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Mamute: Ecos de Vidas em Concreto

O documento descreve a história de um apartamento vazio há 42 anos onde foi encontrado o corpo de uma mulher. Vários personagens refletem sobre o mistério do que aconteceu, incluindo a mãe do bebê que vivia no apartamento, o porteiro, um desapropriador e um repórter investigando o caso.

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Amaury Borges
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Mamute: Ecos de Vidas em Concreto

O documento descreve a história de um apartamento vazio há 42 anos onde foi encontrado o corpo de uma mulher. Vários personagens refletem sobre o mistério do que aconteceu, incluindo a mãe do bebê que vivia no apartamento, o porteiro, um desapropriador e um repórter investigando o caso.

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MAMUTE

Dione Carlos

“Talvez eu não seja muito humano. O que eu queria fazer era pintar o sol ao lado da casa”,
Edward Hopper pintor dente outros de “Quarto de hotel”.
Repórter - Uma mulher morta há quarenta e dois anos. Quarenta e dois de decomposição
sobre o tecido de uma poltrona. Quarenta e dois anos sem que ninguém adentrasse ao
universo da múmia. Pirâmide moderna, vertical. Jardim suspenso cercado por vivos. Um
apartamento dentro da cidade. quatrocentos mil quilos de concreto, na horizontal. Seis
blocos, 1160 apartamentos. Quarenta e cinco mil metros de fachada. Os elevadores sendo
carregados, o edifício aos poucos sendo esvaziado. Os amores não correspondidos
escondidos nos dois subsolos. Cada janela uma vida diferente. Faltava apenas a
desapropriação daquele apartamento sem dono e isso fez o prédio ficar mundialmente
conhecido. Eu sou alguém diretamente de algum lugar de olho na notícia.

(ARROMBAMENTO PORTA)

Desapropriador - Edifício, continente com países diferentes. Eu conheci um país cuja


porta não me foi aberta. Estive na Sibéria sem ser recebido. De posse da minha caneta
azul escrevi na porta que havia estado ali e que não seria permitido a ninguém atravessar
a fronteira inaugurada por mim a partir daquele dia. Cada fração de segundo é o momento
certo. Quantifico pessoas e as separo por idade, sexo nacionalidade, etnia, grau de
escolaridade, profissão, estado civil e religião. Um caleidoscópio de imagens distorcidas
previsíveis quando vistas a partir de um mesmo questionário. Água, gagueira, café,
halitose, louças empilhadas, guimbas de cigarro, pelos de gato, mãos grudentas, velórios
de papagaio, aquário vazio, choro de criança, roupas pequenas em corpos grandes e velas
acesas em altar sem santo. Duas horas, um mês quarenta e dois anos como um único dia.

Bebê – Quando foi vista pela última vez, não sei.

Desapropriador – Lacrei a Sibéria...

Bebê – Minha mãe sabe. Porque eu era bebê. O que lembro não conta como registro.

Desapropriador – Mas havia um animal dentro...

Bebê – É o estranhamento de uma fase descontinuada, no meu caso.


Desapropriador – Sempre há um animal escondido...

Bebê – Conto meus dedinhos para me certificar que estão todos no lugar certo.

Desapropriador – A Companhia do Mofo, apresenta: Mamute.

(CORO. VALSA MANCA)

Mãe – Na maternidade ganhei um bibelô. Dez horas em trabalho de parto e recebo aquilo.
“Símbolo da resistência”, disseram. Esta expressão acompanha meus dias. Quando voltei
para casa alguém estava entrando em seu apartamento. Olhou pelo canto do olho, agarrou
a chave e enfiou na fechadura. Antes, entrou e saiu três vezes colocando e tirando os pés
da soleira da porta. Sacudiu o grande corpo, a capa amarela repleta de restos de chuva. A
capa cobria o corpo que parecia esconder outro que ninguém havia de fato observado.
Sempre há um corpo dentro de outro. Este é o que deveria ser tocado. Mesmo o anterior
permanece frio, sem qualquer calor de outras mãos.

Homem – Sim, eu estava. Pulmões em ordem, coração idem. Tudo caminhava bem e não
porque nada, nunca está bem mesmo quando tudo parece funcionar. Não deveriam ter
misturado macaco com papagaio. Eu me lembro O que você perguntou mesmo?

Faxineira e Porteiro – Nós poderíamos ter tocado a campainha.

