou a ser colocado no limite entre a natureza e a
cultura, interpretado de acordo com a ideologia dominante, seguindo os interesses e o
imaginário social (PASSOS, 2002, p.63). Michelle Perrot (2013, p.17) aponta que, ao longo da
história, a prolixidade do discurso sobre as mulheres contrasta com a ausência de informações
precisas e circunstanciadas. O mesmo ocorre com as imagens. Produzidas pelos homens, elas
vão dizer sobre os sonhos e medos masculinos, mas não sobre a realidade feminina. As
mulheres são imaginadas, representadas, em vez de serem descritas ou contadas.

Tendo em vista essa relação entre o público e o privado, entre o centro e a margem, o tema da
viagem esteve associado por muito tempo ao universo masculino. Eric Leed (1991) afirma que,
historicamente, os homens viajavam e as mulheres não, ou viajavam somente sob a égide dos
homens, reforçando uma espécie de regra em que o mundo exterior e a exploração fossem
domínios unicamente masculinos.

O movimento das mulheres nos mostrou que, desde a inserção feminina na esfera pública na
segunda metade do século XX, o mundo privado, onde lhes eram reservados os papéis de filha,
mãe ou esposa, tornou-se insuficiente, uma vez que limitava sua liberdade de tomar decisões,
bem como seu direito de se expressar. A partir deste posicionamento, as mulheres
reafirmaram a importância de sua voz, consideradas enquanto sujeitos dotados de identidade
própria. A mulher que aqui encontramos já não é apenas olhada, ela olha também; não é mera
leitora, ela escreve e, por meio de seus textos, temos acesso à sua própria experiência, sua
própria perspectiva.
14
Sendo assim, buscamos refletir, neste simpósio, a respeito do tema da viagem pelo viés da
escrita de autoria feminina, tendo como foco a pluralidade dos olhares dessas mulheres-
viajantes e de suas histórias, observando a relação entre o deslocamento e a construção de
sua identidade.

Referências:

BOHLS, Elizabeth A., Women travel writers and the language of Aesthetics 1716-1818.
Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

BOTTON, Alain de. A Arte de Viajar. Trad. Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

LEED, Eric J. The Mind of the Traveler – From Gilgamesh to Global Tourism. Basic. New York:
Basic Books, 1991.

LEITE, Miriam L. Moreira. Livros de viagem. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 1997.

MENDES, Ana Paula Coutinho. Representação do Outro e Identidade: um estudo de imagens


na narrativa de viagens; Imagologia literária: contornos históricos e princípios metodológicos.
Disponível em: [Link]
Acesso em: 29 jan. 2019.

PASSOS, Elizabeth. A razão patriarcal e a heteronomia da subjetividade feminina. In: DUARTE,


Constância Lima; DUARTE, Eduardo de Assis; BEZERRA, Kátia da Costa. (Orgs.). Gênero e
representação: teoria, história e crítica. Belo Horizonte: UFMG, 2002, p. 60 - 66.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. Tradução Angela M. S. Corrêa. São Paulo:
Contexto, 2013.

TODOROV, Tzvetan. El viaje y su relato. In: Las Morales de la historia. Tradução de Marta
Beltrán Alcázar. Barcelona: Paidós, 1993.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Tradução Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso. São Paulo:
Tordesilhas, 2014.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

ENTRE O PARAÍSO E A TERRA PROMETIDA: EXÍLIO, MEMÓRIA, LINGUAGEM E IDENTIDADE EM


CONTOS DE AUTORIA FEMININA

Loren Lopes Damásio

15
VIVER ENTRE CULTURAS: A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE EM MAR AZUL (2012), DE PALOMA
VIDAL

Patricia Mariz da Cruz

FLANÂNCIAS NO FEMININO: DESLOCAMENTO E CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE EM QUARENTA


DIAS DE MARIA VALÉRIA REZENDE

Raquel Mariane da Silveira

16/07 (TARDE)

LEMBRANÇAS E ESTRANHAMENTO: OS CONTOS DO JAPÃO DE ANGELA CARTER

Cleide Antonia Rapucci

A NOVA EVA DE ANGELA CARTER

Carla Daniel Sardinha Caldeira

DE O QUARTO DO BARBA-AZUL PARA A CÂMARA SANGRENTA: O ENFOQUE FEMINISTA DE


ANGELA CARTER PRESENTE NO SISTEMA LITERÁRIO BRASILEIRO

Anna Olga Prudente de Oliveira

MULHERES PERDIDAS E SUBVERSÃO: ELENA FERRANTE E AS QUESTÕES DO FEMININO

Bruna Montes Werneck de Freitas

17/07 (MANHÃ)

A VIAGEM E O CAMINHO DE CASA EM AMERICANAH E HOMEGOING

Ane Caroline Ribeiro Costa

16
O DESLOCAMENTO E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA EM NO SEU PESCOÇO, DE
CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

Talita Annunciato Rodrigues

A IDENTIDADE DA MULHER ENTRE O BRASIL E OS ESTADOS UNIDOS: UMA ANÁLISE DE SAMBA


DREAMERS, ROMANCE DE KATHLEEN DE AZEVEDO (2006)

Caroline Nascimento Fernandes Caetano

17/07 (TARDE)

GÊNERO E DESLOCAMENTO: O ESPAÇO PÚBLICO COMO AMEAÇA EM "A PEQUENA


GOVERNANTA" DE KATHERINE MANSFIELD

Letícia de Souza Gonçalves

VIAJAR É PRECISO: A RECONTRUÇÃO DA IDENTIDADE NAS PROTAGONISTAS DE THE LITTLE


GOVERNESS E A PARTIDA DE TREM

Maria Alice Sabaini de Souza Milani

AS VIAGENS DE GUTA: SUBVERSÃO E PUNIÇÃO EM AS TRÊS MARIAS, DE RACHEL DE QUEIROZ

Ingred De Lourdes Pereira

O PAPEL DA MULHER X A MULHER NO PAPEL: UMA ANÁLISE DO CONTO “O PAPEL DE PAREDE


AMARELO”, DE CHARLOTTE PERKINS GILMAN

Hortência de Melo Gianvechio

18/07 (MANHÃ)

17
VIAGEM E RESISTÊNCIA: UMA LEITURA OCIDENTAL SOBRE O CONCEITO DE VIAGEM NO
IMAGINÁRIO COLETIVO DAS MULHERES MARROQUINAS NA OBRA DE FATIMA MERNISSI

Vanessa Aparecida Kramer

PELAS RUAS DE CALCUTÁ, A BUSCA POR SI NO ROMANCE DE SHUMONA SINHA

Carla Cristina Campos Brasil Guimarães

A RAINHA DO IGNOTO: A VIAGEM COMO REALIZAÇÃO FEMININA

Gabriela Ramos Souza

PARTIR É IGUAL A FICAR - A RESSIGNIFICAÇÃO DA ESPERA DE PENÉLOPE NA POESIA


CONTEMPORÂNEA

Eva Maria Testa Teles

18/07 (TARDE)

IMAGENS DE PORTUGAL: UM ESTUDO DAS CRÔNICAS DE VIAGENS DE CECÍLIA MEIRELES

Tainara Dantas Da Silva

REMEMORAÇÃO NOS ROMANCES O MAR NUNCA TRANSBORDA E TROPICAL SOL DA


LIBERDADE, DE ANA MARIA MACHADO: VIAGENS POR TEMPOS HISTÓRICOS

Ilma Socorro Gonçalves Vieira

DO BANCO DA PRAÇA: MEMÓRIA DE MULHER E URBE NAS NARRATIVAS DE VIAGEM DE MARÍA


MORENO

Samara Heringer Coelho do Nascimento

ESCRITORAS EM TRÂNSITO II: MARY WOLLSTONECRAFT E NÍSIA FLORESTA


18
Flora Schroeder Garcia

19/07 (MANHÃ)

“A VOZ DA CIDADE É SUAVE COMO A DA SOLIDÃO”: A (RE)CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE


FEMININA NO ROMANCE DE ZELDA SAYRE FITZGERALD

Marcela Lanius

TRAVESSIAS: UM ESTUDO SOBRE A NOÇÃO DE DESLOCAMENTO E VARIANTES A PARTIR DO


FILME QUE HORAS ELA VOLTA? E DO ROMANCE ALGUM LUGAR

Mônica dos Santos Melo Figueiredo

DA RELAÇÃO CONJUGAL AOS PROBLEMAS DE GÊNERO: IDENTIDADE, SUBORDINAÇÃO E


SUBVERSÃO DE ALABAMA BEGGS EM ESTA VALSA É MINHA

Emanuelle Cristina de Oliveira Altieri

19/07 (TARDE)

O CONTO DA AIA E SUAS PERSONAGENS FEMININAS

Eloisa Raquel de Gois

A FIGURA FEMININA NA ESCRITA DE JANE AUSTEN E JULIA ALMEIDA

Rebecca Falcão Serrão

A CONDIÇÃO FEMININA NA LITERATURA DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Roselene Cardoso Araujo

19
A CAÇA AOS TROUXAS E SEUS REFLEXOS NA CONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA
HERMIONE GRANGER DE HARRY POTTER

Naiana Ghilardi

O EROTISMO DE GILKA MACHADO E JUDITH TEIXEIRA

Camila Paiva da Silva

6 - AFRODESCENDÊNCIAS E AFRICANIDADES EM DEBATES


CONTEMPORÂNEOS: SENTIDOS, CIRCULAÇÃO E SUBJETIVIDADES

Coordenação: Profa. Dra. Marinei Almeida (UNEMAT); Profa. Dra. Renata Beatriz Rolon (UEA);
Prof. Dr. Epaminondas de Matos Magalhães (IFMT)

Resumo: O simpósio “Afrodescendências e Africanidades em Debates Contemporâneos:


Sentidos, Circulação e Subjetividades” tem por objetivo colocar em debate questões crítico-
literárias em torno da produção dos países africanos, com destaque para Angola, Cabo Verde,
Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Interessa-nos, também, abrigar estudos
que discutam o conceito de literatura afrodescendente brasileira, evidenciando a sua
diversidade. A partir dessas questões, serão aceitos trabalhos que se debruçam sobre o papel
da memória na construção da identidade negra, aqui e no além-mar. Seja nas articulações
entre a memória, a história e/ou as experiências individuais e coletivas, na literatura, o
mergulho nesse universo elucida questões que ajudam a fortalecer as lutas contemporâneas
dos movimentos sociais de negritude porque iluminam trajetórias de indivíduos e
comunidades.

Pretende-se, sobretudo que o simpósio abrigue diálogos sobre o comparatismo entre as


literaturas produzidas em outros espaços africanos, em outras línguas e com a afro-brasileira.
Também serão bem-vindos trabalhos voltados para o comparatismo entre literaturas africanas
e afro-brasileira em diálogo com outras artes como o cinema, o teatro, a dança, a pintura. bem
como aqueles que incidam o seu olhar na interdisciplinaridade.

Desde os primeiros movimentos na direção da independência política, a literatura produzida


no continente africano conquista uma posição de inegável importância para a constituição da
ideia de nação, não só pela veemente contestação à empresa colonial (ASHCROFT, 1989) como
também pelos projetos identitários que formulava (MATUSSE, 1993). As décadas que se
seguiram à fundação dos estados nacionais, entretanto, foram marcadas por um certo
desencanto perante as realidades em curso, seja pela ineficácia das classes dirigentes locais
(MBEMBE, 2001), seja pelas pressões da conjuntura internacional, do que resultou o
surgimento de imagens distópicas da nação. Em meio a um cenário povoado por rupturas e
continuidades de natureza vária, a vinculação entre literatura e a criação da nação, a nível
temático e institucional, continua a estar na ordem do dia nas produções do continente.

Em se tratando de literaturas desiguais, radicadas em territórios diferenciados entre si a nível


20
histórico e demográfico, cultural e linguístico, social e político, os repertórios afirmam-se pela
pluralidade de vozes e de itinerários, não só a nível continental como também dentro das
próprias fronteiras nacionais. Rupturas, subjetividades e circulações são motes de numerosas
construções literárias e artísticas. Assim, as imagens da nação inscritas por ditas produções ao
longo das últimas décadas, bem como, em sentido inverso, a ideia que a literatura ganha no
seio de cada uma das nações e, em específico, junto de suas elites políticas, são também
marcadas pela heterogeneidade, podendo mesmo tocar opostos, tais como o apoio ou a
desconfiança incondicionais. Ao mesmo tempo, estas produções visam diferenciados públicos,
consoante a língua em que são escritas, coincidindo apenas no fato de que o horizonte de
recepção se encontra normalmente distante dos territórios tematizados.

O espaço da nação, sob múltiplo olhar, enquanto categoria abstrata, apta a contínuas revisões
e mediações, ocupa um lugar complexo e central neste debate. A proposta visa abordar o
“questionamento sobre a identidade e a função da literatura nacional pelo filtro da articulação
entre sistema textual específico em que se configura e os elementos de recepção que a
sustentam e legitimam, de onde não se podem ausentar conceitos como valor, comunidade,
instituições culturais e história” (MENDONÇA, 2008). Esta discussão possibilitará, portanto,
uma ampla reflexão sobre variados temas abordados na produção literária produzida nos
países africanos, bem como no Brasil sob o crivo da africanidade, sobretudo os diálogos,
sentidos e circulações que estas permitem pensar.

O Simpósio objetiva ainda promover, através do diálogo comparativo, as conexões artísticas


que possibilitem o acesso ao mundo que se abre à política, à sociologia, à história, à linguística,
à antropologia etc. Acreditamos na força do comparativismo literário para a ampliação do
cânone. Em face disso, é importante realinharmos textos que captem a realidade particular,
transmitam a percepção deste particular a outras esferas e mantenham a excelência na sua
realização formal.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

NIKETCHE: UMA HISTÓRIA DE POLIGAMIA: A CONSTRUÇÃO DE UM ESPAÇO DE FALA E DE UMA


NOVA SUBJETIVIDADE FEMININA

Sandra Maria Gonçalves Da Silva

SIMULTANEIDADE, INTERSECCIONALIDADE E IDENTIDADE EM MARIA FIRMINA DOS REIS

Renata Carmo Alves

DENÚNCIA E RESISTÊNCIA: UMA POSSÍVEL LEITURA DO CONTO SHIRLEY PAIXÃO, DE


CONCEIÇÃO EVARISTO

Celiomar Porfirio Ramos


21
EMENDANDO UM TEMPO EM OUTRO: UMA ANÁLISE DE O ALEGRE CANTO DA PERDIZ, DE
PAULINA CHIZIANE

Tamires Maiara Santos Araújo

16/07 (TARDE)

A PRODUÇÃO LITERÁRIA EM MOÇAMBIQUE NO PÓS-INDEPENDÊNCIA: O CASO DA REVISTA


CHARRUA

Renata Beatriz Rolon

COMUNIDADE DE TERRITÓRIO: A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO NACIONAL NA POESIA DE JOSÉ


CRAVEIRINHA

Vanessa Pincerato Fernandes e Marinei Almeida

“VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA” ANUNCIANDO “O CÂNTICO DA MANHÃ FUTURA”

Andréia Maria da Silva

POESIA E MEMÓRIA: UM ESTUDO ANALÍTICO NAS OBRAS AREÔTORARE E SAROBÁ, DE


LOBIVAR MATOS

Angelica de Oliveira Ivo Amaral

17/07 (MANHÃ)

REFLEXÕES SOBRE O PATRIARCADO: UMA POSSÍVEL LEITURA DA SUBALTERNIDADE FEMININA


EM AMERICANAH

Rosineia da Silva Ferreira

22
IDENTIDADE E AFROPOLITANISMO: AS PERSONAGENS FEMININAS DE "AMERICANAH" E
"PRECISAMOS DE NOVOS NOMES"

Isabela Tomé Oliveira Castro

A MULHER NEGRA E AS RELAÇÕES DE PODER EM MARIANA, DE MACHADO DE ASSIS

Andressa dos Santos Vieira

SILÊNCIO E RESISTÊNCIA: VOZES FEMININAS SUBALTERNAS EM O FIO DAS MISSANGAS, DE MIA


COUTO

Eliane Costa Ferreira

17/07 (TARDE)

A ESCRITA DE ILDÁSIO TAVARES E A LIMINARIDADE COMO CONDIÇÃO

Henrique Júlio Vieira Gonçalves dos Santos

A SALVAÇÃO DA REVOLUÇÃO E A ESPERANÇA DE UMA NAÇÃO: MENSAGENS EDUCACIONAIS


NA ARTE AFRO-LUSÓFONA

Jordan Rogers

“ENTRE O ESQUECIMENTO E A LEMBRANÇA”- TEREZA DE BENGUELA, A NARRATIVA ORAL E A


CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DE UM POVO.

Epaminondas de Matos Magalhães

REFERÊNCIAS, IRREVERÊNCIAS E INTERFERÊNCIAS NA POESIA DE HARRYETTE MULLEN

Marcos Aparecido Pereira e Maria Rita Berto de Oliveira

18/07 (MANHÃ)

AOS SONS DAS PERIFERIAS: O PROCESSO AFROCENTRALIZADO DA FORMAÇÃO DO GOSTO

23
MUSICAL CONTEMPORÂNEO

Monique Ivelise Pires de Carvalho

A FORMAÇÃO IDENTITÁRIA AFRO-BRASILEIRA E AFRICANA EM PONCIÁ, DE CONCEIÇÃO


EVARISTO E VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO DE MIA COUTO

Alyne de Sousa Jardim

SONHO E MEMÓRIA NA OBRA "A SOCIEDADE DOS SONHADORES INVOLUNTÁRIOS", DE JOSÉ


EDUARDO AGUALUSA

João Gabriel Pereira Nobre de Paula

7 - AGONIAS DA RAZÃO: DELÍRIOS PSICANALÍTICOS, DIAGNÓSTICOS


LITERÁRIOS
Coordenação: Prof. Dr. Hermano de França Rodrigues (UFPB); Prof.ª Dr.ª Amanda Ramalho de
Freitas Brito (UNEAL); Prof. Dr. Aristóteles de Almeida Lacerda Neto (IFMA)

Resumo:Parece-nos estranho, à primeira vista, considerarmos o rompimento dos laços um


fenômeno, em certa medida, forçoso para a gênese e conservação daquilo que, no âmago da
hermenêutica psicanalítica, Sigmund Freud (1856-1930) denominou de civilização. Não houve
sociedade exitosa frente às forças de represamento das moções pulsionais de seus membros,
dobrando-se diante das próprias formas de controle impostas, as quais, na contramão de seus
códigos, erigiram rotas oblíquas, suscetíveis de salvaguardar o “mal necessário”. A realidade
compartilhada, a dinâmica grupal e o princípio de realidade coexistem, ou mesmo se
sustentam, ao lado de mecanismos que inscrevem a caoticidade, a fragmentação, a loucura.
Se, nas primícias da infância, encontram-se as raízes de nossa vida emocional, fincadas nos
quadros da onipotência, da polarização dos afetos e da negação da alteridade; por outro
aspecto, a progressiva superação dessa economia, posta em relevo pela quebra do ideal de
completude e fusionamento, garante a maturação da personalidade, doravante capaz de
integrar a violência e a gratidão. O domínio dos impulsos destrutivos, cumpre dizer, não
preconiza o abandono total da agressividade, mas, antes, implica desilusão, capacidade de
desfazer vínculos instáveis e virulentos, em favor da assunção da diferença, do
estabelecimento de elos mais produtivos e menos desconexos. A separação, quando bem
sucedida, torna possível a anatomia de um mundo interno integrado, com condições
funcionais de reverberar uma relação, minimamente segura, com os objetos externos. Do
contrário, as falhas nessa cartografia carreiam abalos que, na biografia particular de cada
sujeito, figuram distorções transitórias das experiências vividas (algo como uma loucura
efêmera, cotidiana, de ecos inaudíveis) ou manobras psíquicas estagnadas, que se repetem
num ritmo dissonante e hostil. Tal dualismo põe em evidência o quão complexo é o teatro
psicótico, em cujo palco se encenam os dramas mais íntimos, quiçá, em virtude dos atores e
24
atrizes encarnarem os fantasmas errantes de nossa origem selvagem e esquecida. Porquanto o
discurso médico tenha insistido em situar a psicose no campo da patologia, recorrendo a
“padrões” estatísticos de normalidade, que não convém, aqui, serem dissecados, sua validade
esfacelou-se diante das descobertas psicanalíticas, sobretudo os achados freudianos e
kleinianos, que promoveram as núpcias entre a insensatez e a prudência, a insanidade e a
razão. A genialidade do mestre vienense, ao constatar um movimento de defesa onde se
conjecturava degeneração e passividade, e a perspicácia de Melanie Klein (1882-1960),
quando desvela a carnificina e o terror dos primeiros tempos, conduzem-nos a uma linha de
raciocínio que aglutina o diagnóstico e nos impulsiona a enxergar as rachaduras que sulcam,
com frequência, o edifício humano. Daí o psicanalista e psiquiatra argentino Juan-David Nasio,
em uma de suas obras dedicadas à clínica das psicoses, afirmar que “somos todos loucos em
algum recanto de nossas vidas” (2011). A máxima opera sobre a incidência de algum traço,
caracteristicamente delirante ou alucinatório, em dimensões sensíveis de nosso psiquismo,
sem que tal presença signifique desvantagem ou enfermidade. Aliás, ainda que instalada a
desordem mental, em termos estruturais, os eventos derivados desse colapso constituem, de
fato, tentativas de tamponar os buracos ocasionados pela falência da simbolização.
Diagramações, assim, insurgem nas artes, onde se volatilizam com maior propriedade. A
ficção, a título de repertório ilustrativo, oferta-nos, mimeticamente, cenários em que a fúria
psicótica irrompe-se, sutil e avassaladoramente, (re)definindo os personagens, adulterando a
linguagem, revitalizando a voz narrativa e o tempo. Nos meandros da literatura, as caravelas
da loucura ancoram em ilhas suntuosas e, nelas, os marinheiros naufragam na melancolia,
enlouquecem atormentados pelo canto ruidoso da paranoia, e os poucos marujos, que
reservam um mínimo de astúcia, fecham-se em suas dores e angústias. Eis os espectros mais
emblemáticos da mania (como os antigos gregos concebiam as contradições do espírito), que
invocam, nas letras, o furor histérico de Medeia, a onipotência de Victor Frankenstein, os
arroubos persecutórios de Dom Casmurro, a carapuça narcisista e megalomaníaca de Dorian
Gray. Resulta, dessas considerações, a proposta deste Simpósio Temático: congregar pesquisas
(concluídas ou em andamento) que, numa interlocução entre literatura e psicanálise, busquem
analisar as dimensões representativas da loucura, de modo a compreender as imagens e os
discursos que a cercam, bem como as configurações que assumem em determinado momento
da história social e literária. Com vistas a enriquecer o debate e as discussões, as investigações
podem debruçar-se sobre a poesia, o conto, o romance, a carta, a narrativa de viagem, entre
outros gêneros.

Palavras-Chave: Literatura – Psicanálise - Loucura

Referências:

BELLEMIN-NOËL, Jean. Psicanálise e Literatura. São Paulo: Cultrix, 1978.

FREUD, Sigmund. Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia.


In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume
XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud. Volume XIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KLEIN, Melanie. Amor, culpa e reparação. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

KLEIN, Melanie. Inveja e Gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

25
LACAN, Jacques. O Seminário - Livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

NASIO, Juan-David. Os olhos de Laura. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

AS PRISÕES DO MEDO: A VIDA DE CÁRCERE DA PERSONAGEM LUDO

Andressa Rayane de Brito Barbosa Costa

A METAFICÇÃO PSICÓTICA DO TERROR: AS TRAVESSIAS DO DELÍRIO HOMICIDA EM EDGAR


ALLAN POE E MACHADO DE ASSIS

Beatriz Oliveira Rosendo

A PSICOSE PARANOICA DE AURÉLIA CAMARGO: UM DELÍRIO A DOIS

Vanalucia Soares da Silveira

A MORTE NO DIVÃ DO IMAGINADO: TRAVESSIAS DO DELÍRIO EM “UM CÃO ANDALUZ” E


“DISPERSÃO”

Amanda Ramalho de Freitas Brito

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA: A EMERGÊNCIA DO NOVO ESTRANHO NO ESPAÇO DO


APRISIONAMENTO E O PRINCIPIAR DO DECLÍNIO DA CIVILIZAÇÃO

Claudia Carla Martins

AS NEURÓTICAS E AS MELANCÓLICAS D’A CIDADE ILHADA, DE HATOUM

Cristiane de Mesquita Alves

16/07 (TARDE)

26
A TRADUÇÃO DA CULPA EM MACBETH SOB O OLHAR DE FREUD E NIETZSCHE

Vera Spinola

O CALEIDOSCÓPIO DE ANA CRISTINA CESAR: O FULGOR DA MELANCOLIA

Leide Rozane Alves da Silva

(DES)FIGURAÇÕES DO CONHECIMENTO NA NARRATIVA "O ASSASSINATO DE UM DENTE-DE-


LEÃO", DE ALFRED DÖBLIN

José Rodrigo da Silva Botelho

FLUXO DE CONSCIÊNCIA EM AFONSO CONTÍNUO, SANTO DE ALTAR: A CONSTRUÇÃO DA


NARRATIVA POR MEIO DE ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA PERSONAGEM PRINCIPAL

Gleice Do Socorro Bittencourt Dos Reis

AS INTEMPÉRIES DA RAZÃO: O CAOS E A MELANCOLIA EM A PINTURA EM PÂNICO, DE JORGE


DE LIMA

Luiz Felipe Verçosa da Silva e José Antonio Santos de Oliveira

A IMITAÇÃO DA ROSA: TEXTURAS DE DESEJO E LOUCURA

Maria Genecleide Dias de Souza

17/07 (MANHÃ)

DA INSENSATEZ DA VIGÍLIA À LÓGICA DA PUNIÇÃO: REFLEXOS DA LOUCURA EM “O ESPELHO”,


DE MACHADO DE ASSIS

Silvio Tony Santos de Oliveira

QUANDO O REGRESSO A SI MESMO TORNA-SE (IM)POSSÍVEL: A ESCRITA (DES)ESPERADA DE


GUY DE MAUPASSANT

Anderson Gustavo Silva Macedo Pereira

27
SOBRE A CATÁSTROFE ÍNTIMA DA LINGUAGEM: A CONFISSÃO DA ANGÚSTIA NO CONTO A
CARTOMANTE, DE MACHADO DE ASSIS

Annecy Bezerra Venancio

DISSIMULAÇÕES ERÓTICAS, ALARDES PORNOGRÁFICOS: SOBRE A MELODIA OBSCENA DE


THÂNATOS

Manuela Xavier R. de Souza

A RETÓRICA LUDIBRIOSA DE EROS: SOBRE A FACE ANÁRQUICA DO TEMPO EM “O DELÍRIO”, DE


CLARICE LISPECTOR

Marcíllia Poncyana Félix Bezerra

LITERATURA NEGRA E HIP HOP: UM DIÁLOGO PROMISSOR EM UMA TURMA DA EJA

Maria Hosana Ribeiro Da Silva

17/07 (TARDE)

DO SIGNO FERIDO À ALMA DILACERADA: ESTILHAÇOS DO EU E DA ESCRITA, EM HORACIO


QUIROGA

Elisangela Marcos Sedlmaier

QUANDO A PATERNIDADE PRECARIZA A CASTRAÇÃO: RUÍDOS DA ONIPOTÊNCIA EM “REUNIÃO


DE FAMÍLIA”, DE LYA LUFT

Heuthelma Ribeiro Braga Santos

A CONSTRUÇÃO DA LOUCURA NO CONTO MIOPIA PROGRESSIVA

Joelma Correia da Silva e Ronaldo Gomes dos Santos

O DESPEDAÇAMENTO RESSENTIDO DE NARCISO: SEMBLANTES OPACOS DO EU EM “O


RETRATO DE DORIAN GRAY”, DE OSCAR WILDE

28
Flávia Valéria Salviano Serpa

AS LOUCURAS DE AMOR DESENHADAS POR NELSON RODRIGUES EM GENI, DE "TODA NUDEZ


SERÁ CASTIGADA".

Jhonatan Leal da Costa

A LETRA INSTÁVEL E O SIGNO PERTURBADO N’O TAMBOR, DE GÜNTER GRASS

Eider Madeiros

18/07 (MANHÃ)

AUSENTAM-SE OS AMORES, ALOJAM-SE AS FERIDAS: DESPOJOS DA LOUCURA EM GUIMARÃES


ROSA

Letícia Simões Velloso Schuler

DO OLHAR SUSSURANTE À PERSEGUIÇÃO PARANOICA: O GOZO PSICÓTICO EM “O CORAÇÃO


DENUNCIADOR”, DE EDGAR ALLAN POE

Matheus Pereira de Freitas

A RUÍNA PSICÓTICA DE NARCISO: MOLDURAS (DES)ESTRUTURANTES DO ABANDONO EM "O


ANÃO", DE LYA LUFT

Thiago Guilherme Calixto

RAZÕES ENCARCERADAS, AMORES INSANOS: A INTIMIDADE DISSONANTE EM “UMA HISTÓRIA


DE BORBOLETAS”, DE CAIO FERNANDO ABREU

Hermano de França Rodrigues

DA QUEDA DA INFÂNCIA À EMERGÊNCIA DA ALTERIDADE: A PRECIPITAÇÃO FANTASMAGÓRICA


EM ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, DE LEWIS CARROLL

Mariana Pinheiro Ramalho

29
8 - AMAZÔNIA COMPLEXA E RESIDUAL
Coordenação: Prof(a). Dr(a). Cássia Maria Bezerra do Nascimento (UFAM); Prof(a).
Dr(a). Mirella Miranda de Brito Silva (UFRR); Prof(a). Dr(a). Adriana Helena de
Oliveira Albano (UFRR)

Resumo: Djalma Batista (2006, p. 11) afirma que “falar da Amazônia, em qualquer dos
aspectos – fisiográfico, social, intelectual – é aventurar-se alguém a enfrentar senão o infinito
pelo menos o indefinido”. Ao escolhermos a arte literária da e na Amazônia, reconhecemos a
necessidade do estudo de uma multiplicidade de saberes que ultrapassam o cientificismo e o
exótico. Reconhecemos que a literatura reproduz as relações humanas na Amazônia, sempre
permeada de significados infindáveis. A Amazônia do passado recebeu cultura e arte
propagada na Europa e na Ásia, trazida por imigrantes de várias partes do mundo, que cá
chegavam em busca da riqueza do mundo inexplorado da floresta. Em seguida, a História
registra como migrações de diversas partes do Brasil e de outros países compuseram a
Amazônia, fazendo, ainda mais, desta região um complexo emaranhado de culturas e
diversidade:

Restaram na Amazônia, ainda, apreciáveis mostras de heranças


ameríndia no comportamento do povo. Uma delas, das mais típicas, é
uma dose visível de preguiça reinante entre os habitantes do vale,
uma indisposição para o trabalho sistemático, um conformismo com
o resultado dos modestos esforços realizados e uma permanente
despreocupação com o dia de amanhã. E eu sempre me pergunto:
será que a razão não está do lado do caboclo? Outras heranças são o
hábito do banho de imersão frequente; as preferências alimentares
pelo peixe, pela farinha de mandioca, pelo tacacá e pelo açaí [...]
(BATISTA, 2007, p. 63).

Das palavras de Djalma Batista (2007), somos levados aos termos operacionais dos estudos
residuais e à certeza da complexidade amazônica, ao mesmo tempo, do valor da teoria da
complexidade sobre a florestas e espaços urbanos presentes da prosa e na poesia da
Amazônia.

Como ponto de partida para conhecermos sobre Residualidade:

A residualidade se caracteriza por aquilo que resta, que remanesce


de um tempo em outro, podendo significar a presença de atitudes
mentais arraigadas no passado próximo ou distante, e também diz
respeito aos resíduos indicadores de futuro. Este último é o caso de
artistas que, independente da estética à qual pertençam, incluem em
suas obras uma linguagem precursora, sendo por isso comumente
considerados artistas avant la lettre. Mas a residualidade não se
restringe ao fator tempo; abrange também a categoria espaço, que
nos possibilita identificar também a hibridação cultural no que toca a
30
crenças e costumes (PONTES, 2003, p. 88).

As palavras “restaram”, “heranças”, “permanece/permanente” nos fazem reconhecer como


elementos de algum passado, de algum processo de hibridação, foram essenciais para a
construção da complexidade amazônica.

A Residualidade, de Pontes, traz para a pesquisa a ruptura por um ponto de partida da


sociedade e cultura da Amazônia e promove o arcabouço teórico de análise dos aspectos que
remanescem de outros tempos e espaços, percebendo como a hibridação cultural ocorre
mediante apropriações de hábitos, costumes, mentalidades provenientes de outros grupos e
adaptados de acordo com as realidades das coletividades que destes se apropriam.

A produção literária amazônica fala sobre um lugar em que o homem se desenvolve


historicamente por meio de suas hibridações culturais. As heranças linguísticas, religiosas,
ideológicas permitem ao amazônida uma pluralidade de culturas entrelaçadas que não
esgotam o estudo pelo dinamismo existente entre os seus partícipes. Desta forma,
compreender esta multiculturalidade na produção literária requer uma linha de pesquisa que
compreenda o homem de acordo com a sua interação com o outro situado através de estudo
transdisciplinar, de sua capacidade de lidar com o ambiente e como todos estes aspectos o
individualizam dentro de uma perspectiva literária.

Nesse contexto, a apontamos também a Complexidade para a análise literária dessa Amazônia
concebida a partir de uma teia de interações que “[...] não compreende apenas quantidades
de unidades e interações que desafiam nossas possibilidades de cálculo: ela compreende
também incertezas, indeterminações, fenômenos aleatórios. A complexidade num certo
sentido sempre tem relação com o acaso (MORIN, 2015, p. 35). A Complexidade, de Morin,
propõe uma reformulação dos estudos científicos sobre o homem. A ciência tradicional de
busca por uma verdade, e por consequência um desvendamento do que se convenciona
chamar de real, promove uma busca por perceber como o ser humano se relaciona com o
ambiente, e que resultados estas interações promovem.

Referências:

BATISTA, Djalma. Amazônia – Cultura e Sociedade. 3ª ed. Manaus: Valer, 2006.

_______. O Complexo da Amazônia – Análise do processo de desenvolvimento. 2ª ed.


Manaus: Valer, Edua e Inpa, 2007.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 5ª ed. Porto Alegre: Sulina, 2015.

PONTES, Roberto. Poesia insubmissa afrobrasilusa. Rio de Janeiro: Oficina do autor; Fortaleza:
Edições UFC, 1999.

_______. Mentiras e verdades na peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Rev. de Letras,


Fortaleza, v. 25, n. 1/2, p. 36-39, jan./dez. 2003.

PROGRAMAÇÃO

31
17/07 (TARDE)

O RISO DO BOTO TUCUXI NA CARNAVÁLIA BRASÍLICA-AMAZONENSE DE MÁRCIO SOUZA

Antônio Coutinho Soares Filho

AMAZÔNIA COMPLEXA E RESIDUAL: LIÇÕES DE CÂMARA CASCUDO

Cássia Maria Bezerra do Nascimento

NARRADORES do Xingu: Memória e Identidade do povo Beradeiro do Médio Xingu

Fernanda Souza Pereria

DA MARGEM À PERIFERIA: A CENTRALIDADE DE ASPECTOS DA IDENTIDADE AMAZÔNICA NA


LITERATURA DE/EM RORAIMA A PARTIR DA OBRA DE NENÊ MACAGGI

Mirella Miranda De Brito Silva

POESIA RORAIMENSE E INTERTEXTUALIDADE: LEITURAS E DIÁLOGOS NO ENSINO MÉDIO

Suênia Kdidija de Araújo Feitosa

9 - AS LINGUAGENS TRANSCRIATIVAS: ESTUDO DE TEXTOS


INTERARTÍSTICOS SOB DIFERENTES OLHARES
Coordenação: Prof. Dr. Divino José Pinto (PUC – GO); Profa. Dra. Lacy Guaraciaba Machado
(PUC – GO); Profa. Dra. Márcia Rios da Silva (UNEB – BA)

Resumo: A pretensão central deste simpósio é a de continuar explorando a presença de


diálogos interartísticos numa perspectiva em interação com autor, leitor e obra de arte. Nesse
sentido, pensa-se que tanto o autor quanto o leitor apoiam-se no repertório cultural de que
são dotados e os movem durante o ato de leitura. Isso porque a obra de diferentes sistemas de
linguagem é instigadora de construção de redes de sentidos. Daí a relevância de se
intensificarem estudos que estabeleçam relação interartes constitutivas de território amplo e
espaço sedutor para novas perspectivas de análise e compreensão das artes em suas múltiplas
correspondências. As linguagens verbais e visuais incorporam signos distintos, autônomos e
complexos. Assim delimitado, este simpósio quer se constituir em mais uma provocação para
que se socializem investigações transcriativas e interartísticas relacionadas à produção e
recepção estética, mediante abordagens comparativas que promovam novos olhares sobre
combinações e processos de hibridação de linguagens criativas incluindo estudos sobre a
32
recepção da obra de arte e sua relação com espaços de leitura e ferramentas contemporâneas
adotadas para a produção, circulação e veiculação de textos artísticos.

Realizar estudos teóricos da linguagem literária na sua relação com outras linguagens
pressupõe estabelecer aproximações, contrapontos e distinções, para melhor compreender o
parentesco e a parentalidade de gêneros artísticos manifestados nessas linguagens. Daí a
relevância em explorar relações dialógicas entre Literatura e outras artes apreendidas como
fatores geradores de identidades em cada uma dessas formas artísticas, assumidas como fonte
criativa de acentuada produtividade nos dias atuais.

Alguns teóricos que subsidiam estudos dotados de propósitos como estes podem ser
representados por Haroldo de Campos, Júlio Plaza, Giorgio Agamben, Mario Bellatin, Walter
Benjamin, Theodor W. Adorno, Roland Barthes, Susan Buck-Morss, para quem “A coletividade
do século XX [...] constrói sua identidade na base da imagem ao invés da palavra” (BUCK-
MORSS, 2009, p. 28) e forma uma comunidade transnacional, embora o signo verbal continue
habitando os mais diferenciados espaços textuais verbais e não-verbais.

Nessa direção, pretende-se socializar, neste simpósio, estudos que tratem das relações entre
textos de diferentes sistemas de linguagem, averiguando, por exemplo, até que ponto os
aspectos relativos à continuidade/descontinuidade, à compleição formal das obras articulam-
se e podem ser entendidos como fenômenos inerentes à produção, à complexidade ou
simplificação estética e de como tudo isto proporciona relações de fruição artística e
“consumo”.

Palavras-Chave: Estudos comparados. Hibridação de linguagens criativas. Interartes.


Repertório cultural. Transcriação.

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Profanaciones. Trad. Flávia Costa e Edgardo Castro. Buenos Aires: Adriana
Hidalgo, 2005.

BARTHES, Roland. Realismo ¿mito, doctrina o tendencia histórica? Buenos Aires: Quadrata,
2004, p. 91-101.

BELLATIN, Mario. Jacobo el mutante. México DF: Alfaguara, 2001.

BELLATIN, Mario. El arte de enseñar a escribir. México: Fondo de Cultura Económica, 2006.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: _____. Magia e
técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo
Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985. v.1. (Obras escolhidas).

BUCK-MORSS, Susan. A tela do cinema como prótese de percepção. Florianópolis: Cultura e


Barbárie, 2009.

DIDI-HUBERMAN, G. O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Editora
34.1998,

GUIMARÃES, César. Imagens da memória. Entre o legível e o sensível. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 1997.

HORKHEIMEIR, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antonio


33
de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

PLAZA, Julio. Tradução e intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2013.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

APROXIMAÇÕES POSSÍVEIS ENTRE A TIRA E O POEMA A PARTIR DA LEITURA DE PEANUTS, DE


CHARLES SCHULZ

Renan Silva Duarte

O CONTO MISS BRILL, DE KATHERINE MANSFIELD - A PALAVRA ENQUANTO PINCEL

Aline Carrijo de Oliveira

LITERATURA DIGITAL: A HIPERTEXTUALIDADE ENQUANTO POÉTICA

Flávio Vilela Komatsu

ZAMA, ENCONTROS INTERTEXTUAIS ENTRE A LITERATURA, A IMAGEM E O CINEMA NO


AMBIENTE TROPICAL

Libia Castañeda

NAS TRILHAS DA MÚSICA PROGRESSIVA

Tamyris Gomes Araújo

16/07 (TARDE)

O PROCESSO SEMIÓTICO NO CONTO PENÉLOPY

Muniz Martins Lobo e Custódia Annunziata Spencieri de Oliveira

A PERSONAGEM NO CONTO COMO UM PROCESSO DE SEMIOSE

34
Allaidy da Silva Barbosa Gonçalves

TRADUÇÃO: FATORES SEMIÓTICOS E LINGUÍSTICOS NO PROCESSO DA COMUNICAÇÃO

Cristiano Gomes da Silva

“COMO VAI VOCÊ, GERAÇÃO 80?”: UMA LEITURA INTERARTÍSTICA DE JOÃO GILBERTO NOLL E
LEONILSON

Gabriela Fernandes de Carvalho

DA HISTÓRIA À LITERATURA: UMA ANÁLISE DE “APENAS UM VIOLÃO”, DE BERNARDO ÉLIS

Cassia Lemes Gondim

17/07 (MANHÃ)

O TRUQUE DO TRAÇO PRECISO: LAMPEJOS EM LUVAS DE PELICA DE ANA CRISTINA CESAR

Joyce Lopes das Dores Campos

A SOBREVIVÊNCIA DA NINFA

Juliana Andrade de Lacerda

A POETÍCA DE LÊDA SELMA EM ANÁLISE E A POÉTICA DE CECÍLIA MEIRELES

Livia Maria Borges Calassa

TREJEITOS DA REPRESENTAÇÃO OU SIMULAÇÃO E DISFARCE

Lacy Guaraciaba Machado

O FANTÁSTICO DISCURSO DE MARY POPPINS E LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS

Ludmila Martins Naves

35
17/07 (TARDE)

DOM CASMURRO: O PERSONAGEM QUE ESCREVE NA PÁGINA E NA TELA

Luiza Fontes Martins

SOB O SIGNO DE CAPITU: (DES)ACORDOS DE LINGUAGENS

Divino José Pinto

ABSURDO E EXISTÊNCIA EM ALBERT CAMUS EM CONFRONTO COM O CENÁRIO DE LEANDRO


GOMES DE BARROS

Mauricio Rosa Do Nascimento

A MECÂNICA DA LARANJA

Naya Fideles Freitas

18/07 (MANHÃ)

A FAZENDA MODERNISTA DE FERNANDO PIERUCCETTI

Marcelino Rodrigues da Silva

A ESPACIALIDADE COMO UNIDADE NARRATIVA EM A HORA DOS RUMINANTES, DE JOSÉ J.


VEIGA

Paula Apoliane de Padua Soares Carvalho

APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS EM A HORA DOS RUMINANTES E A REVOLUÇÃO DOS


BICHOS

Simone Maria de Almeida

A POÉTICA DE WALT WHITMAN E CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


36
Rosângela Soares de Almeida Ribeiro

10 - AS RELAÇÕES DA PSICANÁLISE COM A LITERATURA EM SUAS


ORIGENS FREUDIANAS E NOS DIAS ATUAIS
Coordenação: Prof. Dr. Pedro Heliodoro Tavares (UFSC); Prof. Dr. Tito Lívio Cruz Romão (UFC)

Resumo: Fortemente atrelada e nutrida pela Criação Literária, a Psicanálise surge na virada do
século XIX para o século XX, em um contexto de ebulição marcado por mudanças, inovações,
evoluções e modernizações – mas também por conflitos – nos mais diversos âmbitos da vida
humana. Por conseguinte, a Psicanálise teve em seu nascedouro a presença significativa da
Arte Literária. Tanto é assim que, em seu texto “Soll die Psychoanalyse an den Universitäten
gelehrt werden?” [“A Psicanálise deve ser ensinada nas universidades?”], após mostrar os
limites e incongruências no ensino da Psicanálise com o sistema acadêmico, Freud (1919)
afirma que, se a Psicanálise tivesse algum lugar em seu seio, seria numa assim chamada
“Universitas Literarum”. Diversos textos de Freud dão direta ou indiretamente testemunho de
o quanto o saber necessário à Psicanálise deve muito mais à Literatura do que à própria
Medicina, de onde partiu esse método clínico. Não à toa, talvez, Richard von Krafft-Ebing
(apud Gay, 1994), um dos grandes especialistas médicos contemporâneos de Sigmund Freud,
procurou destituir o valor das teorias psicanalíticas chamando-as de um “conto de fadas
[Märchen] científico”. Na verdade, o claro tom pejorativo presente nessa crítica ganha uma
conotação muito distinta em 1930, quando Freud é agraciado com o Prêmio Goethe – honraria
literária concedida em Frankfurt am Main desde o ano de 1927. Ressalte-se que o célebre
crítico literário suíço Walter Muschg (1930), que também era psicólogo e germanista,
enalteceu Freud em seu ensaio “Freud als Schrifsteller” [“Freud como Escritor”], no qual lemos
a emblemática afirmação de que Freud teria usurpado a palavra “sonho” do vocabulário
literário, trazendo-a para o meio científico. Muitos outros grandes autores literários
contemporâneos de Freud, tais como Thomas Mann, Hermann Hesse, Stefan Zweig, também
deram testemunho da profunda admiração que nutriam pela prosa freudiana e por sua
capacidade como escritor. Não à toa, os assim chamados casos clínicos de Freud, suas
“Krankengeschichten”, eram lidos por seus contemporâneos como verdadeiros romans-à-clef.
A título de ilustração, a influência de E. T. A. Hoffmann é indiscutível na elaboração da
categoria do Unheimlich (Freud, 1919a). É verdade que alguns dos intentos iniciais do médico
austríaco em aproximar sua invenção da Literatura o levaram ao questionável caminho das
psicanálises de autor, mas cabe aqui ressaltar as felizes colocações em seu texto “Der Dichter
und das Phantasieren” [“O poeta e o fantasiar”] (cf. Freud, [1908] 1982), no qual os autores
literários são enaltecidos como grandes colaboradores no desvendamento do psiquismo
humano. Destaque-se, portanto, a importância da(s) literatura(s) de que se serviu Freud, um
leitor voraz e eclético que soube recorrer ao psicologismo de autores como Shakespeare,
Goethe, Schiller, Dostoiévski, dentre outros, visando a construir suas teorias psicanalíticas,
como atestam Pontalis & Mango (2014) em sua obra sua Freud com os escritores, ou ainda
Rouanet (2003) com seu detalhado estudo intitulado Os dez amigos de Freud, dedicado a uma
dezena de autores de diferentes nacionalidades, todos da predileção do pai da Psicanálise.
Como resultado da revolução causada por Freud, a mesma Psicanálise que se deixou
influenciar pelo saber literário será também tema constantemente presente no universo da

37
Criação e da Crítica Literária desde aquela época até os dias atuais. Desse modo, também
havemos de observar que a convivência de Freud com alguns autores de sua época, como
ocorreu, por exemplo, com Arthur Schnitzler, revela uma possibilidade de influências
recíprocas. Por outro lado, no tocante à não convivência – apesar da contemporaneidade –
tomemos o exemplo de Franz Kafka, coetâneo de Freud, em cujos escritos, diários e coletâneas
epistolares não se encontram registros bastantes que mostrem uma influência de um sobre o
outro. De qualquer modo, o autor tcheco-judeo-alemão apresenta em suas obras fartos temas
mediante os quais se vislumbra como ele se aprofundava nos meandros da psique humana.
Voltando nosso olhar para o Brasil, observamos um profícuo e atualizado diálogo entre a
Literatura e a Psicanálise, enquanto em outros países outras interfaces com a Filosofia, a
Linguística ou até mesmo a Antropologia ou a Topologia tiveram maior repercussão. Nesta
perspectiva, em nosso simpósio serão bem-vindos trabalhos que preferencialmente (mas não
apenas): a) examinem as marcas do legado de Freud em obras literárias nacionais ou
estrangeiras; b) perscrutem a influência da Literatura (em particular ou de modo geral) na obra
de Freud; c) verifiquem e comentem criticamente o processo de tradução de obras de Freud
em que as marcas literárias por ele colocadas funcionem como chave para a compreensão de
contextos psicanalíticos; d) abordem obras literárias brasileiras ou estrangeiras criadas sob a
ótica da Psicanálise; e) analisem e comentem obras de autores brasileiros ou estrangeiros cuja
compreensão pode ser facilitada mediante a perspectiva psicanalítica; f) apontem e comentem
citações literárias indiretas – ou seja, originalmente sem indicação de fontes – feitas por Freud
em seus escritos; f) examinem, em traduções brasileiras, a problemática da escrita freudiana
entre cientificismo e literariedade.

Referências:

GAY, Peter. Sigmund Freud – uma vida para nosso tempo. Trad. Denise Bottman. São Paulo:
Cia. das Letras, 1994.

FREUD, Sigmund. Das Unheimliche. In: Gesammelte Werke – chronologisch geordnet.


Frankfurt a M. Fischer Taschenbuch Verlag, [1919a] 1999.

FREUD, Sigmund. Der Dichter und das Phantasieren. In: Freud, S. Bildende Kunst und Literatur.
Studienausgabe Band X Frankfurt am M. Fischer Taschenbuch Verlag, 1982.

FREUD, Sigmund. Soll die Psychoanalyse an der Universität gelehrt werden? In: Gesammelte
Werke – chronologisch geordnet. Frankfurt am M. Fischer Taschenbuch Verlag, [1919] 1999.

MUSCHG, Walter. Freud als Schriftsteller. Munique: Kindler Verlag, [1930] 1975.

PONTALIS; Jean-Bertrand. MANGO, Edmundo Gómez. Freud com os escritores. São Paulo: Três
Estrelas, 2014.

ROUANET, Sergio Paulo. Os dez amigos de Freud. Vol. 1 e 2. São Paulo: Companhia das Letras,
2003.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

38
RAÍZES LITERÁRIAS DO PENSAMENTO FREUDIANO: A FICÇÃO A SERVIÇO DE UMA VERDADE

Pedro Heliodoro Tavares

O CARÁTER UNHEIMLICH DA ESCRITA RUBIANA

Mariana Silva Franzim

“RÉQUIEM PARA UM SOLITÁRIO”: MIGRAÇÕES, MELANCOLIA, EXÍLIO DE SI, ATOPIA

Carlos Augusto Magalhães

16/07 (TARDE)

CITAÇÕES, REFERÊNCIAS E ALUSÕES A OBRAS LITERÁRIAS EM CINCO HISTÓRIAS CLÍNICAS:


SIGMUND FREUD E SUA BIBLIOTECA DE BABEL DAS LITERATURAS

Tito Lívio Cruz Romão

OU SEJA, ARA: UMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA

Joyce Bacelar Oliveira

QUANDO O ESPÍRITO ULTRAPASSA A CARNE: A INFINDÁVEL E CEGA BELEZA DA PRIMAVERA

Lucas Leite Borba

AS PULSÕES CONTORNANDO O AMOR, DE CLARICE LISPECTOR

Autor: Luciana Braga

39
11 - AUTORITARISMO, TERROR DE ESTADO E TESTEMUNHO: UM NOVO
CICLO DE MEMÓRIA CULTURAL
Coordenação: Prof. Dr. Fabio Weintraub (Universidade Federal de São Carlos); Prof. Dr.
Antonio de Padua Fernandes Bueno (Universidade Estadual de Campinas); Prof. Dr. Paulo
Roberto de Souza Dutra (Stephen F Austin State University – Estados Unidos da América)

Resumo: Depois da redemocratização nos anos 1980, os temas da ditadura e do terror de


Estado foram relativamente abandonados pela literatura brasileira, que, no entanto, apesar da
censura existente, havia logrado tematizar a repressão política e o autoritarismo desde os anos
1960. Tais temas voltaram no século XXI, muitas vezes em decorrência da reflexão provocada
por ações de movimentos sociais (como a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos
Políticos) que cobram a justiça e a reparação não realizadas na transição política para a
democracia (a chamada justiça de transição). Como as reparações às vítimas começaram
tardiamente e ainda não foram consumadas, e as punições aos agentes da repressão política
nunca ocorreram no Brasil, a mobilização social se mantém neste século, quando surgem
obras que lidam com o passado recente de forma bem diversa daquela da literatura produzida
durante o período ditatorial.

Trata-se de um novo ciclo de memória cultural, identificado por Rebecca J. Atencio


(especialmente no seu livro “Memory’s Turn: Reckoning with Dictatorship in Brasil”), entre
outros autores. Esse ciclo pode ser reconhecido no cinema, na televisão e também na
literatura no Brasil. Livros sobre anistiados (como "Prova contrária", de Fernando Bonassi, de
2003), desaparecidos (como "Aleijão", de Eduardo Sterzi, de 2009, e "K. - Relato de uma
Busca", de Bernardo Kucinski, de 2011), sobre infiltrados (como "Cabo de guerra", de Ivone
Benedetti, de 2016), torturadores e outros agentes da repressão (como os romances “Aqui, no
coração do inferno”, “O peso do coração de um homem” e “O amor, esse obstáculo”, da
"Trilogia infernal", de Micheliny Verunschk, publicada de 2016 a 2018) entraram em voga. A
Comissão Nacional da Verdade, instaurada em 2012, prevista pela Lei nº 12.528, de 18 de
novembro de 2011, depois de muita mobilização nacional e discussão pública, esteve entre os
fatores que fomentaram esse debate de que várias obras literárias participaram.

Nestes tempos atuais, de negacionismo histórico em relação ao passado recente e aos crimes
da ditadura, bem como de recrudescimento autoritário,  espera-se debater neste simpósio não
apenas essas obras, mas também a literatura de outros países que tenham passado por
dificuldades na transição política e na superação do passado autoritário, como, por exemplo, a
produção literária dos H.I.J.O.S. (Hijos e Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el
Silencio, organização argentina que congrega os descendentes dos mortos e desaparecidos
pelo terror de Estado) na Argentina.

O tema também suscita questões relativas à literatura de testemunho, como já salientou


Márcio Seligmann-Silva no tocante ao caso do Brasil. Esse tipo de literatura nasceu na Primeira
Guerra Mundial diante das graves violações de direitos humanos no conflito, e, como faz notar
Philippe Mesnard, confronta-se com a mentira oficial, estreitamente ligada à violência. A
literatura de testemunho pode ser verificada também nos chamados crimes da democracia,
que mantêm continuidade com as graves violações de direitos humanos da ditadura. Na
América Latina, configuram-se obras que trabalham com a questão dessas continuidades,
como a do poeta argentino Julián Axat, que, ao tratar dos desaparecidos da ditadura, ou nas
vítimas da democracia, entende o trabalho poético como um diálogo com as vozes dos mortos

40
pela “violência institucional”. No Brasil, trata-se principalmente da tortura e dos
desaparecimentos forçados, bem como do genocídio indígena e do genocídio da juventude
negra e periférica, que vêm suscitando uma forte produção literária, inclusive nas chamadas
literaturas periféricas.

Palavras-chave: Ditadura, Literatura de testemunho, Memória cultural.

Referências:

ATENCIO, Rebecca J. Memory’s Turn: Reckoning with dictatorship in Brazil. Madison: The
University of Wisconsin Press, 2014.

AXAT, Julián; REATI, Fernando. La poesía es un diálogo con los muertos… Entrevista a Julián
Axat. Avatares del Testimonio en América Latina. Kamchatka, núm. 6, 2015, p. 865-877.

BENEDETTI, Ivone. Cabo de guerra. São Paulo: Boitempo, 2016

BONASSI, Fernando. Prova contrária. São Paulo: Objetiva, 2003.

KUCINSKI, Bernardo. K. - Relato de uma Busca. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

MESNARD, Philippe. Témoignage em résistance. Paris: Éditions Stock, 2007.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Literatura como testemunho da ditadura. A Ditadura militar


brasileira em dois romances: Bernardo Kucinski e Urariano Mota. In: Introdução Crítica à
Justiça de Transição na América Latina. Série O Direito Achado na Rua, vol. 7. Brasília: UnB,
2015, pp. 164-168.

STERZI, Eduardo. Aleijão. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009.

VERUNSCHK, Micheliny. Aqui, no coração do inferno. São Paulo: Patuá, 2016.

VERUNSCHK, Micheliny. O peso do coração de um homem. São Paulo: Patuá, 2017.

VERUNSCHK, Micheliny. O amor, esse obstáculo. São Paulo: Patuá, 2018.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

REFLEXÕES ACERCA DE DOIS POEMAS DE ANNA AKHMÁTOVA E SOPHIA DE MELLO BREYNER


ANDRESEN

Pauliany Carla Martins

VOZES DA MEMÓRIA: A NOVA LITERATURA E A NOVA HISTÓRIA DE SVETLANA ALEKSIÉVITCH

41
Júlia de Campos Lucena

TESTEMUNHOS DO UNIVERSO CONCENTRACIONÁRIO EM JORGE SEMPRÚN E ALEKSANDR


SOLZHENITSIN

João Philippe Lima

FÁBULAS DE ESTADOS AUTORITÁRIOS EM PROCESSO DE DECANTAÇÃO

Danielle Ferreira Costa

HUMOR E PÓS-MEMÓRIA: O DESMONTE DO TESTEMUNHO CANÔNICO NA ARGENTINA DOS


ANOS 2000

Izabel Fontes

16/07 (TARDE)

CAMPI EM CONFINAMENTO: HATOUM, BOLAÑO E AS INVASÕES DE UNIVERSIDADES PÚBLICAS


POR REGIMES AUTORITÁRIOS

José Roberto Araújo de Godoy

EM BUSCA DO PASSADO: MEMÓRIA E DITADURA EM ADRIANA LISBOA E MARÍA TERESA


ANDRUETTO

Renata Rocha Ribeiro

“TESTIMONIO”: HISTÓRICO DO GÊNERO NA AMÉRICA LATINA

Roberta Cristina de Oliveira Saçço

DIREITOS HUMANOS "PRA" QUÊ? MEMÓRIAS DA VIOLÊNCIA EM "AINDA ESTOU AQUI", DE


MARCELO RUBENS PAIVA E "CARNE DE PERRA", DE FÁTIMA SIME

Yvonelio Nery Ferreira

42
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: FAZENDEIRO DO AR DECADENTE OU SOBREVIVENTE NO
INFERNO?

Fátima Ghazzaoui

17/07 (MANHÃ)

NARRATIVAS AO REDOR DO PASSADO: INTERSEÇÕES ENTRE NO INTENSO AGORA E HISTÓRIA


NATURAL DA DITADURA

Gabriel Fernandes de Miranda

SILENCIOSA VIOLÊNCIA EM "NÃO FALEI", DE BEATRIZ BRACHER

Gabriella Kelmer de Menezes Silva

AINDA ESTOU AQUI: ANARQUIVAMENTO E MEMÓRIA DA DITADURA BRASILEIRA

Liniane Haag Brum

DITADURA MILITAR: MEMÓRIA E HISTÓRIA

Cleia da Rocha

A precarização da memória na obra de Bernardo Kucinski

Berttoni Licarião

17/07 (TARDE)

A DITADURA BRASILEIRA SOB A ÓTICA DOS FILHOS: PÓS-MEMÓRIA EM JULIÁN FUKS

João Pedro Coleta da Silva

FILIAÇÃO & DISSIDÊNCIA - REVISITANDO O BAÚ FAMILIAR

43
Carlos Eduardo Bione Sidronio de Lima

VOLTO SEMANA QUE VEM": A INSISTÊNCIA DO DESEJO DE VIDA NO NOVO CICLO DE MEMÓRIA
CULTURAL BRASILEIRA

Luciana Paiva Coronel

VIOLÊNCIA E MEMÓRIA EM "A MANCHA", DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO: O SOBREVIVENTE E


AS MARCAS DA DITADURA

Vanderléia de Andrade Haiski e Lizandro Carlos Calegari

TORTURA E METALINGUAGEM: SOBRE A POESIA RECENTE DE PAULO FERRAZ

Fabio Weintraub

A DITADURA MILITAR BRASILEIRA, MIGRAÇÕES E JUSTIÇA NA OBRA DE ADRIANA LISBOA,


BERNARDO KUCINSKI E MICHELINY VERUNSCHK

Antonio de Padua Fernandes Bueno

13 - CÂNONE E VISIBILIDADE: O QUE PRECISA SER (RE)VISTO NA


LITERATURA?
Coordenação: Prof.ª Fabiana Bazilio Farias (UNIGRANRIO); Prof.ª Juliana Carvalho de Araújo de
Barros (UNIP- Brasília); Prof.ª Luciana Barbosa Reis (IFRJ)

Resumo: A palavra “cânone” vem da do grego kanón que faz referência a uma espécie de vara
que servia como unidade de medida. Logo, quando falamos de cânone na literatura estamos
nos referindo a um grupo de obras que são valorizadas de acordo com parâmetros pré-
estabelecidos. Conhecemos os livros que fazem parte do cânone como “clássicos”, livros que
não devemos deixar de ler para entender a História da Literatura do nosso país. É o que se
afirma.

Um livro para ser visto como clássico precisa ter um valor estabelecido por um grupo que não
está isento das influências sociais, estéticas, ideológicas, etc. Roberto Reis (2005) afirma que “a
literatura tem sido uma das grandes instituições de reforço de fronteiras culturais e barreiras
sociais, estabelecendo privilégios e recalques no interior da sociedade”.

44
A literatura, portanto, tem sido um ambiente de disputa de diferentes grupos sociais que
buscam a voz em primeira pessoa que durante muito tempo foi mediada por outras falas
distantes de sua realidade. São vozes que interferem no status quo e causam atravessamentos
que têm levado os estudos críticos a repensarem continuamente, ao longo do tempo, os
espaços e as trajetórias canônicas da literatura.

Para citar um exemplo, durante um longo período, as escritoras brasileiras permaneceram, em


sua maioria, na invisibilidade, ausentes da historiografia literária e raramente citadas pela
crítica, além de terem seus nomes apagados das premiações literárias. No que se refere
especificamente à exclusão de textos escritos por mulheres e sua sub-representação em textos
considerados canônicos, as justificativas iam do baixo número de escritoras em relação aos
homens à, até mesmo, baixa qualidade atribuída aos seus textos. Só mais ao final do século XX,
graças ao trabalho das pesquisas acadêmicas e de alguns institutos culturais, foi possível o
contato com obras que revelam a intensa participação feminina nas letras nacionais dos
séculos passados, seja na prosa, na crônica ou na poesia.

Se a mulher tiver experiências resultantes de uma vida de escolhas próprias, não da reclusão
ou repressão, mas que desconstruam o estereótipo criado para ela, o cânone da literatura e a
produção de mulheres se modificará consideravelmente. De acordo com Reich, para se obter
a mudança, seria necessário adotar um comportamento libertário, pois o verdadeiro prazer
não pode conviver com a opressão. A massa controlada pelo sistema, dominada, domada, é
condenada a insignificância, e, assim, privada de atingir graus de consciência mais autônomos.
Ela é podada e impotente, e é essa impotência de pensamento criativo e crítico a preconceitos
que caracteriza o homem comum. Isso se dá porque o sistema, através de seu mecanismo de
controle defendeu-se previamente contra qualquer tentativa de subversão às regras em voga,
e somente, através da libertação, o indivíduo poderá se tornar um ser íntegro e crítico – “Um
homem não é estúpido ou inteligente: ele é livre ou não é”, denunciavam os muros parisienses
dos anos 70. Ao se adotar um olhar libertário sobre si mesmo e seu lugar no mundo,
desestabiliza-se a estruturas engessadas do cânone literário e revisa-se as posturas e os
critérios adotados pela historiografia literária. Percebemos, assim, que há uma herança
cultural que endossa e estimula uma seleção de autores pela maior aderência à ideologia e aos
valores reinantes.

O Cânone, a partir de sua relação de poder, reforça a dominação eurocêntrica que pode ser
vista na sua própria alcunha: “Cânone Ocidental”. Por Ocidente, inferimos uma série de
exclusões que estão fora do seu campo semântico como o “oriental”, o “africano”, o indígena,
etc. Dessa maneira, o cânone ocidental também estabelece um padrão para a literatura que
estará ligada às classes dominantes que reafirmam os jogos políticos e sociais de poder do
ocidente.

Este simpósio não pretende valorar a obra de acordo com seu comprometimento com as
pautas de lutas sociais, mas, sim, expor criticamente a conjuntura de sua produção. O
simpósio, dessa forma, se interessa por trabalhos que se voltem para discussões de questões
relacionadas a revisão do cânone a partir do resgate de autores em seus diferentes gêneros
literários dentro de uma perspectiva histórica e de análise crítica.

Referências:

BONNICI, T. Teoria e crítica literária feminista: conceitos e tendências. Maringá: EDUEM,


2007.

45
CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 3ed. Rio de
Janeiro: Ouro sobre Azul, 2001.

GOLDMANN, L. As interdependências entre a sociedade industrial e as novas formas de


criação literária. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala?. Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2017.

REIS, Roberto. Cânon. In: JOBIM, José Luiz. Org. Palavras da crítica: uma introdução. Trad.
Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

CÂNONE, POLÍTICA DE MEMÓRIA E MARGINALIDADE: CONSIDERAÇÕES SOBRE A


INVISIBILIDADE DA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA

Denise Almeida Silva

OS NOVOS MARGINAIS: POESIA E SLAM NO RIO DE JANEIRO

Fabiana Bazilio Farias

DO FRAGMENTO À UNIDADE: POR UM NOVO MOVIMENTO DE LEITURA E CRÍTICA DE


“QUARTO DE DESPEJO”

Maurício Gabriel dos Santos Nascimento

16/07 (TARDE)

IRMÃOS CAMPOS E A RECUPERAÇÃO DE SOUSÂNDRADE: O CÂNONE EM MOVIMENTO

Eliana Xavier Costa

O GÊNERO E O CÂNONE LITERÁRIO – UMA RELAÇÃO DE PODER

Luciana Cascardo Ramos

46
Necessidade De Novos Estatutos Da Crítica: Pauliceia De Mil Dentes E Multidão

Silvanna Kelly Gomes de Oliveira

Reinaldo Moraes e Charles Bukowski – Diálogos decadentes e pornográficos à margem do


Cânone

Leandro Dias Carneiro Rodrigues

17/07 (MANHÃ)

OLÍVIO JEKUPÉ E A AUTORIA INDÍGENA

Thays Xavier Campos de Miranda

LITERATURA DE CORDEL: POÉTICAS DA MOVÊNCIA POR ENTRE AS RASURAS DO CÂNONE

Fernanda Santos de Oliveira

A DIMENSÃO ESTÉTICA EM MANIFESTAÇÕES POÉTICAS CONTEMPORÂNEAS DE POESIA


FALADA

Luciana Barbosa Reis

17/07 (TARDE)

ABRE A BOCA, DEUSA: O TRANSBORDAMENTO DOS ESTADOS PULSIONAIS INCONTORNÁVEIS


EM ANGELA MELIM E LAURA ERBER

Juliana Carvalho de Araujo de Barros

ESCRITORAS BRASILEIRAS E O PROCESSO DE RESGATE DE SUAS OBRAS

Renato Kerly Marques Silva

ENTRE O SIMBOLISMO E O MODERNISMO: A POÉTICA DE AGENOR BARBOSA


47
Nelise Pereira da Silva Pacheco

14 - CENOGRAFIAS DA VOZ, ONTOGRAFIAS DO SENTIDO: CORPO E


ENUNCIAÇÃO, HISTORICIDADE E ONTOLOGIA
Coordenação: Roberto Zular (USP); Lucius Provase (UFPR); Fábio Roberto Lucas (UFPR)

Resumo: Pensar a experiência literária ligada à enunciação e à voz nos coloca diante de um
desafio que articula e transforma os campos de investigação relativos ao corpo, à historicidade
e à própria ontologia. Afinal, a performance de uma enunciação, sobretudo a literária,
desdobra o encontro dos corpos, afetos, contextos e temporalidades heterogêneas dos modos
de inscrição e de leitura, correlacionando os diferentes materiais, linguagens e mundos que ela
mobiliza e que a mobilizam.

Quando transitamos entre as marcas linguísticas e os corpos que as atravessam, não se trata
mais de perscrutar a relação entre o dado e o construído, mas de habitar os limiares entre eles
– como entre a voz e a escuta – e as formas de vida que performam. Entramos assim em um
fluxo de re-enunciações – de onde deriva a noção de historicidade radical (Meschonnic) – que
coloca em questão não apenas os modos como lemos, mas a própria ontologia da escrita e da
leitura, abrindo um campo de investigações daquilo que chamaremos de ontografias do
sentido. Como na multiplicidade de sentidos do sentido (direção, afeto, mundo sensível e
práticas de significação), a legibilidade do mundo se confunde com os modos de existência, a
literatura toca a antropologia, a historicidade dessa experiência (que produz sentidos
múltiplos) se faz na e pela composição de mundos.

A partir dessa radicalização da historicidade e suas temporalidades heterogêneas que se


projetam em vários níveis e escalas, o que se coloca em jogo é não apenas evitar discursos que
opõem extensivamente agência e contexto, natureza e cultura, animalidade e humanidade
etc., mas habitar os espaços de co-incidência dessas relações (Zular), os limiares, as
modulações, as acoplagens, as formas singulares de suas atualizações enunciativas.

Passa por aqui uma imbricação em diversos sentidos do aparelho formal da enunciação
(Benveniste), das heterogeneidades enunciativas (Authier-revuz), do caráter performativo da
linguagem (Austin), da vocalidade (Zumthor), do oral e do ritmo (Meschonnic), da
equivocidade ontológica do signo e sua vida enigmática (Maniglier). Em todos eles, em
diferentes graus e modos, somos levados a uma experiência da enunciação como contra dicção
(Lucas) entre o discurso e sua dicção, na qual os pontos de vista e as posições enunciativas (de
personagens, narradores, leitores etc.) estão sempre em descompasso, em variação no corpo-
a-corpo da enunciação, do leitor e dos seres de ficção, que se obliquam e se alterocupam em
seus posicionamentos múltiplos e diferidos (Nodari).

Com isso, torna-se necessário também repensar os modos de acoplagens entre o corpo e a
experiência literária. Nessa região ontológica equívoca, a posição-sujeito da enunciação se
torna uma expeausition, uma vibração de um ato de pele, para falar com Jean-Luc Nancy, ou
um nó rítmico (Meschonnic), ou ainda o lugar paradoxal da voz (Lacan, Mladen Dolar). Longe
de ser a exposição da intimidade de um si autoidêntico e de seus afetos previamente

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constituídos, como em um reality show ao melhor estilo Marie Kondo, experimentamos
ontologias variáveis que percorrem diferentes circuitos de sentidos e afecções (como a voz e o
olhar), e os acoplam uns aos outros, reinventando as forças e formas de relação entre eles,
bem como entre sensações corporais e as materialidades (da fala aos recursos digitais)
acoplados à performance. Voltamos aqui à modulação entre escalas e grandezas heterogêneas
de fluxos de matéria, energia, tempo e espaço, constituindo corporalidades heterotópicas
(Cesarino) ou pós-orgânicas (Haraway).

As variações e equivocações ontológicas do ato enunciativo, especialmente o literário, bem


como as acoplagens entre corpos e linguagens ali mobilizadas se dão no encontro das
temporalidades heterogêneas da escrita e da leitura. Donde a retomada da questão da
historicidade da experiência literária, de sua dimensão histórica, não como controle
teleológico do possível, mas como variações ontológicas, como campo de reverberação do
sentido no qual regimes heterogêneos de relação com tempo (regimes de historicidade) são
problematizados. Afinal, a perda do lastro discursivo que se intensificou a partir dos anos 1970
(Provase) produziu uma disputa sobre sentidos, borrando as separações entre os campos
discursivos (direito, propaganda, ciências humanas, literatura etc.), que passaram a produzir
ficções e a utilizá-las politicamente. Se a resposta a esse estado de coisas, como à
multiplicidade do signo, seu valor variável e seu sentido contextual, tem sido cínica (como um
espaço anestesiado de reenvios que parecem acionar, mas, de fato, neutralizam as
reconfigurações do sensível e as equivocidades enunciativas, tal como o conceito de “pós-
verdade”), a proposta deste simpósio é radicalizar a sobredeterminação entre as séries (mais
uma vez Maniglier), produzir conexões parciais e acoplagens que potencializem as implicações
éticas e políticas da voz como ponto pivotante em que se articulam à enunciação literária as
diferentes historicidades (ou mesmo regimes de historicidade), corpos (ou regimes de
corporalidade), materialidades, afetos, sentidos, regimes de imaginação e ontologias.O
simpósio se abre assim às múltiplas questões oriundas da ecologia conceitual aqui exposta.

Palavras-chave: Voz; Corpo; Historicidade; Ontologia

Referências:

Authier-Revuz, J (1984). “Hétérogénéité(s) énonciative(s)" in: Langages, 19, 73, p. 98-111.


Benveniste, E (1974a). Problèmes de linguistique générale vol. I. Paris: Gallimard.
_______________ (1974b). Problèmes de linguistique générale vol. II. Paris: Gallimard.

Cesarino, P. N. (2016). “Corporalidades heterotópicas: montagens e desmontagens do humano


nos mundos ameríndios e além“ in: Revista Brasileira de Psicanálise, volume 50, n.2, p. 157-
175.

Dolar, Mladen (2006). A voice and nothing more. Cambridge: MIT press.
________________ (2012). "O objeto voz” (tradução de Clóvis Salgado Gontijo Oliveiro) in:
Prometeus, 5, número 10, p. 167-192.
Haraway, D. (2000). “Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do
século XX”. In T. Tadeu (Org.), Antropologia do ciborgue (T. Tadeu, Trad., pp. 33-118). Belo
Horizonte: Autêntica.
Lacan, J (2004). Seminaire X – L’Angoisse. Paris: Seuil.

________ (1994). Seminaire IV – La relation d’objet. Paris: Seuil.


49
Lucas, F. R. (2018). O poético e o político: últimas palavras de Paul Valéry. Tese de Doutorado
apresentada ao Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de
São Paulo.

Maniglier, P (2006). La vie énigmatique des signes, Saussurre et la naissance du structralisme.


Paris: Léo Scheer.

Meschonnic, H (2102). Langage, Histoire Une meme théorie. Paris: Verdier.

_______________ (1982). Critique du rythme. Paris: Verdier.

_______________(1995). Politique du rythme. Paris: Verdier.

Nancy, J-L (1982). Le partage des voix. Paris: Galilée.

___________ (2002). À l’écoute. Paris: Galilée.

Provase, L (2016). Lastro, rastro e historicidades distorcidas: uma leitura dos anos 70 a partir
de Galáxias. Tese de Doutorado apresentada ao Departamento de Teoria Literária e Literatura
Comparada da Universidade de São Paulo, 2016.

Zular, R (2012). As algaravias de Waly Salomão. Revista Teresa (USP) , v. 1, p. 143.

___________ (2014). “Luto, Antropofagia e a Comunidade como dissenso”. In: Penna, João
Camillo; Dias, Ângela. (Org.). Comunidades sem fim. [Link]: Rio de Janeiro, v. 1.

Zular, R. & Lucas, F (2016). “Desencontrários – ecos de Leminski”. In: Malufe, Annita Costa;
Junqueira, Maria Aparecida (orgs). Poesia: entre-lugares. São Paulo: Dobradura Universitário,
p. 41-81.

Zumthor, P (2007). Performance, recepção, leitura. São Paulo: CosacNaify.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

Mesa 1 - Tradução e ritmo: ecos da enunciação

A TRADUÇÃO COMO TRÉGUA: ECOS E RASTROS DE MARIANNE MOORE NA OBRA POÉTICA DE


MIRTA ROSENBERG

Sheyla Maria Valente de Miranda

A UNICIDADE VOCÁLICA EM "MOBILE", DE MICHEL BUTOR

Amayi Luiza Soares Koyano

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A ESCRITA COMO PERFORMANCE E A TRADUÇÃO COMO CONTRAPONTO

Maíra Mendes Galvão

16/07 (TARDE)

Mesa 2 - Potência enunciativa e o corpo na voz

VOZ, POTêNCIA E CORPO RESSONANTE

Maria Rosa Duarte de Oliveira

A DEUSA, O CAVALO: VARIAÇÕES ENTRE VOZ E SIGNO COM NUNO RAMOS

André Barbugiani Goldfeder

A VOZ DOS TRABALHADORES DA CASA DE FARINHA EM "NOTAS SOBRE UMA POSSÍVEL A CASA
DE FARINHA", DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Gislaine Goulart dos Santos

17/07 (MANHÃ)

Mesa 3 - Perspectivismo, política e literatura

A REDE NA PERSPECTIVA DO PEIXE: LITERATURA E PERSPECTIVISMO AMERINDIO

Marilia Librandi Rocha

POLÍTICA E ONTOLOGIA NA HISTORICIDADE DOS FLUXOS EM DAVI KOPENAWA E GUIMARÃES


ROSA

Roberto Zular

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17/07 (TARDE)

Mesa 4 - Meios e modos da enunciação

UMA ANALOGIA ENTRE O LIVRO E O TIMBRE

Eduardo Francisco Junior

VINTE E DOIS SEGUNDOS DAS HISTÓRIA(S) DO CINEMA

Mario Augusto Predrozo Sagayama

18/07 (MANHÃ)

Mesa 5 - Regimes de enunciação, regimes de imaginação

"O FIO DA MEADA - UMA CONVERSA": FILOSOFIA, LITERATURA E INSTITUIÇÃO

METAMORFOSE E METAFÍSICA N’A PAIXÃO SEGUNDO G.H

Mateus Toledo Gonçalves

18/07 (TARDE)

Mesa 6 - Contradicções: perda do lastro, modulação e gesto

A PERDA DOS LASTROS – ENTRE A ECONOMIA E O TEXTO LITERÁRIO

Lucius Provase

DA CONTRADICÇÃO ÀS MODULAÇÕES: REVISITANDO A AUTOIRONIA POÉTICA DOS ANOS 1980

Fabio Roberto Lucas

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BARTLEBY DO BRASIL: O GESTO INTERROMPIDO NA POESIA DE PAULO HENRIQUES BRITTO

Fernando Mendonça Serafim

19/07 (MANHÃ)

Mesa 7- Cartografias transpoéticas do perspectivismo

TRANSPRESENTAÇÃO, TRANSREFERENCIALIDADE E TRANSPOSICIONALIDADE: ELEMENTOS


PARA UMA “PRAGMÁTICA PERSPECTIVISTA”

Alexandre André Nodari

POÉTICA INDÍGENA COMO RESISTÊNCIA: POR UMA ABERTURA NA LITERATURA BRASILEIRA


CONTEMPORÂNEA

Ana Carolina Cernicchiaro

AS CARTOGRAFIAS ILIMITADAS DE WILSON BUENO: O QUE PODE ESTE CORPO ANIMAL?

Guilherme Conde Moura Pereira

19/07 (TARDE)

Mesa 8 - As enunciações múltiplas do feminismo

PAISAGENS IMEDIATAS: FRONTEIRAS E FERIDAS EM CAROLINA MARIA DE JESUS

Mariana Patrício Fernandes

IMAGINAÇÃO FEMININA EM CIRANDA DE PEDRA E LES MANDARINS

Larissa Carolina de Andrade

SUBLIME RELICÁRIO: O CORPO NA OBRA DE TERESA DE JESÚS

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Amanda Luiza da Silva

15 - CIRCULAÇÃO DE IDEIAS E DIÁLOGO DE CULTURAS, NA


LITERATURA COMPARADA
Coordenação: Maria Elizabeth Chaves de Mello (UFF); Simone Maria Bacellar Moreira (UERJ)

Resumo: A circulação de ideias e cruzamento de olhares entre os povos, na literatura e outras


artes, é o tema de interesse deste simpósio. Em uma proposta de reflexão sobre este
cruzamento de olhares , é impossível deixar de lado a assimilação das ideias europeias que foi
ocorrendo ao longo de nossa história.

Se o século XIX marca o início propriamente dito da luta pela formação de uma realidade
nacional, não podemos desprezar toda a produção artística anterior, que contribuiu para a
formação do que definimos como “ser brasileiro”. A Europa, à medida que amplia suas
conquistas, traz com ela sua arte e seu comércio, participando, assim, dessa definição, apesar
da evidente limitação em sua forma de ver o mundo.

A literatura participa desse projeto de construção nacional, trabalhando de várias maneiras


para formar o cidadão, detectando a ‘brasilidade’ nas obras estudadas, bem como
conscientizando o público da circulação de ideias nas obras. As teorias da época, que nos
chegam através de autores, pensadores e viajantes europeus, lidos com avidez pelo pequeno
público leitor do Brasil, sobretudo oitocentista, participam intensamente desse processo.

E nesse diálogo com as ideias advindas da Europa, o imaginário tem um papel preponderante,
responsável pela formação de conceitos e crenças que são incorporados em muitos
movimentos que se desenvolvem no Brasil, não deixando imune o sistema literário brasileiro.
Alternando entre a ficção e o contexto sócio-histórico, a literatura brasileira vai se constituindo
e encontrando o seu lugar na sociedade.

Hoje, as correntes literárias europeias da pós-modernidade continuam circulando no


pensamento brasileiro, resultando em obras literárias bem diversas, de autores que
compartilham as propostas nelas contidas. Porém, com as questões identitárias não sendo
mais o tema central da literatura, as obras literárias não conseguem atingir um público
significativo; escritores e críticos nacionais, diferentemente daqueles dos oitocentos, não
ocupam uma posição atuante na sociedade brasileira, ficando eles restritos ao espaço
acadêmico. Sobretudo o crítico, um isolado, alguém que não tem público e cujo êxito depende
principalmente da sua retórica. Sem ambiente intelectual, ele se torna um juiz autoritário,
vendo sempre um adversário em quem diverge de suas ideias. Ou, o que é mais grave, sem
público leitor.

No intuito de provocar uma reflexão sobre os estudos literários e culturais no Brasil de hoje,
este simpósio busca respostas a algumas perguntas que consideramos essenciais neste
processo: Como entendemos a literatura, hoje, com novos suportes e abordagens de escrita e
de leitura? Em um mundo em que a circulação de ideias e a troca de influências são facilitadas
pela tecnologia, em que tempo e distância estão reduzidos, ainda podemos falar em literaturas

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nacionais, mais precisamente em literatura brasileira? Qual a função do estudo de literatura,
hoje, na escola e na universidade? Considerando as nossas experiências literárias do passado,
como fazer face às textualidades contemporâneas, no diálogo com as literaturas e teorias
europeias? Como formar novos leitores?

Não pretendemos fornecer respostas; mas enfrentá-las pode nos proporcionar alguns
avanços, pois, o que nos impressiona na circulação das ideias europeias no Brasil, ainda hoje,
é a famosa questão da ‘pedagogia’: em termos de colonização, em termos de crítica, em
termos de história. Nós, do lado de cá do Atlântico, estaríamos ainda ‘aprendendo’,
assimilando, introjetando? Mais uma questão sobre a qual precisamos refletir.

Palavras-chave: circulação de ideias, cruzamento de olhares, literatura e leitura.

PROGRAMAÇÃO

17/07 (MANHÃ)

O CONTO “NEGRINHA”: UM OLHAR SOBRE A SOCIEDADE BRASILEIRA

Simone Maria Bacellar Moreira

A PICARDIA DE VASCO MOSCOSO DE ARAGÃO, EM OS VELHOS MARINHEIROS: TRAÇOS DO


ESTILO PICARESCO EM JORGE AMADO

Denise Dias

AS VOZES NA NARRATIVA DA COMUNIDADE TRADICIONAL PESQUEIRA DE ARRAIAL DO CABO

Manuela Chagas Manhães

LEMBRANÇAS DAS INFLUÊNCIAS EXÓTICAS NAS FÁBULAS LOBATIANAS

Ana Márcia Cabral Linhares Mourthé

17/07 (TARDE)

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LA ISLA ANTROPOFÁGICA: O QUE PASSA ENTRE OSWALD DE ANDRADE E ANTONIO BENÍTEZ-
ROJO

Gabriel Moreira Faulhaber

O ESTRANGEIRISMO NA POÉTICA DE ADALCINDA CAMARÃO

Heydejane da Silva e Silva Nogueira e Francisco Pereira Smith Junior

ENTRE ILUSÕES PERDIDAS E PAISAGENS TROPICAIS: BALZAC E SUA QUASE AVENTURA EM


TERRAS TUPINIQUINS

Carlos Eduardo do Prado

LUGARES DA SUBJETIVIDADE NO MEMORIAL DE MARIA MOURA

Elisângela Santos Petrucci Peçanha

18/07 (TARDE)

A INTERTEXTUALIDADE EM "LEITE DERRAMADO"

Maria Elizabeth Chaves De Mello

KNOCK E O ALIENISTA: ENTRE PARÓDIA E PALIMPSESTO

Stela Maria Sardinha Chagas de Moraes

A ORDEM E O CAOS: A MULHER ESCRITA EM DEUS DE CAIM, DE RICARDO GUILHERME DICKE E


CAIM, DE JOSÉ SARAMAGO

Elair de Carvalho

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16 - CIRCULAÇÃO, TRAMAS E SENTIDOS NA LITERATURA JUDAICA
CONTEMPORÂNEA
Coordenação: Profa. Dra. Kênia Maria de Almeida Pereira (UFU); Profa. Dra. Lyslei Nascimento
(UFMG); Profa. Dra. Nancy Rozenchan (USP)

Resumo: O simpósio Circulação, tramas e sentidos na Literatura Judaica Contemporânea


acolherá, no contexto do Congresso XVI da Abralic 2019, contribuições teóricas e críticas sobre
a literatura judaica da atualidade. O conceito de trama aponta, num primeiro momento, para o
texto em sua realização no enredo ou urdidura, com a ideia de tecido e textualidade
metaforicamente configurado no enunciado. Num espectro mais amplo, na enunciação, o
termo se expande e enriquece para outras acepções como ardil, armadilha, artifício, engenho,
estratégia, intriga, além de confabulação, de argumento e de labirinto criados pelos escritores
em seu ofício. Criadores e criaturas, no sentido textual, estão, assim, contemplados nessa
proposta. Compreendem-se, portanto, elegíveis para este simpósio, reflexões e críticas sobre
as inúmeras e sofisticadas estratégias criativas e criadoras de escritores que tenham a cultura e
a tradição judaica como autoria, tema ou método. Nesse contexto, essa abordagem é
especialmente instigante para se analisar o jogo entre o enunciado e a enunciação na
literatura judaica contemporânea e a sua circulação intertextual e entre artes. A noção de
sentido, por sua vez, também de forma lúdica, amplia-se para interpretação, significado, tom,
orientação e rota que norteiam o trabalho ficcional. A diversidade da cultura e da tradição
judaicas, tanto na prosa quanto na poesia, é paradigmática e rica na exploração desses
conceitos em vários níveis, elaborando intrincadas e reveladoras relações entre textos em
diálogo com outras literaturas e com outras artes como o cinema, a fotografia e as artes em
geral. Assim, balizam nossa proposta a contundente obra de Franz Kafka e de Walter Benjamin,
com seus personagens presos em armadilhas tanto do corpo e da mente, como em
Metamorfose, quanto das condições férreas do metafóricas ou não, como em O processo, O
castelo e em Na colônia penal, no caso de Kafka; e das reflexões fundamentais sobre a história,
a experiência, a arte e a técnica, como em Benjamin. Também estarão presentes em nossos
debates os testemunhos imprescindíveis para o nosso tempo como os de Primo Levi em É isto
um homem ou em Sobreviventes e afogados; os de Elie Wiesel, como em Noite, além da
literatura iconoclasta de Philip Roth, sobretudo em Complexo de Portnoy ou Pastoral
americana; de Saul Bellow em Herzog ou de Natalia Ginzburg em A família Manzoni ou Family
Lexicon. O inusitado experimentalismo de Georg Perec, em W, ou a memória da infância e
Vida: modos de usar, por exemplo, além de Tudo se ilumina e Extremamente alto e
incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer poderão, também, ser objeto de análises; a
fundamental literatura israelense de Aharon Appelfeld, como em Badenheim 1939, Amos Oz,
em Meu Michel ou em A caixa preta; David Grossman, em Ver: amor, Orly Castel-Bloom, em
Human parts e Etgar Keret, como em As medusas, entre outros autores e obras. A literatura
judaica contemporânea brasileira será contemplada com Clarice Lispector, como em A hora da
estrela; Samuel Rawet, como em Contos do imigrante; Moacyr Scliar, como em O centauro no
jardim; além da literatura de Cíntia Moscovich, Leila Danziger, Noemi Jaffe, Ronaldo Wrobel,
Paulo Rosenbaum e Fábio Weintraub, só para citar alguns poucos nomes. Esperamos, assim,
pensar a literatura judaica contemporânea a partir de sua capacidade de recriar o imaginário,
os personagens e os espaços bíblicos com humor e ironia; as inúmeras formas do exílio, suas
expressões e marcas; as representações-limites do Holocausto/Shoah; as reflexões
contundentes sobre o ofício de escrever e do estar no mundo do artista, a marca biográfica e a
57
encenação do poético como outros temas caros à expressão literária. Para isso, este simpósio
receberá propostas de comunicações que apresentem análises de autores e obras que
abranjam o múltiplo espectro que é a literatura judaica na contemporaneidade.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

LETRAS MIGRANTES: POÉTICAS DA JUDEIDADE NA LITERATURA BRASILEIRA OU LENDO


SAMUEL RAWET E ELISA LISPECTOR

William Conceição dos Santos

REVISITANDO ANNE FRANK: PHILIP ROTH, NATHAN ENGLANDER E SHALOM AUSLANDER

Isadora Sinay

A FOTOGRAFIA EM MINHA MENTE: TEREZÍN, DE DANIEL BLAUFUKS

Lyslei Nascimento

EXÍLIO EM PORTUGAL: DOIS RETRATOS

Luis S. Krausz (Coordenador)

16/07 (TARDE)

Mesa 1

O CONFLITO INTERGERACIONAL NOS CONTOS DE ETGAR KERET

Gabriel Steinberg

NAS TERRAS DO CHACAL: UM (RE)ENCONTRO COM OS PRIMEIROS CONTOS DE AMÓS OZ

Fernanda dos Santos Silveira Moreira

58
POESIA E MÚSICA NA TRAMA DE E A NOIVA FECHOU A PORTA, DE RONIT MATALON

Nancy Rozenchan

ZERUYA SHALEV: A ESCAVAÇÃO COMO FERRAMENTA DE PESQUISA

Saul Kirschbaum

Mesa 2

ARQUIVO E MEMÓRIA: MOVIMENTOS DA ESCRITA DE SAMUEL RAWET A PARTIR DO POEMA


“A ECLUSA”, DE PAUL CELAN

Bianca Iung Bruel

O UNIVERSO SECRETO DE CLARICE LISPECTOR E A CABALA: UM POSSÍVEL TRAJETO MÍSTICO EM


PAIXÃO SEGUNDO G. H.

Leila Borges Dias Santos

UMA CASA DE MEMÓRIAS: UMA LEITURA DE O ÚLTIMO KIBUTZ, DE SABRINA ABREU

André de Souza Pinto

TRADUÇÃO DE "CAPESIUS, O FARMACÊUTICO DE AUSCHWITZ" DE DIETER SCHLESAK: LIDANDO


COM A FACE OCULTA DA HUMANIDADE

Miriam Bettina Paulina Bergel Oelsner (Coordenadora)

17/07 (MANHÃ)

A IRONIA DE SCLIAR COMO FORMA DE REVISÃO DA REALIDADE

Mariha Mickaela Neves Rodrigues Lopes

RELAÇÕES INTERTEXTUAIS: O CORPO EM "CARTA AO PAI" E "POR QUE SOU GORDA, MAMÃE?"

Cláudia Carneiro Peixoto e Antônio Carlos Mousquer


59
LEGADOS EN QUIEBRA: HERENCIA Y MEMORIA EN LUBA, DE JAQUELINE GOLBERG

Cristina Gutiérrez Leal

AS ESTRATÉGIAS CABALÍSTICAS NA POÉTICA DE BORGES

Leonor Scliar Cabral (Coordenadora)

17/07 (TARDE)

TRAMAS BÍBLICAS: AS MULHERES EM CONTOS ERÓTICOS DO ANTIGO TESTAMENTO, DE DEANA


BARROQUEIRO

Késia Oliveira

RICHARD ZIMLER E O EVANGELHO DE LÁZARO

Marcio Cesar Pereira dos Santos

A CRIAÇÃO CIENTÍFICA DO MUNDO: “O SEXTO DIA”, DE PRIMO LEVI

Breno Fonseca Rodrigues

OS DISSABORES DO PARAÍSO: UMA LEITURA DO CONTO “NO SEIO DE ABRAÃO”, DE MOACYR


SCLIAR

Kenia Maria de Almeida Pereira (Coordenadora)

17 - CIRCULAÇÃO, TRAMAS & SENTIDOS QUE ENREDAM A


LITERATURA INFANTIL E JUVENIL
Coordenação: Profª Drª Regina Michelli (Regina Silva Michelli Perim) (UERJ); Profª Drª Maria
Zilda da Cunha (USP); Prof. Dr. Diógenes Buenos Aires de Carvalho (UESPI).

60
Resumo: A Literatura para crianças e jovens responde, atualmente, por uma gama de
possibilidades de abordagem que a torna, praticamente, um campo específico, visitado por
diferentes teorias e propiciador de variada produção no que tange aspectos ligados à pesquisa
no âmbito mais teórico ou prático.

Refletir sobre a literatura mais direcionada ao público infantil e juvenil implica pensar relações
que se tecem em torno, por exemplo, da autoria, por vezes na dupla articulação textual e
imagética, em que o olhar se volta para as ilustrações e o design do livro, bem como das
produções textuais em diferentes gêneros literários e linguagens, obrigando à observação de
experimentações que revelam fecundidade na composição artística. Além disso, emergem
pesquisas que se voltam para o reendereçamento a crianças e jovens de obras escritas
originariamente para o público adulto, sinalizando o alargamento de fronteiras entre esses
públicos e a consequente adaptação a novos projetos gráficos mais condizentes ao tratamento
dispensado a livros infantojuvenis, o que se vê em obras de escritores como Mário Quintana,
Fernando Pessoa, Saramago. Nesse sentido, destaca-se o processo intenso de assimilação dos
contos de fadas e narrativas populares, que não se destinavam ao público infantil, iluminando,
por um lado, a dimensão universal de obras da tradição, oriundas da oralidade e geralmente
marcadas por estratégias ligadas ao maravilhoso, e, por outro, tonalizando a definição do tipo
de texto próprio à infância, ultrapassando-se, na visão de Hunt (2010), fronteiras da cultura
erudita e popular. Assim, há que se considerar tanto a apropriação de narrativas literárias da
tradição e o processo de adaptação/recriação, obras relidas e publicadas em outras linguagens
e mídias, como as novas produções, que evidenciam, por vezes, o cenário ideológico
contemporâneo, repensando estereótipos e representações sociais, bem como estratégias
discursivas e hipermidiáticas que exigem novas habilidades e competências de leitura.

O caráter da produção literária para crianças e jovens também promove uma trama de
conexões que levam a pensar nos agentes sociais e culturais que emergem nessa relação,
como família, escola, biblioteca, editoria (com editores, revisores, tradutores, artistas plásticos,
ilustradores), mercado editorial, livraria, agentes que legitimam e promovem a circulação das
obras, por vezes constrangendo-as a padrões ideológicos restritivos: se a literatura infantil e
juvenil alargara-se à focalização de temas antes considerados tabus (RODARI, 1982),
observando a preocupação de educar o leitor pelo diálogo instaurador de múltiplos pontos de
vista, parece que assistimos a um recrudescer dessa abertura, observado em polêmicas recém
instauradas nas mídias sociais. Reafirma-se a necessidade de validar a efervescência de vozes,
na esteira da polifonia sustentada por Bakthin (1981), com vistas à multifacetada experiência
literária, levando em conta a diversidade de aspectos e sentidos a serem considerados no ato
da leitura crítica de textos que se apresentam em variados gêneros, linguagens e suportes e
em que se incluem processos como criação, circulação, mediação, recepção. Todo texto
literário, cabe ainda ressaltar, é sempre atravessado, de forma clara ou velada, por outros
textos que o precederam ou lhe são contemporâneos, constituindo-se essencialmente
dialógico e intertextual.

Outro ponto relevante que cumpre destacar é a abrangência dos estudos à roda da literatura
infantil e juvenil e dos processos que abarcam a leitura literária. As pesquisas apontam, na
visão de Ceccantini (2004), tanto para concepções mais aplicadas, direcionadas à formação do
leitor e ao desenvolvimento da criança, como para focos mais teóricos, “mais preocupados
com a autonomia do objeto focalizado e suas relações com a série literária e a histórica” (2004,
p. 23). O campo de estudos se alarga a várias áreas do saber, por meio de olhares
interdisciplinares e multissemióticos, propiciando pesquisas teóricas e práticas no âmbito de
diferentes ciências. Acredita-se fecundo o diálogo desta literatura com discursos produzidos
61
por outras esferas de conhecimento, como a educação, a psicologia analítica e do
desenvolvimento, a psicanálise, a história, a mitologia, a semiótica, a análise do discurso etc.

Face ao exposto, este simpósio, no âmbito de sua proposta, pretende aceitar trabalhos e
fomentar debates que promovam reflexão e alargamento conceitual em torno da literatura
para crianças e jovens, no que tange diferentes perspectivas, como: funções e fronteiras dessa
literatura; análises críticas de obras literárias em diferentes gêneros, linguagens e suportes,
sob fundamentação teórica diversificada; práticas de leitura e metodologias inovadoras;
presença de textos e autores de e sobre literatura para crianças e jovens em livros didáticos e
meios de comunicação; aspectos relacionados a produção, circulação e recepção; temas
contemporâneos ligados a questões polêmicas importantes na formação de crianças e jovens,
como identidade, representações étnico-raciais, de gênero, de faixa etária, de diversidade
cultural etc., bem como representações mais próximas do verismo (ZILBERMAN, 2003) ou
articulando a presença do maravilhoso e do fantástico, no âmbito do insólito ficcional.

Referências:

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária,


1981.

CECCANTINI, João Luís C. T. “Perspectivas de pesquisa em literatura infanto-juvenil” In:


______(org.) Leitura e literatura infanto-juvenil: memória de Gramado. São Paulo: Cultura
Acadêmica; Assis-São Paulo: ANEP, 2004, p.19-37.

RODARI, Gianni. Gramática da fantasia. São Paulo: Summus, 1982.

ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 2003.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

“LIVRO QUE TE QUERO LIVRO” _ A ARTE LITERÁRIA E A CONTRIBUIÇÃO À FORMAÇÃO DE


CRIANÇAS LEITORAS

Cyntia Graziella Guizelim Simões Girotto

NEMO, O PEIXINHO FILÓSOFO, DE ASSIS BRASIL: DIÁLOGOS COM O LEITOR EM FORMAÇÃO

Cleane da Silva de Lima

LEITURA DE BEST-SELLERS: DESAFIOS À ESCOLA NA FORMAÇÃO DO LEITOR

Luzimar Silva de Lima


62
A LITERATURA E O FIO DE ARIADNE: REFLEXÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA DO OLHAR DE
DESCOBERTA NA EXPERIÊNCIA LITERÁRIA

Juliana Pádua Silva Medeiros

O NEOFANTÁSTICO E A DESCONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA NO CONTO "LA MICA"


DE CARMEN LYRA

Simone Campos Paulino

16/07 (TARDE)

MONSTROS DO CINEMA, DE AUGUSTO MASSI E DANIEL KONDO: LITERATURA INFANTIL E


JUVENIL COMO PROPOSTA TRANSMÍDIA

Sandra Trabucco Valenzuela

CIRCULAÇÃO E TRAMAS DE CONTOS MARAVILHOSOS NAS ARTES VISUAIS

Regina Célia Ruiz

ENTRE LIVRO E TELA: A AVENTURA DO HERÓI NA LITERATURA DE RECEPÇÃO INFANTIL

Maria Zilda da Cunha e Maria Auxiliadora Fontana Baseio

UM ESTUDO SOBRE REINAÇÕES DE NARIZINHO, DA CIA DAS LETRINHAS, A PARTIR DAS NOTAS
DE RODAPÉ E DAS IMAGENS DAS PERSONAGENS

Patrícia Aparecida Beraldo Romano

OS LUGARES DOS CONTOS POPULARES E FOLCLÓRICOS BRASILEIROS NA MINISSÉRIE HOJE É


DIA DE MARIA (2005), DE LUIZ FERNANDO CARVALHO A PARTIR DA COMPILAÇÃO DE CÂMARA
CASCUDO E SÍLVIO ROMERO

Rayron Lennon Costa Sousa e Diógenes Buenos Aires de Carvalho

63
17/07 (MANHÃ)

MARCAS DE PERTENCIMENTO E CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE NAS DISTOPIAS JUVENIS

Cássia Farias Oliveira dos Santos

EU SOU O QUE VEJO: UM ESTUDO ACERCA DA TEMÁTICA NEGRA NOS LIVROS DE LITERATURA
INFANTIL

Cristiane Veloso de Araujo Pestana

RELAÇÕES DE TRAUMA E IDENTIDADE EM AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL E FALE!

Regina Peixoto Carneiro

O RETRATO DA GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA NA LITERATURA JUVENIL: UMA REFLEXÃO SOBRE


A REALIDADE

Mariana Rissi Azevedo

APRENDER A MORRER: UM ESTUDO COMPARATIVO DAS OBRAS O PATO, A MORTE E A TULIPA


E O SOL SE PÕE NA TINTURARIA YAMADA

Gisele Gemmi Chiari

VIDA NAS HISTÓRIAS E HISTÓRIAS DE VIDA: UM CONSTRUTO SOBRE LITERATURA PARA NÃO
ADULTOS E A REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA DO “FIM DA VIDA"

Mauricéia Lopes Nascimento de Sousa

17/07 (TARDE)

A TRAJETÓRIA DA FÁBULA NA LITERATURA INFANTOJUVENIL: UMA BREVE HISTORIOGRAFIA


DA TRADUÇÃO DE FÁBULAS NO BRASIL

Clarissa Rosas

64
FÁBULAS URBANAS DE ITALO CALVINO: MARCOVALDO OU AS ESTAÇÕES NA CIDADE

Hilario Antonio Amaral

A LITERATURA INFANTOJUVENIL NA VOZ PERIFÉRICA DE ALLAN DA ROSA: UMA LEITURA DO


LIVRO ZUMBI ASSOMBRA QUEM?

Karla Cristina Eiterer Rocha

A BOLSA AMARELA, DE LYGIA BOJUNGA, E ANA Z, AONDE VAI VOCÊ?, DE MARINA COLASANTI:
NARRATIVAS EM PROFUNDIDADE

Maristela Francelino da Silva

INFÂNCIA POÉTICA NAS PERSONAGENS CRIANÇA DE LYGIA BOJUNGA E ELEANOR H. PORTER:


BRINCANDO DE FICÇÃO E REALIDADE

Diogo Raimundo Rodrigues Santos

SOBRE ARREPIOS, BORBOLETAS, TRANCAS E TROCAS: UM ESTUDO SOBRE O AMOR NA


LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA

Samira dos Santos Ramos

18/07 (MANHÃ)

O CONTO DE FADAS LITERÁRIO DE AUTORIA FEMININA: UMA REVISITAÇÃO DOS


APONTAMENTOS INAUGURAIS DE NELLY NOVAES COELHO

Paulo César Ribeiro Filho

UM OLHAR SOBRE AS FADAS DE FLÁVIA CÔRTES

Regina Michelli (Regina Silva Michelli Perim)

MULHERES E ESPAÇO DOMÉSTICO: TRAMAS E TENSÕES NA LITERATURA JUVENIL BRASILEIRA

65
Maisa Barbosa da Silva Cordeiro

LEITURA E LETRAMENTO LITERÁRIO, A LITERATURA INFANTIL COMO AGENTE FORMADOR DE


LEITORES

Flávia Côrtes (Flávia Côrtes de Alencar)

ESTÉTICA LITERÁRIA PARA CRIANÇAS EM JOSÉ LINS DO REGO

Amanda Topic Ebizero

18/07 (TARDE)

JADIS, A FEITICEIRA DE NÁRNIA, DE C. S LEWIS E A RAINHA DE NEVE, DE H C ANDERSEN:


REFIGURAÇÕES E SEXUALIDADE

Lígia Regina Máximo Cavalari Menna

A CONTRIBUIÇÃO DOS CONTOS E ROMANCES ILUSTRADOS DA REVISTA O TICO-TICO NO


DESENVOLVIMENTO DO IMAGINÁRIO INFANTIL E JUVENIL

Érika Shigaki Lisbôa Aidar

ZUBAIR E OS LABIRINTOS: UMA ESCRITA ATRAVÉS DOS TEMPOS

Luciana Conti

O PROCESSO DE PRODUÇÃO ESCRITA EM ANA MARIA MACHADO: DO JUVENIL AO ADULTO

Thayná Cavalcante Marques

LITERATURA INFANTIL & MODERNISMO: UMA LEITURA DE GERTRUDE STEIN

Guilherme Magri da Rocha

18 - CORPOS ACORRENTADOS, IDEIAS SUBVERSIVAS: LITERATURA E


PERSEGUIÇÃO

66
Coordenação: Prof. Dr. Daniel Marinho Laks (UFSCar); Prof. Dr. Maximiliano Gomes Torres
(UERJ-FFP); Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim (UFSCar).

Resumo: Em um número considerável de países que, durante muito tempo, possibilitaram um


debate público em quase completa liberdade, a mesma passou a ser cerceada e substituída
pela imposição de um discurso específico que um governo autoritário - ou grupo político
dominante - considerava conveniente. Assim, apesar de percebermos essa dinâmica na
contemporaneidade em distintos espaços geopolíticos, cada qual com suas particularidades, a
supressão do pensamento independente não se apresenta como um fato novo, tendo
acontecido com bastante frequência em diferentes momentos do passado, próximo e
longínquo.

O termo perseguição diz respeito a uma série de fenômenos e pode abarcar desde os tipos
mais cruéis, exemplificado pelos tribunais da inquisição até o simples isolamento do
divergente caracterizado pelo ostracismo social. No livro Perseguição e a arte de escrever, Leo
Strauss cita exemplos de perseguição nos meios literários e culturais na Atenas dos séculos V e
IV a. C, em alguns países muçulmanos do início da Idade Média, na Holanda e na Inglaterra do
século XVII e na França e Alemanha do século XVIII. Ademais, Strauss defende que um breve
passar de olhos nas biografias, ou mesmo na folha de rosto dos livros de alguns dos principais
pensadores da história do conhecimento – Protágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles,
Maimônides, Descartes, Hobbes, Espinosa, Locke, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Kant –,
basta para revelar que eles ou testemunharam ou sofreram perseguição durante certo período
de suas vidas. Em muitos casos essa perseguição perpassa o simples isolamento social e se
configura como um desconhecimento de si, numa busca incessante daquilo que Foucault
chamou de “critério de normalidade de padrões”.

A relação histórica entre literatura e perseguição produziu um número incontável de


estratégias para a sobrevivência do autor e a divulgação de suas ideias, muitas vezes de forma
absolutamente explícita. Assim, vemos em alguns dos maiores exemplos literários do passado
uma grande quantidade de loucos, demônios, mendigos, bêbados e bufões responsáveis por
enunciar em alto e bom som tudo aquilo que o autor não gostaria de ser responsabilizado por
dizer.

A história da perseguição ao livre debate e a livre investigação, como já dito acima, não se
localiza somente no passado distante. Ao longo do século XX, diferentes espaços geopolíticos
conviveram com momentos de instabilidade econômica e política que culminaram em
distensões do sistema de pensamento liberal e das formas democráticas de organização do
Estado. Esses momentos propiciaram campo fértil para produções de modalidades nacionais
de superação autoritária dos períodos de crise em diversos países. A instauração de regimes de
caráter autoritarista contou, em várias ocasiões, com dispositivos específicos de produção da
norma, aparelhos culturais que criavam um sistema de enquadramento ideológico, a fim de
produzir o consenso.

De forma complementar à produção do consenso, funcionavam mecanismos de violência


punitiva, criados para lidar com os indivíduos que se recusavam a se sujeitar. Nesse sentido, os
aparatos ideológicos contavam com o controle dos meios de comunicação, com a censura de
mídias e espetáculos e com a supressão rigorosa da liberdade de pensamento independente,
liberdade de expressão e demais liberdades fundamentais, a partir da instauração de um

67
sistema de policiais, tribunais especiais, perseguições políticas, prisões, exílios e até mesmo
assassinatos. Agora, em pleno século XXI, vemos essas dinâmicas de perseguição a minorias -
sociais, étnicas, raciais e sexuais - e cerceamento de corpos e de liberdades basilares iniciando
um novo ciclo.

A influência da perseguição ideológica sobre a expressão narrativa não se relaciona apenas à


necessidade daqueles que sustentam visões heterodoxas de desenvolverem estratégias
peculiares de expressão, um dizer apenas nas entrelinhas capaz de escapar aos mecanismos de
controle do Estado autoritário, mas mesmo à organização de formas de resistência, calcadas
nas disputas por imaginários capazes, ao fim e ao cabo, de subverter as dinâmicas
desfavoráveis de forças.

O presente simpósio pretende abrigar trabalhos que debatam sobre a produção literária e
cultural durante momentos de perseguição política a minorias, englobando tanto análises
sobre movimentos e obras produzidas nos períodos específicos de resistência ao controle
político e ideológico quanto produções posteriores que retomem os acontecimentos passados
sob um viés crítico. Ainda busca pensar o poder para além de uma hierarquia de comando
vertical, mas, também, como atravessador dos tecidos sociais. Ou seja, uma estrutura que se
performatiza nas práticas discursivas e não discursivas como mecanismos
disciplinares/normatizadores que se naturalizam e se consolidam nos processos de
subjetivação dos sujeitos, afetando seus modos de ser e de agir, sobretudo no que se refere ao
gênero e às sexualidades.

Referências

BUTLER, Judith. Corpos em Aliança e a Política das Ruas: notas sobre uma teoria performativa
de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: o uso dos prazeres. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: o cuidado de si. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo: Paz e Terra, 2017.

PELLEGRINI, Tânia. Gavetas Vazias: ficção e política nos anos 70. São Carlos: EDUFSCar, 1996.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. História, Memória, Literatura: o testemunho na era das


catástrofes. Campinas: Editora Unicamp, 2003.

STRAUSS, Leo. Perseguição e a Arte de Escrever: e outros ensaios de filosofia política. São
Paulo: É Realizações, 2015.

TODOROV, Tzvetan. Diante do Extremo. São Paulo: Editora Unesp, 2017.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

68
Mesa 1: “Literatura, perseguição e violência”

“A REPRESENTAÇÃO DA VIOLÊNCIA NOS ESPAÇOS PERIFÉRICOS DE JOSEPH CONRAD E


HERNANI DONATO”

Rafaela Cristiane Pereira Maciel (UFMS)

“IMAGENS DE PERSEGUIÇÃO, REPRESSÃO E RESISTÊNCIA NA OBRA DE SCHOLASTIQUE


MUKASONGA”

João Marcos Reis de Faria (UERJ)

“VIOLÊNCIA MÍTICA E DINÂMICAS DO DEPOIMENTO EM SOU EU MAIS LIVRE, ENTÃO: DIÁRIO


DE UM PRESO POLÍTICO ANGOLANO, DE LUATY BEIRÃO”

Daniel Marinho Laks (UFSCar)

16/07 (TARDE)

Mesa 2: “Literatura, subjetividades sexuais e resistência”

“BICHA DEVIA NASCER SEM CORAÇÃO”: A SOLIDÃO DA BICHA PRETA EM “CORAÇÃO”, DE


MARCELINO FREIRE

Guilherme da Silva Gomes (UFU)

“NOS TEMPOS DO AMOR QUE MATA: A AIDS E O PARADIGMA IMUNITÁRIO NA OBRA DE CAIO
FERNANDO ABREU”

Tamara Medeiros de Andrade (UFF)

“ESTAVA VIVA QUANDO A ATIRARAM AO POÇO”: VIOLÊNCIAS, TORTURAS E MORTE EM


TEMPOS DE BARBÁRIES CONTEMPORÂNEAS (UMA LEITURA DE PÃO DE AÇÚCAR, DE AFONSO
REIS CABRAL)

Jorge Vicente Valentim (UFSCar/UNESP-FCLAr)

MEU CORPO, MINHAS REGRAS”: QUEBRA DOS DETERMINISMOS DE GÊNERO EM E SE EU


FOSSE PUTA, DE AMARA MOIRA
69
Maximiliano Gomes Torres (UERJ-FFP)

17/07 (MANHÃ)

Mesa 3: “Resistências nas/das margens”

“HOMOSSEXUALIDADE FEMININA INDÍGENA: DESCONSTRUINDO O QUEER DA MARGEM DA


MARGEM”

Sideny Pereira de Paula (UnB)

“QUARUP: OS FILHOS DA TERRA E OS ANOS DE CHUMBO”

José Humberto Torres Filho (UnB)

“HIRATSUKA RAICHÔ: O DISCURSO SUBVERSIVO DA PRIMEIRA FEMINISTA NO JAPÃO DO


SÉCULO XX”

Mina Isotani (UFPR)

17/07 (TARDE)

Mesa 4: “Brasil e Portugal: diálogos, resistências e resiliências”

“PARA ALÉM DAS DITADURAS: RESISTÊNCIA E RESILIÊNCIA NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL


DE LYGIA BOJUNGA NUNES E ALICE VIEIRA”

Renata Flaiban Zanete (Universidade do Minho)

“PALAVRA ACORRENTADA, SEXUALIDADE INTERDITADA: AS HISTÓRIAS DE AMOR, DE JOSÉ


CARDOSO PIRES”

Luci Ruas (UFRJ)

“UM ROMANCE SOBRE A PELE, OU COMO DESCOBRIR QUE NÃO SE PODE MORAR NOS OLHOS
DE UM GATO”

Mônica Figueiredo (UFRJ)

70
“POR MEIO DA EXOTOPIA – O GESTO REBELDE DE ALEXANDRA LUCAS COELHO

André Corrêa de Sá (University of California, Santa Barbara).

18/07 (MANHÃ)

Mesa 5: “Literatura e representação em tempos de censura e barbárie”

“A VIOLÊNCIA HIERARQUIZADA DE GÊNERO: JOÃO GILBERTO NOLL E SER HOMEM E SER


MULHER”

Marcus Vinicius Camargo e Sousa (UNESP/IBILCE)

“A REPRESENTAÇÃO DA MARGINALIDADE, DO EXERCÍCIO DO PODER E DA MANIFESTAÇÃO DO


NIILISMO NA PEÇA O ABAJUR LILÁS, DE PLÍNIO MARCOS”

Marcio Azevedo da Silva (UnB)

“LITERATURA EM TEMPO DE BARBÁRIE: MONGÓLIA, O FILHO DA MÃE E SIMPATIA PELO


DEMÔNIO, DE BERNARDO CARVALHO”

Gisele Frighetto (UFSCar)

19 - CRÍTICA LIBERAL

Coordenação: Prof. [Link] Vinicius de Freitas (UFMG); Profa. Dra. Karla Fernandes Cipreste
(UFU)

Resumo: A crítica liberal constitui uma vertente do pensamento crítico que, através de um
resgate da tradição liberal – no cruzamento de suas dimensões política, filosófica, econômica e
cultural - e de um reconhecimento de sua ressurgência na cultura contemporânea, busca criar
uma alternativa ao pensamento anti-moderno. José Guilherme Merquior, em "Tarefas da
crítica liberal" (As ideias e as formas, 1981, p. 28-36), assim define o termo: “Porque se
encontram em risco dois valores fundamentais: A independência do espírito e a objetividade
do conhecimento – necessitamos, com urgência de uma crítica liberal. A missão política da
crítica liberal é combater a intolerância ideológica. Sua tarefa epistemológica – sua missão no
campo do conhecimento – é restaurar o sentido da objetividade”. Essa última tarefa se volta
contra uma mentalidade pretensamente “humanística” contemporânea - como coloca entre
aspas o próprio Merquior – que rebaixa o humanismo à permissividade epistemológica e à
71
indulgência indiscriminada face a teorias e interpretações, a qual se revela verdadeira
abdicação intelectual. Em poucas palavras, esse humanismo rebaixado confunde liberdade
crítica com licença relativista e elogio do irracionalismo. Retomar as noções de independência
do espírito e de objetividade do conhecimento implica, assim, em uma revisão desse mesmo
humanismo, em direção a figuras mais universais e menos locais. Sob o ponto de vista da
cultura, a crítica liberal procura recuperar o papel afirmativo da Modernidade, em oposição às
duas vertentes críticas que permanecem hegemônicas no interior dos estudos literários, sejam
elas a modernista, de cunho eminentemente revolucionário, e a pós-moderna, de cunho
predominantemente desconstrucionista, ambas antimodernas. Assim, o simpósio acolherá,
com grande interesse, trabalhos sobre o pensamento liberal, em especial no que concerne à
literatura e à cultura, de autores tais como José Guilherme Merquior, Ernest Gellner, Roger
Scruton, Eric Voegelin, Theodore Dalrymple, Daniel Bell, Friedrich Hayek, Ludwig Von Mises,
Tzvetan Todorov, Brian Boyd, Luc Ferry, Alain Renaut, André Comte-Sponville, David Hirsch,
Daphne Patai, Raymond Aron, Ortega y Gasset, Isaiah Berlin, Helmut Schoeck, Lionel Trilling,
Frank Kermode, Alan Sokal, Thomas Sowell, Eduardo Gianetti, Julián Marías e Raymond Tallis,
entre outros, que constituem um corpus bibliográfico à espera de investigação pelos estudos
literários e culturais.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

O POETA FORTE DE BLOOM E A IRONISTA LIBERAL DE RORTY: AUTONOMIA E VALORAÇÃO


ÉTICA E ESTÉTICA

Ana Carla Lima Marinato

O LIBERALISMO DE E.M. FORSTER NA VISÃO DE LIONEL TRILLING E AMANDA ANDERSON

Cynthia Beatrice Costa

OS TIPOS IDEAIS, EM ERNEST GELLNER, E A SÍNTESE, EM PAULO LEMINSKI

Rafael Fava Belúzio

MERQUIOR, GELLNER, FERRY: FUNDAMENTOS DE CRÍTICA LIBERAL

Marcus Vinicius de Freitas

72
16/07 (TARDE)

NEO-HUMANISMO E ETHOS ARISTOCRÁTICO: POR UMA CRÍTICA LATINO-AMERICANA


INSUBMISSA

Karla Fernandes Cipreste

O HUMANISMO SECULAR EM ERNEST HEMINGWAY E MANUEL RIVAS

Luana Pereira do Vale

A BELEZA E REDENÇÃO EM LA VIDA ES SUEÑO, DE PEDRO CALDERÓN DE LA BARCA

Laura de Oliveira Coradi

A PLASTICIDADE HUMANISTA E AS FICÇÕES BARROCAS: UM ESTUDO DE LAS REPETICIONES DE


SILVINA OCAMPO

Amanda Queiróz Matar

20 - CRÍTICA TEXTUAL EM TEMPOS SOMBRIOS: O EXERCÍCIO


FILOLÓGICO DE ESCOVAR A HISTÓRIA A CONTRAPELO NO RESGATE
DE OBRAS, DE LEITURAS E DE SENTIDOS NA LITERATURA
Coordenação: Profa. Dra. Ceila Maria Ferreira (UFF); Prof. Dr. Sandro Drumond Marengo (UFS);
Profa. Dra. Viviane Arena Figueiredo (UFF)

Resumo: A Crítica Textual estuda a gênese, a transmissão e a recepção de textos literários e


não literários. Quando o seu objeto é literário, se centra em seu processo de transmissão a
partir de versões diferentes de uma obra, bem como busca examinar os vários suportes e
formatos em que o texto literário foi transmitido. Além disso, o acesso aos manuscritos
permite que se trilhe o caminho do mapeamento das mudanças realizadas (apagamentos,
acréscimos, deslocamentos e substituições) a partir das marcações autorais e/ou não autorais
nos autógrafos remanescentes (BLECUA, 1983). Outrossim, esse campo científico também
abarca o estudo das estratégias e dos tipos de edições (CAMBRAIA, 2005), o que muito auxilia
pesquisadores a entender a circulação de obras. No mais, ter também uma visão mais concreta
das mudanças que uma obra vai sofrendo ao longo do tempo, nos remete ao entendimento de
como os textos vão sendo transmitidos através do tempo. Ademais das mudanças naturais
ocasionadas pelo efeito de sua transmissão temporal, os textos literários também estão
sujeitos a alterações por força de censura, de variações no conceito e estabelecimento do

73
cânone literário e do próprio conceito de literatura. Destarte o apontado anteriormente, é
evidente que há uma relação estreita entre a Crítica Textual (ou seu apontamento amplo
entendido como Filologia) e a Hermenêutica. A Crítica Textual nos dá subsídios para
interpretarmos textos, pois, como disse Carlos Reis, em entrevista publicada na Revista
Convergência Lusíada, no ano de 2005, trabalhar com Crítica Textual é um “corpo a corpo com
o texto”, impedindo, por exemplo, que situemos os textos literários em uma abstração. Como
afirmam Rosa Borges e Arivaldo Sacramento de Souza é “[...] precisamente contra a abstração
dos textos” [...] que se vê a relevância da crítica filológica. Nela, não se faz a oposição binária
entre texto físico/material versus texto abstrato [...]” (2012, p. 54). Tal citação é importante,
pois aponta para a importância da Crítica Textual, pois nesse ínterim consegue englobar,
concomitantemente, tanto aspectos da materialidade textual quanto da formação e da
circulação de seus sentidos literários. Como é perceptível, nosso campo de estudo trabalha
com a historicidade e, sempre que possível, com fontes primárias. Essa particularidade permite
com que pesquisadores em geral tenham acesso a textos que, ou são pouco acessados, ou que
deixaram de circular. Dessa feita, contribuem para o resgate de leituras correntes de
determinado lapso temporal, mas que não tiveram sua transmissão interrompida, por
exemplo, pelo realinhamento de concepções do cânone literário ou por censura ideológica ao
seu conteúdo. Para ilustrar nossa afirmação, verificamos que não é muito comum
encontrarmos citações, comentários, referências acerca do capítulo final da primeira, da
segunda e da terceira versões, publicadas respectivamente em 1875, 1897, 1880/1889, de O
Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós. Nelas, há referências à Comuna de Paris. Também
não é comum encontrarmos referências acerca das variantes da primeira edição de “O
Alienista”, de Machado de Assis, saída em A Estação, de 15 de outubro de 1881 a 15 de março
de 1882, em relação à segunda, também publicada pela Lombaerts & C, dessa vez em formato
livro, na coletânea de contos intitulada Papéis Avulsos, em outubro/novembro de 1882. Logo,
vimos que a Crítica Textual trabalha interdisciplinarmente com outros campos de
saber/disciplinas, tais como a Literatura, a Linguística, a História, principalmente a Cultural
(vide trabalhos de Chartier, como por exemplo: Os desafios da escrita) e a Sociologia. Esta
abertura caleidoscópica de relações nos ajuda a desenvolver uma visão mais propensa sobre a
mutabilidade textual bem como nos desenvolve uma capacidade de cunho mais aquilino para
perceber os processos de mudança e, então, resgatar os textos e desenvolver comentários
sobre eles em um exercício de “escovar a história a contrapelo”, propiciando discursos de
resistência e de abertura ao diálogo com o que foi silenciado, numa possibilidade de redenção
(BENJAMIN, 2012) de parte da história dos vencidos e das minorias e de gêneros textuais
literários não tão aclamados pela Academia. Nossa proposta, por meio deste Simpósio, é
trabalhar com todos esses aspectos da pesquisa em Crítica Textual/Filologia, privilegiando o
processo de formação, transmissão, apagamento e recepção de textos e de sentidos por meio
do exame de suas materialidades e de seus sentidos formados também por essas
materialidades, sem esquecermos de estratégias de preparação de edições que se aproximem
ou que sejam representações de redações autorais, sem esquecermos do estudo de edições
que se distanciam dessas representações, mas que fazem parte do estudo da história da
transmissão desses textos. Assim procuramos contribuir para a divulgação da Crítica Textual no
âmbito dos Estudos Literários e também para o estudo da Crítica Textual como resgate de
autoras, de autores, de leituras, de sentidos de textos que foram silenciados, contribuindo
também para a construção de histórias da literatura mais plurais e inclusivas.

Referência:

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. “O Alienista”. In: A Estação. Jornal Illustrado para a familia.

74
Rio de Janeiro, Lombaerts & C. 15 out 1881 -15 mar1882.

------. Papéis Avulsos. Rio de Janeiro: Lombaerts & C, 1882.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da História. In: ---. Magia e técnica, arte e política.
Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas I. Tradução Sérgio Paulo
Rouanet. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 241-252.

BLECUA, A. Manual de crítica textual. Madrid: Castalia, 1983.


BORGES, R.; SOUZA, A. S. Edição de texto e crítica filológica. Salvador: Quarteto, 2012.
CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. SP: Martins Fontes, 2005.

CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. Tradução Fulvia M. L. Moretto. São Paulo: Unesp,
2002.

REIS, Carlos/ CUNHA, Maria do Rosário (eds). O Crime do Padre Amaro. Edição crítica das
obras de Eça de Queirós. Lisboa: IN/CM, 2000.

REIS, Carlos/CASTRO, Ivo/MONTEIRO, Ofélia de Paiva. Sobre edições críticas: uma entrevista.
In: Revista Convergência Lusíada, no 21, 2005, p. 345-351.

PROGRAMAÇÃO

17/07 (TARDE)

A ATUALIDADE DAS FARPAS EM TEMPOS SOMBRIOS

Gisele de Carvalho Lacerda

UMA VISÃO HISTÓRICA DA MÍDIA E DA PROPAGANDA CIENTÍFICA NO FINAL DO SÉCULO XIX


ATRAVÉS DA CRÍTICA TEXTUAL

Leandro Trindade Pinto

JÚLIA LOPES DE ALMEIDA: UMA ANÁLISE DAS EDIÇÕES DE ÂNSIA ETERNA

Viviane Arena Figueiredo

18/07 (TARDE)

AS DUAS EXPOSÉS DE WALTER BENJAMIN: CONTINGÊNCIA OU CORREÇÃO?


75
Maíra M C Leal

DOS PERIÓDICOS AOS LIVROS: ASPECTOS DA REESCRITA E DA REPUBLICAÇÃO DE CONTOS DE


DALTON TREVISAN, LYGIA FAGUNDES TELLES E CLARICE LISPECTOR

Leandro Henrique Aparecido Valentin

REFLEXÕES SOBRE CRÍTICA TEXTUAL E ESTUDOS DE LITERATURA EM TEMPOS SOMBRIOS

Ceila Maria Ferreira

21 - DE RUÍNAS E DE REINOS: A AMÉRICA LATINA EM SEUS LIMITES


Coordenação: Pedro Brum (UFSM); Jorge Hoffmann Wolff (UFSC); Bairon Oswaldo Vélez
Escallón (UFSM)

Resumo: A proposta parte da necessidade presente de pensar a historia a partir de regimes de


simultaneidade temporal que permitam ir além de qualquer metafísica do progresso e, ao
mesmo tempo, ultrapassar os universalismos iluministas que acabaram por expulsar do campo
toda manifestação de afetos, gestos, traços, paixões ou corporalidades. Em que medida
divisões como universal e local, geral e contingente –assim como aquelas, correlatas, de
metropolitano/periférico, alto/baixo, culto/popular, geral/particular, arte/kitsch, etc.–
conservam sua operatividade em um mundo menos constituído por signos do que por
signaturas? Como jogar ainda o jogo do reconhecimento e da identidade se a América Latina
se apresenta protéica, andiómena, cintilante, aparecendo e desaparecendo como arrastada
pelos tempos? Longe dos protocolos do iluminismo sacrificial, que sempre projetou os
vencidos como efeitos de um inevitável dano colateral e, no fim das contas, justificado, este
Simpósio objetiva debater epistemologias a partir das consequências, das catástrofes, para
desse modo transformar as ruínas em sementes e, talvez, tornar audíveis aquelas demandas
de justiça que constituem o espectro encanto de uma América Latina inédita, ou pelo menos
insistentemente inaudita.

Palavras-chave: América Latina; estudos culturais; estudos literários.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

76
A MONSTRUOSIDADE LATINO-AMERICANA SOB A ÓTICA DE SILVIANO SANTIAGO

Aline Rocha de Oliveira

LATINO-AMERICANISMO: MODOS DE SOBREVIVÊNCIA, OU PARA UMA TEORIA POPULISTA DO


LATINO-AMERICANO

Bairon Oswaldo Vélez Escallón

RECONSTITUIR AS RUÍNAS PARA ESTAR COM OS FANTASMAS: NOTAS SOBRE O PENSAMENTO-


ROMANCE DA "NUEVA NARRATIVA HISPANOAMERICANA"

Thiago Roney Lira Borges

ROMA, DE ALFONSO CUARÓN: UMA LEITURA DO PONTO DE VISTA DO COLONIALISMO DE


POVOAMENTO (SETTLER COLONIALISM)

Deborah Scheidt

17/07 (MANHÃ)

SALIM MIGUEL E A CRIAÇÃO DE UM PROJETO ESTÉTICO-LITERÁRIO “TRANSMODERNO”

Ana Cláudia de Oliveira da Silva

A NARRATIVA DE ALDYR SCHLEE E A TERCEIRA MARGEM DA VIDA

Pedro Brum

OS ÉPICOS LATINO-AMERICANOS DE NERUDA E ACCIOLY E A HISTÓRIA A CONTRAPELO

Éverton de Jesus Santos

77
18/07 (MANHÃ)

LANTERNA VERDE PARA O SÉCULO XX: A CIDADE MODERNA EM FELIPPE D"OLIVEIRA

Lucas da Cunha Zamberlan

O OUTRO, O MESMO: PAULA GLENADEL E JORGE LUIS BORGES

Manuela Quadra de Medeiros

TODA POESIA DE JOAQUIM E CATATAU

Jorge Hoffmann Wolff

22 - DESAFIOS DO PROFESSOR-PESQUISADOR NO ENSINO MÉDIO DAS


ESCOLAS TÉCNICAS: DA TEORIA À PRÁTICA
Coordenação: Professora Doutora Cristiane Felipe Cortês (CEFET-MG); Professora Doutora
Erica Cristina Bispo (IFRJ)

Resumo: Este simpósio surge da necessidade de pensar a especificidade do ensino de


literatura nas escolas de educação básica e tecnológica do país, pois o profissional que assume
o cargo de docente é, necessariamente, também pesquisador. Configura-se a simbiose
desejada, mas rara, do professor de educação básica e produtor de conhecimento acadêmico,
obtendo-se a concretização do que fora preconizado por Paulo Freire, “Não há ensino sem
pesquisa e pesquisa sem ensino” (FREIRE, 1996, p. 14). Entretanto, a conjunção dos papéis de
professor e pesquisador enfrenta desafios e entraves.

No âmbito acadêmico, a ocupação de professor da educação básica é vista, geralmente, como


menor, o que fica provado na exclusão do docente da lista de concessão de bolsas ou
identificação do mesmo como pesquisador, para solicitação de fomento, por exemplo. Nas
escolas técnicas, o professor das disciplinas propedêuticas, dentre elas a literatura,
invariavelmente, fica relegado ao grupo de conhecimentos menores, já que não se dedicam ao
“ensinar a fazer”. Ademais, ao professor-pesquisador, está patente o anacronismo existente
entre o currículo de literatura e as discussões e pesquisas relacionadas à teoria literária, por
exemplo, desencadeando um abismo entre a pesquisa acadêmica e a prática educacional.

A lei 11.892/08 se erige como possibilidade de ponte entre a academia e o “chão da escola”.
Em 2008, a lei 11.892/08 instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e
Tecnológica o que viabilizou um espaço pedagógico que se configura hoje como significativa
possibilidade para atrelar resultados de pesquisas acadêmicas à prática de sala de aula. Isso

78
porque os Institutos Federais de Educação tem em sua gênese a vocação do Ensino, além da
obrigatoriedade na promoção de pesquisa e extensão em seus campi. Contudo, não se pode
negar que o ensino técnico brasileiro surgiu a partir de três pilares que vão de encontro às
disciplinas subjetivas e reflexivas: o treinamento das classes mais pobres para o mundo do
trabalho, as influências do modelo tecnicista americano associada à repressão vivenciada
durante o regime militar e a visão capitalista que reforça a submissão da classe subalterna à
classe dominante (MARTINS, 2000, p. 105). Os pilares identificados por Martins (2000) revelam
que “a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é
indispensável para uma camada social não o é para outra” (CANDIDO, 1995, p. 173). Essa
lógica alienante segue na contramão do que Antonio Candido aponta como função da
literatura em seu caráter humanizador (cf. Ibidem, p. 176). Ou seja, o espaço que deveria
possibilitar o enlace da teoria da pesquisa com a prática de sala de aula, por vezes, não
consegue se estabelecer.

Ao se considerar o estudo da literatura, atesta-se a necessidade de se educar para o pensar.


Na formação técnica, amplia-se para uma reflexão sobre o capitalismo, a globalização e a
revolução tecnológica; o que exige a atenção dos profissionais envolvidos com a educação e
evidencia o desafio da profissão, já que a “literatura pode incutir em cada um de nós um
sentimento de urgência de tais problemas” (Ibidem, p. 184). A despeito dos desafios presentes
no sistema educacional brasileiro, cresce o interesse pelos debates acerca do ensino de
literatura, haja vista a grande procura por simpósios e mesas-redondas em congressos cujo
tema seja esse. Sendo assim, este simpósio visa a promover reflexões qualificadas, projetos e
programas que, partindo da reflexão acadêmica, atravessem a ponte e rompam as fronteiras
do espaço acadêmico aportando na prática em sala de aula. Nesse sentido, serão bem vindos
trabalhos que discutam:

a)  implementação de pesquisas acadêmicas nas práticas de sala de aula;

b)   pesquisas sobre modificações e/ou questionamentos do currículo de literatura, para


incorporar as pesquisas acadêmicas;

c)  desenvolvimento de pesquisas com estudantes de ensino médio, no modelo de iniciação


científica;

d) atividades de extensão que promovam, na comunidade, a difusão da produção acadêmica;

f)  apresentação de projetos, grupos, linhas de pesquisa e programas que se dedicam ao


ensino da literatura na EBTT;

g) projetos que usem o texto literário como meio para debater gênero e etnia na escola;

i) problematização das questões relacionadas à literatura, ensino e formação de professores;

j) reflexões sobre o distanciamento entre as teorias literárias e ensino de literatura;

l) reflexões sobre a seleção e escolha de textos literários para o trabalho educativo no espaço
das EBTTs.

Referências:

79
CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 3. ed. rev. e ampl. SP: Duas Cidades, 1995.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. SP: Paz e
Terra, 1996.

MARTINS, Marcos Francisco. Ensino técnico e globalização: cidadania ou submissão?


Campinas, SP: Autores Associados, 2000.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

SELEÇÃO E EXPERIÊNCIAS LITERÁRIAS NA SALA DE AULA

Angela Maria da Costa e silva Coutinho

LITERATURA EM PROJETOS DE EXTENSÃO

Célia Maria Domingues da Rocha Reis

PRÁXIS DOCENTE NO ENSINO MÉDIO DAS ESCOLAS TECNOLÓGICAS: QUE PRECISA SER DITO?

Eliza Silvana de Souza

POR UMA “TEORIA DA LITERATURA APLICADA”

Micheline Madureira Lage

LITERATURA HISPANO-AMERICANA NO ENSINO DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA,


UTILIZANDO OBRA E FILME COM ALUNOS DE 1ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO

Rocio del Carmen Celis Lozano

17/07 (TARDE)

80
AUTORIA FEMININA NOS LIVROS DIDÁTICOS DO PNLD 2018: ENTENDENDO O CÂNONE

Cristiane Côrtes

SOBRE ELAS, POR ELAS: AUTORIA E REPRESENTAÇÃO FEMININA NAS ARTES VISUAIS

Moema Sarrapio

READING CLUB UFES: UMA PRÁTICA EXTENSIONISTA QUE PROMOVE LEITURA E DISCUSSÃO DE
CONTOS DE AUTORIA FEMININA

Laura Ribeiro da Silveira e Carolina Francisco Fernandes dos Santos

O ENSINO DE LITERATURA E A DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS

Erica Cristina Bispo

O SUJEITO EM FORMAÇÃO EM CONTOS DE MACHADO DE ASSIS: PROTAGONISTAS JOVENS, A


LEITURA E A ESCOLA

Luis Fernando Portela

18/07 (TARDE)

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO ENVOLVIMENTO DOS LEITORES TRANSMÍDIA COM A LEITURA

Jonathan Cordeiro Cavaca

TRAMAS E PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA DO LITERÁRIO NO CIBERESPAÇO: NOVOS


HORIZONTES PARA O ENSINO DA LITERATURA NAS ESCOLAS TÉCNICAS

Marina Leite Gonçalves

81
A PRÁTICA DA ESCRITA CRIATIVA E A PRODUÇÃO DE CURTAS-METRAGENS NAS AULAS DE
LÍNGUA PORTUGUESA/LITERATURA: UMA ESTRATÉGIA AO ESTÍMULO À ESCRITA E À LEITURA
NA EDUCAÇÃO BÁSICA

Adauto Locatelli Taufer

MULTILETRAMENTOS E ENSINO DA LITERATURA: A WEB RADIO NOVELA COMO FERRAMENTA


PARA O LETRAMENTO LITERÁRIO E DIGITAL NA ESCOLA

Bárbara Cotta Padula

LITERATURA, LÍNGUA E CULTURA: REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS NOS ESTUDOS DE LITERATURAS


DE LÍNGUA INGLESA NA UNIVERSIDADE

Vera Lucia Harabagi Hanna

24 - ENSINO, LEITURA E LITERATURA: O CONTEMPORÂNEO NO


NECESSÁRIO POSSÍVEL
Coordenação: Prof. Dr. Robson Coelho Tinoco (UnB); Profa. Dra. Adriana Demite Stephani
(UFT)

Resumo: A complexidade das relações e recursos da contemporaneidade pressiona uma


mudança de paradigmas nas diferentes esferas e espaços sociais inclusive, ou de maneira
especial, no escolar. É nesse ambiente que muitos indivíduos terão sua rara, senão mesmo
única, oportunidade de contato com a leitura e seu amplo universo de argumentos, teses,
imagens, ideologias, opiniões, criações ficcionais. De fato, a escola ainda é o espaço concreto-
simbólico de efetivação do direito inalienável à literatura (CANDIDO, 1995), espaço também
idealizado por muitos como de formação de leitores literários, que precisam participar de
novas, e interessantes, metodologias de leitura (PERRONE-MOISÉS, 2016). Nesse contexto
contemporâneo líquido (BAUMAN, 2014), hiperdifuso e multidispersivo, as considerações
sobre as novas funções do espaço escolar como também de educação literária – que sofrem
influência direta das mudanças sociais contemporâneas em feérica busca pelo novo, pelo
diferente, pelo pretensamente criativo – suscita diversas discussões/questionamentos sobre as
atividades atuais com a leitura literária e, nesse foco, surgem invencíveis questões como:
diante da efemeridade líquida das ações contemporâneas, há ainda condições efetivas de que
esse direito alienável seja (ou deva ser) garantido pela escola? Ela consegue (tem a intenção
de) realmente educar literariamente? Com o advento de novos suportes de leituras, onde
reacomodar o essencial espaço cognitivo para o livro físico? Qual o neoperfil sócio-histórico
do leitor imerso nesses atrativos suportes? Também, sob tal contexto, aumentam as
inquietações ao se considerarem pesquisas que apontam haver na maioria das escolas

82
brasileiras uma crise persistente no processo de formação de novos leitores. Tais dados, e já
desde 1950, dão conta que, apesar do amparo de várias teorias de leitura, estudos e
pesquisas, de metodologias e modelos, as escolas não têm, com exceções destacadas,
conseguido intervir de maneira eficaz na formação do gosto pela leitura nem no efetivo
letramento literário. Nota-se, assim, que há impasses e questionamentos quanto à
participação efetiva (por interesse pessoal, prazer etc.) nesse processo de escolarização da
literatura, ao lado de excelentes pesquisas e experiências que discutem e vislumbram a
possibilidade real dessa relação literatura-escola. Ainda, é importante considerar a leitura
literária não como ato independente, individual e solitário, mas (inter)ação coletiva, em que as
perspectivas para o indivíduo – entendido como aluno-leitor – só podem ser devidamente
encaradas em uma dinâmica culturalmente sócio-histórica, tanto quanto é decisiva a presença
(ativa) do professor e a presença (passiva) do autor que fala no texto, entre as palavras.
Considere-se, também, que tal problema se confirma nos livros didáticos (LDs), já que também
nesses prevalece o reducionismo, presente seja no campo das propostas de atividades, que
reforçam o biografismo historicista, seja no restrito e desatualizado corpus literário, seja ainda
no engessamento dos conceitos de gêneros textuais apresentados. Ressalta-se, enfim, a visão
de leitura como interação, via texto, entre leitor e autor – que não deve ser confundido com o
escritor. Isso porque o diálogo via leitura não poderia ser instaurado simplesmente entre o
leitor e a materialidade linguística, uma vez que esta não pode, de fato, interagir com quem,
ou o que, quer que seja. Nesse sentido, é fundamental entender que tal dialogia implica muito
mais que uma dada interação entre dois elementos distintos (BAKHTIN, 2010). Seguindo essa
perspectiva, e mantendo o foco na escola como espaço (ainda virtuoso) também de formação
de leitores literários, o presente simpósio pretende agrupar trabalhos de pesquisas cujos
objetos de estudo englobem os envolvidos no processo de letramento literário em espaços
escolares (mediadores/professores e leitores/alunos) apresentando discussões teóricas e
práticas que versem sobre a recepção do texto literário em contextos escolares. Portanto,
interessam trabalhos de professores e pesquisadores, de distintas perspectivas teóricas e
metodológicas, que: a) analisem as relações entre sociedade, educação e literatura
apresentando problemas, perspectivas, propostas, pesquisas e práticas; b) proponham
discussões a respeito de perspectivas (teóricas e metodológicas) em circulação sobre educação
literária, ensino de literatura, didática da literatura e letramento literário; c) apresentem
propostas diversas de trabalho com o texto literário em espaços escolares, inclusive trazendo
experiências com novos suportes de leitura; e, d) sistematizem reflexões a respeito da
formação e das práticas de professores para a mediação no ensino de literatura (da educação
básica a de ensino superior). O objetivo essencial, sempre considerando a contemporaneidade
e seus elementos constituintes, é reunir pesquisadores para uma reflexão sobre os rumos do
letramento literário, identificando e divulgando discussões e experiências de leitura literária
criativas e eficazes para o espaço escolar; sobretudo, o objetivo é o de propor alternativas
aplicadas, reais, concretas para a situação atual acima apresentada.

Palavras-chave: sociedade contemporânea; ensino; leituras; literatura.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

83
ELEMENTOS PARA A DISCUSSÃO DE POLÍTICAS PARA A DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO À
LEITURA A PARTIR DE DUAS PESQUISAS SOBRE PRÁTICAS LEITORAS DE JOVENS

Raquel Bello Vázquez

A BNCC E O CAMPO DE ATUAÇÃO ARTÍSTICO-LITERÁRIO: O ESPAÇO AOS ESTUDOS LITERÁRIOS


NO ENSINO FUNDAMENTAL

Kátia Chiaradia

O LIVRO DIDÁTICO TECENDO LINGUAGENS - 6º ANO (2015) E A FORMAÇÃO DE LEITORES


LITERÁRIOS

Marisa Rodrigues Lopes dos Santos

O ENSINO DE LITERATURA NA EDUCAÇÃO DO CAMPO: POSSIBILIDADES DE DIÁLOGOS COM


CULTURAS E MODOS DE VIDA

Silvia Gomes de Santana Velloso

REMIÇÃO DE PENA POR LEITURA: UMA PERSPECTIVA DE RESSOCIALIZAÇÃO NAS PRISÕES DO


DF

Ana Cristina de Castro

16/07 (TARDE)

FORMAÇÃO DE LEITORES NO CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS: A SUBJETIVIDADE EM


CAUSA

Sheila Oliveira Lima

O ENSINO DE LITERATURA NA EDUCAÇÃO BÁSICA E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES – O CASO


DA CRÔNICA

84
Marcos Scheffel

LEITURA, LITERATURA E FORMAÇÃO DE LEITORES: REPRESENTAÇÕES DE PROFESSORES

Juliana Fermino

OFICINA DE POESIA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: CONTRIBUIÇÕES, ASPECTOS PRÁTICOS E


LIMITAÇÕES

Diego Grando

O TEXTO LITERÁRIO NO ENSINO MÉDIO PÚBLICO HOJE: (IM)POSSIBILIDADES DE LEITURA

Eduardo Dias da Silva

17/07 (MANHÃ)

LETRAMENTO LITERÁRIO E FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA E A CULTURA DE PAZ:


PROPOSIÇÕES DE PRÁTICAS LEITORAS

Luana Teixeira Porto

A LEITURA LITERÁRIA NAS ESCOLAS

Lorena Ribeiro Melo

LITERATURA NAS ESCOLAS: UMA URGENTE REFLEXÃO

Noêmia Coutinho Pereira Lopes

CLUBE DO LIVRO – UMA PERSPECTIVA CONTEMPORÂNEA NO ENSINO LITERÁRIO NAS ESCOLAS


ESTADUAIS DE IMPERATRIZ- MA

Samanta Barreto Matos de Souza

85
LITERATURA NA REDE: BOOKTUBERS COMO MEDIADORES DE LEITURA

Rebeca Mendes Garcia e Adriana Demite Stephani

17/07 (TARDE)

A RELEITURA DOS CLÁSSICOS NO MEIO DIGITAL

Patrícia Lopes da Silva

LETRAMENTO LITERÁRIO: ELO ENTRE A LITERATURA DIGITAL E A LITERATURA CANONIZADA

Ueslene Coelho de Sousa Ramos

LITERATURA CONTEMPORÂNEA NA SALA DE AULA: UMA EXPERIÊNCIA COM DESESTERRO, DE


SHEYLA SMANIOTO

Silvia de Paula Bezerra

ESCOLA, LEITURA E DISPUTAS LITERÁRIAS: O CASO DA POLÊMICA SOBRE A OBRA DE


MONTEIRO LOBATO

Filipe Rodrigues dos Santos

25 - ENTRE A CRISE E A SOBREVIVÊNCIA: NARRATIVAS DISTÓPICAS


CONTEMPORÂNEAS
Coordenação: Profa. Dra. Júlia Braga Neves (Centro Universitário IESB); Profa. Dra. Marina
Pereira Penteado (FURG)

Resumo: Ao longo das últimas décadas, a produção de narrativas distópicas cresceu


significativamente. Embora o termo distopia tenha sido utilizado pela primeira vez por John
Stuart Mill, em 1868, como o antônimo de utopia (JACOBY, 2007, p. 222), seu conceito foi
melhor trabalhado durante os séculos XX e XXI. Caracterizado muitas vezes como uma

86
categoria genérica única, na qual se pressupõe uma sociedade imaginária, geralmente
ambientada no futuro, com estrutura própria e que, ao contrário da utopia, apresenta um
universo mais degradado que o contemporâneo, a manifestação de termos como “distopia
crítica” (BACCOLINI, MOYLAN, 2003) e “ustopia” (ATWOOD, 2011) colocam em evidência a
pluralidade de definições do subgênero.

Teóricos como Alexandra Aldridge ainda estabelecem uma relação entre a distopia e os temas
científicos e tecnológicos típicos da ficção científica (ALDRIDGE, 1984), excluindo obras
canônicas como 1984, de George Orwell, de sua classificação. No entanto, estudiosos, como
M. Keith Booker, abrem a definição de distopia ao relacioná-la com a crítica às condições
sociais ou sistemas políticos existentes (BOOKER, 1994), permitindo que outros tipos de ficção
especulativa sejam vistos como distópicos e não apenas a ficção científica. Propomos neste
simpósio discutir conceitos de distopia, bem como tecer um debate sobre narrativas distópicas
contemporâneas que, além de tratar da sociedade de controle e do medo do autoritarismo,
têm enfatizado a destruição ambiental e as ansiedades em relação ao corpo.

Se após o colapso dos estados socialistas o número de obras distópicas aumentou,


recentemente, com as contranarrativas ao aquecimento global, o crescimento dos
movimentos de extrema direita no cenário político nacional e internacional e com a
consolidação do neoliberalismo como forma de governança, essas narrativas têm chamado
ainda mais atenção da crítica. Enquanto catástrofes ambientais trazem à tona a discussão
sobre a intensificação da intromissão tecnológica na natureza, como vemos em a Trilogia
MaddAddam (2003, 2009, 2013), de Margaret Atwood, e na série Parábolas (1995, 1998), de
Octavia Butler, o controle sobre o corpo também aparece como temática frequente, como em
O conto da aia (1985), de Atwood, e também no romance da alemã Juli Zeh, Corpus Delicti: um
processo (2013).

Muitas vezes, as narrativas distópicas recorrem ao transhumanismo para refletir sobre formas
de impulsionar a evolução do intelecto e da fisionomia da espécie humana, aumentando assim
a expectativa de vida e a “liberdade reprodutiva” e eliminando doenças que comprometam a
capacidade de performance do ser humano (BOSTROM, 2005). É nesse sentido que o
transhumanismo relaciona-se com o conceito foucaultiano de biopoder, pois à medida que se
estende a vida e se aprimora o corpo, amplia-se também a capacidade de força de trabalho,
regulam-se as formas de reprodução e excluem-se aqueles que não podem ou não conseguem
adequar-se aos padrões (HALL, 2017). Ao intensificar a centralidade e a sobrevivência do ser
humano, surge também a discussão sobre uma nova era: a do Antropoceno. Popularizado em
2002 pelo químico Paul Cruzten, este termo tem sido usado por um grande número de
cientistas e pesquisadores para discutir as alterações que o planeta sofreu por causa da
interferência humana nos últimos anos (TREXLER, 2015).

Nosso simpósio tem como objetivo discutir obras literárias, filmes e séries que reflitam sobre
cenários distópicos. Abrimos espaço para contribuições que contemplem a distopia em relação
às mudanças climáticas, ao autoritarismo e nacionalismo, ao controle sobre os corpos,
principalmente no que se refere a minorias identitárias, e também às questões tecnológicas e
científicas no transhumanismo e no Antropoceno.

Referências:

ALDRIDGE, Alexandra. The scientific world view in dystopia. Ann Arbor: UMI Research Press,
1984.

87
ATWOOD, Margaret. Ana Deiró (trad.). O conto da aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017 [1985].

__________. Léa Viveiros de Castro (trad.). Oryx e Crake. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

__________. In Other Worlds: SF and the human imagination. New York: Nan A.
Talese/Doubleday, 2011.

__________. MaddAddam. Nova York: Anchor, 2013.

__________. Márcia Frazão (trad.). O Ano do Dilúvio. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

BACCOLINI, Raffaella e MOYLAN, Tom (Orgs.). Dark horizons: Science fiction and the dystopian
imagination. New York: Routledge, 2003.

BOOKER, M. Keith. Dystopian literature: a theory and research guide. Wesport, CT: Greenwood
Press, 1994.

BOSTROM, Nick. “The Defense of Posthuman Dignity”. In: Bioethics n. 19, 2005, pp. 202-214.

BUTLER, Octavia. Carolina Coelho (trad.). A Parábola do Semeador. Campinas: Editora Morro
Branco, 2018.

HALL, Melinda. The Bioethics of Enhancement: Transhumanism, Disability and Biopolitics.


Lanham: Lexington, 2017.

JACOBY, Russel. Imagem imperfeita: pensamento utópico para uma época antiutópica. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

TREXLER, Adam. Anthropocene Fictions: The Novel in a Time of Climate Change. Virginia:
University of Virginia Press, 2015. Edição Kindle.

ZEH, Juli. Marcelo Backes (trad.). Corpus Delicti: um processo. Rio de Janeiro: Record, 2013.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

O TRIUNFO DO PATRIARCADO EM O CONTO DA AIA

Adriana Madeira Coutinho

UMA DISTOPIA FEMININA: THE HANDMAID’S TALE A QUESTÃO DE GÊNERO

Ana Letícia Barbosa de Faria Gonçalves

88
O COMPONENTE EPISTEMOLÓGICO EM O CONTO DA AIA (1985), DE MARGARET ATWOOD

Mariana Mendes Flores

A INFERTILIDADE COMO METÁFORA EM THE CHILDREN OF MEN DE P.D. JAMES

Alice de Araujo Nascimento Pereira

17/07 (MANHÃ)

COMUNICAÇÃO E TECNOLOGIA: UMA ANÁLISE SEMIÓTICA DE BLACK MIRROR

Alcione Galdino Vieira

PANEM ET CIRCENSES – O PÃO E O CIRCO EM JOGOS VORAZES

Anna Carolyna Barbosa

NASCIMENTO E MORTE EM TEMPOS DE SINGULARIDADE TECNOLÓGICA

Marcelo Gustavo Costa de Brito

O HOMEM POSSÍVEL?: FORMAS DO HUMANO NAS RELAÇŌES ENTRE UTOPIA, DISTOPIA E


HISTÓRIA

Almir Gomes de Jesus

SENHOR DAS MOSCAS – A DISTOPIA DO SER HUMANO

Mônica Lopes Névoa Guimarães

18/07 (MANHÃ)

A AMBIGUIDADE DISTÓPICA NA TRILOGIA “XENOGENESIS”, DE OCTAVIA BUTLER

Gabriela Bruschini Grecca

89
A ANGÚSTIA DA INCERTEZA: SÍNDROME PRÉ-TRAUMA EM BOCA RATON E GHOST AND
EMPTIES, DE LAUREN GROFF

Delzi Alves Laranjeira

VIGIAR E PUNIR: REPRESENTAÇŌES DO NEOLIBERALISMO E TRANSUMANISMO EM “CORPUS


DELICTI: UM PROCESSO” DE JULI ZEH

Júlia Braga Neves

DEPOIS DO SONHO AMERICANO: PESADELO E SOBREVIVÊNCIA EM GOLD FAME CITRUS, DE


CLAIRE VAYE WATKINS

Marina Pereira Penteado

26 - EPISTEMOLOGIAS DO ROMANCE: PERCEPÇÕES ESTÉTICIAS E


SOCIOLÓGICAS COMO POSSIBILIDADES DE QUESTIONAMENTOS
SOBRE A EXISTÊNCIA
Coordenação: Nailton Santos de Matos (UNINOVE); Glauco Correa da Cruz Bacic Fratric
(UNINOVE)

Resumo: Este simpósio tem por objetivo abrir espaço para reflexões sobre arte e
conhecimento. Busca-se entender os princípios que orientam as diferentes posturas
epistemológicas e suas consequências no modo de organização estética do romance, como
possibilidade de legitimação de um conhecimento sobre ser e estar no mundo. Tomando-se
como base o teóricos como Lukács (1979) e Goldmann (1967) buscou-se fundamentar uma
concepção histórico-cultural da produção dos conhecimentos como construtos orientados por
estruturas psíquicas que são homólogas à vida social. Lukács (1979, p.75) acredita que cada
fenômeno social “deve ser visto como parte de um complexo dinâmico de interação com
outros complexos, como algo que é determinado – interna e externamente – por múltiplas
leis”. Aqui reside o princípio da dialética a partir da qual é possível “compreender e explicar”
os fenômenos dentro de sua singularidade, particularidade e totalidade. Em A origem da
dialética, Goldmann (1967, p.21) afirma que “todo aquele que se propõe estudar um sistema
filosófico do passado, deve primeiro compreender as ligações entre os elementos
fundamentais desse sistema e as condições sociais nas quais vivem os homens em cujo seio
nasceu e se desenvolveu”. Esse princípio goldmanniano pode ser aplicado à análise de
qualquer produção cultural (literatura, ciência, arte, religião, mitologia etc.). De acordo com
Goldmann (1972b), o trabalho do investigador consiste em revelar a estrutura significativa que
sustenta todo comportamento humano a partir da compreensão dos traços de singularidade
dessa atividade a qual só poderá ser compreendida se inserida dentro de uma estrutura mais
vasta que lhe permita perceber os traços gerais do fenômeno dentro de uma totalidade. Desse
modo, se todo fenômeno (literatura, ciência, arte, religião etc.) tem um número maior ou
90
menor de totalidades relativas, conforme destaca Goldmann, e se cada uma dessas totalidades
tem sua significação particular no interior dos grupos sociais que produziu o fenômeno e nos
quais se encontram as categorias mentais que estruturaram o fenômeno “a inserção dessa ou
daquela visão do mundo em certas épocas precisas, resulta da situação concreta na qual se
encontra os diversos grupos humanos no decurso da história [...]” (GOLDMANN, 1979, p. 94).
Qualquer epistemologia que tenha a pretensão de explicar qualquer aspecto da realidade
deve, segundo Goldmann, ter em mente que todo fenômeno humano deve ser analisado como
processo, ou seja, dentro das relações que viabilizaram a construção dessa realidade. Para ele
(1972, p.16), os fenômenos humanos se dão de maneira dialética e só desse modo é possível
compreendê-los e explicá-los. “Talvez possamos precisar aqui os conceitos de compreensão e
de explicação: a descrição de uma estrutura significativa e de seus vínculos internos é um
fenômeno de compreensão. Mas a tentativa de descrever o futuro da estrutura mais vasta
(pois é claro que estamos sempre em presença de uma estrutura relativa composta de
estruturas parciais e que faz parte, ela própria, de estruturas mais vastas) tem um valor
explicativo relativamente à estrutura englobada.” Goldmann (1993, p.108) escreve que “o
estudo das grandes obras filosóficas e literárias demanda um trabalho de análise
extremamente cuidadoso, já que no limite é preciso tentar depreender a partir da visão de
conjunto tanto o conteúdo como a forma exterior da obra. Desse modo, a produção literária
deve ser tomada não apenas como um simples registro (mimesis) da realidade. Ela é, antes de
mais nada, a materialidade no campo da abstração da consciência possível de uma classe
social. Mesmo quando apresenta um conteúdo diferente daquele presente na consciência
coletiva, ela é, na estrutura (forma), homóloga à consciência coletiva de sua classe social e
deve, segundo Goldmann (1972, p. 64), “ajudar os homens tomar consciência de si mesmos e
de suas próprias aspirações afetivas, intelectuais e práticas”. Sendo assim, o presente
Simpósio, “Epistemologias do Romance: percepções estéticas e sociológicas como
possibilidades de questionamentos sobre a existência”, tem interesse por estudos que
exploram a relação entre literatura e sociedade de modo a sondar aspectos existenciais que
emergem da narrativa ficcional e que possibilitam reflexões sobre os modos de ser e estar no
mundo, tomando como referência os elementos estéticos inerentes à narrativa ficcional tais
como enredo, narrador, tempo, espaço, personagens e a visão de mundo por ela
representada.

Referências:

GOLDMANN, Lucien. A criação cultural nas sociedades modernas. Trad. Rolando Roque da
Silva. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972.

________. A origem da dialética: a comunidade humana e o universo em Kant. Rio de Janeiro:


Paz e Terra, 1967.

________. Ciências humanas e filosofia: o que é Sociologia? 12ª ed. Trad. Lupe Cotrim Garaude
e José Arthur Giannotti. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1993.

________. Dialética e cultura. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

LUKÁCS, Georg. Ontologia do ser social: princípios ontológicos fundamentais de Marx. Trad.
Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Ciência Humanas, 1979.

91
PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

POR UMA EPISTEMOLOGIA DO OPRIMIDO: ESTUDO DO ROMANCE O LOUCO DO CATI DE


DYONÉLIO MACHADO

Nailton Santos de Matos

DESOBEDIÊNCIA CIVIL E SOCIALISMO ENSAÍSTICOS: THOUREAU E WILDE E SUAS


MANIFESTAÇÕES DE INCONFORMIDADE A SEUS ESTADOS CONTEMPORÂNEOS

Glauco Corrêa da Cruz Bacic Fratric

O ROMANCE: EPISTEMOLOGIA DE UM GÊNERO ABERTO

Candice Firmino de Azevedo

17/07 (TARDE)

METAFICÇÃO E UM LUGAR AO SOL: UMA ANÁLISE DA CONSTRUÇÃO DO PROJETO LITERÁRIO


DE ERICO VERISSIMO A PARTIR DOS PERSONAGENS NOEL E FERNANDA

Heidy Cristina Boaventura Siqueira

O ROMANCE COMO “LABORATÓRIO” E VEÍCULO DE EXPERIMENTAÇÃO ÉTICA E ESTÉTICA:


FRAGMENTO, ENSAÍSMO E CRÍTICA À MORALIDADE EM O HOMEM SEM QUALIDADES, DE
ROBERT MUSIL

Igor Andreas Rodrigues Bandim

DOIS RETRATOS DE PROTAGONISTAS ROMANESCAS EM DEFORMAÇÃO GROTESCA: UM SOPRO


DE VIDA: PULSAÇÕES, DE CLARICE LISPECTOR E ESTAR SENDO. TER SIDO, DE HILDA HILST

Joel Rosa de Almeida

18/07 (MANHÃ)

92
MEFISTÓFELES: O MAL COMO NECESSIDADE EXISTENCIAL

Jonatas Alexandre Lima de Oliveira

IMAGENS E IMAGINÁRIO DE DIADORIM: UMA PERSPECTIVA QUEER EM GRANDE SERTÃO:


VEREDAS

Leandro de Bessa Oliveira

A MORTE NA PSICANÁLISE E NA LITERATURA: KAFKA E CAMUS

Thales do Rosário de Oliveira

27 - ERICO VERISSIMO, UM A(U)TOR NO MUNDO


Coordenação: Profa. Dra. Fernanda Boarin Boechat (UFPR); Prof. Dr. Zama Caixeta Nascentes
(UTFPR)

Resumo: Erico Verissimo (1905-1975), um dos escritores brasileiros mais conhecidos e


populares do século XX no Brasil, deixou claro em diversos momentos de sua carreira que
entendia o trabalho do escritor em diálogo com uma dimensão ética. Assim, observa-se que a
vida literária para Erico, a saber, a relação da própria obra literária com o mundo extraliterário,
entre obra e vida, mas também o papel político que assume o escritor por meio da obra e
graças a ela, ocupa lugar central. Isso não significa que ele entendeu que caberia à literatura
ou ao romancista dar soluções filosóficas, políticas, sociais ou econômicas, ou ainda que o
valor da literatura estaria pautado na sua capacidade de configurar no texto literário aspectos
sociais, mas no sentido de que os escritores e artistas deveriam ter uma consciência social e
política que os tornaria responsáveis, uma vez que a obra, para Erico, não parece ser objeto
alheio ao ambiente em que é concebido, ao indivíduo que o concebe ou que a recebe. É
possível observar, nesse sentido, diversas declarações do escritor – em entrevistas, ensaios e
também em sua produção ficcional – a associação recorrente do discurso literário a questões
políticas, em especial quando destaca a voz do escritor como voz requerida e desejável no
discurso extraliterário. A nosso ver, portanto, seria possível observar três aspectos centrais
quando se trata da atuação de Erico Verissimo ao longo da carreira, discutidos em seus
pronunciamentos no contexto extraliterário ou mesmo em sua obra. São eles: o escritor como
porta voz de uma voz discursiva (através de sua obra e também graças a ela), a obra literária
como voz discursiva e a linguagem em literatura como linguagem privilegiada capaz de se
inserir no mundo da vida.

É importante ressaltar que na carreira Erico atuou não só como escritor de ficção, mas
também como tradutor, editor, conselheiro literário e agente político – aqui em consideração
à sua atuação na política de Boa Vizinhança (1933-1945), quando esteve por duas vezes nos
Estados Unidos nos anos 1940, e depois dela, entre os anos 1953 e 1956, quando assumiu o

93
cargo de diretor do Departamento de Assuntos Culturais da antiga Pan American Union, hoje
Organization of American States ou “Organização dos Estados Americanos” (OEA) em
Washington D.C.. Em vista dessa ampla atuação e aos moldes referidos sobre como ela se
desenvolveu, é justo afirmar que Erico aproxima-se da figura do intelectual fruto da
modernidade, já que ele por vezes assemelha-se a um crítico social que ganha voz no espaço
público por meio de sua obra ou graças a ela, como já mencionado. Ainda nesse sentido, é
possível notar que, com a presença pública que conquistava, o escritor desenvolve sua obra à
medida que se via demandado a desenvolver e manifestar seus posicionamentos políticos.
Dessa forma, cabe destacar que Erico passa a ocupar um lugar em um diálogo que se estende
para além das fronteiras do Brasil e do literário, cujo trabalho e presença são reconhecidos em
diversos países do globo, haja vista as traduções de suas obras e a interlocução política
estabelecida com outros escritores e intelectuais. Nesse sentido, identificamos uma rede de
associações, termo do francês Bruno Latour (2012), em que os atores não são somente os
escritores, mas também as próprias obras. Trata-se de objetos/atores considerados como
mediadores, ou seja, instâncias que não somente transportam significados em um social
construído de associações, mas como instâncias que podem transformar, traduzir, modificar e
até distorcer significados em uma “rede em trabalho” ou, como Latour (2012, p. 65) menciona,
uma worknet.

A referida teoria do Ator Rede, de Bruno Latour (2012), dá-nos subsídios para propor um
simpósio que visa discutir aspectos da obra de Erico Verissimo não em vias solipsistas, mas
cujos traços apontam para a mencionada relação obra e vida, assim como para a inserção
intelectual do escritor. Trata-se de observarmos e discutirmos, a partir da obra literária, o
contexto maior em que ela se insere. A partir da produção literária de Erico Verissimo – que
compreende romances, contos e narrativas de viagem –, assim como em consideração a suas
atuações específicas mencionadas aqui – de tradutor, editor, conselheiro literário e agente
político –, abrigaremos trabalhos no presente simpósio que de alguma forma apontem para a
ideia de um projeto literário de um a(u)tor que constantemente chama atenção para a relação
entre obra e vida sem que caiamos em biografismos simplicistas sobre a produção do escritor.

Referências:

BOECHAT, Fernanda Boarin. O vaivém dum gato: interfaces entre ficção e realidade nas
narrativas de viagem Gato preto em campo de neve e A volta do gato preto de Erico Verissimo.
415 f. Tese (Doutorado em Letras), Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2017.

BORDINI, Maria da Gloria. Criação literária em Erico Verissimo. Porto Alegre: L&PM Editores:
EDIPUCRS, 1995.

CÁNDIDA SMITH, Richard. Improvised continent: pan-americanism and cultural exchange.


Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 2017.

LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede. Tradução de


Gilson César Cardoso de Sousa. Salvador: EDUFBA, Bauru: EDUSC, 2012.

MINCHILLO, Carlos Cortez. Erico Verissimo, escritor do mundo. São Paulo: Edusp, 2016.

NEUNDORF, Alexandro. A emergência da modernidade na França durante o Segundo Império:


Das “Flores do Mal” de Baudelaire ao “J’accuse” de Zola. 262 f. Tese (Doutorado em História),
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2013.

94
VERISSIMO, Erico. Um lugar ao sol. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1936.

______. Viagem através da literatura americana. Rio de Janeiro: Instituto Brasil-Estados


Unidos, 1941.

______. As mãos do meu filho: contos e artigos. Porto Alegre: Edições Meridiano,1942.

______. Brazilian literature: an outline. New York: Macmillan, 1945.

______. Noite e sonata. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1954.

______. Fantoches e outros contos e artigos. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1956.

______. Gato preto em campo de neve. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1956.

______. O ataque. Rio de Janeiro: Editora Globo. s/d.

______. O prisioneiro. Porto Alegre: Editora Globo, 1970.

______. Um certo Henrique Bertaso: pequeno retrato em que o pintor também aparece. Porto
Alegre: Editora Globo, 1972.

______. Solo de clarineta: memórias. Porto Alegre: Editora Globo, 1973. vol. 1

______. Solo de clarineta: memórias. Porto Alegre: Editora Globo, 1976. vol. 2

______. O senhor embaixador. Porto Alegre: Editora Globo, 1976.

______. Música ao longe. São Paulo: Círculo do livro, 1978.

______. Clarissa. Porto Alegre: Editora Globo, 1980.

______. O resto é silêncio. Porto Alegre: Editora Globo, 1980.

______. A volta do gato preto. 11. ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1980.

______. México. Porto Alegre: Editora Globo, 1980.

______. Olhai os lírios do campo. Porto Alegre: Editora Globo, 1985.

______. Israel em abril. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1987.

______. Caminhos cruzados. São Paulo: Editora Globo, 1989.

______. Saga. São Paulo: Editora Globo, 1995.

______. Breve história da literatura brasileira. Tradução de Maria da Glória Bordini. São Paulo:
Editora Globo, 1997.

______. A liberdade de escrever: entrevistas sobre literatura e política. Org. Maria da Glória
Bordini. São Paulo: Editora Globo, 1999.

______. Incidente em Antares. São Paulo: Editora Globo, 1999.

______. O tempo e o vento, parte I: O Continente I. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.

95
______. O tempo e o vento, parte I: O Continente II. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.

______. O tempo e o vento, parte II: O Retrato I. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.

______. O tempo e o vento, parte II: O Retrato II. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.

______. O tempo e o vento, parte III: O Arquipélago I. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.

______. O tempo e o vento, parte III: O Arquipélago II. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.

______. O tempo e o vento, parte III: O Arquipélago III. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.

______. Do diário de Sílvia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

ÉRICO VERÍSSIMO: DISCURSO LITERÁRIO E O CONTEXTO SOCIAL EM INCIDENTE EM ANTARES

Daniela de Oliveira Lima

O PERSONAGEM-ESCRITOR NOEL E O REALISMO COMO FORMA DE ACESSO À VIDA

Jaqueline Borges de Queiroz

“A MONTANHA MÁGICA” E “O TEMPO E O VENTO”: APROXIMAÇÕES ENTRE O ROMANCE DE


THOMAS MANN E O DE ERICO VERISSIMO

Zama Caixeta Nascentes

DOS ESTADOS UNIDOS A ISRAEL: TRAJETÓRIAS TRANSVERSAIS DE ERICO VERISSIMO

Fernanda Boarin Boechat

28 - ESCRITAS CONTEMPORÂNEAS: INCURSÕES, AVALIAÇÕES E


DESAFIOS AO COMPARATIVISMO

96
Coordenação: Adeítalo Manoel Pinho (UEFS-BA); Maria de Fátima Gonçalves Lima (PUC-GOIÁS)

Resumo: Esta proposta é a continuação de simpósio realizado nos Congressos Abralic de 2015,
em Belém- PA, no Encontro 2016, no Rio de Janeiro, no Congresso Internacional 2017, no Rio
de Janeiro e 2018 em Uberlândia, MG. Dado o êxito das apresentações e discussões naquelas
oportunidades e por ser do âmbito do Projeto Procad/Capes PUC-Rio/UNEBSalvador/UEFS-
Bahia/PUC-Goiás, que irá até 2019, consideramos esta proposta decisiva para as atividades do
projeto. A continuação da proposta e realização do simpósio expressa ainda mais a
consolidação de um grupo de trabalho multi-institucional e em instância nacional dentro do
projeto. Para delinear os desafios presentes no título deste Simpósio, e aqui propostos para
seguir como um convite instigador a pesquisadores interessados na atualidade das práticas
culturais, artísticas e teórico-críticas, elegemos, no pequeno e exitoso ensaio de Giorgio
Agamben, uma das suas postulações a O que é o contemporâneo: "Contemporâneo é aquele
que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro." A
imagem potente de um "escuro" do tempo delineia metaforicamente a problemática a ser
compartilhada pelos pesquisadores, em vertentes ou perspectivas compatíveis com seus
objetos de interesse e investigação. Tal imagem se impõe quando se constata que, nas últimas
décadas, na área dos estudos literários como nas ciências humanas, ocorreram alterações que
reconfiguraram os pilares do território disciplinar, abalando o domínio de objetos previsto, o
elenco de instrumentos, métodos e, expressivamente, o corpo das proposições aceites como
horizonte teórico dos estudos de literatura, outras artes e da cultura. Tais alterações
repercutiram predominantemente na diluição de fronteiras entre as disciplinas, na
multiplicação inovadora das questões e temas de investigação plausíveis para cada uma delas
e na ampliação dos instrumentos conceituais e técnicas que as singularizam. Em paralelo às
alterações no plano epistemológico, são expressivas também, nas últimas décadas, as
alterações que ocorrem no âmbito da cultura e no campo artístico, especialmente no domínio
do literário. No primeiro caso, a noção de "cultura" alargou-se, extrapolando a legitimidade
que lhe atribuíram – igualmente, mas em circunstâncias diversas – o empreendimento
civilizacional iluminista, o Estado nacional moderno e as elites cultas na alta modernidade
estética, tornando a cultura e, principalmente, o valor cultural focos de instabilidade, conflito e
disputa, por forças que saíram dos bastidores e passaram a disputar a significação cultural. Os
dois eixos da significação e valor que atravessaram a área de Letras, afetando o âmbito dos
estudos comparados: por um lado, problematiza-se a ligação mutuamente legitimadora entre
literatura e nacionalidade, parte do processo de constituição dos estados modernos e matriz
de toda a historiografia que por um século pautou os estudos da literatura; por outro, dá-se a
contestação ao confinamento do valor cultural à esfera erudita, às artes canônicas e,
consequentemente, à separação entre arte, cultura e o que pensadores como Edward Said e
Stuart Hall designaram como a "mundanidade".Em grande parte, emanam deste cenário de
mudanças epistemológicas e culturais o "escuro do tempo" ou os desafios do contemporâneo,
que constituem o campo temático do debate aqui proposto, que deverá confrontar-se com o
caráter intempestivo, insurgente ou disruptor da contemporaneidade, sistematizando e
provendo instrumental teórico e crítico para lidar com as suas diversas dimensões ou
concreções. O deslocamento ou a recusa de hierarquias instituídas tanto na dimensão
epistemológica quanto na dimensão artísticocriativa geram a oportunidade para que estejam
sob o foco deste Simpósio – como desafios que emergem das zonas de sombras do
contemporâneo – as formas, expressões e domínios de experiência recalcados ou preteridos e
sua potência intempestiva, tais como: (a) o corpo, em sua materialidade e enquanto superfície

97
de inscrição e energia ético-estética; (b) os afetos, enquanto força disruptora a dar ensejo a
outras formas de experiência e representação das vivências; (c) o comum e o cotidiano
enquanto categorias transversais da cultura, a mobilizar uma rede de significados que
remetem a espaços periféricos, tanto no cenário político e sociocultural quanto nos cenários
textuais e artísticos; (d) a violência, a exclusão e a cidade como figurações do presente que
convulsionam os limites da representação ao instaurarem, em diversas linguagens artísticas;
(e) a lógica do testemunho, do biográfico e do documental, em flagrante desafio à
compreensão estabilizada do que seria próprio do domínio ficcional. Ao acolher as
perspectivas dos estudos de literatura e de outras linguagens artísticas, bem como dos estudos
de produções, práticas e políticas da cultura, incorporando as dimensões de materialidade, de
performatividade e de insurgência, próprias das estratégias criativas da atualidade, este
Simpósio ambiciona empreender não apenas uma discussão estética e política que possibilite a
acolhida analítica das forças e das formas artísticas e culturais do presente, mas – e
principalmente – acentuar uma potência inovadora e transformadora que possa afetar práticas
investigativas, formativas e educacionais na sociedade brasileira contemporânea.
REFERÊNCIAS AGAMBEM, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó:
Editora Argos, 2009. HALL, Stuart. Da diáspora. Org. Liv Sovik. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.
SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

VIVÊNCIAS A BRASILEIRA NO SÉCULO XIX: ABISMOS ENTRE O POBRE E A REPÚBLICA

Adeítalo Manoel Pinho (UEFS-BA)

DEVIR HISTÓRICO E A CRÔNICA DRUMMONDIANA: ESCRITAS CONTEMPORÂNEAS PARA O


JORNAL CORREIO DA MANHÃ

Moema de Souza Esmeraldo (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)

A POESIA LÍRICA DE LUIZ GAMA EM PRIMEIRAS TROVAS BURLESCAS DE GETULINO

Magnólia Ferreira Cruz da Paixão (UEFS)

O DESBRAVAR DO SERTÃO PELO RETIRANTE.

Wanice Garcia Barbosa (PUCGO)

98
16/07 (TARDE)

CIBERECOPOESIA E IMAGINÁRIO EM IMPROVISUAIS, DE GILBERTO MENDONÇA TELES

Késia Brasil Pereira Nacif (PUCGO) e Maria de Fátima Gonçalves Lima (PUCGO)

MULHERES PRODIGIOSAS: NA HISTÓRIA DA LITERATURA E NA EXPRESSIVIDADE LÍRICA DE


GOIÁS EM CORA CORALINA E LEODEGÁRIA DE JESUS

Marta Bonach Gomes (PUCGO)

A ARTE DE FREI CONFALONI

Maria Abadia Silva (PUC GOIAS)

CONTEMPORÂNEIDADES

Edna Gomes de Sousa Leão (PUC Go)

17/07 (MANHÃ)

MINIATURIZAÇÃO LITERÁRIA: A ESCRITA E O TEMPO NA CONTEMPORANEIDADE

Elizabeth Gonzaga de Lima (UNEB-BA)

JOÃO GUIMARÃES ROSA: UM INTÉRPRETE DO BRASIL

CRISTIANO SANTOS ARAUJO (FacUnicamps)

FRANCISCO DE GOYA E A RAZÃO NOTURNA: UMA ANÁLISE DA GRAVURA O SONO/SONHO DA


RAZÃO PRODUZ MONSTROS (1799)

Paula Cristina Gomes do Amparo (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

A NARRATIVA CONTEMPORÂNEA EM GOIÁS – UMA LEITURA DO ROMANCE AS LESMAS DE


HELENO GODOY

Raphaela Pacelli Procópio (UFU)


99
MAPEAMENTO COGNITIVO E MELODRAMA NAS SÉRIES DE DAVID SIMON

André Ferreira Gomes de Carvalho (Universidade Federal de Santa Catarina)

29 – ESCRITAS DE SI: DIÁRIOS, CARTAS, TESTEMUNHO, AUTOFICÇÕES


EM NARRATIVAS, POEMAS OU OUTRAS ARTES ESCRITAS E
ELABORADAS POR ESCRITORES LATINO AMERICANOS
Coordenação: Margareth Torres de Alencar Costa (UESPI); Susana Beatriz Cella (UBA).

Resumo: A fala de si mesma na terceira pessoa, chamando-se pelo próprio nome, ocorre bem
antes de compreender que também pode utilizar a primeira pessoa. Em seguida, todos
utilizam “eu” para falar de si, mas esse “eu”, para cada um, remeterá a um nome único que
poderá, a qualquer momento, ser enunciado. Todas as identificações (fáceis, difíceis ou
indeterminadas) acabam fatalmente convertendo a primeira pessoa em um nome próprio.
Para Lejeune (2008), um autor não é uma pessoa. É uma pessoa que escreve e publica.
Inscrito, a um só tempo, no texto e no extratexto, ele é a linha de contato entre eles. O autor
se define como sendo simultaneamente uma pessoa real, socialmente responsável, e produtor
de um discurso. Para o leitor, que não conhece a pessoa real, embora creia em sua existência,
o autor se define como a pessoa capaz de produzir aquele discurso e imaginá-lo, então, “a
partir do que ele produz. [...] se a autobiografia é um primeiro livro, seu autor é
consequentemente um desconhecido, mesmo se o que conta é sua própria história, falta-lhe,
aos olhos do leitor, esse signo de realidade que é a produção anterior de outros textos (não
autobiográficos), indispensáveis ao que Lejeune chama de “espaço autobiográfico”.
Autoficção, termo utilizado contemporaneamente para se referir à autobiografia ficcional,
teve como precursor Doubrovsky (1977) em seu romance Fils. A noção de autoficção, de
acordo com esse autor, difere da teoria proposta por Lejeune (2005) na medida em que um
autor pode optar por contar sua vida em 1ª ou 3ª pessoa, utilizando os elementos ficcionais a
serviço de uma busca pela autoficção. No entanto Gusdorf ( 1991) afirma que as teses sobre a
escrita de si foi o centro das discussões do seu trabalho e continha um estudo crítico do que
seja autobiografia.“Cet arrièreplan commémoratif d’une expérience de vie, menée à bien dans
la peine, dans la joie et dans l’honneur, sous-tend d’une manière inapparente ce livre.
(GUSDORF, 1991,p.12). No que diz respeito à literatura de testemunho, o estudo
memorialístico é importante porque apresenta diversas partes da obra em que personagens
rememoram as experiências traumáticas vividas individual ou coletivamente. Essa presença,
no texto literário, revela personagens angustiados com a situação desumana a qual foram
submetidos; podem caracterizar lembranças do convívio familiar, que retornam à mente do
narrador. A memória coletiva é formada por lembranças dos indivíduos, ou seja, de vários
grupos dos quais eles fazem parte. Paul Ricoeur (2007) chama a atenção para o fato de a
memória e a história estarem juntas, ainda que de modo conflitivo. A contribuição de
Seligmann-Silva (2003), Halbwachs (2006) e de Candido (2006), considerando que todos os
acontecimentos e narrativas se passam no convívio em sociedade, viabilizará reflexão e
entendimento sobre as narrativas de si escritas por mulheres em todas as épocas. Mesmo
assim a posição de Gusdorf (1991) rebate alguns conceitos propostos por estes teóricos e
100
como ele mesmo afirma: “On appelle « mémoires » d’un personnage le récit fait par lui-même
des événements de sa vie, curieux pluriel, au sujet duquel les lexicographes ne semblent pas
s’être interrogés. Or les mémoires appartiennent au genre autobiographique, avec une
insistance sur les événements objectifs plutôt que sur le vécu subjectif ; mais la ligne de
démarcation entre Mémoires proprement dits et Autobiographie n’est pas claire ; les mémoires
sont des autobiographies, même si la réciproque ne semble pas être vraie. (GUSDOR,
1991,p.14). Com relação á escrita de si através das outras artes vimos obras literárias
pertencentes a este gênero transpostas ao cinema, aos quadros, em formato de graffiti nos
muros da cidade ou vice verso, é possível ver telas, e filmes serem traduzidos aos textos ou ás
músicas. Nesse sentido Santaella ( 2004) explica que o letor do século XXI é o “leitor
movemente, aquele que surge do mundo em movimento, dinâmico, mundo híbrido, de
misturas químicas, um leitor que é filho da Revolução Industrial e do aparecimento dos
grandes centros urbanos: o homem na multidão” (SANTAELLA, 2004, p.19).Assim sendo, este
simpósio pretende contribuir para a reflexão dos textos produzidos em prosa, poesia e outras
artes no contexto da história, da memória, das literaturas de si, recebendo propostas de
trabalhos que debatam os escritos produzidos por autores oriundos da América Latina ou que
nela se fixaram adquirindo nacionalidade latino Americana.