Faxineira – Uma figura pífia, apática.

Porteiro – Um mistério.

Desapropriador – França reclama do bate-estaca na construção de um empreendimento


vizinho. Não escuto nada.

Homem – O prédio inteiro treme.


Desapropriador – As cortinas na janela impedem que a paisagem exterior participe da
sala. França está imerso em livros. Acumula papéis, rascunhos, revistas, jornais,
propagandas, fotografias.

Homem – Ouviu?

Desapropriador – França descreve os tremores do prédio absorvidos pelo seu corpo.


Muito além da vista da janela, há um bairro onde pessoas nascidas por aqui não pisam. É
sujo, populoso, poliglota e repleto de matizes. França esteve entre África e Américas.
Acumulou riquezas.

Homem – A vida é para quem acorda cedo, trabalha o dia inteiro e dorme pouco.

Desapropriador – França preza a liberdade com igualdade e fraternidade. Corta seus


papéis com uma guilhotina na tentativa de organizá-los. O caos faz a sua própria
trajetória, Ele resolve abrir as cortinas.

Homem – Acho que construirão uma mesquita. As pessoas do bairro de lá virão rezar
aqui.

Desapropriador – Ele encosta a cabeça na janela e vira de frente para mim. Lá embaixo,
senhores de quipás e barbas longas conversam sobre a construção. Comento com ele sobre
o que vi.

Homem – Eu sempre confundo os dois.

Repórter – Para quem o senhor reza?

Homem – Depende. Prefiro ler.

Desapropriador – França está no chão com as mãos na cabeça, rendido. Ele me pede
com as mãos que eu vá embora e feche a porta. Então, posso sentir.

Homem – O prédio inteiro treme.


Desapropriador – É fim de tarde. O canteiro de obras está vazio. Da porta, escuto o apito
da chaleira. Parece um grito. Penso em voltar, tomar um chá. Os trincos da porta são
fechados um a um. A guilhotina volta a cortar papéis.

Homem – Aguçava meus instintos mais primais. O bebê estava com sua mãe naquele
pequeno imóvel de vastos 13 m2. A fragilidade de alguém te faz querer reafirmar seu
lugar no topo da cadeia. O berço ficava embaixo da TV preta e branca. O papagaio não
parava de taramelar. Batia as asas espalhando penas por todo o apartamento.

Mãe – Eu o coloquei embaixo da cama.

Repórter – O berço?

Faxineira – O animalzinho.

Porteiro – Ele me convenceu a colocá-lo no jardim.

Repórter – Ele obrigou você a esconder?

Mãe – Um animal antigo. Meu jardim tão pequeno, repleto de flores sem espaço para
crescer. Aquele cheiro persistiu por décadas. Talvez fosse o crescimento econômico. Ele
tem um cheiro típico. Há tantos aromas diferentes. Todos asfixiam do mesmo jeito. Então
eu o coloquei em meu pequeno jardim sem florescimentos. Talvez fosse o ar. O hábito
não deixa de ser uma conquista que parece sua. Meus braços estavam tão vazios. O
presente na bolsa repleta de fraldas, mantas, meias, macacões. Meu brinquedo de gente
grande. O único. Olhando pelo apartamento percebi que não haveria mesmo espaço para
três. Mas eu o tinha ali em minha mão direita e o embalei até. Quando ele chegou me
disse para jogar aquilo fora. Ele não suportava olhar para o presente que havia me dado.

(BOLERO)

Porteiro – Poderíamos ter batido na porta.


Bebê – Eu nunca soube e jamais saberei. Nem quero. Não pergunto nada. Não sei. Estar
é melhor que saber. Cada andar acomoda multidões disfarçadas em rostos únicos. Falam
entre si. Há os que sussurrem apenas. Mas sempre há um palavrório e uma voz por baixo
de todas, que gera outras. Eu não pergunto nada. Sempre há alguém querendo oferecer
respostas ao que não necessita delas. Não me preocupo com isso. Estar com alguém, ter
alguém que esteja. Ventar juntos. O que eu sei sobre isso?! GARGALHO
FRENETICAMENTE AGORA. Eu não estou aqui! EU GRITO HISTERICAMENTE
NESSE PONTO. Eles me substituíram por um papagaio e um, um, um, um, um, um
pequeno jardim.