Palavras-chave: Escritas de si; narrativas em prosa, poesia e outras artes. escritores latino
americanos

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

SUBJETIVIDAD Y TESTIMÓNIO EN HASTA NO VERTE JESÚS MÍO DE LA ESCRITORA MEXICANA


ELENA PONIATOWSKA

Susana Beatriz Cella

MALALA: MEMÓRIA COLETIVA, TESTEMUNHO E SUBJETIVIDADE NA OBRA DE ADRIANA


CARRANCA

Marisa Aparecida Loures de Araújo Barros e Marcos Paulo de Araújo Barros

RIGOBERTA MENCHÚ TUM: SUBJETIVIDAD, TESTIMONIO Y ESCRITA AUTO FICCIONAL

Margareth Torres de Alencar Costa

A AUTOFICÇÃO E O ENSAIO: UMA LEITURA DO ROMANCE MACHADO DE SILVIANO SANTIAGO

101
Marília do Nascimento Costa

“ESCREVO PARA QUE ME ESCUTEM”: OS DIÁRIOS DE LÚCIO CARDOSO

Daniele Ribeiro Fortuna

16/07 (TARDE)

ANTROPOLOGIA, ETNOGRAFIA E ESCRITAS DO EU EM DARCY RIBEIRO, DAVI KOPENAWA E


BRUCE ALBERT

Ananda Nehmy de Almeida

EXISTINDO MORRO SENDO: MEMÓRIA DE SI EM ESTAR SENDO. TER SIDO DE HILDA HILST

Anne Louise Dias

OS CAMINHOS DIFERENTES DA RECEPÇÃO DO PACTO-AMBÍGUO E A CONFIGURAÇÃO DA OBRA


LITERÁRIA COMO MEMÓRIA

Edson Ribeiro da Silva

O ESPAÇO DA VOZ FEMININA NOS DIÁRIOS DE ALEJANDRA PIZARNIK

Erlândia Ribeiro da Silva

A SUBJETIVIDADE DA MISÉRIA EM QUARTO DE DESPEJO

Flaviana de Castro Silva

17/07 (MANHÃ)

PROSA E LOUCURA: O DIÁRIO DE MAURA LOPES CANÇADO

Luana Martins de Arruda

102
AS ESCRITAS DE SI NAS CARTAS POÉTICAS DE ANA CRISTINA CÉSAR

Mariana Nunes de Freitas

DO ABISMO NA FACE AO VÓRTICE DA MEMÓRIA: A RECONSTRUÇÃO DE SI ATRAVÉS DA


ESCRITA, UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE A NOVELA O ENFEITIÇADO DE LÚCIO CARDOSO
E A TELA FACE A FACE COM O ABISMO, DE SUSANO CORREIA

Marina Couto Ribeiro

TESTEMUNHOS DO FEMINICÍDIO NA ARGENTINA E NO MÉXICO

Carlos Magno Gomes

AUTORES DE MEMÓRIAS: METAFICÇÃO EM "EM LIBERDADE" E "EL SECRETO DE SUS OJOS"

Mariana Perizzolo Lencina

17/07 (TARDE)

LIMA BARRETO, CLARA DOS ANJOS E UMA ESTÉTICA DO PROCESSO

Giovani Tridapalli Kurz

VERDADES CONSTRUÍDAS

Guilherme Azambuja Castro

A CORRESPONDÊNCIA DE GABO: ENTRE AS LINHAS DE CEM ANOS DE SOLIDÃO

Joana de Fátima Rodrigues

CLARICE LISPECTOR: NAS ENTRELINHAS DA FICÇÃO

Regiane Aparecida de Oliveira Souza

103
URDIDURAS DO RESSENTIMENTO EM HILDA HILST

Rodrigo Santos de Oliveira

A FIGURA INCLINADA DE ANDRÉS CAICEDO: RETRATO INCESSANTE DE UM ESCRITOR SOB O


INFLUXO DE SATURNO

Gustavo Osorio Agredo

30 - ESCRITAS DE SI: QUESTÕES CONTEMPORÂNEAS


Coordenação: Profa. Dra. Carolina Duarte Damasceno (UFU); Prof. Dr. Júlio de Souza Valle Neto
(UNIFESP); Prof. Dr. Ricardo Gaiotto de Moraes (PUC-Campinas)

Resumo: No Congresso ABRALIC 2018, o simpósio “Escritas de si na contemporaneidade:


pactos e desdobramentos” contou com a participação vivaz de pesquisadores de diferentes
universidades brasileiras. As comunicações, ao analisarem em largo espectro as escritas
marcadas pelas interferências explícitas e performáticas do eu, criaram espaço propício para
discussões profícuas sobre um dos temas proeminentes nos estudos literários
contemporâneos. Neste ABRALIC 2019, o simpósio “Escritas de si: questões contemporâneas”
reabre o espaço de reflexões sobre a “escrita de si”, realçando alguns dos aspectos de
interesse explorados na edição passada.

Como observa Starobinski (1970), as escritas pessoais, pautadas pela memória e pela
(re)construção de imagens do passado e de si, sempre apresentaram uma tendência a
desembocarem na invenção, a despeito das promessas de sinceridade e fidelidade à
experiência vivida. Embora sempre tenha havido fronteiras entre as escritas de si e o universo
ficcional, elas somente foram problematizadas pelos escritores a partir do século XX.

Na contemporaneidade, as formas de analisar a sinceridade e as escritas de si tornaram ainda


mais inglórias as tentativas de “transformar o matagal da literatura do eu em jardim à
francesa” (LEJEUNE, 2014, p. 21). Com a crítica à noção de sujeito, convenção de mais a mais
problematizada, uma pergunta essencial para os gêneros pessoais – quem é o “eu” que
escreve – ganha novas dimensões. Em O pacto autobiográfico, Lejeune (2014, p. 15-55)
apresentou critérios que estabeleceriam os aspectos a partir dos quais o leitor passaria a ler
uma narrativa considerando-a um relato de caráter factual, cujo reconhecimento seria
condição para se estabelecer um pacto de confiabilidade com o leitor.

O termo autoficção foi lançado pela primeira vez por Serge Doubrovsky em Fils, publicado em
1977. De acordo com Jacques Lecarme, a autoficção consistiria em um dispositivo muito
simples, “uma narrativa cujo autor, narrador e protagonista compartilham da mesma
identidade nominal e cuja denominação genérica indicia que se trata de um romance” (2014,
p. 68). A novidade deste dispositivo instauraria um novo pacto ambíguo diante do leitor, uma
vez que, agora, se a coincidência entre narrador/protagonista/nome do autor levaria a uma
confiança no caráter factual da narrativa, a caracterização do texto como ficção levaria a uma
104
suspensão dessa mesma confiança.

Se por um lado a coincidência entre tais instâncias, na autobiografia e na autoficção, opõe


alguma resistência à guinada pós-estruturalista que, como se sabe, anunciava a “morte do
autor” (BARTHES, 2004), por outro o mergulho no “mundo ficcional”, específico da autoficção,
aponta para a impossibilidade de definir o factual, tendo em vista que seu suposto referente, a
realidade, passa por análoga dificuldade de conceituação – como lembra David Roas, “a
realidade deixou de ser uma entidade ontologicamente estável e única, passando a ser
contemplada como uma convenção, uma construção, um modelo criado pelos seres humanos”
(2014, p. 86).

Para Manuel Alberca (2013), apesar da consciência da impossibilidade de reconstituição do


real, a diferença entre autoficção e autobiografia estaria no fato de que, nesta última, o autor
parte do pressuposto de que sua narrativa não é apenas ficção. Sobretudo a autoficção, mas
também a autobiografia e o memorialismo, possibilitariam a multiplicação das personalidades
do autor, caracterizando o gênero como um produto do mundo pós-moderno, devido à
impossibilidade de se definir uma unidade para o sujeito. Nesse sentido, a partir das reflexões
de Lipovetsky, Manuel Alberca afirma que a autoficção situa-se na falta de compromisso do
sujeito contemporâneo em preocupar-se com a edificação de seu próprio ego (entidade, como
se sabe, imprecisa e cambiante). Assim, a autoficção consistiria em “una estrategia creativa
que fluctúa entre lo inventado y lo real, entre lo novelesco y lo autobiográfico, en la que poder
seguir el ego” (2013, loc. 4001).

Este Simpósio propõe-se a estimular o debate sobre as escritas de si, abrangendo trabalhos
que as abordem enquanto forma de expressão marcadamente literária, isto é, enquanto
documento relevante para ramos distintos dos estudos literários (historiográficos, biográficos,
hermenêuticos); em suas consequências para noções-chave da crítica (como o conceito de
autor), bem como para variadas correntes da teoria literária; como ponto de indagação
privilegiado na compreensão de diferentes obras em língua portuguesa e estrangeira – enfim,
como forma de reabrir a discussão em suas inflexões contemporâneas mais sugestivas,
capazes de aclarar a literatura de ontem e de hoje.

Referências

ALBERCA, M. El pacto ambiguo: de la novela autobiográfica a la autoficción. Madri: Biblioteca


Nueva, 2013.

BARTHES, R. A morte do autor. In Rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo: Martins
Fontes, 2004.

LECARME, J. Autoficção: um mau gênero? In: NORONHA, J. M. G. Ensaios sobre a autoficção.


Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

LEJEUNE, P. Autoficção & CIA. In: NORONHA, J. M. G. Ensaios sobre a autoficção. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2014.

ROAS, D. A ameaça do fantástico: aproximações teóricas. São Paulo: Editora Unesp, 2014.

STAROBINSKI. Le style de l’autobiographie. Poétique. Paris, v. 3, p.257-265, 1970.

105
PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

DIÁLOGOS EPISTOLARES: A CARTA COMO LABORATÓRIO OU ARQUIVO DE CRIAÇÃO LITERÁRIA

Carlos Augusto Moraes Silva

A ESCRITA DE SI SOB A FORMA DE DIÁRIO, NA OBRA TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO, DE


AGUALUSA

Christiane Gonçalves dos Reis

AUTOBIOGRAFIA E AUTOFICÇÃO, NO ROMANCE GRÁFICO MAUS DE ART SPIEGELMAN

Fátima Aparecida Campos de Oliveira

ESCRITA DA MATERNIDADE, INFÂNCIA E MORTE: REGISTROS LITERÁRIOS DE MÃES DE ANJOS

Giselly dos Santos Peregrino

16/07 (TARDE)

A RELATIVIZAÇÃO DA NORMALIDADE EM O FILHO ETERNO, DE CRISTOVÃO TEZZA E NASCER


DUAS VEZES, DE GIUSEPPE PONTIGGIA (2000)

Carolina Duarte Damasceno

ESCRITA E MEMÓRIA: O USO DA AUTOFICÇÃO COMO FERRAMENTA DA ELABORAÇÃO


TRAUMÁTICA EM A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS, DE MARCELO MALUF

Mirvana Luz Teixeira

IDENTIDADE E AUTOFICÇÃO EM O MAL DE MONTANO, DE ENRIQUE VILA-MATAS

Rosana Arruda de Souza

106
REINALDO SANTOS NEVES: ROMANCE LATO SENSU

Eduardo Costa Madeira

LIBERDADE PARA AS ESTRELAS: ESCRITAS DE SI E RELATOS DE LEMBRANÇAS

Ana Flávia Araújo Dias

17/07 (MANHÃ)

HERMENÊUTICAS DE SI NA DEVASSIDÃO DO PARAÍSO AUTOBIOGRÁFICO: "PAI, PAI", DE JOÃO


SILVÉRIO TREVISAN

Ricardo Gaiotto de Moraes

INFÂNCIA: PALAVRAS E IMAGENS DA MEMÓRIA

Talita Mochiute Cruz

DECLÍNIO DE UM HOMEM: DESESPERO E ANGÚSTIA NA OBRA DE OSAMU DAZAI

André Luiz Rodrigues Marinho

AUTOBIOGRAFIA: UM GÊNERO RESSIGNIFICADO

Yuri Andrei Batista Santos

17/07 (TARDE)

CONVERSAS APÓCRIFAS SOBRE HERANÇAS TARDIAS E GÊNEROS ANACRÔNICOS

Francine Carla de Salles Cunha Rojas

O AUTOR EM “PORMENORES TÊNUES”: A ESCRITA DE SI À LUZ DE ROLAND BARTHES

Derick Davidson Santos Teixeira

107
CONSIDERAÇÕES SOBRE ESCRITAS DE SI NOS CAHIERS DE PAUL VALERY

Marcos Henrique Castro Soares de Araujo

AUTORES SIMULADOS E/OU LEITORES EM BUSCA DE AUTORES

Renan Augusto Ferreira Bolognin

ESCRITAS DO EU: A TEORIA DE GUSDORF E OS DESAFIOS IMPOSTOS POR CHATEAUBRIAND E


STENDHAL

Melissa Raquel Zanetti Franchi

18/07 (MANHÃ)

O EU INSCRITO NA HISTÓRIA: FICÇÃO E HISTORIOGRAFIA EM A FAMÍLIA MANZONI, DE


NATALIA GINZBURG

Lilian Monteiro de Castro

EU NÃO SOU SEU NEGRO – A ESCRITA DO OUTRO, UMA REVELAÇÃO DE SI

Thayza Alves Matos

A MULTIPLICAÇÃO E PULVERIZAÇÃO DO "EU" NA OBRA DE HELDER MACEDO

Nayara Meneguetti Pires

O ESPAÇO DA MEMÓRIA EM JOSÉ SARAMAGO: LITERATURA E AUTOBIOGRAFIA

Denise Noronha Lima

18/07 (TARDE)

MEMÓRIAS DE LEITURA: PEDRO NAVA COMO LEITOR EM FORMAÇÃO

Júlio de Souza Valle Neto

108
LITERATURA DE SI E PERTENCIMENTO: A CONSTRUÇÃO DE UMA PAISAGEM LITERÁRIA EM O
CEMITÉRIO DOS VIVOS, DE LIMA BARRETO

Ana Carolina Nery Albino

PELA ÚLTIMA VEZ, FILOSOFIA: CLARICE LISPECTOR E A VIDA COMO OBRA DE ARTE

Pablo Vinícius Dias Siqueira

CARTAS CARREGADAS DE POESIA: CECÍLIA MEIRELES ESCREVE A SUAS FILHAS

Maria do Rosário Abreu e Sousa

INTERSECÇÕES ENTRE AUTOBIOGRAFIA, HISTÓRIA E FICÇÃO EM "64: UM PREFEITO, A


REVOLUÇÃO E OS JUMENTOS", DE EUCLIDES NETO

Ana Sayonara Fagundes Britto Marcelo

31 - ESCRITAS PERFORMÁTICAS – NARRATIVA, FICÇÃO E DISSENSO


Coordenação: Raïssa de Góes (PUC-Rio); Frederico Coelho (PUC-Rio); Tiago Leite (FAMATH-
RJ/PUC-Rio)

Resumo: A partir das conversas ocorridas na Abralic de 2018, realizadas na Universidade


Federal de Uberlândia, e de seus desdobramentos, o segundo encontro do simpósio Escritas
Performáticas – narrativa, ficção e dissenso (grupo de pesquisa composto por Adriana Maciel,
Lia Mota, Raïssa de Góes, Tiago Leite e Frederico Coelho) pretende aprofundar a noção de
escrita performática, noção que busca entender o gesto presente nas diferentes formas de
linguagem, e a maneira como esse gesto – ação performática – se manifesta em formas de
escrita distintas produzindo pensamento. Convidamos a todos que participaram e aos
pesquisadores e artistas interessados a pensar a narrativa, tendo em vista as transformações
que ocorreram em suas dimensões sociais, políticas e intelectuais desde o final do século XIX.

No campo da ficção, que não se opõe ao real, mas que age em dissenso, as narrativas
constituem uma forma particular de pensamento e de produção de conhecimento. Há um
adensamento intelectual na literatura no final do século XIX. Machado de Assis, Dostoiévski,
James Joyce, Samuel Beckett, Virginia Wolff, Marcel Proust, Jorge Luis Borges e muitos outros,
além de provocarem uma reinvenção na escrita, passaram a colocar a questão da existência,
do pensamento reflexivo e da condição do sujeito moderno em primeiro plano. O narrador se
torna um dispositivo-chave para tais processos críticos de escritas ficcionais. Vale lembrar que

109
tal quadro se deu a partir de um diálogo com autores como Freud e Nietzsche – diálogos esses
de mão dupla, já que ambos viam na ficção uma usina de força para seus temas e questões.
Além disso, áreas como a psicanálise e a filosofia propuseram formas narrativas desafiadoras
para os seus campos de saber e demais áreas da escrita. Ao permitir novas maneiras de pensar
a ficção, as noções oriundas da arte da performance também contribuem para a discussão.

A artista Diana Taylor, professora do Departamento de Performance da Universidade de Nova


York, vê na performance mais do que um campo artístico, a performance é, para ela, uma
episteme, um modo de conhecer: “um sistema de aprendizagem, armazenamento e
transmissão de conhecimento” (TAYLOR, p. 45). Nessa linha, o intuito do Simpósio é também
pensar textos artísticos como corpus teórico. A performance, na escrita, pode ser pensada
como aquela que rompe com a estrutura clássica, que escava a linguagem, que se apropria de
diferentes fontes, mídias e suportes. Narrativa que não distingue da produção de pensamento
e de sensibilidade, pois ambas acontecem juntas no corpo. A escrita performática é um ato,
não apenas do corpo que risca o papel, mas do corpo que risca superfícies e que se deixa
inscrever. Como escrita, ela é arquivo da cultura e ao performatizar a narrativa é, ao mesmo
tempo, repertório. Organiza, em sua própria feitura, uma invenção singular na linguagem e age
no tempo e no espaço de sua recepção. Essa escrita não ocorre apenas na literatura. Ela está a
acontecer em diferentes tipos de textos – dança, artes visuais, filosofia, música, cinema etc. As
narrativas são práticas de composição de realidades. A escrita performática é narrativa que se
desdobra por diferentes meios e tecnologias. Se a escrita tradicionalmente organiza
pensamentos e ideias de forma linear e sequencial, a escrita performática possibilita a
expressão simultânea de ideias. Ela não é apenas um estatuto do literário, a literatura é uma
das suas possibilidades entre as várias formas narrativas. Nas artes visuais, a partir do final do
século XIX, altera-se a ideia de representação, a bidimensionalidade é reafirmada e a pintura
deixa de ser vista apenas como uma janela que dá a ver o mundo, apresentando uma realidade
pictórica e não ilusória. As vanguardas estéticas do início do século XX evidenciam os processos
e procedimentos artísticos e põem em questão a excelência técnica como medida de
qualidade. A partir de então, os processos são, muitas vezes, apresentados, eles mesmos,
como obra, em outras, são dados a serem levados em conta na percepção do(s) sentido(s)
propostos pela obra, o que altera a forma como percebemos a arte de nosso tempo e também
a dos séculos que nos antecede. É importante explorar tanto artistas que se tornaram críticos
ou ensaístas quanto a escrita que se mostra parte da “obra”, casos como os de Tunga e Lygia
Clark. Entendendo que a noção de obra foi modificada durante esse período, poderíamos dizer
que escritas como as dos artistas citados constituem um mesmo ato artístico, abarcando a sua
produção visual, espacial e textual. O intuito é pensar textos artísticos como produtores de um
corpus teórico. Ou seja, ir além dos questionamentos estanques sobre o que é arte e o que é
literatura – não se trata de transdisciplinaridades –, e superar uma linha de corte entre esses
campos, ou pelo menos, torná-la porosa. Buscamos ainda investigar como tais procedimentos
operam e mostram-se capazes de uma produção de conhecimento, como ocorre na filosofia e
ciência. Desta maneira, pretendemos rever a ideia de que arte é algo meramente ilustrativo de
uma ideia, mas pode gerar, ela mesma, uma ideia. Gostaríamos, portanto, de contar com
pesquisadores e artistas para participar deste simpósio: Escritas performáticas - narrativa,
ficção e dissenso, recorte feito no campo da discussão entre a escrita e pensamento, para que,
juntos, possamos ampliá-lo e adensá-lo nas discussões acadêmicas.

Referências:

110
BARTHES, Roland. O grau zero da escrita: seguido de novos ensaios críticos. São Paulo:
Martins Fontes, 2004.
CHIARA, Ana, SANTOS, Marcelo, VASCONCELLOS, Eliane (orgs). Corpos diversos: imagens do
corpo nas artes, na literatura e no arquivo. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2015.

CLARK, Lygia. “Caminhando”. In:Livro Obra, 1964. Retirado de


[Link] em 26 de agosto de
2017.
CLARK, Lygia. “Do Ato”. In:Livro Obra, 1965. Retirado de
[Link] em 26 de agosto de
2017.
DELEUZE, Gilles. Kafka – por uma literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
______. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 1992.
DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia.
Vol.1. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
______. O que é a filosofia?. Trad. de Bento Prado Jr., Alberto Alonso Muñoz. Rio de
Janeiro: Editora 34, 2000.
DERRIDA, Jacques. Escritura e diferença. São Paulo: Perspectiva, 1971.
______. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973.
DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
DIDI-HUBERMAN, G. A imagem sobrevivente - História da arte e tempo dos fantasmas
segunda Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.
DIDI-HUBERMAN, G. A sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011.
GUATTARI, Félix. Lignes de fuite-pour un autre monde de possibiles. Paris: Ed. L’aube, 2011.

GIL, José. “Sem título”: Escritos sobre arte e sobre artistas. Lisboa: Relógio d’água, 2005.

GIL, José. “Abrir o corpo”. In: Lygia Clark – da obra ao acontecimento: Somos o molde. São
Paulo: Ed. Pinacoteca, 2005, p. 63-66.
HUBERMAN, Georges Didi. O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34,
1998.

NANCY, Jean-Luc. Corpus. Paris: Métailié, 2000.


NANCY, Jean-Luc. El Intruso. Trad. Margarita Martínez. Buenos Aires: Amorrortu, 2007.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34, 2005.

______. O inconsciente estético. São Paulo: Editora 34, 2009.

______. O espectador emancipado. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2012.

ROLNIK, S. “Uma terapêutica para tempos desprovidos de poesia”. In: Lygia Clark – da obra ao
acontecimento: Somos o molde. São Paulo: Ed. Pinacoteca, 2005 pp. 13-27.

SANTOS, Roberto Corrêa dos; REZENDE, Renato. No contemporâneo: arte e escritura


expandidas. Rio de Janeiro: Editora Circuito: FAPERJ, 2011.

TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: Performance e memória cultural nas


Américas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
VIDAL, Eduardo. Uma letra que não se lê. In: A prática da Letra. Rio de Janeiro: Escola Letra
Freudiana, 2000, p.25-30.

111
PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

“A, A NOVEL”, DE ANDY WARHOL: ENTRE DOCUMENTO E FICÇÃO, CINEMA E LITERATURA

André Vechi Torres

AS FICÇÕES DA MERCADORIA NA LITERATURA DE ANDY WARHOL

Tiago Leite Costa

TRANSDIZENDO GERTRUDE STEIN: RETRATO DE UMA TRADUÇÃO

Ciro Lubliner

"A ABNIHILIZAÇÃO DO ÉTIMO": FRAGMENTAÇÃO, CACOFONIA E OBSCURIDADE NO


FINNEGANS WAKE

Vicente Pithan Burzlaff

16/07 (TARDE)

A FORMA HUMANA

Lia Duarte Mota

O AUTISTA COMO ETNÓGRAFO

Adriana Boilet Frant

COSTURA E ESCRITA: UM ATRAVESSAMENTO DE GESTOS EM EDITH DERDYK


112
Luana Fernandes Sofiati

MICROCENAS DE CONEXÃO, CONTÁGIO E ESCRITA COLETIVA

Marina Lima Mendes

QUASIDADE DA PERFORMANCE DO INVISÍVEL

Beatriz Castanheira

17/07 (MANHÃ)

A ESCRITA PERFORMÁTICA DE DINHA EM DE PASSAGEM MAS NÃO A PASSEIO, ONDE


ESCONDEMOS O OURO E GADO CORTADO EM MILPRANTOS

Karina Lima Sales

TERAPÊUTICA DE MORTE E VIDA NA ESCRITA PERFORMÁTICA DE CURARE

Isabel Jasinski

O NATIMORTO, DE LOURENÇO MUTARELLI: EM DEFESA DO REPERTÓRIO

Graziela Ramos Paes

"ESPELHAFATO, SÃ POLÍTICA. O UMBIGO DO MUNDO, O RITMO DE UM ESBOÇO": SOBRE AS


RELAÇÕES ENTRE POÉTICA E POLÍTICA EM CATATAU DE PAULO LEMINSKI

Luiz Henrique Carvalho Penido

17/07 (TARDE)

INFRATURAS - UMA LINHA

Frederico Oliveira Coelho

113
ANA HATHERLY, "PENSAMENTO-ACTO"

Julia Klien

LYGIA E CLARICE - AS SUPERFÍCIES DAS ÁGUAS

Raïssa de Góes

ESCREVER EM DERIVA: CARTOGRAFIA DE DESLOCAMENTOS AFETIVOS

Matheus Marques da Cunha Carvalho

18/07 (MANHÃ)

A BIBLIOTECA LIBERTINA – AS ANOTAÇÕES DE UMA LEITORA DE SADE

Aline Leal Fernandes Barbosa

SOBRE HOMENS E MONSTROS: UM PROJETO FÁUSTICO PARA O SÉCULO XXI

Luiz Guilherme Fonseca

LITERATURA E ESPORTE: UM OLHAR INTERMEDIADO PELA TEORIA EXPANDIDA

Edmon Neto de Oliveira

IMAGINISMO ONÍRICO: ESCRITA EXPANDIDA

Charles Philippe Jacquard

114
32 - ESCRITORES BRASILEIROS NO EXTERIOR, ESCRITORES
ESTRANGEIROS NO BRASIL: INTERMEDIAÇÕES E RELAÇÕES COM
OUTRAS ARTES
Coordenação: Profa. Dra. Márcia Valéria Martinez de Aguiar (Unifesp); Profa. Dra. Maria
Cláudia Rodrigues Alves (Unesp); Prof. Dr. Valter Cesar Pinheiro (UFS)

Resumo: Quando se trata de refletir sobre a publicação e a recepção de uma obra em terras
estrangeiras, muitos são os elementos que entram em consideração. Que razões levam à
escolha, para edição, de um autor em determinado país ou época? Que papel têm os agentes
literários, os passadores, os editores, os tradutores, os discursos políticos e sociais, os projetos
editoriais e as estratégias de difusão de outras artes, como cinema, artes plásticas e música,
nessa escolha? Em outras palavras, como a singularidade de certo texto será atualizada em
dado horizonte histórico, geográfico e literário? Essa problemática abrange pesquisas sobre a
presença de autores estrangeiros no Brasil e, inversamente, investigações sobre a presença de
escritores brasileiros no exterior.

Inúmeros são os estudos que examinam as afinidades entre autores estrangeiros e brasileiros
ou o modo como certos escritores foram acolhidos no Brasil, refletindo sobre a maneira como
foram traduzidos e/ou aclimatados em solo brasileiro em determinado período de nossa
história. Numerosos também são os ensaios sobre a edição de autores brasileiros no exterior
em que são analisadas as diversas variáveis que vieram a definir sua presença nesses países.
Um dos casos mais conhecidos é o de Jorge Amado: se, nos Estados Unidos, sua tradução, na
década de 1940, insere-se no quadro da política de boa vizinhança idealizada pelo presidente
Roosevelt, na França, sua edição correspondeu à sua militância comunista de então. Quanto a
Guimarães Rosa, publicado na Itália, França, Alemanha e Estados Unidos ao longo dos anos
1960, como explicar a defasagem, na França, entre a crítica positiva de Corpo de baile e
Grande sertão: veredas e o fraco nível de venda desses livros, enquanto na Alemanha o
romance do escritor mineiro esgota rapidamente três edições? Outros exemplos: Joaquim
Nabuco, Ribeiro Couto e Sérgio Milliet tiveram algumas de suas obras publicadas
exclusivamente no exterior. O primeiro, em razão do contexto político; o segundo e o terceiro,
por terem vivido parte de suas vidas fora do solo nacional. Podemos observar que esse
fenômeno acontece também em sentido inverso: tal é o caso do recentemente publicado
Diálogo entre filhos de Xangô (correspondência entre Pierre Verger e Roger Bastide, com notas
e prefácio de Françoise Morin e tradução de Regina Salgado Campos), editado exclusivamente
no Brasil em 2017. Outros exemplos poderiam ainda ser lembrados, como Georges Bernanos
que, exilado no Brasil, escreveu, em sua língua natal, obras que seriam inicialmente publicadas
por seu editor no Rio de Janeiro. Quanto à relação interartes, encenações teatrais –
como Morte e vida severina, laureada no IV Festival Mondial du Théâtre Universitaire de Nancy
em 1966 – e realizações cinematográficas – como  Orfeu Negro, Palma de Ouro em 1959,  O
pagador de promessas, Palma de Ouro em 1962, e Vidas Secas, Giano d’Oro em 1965 – teriam
impactado a recepção literária posterior dessas obras? A boa recepção de nossa música –
particularmente a popular – teria igualmente aberto espaço para outras formas de
manifestações artísticas brasileiras no exterior?

Por diferentes que sejam as circunstâncias da edição de um texto no exterior, é preciso que o
pesquisador as considere em sua análise: em que língua foi inicialmente escrita a obra
estudada? No caso de ter sido traduzida, de que perspectiva foi realizada a tradução? Como foi
escolhido o tradutor? Teve ele com o autor algum contato? Como a obra foi vista no sistema
115
literário ou político que a acolheu? Foi lida com base nos mesmos parâmetros em dois locais e
momentos diferentes? Que paratextos a acompanharam? Foi percebida em sua singularidade
ou assimilada ao conjunto das obras de mesma nacionalidade? Causou impacto ou deixou
indiferentes seus leitores? Que papel teria desempenhado, na recepção de um livro, o sucesso
crítico de filmes, peças teatrais, exposições ou canções? Apenas o estudo da publicação de
cada autor e obra em certo local e época pode responder a essas questões e formular aquelas
a serem debatidas.

Evolução do trabalho desenvolvido nas três últimas edições da ABRALIC, nos simpósios
“Diálogos Brasil-França: tradição e renovação” (2016-2017) e “Escritores brasileiros no
exterior, escritores estrangeiros no Brasil: experiências, textos e contextos” (2018), o
presente simpósio contempla diversas línguas e culturas e acolhe investigações que abordem
as experiências e o complexo processo de publicação e recepção de um escritor em um
determinado país, refletindo sobre as mediações que se estabelecem entre o texto original
e/ou traduzido, o seu horizonte de recepção – abarcando questões relativas ao possível
impacto que a divulgação de outras artes possa ter provocado em sua leitura – e os vários
atores que participam de sua edição, interpretação e divulgação em seu país de origem e/ou
no estrangeiro.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

CINEMA E LITERATURA NO INSTITUTO COLUMBIANUM E FORMAÇÃO DE UM HORIZONTE DE


RECEPÇÃO

Márcia Valéria Martinez de Aguiar

BRASIL, CUBA E PORTO RICO: COMPARAÇÃO DE TEXTOS DE AUTORES ESTRANGEIROS NOS


ESTADOS UNIDOS

Giséle Manganelli Fernandes

BRAZILIAN JOURNAL: RETRATOS DO BRASIL POR UMA CANADENSE

Nêili Iara Fernandes Klein

TRADUÇÃO CULTURAL E A “CULTURA” NO TEXTO: REFLEXÕES A PARTIR DE UM ESTUDO DE


CASO

Raquel Peixoto do Amaral Camargo

116
16/07 (TARDE)

PAUL BOURGET E O ROMANCE URBANO DO VISCONDE DE TAUNAY

Norma Wimmer

PRESENÇA FRANCESA NOS PRIMEIROS ESCRITOS DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

Maria Cláudia Rodrigues Alves

RENÉ THIOLLIER E JULES RENARD: EPÍGRAFES E AUTOEPÍGRAFES EM FOLHEANDO A VIDA

Valter Cesar Pinheiro

A VANGUARDA EUROPEIA NO BRASIL E O MODERNISMO BRASILEIRO NA FRANÇA: AS


RELAÇÕES ESTÉTICAS ENTRE BLAISE CENDRARS, OSWALD DE ANDRADE E TARSILA DO AMARAL

Natalia Aparecida Bisio de Araujo

17/07 (MANHÃ)

TRADUÇÕES DE QUARTO DE DESPEJO, DE CAROLINA MARIA DE JESUS: CONTEXTOS CULTURAIS


E RECEPÇÃO

Elzira Divina Perpétua

OS EPITEXTOS PÚBLICOS DO AUTOR ITALIANO, DARIO FO, NO JORNAL O ESTADO DE SÃO


PAULO

Bárbara Cristina Mafra dos Santos

A CRÍTICA DE ÁLVARO LINS NA RECEPÇÃO DE ERNEST HEMINGWAY E MARCEL PROUST NO


BRASIL

Manoela Caroline Navas

117
CONTEXTO SISTÊMICO DAS QUATRO TRADUÇÕES PARA O PORTUGUÊS BRASILEIRO DE MRS
DALLOWAY, DE VIRGINIA WOOLF

Franciele Graebin

17/07 (TARDE)

AS FEIRAS INTERNACIONAIS DO LIVRO E O SEU IMPACTO NA PROFISSIONALIZAÇÃO DO


ESCRITOR BRASILEIRO

Franciele Queiroz da Silva

PARA ALÉM DO CÂNONE: CIRCULAÇÃO DE EXEMPLARES DE PROSA DE FICÇÃO FRANCESA NO


GRÊMIO LITERÁRIO PORTUGUÊS DO PARÁ F(1800-1900)

Valéria Augusti

CECÍLIA MEIRELES, MÁRIO DE ANDRADE E A REVISTA TRAVEL IN BRAZIL: DIPLOMACIA E


CULTURA POPULAR

Roniere Silva Menezes

DIÁLOGOS POÉTICOS NA REVISTA INIMIGO RUMOR

Larissa Pavoni Rodrigues

33 - ESPAÇOS E AFETOS NA LITERATURA E O CINEMA BRASILEIROS:


CARTOGRAFIAS, CORPOS E DESLOCAMENTOS
Coordenação: Dra. Rebeca Errázuriz Cruz (Universidade Adolfo Ibáñez, Santiago de Chile); Dra.
Mónica González García (Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso, Chile); Dra. Natalia
López Rico (Universidade de Chile, Santiago de Chile)

Resumo: Uma das mais recentes e produtivas consequências do chamado giro afetivo (Gregg;
Seighworth, 2010), é aquela que relaciona os estudos do espaço e dos afetos - paisagens
afetivas em Depetris (2016), geografia afetiva em Pile (2009) e geografias emocionais em
Davidson, Bondi e Smith (2005), entre outros. Geografias, cartografias e mapas afetivos são

118
denominadores comuns que, em muitos casos, não só remetem a conceitos, metáforas ou
símbolos, mas que tratam, com efeito, da relação quase sempre tensa que se estabelece entre
os espaços - sejam eles urbanos ou rurais, reais ou ficcionais - e os afetos que suscitam ou que
são postos em circulação por diversos corpos que os habitam ou os atravessam.

A partir do século XX, vive-se no Brasil uma transformação social e cultural acelerada,
motivada pela introdução e intensificação de diversos projetos de modernização que trazem
consigo mudanças dos modelos de produção econômica e que consequentemente involucram
deslocamentos de população, assim como o nascimento das indústrias culturais e os meios de
comunicação de massa. Todas estas instâncias desempenham um papel na configuração de
novas e diversas formas de subjetividades que elaboram imaginários especiais vinculados a
estas experiências e põem em circulação diferentes afetos e formas de relacionamentos.
Atualmente, estas transformações assumem a face de um modelo neoliberal que se movem
em pequena e grande escala e que se promove como o único paradigma de modernização
possível. Assim, no percurso destes contextos históricos e sociais a relação entre espaços e
sujeitos se problematiza e de certa forma reflete as implicações e consequências de seus
embates. Por um lado, estes sujeitos enfrentam as condições e transformações a que os
submetem os próprios processos de modernização como uma experiência de restrição a um
espaço muitas vezes sentido como alheio e hostil, que se vive como um estreitamento ou
achatamento para a manifestação de seus afetos, cujo espectro fica visivelmente submetido à
vivência mais crua. Mas os próprios sujeitos entretecem uma configuração afetiva do espaço
desde a qual realizam suas relações sociais, suas identidades e suas práticas políticas e
culturais; enfim, espaços e afetos funcionam como um eixo de interligação, como uma trama
complexa na qual são os afetos dos indivíduos e seus regimes de corporalidade os que
desenham, delimitam e definem o estatuto de um lugar e as fronteiras de um espaço. Os
sentidos e os limites espaciais são efetivamente produzidos no vai e vem de um conjunto de
indivíduos, e dita produção pode ou não entrar em conflito com os movimentos de biopolítica
que definem os espaços e as regras dos deslocamentos fora e dentro dos mesmos.

Neste simpósio nos interessa analisar os modos em que esta relação entre subjetividades e
espaços é apresentada e analisada na narrativa e no cinema brasileiros desde inícios do século
XX em adiante, com o objetivo de vislumbrar um possível mapeamento do circuito de afetos
(Safatle) que abarque não só a submissão de corpos e espaços a emoções e afetos
predeterminados, senão também a sua potência produtiva e liberalizadora. Na história da
literatura e do cinema brasileiros do século XX podemos rastrear um catálogo de espaços que
têm sido efetivamente cartografados do macro ao micro, da manifestação das biopolíticas
modernizantes às experiências dos sujeitos que vivem nesses espaços e lhes outorgam
sentidos: são os sertões de Euclides da Cunha, mas também o sertão de Fabiano e Sinhá
Vitória em Vidas Secas de Graciliano Ramos e os sertões cinematográficos de Nelson Pereira
dos Santos e Glauber Rocha ou o de Riobaldo en Grande Sertão: veredas; é a selva amazônica
de Gálvez, mas também o Xingú de Nando em Quarup ou o olhar do retorno de Avá em Maíra,
e a selva de Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade; é a vivência de Pedro Rubião diante
das elites cariocas em Quincas Borba, e também de Macabea em A hora da estrela; é a vida na
favela nos contos de João Antônio, mas também a vida de Zé Miúdo de Paulo Lins, de Zé
Pequeno de Fernando Meirelles e Katia Lund ou o ódio favelado de Ferréz.

Referências:

DAVIDSON, Joyce; BONDI, Liz; SMITH, Mick (eds.). Emotional geographies. Ashgate:
Aldershot, 2005.
119
DEPETRIS CHAUVIN, Irene. Geographies of Love(lesness). Space and Affectivity in Viajo Porque
Preciso, Volto Porque Te Amo (Aïnouz and Gomes, 2009) and Turistas (Alicia Scherson, 2009).
Journal of Latin American Cultural Studies, vol. 25, nº 2, 2016.

GREGG, Melisa; SEIGHWORTH, Gregory (eds.). The affect theory reader. Durham: Duke
University Press, 2010.

MALPAS, Jeff (ed.) The place of landscape: concepts, contexts, studies. Cambridge, Mass.: The
MIT Press, 2011.

PILE, Steve. 2009. Emotions and Affect in Recent Human Geography. Transactions of the
Institute of British Geographers. Disponible en [Link]
[Link]/doi/epdf/10.1111/j.1475-5661.2009.00368.

Consultado el 15 de diciembre de 2018.

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo.
Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

A EXPERIÊNCIA DO DESAMPARO NO ROMANCE URBANO CONTEMPORÂNEO

Horst Nitschack

EN LA INTEMPERIE DEL MUNDO: DESASOSIEGO Y EXPERIENCIA DE LO INHÓSPITO EN VIDAS


SECAS

Rebeca Errazuriz

A PROSA ABERTA DE NUNO RAMOS

Jorge Andrés Manzi Cembrano

A CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA: A CASA, A DOENÇA, A RUÍNA

Erica Ignacio da Costa

120
16/07 (TARDE)

AUTOGEOGRAFÍA DEL ESPACIO COTIDIANO: LA ESCRITURA DE LO PRIVADO EN LAS CRÓNICAS


DE CLARICE LISPECTOR EN EL JORNAL DO BRASIL (1967-1973)

Macarena Mallea

CORPOS EXPOSTOS, CORPOS DE PODER. LEITURAS E RELEITURAS NA IMAGEM. CASO:


CAROLINA MARIA DE JESUS E CLARICE LISPECTOR

Daniela Rebeca Campos Atienzo

ENTRE O CROCHET, O XADREZ E O BANHEIRÃO: ESPAÇO CINEMATOGRÁFICO, LITERATURA E


EROTISMO ATRAVÉS DE TRÊS TEXTOS SUL-AMERICANOS

Helder Thiago Cordeiro Maia

PARENTALIDADE, EROTISMO E SEXUALIZAÇÃO EM "ANJOS DO SOL"

Ana Laura Furtado Pacheco

17/07 (TARDE)

BRANCO SAI, PRETO FICA: A PERIFERIA COMO POSIÇÃO

Camila Carvalho

LAS CINCO ESTACIONES DEL AMOR DE JOÃO ALMINO: CIUDAD FICTICIA, AFECTOS REALES

Natalia López

GUÍA NO-TURÍSTICA DE RÍO DE JANEIRO: RUTAS AFECTIVAS EN DOS FILMES DE FAVELAS DE


NELSON PEREIRA DOS SANTOS

Mónica González García

121
AFECTOS Y PERIFERIA EN LA POÉTICA DE ALESSANDRO BUZO

Jorge Cid

34 - ESTRANHANDO A TEORIA EMPENHADA DE ANTONIO CANDIDO


Coordenação: Profa. Dra. Anita Martins Rodrigues de Moraes (UFF); Profa. Dra. Lúcia
Ricotta Vilela Pinto (Unirio); Prof. Dr. Marcelo Moreschi (Unifesp)

Resumo: Este Simpósio aposta num pensamento inacabado e duramente empenhado em


estranhar a obra de Antonio Candido e seu modo de repor na cultura tanto uma tradição
crítico-espiritualista da nacionalidade e das totalizações teleológicas, etapistas e
evolucionistas, quanto uma acomodação rija da ficcionalidade, da invenção e da teoria.
Tudo isso resulta num processo de institucionalização acadêmico-universitária das
humanidades e do desenvolvimentismo das letras no Brasil, ocorrendo em contexto de
embate flagrante com os mundos múltiplos nos quais são constituídas nossas
subjetivações políticas. Imperativos edificantes e/ou cívicos e o ideal do nacional-
classicizante impõem-se, então, às configurações da literatura e da crítica.
Confrontando o quadro de valores da obra candidiana a outros processos intelectuais
provindos de escritores, ensaístas, críticos literários de diferentes extratos, países e
linhagens, este simpósio visa contrapor-se a constelações afeitas a tal
institucionalização. Trata-se de insistir no jogo polêmico, no confronto de perspectivas e
no debate efetivo e aberto à diferença. Importa, assim, delinear contornos e limites de
operações teóricas em vigência nas recontextualizações da literatura e suas relações com
domínios discursivos outros, em busca de legibilidades denegadas por uma autognose
do nacional.
Nos estudos que sugerem reflexões acerca dos problemas e limites da teoria, da crítica e
da historiografia literária candidianas está nosso interesse. Desse modo, propostas
envolvendo os estudos da materialidade da literatura, da historicidade de categorias e
práticas discursivas, como também problemáticas configuradas no âmbito da teoria
literária, da estética, da antropologia, da história, dos estudos culturais, feministas, pós-
coloniais e das subalternidades, além de perspectivas interdisciplinares e comparatistas,
serão bem-vindas.
Sem satisfazer, portanto, a qualquer propósito encomiástico ou laudatório, o objetivo é
realizar um tipo de homenagem a Antonio Candido em que esteja implicado o embate
efetivamente crítico com seus textos, ações e ideias, e não paráfrases de sua doxologia.
Pretende-se constituir um feixe de pensamento divergente e heterogêneo que, ao evitar a
performance da teoria candidiana, também não subsuma as linhas de força da crítica ao
privilégio comumente concedido a uma suposta função edificante-estetizante da
literatura.
Em suma, este simpósio acolherá propostas que tratem dos seguintes problemas, dentre
outros:
● Ciências sociais, ideologia paulista, desenvolvimentismo e Antonio Candido;
● Candido, genealogias e a normalização do modernismo;
● Candido e o lugar da ideia;

122
● Naturalização de pressupostos e descomplexificação da teoria no ensaísmo de
Antonio Candido;
● Aporias e limites da teoria, crítica e historiografia candidianas;
● Candido, letras coloniais e outros regimes discursivos;
● O nacional-literário: vetos, sequestros e denegações;
● Candido, esteticismo e experimentalismo;
● Candido e a nostalgia do nacional-popular e da humanização;
● A teoria empenhada: famílias e heranças críticas;
● Eurologocentrismo e universalidade ideológica em Antonio Candido;
● Razão imperial, colonialismo e especificidade cultural em Antonio Candido;
● Direito à literatura e discriminação social;
● As premissas antropológicas do pensamento candidiano;
● Candidismo e cordialidade no campo dos estudos literários no Brasil:
sociabilidade, doxa e institucionalidade;
● Pós-humanismos, pós-modernismos, pós-colonialismos e a obra candidiana;
● Proposições cosmopolíticas no enfrentamento das cândidas alteridades: o pobre,
o caipira, o irracional, o primitivo e o iletrado;
● Antonio Candido em comparação e confronto com escritores, ensaístas, críticos
literários de diferentes extratos, países e linhagens;
● Estranhando as apropriações de Antonio Candido no ensino de literatura.
● Candido x Machado; Candido x Graciliano; Candido x Rosa; Candido x Clarice;
Candido x Mário X Oswald.

A título de exemplo, e para provocar o debate crítico, destacamos breve bibliografia,


desenhando caminhos possíveis, trajetórias dissidentes e não doxológicas:

BAPTISTA, Abel Barros. “O cânone como formação: a teoria da literatura brasileira de


Antonio Candido”. In: ______. O livro agreste. Campinas, Editora da Unicamp, p. 41-
80.
HARDMAN, Francisco Foot. "Matem o Mito". O Estado de São Paulo, 21 /fev/2016.
LIMA, Luiz Costa. Concepção de história literária na Formação. In: Pensando nos
trópicos. Rio de janeiro: Rocco, 1991, p. 149-166.
MOREIRAS, Alberto. “O nacional-popular em Antonio Candido e Jorge Luis Borges”.
In: _______. A exaustão da diferença: a política dos estudos culturais latino-
americanos. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2001. p. 197-220.
MORICONI, Ítalo. “Horizontes formativos, lugares de fala: Antonio Candido e a
pedagogia do poema”. Gragoatá (UFF) , Niterói, v. 2, n.12, p. 23-46, 2002.
MOTA, Leda Tenório da. “Clima e Noigandres: a crítica literária brasileira entre dois
fogos”. Revista USP, São Paulo, n. 39, setetembro/no 1998. p. 120-129,
NATALI, Marcos. “Além da literatura”. Revista Literatura e Sociedade (USP),
v. 9, p. 30-43, 2006
PÉCORA, Alcir. “À guisa de manifesto”. In: _____. Máquina de gêneros. São Paulo,
Edusp, 2001, p. 11-16.
SANTIAGO, Silviano. “Anatomia da formação: A literatura brasileira à luz do pós-
colonialismo”. Ilustríssima. Folha de São Paulo, 7 de setembro de 2014.
SISCAR, Marcos. “O discurso da história na teoria literária brasileira”. In: _____.
Poesia e crise: ensaios sobre a “crise da poesia” como topos da modernidade.
Campinas: Ed. da Unicamp, 2010. p. 197-210.
123
PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

(RISOS)

Marcos Natali

AS TENSÕES DE UM MÉTODO DIALÉTICO: A NOÇÃO DE CRÍTICA EM ANTONIO CANDIDO

Sílvio Augusto de Oliveira Holanda

ALGUNS VESTÍGIOS D’ "A ESPÍRITA" E DE "ENCOSTANDO NO BARRANCO" PARA CÂNDIDA


APRECIAÇÃO

Marcelo Moreschi

16/07 (TARDE)

EDITAR O BRASIL PARA AMÉRICA LATINA: A EXPERIÊNCIA DE ANTONIO CANDIDO NA


BIBLIOTECA AYACUCHO

Eduardo Toro

O AVESSO DO MESMO LUGAR: UMA PROPOSTA DE RELEITURA DA FUNÇÃO HUMANIZADORA


DA LITERATURA

Marina Maria Campos Brito

CANDIDO: OMISSÕES E DESCOBERTAS EM SUA CRÍTICA À LITERATURA REGIONALISTA PRÉ-


MODERNISTA

Gustavo Krieger Vazquez

A TRANSFIGURAÇÃO DO DRAGÃO OU A SOBREVIDA DO REGIONALISMO

Maryllu de Oliveira Caixeta

124
17/07 (MANHÃ)

TERRA, PAPEL, TESOURA: DO ESTRANHO DIREITO À LITERATURA

Mariana Ruggieri

ANTONIO CANDIDO E O ENSINO DE LITERATURA

Jefferson Silva do Rego

CANDIDO, LETRAS COLONIAIS E OUTROS REGIMES DISCURSIVOS: O RAPTO DE O REINO DA


ESTUPIDEZ PARA A LITERATURA BRASILEIRA

Marcia Maria de Arruda Franco

17/07 (TARDE)

OS CORPOS AFETIVOS DE MÁRIO ANDRADE: DESCONSTRUINDO O SISTEMA LITERARIO E A


RAZÃO CIVILIZADORA DE ANTONIO CANDIDO

Renata Pontes de Queiroz

RESSONÂNCIAS CANDIDIANAS NA FORTUNA CRÍTICA DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Lucas Bezerra Facó

UMA LENTA E GRANDE DISSOLUÇÃO: NOTAS SOBRE ANTONIO CANDIDO E CLARICE LISPECTOR

Anita Martins Rodrigues de Moraes

O MUNDO DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS VAI DEIXANDO DE SER CANDIDIANO

Lúcia Ricotta Vilela Pinto

125
35 - ESTRATÉGIAS NARRATIVAS NA LITERATURA DE EXPRESSÃO
PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA
Coordenação: Prof. Dr. Ulysses Rocha Filho (UFG); Profª. Drª. Tainara Quintana da Cunha
(FURG)

Resumo: Há muitos olhares em um mesmo espaço capazes de provocar caminhos do


narrar diferenciados, não importando as motivações (de autobiografia ou enredada) mas
convergindo, nas tramas, um relato ficcional que guarda, em essência, pressupostos do
mundo real (tencionando aprofundar, questionar, testar, transformar ou alterar os limites
do mundo conhecido). Para Candido (2000), o texto literário, antes de ser mera refração
do que está ao seu redor, é catalisador das mudanças em seu entorno. Da mesma forma,
considera-se a figura de um leitor não contemplativo porque agente transformador
chamado ao texto por força da expressão artística, por sua vez, modelada pela
habilidade do autor situado em algum ponto das relações que procura entender.
Reconhecendo a transversalidade e a pluralidade do estudo da literatura contemporânea
produzida em língua portuguesa, o Simpósio propõem-se a receber trabalhos para
comunicação que tratem de temas e estratégias recorrentes nas obras literárias
produzidas em Portugal e/ou países de língua portuguesa no final do século XX ao XXI
quer sejam: a releitura da tradição, a consciência crítica sobre o estatuto do fazer
artístico, a hibridização entre os gêneros tradicionais, o lugar ocupado pelo artista.
Assim, pensar as estratégias inovadoras da literatura portuguesa e/ou africana de língua
portuguesa contemporânea é perceber todas as suas modificações desde finais do século,
XX, incluindo uma perspectiva comparativista e, sobretudo a construção de um novo(s)
sujeito(s) que emerge(m) do âmbito literário deslocando-se, em fluxo contínuo e
paradigmático, em relação à sua própria cultura, do seu próprio universo histórico e
social, vivenciado através de experiências particulares ou coletivas. As continuidades e
rupturas emergentes na tradição cultural dos países de língua portuguesa, especialmente
Portugal e África, territórios emergentes do pós-25 de Abril, levam a questionar,
inclusive, a centralidade/marginalidade do sujeito, conforme Spivak (2010), tendo em
vista o dimensionamento e a complexidade que assume na obra. A revisão de valores, o
surgimento de novos temas paralelos àqueles em pauta na literatura, as tensões de foro
coletivo ou individual são fatores que contribuem para o contingenciamento das
múltiplas identidades do sujeito que se remodela na relação com o outro e com a
exterioridade. Evidentemente, a construção de modelos literários e culturais próprios em
um processo de auto-afirmação, a autoridade e as certezas instituídas pelo discurso
hegemônico do colonizador são subvertidas, questionadas, desestabilizadas para
produzir um novo discurso híbrido e libertador, em consonância com o momento
político (re)tratado. As antigas questões, revisitadas no texto, somadas ao que de novo
essa literatura possa oferecer permitem abordar temas como os retornados e as
migrações atuais, bem como, os paradigmas identitários pós-coloniais e as estratégias
do cenário político-cultural pautado por rápidas transformações e pela efemeridade das
relações. Na medida em que a literatura de expressão portuguesa contemporânea abre-se
àquilo que de inovador e substancial seus autores possam engendrar na representação do
cenário pós-colonial de então, também endossa o debate sobre o que a caracteriza,
aglutinando ao cânone antecedente questões temáticas e socioculturais oriundas do
contexto em que ela mesma foi erigida. Desse modo, o momento literário em questão

126
corresponde a uma periodização interseccionada com os fatores sociais e também, trata-
se de um fenômeno cujo dimensionamento está entrosado com a instância canônica, ao
mesmo tempo em que a ultrapassa, promovendo a revisão de valores estéticos e formais.
Quanto ao texto, a literatura faz-se lugar de transformações na figura da personagem, do
narrador, do tempo e do espaço enquanto elementos essenciais da narrativa permeada
pela intertextualidade, de acordo com Reis (2006), e graças à expressão fabuladora do
artista que experimenta sua própria inserção na obra literária. Na era da velocidade e
dos inúmeros deslocamentos (de sentidos, valores, identidades), a fabulação de
episódios descontínuos, heterogêneos e fragmentados aponta para a ultrapassagem do
tempo das grandes narrativas norteadas pela abrangência da totalidade. Neste sentido,
no Simpósio Estratégias Narrativas na Literatura de Expressão Portuguesa
Contemporânea serão aceitos trabalhos que visem à discussão da atualização de temas
nas obras do período delimitado sob os pontos de vistas da intertextualidade, do cânone,
da experimentação e do comparatismo, de onde possam advir contribuições que
fomentem a discussão a partir dos múltiplos olhares dos pesquisadores envolvidos, além
de agregar e entrecruzar experiências brasileiras e estrangeiras em que pese à
possibilidade de divulgar os estudos culturais e literários no âmbito dos Países de
Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
Palavras-chave: Gêneros literários. Fronteiras e ambiguidades. Literaturas de língua
portuguesa.

Referências:

ABDALA JUNIOR, Benjamim (org.). Margens da Cultura: mestiçagem, hibridismo e outras


misturas. São Paulo: Boitempo, 2004.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 8ª ed., São
Paulo: T.A. Queiroz, 2000.

CARVALHO, Alfredo Leme Coelho de. Foco narrativo e fluxo de consciência: questões de teoria
literária. São Paulo: Pioneira, 1981.

COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2ª ed., São Paulo: Contexto, 2014.

FERREIRA, Manoel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. São Paulo: Ática, 1987.
LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins
Fontes, 1992.

KRISTEVA, Julia. O Gênio do Feminino: a vida, a loucura, as palavras. Hannah Arendt. Rocco:
Rio de Janeiro, 2002.

REIS, Carlos. História Crítica da literatura portuguesa: do Neo-Realismo ao Post-Modernismo.


Lisboa: Verbo, 2006. Vol. 9.

______. Estudos narrativos: a questão da personagem ou a personagem em questão. In:


Pessoas de livro: estudos sobre a personagem. 2ª ed. Coimbra: Imprensa da Universidade de
Coimbra, 2015. p. 13 - 41.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart
Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
127
TUTIKIAN, Jane. Questões de identidade: a África de língua portuguesa. Letras de Hoje. Porto
Alegre, v. 41, n°3, p. 37-46, setembro, 2006.

PROGRAMAÇÃO:

17/07 (MANHÃ)

LIRISMO E NARRATIVIDADE: A PROSA POÉTICA DA GERAÇÃO DE ORPHEU

Karine Costa Miranda

A ESTRATÉGIA DE RELEITURA COMO POSSIBILIDADE DE BUSCA PELA IMORTALIDADE DO TEXTO


LITERÁRIO

Patricia Conceição S. Santos

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, DE JOSÉ SARAMAGO, ENTRE O ANTIGO E O MODERNO

Paulo Henrique Passos de Castro

PROCESSO DE REMINISCÊNCIA E REMEMORAÇÃO EM OBRAS DE INES PEDROSA

Ulysses Rocha Filho

A INFLUÊNCIA DO EROTISMO E DA RELIGIOSIDADE SOBRE AS PERSONAGENS DO CONTO “O


VESTIDO COR DE FOGO” DE, JOSÉ RÉGIO

Samara Mariana Cândida da Silva

A COITA DO TROVADORISMO NA CONSTITUIÇÃO TEMÁTICA DA LITERATURA OCIDENTAL

João Batista Cardoso

17/07 (TARDE)

DIALOGISMO NO DISCURSO DO NARRADOR SARAMAGUIANO

Ana Maria Coelho Silva Wertheimer

DA INSCRIÇÃO ÀS ESCRITURAS DO CORPO. A MULHER E A TERRA NA LITERATURA


MOÇAMBICANA

Aline da Silva Lopes

128
“SORRY. I DON’T SPEAK ENGLISH”: A CONDIÇÃO MIGRANTE NAS NARRATIVAS DE INÊS
PEDROSA

Tainara Quintana da Cunha

NAÇÃO E IDENTIDADE COMO DEVIRES EM ROMANCES DO ESPAÇO LUSÓFONO

Adriano Carlos Moura

NOTAS SOBRE A CRISE ECONÔMICA EM PORTUGAL: UMA LEITURA DE O ANO DE 2012, DE


PAULO VARELA GOMES

José Luís Giovanoni Fornos

36 - ESTUDOS RETÓRICOS E POÉTICOS


Coordenação: Prof. Dr. Marcus De Martini (UFSM); Prof. Dr. Marcelo Lachat (UNIFESP); Prof.
Dr. Jean Pierre Chauvin (USP)

Resumo: Os estudos retóricos e poéticos vêm recebendo uma atenção renovada nos últimos
anos, na academia, seja na esteira de trabalhos que procuraram resgatar a importância da
disciplina de Retórica, como os de George A. Kennedy (Classical Rhetoric and Its Christian and
Secular Traditions) e Brian Vickers (In Defense of Rethoric), seja, principalmente, na relação
dessa com a crítica literária, na tentativa de retomar uma relação íntima com as poéticas
anteriores à Modernidade. Se a crítica humanista e estilística de meados do século XX já
alertava para a importância de uma reconstrução histórica das formas de escritura, como já se
notava em Erich Auerbach, em seu clássico Mimesis, ou ainda no monumental Literatura
Europeia e Idade Média Latina, de Ernest Robert Curtius, seria necessário ainda um pouco mais
de tempo para que, no Brasil, houvesse um redirecionamento dos estudos literários nesse
sentido. Sinais do interesse global que tem azeitado a produção da pesquisa científica em tais
domínios ocorrem com a maturidade manifesta dos altos estudos acerca da obra de escritores
emblemáticos das letras luso-brasileiras, como o padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de
Matos. Assim, trabalhos como os de João Adolfo Hansen (A Sátira e o Engenho) e Alcir Pécora
(Teatro do Sacramento) são fundamentais para os estudos poéticos e retóricos no Brasil.
Também é notório o desenvolvimento da pesquisa sobre a obra teológica de Vieira, na
condição de réu do Tribunal do Santo Ofício, realizada pela profa. Adma Muhana, grandeza na
qual se inclui a edição dos “Autos do processo” de acusação a que o padre foi submetido
durante décadas do século XVII, pela Inquisição de Portugal, e a publicação de textos
proféticos do autor luso-brasileiro). Desse modo, esses trabalhos, dentre outros, foram
emblemáticos para o resgate dessas formas de representação, já que apontam para a
necessidade de reconstruir "arqueologicamente", nos dizeres de Hansen, textos anteriores ao
final do século XVIII, que, não raro, eram lidos pela crítica sob viés anacrônico, ou, pior ainda,
considerados de pouca ou nenhuma relevância para o leitor contemporâneo. Essa renovação
tende a romper um círculo vicioso de desinteresse e desconhecimento das letras escritas antes
que vigorasse a concepção dita “moderna” nas artes, pontualmente antes de meados do
século XVIII, quando, como se sabe, todo a forma mentis e a escrita foram profundamente
alteradas e mesmo rompidas. Observam-se, neste sentido, incentivos no mundo editorial,
traduzido na publicação de numerosas obras jamais editadas, colocadas presentemente no
circuito comercial de venda de livros, bem como estímulos no âmbito da pesquisa acadêmica,

129
em alguns (poucos) nichos dos estudos clássicos e classicistas, para se recorrer a dois termos
generalizantes, presentes na história literária. Isto posto, a tendência é que os estudos sobre
as práticas retóricas e os fazeres de poéticas reconquistem algum espaço nos currículos
escolares, no debate científico, no mercado livreiro, nas instituições globais de produção e
disseminação dos saberes, como bibliotecas, institutos, academias e universidades - domínios
de que vêm sendo predominantemente alijados por razões várias, cuja compreensão, debate e
rejeição fazem parte do interesse deste Simpósio da Abralic, dentre outros mecanismos de
ação reflexiva.

Assim, este Simpósio de "Estudos Retóricos e Poéticos" pretende discutir trabalhos nos
campos da poética e da retórica, especialmente voltados para corpora das letras antigas e
modernas (até o final do século XVIII), tendo como objetivos principais: elaborar um panorama
das atividades de pesquisa realizadas no Brasil sobre preceptivas e produções retóricas e
poéticas; estabelecer redes associativas de conhecimento e divulgação dessas pesquisas e de
seus objetos; definir mecanismos institucionais para a troca de informações; agregar
pesquisadores de temáticas afins com objetivo de divulgação de resultados de trabalhos;
vitalizar a produção acadêmica brasileira nos domínios dos estudos retóricos e poéticos. Para
tanto, propõem-se os seguintes eixos temáticos em que podem se inserir as propostas de
comunicação:

- Retórica e poética nas letras clássicas ou antigas;


- Retórica e poética nas letras modernas;
- Manuscritura, história do livro e da cultura letrada;
- Relações entre as letras e o discurso da história;
- Retórica e poética e as disciplinas humanísticas;
- Retórica, poética e filosofia;
- Recepção de tratados de retórica e poética;
- Retóricas e poéticas medievais;
- Retórica e poética nas letras portuguesas e luso-brasileiras dos séculos XVI, XVII e XVIII.

Espera-se, desse modo, que os trabalhos deste Simpósio mostrem antes ruínas letradas do que
construções atemporais anacronicamente idealizadas, recorrendo-se àquilo que enforma essas
práticas letradas em seus próprios tempos, em especial, às technai retórica e poética e às
matérias elaboradas tecnicamente, para que se compreendam melhor as especificidades de
tempos que não são os da “modernidade literária”.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

O TRATAMENTO DADO AO RITMO NA RETÓRICA CLÁSSICA E SUA RELEVÂNCIA COMO


ELEMENTO DE DELEITE NO DISCURSO ORATÓRIO: O USO DA PROSA RÍTMICA DE GÓRGIAS A
CÍCERO

130
Ana Carolina dos Santos Castro

O ACONTECIMENTO DA "SUBSTÂNCIA" ENTRE A POÉTICA E A METAFÍSICA DE ARISTÓTELES

Lucas Bento Pugliesi

16/07 (TARDE)

O ETHOS DO DISSÍDIO NA OBRA DE CAMÕES, O POEMA COMO ARGUMENTO

Matheus de Brito

"HORRIDA PUELLA": UMA CONTRAFAÇÃO RETÓRICA EM LUDOVICO TINGOLI

Leonardo Zuccaro

O GÊNERO HISTÓRICO NAS LETRAS LUSO-BRASILEIRAS DOS SÉCULOS XVI A XVIII

Marcelo Lachat

17/07 (MANHÃ)

DE ARISTÓTELES A DEMÉTRIO: A QUESTÃO DOS ESTILOS NA CANTATA ORFEO DE ALESSANDRO


SCARLATTI

Robson Bessa Costa

NOTAS PARA UM ESTUDO DO ÍNDICE DAS COISAS MAIS NOTÁVEIS NAS LETRAS SEISCENTISTAS
LUSO-BRASILEIRAS

Dario Trevisan de Almeida Filho

ARCADISMO, NEOCLASSICISMO E DEMAIS APORIAS

131
Jean Pierre Chauvin

17/07 (TARDE)

O ANTICLERICALISMO PRESENTE EM POEMAS SATÍRICOS DO RIO GRANDE DO SUL ENTRE FINS


DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO XX

Janaina Kanitz

ASPECTOS DRAMATÚRGICOS DA PEÇA HISTÓRICA ROMÂNTICA BRASILEIRA: UM OLHAR SOBRE


LINDOIA, TRAGÉDIA LÍRICA

Jessica Cristina dos Santos Jardim

IMITAÇAO, RETÓRICA E HISTORIA DA LITERATURA

Jose Luis Martinez Amaro

18/07 (MANHÃ)

O ESTILO DE "VIAGEM AO FIM DA NOITE"

Amanda Fievet Marques

VERDADEIRO, VEROSSÍMIL, FICTÍCIO: A VIDA DE DOMINGOS CALDAS BARBOSA CONFORME


FRANCISCO ADOLFO DE VARNHAGEN

Rodrigo Gomes de Oliveira Pinto

VISÃO E CEGUEIRA: ALGUNS ASPECTOS SOBRE A QUESTÃO DO CONHECIMENTO DA VERDADE


NA OBRA DE PADRE ANTÔNIO VIEIRA

Marcus De Martini

132
37 - ESTUDOS SOBRE AS NOVAS TENDÊNCIAS LITERÁRIAS
BRASILEIRAS CONTEMPORÂNEAS
Coordenação: Prof. Dr. Herasmo Braga de Oliveira Brito (UESPI); Prof. Dr. Alan
Bezerra Torres (IFCE); Prof. Dr. Edilson Floriano Souza Serra (IFMT)

Resumo: O presente Simpósio traz como foco o estudo comparativo das produções
literárias com intuito de analisar as suas configurações, circunscrevendo-se a uma
temporalidade que vai da década de 60 do século XX aos dias atuais. A literatura
brasileira contemporânea é heterogênea e de difícil definição. Ainda assim, algumas
tendências são claras em seu interior. Ao lado de um conjunto majoritário de obras que
se mantêm presas à ambientação e às preocupações mais tradicionais da narrativa no
país. Para empreender tal estudo, valer-nos-emos das análises destas diversas tendências
da Literatura Brasileira Contemporânea para configurá-las. Podemos ilustrar algumas
destas tendências que o Simpósio se propõe a discutir: Neorregionalismo, Autofficção,
Ecce Homo Fictus, Cidadania e Vulnerabilidade Histórica Contemporânea,
Centramento do homem moderno, Migração, deslocamento e tradução na literatura
brasileira contemporânea, Metaficção e romance histórico, A Descoberta do mundo em
si, Entre Representação e Autorrepresentação dos Neomarginalizados. Assim, temos no
tocante ao Neorregionalismo Brasileiro, como elementos para base da categorização: a
autonomia feminina, a predominância não mais do espaço rural, mas sim urbano, a
tônica da escrita como fator de resistência e de memória dos aspectos regionais.
Podemos exemplificar essas caracterizações do Neorregionalismo Brasileiro em obras
como: Beira Rio, Beira Vida de Assis Brasil - Sombra Severa de Raimundo Carrero - 
Cinzas do Norte  de Milton Hatoum - Coivara da Memória de Francisco
Dantas, Galiléia de Ronaldo Correia de Brito. Em relação à Autoficção entendida
“como um apagamento do eu biográfico, capaz de constituir-se apenas nos
deslizamentos de seu próprio esforço por contar-se como um eu, através da experiência
de produzir-se textualmente”. Entre os autores podemos citar: Silvano Santiago com O
Falso Mentiroso, Cristovão Tezza com O Filho Eterno. A literatura de tendência
denominada Ecce Homo Fictus, constitui-se em uma mescla de aspectos: biográficos,
ensaísticos, de críticas literárias e artísticas, e momentos históricos, em meio a
narrativas memorialistas. No Brasil, podemos citar a produção ficcional de Silvano
Santiago Em Liberdade e Machado, Ana Miranda com Boca do Inferno. Diante da
tendência Cidadania e Vulnerabilidade Histórica Contemporânea podemos destacar
poemas de Tatiana Pequeno da Silva, a ficção de Rubens Figueiredo, e as notas
autobiográficas de Marcus Vinicius Faustini, é possível identificar as configurações
representativas do deslocamento coletivo das classes populares urbanas apontando para
o passado histórico das tensões de raça, de classe, e de poder dentro. Em Centramento
do homem moderno, temos na prosa contemporânea a fragmentação narrativa ao
entendimento do homem moderno, observamos que na prosa brasileira a partir da
década de 1960, uma perspectiva de abordagem menos realista, influenciada,
principalmente, por Clarice Lispector e João Guimarães Rosa. Na tendência Migração,
deslocamento e tradução na literatura brasileira contemporânea uma pergunta chave é
a formulação dos conceitos de literatura, o contemporâneo e o brasileiro. Ou, seja, como
podemos pensar na literatura e, especificamente, a brasileira num momento
contemporâneo quando a literatura expande e existe fora do seu campo previamente
133
limitado à palavra escrita e quando a definição de nacionalidade em si existe em
contestação e expansão? Em Metaficção e Romance Histórico, observamos na sua
configuração um ecletismo formal, que faz o objeto percorrer as esteiras do ensaio e da
ficção, o romance exige a análise dos intertextos que compõem o tecido verbal, direta e
indiretamente em que os elementos essencialmente explícitos, constituídos por citações,
paráfrases e outras referências diretas, merecem ser investigados não como anexos, mas
suportes, partes constituintes da ideia de enredo e, até mesmo, da técnica dos autores.
Na tendência A Descoberta do mundo em si, temos na obra de Clarice Lispector uma
nítida representação da busca de respostas para o mistério do feminino, colocando a
mulher confrontada consigo mesma e com o homem. E, Entre Representação e
Autorrepresentação dos Neomarginalizados, observamos a possibilidade de notar a
emergência de novas vozes, especialmente no que tange à representação de grupos
sociais historicamente marginalizados (DALCASTAGNÈ, 2012).
Alguns dos teóricos a nos subsidiar nesta empreitada são: Araújo (2010), Bachelard (1993),
Bakhtin (2011), Bueno (2006), Candido (2000, 2006), Chiappini (2014), Martins (2014), Rocha
(2007), Williams (1989), Le Goff (2003), Ricouer (2007, 2010a, 2010b, 2010c).

Partiremos da seguinte questão-problema: quais os elementos configuradores destas


tendências literárias contemporâneas brasileiras e como elas influenciam/atuam no Sistema
Literário Brasileiro?

A hipótese é que essas tendências constituem a leitmotiv da Literatura Brasileira


Contemporânea por serem as hegemônicas e por influenciarem as demais através das suas
técnicas narrativas e abordagens temáticas. Portanto, buscamos identificar as contribuições
para a formação de uma tradição literária, para a valorização da literatura nacional e para o
fortalecimento da cultura brasileira.

Assim, esperamos contribuir para a produção de uma síntese compreensiva das tendências
literárias contemporâneas brasileiras. Evitando subsumir a literatura à pura dimensão lúdica,
pretendemos nos encaminhar para uma profundidade discursiva sobre as configurações das
tendências, suas influências e sua relevância diante do cenário mundial de homogeneização da
cultura.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

MULHERES NO BRASIL COLONIAL: METAFICÇÃO, VIOLÊNCIA E SUBALTERNIDADE EM


DESMUNDO, DE ANA MIRANDA KARLA

Vivianne Oliveira Santos

BARROS, CABRAL E ROSA: UMA DISCUSSÃO SOBRE A GERAÇÃO DE 45

134
Alan Bezerra Torres

AS ALUSÕES À "A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL" NO ROMANCE "A NOITE DE ESPERA", DE


MILTOM HATOUM

Alexandre Bebiano de Almeida

HISTORIOGRAFIA, MICROHISTÓRIA E INTERTEXTUALIDADE NO ROMANCE MUSA


PRAGUEJADORA, DE ANA MIRANDA

Claudia Letícia Gonçalves Moraes

O MEZ DA GRIPPE, DE VALÊNCIO XAVIER: INTERCURSOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA

Daniele Santos

17/07 (TARDE)

A NARRATIVA DE PESSACH: A TRAVESSIA, DE CARLOS HEITOR CONY: ROMANCE SOCIAL


ENGAJADO OU INTIMISTA?

Rafael Magno de Paula Costa

A LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: ECCO HOMUS FICTUS UMA NOVA TENDÊNCIA

Herasmo Braga de Oliveira Brito

POÉTICA DO INÓXIO: ROMANCE BRASILEIRO E CONJUNTURA SOCIOPOLÍTICA PÓS-2013

Jose Helber Tavares de Araujo

O SELVAGEM DA ÓPERA: MODERNIDADE E MODERNIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM


ROMANCE HISTÓRICO

Márcia Mucha

18/07 (TARDE)

135
O “DUPLO” NO CONTO “DESAPARIÇÃO” DE LETÍCIA WIERZCHOWSKI

Naira Suzane Soares Almeida

LUCIENE CARVALHO: LOUCA, BRUXA, FEBRE TERÇÃ

Edilson Floriano Souza Serra

O PERFORMATIVO NA OBRA DE RICARDO LÍSIAS: UMA ANÁLISE DE DIÁRIO DA CATÁSTROFE


BRASILEIRA

Nivana Ferreira da Silva

ASPECTOS DA FICÇÃO CONTEMPORÂNEA: UMA LEITURA DA OBRA PICO NA VEIA, DE DALTON


TREVISAN

Roseli Bodnar

38 - ETNOPOESIA E TRADUÇÃO: NECESSÁRIO DIÁLOGO


Coordenação: Profa. Dra. Ana Rossi (UnB); Profa. Dra. Giane da Silva Mariano Lessa (UNILA)

Resumo: Nesta proposta de simpósio, o foco será a etnopoesia entendida como a relação
entre poesia - enquanto produção de conhecimento -, e sua relação com a
etnologia/antropologia, cujo objeto é o estudo do homem, o antropos. Assim, a etnopoesia
expressa a produção do conhecimento gerado por uma comunidade dada, em um espaço-
tempo específico, quer esteja essa comunidade no âmbito rural, quer esteja ela no âmbito
urbano, e sendo que tal conhecimento organiza-se também do ponto de vista estético. Esse
conhecimento organiza-se a partir de uma informação que é de ordem estética, com regras
que constroem um conhecimento específico, visível a partir dos dispositivos da poesia
impressa na página, ou nas inter-relações entre diferentes textos editados, ou também nas
condições de coleta de um material oral e que nos chega compilado sob a forma escrita. Cada
um desses elementos – outros decorrentes da pesquisa – deve ser trazido à tona no intuito de
circunscrever as condições em que deu-se esse conhecimento, e por quais transformações
passaram tais categorias analíticas presentes no material etnopoético. O que lemos é o
resultado desse conjunto de decisões. Tais análises revelam as categorias analíticas que
estruturam o material etnopoético, categorias essas passíveis de serem apreendidas por meio
da tradução. Porque é apenas pela tradução que esse material chega até nossas mãos. Decorre
daí a importância de refletir sobre a relação entre etnopoesia e tradução, esta última
entendida como espaço epistemológico para a construção e transmissão de conhecimento.

136
Eis porque, traduzir constitui-se em um diálogo entre diferentes tradições linguístico-culturais
em jogo, como, por exemplo, no caso da tradução das línguas indígenas, mas também de
línguas consideradas próximas. Esse diálogo considera a relação complexa entre tradições
linguísticas e culturais distintas, objetivando compreender a maneira como se deu essa
relação, e seu impacto no âmbito da tradução a partir de variáveis – para citar apenas um
exemplo - tais como a importância política das línguas e culturas em presença uma das outras.
Isto implica um efeito unilateral, quando não devidamente observado, da língua politicamente
mais forte sobre a língua politicamente mais fraca. No âmbito da tradução, essa relação deve
ser explicitada e dialogada, de maneira a não obliterar as categorias analíticas de uma das
línguas em questão, deixando que tais categorias sejam transpostas, sem controle, em
proveito de uma e, claro, em detrimento da outra. O problema é que, desta maneira, desfaz-se
as categorias analíticas – e suas relações cognitivas e epistemológicas - na base do
conhecimento. Da mesma maneira, tradução é o resultado de um processo longo e complexo
onde o que deve ser objeto da tarefa do tradutor – na perspectiva de Walter Benjamin - é
identificar a lógica que impera no texto, seu contexto histórico-social, as condições de coleta
do material caso estejamos falando de textos em outra dimensão temporal, ou estruturado na
base da oralidade. Esse é o processo que permitiu a construção do texto, expressão do outro
em sua alteridade. Por parte do tradutor, coloca-se a questão de como aproximar-se desse
lócus poético, composto por uma indissociabilidade entre língua e cultura multimilenárias, e
sabendo que o desconhecido é alcançado por meio do conhecido. Logo, referir-se à etnopoesia
implica em estudar também as variáveis tradutórias que conotam e denotam o texto, e não
apenas focar no resultado da tradução como algo desligado do contexto de sua produção. Por
etnopoesia entende-se que a poesia traz consigo uma concepção de mundo que deve ser
desvendada e não domesticada, nem apagada no âmbito da tradução.

Referências:

BENJAMIN Walter. “A tarefa-renúncia do tradutor” [trad. Susana Kampff Lages]. A tarefa do


tradutor, de Walter Benjamin: quatro traduções para o português. Belo Horizonte.
Fale/UFMG. 2008. p. 66-81

BENSE Max. Pequena Estética. São Paulo. Perspectiva. 2009. 3ª edição.

CADOGAN Leon. Ayvu Rapyta. Textos Míticos de los Mbyá-Guarani del Guairá. Asunción del
Paraguay. Biblioteca Paraguaya de Antropologia-vol. XVI. Fundación “Leon Cadogan”-Ceaduc-
Cepag. 1997.

CLASTRES Pierre. Le grand parler: mythes et chants sacrés des Indiens Guarani. Paris. Seuil.
1974.

CASANOVA Pascale. La République mondiale des Lettres. Paris. Seuil. Coll. “Points”. 2008.

D’ANGELIS R. Wilmar. “Traduzir e/é dialogar”. caleidoscópio: linguagem e tradução. v. 2. n.1.


jan-jun. 2018. p.15-35

MARTINS LAMEIRÃO MATEUS. Andréa. A poesia multifacetada de Jerome Rothenberg. Tese


de Doutorado. USP/FFLCH. 2014.

MALLARMÉ. Stéphane. Igitur. Divagations. Un coup de dés. Paris. Gallimard. 2003.

POUND Ezra. ABC of Reading. New York. New Directions. 1987.

137
ROSSI Ana Helena. Entrevista com Aryon Rodrigues. Traduzires. Postrad. v.1, n.2. 2012. p. 127-
131

_______________. “Leon Cadogan, antropólogo-tradutor do Ayvu Rapyta: um projeto ético


baseado no conhecimento”. Colóquio Yo el Supremo (1974-2014), Augusto Roa Bastos, Foz-do-
Iguaçu. 2014. [[Link] Consultado em 20 de janeiro de
2019.

________________“Processos e experiências: pensando a tradução”. caleidoscópio:


linguagem e tradução. v.2. n.1. jan-jun 2018. p. 01-14

SCHNAIDERMAN Boris. Tradução. Ato desmedido. São Paulo. Perspectiva. 2015.

PROGRAMAÇÃO

17/07 (TARDE)

ETNOPOESIA, MEMÓRIA E TRADUÇÃO: O CASO DA POETA-ESCRITORA CONCEIÇÃO EVARISTO

Ana Helena Rossi

ETNOPOESIA E TRADUÇÃO TOTAL: DETERMINAÇÕES E INDETERMINAÇÕES

Andrea Martins Lameirão Mateus

O PERCURSO SINUOSO DA TRADUÇÃO DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: A EXPERIÊNCIA NA


UNILA

Giane da Silva Mariano Lessa

TRADUZINDO O CANTARES MEXICANOS: PARA UMA ETNOPOESIA NAHUATL

Sara Lelis de Oliveira

ANTOINE BERMAN E O ATO DE TRADUÇÃO COMO AGENTE FOMENTADOR DE UM GIRO


DECOLONIAL

Simone Christina Petry

39 - EUROPA DO LESTE: DIÁSPORAS, CIRCULAÇÕES LITERÁRIAS,


TRANSFERÊNCIAS CULTURAIS
138
Coordenação: Prof. Dr. Bruno Barretto Gomide (USP); Profa. Dra. Claudia Pellegrini
Drucker (UFSC)

Resumo: Este simpósio temático é um desdobramento dos simpósios de literatura russa


realizados nos encontros nacionais e internacionais da ABRALIC de 2006 (Rio de
Janeiro) 2007, 2008 (São Paulo), 2011 (Curitiba), 2013 (João Pessoa), 2015 (Belém) e
2016 (Rio de Janeiro). Eles foram criados com o objetivo de constituírem um espaço
para a discussão permanente de temas de russística no âmbito de um congresso
importante. Não havia, até então, espaço similar dentro da universidade e das
associações científicas brasileiras. Esses simpósios temáticos ajudaram no
fortalecimento acadêmico e profissional do tema, que vem passando, desde o começo da
década de 2000, por um processo – fenômeno cultural dos mais significativos – de
crescimento dentro da vida intelectual brasileira, com muitas traduções, congressos,
teses e publicações. Nosso propósito, nos sete encontros anteriores e no que agora se
prepara, foi sempre o de acolher não apenas pesquisas de eslavistas, mas também
trabalhos comparativos realizados por professores e pós-graduandos de outras áreas e de
um amplo conjunto de universidades espalhadas pelo país em toda a sua diversidade
regional: história, ciências sociais, linguística, semiótica, jornalismo, filosofia e artes.
Essa perspectiva interdisciplinar e comparativa deverá se manter na edição de 2019, em
Brasília. 
Para esta edição do evento, a proposta do simpósio é ir além do caso russo (sem excluí-
lo) e abranger a Europa do Leste como um todo, em suas múltiplas realidades
lingüísticas, literárias e culturais. Trata-se de uma região que, apesar de ser pouco
estudada pela universidade brasileira, é crucial para a política e a cultura moderna,
inclusive para o desenvolvimento da literatura comparada e da teoria literária. Serão
bem-vindas comunicações que trabalhem tanto com textos e autores “canônicos” como
com os “esquecidos” dessas regiões. Dentro de uma perspectiva mais propriamente
comparatista, o simpósio espera abordar a circulação de idéias, textos e indivíduos entre
as regiões do Leste Europeu – o Báltico, os Bálcãs, a Hungria, os diversos países
eslavos situados no “centro” (Polônia, República Tcheca, Eslováquia) e no “oriente”
europeu (Rússia, Moldávia, Belarus e Ucrânia) –, bem como entre essas regiões, o
restante da Europa e as Américas. Ao final do evento, espera-se que os estudos
especificamente russos, que eram o foco do simpósio, ganhem novos contornos ao
serem colocados em diálogo com esse universo mais amplo, com o qual ele tem tantas
semelhanças e diferenças.
O simpósio dedicará espaço expressivo a comunicações que lidem com processos de
transferência cultural entre a América Latina e a Europa do Leste. Esse processo será
entendido não meramente como uma via de mão única que conduz do centro-leste
europeu para países como o Brasil e a Argentina, mas também em seus aspectos
multidirecionais, os roteiros que perfazem o trajeto inverso ou que movimentam textos,
indivíduos e coletividades horizontalmente dentro das Américas (por exemplo, os
paralelos e diálogos entre tradutores emigrados no Brasil, na Argentina e na França nas
décadas de 1930 e 1940). Nesse sentido, a temática da emigração será central em nossas
discussões. Propomos uma investigação sistemática do papel da emigração eslava,
báltica, húngara e judaica em processos de transferência cultural, recepção e circulação
das literaturas do leste europeu dos séculos dezenove e vinte. Procuraremos discutir em
que medida a emigração foi decisiva para os processos transnacionais de transferências
culturais – textos literários, interpretações histórico-sociais, iniciativas editoriais e de
139
cunho religioso – para a América Latina. Serão feitos mapeamentos de trajetórias de
intelectuais emigrados e de viajantes, e tentaremos avaliar a contribuição específica dos
tradutores, que tiveram papel fundamental na divulgação de textos da Europa do Leste,
muitas vezes de forma pioneira.
Como indicações bibliográficas preliminares para os participantes do simpósio,
sugerimos os seguintes textos:
GOUSSEF, Catherine. L´exil russe. La fabrique du réfugié apatride. Paris, CNRS, 2008. (estudo
sobre as categorias de “emigrado”, “refugiado” e “exilado” no contexto russo-soviético-francês
do entreguerras).

TIHANOV, Galin, “Why Did Modern Literary Theory Originate in Central and Eastern Europe?
(And Why Is It Now Dead?)”, Common Knowledge, Vol. 10, No. 1, 2004. (Sobre as relações
entre o contexto intelectual da Europa do Leste, o formalismo russo e outras vertentes da
crítica literária).

SCHLÖGEL, Karl. Der große Exodus. Die russische Emigration und ihre Zentren 1917 – 1941.
Munique, 1994. (obra de referência que traz um amplo inventário crítico dos principais centros
de emigração russa).

WOLLF, Larry, Inventing Eastern Europe: the Map of Civilization on the Mind of the
Enlightenment, Stanford UP, 1994). (estudo sobre as representações e imagens de “Europa
Oriental” surgidas na Europa “Ocidental” no século XVIII).

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

MODO E MODELO NA LITERATURA RUSSA DO XVIII: CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMITAÇÃO DE


POETAS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA

Rafael Frate

"NÓS NÃO VIVEMOS NO MESMO MUNDO": OS DRAMAS DE TCHÉKHOV E A SIMULTANEIDADE


DE TEMPORALIDADES

Rodrigo Alves do Nascimento

A ETNOGRAFIA DE TCHEKHOV: SOBRE AMOR E DESIGUALDADE

Jean Carlo Faustino

140
FAZIL ISKANDER, WILLIAM FAULKNER, E A LITERATURA MENOR SOVIÉTICA

Cassio de Oliveira

17/07 (MANHÃ)

TEXTOS DE TEORIA, CRÍTICA E HISTÓRIA DA ARTE DA RÚSSIA/ URSS NO BRASIL: OBSERVAÇÕES


SOBRE SUA CIRCULAÇÃO E RECEPÇÃO

Cristina Antonioevna Dunaeva

BORIS SCHNAIDERMAN E OS PROCESSOS DE TRANSFERÊNCIAS CULTURAIS

Evelina Hoisel

AVANCES Y DESAFÍOS DE LA MODERNIDAD EUROPEA EN LA RUSIA DEL SIGLO XIX.


DILETANTISMO, FOLKLORISMO Y DEBATES TEÓRICOS EN LOS ORÍGENES DE UN CAMPO
MUSICAL

Martín Baña

ENTRE O RIO DE JANEIRO E ODESSA: UMA COMPARAÇÃO ENTRE OS CATÁLOGOS DE


BIBLIOTECAS PÚBLICAS DO BRASIL E DA RÚSSIA DO SÉCULO XIX

Larissa de Assumpção

17/07 (TARDE)

STANISLAW IGNACY WITKIEWICZ (WITKACY) E MÁRIO DE ANDRADE: O AUTORRETRATO COMO


“CONSTRUÇÃO” DA IMAGEM DE SI

Livia Zacarias Rocha

141
O DIÁLOGO ENTRE LIMA BARRETO E DOSTOIÉVSKI

Flavia Cristina Aparecida Silva

MICRO-HISTÓRIA LITERÁRIA DA EXPRESSÃO ROMÂNTICA POLONESA EM POESIAS DO


ROMANTISMO BRASILEIRO: O FOCO NO CORPUS DOCUMENTAL, NA GRANDE IMIGRAÇÃO E NA
TRANSFERÊNCIA CULTURAL

Jucelino de Sales

EMIGRAÇÃO E TRADUÇÃO DE LITERATURA RUSSA NO BRASIL E NA ARGENTINA

Bruno Barretto Gomide

18/07 (MANHÃ)

TRANSFERÊNCIAS CULTURAIS DISTÓPICAS: YEVGUENY ZAMYATIN E KARIN BOYE

Biagio D´Angelo

EL NARRADOR-AUTOR EN UNA NOVELA NATURAL DE G. GOSPODÍNOV (BULGARIA, 1999),


HAMAN BALKANIJA DE V. BAJAC (SERBIA, 2008) Y SOMBRAS Y PERSONAS DE L. IUZIFÓVICH
(RUSIA, 2018).

Eugenio López Arriazu

RÉQUIEM PARA UM IMPÉRIO: UMA LEITURA DE MARCHA DE RADETZKY, DE JOSEPH ROTH

Leonardo Francisco Soares

"QUANDO NOS ENCONTRARMOS, MONTANHA SE UNIRÁ A MONTANHA": ALGUNS TEMAS DA


CORRESPONDÊNCIA ENTRE TSVETÁIEVA E PASTERNAK

Cecília Rosas Mendes

142
18/07 (TARDE)

A LITERATURA NO PROJETO INTERARTES DE SERGUEI EISENSTEIN

Erivoneide Marlene de Barros Pereira

“QUASE DEI A VOLTA AO MUNDO”: VIAGEM, POESIA E POLÍTICA NA OBRA DE MAIAKÓVSKI

Letícia Pedreira Mei

MEUS ESCRITOS, NOSSO TEXTO: IVAN BÚNIN E O TRAUMA DA REVOLUÇÃO

Márcia Pileggi Vinha

REVISTAS FEMININAS DA RÚSSIA NOS ANOS 20

Iamara Silva Andrade

19/07 (MANHÃ)

A CIRCULAÇÃO DA OBRA DE GEORGE SAND NA RÚSSIA OITOCENTISTA: O CASO DO ROMANCE


"O QUE FAZER?", DE NIKOLAI TCHERNYCHÉVSKI

Camilo José Teixeira Lima Domingues

A EROTIZAÇÃO EM ANNA KARENINA E UMA POSSÍVEL LEITURA COM VIÉS PORNOGRÁFICO

Gabriela Ribeiro Nunes

O MAL E A LIBERDADE NA POESIA DE MIKHAIL LÉRMONTOV E SEUS DESDOBRAMENTOS

Pedro Augusto Pinto

SOBRE VIVER PARA NARRAR: O ARQUIPÉLAGO GULAG COMO REPRESENTAÇÃO DO INFERNO


NO SÉCULO XX

143
Thaís Figueiredo Chaves

40 - FICÇÃO DE MACHADO DE ASSIS: SISTEMA POÉTICO E CONTEXTO


Coordenação: Profa. Dra. Juracy Assmann Saraiva (Universidade Feevale); Atílio Bergamini
Junior – Universidade Federal do Ceará

Resumo: Machado de Assis é um escritor que revela, nas produções ficcionais, sua experiência
de leitor e de apreciador de arte, o que pode ser explicado por aspectos do contexto
sociocultural e por dados biográficos. Ambos parecem conciliar-se para registrar a progressão,
pari passu, da instalação de uma sociedade, que buscava afirmar-se no contexto das nações
civilizadas, e do processo de afirmação do mais reconhecido escritor brasileiro do século XIX.
Sob esse ponto de vista, dados do contexto sociocultural do Rio de Janeiro e a biografia de
Machado de Assis instituem fontes que, articuladas, alimentaram a memória do fazer artístico
do escritor e se fazem presentes em suas obras.

A partir de 1840, ou seja, na década imediatamente posterior ao nascimento de Machado,


registra-se, no Rio de Janeiro, o estabelecimento de um mercado editorial e a constituição de
um sistema de produção, distribuição e circulação de livros, jornais e revistas, que favoreceu o
surgimento de uma sociedade familiarizada com a cultura das letras, instituindo-se, também,
um público apreciador da arte dramática e musical. Paralelamente, a partir de 1850,
prosperaram empreendimentos dedicados à impressão de árias de óperas, de canções e de
peças de compositores locais, bem como à comercialização de pianos e de outros
instrumentos, o que estimulou o crescimento desse mercado e a disseminação de costumes
que valorizavam, mesmo no âmbito doméstico, a apreciação da arte musical.

Biógrafos e críticos demonstram que Machado participou ativamente do contexto da


sociedade carioca do Segundo Império. Com efeito, a emergência por meio dos jornais e,
sobretudo, a produção como poeta e dramaturgo, conjugada à função de censor do
Conservatório Dramático, função que exerceu a partir de 1862, promoveram a ativa inserção
de Machado de Assis na vida cultural do Rio de Janeiro, a qual se expandia com a formação da
classe burguesa, desejosa de usufruir de manifestações artísticas provenientes da Europa.
Integrante das associações informais de escritores, compostas no espaço das livrarias,
frequentador de gabinetes de leitura e de bibliotecas, membro atuante na imprensa nacional,
crítico teatral, estimulador da criação de espaços para apresentações dramáticas e líricas,
Machado de Assis vivenciou o exercício de sua produção literária paralelamente a de leitor e a
de espectador de espetáculos teatrais ou musicais, e essa experiência ganhou forma no espaço
da ficção.

Essa constatação fundamenta a proposta do Simpósio Ficção de Machado de Assis: Sistema


Poético e Contexto, que, tomando textos ficcionais do escritor como ponto de partida, se
estende para a sociedade do Rio de Janeiro, com o intuito de correlacionar menções
intertextuais e meta-ficcionais a circunstâncias culturais do momento de sua produção, cujo
conhecimento pode contribuir para a compreensão da significação textual e para desvendar
elementos da poética machadiana.

144
Nesse sentido, o simpósio acolhe comunicações que, sob uma perspectiva comparatista,
enfocam a relação do processo criativo de Machado de Assis com o sistema da literatura, com
outras manifestações artísticas e com o contexto histórico da produção e da recepção de suas
obras ficcionais. A partir desse foco centralizador, as comunicações podem tratar de aspectos
composicionais de narrativas e da instalação de significados metafóricos e alegóricos que,
frequentemente, tematizam eventos históricos; igualmente, podem restabelecer o diálogo dos
textos machadianos com outros textos literários e com elementos do teatro lírico e dramático,
da música e da dança que o escritor incorpora às suas criações. A reflexão poética que se
inscreve nos textos, a partir da qual Machado compõe a ficcionalização de uma teoria do fazer
poético, também tem espaço no âmbito do simpósio, que abrange, igualmente, trabalhos que
visualizem as marcas realistas que atravessam a prosa machadiana, revelando tensões
pessoais e sociais, de que o sistema escravista é exemplo, e os vínculos entre Machado e o
público leitor no Rio de Janeiro do século XIX e primeira década do século XX. A possível
convergência entre os projetos editoriais de periódicos em que Machado publicou e a
composição de suas obras é outro foco temático que o simpósio privilegia. Em síntese, o
simpósio contribui para a divulgação de pesquisas que adotam o enfoque comparatista e
valoriza a obra de Machado de Assis, vinculando-a ao momento sócio-histórico-cultural de sua
produção e de sua recepção.

PROGRAMAÇÃO

17/07 (TARDE)

O ESPELHO”, DE MACHADO DE ASSIS: FENDAS ENTRE REALIDADE E APARÊNCIA

Ernani Mügge (Universidade Feevale)

TEATRALIDADE: DIÁLOGO ENTRE ARTE E VIDA

Juracy Assmann Saraiva (Universidade Feevale)

O DIÁLOGO ENTRE “A CHINELA TURCA” E O TEATRO EM MACHADO DE ASSIS: UMA OBRA


COMO SISTEMA

Luiza Helena Damiani Aguilar (Universidade de São Paulo)

UMA PROPOSTA DE LEITURA DO FOLHETIM A MÃO E A LUVA (1874), DE MACHADO DE ASSIS,


ATRAVÉS DAS PÁGINAS DA IMPRENSA OITOCENTISTA: O TEMA DO CASAMENTO E A QUESTÃO
DA INSERÇÃO FEMININA AO UNIVERSO ECONÔMICO
145
Priscila Salvaia (UNICAMP)

18/07 (TARDE)

LITERATURA, SOCIEDADE E VIOLÊNCIA: QUINCAS BORBA E O HUMANITISMO

Marinês Andrea Kunz (Universidade Feevale)

BOILEAU EM MACHADO DE ASSIS

Regina Zilberman (UFRGS)

AS CRÍTICAS NOS PERIÓDICOS ÀS ANTOLOGIAS DE CONTOS DE MACHADO DE ASSIS

Valdiney Valente Lobato de Castro (Faculdade Estácio Do Amapá)

MACHADO DE ASSIS NAS TRAMAS DA TRADUÇÃO: NARRATIVA E SENTIDO FRATURADOS

Válmi Hatje-Faggion (Universidade de Brasília)

41 - FIGURAÇÕES DE POVO E NAÇÃO, POPULISMO E NACIONALISMO

Coordenação: Prof. Dr. Leonardo D’Avila (UBA/Capes); Tiago Hermano Breunig


(UEPG/Unespar)

Resumo: Retomar as figurações do povo e da nação, associadas ao problema da construção da


identidade, considerada de diferentes maneiras em diferentes momentos da organização
social, significa questionar o sentido de uma identidade que se quer nacional. A construção da
identidade nacional, como constata Renato Ortiz (1985), corresponde aos interesses dos
grupos sociais na sua relação com o Estado, e implica, portanto, a mediação, de modo que
devemos nos perguntar quem são os intelectuais, a que grupos e a que interesses servem na
construção da identidade popular e nacional. Como compreender, sob essa perspectiva, as
diferentes figurações e representações do povo na Literatura e nas outras artes e na
Literatura? Que contribuições a arte e a Literatura oferecem para a compreensão do
nacionalismo e do populismo?
146
Desde as primeiras experiências coloniais americanas, podemos perceber na América Latina
uma intrínseca relação entre a cultura letrada e a racionalidade conquistadora, conforme
Ángel Rama (1984). Na Literatura brasileira, por exemplo, identificamos a gradual construção
de uma identidade nacional e, no limite, popular, desde o nativismo presente no
Neoclassicismo, tal como se convencionou, posteriormente, a partir dos interesses de classe
de determinados grupos sociais pela afirmação nacional, seguido pelas alegorias nacionais do
Romantismo. Tais construções correspondem, evidentemente, a demandas de grupos sociais
em que a trama da Literatura efetivamente circula, em detrimento da heterogeneidade social.
Por outro lado, representam efetivamente uma transgressão da situação precedente,
fornecendo elementos para a configuração de uma identidade popular e de um povo, entre
eles, os sentidos, sobretudo os afetivos, que exercem um papel fundamental na constituição
das identidades populares, ao modo das comunidades imaginadas teorizadas por Benedict
Anderson. O fim do Romantismo coincide, por aqui, com o surgimento dos precursores de uma
sociologia interessada na identidade nacional, explicada a partir de conceitos positivistas que
informam igualmente a Literatura, e que não apenas justificam o contraste com as sociedades
ocidentais, colonizadoras, como apagam os conflitos sociais sob o mito da unidade nacional.
Em contraposição, o Modernismo problematiza as teorias raciais dos intelectuais tradicionais
brasileiros, reconfigurando a construção da identidade nacional, ao mesmo tempo que um
conjunto de transformações sociais explicaria o populismo no Brasil, comumente associado
com a revolução de 1930.

Como observa Ernesto Laclau (2011), ao interrogar a formação das identidades


coletivas sob a forma do populismo a partir de uma perspectiva gramsciana, a totalidade
social (unidade representativa da pluralidade de demandas insatisfeitas) constitui o
resultado de uma articulação entre a dimensão significativa e a dimensão afetiva. Em sua
imprecisão, o populismo, segundo Laclau, ao apontar para a plenitude ausente da
comunidade, configura uma precondição para operações discursivas politicamente
significativas. O populismo consiste, assim, em um significante vazio a que se
subordinam os significados particulares das demandas populares, expressão social de
identidades que emergem nas democracias modernas e se materializam por meio de uma
construção discursiva contingente, resultante da hegemonia, a qual, ao cabo, articula a figura
do “povo”. Para tanto, são fundamentais a relação entre o sentido e o sentimento, pois,
como nota Laclau, qualquer totalidade social resulta de uma articulação entre a dimensão da
significação e a dimensão afetiva (articulação em que atuam Literatura e as outras artes), e o
Estado. Afinal, o Estado, conforme Gramsci, combina particularidade e universalidade, na
medida em que, para ele, uma particularidade – uma plebs – reivindica constituir
hegemonicamente um populus, enquanto o populus (a universalidade abstrata) existe apenas
encarnado numa plebs, o “povo” do populismo.

Desse modo, se o Estado brasileiro, muitas vezes, cooptou boa parte da idealidade para
(des)construir imagens e conceitos de povo (ensaios de nacionalidade patrocinados ou não
pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, ISEB, etc), em contrapartida, houve momentos
em que a literatura excedeu os padrões a que se dirigia, opondo o desterritorializado ao
territorializado (Deleuze), a terra à fronteira (Viveiros de Castro), o instinto à instituição
(Antelo). As figurações de povo e nação, assim, podem se disseminar transversalmente,
enquanto resistência a autoritarismos, liberação de corpos ou testemunho de violências.

Portanto, o simpósio promoverá discussões comparatistas e interdisciplinares relacionadas a


manifestações artísticas e/ou conceituações teóricas de nacionalismos, povo, popular ou

147
populismos, com especial interesse nas experiências latino-americanas, sobretudo a brasileira.
Esperamos contribuições que investiguem: a) as figurações do povo, do popular e do
populismo nas literaturas e nas outras artes; b) novos trabalhos de arquivo que repensem o
nacional, as tradições populares ou expressões negadas pela historiografia tradicional; c)
reflexões teóricas sobre as aporias do termo povo (Agamben), sobre as mudanças dos públicos
de arte (Groys) ou sobre a construção da imaginação pública (Ludmer); d) a problemática das
distintas concepções que o termo populismo abrange, bem como a sua consideração como
fenômeno político efetivo (Laclau); e) questionamentos acerca da emergência de novos
“populismos”, especialmente aqueles relacionados com práticas e discursos
neoconservadores.

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Tradução de Henrique Burigo.
Belo Horizonte: UFMG, 2007.

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do


nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

ANTELO, Raul. Algaravia: discursos de nação. Florianópolis: EdUFSC, 1998.

BASTOS, Elide, RIDENTI, Marcelo, ROLLAND, Denis (Orgs.). Intelectuais e Estado. Belo
Horizonte: UFMG, 2006.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, 5v. São Paulo: Ed. 34,
1997.

GRAMSCI, Antonio. Cuadernos de la cárcel: literatura e vida nacional. 3. ed. México, D.F.: Juan
Pablos Ed., 1998.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Tradução de Carlos Nelson


Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989.

GROYS, Boris: Volverse público: Las transformaciones del arte en el ágora contemporánea.


Tradução de Paola Rocca. Buenos Aires: Caja Negra, 2014.

LACLAU, Ernesto. La razón populista. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011.

LUDMER, Josefina. Aquí América Latina: una especulación. Buenos Aires: Eterna Cadencia,
2010.

ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985.

RAMA, Ángel. La ciudad letrada. Hanover: Ediciones del Norte, 1984.

SARLO, Beatriz. Modernidade periférica: Buenos Aires 1920-1934. Tradução de Júlio Pimentel
Pinto. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. São Paulo: Brasiliense, 1995.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os involuntários da pátria: elogio do subdesenvolvimento.


Belo Horizonte: Cadernos de Leitura, n. 65. Edições Chão da Feira, mai. 2017.

148
PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

“ESPÍRITO DO POVO” COMO QUESTÃO: OS PARADOXOS DO NACIONAL

Leonardo D’Avila de Oliveira

A MEMÓRIA NACIONAL GALESA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM THE WELSH GIRL, DE


PETER HO DAVIS

José Otaviano da Mata Machado Silva

REPRESENTAÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL JAPONESA NO MAR DA FERTILIDADE, DE YUKIO


MISHIMA

Rachel Lourenço

17/07 (MANHÃ)

NARRATIVAS DE FUNDAÇÃO E REFUNDAÇÃO: A PEQUENA URBE COLONIAL COMO CÉLULA DA


GRANDE NAÇÃO

Luiz Nadal

OS ANOS 1930 ENTRE A HOSPITALIDADE E A HOSTILIDADE: REPRESENTAÇÕES DO


ESTRANGEIRO NO ROMANCE UM RIO IMITA O RENO (1939), DE VIANNA MOOG

Viviane da Silva Vieira

BRASIL, UM PAÍS CHAMADO FUTURO

Marcella Mesquita

149
EM “O MULO” HÁ UM POVO BRASILEIRO – A BRASILIDADE REPRESENTADA POR DARCY
RIBEIRO NA ANTROPOLOGIA E NA LITERATURA

Viviane Rodrigues Ribeiro do Vale

18/07 (MANHÃ)

A CONCEPÇÃO DE NAÇÃO NO CONTO “DETECTIVES” DE ROBERTO BOLAÑO

Mariana Augusta Pinheiro Di Salvio Almeida

QUEM TEM O PODER? REFLEXÕES SOBRE O LÍDER POLÍTICO NOS ANOS TRINTA EM SAVERIO,
EL CRUEL (1936) DE ROBERTO ARLT

María Pape

“O QUE AS CANÇÕES COLECIONAM DA GENTE”: A APROPRIAÇÃO DE COMUNIDADES DE


CONSUMO NA POESIA DE LEONARDO GANDOLFI E MARCELO MONTENEGRO

Filipe Manzoni

REPRESENTAÇÕES NACIONAIS E POPULARES NO MODERNISMO BRASILEIRO

Tiago Hermano Breunig

42 - FIGURAÇÕES INSÓLITAS DE ESPAÇOS, TEMPOS E PERSONAGENS


Coordenação: Flavio García (UERJ); Marisa Martins Gama-Khalil (UFU)

Resumo: Neste simpósio, pretendemos acolher propostas de trabalho no campo dos estudos
da ficção fantástica, em sentido lato, que tenham como objetivo a compreensão dos
procedimentos insólitos de composição de espaço, tempo e personagens. A concepção de
ficção fantástica norteadora será a modal e, nesse sentido, os trabalhos poderão ter como
objeto de estudo diferentes vertentes do modo fantástico, como compreendido por Filipe

150
Furtado no E-dicionário de termos literários de Carlos Ceia, tais como o fantástico, o estranho,
o maravilhoso, a ficção científica, o gótico, o real(ismo) maravilhoso, o realismo mágico, o
realismo animista, dentre outras possibilidades que, pela diversidade, nos escapam. Para
Rosemary Jackson, principal base conceitual de Furtado, o fato de a literatura fantástica
abdicar de uma representação mimética do mundo propicia o alargamento de possibilidades
de construção literária. A estudiosa francesa Irène Bessière afirma, por sua vez, que a narração
fantástica não pode ser definida como uma categoria ou gênero literário, porque ela implica
uma lógica narrativa formal e temática. Bessière ainda assinala que a narrativa fantástica não
se define apenas pelo inverossímil, mas, especialmente, por meio da justaposição das
contradições dos variados inverossímeis que se fazem presente no nosso cotidiano.
Entendemos que a ficção fantástica, que desvela diversos níveis de inverossimilhanças e faz
irromper o insólito que nos rodeia, é deflagrada especialmente por um trabalho especial de
composição de espaços, tempos e personagens. São variadas espacialidades que instigam a
irrupção da ambientação insólita: não só os castelos góticos e as florestas soturnas, mas
edifícios que desaparecem ou que crescem indefinidamente, jardins que trazem mais de um
nível existencial das coisas e seres. O tempo que se instaura em um mundo ficcional do
fantástico revela-se insólito, como, por exemplo, a justaposição de tempos paralelos, o
ingresso em um outro tempo ou as temporalidades invertidas, cíclicas, expandidas,
congeladas, convergentes. A caracterização das personagens também implica a sugestão ou
explicitação de uma ordem insólita, que vai desde o corpo metamórfico ao corpo monstruoso,
sendo, enfim, personagens que se mostram a partir de uma diferença. Destarte, os trabalhos a
serem inscritos neste simpósio poderão partir de uma argumentação de ordem teórica, como
também refletir sobre a construção dessas variantes ficcionais por intermédio da análise de
obras que apresentem em sua trama a irrupção do insólito, procurando evidenciar recursos
em que o insólito seja desencadeado por intermédio de uma elaboração estética espacial,
temporal ou actancial. Temos a consciência de que a proposta do simpósio se abre “quase”
que indefinidamente, contudo, a abrangência não é total, uma vez que deixa fora de seu
conjunto as construções ficcionais que têm base em uma representação marcadamente
realista e não possibilitam a irrupção do insólito. Entretanto, admitimos que a abertura do
enfoque do simpósio é ampla, pois vai desde narrativas em que há apenas a sugestão de
eventos insólitos a narrativas em que o insólito é abertamente narrado ou aceito por
personagens e/ou leitores. A abertura ampla da proposta deve-se ao fato de pretendermos
demonstrar a enorme diversidade de formas de construção da ficção fantástica e, nesse
sentido, possibilitar a reflexão sobre alguns pontos polêmicos que envolvem os estudos dessas
variantes, como, por exemplo, rebater o fato de, na versão literária, estar encerrada
temporalmente nos séculos XVIII e XIX, e a ideia de que para haver o fantástico é necessário
que exista hesitação. A imagem de uma rede repleta de fios diversos possibilita-nos pensar
também na constituição da ficção fantástica, no enredamento do mundo diegético
apresentado por ela: um mundo em que espaços, tempos e personagens se intercalam, se
justapõem, se embaraçam para nos mostrar que o ilógico faz parte de nossa lógica cotidiana.
Consideramos esse mundo como rizomático, no sentido atribuído por Deleuze e Guattari,
porque um elemento – espaço, personagem ou tempo, por exemplo – pode se conectar
inesperadamente a outro e, na sequência desligar-se dele. A superposição de mundos ou de
possibilidades de mundos é, ao nosso ver, uma das estratégias de construção da obra
fantástica que, por essa perspectiva, pode ser entendida como heterotópica por natureza. A
ficção fantástica, com a apresentação de um mundo aparentemente tão insólito e plural, age
no sentido de promover a exageração ou o deslocamento do real e, por isso, sua
representação não apresenta uma negação do real, mas incita uma revisão dele. Para que a
revisão se concretize, é preciso mostrar que não existe “a” verdade, mas verdades, e dar um
151
foco diferenciado aos fatos expostos ordenadamente pelas instituições, que tentam discipliná-
los e arrumá-los, e é por esse motivo que a ficção fantástica promove constantes
deslocamentos – históricos e estéticos. Esperamos, portanto, que os trabalhos reunidos neste
simpósio demonstrem teórica e/ou analiticamente estratégias de construção da obra
fantástica (envolvendo tempo, espaço e/ou personagens) e descortinem a sua potencialidade
de revisão do real.

Palavras-chave: Insólito Ficcional; Processos de Composição; Espaços Ficcionais; Tempos


Ficcionais; Personagens

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

O PROCESSO DE DESPOJAMENTO DO SUJEITO NA MODERNIDADE LÍQUIDA: ANÁLISE DO


CONTO “O HOMEM DO BONÉ CINZENTO”, DE MURILO RUBIÃO

Marcela de Castro Avila Aguiar

“ANÃO DE JARDIM”: O “CONTO TOTAL” DE LYGIA FAGUNDES TELLES

Nilton José Melo de Resende

FIGURAÇÕES DO INSÓLITO EM RETRATOS, DE CAIO FERNANDO ABREU

Danieli Tavares

POR PARTE DE PAI, DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS: A CASA DOS AVÓS COMO ESPAÇO
DO MARAVILHOSO

Lilian Lima Maciel

16/07 (TARDE)

IMAGINAÇÃO, DEVANEIO E POESIA: A URDIDURA NARRATIVA DE GUIMARÃES ROSA EM


“BURITI”

Elisabete Brockelmann de Faria

“VIAGEM NA FAMÍLIA” E “A TERCEIRA MARGEM DO RIO”: RUPTURAS DE ESPAÇO E DE TEMPO


NAS FICÇÕES DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE E GUIMARÃES ROSA

Antonio Carlos Costa Junior

AS MANIFESTAÇÕES INSÓLITAS EM O BOBO APRÍGIO, DE BRAZ JOSÉ COELHO

Bruno Silva de Oliveira

HORTÊNCIA DAS TRANÇAS: EFEITOS DO EXTRAORDINÁRIO


152
Andréia Glaicielly Dieger Rocha

A CONSTRUÇÃO DO MARAVILHOSO EM MATINTA PERERA

Wellingson Valente dos Reis

17/07 (MANHÃ)

FIGURAÇÃO DE ROSAURA, PERSONAGEM DE ÁLVARO DO CARVALHAL: PROCESSOS DE


COMPOSIÇÃO INSÓLITA

Flavio García

O INSÓLITO E A CRÍTICA SOCIAL EM “O LUME” E “MEMÓRIAS DE UMA FORCA”, DE EÇA DE


QUEIRÓS

Jean Carlos Carniel

VESTÍGIOS DE UM DISCURSO FANTÁSTICO EM O HOMEM DUPLICADO, DE JOSÉ SARAMAGO

Rosângela Soares de Lima

ARQUIPÉLAGOS DE UM PERSONAGEM

Ana Paula Silva

A CRONOTOPIA DA FRONTEIRA ENTRE VIDA E MORTE EM A DESUMANIZAÇÃO DE VALTER


HUGO MÃE

Marisa Martins Gama-Khalil

17/07 (TARDE)

ESPIAR PARA DENTRO: EM BUSCA DA TERRA DE TATIPIRUN

Lilliân Alves Borges

ENTRE NINFAS E CENTAUROS: UMA LEITURA DA OBRA A ESPADA E O NOVELO

Andréia de Oliveira Alencar Iguma

BRANCA DOS MORTOS E OS SETE ZUMBIS: A PRESENÇA DO FANTÁSTICO, DO MARAVILHOSO E


DA INTERTEXTUALIDADE NOS CONTOS DE FÁBIO YABU

Júlio Cezar Pereira de Assis

INTERTEXTUALIDADE: A CIGARRA (SURDA) E AS FORMIGAS

Helen Cristine Alves Rocha

“ELES ESTÃO POR AÍ”. NÓS TAMBÉM

153
Marcus Vinícius Lessa de Lima

18/07 (MANHÃ)

ANÁLISE DO INSÓLITO, DA SOLIDÃO E DA CRISE DE IDENTIDADE EM DOZE CONTOS


PEREGRINOS DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Camilla Guedes Tiburcio Pazim

O CORPO DESCOMUNAL NO CONTO “O AFOGADO MAIS BONITO DO MUNDO”, DE GABRIEL


GARCÍA MÁRQUEZ

George Lima dos Santos

O INSÓLITO, O SÓRDIDO, O NEFASTO, O PATÉTICO E FULMINANTE NO COTIDIANO QUASE


FANTÁSTICO DE TOCHTLI, O NARRADOR DE FESTA NO COVIL DE JUAN PABLO VILLALOBOS

Hiolene de Jesus Moraes Oliveira Champloni

VÍTIMAS E MONSTROS SUBVERTIDOS: A CONSTRUÇÃO DO INSÓLITO EM CONTOS DE AMPARO


DÁVILA

Ana Lúcia Trevisan

18/07 (TARDE)

O FANTÁSTICO COMO LÓCUS DE TRANSGRESSÃO

Claudia Fay de Macedo Espinola

ASPECTOS DO INSÓLITO E DO GROTESCO NO ROMANCE WISE BLOOD, DE FLANNERY


O’CONNOR

Débora Ballielo Barcala

A FLORESTA, RELAÇÕES DE SABER-PODER E AS MEMÓRIAS EM “O DOADOR DE MEMÓRIAS”

Lea Evangelista Persicano

O INSÓLITO LITERÁRIO E OS OBJETOS MÁGICOS PRESENTES EM OS CONTOS DE BEADLE, O


BARDO

Tamira Fernandes Pimenta

OS ESPAÇOS DE CONFINAMENTO NAS OBRAS DE SAMUEL BECKETT E MAURA LOPES


CANÇADO: GEOMETRIAS DA LOUCURA

Cristiana Silva Mendes Cangussú

154
43 - GÊNERO, CORPO E VIOLÊNCIA: REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA
LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
Coordenação: Profa. Dra. Cynthia Agra de Brito Neves (UNICAMP); Profa. Dra. Fernanda Valim
Côrtes Miguel (UFVJM)

Resumo: Quem são os sujeitos da ciência nas universidades e como constroem seus métodos,
objetos e espaços de circulação de saberes e de pesquisas? A quem servem esses
conhecimentos e com quais propósitos eles se articulam? Essas questões mais amplas se
aproximam da desconfiança recente na suposta objetividade científica dominante e de
interesses mais específicos no campo dos estudos literários contemporâneos ao sustentarmos
que as configurações estéticas das obras de arte não estão dissociadas de uma formação ética
das formas de vida. Defendemos que os textos literários podem “motivar empatias por parte
do leitor para situações importantes em termos éticos” (Ginzburg, 2013, p. 24). Nosso
interesse parte então de um questionamento sobre como a mulher vem sendo
discursivamente representada ou autorepresentada na literatura brasileira contemporânea e
como essas representações muitas vezes nos revelam temáticas da violência. Como são
narradas as violências de gênero? Como reconhecer o silenciamento histórico das vozes de
escritoras ao longo de nossa tradição literária canônica? Pode a literatura contemporânea
denunciar essas violências? A proposta deste simpósio surge como espaço constrangido de
privilégios que experimentamos na academia, mas igualmente como espaço para intervenção
política possível e urgente, como reconhece Heloisa Buarque de Hollanda (2018), no desejo de
enfrentar os retrocessos de nosso momento atual, explicitados recentemente em
depoimentos públicos de políticos, como o famoso: “menino veste azul e menina veste rosa” –
para ficarmos apenas com um dos exemplos controversos. Compartilhamos da formulação de
Hannah Arendt (2006) ao afirmar que “sem diálogo não há política” e do seu posicionamento
diante da tese da diferença entre culpa e responsabilidade. Segundo a filósofa, o lugar do
privilégio não pode se afastar da responsabilidade de agir, mesmo quando este lugar de
agenciamento político não se sente culpado pelas situações em que se manifestam as
desigualdades. O conservadorismo autoritário atual ameaça os debates em torno das questões
de gênero e feminismo, e isso não pode passar desapercebido. As discussões feministas têm
avançado no campo acadêmico nas últimas décadas, muito em função das lutas e articulações
dos movimentos sociais em várias partes do mundo. O nosso empoderamento recente parece
dialogar com os caminhos historicamente trilhados e com um exame crítico sobre os limites
dos avanços dessas discussões em amplas esferas. bell hooks (2000) argumenta que o
feminismo não é propriamente um movimento pela igualdade, mas uma luta contra a
opressão e contra a violência. A autora reconhece que as opressões não estão confinadas ao
sexismo, elas se expressam em outros locais, como nas relações de classe, no racismo e no
heterossexismo. Nancy Fraser (2006), em seu último livro, nos oferece um panorama
interessante em que coloca em perspectiva as sucessivas ondas feministas e suas principais
demandas, desde as lutas inicias em nome da justiça econômica – como a redistribuição de
papéis sociais e a remuneração no trabalho – até as demandas mais atuais – como o
reconhecimento das diferenças na igualdade e da igualdade na diferença, em que a noção de
gênero é recolocada sobretudo como construção cultural e historicamente constituída,
afastando-se das heranças dualistas, essencialistas e heteronormativas. Nesta última década,
assistimos ao crescimento da demanda pela justiça política, na qual a noção de “lugar de fala”
e o poder da linguagem são tomados como plano central das agendas e dos debates, o que
155
aponta para o fim da mediação discursiva e contesta a divisão excludente dos acessos da
mulher aos espaços políticos. Discussões como as de Gayatri Spivak (1988); Judith Butler
(1990), Regina Dalcastagnè (2012); Dijamila Ribeiro (2017) e Borges (2016) são importantes
para pensamos os modos como a literatura tem sido usada para recalcar manifestações
culturais, orais e escritas, de grupos culturalmente marginalizados e politicamente reprimidos.
Acreditamos ainda que a linguagem poética, ao desestabilizar os lugares fixos e hegemônicos
tradicionais, ultrapassa as contradições sociais e aponta para novas perspectivas de mudanças
possíveis, tal como o modismo dos slams. Nesse sentido é que a poesia pode ser uma arma
política, seja como espaço de memória, seja como resistência – ou reexistência, no neologismo
de Souza (2011). Por fim, compreendemos a violência de gênero a partir de uma perspectiva
histórica, (re)produzida por seres humanos em condições concretas e situadas, marcada pelo
patriarcalismo, a base mais primária dos valores culturais que sustentam nossos saberes
ocidentais e que precisam ser amplamente debatidos, assim como qualquer compreensão
universalista de juízo de valor. Este simpósio busca, portanto, reunir trabalhos e pesquisas de
diferentes reflexões críticas e teóricas interessadas nos debates aqui pontuados, sobretudo
nos modos como as mulheres vêm sendo representadas ou autorepresentadas na literatura
brasileira contemporânea. Interessa-nos as imagens estéticas das violências de gênero, como
são construídas, quais os impactos delas nos modos de constituição das personagens, nas
narrativas e nas poesias. A ideia é criar novas cartografias desses corpos femininos, baseadas
em uma política capaz de deslocar as bases da racionalidade ocidental, as perspectivas
eurocêntricas, os binarismos assimétricos e essencialistas.

Referências:

ARENDT, Hannah. O que é política? Trad. Reinaldo Guarany. 6 ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2006.
BORGES, Rosane da Silva. Esboço de um tempo presente. Rio de Janeiro: Malê, 2016.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Trad. Renato
Aguiar, 16 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura Brasileira contemporânea: um território contestado.


Vinhedo: Horizonte / Rio de Janeiro: Editora da Uerj, 2012.

FRAZER, Nancy. Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis.


Brooklyn: Verso Books, 2006.

GINZBURG, Jaime. Literatura, violência e melancolia. Campinas: Autores Associados, 2013.

HOLLANDA, Heloisa Buarque. Explosão feminista. São Paulo: Cia das Letras, 2018.

HOOKS, bell. Feminist Theory: From Margin to Center. Second Edition. London: Pluto Press,
2000.

RIBEIRO, Dijamila. O que é lugar de fala? Letramento, 2017.

_______ Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

SOUZA, Ana Lúcia Silva. Letramentos de reexistência: poesia, grafite, música, dança:

hip-hop. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Trad. Sandra Regina Goulart Almeida.
156
Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Trad. José Carlos Bruni. São Paulo: Abril
Cultural, 1979. (Os Pensadores, XLVI).

_______ Cultura e valor. Trad. Jorge Mendes. Lisboa: Edições 70, 2000.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

O CORPO COMO TERRITÓRIO DE MEMÓRIA EM PONCIÁ VICÊNCIO

Fernanda Valim Côrtes Miguel

INSUBMISSÃO E (RE) EXISTÊNCIA EM CORPOS DILACERADOS: UMA LEITURA DA DORORIDADE


EM TRÊS CONTOS CONTEMPORÂNEOS DE AUTORIA DE MULHERES NEGRAS

Dênis Moura de Quadros

CANTOS DO MUNDO: O PESO E A LEVEZA DA VOZ NA PROSA DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Maria da Aparecida Pires

MEMÓRIA E VIOLÊNCIA INSCRITAS NO CORPO LITERÁRIO DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Bruna Stéphane Oliveira Mendes da Silva

VERSOS INSURGENTES CONTRA O SILENCIAMENTO: A REPRESENTAÇÃO HEROICA DAS


MULHERES NEGRAS NO CORDEL DE JARID ARRAES

Ângela da Silva Gomes Poz

16/07 (TARDE)

DE MUSA INSPIRADORA À MUSA CRIADORA: AS PRODUÇÕES POÉTICAS DOS SLAMS DAS


MINAS

157
Cynthia Agra de Brito Neves

A VOZ DA MULHER COMPOSITORA NA HISTÓRIA DA MÚSICA BRASILEIRA

Christina Fuscaldo de Souza Melo

UMA DISCUSSÃO SOBRE AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES SURDAS NA LITERATURA


SURDA

Thainã Miranda Oliveira

A RE(A)PRESENTAÇÃO DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO NA LITERATURA BRASILEIRA


CONTEMPORÂNEA: LENDO UM COPO DE CÓLERA À LUZ DE DOM CASMURRO

Rafael Eisinger Guimarães

AS MULHERES DE ANTÔNIO: MITOS FEMININOS

Jaqueline Lupi Seabra da Silva

17/07 (TARDE)

O SILÊNCIO DO CORPO E DO DISCURSO EM MEU MARIDO, DE LÍVIA GARCIA-ROZA

Hellyana Rocha e Silva e Leonice de Andrade Carvalho

MARIA LUCIA MEDEIROS: A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA ENTRE CORPOS QUE


FALAM E QUE CALAM

Paulo José Valente Barata

VIOLÊNCIA E REPRESSÃO SEXUAL EM SINFONIA EM BRANCO, DE ADRIANA LISBOA

Amanda Cordeiro Quintella

ADRIANA LISBOA, LYA LUFT E MARTHA BATALHA E A IMPORTÂNCIA DA SIMBOLIZAÇÃO DO


TRAUMA

158
Giselle Leite Tavares Veiga

DUPLA CENA DO FEMININO: ENTRE A CRÍTICA E O LIRISMO DE ANA C.

Jucilene Braga Alves Mauricio Nogueira

A CARNAVALIZAÇÃO DO CORPO FEMININO EM O EFEITO URANO DE FERNANDA YOUNG

Marta Maria Bastos

18/07 (TARDE)

MASTIGA LEMBRANÇAS, ESCREVE ESPERANÇAS: POR QUE SOU GORDA, MAMÃE?, DE CÍNTIA
MOSCOVICH

Flavia de Castro Souza

VOCÊ É LOUCA: A VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA EM UM DEUS DENTRO DELE, UM DIABO DENTRO


DE MIM, DE NILZA REZENDE

Gabriela Fonseca Tofanelo

VOZES QUE NÃO SÃO OUVIDAS, CORPOS QUE NÃO TÊM LUGAR: A VELHICE EM MARIA
VALÉRIA REZENDE

Luciana Lima Silva

“ENTRE RESISTIR E IDENTIFICAR-SE”: INSCRIÇÕES DO CORPO FEMININO EM O LEOPARDO É UM


ANIMAL DELICADO, DE MARINA COLASANTI

Victória Lopes Pacheco

DE SILÊNCIOS E GRITOS SUFOCADOS: A VIOLÊNCIA DE GÊNERO EM “O PESO DO PÁSSARO


MORTO”, DE ALINE BEI

Alessandra Cristina Moreira de Magalhães

159
44 - HISTÓRIA LITERÁRIA, CRÍTICA E HISTÓRIA DA TRADUÇÃO:
TRAMAS E SENTIDOS
Coordenação: Prof ª Drª Germana Henriques Pereira (UnB); Drª Marlova Gonsales Aseff (UFSC)

Resumo: A relação entre a história da tradução e a história literária se define por ausências e
conflitos, apesar de evidentes objetos e metas conjuntas. É fato que a literatura traduzida e,
principalmente, a atuação de escritores como tradutores até hoje receberam pouca atenção
nas histórias da literatura brasileira. Trata-se, evidentemente, de um paradoxo, pois, no caso
dos escritores-tradutores, os mesmos contribuem para a construção de um espaço literário
nacional e legitimam, no mesmo gesto, o capital literário das nações centrais, como salienta
Casanova (2002, p.179). No tocante à literatura traduzida, Even-Zohar pontua que “via de
regra, as histórias das literaturas mencionam as traduções quando não há maneira de evitá-las,
quando tratam, por exemplo, da Idade Média ou do Renascimento” (1990, p. 45). O problema
é que a referência pouco sistemática a casos isolados não permite que se alcance uma ideia
clara do papel exercido pela literatura traduzida em nosso sistema literário em diferentes
épocas ou, nas palavras de Even-Zohar, da posição ocupada por esse tipo de literatura no
nosso sistema. Entretanto, no campo da literatura, a tradução parece ser o veio fundamental
para se compreender as vogas estéticas e suas reconfigurações, a invenção de técnicas
narrativas e poéticas, bem como a renovação de temas e repertórios. Ignorar essa gama de
textos constitui-se num problema para a historiografia, uma vez que, como lembra Lefevere,
as reescrituras (entre elas, os textos traduzidos) “tendem a desempenhar um papel tão
importante no estabelecimento de um sistema literário quanto ao das escrituras originais”
(LEFEVERE 2007, p. 54), não somente porque a maioria dos leitores tem acesso aos textos da
tradição ocidental por meio de traduções, mas porque, como dissemos há pouco, esse sempre
foi um meio eficaz tanto de afirmar quanto de repelir modelos literários. Para Lambert, o
conceito de literatura nacional que costuma orientar as pesquisas e o ensino da literatura está
fundamentado sobre uma noção “ingênua” de fronteiras entre literaturas, sejam essas
políticas ou linguísticas (2006, p.24). Ele ressalta que os gêneros literários em nossa época são
bastante internacionais, mas que isso não os impede de assumirem também algumas
características locais. Por isso, lembra que “a identidade das literaturas nacionais parece
corresponder a realidades relativas e não a uma essência” (p. 34). No entanto, a insistência em
se estudar a literatura nacional buscando uma suposta “autonomia” é um paradigma que
ainda não foi devidamente rompido.

Isso tudo sem entrar na questão da tradução como criação e no modo como nossa cultura
entende o conceito de autoria. Antoine Berman lembra que nem sempre houve a
diferenciação entre tradução e criação, ao ponto de se considerar a primeira como uma escrita
secundária e de menor valor. A distinção entre um texto original e um texto secundário
(tradução, comentário, recriação, adaptação) não existia verdadeiramente na Idade Média,
fato que só começa a mudar no Renascimento, quando começam a aparecer as noções de
original e de autor tais como as conhecemos hoje (BERMAN, 2011, p. 91).

Tendo essas questões no horizonte, este simpósio acolhe estudos sobre traduções que
marcaram época na história literária brasileira, sobre antologias de poesia traduzida e coleções
de romances publicados no Brasil no século 20 e 21, reflexões sobre traduções e retraduções
de clássicos, de poesia, de prosa e de prosa poética. Serão igualmente bem-vindos estudos
sobre o trabalho tradutório de escritores brasileiros, tanto em relação às circunstâncias de
suas escolhas tradutórias, modos de traduzir, arqueologia da obra tradutória, relações com a
obra própria ou reflexões acerca do ato de traduzir.

160
Referências:

CASANOVA, Pascale. A república mundial das letras. Tradução de Marina Appenzeller. São
Paulo: Estação Liberdade, 2002.

BERMAN, Antoine. Da translação à tradução. Tradução de Marie-Hélène Torres e Marlova


Aseff. Revista Scientia Traductionis, UFSC, 2011.

EVEN-ZOHAR, Itamar. Polysystem studies. Poetics Today - International Journal for Theory and
Analysis of Literature and Communication, Volume 11, n.1., 1990.

LAMBERT, José. Production, tradition et importacion: une clef pour la description de la


littérature et de la littérature en traduction. In: Functional Approaches to culture and
translation – selected papers by José Lambert. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, 2006.

LEFEVERE, André. Tradução, reescrita e manipulação da fama literária. Tradução de Claudia


Matos Seligmann. Bauru, SP: Edusc, 2007.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

LUIZ GASTÃO D’ESCRAGNOLLE DÓRIA, MEDIADOR DA OBRA GONCOURTIANA NO BRASIL

Zadig Mariano Figueira Gama

TRADUÇÃO CANÔNICA: O CASO DA RECHERCHE DE PROUST

Sheila Maria dos Santos

ANÁLISE CRÍTICA E DESCRITIVA DAS (RE)TRADUÇÕES DE MADAME BOVARY NO BRASIL: OS


PERCURSOS DAS TRADUÇÕES BRASILEIRAS DO SÉCULO XX AO XXI

Mônica dos Santos Gomes

TRADUZINDO A CRÍTICA DE TRADUÇÃO LITERÁRIA: “LANGAGE AMOUREUX/ AMOUR DE LA


LANGUE?” E “TRADUCTION ET HERMÉNEUTIQUE” DE INÊS OSEKI-DÉPRÉ

161
Natália Oásis de Oliveira

INTERTEXTUALIDADE E REESCRITURA NA TRADUÇÃO DO LIVRO DE ESDRAS


DEUTEROCANÔNICO DO GES-UFC

Gilbson Gomes Bento

17/07 (MANHÃ)

QUESTÕES DE NAÇÃO E PÁTRIA NAS TRADUÇÕES DE TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA


PARA A LÍNGUA INGLESA

Carolina Geaquinto Paganine

REVELAR A CULTURA OU REAFIRMAR O CÂNONE: DUAS TRADUÇÕES PARA O INGLÊS DE MEU


TIO O IAUARETÊ

Fábio Matos Carneiro

TRADUÇÃO NAS PÁGINAS E NAS RUAS: REGISTROS DA HISTÓRIA SUL-AFRICANA

Fernanda Alencar Pereira e Anna Isabel Santos Freire

¡SÍ, TENEMOS CLARICE! (PARATEXTOS EDITORIAIS E TRADUÇÃO LITERÁRIA EM CONTEXTO


ARGENTINO)

Rony Márcio Cardoso Ferreira

ROSALÍA DE CASTRO EM LÍNGUA PORTUGUESA: UM ESTUDO DA TRADUÇÃO DE ERNESTO


GUERRA DA CAL

Tais Matheus da Silva

A PEÇA TEATRAL "A STREETCAR NAMED DESIRE" TRADUZIDA NO BRASIL: ENTRE O PALCO E A

162
PÁGINA

Guilherme Pereira Rodrigues Borges

18/07 (MANHÃ)

A TRADUÇÃO NA HISTÓRIA LITERÁRIA: CONJETURAS SOBRE O SISTEMA-MUNDO E O SISTEMA


NACIONAL

Karina de Castilhos Lucena

JUSTINIANO JOSÉ DA ROCHA NA FRONTEIRA ENTRE CRIAÇÃO E TRADUÇÃO DE ROMANCE-


FOLHETIM

Lucas de Castro Marques

UM PANORAMA DA TRADUÇÃO DE POESIA NO BRASIL NA DÉC. DE 1960

Marlova Aseff

LITERATURA SOB RESTRIÇÕES FORMAIS EM TRADUÇÃO: COMPARAR E

TRANSCRIAR PARA CONTINUAR RESCREVENDO A NOSSA HISTÓRIA LITERÁRIA

Vinícius Gonçalves Carneiro

TRADUÇÕES DE MARIO QUINTANA: UM PERFIL DO ESCRITOR-TRADUTOR

Myllena Ribeiro Lacerda

BORGES E BERTOLUCCI: A HISTÓRIA DA ETERNIDADE SOB O OLHAR DA TRADUÇÃO

Ana Claudia Rodrigues

45 - IMAGENS EM DISCURSO: ESCRITA DO OUTRO COMO ESCRITA DE


SI
Coordenação: Prof. Dr. Nabil Araújo (UERJ); Prof. Dr. Elcio Cornelsen (UFMG)
163
Resumo: Ao cabo de sua incursão desmistificadora Em torno de Roland Barthes: da “morte do
autor” ao nascimento do leitor e à volta do autor, Eurídice Figueiredo (2015, p. 65) constata:
“A questão do autor continua central nos debates atuais sobre as escritas de si”. Prova disto é
o sucesso acadêmico-editorial do livro de Diana Klinger cujo título anuncia, com dicção de
manifesto, um dos mais prolíficos nichos dos estudos literários na atualidade: Escritas de si,
escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. Lançado em 2007 como “a melhor
introdução ao assunto disponível no momento” (Ítalo Moriconi), em menos de uma década o
livro alcançou sua terceira edição (2016) e o status de referência obrigatória, entre nós,
quando quer que se debata seriamente a problemática da “autoficção”. O cerne da potência
programática do livro reside na fórmula antibarthesiana em seu subtítulo, “o retorno do
autor”, enunciada, é claro, em contraposição à famigerada declaração da “morte do autor”
(1968), doravante superada: “a escritura como destruição da voz e do corpo que escreve seria
um conceito datado, e talvez historicamente ultrapassado. [...] Acredito que na atualidade já
não seja possível reduzir a categoria de autor a uma função” (KLINGER, 2016, p. 30); e ainda:
“Sustentar a existência de um retorno do autor implica necessariamente entrar no debate
sobre a produção da subjetividade em relação com a escrita. De fato, esses dois termos estão
em estreita relação: da Antiguidade até hoje, a escrita performa a noção de sujeito” (Ibid., p.
23). Ora, mas justamente em vista dessa performatividade inerente desde sempre à escrita é
que a noção de autoficção “como uma característica própria da narrativa contemporânea”
(KLINGER, 2008, p. 18) não se sustenta. Klinger lamenta que “em muitas das discussões
acadêmicas e jornalísticas esse conceito [autoficção] tem adquirido uma amplitude tal que
parece abranger desde Infância de Graciliano Ramos até os blogs pessoais” (Ibid., p. 18), mas o
fato é que a concepção de uma performance da subjetividade pela escrita não pode e não deve
ser circunscrita a uma determinada época, a menos que nos deixemos reger pelo fetichismo
historicista do “contemporâneo”; ou a um determinado gênero discursivo, a menos que nos
deixemos reger pelo fetichismo essencialista do “(auto)ficcional”. Se “pensar o sujeito da
escrita depois da crítica estruturalista do sujeito” (KLINGER, 2016, p. 28) tornou-se, de fato,
uma tarefa incontornável para os estudos literários no século XXI, a mesma não se cumprirá a
contento ignorando-se que “o debate sobre a produção da subjetividade em relação com a
escrita” já vem sendo travado no âmbito do estudos da linguagem há pelo menos quatro
décadas, desde que o pós-estruturalismo bakhtiniano trouxe para o centro da reflexão sobre o
discurso a problemática polifônico-dialógica. Nesta perspectiva, aliás, não há “produção da
subjetividade” que não se dê num horizonte de alteridade discursiva, reconhecendo-se, com
isso, a coexistência e a codependência entre o que Klinger concebe como modalidades
distintas de escrita: a “de si”, a “do outro”. Os textos, já clássicos, de Jacqueline Authier-Revuz
– “Heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva: elementos para uma
abordagem do outro no discurso” (1982) – e de Oswald Ducrot – “Esboço de uma teoria
polifônica da enunciação” (1984) – constituem marcos da “virada bakhtiniana” em direção às
dinâmicas de coconstrução do Outro e de Si no discurso. Mais recentemente, um volume
coletivo como Imagens de si no discurso: a construção do ethos (2005), organizado por Ruth
Amossy, testemunha a amplitude e a vitalidade das pesquisas focadas nessas dinâmicas em
domínios diversos. Na pesquisa literária, destacam-se, nesse sentido, os estudos de
imagologia: outrora combatidos como resquício do paradigma historicista do comparatismo
ocidental, são hoje “reconhecidos pelo establishment comparatista como uma das bases dos
estudos culturais, e até mesmo do ‘multiculturalismo’”, observa Pageaux (2011, p. 109). O
comparatista francês esclarece que “toda imagem procede de uma tomada de consciência [...]
de um Eu em relação a um Outro, de um aqui em relação a um alhures. [...] é a expressão,

164
literária ou não, de um distanciamento significativo entre duas ordens de realidade cultural”
(Ibid., p. 110); “[uma] língua segunda para dizer o Outro e, consequentemente, para dizer
também um pouco de si, de sua cultura” (Ibid., p. 111); e ainda: “Toda alteridade revela uma
identidade – e vice versa” (Ibid., p. 111). Interessamo-nos, aqui, pelas dinâmicas de cocriação
de imagens do Outro e de Si nos discursos, sem restrição de época ou gênero; mais
especificamente pela maneira como uma “imagem de si” se revela a partir de uma “imagem
do outro”, ao modo de “de uma tomada de consciência de um Eu em relação a um Outro”.
Como essa “tomada de consciência” se performa, por exemplo, na construção de personagens
narrativas a partir de um ponto de vista enunciativo? Desde seus primórdios – com Henry
James, Percy Lubbock, E. M. Forster –, a moderna teoria da personagem se vê assombrada
pela problemática do ponto de vista; depois do degredo a que a narratologia estruturalista a
relegou, ela retorna pela via de uma abordagem enunciativa e interacionista da narrativa (cf.
Rabatel). Tomando como mote a reflexão acerca da figuração como “conjunto de processos
discursivos e metaficcionais que individualizam figuras antropomórficas, localizadas em
universos diegéticos específicos, com cujos integrantes aquelas figuras interagem, enquanto
personagens” (REIS, 2018, p. 165), este simpósio se constituirá como espaço de teorização e
de análise da tomada de consciência de um Eu em relação a um Outro nessa performance
figurativa; em suma: da escrita do outro como escrita de si.

Referências:

AMOSSY, Ruth (Org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto,
2005.

AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. Heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva:


elementos para uma abordagem do outro no discurso [1982]. Trad. de Alda Scher e Elsa M. N.
Ortiz. In: ______. Entre a transparência e a opacidade: um estudo enunciativo do sentido.
Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. p. 11-80.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4. ed. Trad. de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. 2. ed. Trad. de Paulo Bezerra. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 1997.

DUCROT, Oswald. Esboço de uma teoria polifônica da enunciação [1984]. Trad. de Eduardo
Guimarães. In: ______. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987. p. 161-218.

FIGUEIREDO, Eurídice. Em torno de Roland Barthes: da “morte do autor” ao nascimento do


leitor e à volta do autor. Santa Maria (RS): PPGL/UFSM, 2015.

KLINGER, Diana. Escrita de si como performance. Revista Brasileira de Literatura Comparada,


n. 12, p. 11-30, 2008.

KLINGER, Diana. Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. 3.
ed. Rio de Janeiro: 7Letras, 2016.

PAGEAUX, Daniel-Henri. Elementos para uma teoria literária: imagologia, imaginário,


polissistema. Trad. de Katia A. F. de Camargo. In: ______. Musas na encruzilhada: ensaios de
literatura comparada. Frederico Westphalen(RS)/São Paulo/Santa Maria(RS): EdURI/Hucitec/
165
EdUFSM, 2011. p. 109-127.

RABATEL, Alain. Homo narrans: por uma abordagem enunciativa e interacionista da narrativa.
v. 1. Trad. de Maria das Graças S. Rodrigues, Luis Passegui e João G. da Silva Neto. São Paulo:
Cortez, 2016.

REIS, Carlos. Dicionário de estudos narrativos. Coimbra: Almedina, 2018.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

EXUMAÇÕES: DO AUTOR (“PENSAR O SUJEITO DA ESCRITA DEPOIS DA CRÍTICA


ESTRUTURALISTA DO SUJEITO”...)

Nabil Araújo

ENTRE O “EU” E O “OUTRO” NA ORDEM DO DISCURSO DA GRÉCIA ANTIGA

Rafael Guimarães Tavares da Silva e Sara Camila Barbosa dos Anjos

O ETHOS DA CRÍTICA PRÉ-MODERNA E O CASO HOMERO

Thiago Nunes Santana

16/07 (TARDE)

COMO FAZER TEORIA: WOLFGANG ISER, LEITOR DA MODERNIDADE

Janine Resende Rocha

PERSPECTIVAS EM JOGO NA LEITURA DA NARRATIVA LITERÁRIA

Raquel Trentin Oliveira

166
MÚLTIPLOS AGENTES DA OBRA: O PROJETO "CANÇÃO DE AMOR PARA JOÃO GILBERTO NOLL"

Luis Alberto Ferreira Brandão Santos

ESCRITA DE SI E ESCRITA DO OUTRO EM ARMADILHA PARA LAMARTINE E EM SUA FORTUNA


CRÍTICA

João Gonçalves Ferreira Christófaro Silva

17/07 (MANHÃ)

BATAILLE E CARSON: DESEJO E SABER NA ESPACIALIDADE LIMÍTROFE ENTRE O EU E O OUTRO

Felipe Leal Almeida Resende

A PRISÃO INSCRITA NO CORPO: EU X OUTRO

Ivete Lara Camargos Walty

ESCRITA DO OUTRO COMO ESCRITA DE SI: A IMAGEM DA MULHER NA RESISTÊNCIA ITALIANA


NO ROMANCE DE RENATA VIGANÒ

Isabella Andrade

17/07 (TARDE)

FORMAÇÃO DO SUJEITO PELA IMAGEM: A CIÊNCIA SEM FICÇÃO DE GOETHE

Magali dos Santos Moura

NARRATIVAS GRÁFICAS DO OUTRO E DE SI NA CIDADE: ETNODENHOGRAFIAS URBANAS

Carla Freitas Pacheco Pereira

167
CONSTRUINDO COM OS RESTOS: ENTRE UMA POLÍTICA DA IMAGEM E SUA QUIMERA

Pedro Gomes Dias Brito

UMA PROPOSTA DE ABORDAGEM PARA A PEÇA AQUELE QUE DIZ SIM E AQUELE QUE DIZ NÃO
DE BERTOLT BRECHT

Thereza de Jesus Santos Junqueira

18/07 (MANHÃ)

“DUAS ALMAS EM UM PEITO”: ALFRED DÖBLIN, MÉDICO E ESCRITOR, POR ELE MESMO

Elcio Loureiro Cornelsen

MODULAÇÕES DE SI NO DISCURSO: ETHOS, IMAGEM DO ESCRITOR E IMAGINÁRIO DA ESCRITA


NA CORRESPONDÊNCIA DE GRACILIANO RAMOS

Thayane Verçosa da Silva

ROBERTO BOLAÑO E ARTURO BELANO: UM OUTRO EM SI

Fabiana de Oliveira Santos

18/07 (TARDE)

PERFIS DE MULHER: IMAGENS DO FEMININO PELO OLHAR MASCULINO

Karoline dos Santos Silva

A VOZ DA ALTERIDADE A SERVIÇO DO AUTOR: UM ESTUDO DO TRAVESTISMO NARRATIVO EM

168
O PROFESSOR, DE CHARLOTTE BRONTË

Sara Novaes Rodrigues

AS DUAS NINAS DE LÚCIO CARDOSO: IMAGEM E PONTO DE VISTA NARRATIVO

Helena de Barros Binoto

DA TIPOLOGIA À IMAGOLOGIA: PERSONAGENS E PONTO DE VISTA NARRATIVO EM E. M.


FORSTER

Vinício Lima Berbat

19/07 (MANHÃ)

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE AUTORA AUTOFICCIONAL

Regina Sa

CONFISSÕES E FICCIONALIZAÇÃO DE SI NA ESCRITA DE CAROLA SAAVEDRA

Josye Gonçalves Ferreira

46 - IMAGINÁRIOS LATINO-AMERICANOS: LITERATURA E OUTRAS


ARTES
Coordenação: Profa. Dra. Mariana Cortez (UNILA); Prof. Dr. Antonio Rediver Guizzo (UNILA);
Profa. Dra. Alexandra Santos Pinheiro (UFGD)

Resumo: Na crítica literária contemporânea, a noção de imaginário apresenta-se como um


importante vetor de análise das representações estéticas. Desde aportes teóricos que
perpassam com maior profundidade pela investigação de possíveis estruturas da consciência
humana (tais como a fenomenologia, o estruturalismo figurativo, a psicanálise e, mais
recentemente, a neurociência) até aportes que se voltam sobretudo às condições materiais e
históricas de uma sociedade ou campo de análise (tais como o materialismo histórico e suas
169
releituras), observa-se a profusão de termos como simbolização, simbólico, símbolo, imagem,
imaginação e imaginário em diversas investigações que se voltam à análise das relações sociais
e das relações do homem com o mundo, como também nas investigações que se voltam à
interpretação das representações artísticas destas relações. Em outras palavras, recuperando e
ampliando o sentido da observação de Gilbert Durand (2002 [1992]), o imaginário é
considerado o denominador por meio do qual é mediada toda produção e compreensão
humana. No âmbito da crítica e teoria literária, observamos profícuos esforços em pesquisas
que se voltam para a investigação destes diferentes “imaginários” (compreendendo o termo
em toda sua amplitude e polêmica) que compõem os fenômenos estéticos Estes estudos visam
a analisar como os imaginários, tanto a partir das relações internas evidentes nas sintaxes
imagéticas construídas pelos autores quanto a partir das inter-relações entre as imagens de
uma obra e os imaginários sociais com os quais ela dialoga, se configuram. Sob tal perspectiva,
pesquisadores como Juremar Machado Silva (2012 [2009]) afirmam que “O homem só existe
na realidade imaginal”. A afirmação do sociólogo, embora orientada em pressupostos não
completamente similares, também dialoga, por exemplo, com as ideias de Jacques Lacan e
Slavoj Žižek, para quem, a partir de uma leitura psicanalítica, o concreto apenas se realiza por
meio do processo imaginário do indivíduo. A Literatura Comparada, neste sentido, é um
espaço privilegiado para o desenvolvimento de pesquisas que possam colaborar para
evidenciar os imaginários manifestos na literatura e outras artes, visto que possibilita
investigações que transcendem as fronteiras político-administrativas dos países do continente
e constituem espaços transfronteiriços de pesquisa. Neste Simpósio, tomamos o termo
imaginário como fundamentação das reflexões que serão apresentadas, já que se trata de uma
noção dinâmica capaz de suscitar diferentes interpretações dos fenômenos artísticos e
literários. Assim, a partir dos possíveis contextos investigativos que o termo imaginário
provoca, o Simpósio tem por objetivo central conhecer, discutir e articular pesquisas voltadas à
compreensão dos imaginários manifestos em obras de autores latino-americanos. A
aproximação da literatura brasileira à literatura hispano-americana conforma o corpus de
análise das discussões a serem propostas. Pretende-se, assim, problematizar as seguintes
questões: 1) quais as semelhanças e diferenças na construção dos imaginários estéticos latino-
americanos; 2) como os imaginários, no âmbito das proposições teórico-críticas, evidenciam-se
hoje; 3) como se manifesta o imaginário da América Latina em outros contextos. Portanto,
propõe-se no simpósio “Imaginários Latino-Americanos: literatura e outras artes” a discussão
sobre a convergência articulada de investigações voltadas para a compreensão das
conformações imaginais manifestas na literatura e artes latino-americanas, sobretudo, em
estudos que se articulem na inter-relação entre as configurações estéticas aparentes na
materialidade dos objetos artísticos e as condições materiais (naturais, históricas, econômicas
e/ou culturais) de representação, produção, e/ou recepção de tais textos. A partir desta
proposta, a intenção do simpósio é promover o fortalecimento da produção científica na área
da Literatura Comparada, na área dos Estudos do Imaginário, na área da teoria, crítica e
historiografia literária latino-americana, assim como nos contatos com aportes teóricos:
Estudos Culturais, Estudos Decoloniais, Filosofia Pós-Humanista entre outros. Além disso, esse
momento de reflexão pretende discutir as teorias, historiografias e cartografias imaginárias
diversas, problematizando a viabilidade e aderência de aportes teóricos, modelos
interpretativos e pressupostos metodológicos constituídos em territorialidades, culturas e
temporalidades diversas (geralmente originárias da Europa) na compreensão dos fenômenos
literários da América Latina. Por fim, todas as investigações que, por diferentes vertentes,
analisem textos estético-literários situados no contexto latino-americano são bem-vindas para
participarem do debate aqui proposto. Desejamos, assim, compor um debate que reúna
múltiplos olhares em torno do tema e que, ao final, possa propiciar a construção de sínteses
170
que possibilitem vislumbrar pontos de contato e divergência na constituição dos imaginários
que conduzem as representações literárias latino-americanas, como também os diálogos
estabelecidos com outras artes.

Palavras-chave: Literatura Comparada; Imaginários; América Latina

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

ESPAÇOS FLUÍDOS E DE PODER A PARTIR DAS PERSPECTIVAS DOS OLHARES DAS


PERSONAGENS RÂNIA (NO FILME RÂNIA, DE ROBERTA MARQUES) E MIRANDA (NA OBRA MAR
AFUERA, DE GRECIA CÁCERES)

Léa Cristina Andrade

ENTRE LETRA E ESPÍRITO: IMAGINÁRIOS COLONIAIS NO CINEMA E NA LITERATURA LATINO-


AMERICANOS

Marcelo Magalhães Leitão

SAGAS LATINO-AMERICANAS: IMAGINÁRIOS DA FICÇÃO DISTÓPICA PARA JOVENS ADULTOS

Lais Dias de Farias

“NO SOY DE AQUÍ”: O IMAGINÁRIO DA CRIANÇA MIGRANTE EM “ELOÍSA Y LOS BICHOS”

Mariana Cortez

16/07 (TARDE)

VIOLÊNCIA E LITERATURA NA AMÉRICA LATINA: UMA LEITURA A PARTIR DO HUMANISMO

Maíra Soalheiro Grade e Antonio Rediver Guizzo

171
ENTRE ENSAIOS E NARRATIVAS: REFLEXÕES SOBRE O PROJETO ESTÉTICO DE JOSEFINA PLÁ

Andre Rezende Benatt

LA LARGA NOCHE DE FRANCISCO SANCTIS: UNA LECTURA COMPARATIVA

Maria Celina Ibazeta

LA ESTÉTICA DE BRECHT EN EL TEATRO VENEZOLANO. CABRUJAS Y LA HISTORIA EN UN ACTO


CULTURAL

Jesús Oneiver Arellano Pérez

47 - LEITORES E LEITURAS NA CONTEMPORANEIDADE


Coordenação: Profa. Dra. Andrea Saad Hossne (USP); Profa. Dra. Patrícia Trindade Nakagome
(UnB)

Resumo: “Clássico não é um livro (repito) que necessariamente possui estes ou aqueles
méritos; é um livro que as gerações de homens, urgidas por razões diversas, leem com prévio
fervor e com uma misteriosa lealdade” (Borges, 1999, p.169). Assim conclui Borges seu texto
“Sobre os clássicos”, no qual é possível notar que a experiência profunda da leitura sustenta a
literatura mais do que a própria materialidade do texto. Há também a indicação de uma
estreita relação entre leitura e segredo, afinal algo de imponderável cerca a passagem da
literatura enquanto potência para sua efetivação, sempre única, no ato da leitura. Com isso,
abre-se uma dificuldade para os estudos literários, nos quais, como alerta Compagnon (2006),
sempre houve uma “desconfiança” em relação ao leitor, de modo que ou se optava por ignorá-
lo, ou por formular uma teoria “como uma disciplina da leitura ou uma leitura ideal” (2006,
p.143). Leitores e leituras são fundamentais para a literatura ao mesmo tempo em que não
ocuparam um lugar destacado no debate crítico. Por essa razão, neste simpósio, eles serão
discutidos a partir de uma variedade de perspectivas que permita dar conta de sua
complexidade. Trata-se de uma reflexão plural que considera tanto as diferentes vozes de
leitores quanto as variadas formas possíveis de concretizar a leitura. Alguns dos eixos centrais
do simpósio são: teoria da leitura / recepção; ética da leitura; formas distintas de leitura;
recusa do literário; novos espaços críticos; pesquisas com leitores empíricos; e formação de
leitor. Com esses diferentes eixos, pretende-se estimular o debate sobre o papel da crítica
literária na contemporaneidade frente a um cenário marcado tanto por uma expansão nos
modos de ler quanto por uma persistente limitação de acesso à literatura, em meio à
problemática atual das diferentes conceituações do que seja o literário. Enfrentaremos, assim,
as seguintes questões: como a crítica literária, na sua manifestação majoritariamente
172
acadêmica, lida com a pluralidade de leitores e leituras (e os entraves a eles colocados), que
estão fora dos muros das universidades? As formas tradicionalmente valorizadas pela crítica
acadêmica são capazes de lidar com os desafios democráticos de novos leitores e suas
reivindicações? Como pontos a serem debatidos em torno dessas questões, indicamos: 1)
análise da recepção de obras literárias, verificando como se chegou ao seu estado atual de
apreciação; 2) análise de obras que tiveram grande impacto junto ao público, mas não
receberam equivalente recepção crítica; 3) análise de gêneros e suportes que colocam em
xeque os limites daquilo que é definido por literário e recebam alta valoração pelo seu público,
tais como HQs, narrativas de videogames etc; 4) discussão sobre formas contemporâneas de
leitura literária, como as realizadas em canais de booktubers e fandoms; 5) reflexão sobre o
caráter ativo da leitura, levando em conta aspectos como imaginação, criação e performance;
6) revisões bibliográficas sistemáticas sobre teorias da leitura; 7) apresentação de concepções
teóricas mais atuais sobre o lugar da leitura e do leitor nos estudos literários, ampliando um
debate ainda restrito à estética da recepção; 8) análise da representação de leitores no
discurso da crítica literária e em obras literárias; 9) pesquisas envolvendo leitores empíricos,
em especial para entender os critérios de valor que norteiam suas escolhas, muitas vezes
distanciado daqueles estabelecidos na crítica literária; 10) discussão sobre aspectos
importantes à leitura e ao leitor e que muitas vezes escapam aos parâmetros críticos: afetos,
fé, gosto, diversão; 11) discussão sobre o papel e a atuação de um tipo específico de leitor, o
crítico literário, considerando principalmente as implicações éticas de sua atuação em um país
com tantos não leitores; 12) reflexão sobre aqueles que, de alguma forma, se distanciam da
condição de “leitor ideal” prevista pela crítica: crianças, iletrados etc; 13) O não leitor, a recusa
da leitura e o lugar da cultura não letrada; 14) proposições de formas de intervenção e
mediação para difusão/debate da literatura junto a leitores reais em escolas, universidades ou
outros espaços. Os aspectos anteriormente apontados não esgotam o debate sobre leitores e
leituras, servindo apenas como um referencial para os participantes do simpósio. Outras
discussões e diversas perspectivas teóricas e metodológicas são bem-vindas.

Referências:

BORGES, Jorge Luis. Sobre os clássicos. In: Obras completas. São Paulo: Globo, 1999. p. 167-
169, v. 2

COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria: Literatura e senso comum. Belo Horizonte,


Editora UFMG, 2006.

PROGRAMAÇÃO

17/07 (MANHÃ)

LITERATURA NARRATIVA DE MASSA: LETRAMENTO LITERÁRIO E OS CIRCUITOS DE PRODUÇÃO


E CONSUMO

Cleiry de Oliveira Carvalho

173
RECEPÇÃO LITERÁRIA E CONVERGÊNCIA DE MÍDIAS: UMA BREVE ANÁLISE DE "THE
HANDMAID’S TALE" (O CONTO DA AIA)

Fellip Agner Trindade Andrade

DE HARRY POTTER AOS CLÁSSICOS. UM LIVRO PUXA O OUTRO?

Joice Ribeiro Maciel Antonelli

HARRY POTTER E SEUS LEITORES

Beatriz Masson Francisco

"ÁGUA COM AÇÚCAR" PARA TRANSBORDAR O CORAÇÃO: O PAPEL DO LEITOR NO


ESTABELECIMENTO DOS SENTIDOS DE UMA OBRA LITERÁRIA

Clarissa Resende Rosa

17/07 (TARDE)

A LEITURA LITERÁRIA E SUAS IMPLICAÇÕES NO ENSINO

Marli Lobo Silva

APRENDIZADO DE LITERATURA? RECEPÇÃO DO ENSINO E REPRESENTAÇÕES DO


APRENDIZADO DE LITERATURA SOB A PERSPECTIVA DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL II
E MÉDIO

Mariana Rosa Silva

O CLÁSSICO E O BEST-SELLER EM CIRCULAÇÃO NA ESCOLA: UM ESTUDO SOBRE CONCEPÇÕES


DE LITERATURA E EXPERIÊNCIAS DE LEITURA

174
Iara de Oliveira

NARRATIVAS DE FICÇÃO NA ESCOLA: O LEITOR EM FOCO

Larissa Warzocha Fernandes Cruvinel

A TAREFA DO LEITOR: EM BUSCA DE UMA “ERÓTICA DA ARTE”

Laeticia Maria Ferreira Porto Monteiro

LEITORES EM CONTEXTO: A LEITURA COMO EXPERIÊNCIA AFETIVA, CRIATIVA E CRÍTICA E SEU


(NÃO) LUGAR NA SALA DE AULA

Andrea Saad Hossne

18/07 (MANHÃ)

SAGARANA E SERTÃO: O OUTRO LADO DA HISTÓRIA

Antonio Daniel Félix

A PROSA MODERNA DE UM CHAMADO JOÃO, UMA DISCUSSÃO QUE NÃO SE ENCERRA

Rosalina Albuquerque Henrique

DALTON TREVISAN LEITOR DOS CLÁSSICOS

Raquel Illescas Bueno

LEITOR, JAVALIS E QUINTAL: DISCUTINDO MIMESE, TEORIA DA RECEPÇÃO E DO EFEITO


ESTÉTICO A PARTIR DO CONTO DE ANA PAULA MAIA

Luiza de Rezende Faria

175
MUNDOS VISÍVEIS E TEORIA NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Gabriel Carrara Vieira

18/07 (TARDE)

ANÁLISES SOBRE A LEITURA EM S., DE J.J. ABRAMS E DOUG DORST: A TRAJETÓRIA DE LEITURA
PELAS MARGENS E AS TÁTICAS E ESTRATÉGIAS DO LEITOR

Vitoria Ferreira Doretto

FRAGMENTOS DE UMA NARRATIVA EM QUADRINHOS

Rômulo Bezerra

O LEITOR E O ACESSO À LITERATURA POR MEIO DAS LISTAS LITERÁRIAS: UM ESTUDO DE O


LIVRO DA LITERATURA, DE JAMES CANTON

Arnon Tragino

DA EXPERIÊNCIA PESSOAL À PARTICIPAÇÃO COLETIVA: CLUBES DE LEITURA, LEITORAS E


ESCRITORAS NO CENÁRIO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO

Clarice de Mattos Goulart

LITERATURA E EDUCAÇÃO NÃO FORMAL: UMA ANÁLISE DO TRABALHO DO ESCRITOR


SACOLINHA

Laeticia Jensen Eble

O AMOR À LITERATURA

Patricia Trindade Nakagome

176
48 - LEITURAS CONTEMPORÂNEAS DE VIRGINIA WOOLF
Coordenação: Prof. Dr. Davi Pinho (UERJ); Profa. Dra. Maria Aparecida de Oliveira (UFAC);
Profa. Dra. Nicea Helena de Almeida Nogueira (UFJF)

Resumo: Em 1974, Julia Kristeva publicou Des Chinoises, no qual ela afirma que o suicídio de
algumas escritoras modernistas revela a impossibilidade de um sujeito feminino na linguagem
historicamente falocêntrica. “Eu que quero não ser” é o título de seu quinto capítulo, uma
formulação de Marina Tsvetaeva, e é lá que o suicídio de Virginia Woolf aparece como recusa
da ordem simbólica, o que permite que Kristeva qualifique Woolf como uma escritora que
escolheu “afundar sem palavras no rio” (1974, p. 157). A assinatura “Virginia Woolf” encena
um debate intenso nos estudos feministas da década de 70, no qual Kristeva se insere. Na
academia anglófona, A Literature of Their Own (1977), de Elaine Showalter, forma uma
geração de leitores que perceberão em Woolf o medo da identidade feminina, o que faz da
“mente andrógina” que Woolf anuncia ao final de A Room of One’s Own (1929) uma rota de
fuga do feminino nessas leituras críticas. Por outro lado, e em resposta a Showalter, Toril Moi
(1985) dirá que Virginia Woolf é uma escritora da desconstrução avant la lettre, que sabe que
história é texto e a escrita a sua produção, o que dá lugar central à androginia enquanto
antídoto para os binômios hierarquizantes da tradição metafísica, em especial na relação
masculino/feminino.

O que está em jogo nesse embate é o nome Virginia Woolf enquanto uma assinatura
modernista (Agamben, 2008) que ora lhe fecha no vocabulário dos formalistas de Bloomsbury,
ora no vocabulário do feminismo ginocêntrico, ou ainda na esteira da desconstrução de
Derrida e dos saberes rizomáticos de Deleuze. No entanto, como vêm revelando os estudos
woolfianos recentes, a questão estética em Woolf está inextricavelmente entrelaçada à
questão política que figura em sua obra. E essa questão é o feminino enquanto negatividade
profanada tanto pela forma quanto pela produção de sentidos de suas obras, o que lança a
autora em busca de novas formas de escrita em movimento de eterno devir-outro (Braidotti,
2011).

Nessa perspectiva contemporânea, todas as leituras críticas, teóricas e filosóficas de Woolf são
importantes para o que ela definiria ao final da vida como sua filosofia, seus momentos de ser
e não ser (“A Sketch of The Past”). Ao contrário dos embates entre o poético e o material, vale
pensar hoje como as leituras de Virginia Woolf do século passado não se excluem
mutualmente, mas são complementares no pensamento woolfiano, centrífugo por excelência
(Allen, 2010). Voltar aos textos woolfianos – sua produção ensaística, ficcional, biográfica e
autobiográfica –, nos permite achar os pontos de conexão em seu mosaico de perspectivas
(Banfield, 2000): os sentidos que sua forma deixa escorregar para o nosso presente. Ao pensar
o mosaico, fica claro que qualificar o mergulho de Virginia Woolf como “sem palavras” registra
apenas a cena que aconteceu no Rio Ouse – uma cena que, em 2019, após tantos anos de
pesquisa sobre a obra da autora, não sustenta a intensidade intelectual, o comprometimento
poético ou ainda o engajamento político de suas palavras cada vez mais vivas.

Na guinada estético-política dos estudos woolfianos (Zwerdling, 1986; Goldman, 1998 & 2004;
Braidotti, 2011), convidamos trabalhos que se debrucem sobre releituras de toda e qualquer
questão que sua vasta obra suscite – da forma do conto, ensaio e romance modernistas à

177
escrita de si ou a uma filosofia feminista. Assim, faremos de Woolf nossa contemporânea em
um diálogo sobre escrita, estética e política. Afinal, se levamos a sério os choques de realidade
que Virginia Woolf diz sentir ao escrever (cf. “A Sketch of the Past”), entendemos que a escrita
de Woolf está sempre dentro e fora de seu tempo, uma escrita contemporânea no sentido
agambeniano (2006), sempre referida ao passado do passado mas também à sua presença,
como formulou T.S. Eliot (1919). Hoje, quando tanto do que se anuncia na produção tardia da
autora parece mais uma vez ativar quadros de guerra incessantes (cf. Three Guineas, 1938),
não podemos ainda ter medo de Virginia Woolf. Desse modo, almejamos acolher trabalhos
que contemplem os seguintes temas, ou quaisquer outros que estejam em diálogo com a vida,
a obra e/ou o tempo de Virginia Woolf:

● Woolf e o feminismo, o modernismo, as artes e/ou o Bloomsbury Group;

● Woolf e o pós-modernismo, o pós-estruturalismo e/ou a filosofia;

● Woolf e os estudos queer;

● Woolf e o trauma, a guerra e/ou o fascismo;

● Woolf e/em tradução e adaptação;

● Woolf e o Império e/ou os estudos pós-coloniais;

● Woolf e a Ecocrítica;

● Woolf e os estudos pós-humanos;

● Woolf transnacional, transcultural, transtemporal;

● Woolf e a teoria crítica e/ou a psicanálise;

● Woolf Leitora/ Leitores de Woolf.

I am suspended between life & death in an


unfamiliar way.

The Diary of Virginia Woolf, 18/02/1922

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. The Signature of All Things: On Method. Tradução de L. Disanto e K.


Attell. New York: Zone Books, 2009a. [2008]

AGAMBEN, Giorgio. What is the Contemporary?. In: AGAMBEN, G. What is an Apparatus? and
Other Essays. Tradução de D. Kishik e S. Pedatella. Stanford: Stanford University Press, 2009b.
[2006] P. 39-54.

ALLEN, Judith. Virginia Woolf and The Politics of Language. Edinburgh: Edinburgh University

178
Press, 2010.

BANFIELD, Ann. The Phanton Table: Woolf, Fry, Russell and the Epistemology of Modernism.
Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

BRAIDOTTI, Rosi. Nomadic Theory: The Portable Rosi Braidotti. New York: Columbia University
Press, 2011.

GOLDMAN, Jane. Modernism, 1910-1945: Image to Apocalypse. Basingstoke: Palgrave


MacMillan, 2004.

GOLDMAN, Jane. The Feminist Aesthetics of Virginia Woolf: Post-Impressionism and the
Politics of the Visual. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

KRISTEVA, Julia. About Chinese Women. Tradução de Sean Hand. In: MOI, Toril (Org.). The
Kristeva Reader. Oxford: Blackwell Publishers, 1986. [1974] P. 138-159.

MOI, Toril. Sexual/Textual Politics: Feminist Literary Theory. New York: Routledge, 1985.

SHOWALTER, Elaine. A Literature of Their Own: British Women Novelists from Brontë to
Lessing. Princeton: Princeton University Press, 1977.

ZWERDLING, Alex. Virginia Woolf and the Real World. Berkeley: University of California Press,
1986.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

CRUZAMENTOS COMO ESTRATÉGIA EM VIRGINIA WOOLF

Ana Carolina de Machado Mesquita

CONVERSA: UM MÉTODO FILOSÓFICO EM VIRGINIA WOOLF

Davi Pinho

MUNDOS INCOMPOSSÍVEIS EM VIRGINIA WOOLF

Luiz Fernando Medeiros de Carvalho

179
VIRGINIA WOOLF NA MÍDIA E NO ESPAÇO ESCOLAR

Maria Aparecida de Oliveira

O ESPAÇO AUTOBIOGRÁFICO EM “OS ANOS”, DE VIRGINIA WOOLF

Nícea Helena de Almeida Nogueira

17/07 (TARDE)

FOTOGRAFIA E “HORRORISMO”: ADRIANA CAVARERO LEITORA DE VIRGINIA WOOLF

Alexandre Nunes de Sousa

HISTÓRIAS PARA OS MORTOS: TRADUÇÕES DO SER NO TEMPO NA NARRATIVA WOOLFIANA

Débora Souza da Rosa

VIRGINIA WOOLF E T.S. ELIOT: ENTRE TRADIÇÕES E MODERNIDADES

Josenildo Ferreira Teófilo da Silva

REPRESENTAÇÕES DO FEMININO EM AS HORAS, DE MICHAEL CUNNINGHAM

Laís Rodrigues Alves Martins

AFINAL, POR QUE DEVERÍAMOS TER MEDO DE VIRGINIA WOOLF, VIRGINIA WOOLF, VIRGINIA
WOOLF...?

Victor Santiago Sousa

18/07 (TARDE)

180
CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONTO NA OBRA DE VIRGINIA WOOLF

Carla Lento Faria

ECOCRÍTICA EM VIRGINIA WOOLF E CONSTRUÇÃO DE PERSONAGEM

Luisa L S de Freitas

PARA NÃO SOLTAR AS MÃOS: POLÍTICA E INTIMIDADE POSSÍVEIS

Marcela Filizola

CORAÇÃO DE POETA EM CORPO DE MULHER: JUDITH SHAKESPEARE COMO PARADIGMA PARA


A ÉCRITURE FÉMININE EM VIRGINIA WOOLF

Mariana Muniz Pivanti

A CONSTRUÇÃO RÍTMICA DA POESIA E DA PROSA EM THE WAVES

Marluce Faria de Melo e Souza

49 - LITERATURA CARIBENHA E GUIANENSE ESCRITA POR MULHERES


Coordenação: Juliana Pimenta Attie (UNIFAP); Natali Fabiana da Costa e Silva (UNIFAP); Viviane
Ramos de Freitas (UFRB)

Resumo: Pensar na cultura caribenha e guianense é pensar em territórios que durante anos
tiveram – e a ainda têm – sua cultura e linguagem violentamente substituídas pelas do
colonizador. Nessa dinâmica de apropriação e imposição, comum à maioria das nações
colonizadas, permeia a literatura a busca pela identidade e os percalços para sua expressão.
Primeiramente, deve-se levar em conta a influência de países dos continentes europeu e
africano na formação da identidade dos caribenhos e dos guianenses, tendo em vista o
processo colonizatório e escravocrata. Em segundo lugar, é preciso considerar também a
questão da diáspora. Conforme Hall (1999, p.1), “[...] a migração tem sido um tema constante
na história do Caribe” e, nessa conjuntura, as identidades tornam-se múltiplas. Sobre essa
multiplicidade de identidades, é relevante pensar que, nos estudos pós-coloniais caribenhos e
guianenses, encontramos duas correntes que abordam a questão da identidade. A primeira,
representada principalmente pelo pensamento de Frantz Fanon e Aimé Cesaire, entende que a
cultura caribenha deve buscar uma essência, uma identidade unificadora e fortalecedora dos
povos caribenhos. Já a outra vertente procura ressaltar a heterogeneidade dos povos de

181
origem caribenha e compreende a identidade como um elemento processual. Guardadas as
diferenças entre as perspectivas, observamos o desejo pela reconstrução do passado histórico
e por dar voz aos sujeitos silenciados pelo colonizador, ou, nas palavras de Spivak (2014), os
subalternos. Para a teórica indiana, são subalternos os sujeitos excluídos do mercado, da
representação política e legal, e impossibilitados de participarem plenamente do extrato social
dominante. Em Twentieth Century Caribbean Literature, Alison Donnel (2006, p. 5) aprofunda a
discussão e identifica quatro momentos críticos através dos quais os paradigmas da crítica
literária caribenha foram estabelecidos em torno de um conjunto de questões: 1)
anticolonialismo, nacionalismo; 2) migração e diáspora; 3) a centralidade da etnia afro-
caribenha; 4) a concepção das mulheres como duplamente colonizadas. Donnel aponta o início
da década de 1990 como o momento em que começaram a surgir estudos críticos sobre
narrativas de mulheres caribenhas, pela primeira vez consideradas como um conjunto distinto.
Esses primeiros estudos feministas sobre o trabalho de escritoras caribenhas foram orientados
pelas demandas de uma crítica voltada para a diáspora negra. Já em relação ao quarto
momento crítico, Donnel introduz a noção de colonização dupla (“double colonisation”), que
para ela consiste numa descrição simplificada da complexa posição das mulheres negras
inseridas na ordem social patriarcal e colonial imposta pelo colonialismo e suas consequências
(DONNEL, 2006, p. 138). Conforme apontam os autores de The Empire Writes Back, o termo
firmou-se como uma descrição durável do status das mulheres no colonialismo (ASHCROFT,
GRIFFITHS, TIFFIN; 2002, 206). Donnel pontua que o termo de fato ofereceu uma identidade
ideológica para a escrita de mulheres afro-caribenhas – e ousamos dizer que isso ocorre
igualmente para a escrita das mulheres afro-guianenses e/ou crioulas –, que permitiu a sua
incorporação em estudos mais abrangentes sobre a escrita de mulheres negras, que surgiram
no final da década de 1980 e início da década de 1990. No entanto, a autora argumenta que o
termo também criou um discurso crítico em torno da invisibilidade e do silêncio, que não tem
sido útil para situar a escrita de mulheres caribenhas como parte de uma tradição ou história
literária regional de longa data. Donnel propõe como substituto o termo agente duplo
(“double agent”). Desse modo, no lugar de conceber as mulheres (escritoras) pós-coloniais
como duplamente destituídas de poder, Donnel coloca em primeiro plano a ideia do quanto as
escritoras caribenhas são capazes de mobilizar as questões de gênero, etnia e identidade
cultural como locais de resistência e afirmação. A noção de “agente duplo” alude ao domínio
da espionagem, disfarce e subterfúgio, bem como à capacidade de agência que passou sem
reconhecimento. Nesse sentido, o termo potencialmente abre possibilidades para as mulheres
caribenhas e suas obras literárias serem lidas como resistentes, textos rebeldes que exigem
uma compreensão mais específica e diferenciada da "mulher caribenha", tanto como posição
do sujeito como sujeito posicionado (DONNEL, 2006, p. 139). Essas questões também podem
ser identificadas na produção literária da região das Guianas – que compreende a Guiana
Francesa, o Suriname, a República da Guiana, o Amapá e parte de Roraima, no Brasil. Nesse
ponto, vamos ao encontro do pensamento de Pizarro, em Reflections on the historiography of
Caribbean Literature (1988), sobre a necessidade de se refletir sobre as delimitações dos
territórios caribenhos para além da definição mais tradicional do espaço compreendido pelo
mar do Caribe, abarcando outros países da América Latina que compartilham especificidades
histórico-culturais no que tange à escravidão, à exploração das terras, à pirataria, à tirania
(como os regimes ditatoriais), entre outras questões. Diante disso, esse simpósio é um convite
para dirigir o olhar ao trabalho de escritoras caribenhas e guianenses, radicadas ou não no
Caribe ou na região das Guianas, mas comprometidas com uma escrita situada. As
interlocuções com essas escritoras permitem explorar de que forma as questões morais,
políticas, religiosas, espirituais encenadas por esses textos são capazes de ampliar, contestar,
deslocar, ou propor novas travessias de fronteiras raciais, sexuais e culturais.
182
Referências:

ASHCROFT, Bill Frances; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen. The Empire Writes back: Theory and
Practice in Post-Colonial Literatures. New York: Routledge, 2002

DONNEL, Alison. Twentieth-Century Caribbean Literature: Critical Moments in Anglophone


Literary History. London: Routledge, 2006.

HALL, Stuart. Thinking the Diaspora: Home-Thoughts from Abroad. Small Axe, Durham (North
Carolina), p. 1-18, 1999.

PIZARRO, Ana. Reflections on the historiography of Caribbean Literature. Tradução J. Ann


Zammit. Callaloo. Baltimore, John Hopkins University Press, n.34, p.173-185, 1988.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o Subalterno Falar? Tradução de André Pereira Feitosa e
Marcos Pereira Feitosa; Sandra Regina Goulart Almeida. Belo Horizonte: UFMG, 2010

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

A IDENTIDADE-RELAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DAS LITERATURAS FRANCÓFONAS DO CARIBE

Dieumettre Jean

O CONTRASTE E A CONFLUÊNCIA ENTRE PASSADO, PRESENTE E FUTURO EM SEE NOW THEN,


DE JAMAICA KINCAID

Juliana Pimenta Attie

NO RASTRO DA HISTÓRIA FRAGMENTADA HAITIANA: EDWIDGE DANTICAT E SEU ADEUS HAITI

Maria Helena Valentim Duca Oyama

O LOCAL DE FALA DA FEITICEIRA EM MOI, TITUBA SORCIÈRE, DE MARYSE CONDÉ

Natali Fabiana da Costa e Silva

183
A GEO/CORPO-POLÍTICA DAS RELAÇÕES EM BEM-VINDOS AO PARAÍSO DE NICOLE DENNIS-
BENN

Viviane Ramos de Freitas

50 - LITERATURA DE CAMPO E GEOPOESIA: PASSAGENS DA CULTURA


POPULAR E ETNOFLÂNERIES POR BRASIS LIMINARES
Coordenação: Willi Bolle (USP); Augusto Rodrigues da Silva Junior (UnB); Ana Clara Magalhães
de Medeiros (UFAL)

Resumo: A Literatura de campo e a geopoesia surgem no contexto do centro-periférico de um


país de dimensões continentais. Um mapa de brasis liminares, distantes do mar, revela que as
literaturas e culturas brasileiras continuam em formação. Embora o palco do interior tenha
sido muito percorrido (econômica, política, etnográfica e intelectualmente), ainda há muito
por dizer das paragens centroestinas e nortenses do Brasil. Este Simpósio Temático pretende
empreender um trabalho coletivo das passagens (percorridas pelos etnoflâneurs). Cada
participante deverá acrescentar uma vereda ao painel pensamental: via processo de teoria em
progresso, uma espécie de autoconsciência do inacabamento da crítica e cada centelha fará
parte de uma polifônica constelação analítica. Convocamos colecionadores (no sentido
benjaminiano) para enformar uma enciclopédia da geopoesia. O próprio deslocamento para o
encontro, na comunhão das visões da história, constitui a literatura de campo. Dos diversos
modos de representar surge a proposta de reescrever essa história – contada oralmente,
experimentada performaticamente, continuada pelos leitores. Traçando etnoflâneries de
campo, nos movimentos de enfronteiramento, nas migrações das vocalidades, veredas
polifônicas emergem como caminhos da cultura popular. Nesse sentido, investigar as vertentes
despontadas nos cerrados e sertões, bem como nos banzeiros e vazantes, nos permitirá
perscrutar vozes e corpos individuais e coletivos das mais diversas manifestações. No âmbito
da respondibilidade, pretendemos experimentar a geopoesia em performances culturais e
analisar os modos de fazer da literatura de campo, em poemas e canções, prosas e dramas,
relatos e textos desde o período colonial que nos levam, ainda, a seguir os rastros e as vozes
dos que de tão longe, há tanto, vêm dizendo. Agregamos, assim, um pensamento da
pluralidade e do inacabamento que acionam entendimentos de culturas em trânsito, em
transes, contra abordagens monológicas (BAKHTIN, 2008). Assim, os estudos de geopoética e
de geocrítica, em diálogo com investigadores brasileiros da cultura, tais como Darcy Ribeiro,
Carlos Rodrigues Brandão, Hermilo Borba Filho, dentre outros, caminham para a celebração da
carnavalização na literatura comparada. A crítica polifônica, que nasce do literário, arranja-se
com vozes de poetas do cotidiano, como os goianos/mineiros/brasiliários Cora Coralina, José
Godoy Garcia, Anderson Braga Horta e Cassiano Nunes; prosadores das gentes e tropas
migrantes, a exemplo de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Hugo de Carvalho Ramos e
Bernardo Élis; dramaturgos e cineastas que fazem do Planalto Central espaço universal:
Dulcina de Moraes, Geraldo Lima, Hugo Zorzetti e Vladimir Carvalho; além de cantores e
versistas populares de nomes apagados pela histografia, cujas obras perpetuam-se nas
entoações das festejos móveis e imóveis. Das artes de brasis liminares, formados pelo centro,
oeste e norte pretendemos sulear uma constelação de categorias. Consideramos essencial
184
atualizar e ampliar a discussão dos dramas sociais, campos plurais e metáforas dinâmicas, na
linhagem do pensamento de Victor Turner, com vistas a perfazer poéticas do centroeste-norte.
A crítica polifônica ganha vida entre os povos cerradeiros, centroestinos, nortistas, sertanejos,
caipiras, indígenas, quilombolas e outras variáveis de brasis liminares. Expressões que
ordenam ideias, mas também espraiam forças inclassificáveis de raízes e rizomas de um país
de culturas diversas. Pelos vales, vãos, bacias, planaltos, altiplanos, rios, quilombos, aldeias,
espaços de rexistência vão se compondo em territorialidades imaginárias e políticas. Conforme
advertem Benjamin/Bolle, o literário não aceita uma delimitação precisa de fronteiras. É desse
movimento oscilatório que se configura a capacidade que a geopoesia e a literatura de campo
apresentam. Pequenos índices que aparecem prodigiosamente no arranjo dos diversos
recursos literários e artísticos, numa espécie de língua in opere, fabulosa e fabularmente em
movimento, enformando a crítica polifônica. Enfim, pesquisas e inquietações que versem
sobre manifestações da literatura oral e escrita no campo da poesia, da prosa, do teatro, do
cinema, da performance e de vocalidades várias são convidadas a compor e espraiar as
discussões deste Simpósio.

Referências 

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de


François Rabelais. 6. ed. Trad. Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 2008.

BENJAMIN, Walter. Passagens. Ed. Org. por Willi Bolle. Trad. Irene Aron e Cleonice

Paes Barreto Mourão. 3 vols. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.

BOLLE, Willi. “Um painel com milhares de lâmpadas” – Metrópole & Megacidade. BENJAMIN,
Walter. Passagens. Ed. Org. por Willi Bolle. Trad. Irene Aron e Cleonice Paes Barreto Mourão. 3
vols. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018, vol. III, p. 1707-1746.

GARCIA, José Godoy. Araguaia Mansidão. Goiânia: Editora Oriente, 1972.


MEDEIROS, A. C. M. et al. (Org.). Os parceiros de Águas Lindas: ensino de literatura pelas letras
de Goiás. 1ed. Goiânia: R&F Editora, 2018, v. 1.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Abril Educação, 1982.

SILVA JR, Augusto. R. Editorial. Cultura popular, oralidade e performance. Cerrados – Revista
do Programa de Pós-Graduação em Literatura (Poslit/UnB). V. 22, n. 35, 2013. p. 7-10.
Disponível em: [Link]

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

UMA CATEGORIA GEOGRÁFICA QUE ALEXANDER VON HUMBOLDT NÃO CITOU

Willi Bolle (Stefan Wilhelm Bolle)


185
NOTAS PARA UM PROJETO DE ROMANCE HISTÓRICO BRASILEIRO: EUCLIDES DA CUNHA,
VÁRIOS ESCRITOS

Joana Luíza Muylaert de Araújo

CADERNOS DE GEOPOESIA: PASSAGENS, VÃOS, RUAS DO FOGO E VIAGENS PENSAMENTAIS

Augusto Rodrigues da Silva Junior

UM ROMANCE MACHADIANO DE “BRASIS LIMINARES”: CULTURA POPULAR E POÉTICAS DA


ORALIDADE EM ESAÚ E JACÓ

Ana Clara Magalhães de Medeiros

MÁRIO PALMÉRIO CRONISTA: OS CONFINS NAS PÁGINAS DO JORNAL LAVOURA E COMÉRCIO

Viviane Cristina Oliveira

17/07 (MANHÃ)

SERTÃO: RELEITURA DA PALAVRA EM ALGUNS MOMENTOS DA HISTÓRIA E DA CRÍTICA


LITERÁRIA BRASILEIRA

Cícero Ferreira Pinto Neto

O NARRADOR DA/NA GEOPOESIA: IMAGENS DA COBRA GRANDE NA COMUNIDADE DO JULIÃO

Cinthia Bastos Saboia

EXPEDIÇÃO A MATO GROSSO, 1947: GEOGRAFIA, PAISAGEM E LEMBRANÇAS

Joana Passi de Moraes

186
EM BUSCA DE UMA POÉTICA CERRATENSE CONTEMPORÂNEA

Wélcio Silvério de Toledo

17/07 (TARDE)

FLÂNEUR SERTANEJO: UMA EXPERIÊNCIA PELO SERTÃO MINEIRO

Rosa Amelia Pereira da Silva

TRADUZINDO PARA O FRANCÊS AS ANDANÇAS DE AUGUSTO MATRAGA PELO SERTÃO

Sophie Céline Sylvie Guérin Mateus

AS MOVÊNCIAS POLIFÔNICAS E POLIFÓRMICAS NA NOVELA “CARA-DE-BRONZE”, DE


GUIMARÃES ROSA

Bianca Cristina Sinibaldi

CONTROLE E DESCONTROLE DO CORPO NAS VEREDAS DO SERTÃO NO DISCURSO DE RIOBALDO

André Luiz Moraes Simões

18/07 (MANHÃ)

A GEOPOESIA DA FESTA E DA NARRATIVA NA CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DA COMUNIDADE


QUILOMBOLA KALUNGA DO MIMOSO EM TOCANTINS

Elizeth da Costa Alves

A LITERATURA DE CORDEL EM GOIÁS: A VOZ POÉTICA DE PAULO NUNES BATISTA

Gláucia Mendes da Silva

187
GOIÁS E BRASÍLIA PELOS OLHOS DE JOSÉ GODOY GARCIA, POETA E PROSADOR

Ionice Barbosa de Campos

HORIZONTES GOIANOS: PAISAGENS DE ÁGUA, TERRA E HOMEM NA POESIA DE JOSÉ GODOY


GARCIA

Regina Célia dos Santos Alves

51 - LITERATURA DO CÁRCERE E RESISTÊNCIA: MORTE E CEMITÉRIO


DOS VIVOS
Coordenação: Profa. Dra. Cíntia Carla Moreira Schwantes; Prof. Dr. Sergio Guilherme Cabral
Bento

Resumo: Para Antonio Candido (2004) há uma ligação clara entre a Literatura e os Direitos
Humanos. O crítico propõe o direito à arte da palavra como uma necessidade essencial, uma
vez que ela constitui um dos acessos de cada ser humano a sentimentos diversos e à
consciência sobre as garantias que nos assistem. Neste sentido, há uma ampla construção
literária voltada para a constituição e cristalização dos direitos essenciais (fundamentais e
humanos) da pessoa e da própria democracia, como evidenciou a historiadora Lynn Hunt
(2009).