Desapropriador – Lacrei a Sibéria. Eu sei mais sobre os moradores do que as paredes


que os separam. Não é sempre que você cria uma fronteira. Embora elas já existam separar
através de um decreto é algo indescritível. Certa vez toquei a campainha do Himalaia.
Cada pergunta, uma afirmação. Quem ainda se preocupa com estado civil? Himalaia, sim.
Himalaia não sabe. Ninguém pode de fato conquistá-la, povoá-la. Se você consegue
chegar ao cume, registra sua passagem e desce rapidamente porque não há oxigênio lá
em cima! O Himalaia não é meu. Não é seu. Não será de ninguém. Meu país sem dono.
E naquela folha estava escrito: Divorciada. Dá para marcar com a língua? Queria lamber
do d ao a. DIVORCIADA... Adentrou meu ouvido como uma onda gigante e percorreu
cada praia minha. Himalaia, um oceano congelado sobre montanhas. Derreta! Me
avalanche! Mas não... Você prefere acender velas sem nenhum santo no altar. E não sou
pagão.

Porteiro – Poderíamos ter juntado as mãos e batido palmas até que o barulho indicasse
que alguém lhe queria falar.

Poltrona – Sentou-se em mim como rainha do nada a ser feito. Bacia acomodada, xícara
de chá entre os dedos, aroma de erva, não do chá. Vindo do apartamento ao lado.
Poderiam perguntar a mim, mas não. A testemunha tátil que jamais será interrogada. O
veludo gasto, a espuma podre, o depósito do resto daquele animal silencioso. Diante de
nós a TV em preto e branco. Dias ligada. A pior parte: No mesmo canal! Então, brisa,
aroma de erva, perfumes, desinfetantes e um dia o líquido que revela sangue. Não havia
nada. Se eu pudesse ao menos ter em mim restos de um crime. Muitas vezes perguntei ao
animal: Por que não um crime passional? Poderia mentir. Foi por amor. Não. Tédio. A
causa maior. Tédio congênito. Vergonhoso. Nenhum respingo, traço, marca. Por que não
um findar da própria existência? Tantas formas. Ao menos um bilhete bem escrito, pílulas
espalhadas, corda amarrada no varal, estilete, navalha, faca, veneno, arma de fogo... Tudo
milimetricamente bem elaborado. Nada. Nada. Nada. Nem para a reciclagem me
aceitarão. É certo. Desqualificada. Simples assim. Criada para acolher, treinada para
acomodar e desqualificada por você e esse seu Santo Nada de todo dia!

Repórter – O senhor tinha certeza de que não havia ninguém?

Porteiro – Não pensei nisso. Parecia vazio. Deveria estar vazio. Se parece vazio é vazio.
Onde há espaço sem ninguém haverá alguém tentando ocupar. Alguém vira ninguém
quando ocupa (Só não sabe disso). Essa necessidade de agir assim existe para comprovar
o que é ser, não ser. Ser ninguém faz parte do processo de apropriação indébita também
porque x não pertence a y nem x a x, nem y a y e muito menos y a x. Sempre querem
tomar posse de algum lugar mesmo quando este deve ficar vazio.

Repórter – -------------------Grata pelo depoimento. Nós entraremos em contato quando


a notícia estiver pronta.

Porteiro – A notícia ainda não está pronta?

Repórter – Nós estamos coletando alguns depoimentos que possam ajudar a esclarecer
o ocorrido.

Homem – Isto pertence ao escuro, senhores. Não posso reclamar. Nada funciona e tudo
parece bem porque não há mais a esperança de como será. Você volta a ser macaco e se
livra do papagaio. Embora hoje em dia seja mais fácil atingir esse estágio porque... Eu
me lembro. O que você perguntou mesmo?

Repórter – Nada. Nada.

Mãe – Aquela capa amarela sobre o corpo. Restos de alguém. Ela não pegou a chave
imediatamente, não roubou de dentro da própria bolsa a sua privacidade. Era medo. Ela
não me conhecia. Eu estava com a minha própria bolsa muito aberta, sem proteção
alguma, as pernas arqueadas pelo esforço de caminhar carregando restos de alguém.
Estávamos perdidas e havíamos nos encontrado. Quando alguém parece tão distante como
uma ilha. Só que você está náufrago. Como não querer chegar até lá?