Seguindo o modelo ibérico que se instaurou na América Latina, da época colonial brasileira até
a atualidade houve momentos de centralização do poder político ou estatal e, paralelamente,
de resistência, podendo ser citadas as insurreições de Canudos, Farroupilha e Inconfidência
Mineira; já suas representações na literatura abrangeram autores como Euclides da Cunha,
Letícia Wierschowski, Tomás Antônio Gonzaga, entre outros. Da mesma forma, grandes
mudanças estruturais suscitaram manifestações da arte da escrita, tais como a Proclamação da
República, com Lima Barreto, Machado de Assis e outros; instauração do Estado Novo, com
Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro e David Nasser, por exemplo; e a ditadura militar
imposta de 1964 a 1985, com nomes como os de Ferreira Gullar, Rui Castro, Carlos Heitor Coni,
Alex Polari e Érico Veríssimo.

Entende-se que, na história do Brasil, houve poucos momentos de fato democráticos, e


consequentemente, viu-se a deflagração de grandes violações de direitos humanos e
fundamentais. Atualmente, experimentamos o mais longo período democrático na história
nacional, fato amplamente demonstrado por documentos históricos, jurídicos e literários, que
servem de ponto de partida para estudos sobre o contraste entre a realidade e a construção
do ideal do Estado brasileiro, tal como apontam as obras do jurista e literato Miguel Reale,
que, inclusive, vivenciou, apoiou e se indignou com a instauração do último regime ditatorial
brasileiro.

Vale lembrar que há uma preocupação constante com a manutenção das normas jurídicas

188
pactuadas em determinado período, buscando-se a denominada segurança jurídica, ou seja, a
previsibilidade sobre a aplicação do Direito. As consequências de suas mudanças são
analisadas pelos estudiosos da Justiça de Transição ou transitólogos, tais como Juan Linz
(2015), que entende que é necessário adotar uma série de medidas políticas e jurídicas que
buscam superar um regime autoritário e por consequência consolidar a nova democracia.

Como era esperado, os fatores e os resultados desses momentos são sentidos em outras áreas
do saber, como os estudos literários, que são marcados por variados escritos de resistência
que demonstram a micro história de cada um daqueles momentos. Podemos citar como
exemplo Bosi (2002), Sarmento-Pantoja. (2015), entre outros.

Assim, propomos um simpósio interdisciplinar sobre literatura de resistência enfocando obras


históricas, literárias e jurídicas que demonstrem o cotidiano de inconformismo sobre os abusos
cometidos na mudança ou manutenção de regimes autoritários experimentados no Brasil, de
nossa colonização à atualidade. Além disso, visa-se a reflexão de resquícios dos tempos de
exceção presentes em um tempo histórico democrático, seja por meio do trauma, seja pelos
aparelhos institucionais que mantenham, em algum nível, conexão ou afinidade com um
passado repressivo. Desse modo, serão bem-vindas comunicações que:

a) tragam um debate teórico sobre a literatura como um direito humano


fundamental;
b) analisem obras em que a violação dos direitos humanos seja uma questão
central;
c) delimitem um corpus que tangencie as relações entre direito e literatura;
d) proponham uma reflexão sobre temas como autoritarismo, ditadura e democracia
a partir de obras literárias;
e) estudem manifestações narrativas, poéticas e artísticas em tempos de
cerceamento democrático, levantando questões como exílio, repressão, perdas e
resistência.

Referências:

BARBOSA, Rui. Amnistia Inversa: Caso de Teratologia Jurídica. Rio de Janeiro: Imprensa
Oficial, 1935.

BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São Paulo: Ouro sobre Azul, 2004.

FICO, Carlos. Além do Golpe: Versões e controvérsias sobre 1964 e a Ditadura Militar.

LINZ, Juan. Autoritarismo e Democracia. Lisboa: Livros Horizonte, 2015.

REIS, Daniel Aarão. Ditadura e Democracia no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

SARMENTO-PANTOJA, Augusto; PINHEIRO, Veridiana Valente; SARMENTO-

PANTOJA, Tânia (Org.). Literatura e resistência: olhares e perspectivas. Belém: PPGL/UFPA,


2014.

189
PROGRAMAÇÃO

18/07 (MANHÃ)

TRÊS MULHERES DE TRÊS PPPÊS: UM QUASE-ROMANCE DE PAULO EMÍLIO NO CONTEXTO DA


DITADURA CIVIL-MILITAR BRASILEIRA

Carolina Serra Azul Guimarães

CRESCER EM TEMPOS SOMBRIOS: AS MENINAS E THE BELL JAR COMO ROMANCES DE


FORMAÇÃO FEMININA EM TEMPOS DE EXCEÇÃO

Cintia Carla Moreira Schwantes

AS FACES DO AUTORITARISMO EM "O PARDAL É UM PÁSSARO AZUL"

Francisco Elieudo Buriti de Sousa

LITERATURA COMO INSTRUMENTO DE RESISTÊNCIA ANTIFASCISTA

Rarache Rodrigues Costa

A DISTOPIA JOGOS VORAZES COMO REPRESENTAÇÃO DA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO E DA


VIOLÊNCIA

Helena Regina Cavalcante Duarte

18/07 (TARDE)

AS RELAÇÕES DE PODER E AUTORITARISMO NA ARGENTINA: "O ESCRITOR ARGENTINO E A


TRADIÇÃO"

Graciane Cristina Mangueira Celestino

190
OUTRA LUTA CORPORAL: FORMAS DE CERCEAMENTO EM “DENTRO DA NOITE VELOZ”

Renan Nuernberger

A ANTOLOGIA VINAGRE E O PAPEL DA POESIA EM TEMPOS REPRESSIVOS

Sergio Guilherme Cabral Bento

A REPRESENTAÇÃO DO QUILOMBO DE PALMARES NA POESIA OITOCENTISTA BRASILEIRA A


PARTIR DA NARRATIVA HISTORIOGRÁFICA COLONIAL

Giovanna Gobbi Alves Araújo

52 - LITERATURA E DIREITO: DIÁLOGOS, ANÁLISES, POSSIBILIDADES


Coordenação: Cristiano Paixão (UnB); André Karam Trindade (UniFG); Douglas Antônio Rocha
Pinheiro (UnB)

Resumo: Ao propormos um Simpósio acerca das interrelações entre Literatura e Direito,


observamos, de plano, que essas conexões são abertas, plurais e marcadas pela
imprevisibilidade de seu resultado. Disso decorre o caráter único desta oportunidade.

Num primeiro momento, a aproximação entre Literatura e Direito pode parecer apenas um
exercício metafórico de linguagem. Mesmo se fosse o caso, já haveria uma forte contribuição
para a pesquisa porque a metáfora, que não é um fim em si mesma, preserva a capacidade
criadora da linguagem e, por consequência, do próprio direito. Um estudo metafórico, além
disso, também permitiria desvelar os possíveis projetos ideológicos ocultos por detrás de uma
linguagem jurídica que, situada na cultura, indevidamente se apresenta como neutra. Porém,
estudos de direito e literatura não se baseiam apenas numa aproximação aleatória. A
narratividade é ínsita ao direito. A maneira como os fatos e os sujeitos são esteticamente
ordenados numa decisão judicial demonstra como a narrativa jurídica não só descreve mas
igualmente prescreve. Assim, a pesquisa acerca das potencialidades narrativas em textos
literários pode permitir uma reflexão crítica e propositiva da maneira como o direito constrói
sua própria narrativa por meio de decisões, reflexões doutrinárias, exposições de motivos
legais e história constitucional.

Além disso, estudos sobre a relação entre literatura e direito não abrandam, mas sim
reforçam, o compromisso ético-social do direito. O reconhecimento da dimensão narrativa do
direito não admite o esmaecimento das fronteiras entre ficcionalidade e realidade, sequer
uma legitimação de práticas jurisdicionais que inventam suas próprias narrativas de justiça
despregadas do horizonte hermenêutico social em que se produzem. O objeto estético
exclusivamente literário, mesmo quando cria sua própria realidade, acaba evocando uma

191
realidade pré-existente ético-cognitiva. A narratividade do direito não é produzida de modo
desconectado das narrativas sociais que balizaram a elaboração legislativa e das narrativas
presentes que, no momento decisório, ressignificam os conceitos jurídicos vagos e
polissêmicos na facticidade da vida. O direito como narrativa deve ser sempre um ato
responsível, ou seja, dialogicamente responsivo e eticamente responsável.

Logo, a aproximação do direito com a literatura não reduz o potencial crítico da análise
jurídica. Não se trata aqui de uma mera delimitação de aspectos formais da justiça poética, tais
como: ritmo, entonação, articulação, motivo, gênero. Um olhar que se volte para o todo da
obra literária deve considerá-la em sua forma arquitetônica, percebendo, para além do
material, a tensão constante entre forma e conteúdo, uma complementaridade que não é
estranha ao direito no dialogismo estabelecido entre normas substantivas e processuais. Não
há, pois, como pensar a forma desconsiderando o conteúdo e vice-versa. O conhecimento
cultural se produz nesta fronteira, nesta intersecção. A compreensão dos vários tropos
narrativos permite apontar leituras diacrônicas que desestabilizam as leituras jurídicas
sincrônicas dadas.

Há, sempre, contudo, riscos no estabelecimento dessa interlocução entre Literatura e Direito.
O diletantismo e a superficialidade são ameaças sempre presentes.

Desta forma, é preciso ajustar o rumo das investigações, conferindo a elas maior rigor. De
acordo com as pesquisas mais articuladas na área, entre autores brasileiros e estrangeiros,
algumas perspectivas de investigação sobre as relações entre Literatura e Direito se
apresentam:

(1) textos literários que abordem elementos de direito, justiça, Estado, poder,
permitirão revelar olhares condensados diacrônicos, futuros plurais de um passado anterior à
realidade presente jurídico-estatal, que podem ou não ter se cumprido; textos literários fora
do cânone ocidental, por outro lado, permitirão a emergência de narrativas subalternas,
surpreendentes, que fogem da temporalidade hegemônica e do padrão normativo do direito –
alguns dos quais, inclusive, objeto de reapropriação por grupos historicamente excluídos das
esferas decisórias do direito e do Estado;

(2) a partir da narrativa literária, será possível a observação de alguns aspectos


singulares da problemática e da experiência jurídica retratados pela literatura – como a justiça,
a vingança, o funcionamento dos tribunais, à ordem instituída, o papel dos juízes, suas
representações e outras;

(3) a relação entre processos de construção de obras literárias e seus vínculos com o
Direito pode dar ensejo à análise de questões específicas de caráter normativo – mediante o
qual se investiga a regulação jurídica dada à Literatura, no que diz respeito à propriedade
intelectual, direitos autorais, liberdade de expressão, censura e outras repercussões.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

192
NARRATIVAS DE ESTUPRO: A RELAÇÃO ENTRE A FICÇÃO E O CRIME DE ESTUPRO

Camila Fernandes da Costa

APLICAÇÃO PRÁTICA DOS CONCEITOS DA ESCRITA CRIATIVA NO RAMO DA LITERATURA E DO


DIREITO: UMA ANÁLISE COMPARATISTA DO CONTO “AS GUERRAS RELIGIOSAS”, DE JULIAN
BARNES

Gustavo Melo Czekster

A JUSTIÇA EM LUGAR DO CURTO-CIRCUITO DA VINGANÇA: UMA VISÃO DA ORÉSTIA E DA


EDUCAÇÃO PÚBLICA PARA A EQUIDADE DE PAUL RICOEUR

Hilda Helena Soares Bentes

LABIRINTOS DE SÍSIFO: CONSIDERAÇÕES SOBRE O PARADOXO TRÁGICO DA VIDA E DA MORTE,


A DIGNIDADE HUMANA, O DIREITO E A LITERATURA EM ALBERT CAMUS

Núbia silva dos santos

53 - LITERATURA E DIREITOS HUMANOS: MARCAS DA OPRESSÃO EM


OBRAS LITERÁRIAS
Coordenação: Profa. Dra. Divanize Carbonieri (UFMT); Profa. Dra. Leni Nobre de Oliveira
(CEFET-MG); Prof. Dr. Evaldo Balbino (UFMG)

Resumo: O presente simpósio pretende gerar discussões acerca das estratégias narrativas ou
líricas que, em obras literárias, questionam situações de opressão ou de desrespeito aos
direitos humanos. A literatura tem sido a arte comumente ensinada em sala de aula em forma
de disciplina nas grades curriculares de forma sistemática, em detrimento das demais artes.
Portanto, ela é uma das principais formas de difusão de ideias e de conscientização para as
novas gerações. Desde os primórdios, há registro da importância da preservação das narrativas
oficiais e pessoais como algo de interesse público, daí a importância dos narradores tribais na
preservação da memória, dos costumes, dos conhecimentos, das crenças e dos valores de uma
coletividade, o que também se expande para o campo das nacionalidades, já que não existe
um povo que não tenha ou não busque seu passado histórico ou mítico, preservado ou
reinventado. Também é à margem dos discursos oficiais que se abrem as fendas dos discursos
minimais, os quais preservam as marcas desejáveis e indesejáveis da memória de construção
de um povo. Mesmo nos discursos oficiais estão presentes as marcas das estruturas
ideológicas do discurso dos enunciadores autorizados, os quais preservam importantes dados
para que se leiam verdades evidentes ou camufladas. Porém, de forma inigualável, o texto
literário preserva, de modo intencional e não intencional, informações presentes no
193
subconsciente do(a) escritor(a)/poeta que se confundem com o conhecimento coletivo e se
tornam recorrentes em narrativas de países, lugares, épocas e escritores diferentes. Nessas
expressões, a presença dos minorizados por sistemas diversos, sejam esses protagonistas da
produção literária ou não, torna-se importante elemento a ser observado, já que, na
enunciação, o sujeito se projeta com suas ideologias e, através dessa projeção, consegue
atingir o espaço da recepção, que se transforma no campo profícuo para os debates e da
integração entre discurso e leitura. Tendo isso em vista, serão enfocadas, neste simpósio,
principalmente investigações sobre os modos como a literatura interroga ou subverte as
hierarquizações de raça, gênero, sexualidade e classe social presentes em coletividades
humanas. Espera-se que noções como colonialidade do poder, do saber e do ser perpassem
essas análises. Para Aníbal Quijano (2005), o eixo principal da colonialidade do poder é a ideia
de raça, que tem origem no período do colonialismo histórico, mas que sobreviveu a ele,
operando ainda na atualidade. A divisão racial da população mundial e a atribuição das formas
de trabalho menos prestigiadas às raças consideradas inferiores continuam estabelecendo
nefastas hierarquias que não apenas são retratadas pelos escritores como também acabam
influenciando as concepções em torno do fenômeno literário. Nesse sentido, a colonialidade
do poder envolve também a do saber, já que os conhecimentos considerados válidos são
principalmente aqueles dos grupos dominantes. Boaventura de Sousa Santos (2010), por
exemplo, percebe tal mecanismo no que denomina de pensamento abissal, responsável por
estabelecer um abismo, uma linha divisória radical, entre as epistemologias ocidentais ou
dominantes e as não ocidentais ou não dominantes. A visibilidade do pensamento abissal se
“assenta na invisibilidade de formas de conhecimento que não [se] encaixam” nas formas
dominantes de conhecer e que compõem os “conhecimentos populares, leigos, plebeus,
camponeses ou indígenas [situados] do outro lado da linha” (SANTOS, 2010, p. 33). Um
pensamento pós-abissal, por outro lado, seria aquele fundamentado numa “copresença
radical”, que “significa que práticas e agentes de ambos os lados da linha são contemporâneos
em termos igualitários” (SANTOS, 2010, p. 53). Assim, não existiria conhecimento mais
atrasado ou mais avançado, tradicional e moderno. Todos os conhecimentos devem ser
entendidos como simultâneos e igualmente relevantes para que o abismo seja superado. Isso
pressupõe que se deve combater também a ideia de superioridade entre diversas concepções
do fenômeno literário. Ramón Grosfoguel (2011) aprimora a noção de colonialidade com o seu
conceito de heterarquias. Assim, hierarquias raciais e econômicas devem ser interrogadas
tanto quanto as de gênero, as de sexualidade, as espirituais e, no que nos concerne mais de
perto, as literárias. Em outras palavras, a colonialidade do poder e do saber implica uma
colonialidade do ser, em que certas experiências do existir humano são consideradas inferiores
a outras. Dessa forma, são esperados trabalhos que partam desses pressupostos, explicitando
as relações da literatura com os direitos humanos e as lutas coletivas contra diversas formas
de opressão.

Referências:

GROSFOGUEL, Ramón. Decolonizing post-colonial studies and paradigms of political-economy:


transmodernity, decolonial thinking, and global coloniality. In Transmodernity: Journal of
peripheral cultural production of the luso-hispanic world, 1(1), 2011, 1-37.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER,


Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais - perspectivas latino-
americanas. Buenos Aires: CLACSO, setembro de 2005, pp. 227-78.

SANTOS, Boaventura de S. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia
194
de saberes. In: SANTOS, Boaventura de S.; MENESES, Maria P. (org.). Epistemologias do sul. São
Paulo: Cortez, 2010.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

SHE IS GOING TO GUINEA": SUBVERSÃO E AGENCIAMENTO EM BREATH, EYES, MEMORY DE


EDWIDGE DANTICAT

Ana Flávia de Morais Faria Oliveira

OPRESSÕES ENTRECRUZADAS NA VIDA DAS MULHERES NEGRAS

Cristina Aparecida Sancho

A LITERATURA E A CONDIÇÃO FEMININA NA PERSPECTIVA HISTÓRICA EM DOM CASMURRO,


DE MACHADO DE ASSIS, E O TÍMIDO E AS MULHERES, DE PEPETELA

Daniella Moreira de Oliveira

D. PEDRO CASALDÁLIGA E JOSÉ CRAVEIRINHA: POÉTICAS DE CONTESTAÇÃO

Isaac Newton Almeida Ramos

17/07 (MANHÃ)

POR UMA POESIA DESNATURADA

Claudete Daflon

A VOZ DE BEATRIZ: PROSTITUIÇÃO, OPRESSÃO E CÍRCULO VICIOSO EM "A CANÇÃO DE


195
BEATRIZ" DE RUY ESPINHEIRA FILHO

Evaldo Balbino

"PONCIÁ VICÊNCIO", DE CONCEIÇÃO EVARISTO - RETRATOS DA SUBALTERNIZAÇÃO E DA


RESISTÊNCIA NEGRA EM DUAS ORDENS TEMPORAIS

Evandro Jose dos Santos Neto

17/07 (TARDE)

AS MARCAS DA OPRESSÃO EM SELVA TRÁGICA DE HERNÂNI DONATO

Jesuino Arvelino Pinto

A RECORRÊNCIA DO VILIPÊNDIO FÍSICO E MORAL EM OBRAS DA LITERATURA BRASILEIRA:


CAROLINA MARIA DE JESUS

Leni Nobre de Oliveira

NARRATIVAS DO MEDO NA INFÂNCIA: REPRESENTAÇÃO DO ABUSO E DA EXPLORAÇÃO SEXUAL


INFANTIL EM O SAPATO DE SALTO E EM O ABRAÇO, DE LYGIA BOJUNGA NUNES

Maria Oliveira Cortes

18/07 (MANHÃ)

"ALGUM AMOR QUE NÃO MATE" E AS MARCAS DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO

Mayra Martins Guanaes

A UTILIZAÇÃO DO TEXTO LITERÁRIO COMO VEÍCULO DE DENÚNCIA E REFLEXÃO DOS


CONFLITOS SOCIAIS: UMA ANÁLISE DO ROMANCE O FILHO DE MIL HOMENS

Mônica Maria dos Santos


196
A COR DA PELE: RAÇA, RACISMO E PRECONCEITO RACIAL NAS LITERATURAS INFANTIS

Sheila Dias da Silva Laverde

OS DESVIOS DA LEGITIMIDADE: VIOLÊNCIA E PODER EM OBSERVAÇÕES SOBRE O DIREITO DE


PUNIR E MINEIRINHO, DE CLARICE LISPECTOR

Adriana Yokoyama

54 - LITERATURA E DISSONÂNCIA
Coordenação: Prof. Dr. André Dias (UFF); Prof. Dr. Rauer Ribeiro Rodrigues (UFMS); Prof. Dr.
Felipe Gonçalves Figueira (IFF/RJ)

Resumo: A proposta do simpósio é examinar a manifestação da dissonância em diferentes


obras literárias das mais variadas nacionalidades, com vistas a compreender o modo pelo qual
alguns autores se constituíram, através dos discursos literários, como vozes questionadoras de
seus tempos, sociedades e condições existenciais. O tema está associado aos artistas e
intelectuais que analisaram de maneira profunda aspectos primordiais de diferentes épocas e
construíram uma crítica contundente aos mais distintos valores presentes nessas realidades
sociais. A ideia central é abrir espaço para o diálogo entre pesquisadores que investigam
variados autores, cujas obras expressam inquietações e questionamentos, tanto na esfera
social quanto na ideológica ou na existencial. O que se espera é que os trabalhos apresentados
no âmbito do Simpósio Literatura e Dissonância discutam, entre outras questões, o problema
teórico do intelectual frente às variadas ideologias, quer sejam elas hegemônicas ou não, e o
problema histórico dos escritores diante do status quo, manifestado na esfera da política, da
moral, dos costumes, da economia, etc.

Mikhail Bakhtin, falando sobre o grande tempo histórico e o trabalho dos escritores, chama
atenção para o seguinte fato: “o próprio autor e os seus contemporâneos veem, conscientizam
e avaliam antes de tudo aquilo que está mais próximo do seu dia de hoje. O autor é um
prisioneiro de sua época, de sua atualidade. Os tempos posteriores o libertam dessa prisão, e
os estudos literários têm a incumbência de ajudá-lo nessa libertação.” (BAKHTIN, 2003, p. 364).
Sendo assim, ao abordarmos a temática Literatura e Dissonância, temos clareza de que todo
autor, para o bem e para o mal, é antes de tudo um homem de seu tempo. Desse modo, aos
que se ocupam da investigação literária cabe a desafiadora tarefa de, dialogicamente,
atualizarem os diversos discursos literários produzidos nos mais variados tempos e espaços
históricos. Agindo assim, os estudiosos da literatura contribuirão para manter a vivacidade de
distintos autores e suas obras. Sobre a criação romanesca, o pensador russo adverte que “o
autor-artista pré-encontra a personagem já dada independentemente do seu ato puramente
artístico, não pode gerar de si mesmo a personagem – esta não seria convincente” (BAKHTIN,
2003, 183-184). Em outras palavras, nenhuma personagem é fruto do gênio criador de um
197
autor adâmico, pois a matéria de memória da literatura está no mundo social, local de onde os
escritores extraem os motivos para criar. De maneira análoga, a palavra do outro é
fundamental para a tomada de consciência de si e do mundo, segundo aponta ainda Bakhtin:
“como o corpo se forma inicialmente no seio (corpo) materno, assim a consciência do homem
desperta envolvida pela consciência do outro” (BAKHTIN, 2003, p. 374). Dessa forma, as
premissas bakhtinianas apresentadas aqui fundamentam o desenvolvimento das nossas
reflexões e ajudam a ampliar os sentidos das análises.

O fórum, observada a perspectiva da dissonância no campo dos estudos literários e do


comparativismo, acata propostas que vão desde o enfoque do ensino da literatura, passando
pela questão do trabalho crítico, até chegar à discussão teórica das experiências literárias e da
diversidade de textualidades contemporâneas. Seja no espaço das territorialidades, cujos
limites se esvaem diante da instantaneidade das comunicações globais, seja no âmbito do
regional esvaziado no mesmo diapasão ― em que os conceitos de literatura e de literariedade
vigentes nos séculos XIX e XX perdem sentido com as realizações e as propostas estéticas dos
autores do século XXI ―, procura-se o dissonante na antiga ordem hierarquizada, no recente e
finado mundo bipolar ou no universo multilateral que se instaura. Há que se considerar, ainda,
estudos comparativos entre autores que, mesmo distantes no tempo e no espaço, fixam a seu
modo o questionamento de valores hegemônicos e não hegemônicos. Tais autores,
independente se no âmbito da prosa ou no da poesia, acabam por constituir uma aproximação
literária mediada pelo estado de permanente inquietação.

Do ponto de vista da historiografia literária, qualquer que seja o modo analítico proposto, os
problemas se sucedem, pois os últimos anos têm sido de deslocamentos incessantes dos
postulados teóricos. Tais deslocamentos transformaram em cada vez mais inglórios os
embates com o mundo concreto, considerando a acelerada mutabilidade das circunstâncias
sociais, políticas, históricas e das representações simbólicas, no âmbito das artes em geral e da
literatura em particular. Assim sendo, no estudo da circulação, das tramas e sentidos
construídos pela literatura cabe, inclusive, questionar as significações do conceito de
literariedade. Tal questionamento pode incorporar novas e dissonantes acepções ao termo,
tanto na perspectiva dos cânones consagrados, quanto dos cânones emergentes. 

Levantar questionamentos, de preferência contundentes, e, eventualmente, produzir alguma


conclusão, ainda que provisória, é o que se espera alcançar com o presente Grupo de
Trabalho, cuja sequência de participações na Abralic, sempre com intensa adesão dos colegas,
indica a importância e a pertinência do debate proposto.

Referências:

BAKHTIN, Mikhail. Teoria do romance I: a estilística. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34,
2015.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.

BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Cia das Letras, 2002.

DIAS, André. Lima Barreto e Dostoiévski: vozes dissonantes. Niterói, RJ: Editora da UFF, 2012.

SARTRE, Jean-Paul. Que é literatura? Trad. Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 1989.

TEZZA, Cristovão. Entre a prosa e a poesia: Bakhtin e o formalismo russo. Rio de Janeiro: Rocco,
198
2003.

TEZZA, Cristovão. O espírito da prosa: uma autobiografia literária. Rio de Janeiro; Record,
2012.

VARGAS LLOSA, Mário. A verdade das mentiras. Trad. Cordelia Magalhães São Paulo: ARX,
2004.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

TRANSGRESSÃO E PERSPICÁCIA: OS EMBATES QUE CONSTITUEM PERSONAGENS DISSONANTES

Lucianne Michelle de Menezes

CAMINHOS E DESCAMINHOS DA FORMAÇÃO

Maria Cecilia Marks

UMA HISTÓRIA NÃO CONTADA: QUESTÕES DA NARRATIVA MODERNA

Pedro Alegre Pina Galvão

POÉTICAS DA IDIOTIA NO ROMANCE BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO: UMA VERTENTE RADICAL

Gabriel Estides Delgado

A PICA DAS GALÁXIAS: DISSONÂNCIA, ANORMALIDADE E FIGURAÇÕES DO SUJEITO LÍRICO NA


POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

José Rosa dos Santos Júnior

16/07 (TARDE)

MULHER EXPLÍCITA: O CONTO DISSONANTE DE ALCIENE RIBEIRO

Rauer Ribeiro Rodrigues


199
REPRESENTAÇÃO FEMININA E EMPODERAMENTO NOS CONTOS DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Elen Karla Sousa da Silva

LITERATURA E RESISTÊNCIA: LAILA HALABY PUBLICA ONCE IN A PROMISED LAND

Loiva Salete Vogt

RELATO DE UM PROJETO DE LEITURA EM SALA DE AULA COM ALUNOS DO ENSINO MÉDIO A


PARTIR DO CONTO “AVE MARIA DAS GRAÇAS SANTOS”

Fabiane Lemos de Freitas Garcia

A FICCIONALIZAÇÃO NOS CONTOS GINNY E ANA C. NO LIVRO VÉSPERA DE ADRIANA LUNARDI

Sara Gonçalves Rabelo

17/07 (MANHÃ)

A CONSTRUÇÃO DE ESPAÇOS NA POÉTICA DE ANTONIO FRANCISCO: IMAGEM EM NEGATIVO

Felipe Gonçalves Figueira

O CRONOTOPO EM PASSAGEIRO DO FIM DO DIA, DE RUBENS FIGUEIREDO

Osmar Casagrande Júnior

O RISO MEDIEVAL EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

João Paulo Santos Silva

IDENTIDADES EM DESLOCAMENTO NO CONTO BARRETIANO

Francisco Humberlan Arruda de Oliveira

200
CORPOS INFAMES, CORPOS INSUBMISSOS: A DRAMATURGIA E O TESTEMUNHO DO CÁRCERE

Rainério dos Santos Lima

A ATUALIDADE DA ABORDAGEM DO CRIME PASSIONAL E FEMINICÍDIO EM OBRAS DE JOSÉ


LINS DO REGO E GRACILIANO RAMOS

Victor Hugo Adler Pereira

18/07 (MANHÃ)

A TÉCNICA AQUARELA EM METACRÔNICAS MACHADIANAS

Iasmim Santos Ferreira

OS GUARDADORES: DISSONÂNCIA SOCIAL E HARMONIA - O CONTRAPONTO DA LITERATURA E


DA MÚSICA NA OBRA THE TOBACCO KEEPER

Pedro de Freitas Damasceno da Rocha

"A LUA VEM DA ÁSIA", DE CAMPOS DE CARVALHO, E "A ROSA DO POVO", DE CARLOS
DRUMMOND DE ANDRADE: VOZES PERPLEXAS DIANTE DE UM MUNDO CAÓTICO

Sinvaldo Assunção da Silva Júnior

AS REPRESENTAÇÕES DA MORTE NO ROMANCE SOBRE HÉROES Y TUMBAS (1961), DE


ERNESTO SABATO

Adriana Marcon

A DISSONÂNCIA ESPERPÊNTICA VALLE-INCLANIANA NA ESPANHA DO SÉCULO XX

Gustavo Rodrigues da Silva

19/07 (MANHÃ)

UM LUGAR ESPECIAL PARA O GATO: VOZES FELINAS EM GUIMARÃES ROSA

201
Ivani Maria Pereira

A LITERATURA COMO ESTRATÉGIA CONTRADISCURSIVA EM UNGULANI BA KA KHOSA E


PAULINA CHIZIANE

Carina Marques Duarte

HILDA HILST E GARCIA LORCA – ANIMÁLIA, HORIZONTE DA EXPERIÊNCIA

Diego Pereira Ferreira

MARCAS DA RECUSA, PEDAGOGIAS DA RESISTÊNCIA: O "NÃO" COMO POTÊNCIA PRODUTORA


EM A FÚRIA DO CORPO, DE JOÃO GILBERTO NOLL

Evandro Ramos de Sant’Anna Junior

COICES E CHICOTADAS: O SENTIDO ATENTATÓRIO DA FICÇÃO EM LÚCIO CARDOSO E NELSON


RODRIGUES

Frederico van Erven Cabala Oliveira

55 - LITERATURA E DRAMATURGIA: ENTRE O PALCO E A ACADEMIA


Coordenação: Profa. Dra. Suzi Frankl Sperber (UNICAMP); Profa. Dra. Sandra Luna (UFPB)

Resumo: O XVI Congresso Internacional da ABRALIC (Circulação, tramas e sentidos na


Literatura) tem como objetivo e princípio projetar e dar continuidade ao fluxo dos diálogos e
intercâmbios intelectuais entre as diferentes linhas e correntes comparatistas das áreas
interdisciplinares que a ABRALIC congrega. Objetiva, também, integrar pesquisadores da área
de estudos literários e culturais implicados na discussão de problemas característicos do
contexto atual de produção, recepção e transmissão de textos literários e de outras disciplinas.

Assim sendo, a proposta do presente simpósio é trabalharmos com diferentes relevos da


paisagem teatral dramatúrgica. Esperamos congregar testemunhos e experiências diferentes.
A saber, esperamos tratar a dramaturgia em relação a diferentes tipos de possíveis interações
entre o dramaturgo e outras figuras: o diretor, o dramaturgo e o dramaturgista; o ator e o
dramaturgo; o ator no drama como parte de uma escrita coletiva e uma improvisação.
Inserem-se ainda em nosso campo de interesse investigativo: recepção e encenação de
clássicos; diálogos entre a dramaturgia do passado e do presente; dramaturgia enquanto
escrita coletiva e improvisação.

202
A palavra dramaturgia abrange dois sentidos: a escrita de um texto dramático e a passagem
das ideias (e palavras) para a cena. No entanto, há espetáculos em que não há texto escrito,
uma vez que o processo de criação começa (ou parece começar) imediatamente na cena
aberta – ou quando o espetáculo trabalha a memória e o testemunho: neste caso, o que é
dramaturgia?

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

SUBLIME E PRAZER TRÁGICO NO PENSAMENTO ESTÉTICO DE FRIEDRICH SCHILLER

Isabella Gonçalves Vido

SAMUEL BECKETT: ALGUMAS NOTAS SOBRE DRAMATURGIA E ENCENAÇÃO

Tereza Cristina Damásio Cerqueira

O TEATRO DE SAMUEL BECKETT: A ENCENAÇÃO COMO ELEMENTO DEFINIDOR DA


DRAMATURGIA

Felipe Augusto de Souza Santos

PÓS-MODERNIDADE, PÓS-MODERNISMO E TEATRO IN-YER-FACE: A DRAMATURGIA DE SARAH


KANE EM CONTEXTO

Débora Gil Pantaleão

17/07 (TARDE)

A INVENÇÃO DO ESPAÇO NO TEATRO DE JOÃO DAS NEVES

Suzi Frankl Sperber

203
AS PERSONAGENS SUBALTERNAS EM AÇÃO: A RECRIAÇÃO DO ESCRAVO PLAUTINO NO TEATRO
DE ARIANO SUASSUNA

Vanessa Fernandes Dias

"FALA BAIXO SENÃO EU GRITO" E "VAGA CARNE": SOBRE A NECESSIDADE DO ENCONTRO


LEVINASIANO

Mariana de Oliveira Arantes

QUEM TEM MEDO DE GARCIA LORCA? DRAMATURGIA E DRAMATURGISMO NA ADAPTAÇÃO


CÊNICA DE YERMA PARA O GRUPO DE TEATRO LAVOURA

Sandra Amélia Luna Cirne de Azevedo

18/07 (TARDE)

POLÍTICAS DA ESCRITA - A ESCRITA DO SOLO PARA SI E PARA O OUTRO

Rafael Apolinário Coutinho

DRAMA DA VIDA

Juliano Ricci Jacopini

PERFORMANCE: FANTASIA OU A CIFRA DA AÇÃO POSSÍVEL

Suzi Frankl Sperber

56 - LITERATURA E ENSINO: REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS E PROPOSTAS


Coordenação: Profª. Drª. Ana Crélia Dias (UFRJ); Prof. Dr. Sérgio Fabiano Annibal (UNESP); Prof.
Dr. José Hélder Pinheiro Alves (UFCG)

Resumo: A reabertura do GT Literatura e Ensino da ANPOLL, em 2016, vem favorecendo o


204
diálogo de pesquisadores de diferentes universidades do país acerca dos problemas seculares
que o ensino de literatura enfrenta no país. De uns tempos para cá, o ensino de Literatura tem
sido mais debatido, corroborando pesquisas de professoras como Rocco (1981), Leite (1983),
Bordini e Aguiar (1988), Zilberman e Lajolo (2009) que já tratavam de questões ligadas à
formação do leitor desde a década de 70. O espaço desprivilegiado nos Parâmetros
Curriculares Nacionais trouxe alguma reação aos defensores dos estudos literários, apontando
negligência na ausência de profundidade do documento a discussão sobre o lugar da
literatura, sem refletir, no entanto que essa negligência deu-se muito provavelmente pela
dificuldade dos especialistas em Literatura de lidar com as relações de sua área com a
educação. Ainda sem muita definição do incômodo e sem saber como firmar o espaço da
leitura literária como necessária à educação, foram retomados os caminhos de discussão
inaugurados pelas professoras e pesquisadoras mencionadas, dos quais, aliás, elas nunca se
afastaram, o que faz uma “grande descoberta” de hoje ser apenas um reaquecimento de algo
que elas e outras já disseram em algum momento de suas vastas pesquisas na área. O
profissional de Letras, muitas vezes pouco amparado em relação às questões concernentes ao
ensino de Literatura na formação inicial, precisa abrir espaço para a leitura de Literatura na
escola, mas, já diante dessa premissa, esbarra-se em muitas outras indagações: que Literatura
ensinar? Estarão os leitores preparados? Como lidar com o fato de que nem sempre os
estudantes têm grande experiência leitora? Para que servem crítica e teoria na sala de aula da
educação básica? Muitas das questões apontadas pelas pesquisas desde a década de 70
permanecem atuais, embora tenha crescido, a partir do final do século passado e início deste,
estudos publicados em revistas através de dossiês, livros com reflexões sobre o ensino, relatos
de experiências e diagnósticos. Documentos oficiais, como as OCEM-2006, além de trazer a
contribuição destas pesquisas, abriam-se para novas práticas em sala de aula. Por outro lado, o
ensino de literatura nas Universidades, especificamente nos cursos de Letras, permanece
ainda afiliada ao historicismo que já foi questionado pelos próprios historiadores (vide Bosi,
2002). Nos últimos anos, com as discussões e problematizações trazidas pelos estudos
culturais, observam-se algumas mudanças, sobretudo na abertura para leitura de produções
literárias mais diversificadas, representativas de minorias que se alojavam ao largo do cânone
acadêmico. Entretanto, discussões essenciais, como o espaço para as leituras do texto e a
escrita literária na sala de aula ainda não avançaram. Neste contexto, este Simpósio acolhe
trabalhos que reflitam sobre questões relativas à construção de reflexões epistemológicas do
ensino de literatura, a partir do seguinte eixo de pensamento: que teoria(s) cabe(m) na escola?
Qual é o espaço da crítica literária no ensino de literatura na educação básica? A partir deste
eixo, serão acolhidas propostas voltadas para formas diferenciadas de experiências com o
texto literário no contexto escolar; reflexão sobre mudanças curriculares, nos diferentes
âmbitos de ensino, inclusive na Universidade, que possam estar ocorrendo; o ensino de
literatura e a intertextualidade: singularidade dos processos; diálogos entre a literatura e
outras artes como um caminho que contribua para formação de leitores no ensino básico;
investida na escrita literária por parte dos estudantes; pesquisas que correlacionem literatura,
ensino e questões ligadas a sexualidade, gênero, classe/comunidade, raça/etnia etc.;
discussões sobre a abertura, nos últimos anos, dos mestrados profissionais em Letras e seu
papel na produção e consolidação de um saber concernente à educação literária; o ensino de
literatura na atualidade: o imanentismo e os fatores externos ao literário como suportes.
Outros trabalhos que se norteiem pelo eixo de Literatura e Ensino também serão aceitos,
ainda que não enumerados nos temas expostos, uma vez que a proposta de nosso Simpósio é
construir e ampliar os debates já existentes, para que, por meio da reflexão teórico-crítica da
prática docente nas salas de aula de literatura, novas e transformadoras ações se concretizem.

205
Palavras-chave: Literatura; ensino; educação literária; formação de leitores.

Referências:

BORDINI, M. da Glória; AGUIAR, V. Teixeira de. Literatura: a formação do leitor: alternativas


metodológicas. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

BOSI, Alfredo. Por um historicismo renovado: Reflexo e reflexão em história literária. In; BOSI,
Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

LEITE, Lígia Chiappini de M. Invasão da catedral: literatura e ensino em debate. Porto Alegre:
Mercado Aberto, 1983.

ROCCO, Maria T. Fraga. Literatura/ensino: uma problemática. São Paulo: Ática, 1981.

ZILBERMAN, Regina; LAJOLO, Marisa. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 2009.

16/07 (MANHÃ)

LER E ENSINAR LITERATURA COMO RESISTÊNCIA

Benedito Antunes

AS PROPRIEDADES DA MÍMESIS VERTIDAS NO ENSINO DA PRODUÇÃO DE NARRATIVAS


ESCRITAS

Maria Celeste de Souza e Neide Luzia de Rezende

“A CONVIVÊNCIA COM OS TEXTOS” OU A ATUALIDADE DE ALGUMAS PROPOSTAS DE LÍVIA


FERREIRA PARA O ENSINO DE LITERATURA

José Hélder Pinheiro Alves

POLÍTICAS LITERÁRIAS: ENSINO DE LITERATURA E DEMOCRACIA À LUZ DE CONTRIBUIÇÕES DA


TEORIA LITERÁRIA

Wellington Furtado Ramos

ENSINO DE LITERATURA: UM OLHAR PARA OS PARATEXTOS NOS LIVROS LITERÁRIOS DURANTE


206
A MEDIAÇÃO LEITORA

Renata Junqueira de Souza

16/07 (TARDE)

MEMÓRIA E HISTÓRIA DAS DISCIPLINAS DE LITERATURAS EM LÍNGUA ESPANHOLA NO CURSO


DE GRADUAÇÃO EM LETRAS DA UNESP DE ASSIS

Augusto Moretti de Barros

REPRESENTAÇÃO DO ENSINO DAS LITERATURAS EM LÍNGUA INGLESA DA UNESP/ FCL DE ASSIS,


ENTRE 1997 A 2017

Patrícia Dalla Torre

A FORMA LÚDICA NA REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA

Lucilo Antonio Rodrigues

A “CRIATIVIDADE” NO ENSINO DE LITERATURA E NA FORMAÇÃO DE LEITORES LITERÁRIOS

Maria Amélia Dalvi

17/07 (MANHÃ)

A PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO PARA O ENSINO DE LITERATURA NO CONTEXTO DA


SURDEZ: ENTRE O DESAFIO DA ACESSIBILIDADE E A AFIRMAÇÃO DE UMA POLÍTICA
LINGÜÍSTICA

Alessandra Gomes da Silva

ENCONTROS LITERÁRIOS: (DES)CONSTRUINDO PARADIGMAS

Márcia Sepúlvida do Vale

207
“MINHA COR, TUA COR, TODAS AS CORES" – PROPOSIÇÃO E ANÁLISE DE UM PROJETO DE
LEITURA LITERÁRIA

Caroline Valada Becker

OS JOGOS DE LEITURA E O ENSINO DE LITERATURA

Raquel Beatriz Junqueira Guimarães

CAMINHOS PARA A FORMAÇÃO DO LEITOR ATRAVÉS DA LITERATURA AFRICANA DE LÍNGUA


PORTUGUESA

Cristiane da Silva Umbelino

18/07 (MANHÃ)

LITERATURA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: MEDIAÇÕES DE LEITURA

Antonio Andrade

BREVE DISCUSSÃO SOBRE O ESTÁGIO SUPERVISIONADO DE DOCÊNCIA EM LITERATURA

Rosana Cristina Zanelatto Santos

DAS LAÇOS QUE NOS LIGAM, DAS TEIAS QUE NOS APRISIONAM: PROGRAMAS DE FORMAÇÃO
DE PROFESSORES EM REDE FRENTE AOS CONTEXTOS PARTICULARES DE FUNCIONAMENTO

Fernando Maués de Faria Júnior

A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LITERATURA NO CURSO DE LETRAS

Sérgio Fabiano Annibal

18/07 (TARDE)
208
DOS LUGARES ACOSTUMADOS À PRODUÇÃO DE DESEJO: LITERATURA COMO EXERCÍCIO
ESTÉTICO DA EXISTÊNCIA

Nathalia Cardoso Seabra Rocha

A DIMENSÃO NARRADORA DOS SUJEITOS: OS DIÁRIOS DE LEITURA NA FORMAÇÃO DO LEITOR


LITERÁRIO

Maria Coelho Araripe de Paula Gomes

PRÁTICAS DE LEITURA LITERÁRIA NO ENSINO SUPERIOR: A FORMAÇÃO DO/A PROFESSOR/A


LEITOR/A

Ana Crelia Penha Dias e Gabriela Rodella de Oliveira

CONTOS DE MACHADO DE ASSIS NO ESPAÇO ESCOLAR: UMA PROPOSTA DE LEITUTA COM


ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL

Maria Suely de Oliveira Lopes

58 - LITERATURA E OUTRAS ARTES (MÚSICA, PINTURA, DANÇA,


CINEMA, TEATRO): RELAÇÕES INTERARTÍSTICAS
Coordenação: Prof. Dr. Francisco Antonio Ferreira Tito Damazo (UNITOLEDO); Prof. Dr.
Agnaldo Rodrigues da Silva (UNEMAT)

Resumo: Este simpósio é um espaço para reflexões e discussões sobre as relações entre a
literatura e outras artes (música, pintura, dança, cinema, teatro). O estudo comparativo entre
artes e obras literárias, fundado na relação interartística, tem se apresentado de forma eficaz
quanto à capacidade de envolver e seduzir o leitor, constituindo o ponto inter-relacional para
o diálogo entre obras literárias, na perspectiva da intertextualidade, bem como entre a
literatura e outros sistemas semióticos artísticos. Afinal, já em si mesma, a complexidade do
literário se configura envolta por camadas cuja natureza, espelhada por sua linguagem, suscita
perceptíveis traços homológicos com outras linguagens artísticas. Este espaço se abre também
para experiências de leitura literária pela ótica das artes vivenciadas no ensino da literatura,
seja no âmbito da literatura oral, seja no âmbito da expressão da arte literária por meio dessas
outras artes, ou nas homologias possíveis de serem estabelecidas entre elas, como, por
exemplo, através da musicalização de poemas, ou ainda pelas letras de canções da música
209
popular brasileira que atingem a categoria de poesia; seja na possível visualização da obra de
arte por meio das artes plásticas, ou mesmo da encenação de obra literária. Este
procedimento tem demonstrado em atividades voltadas aos estudos e à pesquisa o grande
interesse por parte de metodologias educacionais contemporâneas, considerando que os
diferentes se compõem no todo. O propósito é tornar este espaço aberto para as pesquisas
que propendam à investigação das mais diversas e sutis relações entre a literatura e as outras
artes, dando, assim, mais visibilidade às múltiplas possibilidades dessa instigante atividade de
pesquisa. É público e notório, nos dias de hoje, o avanço do conhecimento por meio da inter-
relação entre as mais diversas áreas das ciências e, por conseguinte, das artes. É consensual
também o entendimento de que não se pode perder de vista que as coisas, os seres são um
todo, de cuja relação integrada e interacional depende a plenitude de sua existência. Nesse
sentido é que se pode afirmar que as mais diversas manifestações artísticas, guardadas suas
especificidades, permitem-se dialogicidades múltiplas consubstanciadas em proximidades e
diferenças. Aproximam-se pelo fato de que, dentre outros, todas elas têm o estético como
primeira plana. Este é o dínamo de seus fazeres. Move-as o belo como fator e resultado de
uma expressão que, sem obliterar a realidade, constrói – e com ela simultaneamente se
constrói – uma linguagem elevada à categoria do inusitado, do singular, em que a ética e a
moral se estabelecem sob o primado do estético. O olhar arguto do artista faz-se pelo viés da
percepção desautomatizada. Suas inquietações e inconformismos, instigados por fina
sensibilidade e visão crítica do mundo em que se inserem, fazem-no criar a obra de arte, cuja
dimensão poética não se alinha com este seu universo e tampouco dele se desaliena. Ao
contrário, configura-se como uma realidade, cuja beleza consiste na confluência da capacidade
de emocionar, sensibilizar, ao mesmo tempo em que confronta. Este procedimento, reitere-se,
é particular e comum a todas as artes. E sua comparação, tomando cada uma com sua forma e
linguagem, pode conduzir à consecução de realidades e visões daí resultantes, mas com
percepções também diferentes. Assim é que suas diferenças, em razão de suas peculiaridades,
permitem olhares múltiplos muitas vezes sobre os mesmos temas, possibilitando leituras
diversas e pertinentes. Compará-las, confrontá-las, sem dúvida, abrem para dimensões de
sentido, ampliando o campo de análise, interpretação e compreensão da realidade. A esse
respeito, em sua clássica Obra Aberta, Umberto Eco diz que “Das estruturas que se movem até
aquelas em que nós nos movemos, as poéticas contemporâneas nos propõem uma gama de
formas que apelam à mobilidade das perspectivas, à multíplice variedade das interpretações.
Mas vimos também que nenhuma obra de arte é realmente “fechada”, pois cada uma delas
congloba, em sua definitude exterior, uma infinidade de leituras possíveis. ” (Eco, 1969).
Portanto, é pautando-se nessas reflexões que este simpósio se propõe a dar continuidade a
um trabalho de pesquisa iniciado em 2008 quando da sua primeira proposição ao congresso da
Abralic realizado na USP e os seguintes: 2010 (Curitiba), 2013 (Campina Grande), 2015 (Belém),
2016/2017 na Uerj e 2018 em Uberlândia, cujos resultados podem ser observados em
publicações, troca de experiências e participação de pesquisadores em grupos de pesquisa em
diversos centros acadêmicos, enriquecendo a amplitude do conhecimento da Literatura
Comparada.

Referências:

BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a arte. São Paulo: Ática, 1985.

BRASIL, Assis. Cinema e Literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.

ECO, Umberto. Obra Aberta: Forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. Tradução
Giovanni Cutolo. São Paulo: Perspectiva, p. 67, 1969.
210
_____. A Definição da Arte. Tradução José Mendes Ferreira. Rio de Janeiro:
Elfos Ed., Lisboa: Edições 70, 1995.
DORIA, Gustavo Alberto Accioli. Moderno teatro brasileiro: crônica de suas raízes. São Paulo:
Serviço Nacional do Teatro, 1975.

GONÇALVES, Aguinaldo José. Transição & Permanência. Miró / João Cabral: Da Tela ao Texto.
São Paulo: Iluminuras, 1989.

_____. Laokoon Revisitado: Relações Homológicas entre Texto e Imagem. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1994.

_____. Signos (em) cena: ensaios – variações acerca de modulação no trabalho de arte:
fragmentos críticos. Cotia – SP: Ateliê Editorial, 2010.

OLIVEIRA, Solange Ribeiro de. Literatura e Música: modulações pós-coloniais. São Paulo:
Perspectiva, 2002.

OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e Pintura – Um Diálogo em Três Dimensões. São Paulo:
UNESP, 1999.

TINHORÃO, José Ramos. Música popular: um tema em debate. São Paulo: Editora 34, 1997.

TATIT, Luiz. Análise semiótica através das letras. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

TODOROV, Tzvetan. A Beleza Salvará o Mundo: Wilde, Rilke e Tsvetaeva: os aventureiros do


absoluto. Tradução Caio Meira. Rio de Janeiro: DIFEL, 2011.

WISNIK, José Miguel. Sem receita: ensaios e canções. São Paulo: Publifolha, 2004.

_______. O som e o sentido: uma outra história das músicas. 2. ed. São Paulo: Companhia das
Letras, 1999.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

RESUMO: O OBJETIVO DESTA COMUNICAÇÃO É APONTAR E REFLETIR AS CONGRUÊNCIAS NO


PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DAS PERSONAGENS ARTÍSTICAS NA OBRA LITERÁRIA DE JOÃO
GILBERTO NOLL: A MÁQUINA DE SER (2006) E NO FILME DEMOLIÇÃO, DE JEAN-MARC VALLÉE
COM JAKE GYLLENHAAL, ANO DE PRODUÇÃO 2015, COM AS TEORIAS DA
HIPERMODERNIDADE, RELATIVAS À SEDUÇÃO E AO CONSUMO

Adriana Ataide de Oliveira

LITERATURA E MÚSICA BRASILEIRA: LIRISMO MODERNO NAS CANÇÕES “LÍGIA” E “ÁGUAS DE


MARÇO”, DE TOM JOBIM
211
Alfredo Werney Lima Torres

VESTIDO DE NOIVA: DO TEXTO DRAMÁTICO À INTERPRETAÇÃO FÍLMICA

Alice Carvalho Diniz Leite

"THE PARABLE OF THE BLIND": A CEGUEIRA RETRATADA POR PIETER BRUEGHEL E POR
WILLIAM CARLOS WILLIAMS

Amarílis Lage de Macedo

PREZADÍSSIMOS OUVINTES: AS VOZES PLURAIS DE ITAMAR ASSUMPÇÃO

Bruno César Ribeiro Barbosa

FIGURAÇÕES DO DUPLO NO TEATRO DE AUGUSTO SOBRAL - CAIM E ABEL TRANSFIGURADOS

Claudiomar Pedro da Silva

16/07 (TARDE)

O PROCESSO INTERMIDIÁTICO EM O RETRATO DO REI, DE ANA MIRANDA

Cristina Reis Maia

HIPOTEXTO E HIPERTEXTO NA COMPOSIÇÃO MUSICAL: ASPECTOS DA TRANSTEXTUALIDADE


COMO FERRAMENTAS DE ANÁLISE EM OBRAS ORIUNDAS DE MATRIZES DE LINGUAGENS
HETEROGÊNEAS

Daniel de Thomaz

SIMON VS. SIMON, INTERTEXTUALIDADE E ADAPTAÇÃO

Denise de Paula Veras Aquino

“EU TIREI AS PALAVRAS DO JORNAL. NÃO MUDEI NADA. SÓ AS PALAVRAS.”: BOB DYLAN E O
212
CONTADOR DE HISTÓRIAS BENJAMINIANO

Eduardo Friedman

À ESCUTA DA POESIA: GIOVANNI RABONI ENTRE POESIA E TEATRO

Elena Santi

RELAÇÃO ENTRE ARQUITETURA E LITERATURA

Erinaldo de Oliveira Sales

17/07 (MANHÃ)

RESSONÂNCIAS DA TROPICÁLIA NA POÉTICA DO MANGUEBEAT

Feliciano José Bezerra filho

DA VIOLÊNCIA AO NOIR: DIÁLOGOS TEMÁTICOS ENTRE A OBRA DO AUTOR DENNIS LEHANE E


O DIRETOR DE CINEMA MARTIN SCORSESE, ATRAVÉS DA CONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM
EDWARD “TEDDY” DANIELS DE “ILHA DO MEDO”

Fernando Franqueiro Gomes

ARTES VISUAIS E LITERATURA: UMA ABORDAGEM SEMIÓTICA PERPASSANDO OS CONTOS


“DESENREDO”, DE JOÃO GUIMARÃES ROSA, E “CONTO BARROCO OU UNIDADE TRIPARTITA”,
DE OSMAN LINS

Fernando José Ivo da Silva

O DIÁLOGO DAS CABEÇAS: A LITERATURA DE ZIRALDO E A PINTURA DE ANTÔNIO MAIA NO


LIVRO DE ARTE PARA JOVENS

Flávia Maria Reis de Macedo

POEMA SUJO: O SUPREMO GRITO POÉTICO DE FERREIRA GULLAR

213
Francisco Antonio Ferreira Tito Damazo

A CANÇÃO POPULAR COMO NARRATIVA URBANA

Gabriel Caio Correa Borges

17/07 (TARDE)

A ESTRUTURA SINFÔNICA EM SAGA, DE ERICO VERISSIMO

Gérson Luís Werlang

A INTRUSA, DE JULIA LOPES DE ALMEIDA: ESBOÇOS DE UM DIÁLOGO IMPLÍCITO COM A OBRA


FÍLMICA REBECCA E A TELENOVELA A SUCESSORA

Ilka Vanessa Meireles Santos

ESCREVER É

Mariane Tavares

A DINÂMICA DO BAILE EM ESAÚ E JACÓ, UMA PERSPECTIVA COMPARATIVA ENTRE


LITERATURA E DANÇA

Joelma Rezende Xavier

A ALEGORIA COMO CHAVE DE INTERPRETAÇÃO DE MONOGRAM, DE ROBERT RAUSCHENBERG

Joseana Geaquinto Paganine

A ESCRITA É UMA VALSA: A POESIA-DANÇA EM ADORNOS, DE ANA MARQUES GASTÃO

Karoline Alves Leite

214
18/07 (MANHÃ)

A ARTE CONCRETA E A RELAÇÃO ENTRE POETAS E ARTISTAS PLÁSTICOS CEARENSES NA


DÉCADA DE 50

Kedma Janaina Freitas Damasceno

AS EXPERIÊNCIAS LITERÁRIAS NAS PEÇAS RADIOFÔNICAS DE GEORGES PEREC

Leonardo Cavalcante Mendes

NOTAS SOBRE LITERATURA E MÚSICA: O CASO RUMORI O VOCI, DE GIORGIO MANGANELLI

Lucas de Sousa Serafim

VEM COMIGO: A CONSTRUÇÃO DE SUJEITOS POÉTICOS NA CANÇÃO DE TAIGUARA

Luís Cláudio Dadalti

A CONDIÇÃO TRÁGICA DO HOMEM NO ROMANCE MORTE EM VENEZA DE THOMAS MANN

Marcos Fabio Campos da Rocha

A ESCUTA NAS BORDAS DO SENTIDO

Maria Amélia Castilho Feitosa Callado

18/07 (TARDE)

"INFLUÊNCIAS DA LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA EM UN BARRAGE CONTRE LE PACIFIQUE


(1950)"

Maria do Socorro Aguiar Pontes Giove

A FERA DA BELA E A FERA E A BELA DA BELA E A FERA OU A FERIDA GRANDE DEMAIS DE


CLARICE LISPECTOR: UM OLHAR SEMIÓTICO E PSICANALÍTICO ENTRE A ESSÊNCIA E A
215
APARÊNCIA

Maria Luiza de Medeiros Monteiro

DO TEXTO À TELA: LITERATURA, CINEMA E HUMANISMO CRÍTICO EM "ANIKI-BÓBÓ", DE


MANOEL DE OLIVEIRA

Mariana Veiga Copertino

BRUNO SCHULZ: DA LITERATURA AO ESPETÁCULO DE TEATRO

Jerson Vicente Fontana

O CIRCO COMO METÁFORA DO MUNDO – AS ARTES VISUAIS NA CONSTRUÇÃO DAS CENAS


TEATRAIS EM O REI DA VELA, DE OSWALD DE ANDRADE (BRASIL) E O GRANDE CIRCO
AUTÊNTICO, DE JOSÉ MENA ABRANTES (ANGOLA)

Agnaldo Rodrigues da Silva

JORGE BEN JOR: A FÓRMULA ALQUÍMICA DA CANÇÃO IMPERECÍVEL

Mateus Campos G. da Silva

19/07 (MANHÃ)

M.P.B: MANIFESTO POPULAR BRASILEIRO

Myrlla Muniz Rebouças

EL ACONTECIMIENTO DEL ROCK SUBTERRÁNEO EN GENERACIÓN COCHEBOMBA DE MARTÍN


ROLDÁN RUIZ

Óscar Giovanni Gallegos Santiago

A PALAVRA EM MÚLTIPLOS INTERVALOS: A ÉCFRASE NA POESIA DE MANUEL GUSMÃO E JOÃO


MIGUEL FERNANDES JORGE

216
Patrícia Resende Pereira

LITERATURA E MÚSICA: LIMIARES DA POLIFONIA EM FINNEGANS WAKE

Pedro Alaim Martins Garcia Júnior

ORIGINALIDADE NA APROPRIAÇÃO: O CASO DA ADAPTAÇÃO "THE LIZZIE BENNET DIARIES"

Rafaela Albuquerque Gonçalves

LITERATURA E CINEMA: OS IRMÃOS QUIXABA

Raimunda Celestina Mendes da Silva

19/07 (TARDE)

HOLOFOTES APONTADOS PARA AS PERSONAGENS DE LYGIA FAGUNDES TELLES

Thaís Costa Nascimento

O ENCONTRO PROBLEMÁTICO ENTRE LITERATURA E CINEMA EM O HOMEM DUPLICADO

Thaís Feitosa de Almeida

POEMA E CANÇÃO EM CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Viviana Maria Vieira

RENÉ MAGRITTE: SOBRE IMAGENS E PALAVRAS

Zacarias Eduardo da Silva

UM CORPO ENTRE FRONTEIRAS: LIMIARES DE UMA AÇÃO POÉTICO-CORPÓREA

Marlon Fabian Soares Machado

217
59 - LITERATURA E OUTRAS MÍDIAS: PROCESSOS E ESTRUTURAS DAS
RELAÇÕES
Coordenação: Dra Aurora Gedra Ruiz Alvarez (UPM); Dra Cristine Fickelscherer de Mattos
(UPM); Dra Daniella de Aguiar (UFU)

Resumo: Em Comparative Literature: Method and Perspective, de 1961, Henry Remak defende
além do cruzamento de fronteiras entre literatura e filosofia, história, ou ciências sociais,
também as relações entre as diferentes manifestações da expressão literária, bem como entre
a literatura e as artes em geral. Desde então, este último diálogo tem se mostrado cada vez
mais produtivo, principalmente com o advento das novas tecnologias, que geraram novas
mídias ou renovaram as mídias da tradição, vitalizando esses cruzamentos e ressaltando sua
presença. Nesta senda de pesquisa, surgiram os Estudos da Intermidialidade, liderados por
nomes representativos dessa área como, Claus Clüver, W. J. P. Mitchell, Liliane Louvel, Jürgen
H. Müller, Irina Rajewsky, Lars Elleström e muitos outros. Intermidialidade é uma noção que se
refere a todos os tipos de relação entre duas ou mais mídias, duas ou mais artes, mídias e
artes. Este fenômeno relacional ocorre em todas as culturas e épocas, tanto em atividades do
cotidiano como em atividades especializadas; não está restrito à arte erudita ou à
incorporação das novas mídias digitais e, portanto, exemplos são encontrados em diversos
contextos, desde práticas indígenas e ancestrais, até formas de comunicação do dia a dia. Os
problemas mais persistentes dos Estudos de Intermidialidade envolvem as formas de relação
entre as artes e as mídias, e a própria definição de mídia. Diversos autores propuseram
tipologias e classificações para descrever as possíveis relações entre duas ou mais mídias.
Nota-se que as práticas artísticas contemporâneas alargam e/ou dissolvem frequentemente as
fronteiras entre artes e mídias e podem, em assim fazendo, ampliar o conceito de mídia bem
como de intermidialidade. Deste modo, há uma importante relação de retroalimentação entre
o desenvolvimento conceitual e a criação artística. Dentro deste escopo, este simpósio se abre
aos interessados em contribuir com os estudos comparados entre a literatura e as diversas
mídias que com ela dialoguem, apreciando perspectivas conceituais acerca dessa relação,
processos intermidiáticos nela instalados ou diferentes possibilidades de leitura oferecidas
pelas várias soluções estéticas criadas por diferentes autores nessas interações, como nas
adaptações, por exemplo, ou em variadas formas de inscrição de referências intermidiáticas
estabelecidas nesses cruzamentos de fronteiras.

Referências:

AGUIAR, Daniella & QUEIROZ, João (orgs.) Tradução, transposição e adaptação


intersemióticas. São Carlos: Pedro e João Editores, 2016.

ARBEX, Marcia (Org.).  Poéticas do visível: ensaios sobre a escrita e a imagem. Belo
Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2006.
BOLTER, Jay David; GRUSIN, Richard. Remediation. Understanding New Media,
Cambridge, MA; London: MIT Press, 2000.

218
CLÜVER, Claus. Estudos Interartes: conceitos, termos objetivos. Literatura e
Sociedade 2: Revista de teoria literária e literatura comparada, Universidade de São
Paulo, São Paulo, p. 37-55, 1997.
______. Intertextus/Inter artes/Inter media. Aletria: Revista de Estudos de Literatura,
UFMG/FALE, Belo Horizonte, n. 14, p. 9-39, jul./dez. 2006.
CORSEUIL, Anelise R.; CAUGHIE, John (Org.). Palco, tela e página. Florianópolis:
Insular, 2000.  
DINIZ, Thaïs F. N. (Org.). Intermidialidade e estudos interartes: desafios da arte
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DINIZ, Thaïs F. N. & VIEIRA, André Soares (Org.). Intermidialidade e estudos
interartes: desafios da arte contemporânea, vol. 2. Belo Horizonte: Rona Editora:
FALE/UFMG, 2012.
ELLESTRÖM, Lars. Media Borders, Multimodality and Intermediality. New York:
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GENETTE, Gerard. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Extratos traduzidos do
francês por Luciene Guimarães e Maria Antônia Ramos Coutinho. Cadernos do
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2005. 99 p.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Tradução de André Cechinel.
Florianópolis: Editora UFSC, 2011.
MITCHELL, W. J. T. Picture theory: essays on verbal and visual representation.
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MOSER, Walter. As relações entre as artes: por uma arqueologia da
intermidialidade. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, FALE/UFMG, Belo
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OLIVERIA, Solange Ribeiro de. Perdida entre signos: literatura, artes e mídias, hoje.
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PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003.
RAJEWSKY, Irina O. Intermidialidade, intertextualidade e “remediação”: uma
perspectiva literária sobre a intermidialidade. Tradução de Thaïs F. N. Diniz e Eliana
Lourenço de Lima Reis. In: DINIZ, Thaïs F. N. (Org.). Intermidialidade e estudos
interartes: desafios da arte contemporânea. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2012.
_____. Potential Potentials of Transmediality: the Media Blindness of (Classical)
Narratology and its Implications for Transmedial Approaches. In: TORO, Alfonso 210
de. Translatio. Transmédialité et transculturalité en littérature, peinture, photographie
et au cinema. Paris: L’Harmattan, 2013. p. 17-36.
REICHMANN, Brunilda (Org.). Assim transitam os textos: ensaios sobre
intermidialidade. Curitiba: Editora Appris, 2016.
STALLKNECHT, Newton & FRENZ, Horst (orgs), Comparative Literature: Method and
Perspective. Carbondale: Southern Illinois University Press, 1961.

PROGRAMAÇÃO

219
Dia 16/07 (Manhã)

HERBERTO HELDER E AS NATUREZAS-MORTAS

Fernando Velasco

AS MANIFESTAÇÕES DA MORTE NO QUINHENTISMO DE HANS STADEN

Juliana Porto Chacon Humphreys

CORPOS POÉTICOS: CRÍTICA DE GÊNERO NO DIÁLOGO ENTRE “THE APPLICANT” DE SYLVIA


PLATH E “HOMAGE TO MACK SENNET” DE RENÉ MAGRITTE

Camila Matusoch Marques

A ÉCFRASE CONTEMPORÂNEA: UMA REFLEXÃO TEÓRICA

Thais Kuperman Lancman

GRIMM E MAJIDÍ: FIGURAÇÕES DA CUMPLICIDADE NA INFÂNCIA EM JOÃO E MARIA E FILHOS


DO PARAÍSO

Dayse Oliveira Barbosa

17/07 (Manhã)

AS VIOLÊNCIAS EM O INVASOR, LIVRO E FILME

Murilo Augusto Giova da Silva

UMA NARRATIVA EM MOVIMENTO: ARDIENTE PACIENCIA, IL POSTINO E O CARTEIRO E O


POETA

Helena Bonito Couto Pereira

220
GRAFOS RELACIONAIS DE VAN GOGH

Carolina Vigna Prado

ADAPTAÇÃO ÀS AVESSAS NA LEITURA DE BARBA ENSOPADA DE SANGUE, DE DANIEL GALERA

Cristine Fickelscherer de Mattos

CRÍTICA LITERÁRIA EM REVISTA E SEUS (POSSÍVEIS) DILEMAS FORMAIS: UM ESTUDO DA LES


INROCKUPTIBLES

Patricia Vicenza Gonçalves Orlando

Dia 18/07 (Manhã)

O SER HUMANO E O SER HUMANO, A POSSIBILIDADE E O SUBSTANTIVO

Camila Concato

ESTUDO(S) INTERARTES EM O GRANDE MENTECAPTO, DE FERNANDO SABINO: A NARRATIVA


LITERÁRIA E A IMAGEM CRISTÃ DE TIRADENTES

Hudson Oliveira Fontes Aragão

ENTRE FRUTOS ESTRANHOS – NUNO RAMOS, ARTISTA, ESCRITOR

Marcella Assis de Moraes

DA LITERATURA AO CINEMA: O PROCESSO DE ADAPTAÇÃO DO CORPO GROTESCO EM DONA


FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

Iêda Carvalhêdo Barbosa

221
19/07 (Manhã)

INTERMIDIALIDADE E ESTÉTICA DA IMPUREZA NA OBRA “TRÊS CONTOS DE CORTÁZAR”, DE


GILBERTO MENDES

Rita de Cássia Domingues dos Santos

A PRESENÇA DE OUTRAS ARTES E MÍDIAS EM "A TEMPESTADE": ONTEM E HOJE

Lorena Ribeiro Ferreira

MÚSICA, CRÔNICA DE COSTUMES E CINEMA: AS CANÇÕES INTERMIDIÁTICAS DE MIGUEL


GUSTAVO

Dirlenvalder do Nascimento Loyolla

LITERATURA E AS MANIFESTAÇÕES DA CULTURA: UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA

Aurora Gedra Ruiz Alvarez

60 – LITERATURA E RELIGIOSIDADE
Coordenação: Dr. João Leonel (Universidade Presbiteriana Mackenzie); Dr. Marcos Aparecido
Lopes (UNICAMP); Dr. Alex Villas Boas (PUC/PR)

Resumo: No Ocidente contemporâneo, a religião é um fenômeno que suscita debates


acalorados por sua expansão e diversidade nas principais esferas da vida social. Sensíveis ao
impacto moral, político e, mais precisamente, às formas de produção da subjetividade
moderna e das identidades pessoais e coletivas, as áreas de humanidades (a antropologia, a
sociologia, a história em seus diversos matizes, a psicologia, além da própria ciência da
religião) fazem da religiosidade um dos seus focos de pesquisa, construindo no ambiente
acadêmico certa acumulação crítica, que se traduz na constância de alguns núcleos temáticos e
na estabilidade de um aparato conceitual para a análise do fenômeno.

No século XX, com a suposta autonomia de um campo específico dos estudos literários, alguns
222
críticos e intelectuais se dedicaram à compreensão do fenômeno religioso na sua interface
com os diversos gêneros literários. Mas, em geral, a regra tem sido um silêncio obsequioso ou,
paradoxalmente, uma tolerância à diferença sem a pesquisa vigorosa do que é irredutível e
comum aos dois “objetos”. No entanto, é fato que a religião e suas expressões ocupam espaço
relevante, tanto na literatura mundial, quanto nas literaturas de língua portuguesa. As raízes
da própria ideia de literatura, como a conhecemos hoje, se encontram interligadas com o
sagrado e a religiosidade. Assim, a mélica e a épica gregas, por exemplo, não podem ser
plenamente compreendidas, se não considerarmos suas relações com o imaginário religioso
em seus contextos originais de produção. Momentos importantes da história da literatura
ocidental estabelecem conexões com a religiosidade: os poemas barrocos de Quevedo e
Gôngora, o teatro de Shakespeare, Os Lusíadas, de Camões, a prosa de James Joyce, ou os
contos de Jorge Luis Borges são alguns dos exemplos possíveis dessa relação instigante. No
caso específico da literatura brasileira, é possível percebermos o diálogo fecundo entre poesia,
representação ficcional e religiosidade, que já se inicia entre nós, por exemplo, nas práticas
letradas de um José de Anchieta e Gregório de Matos, perpassa o arcadismo, romantismo e a
obra de Machado de Assis. Ao longo dos séculos XX e XXI, a literatura brasileira continuará
esse diálogo nas obras de escritores como Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Cecília
Meireles, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, Ariano Suassuna, Milton Hatoum, Adélia Prado,
Hilda Hilst, Conceição Evaristo, entre tantos outros que poderiam ser citados.

Considerando o desafio teórico e crítico para a constituição de um campo interdisciplinar nas


relações entre literatura e religião, este Simpósio discutirá as seguintes questões: (1) de que
modo se manifesta a experiência religiosa nas obras literárias; (2) como se estabelecem as
relações intertextuais entre poesia, romance e textos religiosos; (3) em que medida as
manifestações poéticas do sagrado são uma reserva semântica para a crítica à modernidade;
(4) as políticas de identidade, que discutem raça e gênero, estabelecem que pactos
hermenêuticos com a religião e a literatura, e, por fim, (5) qual o estatuto da memória em
textos religiosos e literários. A abordagem proposta não se inscreve diretamente nas áreas de
estudos que tratam da religião, seja a teologia ou as ciências da religião, uma vez que elege o
tema da religiosidade e investiga sua presença na literatura a partir de teorias e análises
próprias ao campo. Todavia, o alcance crítico e especulativo desse campo se amplia e se
consolida no diálogo vigoroso com as humanidades.

Referências
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ZABATIERO, Júlio P. T.; LEONEL, João. Bíblia, literatura e linguagem. São Paulo:
Paulus, 2011.

224
PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

ONDE DEUS ESCONDE A CLARIDADE: A PROPÓSITO DOS ELEMENTOS SIMBÓLICOS EM


AVALOVARA DE OSMAN LINS.

Victor Hugo Pereira de Oliveira e Wiliam Alves Biserr.

NARRAÇÃO E MORTE NA LITERATURA BRASILEIRA E ESPANHOLA: REFLEXÕES SOBRE


BERNARDO CARVALHO E JAVIER MARÍAS.

Amanda Lopes de Freitas.

HÁ UM TANTO DE PANTEÍSMO EM "A OSTRA E O VENTO"?

Talia Gabrielle Santos Azevedo.

VALORES CRISTÃOS NA LITERATURA PARA O JOVEM ADULTO: UMA ANÁLISE DE O SENHOR DA


CHUVA, DE ANDRÉ VIANCO.

Juliana de Souza Topan

16/07 (TARDE)

POESIA E SAGRADO NA MODERNIDADE EM UMA LEITURA DE "ANDANÇAS" (1940), DE DORA


FERREIRA DA SILVA.

Ana Maria Ferreira Côrtes.

A SALVAÇÃO PELO ÍCONE OU AS TERRAS PROMETIDAS DA POESIA.

Marcos Aparecido Lopes.

TERRA, MÃE UNIVERSAL, ROGAI POR NÓS: A DIVINIZAÇÃO DE ELEMENTOS NATURAIS NA


POESIA DE CORA CORALINA.

225
Maykol Vespucci de Oliveira.

NATUREZA E CULTURA NO POEMA “CANÇÃO QUEBRADA POR UM CANARINHO MORTO”, DE D.


PEDRO CASALDÁLIGA.

Michael Jhonatan Sousa Santos.

17/07 (MANHÃ)

BERNANOS: CATÓLICO E ANTIMODERNO.

Cássio Lignani.

UM OLHAR PARA O ROMANCE CATÓLICO EM 30: A INCONCILIAÇÃO ENTRE AMOR E SEXO EM


SOB O OLHAR MALICIOSO DOS TRÓPICOS.

Elisa Domingues Coelho.

LITERATURA COMO EXERCÍCIO ESPIRITUAL.

Alex Villas Boas.

CRISTOFORIA E RELEITURAS HAGIOGRÁFICAS NO SÉCULO 19: "SÃO JULIÃO HOSPITALEIRO", DE


FLAUBERT E "SÃO CRISTÓVÃO", DE EÇA DE QUEIROZ.

Régis Mikail Abud Filho.

17/07 (TARDE)

LITERATURA E RELIGIÃO: TRANSTEXTO-DISCURSIVIDADE NO CONTO A IGREJA DO DIABO, DE


MACHADO DE ASSIS.

Helen Suzandrey Maia Sousa.

LITERATURA E RELIGIOSIDADE: UM ESTUDO SOBRE CONTOS DE MACHADO DE ASSIS.

Miriam Piedade Mansur Andrade.

226
RAZÃO E IMAGINAÇÃO EM C. S. LEWIS.

José Luiz Coelho Rangel Junior.

ENTRE A CRUZ E O ANEL: UMA ANÁLISE ACERCA DAS RESSONÂNCIAS DA PAIXÃO DE CRISTO NA
JORNADA DE FRODO BOLSEIRO EM O SENHOR DOS ANÉIS.

Ribanna Martins de Paula.

18/07 (MANHÃ)

O CONTO "NENHUM, NENHUMA", DE GUIMARÃES ROSA, E A SIMBOLOGIA DA MORTE DOS


CONTOS DE FADAS.

Clarissa Catarina Barletta Marchelli

O DIVINO E SEU EMBATE COM O HERÓI NOS SERTÕES DAS GERAIS: UM ESTUDO EM GRANDE
SERTÃO: VEREDAS.

Edinaura Linhares Ferreira Lima.

O CONTO UMA VELA AO DIABO, DE FERNANDO PESSOA.

Debora Domke Ribeiro Lima.

TRADUZINDO HAFIZ: PROBLEMAS E SOLUÇÕES NA TRADUÇÃO DA POESIA PERSA CLÁSSICA.

Nicolas Thiele Voss de Oliveira.

18/07 (TARDE)

A RECRIAÇÃO DOS EVANGELHOS EM “BOA NOVA”, DE HUMBERTO DE CAMPOS (ESPÍRITO).

Ana Claudia da Silva.

227
OBSESSÃO E RESGATE EM TRAMAS DO DESTINO.

Jorge Leite de Oliveira.

LITERATURA EVANGÉLICA, PARATEXTUALIDADE E TRADUÇÃO.

Carolina Dias Pinheiro.

“EFEITO DE REAL” E O PERSONAGEM JESUS CRISTO NOS EVANGELHOS DE MARCOS E MATEUS.

João Leonel.

61 - LITERATURA E TESTEMUNHO: TEORIAS, LIMITES, EXEMPLOS


Coordenação: Prof. Dr. Marcelo Ferraz de Paula (UFG); Prof. Dr. Marcelo Paiva de Souza
(UFPR); Prof. Dr. Wilberth Salgueiro (UFES)

Resumo: Contemporaneamente, a noção de testemunho vincula-se à chamada “literatura do


Holocausto”, como a narrativa de Primo Levi e a poesia de Paul Celan, por exemplo, mas
também à literatura eslava – polonesa e russa, em especial – sobre o Gulag, como as obras de
Gustaw Herling-Grudziński e Varlam Chalamov, entre outros (cujo antecedente histórico mais
próximo é constituído pelas obras literárias oitocentistas versando sobre as penas dos
condenados à Sibéria). Na América Latina, destaca-se um amplo e variado conjunto de textos
votados à memória e à denúncia de fatos reveladores do viés autoritário, discriminatório e
excludente de nossas sociedades, abrangendo desde Graciliano Ramos e Rigoberta Menchú a
Ferréz, desde Miguel Barnet e Paulo Lins aos Racionais MC’s. A proposta do simpósio é estudar
as relações entre literatura e testemunho, a partir de alguns traços e textos que caracterizam
este “gênero”, como, por exemplo: registro em primeira pessoa; compromisso com a verdade
e a lembrança; desejo de justiça; vontade de resistência; valor ético sobre o valor estético;
representação de um evento coletivo; forte presença do trauma; sintomas de ressentimento;
vínculo estreito com a história; condição de minoridade etc. A ideia é, portanto, “manter um
conceito aberto da noção de testemunha: não só aquele que viveu um ‘martírio’ pode
testemunhar” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 48), entendendo, assim, que “testemunha também
seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que
aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro”
(GAGNEBIN, 2006, p. 57). Pensar o que há de testemunho na literatura significa, a um só
tempo, pensar as intrincadíssimas teias entre verdade e ficção, entre ética e estética, entre
história e forma. Percebe-se que a avassaladora existência da “literatura de testemunho”, na
sua salutar diversidade conceitual, promove um inevitável abalo na noção de cânone e de
valor literário, além de alterar o quadro dos agentes ou produtores de literatura: textos e
registros de presos, torturados, crianças de rua, favelados, empregados domésticos,
prostitutas, sem-teto, povos tradicionais, enfim, todo um grupo “subalternizado” que agora
depõe e se expõe não só em nome próprio, mas também em nome de muitos. Nesse sentido,
228
é preciso destacar que “o estudo do testemunho articula estética e ética como campos
indissociáveis de pensamento. O problema do valor do texto, da relevância da escrita, não se
insere em um campo de autonomia da arte, mas é lançado no âmbito abrangente da discussão
de direitos civis, em que a escrita é vista como enunciação posicionada em um campo social
marcado por conflitos, em que a imagem da alteridade pode ser constantemente colocada em
questão” (GINZBURG, 2012, p. 52). Seja na versão iniludivelmente dramática da experiência da
Shoah e de outros genocídios, que geraram um conjunto de textos rubricados como “literatura
de testemunho”, seja na versão lírica ou romanesca por vezes mais “suavizada” da experiência
cotidiana da violência no Brasil e no mundo, temos um elemento absurdamente comum: a
ação do homem contra o homem. O Simpósio pretende reunir, em suma, pesquisadores e
interessados na problemática do testemunho e suas relações com o literário, apresentando [a]
estudos teóricos que discutam os limites e as confluências entre estes discursos (o literário,
tradicionalmente ligado à estética; e o testemunho, produzido a partir de um propósito ético)
e mormente [b] estudos que analisem obras específicas que exemplifiquem tais relações –
quer obras já consagradas nesta perspectiva do testemunho, quer obras menos conhecidas ou
mesmo não analisadas à luz do paradigma testemunhal. No XII Congresso Internacional da
Abralic, ocorrido em 2011 em Curitiba, este Simpósio teve uma primeira edição; no XIII
Congresso, em 2013, em Campina Grande, ocorreu uma segunda edição; em 2015, em Belém,
a terceira; em 2017, no Rio de Janeiro, a quarta edição; em Uberlândia, em 2018, houve o
quinto encontro de estudiosos. Nestes encontros, além de questões eminentemente teóricas,
o debate envolveu nomes como Alan Pauls, Aleksander Henryk Laks & Tova Sender, Alex
Polari, Ana Maria Gonçalves, Art Spiegelman, Ayaan Hirsi Ali, Bernardo Élis, Bernardo Kucinski,
Boris Schnaiderman, Cacaso, Caio Fernando Abreu, Carlo Levi, Carlos Drummond de Andrade,
Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Charlotte Delbo, Chico Buarque,
Czesław Miłosz, Davi Kopenawa & Bruce Albert, Eduardo Galeano, Ferréz, Deborah K.
Goldemberg, Eduardo Galeano, Eliane Potiguara, Elie Wiesel, Elisa Lucinda, Ferréz, Gonçalo M.
Tavares, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Igor Mendes, João Antônio, Júlio César Monteiro
Martins, Kaka Werá Jecupé , Lara de Lemos, Lídia Tchukóvskaia, Lima Barreto, Luis Fernando
Verissimo, Luiz Alberto Mendes, Mario Benedetti, Miron Białoszewski, Paulo Ferraz, Paulo
Leminski, Paulo Lins, Pedro Tierra, Pierre Seel, Primo Levi, Racionais MC’s, Reinaldo Arenas,
Renato Tapajós, Ricardo Aleixo, Ricardo Piglia, Roberto Bolaño, Ruth Klüger, Sérgio Sampaio,
Sérgio Vaz, Stefan Otwinowski, Svetlana Aleksiévitch , Tadeus Róźewicz, Tereza Albues,
Ungulani Ba Ka, Władysław Szlengel e W. G. Sebald. A ideia é estender o debate, seja em
relação a estes nomes, como, naturalmente, incorporar outros autores e textos em que o
problema da literatura e do testemunho se deixe perquirir.

Referências:

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Memória, história, testemunho. Lembrar, escrever, esquecer. São
Paulo: Ed. 34, 2006, p. 49-57.

GINZBURG, Jaime. Linguagem e trauma na escrita do testemunho. Crítica em tempos de


violência. São Paulo: Edusp, Fapesp, 2012, p. 52.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Apresentação da questão. História, memória, literatura: o


testemunho na era das catástrofes. SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). Campinas: Editora da
Unicamp, 2003, p. 45-58.

229
PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

AS VOZES DE MARIANA E BRUMADINHO: TESTEMUNHO, TRAUMA E IMAGEM DE


CATÁSTROFES SOCIOAMBIENTAIS DA MINERAÇÃO BRASILEIRA

Karina Gomes Barbosa e André Luís Carvalho

O ROMANCE ÚRSULA E O SISTEMA LITERÁRIO

Adriana de Fátima Barbosa Araújo

"CASA DE LOUCOS": JOÃO ANTÔNIO ENTRE A LOUCURA E A CRIAÇÃO NO SANATÓRIO DA


TIJUCA

Mariana Filgueiras de Souza

GRACILIANO RAMOS E NISE DA SILVEIRA SAEM DA PRISÃO E VÃO AO CINEMA

Susana Souto Silva

LITERATURA E TESTEMUNHO : VOZES ERGUIDAS DE REFUGIADOS CONTRA OS MUROS DA


INDIFERENÇA

Ana Paula Coutinho

16/07 (TARDE)

FICÇÃO HISTÓRICA, RESGATE DA HISTORICIDADE E PRESTAÇÃO DE CONTAS COM O PASSADO


DITATORIAL EM SOLEDAD NO RECIFE, DE URARIANO MOTA

Maria Isolina de Castro Soares

230
K.: RELATO DE UMA BUSCA E OS VISITANTES, DE BERNARDO KUCINSKI: UMA MATZEIVÁ PARA
ANA ROSA KUCINSKI E WILSON SILVA

Ana Luísa de Castro Soares

“A FAMÍLIA PAIVA NÃO CHORA EM FRENTE ÀS CÂMERAS!”: TESTEMUNHO E RESISTÊNCIA EM


AINDA ESTOU AQUI.

Flora Viguini do Amaral

O TESTEMUNHO DE BOAL E ROSENCOF: A EXPERIÊNCIA DO CÁRCERE DURANTE A DITADURA


NAS PEÇAS TEATRAIS TORQUEMADA E EL COMBATE DEL ESTABLO

Marina de Oliveira

17/07 (MANHÃ)

O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO? E MAUS: DOIS TESTEMUNHOS OBLÍQUOS DA SHOAH

Marcelo Ferraz de Paula

SILENCIAMENTO E TESTEMUNHO EM MEURSAULT, CONTRE-ENQUÊTE, DE KAMEL DAOUD

Gabriel Dias Pimentel

FRANZ KAFKA, TESTEMUNHA DA "GUERRA TOTAL"

Renato Oliveira de Faria

A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA E O TESTEMUNHO PLURAL DE PRIMO LEVI E GEORGES DIDI-


HUBERMAN

Helena Bressan Carminati

231
17/07 (TARDE)

PIESZO (A PÉ), DE SŁAWOMIR MROŻEK, E PUŁAPKA (A ARMADILHA), DE TADEUSZ RÓŻEWICZ:


DRAMA, TESTEMUNHO, MEMÓRIA E TRADUÇÃO

Marcelo Paiva de Souza

NOSSA CLASSE, DE TADEUSZ SŁOBODZIANEK: TEATRO, VERDADE HISTÓRICA E RECEPÇÃO


CRÍTICA

Jorge Rafael Krebs Ribeiro

MULHERES NO FRONT: UMA PROPOSTA DE ANÁLISE MEMORIALÍSTICA DE A GUERRA NÃO


TEM ROSTO DE MULHER, DE SVETLANA ALEKSIÉVITCH

Eloisa Pedroni Pimentel

O TESTEMUNHO EM O FIM DO HOMEM SOVIÉTICO, DE SVETLANA ALEKSIÉVITCH

Herick Rodrigues Araújo

18/07 (MANHÃ)

A MELANCOLIA EM POEMAS DE DRUMMOND E DE MANUEL ALEGRE

Luiz Gustavo Osório Xavier

LÍRICA E TESTEMUNHO: MEMÓRIA, TEMPO E TRAUMA EM POEMAS DE FERREIRA GULLAR E


MANUEL ALEGRE

Mariana Castelo Branco Rabelo

ANIMAIS NA POÉTICA DE ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA


232
Miriane Santos Prates

O TESTEMUNHO NA POESIA SOBRE A GUERRA DE CANUDOS

Tarcísio Fernandes Cordeiro

18/07 (TARDE)

A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA NA POESIA DE FERNANDO ASSIS PACHECO E MANUEL


ALEGRE: DIÁLOGOS, CONGRUÊNCIAS E INCONGRUÊNCIAS

Vinícius Victor Araújo Barros

UM “UMBIGO” QUE NÃO CABE EM SI: BRASÍLIA, BRAXÍLIA, BRASIL E O MUNDO EM VERSOS DE
NICOLAS BEHR

Wilberth Salgueiro

TESTEMUNHO, MEMÓRIA E DIREITO: A POESIA DE PEDRO CASALDÁLIGA

Eliziane Fernanda Navarro

VIDAS E LUTAS DAS MULHERES DA PERIFERIA TESTEMUNHADAS NO SLAM DAS MINAS – SP

Larissa Teodoro Andrade

VOZES E SILÊNCIOS: UMA REFLEXÃO SOBRE TESTEMUNHO ORAL E MEMÓRIA NO CÁRCERE

Maria Aparecida de Barros

63 - LITERATURA, CINEMA, TEATRO: TRAMAS, MEMÓRIAS E SENTIDOS


NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
Coordenação: Anna Paula Soares Lemos (Unigranrio); Barbara Simões Daibert (UFJF); Vanessa
Cianconi (UERJ)

Resumo: O conjunto de imagens, o ritmo, o contexto, os tons, o sentido, entram em jogo


233
quando se fala de fazer a travessia dos signos de um idioma a outro, de um código a outro, de
um ponto de partida (referente) a sua transcriação. As práticas de linguagem tematizam e
instituem questões identitárias. Saberes, memórias, críticas e limites de expressão se colocam
em questão quando o movimento de tradução de linguagens entra em cena.

O tradutor Paulo Bezerra, no artigo Tradução como criação compara o movimento de traduzir
com o ritmo do adágio, um ritmo gradativo e lento de entrar em contato com outros valores
culturais, outra percepção, outra literatura e outra oralidade para depois retornar a si mesmo
e interpretar, recriar o ritmo da obra entendida em seu contexto referente. Como no adágio, é
preciso estabelecer uma sequência de passos e de posições complexas em um ritmo lento,
como que a primeira parte de um pas de deux clássico, para que o resultado final não gere
entendimentos equivocados que podem ser perpetuados na história justamente por uma
busca de literalidade que leva em conta apenas a palavra como referente.

Segundo Paulo Henriques Britto, a tradução – e seus limites para a utilização deste conceito –
pode ser no seu caminho de travessia estrangeirizadora ou domesticadora.

A tradução domesticadora visa facilitar o trabalho do leitor,


modificando tudo aquilo que lhe poderia causar estranheza,
aproximando o texto do universo linguístico e cultural que já lhe é
familiar. A estratégia estrangeirizadora faz o contrário: ela mantém
muitas das características originais do texto – referências nada óbvias
para o leitor da tradução, recursos estilísticos desconhecidos na
cultura-alvo, até mesmo alguns elementos do idioma-fonte – com o
intuito de aproximar o leitor do universo linguístico e cultural da obra
original. (BRITTO, 2012: p. 21).

Tanto uma como outra forma de lidar com a linguagem estabelece uma operação com
sentidos e não com significados, que deve afastar a ilusão da literalidade, uma literalidade
impossível de ser atingida salvo pelo jogo da poesia.

Como não se traduz uma língua, mas sim uma linguagem, que é “o mundo do sentido”, nos
termos de Octavio Paz, o suporte material constitui-se como um aspecto essencial à
compreensão das narrativas.

O mundo do homem é o mundo do sentido. Tolera a ambigüidade, a


contradição, a loucura ou a confusão, não a carência de sentido. O
próprio silêncio está povoado de signos. Assim, a disposição dos
edifícios e suas proporções obedecem a uma certa intenção. Não
carecem de sentido - pode-se dizer, com mais precisão, o contrário -
o impulso vertical do gótico, o equilíbrio tenso do templo grego, a
redondeza da estupa budista ou a vegetação exótica que cobre os
muros dos santuários de Orissa. Tudo é linguagem. (PAZ, Octavio. O
arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. P. 25).

234
Neste sentido, literatura, cinema e teatro mudam suas estruturas textuais - entendendo texto
como tecido de linguagens - conforme os suportes que dialogam com suas relações de escrita,
leitura e respectivas formas de recepção.

Desse modo, não nos ateremos apenas a análises semântico-narrativas e, sim, trataremos das
tramas, memórias e sentidos no mundo contemporâneo que podem gerar a crise do
espectador e abrir espaço para a chegada de um “visitante” que engaja seu corpo de
observador em performance e exercício livre de suas capacidades e potenciais. Abrangeremos
então o texto literário, o roteiro e a criação cinematográficos, o texto teatral, sua divulgação e
sua apresentação, a adaptação e roteirização para televisão ou cinema, as traduções e
transcriações, o uso do corpo na linguagem teatral, além das perspectivas da memória e de
suas relações.

Para Antonio Negri, por exemplo, quando se fala de memória não há mais o lado de fora, nem
o nostálgico, nem o mítico, nem alguma urgência para a razão nos desengajar da
espectrabilidade do real. Não há mais nem lugar, nem tempo – e este é o real. A invocação do
fantasma como memória, capaz de expressar a persistência do passado no presente, está
nessa nova espectrabilidade ao alcance de uma ilusão real. Somente o ‘Unheimlich’ de Freud
permanece na ilusão que estamos inseridos.

Este simpósio temático, em resumo, tem como propósito reunir estudos que coloquem no
centro de sua reflexão os aspectos materiais e imateriais envolvidos na relação Literatura,
Cinema e Teatro com a chegada da contemporaneidade.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

VIDA E MORTE EM THE WIND THAT SHAKES THE BARLEY, DE KEN LOACH E PAUL LAVERTY

Sanio Santos da Silva

TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA DE GAROTA EXEMPLAR DE GILLIAN FLYNN: OS NARRADORES


MANIPULADORES

Jessica Costa Lemos

O TEATRO DA BAIXADA FLUMINENSE EM FOCO: O COLETIVO TEATRAL REDE BAIXADA EM


CENA POR SEUS CRIADORES

Anna Paula Soares Lemos

235
NOVOS DISCURSOS PÓS-COLONIAIS NA SÉRIE NO. 1 LADIES’ DETECTIVE AGENCY

Carla de Figueiredo Portilho

FRONTEIRAS E INTERSEÇÕES NA TRADUÇÃO TEATRAL

Cláudia Soares Cruz

A HORA DA ESTRELA DE SUZANA AMARAL: UMA REESCRITURA FEMINISTA DA OBRA DE


CLARICE LISPECTOR?

Gleyda Lucia Cordeiro Costa Aragão

17/07 (MANHÃ)

HERCULE POIROT NO SÉCULO XXI: RELEITURAS DA TRADIÇÃO DETETIVESCA NO MUNDO PÓS-


MODERNO

Isabela Duarte Britto Lopes

OLHARES SOBRE MULHERES: ADAPTAÇÃO DAS PERSONAGENS FEMININAS DE STARDUST PARA


O SUPORTE FÍLMICO

Marco Aurelio Barsanelli de Almeida

O DESEJO DE CINEMA NA LITERATURA BRASILEIRA

Marília Corrêa Parecis de Oliveira

ENEIDA E A MITOLOGIA NA CULTURA POPULAR: TRAÇOS DO LIVRO VI NO FILME A ORIGEM, DE


NOLAN

Nara Rattes de Melo

FANTASMAGORIA E MORTE NO TEATRO POLÍTICO DE TONY KUSHNER

236
Vanessa Cianconi

64 - LITERATURA, CULTURA E IDENTIDADE NA/DA AMAZÔNIA:


CIRCULAÇÃO, TRAMAS E SENTIDOS NA LITERATURA
Coordenação: Maria do Perpétuo Socorro Galvão Simões – UFPA (Coordenadora Geral em
2019); Roberto Mibielli - UFRR (Coordenador Geral em 2017); Luciana Marino do Nascimento
– UFAC/UFRJ (Coordenadora Geral em 2018)

Resumo: Este simpósio Literatura, Cultura e Identidade na/da Amazônia, tem se repetido ao


longo dos últimos 10 anos de Abralic, dele, muita discussão produtiva, três livros e vários
artigos nos anais do evento resultaram. O primeiro livro, Nós da Amazônia: Literatura, Cultura
e Identidade na/da Amazônia, foi lançado em 2014. O segundo, Traços e Laços da Amazônia,
foi lançado também pela Letra capital em 2016, o terceiro, homônimo ao simpósio, em
formato digital, organizado a partir das discussões tanto de 2016 quanto de 2017, foi
publicado em 2018. A cada ano temos visto crescer a quantidade de trabalhos sobre a região,
ao mesmo tempo em que vemos também crescer a ignorância sobre ela.

É bem verdade que boa parte do conhecimento sobre esta Região ainda está por ser
construído. A diversidade de fronteiras e de culturas, dentro e fora das comunidades indígenas
locais, é um dos elementos que merece destaque. Tanto é que muitas pessoas que imaginam
ser este um espaço privilegiado em termos naturais – e mesmo humanos, como as existentes
entre as comunidades indígenas, de seringueiros e garimpeiros, por exemplo – não percebem
que esta diversidade abrange as culturas urbanas. Não sabem, também, que há universidades,
pesquisa, tecnologias em desenvolvimento neste meio/lugar. A imagem que prevalece, via de
regra, é a de um “lugar periférico”, subdesenvolvido ao extremo (“primitivo”, para alguns),
fechado em seus limites regionais, pobre, tomado pela floresta, em que há grande diversidade
de culturas indígenas e pouca intelligentzia.

No Brasil, em especial, este imaginário (a que chamaremos senso comum) construiu e mantém
a equivocada ideia de que além de una, enquanto região, a Amazônia é brasileira. Este
fenômeno é mais visível quando observamos os spans e fakenews que circulam na internet e
que alimentam, à custa de mentes menos esclarecidas, a paranoia de que querem tomar-nos a
Amazônia e internacionalizá-la. Mas além de abranger vastas áreas urbanas, como Belém e
Manaus (ambas com população acima de um milhão de habitantes cada), a Amazônia já é
internacional. Basta verificar a existência das outras amazônias fronteiriças: a venezuelana, a
boliviana, a colombiana, a peruana, a equatoriana...

O simpósio que propomos não pretende dar conta de toda esta diversidade cultural, mas
abrigá-la. Pretende contrastá-la, compará-la, tanto interna, quanto externamente,
questionando as fronteiras e limites de sua regionalidade/universalidade, além de mostrar
uma fatia desta construção/invenção em seus múltiplos aspectos. Ao abrigarmos trabalhos de
temática Amazônica, pretendemos exercer a comparação tanto no que concerne aos objetos
abordados em cada trabalho, na sua relação com o cânone central, quanto na relação entre
seus centros, como também nas relações constituídas entre centros, margens e periferias,
dentro e fora do âmbito amazônico, propondo sempre o necessário debate entre seus
autores/pesquisadores.

237
Nesse sentido, este simpósio  objetiva a discussão acerca dos limites, das confluências
linguísticas e culturais da/na Amazônia, nas perspectivas da Teoria da Literatura, dos Estudos
Culturais e da História (e áreas afins), deslocando-se o eixo da análise da cultura, desfazendo
ideias já constituídas, com vistas a tornar possível o debate em torno das identidades híbridas,
de uma compreensão delas frente às estruturas globais e às novas configurações do lugar do
periférico, das fronteiras e das culturas, das migrações e a construção diaspórica que se
apresenta nesses contextos, bem como, da circulação, tramas e sentidos da Literatura neste
universo.

Nosso simpósio pretende privilegiar questões relativas à literatura (sua teorização, suas
possibilidades, suas categorias, o modo como se apresentam ao leitor os narradores, o que
propõem como narrativa, que tipo de intervenção pedagógica é feita a partir do objeto
literário, por exemplo); privilegiar a estética de contos, fábulas e mitos da literatura latino-
americana, de origem oral ou escrita. Também é nosso objeto de investigação a identificação e
interpretação de certo discurso identitário, a partir do estudo comparado de textos literários
diversos, enfocando questões culturais específicas, quase sempre oriundas ou emanadas, da
produção literária/mitológica amazônica, de sua circulação, tramas e sentidos.

Visa-se, deste modo, a compreensão das representações do ser amazônida, quer no habitat,
quer longe dele, em seus anseios locais/universais, seja através da leitura das diversas relações
de confronto entre a textualidade amazônica e a produção cultural na América Latina, ou do
levantamento crítico da(s) identidade(s) plasmada(s) na produção literária da Região. Neste
sentido, reunir-se-ão, inicialmente, professores pesquisadores das IFES de Roraima e do Acre,
bem como, vêm se somando a esses, nos últimos dez anos de reuniões nacionais e
internacionais da ABRALIC, pesquisadores dos demais estados amazônicos, bem como de
outras paragens, interessados em temas e textos literários oriundos desta, ou sobre a Região.

Palavras-chave: Literatura; Amazônia; Cultura e Identidade; Literatura da/na Amazônia.

PROGRAMAÇÃO

17/07 (MANHÃ)

ENTRECRUZAMENTO DE FORMAS E MEIOS EM YUXIN ALMA (2009), DE ANA MIRANDA

Gracielle Marques

RETRATOS DE CENAS AMAZÔNICAS À MARGEM DO "CUIA PITINGA"

Edvaldo Santos Pereira

LEER LA VOZ TICUNA: UNA EXPERIENCIA METAFÓRICA DE LA REALIDAD

Erika Juliet Carvajal Hernández

238
A APLICABILIDADE DOS ESTUDOS BAKHTINIANOS EM NARRATIVAS DO ESCRITOR INDÍGENA
YAGUARÊ YAMÃ

Delma Pacheco Sicsú

17/07 (TARDE)

BARÃO DO RIO BRANCO: PERSONALIDADE QUE CONSTITUI UM NOVO ESTADO AMAZÔNICO


NA PERSPECTIVA DE PERTENCER

Adelzita Valéria Pacheco de Souza

DO SERINGAL À XAPURI: IDENTIDADES URBANAS

Willianice Soares Maia e Luciano Mendes Saraiva

O ESPLENDOR DO CERRO RICO EM POTOSÍ, LA CIUDADE UNICA, DE WENCESLAO JAIME


MOLINS

Cleilton França dos Santos

ABRINDO AS PÁGINAS DO LIVRO AZUL: ROGER CASEMENT E A AMAZÔNIA PERUANA

Luciana Marino do Nascimento

A (RE)CONSTRUÇÃO E A DESCONSTRUÇÃO DO ESPAÇO AMAZÔNICO, EM O FIM DO TERCEIRO


MUNDO, DE MÁRCIO SOUZA

Marcelo Leal Lima e José Cabral Mendes

18/07 (MANHÃ)

A AMAZÔNIA DE MÁRIO DE ANDRADE: UMA LEITURA INTERPRETATIVA DO BRASIL

Fábio Soares dos Santos

239
UM VISÃO ETNOGRÁFICA DO SUL-MINEIRO A CERCA DO IMAGINÁRIO DE IMIGRANTES
PROVIDOS DE REGIÕES DE BIOMA AMAZÔNICO

Fábio Geraldo de Ávila

MEMÓRIA E IMAGINÁRIO: PRESENTES EM NARRATIVAS AMAZÔNICAS

Maria do Perpétuo Socorro Galvão Simões

A POÉTICA DO TEMPO EM INGLÊS DE SOUSA

Messias Lisboa Gonçalves

IDENTIDADE E CULTURA AMAZÔNICAS NOS CORDÉIS DE RODRIGO DE OLIVEIRA

Saide Feitosa da Silva

65 - LITERATURAS EM ABISMO: A PERSPECTIVA INTERSEMIÓTICA EM


DEBATE
Coordenação: Prof. Dr. Fernando de Mendonça (UFS); Profª Drª Maria do Carmo de Siqueira
Nino (UFPE)

Resumo: Retomando discussões iniciadas em edições anteriores da ABRALIC, este simpósio se


organiza como um espaço para o debate de reflexões críticas voltadas à relação da literatura
com as outras artes (cinema, fotografia, música, pintura, teatro, etc.), baseando-se numa
perspectiva de análise intersemiótica e tendo como propósito ampliar e aprofundar os estudos
advindos deste ramo da literatura comparada. Adotar a Intersemiose como postura de
observação, continua sendo uma oportunidade para discutir as experiências literárias nas
textualidades contemporâneas, notadamente marcadas pelo diálogo de linguagens e a
hibridez de formas e mídias. Com o objetivo de melhor delimitar este complexo âmbito de
pesquisa, multifacetado por natureza, propomos a aplicação do conceito de mise en abyme
como uma âncora teórica, um denominador e ponto de interseção para as leituras que aqui
possam emergir. Advinda de uma técnica romanesca explorada por André Gide, a partir dos
últimos anos do séc. XIX, a expressão deriva de um termo que, na heráldica, vem se referir ao
ponto em que diversas figuras e formas se relacionam, dentro de escudos e medalhões,
compondo em abismo o fundo de uma imagem sem, necessariamente, se tocarem.
Posteriormente teorizada por Lucien Dällenbach (1977; 1979), que aprofundou o caráter

240
especular e destacou a presença desta ideia de composição narrativa como uma constante
passível de identificação, da Antiguidade aos tempos modernos, esta consciência nos surge
como um método de investigação para melhor uniformizar o heterogêneo cenário aberto pela
relação das artes. Assim, importa não somente verificar a maneira como variadas obras podem
se relacionar, mais do que isso, torna-se relevante perceber a influência destas relações no
gesto criativo, em si mesmo. Uma obra que se constrói em abismo, segundo Dällenbach, vem
também se desdobrar numa ‘autotextualidade’, em outras palavras, numa ‘intertextualidade
autárquica’, passando a depender intrinsecamente do diálogo com outros textos e linguagens
para subsistir como forma autônoma e original. Sobreposição de camadas que logo se percebe
como um modus operandi muito expressivo e recorrente na literatura contemporânea, seja
em obras que ultrapassem o verbo escrito para alcançar novos domínios de visualidade e, até
mesmo, sonoridade; ou literaturas que vêm encontrar nas tecnologias eletrônicas, na
cibernética e na rede virtual, novos horizontes de possibilidades textuais. O conceito de mise
en abyme, desde os romances e apontamentos ensaísticos de André Gide, presta-se como
instrumento de análise comparatista, pois instaura numa obra a reflexividade direta por
outra(s) obra(s), seja através de semelhança ou de contraste. Jogo de reflexos a ser resgatado
por Dällenbach, ao definir uma narrativa em abismo como obrigatoriamente estruturada por
meio de um ‘relato espelhado’, assim como determina Umberto Eco (1989) em sua teoria de
espelhamentos, ampliando o caráter vertiginoso das artes que se alimentam
ininterruptamente. Diante disso, o simpósio propõe uma ampla discussão de obras que
recorram a caminhos em composição especular, seja no direcionamento de textos que
apontem para outros textos (obras dentro de obras), mas especialmente, no caso de
linguagens que se voltem para outras linguagens, desafiando a percepção e inovando as
estéticas contemporâneas. Acompanhando uma tendência dos estudos mundiais em literatura
comparada, como se pode constatar pela recente organização de um periódico internacional
da Università degli Studi di Verona (2014), integralmente voltado para pesquisas que
contemplem a mise en abyme como escopo principal de análise crítica, espera-se contribuir
aqui para a discussão e divulgação do tema. Diante da alta procura por esta proposta na XIV
ABRALIC, a renovação do simpósio visa oportunizar um maior contato entre pesquisadores
brasileiros que já se dediquem ao assunto.

Referências:

ANKER, Valentina; DÄLLENBACH, Lucien. A Reflexão especular na pintura e literatura recentes,


in Art Internacional, vol. XIX/2, fevereiro 1975. (Trad. do original em francês: Maria do Carmo
Nino)

Bernardo, Gustavo. O livro da metaficcao. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2010.

DÄLLENBACH, Lucien. Intertexto e autotexto. In: ______; et al. Intertextualidades. Tradução


de Clara Crabbé Rocha. Coimbra: Almedina, 1979, p. 51-76.

______. Le récit spéculaire: essai sur la mise en abyme. Paris: Editions du Seuil (Poétique),
1977.

ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1989.

GIDE, André. Os moedeiros falsos. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.

GOULET, Alain. L’auteur mis en abyme (Valéry et Gide). Lettres Françaises: revista da área de
241
Língua e Literatura Francesa, Araraquara/FCL-UNESP/Laboratório Editorial, n. 7, p.39-58, 2006.

MISE EN ABYME: international journal of comparative literature and arts. Verona: Università
degli Studi, 2014- . ISSN 2284-3310. Disponível em: <[Link]
Acesso em 23 Abr. 2016.

Stam, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Belo
Horizonte: UFMG, 2008.

______. Reflexity in film and literature – from D. Quixote to Jean-Luc Godard. New York:
Columbia University Press, (1985) 1992.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

FICÇÃO, SUICÍDIO E ANTROPOLOGIA NO CORAÇÃO DAS TREVAS: NOVE NOITES E OS PAPÉIS DO


INGLÊS

Daniel Moutinho Souza

SE UM VIAJANTE ENTRE A METAFICÇÃO E A MISE EN ABYME

Igor Gonçalves Miranda

RITMOS DA VERTIGEM: CONTRATEMPOS ENTRE MISE EN ABYME E POLIRRITMIA

Joanita Baú de Oliveira e Wesley Simão Bezerra

17/07 (TARDE)

TRÊS RETRATOS À MARGEM

Danielle Cristina Mendes Pereira Ramos

242
MATERIALIZAÇÕES DO INVISÍVEL NA POÉTICA DE ABBAS KIAROSTAMI

Fernando de Mendonça

METAFICÇÕES EM STANLEY KUBRICK

Maria do Carmo de Siqueira Nino

A TÉCNICA DO SONHO: JAMES JOYCE E A REPRESENTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA

Palmireno Couto Moreira Neto

66 - LITERATURAS, AFRICANIDADES E DESCOLONIZAÇÃO


Coordenação: Dr. Felipe Fanuel Xavier Rodrigues (FTESM - Fundação Técnico-Educacional
Souza Marques); Dr. Luiz Henrique Silva de Oliveira (CEFET-MG); Dr. Paulo Dutra (SFASU)

Resumo: Dando continuidade ao projeto de acolher comunicações dedicadas ao estudo da


vida, obra e pensamento de autores e autoras de ascendência africana, cuja imaginação
literária provém de vivências da afrodescendência em localidades formalmente
descolonizadas, às margens das quais a africanidade constitui leitmotif de literaturas que se
situam dialeticamente dentro e fora de sistemas literários hegemônicos, apresentamos esta
proposta de simpósio. O objetivo é explorar os contornos críticos e teóricos das produções
literárias engendradas a partir das histórias, culturas e instituições de pessoas de origem
africana, bem como o impacto dessas literaturas em contextos de desigualdades e demandas
sociais. Ao declarar o período de 2015-2024 como a Década Internacional dos
Afrodescendentes, as Nações Unidas reconheceram a urgência de se colocar na ordem do dia a
promoção e proteção dos direitos humanos de um contingente de aproximadamente 200
milhões de pessoas de ascendência africana espalhadas pelo mundo. A discussão dessa pauta
acarreta ressonância política e histórica no contexto brasileiro. Apesar de o Brasil gerar a
segunda maior população afrodescendente atual, os jovens negros (pretos e pardos) são as
principais vítimas de homicídio no país (CERQUEIRA et al., 2016). O fenômeno, já descrito
como “genocídio negro”, expõe os efeitos funestos da persistência do racismo e impõe
reflexões acerca da cultura como local de luta e sobrevivência para afrodescendentes que
vivem em democracias desiguais. Na genealogia do racismo contemporâneo – onde quer que
seja flagrante –, constam ontologias construídas para fundamentar sistemas de segregação
racial que cercearam os direitos dos negros em territórios controlados por projetos
colonialistas etnocêntricos. Contudo, o imprevisível surgimento de literaturas de sujeitos que
perspectivam tradições africanas, afirmam identidades negras e tematizam experiências em
ambientes hostis manifesta a dinâmica cultural de afrodescendentes cuja escrita contrapõe
práticas textuais e interpretativas que essencializaram seus corpos e os trataram como
objetos. Trata-se de um processo de descolonização, isto é, um processo histórico em que
sujeitos legatários do mal-estar colonial “recriam” a si mesmos como seres humanos,
rompendo, portanto, com a conformidade à lógica de um mundo em que a discriminação
243
racial perdura.

Palavras-chave: Literatura Afrodescendente; Africanidade; Identidade Negra; Racismo;


Descolonização.

Referências:

CERQUEIRA, Daniel et al. Atlas da Violência 2016. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2016.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

PENSAMENTOS SILENCIADOS E VOZES QUE SE TORNAM VISÍVEIS: TENSÕES NOS FAZERES


LITERÁRIOS DO SÉCULO XXI

Maria Aparecida Ferreira de Andrade Salgueiro

NEOLIBERALISMO E DESIGUALDADE NO SÉCULO XXI: A MIRADA AFRO-MIGRANTE DE IMBOLO


MBUE EM AQUI ESTÃO OS SONHARES

Claudio Roberto Vieira Braga

A ESCRITA FEMININA NEGRO-AFRICANA COMO RESGATE ONTOLÓGICO E EPISTEMOLÓGICO:


UM OLHAR SOBRE AMERICANAH E TUDO DE BOM VAI ACONTECER

Natália Regina Rocha Serpa

FISURAS EN NARRATIVAS ROMÁNTICAS Y COMUNIDADES IMAGINADAS: MARÍA (1867) DE


JORGE ISAACS (1837-1895) Y ÚRSULA DE FIRMINA DOS REIS

Juana Sañudo Caicedo

16/07 (TARDE)

244
ESCRITORAS NEGRAS DA BAHIA: (RE)MAPEAMENTO E MOVIMENTOS

Calila das Mercês

CRÍTICA LITERÁRIA FEMINISTA NEGRA EM UM DEFEITO DE COR, DE ANA MARIA GONÇALVES E


BELOVED, DE TONI MORRISON: INTERSECCIONALIZANDO A LITERATURA

Cátia Cristina Bocaiuva Maringolo

CONVITE AOS QUILOMBOS: A CRÍTICA LITERÁRIA NAS OBRAS DE CIDINHA DA SILVA

Fabiana de Pinho

PRETA POESIA: PROTESTO E POTÊNCIA

Felipe Fanuel Xavier Rodrigues

17/07 (MANHÃ)

LINHA DE COR E COMPORTAMENTO ENUNCIATIVO NO ROMANCE NEGRISTA

Luiz Henrique Silva de Oliveira

UM ESBOÇO DA HISTÓRIA EDITORIAL DA POESIA NEGRO/AFRO-BRASILEIRA

Fabiane Cristine Rodrigues

"NOS PRIVAM TÉ DE PENSAR": A ESCRITURA DE LUIZ GAMA

Fernando Rocha

O LEGADO DA ESCRAVIDÃO EM O DIÁRIO DE BITITA DE CAROLINA MARIA DE JESUS

245
Beatriz Schmidt Campos

17/07 (TARDE)

DAS MORADIAS ANCESTRAIS ÀS PERIFERIAS ATUAIS: A TERRITORIALIDADE EM MORADA E


VÃO, DE ALLAN DA ROSA

Renata de Oliveira Batista Rodrigues

MEMÓRIA, HISTÓRIA E IMAGINÁRIO: A COMEMORAÇÃO DA IDENTIDADE ANCESTRAL DO AXÉ


OBÁ IGBÔ IGBOMINA MALÊ

Fabio Rodrigo Penna

ANCESTRALIDADE E HISTORICIDADE EM DE ÁGUA DE BARRELA, DE ELIANA ALVES CRUZ

Maria Inês Freitas de Amorim

MARIA FIRMINA DOS REIS, CRÍTICA DA COLONIALIDADE

Laísa Marra

18/07 (MANHÃ)

ALEGORIA DO SILÊNCIO: UM ESTUDO DA OBRA PARÁBOLA DO CÁGADO VELHO, DE PEPETELA


SOB UMA PERSPECTIVA TEÓRICO/CRÍTICA PÓS-COLONIAL

Jéssica Schmitz

ELEMENTOS CULTURAIS COMPARADOS ENTRE RENÉ MARAN E MARIAMA BÂ

Israel Victor de Melo

246
A PALAVRA QUE LIBERTA - UMA ANÁLISE DE HIBISCO ROXO DE CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE
E DE INFIEL DE AYAAN HIRSI ALI

Patrícia Ribeiro Brasil

JOSÉ LUANDINO VIEIRA E A TRANSFIGURAÇÃO DA MOLDURA COLONIAL

Pedro Beja Aguiar

18/07 (TARDE)

ESTILHAÇOS NO PACTO NARCÍSICO DA BRANQUITUDE: ARTE CONTEMPORÂNEA E


TENSIONAMENTO RACIAL

Bárbara Danielle Morais Vieira

AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES GUINEENSES NAS OBRAS ETERNA PAIXÃO E A ÚLTIMA


TRAGÉDIA, DE ABDULAI SIL

Luciene Rocha dos Santos Cruz

FOTOPOÉTICAS AFRODIASPÓRICAS: CONEXÃO ESTADOS UNIDOS X ÁFRICA DO SUL

Jânderson Albino Coswosk

O GATILHO DA FICÇÃO: O IMAGINÁRIO E A RECONSTRUÇÃO DA REALIDADE

Anderson de Figueiredo Matias

67 - MITO E POÉTICAS DO IMAGINÁRIO


Coordenação: Prof. Dr. Alexandre Nunes (UFG); Prof. Dr. Fábio Cavalcante de Andrade (UFPE);
247
Prof. Dr. Felipe Aguiar (São Miguel)

Resumo: A literatura e, consequentemente, os Estudos Literários, sempre estabeleceram um


diálogo intenso com as linguagens e saberes que lhes fazem fronteira. Em alguns momentos
esse diálogo foi mais poroso que em outros. Atualmente a perspectiva transdisciplinar
representa um espaço de questionamento tanto em relação à noção mais tradicional e estável
de literatura, como em relação aos métodos de abordagem de viés formalista do texto
literário. Nessa perspectiva transdisciplinar, podemos situar os Estudos do Imaginário que,
embora tenham desde cedo eleito a literatura como um de seus objetos preferidos de
reflexão, estendem-se para as mais diversas áreas e linguagem artísticas. A proposta desse
simpósio é discutir as ressonâncias e aplicações das reflexões voltadas para a perenidade da
linguagem do mito, do símbolo e da imaginação na literatura e nas artes contemporâneas.
Dentro de uma perspectiva poiética (do termo grego “poiesis”), de um fazer criador que
mergulha no manancial de imagens que fundamenta nossas relações com o mundo, com o
outro e com nós mesmos; propomos a partilha de um olhar sobre a textura profunda e velada
da cultura em sua dimensão individual e gregária. É possível pensar a valorização da
imaginação num grande arco que parte de pensadores como Nietzsche e o historiador e
teórico das artes Aby Warburg, até os encontros do círculo de Eranos, a fenomenologia das
imagens simbólicas de Gaston Bachelard, o estruturalismo figurativo de Gilbert Durand e o
imaginário social de Cornelius Castoriadis; chegando a uma geração mais recente de
pensadores, tais como James Hillman, Carlo Ginzburg, Giorgio Agamben e Georges Didi-
Huberman. Vê-se uma espécie de amplificação do trabalho das chamadas “hermenêuticas
restauradoras”, para usar a terminologia de Durand, ao interpretarem o mito, o símbolo e a
imagem simbólica como elementos fundamentais na constituição da cultura e da sociabilidade
humanas. Didi-Huberman, por exemplo, insiste numa consagração de sua escrita às imagens.
Ao invés da linguagem ser instrumentalizada para dar conta de um saber filosófico que se
define exteriormente a ela, é justamente ela – a linguagem – que se transforma, em sua
oscilação entre o dizível e o visível, no caminho possível para acompanhar o aparecimento das
imagens, reconhecendo-as na sua dimensão gestual – de gesto criador e, por isso mesmo,
epistemológico. Acreditamos que a questão da imagem que tanto interessou a Warburg, ele
mesmo um pesquisador de grande inclinação trans-disciplinar, pode significar a via para uma
reflexão muito produtiva inclusive no tocante à literatura, ao deslocar o próprio conceito de
literatura para o âmbito mais amplo de um possível pensamento estético contemporâneo,
marcado, ele mesmo, por um princípio pluralista incontornável. Pensadores, teóricos e
filósofos de tendência multidisciplinar, como Walter Benjamin e Georges Bataille, que se
interessaram pela imagem e pela vida das imagens no contexto da sensibilidade moderna e
contemporânea, também devem ser considerados importantes temas de comunicação para
este simpósio. A idéia de constelações de imagens e imagem dialética de Benjamin, assim
como a noção de experiência interior e dispêndio de Bataille e os estudos em torno da Arte da
Memória, de Francis [Link] constituem construtos teóricos profundamente sintonizados com
as reflexões mais atuais sobre o imaginário, em suas repercussões artísticas e sociais. Outro
desdobramento direto do conjunto de inquietações que esses autores representam é a
questão da memória, vista também sob a ótica não apenas da visibilidade da imagem, mas
também de sua legibilidade. Sobre a questão da memória, observa-se sob a ótica da
legibilidade da imagem que Não há memória sem imagens, assim como não há imagem sem
memória. Ampliando esse princípio, diríamos igualmente que não há memória sem fantasma,
para usar o inaugural termo aristotélico para se referir à força da imaginação; assim como não

248
há fantasma sem memória. O tempo residual e a anterioridade que desencadeiam o presente
são pressupostos basilares da esfera imaginativa – que não a determinam necessariamente,
mas a influenciam. A relação das imagens com a memória na literatura e na arte
contemporânea, e com temporalidades disjuntivas, através de noções como as de anacronia,
representam também importantes pontos de passagem para a reflexão que este simpósio
procurará proporcionar. Por fim, a disposição do simpósio é abrigar comunicações que nos
permitam refletir sobre as relações entre mito, arte e memória – do ponto de vista da
literatura contemporânea em seu constante diálogo com as mais variadas linguagens artísticas
(teatro, fotografia, música, cinema e dança). Nessa reflexão, ao que parece, devemos buscar
compreender o percurso da imagem e do imaginário no pensamento estético moderno e
contemporâneo em seus vínculos com a cultura e com a sociedade.

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Nudez. Trad. de Davi Pessoa. São Paulo: Autêntica, 2014.

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Trad. de Fernando Sheibe. São Paulo: Autêntica, 2013.

CALASSO, Roberto. A Literatura e os deuses. Trad. de Jônatas Batista Neto. São Paulo:
Companhia das letras, 2004.

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo das fantasmas


segundo Aby Warburg. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

_______. A semelhança informe: ou o gaio saber visual segundo Georges Bataille. [Link] Caio
Meira, Fernando Scheibe e Marcello Jacques de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015.

PAZ, Octavio. A Outra Voz. Trad. de . São Paulo: Siciliano, 1992.

SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Além do visível: o olhar da literatura. Rio de Janeiro: 7 Letras,
2016. WARBURG, Aby. Histórias de fantasmas para gente grande: escritos, esboços,
conferências. Trad. de Lenin Bicudo Bárbara. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
OLIVEIRA, Alexandre et Al. Deslocamentos críticos / Itaú Cultural. São Paulo: Babel, 2011.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

IMAGINÁRIO DECOMPOSTO: ANÁLISE DAS POÉTICAS DO (DES)HUMANO NO TEXTO E NA CENA


DO ESPETÁCULO O HOMEM DECOMPOSTO

Alexandre Silva Nunes

JEAN ANOUILH E A TRADIÇÃO DA LEITURA DE ANTÍGONA NA FRANÇA

249
Elizabeth Serra dos Santos

UMA FOTOGRAFIA DE SUSAN SONTAG

Francisco Thiago Camêlo da Silva

A GEOPOÉTICA DA TERRA EM FLORESTAS, DE WAJDI MOUAWAD

Nelson Marques

17/07 (TARDE)

A LÍRICA DOS INFLUXOS: ENIGMA E MITO EM ORIDES FONTELA

Allan Alves de Souza

A FORÇA DO IMAGINÁRIO E DA MEMÓRIA EM "NOSSO GRÃO MAIS FINO"

Manuella Mirna Enéas de Nazaré

IMAGINAÇÃO EM NASCITIVIDADE NO CORPO DE BAILE ROSIANO

Nádia Garcia Mendes

DANÇANDO COM OS VAGALUMES: O GESTO LUMINOSO DA CRÍTICA CRIATIVA

Élida Mara Alves Dantas Martins

18/07 (TARDE)

A FECUNDIDADE DO INCONSCIENTE: PONTOS DE PARTIDA

Luiz Felipe de Queiroga Aguiar Leite

250
IMAGINÁRIO OCULTISTA NA VIDA E OBRA DE FERNANDO PESSOA

Marcelo Rodrigues dos Reis

MEMÓRIAS E MITO: AS NARRATIVAS ORAIS SOBRE O ATAÍDE (RE)CONTADAS EM DIFERENTES


LINGUAGENS

Myrcéia Carolyne Guimarães da Costa

DO MITO COMO MONTAGEM PROBLEMÁTICA TRANSINDIVIDUAL (EM ABY WARBUG E


GILBERT SIMONDON)

Vinícius Portella Castro

68 - NARRATIVAS E DESLOCAMENTOS: VIAGENS, DIÁSPORAS,


IDENTIDADES, PERFORMANCE E OUTRAS ARTES
Coordenação: Profa. Natália Oliveira Fontes (UFV); Prof. Dr. Acauam Silvério de Oliveira (UPE);
Prof. Dr. Adélcio de Sousa Cruz (UFV)

Resumo: O campo literário não se constituiu a partir do éter, possui trajetórias diversificadas.
Entretanto, essa pluralidade e multiplicidade de vozes e poéticas foi sendo recortada,
censurada por muitas vezes. Interessam-nos as narrativas e seus deslocamentos: relatos e/ou
ficção de viagens, as diásporas, a performance, as outras artes e, as identidades tecidas
dentro da pletora dessas poéticas. É sabido que tais deslocamentos nunca foram à base de
consenso: a colonização e outros processos movimentaram massas populacionais, quase
sempre, à revelia dos propósitos mais subjetivos. A literatura estava desconectada do real,
aparentemente, sempre abrigou em seu campo a necropolítica (MBEMBE, 2018), lançando as
vozes dissonantes, ora para o fundo do oceano, ora para as margens do cânone.

Referências

CARLSON, Marvin. Performance: uma introdução crítica. Trad. Thaïs Flores Nogueira Diniz;
Maria Antonieta Pereira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.

DALCASTAGNÈ, Regina. Pluralidade e escrita. In Literatura brasileira contemporânea: um


território contestado. Vinhedo: Editora Horizonte/Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 2012. p.7-
16.

251
FRIEDMAN, Susan. Mappings: Feminism and the Cultural Geographies of Encounter. New
Jersey: Princeton U P, 1998.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições,
2018.

MILLS, Sara. Discourses of Difference: An Analysis of Women’s Travel Writing and Colonialism.
London and New York: Routledge, 1991.

NAPOLITANO, Marcos. A síncope das idéias: a questão da tradição na música popular


brasileira. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2007.

PRATT, Mary Louise. Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation. 2nd ed. New York:
Routledge, 2008.

SUSSEKIND, Flora. Objetos verbais não identificados: experimentos literários de difícil


classificação. In O Globo – Cultura – Caderno Prosa. 21 de setembro de 2013. Disponível em:
[Link]
[Link]

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo, Companhia das Letras,
2008.

__________________. Questões de música e política no Brasil. Sem receita: ensaios e canções.


São Paulo, Publifolha, 2004.

ZUNTHOR, Paul. A letra e a voz. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

TRAVEL NARRATIVES, WOMEN AND HUNTING GAMES: FLORENCE DIXIE’S ACROSS PATAGONIA

Natália Fontes de Oliveira

A TENSÃO ENTRE REALIDADE E FICÇÃO NA LITERATURA DE VIAGEM DE SAINT HILAIRE

Cesar Augusto Neves Souza

"CONTRA-VIAGENS" PORTUGUESAS: UM ESTUDO SOBRE VIAGENS NA MINHA TERRA E


CONHECIMENTO DO INFERNO

Lara Silva Perussi Bertão

252
ANTÓNIO ALEIXO E ANTÔNIO VIEIRA: DIÁLOGOS IMAGINADOS OU BOCA E PAPEL: ESPAÇOS DE
FRICÇÃO DA PALAVRA POÉTICA

Edilene Dias Matos

BORGES" "TWO WHITMAN"S": MULTIVOCALITY AND PAN-AMERICAN POETIC IDENTITY IN


WHITMAN"S "LEAVES OF GRASS"

Daniel Bell

17/07 (MANHÃ)

POÉTICAS E ESTÉTICAS DE RESISTÊNCIA: DIZER NÃO À NECROPOLÍTICA E NAVEGAR NAS


MEMÓRIAS DA DIÁSPORA AFRICANA

Adélcio de Sousa Cruz

REGENERATION THROUGH VIOLENCE: UMA LEITURA DA FRONTEIRA EM MERIDIANO DE


SANGUE, DE CORMAC MCCARTHY

Mikael de Souza Frota

FRONTEIRAS E TRANSGRESSÃO NO CONTO HOPEFUL MONSTERS

Juliana Borges Oliveira de Morais

MARIANA - A FORÇA FEMININA NA OBRA DE ANTONIO OLINTO

Janda Montenegro

69 - NATURALISMO/NATURALISMOS
Coordenação: Haroldo Ceravolo Sereza (USP); Leonardo Pinto Mendes (UERJ); Pedro Paulo
Garcia Ferreira Catharina (UFRJ)

Resumo: O propósito desse Simpósio é discutir os princípios da estética naturalista e debater


suas principais manifestações literárias, de qualquer nacionalidade, tanto no século XIX,
quanto nos séculos XX e XXI. As propostas introduzidas por este movimento estético
253
democrático, que ousava nos temas e apresentava procedimentos discursivos específicos,
garantiu sua difusão pelo mundo (Becker & Dufief, 2018), atraindo escritores de diversos
países que adotavam o naturalismo como uma forma de se alinhar à modernidade numa
geografia específica que não cabia nas fronteiras das literaturas nacionais. Tal força de
representação ultrapassou igualmente seu período histórico e sobrevive até hoje, mostrando
que a temporalidade literária obedece a regras específicas dos campos literários (Casanova,
1999). O princípio naturalista fundamental é retratar “a vida como ela é”, estudando
personagens de diversas classes sociais em seus cotidianos, mesmo quando desprezíveis ou
abjetos. Este método de observação e de criação deu origem a uma infinidade de críticas tanto
à brutalidade e à imoralidade do naturalismo quanto à pretensão ingênua de representar
fielmente a realidade. Entretanto, ingênua era a acusação de que os escritores naturalistas
eram ingênuos, pois em vários textos-chave da estética, como o prefácio da segunda edição de
Thérèse Raquin (1867) e o ensaio O romance experimental (1880), Émile Zola esclarece que o
objetivo era criar uma “ilusão” da realidade, pois se o romance naturalista adotava
procedimentos científicos para reagir contra um romantismo gasto então muito em voga,
cabia a cada artista em seu “temperamento” individual o ato da criação. Daí que não se deva
falar de “escola” e em “discípulos”, pois cada escritor tomou os princípios da estética e os
moldou à sua maneira – o que nos permite hoje falar de “naturalismos” (Becker & Dufief,
2017). Destacamos esse mal-entendido como um entre vários reducionismos impingidos ao
naturalismo, retratado pela historiografia tradicional como uma estética menor, falsa e
ingenuamente científica, muitas vezes reduzida a um clichê. Estudos recentes em vários países
vêm desvendando um quadro mais sofisticado e complexo, capaz de acomodar uma gama de
vertentes naturalistas no século XIX e XX, em suas relações com o gótico, o decadentismo, a
literatura licenciosa, elegendo ora a representação trágica da existência, ora uma exploração
dos enredos repetitivos e da desilusão (Baguley, 1995). Na literatura brasileira oitocentista
esses desdobramentos parecem capazes de abarcar uma gama bem maior de autores e textos
do que a historiografia tradicional conseguiu identificar. A onda naturalista do século XIX deu
origem a métodos de pesquisa e criação, bem como a formas de expressão que foram
retomadas por escritores ao longo dos séculos XX e XXI. A forma de abordar a realidade como
elemento constitutivo da obra servirá a pintores, fotógrafos, cineastas e autores de novela,
que nela verão um modo legítimo de se falar sobre o mundo e as sociedades. Flora Süssekind,
ao analisar o romance brasileiro do século XX, refere-se às vagas naturalistas nos anos 1930 e
1970. Também aponta, nos temas tratados na obra de Ferréz, Dráuzio Varella e Paulo Lins, nos
anos 2000, para uma retomada dos postulados centrais do naturalismo. O desejo de expressar
dimensões pouco atraentes da realidade, a primazia dada à descrição de conflitos sociais, os
temas do preconceito racial e da diversidade sexual, assim como o desejo de documentar
situações de opressão e exclusão de sujeitos vistos como subalternos constituem elementos
do pacto naturalista de leitura que se renova e se reproduz na contemporaneidade. O leitor
encontra obras que se posicionam como retratos e debates que dialogam com o tempo
imediato e que sugerem tomadas de posição sobre violências e situações quotidianas. O
elemento extraliterário é um componente central da obra, e a busca por verossimilhança
decorre tanto do discurso da experiência pessoal quanto da pesquisa científica ou jornalística.
Rancière (2010) aponta que, ao abolir hierarquias e criar obras que não respeitavam a
organização até então vigente, o naturalismo do século XIX criou, por meio do “efeito de
realidade”, o “efeito de igualdade”, que está diretamente ligado, para ele, à possibilidade de
associação livre de imagens. Rancière dirá ainda que a literatura que privilegia o descrever
sobre o narrar permite que o “aristocrático emprego da ação” seja “bloqueado pela
democrática coleção desordenada de imagens”. Com a perspectiva renovada de um
naturalismo democrático, múltiplo e desordenado, reconhecível nos séculos XIX, XX e XXI,
254
convidamos pesquisadores a enviar propostas de trabalho que incorporem novas questões de
pesquisa e estudos de caso ao debate sobre o naturalismo.

Referências:

BAGULEY, David. Le Naturalisme et ses genres. Paris : Nathan. 1995

BECKER, Colette & DUFIEF, Pierre-Jean (dir.). Dictionnaire des naturalismes. 2 vols. Paris :
Honoré Champion, 2017.

______. Présentation du Dictionnaire des naturalismes. Excavatio, vol. XXX, 1-10, 2018.

CASANOVA, Pascale. A República mundial das Letras. São Paulo: Estação Liberdade,
2012.
CATHARINA, Pedro Paulo. Revendo o naturalismo. In: MELLO, Celina & CATHARINA, Pedro
Paulo (org.). Cenas da literatura moderna. Rio de Janeiro: 7Letras, 71-90.

______. Circulation and Permanence of French Naturalist Literature in Brazil. Excavatio,


vol. XXVII, p. 1-21, 2016.

DUBOIS, Jacques. Les romanciers du réel. De Balzac à Simenon. Paris: Seuil, 2000.
MENDES, Leonardo & FERREIRA, Alexandre Amaral. Virgílio Várzea, escritor
naturalista. Soletras, n. 27, p. 233-253, 2014.

MENDES, Leonardo & OLIVEIRA, Paola. As trajetórias de Suicida ! (1895) e O terror dos
maridos (1896), romances naturalistas esquecidos de Figueiredo Pimentel. Soletras, n. 30, p.
118-138, 2015. 

MENDES, Leonardo & DIAS, Riane Avelino. Pedro Rabelo, escritor naturalista. Soletras, n. 34, p.
285-311, 2017.

PELLEGRINI, Tânia. Realismo e realidade na literatura  ; um modo de ver o Brasil. São Paulo,
Alameda, 2018.

RANCIÈRE, Jacques. O efeito de realidade e a política da ficção. Trad. de Carolina Santos.


Revista Novos Estudos, nº 86. São Paulo: Cebrap, março 2010.

SEREZA, Haroldo Ceravolo. O Cortiço, romance econômico. Revista Novos Estudos, n. 98. São
Paulo: Cebrap, mar. 2014.

SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.

______. Desterritorialização e forma literária. Literatura brasileira contemporânea e


experiência urbana. Literatura e Sociedade, n. 8. São Paulo: FFLCH, 2005.

ZOLA, Émile. O romance experimental e o naturalismo no teatro. Trad. Italo Caroni, Célia
Berrentini. São Paulo: Perspectiva, 1982.

PROGRAMAÇÃO

255
16/07 (MANHÃ)

JORGE DO BARRAL (1900), DE EMANUEL GUIMARÃES: ENTRE O NATURALISMO E O “ROMANCE


DE SENSAÇÃO”

Leonardo Mendes

A CONSTRUÇÃO DE UM BEST-SELLER NO FINAL DO SÉCULO XIX: A REPERCUSSÃO CRÍTICA E


MIDIÁTICA DO ROMANCE O HOMEM, DE ALUÍSIO AZEVEDO

Thiago Mio Salla

LENITA, MARICOTA, OLÍMPIA E VIOLANTE: MANIFESTAÇÕES DA “MULHER VIRIL” NO


NATURALISMO DO SÉCULO XIX

Marina Pozes Pereira Santos

17/07 (MANHÃ)

O NATURALISMO NA COLEÇÃO ECONÔMICA LAEMMERT

Pedro Paulo Catharina

ÉMILE ZOLA SOB OS OLHOS DA PROVÍNCIA DO PARÁ

José Adauto Santos Bitencourt Filho

OS POEMAS EM PROSA DE CAMILLE LEMONNIER E JORIS-KARL HUYSMANS: TEXTOS


NATURALISTAS

Rubens Vinícius Marinho Pedrosa

A ALMA ALHEIA (1895), DE PEDRO RABELO: LIVRO NATURALISTA?

Riane Avelino Dias

256
18/07 (MANHÃ)

A DESCRIÇÃO EM ANGÚSTIA, DE GRACILIANO RAMOS

Haroldo Ceravolo Sereza

O MATERIALISMO OBSCENO NOS VERSOS DE PIMENTÕES (1897), DE PUFF (GUIMARÃES


PASSOS) E PUCK (OLAVO BILAC)

Renata Ferreira Vieira

REALISMO RABELAISIANO VERSUS REALISMO-NATURALISMO NA PORNOGRAFIA DE ALFREDO


GALLIS

Aline Moreira

GEORGE MOORE E A CONTROVÉRSIA NATURALISTA NO FIM DA ERA VITORIANA

Thaís Marques Soranzo

70 - NOVAS TENDÊNCIAS EM LITERATURA INFANTIL E JUVENIL: DO


IMPRESSO AO DIGITAL
Coordenação: Profa. Dra. Elizabeth Cardoso (PUC-SP); Profa. Dra. Ilsa do Carmo Vieira Goulart
(UFLA-MG); Profa. Dra. Maria José Pereira Gordo Palo (PUC-SP).

Resumo: Desde a década de 1980, a literatura infantil vem passando por transformações
agudas tanto na temática – proliferação dos temas anteriormente visto como tabus – quanto
no formato – experimentalismos no livro impresso alçando-o a categoria de livro imagem e
objeto livro – (ZILBERMAN, 2005; COLOMER, 2003). Destacam-se também as subdivisões do
gênero em literatura digital e aplicativos literários, graphic novels, romances de fantasias e
suas séries, literatura para bebês, entre outras.

Portanto, refletir sobre a literatura endereçada à infância e à juventude, hoje, perpassa reaver
pontos, já colocados pela teoria e pela crítica, e elaborar novas indagações. Entre as questões,
já clássicas, figuram temas como: a definição do gênero; a discussão sobre sua potência
literária e estética; as complexas relações entre a formação do leitor e escola, família, mercado
editorial, autoria e interesse dos leitores; a relação palavra e imagem. No contemporâneo, tais
temáticas persistem ao lado de novas questões em torno da literatura digital, do livro imagem,
do livro objeto, da literatura para bebês, especialmente no que diz respeito ao acesso, à
legibilidade, à literariedade e à autoria. Tais temas remetem a questões sobre os suportes de
257
leitura e sinalizam para modos distintos de ler e de interagir com o texto (CHARTIER, 1998). As
interações com o suporte exigem do leitor outras habilidades de leitura. Em suporte digital, o
hipertexto apresenta uma estrutura multilinear, o que requer do leitor-usuário tomar decisões
na condução da leitura, delimitar os rumos do texto, a partir de alguns cliques (SANTAELLA,
2012). A multimodalidade textual encontra na dinamicidade da tela, a junção de escrita,
imagens, cenas, áudios, nas quais a manipulação direta oportuniza ao leitor-usuário múltiplas
possibilidades de leitura que não se restringem à linguagem verbal, mas multimodal.

Os elementos empregados nas narrativas digitais podem ser inalteráveis ou podem utilizar
mecanismos de hipermodalidade, quando diferentes categorias se integram na hipermídia,
tornando-se não lineares e não cronológicas, possibilitando ao leitor, escolhas quanto ao
percurso a ser seguido, o que possibilita a cada inovação de versão, o seu armazenamento.
(LEMKE, 2002)

Apontando para a necessidade de caracterizar os ambientes digitais, onde ocorrem as


narrativas digitais, Murray (2003) assevera que estes podem ser: procedimentais, ou seja, são
resultantes do pensamento algorítmico de comportamento e das regras; participativos, visto
que provêm de reconstituição codificada de respostas comportamentais; espaciais, uma vez
que há o processo interativo da navegação; enciclopédicos, devido à capacidade de
armazenamento de dados. A era digital proporciona um modelo de literatura heterogênea, ao
passo que se atrela a vários elementos, desde imagens, sons, animações em um único texto
(KRESS; VAN LEEUWEN, 2001).

Tem-se na potência da linguagem híbrida, presente na literatura infantil e por suas múltiplas
mediações, um crescente acesso de gêneros digitais direcionados às crianças. Essas tendências
indicam práticas discursivas em constante transformação envolvendo a expressão verbal e
não-verbal, a tradição e a vanguarda, a contação e a leitura, o impresso e o digital, o livro e o
objeto livro. Nessa mutação sígnica a infância lê e é escrita, determina e é influenciada,
registra-se e transforma acionando os estudos mais diversos e multidisciplinares à pesquisa e à
extensão.

Este simpósio centra-se em trabalhos acadêmicos voltados para a literatura infantil e juvenil
que inova seja na temática, na forma e/ou no gênero. Rompendo e ampliando barreiras
limitadoras sobre indicação de faixa etária, materiais mais indicados, definições de gêneros,
temas tabus, mídias mais adequadas. Pretende-se reunir os pesquisadores que atuam com a
literatura infantil e juvenil que escapa às classificações, que provoca e questiona métodos
tradicionais de formação de leitor, que desloca o mediador, que revê o papel da escola e da
família, que explora novos formatos e mídias, que dialoga, adapta ou reescreve a tradição oral
e seus contos em novos suportes, a literatura infantil e juvenil que encanta, questiona e
inspira.

Referências

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: o leitor ao navegador. São Paulo: Unesp, 1998.

COLOMER, Teresa. A formação do leitor literário: narrativa infantil e juvenil atual. Trad. Laura
Sandroni. São Paulo: Global, 2003.

KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. Reading Images: The Gramar of visual design: 2.

Ed. Londres: Routlegde, 1996.

258
______. Introdução. In: KRESS, G. Multimodal discourse: the modes and media of

contemporary communication. Trad. de Laura H. Molina. Londres: Arnold, 2001, pp 1-

23. Disponível em:

[Link]/textos/kress_van_leeuwen_discurso_multimodal.pdf. Acesso em:

10 set. 2014.

LEMKE, J. L. Travels in hypermodality. Visual Communication, 2002.

MURRAY, J. Hamelet no Holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. São Paulo: Itaú


Cultural: UNESP, 2003.

SANTAELLA, Lucia. Como eu ensino: leitura de imagens. Editora Melhoramentos, 2012.

ZILBERMAN, Regina. Como e por que ler literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva,
2005.

17/07 (TARDE)

A IN- FÂNCIA DA EXPERIÊNCIA DE LINGUAGEM NA LITERATURA

Maria José Palo

OS LIVROS NÃO FICCIONAIS POÉTICOS PARA A INFÂNCIA

Celia Abicalil Belmiro

LEITURA HÁPTICA: NOVOS ESTÍMULOS ÀS PERCEPÇÕES NO OBJETO LIVRO DE INFÂNCIA

Luis Carlos Girão

A NOVIDADE POR MEIO DA REPETIÇÃO: A CONSTRUÇÃO LITERÁRIA DA INFORMAÇÃO EM O


MATADOR, DE WANDER PIROLI E ODILLON MORAES

Mariane Rodrigues de Souza

18/07 (MANHÃ)

TENDÊNCIAS TEÓRICAS NAS DISCUSSÕES ACADÊMICAS SOBRE LITERATURA INFANTIL DIGITAL:


ALGUNS APONTAMENTOS
259
Ilsa do Carmo Vieira Goulart

MODOS DE LER, INTERAGIR E MEDIAR COM APLICATIVOS DE HISTÓRIAS PARA CRIANÇAS

Douglas Menegazzi

LITERATURA DIGITAL PARA INFÂNCIA: DESAFIOS ESTÉTICOS PARA MEDIADORES NA ESCOLA

Elizabeth Cardoso

A RECEPÇÃO DA LITERATURA ATRAVÉS DO SUPORTE IMPRESSO E DO DIGITAL: PROPOSTAS DE


APROXIMAÇÃO, COMPREENSÃO E PRAZER ESTÉTICO PARA AS CRIANÇAS

Valéria Rocha Aveiro do Carmo

18/07 (TARDE)

A METAFICÇÃO NA LITERATURA INFANTIL: UM CONVITE PARA A EXPERIÊNCIA LITERÁRIA

Marina Miranda Fiuza

BUMBA-MEU-BOI FAZ FESTA NAS ESTANTES: PRESENÇA DA TRADIÇÃO POPULAR


MARANHENSE NA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL BRASILEIRA

Mirian Santos Chagas de Souza

A FORMAÇÃO DA PERSONAGEM NA OBRA: A MENINA, O CORAÇÃO E A CASA DE MARIA


TERESA ANDRUETO

Kelly Cristina Fonseca

LITERATURA ILUSTRADA: O SILÊNCIO COMO ESPAÇO DE CONTEMPLAÇÃO E SIGNIFICAÇÃO

Lion Santiago Tosta

260
19/07 (MANHÃ)

A CONTRIBUIÇÃO DOS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DE C. S. LEWIS SOBRE A FORMAÇÃO DO


LEITOR LITERÁRIO PARA A LITERATURA INFANTIL E JUVENIL NA CONTEMPORANEIDADE

Cristiano Camilo Lopes

IDENTIDADES MIGRANTES: O DESLOCAMENTO DOS JOVENS PROTAGONISTAS EM DUAS


NARRATIVAS DE MARIA TERESA ANDRUETTO

Alex Bruno da Silva

O ROMANCE JUVENIL DECIFRANDO ÂNGELO DE LUÍS DILL: UMA CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE


NA AUSÊNCIA

Aline Barbosa de Almeida

A AUSÊNCIA NAS LEMBRANÇAS NA OBRA MENINA ESCREVENDO COM PAI, DE JOÃO


ANZANELLO CARRASCOZA

Livia Mandarino de Sousa

71 - O DIÁLOGO ENTRE O TEXTO LITERÁRIO/ARTÍSTICO E AS


TECNOLOGIAS DIGITAIS: FIANDO OS SENTIDOS NA SALA DE AULA
Coordenação: Profa. Dra. Edvânea Maria da Silva (IFPE); Prof. Dr. José Jacinto dos Santos Filho
(UPE); Prof. Dr. Márcio Ferreira da Silva (UFAL)

Resumo: A atualidade exige que o texto literário, em diálogo com as outras formas artísticas e
midiáticas, seja não só pensado a partir de suas interações, interconexões, inter-relações pelos
Estudos Literários, mas também compreendido como essa imbricação está sendo trabalhada
no ensino da literatura, considerando que cada relação literária estabelecida provoca um novo
sentido. Entende-se que o leitor lê signos e por estes interagem com o mundo ao seu redor,
estabelecendo conexões consigo mesmo e com o contexto sociocultural. Esta proposta
objetiva discutir o texto literário e as tecnologias digitais voltadas à formação do leitor literário
contemporâneo e, dessa maneira, acolhe propostas que analisam as diversas formas pelas
quais o texto literário se inter-relaciona nos processos intersemióticos, ou nos de
intermidialidades. Sébastien Joachim (2012) afirma que a tradução intersemiótica foi outrora
chamada por Etienne Souriau de Literatura e outras artes. É pertinente entender que a
tradução intersemiótica ou transmutação foi por Roman Jakobson (1970, p. 65-72) definida
como sendo aquele tipo de tradução que “consiste na interpretação dos signos verbais por
meio de sistemas de signos não verbais”, ou “de um sistema de signos para outros, por
261
exemplo, da arte verbal para a música, a dança, o cinema ou a pintura”, ou vice-versa, como
acrescenta Plaza (1987, p. XI). Pela relevância da temática, é ponto de discussão neste
simpósio o fazer literário e o uso desse tipo de texto em sala de aula, tendo em vista as
implicações dessa forma de tradução entre os signos verbais e os não verbais. O ensino de
literatura, nos dias atuais, tem exigido do professor um olhar mais atento sobre suas ações em
sala de aula com o texto literário e sobre a forma como esse texto está sendo intermediado e
veiculado pelos novos suportes tecnológicos para a formação do leitor, como destaca Cosson
(2014). Dialogar sobre o ensino de literatura é também refletir sobre as várias relações em que
o texto literário mantém com as artes e as novas tecnologias digitais, ou seja, é interligar um
diálogo crítico e epistemológico entre literatura, artes e tecnologia digital. Flávio Kothe (1981)
diz, por exemplo, que a tradição literária com seus gêneros literários já consagrados pode
servir de engrenagem satisfatória para a similitude do sistema literário, dessa forma, fornece
trilhas de estudos para a inserção dos gêneros literários nos espaços do cinema, da televisão,
nas páginas da internet, como os blogs e plataformas de compartilhamento como youtube,
facebook dentre outros. A literatura atua amplamente na formação do homem, como é
evidenciado por Candido (2012), porque cumpre uma finalidade – a de humanizar. Assim,
refletir sobre as inter-relações do texto literário com os demais sistemas de reprodução e de
veiculação da produção artístico-literária é compromisso de quem lida com a literatura de
forma humanizadora. Neste sentido, considera-se fundamental a compreensão das diversas
maneiras como o texto literário está sendo veiculado e como essa diversidade intertextual está
repercutindo na leitura e na formação do leitor. Ao refletir sobre intermidialidade, deve-se
considerar a transposição midiática, combinação de mídias e pensar as referências
intermidiáticas, como discute Rajewdky (2012). Outro aspecto que cabe neste simpósio são as
discussões sobre adaptação do texto literário para outros sistemas sígnicos adaptados para os
meios digitais e como isso contribui com a formação do leitor. Vale ressaltar que as ideias
sobre adaptação são compreendidas, de acordo com Linda Hutcheon (2011, p. 30), em síntese,
como “uma transposição declarada de uma ou mais obras reconhecíveis; um ato criativo e
interpretativo de apropriação/recuperação; um engajamento intertextual extensivo com a
obra adaptada”. Por essas ideias, faz-se necessário pensar como na sala de aula estão sendo
trabalhados os processos adaptativos do texto literário e como estão sendo discutidos com os
leitores. Entende-se leitura do texto literário, à luz de Larrosa (2003), como formação e a
formação como leitura. Essa compreensão de leitura está relacionada à subjetividade do leitor,
porque se deve “pensar a leitura como algo que nos forma (ou nos de-forma ou nos trans-
forma), como algo que nos constitui ou nos põe em questionamento com aquilo que somos”
(LARROSA, 2003, p. 25-26). Por essa razão, o trabalho com a literatura nos dias de hoje não
pode se furtar, pois, de uma reflexão de como a leitura de tal texto deve ser problematizada
no ensino da literatura, considerando as novas tecnologias digitais, as relações interartes, os
estudos de bases culturais e os sistemas semióticos envolvidos.

Referências:

CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. Remate de Males, Campinas, SP,


dez. 2012. Disponível em:
<[Link] Acesso em:
29 jan. 2019.

COSSON, Rildo. Círculo de leitura e letramento literário. São Paulo: Contexto, 2014.

262
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Florianópolis, SC: UFSC, 2011.

JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1970.

JOACHIM, Sébastien. Interdisciplinas: psicanálise, semiótica, literatura aplicada, literatura


comparada. Recife: UFPE, 2012.

KOTHE, Flávio. Literatura e sistemas intersemióticos. São Paulo: Cortez, 1981.

LARROSA, Jorge. La experiencia de la lectura: estúdios sobre literatura y formación. México:


FCE, 2003.

PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 1987.

RAJEWSKY, Irina O. Intermidialidade, intertextualidade e “remediação”: Uma perspectiva


literária sobre a intemidialidade. In: DINIZ, Thaïs Flores Nogueira. (Org.). Intermidialidade e
estudos interartes: desafios da arte contemporânea. Belo Horizonte: UFMG, 2012.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

A REESCRITA DA IMAGEM LITERÁRIA PELA IMAGEM FOTOGRÁFICA

José Jacinto dos Santos Filho

HISTÓRIA, E NARRATIVAS CONTEMPORÂNEAS: O JOGO INTERTEXTUAL E SUAS EFABULAÇÕES

Juliano de Almeida Pirajá

A FOTOGRAFIA COMO AÇÃO CRIATIVA E POLÍTICA DOS ALUNOS DO IFPE, CAMPUS RECIFE, NA
RESSIGNIFICAÇÃO DO ROMANCE “O CORTIÇO”, DE ALUÍSIO AZEVEDO: O CASO DE VILA DA
FÁBRICA

Edvânea Maria da Silva

LETRAMENTO LITERÁRIO, FENÔMENO “BOOKTUBE” E ALGUMAS POSSIBILIDADES DE


TRABALHO COM O ENSINO MÉDIO

Laura Assis

263
A FORMAÇÃO LITERÁRIA INFANTIL ATRAVÉS DA GAMIFICAÇÃO

Renata Andreolla

"FRANÇOISE" NO CONTO E NO CURTA-METRAGEM: VISÕES DISTÓPICA E REALIDADE ENTRE


LUIZ VILELA E RAFAEL CONDE

Márcio Ferreira da Silva

72 - O FANTÁSTICO NAS LITERATURAS ESTRANGEIRAS


Coordenação: Claudia Fernanda de Campos Mauro (Unesp-Araraquara); Fernanda Aquino
Sylvestre (UFU); Josilene Pinheiro-Mariz (UFCG)

Resumo: O simpósio em questão propõe uma reflexão em torno do processo de mobilização


do fantástico envolvido na composição de obras pertencentes a diversas literaturas
estrangeiras. Os trabalhos propostos deverão se concentrar na investigação de textos
narrativos ficcionais em que, de alguma forma, se dá o surgimento do insólito; devem
contemplar, portanto, a reflexão acerca do surgimento do elemento portador do sentimento
do incômodo, do inusitado, do inverossímil, do impossível, etc, ou seja, devem discutir em que
medida se dá a desestabilização do real. Na tradicional acepção de Todorov, o fantástico é um
gênero de certa forma instável, que se afirma por seu caráter de hesitação. De acordo com o
teórico, a hesitação se faz presente na narrativa, expressa por meio da voz da personagem
auto ou homodiegética, que leva o leitor também a um sentimento de hesitação. Para o
estudioso, o leitor é transportado para o fantástico, quando, em um mundo como o que
vivemos, ocorrem acontecimentos peculiares, como a presença de vampiros, demônios etc. O
que chama atenção na literatura fantástica é justamente o seu caráter ambíguo, tanto a crença
absoluta, quanto a total incredibilidade afastam o leitor do âmbito do fantástico, que ocorre,
então, na incerteza acima citada. O estranho, também para Todorov, estaria relacionado à
ocorrência de acontecimentos insólitos, chocantes, extraordinários que, embora provoquem
reações próximas às do âmbito do fantástico, podem ser explicadas pelas leis da razão. Além
do fantástico e do estranho, Todorov define, ainda, o maravilhoso, como aquele em que os
elementos sobrenaturais não provocam estranhamentos, sendo naturalmente aceitos pelo
leitor. É importante ressaltar que o enraizamento no cotidiano é fato obrigatório para a noção
de fantástico, pois só se considera algo insólito, quando ele é comparado com uma realidade
não-fantástica. Pode-se considerar, então, que a ficção fantástica é uma obra aberta, que
coloca em xeque a realidade, permitindo a efabulação do leitor pelas vias da imaginação. O
fantástico trabalha tensionando o natural e o sobrenatural, o possível e o impossível,
evidenciando a impossibilidade da linguagem em expressar o real. Ao tornar incompatível o
natural e o sobrenatural, a obra literária fantástica põe em relevo as fissuras do modelo
realista de representação. Para o teórico contemporâneo Roas (2014), é fundamental que seja

264
levado em conta o efeito provocado pelo fantástico: la transgressión que provoca lo
fantástico, la amenaza que supone per la estabilidade de nuestro mundo, genera
ineludiblemente una impresión terrorífica en los personajes como en lector. Vale considerar
que Roas sustenta a ideia de que a transgressão do fantástico provoca terror nos personagens
e no texto e, por terror, entende a ameaça à estabilidade do nosso mundo. Roas discute a
importância do leitor para a concretização do fantástico, ressaltando que o gênero só existe
com a participação do leitor, uma vez que cabe a ele o confronto entre a história narrada com
a realidade, considerando os contextos culturais envolvidos no processo de criação de obras
de caráter fantástico. Por isso, pode-se concluir que o fantástico depende sempre do que se
considera como real e este sempre depende do que se conhece. O estudioso italiano Remo
Ceserani (2006) aborda temas como a noite, a escuridão, o mundo obscuro e as almas de
outro mundo, a vida dos mortos, a loucura, o duplo, a aparição do estranho, do monstruoso,
do irreconhecível, as frustrações do amor romântico e o nada. De acordo com Ceserani, esses
temas permeiam e marcam a literatura fantástica como um modo literário. Nota-se que todos
esses temas levam o leitor ao campo do medo, da inquietação, já que suscitam algo de
desconhecido, incontrolável, obscuro, não explicado pelas leis da razão. Como se pode
observar, nessa breve exposição considerando alguns teóricos do fantástico, aqui entendido
como um gênero amplo, o termo apresenta diversas vertentes: maravilhoso, realismo mágico,
estranho, entre outros que não foram mencionados como o gótico, a ficção científica e a
fantasia. É importante lembrar que a mobilização do elemento fantástico/insólito podem se
dar através, especificamente, da personagem, do espaço, do tempo, da ação, etc ou por meio
articulação entre diferentes categorias narrativas. Assim, a proposta deste simpósio é acolher
comunicações que abordem o fantástico em suas diversas vertentes, tendo como corpus
narrativas de línguas estrangeiras ou de línguas estrangeiras comparadas com a literatura
brasileira.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

A SINGULARIDADE DOS ESCRITOS LITERÁRIOS DE RONALDO COSTA FERNANDES

Linda Maria de Jesus Bertolino

PIRANDELLO E O DIVINO SOPRO DA MORTE

Claudia Fernanda de Campos Mauro

O INSÓLITO EM A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA, DE UMBERTO ECO – O


FANTÁSTICO COMO MODO NARRATIVO

Deborah Garson Cabral

265
ENTRE A FÉ E A RAZÃO: O REALISMO MÁGICO EM “DOIS ANOS, OITO MESES E 28 NOITES”, DE
SALMAN RUSHDIE

Fernanda Aquino Sylvestre

NÃO ERA UMA VEZ: (SUB)VERSÕES DOS CONTOS DE FADA CLÁSSICOS EM SAGA ENCANTADAS
DE SARAH PINBOROUGH

Histávina Duarte Pereira

16/07 (TARDE)

O MEDO REVERSO DO OUTRO

Luiz Jorge Soares Guimarães

A LITERATURA FANTÁSTICA DE FRANZ XAVER VON SCHÖNWERTH

Maily Sacramento Guimarães

OS CONTOS FANTÁSTICOS DE GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER

Nathália Hernandes Bergantini

LA PIPE D’OPIUM’, DE THÉOPHILE GAUTHIER: SONHOS, MELANCOLIA E ALUCINAÇÕES NA


LITERATURA FANTÁSTICA NA FRANÇA DO SÉCULO XIX

Josilene Pinheiro-Mariz

73 - O GÓTICO ONTEM E HOJE: LIMITES E FRONTEIRAS


Coordenação: Prof. Dr. Alexander Meireles da Silva (UFG); Prof. Dra. Fabianna Simão Bellizzi
Carneiro (UFG); Prof. Dr. Júlio França (UERJ)

Resumo: 255 anos de publicação de O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, o


romance iniciador da vertente romanesca do Gótico. 255 anos de nascimento de Ann Radcliffe,

266
a mais importante representante do Gótico inglês no século dezoito. 210 anos de nascimento
de Edgar Allan Poe, crítico, poeta e contista renovador do Gótico nos Estados Unidos nas
primeiras décadas do século dezenove. 200 anos de “O Vampiro” (1819), de John William
Polidori, conto que introduz o personagem do vampiro na prosa. As diferentes efemérides
celebradas pela Literatura Gótica em 2019 relacionadas a eventos de mais de dois séculos
fomentam reflexões não apenas sobre o surgimento e desenvolvimento da tradição gótica,
mas também nos convida a indagar sobre o seu futuro. Afinal de contas, ao se pensar na
produção desta modalidade fantástica nos dias de hoje, quais são os rumos do Gótico hoje e
no futuro? Assim como os monstros que surgem e assombram sua narrativa como resultado
de ações e maldições de indivíduos para serem então combatidos, a Literatura Gótica é
marcada por fases em que ela ascende, como resposta a contextos histórico-culturais
específicos, se dissemina em formas variadas e parecer desaparecer em virtude do desgaste de
sua forma. Este ciclo tem início em 1764, com O Castelo de Otranto, estabelecendo um modelo
seguido por diferentes escritores e escritoras no que se refere ao espaço, linguagem, temas e
personagens explorados. Esta fase dura até fins do século dezoito quando a repercussão de O
monge (1796), de Matthew Gregory Lewis sinalizou o fim do gótico inglês de raízes
setecentistas abrindo caminho para as influências da Revolução Industrial e das teorias e
pesquisas científicas do século dezenove. Sob a sombra dos artistas românticos na Inglaterra e
nos Estados Unidos o Gótico se renova na forma tanto da criatura científica que ganha vida
pelas mãos de uma jovem rebelde quanto nos pesadelos vivos de viciados e loucos de um
escritor igualmente viciado e louco. Nesse meio tempo, o Gótico também se dilui para se
popularizar junto às camadas populares inglesas, atendendo aos anseios das massas por
histórias arrepiantes regadas a sangue e reviravoltas muitas vezes incoerentes. Esse foi o
período de reinado dos Penny Dreadfuls quando a violência de barbeiros serial killers descrita
em Sweeney Todd: O barbeiro demoníaco da Rua Fleet (1846-1847) se equiparava aos atos de
vampiros e lobisomens como em Varney, o vampiro (1845-1847) e Vagner, o Lobisomem
(1857). Todavia, com a aproximação do fim do século, o Gótico ressurgiu das sombras
fortalecido para abarcar as angustias e ansiedades do ambiente finissecular do Império
Britânico em uma Londres enegrecida pela fuligem das fábricas, temerosa das ameaças
externas e internas ao status quo e sacudida por posturas artísticas decadentes e teorias
científicas que discutiam o lugar divino do ser humano, a constituição da mulher e a função da
Arte. Atualizando temas e estruturas do Gótico setecentista, O estranho caso de Dr. Jekyll e
Mr. Hyde (1886), O retrato de Dorian Gray (1891) e Drácula (1897) o Gótico vitoriano mais uma
vez mostrou a relevância desta vertente do Fantástico como mediador cultural de seu tempo.
E no século vinte? Já no início do novo século o monstro gótico encontrou outro território para
assombrar: o Cinema. Foi na sala escura do Cinema que o Gótico encontrou terreno fértil para
estabelecer raízes, crescer e se disseminar até a década de sessenta, primeiramente dentro do
Expressionismo Alemão, na sequencia, na adaptação de obras da Literatura Gótica inglesa em
produções dos Estúdios Universal nos Estados Unidos e da Hammer Film Productions na
Inglaterra, além de filmes inspirados nos contos de Edgar Allan Poe de diretores como Roger
Corman. Foi a partir da década de setenta, porém, a partir da contemplação de questões
trazidas a tona pelos movimentos ligados a Contracultura e da emergente cultura da
Informática que o Gótico passou a estar, como salienta Fred Botting em Gothic (1996) “em
todos os lugares e em lugar nenhum”. Assim, retornamos a questão inicialmente colocada:
Quais são os rumos do Gótico hoje e no futuro? É a partir do contínuo reinventar-se desta
vertente do modo fantástico que este simpósio acolherá comunicações de pesquisadores e
pesquisadoras que abordem a mutabilidade, adaptabilidade e disseminação do Gótico na
Literatura e no Cinema no que se referem a temas, convenções ou estruturas narrativas.

267
PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

Sessão 1: O gótico: questões teóricas

NAS SOMBRAS DO FANTÁSTICO: O LUGAR DA FICÇÃO WEIRD

Alexander Meireles da Silva

GÓTICO FEMININO VERSUS GÓTICO MASCULINO: UMA ANÁLISE DAS VERTENTES GÓTICAS
SETECENTISTAS

Ana Paula Araujo dos Santos

SENTIMENTOS NEGATIVOS E A COMPOSIÇÃO DA EMPATIA NARRATIVA: UMA ANÁLISE DE "O


RESTO É SILÊNCIO" (1943), DE ERICO VERÍSSIMO

Marina Sena

O DUPLO E SUAS CONSEQUÊNCIAS NA LITERATURA E NA CONTEMPORANEIDADE

Victoria Barros Moura

16/07 (TARDE)

Sessão 2: O gótico no Brasil

A TEORIA PÓS-COLONIALISTA E O GÓTICO SERTANISTA NA ESCRITA DE HUGO DE CARVALHO


RAMOS

Fabianna Simão Bellizzi Carneiro

“VEREDAS TORTAS, VEREDAS MORTAS”: OS MUITOS MEDOS DE RIOBALDO

Julio França
268
O GÓTICO URBANO NOS CONTOS INÉDITOS DE LÚCIO CARDOSO

Laís da Conceição Santos Belarmino

VERTENTES DO GÓTICO EM CONTOS DE LYGIA FAGUNDES TELLES

Marcelle Ferreira de Siqueira

17/07 (MANHÃ)

Sessão 3: O gótico nos EUA

ROSE HATHAWAY: A SUBVERSÃO E CONFIGURAÇÃO DA DHAMPIRA NA OBRA O BEIJO DAS


SOMBRAS

Luciana Soares dos Santos

A LITERATURA GÓTICA E A OBRA ’SALEM DE STEPHEN KING

Patricia Hradec

“THE DEVIL IN THE BELFRY, AN EXTRAVAGANZA”, DE EDGAR ALLAN POE: O GÓTICO CÔMICO

Renata Philippov

THE HAUNTING OF HILL HOUSE: OS ESPAÇOS GÓTICOS E O "INFAMILIAR" DE FREUD COMO


AGENTES DO ASSOMBRO NA NARRATIVA DE SHIRLEY JACKSON

Oscar Andrade Lourencao Nestarez e Nathalia Xavier Thomaz

17/07 (TARDE)

Sessão 4: O gótico em outros gêneros e outras mídias

269
PRÁTICA DO ESTRANHAMENTO: A DISTOPIA GÓTICA DE “THE FLUTED GIRL”

Andre Cabral de Almeida Cardoso

FORMAS E FUNÇÕES DO GROTESCO NA NARRATIVA DECADENTE

Daniel Augusto Pereira Silva

DE OLHOS BEM FECHADOS: A PRESENÇA DO GÓTICO NO FILME DE STANLEY KUBRICK

Gabriela Spinola Silva

74 - O GÓTICO, O FANTÁSTICO E A FICÇÃO CIENTÍFICA: O REAL E O


FICCIONAL NAS TRAMAS DO DISCURSO
Coordenação: Profa. Dra. Naiara Sales Araújo (Universidade Federal do Maranhão); Prof. Dr.
Gonzalo Ignacio Portals Zubiate (Ucsur- PERU)

Resumo: O Gótico, o Fantástico e a Ficção Científica são estilos que estabelecem profundo
diálogo, principalmente no tocante à estética, e aproximações temáticas. Apesar de se
tratarem de gêneros consolidados por determinada crítica literária, o Gótico e o Fantástico
foram relegados a uma literatura de baixo valor acadêmico, principalmente por conta do
conteúdo temático e por serem dependentes de outras formas, como o romantismo, por
exemplo, mas não alcançarem um determinado patamar. A Ficção Científica também ocupara
lugar desprivilegiado em tais discussões, tendo em vista a característica de literatura
especulativa que carregara durante muito tempo. O Grupo de Estudos em Ficção Científica e
Gêneros Pós-modernos na Era digital, – FICÇA – da Universidade Federal do Maranhão, tem se
debruçado em estudos, pesquisas e produções que resgatem textos que nos levem a esta
reflexão e sempre em diálogo com outras áreas do conhecimento e outras formas de
expressão artística. Por isso, este simpósio tem como objetivo discutir e analisar as mais
variadas relações entre literatura e outras artes no tocante às figurações do fantástico, do
gótico e da ficção científica. Com o intuito de analisarmos diferentes modalidades de discurso,
daremos espaço tanto ao discurso Literário quanto ao discurso cinematográfico e seus
múltiplos elementos de construção de sentido. Aqui será enfatizado, dentre outros aspectos, o
dialogo entre as literaturas brasileira e euroamericana no tocante às temáticas do Fantástico,
do Gótico e sua interface com a Ficção científica. Tendo em vista a emergência de uma estética
denominada afrofuturista, este simpósio também se abre para receber trabalhos que se
interessam por este gênero que valoriza elementos tradicionais com futurístico e se baseiam
na perspectiva do realismo mágico em estreita relação com a Ficção Científica. Atencão
especial será dada às figurações ficcionais do insólito Brasileiro por se tratar de um terreno
ainda pouco explorado no universo da crítica literária, como já falado. Do universo da
Literatura Euroamericana, contemplaremos obras de José Saramado, Horace Walpole, Michael
Ende, Edgar Allan Poe e Toni Morrisson, Philip K, Dick, Isaac Asimov, dentre outros. Para o
270
afrofuturismo, obras como a de Lesley Nneka Arimah, nascida no Reino Unido, mas de vivência
Nigeriana, é a nossa principal referências literárias. Para a construção do suporte teórico dos
trabalhos aqui debatidos traremos à baila as ideias de Tzvetan Todorov, H.P. Lovecraft, Irlemar
Chiampi, Joseph Campbell, Adam Robert, Paul Alkon, Darko Suvin , Homi Bhabha e Stuart Hall
entre outros. Nossa análise comparativa e crítica lançará mão de discussões já existentes em
âmbito nacional e internacional no tocante ao conceito de Literatura Fantástica, Literatura
Gótica e Literatura de Ficção Científica, além de outros gêneros relacionados a estes focando
nas relações entre as figurações e as representações do real ou ficcional, bem como nas
discussões em torno do conceito de Ficção Científica e seus subgêneros, sempre levando em
consideração fatores históricos, sociais e culturais que impulsionam a criação artístico-literária.
Percebe-se, principalmente com a Ficção Científica, que a forma de pensar/ver o futuro tem
relações profundas com a percepção que o indivíduo tem do presente, colocando os nossos
autores como agentes importantes na circulação de uma crítica contundente da realidade. A
compreensão de um texto com tal estilo e carregado de temas relevantes sobre a vivência do
homem em sociedade e as profundas consequências dessa relação, depende dos sentidos
apreendidos pelo leitor/espectador nas tramas das produções. A literatura fomenta discussões
que ultrapassam o tempo e o espaço, por isso, tais discussões podem ser conduzidas pelo viés
da memória e da importância de se recorrer ao passado para explicar fenômenos do presente
numa perspectiva futura. A Ficção Científica, e a ficção de uma maneira geral, nos permite
perceber o tempo numa profunda relação dialógica, rompendo barreiras tais como o que foi, o
que é e o que será.

Palavras Chave: Gótico; fantástico; Ficção Científica

Referências:

CALENTI, C.; WOMACK, Y.; ESHUN, K.; CLARK, A.; FREITAS, Kenia Cardoso Vilaca de (Orgs.).
Afrofuturismo: cinema e musica em uma diaspora intergalactica. Disponivel em:
<[Link] br/Afrofuturismo_catalogo.pdf>. Acesso em: 5 jul.
2016.

CAMARANI, Ana Luiza Silva. A Literatura fantástica: caminhos teóricos. São


Paulo, SP: Cultura Acadêmica, 2014.
CAMPRA, Rosalba. Territórios da ficção fantástica. Rio de Janeiro Dialogarts
Publicações, 2016.
CAUSO, Roberto de Sousa. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a
1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
GARCÍA, Flavio; FRANÇA, Júlio; PINTO, Marcello de Oliveira (orgs.). As Arquiteturas do medo e
o insólito ficcional. Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2013.

LOVECRAFT, H.P. O Horror sobrenatural em literatura. Trad. Celso M.


Paciornick. São Paulo: Iluminuras, 2007.
MACHADO DE ASSIS. A outra vida. In.: BATALHA, Maria Cristina (org.). O
fantástico brasileiro: contos esquecidos. Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2011.

PROGRAMAÇÃO

271
18/07 (MANHÃ)

A RELAÇÃO ENTRE A PROTOFICÇÃO CIENTÍFICA E O FANTÁSTICO NA LITERATURA BRASILEIRA:


UMA ANÁLISE DE “A SOMBRA” (1926) DE COELHO NETO

Thalita Ruth Sousa

TECNOFOBIA E FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA: O "COMPLEXO DE FRANKENSTEIN" NO CONTO


"ASCENSÃO E QUEDA DE ROBHÉA, MANEQUIM & ROBÔ" DE CAIO FERNANDO ABREU

Jucélia de Oliveira Martins

NOSTALGIA E MEMÓRIA NO AFROFUTURISMO NA SÉRIE BROKEN EARTH, DE N. K. JEMISIN

Amanda Pavani Fernandes

18/07 (TARDE)

DUPLO E O FANTÁSTICO EM UMA LITERATURA COMPARADA EM MACHADO DE ASSIS E EDGAR


ALLAN POE

Maylah Longo Gonçalves Menezes Esteves

FICÇÃO CIENTÍFICA POR MULHERES NEGRAS: OBRAS DE OCTAVIA BUTLER E NALO HOPKINSON

Fernanda Sousa Carvalho

A MULHER MAIS BELA DO MUNDO: ALTERIDADE E FICÇÃO CIENTÍFICA

Vítor Castelões Gama

ASILO NAS TORRES: FIGURAÇÕES FEMININAS E O REGIME MILITAR

Naiara Sales Araújo

272
75 - O LUGAR DO OUTRO: REFLEXÕES SOBRE REPRESENTAÇÕES DA
ALTERIDADE
Coordenação: Profa. Dra. Rafaella Cristina Alves Teotônio (UFPE); Prof. Dr. Tiago Barbosa da
Silva (IFS)

Resumo: A ideia de lugar, parte do espaço com a qual se forma uma relação histórica,
relacional e identitária (AUGÉ, 2012), tem se diluído em razão do trânsito e do movimento,
característico das sociedades modernas, realizando-se sobremaneira enquanto ficção, já que
seus elementos básicos residem na crença no isolamento, perpassada, quase sempre, pela
ideia de cultura no singular ou específica de um meio, como diria Michel de Certeau (2012),
em seu A Cultura no Plural. Diante dessa realidade, o lugar do outro na representação literária
é quase sempre uma criação do sujeito-autor, encapsulando, de certa forma, um esforço de
leitura, uma tentativa de ver o outro, de ver o mundo, num diálogo que projeta, no sujeito
observado, em seu lugar, valores e visões que não correspondem, exatamente, a realidade
representada. A partir de Santos (2013, p. 636), pode-se dizer que, através das representações
do lugar do outro, o autor pode impor uma visão que concorre "para a produção e reprodução
de uma modalidade de violência simbólica," através da qual se naturaliza condições de
subordinação. Esse processo acontece através de palavras e expressões aparentemente
inofensivas que, normalmente, "utilizamos para pensar o mundo, mas sobre as quais não
pensamos" (ibid.), determinando uma posição para nós mesmos e também para o outro. Logo,
a diferença que se estabelece entre a posição de observador e a posição do observado, oculta
um mecanismo que, mesmo inconsciente, hierarquiza saberes e modos de viver, sobretudo se
considerarmos o lugar do enunciador nessa relação. Ainda segundo Santos (2013, p. 638), essa
estratégia rende-se àquilo que caracteriza a história da ocidentalização do mundo, na qual se
cria "uma 'estrutura de sentimentos,' impregnando de tal forma e com tal força nossa visão de
mundo que a tarefa de superação parece impossível." Essa verticalização dos sujeitos e de suas
práticas faz parte da conversão do espaço em lugar, revelando um processo que, mesmo
reprodutor de injustiças, participa ativamente da ordenação do que é visto, atribuindo
posições para as pessoas, construindo os lugares nos quais nos situamos e onde situamos o
outro. Trata-se de pensar, na esteira do que elaborou Mikhail Bakhtin (2011), acerca do termo
exotopia, que significa “olhar para fora de si". Para Bakhtin, no processo de criação da obra
literária o autor participa de um movimento de troca de olhares, nas quais as imagens do eu e
do outro se conectam. Em seus estudos, o teórico russo propôs-se pensar a relação do autor
com a personagem na mesma dimensão eu-tu. Ao criar um personagem, movido de sua
experiência singular diante do mundo, o autor busca, a partir da alteridade, revesti-lo de
“carne” externa. Para isso, precisa extrair de sua experiência enquanto pessoa, de seu olhar
para o outro, o sentido que resulta no acabamento de sua criação estética. Compreender,
identificar-se com o outro e produzir na conexão entre o lugar que ocupa o sujeito e o lugar
que ocupa o outro um espaço de sentido excedente. É sobre este sentido excedente, capaz de
cristalizar as imagens dos sujeitos no mundo da escrita, produzindo os saberes localizados
(HARAWAY, 1995) e visões sobre diversos grupos sociais que pretendemos analisar e discutir
neste simpósio. Como o outro, diferente de nós, do nosso lugar/espaço e, portanto, com um
lugar/espaço diferente é representado na literatura? Como o eu escreve o lugar/espaço do
outro ou como o outro, enquanto um eu, escreve o seu lugar/espaço na literatura do outro?
273
Em outras palavras, gostaríamos de discutir sobre as relações de alteridade na escrita literária.
Para isso, aceitamos trabalhos que analisem as relações entre autor, representações e
personagens, assim como os que discutam o lugar do outro-marginalizado/outro-diferente na
escrita do eu-hegemônico ou como o outro-não-hegemônico escreve na língua/literatura que
“não é sua” (DERRIDA, 1996). Deste modo propomos uma discussão sobre representações
literárias do lugar do outro, que viabilizem uma reflexão sobre o papel da literatura na
construção da realidade e das hierarquias sociais, descortinando aquilo que Édouard Glissant
(2005), em seu Introdução a uma Poética da Diversidade, chama de “drama da relação”, ou
do encontro-choque entre diferentes.

Palavras-chave: Lugar. Espaço. Alteridade. Representação. Exotopia.

Referências:

AUGÉ, M. Não Lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução de


Maria Lúcia Pereira. 9 ed. Campinas: Papirus, 2012.

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. Estética da Criação Verbal. Prefácio a edição francesa Tztevan
Todorov; introdução e tradução do russo Paulo Bezerra. São Paulo: Editora WMF Martins
Fontes, 2011.

CERTEAU, M. A Cultura no Plural. Tradução de Enid Abreu Dobránszky. 7 ed. Campinas:


Papirus, 2012.

DERRIDA, Jacques. O monolinguismo do outro: ou a prótese de origem Porto: Campo das


Letras, 1996.

GLISSANT, É. Introdução a uma Poética da Diversidade. Tradução de Enilce Albergaria Rocha.


Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2005.

HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da


perspectiva parcial. Tradução de Mariza Corrêia. In: Cadernos Pagu (5). 1995, p. 07-41.

SANTOS, R. J. O 'Étnico' e o 'Exótico': Notas Sobre a Representação Ocidental da Alteridade. In:


Revista Rosa dos Ventos, pp. 635-643, out-dez, 2013.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (Manhã)

O BRASIL EM ELIZABETH BISHOP: REPRESENTAÇÕES DA TERRA DE MACUNAÍMA

Tiago Barbosa da Silva

274
O LUGAR DO OUTRO NO DESENVOLVIMENTO DAS PERSONAGENS EM ROMANCES DE
FORMAÇÃO SOB A PERSPECTIVA BAKHTINIANA

Anne Caroline de Morais Santos

A CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS NEGRAS NA LITERATURA TRANSATLÂNTICA DO INÍCIO DO


SÉCULO XIX

Ligia Cristina Machado

A REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA DO NATIVO DO NOVO MUNDO

Juliana Almeida Salles

DORZINHA ENJOADA, ANZOL NA PONTA: A DOENÇA ‘DO OUTRO’ NA FICÇÃO BRASILEIRA


CONTEMPORÂNEA

Juliana Krapp Guimarães

16/07 (Tarde)

PORTUGAL E O DESEJO DO OUTRO: OS DEVIRES-OUTROS NA ESCRITA DE VALTER HUGO MÃE

Rafaella Cristina Alves Teotônio

O “SUL MAGNÉTICO” E A HABITAÇÃO DOS CORPOS MÓVEIS DE PAISAGENS EM DESMEDIDA E


AS PAISAGENS PROPÍCIAS, DE RUY DUARTE DE CARVALHO

Juliana Campos Alvernaz

O “OUTRO” ORIENTAL NA LITERATURA PORTUGUESA OITOCENTISTA: PINHEIRO CHAGAS,


CAMILO CASTELO BRANCO E EÇA DE QUEIRÓS

José Carvalho Vanzelli

KAMEL DAOUD, ALBERT CAMUS E A RESSIGNIFICAÇÃO DAS IDENTIDADES ÁRABES NA FICÇÃO


ARGELINA CONTEMPORÂNEA

Ariane da Mota Cavalcanti

275
A SOMBRA E SEU CONTRÁRIO: AS IDENTIDADES E SUAS VERSÕES

Célia Aparecida Ribeiro Rodrigues

17/07 (Manhã)

A EXPERIÊNCIA DE SE COLOCAR NO LUGAR DO OUTRO: REFLEXÕES SOBRE A REPRESENTAÇÃO


DA ALTERIDADE NA LITERATURA E NO CINEMA

Antonio Gerson Bezerra de Medeiros

A OBRA LITERÁRIA E CINEMATOGRÁFICA DE CÉSAR GONZÁLEZ: PROBLEMATIZAÇÃO DA


REPRESENTAÇÃO DA ALTERIDADE

Fabiana Oliveira de Souza

A REPRESENTAÇÃO DA ALTERIDADE NA LITERATURA SURDA: A AMBIVALÊNCIA E A CONDIÇÃO


DO ESTRANHO NA PÓS-MODERNIDADE

Themis Farias de França Desiderio

ITALO CALVINO E A NATUREZA: UMA QUESTÃO DE ALTERIDADE ANTROPOLÓGICA

Priscila Linhares Velloni

76 - O REALISMO ARTÍSTICO E A CRÍTICA LITERÁRIA DIALÉTICA


Coordenação: Prof. Dr. Juan Pedro Rojas (UnB); Prof. Dr. Edvaldo Aparecido Bérgamo (UnB)

Resumo: Este Simpósio, intitulado O realismo artístico e a crítica literária dialética tem por
objetivo debater a relação entre literatura e vida social, especialmente a articulação entre a
experiência do capitalismo periférico e a discussão sobre o realismo artístico em suas relações
dialéticas. O conceito de realismo artístico foi desenvolvido desde a perspectiva dos estudos
literários por George Lukács, e possivelmente um dos aspectos mais fecundos desta teoria
se encontre em suas observações a propósito das consequências estéticas do desenvolvimento
do capitalismo ocidental.

276
É importante ressaltar que o conceito de realismo é entendido não como uma periodização
literária, mas como categoria estética com dimensão ontológica, como parte essencial da
formação do homem como ser social. Trata-se, então, de debater as relações entre a vida
social e a forma literária de forma dialética.

De acordo com Lukács, o conhecimento da estrutura profunda e do dinamismo histórico da


sociedade só pode ser alcançado, em aproximações cada vez mais amplas, por meio do
trabalho conceitual, ao passo que a obra literária, não podendo expor abstratamente a
“essência” da sociedade, vale-se de meios próprios para figurá-la. Por isso, o realismo exige
uma figuração rica e complexa do homem nas circunstâncias sociais de sua concretude.

O espaço do simpósio se oferece portanto como uma instancia onde problematizar estas
questões que tem a ver com a realização da arte literária, como forma estética que
proporciona apreender a conexão entre a sociedade , de um lado, com sua complexidade
histórica, e a obra de arte , por outo , com sua complexidade estética. Busca-se então debater
como a forma artística, é capaz de, enquanto forma estética, tornar-se conhecimento de uma
realidade desigual, devolvendo ao homem a possibilidade de enfrentar os limites impostos
pela desumanização em um mundo que se mostra hostil à arte, às relações humanizadas e à
emancipação do gênero humano.