Poltrona – Fotos. Ao menos estarei nos jornais. Já que não podem mostrá-la. Não há o
que exibir. Nunca houve. Fotos. Não de frente. Há restos. De costas elegantemente
posicionada no centro da sala ao lado da mesinha lateral e da delicada xícara de chá vazia.
A madeira não brilha. De todo modo isto me confere como disseram alguns jornalistas
um “ar retro”. Antigo eterno. Moderno póstumo. Fotos. Coloridas, digitais, manipuláveis.
Talvez lustrem minha madeira. Eu me adapto. Não reclamo. Camaleão de tapeçaria.

Faxineira – Não revelaria minhas observações ao longo de tanto tempo a dois


microfones, um rebatedor de luz, cabos de energia, uma câmera e três rostos tomados
pelo mais evidente talvez. Eu limpo e observo. O talvez destrói lentamente até assassinar
de uma vez.

Repórter – Claro. Mas a notícia é fração não do segundo que é perfeito na incapacidade
de ser captado, quantificado, mas parte inferior de algo que pertence ao mistério.

Faxineira – Falo o que chega e se instala. Não o que era ou será. Não entrego furo de
notícia. Eu cuido do prédio, faço faxina nos andares. Tenho que tirar a poltrona. Posso
fazer isso por eles. Ajudá-los em troca de um café. Porque já senti o aroma.

Desapropriador – Estados Unidos mora sozinha. De seu gato conheço apenas os pelos.
Suas respostas ao meu questionário são imutáveis. Para onde ela vai do sétimo andar?
Talvez para o sexto, não sei. Estados Unidos anda paranóica. Alguém tentou invadir seu
espaço. Um terrabyte de memória, com anti-vírus Premium e lá estava não o Cavalo de
Tróia, mas um Centauro. Não entendo o resto da indignação que brota dele. Ele odeia
explicar o que considera básico então concordo sempre. Não se discute com uma potência
principalmente se o mundo dele domina o seu. Diante disso escrevo em minhas folhas
amarrotadas e o incluo na mesma classificação de quem não sabe digitar com mais de
dois dedos. Guerrilha urbana.

Porteiro – Quem sabe um panelaço, no andaime debaixo da sua janela.


(FADO)

Poltrona –(CANTANDO) Já tivemos bons momentos, hoje posso recordar. Tuas mãos
me percorrendo costurando sem cessar. Meu artesão estafado entre estofados a me
terminar. Naquele galpão, a linha de produção não pode mais parar. Juntos no caminhão.
Descarregada na loja, sem nenhum comprador. A dor é só minha. Acabou. Oferta ou
liquidação se tem dinheiro ou não, agora é móvel na mão. Tudo pode mudar. Alguém vai
me carregar. Obrigada, senhores.

Repórter – Um leilão bizarro. Levaram o objeto, examinaram cada parte e nada


encontraram. Virou peça de colecionador. Bateu recorde de oferta seguido do boné de um
aluno do ensino médio cujo passatempo era caçar. Eu sou alguém diretamente de algum
lugar de olho na notícia.

Desapropriador – Brasil não sabe mais se carrega um S ou um Z no nome. Enrolada em


verde e amarelo esconde a pele vermelha. A porta da sua casa é bonita. Madeira nobre de
árvore centenária. Brasil parece a China ou a Índia, mas se faz conhecer pelas costas
largas e os quadris avantajados. Está em todos os pôsteres e folhetos, quase manuais para
estrangeiros. Brasil mede a grossura dos bracinhos, das pernas gordinhas. Trituradores
compulsivos educados à mesa alvoroçados pelo almoço. Muitas vezes são confundidos
com um talo de cana de açúcar ganha na feira.

Mãe – Troquei a carne pela soja.

Desapropriador – Seu vestido é bonito, algodão de boa qualidade, confecção boliviana.


Haiti está aqui. Brasil mastiga. Antes, separa pele, músculo, gordura e osso. Classe A, B,
C, D. Um selo para cada tipo de nascimento. Pneus queimados na calçada. Etiquetinha
no pulso, no tornozelo, data de validade no ombro. Tem alguém morando com você?

Repórter – Por que está tremendo? Suas mãos, o que houve com elas?

Faxineira – Parece excesso de água sanitária.

Repórter – O que limpa também machuca, sabia?


Desapropriador – Antes mesmo de entrar senti esse cheiro.

Porteiro – Mistura de pneu, café e faxina.

Repórter – O porteiro me mostrou o seu carro novo.

Desapropriador – Estava com o porta-malas aberto.