A desumanização na vida cotidiana e na produção literária é produto da processo de


dominação próprio das sociedades modernas . O inumano é uma relação entre seres humanos
que não são conscientes de sua própria natureza. Esta compreensão da inumanidade e a tarefa
humanizadora da arte é um dos objetivos fundamentais da proposta crítica dialética de
autores como Lukács, Adorno, Benjamin, Antonio Cândido , Roberto Schwarz entre outros. Eles
abriram um espaço importante dentro dos estudos literários. Uma das consequências que esta
constelação de estudos nos revela é que a vida falsa, desumanizada própria da modernidade
introduz um estranhamento nas relações humanas , evita a oposição ao sistema e reforça a
aceitação do mundo injusto.

Outras das consequências desta relação complexa entre arte e sociedade é a “hostilidade do
capitalismo ao nascimento de uma verdadeira cultura”. Ao ser a arte o autorreconhecimento
genérico dos indivíduos, e ter uma relação estreita e crítica com a vida social, o mundo
burguês o hostiliza. A vida burguesa se caracteriza pela repetição regular, sistemática, pela
rotina do cumprimento do dever, por aquilo que tem de ser feito sem consideração ao prazer
ou desprazer. Em outras palavras: o domínio da ordem sobre o estado de alma, do
permanente sobre o momentâneo, do trabalho pacato sobre a genialidade movida a
sensações.. A partir dessa compreensão fenomenológica da existência burguesa estabeleceu-
se uma contradição entre essa existência e a arte que passa a ser vista como o lugar da vida
verdadeira. A dificuldade em conciliar a ordenação do mundo burguês com a arte, culmina no
ideal da autonomia da arte frente à realidade objetiva, a arte pela arte. Esta problemática se
transformou em outra linha de estudos críticos do realismo.

Nesse sentido, este Simpósio propõe congregar trabalhos que abordem estudos teóricos e
críticos de autores diversos da literatura ocidental , seja em análises críticas de obras em
particular ou de proposições de comparação entre autores de línguas diversas, tendo como
chave metodológica o conceito de realismo. Assim, dentro desse escopo, esperam-se trabalhos
que: 1) contemplem leituras teóricas ou críticas de autores da literatura ocidental; 2) abordem,
de forma comparada, textos em diversas línguas, especialmente no âmbito da América Latina.
Considera-se, portanto, a complexidade e premência deste tema para a atualidade, e, por isso,

277
pretende-se um debate sobre a literatura produzida em regiões periféricas em relação à
atualidade do conceito de realismo como chave crítica, a fim de compreender a relação
sempre dinâmica e dialética entre a realidade social e as formas artísticas.

Referencias

BENJAMIN, W. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: BENJAMIN, W.


Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1987.

LUKÁCS, Georg. Estética. La peculiaridade do estético. 4 volumes. Tradução de Manuel


Sacristán. Barcelona/México: Grijalbo, 1972.

ADORNO, Theodor. "Lírica e sociedade". Em: Benjamin, Walter et alii. Textos escolhidos. São
Paulo: Abril Cultural, 1983: 194.

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. 7. ed. Belo Horizonte-Rio de Janeiro:


Editora Itatiaia, 1993.

SCHWARZ , Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo:


Duas Cidades, 1990.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

COLONIALIDADE, MITO E HISTÓRIA EM HOMBRES DE MAIZ, DE MIGUEL ÁNGEL ASTURIAS

Antonio Cezar Nascimento de Brito

A ASCENSÃO DO ROMANCE NO CENTRO-OESTE DO BRASIL: O CASO GOIANO.

Atila Silva Arruda Teixeira

O TRIUNFO DO ROMANCE NO PENSAMENTO CRÍTICO DE ANTONIO CANDIDO E DE ÁNGEL


RAMA

Edvaldo A. Bergamo

A FORMAÇÃO DO IMAGINÁRIO SOCIAL DO BRASIL E O PROTAGONISMO DO ROMANCE


INDIANISTA DE JOSÉ DE ALENCAR

Felipe Vigneron Azevedo

278
DO HERDEIRO À NAÇÃO: A FIGURAÇÃO ARTÍSTICA DA DECADÊNCIA BURGUESA NOS
ROMANCES O NOME DO BISPO, DE ZULMIRA RIBEIRO TAVARES, E LEITE DERRAMADO, DE
CHICO BUARQUE

Flávia Cristina de Araújo Guedes

16/07 (TARDE)

A PARÓDIA E O REALISMO - ARTIMANHAS DE UMA CONSTRUÇÃO ATRAVÉS DO GÓTICO


SULISTA E DE WILLIAM FAULKNER

Heitor Fontes de Menezes Bastos

O ROMANCE DE 30 E O ROMANCE HISTÓRICO: NOTAS SOBRE REVISIONISMO HISTÓRICO VIA


NARRATIVAS DE FICÇÃO

João Paulo Ferreira dos Santos

UMA QUESTÃO DE EMANCIPAÇÃO EM OS DRAGÕES DE MURILO RUBIÃO

Juan Pedro Rojas

O ÍNDIO MUDOU? – UMA ANÁLISE DO ROMANCE HISTÓRICO "O

FEITIÇO DA ILHA DO PAVÃO", DE JOÃO UBALDO RIBEIRO

Marcos Vinicius Caetano Da Silva

MELANCOLIA, NOSTALGIA, RESIGNAÇÃO: COMENTÁRIO SOBRE O ESTILO DE GEORG LUKÁCS


EM A TEORIA DO ROMANCE

Maria Elisa Perez Pagan

17/07 (MANHÃ)

279
NOTAÇÃO REALISTA E REINVENÇÃO DO ROMANCE EM MACHADO

DE ASSIS E GUSTAVE FLAUBERT

Natasha Belfort Palmeira

AMOR E REVOLUÇÃO EM OLGA, DE FERNANDO MORAIS, E O PLANALTO E A ESTEPE, DE


PEPETELA

Rafael Teixeira de Souza

TEXTOS, TECIDOS: O CAMPO SEMÂNTICO FASHION NO REALISMO DE GOTTFRIED KELLER E NA


PROSA CONTEMPORÂNEA DE ELFRIEDE JELINEK

Rafael Vieira Sens

"PEDAÇOS VIVOS DESSE MUNDO": ESTEREÓTIPO E EXOTISMO EM LUANDA, BEIRA, BAHIA

Rosa Alda Souza de Oliveira

O PENSAMENTO ENSAÍSTICO NA PROSA DE BERTOLT BRECHT A PARTIR DA LEITURA DE


"HISTÓRIAS DO SR. KEUNER"

Thaís Aparecida Domenes

77 - O RIGOROSO ENLACE DA URDIDURA: DO SENTIDO POLÍTICO NA


TRAMA OSMANIANA
Coordenação: Profª Drª Elizabeth Hazin (UnB); Profª Drª Maria Aracy Bonfim (UFMA)

Resumo: Este Simpósio se origina de anotações de leitura das últimas três obras do escritor
pernambucano Osman Lins (1924-1978): Nove, novena (1966), Avalovara (1973) e A rainha
dos cárceres da Grécia (1976), empreendida pelas pesquisadoras. A partir da consciência de
que tais livros representavam uma profunda mudança no percurso escritural de Osman Lins,
destacaram-se alguns de seus aspectos formais como algo a ser aprofundado em investigação
futura, e um deles cresceu em importância à medida que o tempo foi passando: a questão do
sentido político enredado na trama em que está imersa cada uma dessas obras e a que ele
adere tão sutil e perfeitamente que já não é possível encará-lo senão como algo que instiga a
reflexão sobre a relação entre forma e conteúdo, entre literatura e sociedade, entre real e

280
ficção. No capítulo intitulado “O escritor e a sociedade”, o último do ensaio Guerra sem
testemunhas: o escritor, sua condição e a realidade social, Osman Lins deixa clara sua posição:
“O escritor não pode pretender abalar com os seus escritos as sólidas posições da insensatez,
da força, da maldade – mas também não pode ignorá-las; não pode submeter sua obra às
injunções do tempo – mas também não pode tender a agir como um ser fora do tempo. (...)
Não é mais possível, em nossa época, a um homem de instrução mediana, ignorar o conflito
básico com que nos defrontamos, a insurreição dos ofendidos contra os ofensores. (...) Assim,
não apenas o escritor, mas qualquer homem que, tendo consciência desses problemas, ou dos
problemas que com estes se relacionam, age como se os desconhecesse, é um traidor do seu
semelhante, quando não de si mesmo”. Tal posição é corroborada pelas palavras do pintor
catalão Antoni Tàpies em seu livro A prática da arte: “Tenho dificuldade em compreender o
ato de criação se não fizer depender tudo de uma atitude pessoalíssima e muito circunstancial,
tanto temporalmente como geográfica e culturalmente. Nunca consegui imaginar o artista a
trabalhar sub specie aeternitatis, desenvolvendo um conceito de Belo como valor imutável, tal
como não o consigo ver submetido a um programa ou ideologia que não responda a
circunstâncias, a fatos reais, que ele, como pensador independente, terá precisamente de
contribuir para desvendar”. O Simpósio aqui proposto pretende trazer à luz esse matiz de
Osman Lins, na tentativa de decifrá-lo: entender de que modo essa preocupação existe e e em
que medida participa de seu texto. Alguém que enxerga no ato de escrever uma espécie de
missão deve forçosamente trazer em seu discurso uma cor política.

Assim, esse Simpósio tem como finalidade receber trabalhos que enfoquem não apenas os três
livros anteriormente mencionados, mas tudo o que Lins produziu, aí incluídos também seus
primeiros livros, seus ensaios, artigos de jornais, seus depoimentos em entrevistas concedidas
a jornais e periódicos, o material contido em seu arquivo (como manuscritos e
correspondência com escritores e amigos), sua tese de doutorado. Serão bem-vindos trabalhos
que atestem de que modo e com que intensidade o sentido político expresso nos textos desse
autor é capaz de provocar o leitor; de como esse sentido está entranhado ou não na forma
artística ou no seu conteúdo; de que maneira suas experiências e leituras, bem como os
acontecimentos de sua época, forjaram seu discurso ficcional e não-ficcional. Por fim,
trabalhos que mostrem o percurso do pensamento político osmaniano em torno de sua
preocupação com a formação do hábito de leitura, levando-se em consideração fato concreto
que o motivava a escrever - a necessidade premente de fazer o brasileiro tornar-se um
verdadeiro leitor, pois afinal – segundo as palavras, ainda uma vez, de Antoni Tàpies em seu
livro já citado: “(...) a configuração da expressão artística está intimamente ligada ao problema
da liberdade da ‘sua’ leitura: ao fato de simplesmente se permitir que as pessoas possam ler.
Faz parte, por isso, do problema mais geral da alfabetização do país, da necessidade de
continuar a lutar, num nível diferente, contra aquilo que mantém o atraso de toda uma política
cultural, em suma, da política”. Para a consecução dos trabalhos, podem ser tomados como
referenciais teóricos os seguintes textos: 1) o de Hayden White intitulado El contenido de la
forma: narrativa, discurso y representación histórica (Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica S.A,
1. edición ,1992); Os problemas da estética, de Luigi Pareyson (São Paulo: Martins Fontes,
1997); A revolução da arte moderna, de Hans Sedlmayr (Lisboa: Livros do Brasil, s/d); A
necessidade da arte, de Ernst Fischer (Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983). Os dois últimos
foram extremamente lidos e citados por Osman Lins em seus ensaios e ajudará por certo na
compreensão do quanto as leituras desse autor entraram em seu bem urdido tecido ficcional.

PROGRAMAÇÃO
281
16/07 (TARDE)

DIÁLOGO REAL, TRAMA FICCIONAL: A DITADURA NA OBRA DE OSMAN LINS

Sandra Margarida Nitrini

OSMAN LINS: O LIVRO COMO SUJEITO DA AÇÃO POLÍTICA

Cacilda Bonfim

NOVE, NOVENA, NAÇÃO

Andrea dos Reis Collaço

OS MANSOS CONDENADOS DA TERRA: O ONÍRICO COMO ELEMENTO CONTESTADOR DA


RELAÇÃO DOMINADOR-DOMINADO EM "CONTO BARROCO OU UNIDADE TRIPARTITE" DE
OSMAN LINS

Fernando Antônio Dusi Rocha

17/07 (TARDE)

UMA PERCEPÇÃO OSMANIANA DE ESCRITURA E POLÍTICA

Odalice de Castro Silva

OSMAN LINS: A ARTE DO TRADUTOR E A POLÍTICA DA TRADUÇÃO

Cacio José Ferreira

OSMAN LINS E O KEROTAKIS ALQUÍMICO: O TRATO INCESSANTE DA LINGUAGEM

Maria Aracy Bonfim

282
DE CADA LIMITAÇÃO, UM APRENDIZADO: O BRASIL AOS OLHOS DE OSMAN LINS

Francismar Ramirez

18/07 (TARDE)

OS (DES)LIMITES DO SEXO E DA MEMÓRIA: OS SENTIDOS DO CORPO POLÍTICO E COLETIVO NA


ESCRITA DE OSMAN LINS

Raul Gomes da Silva

A ATIVIDADE DE ESCREVER E A DE INCENDIAR CONSCIÊNCIAS: O ESCRITOR E FRANCISCO


JULIÃO, EM AVALOVARA

Ricardo Andrade

A DUPLA FACE DAS ÁGUAS, O SOPRO DA ARGILA: CRIAÇÃO E ANIQUILAMENTO, VIDA E MORTE
EM AVALOVARA E BRUMADINHO

Luciana Barreto Machado Rezende

A INTERMINÁVEL PEREGRINAÇÃO: A ESCRITA REVOLUCIONÁRIA DE OSMAN LINS

Elizabeth Hazin

19/07 (TARDE)

OSMAN LINS, ESCRITOR DO POVO? (OU: DA LITERATURA COMO GUERRA)

Pedro Henrique Couto Torres

A CONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM EM A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA, DE OSMAN LINS

Sebastiana Lima Ribeiro

SOBRE O FEMININO EM OSMAN LINS: REPRESENTAÇÃO E RECEPÇÃO EM A RAINHA DOS

283
CÁRCERES DA GRÉCIA

Mayara Moratori Peixoto

78 - O TEATRO EM LINHAS DE TRANSFORMAÇÃO: LE THÉÂTRE


AUTREMENT
Coordenação: Profa. Dra. Maria da Glória Magalhães dos Reis (Universidade de Brasília); Prof.
Dr. Walter Zidaric (Université de Nantes)

Resumo: Gilles Deleuze no ensaio Um manifesto de menos, sobre a obra de o ator,


dramaturgo, encenador e cineasta italiano Carmelo Bene, discute o aspecto crítico do teatro
procurando enfatizar a sua importância política. Na conclusão de seu ensaio o autor afirma
que

O Teatro surgirá como o que não representa nada, mas apresenta e


constitui uma consciência de minoria enquanto devir-universal
operando alianças aqui e ali conforme o caso, segundo linhas de
transformação que saltam para fora do teatro e assumem uma outra
forma, ou se reconvertem em teatro para um novo salto. (DELEUZE,
2010, p. 64)

Em outro ensaio O esgotado, igualmente publicado no Brasil na obra organizada por Roberto
Machado, intitulada Sobre teatro, Deleuze analisa, desta vez Quad de Samuel Beckett e para
isso usa os conceitos de língua I, língua II e língua III. O que Deleuze chama de língua I seria
uma língua dos nomes, das relações sintáticas, também definida pelo autor como “imaginação
combinatória, ‘manchada de razão’” (p. 79). A língua II não é mais a dos nomes, mas a das
vozes que procede “por fluxos” misturáveis (p. 76), “imaginação manchada de memória’ (p.
79). Por fim, a língua III, a língua dos hiatos, dos buracos, dos rasgões; a língua “das imagens,
sonantes, colorantes” (p. 81).

A partir dessas reflexões, propomos, neste simpósio, discutir sobre de que maneira outras
linguagens (como a dança, o cinema, a música, o circo e as novas tecnologias) as línguas (as
línguas estrangeiras, as línguas de sinais – como LIBRAS – Línguas de Sinais Brasileiras) e as
experiências estéticas envolvendo pessoas com diferentes formas de deficiências físicas (ver
Pippo Delbono, na Itália; a peça Ícaro de Luciano Mallmann, no Brasil e outras) aliam-se ao
teatro transformando-o e criando esse devir-universal do qual fala Deleuze.

Para Jean-Frédéric Chevalier, que estuda a contribuição de Gilles Deleuze para o teatro na obra
Deleuze et le théâtre: rompre avec la répresentation (2015), apesar das poucas ocasiões nas
quais Deleuze escreveu sobre o tema, a arte é um bloco de sensações, um composto de

284
percepções e afetos. Dentro dessa perspectiva, a questão que nos interpela seria portanto:
como intensificar a percepção e a expansão do afeto e com isso provocar outras maneiras de
se recompor no mundo?

Em Différence et Répétition (1968) Deleuze afirma que: “a obra de arte deixa o campo da
representação para se tornar “experiência”, empirismo transcendental ou ciência do sensível”
(p. 39, tradução nossa, ênfase do autor). Nessa direção, Chevalier discute que para Deleuze o
teatro compreende todas as artes, as poéticas da língua e do movimento (CHEVALIER, 2015, p.
135). O teatro, dessa forma, não teria nada de fixo, mas apresentaria, de fato, uma capacidade
integrativa. É dessa capacidade própria à atividade teatral, dessa possiblidade, dessa
potencialidade que pretendemos tratar a partir de um ponto de vista interdisciplinar abrindo
espaço para pesquisas em dramaturgia, interpretação, dança, música, circo, educação,
psicologia e outras áreas que se interessem à intersecção das áreas afins que constam nesta
proposta.

Inspirados, portanto, nesta ideia do devir no teatro e de que, como para Deleuze (1968) “O
teatro é movimento real; e de todas as artes que ele usa, ele extrai um movimento real” (p. 18)
e levando em consideração a afirmação de Jean-Pierre Sarrazac que o “drama se desenvolve
fora de seus próprios limites, no exterior de si mesmo, por cruzamentos e hibridizações
sucessivas. O drama moderno e contemporâneo se dá inteiramente em linhas de fuga; está
sujeito a uma desterritorialização permanente” (p. 331, ênfase do autor), propomos o debate
sobre este teatro feito autrement, de outra forma, por múltiplas linhas de fuga, excitando a
vontade de devires múltiplos e explorando os possíveis.

Em guisa de conclusão, pretendemos levantar a discussão sobre um teatro de “variações


presentes, um teatro que faça crescer nosso desejo de estar, aqui e agora, vivos” (CHEVALIER,
2015, p. 143, tradução nossa).

Referências:

CHEVALIER, Jean-Frédéric. Deleuze et le théâtre : rompre avec la représentation. Bensançon :


Les Solitaires Intempestifs, 2015.

DELEUZE, Gilles. “Um manifesto de menos” e “O esgotado”. In.: MACHADO, Roberto. Sobre
teatro: Um manifesto de menos; O esgotado / Gilles Deleuze. Tradução Fátima Saadi, Ovídio
de Abreu, Roberto Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

DELEUZE, Gilles. Différence et répétition. Paris : Presses Universitaires de France – PUF, 1968.

SARRAZAC, Jean-Pierre. Poética do drama moderno. Tradução: Newton Cunha, Jacó


Guinsburg, Sonia Azevedo. São Paulo: Perspectiva, 2017.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

285
UMA EXPERIÊNCIA DE LEITURA CÊNICA DA PEÇA KANTAN (TRAVESSEIRO DOS SONHOS) DE
YUKIO MISHIMA COM EDUCANDOS DA GRADUAÇÃO QUE REFLETE SOBRE A EDUCAÇÃO
CRÍTICA LITERÁRIA COM TEATRO

Kimiko Uchigasaki Pinheiro e Maria da Glória Magalhães dos Reis

A AFIRMAÇÃO DA DIFERENÇA* NO TEATRO DE SUZAN-LORI PARKS

Annemeire Araújo de Lima

VIOLÊNCIA, METATEATRALIDADE E IMPROVISAÇÃO: CONSIDERAÇÕES SOBRE THE


CONNECTION E RODA VIVA

Esther Marinho Santana

UM HOMEM-BANDA NA ESCOLA PÚBLICA. UMA PERFORMANCE MÚSICO-TEATRAL


CONSTRUINDO INTERVALOS ESTÉTICOS NA SALA DE AULA

Fabiano Assis da Silva

17/07 (TARDE)

ADAPTAÇÃO COLETIVA DO ROMANCE CRÉPUSCULE DU TOURMENT DE LÉONORA MIANO PARA


O TEATRO, EM LÍNGUA PORTUGUESA E EM LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: UMA EXPERIÊNCIA
MÚLTIPLA

João Vicente

O ESTADO DA ARTE DO TEATRO SURDO NO BRASIL

Mary Andrea Xavier Lages

LÍNGUA DE SINAIS BRASILEIRA E TEATRO: UM PALCO TRANSFORMADO

Roberta Cantarela

286
PERFORMANCE E REALIDADE: UMA EXPERIÊNCIA CÊNICA DA IDEIA SUICIDA PRESENTE NO
CONTO O QUE A GENTE NÃO DISSE DE LYA LUFT

Júnio César Batista de Souza

79 - O VIVIDO E O DEVANEIO NA LITERATURA BRASILEIRA DE


EXPRESSÃO AMAZÔNIDA: MEMÓRIAS DAS FLORESTAS E DOS RIOS
Coordenação: Itamar Rodrigues Paulino (UFOPA); Maria de Fátima Matos de Sousa (UFPA);
Ana Maria Vieira (UFOPA)

Resumo: Apresentada ao mundo de forma insipiente e insuficiente pela História Literária


Brasileira, o tema Amazônia sempre esteve atrelado à biodiversidade. Atualmente, porém, já
despontam no horizonte literário estudos com visão mais aprofundada sobre o ser humano
amazônida. Essas questões não são novas, os escritores Inglês de Sousa e José Veríssimo,
nascidos em Óbidos, representam expressões literárias com força regional ímpar no cenário
moderno brasileiro. A literatura na Amazônia moderna e contemporânea expressa um
complexo conflito entre a valorização das diversas expressões culturais regionais e a busca de
universalização do pensamento amazônida. Em outros termos, o conflito está em como
apresentar ao mundo uma forma singular local de aproximação da realidade que sirva de
representação universal, contemplando variados modos linguísticos e expressões das vivências
coletivas e individuais, e que ajude o leitor amazônida, ou não, a constituir suas próprias
percepções de verdade, a organizar suas memórias e a conhecer-se e reconhecer-se na sua
condição humana. Se essa representação universal é possível, é difícil afirmar. O que nos
interessa, porém, não é nos fechar em um conceito universal; pois o próprio termo Amazônia
já desempenha essa função universalizadora. Importa-nos discutir de maneira ampla essas
formas de representação, considerando que desde o século XVI a literatura amazônida tem
apresentado enredos que descrevem o ambiente natural, realidade social e diversidade
sociocultural local, utilizando linguagens próprias da região, experimentando formatos
estéticos que articulam texto e contexto, para demonstrar um pensamento possível sobre a
existência humana, a partir da Floresta Tropical e provocar reflexões sensíveis na humanidade.
Ousamos, sem a pretensão de universalismo literário, apresentar o desafio de pensar uma
possível condição amazônida de uma época, aproveitando que o mundo nas últimas décadas
tem passado por novas configurações em seus modelos sociais, redefinindo a si a partir de
conceitos do tipo sustentabilidade, ecologismo, ambientalismo, preservação, conservação,
devastação, exploração, resistência, entre outros. Pensar a condição amazônida de uma época
é uma proposta provocativa porque nela há o encontro severamente conflituoso entre o
debate efervescente do jeito colonizador de pensar o meio ambiente, com o jeito nativo de
perceber a fragilidade da floresta e a necessidade de sua preservação. Entre as diversas áreas
de conhecimento que tecem tramas e sentidos na e sobre a Amazônia encontra-se a literatura,
lugar de criação e recriação da maneira de se observar, apreender e apresentar a realidade. Na
literatura há um universo de falas e narrações que compõem o enredo provocativo e fascina o
leitor, pois mistura imaginário e real e possibilita percepções e conhecimentos de si e o
mundo. Nesse caso, é importante haver circulação de propostas ficcionistas como as de Inglez
de Souza, José Veríssimo, Saladino de Brito, Milton Hatoum, Benedito Nunes, Dalcídio Jurandir,
entre outros, que procuram apresentar ao mundo uma Amazônia a ser universalizada e
concepções de mundo a partir e pelos habitantes da floresta e cidades nela encravadas, com

287
identidades culturais singulares e deslocadas do tecido nacional. Assim, trejeitos indígenas,
caboclos, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e migrantes são exaltados e transparecem nas
obras de autores amazônidas, que reivindicam para si a condição de agentes, com o legítimo
direito de apresentar ao mundo as culturas das comunidades locais, outrora esquecidas e
excluídas, por meio de produtos literários, servindo de voz das minorias e impondo crise no
pensamento burguês local de cultura europeia, o qual teima em desconsiderar as vozes na
apresentação ao mundo dessa região. As obras que resultam dessa dinâmica causam fascínio
por conta da forma desprendida como esses escritores se embrenham na feitura de um texto,
revelando um universo no qual não há fronteiras entre o real e a representação imaginária, e
cujos sonhos e devaneios têm consequências reais que trespassam a redoma da vida rígida e
angustiante na Floresta. A efervescência literária vinda da floresta amazônica é um começo de
conversa que toma forma de análise que pavimenta a via para se penetrar no território do
imaginário e do mistério no coração da floresta, torrão que em pleno século XXI ainda não foi
totalmente desencantado, para dali produzir jogos despretensiosos entre linguagem, vivido e
devaneio.

Palavras-chave: Literatura. Amazônia. Cultura. Memória.

Referências:

AZEVEDO, I. Marinho de. Puxirum: memória dos negros do oeste paraense. Belém: Instituto
de Artes do Pará (IAP), 2002.

BARRETO, Mauro Vianna. O romance da Vida Amazônica. Uma leitura Socioantropológica da


Obra de Inglês de Souza. São Paulo: Letras à margem, 2003.

GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. Manaus: Valer, 1994.

VERÍSSIMO, José. Estudos de Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: H. Garnier. 1903.

VERÍSSIMO, J. Cenas da Vida Amazônica. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1957.

KUNDERA, Milan. A Arte do Romance. São Paulo: Nova Fronteira, 1988.

LOUREIRO, João de Jesus Paz. Cultura Amazônica: uma diversidade diversa. In: Diversidade
Cultural Brasileira. Belém: Casa Rui Barbosa, 2009.

_____. Cultura amazônica: uma poética do imaginário. Belém: Cejup, 1995.

MUNDURUKU, Daniel. Coisas de Índio. São Paulo: Callis, 2000.

PAULINO, I. R. Entre les remous de l’imaginaire et les houles du réel : un regard sur la
littérature amazonienne brésilienne dans la contemporanéité. Em OLIVIERI-GODET, Rita
(org.). Cartographies littèraires du Brèsil actuel. 1ª ed. Bruxelles: Peterlang, 2016. v. 14.

REGO, Jose Lins do. Inglez de Souza e os naturalistas. Em: A manhã. Rio de Janeiro,
7/set/1941. [Suplementos literários].

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaio sobre dependência cultural. São
Paulo: Editora Perspectiva, 1978.

288
SIMÕES, Célio. Retratos e Fatos Literatura Obidense. Crônica. I FECIMA. Óbidos, 2012.
Disponível em: [Link]
literatura-obidense/ Acessado em 22.12.2017.

SOUZA, Herculano Marcos Inglês de. O Coronel Sangrado. Coleção Cenas da Vida do
Amazonas. Belém: UFPA, 1968.

SOUZA, Márcio. História da Amazônia. Manaus-AM: Valer, 2009.

TUPIASSÚ, Amarílis. “Amazônia, das travessias lusitanas à literatura de agora”. In: Estudos
Avançados, vol. 19, nº 53, p. 299-320, ISSN 0103-4014, 2005. Disponível em:
[Link]/pdf/ea/v19n53/[Link]. Acesso em 30 jan. 2015.

VIEIRA, Edithe Carvalho. Amazônia: contos, lendas, ritos e mitos. Belém: Instituto de Artes do
Pará (IAP). 2010.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

OS FESTIVAIS DA PIRANHA PRETA E PÁSSARO TANGARÁ DA COMUNIDADE RIBEIRINHA PÉROLA


DO MAICÁ EM SANTARÉM-PA: NARRATIVAS MEMORIAIS DA VÁRZEA

Marcelo Almeida Gomes

CARNAPAUXIS NA AMAZÔNIA E A CARNAVALIZAÇÃO COMO NARRAÇÕES DA VIDA SUSPENSA


DA REALIDADE GROTESCA PROVOCADA PELO RISÍVEL MASCARADO FOBÓ

Elian Karine Serrão da Silva

CENAS DA VIDA AMAZÔNICA DE INGLEZ DE SOUZA COMO APRESENTAÇÃO DOS DRAMAS


ROTINEIROS DO CABOCLO: DENSIDADES NARRATIVAS ENTREMEIO À FAUNA, FLORA E FLÚVIO

Eliriany Lima da Silva

QUEM DECIFRA LUCIANA?

Erika G M de Aquino

ENTRE O VIVIDO E O DEVANEIO: JOSÉ VERÍSSIMO E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE


BRASILEIRA
289
Aline Costa da Silva

17/07 (MANHÃ)

TERRITORIALIDADE E ORGANIZAÇÃO SOCIAL DE NAÇÕES ORIGINÁRIAS AO LONGO DO RIO


AMAZONAS DO SÉCULO XVI AO XIX: RELATOS ENTRE FATOS E IMAGINAÇÕES
EXPEDICIONÁRIAS

Camila da Costa Lopes

MILTON HATOUM E A MODERNIDADE: NOTAS SOBRE CRÔNICA DE DUAS CIDADES

Jean Marcos Torres de Oliveira

POLÍTICAS PÚBLICAS SOCIOAMBIENTAIS: UM OLHAR SOBRE A REGIÃO DO TAPAJÓS, A PARTIR


DA INSTALAÇÃO DOS PORTOS NO DISTRITO DE MIRITITUBA

Elines dos Santos Batista

CORPOS QUE FALAM: A CULTURA PICTÓRICA PARAKANÃ COMO NARRATIVA DA MEMÓRIA E


IDENTIDADE

Habia Santos de Melo, Itamar Rodrigues Paulino

ESPAÇOS DA MEMÓRIA NA POESIA DE MAX MARTINS

Ana Maria Vieira Silva

80 - OS ESTUDOS LITERÁRIOS EM TRÊS TEMPOS: CLASSICISMO,


MODERNIDADE, PÓS-MODERNIDADE
Coordenação: Prof. Dr. Constantino Luz de Medeiros (UFMG); Prof. Dr. Roberto Acízelo de
Souza (UERJ)

Resumo: No prefácio à primeira edição (1948) de sua Análise e interpretação da obra literária,
cujo subtítulo é “introdução à ciência da literatura”, Wolfgang Kayser aponta para a
290
necessidade de que as ciências, inclusive aquela que denomina de ciência da literatura, façam
periodicamente uma revisão de suas concepções basilares. A acertada observação do
estudioso alemão continua atual, principalmente ao contemplarmos a multiplicidade de
enfoques críticos e orientações teóricas, surgidos no bojo das denominadas correntes críticas
pós-estruturalistas. Este simpósio pretende agregar pesquisas que se identifiquem tanto com
os fenômenos estritamente literários – ou seja, problemas de teoria, crítica e história da
literatura, questões sobre o cânone literário, valor, tradição literária, historiografia literária,
história da crítica literária – como pesquisas sobre temas literários em sentido mais amplo. O
que se busca são reflexões sobre realizações históricas no longo curso dos estudos literários, à
luz do debate ora em curso no meio acadêmico, entre orientações desenvolvidas no âmbito
dos estudos literários stricto sensu  e diretrizes identificadas com os estudos culturais.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

DAS LETRAS À LITERATURA

Roberto Acízelo Quelha de Souza

VALORES DA FORMA LITERÁRIA

Maria Eulália Ramicelli

16/07 (TARDE)

REFLEXÕES SOBRE A CONCEPÇÃO DE LITERATURA NO ESPAÇO SOCIAL HISTÓRICO E


CONTEMPORÂNEO

Andréia Nascimento Carmo e Valdivina Telia Rosa de Melian

QUESTIONANDO O ROMANCE: PROUST, BECKETT, COETZEE

Lívia Bueloni Gonçalves

ENTRE TEMPOS, ENTRE MUNDOS, ENTRE LUGARES: O STATUS PÓS-COLONIAL EM OMEROS, DE


DEREK WALCOTT

291
Maria Aparecida Oliveira de Carvalho

17/07 (MANHÃ)

A HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA ROMÂNTICA E A FILOSOFIA DA HISTÓRIA DO SÉCULO XVIII:


ALGUMAS REFLEXÕES HISTÓRICAS E TEÓRICAS

Constantino Luz de Medeiros

O SURGIMENTO DO EU POÉTICO EM HESÍODO E SUA IMPORTÂNCIA PARA OS ESTUDOS


LITERÁRIOS

Danilo Barcelos

TRADIÇÃO AUDITIVA E MÍMESIS: UMA POSSÍVEL APROXIMAÇÃO DA LINGUAGEM METAFÓRICA

Regina Lúcia de Faria

17/07 (TARDE)

CAMINHOS CRUZADOS: FRANCISCO GONÇALVES BRAGA E MACHADO DE ASSIS

Wilton José Marques

UM CRÍTICO OITOCENTISTA BRASILEIRO: MACEDO SOARES E SUA AVALIAÇÃO DA INFLUÊNCIA


DE BYRON NA LITERATURA NACIONAL

Juliane de Sousa Elesbão

EM TORNO DA POESIA SUL-RIO-GRANDENSE: UM OLHAR SOBRE OS EXERCÍCIOS


HISTORIOGRÁFICOS DE DONALDO SCHÜLER E LUÍS AUGUSTO FISCHER

Mauro Nicola Póvoas

292
81 - PERSPECTIVAS DA FICÇÃO PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA:
VOZES NARRATIVAS E POÉTICAS
Coordenação: Profa. Dra. Gabriela Silva (URI); Profa. Dra. Evelyn Blaut Fernandes (UFRJ); Profa.
Dra. Ilse Maria Vivian (UFSM)

Resumo: A segunda edição do simpósio “Perspectivas da ficção portuguesa contemporânea”


contempla a literatura portuguesa a partir da diversidade de modos de representar a história
(afastando-se ou aproximando-se dela) e das diferentes vozes que expressam suas visões de
mundo. As construções literárias levantam a representação da cultura portuguesa em
proximidade ou distanciamento com os temas históricos e as questões identitárias,
questionando a concepção do sujeito português decorrente de uma literatura que busca a
revisitação de seus temas, para além da permanente reavaliação histórica (ainda hoje
pertinente nos estudos literários por se tratarem de vozes de extrema importância como
contraponto e sustentação do não esgotamento dos referidos temas). Pensar a literatura
portuguesa contemporânea é perceber todas as modificações advindas da
contemporaneidade: um novo sujeito emerge das construções literárias deslocando-se em
relação à sua própria cultura. Nesse recorte temporal, as modificações têm sido demarcadas e
estudadas sob diversos focalizadores numa tentativa de construir poéticas singulares na
literatura portuguesa. Se a ficção, por um lado, potencializa o real, transgredindo a
temporalidade e permitindo analogias, intertextualidades e outras maneiras de integração
entre momentos históricos e condições do sujeito nestes contextos, é justamente a dinâmica
dessas representações, seus enquadramentos e perspectivas que se iluminam, assim como os
diferentes diálogos que se estabelecem entre si e com outras obras. É primordial, portanto, o
espaço para discussão e apresentação das ideias dessa literatura, numa multiplicidade de
focos que cresce em novas formas de perceber as modificações alinhadas às constantes
transformações da própria literatura portuguesa. Sendo esse o ponto de partida, este simpósio
recebe propostas de comunicação que visem à discussão da atualização de temas em obras
literárias produzidas em Portugal da segunda metade do século XX ao século XXI sob os pontos
de vista da intertextualidade, do cânone, da experimentação e do comparatismo. No âmbito
de pesquisas concernentes ao universo da ficção contemporânea que compreende
deslocamentos de estruturas, paródias e revisitações de temas já conhecidos, além de estudos
sobre poéticas, vertentes, vozes, percepções do sujeito e temáticas voltadas para a
compreensão da realidade histórica contemporânea, são também aceitas propostas de
comparação com obras de épocas anteriores, não apenas presentes nos sistemas literários
como também na interação da arte da palavra com as demais artes e áreas do conhecimento.

Palavras- chave: literatura portuguesa; contemporaneidade; intertextualidade; comparatismo.

PROGRAMAÇÃO

17/07 (MANHÃ)

A NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA: CONTINUIDADES E RUPTURAS EM MENINAS,

293
DE MARIA TERESA HORTA

Maria Luiza Germano de Souza

DESLOCAMENTO E EXÍLIO: AS DORES DE JACINTA E ALICE NA NARRATIVA


CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA DESAMPARO,DE INÊS PEDROSA
Kátia Marlowa Bianchi Ferreira Pessoa e Maria Cândida Melo Pereira

ESTRATÉGIAS DE PERSPECTIVAÇÃO DO ESPAÇO EM FINISTERRA, DE CARLOS DE


OLIVEIRA
Giseli Seeger

A IDENTIDADE DO FILHO PRETO EM LOBO ANTUNES: ATÉ QUE AS PEDRAS SE TORNEM


MAIS LEVES QUE A ÁGUA
Pietro Gabriel dos Santos Pacheco

A MEMÓRIA É UMA PEDRA”: ERRÂNCIAS DO COMBATENTE EM ANTÓNIO LOBO


ANTUNES
Leonardo Von Pfeil Rommel

18/07 (MANHÃ)

A REESCRITA DOS MITOS BÍBLICOS EM JOSÉ SARAMAGO: A RE-HISTORIZAÇÃO DO


SAGRADO A PARTIR DA FICÇÃO, UMA ANÁLISE DE O EVANGELHO SEGUNDO JESUS
CRISTO
Francisca Carolina Lima da Silva

ENTRE A CEGUEIRA E A LUCIDEZ: UM DIÁLOGO COM O ESTOICISMO


Pedro Nunes de Castro

DE JOSÉ SARAMAGO AO SR. JOSÉ DE "TODOS OS NOMES": A (RE)CONSTRUÇÃO DO


ESCRITOR
Bianca Rosina Mattia

294
UMA OUTRA VOZ, DE GABRIELA RUIVO TRINDADE: O AMÁLGAMA DE EXPERIÊNCIAS
QUE CONTAM A HISTÓRIA DE PORTUGAL
Gabriela Silva

19/07 (MANHÃ)

ARQUIVO, AUTOR E COMUNIDADE: CONCEITOS CONTEMPORÂNEOS EM O SENHOR ELIOT E AS


CONFERÊNCIAS, DE GONÇALO M. TAVARES

Maria Catarina Rabelo Bozio

A BANDEIRA DE UM PAÍS É UM HELICÓPTERO”: UM ESTUDO SOBRE UM HOMEM:


KLAUS KLUMP, DE GONÇALO M. TAVARES
Mariana Martins Porto

O DESEJO DE ESQUECER
Evelyn Blaut Fernandes

A INSTALAÇÃO ROMANESCA DE PATRÍCIA PORTELA EM “A COLEÇÃO PRIVADA DE


ACÁCIO NOBRE”
Rafael Voigt Leandro

DANIEL JONAS E O SONETO


Roberto Bezerra de Menezes

82 - POESIA CONTEMPORÂNEA: CRÍTICA E PERFORMANCE


Coordenação: Prof. Dr. Leonardo Davino de Oliveira (UERJ); Prof. Dr. Carlos Augusto
Bonifácio Leite (UFRGS)

Resumo: A poesia teria empobrecido com o fim das vanguardas? A adjetivação global da
poesia ainda é possível? A modernidade foi superada? Essas perguntas nortearam as edições
passadas do Simpósio Poesia contemporânea: crítica e transdisciplinaridade. Agora interessa-
nos a performance e suas derivações. A vocoperformance, por exemplo, partindo do
295
pressuposto de críticos como Paul Zumthor, Philadelpho Menezes e Luiz Tatit, para quem, sob
diferentes perspectivas, mesmo em sua forma escrita tradicional, a poesia abriga uma
dimensão verbivocal, recupera a entoação embrionária da palavra grafada, ao mesmo tempo
em que produz a presença sequestrada da poesia com a hegemonia da comunicação escrita. O
fato é que a poesia contemporânea é notadamente marcada pela ruptura das fronteiras entre
gêneros, estéticas e éticas composicionais. Ou pela ideia de “pós-utopia”, pensada por Haroldo
de Campos (1997). Isso dificulta a apreensão holística do poema, que, por sua vez, tem exigido
o acionamento cada vez maior de saberes variados por parte do crítico, do leitor e de quem faz
poesia. Aliás, a poesia é algo que se faz? Para Marcos Siscar (2010), por exemplo, “o mesmo
processo de esvaziamento do contemporâneo é reconhecível, inclusive, em análises que
pretendem abordar de frente a literatura do presente” (p.171). Entre o “me dê um cigarro”
modernista de Oswald de Andrade e o “me segura que eu vou dar um troço” marginal
(desbundado) de Wally Salomão, há o desenvolvimento ético e estético do conceito
verbivocovisual dos concretos, que leva à poesia procedimentos feitos por precursores, tais
como Sousândrade. De modo mais evidente, tais artifícios serão trabalhados pelos poetas a
partir do início do século XX, com o acelerado desenvolvimento das tecnologias e mídias
audiovisuais. E toma corpo (o corpo do poeta, inclusive) a partir da década de 1960, no Brasil,
em especial, a partir da Tropicália, com sua abertura às possibilidades de relação antropofágica
entre as diversas perspectivas estético-artística-filosóficas. Mas pode ser identificado desde a
nossa poesia colonial (HANSEN, 2006). A Tropicália, tomada como uma releitura da
antropofagia oswaldiana, estimulou o amálgama do popular com o erudito. Foi quando a
política ganhou destaque nas Artes, em especial na canção popular, no caso do Brasil. É
também nesse período, entre 1960 e 1970, que, se por um lado, vivenciamos grande
emergência das teorias imanentistas, quando a crítica se concentra no texto em si, por outro
lado, percebeu-se também a demanda pelo debate coletivo da memória, o que levará à
produção de uma poesia empenhada na liberação do corpo. A poesia demanda mais do que
escrita e papel. Para Paul Zumthor (2007), se “a noção de ‘literatura’ é historicamente
demarcada, de pertinência limitada no espaço e no tempo”, a poesia é a arte “de uma
linguagem humana, independente dos modos de concretização e fundamentada nas
estruturas antropológicas mais profundas” (p. 12). Por isso, a partir da definição dada por
Giorgio Agamben (2009) para o que é o contemporâneo, pretendemos debater a
ressignificação das formas composicionais clássicas, ou seja, a permanência e as ressonâncias
de um discurso poético da tradição, em consonância com a modernidade na poesia atual. O
objetivo principal desse Simpósio é promover a reflexão sobre o universo estético e cultural da
poesia contemporânea, associando linguagens e instrumentos teóricos das diversas áreas
disciplinares - articulando elementos que transpassam entre, além e através das disciplinas e
dos suportes: música, canção, artes plásticas, fotografia, vídeo, internet -, a fim de iluminar a
atualidade da crítica de poesia. Crítica que reflete e refrata a crise de identidade e de
representação porque perpassa a poesia (CAMPOS, 1979; SISCAR, 2010); crítica que não é, a
priori, mais que a obra, mas, pelo contrário, absorve a obra. Vejam-se, por exemplo, a grande
quantidade de criações críticas, obras engajadas e críticas criativas que tem caracterizado boa
parte da produção atual. Topos que problematiza a própria divisão entre arte e não-arte. Bem
como a crítica encomendada que segue as leis de mercado. Portanto, esperamos reunir
pesquisadores em torno da poesia feita no presente recente, sabendo que este presente é e
está expandido. São bem-vindas ao simpósio as propostas de comunicações que versem sobre
a tentativa de estesia, leitura e crítica da poesia contemporânea, colaborando para conferir
maior aproximação à formulação conceitual dessa poesia. A proposta é tornar este espaço um
ambiente aberto às investigações das mais diversas e sutis abordagens do fazer poético, a fim
de desautomatizar e dar visibilidade à arte da palavra, na Academia, no ensino e no cotidiano.
296
Bibliografia:
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinicius Nicastro
Honesko. Chapecó, SC: 2009, Argos.
CAMPOS, Haroldo de. A arte no horizonte do provável. São Paulo: Perspectiva, 1977.
______. “Ruptura dos gêneros na literatura latino-americana”. In: MORENO, César Fernandez.
América Latina em sua literatura. São Paulo: Perspectiva, 1979.
______. O arco-íris branco. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
ECO, Umberto. Obra Aberta: Forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. São
Paulo: Perspectiva, p. 67, 1969.
PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003.
SISCAR, Marcos. Poesia e crise: ensaios sobre a “crise da poesia” como topos da modernidade.
Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2010.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich.
São Paulo: Cosac Naify, 2007.

Palavra-Chave: Poesia, Contemporâneo, Crítica, Performance.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

A VOCOPERFORMANCE DE OSWALD DE ANDRADE E A ARTE VOCAL BURGUESA

Leonardo Davino de Oliveira

AUGUSTO DE CAMPOS, POETA-CRÍTICO MUSICAL

André Vinicius Pessôa

"CIRCULADÔ DE FULÔ": CAETANO VELOSO E A POESIA CONCRETA

Rafael Barbosa Julião

O PESO DA CRUZ DE TOM ZÉ E WALY SALOMÃO ENTRE OS AUTOMÓVEIS

Patrícia Anette Schroeder Gonçalves

16/07 (TARDE)
297
A VOZ DA MULHER NEGRA NA POESIA DE SARAU DE PERIFERIA E SLAM NA CIDADE DE SÃO
PAULO

Elaine Correia de Oliveira

CORPO, CIDADE E PALAVRA: A PERFORMATIVIDADE DO COLETIVO OFICINA EXPERIMENTAL DE


POESIA

Eduardo dos Santos Coelho

ENCENAÇÃO: PERFORMANCE NA POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Maria Aparecida Junqueira

SAMBA-ENREDO: A FORMAÇÃO DE UM GÊNERO CANCIONAL GENUINAMENTE BRASILEIRO

Jackson Raymundo

17/07 (MANHÃ)

LEMINSKI: O 27º POETA DA ANTOLOGIA “26 POETAS HOJE"

Elane Alves Oliveira Silveira

FAVORITE GAME OU A POESIA NÃO CABE MAIS DENTRO DA VULVA DO POEMA

Marina Baltazar Mattos

A CRÍTICA JORNALÍSTICA DE ANA CRISTINA CESAR

Raquel Machado Galvão

MODERNISMO E CANÇÃO POPULAR: DA APROXIMAÇÃO COM A ORALIDADE À RESSURGÊNCIA

298
DA VOZ

Ênio Bernardes de Andrade

17/07 (TARDE)

TEMPO EM CRISE, ESPAÇO EM DECADÊNCIA: DA CARTOGRAFIA DOS MORTOS EM LUIZ


BACELLAR

Fabio Fadul de Moura

ENTRE O EU E O OUTRO: UMA LEITURA DE “PÊNDULO” DO LIVRO N.D.A. DE ARNALDO


ANTUNES

Glauber Mizumoto Pimentel

POÉTICAS HESITANTES OU DO TRAÇO NEBULOSO

Suzy Zaparoli

DE 90 PRA CÁ: A POESIA CONTEMPORÂNEA DO RIO GRANDE DO SUL

Carlos Augusto Bonifácio Leite

83 - POESIA E TRANSGRESSÃO
Coordenação: Prof. Dr. Cristiano de Sales (UTFPR); Prof. Dr. André Cechinel (UNESC)

Resumo: O simpósio se propõe a dar continuidade aos debates iniciados no Congresso


Internacional da ABRALIC 2018. Trata-se da reedição de uma proposta que nos permitiu e
continuará permitindo discutir juntos o caráter transgressor da poesia em diferentes autores e
poéticas. Acreditamos na urgência dessas conversas e estudos em tempos de arbitrariedades
históricas que tendem a minimizar as ciências humanas e as artes.

O arlequim que Mário de Andrade nos apresenta em muitos momentos de sua Paulicéia
Desvairada opera de maneira precisa na proposição de uma estética modernista para a
literatura brasileira. O modo como esse personagem aparece dentro da outra personagem,
299
São Paulo, evoca um dos temas mais caros ao grupo que se empenhou na utopia modernista
da década de 1920, a saber, o devaneio. Este, que carregava também um desejo de liberdade,
ganhou corpo em versos harmônicos – uma invenção formal de Mário. Essa refinada
artimanha de amalgamar forma e conteúdo não apenas colocou o poeta paulistano no centro
do movimento como também revelou um potente modo de transgredir. A transgressão,
sabemos, ocupa lugar cativo nas tentativas de teorização acerca do modernismo. No entanto,
não se pode baratear esse conceito no mero sentido de desvio ou negação de um sistema em
curso (seja este sistema estético ou ideológico), pois, como fez o autor de Macunaíma,
transgredir consiste sobremaneira em estabelecer contato com a tradição da qual se intenta
libertar. Modificar algo num sistema demanda transformação e não se transforma nada
encerrando a dialética entre a herança material-cultural e o novo que se pretende fazer
aparecer.

O ser contemporâneo de Agamben não é o que vê os limites do tempo e o nega, mas sim
aquele que estabelece dialéticas distintas e desestabiliza o dispositivo do tempo. Por isso o
arlequim de Paulicéia tentou cantar na cidade e foi levado pela polícia, porque seu canto não
compunha mais melodias como queria a industrialização moderna que tomava conta da
cidade, seu canto fazia harmonias com outros desejos, outros sonhos, oferecia outro ritmo. A
transgressão estava em se permitir devanear. Ela é uma das principais potências do que
chamamos modernismo em literatura. É uma potência que nos faz hoje acreditar que é
característico da poesia transgredir.

Tendo em vista o cenário maniqueísta que se transformou a arena pública dos debates que
tocam a política no Brasil hoje, e que esse binarismo chegou a colocar objetos de arte no
centro de uma discussão antes moralista do que estética, queremos com esse simpósio colocar
em questão o caráter transgressor da poesia nos meios em que ela ainda opera (e isso inclui
espaços instituídos, como universidades e escolas, e não instituídos, como circuitos que
independem do academicismo). Tendo em vista também que vivemos hoje cenários muito
antes distópicos do que o cenário utópico que sedimentou o ato de transgredir como marca da
poesia, queremos discutir a transgressão em diferentes momentos históricos, abrindo, com
isso, espaço para estudiosos dos diferentes períodos e tradições poéticas.

Seja pelo inutensílio de Paulo Leminski – para quem a rebeldia era um bem absoluto que se
manifestava na linguagem por meio da poesia –, ou pelos corpos riscados de Ana Cristina Cesar
– onde o contorno de um seio e os traços da escrita de um poema se confundiam na tentativa
angustiada de não separar a poesia da vida –, ou ainda na assumida luta inglória com o corpo
da linguagem a que se entregou Ferreira Gullar, o rastro estendido no tempo que faz de certas
escritas algo canônico (mesmo que em princípio à margem) parece trazer sempre a cicatriz de
uma subversão num sistema operante. Mesmo quando nos afastamos das constelações de
Mallarmé ou da postura mais radical de Rimbaud, encontramos vozes que permaneceram no
tempo e no espaço porque desestabilizaram algo, não legitimaram o status quo da vida ou da
literatura. E isso não é um mérito moderno, ocorre desde muito antes das interpretações
românticas que damos à história da literatura.

Enquanto Baudelaire parecia entender e explicar algo da Modernidade com seu cisne
atordoado no asfalto, ou com a passante que desperta paixões à última (e não à primeira)
vista, Walt Whitman libertava o verso com eloquência contagiante. Rilke equilibrava conteúdo
e forma de maneira cirúrgica não para dizer o que fazia a poesia moderna, mas para
escancarar justamente o que as teses sobre a lírica moderna não davam conta de explicar. De
certo modo foi o que fez também o marujo Neruda que não cessou de sonhar e se fazer lírico,
300
ou Hilda Hilst que ousou fazer de deus uma via de acesso sensorial (sensual) e não um fim.
Cecília, que transgrediu a objetividade triunfante de Drummond para assumir-se só e afinada
com uma subjetividade ibérica...

Enfim, o que entrelaça esses poetas, bem como tantos outros artistas, é o fato de não
deixarem estabilizar algo. Essa é a potência que nos interessa.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

“A SAÍDA É A VOLTA”: A TRANSGRESSÃO NA POÉTICA DE ORIDES FONTELA

Jaqueline de Carvalho Valverde Batista

ORIDES FONTELA: POR UMA POÉTICA DE TRANSPOSIÇÃO CONTÍNUA

Nathaly Felipe Ferreira Alves

UM SOL POENTE: OTIMISMO E MELANCOLIA EM MATILDE CAMPILHO

Jhenifer Thaís da Silva

A TRANSGRESSÃO ESTÉTICA E TEMÁTICA NA POESIA DE ORIDES FONTELA

Alexandra de Oliveira Guedes

16/07 (TARDE)

O DESAPOSSAMENTO DO SUJEITO LÍRICO NA POESIA DE PEDRO KILKERRY

Carlos Eduardo Siqueira Ferreira de Souza

POETA DA ELIPSE: A TRANSGRESSÃO VERBAL EM DURVALINO COUTO

301
Josivan Antonio do Nascimento

A POESIA HUMORÍSTICA DE BASTOS TIGRE COMO JOGO: PARNASIANISMO E HUMORISMO


ENTRE A REGRA E A TRANSGRESSÃO

Samanta Rosa Maia

A POESIA TRANS NO CONTEXTO DA “COLE-SÃ ESCREVIVÊNCIAS” - ASPECTOS TRANSGRESSORES


DESSA OCUÍERPAÇÃO LITERÁRIA

Leocádia Aparecida Chaves

17/07 (MANHÃ)

A TRANSFORMAÇÃO DO MESMO EM OUTRO: TRANSGRESSÃO PELA APROPRIAÇÃO NO


MONÓLOGO INTERIOR DE ULYSSES

Camila Hespanhol Peruchi

JOYCE E MALLARMÉ: UMA "ALOTROPIA ESTILÍSTICA"

Raquel Bernardes Campos

TRANSGRESSORES DA TRANSGRESSÃO: PIVA E BATAILLE NAS BORDAS DO SURREALISMO (UMA


APROXIMAÇÃO POSSÍVEL)

Clelio Toffoli Júnior

17/07 (TARDE)

NATUREZA, INFÂNCIA E METALINGUAGEM EM CHARLES BAUDELAIRE, ARTHUR RIMBAUD E


MANOEL DE BARROS

Janaina Jenifer de Sales

302
FERNANDO PESSOA E A ESCRITA DA SENSAÇÃO

Karen Cristina Teixeira Pellegrini

PERSPECTIVAS FENOMENOLÓGICAS EM EMMANUEL MARINHO E ALBERTO CAEIRO: AS


RELAÇÕES E TENSÕES ENTRE HOMEM E NATUREZA NO ESPAÇO POÉTICO

Stelamaris da Silva Ferreira

A DESACELERAÇÃO DO TEMPO NA POÉTICA VISUAL DE BILL VIOLA

Cristiano de Sales

84 - POÉTICAS AMERÍNDIAS: PROBLEMATIZAÇÕES NA


CONTEMPORANEIDADE
Coordenação: Prof. Dr. Devair Antônio Fiorotti (UFRR); Prof. Dr. Pedro Mandagará (UnB); Profª
Drª Rita Olivieri-Godet (URennes2)

Resumo: Dentre os desafios que a contemporaneidade impõe aos estudos literários, um dos
mais difíceis é lidar com a produção periférica. O conceito de periferia pode se referir a muitos
países das Américas, países com produção literária de pouco reconhecimento dentro de um
cânone literário pretensamente universal. Para além do ponto de vista nacional, “periferia”
também se refere à literatura das minorias, como negros, gays e mesmo mulheres, tendo em
vista que, em países como o Brasil, sua produção é minoritária dentro do campo literário. Este
simpósio propõe pensar literaturas que, do ponto de vista tradicionalista, podem ser
consideradas ainda mais periféricas: as literaturas feitas por indígenas das Américas, oriunda
em grande parte da oralidade, que circula em meios tanto escritos quanto orais. Assim como a
noção de primitivo, muitas vezes relacionada aos povos indígenas em carácter inferiorizante, a
noção de periferia traz à tona uma discussão sobre a centralidade de certas práticas
intelectuais. Ambos os termos são relativos a um modelo espacial e/ou cultural: de
uma civilização e/ou de um centro, respectiva e reciprocamente. A relatividade desses termos
significa que eles podem ser deslocados, principalmente para pensar tensões de poder
impostas por um cânone estabelecido, em geral, por homens brancos, de meia idade, oriundos
de camadas privilegiadas da sociedade.

Entendemos que, desde um ponto de vista tradicionalista, há problemas nessa proposta.


Pretendemos justamente discutir esses problemas, abraçando a diversidade e a complexidade
da produção literária ameríndia. Estamos cientes de questionamentos que negam até o nome
literatura para se referir a essas práticas retóricas, estilizadas, para usar termos recorrentes no
303
meio teórico daquilo que chamamos aqui de artes verbais ameríndias ou de literatura
ameríndia. Acreditamos que a força dessa literatura vem propriamente desse “tênue fio entre
a escrita e a oralidade”, como diz Daniel Munduruku (2008). De fato, podemos ver que,
historicamente, há uma relação complexa entre o oral e o escrito nas práticas retóricas
ameríndias. Importantes produções, como o Popol Vuh, do povo maia, vêm de sistemas de
escrita anteriores ao genocídio causado pelos europeus quando da colonização. Genocídio
contra indígenas que não teve fim e pode ser ainda identificado, por exemplo, na realidade
brasileira, justificando esse simpósio em outros níveis de relevância, como em seu caráter
social e mesmo ético em relação ao trato histórico brasileiro com seus povos primevos
(FIOROTTI; FERREIRA, 2018).

Mesmo após a colonização, houve experiências de criação de sistemas próprios de escrita,


como o silabário cherokee norte-americano do início do século XIX. Considerando os sistemas
europeus de escrita, no entanto, a produção literária ameríndia foi criada, registrada e
publicada ao longo dos últimos séculos, em situações complexas de registro, autoria e inserção
no campo intelectual. Muitas vezes publicada sob a égide da antropologia, a produção
ameríndia encontrou em diversos momentos um espaço literário próprio, que gerou uma
tradição sólida de publicação nos Estados Unidos e Canadá, e tradições nacionais que se vêm
fortalecendo na América Latina. No contexto atual de intensificação dos contatos entre
sociedades ocidentais e povos ameríndios, nota-se a existência simultânea de várias
expressões literárias e artísticas ameríndias à medida que esses povos se apropriam da escrita
e dos recursos técnicos audiovisuais, recorrendo a vários gêneros e suportes: narrativas orais
tradicionais, narrativas míticas, ensaios políticos, “(auto)antropologia”, literatura juvenil,
textos romanescos e políticos, produção audiovisual e musical. Tal produção questiona os
paradigmas das sociedades nacionais ocidentais e propõe uma interrogação sobre o modo de
habitar um lugar, contribuindo para a reconfiguração dos sistemas literários e dos imaginários
nacionais. Ao lado disso, diversas práticas orais e línguas continuam vivas em suas
comunidades (OLIVIERI-GODET, 2017; GRAÚNA, 2013).

Partindo desses pressupostos e reconhecendo a complexidade do cenário, esse simpósio


recebe comunicações que apresentam, problematizam ou buscam pensar a diversidade
da produção das artes verbais ameríndias na contemporaneidade, com o objetivo de esboçar
uma cartografia dessa literatura e detectar suas singularidades, dialogando com as áreas dos
estudos culturais e da antropologia.

Referências:

FIOROTTI, Devair Antônio; FERREIRA, Sonyellen Fonseca. Xununu Tamu: um genocídio contra
indígenas que não termina. In DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; CORREIA, Heloisa
Helena Siqueira; DANNER, Fernando (Orgs.). Literatura indígena brasileira contemporânea:
criação, crítica e recepção. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018. Disponível em [Link]
rafi .org/product-page/literatura-ind%C3%ADgena-brasileira-contempor%C3%A2nea-cria
%C3%A7%C3%A3o-cr%C3 %ADtica-e-recep%C3%A7%C3%A3o. Acesso: 20/01/2019.

GRAÚNA, Graça. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo


Horizonte: Mazza Edições, 2013.

MUNDURUKU, Daniel. Literatura indígena e o tênue fio entre escrita e oralidade. Overmundo,
Lorena, 30 nov, 2008. On-line. Disponível em: [Link] Acesso em: 21 jan. 2019.
304
OLIVIERI-GODET, Rita. “A emergência de autores ameríndios na literatura brasileira”. Ciclo de
Debates Cultura Brasileira Contemporânea: novos agentes, novas articulações. Departamento
de Teoria literária e literatura comparada – USP, 2017. Disponível em
[Link] DET_A
%20emerg%C3%AAncia%20de%20autores%20amer%C3%ADndios%20na
%20literatura%[Link] Acesso em: 21 jan. 2019.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

POÉTICAS E POLÍTICAS INDÍGENAS E AFRICANAS: RELAÇÕES COM A LÍNGUA PORTUGUESA

Ananda Machado

POR NOVAS CARTOGRAFIAS DE (NÃO)PERTENCIMENTO: A LITERATURA COMO REMEMÓRIA E


COMO (RE/DES)CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES E TERRITÓRIOS DO SABER

Fernanda Vieira de Sant Anna

POÉTICAS ORAIS AMERÍNDIAS E SUA AUSÊNCIA NA ÁREA DE LETRAS

Devair Antônio Fiorotti

Desbloquear o imaginário sobre o espaço das Américas: amerindianidade como fio condutor
da americanidade

Rita Olivieri-Godet

17/07 (TARDE)

TUKUIS DO CIRCUM-RORAIMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE CANTOS PEMONS

Jociane Gomes de Oliveira

305
TESTEMUNHO DECOLONIAL EM PERSPECTIVAS INDÍGENAS CONTEMPORÂNEAS: O CASO
PARADIGMÁTICO DAS PALAVRAS DE UM XAMÃ YANOMAMI

Janaina Tatim

O DESCORTINAR DE UMA VISÃO DE MUNDO EM A QUEDA DO CÉU

Luzia Thereza Oliveira Lima

EM BUSCA DE UMA LITERATURA YANOMAMI

Pedro Mandagará

85 - POÉTICAS CONTEMPORÂNEAS DO GÊNIO NÃO ORIGINAL


Coordenação: Profa. Dra. Joana Matos Frias (Fac. Letras da Univ. do Porto | Portugal); Prof. Dr.
Pablo Simpson (Univ. Estadual Paulista de São José do Rio Preto | Brasil); Prof. Dr. Sofia de
Sousa Silva (Universidade Federal do Rio de Janeiro | Brasil)

If you’re not making art with the intention of having it


copied, you’re not really making art for the 21st century.

Kenneth Goldsmith

Resumo: Diversos pensadores têm apontado como uma das características mais
preponderantes das práticas artísticas da pós-modernidade – ou do pós-modernismo – a
tendência para uma certa recusa dos pressupostos de originalidade, de criação individual e de
propriedade autoral que em grande medida estiveram subjacentes ao processo histórico de
construção da Modernidade, sobretudo a partir do Romantismo e de seu programa literário,
conforme indicado, entre tantos autores, por M. H. Abrams em The Mirror and the Lamp:
Romantic Theory and the Critical Tradition, cuja hipótese geral assinala a passagem de uma
teoria mimética da representação enquanto espelho refletor de ações, para, no Romantismo,
uma teoria expressiva da arte: da arte como exercício da fantasia do sujeito.

Em certa medida, à narrativa reconstituída por Abrams à entrada da segunda metade do


século XX poderia dar-se uma continuidade fundada num novo elemento simbólico, a tela ou
ecrã, quer considerando a sua significação propriamente interartística (a que subjazem as
relações exogâmicas da literatura com os domínios das artes visuais, em particular com o tão
modernista cinema), quer admitindo o seu valor sociocultural de dispositivo, responsável pelo
agenciamento de vários tipos de lógicas hipertextuais e hipermediais, tão em voga na
contemporaneidade. Quer dizer que, nesta perspetiva, o ecrã/ a tela poderão ser entrevistos
306
como os grandes protagonistas daquele cultural turn que Fredric Jameson diagnosticou como
definidor da emergência da pós-modernidade, ao mesmo tempo que representam a passagem
de uma concepção do ato artístico assente no poder demiúrgico do próprio criador –
“pequeño dios”, na inesquecível síntese de Vicente Huidobro – para uma concepção que visa
evidenciar a força inexorável dos próprios meios e dos suportes materiais da expressão.

O distanciamento face a alguns dos pressupostos mais elementares e constitutivos da


Modernidade tem sido assim transversal a vários campos artísticos e pode ser constatado e
identificado em diferentes modalidades de gestos apropriatórios, alguns deles já claramente
presentes na alta modernidade e em certas vanguardas artísticas, de Lautréamont a
Apollinaire, passando por Braque e Picasso: num gesto antiexpressivo de pendor pós-
romântico, T. S. Eliot apontou, por exemplo, para uma poesia que seria, ao mesmo tempo,
“escape from emotion” e “escape from personality”, tomada por um imperativo moral do
trabalho, do trabalho artístico, com uma dimensão também comunitária (ELIOT, 1964, p. 10). A
descrição de Eliot caberia na perfeição a obras como a de Oswald de Andrade, na qual, de
acordo com a epigramática síntese de Décio Pignatari, poderíamos reconhecer uma poesia
ready-made, uma poesia da posse contra a propriedade.

Historicamente, nas últimas décadas, estas manifestações de posse – da colagem à


intertextualidade ou ao sampling, passando pelo pastiche ou pela paródia – têm se
intensificado e tido consequências decisivas para a própria esfera da arte, e/ou para a
separação entre o artístico e o não-artístico, o literário e o não-literário, conforme
exemplarmente assinalou ainda Jameson nos seus ensaios de referência dedicados ao assunto.
Trata-se, sem dúvida, de um aprofundamento cada vez mais problematizante, autorreflexivo e
frequentemente irônico de práticas muito diversificadas, que na nossa atualidade se têm
apresentado como uma demonstração de resistência ao avassalador presentismo, graças ao
exercício de uma arte da memória muito especial, que o conceito de arquivo também poderá
ajudar a esclarecer.

No domínio poético específico que nos interessa, o estudo de Marjorie Perloff publicado em
2010, Unoriginal Genius: Poetry by Other Means in the New Century, possibilitou uma visão
sistemática destas questões em termos histórico-literários, fornecendo um conjunto de
elementos que nos permitem observar a força do fenômeno nas propostas das últimas
décadas à luz de um projeto como o do livro das Passagens de Walter Benjamin, passando
pelo concretismo brasileiro, na direção dos mais recentes exercícios provocatórios do norte-
americano Kenneth Goldsmith. A proposta de Perloff encerra um (aparente) paradoxo que
importa discutir, uma vez que o conceito de gênio sobre o qual assentou todo o projeto
filosófico e artístico moderno desde os grandes textos de Estética do século XVIII, ao pressupor
o papel fulcral que a natureza (physis) desempenha na formação do criador – de acordo com a
célebre fórmula de Kant segundo a qual o gênio seria a natureza dando regra à arte –,
dificilmente pode admitir uma vinculação à intencional falta de originalidade, dado que esta
pressupõe sempre algum tipo de trabalho (techné).

É intuito deste simpósio promover a discussão teórico-crítica deste complexo e instigante


processo histórico, a partir da leitura de obras poéticas específicas, nas quais sejam
identificáveis procedimentos intertextuais, interartísticos e intermediais que possam
enquadrar-se no âmbito de uma tal reflexão. Neste sentido, serão privilegiadas propostas que
incidam sobre conceitos ou aspectos históricos/teórico-críticos articulados em torno da noção
de gênio não original, além de propostas que trabalhem sobre obras poéticas em particular e
que se articulem na relação entre a poesia e outras artes/outros mídia e/ou o discurso
307
interartístico/intermedial da própria poesia.

Referências:

ABRAMS, M. H. O espelho e a lâmpada: teoria romântica e tradição crítica. Trad. Alzira Leite
Vieira Allegro. São Paulo: Editora da Unesp, 2010. (ed. orig.: The Mirror and the Lamp:
Romantic Theory and the Critical Tradition, 1953)

BROCKELMAN, Thomas P. The Frame and the Mirror: On Collage and the Postmodern.
Evanston: Northwestern University Press, 2001.

COMPAGNON, Antoine. La seconde main ou Le travail de la citation. Paris: Seuil, 1979.

ELIOT, T. S. Selected Essays. New York: Harcourt, Brace & New World, Inc., 1964.

EVANS, David (ed.). Appropriation. Whitechapel: Documents of Contemporary Art, 2009.

GOLDSMITH, Kenneth. Uncreative Writing. New York: Columbia University Press, 2011.

JAMESON, Fredric. The Cultural Turn: Selected Writings on the Postmodern 1983-1998. London
| New York: Verso, 1998.

PEDROSA, Celia et alii (org.) Indicionário do contemporâneo. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2018.

PERLOFF, Marjorie. O gênio não original: poesia por outros meios no novo século. Trad.
Adriano Scandolara. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. (ed. orig.: Unoriginal Genius: Poetry
by Other Means in the New Century, 2010)

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

NA TELA RÚTILA DAS PÁLPEBRAS: A MATERIALIDADE DO CORPO E DA TÉCNICA NA


COMPOSIÇÃO DA VOZ E DO OLHAR POÉTICOS DE JOSELY VIANNA BAPTISTA

Celia de Moraes Rego Pedrosa

BRINCADEIRAS GRÁFICAS, ESCUTAÇÕES, PEÇAS DE EXCEÇÃO: A INFÂNCIA COMO


PROCEDIMENTO

Paloma Roriz

O CONCRETO TRANS-EPOCAL

308
Gustavo Reis da Silva Louro

AS ESTRANHAS POSTAGENS DE CARLITO AZEVEDO

Tamy de Macedo Pimenta

DESBABELIZAR BABEL: RASURA DA ORIGEM

Laís Midori da Silva

17/07 (TARDE)

E TU, O QUE PENSAS TU? – A PROPÓSITO DE AUTORIA, DE NÃO ORIGINALIDADE, E DO LIVRO


[...] – ENSAIO SOBRE OS MESTRES, DE PEDRO EIRAS (2017)

Rosa Maria Martelo

TRÊS VARIAÇÕES DO HIPÓCRITA LEITOR EM ANA CRISTINA CESAR, PAULO HENRIQUES BRITTO
E MARCOS SISCAR

Pablo Simpson

A VERSÃO BRASILEIRA DO “GÊNIO NÃO ORIGINAL”: TRÂNSITO, DE KENNETH GOLDSMITH

Sergio Marcone da Silva Santos

COLISÕES E COLAGENS EM MEAN FREE PATH, DE BEN LERNER

Maria Cecilia Touriño Brandi

DIZER COM PALAVRAS ALHEIAS: EXPANSÃO E CLAUSURA NA POESIA BRASILEIRA


CONTEMPORÂNEA

Gustavo Silveira Ribeiro

18/07 (TARDE)

309
O CONFRONTO DA CRIAÇÃO: LEITURA E DESTRUIÇÃO EM TRÊS POETAS DE LÍNGUA
PORTUGUESA

Ida Maria Santos Ferreira Alves

CADERNOS, DE GONÇALO M. TAVARES: CO-PRESENÇA E HETEROGENEIDADE

Madalena Vaz Pinto

ALTERIDADE E ALTERIZAÇÃO: CONTESTAÇÃO E ALTERNATIVA À MORTE DO AUTOR EM


MANUEL GUSMÃO

Inês Seabra Carvalho

POESIA: A INTRADUÇÃO DE MARIANNE MOORE POR AUGUSTO DE CAMPOS

Julia Cortes Rodrigues

"AS ENZIMAS DO GÊNIO": ALGUMAS POÉTICAS CONTEMPORÂNEAS

Masé Lemos - Maria José Cardoso Lemos

86 - POÉTICAS INDÍGENAS EM FOCO


Coordenação: Profª. Drª Graça Graúna (UPE); Profª. Drª Maria Silvia Cintra Martins (UFSCar)

Resumo: O tema deste Simpósio reafirma o nosso compromisso com a Declaração das Nações
Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, aprovada em 2007, ao convocar a comunidade
internacional a se mobilizar para assegurar total respeito pela dignidade, pelo bem-estar e
pelas liberdades fundamentais dos povos indígenas. O foco do Simpósio trata da s poéticas
indígenas em suas diferentes manifestações. Nesta perspectiva, serão bem-vindos trabalhos
em torno da literatura e das artes indígenas em geral, incluindo o cinema, as cantorias, a
contação de histórias, a pintura corporal, a dança, a música, os cantos xamânicos, o ato de
declamar, o grafismo rupestre e o grafismo urbano de autoria indígena, entre outras artes
visuais. Sendo o congresso da ABRALIC de teor acadêmico, serão bem-vindos, de toda maneira,
trabalhos que se façam acompanhar de performances ou representações. Além disso, em se
tratando das artes indígenas, que possuem, por natureza, viés transdisciplinar, também será
possível e desejável que temáticas como as dos direitos de indígenas sejam abordadas,
conjuntamente à temática das poéticas indígenas. Um exemplo da poética indígena reside no
poema declamado por Ailton Krenak (liderança indígena) no dia 3 de agosto de 2018, durante
uma roda de conversa sobre literatura indígena, no Congresso da ABRALIC, em
310
Uberlândia/MG; trata-se do poema “Continuum”, que ele escreveu em 2005, na Serra do
Cipó/MG. Continuum também pode ser o conjunto de acontecimentos sequenciais e
ininterruptos, tais como sugerem as reflexões da ABRALIC 2018 acerca de circulação, tramas e
sentidos na Literatura. Nesse ritmo, o Simpósio POÉTICAS INDÍGENAS EM FOCO nos aproxima
(em vários sentidos): das canoas, dos rios e riachos; das montanhas, das serras; das lutas, dos
sonhos; do programa “Voz Indígena” (junto à Rádio UFSCar, da Universidade Federal de São
Carlos, que já conta com 65 edições) liderado por João Paulo Riberio (indígena guarani), que,
em sua pesquisa de doutorado, propõe a poética do traduzir para o Nheengatu a obra “Vidas
Secas”, de Graciliano Ramos, abrindo, com isso, um leque de possibilidades: a valorização e
retomada das línguas indígenas; a valorização das culturas indígenas, incluindo-se, nesse caso,
o xamanismo, já que o acadêmico guarani propõe que o ato tradutório se dê na esteira das
práticas xamânicas, chamando-nos a lembrar a importância do xamã como um tradutor entre
mundos; a revisita da obra de Graciliano Ramos, por meio de uma abordagem que prevê o
multinaturalismo e o perspectivismo indígena. O Simpósio também abrange a poética do
sonho azul nos versos do mapuche Elicura Chihuailaf. A poética de Elicura denuncia a sua
condição de indígena exilado. Na entrevista ao site Crí[Link], ele comenta que apesar do
deslocamento, a poesia revela que a cada dia ele “aprende a apreciar o que significa habitar
no meio de uma diversidade tanto na natureza quanto entre os homens”. A percepção do
mundo indígena também é notória na poesia charrua de Maria Huebilu a nos lembrar que os
ancestrais continuam vivos em nós, assim como a crônica de Severiá Idioriê, entre outros
textos escritos por mulheres indígenas no volume 4, da Revista LEETRA Indígena, da UFSCar,
em 2014. Desse modo, seguimos, nesta XVI ABRALIC, no continuum – como diria o poeta –
entre literatura e outros saberes como sugere a voz da terra na poética indígena. E a propósito
do Ano Internacional das Línguas Indígenas – dedicado pela ONU ao ano de 2019 – cabe
reiterar o direito de sonhar um mundo melhor; o direito de intuir os sentidos da literatura
indígena e tudo que nos aproxime da poesia necessária, como sugere o poética do
“Continuum”, no rastro dos nossos ancestrais.

Referências:

ABRALIC. Circulação, tramas & sentidos. Congresso Internacional. Uberlândia/MG, 2018.

CHIHUAILAF, Elicura. Sonho azul. Disponível em: [Link] leetra/ docs/


leetra_vol4. Acesso em [Link].2019.

CHIHUAILAF, Elicura. Entrevista. Disponível em: [Link]


poeta-elicura-chihuailaf-“el-estado-protege-saqueo-del-territorio-mapuche” . Acesso em
[Link].2018

GRAÚNA, Graúna. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo


Horizonte: Mazza Edições, 2010.

HUEBILU, Maria. Abuelas. Disponível em: grauna3@[Link]. Acesso em [Link].2019.

IDIORIÊ, Severiá. Quem somos? Para onde vamos? Disponível em: [Link]
leetra/ docs/ leetra_vol4. Acesso em [Link].2019.
KRENAK, Ailton. Continnum. Poema declamado na Mesa “Vozes ameríndias”, Congresso da
Abralic/2018, Uberlândia, MG.

311
LEETRA Indígena. Volumes 1 a 18. São Carlos: UFSCar/ Grupo de Pesquisa LEETRA. Disponível
em: [Link]

MARTINS, Maria Sílvia Cintra (Org.). Ensaios em Interculturalidade: Literatura, Cultura e


Direitos de Indígenas em época de globalização. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2014.

RIBEIRO, João Paulo. Guia Turístico: Tikanga rikue: uma profética do traduzir. São Carlos:
Pedro & João Editores, 2018.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

A POÉTICA INDÍGENA NO JOGO DA CONVERSA DOS CACHORROS COM A

ONÇA

João Paulo Ribeiro

A FORÇA DA LINGUAGEM EM NARRATIVAS INDÍGENAS TRADICIONAIS

Maria Sílvia Cintra Martins

A LITERATURA DE RESISTÊNCIA de GRACIELA HUINAO E ELIANE

POTIGUARA

Larissa Fontinele de Alencar

17/07 (MANHÃ)

NARRAÇÃO DE ACADÊMICOS INDÍGENAS NO ENSINO SUPERIOR PARA

UMA PERSPECTIVA LITERÁRIA SOBRE PRÁTICAS MUSICAIS

Mara Pereira da Silva

312
EXTUALIDADES INDÍGENAS COMO INSTRUMENTO DE RESISTÊNCIA

Aliria Wiuira Benicios de Carvalho

YAGUARÉ YAMÃ: EM BUSCA DE UMA LÍNGUA

Maria Andréia de Paula Silva

XAMANISMO, RESISTÊNCIA E POÉTICAS INDÍGENAS

Maria das Graças Ferreira (Graça Graúna, indígena Potiguara/RN)

18/07 (MANHÃ)

CENAS ENUNCIATIVAS NAS NARRATIVAS DE UM XAMÃ YANOMAMI

Viviane de Cássia Maia Trindade

LITERATURA DE AUTORIA INDÍGENA NA BAHIA: A RECONSTRUÇÃO

IDENTITÁRIA NA POÉTICA DE ADEMÁRIO RIBEIRO E JUVENAL PAYAYÁ

Randra Kevelyn Barbosa Barros

A ESTÉTICA COLONIZADORA EM CONTRAPONTO COM AS PRÁTICAS

CULTURAIS INDÍGENAS DE NATUREZA ESCRITA

Tarsila de Andrade Ribeiro Lima

87 - POLÊMICAS INTELECTUAIS NA AMÉRICA LATINA ENTRE OS


SÉCULOS XIX E XX: RETÓRICA, CULTURA E HISTÓRIA
Coordenação: Profa. Dra. Silvia Maria Azevedo (UNESP); Profa. Dra. Marina Silva Ruivo (UNIR);
Profa. Dra. Joana de Fátima Rodrigues (UNIFESP)

Resumo: Fenômenos da cultura de âmbito mundial que se registram em diferentes períodos


313
da História, as polêmicas intelectuais configuram-se como um dos traços marcantes da vida
político-cultural na América Latina, entre os séculos XIX e XX. A exemplo do que aconteceu no
Brasil, frequentemente os debates resultaram do trânsito de seus autores em redações,
editoras e gabinetes de homens influentes. Os interesses alheios, até certo ponto escusos,
acompanham as contendas em suas variadas formas e sob múltiplas vozes. Articuladas em
variados veículos e gêneros – manifestos, ensaios, correspondências, suplementos literários,
revistas, entrevistas, debates, folhetos de cordel -, as polêmicas arregimentaram grande parte
da intelectualidade, tanto da elite considerada letrada (jornalistas, literatos, juristas, médicos,
políticos), quanto da esfera dita popular (repentistas, cantadores e cordelistas). Formas de
intervenção discursiva que combinam as palavras escritas à imagética de seu tempo, as
polêmicas intelectuais na América Latina percorreram os séculos XIX e XX com alarde e sem
descanso, com participação de profissionais de diversos setores, em meio às singularidades
históricas, políticas e culturais de cada tempo e país. Em sua configuração, os debates
obedecem a determinados protocolos retóricos, tendo em vista a consagração dos próprios
atores envolvidos junto aos diversos auditórios. Com o aval dos veículos - fossem eles de
pequena, média ou grande tiragem -, a disseminação da palavra muitas vezes foi processada
mediante a legitimação dos pares, envolvendo interesses de personagens diretamente
envolvidos nas disputas ligados a variadas instâncias do poder. Naturalmente, os registros de
textos de natureza antagônica revelam algumas dubiedades. Isso interessa particularmente às
Letras, no âmbito dos estudos linguísticos e literários, já que a fatura do texto não apenas
segue alguns expedientes discursivos pré-moldados, mas permite apontar o caráter artificial e
postiço da polêmica em si. Ao lado de algum refinamento na linguagem, a contagiar também
os modos e tons de dizer, uma coisa e outra não impediram o elemento ruidoso, entre
opiniões e réplicas. A razão parece clara: quase sempre os autores exprimiam-se de
determinado modo também como tentativa de ostentar sua habilidade em tecer argumentos
contra um alvo em particular, convocando simultaneamente a adesão do público leitor.
Objetivando localizar e analisar certas marcas de conteúdo, forma e expressão que aproximam
os protagonistas de tais contendas de âmbito político e cultural, propomos responder algumas
questões de forma e fundo, dentre as quais: 1. Em que medida as polêmicas envolvendo os
intelectuais estariam mais ou menos ligadas a figuras públicas e/ou instituições de poder, nos
países de origem? 2. Sob que aspectos as divergências no campo das ideias poderiam revelar o
caráter personalista das figuras que se converteram em autênticos focos irradiadores dos
debates? 3. De que modo se pode relacionar o teor e a qualidade das discussões a
problemáticas relacionadas ao contexto sócio-histórico dos debates em marcha? 4. Afinal, o
que se entende por ―polêmica intelectual‖, especialmente naqueles países onde a produção
de cultura, e o acesso por parte dos pares, bem como dos leitores em geral, é tímido? 5. Como
avaliar o efetivo alcance de determinados debates, considerando a circulação de textos e
imagens nos veículos disponíveis, a partir de meados do século XIX? 6. Seria a polêmica, em si,
uma maneira apelativa e institucionalizada de clamar pela maior atenção de um público
rarefeito, ainda em fase de constituição? O resgate das discussões sobre temas aderentes à
cultura de cada país pode lançar novas luzes sobre a canonização da própria crítica, cujos
efeitos podemos sentir ainda hoje.

Palavras-chave: Polêmicas; Retórica; Intelectuais; História

PROGRAMAÇÃO

314
16/07 (MANHÃ)

“CONSELHEIRA DE ENCOMENDA”: O APÓSTOLO E OS FOLHETINS DE MARIA AMÁLIA VAZ DE


CARVALHO NO JORNAL DO COMÉRCIO

Esequiel Gomes da Silva

MEDEIROS E ALBUQUERQUE, CRÍTICO DE CRUZ E SOUSA (1893-1905)

Alvaro Santos Simões Junior

O MOMENTO LITERÁRIO, DE JOÃO DO RIO, E O ESPÍRITO DAS POLÊMICAS

Silvia Maria Azevedo

16/07 (TARDE)

RAPSODOS DA LETRA E DA VOZ: O “MARCO” POÉTICO DOS REPENTISTAS E CANTADORES


NORDESTINOS

Francisco Cláudio Alves Marques

OS FINS DA LITERATURA NO BRASIL DO LOOP: DUAS POLÊMICAS

Mario Tommaso Pugliese Filho

ENTRE O INTIMISMO ESPIRITUALISTA E O OBJETIVISMO SOCIAL DOS ANOS 1930

Edilson Dias de Moura

17/07 (MANHÃ)

1967 E 1997: AS POLÊMICAS EM TORNO DE PESSACH: A TRAVESSIA, DE CARLOS HEITOR CONY

315
Marina Silva Ruivo

ENTRE O OLHAR CONDESCENDENTE E A CRÍTICA MORDAZ: A POLÊMICA INTELECTUAL EM


TORNO DA AUTORIA FEMININA EM GILKA MACHADO E JUANA DE IBARBOUROU

Suzane Morais da Veiga Silveira

O EMBATE EM TORNO DO ESTRUTURALISMO: ROBERTO SCHWARZ E SILVIANO SANTIAGO

Ana Karla Carvalho Canarinos

88 - POSSIBILIDADES DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA POR MEIO DA


CIRCULAÇÃO E DO TRÂNSITO NA LITERATURA
Coordenação: Prof. Dr. Gerson Roberto Neumann (UFRGS); Prof. Dr. Alexandre Silva dos
Santos Filho (UNIFESSPA); Prof. Dr. Márcio Araújo de Melo (UFT-ARAGUAÍNA)

Resumo: A circulação de conhecimento, o trânsito e o intercâmbio de experiências acadêmico-


científicas são fundamentais para o alargamento da visão de mundo do ser humano, que
naturalmente se desloca de seu lugar para conhecer espaços que lhe possam oferecer
condições melhores de vida. O exemplo mais claro desses deslocamentos são as atuais
migrações e o movimento para os grandes centros urbanos. Também as viagens de
“descobrimento” do século XVI, assim como as viagens científicas dos viajantes do século XIX
marcam uma forma de aquisição de conhecimento e de (trans)formação do viajante, pois,
conforme Claude Levi Strauss (1955) e Ottmar Ette (2001), todo viajante não é mais o mesmo
depois de voltar de sua viagem. O viajante se transforma e também transforma os locais por
onde passa. O ser humano está em constante movimento.

Nesse sentido, pretendem-se discutir no simpósio proposto relações e parcerias movidas a


partir de trocas literárias no cenário brasileiro, entre regiões, especialmente do sul com a
região amazônica, e também as que extrapolam fronteiras tidas como nacionais, passando a
uma abordagem des-fronteirizada, pensando em comarcas, áreas, regiões (Pizzarro, 2005;
Rama, 2007). Assim, podem ser propostas diversas questões, como: o que é e a partir de onde
se é estrangeiro? A arte e a literatura pertencem a uma região, a uma nação? A quem
pertencem ou podem pertencer? Como podemos definir pertencimento? Cada movimento
prevê novas articulações em diferentes níveis continuadamente (viajantes como Alexander
von Humboldt, Arsène Isabelle, Auguste de Sain-Hilaire, Carl Friedrich Philipp von Martius,
para citar apenas alguns ilustres, tiveram os mais diferentes contatos com o local visitado).

A possibilidade de abrir espaço para discutir cooperações acadêmicas tem como objetivo
central reunir projetos de pesquisa que se alinham, sob uma perspectiva transdisciplinar e a
partir de movimentos transareais (Ette), para a compreensão de processos complexos e

316
diversos que envolvem questões de natureza contextual, olhares e sentidos produzidos sobre
regiões aparentemente – e muitas vezes tidas como - homogêneas, como a Amazônia, o
Pampa, o Pantanal, os Andes, articulando saberes que se integram na interface de estudos das
Literaturas, das Artes e da Formação de pesquisadores e estudiosos. A análise de diferentes
práticas de linguagens (produção linguística, literária e artística) e de práticas de formação,
mobilizando pressupostos téorico-metodológicos advindos dessas diferentes áreas de
interesse, se entrecruzam sob um viés transdisciplinar.

O desafio de investigar sentidos produzidos sobre as diferenças no domínio cultural,


linguístico, literário e artístico deve ser enfrentado sob a perspectiva intercultural (MAHER,
2007) que deve estar presente em todos os interesses de pesquisa nos diferentes campos do
conhecimento. Os estudos literários e artísticos mobilizam a análise da configuração em
regiões em construções discursivas diversas – literatura, relatos autobiográficos, crônicas de
viagens, narrativas orais e escritas, narrativas míticas, produções poéticas contemporâneas,
artes visuais, de modo a compreender o repertório produzido nas mais diversas regiões, numa
perspectiva intercultural e transtemporal.

A literatura, como expressão mais íntima de um grupo, de um povo, de um ser, traz em si um


emaranhado de relações complexas, deve ser sempre objeto de abordagem para que possa
entender (Erkenntnis), ou pelo menos se possa ter uma aproximação a essa intimidade, para
que possa existir uma con-vivência, uma troca. Em torno da literatura há movimento, há vida
que não para. A literatura é o movimento, levando consigo ou sendo parte carregada na
fluidez do movimento do tempo. Conforme Ette, no texto “Pensar o futuro: a poética do
movimento nos Estudos de Transarea”, a

literatura é [...] um saber em movimento, cuja estrutura multilógica


possui significativa importância para a sobrevivência do mundo do
século XXI e o desafio de garantir a convivência na paz e na diferença.
Também o jogo da literatura permite a continuidade de um pensar
simultâneo em múltiplos contextos e lógicas culturais, sociais,
políticas e psicológicas. (ETTE, 2016, 195-196)

A partir da presente proposta de ST para o Congresso da ABRALIC, pretende-se oportunizar a


discussão das relações e das trocas de conhecimento entre indivíduos que têm interesses em
comum e que buscam, nessa aproximação, reforçar e estabelecer um vínculo transareal e
interdisciplinar.

Referências:

Ette, Ottmar. Pensar o futuro: a poética do movimento nos Estudos. ALEA, Rio de Janeiro. vol.
18/2, mai-ago. 2016b, p. 192-209.

Ette, Ottmar. Literatur in Bewegung. Raum und Dynamik grenzüberschreitenden Schreibens in


Europa und Amerika. Göttingen: Verbrück Wissenschaft, 2001.

Lévi-Strauss, Claude. Tristes Tropiques, Plon, Paris, 1955.


317
Mahler, Terezinha. Machado. A Educação do entorno para a interculturalidade e o
plurilinguismo. In: Kleiman, A.; Cavalcanti, M. (Orgs.). Linguística aplicada – suas faces e
interfaces. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2007, p. 255-270.

Pizzarro, Ana. Imaginario y discurso: la Amazonia. In: Jobin, José Luís [Link]. (org.) Sentidos dos
lugares. Rio de Janeiro: ABRALIC, 2005.

Ranciére, Jacques. A Partilha do Sensível, Estética e Política. Trad. Mônica Costa Netto. São
Paulo: Ed. 34, 2005.

Rama, Angel. Transculturación narrativa en América Latina. Buenos Aires: Ediciones El


Andariego, 2007.

Rama, Angel. La Ciudad Letrada. Santiago: Tajamar Editores, 2005.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

DE DOIS CANTOS ACREANOS A TURISTA APRENDIZ: O NÃO SABER E O NÃO CABER DO


MODERNISMO EM MARIO DE ANDRADE

Rita Lenira de Freitas Bittencourt

A IMPORTÂNCIA DAS OBRAS DE VIAJANTES PARA O TRÂNSITO DE EXPERIÊNCIAS EM UM


CONSTEXTO TRANSAREAL

Gerson Roberto Neumann

PELAS ÁGUAS DO RIO AMAZONAS: MOVIMENTANDO OS SABERES CULTURAIS E LITERÁRIOS

Fidelainy Sousa Silva

17/07 (MANHÃ)

A EXOFONIA E O PAPEL DA ESCRITA TRANSLINGUÍSTICA NA RENOVAÇÃO DA LITERATURA


ALEMÃ

Marianna Ilgenfritz Daudt

318
AS POÉTICAS EM MOVIMENTO DE GRJASNOWA E VARATHARAJAH: AS POSSIBILIDADES DA
NOVA WELTLITERATUR NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA EM LÍNGUA ALEMÃ

Monique Cunha de Araújo

A MEDIDA DO MUNDO, DE DANIEL KEHLMANN: UMA VIAGEM ATRAVÉS DA CIÊNCIA

Carla Luciane Klos Schöninger

DESMEDIDA DO SERTÃO

Márcio Araújo de Melo

89 - PÓS-COLONIALISMO, RESISTÊNCIA E RELIGIOSIDADE NAS


LITERATURAS AFRICANAS
Coordenação: Prof. Dr. Silvio Ruiz Paradiso (UFRB); Prof. Dr. Dejair Dionísio (UFGD)

Resumo:A religião e a religiosidade se tornam importantes dentro do espaço colonial, justame
nte por serem elementos presentes na mentalidade e discurso tanto do colonizador como na
do colonizado. O tema é indissolúvel ao processo de colonização, uma vez que ambos os
grupos antagônicos se serviram do fenômeno religioso para
justificar a política colonial (colonizadores, missionários cristãos), ou resistir ao processo,
revidando a opressão e desconstruindo discursos, engendrando o processo de descolonização
(colonizado, curandeiros, pajés).