Repórter – Uma mulher morta há quarenta e dois anos. Quarenta e dois de decomposição
sobre o tecido de uma poltrona. Quarenta e dois anos sem que ninguém adentrasse ao
universo da múmia.

Porteiro – Poderíamos ter cantado. Durante um dia inteiro em frente à porta dela.

(TEMA FRANÇA)

Bebê – Havia uma lista de desaparecidos. Sempre há. Todos os dias alguém some. Há
momentos em que os caramujos andam pela terra, sozinhos. Cavalos deles mesmos. E
sempre tem um desaparecido dentro. Sendo arrastado, deixando rastro do que parece ser
uma cura. Quando ele passa somos nós ali. Parasitas e cavaleiros escondidos, esquecidos.
Acaricio meus cabelos suavemente enquanto os vejo caminhar sobre mim.

Mãe – A louça acumula o que não dá mais para lavar. Acabou o sabão, falta espaço para
a secagem, não há mais vontade naquele momento. O homem chegou, o colchão está no
chão. Viramos de costas, dormimos de lado, sonhamos com outros. Décadas apoiadas em
nossas fronhas. Dormia sobre mim, dentro, perto. Até deixar parte de si comigo. E falhei,
falhei, falhei, falhei, falhei e tudo ficou bem, tranqüilo, plácido, adormecido, esquecido.
Repórter – Se o nome estava numa lista de desaparecidos, como ninguém nunca veio ao
apartamento? Quem deu parte do sumiço dela?

Faxineira – Ela não sumiu. Incrustou. Nada demais. Não entendo todo este alarde em
torno de um fato assim tão corriqueiro. Aqui neste lugar onde me encontro pessoas se
desintegram diariamente. Parece um filme de ficção científica. Todo dia tem lençol
branco, balbucio, murmúrio, lembrança. Lembrança mata! É que aconteceu no prédio,
dentro do apartamento e ela se desintegrou aos poucos com gente preservada ao redor.
Teve nascimento, casamento, começo e fim de novelas, filmes, seriados, novas
tecnologias, novos sistemas políticos.

Homem – Minha senhora, a mulher, minha companheira. Cuidava bem de sementes.


Especialista em não deixar que brotassem. Não importava a quantidade de terra. Mesmo
trocando sempre. As flores ficavam dentro. Não nasciam. Também não morriam.
Sementes por longos anos. Uma habilidade única. Inflorestamento. Nunca tinha ouvido
falar até me casar com ela. Eu estava falando de alguma Vai passar em qual canal isso?
Se eu assistir talvez consiga Tinha a ver com flores, não é? Nunca fui paisagista nem
botânico.

Repórter – Por que você estava falando sobre isso comigo?

Desapropriador – Japão crê em fantasmas. Afirma ser vizinho de um. Não coloco isto
em meu formulário. Japão não está doente. Não acredita em enfermidade. Logo o prédio
será desativado e demolido. Tudo voltará ao normal. Ele teme que o fantasma solitário o
persiga. Talvez seja ele mesmo. Não sei. É certo que me causa calafrios. Há guimbas de
cigarro ao seu lado. Não fuma. Diz que os acende para eliminar certo odor persistente. Já
não sinto nada. Há variações máximas de cheiro em meu nariz curioso. Olha para a parede
antes que eu pergunte quantas pessoas moram na casa (Mesmo sabendo que é apenas
uma) e gagueja por dez minutos. Não consegue dizer: “Eu”. Por fim diz:

Bebê – Nós.

Porteiro – Nós.

Desapropriador – E pisca o olho para que eu marque “Um” no papel. É hora de ir


embora. Ambos nos despedimos sem conseguir dizer tchau. Segundo ele é assim que o
fantasma se manifesta. Impossibilitando o outro de completar uma palavra.

Porteiro – Descer pela ...

Desapropriador – Impossibilitando o outro de completar uma palavra.


Porteiro – Descer pela ...

Desapropriador – Impossibilitando o outro de completar uma palavra.

Bebê – Eles me fragmentaram. Você pode pensar: “Cada pessoa É um fragmento”. Não.
Fragmentaram o fragmento do que viria a ser a minha pessoa. Eu não sou invisível. É que
não podem me ver.