Dentro do mundo colonial (ou pós-colonial), o fato é que antes do processo de invasão, muitos
povos colonizados possuíam seu conjunto de crenças, mitos e rituais, a fim de adorar seu
passado e todos que nele habitam (antepassados, heróis, divindades teogênicas, etc.). Nisso, a
crença passa a ser a resposta para o não explicável, fonte de benção, de terra  fértil, contra
epidemias, ou seja, consolo e resignação. A religião/religiosidade passa a ser reflexo desse
grupo agora “periférico”, “outremizado”, “invadido”, uma fundamentação de consolo e
legitimação que, por dar força em suportar as mazelas da colonização, faz dela (a religião e
suas práticas) um recurso social para dela fazerem sua fortaleza: “Nascemos fracos e indefesos
[...] o fiel que entrou em contato com o seu deus [...] se tornou mais forte. Ele sente dentro de
si, mais força, seja para suportar os sofrimentos da existência, seja para vencê-los”

(Alves, 1989:64). Da mesma forma, com o grupo invasor, que verá na Religião, pressupostos
para o domínio, supremacia e conquista de outros povos.

A crença não é um fenômeno isolado, desenvolve-se em um contexto plural, social, econômico
e cultural. Fé, crença e religião são da natureza humana, seja do vencedor ou do vencido, do
319
invasor ou do invadido, pois como observa Rubens Alves (Loiola, 2011:162) “quando se
esgotam os recursos da técnica’, florescem sempre um representante do sagrado: o padre, o
feiticeiro [...]” –  e como tais personagens floresceram no confronto colonial!
Analisar a prática religiosa africana (tradicional ou não), bem como a cristã, em uma literatura
altamente política revela a verdadeira função das literaturas pós-coloniais. Mia Couto,
Chinua Achebe, Wole Soyinka, Boaventura Cardoso, Pepetela, Ben Okri, Ahmadou Kourouma,
Paulina Chiziane, Odete Semedo, entre outros autores africanos veem nas práticas religiosas
tradicionais de África, metáforas, símbolos e analogias altamente positivas para a construção
literária, cujo intuito é, além de despertar emoções através da poética, trazer reflexões,
denúncias e espaço para a reconstrução histórica e para a voz de etnias silenciadas. Esses
autores africanos, de produções literárias qualitativa e quantitativamente significativas, se
encontram em um projeto estético próprio dos estudos pós-coloniais, baseado em conceitos
de resistência, revide, contra argumentação, subversão, ou seja, elementos que visam o
discurso enquanto poder, como revela Foucault em Microfísica do poder (1979). Essas
produções africanas, em especial, têm a capacidade de produzir esse discurso literário
politizado, na relação entre colonizador e colonizado).  As literaturas africanas abordam a
problemática colonial e pós-colonial análoga a elementos e fenômenos religiosos. O fato
particular das literaturas africanas em relação aos aspectos religiosos de suas obras está em
sua literariedade clamar uma africanidade e de acordo com Salvato Trigo (1981) um texto
literário africano “tem sua africanidade latente, quando procura a inspiração no
tradicionalismo religioso, isto é, no animismo” (p.147. Grifo meu). Em The post colonial
studies: key concepts Second edition (2007:188), Ashcroft et al., revelam a necessidade de se
começar a atrelar os estudos da religião junto com os estudos pós-coloniais, visto que os
escopos religiosos e políticos estão atrelados no âmbito colonial, e problematizam: “ Religion
could thereafore act either as a means of hegemonic control or could be employed by the
colonized as a means of resistence”. Mas não são apenas os teóricos que entendem o valor
dos estudos da religião ao estudo literário e pós-colonial. Muitos autores africanos, como
Chinua Achebe, Pepetela e Mia Couto, por exemplo, acreditam que escrever sobre África e
colonização sem dar a devida importância à religião, não é escrever sobre África e sobre o
colonialismo. Desta forma, este simpósio quer discutir, questionar e problematizar as
manifestações da religião e das religiosidades nas literaturas africanas pós-coloniais
(anglófonas ou lusófonas) tanto no âmbito do colonizador como do colonizado, através de
uma estética própria, que apresente as ambivalências, lutas simbólicas e o pensamento
político do mundo [pós] colonial.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

DE PÉ SOBRE OS ESCOMBROS - JOSÉ CRAVEIRINHA E O MUNDO COLONIAL EM XIGUBO

Marcelo França Marques Cândido

320
O IMAGINÁRIO E O SUNGUILAR NA LITERATURA ANGOLANA, O CASO DO CONTO DE JOFRE
ROCHA

Dejair Dionísio

ASPECTOS RELIGIOSOS E POLÍTICOS EM A REVOLTA DA CASA DOS ÍDOLOS (1980), DE


PEPETELA: TEORIZANDO O PENSAMENTO ANIMISTA

Silvio Ruiz Paradiso

90 - PRÁTICAS DE LEITURA LITERÁRIA NAS PESQUISAS DO


PROFLETRAS
Coordenação: Dra. Rosiane Maria Soares da Silva Xypas (UFPE); Dra. Luiza Helena Oliveira da
Silva (UFT)

Resumo: O ProfLetras (Programa de Mestrado Profissional em Letras em Rede Nacional)


assume como desafio desenvolver pesquisas que apontem para novas práticas de ensino-
aprendizagem na educação básica, dentre as quais se situam as que envolvem a formação de
leitores de literatura. Contrariamente a um ensino tradicional de literatura que prioriza
aspectos apenas formalistas e estruturalistas nos estudos literários e diante do interesse cada
vez maior de jovens leitores sobre outras textualidades, como ainda a atenção crescente da
escola por abordagens do texto literário que limitam a leitura à apreensão da estrutura dos
gêneros (SILVA e MELO, 2018), as pesquisas desenvolvidas o âmbito do Programa se
multiplicam em diferentes abordagens e perspectivas teórico-práticas que têm em vista modos
distintos de ler e se apropriar da literatura nos (des)limites da escolarização. Em comum,
podemos identificar nos trabalhos analisados a rejeição ao estudo tradicional traduzido na
leitura para assimilar a caracterização das obras nos respectivos períodos literários, o emprego
do texto literário para interesses de natureza puramente gramatical ou abordagens que
privilegiem uma análise essencialmente estrutural dos textos. Ultrapassados os limites das
práticas ainda persistentes na escola, uma questão emerge: com efeito, o que efetivamente
tem se apresentado como alternativas que visem efetivamente a garantir a competência
leitora e o gosto pelo literário? Pela própria orientação das diretrizes do programa, os
trabalhos produzidos no ProfLetras devem ser de natureza interventiva, tomando como objeto
de investigação e ação aulas em escolas públicas dos anos finais do ensino médio, nas quais o
pesquisador é também o docente da disciplina de Língua Portuguesa, sendo a literatura um de
seus conteúdos. Em princípio inserindo-se sob a dimensão interdisciplinar, esse conteúdo pode
mostrar-se disperso, tratado assistematicamente ou mesmo ausente nas práticas de leitura na
escola. Tendo em vista a Base Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2018), podemos
atestar que orientações oficiais são dadas para o tratamento da literatura no ensino
fundamental. Embora esteja presente no referido documento, fica evidente o interesse maior
atribuído aos textos midiáticos ou ainda a tradução dos textos literários em diferentes mídias,
favorecendo a perspectiva de um leitor que se faz autor, não apenas por uma filiação de
natureza discursivo-enunciativa, mas principalmente por uma orientação de ordem mais
pragmática ou que vise a envolver os jovens leitores em práticas mais afins ao seu pretenso

321
universo de interesse. Vale ressaltar ainda que a leitura na BNCC (BRASIL, 2018), no tocante ao
ensino fundamental, compreende as práticas de linguagem que decorrem da interação ativa
do leitor/ouvinte/espectador com os textos escritos, orais e multissemióticos e de sua
interpretação, sendo exemplos as leituras para fruição estética de textos e obras literárias.
Particularmente, compreendemos a leitura literária como campo de investigação de processos
interpretativos do sujeito-leitor lendo aliando-as às práticas avaliativas. Nesse cenário, o que
propõem as pesquisas do ProfLetras? Este simpósio propõe reunir trabalhos desenvolvidos por
docentes pesquisadores desse programa para compartilharem suas experiências, tornando
possível delinear as contribuições que vêm produzindo para a Educação Básica. Que caminhos
o docente pesquisador têm desenvolvido no que diz respeito à formação de leitores literários
no ensino fundamental? Que orientações teóricas vêm subsidiando essas produções? Quais
são os aspectos convergentes e divergentes que marcam a produção de 42 universidades que
representam o total de 49 unidades do ProfLetras distribuídas pelas 5 regiões do país no que
diz respeito aos resultados desse grande esforço nacional? Convidamos, assim, esses
pesquisadores para este simpósio que visa constituir-se como um grande encontro para
diálogos, momentos de reflexão conjunta, trocas de experiências, buscando adensar a
dimensão crítica e reflexiva que deve orientar as práticas de ensino e de pesquisa que
envolvem o ensino de literatura, a formação de leitores na escola e o letramento literário.
Partimos do pressuposto de que o campo aplicado produz sua própria teorização, a rever,
refazer, reatualizar a dimensão teórica. Em outras palavras, esse campo pode permitir, além
de uma reflexão sobre as práticas, uma ponte mais que essencial sobre teorias, pondo-as à
prova para fortalecer a prática pela teoria e ampliar a teoria graças à prática. No caso das
pesquisas sobre a literatura na escola, a discussão demanda avanços, enfrentando ainda o
ranço de que pesquisar o ensino se trata de um problema menor para os estudos da área. Para
o ProfLetras, restam a urgência e o compromisso com a escola.

Palavras-chave: leitura literária; educação básica; prática docente; ProfLetras.

Referências:

COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2007.

_____. A formação do professor de literatura: uma reflexão interessada. In: PINHEIRO, A. S.;
RAMOS, F. B. (Orgs). Literatura e formação continuada de professores: desafios da prática
educativa. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2013. p. 11-26.

_____. Círculos de leitura e letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.
189p.

FIORIN, J. L. Objeto artístico e experiência estética. In: LANDOWSKI, Eric; DORRA, Raúl;
OLIVEIRA, Ana Cláudia (Orgs.). Semiótica, estesis, estética. São Paulo/Puebla: EDUC/UAP, 1999,
p. 101 – 118.

FREITAS, M. R. S. Contribuições do digital para a formação do leitor literário: interações na


leitura de “A Hora da Estrela”. 2016. 158 f. Dissertação (Mestrado). Programa de Mestrado
Profissional em Letras em Rede Nacional, Universidade Federal do Tocantins, Araguaína.

ROUXEL, A. Práticas de leitura: quais rumos para favorecer a expressão do sujeito leitor?
Cadernos de Pesquisa, v.42, n.145, p.272-283, jan./abr. 2012.

322
_____. Autobiografia de leitor e identidade literária. In: ROUXEL, Annie; LANGLADE, Gérard;
REZENDE, Neide Luzia (Orgs.). Leitura subjetiva e ensino de literatura. São Paulo: Alameda,
2013, p. 67 – 87.

SILVA, L. H. O. Não vejo o mundo com seus olhos: inquietações sobre a leitura e a literatura na
perspectiva da semiótica didática. In: BRITO, A. R.; SILVA, L. H. O.; SOARES, E. P. M. (Orgs.).
Divulgando conhecimentos de linguagem: pesquisas em língua e literatura no ensino
fundamental. Rio Branco: NEPAN, 2017, p. 195-211.

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_____. Por um retorno ao texto e seus (dis)sabores: pesquisas sobre literatura no ProfLetras.
EntreLetras (Online), v. 9, p. 86-102, 2018.

MELO, M. A.; SILVA, L. H. O. O leitor atrapalhado e a formação docente. Revista Brasileira de


Literatura Comparada, v. 35, p. 63-75, 2018.

SOUZA, L. F. Literatura negra e indígena no letramento literário: um estudo sobre a identidade


leitora de alunos do ensino fundamental II. 2015. 151 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade
Federal de Uberlândia, Programa de Mestrado Profissional em Letras – PROFLETRAS,
Uberlândia.

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leitor. 1a. ed. Olinda: Nova Presença, 2018. 110p.

_____. A leitura subjetiva no ensino de literatura: O texto do leitor em L’Analphabète de Agota


Kristof. Revista Eletrônica de Educação - RELEDUC, v. 1, p. 33-48, 2018.

_____; ROUXEL, A. Ousar ler a partir de si: desafios epistemológicos, éticos e didáticos da
leitura subjetiva. Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 20, p. 10-25, 2018.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

DO CORPO DO TEXTO AO CORPO DO LEITOR: REAPROPRIAÇÃO, ENCENAÇÃO DA FICÇÃO


ASSOMBRADA

Alberto Soares de Farias Filho

DE REMINISCÊNCIAS LEITORAS A RESSIGNIFICAÇÕES NO ENSINO DA LITERATURA

Andressa Penna Almeida

323
CONTRIBUIÇÕES DA LEITURA LITERÁRIA NA FORMAÇÃO DE ALUNOS LEITORES NA PRIMEIRA
ETAPA DO ENSINO FUNDAMENTAL

Audrey Barbalho Barbosa

PRÁTICA DE LETRAMENTO LITERÁRIO NO ENSINO FUNDAMENTAL A PARTIR DA OBRA MORTE E


VIDA SEVERINA

Gleicy Moraes Santos

16/07 (TARDE)

PRESENTE, PASSADO E PRESENTE: MOVIMENTOS CIRCULARES NA LEITURA DE MEMÓRIAS


LITERÁRIAS NA FORMAÇÃO DO SUJEITO LEITOR

José Geraldo Silva Cordeiro

ORIENTAÇÕES EM PROF-LETRAS, O ENSINO DE LITERATURA E A FICTO-REALIDADE

Mario Cesar Newman de Queiroz

METALINGUAGEM E FIGURA E FUNDO NA LEITURA DE NARRATIVAS LITERÁRIAS

Natália do Nascimento Ferreira

ECOS SUBJETIVOS DE SUJEITOS LEITORES NA LEITURA DE POEMAS E ESCRITA NAS MARGENS

Rosiane Maria Soares da Silva Xypas

DA PRÉ-LEITURA A DEGUSTAÇÃO LITERÁRIA: PRÁTICAS DA SALA DE AULA

Saulo Batista de Souza

17/07 (MANHÃ)

LETRAMENTO LITERÁRIO EM UMA ESCOLA DE EDUCAÇÃO BÁSICA EM IMPERATRIZ


324
MARANHÃO

Iodete Elias Pereira

LEITURA DE MEMÓRIAS LITERÁRIAS NO CONTEXTO DE SALA DE AULA

Stela Maria Viana Lima Brito

A POESIA DE CORDEL E O LETRAMENTO LITERÁRIO NO CONTEXTO ESCOLAR

Zilene Fernandes de Sousa Santana

O ENSINO DE LEITURA DE LITERATURA: REFLEXÕES ACERCA DO PERCURSO FORMATIVO E


EXPERIÊNCIAS DE DOCENTES MESTRES PELO PROFLETRAS/UFT

Érica de Cássia Maia Ferreira Rodrigues

FORMAS DE APROPRIAÇÃO DO TEXTO LITERÁRIO: SOBRE LIVROS E TEXTOS

Luiza Helena Oliveira da Silva

91 - QUESTÕES METAFÍSICAS NA LITERATURA: EPISTEMOLOGIA DO


ROMANCE COMO DEBATE ONTOLÓGICO DO FAZER ARTÍSTICO
Coordenação: Profa. Dra. Ana Paula Aparecida Caixeta (UnB); Profa. Dra. Maria Veralice
Barroso (UnB/SEEDF)

Resumo: A busca por questões que configuram elementos constitutivos do fazer artístico no
espaço da narrativa é ação elementar para os estudos da Epistemologia do Romance. Desse
modo, a proposta deste simpósio assume ser reflexo de uma trajetória de olhares
assumidamente preocupados com a gênese do fazer romanesco, construída a partir do grupo
homônimo à teoria em questão. Com provocações que tangenciam ordens das mais diversas
áreas, propondo-se interdisciplinar, a Epistemologia do Romance é evocada aqui como ponto
de partida basilar para lidar com aspectos inerentes aos elementos que compõem o romance –
em consequência, outras artes. Da figura autoral ao leitor inquieto, perverso por natureza, o
debate que aqui se incita preocupa-se em reunir abordagens e reflexões que coadunem com o
espaço literário em um movimento intra e extratextual, cujos esforços transportam-nos para
questões importantes da arquitetura estética construída pelo sujeito que cria, abrangendo um
caráter que não se fecha em uma ou outra proposição teórica ou análise, mas que
contextualiza e relativiza possibilidades de interpretações a partir de gestos filosóficos que se

325
propõem comprometidos com várias áreas do conhecimento, especialmente a Filosofia e a
Literatura. Por ter em seu berço a necessidade de entendimento do humano a partir da arte, a
Epistemologia do Romance aproxima-se de uma linha entendida como metafísica, por compor,
em seu processo de análise uma configuração ontológica da arte que contempla olhares
contemporâneos no sentido de buscar as multiplicidades envolvidas no contexto da criação, da
recepção e, dialeticamente, da experiência estética. É um olhar metafísico por estar atrelado a
uma pretensão maior de assumir como possibilidade o conhecimento do objeto estético,
podendo ele ser literário ou não, cujas estruturas forneçam vestígios de escolhas importantes,
nascidas pelo ato criativo que também se propõe gestual: estético e filosófico. As influências
teóricas que corroboram para tais escolhas são oriundas de uma gama de estudiosos e
literatos, com destaque para Hermann Broch, Milan Kundera, Carlos Fuentes, Glauco Mattoso,
Eliane Brum, Michel Foucault, Immanuel Kant, Friedrich Hegel, G. Gadamer, dentre outros de
relevância evidenciada. As possíveis temáticas acolhidas na proposição aqui fomentada devem
atentar-se às mais variadas questões do sujeito moderno e contemporâneo, preocupando-se
em explorar o objeto estético, na busca por questões que possibilitem o pensar acerca do
humano a partir da forma sensível da arte, num movimento que se assuma ousado,
especialmente por ocupar espaços de discussão negligenciados em outras linguagens que não
a da forma da arte. Desse modo, procura-se aqui refletir em que ponto o olhar metafísico que
aceita problemas que são de caráter universal, como questões da condição humana, mas
representados pela forma da arte a partir do particular, são sustentados em um terreno
fecundo de discussão no que tangem as esferas da vida e suas propriedades ontológicas. O que
se coloca aqui como movimento dialético entre o universal e o particular, tensionados pela
arte, é o objeto construído com uma intencionalidade que deixa rastros, especialmente ao
esboçar motes que estão intrínsecos ao indivíduo, mas que refletem uma coletividade e um
comportamento passível de ser representado pelo espaço da arte. É importante reforçar que a
ocupação desse espaço não se dá, em muitas das vezes, de modo leviano e puramente
intuitivo. Ao contrário, em muitas obras são encontradas pegadas curiosas da intenção do
artista, por demonstrar consciência e racionalidade acerca de suas escolhas estéticas mais
propícias para dar conta de temas espinhosos do cotidiano humano. Dentre estes, o sexo, a
sexualidade, as relações afetivas discrepantes de uma moral vigente ou padronização ou
questões ligadas à morte e decadência humana ganham reverberação na narrativa literária – e
por que não em outras manifestações artísticas – por não se comprometerem com nenhum
elemento externo que os julgue enquanto valores e princípios éticos e morais. Assim sendo,
acredita-se que a proposta aqui apresentada possa contemplar possibilidades de discussões
sobre assuntos hodiernos que se apresentam problemáticos diante de um cenário atual
complexo, cujas reações à arte pairam sobre fenômenos da superficialidade e dificuldade de
compreensão daquilo que se quer dizer sobre nós mesmos e nossas mais emergentes
sensações. Nesse sentido, o simpósio “Questões metafísicas na literatura: epistemologia do
romance como debate ontológico do fazer artístico” demonstra especial interesse por
trabalhos que procurem refletir acerca de aspectos voltados à condição humana presentes nas
narrativas literárias, muitas vezes, silenciados pelas morais vigentes tais como: o belo versus o
feio, as relações corpo versus alma, sexualidades, erotismo, sedução, o riso nas suas mais
diversas manifestações, abjeções... Da mesma forma, pretende acolher trabalhos que
busquem pensar o romance moderno, sua constituição estética, história e trajetória pela
modernidade enquanto espaço de acolhimento dos conflitos e angústias humanas.

Palavras-chave: Epistemologia do Romance; Metafísica; Estética.

326
Referências

BROCH, H. Os sonâmbulos. Trad. Wilson H. Borges. S.P: Germinal, 2003.

_____. Espírito e espírito de época:ensaios sobre a cultura da modernidade. Trad. Marcelo


Backes. 1ª edição- São Paulo: Benvirá, 2014.

_____.Création Littéraire et connaissance. Trad, do alemão. Albert Kohn. Paris: Gallimard,


1966.

BRUM, E. Uma duas. São Paulo: Leya, 2011.

FOUCAULT, M. História da sexualidade 1 – A vontade de saber. (Trad. Maria Thereza da Costa


Albuquerque e José Augusto Guilhon Albuquerque). São Paulo: Edições Graal, 2011.

FUENTES, C. Geografia do romance. Trad. Carlos Nougué. RJ.:Rocco, 2007.

GADAMER, H. G. Verdade e Método 1. (Trad. Flávio Paulo Meurer) Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

HEGEL, G. W. F. Cursos de Estética I. (Trad. de Marco Aurélio Werle – 2ª ed) São Paulo: Editora
Universidade de São Paulo, 2001.

KANT, I. Crítica da faculdade de juízo. (Trad. Valério Rohden e António Marques) Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2010.

_____. Crítica da razão pura. (Trad. Fernando Costa Mattos). Petrópoles, RJ: Vozes; Ed.
Universitária São Francisco, 2015.

KUNDERA, M. A cortina. Trad. Teresa Bulhões C. da Fonseca. São Paulo: Companhia Das letras,
2006.

_____. A arte do romance. Trad. Teresa Bulhões C. da Fonseca e Vera Mourão. Rio de Janeiro:
Nova fronteira, 1988.

MATTOSO, G. Manual do podólatra amador: aventuras & leituras de um tarado por pés. São
Paulo: All Books, 2006.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (Manhã)

A ESTÉTICA NO CONTEXTO DA EPISTEMOLOGIA DO ROMANCE

Ana Paula Aparecida Caixeta

ROMANCE QUE PENSA

327
Maria Veralice Barroso

O NARRADOR NA EPISTEMOLOGIA DO ROMANCE: O GESTO FILOSÓFICO

Priscila Cristina Cavalcante Oliveira

AS NARRATIVAS (IM)POSSÍVEIS NOS ROMANCES METAFICCIONAIS HISTORIOGRÁFICOS DE


BARBARA CHASE-RIBOUD: DISCURSO, CORPO E PODER

Dayse Rayane e Silva Muniz

AUTORREFLEXÃO CRIATIVA: O ETHOS DO INSCRITOR-LOCUTOR DE GEORGE SAND

Daiane Basilio de Oliveira

17/07 (Manhã)

DA RELATIVIDADE DA PERCEPÇÃO DO REAL NA OBRA TERRA NOSTRA DE CARLOS FUENTES

Denise Moreira Santana

“ME DORMÍ AQUEL DÍA SOÑANDO EN QUE FUSILARÍAN OTRO Y DESEANDO QUE FUERA JUNTO
A MI CASA”: A REVOLUÇÃO MEXICANA SOB OLHOS INFANTIS

Janara Laíza de Almeida Soares

O PERSONAGEM COMO “EGO EXPERIMENTAL” NOS ESTUDOS DA EPISTEMOLOGIA DO


ROMANCE

Nathália Coelho da Silva

A SACRALIZAÇÃO DO AMOR MATERNO: FRONTEIRA ROMPIDA

Neila da Silva de Souza

O HOMEM DO ABSURDO E A QUESTÃO DO ESVAZIAMENTO EXISTENCIAL


328
Patrícia Pilar Farias

18/07 (Manhã)

O ÂMBITO METAFÍSICO DA EPISTEMOLOGIA DO ROMANCE

Emanuelle Souza Alves da Silva

SOBRE A CONDIÇÃO HUMANA E A ESTÉTICA ROMANESCA DE VERGÍLIO FERREIRA

Gledinélio Silva Santos

O IDÍLIO KUNDERIANO NA EPISTEMOLOGIA DO ROMANCE

Herisson Cardoso Fernandes

IDENTIDADE METADISCIPLINAR: MILAN KUNDERA À LUZ DE SEUS ENSAIOS

Rafael Gallina Bin

EXÍLIO E VULNERABILIDADE NA LITERATURA E NAS ARTES: VIAJANTES, ESTRANGEIROS,


COMUNS E DESOCUPADOS EM TAUNAY E ELVIRA VIGNA

Rosana Campos Leite Mendes

93 - REINTERPRETAÇÕES DO BRASIL RUMO A 2022: (AINDA) EM TORNO


DA RELAÇÃO ENTRE LITERATURA E IDENTIDADE NACIONAL
Coordenação: Prof. Dr. Alexandre Graça Faria (UFJF), Profa. Dra. Tatiana Franca Rodrigues
Zanirato (UFG)

Resumo: À Guisa de Prefácio, Machado Penumbra vaticinava categoricamente aos leitores


incautos de Memórias Sentimentais de João Miramar: “O Brasil, desde a idade trevosa das
capitanias hereditárias, vive em estado de sítio. Somos feudais, somos fascistas, somos
justiçadores” (ANDRADE, 1997, p43). O espírito modernista, bem sabia Oswald, caracterizava-
se, sobretudo, pela civilizada capacidade de aceitação desrecalcada do passado histórico
329
brasileiro. Mesmo assim, o projeto estético modernista apostava na utopia da superação dos
modelos arcaizantes que nos tornaram fadados a ser “uns desterrados em nossa terra”
(HOLLANDA, 2016, p. 39), para citar o clássico Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda.

Há três anos da comemoração do bicentenário da Independência e do centenário da Semana


de Arte Moderna, a literatura contemporânea nacional ainda se desdobra em torno das
questões identitárias propulsoras da Semana de Arte e produz, no discurso de ficção,
elaborações que respondem à questão oswaldiana sobre “quem seria o brasileiro do século
XXI”: a literatura marginal, produzida nas favelas, reclama seu direito à cidadania; a literatura
indígena expõe as fraturas do legado romântico; as literaturas feministas, sobretudo a
literatura feminista negra, exigem seu o lugar de publicação; as literaturas afrodescendentes
respondem à memória do Navio Negreiro com o punho de ferro que marca sua escrita; a
literatura LGBT obriga crítica e público leitor a se reposicionarem sobre questões de autoria.
Nada é feito com a concepção de que literatura é alheia ao homem do seu tempo.

Não obstante, no dia 24 de Janeiro deste ano, o deputado Jean Wyllys – identificado como
representante mais contundente da população LGBTQI+ e opositor declarado das ideologias
propaladas pelo governo presidido por Jair Bolsonaro – foi levado a desistir do mandato, para
o qual foi legitimamente eleito no ano de 2018, em função de ameaças feitas à sua vida,
ameaças essas semelhantes àquelas que vitimaram a parlamentar Marielle Franco, cujo
assassinato está há mais de 300 dias sem esclarecimentos conclusivos (não há como ler o
percurso destes últimos meses sem analisá-los como desdobramento do golpe jurídico-
político-midiático que destituiu a presidenta Dilma Roussef, democraticamente eleita, no ano
de 2016).

Este breve panorama sobre a atual situação política do Brasil revigora as palavras de Oswald
de Andrade, que viu a inclinação brasileira para o fascismo durante o elã modernista e,
exatamente por isso, torna necessário ler com atenção a advertência de Jessé Souza em A elite
do atraso: da escravidão à Lava Jato, em que nos impele a admitir que as colocações de
Sérgio Buarque e também as de Penumbra criaram a concepção do culturalismo racista
americano, que identificamos como o “vira-lata” brasileiro e que, segundo o sociólogo,
autorizou um “conjunto de ideias falsas que nos amesquinham e retiram nossa autoestima que
tornou possível a grande farsa do golpe de maio de 2016 e de todos os outros golpes
supostamente contra a corrupção” (SOUZA, 2017, p. 35).

Em Comunidades imaginadas, Benedict Anderson (2008, p. 34) aponta que uma nação é “uma
comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao
mesmo tempo, soberana”; segundo o historiador, ela é “imaginada como uma comunidade por
que, independentemente da desigualdade e da exploração efetivas que possam existir dentro
dela, a nação sempre é concebida como uma profunda camaradagem horizontal” (ANDERSON,
2008, p. 34, grifo do autor). As novas vozes que se colocam no cenário literário e cultural
brasileiro, anteriormente elencadas, vêm expondo as fraturas do projeto brasileiro de uma
comunidade imaginada e, consequentemente, de uma identidade nacional estável e
homogênea (fenômeno observado não apenas no Brasil, mas comum na pós-modernidade,
como aponta Stuart Hall).

Nesse sentido, os Estudos Culturais apresentam-se como a abordagem metodológica mais


apropriada para este Simpósio Temático porque deseja reunir pesquisas em torno das
questões de representações da identidade nacional, tanto na maneira em que são
problematizadas e interpeladas pelas expressões das identidades culturais contemporâneas

330
quanto na medida em que ressignificam clássicos coloniais, românticos e/ou modernistas, que
se ocuparam da construção da identidade nacional brasileira. Deseja-se, assim, iniciar uma
reflexão que pode ser desdobrada ao longo dos próximos anos sobre a forma como o “homem
do século XXI” chegará enfim às efemérides que serão em breve comemoradas e a forma
como a literatura e a cultura elaboram este momento da vida social brasileira. VAE VICTIS,
disse o Penumbra. Mas permaneceremos aqui de mãos dadas.

Referências:

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do


nacionalismo. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Edição Comemorativa 80 anos [1936-2016].

PENUMBRA, Machado. À Guisa de Prefácio. In: ANDRADE, Oswald. Memórias sentimentais de


João Miramar. São Paulo: Globo, 1997.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

CONSTRUÇÃO-RUÍNA: PARADOXO DA IDENTIDADE BRASILEIRA

Alexandre Graça Faria

MATA TEU PAI: FEMINISMO E QUESTÃO RACIAL NA OBRA DE GRACE PASSÔ

Bárbara Cristina dos Santos Figueira

UM OLHAR DE FORA: LITERATURA E DIPLOMACIA NO ROMANCE DE EDGARD TELLES RIBEIRO

Célio Diniz Ribeiro

O PAPEL DO NARRADOR NA REPRESENTAÇÃO DA NAÇÃO EM DOIS ROMANCES DE PAÍSES


PERIFÉRICOS

Melissa Quirino Scanhola

331
NOVE MOTIVOS PARA TER MEDO DE DEUS: UMA LEITURA DE O RATO NO MURO, DE HILDA
HILST

Tatiana Franca Rodrigues Zanirato

94 - REPENSANDO A CRÍTICA LITERÁRIA: VALOR LITERÁRIO,


VERTENTES E CONTEMPORANEIDADE
Coordenação: Prof. Dr. Cristhiano Aguiar (MACKENZIE); Prof. Dr. Josias Vicente de
Paula Júnior (UFRPE); Prof. Dr. Eduardo Cesar Maia (UFPE)

Resumo: Este simpósio se propõe a dar continuidade ao debate sobre crítica literária
realizado nos congressos da ABRALIC ocorridos nos anos de 2016 e 2017, debate esse
que teve como um dos seus desdobramentos a publicação do ebook, lançado pela
própria ABRALIC, A crítica literária contemporânea e seu lugar no debate publico de
ideias. Decidimos retomar a reflexão sobre os caminhos da prática crítica por
percebermos que os debates anteriores, realizados nos eventos citados, abriram novos
horizontes de pesquisa e investigação, o que nos fez constatar o quanto estamos longe
de esgotar as possibilidades de pesquisas dedicadas ao tema.
Qualquer definição essencialista de crítica literária não leva em consideração o fato
incontornável de que a crítica é uma prática e, como todas as atividades humanas,
desenvolve-se numa dinâmica histórica de acordo com necessidades e demandas
circunstanciais e contingentes. A crítica, como a própria literatura, não é, mas se faz. A
questão da crítica se apresenta não como uma problemática abstrata, uma busca
obsessiva por definições últimas, baseada em disjuntivas teóricas, mas como uma série
de práticas reais, com seus objetivos específicos. Há demasiadas classes diferentes de
crítica, com finalidades completamente distintas, para que exista a possibilidade de se
construir uma teoria geral e última que dê conta de todas elas de forma satisfatória. E se
existem diferentes classes de crítica é porque há demandas diversas – necessidades
humanas distintas – relacionadas com o trabalho crítico. Para repensar a crítica literária
e sua função em nosso tempo, devemos partir do entendimento prévio de que a literatura
não tem um propósito imutável: ela participa do jogo social em que todos os propósitos
estão em contínua redefinição, tanto do ponto de vista individual como do coletivo. Por
conseguinte, pensar a crítica é pensar a sua necessária função social em determinado
momento de sua origem e circulação. Como afirma Fabio Akcelrud Durão (2016, p.11)
em O que é crítica literária?: “a crítica tende a implicar algum espaço concreto de
veiculação e a consequente existência de um público leitor, de uma esfera pública na
qual se inserirá [...]. É fundamental para a noção de crítica que ela mesma possa ser
criticada”.
Como sabemos, aferir o valor estético da obra literária é ofício complexo por uma série
de razões, dentre as quais poderíamos inicialmente elencar a longa tradição que a
literatura trilhou e, igualmente, a herança crítica acumulada num percurso milenar.
Especular sobre o vínculo entre o literário e e a formação cultural e social de valores
estéticos, por sua vez, potencializa esses impasses da crítica. Tal pluralidade exige do
332
teórico, portanto, um largo instrumental de saberes de interface: teorias sociológicas,
narrativas da História, reflexão antropológica, entendimento das ciências naturais e da
filosofia. Tudo isso deve ser utilizado com uma propriedade que nos livre do que
Roberto Acízelo de Souza (2006, p.147) qualificou, em seu Iniciação aos Estudos
Literários, como “passeios alegres” sem consistência e peso.
Semelhantes relações, que pretendemos estabelecer no presente simpósio, acentuam sua
dificuldade e urgência quando necessariamente teremos por temática não só as obras
literárias e a fortuna crítica do passado, como também a densa matéria especulativa que
se produz no contemporâneo. Aqui, naturalmente, o diálogo com o filósofo italiano
Giorgio Agamben (2009) é incontornável: a abordagem do que se faz hoje deverá
considerar a descontinuidade das linhas de força hegemônicas e enxergar as trevas dos
tempos atuais, esperando assim captar o que deles ainda lampeja. A velocidade e a
qualidade das transformações de lastro cultural e estético elaboradas pelas sociedades
(instabilidades de toda ordem: gêneros, identidades, critérios de valor literário e a
própria necessidade de valoração) pedem o exercício permanente do debate e do
pensamento coletivo – ações que o simpósio se proporá a agregar.
Daremos prioridade a propostas de comunicação que se alinhem com os seguintes eixos
temáticos: a) Crítica literária, meios digitais e meios de comunicação: reflexões sobre
booktubers; bookstagram; crítica literária e redes sociais em geral; blogs e sites
literários; pesquisas sobre suplementos literários, revistas literárias, programas de rádio
e TV dedicados a livros; b) Impasses e perspectivas da crítica acadêmica e/ou crítica
jornalística; c) Crítica literária, política e formações identitárias; d) Raça, gênero,
sexualidade e crítica literária; e) Revisões de momentos-chave da tradição crítica
brasileira ao longo dos séculos XIX e XX; f) Diálogos, em clave comparada, entre
ensaísmo literário brasileiro e hispano-americano. A partir de arcabouço teórico
interdisciplinar, atentos à pluralidade de perspectivas e abordagens de pesquisa,
esperamos fomentar um espaço fecundo de discussões críticas.

Referências:
DURÃO, Fabio Akcelrud. O que é crítica literária?. São Paulo: Nankin Editorial,
Parábola Editorial, 2016.
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos,
2009.
SOUZA, Roberto Acízelo de. Iniciação aos Estudos Literários. São Paulo: WMF
Martins Fontes, 2006.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

Crítica e sociedade em nossos dias

CRÍTICA LITERÁRIA E REPRESENTATIVIDADE SOCIAL: SOBRE DEBATES E HIPÓTESES

Marcos Estevão Gomes Pasche


333
A CRÍTICA (AUTO)BIOGRÁFICA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: CONFIGURAÇÕES DE UM
EXERCÍCIO

Jefferson Expedito Santos Neves

ESTELA SEM DEUS E A CRÍTICA LITERÁRIA: PERSPECTIVAS POSSÍVEIS

Luana Jéssika Della-Flora

REVISTA TEXTO DIGITAL E A IMINÊNCIA DE UMA OUTRA LITERATURA

Nair Renata Amâncio

17/07 (MANHÃ)

A crítica, o leitor e as redes

A HORA E A VEZ DO LEITOR-CRÍTICO E DO CRÍTICO -LEITOR: AS REDES VIRTUAIS E O


ACIRRAMENTO DOS AFETOS NO DEBATE LITERÁRIO

Natalia Francis de Andrade

O ESTATUTO DO CRÍTICO: LEITORES COMO CRÍTICOS LITERÁRIOS

Daniel Prestes da Silva

A CRÍTICA COMO SÍNTESE: ERUDIÇÃO, PLURALISMO METODOLÓGICO E PERSPECTIVA


INDIVIDUAL

Eduardo Cesar Maia Ferreira Filho

18/07 (MANHÃ)

Crítica e os autores: perspectivas históricas

ENTRE TEXTOS E PARATEXTOS: UM ESTUDO DOS PREFÁCIOS DE PAULO RÓNAI PARA OBRAS
DA LITERATURA BRASILEIRA

334
Andreia Carla Lopes Aredes

AMADA DINAMENE: CORPUS CAMONIANO E MITOS BIOGRÁFICOS EM PARATEXTOS DE


EDIÇÕES BRASILEIRAS DA LÍRICA E ÉPICA DE CAMÕES

Cristhiano Motta Aguiar

A TRÍADE CRÍTICA DO SÉCULO XIX A PARTIR DA LEITURA DE UM CRÍTICO SIMBOLISTA

Douglas Ferreira de Paula

JOSÉ DE ALENCAR: ESCRITOR DE SUA POSTERIDADE?

Lilian Tigre Lima

95 - ROMANCE: PRODUÇÃO, CIRCULAÇÃO E RECEPÇÃO


Coordenação: Profa. Dra. Valéria Augusti (UFPA); Profa. Dra. Germana Araújo Sales
(UFPA); Profa. Dra. Socorro de Fátima Pacífico Barbosa (UFPB)

Resumo: Em “Crítica textual e História cultural: o texto e a voz, séculos XVI-XVIII” ,


Roger Chartier afirma que a história sócio-cultural, no que diz respeito à análise dos
textos literários - objeto tradicional da história literária e da crítica textual - , tem por
principal objeto “o processo pelo qual os leitores, espectadores e ouvintes dão sentido
aos textos de que se apropriam”(CHARTIER, 2007: 67). Ao contrário das abordagens
formalistas do texto literário, o pesquisador propõe que se tomem os textos tendo em
vista as materialidades por meio das quais eles são dados a ler e que lhes servem de
suporte ou veículos. Isto implica trazer para o campo dos estudos literários a
investigação da função expressiva dos elementos não verbais que intervém na
publicação de manuscritos e textos impressos, bem como em dispositivos de
representação teatral, por exemplo. Recusando a concepção da leitura como ato de pura
intelecção que descobre o sentido implícito no texto e, por consequência, considera-o
universal, a história cultural parte do pressuposto segundo o qual o significado dos
textos dependem também das convenções de leitura compartilhadas por diferentes
públicos ou comunidades de leitores, variando, dessa forma, na diacronia e na sincronia.
Tendo isto em vista, a história da literatura não consistiria em uma história das obras e
dos autores, mas sim em uma história das “diferentes modalidades de apropriação dos
textos”, levando em conta o conjunto de competências, normas, usos e interesses que
regem as “comunidades de interpretação”. Isto significa, também, levar em
consideração que a história da literatura tal como comumente a entendemos consiste em
um dispositivo do qual resulta o estabelecimento de fronteiras entre o que é considerado
literário e o que não é. Essas fronteiras, baseadas em critérios definidores da

335
“literariedade” dos textos, também variam historicamente, razão pela qual podem ser
analisadas de forma a compreender os dispositivos implicados na constituição dos
repertórios de obras canônicas e na exclusão daquelas que se situam fora de certas
“economias da escrita”. Em suma, trata-se de inscrever as obras no “sistema de coerções
que as limitam, mas também tornam possível sua produção e sua compreensão”
(CHARTIER, 1997:69) Partindo de tais pressupostos teóricos, o presente simpósio
pretende reunir pesquisadores que tenham por objetivo de pesquisa: 1) explorar aspectos
relativos aos suportes materiais por meio dos quais o gênero romance circula, aí
compreendidos paratextos editoriais, como páginas de rosto, frontispícios, prefácios,
notas de rodapé, ilustrações, etc; e aspectos relativos a sua circulação em periódicos,
como jornais e revistas 2) examinar e discutir a recepção de romances por comunidades
de leitores, sejam eles pertencentes a grupos especializados, como é o caso da crítica
literária ou marginalizados; 3) investigar as convenções interpretativas que orientam a
atribuição de sentido ao gênero por comunidades específicas de leitores, tais como
grupos religiosos, booktoobers, tradutores, censores, etc. Partindo do pressuposto
segundo o qual o processo de publicação, independentemente de sua modalidade,
consiste em um processo coletivo que envolve diversos atores e que seu modus
operandi varia no tempo e no espaço (DARNTON, 2008) este simpósio pretende
abrigar também aqueles que pesquisam a história, papel e forma de atuação de editores,
tipógrafos, tradutores, livreiros, etc na publicação e circulação desse gênero literário,
seja no formato livro, seja em periódicos. Neste caso, interessam os estudos sobre 1) a
circulação de romances no interior do território nacional ou entre o Brasil e outros
países; 2) as diferentes práticas tradutórias e sua interferência na publicação de
romances; a atuação de tradutores do gênero em território nacional ou não; 3) a atuação
de tipógrafos na publicação de romances no formato livro ou na imprensa periódica, as
técnicas de impressão utilizadas e seu impacto na produção editorial; 4) práticas de
venda e comercialização do gênero romance por livreiros e livrarias; 5) presença de
romances em gabinetes de leitura e bibliotecas. Finalmente, é necessário enfatizar que o
presente simpósio almeja reunir pesquisadores que discutam a produção, circulação e
recepção do gênero romance de preferência no século XIX.
Referências
CHARTIER, Roger. Crítica textual e História cultural: o texto e a voz, séculos XVI-
XVIII. Leitura: teoria e prática, Campinas, p. 67-75, n.30, 1997.
CHARTIER, Roger. Inscrever e apagar: cultura escrita e literatura (séculos XI-XVIII).
São Paulo: editora da UNESP, 2007.
DARNTON, Robert. O que é a história do livro? revisitado. ArtCultura, Uberlândia, v.
10, p. 153-167, jan-jun. 2008.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (MANHÃ)

A CIRCULAÇÃO DE CRÍTICAS AOS ROMANCES BRASILEIROS NA PROVÍNCIA DO PARÁ

Sara Vasconcelos Ferreira


336
O ROMANCE NAS COLEÇÕES BRASILEIRAS DE LIVROS, SÉCULO XIX

Odair Dutra Santana Júnior

GEORGE SAND NO DIÁRIO DE BELÉM

Salim Jorge Almeida Santos

16/07 (TARDE)

O ROMANCE DE LEITURA NO NATURALISMO BRASILEIRO

Edenilson Mikuska

O ESTUDO DE UMA NARRATIVA POLICIAL PORTUGUESA: O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA,


DE EÇA DE QUEIRÓS E RAMALHO ORTIGÃO

Kathleen Jucá Longobardi

LEITURAS D’ALÉM-MAR NO CICLO JURANDIANO

Regina Barbosa da Costa e Marli Tereza Furtado

CADÊ O CRIME QUE ESTAVA AQUI? A RECEPÇÃO DOS ROMANCES DE EDYR AUGUSTO

Suellen Monteiro Batista

96 - RUPTURA DOS GÊNEROS LITERÁRIOS NO ROMANTISMO


Coordenação: Profa. Dra. Andréa Sirihal Werkema (UERJ); Profa. Dra. Maria Juliana Gambogi
Teixeira (UFMG)

Resumo: O advento do Romantismo na literatura é também, historicamente, um


acontecimento revolucionário dentro da longa evolução das formas literárias no ocidente;
estamos diante da primeira grande fratura do sistema mimético de criação artística. Tal quebra
é evidente ao final do século XVIII, mesmo tendo sido adiantada por movimentos com

337
tendências anticlassicistas ao longo dos séculos: tendências, e não fundamento, base de
criação. As teorias românticas do gênero literário respondem a outras questões, ligadas à
subjetividade autoral, instância não mensurável, avessa a regras impostas pela tradição. Eis o
âmbito propriamente literário de tal discussão, ao lembrarmos a insistência com que os textos
do Romantismo quebram as tradicionais barreiras normativas da arte dita clássica. Um texto
romântico, ou sentimental, ou irônico, em suma, caracteriza-se por um questionamento de
vários dos conceitos fundamentais da literatura. Além da preferência por uma teoria
expressiva da arte em lugar da teoria imitativa, os gêneros literários foram desrespeitados ou
substituídos por formas novas, que se aproximavam um pouco mais dos ideais românticos:
“Em sua rigorosa pureza, todos os gêneros poéticos clássicos são agora ridículos” (SCHLEGEL,
1997, p. 30). O romântico não deve ser confundido com um gênero ou estilo literário, sendo
antes um elemento formador de toda a poesia – que, não nos esqueçamos, é ou deveria ser
romântica (SCHLEGEL, 1997, p. 65) –, poesia que também não deve ser confundida com um
gênero específico. Esta indefinição de gênero passa por analogia para o romance, para os
fragmentos, para o drama romântico, para todas as formas mistas da poesia.

“O Romantismo pode ser esquematicamente caracterizado como uma trajetória que toma por
ponto de partida a forma primordial, se desenvolve por múltiplas formas particulares e busca
novamente, pela combinação destas, a unidade da forma” (SUZUKI, 1997, p. 17); o que nos
leva a concluir, em concordância, que qualquer reflexão crítica sobre o Romantismo tende a
ser uma reflexão crítica sobre as formas, ou, em outros termos, sobre os gêneros da literatura.

As reflexões de Walter Benjamin sobre a ironia romântica ajudam-nos a colocar alguns


problemas interessantes em relação à questão dos gêneros (BENJAMIN, 1999, p. 89-93). À
primeira vista, tendemos a associar ironia romântica a um recurso meramente negativo,
desestabilizador de qualquer certeza textual, o que não estaria incorreto, se pensarmos essa
destruição como uma forma de assegurar a perenidade da obra. A ironia que caracteriza a
postura do autor romântico encontra seu correlato na ironia que perpassa a obra, aniquilando
seus elementos ilusionistas como forma de torná-los mais evidentes, e cada vez mais vivos. É
claro que qualquer estrutura formal, em suas manifestações de estilo ou gêneros literários,
torna-se alvo da ironia também formal. Em termos propriamente textuais, a obra romântica
irônica seria antes autoparódica que paródica, já que instaura dentro de si mesma o
questionamento e a quase destruição da forma em que se aloja. Além do mais, sobre tais
amarras da forma paira a ironia autoral, ou da matéria, instância capaz e desejosa de destruir
os limites impostos à expressão de sua subjetividade. A autodestruição da obra romântica é,
portanto, um horizonte sempre possível: uma forma consolidada deve ser ameaçada pela
ironia, que, paradoxalmente, acaba por sublinhar as lacunas da obra romântica, cuja maior
característica é sua radical abertura. A destruição da forma, ou melhor, sua reconfiguração, é
maneira de atestar sua força – e seria bom reavaliarmos nosso julgamento da relação entre o
Romantismo e a tradição à luz dos conceitos de autorreflexividade fundamentais para uma
visão romântica de arte. Enquanto recursos reflexivos, ironia e crítica tornam-se quase
equivalentes, pois forçam no autor e no leitor o questionamento das estruturas formadoras da
obra, estruturas que contêm, dentro de si mesmas, os germes da ironia romântica. Esta pode
ser chamada de crítica interna à obra, com a qual nasce e contra a qual se volta em um
movimento que assegura à obra sua permanência. Uma obra irônica, portanto, existe
enquanto forma-de-exposição de uma ideia das formas. Desde a contingência e a limitação, a
ironia faz caminhar a obra até o vislumbre de seu ideal. Deste modo, a ironia não é destruidora
da obra, pelo contrário, atesta sua “existência indestrutível” ao colocá-la sob a perspectiva da
Forma eterna: “A ironização da forma-de-exposição é semelhante à tempestade que levanta a

338
cortina diante da ordem transcendental da arte, descobrindo-a, juntamente com a existência
imediata da obra nela, como um mistério” (BENJAMIN, 1999, p. 93).

O simpósio aceitará, dessa maneira, trabalhos que queiram discutir, em qualquer contexto
nacional e/ou linguístico, as transformações dos gêneros literários sob a pressão romântica; as
implicações de tal ruptura na tradição literária; a reconfiguração histórica da noção de
mimese; as continuidades e descontinuidades da quebra com os gêneros clássicos promovida
pelo Romantismo.

Referências:

BENJAMIN, Walter. O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão. Trad. Márcio


Seligmann-Silva. São Paulo: Iluminuras, 1999.

SCHLEGEL, Friedrich. O dialeto dos fragmentos. Trad. Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras,
1997.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

"RASGAR O VÉU DO HÁBITO": A DEFESA DE STENDHAL DO ROMANTISMO EM RACINE E


SHAKESPEARE (1823)

Clarissa Mattos Farias

HERÓI ROMÂNTICO OU ANTI-HERÓI? A AMBIGUIDADE DO PERSONAGEM GILBERTO, DO


ROMANCE “JOSÉ BÁLSAMO”

Maria Gabriella Flores Severo Fonseca

L’ONDE ET L’OMBRE NO ROMANCE LES MISÉRABLES: FIGURAÇÃO DA MISÉRIA NA PROSA


POÉTICA DE VICTOR HUGO

Maria Júlia Pereira

MICHELET ROMÂNTICO? – PARTE II

Maria Juliana Gambogi Teixeira

17/07 (TARDE)
339
A PÁTRIA SELVAGEM DE JOSÉ DE ALENCAR

Cilaine Alves Cunha

O QUARTO DE CECI: PAISAGEM, NATUREZA-MORTA E DESEJO EM O GUARANI, DE JOSÉ DE


ALENCAR

Marcos Roberto Flamínio Peres

A PROVIDÊNCIA, DE TEIXEIRA E SOUSA, E A RECEPÇÃO DO ROMANCE HISTÓRICO NO BRASIL


OITOCENTISTA

Marcus Vinicius Nogueira Soares

ENTRE CÉUS E TERRAS, ROMANCE E RELATO: A REPRESENTAÇÃO DA NATUREZA BRASILEIRA


POR VISCONDE DE TAUNAY

Thayane Marins da Fonseca

18/07 (TARDE)

DE SÃO PAULO A COIMBRA: A POESIA DE ÁLVARES DE AZEVEDO EM PERIÓDICOS ESTUDANTIS


PORTUGUESES

Natália Gonçalves de Souza Santos

DRAMA ROMÂNTICO: UM GÊNERO PROBLEMÁTICO

Andréa Sirihal Werkema

ALEXANDRE HERCULANO: PORTUGAL E A IRONIA ROMÂNTICA DA ALEMANHA

Hugo Lenes Menezes

O INFORME E AS FORMAS COMO PROBLEMA ROMÂNTICO

João Guilherme Siqueira Paiva

340
O ROMANTISMO REVOLUCIONÁRIO NAS VEREDAS DO GRANDE SERTÃO

Gregory Magalhães Costa

97 - SEXOLOGIA POLÍTICA E LITERATURA: O DIREITO À EXISTÊNCIA E


À SUBJETIVIDADE
Coordenação: Profa. Dra. Cláudia Nigro (UNESP); Prof. Dr. Flávio Adriano Nantes (UFMS)

Resumo: Embora a literatura não tenha qualquer responsabilidade com a realidade empírica:
as ciências, a teologia, a sociologia, i. e., com o homem de modo geral, é sempre um gesto
político pelo fato de estar – para o bem ou para o mal – sempre posicionada em relação aos
eventos circundantes nas sociedades ao redor do mundo. Para o bem porque há aqueles que
produzem uma escritura literária pautada pela ética, direitos humanos e respeito a todas as
pessoas independentemente de classe, raça, sexualidade, gênero, etc. Para o mal, estão
aqueles que produzem discursos com viés sexista, machista, misógino, de ódio e intolerância.

A atual ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, fez declarações (antes
e depois de assumir a pasta) desrespeitosas para determinadas pessoas: menino veste azul e
menina veste rosa; sexo entre pessoas do mesmo sexo é aberração; as feministas não gostam
de homem porque são feias, as feministas não gostam de homem porque homem nenhum
quis se casar com elas. Esses discursos, ademais de desrespeitosos, demonstram um
pensamento pautado na tradição familiar-sexual – homem vs. mulher; são sexistas pelo fato
de indicar o que é pensado/autorizado para homens – o masculino, e o que deve estar para a
ordem do feminino – mulheres, demonstrando uma clara dicotomia – geradora de violência
nas relações de gênero – entre homens e mulheres. Pese-se a isto a exclusão da comunidade
LGBT das diretrizes da pasta coordenada por Damares Alves, conforme a Medida Provisória
(MP 870/19) assinada pelo presidente da república Jair Bolsonaro. O que demonstra um modo
reacionário, injusto, desumano, de governar, pois o Brasil é a nação que mais mata LGBTs no
mundo; mais inclusive que em países onde a homossexualidade é crime de morte.

O modo caricato como a responsável pela pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, bem
como outros órgãos da atual gestão do Estado-nação, não pode passar incólume à crítica
humanística; faz-se necessária, então, uma análise destes discursos e/ou práticas por
intermédio das proposições dos Gender Studies. Em outras palavras, a crítica, a pesquisa, a
militância, o ensino, no âmbito dos Estudos de Gênero, devem se posicionar veementemente
contra estes ataques a determinados sujeitos que podem – agora em maior grau – sofrer
assédios, injúrias, violência de diferentes níveis e em última instância ter seus corpos
eliminados.

Existem textos literários que, na contra mão de um discurso pautado pelo ódio ao outro seja
pela sexualidade ou pelo gênero, podem nos oferecer pistas para pensar a existência, os
afetos, o dessilenciamento de sujeitos considerados, na esfera pública, de segunda categoria.
Neste sentido, a literatura se converte numa espécie de bússola em direção aos corpos

341
dissidentes – aqueles que não podem circular democraticamente nos espaços públicos – e
pode levar a sociedade a um entendimento em relação ao outro.

O simpósio Sexologia política e literatura: o direito à existência e à subjetividade receberá


trabalhos que tratam da literatura e/ou outros constructos artísticos como um elemento de
resistência, i.e., como um gesto político posicionado de forma contrária ao discurso e à prática
de ódio perpetrados de forma aberta ou simbólica na sociedade em relação à comunidade
LGBT, bem como a outros sujeitos dissidentes.

Embora haja os que ainda o fazem, tornou-se lugar-comum, um clichê, afirmar que a literatura
humaniza as pessoas; esta afirmação cai por terra quando está claro que uma sociedade
grafocentrada, livresca, onde muitos escrevem e o livro tornou-se um fetiche mercadológico,
pratica crimes hediondos contra seres humanos. A literatura não humaniza, ela não tem esta
função. Mas pode, por outro lado, dar voz a sujeitos violentados, massacrados, alijados, indicar
existências, outros modos de vivências, outras perspectivas corpóreas. Stella Manhattan, de
Silviano Santiago; alguns contos de Caio Fernando Abreu e de Marcelino Freire; Amora, de
Natalia Borges Polesso; a poesia de Angélica Freitas; o romance Dois rios, de Tatiana Salem
Levy; cantores como Johnny Hooker, Liniker, Juan Guiã, entre tantos outros, endossam que
essas pessoas – as que fogem ao padrão heteronormativo – existem, circulam na sociedade,
resistem, reclamam por direitos, publicizam seus corpos e afetos como um gesto político.

As masculinidades, as feminilidades não estão na ordem da natureza, nunca estiveram,


tampouco o gênero; são, antes, categorias culturais, sociais, históricas, e, desde sempre,
observadas muito de perto pelo Estado que estatiza os corpos e seus usos, indicam formas
adequadas de existência, assim, o presente simpósio convoca pesquisadores/as para refletir e
debater as proposições da crítica, dos movimentos sociais, dos Gender Studies, do feminismo,
dos estudos LGBTs, que, em conluio com a literatura, combatem as práticas contrárias à vida
de sujeitos que r(existem)

Referências

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Horizonte: Editora da UFMG, 2006.

ADICHIE, Chimamanda. Sejamos todos feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

______. Para educar crianças feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas. São Paulo: Companhia. das Letras, 2008.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. São Paulo:


Civilização Brasileira, 2003.

______. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? 1ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2015.

______. Corpos que ainda importam. In: COLLING, Leandro (org.). Dissidências sexuais e de
gênero. Salvador: EDUFBA, 2016.

______. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

CALVINO, Italo. Usos políticos certos e errados da literatura. In: CALVINO, Italo. Assunto

342
encerrado: discursos sobre literatura e sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

______. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

FOUCAULT, Michel. A microfísica do poder. Rio de Janeiro: GRAAL, 1979.

______. A história da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978.

______. A história da sexualidade: o cuidado de si. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

LEITE, Fernanda Capibaribe. Corpos em cena e trânsito: sujeitos em devir na filmografia de


Cláudia Priscilla. In: COLLING, Leandro (org.). Dissidências sexuais e de gênero. Salvador:
EDUFBA, 2016, p.153-175.

LOPES, Denilson. A delicadeza: estética, experiência e paisagens. Brasília: Editora da


Universidade de Brasília; Finatec, 2007.

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo
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MACIEL, Maria Esther. Literatura e animalidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

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sobre gênero e sexualidade. Campo Grande: Ed. Life, 2018.

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In: NIGRO, Cláudia Maria Ceneviva et ali (orgs.). Corpos que (se) importam: refletindo questões
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343
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TIBURI, Marcia. Feminismo em comum: para todas, todes e todas. São Paulo: Rosa dos Tempos,
2018.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

ANTOLOGIAS DO PRAZER: O DESEJO NAS LITERATURAS DISSIDENTES DO SÉCULO XXI

Claudicélio Rodrigues da Silva

PODE O VEGETARIANO FALAR?: IDENTIDADE, CORPO E ALTERIDADE ANIMAL NA LITERATURA


DO SÉCULO XXI

Marcelo Branquinho Massucatto Resende

HOMOEROTISMO & PROSTITUIÇÃO MASCULINA: GIGOLÔ, GAROTO DE PROGRAMA OU


ACOMPANHANTE?

Dorinaldo dos Santos Nascimento

O QUEER É O MONSTRO: TRANSEXUAL E LITERATURA CONTEMPORÂNEA EM AS FANTASIAS


ELETIVAS

Luciane Bradbury

MASCULINIDADE PLURAL EM ANOTHER COUNTRY E JUST ABOVE MY HEAD, DE JAMES


BALDWIN

Paulo Rogério Bentes Bezerra

17/07 (TARDE)
344
A RESISTÊNCIA SUBALTERNA DE SONMI~451 EM CLOUD ATLAS, DE DAVID MITCHELL

Davi Silistino de Souza

RESISTÊNCIA E CRÍTICA À INTOLERÂNCIA NA OBRA A HORA E A VEZ DE CANDY DARLING, DE


HORÁCIO COSTA

Luciane Bradbury

A CONSTRUÇÃO DA MASCULINIDADE PRETA NOS CADERNOS NEGROS

Nelson Flávio Moraes de Oliveira

A FUGA COMO RESISTÊNCIA EM SEM VISTAS PARA O MAR, DE CAROL RODRIGUES

Flávio Adriano Nantes

O TEMPO DA ESPERA: CONSTRUTOS E RESISTÊNCIA

Cláudia Maria Ceneviva Nigro

18/07 (TARDE)

NO CU/ DE EXU/ A LUZ: RELIGIOSIDADE, HOMOEROTISMO E TRANSGRESSÃO NA POESIA


MALDITA E SAGRADA DE WALDO MOTTA

Marcel Bussular Martinuzzo

A VISIBILIDADE TRAVESTI EM WALDO MOTTA

Ricardo Alves dos Santos e Amaury Lucatti Sousa

A POLIFONIA DE MÚLTIPLAS VOZES NARRATIVAS NA CONSTRUÇÃO DO ROMANCE OS 120 DIAS

345
DE SODOMA OU A ESCOLA DE LIBERTINAGEM (2006), DO MARQUES DE SADE

Rosivan dos Santos Bispo

O ESPECTRO OBLITERADO DO ARCO-ÍRIS: MATIZES QUARE NA POESIA DE THOMAS GRIMES

Fernando Luís de Moraes

ELECTRA: UMA QUESTÃO DE GÊNERO EM EURÍPEDES

Marcelle Pereira Santos Bento

98 - TERRITÓRIOS SHAKESPEARIANOS POUCO EXPLORADOS: ESFERAS


DE CIRCULAÇÃO, LEITURAS E RELEITURAS
Coordenação: Profa. Dra. Anna Stegh Camati (UNIANDRADE); Profa. Dra. Fernanda Teixeira de
Medeiros (UERJ); Prof. Dr. Leonardo Bérenger Alves Carneiro (PUC-Rio)

Resumo: Se a obra de William Shakespeare (1564-1616) tornou-se um dos principais


emblemas do cânone literário ocidental (BLOOM, 1994), é importante lembrar que esse
estatuto não se aplica a todas as 40 peças atribuídas ao Bardo, nem tampouco à totalidade de
sua produção lírica, composta de 154 sonetos e poemas narrativos. No interior desse conjunto,
existem divisões, com obras de circulação infinitamente mais intensa que outras, tanto no
mundo midiático quanto no mundo acadêmico, principalmente se pensarmos no contexto
brasileiro, no qual são sobretudo algumas das tragédias, ao lado de um par de comédias e
peças históricas, um dos romances, e um número restrito de sonetos que terminam por
representar "Shakespeare". Constatações dessa natureza são indícios de que, provavelmente,
importantes aspectos do universo shakespeariano estariam sendo negligenciados.

A proposta deste simpósio direciona-se, assim, a um convite a que exploremos obras


shakespearianas de menor circulação e reflitamos sobre elas, a partir de perspectivas sócio-
históricas e culturais. Nosso ponto de referência será, principalmente, o contexto de recepção
brasileiro, mas outros contextos são igualmente bem-vindos. Desde já, tenhamos em mente
que nesse repertório de menor circulação em território brasileiro, distribuído entre os
diferentes gêneros teatrais praticados por Shakespeare, seria possível elencar as seguintes
peças, sempre correndo o risco de cometer injustiças:

* tragédias: Tito Andrônico (1591); Timon de Atenas (1605); Coriolano (1608);

*comédias: Os dois cavalheiros de Verona (1590-1); A comédia dos erros (1594);   Trabalhos de
amor perdidos (1594-5); As alegres comadres de Windsor (1597-8);

* peças históricas: Henrique VI (partes 1, 2 e 3, 1591-2); Ricardo II (1595-6); Rei João (1595-7);
Henrique IV (partes 1 e 2, 1596-8); Henrique VIII (1613);

346
* peças-problema: Troilo e Créssida (1601-2); Bem está o que bem acaba (1604-5);

* romances, também denominados tragicomédias: Péricles (1607), Cimbeline, rei da Britânia


(1610), O conto do inverno (1609), Os dois primos nobres (1613).

Em que pese a probabilidade de discordâncias acerca dessa seleção, podemos estimar que
aproximadamente cinquenta por cento da obra de Shakespeare são pouco ou pouquíssimo
conhecidos em nosso país, em comparação com seus grandes sucessos.

Quando pensamos na formação de um cânone shakespeariano em perspectiva diacrônica, com


base na fortuna crítica do Bardo, as tragédias, sem dúvida, ocupam posição de centralidade
desde o século XVIII, com o início da chamada era das “grandes edições” das obras completas
de Shakespeare. A introdução de Shakespeare no mundo literário e cultural do romantismo
alemão também foi decisiva para a hegemonia do gênero trágico no contexto da crítica
europeia, em geral, e inglesa, em particular. Em suas Palestras sobre arte dramática e
literatura, de 1808, Friedrich Schlegel (1772-1829) trata quase que exclusivamente das
tragédias shakespearianas, sendo reticente em comentários sobre as comédias e os dramas
históricos. As Palestras de Schlegel parecem ter inspirado Samuel Taylor Coleridge (1772-
1834), cujo trabalho também privilegia as tragédias. Em 1904, o Professor A. C. Bradley (1851-
1935) publica A tragédia shakespeariana, trabalho que inaugura a chamada crítica literária
profissional e que acaba por cunhar a expressão “as quatro grandes tragédias", sedimentando
a noção equivocada, mas prevalecente por décadas, de que o cânone shakespeariano
encontraria em Hamlet (1601), Otelo (1603), Rei Lear (1605) e Macbeth (1606) um
sustentáculo único.

Por outro lado, é de conhecimento geral que algumas das comédias de Shakespeare, entre elas
A megera domada (1590-1), Sonho de uma noite de verão (1595-6), Muito barulho por nada
(1598), Como gostais (1599-1600) e Noite de reis (1600-1) são globalmente muito conhecidas
e, algumas delas, extremamente populares no Brasil, sendo constantemente encenadas,
apropriadas e transformadas em uma variedade de produtos midiáticos, como filmes,
musicais, óperas, pinturas, esculturas, etc. Algumas estatísticas mostram que Sonho de uma
noite de verão é a peça mais encenada em âmbito global. De todo modo, o foco nessas
comédias termina por deixar de fora uma série de outras, como já mencionamos, e situação
semelhante se dá no contexto dos dramas históricos, ao todo dez textos, dos quais apenas dois
são mais conhecidos, Ricardo III (1592-3) e Henrique V (1598-9). Em relação às peças problema
e aos romances, A Tempestade (1611), constitui exceção, tornando-se, mais que uma obra
dramatúrgica, um texto seminal para teorias críticas do século XX, como o pensamento pós-
colonial.

Diante dessas considerações, listamos abaixo alguns campos de interesse e objetivos do


simpósio:

a) estimular discussões e leituras críticas de peças pouco lidas e pouco exploradas, nos
diferentes gêneros praticados por Shakespeare, levando em conta sobretudo o contexto
brasileiro de recepção;

b) investigar se haveria uma conexão direta entre a qualidade da obra e sua


popularidade, e em que instâncias essa qualidade é calculada;    

347
c) discutir a história da formação de cânones internos à obra de Shakespeare;

d) refletir sobre traduções brasileiras de textos shakespearianos pouco conhecidos;

e) examinar trânsitos e transações inter e transmidiáticas de textos shakespearianos


pouco explorados  em âmbito local e global.

Referências:

BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001
[1994].

BLOOM, Harold Shakespeare, the Invention of the Human. Londres: Fourth State, 1999 [1998].

BRADLEY, A. C. A tragédia shakespeariana. Trad. Alexandre Feitosa Rosas. São Paulo: Martins
Fontes, 2009 [1904].

DOBSON, Michael. The Making of the National Poet: Shakespeare, Adaptation and Authorship,
1660-1769. Oxford: Oxford University Press, 1992.

EDMONDSON, Paul; HOLBROOK, Peter, eds. Shakespeare's Creative Legacies: Artists, Writers,
Performers, Readers. London, Oxford, New York, New Delhi and Sydney: Bloomsbury, The
Arden Shakespeare, 2016.

GARBER, Marjorie. Shakespeare and Modern Culture. New York: Anchor Books, 2008.

GOMES, Eugenio. Shakespeare no Brasil. Coleção “Letras e Artes.” Ministério da Educação e


Cultura, s/l, 1961.

LEVENSON, Jill L.; ORMSBY, Robert, eds. The Shakespearean World. London and New York:
Routledge, 2017.

SANTOS, Marlene Soares dos e LEÃO, Liana de Camargo, orgs. Shakespeare, sua época, sua
obra. Curitiba: Beatrice, 2008.

PROGRAMAÇÃO

Dia 16 de julho (tarde)

HENRY VI, DE SHAKESPEARE, E THOMAS KYD: O INÍCIO DO TEATRO ELISABETANO

Leandro Tibiriçá de Camargo Bastos

348
TITUS ANDRÔNICUS- DA VIOLAÇÃO À SIMPLES OFENSA: AS PROBLEMÁTICAS DA
INTERPRETAÇÃO

Igor Alexandre Capelatto

TITUS ANDRONICUS E A TEMPESTADE: TEATRALIDADE E EXCESSO

Ana Luiza Lobo Pereira

A COMÉDIA DOS ERROS: UMA EXPERIÊNCIA DE “FIRST ENCOUNTERS WITH SHAKESPEARE” NO


RSC

Marcia Regina Becker

17 de julho (tarde)

APROPRIAÇÃO E RADICALIZAÇÃO DE SHAKESPEARE: CONTEXTOS E LEITURAS

Renato Gonçalves Lopes

O INTERTEXTO SHAKESPEARIANO EM CORAZÓN TAN BLANCO, DE JAVIER MARÍAS

Viviane de Oliveira Souza

UMA LEITURA FEMINISTA DA PERSONAGEM EMÍLIA EM OTELO, DE SHAKESPEARE

Maikely Teixeira Colombini

18 de julho (tarde)

RICARDO II E OS CAMINHOS DA TRAGÉDIA

Mail Marques de Azevedo

349
OS DOIS CAVALHEIROS DE VERONA: UM SHAKESPEARE COM SOTAQUE BRASILEIRO

Anna Stegh Camati

PENSANDO QUEERNESS EM OS DOIS PRIMOS NOBRES

Leonardo Bérenger Alves Carneiro

PÉRICLES, CONTO DE INVERNO, CIMBELINE E A TEMPESTADE: ELEMENTOS ESTOICOS NAS


PEÇAS-ROMANCE DE SHAKESPEARE

Fernanda Teixeira de Medeiros

99 - TEXTUALIDADES DO MUNDO FRATURADO: PROCESSOS DE


HIBRIDAÇÃO
Coordenação: Profa. Dra. Sylvia Helena Cyntrão (UnB); Prof. Dr. Fernando Fábio Fiorese
Furtado (Universidade Federal de Juiz de Fora-UFJF); Prof. Dr. Miguel Jost Ramos (Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro/PUC-Rio)

Resumo: A proposta do simpósio Textualidades do mundo fraturado: processos de hibridação


é refletir de forma crítica sobre como a cultura e os meios de comunicação, através e a partir
da literatura, podem colaborar para a compreensão dos processos por que passa o Brasil
contemporâneo. Compreende-se que a fundamentação teórica para os estudos
contemporâneos sobre a literatura está voltada não apenas para uma suposta especificidade
literária, mas, sobretudo, para uma estreita articulação com o pensamento teórico/filosófico
através do diálogo interdisciplinar com outras áreas das ciências humanas e sociais. Tais
abordagens, partindo dos estudos das literaturas nacionais e regionais, e sempre em diálogo
com contextos continentais e transcontinentais, propiciam a compreensão das relações entre
a produção literária e o contexto histórico em distintas épocas. Da mesma forma,
compreende-se o caráter fundamental do as reflexões sobre o diálogo dos textos literários
com outras práticas artísticas como o cinema, as artes visuais, o teatro e a canção popular,
bem como as pesquisas comparadas no campo expandido do contemporâneo. Agregam-se
ainda, nesse escopo, as investigações sobre mídias e suportes como um aspecto determinante
dos debates contemporâneos os suportes das variadas manifestações artísticas nas mídias
plurais da contemporaneidade. Nesse contexto, interessam-nos também as abordagens
inovadoras de conceitos como lugar, não lugar e entre-lugar da fala, e a reflexão sobre como
estas abordagens apontam, entre as questões ligadas ao tema da identidade, para a
compreensão das representações da alteridade na cultura contemporânea, configurando-a

350
como categoria emergente decisiva para pensar o sistema multicultural em tensão. Da mesma
forma, interessa-nos dentro desse quadro, pensar o papel das Referimo-nos também às
produções intelectuais ligadas a temas como morte, perda, sacrifícios, acaso, erotismo como
violação dos limites, e sexualidade, percebidos como degradantes ao longo da história. e
subjetividade. Nestas, amplia-se a Entendemos que essas narrativas, e as reflexões que delas
se desdobram, ampliam nossa compreensão da mudança na forma de abordagem crítica da
narrativa ficcional no século XXI frente às transformações e percepções do leitor/espectador
no mundo. No mesmo sentido, como aprofundamento do debate sobre esse mundo fraturado
e sua reverberação no campo das práticas estéticas, interessam-nos refletir bem como sobre a
obra de poetas contemporâneos e sobre os modos e manobras de enfrentamento das
questões centrais do debate sobre a pós-modernidade que se referem à cena pós-moderna
(uma das acepções de contemporâneo adotadas),  tais como o fim da noção de história
unitária, centralizada e conforme ao ideal europeu de progresso e civilização. Reforça-se,
assim, a urgência de debatermos a emergência plural e explosiva na cena contemporânea de
outras vozes, racionalidades e weltanschauungen “locais” (minorias étnicas, sexuais, religiosas,
culturais) estéticas e a crise do “princípio de realidade”. Nossa proposta é que os vários
vetores da produção textual contemporânea possam ser abordados na observação do que no
que impele à construção e desconstrução dos processos de subjetivação, tema recorrente dos
debates em nosso campo. Entendemos que a compreensão dos sentidos textualmente
projetados nos pede a abertura da reflexão interdisciplinar filosófica sobre a criação literária e
suas consequências epistemológicas, estéticas, hermenêuticas. Uma compreensão que se
sustenta na palavra, mas também no silêncio; na estrutura, nas fraturas, nos sistemas e em
seus sintomas, sejam manifestos ou latentes. Trata-se de expandir, portanto, o entendimento
do simbólico que (in) forma o texto, a partir dos leitores que somos, constituídos e de nossa
nossa função contingenciada de antenas e prismas do real.

Referências

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro.


Honesko. Chapecó: Argos, 2009.

AUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade. Campinas,


São Paulo: Papirus, 1994.

BAKHTIN, Mikhail. Apud FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. São Paulo: Atica, 1988.

BAKHTINE, M. Le marxisme et la philosophie du langage. Paris: Ed. du Minuit, 1977.

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições70, 1981.

BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2004.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da
cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BHABHA, Homi. O local da cultura. Minas Gerais: Editora da UFMG, 1998.

CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4ª
ed. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 2008.

CANCLINI, Nestor Garcia. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade.


2ª ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007.
351
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. A ciência, a sociedade e a cultura emergente. Trad. Álvaro
Cabral. São Paulo: Cultrix,1983.

DURAND, Gilbert. O imaginário. Rio de Janeiro: Difel, 1998.

ECO, Umberto. Os limites da interpretação. SP. Perspectiva, 1995.

ELIAS, Norbert. O processo civilizador – Vol. 1: Uma História dos Costumes. Trad. Ruy
Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. 2v.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na Civilização. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud:


edição standard brasileira. (v. 21). Rio de Janeiro: Imago, (1930) 1996.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, (1930) 1996. (Obras
psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. V. 21)

GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade. SP: UNESP, 1993.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença – o que o sentido não consegue transmitir.
Ed. PUC- Rio, Rio de Janeiro, 2010.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro. DP&A, 1998.

LEVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Petrópolis: Vozes, 2005.

LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.

MORIN, Edgar. A cabeça bem feita. S.P. Bertrand Brasil, 2010.

PIGLIA, Ricardo. Uma proposta para o novo milênio. Trad. Marcos Visnadi. Lisboa, Buenos
Aires: Coletivo Chão da Feira, 2012.

RICOEUR, Paul. A metáfora viva. SP: Editora Loyola, 2000.

SODRÉ, Muniz. A comunicação do grotesco. Introdução à cultura de massa brasileira.


Petrópolis: Vozes, 1972.

ZIZEK, Slavoj (org). Um mapa da ideologia. trad. Vera Ribeiro. R J: Ed. Contraponto, 1996.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007. 2ª Ed.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

Título da mesa: fratura híbrido-conceituais

AS FICÇÕES BRASILEIRA E FRANCESA CONTEMPORÂNEAS COMO CRIAÇÃO LITERÁRIA PARA

352
PENSAR O MUNDO ECONÔMICO: OS CASOS DOS ESCRITORES BERNARDO CARVALHO E
TANCREDE VOITURIEZ.

Amandine Molin (UnB)

A MULHER DESMEMBRADA NAS FOTOMONTAGENS E POESIA DE JORGE DE LIMA.

Barbara Bergamaschi Novaes (PUC-Rio)

O ETHOS SOCIAL OSCILANTE E AS TEXTUALIDADES LITERÁRIAS NUMA VISÃO COLETIVA DO


GRUPO “TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS: PROCESSOS DE HIBRIDAÇÃO”.

Sylvia Helena Cyntrão (UnB)

17/07 (MANHÃ)

Título da mesa: fraturas híbrido-musicais

RENATO EM RUSSO: UM CANCIONISTA INVENTADO PELA VIA POÉTICO-MUSICAL.

Julliany Alves Mucury (UnB)

PARATODOS: ALTERIDADES EM PROCESSOS DE HIBRIDAÇÃO NA IMAGEM DO SOM DE CHICO


BUARQUE

Kelly Vyanna (UnB)

AS CANÇÕES DE CHICO BUARQUE COMO REGISTRO DE UMA CIDADE: OS SONS DE ONTEM E DE


HOJE

Maria Daise de Oliveira Cardoso (UnB)

A POÉTICA MUSICAL DE WALY SALOMÃO

Miguel Jost Ramos (PUC-Rio)


353
17/07 (TARDE)

Título da mesa: fraturas híbrido-políticas

TESSITURAS HÍBRIDAS: O REPENSAR DAS MINORIAS EM WILSON BUENO

Eliza da Silva Martins Peron (UFMS)

VERSÕES DO NACIONALISMO EM TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA E LEITE DERRAMADO

Elizabete Barros De Sousa Lima (UnB)

“UMA FOTOGRAFIA AÉREA”, DE FERREIRA GULLAR: A TRAVESSIA DO ESTRIADO AO LISO COMO


SUTURA DE UM TEMPO FRATURADO

Fernando Fábio Fiorese Furtado (UFJF)

100 - TRAMAS DA HISTÓRIA E SENTIDOS DA MEMÓRIA NAS


LITERATURAS DE LÍNGUA PORTUGUESA
Coordenação: Profa. Dra. Roberta Guimarães Franco (UFLA); Profa. Dra. Renata
Flávia da Silva (UFF); Profa. Dra. Viviane Vasconcelos (UERJ)

Resumo: As relações entre a literatura e a história sempre foram objeto de análise e de


debate acerca das especificidades e das possiblidades de diálogo entre as áreas. A
literatura entendida pela história como um tipo de fonte, especialmente a partir do
movimento da Nova História e da Escola dos Annales – “(...) a substituição da
tradicional narrativa de acontecimento por uma história-problema”, como afirmou Peter
Burke (1997, p. 11) –, e a história sendo reafirmada, retrabalhada, e/ou reinterpretada
pela literatura. Assim, a análise literária foi ganhando, ao longo do tempo, novos
contornos, desde a possibilidade de pensar a obra em múltiplos contextos e
temporalidades de acordo com o leitor, advinda através da Estética da Recepção, até os
mais recentes Estudos Culturais e Pós-coloniais, possibilitando novas formas de olhar
eventos históricos consagrados ou trazendo à luz questões que a dita história oficial
silenciou. Nesse sentido, a memória vem, cada vez mais, se configurando como um
elemento essencial na construção de sentidos entre o texto literário e o discurso
histórico. Seja pensada como componente intratextual, atuando diretamente na estrutura
narrativa, aliada à ideia de tempo, seja constituindo o espaço entre a obra literária e o
seu contexto de produção, ou ainda estabelecendo fronteiras entre as perspectivas
354
individuais e coletivas, a memória se configurou como instância que permite pensar a
literatura tanto na sua esfera subjetiva quanto social. Didi-Huberman (1998) afirmara
que a memória tem um particular papel sobre o olhar, já que não é a instância que
contém, entretanto o espaço que suporta a ausência, isto é, lugar em que há um
fragmento que permite a inserção de algo novo e transformá-lo em diferença: “Como
uma cisão sempre reconduzida, a dialética joga com a contradição, não para resolvê-la,
nem para entregar o mundo visível aos meios de uma retórica. Ela ultrapassa a oposição
do visível e do legível num trabalho (DIDI-HUBERMAN, 1998, p.117)”.
No contexto das literaturas de língua portuguesa, pode-se evidenciar formas variadas de
diálogo entre a literatura e história, passando pela formação de sentidos proporcionada
pela memória. No Brasil, tais diálogos podem apontar desde a necessidade de criação de
uma identidade nacional, até a urgência em romper com este conceito, chegando a
manifestações mais recentes que trazem novos olhares sobre acontecimentos,
personagens e espaços. Sendo ainda relevante recuperarmos os questionamentos de
Silviano Santiago em Uma literatura nos trópicos (1978), para pensarmos o quanto
essas relações que envolvem a literatura, história e memória contribuem para as
questões identitárias, lendo o Brasil como país latino-americano, porém bastante
influenciado pelas marcas europeias. No caso da Literatura Portuguesa, por exemplo, a
história desempenhou um importante diálogo por meio de diferentes temas, mas
também como próprio elemento ficcional. Basta pensar a maneira pela qual os mitos
identitários foram construídos pela história da literatura portuguesa ao longo dos
séculos. Além da transformação da memória nacional como um dos grandes temas da
literatura, um outro aspecto relevante é o reverso dessa temática, como afirma Eduardo
Lourenço (2014), ao apontar a dificuldade de assumir uma memória nacional não mais
baseada nos grandes mitos, mas na decadência da colonização. Grande parte da
literatura portuguesa do século XX, sobretudo após a Revolução dos Cravos, tem se
ocupado da revisitação de fatos históricos ou da escrita ou reescrita de momentos
relevantes para o país no que diz respeito à colonização. Já para as Literaturas Africanas
de Língua Portuguesa – ainda lutando por uma nomenclatura que as particularize na
academia – a relação entre literatura e história parece ainda mais evidente, pelos
recentes processos históricos que trazem um caráter testemunhal, muitas vezes
autobiográfico, para essas literaturas, problematizando os silenciamentos em torno da
colonização, das guerras pelas independências, da descolonização e das guerras civis. E
também, dialogando com um passado mais distante, pela necessidade de reformular a
história produzida pelo olhar exógeno, reconstruindo mitos, recuperando personagens,
reconfigurando espaços agora nacionais.
Portanto, este simpósio pretende acolher trabalhos que tenham como foco a relação
entre literatura, história e memória, levando em consideração as múltiplas abordagens
que esta tríade permite. Desde análises voltadas para a ficcionalização de
acontecimentos e personagens históricos, pesquisas que envolvam os gêneros literários
ditos confessionais, estudos que questionem o lugar da literatura e sua vertente
ideológica, a relação entre perspectivas teóricas que problematizem essas questões,
entre outras possibilidades que nos permitam ampliar o debate em torno das produções
literárias em língua portuguesa.
Referências:
DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Tradução: Paulo Neves.
São Paulo: Editora 34, 2000.

355
LOURENÇO, Eduardo. Do colonialismo como nosso impensado. Prefácio de
Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Lisboa: Gradiva.
SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

PROGRAMAÇÃO

16/07 (TARDE)

IDENTIDADE, MEMÓRIA E ESTÉTICA NO ROMANCE ANTES DE NASCER O MUNDO, DE MIA


COUTO

Carlos Vinícius Teixeira Palhares

IMAGENS DO NAVIO NEGREIRO NA PEÇA “ANA, ZÉ E OS ESCRAVOS”

Ana Maria Lange Gomes

JOGOS DE MEMÓRIA E FOCO NARRATIVO EM QUANTAS MADRUGADAS TEM A NOITE DE


ONDJAKI

Renato dos Santos Pinto

O 27 DE MAIO POR JOSÉ EDUARDO AGUALUSA OU “A DESINVENÇÃO DO INIMIGO”

Renata Flavia da Silva

17/07 (TARDE)

LUIZ RUFFATO, PERSONAGEM-AUTOR

Allysson Casais

A SUPOSIÇÃO AUTOFICCIONAL DE LIMA BARRETO: TRAUMA LIMÍTROFE NA LITERATURA


BRASILEIRA

Augusto Mancim Imbriani

356
DE TORNA-VIAGEM A ORFEU REBELDE: MEMÓRIA E EXÍLIO EM RELATOS AUTOBIOGRÁFICOS
DE MIGUEL TORGA

Bárbara Silva Teles de Menezes

AUTOBIOGRAFIA E AUTOFICÇÃO: A ESCRITA METALITERÁRIA DO CICLO DE APRENDIZAGEM DE


ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Carmem Roquini Juliacci Santana

UMA INFÂNCIA A NARRAR MOÇAMBIQUE: NOVA VOZ NO PROJETO FICCIONAL DE JOÃO


PAULO BORGES COELHO EM “PONTA GEA”

Roberta Guimarães Franco

18/07 (TARDE)

CAMINHANDO EM DIREÇÃO DO TRANSCULTURALISMO EM TERRA PAPAGALI

Camila Marcelina Pasqual

A TRADUTORA, O TRADUTOR E A TRADUÇÃO COMO EXPERIÊNCIA EM AS AREIAS DO


IMPERADOR

Estela Ramos de Souza de Oliveira

GEOGRAFIAS DA EXISTÊNCIA EM DENTRO DO MAR TEM RIO, DE MARIA BETHÂNIA

Everson Nicolau de Almeida

O BRASIL DE AGUSTINA BESSA-LUÍS

Viviane Vasconcelos

357
18/07 (TARDE)

A MEMÓRIA TRAUMÁTICA DA “SHOAH” EM “JERUSALÉM” DE GONÇALO M. TAVARES

Fernanda Duduch

FICÇÃO, HISTÓRIA E MEMÓRIA DO COLONIALISMO EM A GORDA E CADERNOS DE MEMÓRIAS


COLONIAIS

Haidê Silva

MODERNIDADE NA CIDADE, TRADIÇÃO DAS SERRAS: DA MEMÓRIA AO MITO NO


DESENVOLVER DA IDENTIDADE PORTUGUESA

Hanna Andressa do Carmo Furtado Oliveira

INVESTIGAÇÕES EM TORNO DOS SENTIDOS DE “PROVÍNCIA” NA LITERATURA DE MANUEL


BANDEIRA PARA UMA POSSÍVEL CONCEPÇÃO POÉTICO-PATRIMONIAL EM SUA OBRA

André Luís Mourão de Uzêda

101 - LITERATURA BRASILEIRA: IDENTIDADES EM MOVIMENTO


Coordenação: Silvana Oliveira (Universidade Estadual de Ponta Grossa); Valdir Prigol
(Universidade Federal da Fronteira Sul)

Resumo: Em Por que ler os clássicos, Ítalo Calvino fala dos livros que nunca
terminarão de dizer aquilo que têm para dizer. Implicitamente, podemos reconhecer
nessa caracterização a ideia de que o texto clássico nunca deixou de encontrar olhos e
ouvidos dispostos a atualizar o que ele tinha para oferecer. Na diacronia de sua própria
transcendência, o clássico sempre alcançou sentidos humanos em busca dos mesmos
novos sentidos. O leitor - essa projeção alocada sempre nos limites do virtual e do
empírico – divide seu olhar entre a urgência das questões do seu tempo presente e a
perenidade das lições e das sensações do passado, de modo a (re)construir as
significações de obras ininterruptamente contemporâneas. A leitura de um clássico é
sempre uma apropriação anacrônica do que precisamos lembrar e do que almejamos
descobrir. Nesse sentido, não apenas a identidade dos leitores é mobilizada, mas
também o cânone identitário autoral que subjaz à formação do conjunto de obras
consideradas clássicas. A descoberta de si nos reflexos do texto acompanha a dinâmica
da redescoberta do outro nas entranhas das palavras.
358
O Simpósio Literatura Brasileira: Identidades em movimento se propõe a oferecer
espaço para a apresentação de diálogos intertextuais, trans-históricos e intersubjetivos
que possibilitem a reflexão sobre a relevância permanente dos clássicos, considerando
que, como lembra Calvino, toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta
como a primeira. E como também diz Adolfo Casais Monteiro, a “obra literária, como o
camaleão, muda de cor conforme o lugar onde se encontra.”1
O sistema de produção da literatura, como o compreende Antonio Candido na Formação
da Literatura Brasileira (1959) forma-se pelos já conhecidos três elementos: os
produtores literários, ou seja, os autores; os receptores, que formam os diferentes tipos
de público, e o mecanismo transmissor, como ele mesmo afirma, uma linguagem,
traduzida em estilos. Esta abordagem se vale claramente da perspectiva do contexto de
circulação da obra literária, no qual estão presentes os produtores, os receptores e um
determinado estilo, no qual o conjunto de autores produz. Assim é que se torna possível
conceber a ideia de que há um estilo de época do qual os produtores de literatura são,
mais ou menos, conscientes, e ao qual aderem, uns mais que outros, como conjunto.
Antonio Candido defende que a produção literária no Brasil só se sustenta como
expressão de uma nacionalidade a partir do século XVIII, quando os poetas árcades,
vinculados ao contexto histórico e cultural mineiro, passam a produzir como grupo
consciente de sua identidade e de seu projeto artístico comum, dando espaço para que,
no século XIX, o Romantismo se instituísse como movimento artístico e literário
genuinamente brasileiro, considerando-se o conjunto de produtores de literatura e
também de receptores dessa produção.
A noção de estilo, neste sentido, está diretamente relacionada a um certo modo de a
literatura ser produzida como objeto textual; a essa noção somam-se as influências do
contexto social, econômico e cultural para que as características de cada época se
definam e se estabilizem de modo regular e também didático.
A perspectiva proposta neste Simpósio é, em certa medida, a problematização da
relativa estabilidade de que gozam as obras ditas clássicas na literatura brasileira, por
meio de abordagens em que o olhar e a dicção do presente as ressignifiquem em novos
contextos de leituras. Temos em mente a necessidade de que a experiência do presente
integre os sentidos que circulam pelas obras consagradas da literatura brasileira de
modo que a sua atualização se realize e, em alguns casos, inaugure-se, pelo e para o
olhar contemporâneo.
Para as intenções até aqui enunciadas, consideramos produtivo que sejam trazidas para
este Simpósio análises comparativas de obras produzidas desde os primeiros momentos
das manifestações literárias no Brasil, como as produções de José de Anchieta, por
exemplo, até as primeiras décadas do século XX, com os modernistas.
Os múltiplos discursos críticos do presente, confrontados com os contextos de produção
e circulação de obras da literatura brasileira, podem desvelar não apenas as trajetórias
cultural e intelectual ao longo da nossa história, mas também os movimentos de
transformação das identidades nacionais e individuais, processos que jamais se esgotam
e que nos solicitam para a sua interpretação permanentemente.

PROGRAMAÇÃO

1 CASAIS MONTEIRO, Adolfo. Clareza e Mistério da crítica. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
359
17/07 (TARDE)

RELEITURAS NO PRESENTE: O QUE DOM CASMURRO NOS DIZ

Silvana Oliveira

REESCRITURA DA TRADIÇÃO: UM MITO XERENTE NO "BURITI", DE JOÃO GUIMARÃES ROSA

Edinael Sanches Rocha

L’HUMOUR COMME INSTRUMENT DE REPRÉSENTATION DE LA «NÉO-FAVELA »

François Weigel

LEITURA COMO FRACTAL

Luciano Luiz Aires

360

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