Mãe – Eu não deveria estar neste andar. É tão alto aqui. Há um suspiro entre as janelas
que invade as salas/cozinhas/banheiros/quartos. É tão quieto. Mas se eu descer não haverá
mais suspensão entre nós. Estique a corda e venha devagar, cuidadoso, bailarino. Não,
deixa que eu me atire até você. Porque não tenho medo. Perdi minha bolsa. Guardei o
bibelô entre os seios.

Bebê – Ela não me esquece, nem pode. Não se livrou do bibelô. Acabou com o jardim,
mudou de casa e levou seus animais. O pequeno enfeite descansa sobre seu travesseiro.
Ela o vê passear pelo soro até estar dentro dela. Então, ficamos juntas. Um “animal
antigo” como ela gosta dizer e eu, seu pequeno papagaio sem fala. Então, ergo meus
pequeninos braços e envolvo o ar como se ela estivesse flutuando nele.

Poltrona – Espuma nova, tecido importado, restaurada, reavaliada e comprada por quem
sabe dar valor. Sou uma espécie de tesouro macabro entre jovens adoradores. Pagam para
me mirar. Fotos, muitas. Como é bom ser adorada sem precisar suportar o peso de alguém.
A madeira gasta agora é relíquia. Uma tumba. Objeto de arqueologia. Estudada e
catalogada por seguidores.

Desapropriador – Quer um cigarro?

Porteiro – O quê?

Desapropriador – Quer um cigarro?

Faxineira – Apenas um descansa, o outro assombra e o resto vaga.


Bebê – Há mais de um.

Repórter – Ele disse isso?

Faxineira – Sim.

Repórter – E depois?

Faxineira – Desligue os microfones e eu conto.

Porteiro – Você não vai precisar do áudio para reproduzir o que será ouvido.

Desapropriador – Me tornei fumante. Só parei quando abriram aquela porta. Cruzaram


a fronteira.

Repórter – O que havia na sala?

Desapropriador – Sibéria. Frio. Odor. Quatro décadas congeladas no apartamento.

Faxineira – A poltrona e restos dela amalgamados. Não limpei nada. Vieram aqui e
levaram as duas. Quarenta e dois anos, juntas fundindo-se uma na outra.

Porteiro – Descobriram nosso segredo.

Repórter – Nosso?! Vocês dois sabiam?!

Desapropriador –Eu não moro aqui. Quantifico e classifico.

Porteiro – Sempre há um jardim. Encontraram nosso animal.

Repórter – No jardim?!

Bebê – Poderíamos ter dito aos berros: Eu me contorço por você.


Faxineira – Mas nós deixamos o mamute no jardim.

Repórter – O imóvel ficará vazio assim como todos os outros. Há uma data para levar ao
chão o que foi erguido para abrigar vidas. Poucas famílias. Muitas pessoas acomodadas
em 13m2 individuais. Os amores não correspondidos escondidos nos dois subsolos. Cada
janela uma vida diferente. Faltava apenas a desapropriação daquele apartamento sem
dono. E isso fez o prédio ficar mundialmente conhecido. Eu sou alguém diretamente de
algum lugar de olho na notícia.

MAMUTE 
Dione Carlos 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Talvez eu não seja muito humano. O que e
Repórter - Uma mulher morta há quarenta e dois anos. Quarenta e dois de decomposição 
sobre o tecido de uma poltrona. Quarent
Desapropriador – Sempre há um animal escondido... 
 
Bebê – Conto meus dedinhos para me certificar que estão todos no lugar c
Desapropriador – As cortinas na janela impedem que a paisagem exterior participe da 
sala. França está imerso em livros. Acum
Desapropriador – É fim de tarde. O canteiro de obras está vazio. Da porta, escuto o apito 
da chaleira. Parece um grito. Pens
Bebê – Eu nunca soube e jamais saberei. Nem quero. Não pergunto nada. Não sei. Estar 
é melhor que saber. Cada andar acomoda
causa maior. Tédio congênito. Vergonhoso. Nenhum respingo, traço, marca. Por que não 
um findar da própria existência? Tantas
alguma, as pernas arqueadas pelo esforço de caminhar carregando restos de alguém. 
Estávamos perdidas e havíamos nos encontra
(FADO) 
 
Poltrona –(CANTANDO) Já tivemos bons momentos, hoje posso recordar. Tuas mãos 
me percorrendo costurando sem cessar
Desapropriador – Antes mesmo de entrar senti esse cheiro.  
 
Porteiro – Mistura de pneu, café e faxina.  
 
Repórter – O por

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