Sergio Cohn - Um Contraprograma
Sergio Cohn - Um Contraprograma
Editor
Eduardo Lacerda
Assistente Editorial
Ricardo Escudeiro
ISBN 978-85-8297-322-6
Editora Patuá
Rua Manuel Luiz de Araujo Costa, 287 – Casa 1
CEP 03280-020 São Paulo – SP Brasil
Tel.: (11) 2216-0407 / (11) 974928378
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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO
ESTES TEMPOS | 15
(2016-2013)
UM CONTRAPROGRAMA
CICLO
PASSATEMPO
OUTRO PRELÚDIO
VIGÍLIA REMIX
SUMI
VOLTEIOS
O SONHADOR INSONE | 62
(2006-2003)
AMOR
ALICE
FUGA PARA O VERMELHO
DA CIRCUNSTÂNCIA
HORIZONTE DE EVENTOS
MNEMO
PATHOS
PÁRABOLA DA VONTADE
OFIUCO
DESCURSO
DISCURSO
se estamos perdidos,
melhor não andarmos tão depressa
para não sermos presas
dos próprios passos
melhor o silêncio, observar
a estratégia de quem já
conhece esses espaços:
pássaros onças outros
olhares de soslaio
sabendo que alimento e que veneno
nos espera na beira desse descaminho
não há mais nenhum Virgílio
para nos guiar
mas veja: nada aqui é novo
nem mesmo o labirinto
e nunca estivemos realmente sozinhos.
UM CONTRAPROGRAMA
15
Sergio Cohn
BALDIO
UM CONTRAPROGRAMA
16
Sergio Cohn
AMOR NO MATO
não
numa cama
com a neutra suavidade de seus objetos -
uma cama
que é a anulação do mundo
entre paredes
e nos leva ao encontro concentrado
singular humano –
o amor se faz no mato
onde somos corpos entre corpos
vidas entre vidas e restos de vidas
que incomodam cheiram tocam
obrigam a busca incessante de espaço
a adequação dos sentidos ao tempo
o calor
o úmido de nós em nós
no entorno
o mato
que é vário como deve ser o amor
que é novo a cada instante
como deve ser a vida
UM CONTRAPROGRAMA
17
Sergio Cohn
aurora das coisas
espaço não-domesticado
onde juntos exploramos nosso toque
nossos ritmos nosso sexo
o conforto possível de corpos no mundo
que se querem e querem o mundo
que sabem que o amor
não é redutível
a apenas um encontro
UM CONTRAPROGRAMA
18
Sergio Cohn
MONSTRO
ser o monstro
sabe-se
toda ferramenta
é também prisão
encerra
possibilidades
(a ética
do alicate)
UM CONTRAPROGRAMA
19
Sergio Cohn
4
o monstro
é a negação
da estratégia
– reinvenção
5
somente
quando rompemos
com as engrenagens
mais íntimas
– corpo e
ato –
encontramos
alguma possibilidade
de liberdade
6
a de sermos
monstros
para nós mesmos
UM CONTRAPROGRAMA
20
Sergio Cohn
7
o monstro
não é definível
ou melhor
só é definível
por si
– monstro
8
o monstro
é outro
o não
possui um fantasma
9
o monstro
pertence ao tempo
é a essência
do seu tempo
UM CONTRAPROGRAMA
21
Sergio Cohn
10
mas o monstro
pertence
a apenas um tempo?
11
é possível
a vida
sem monstro?
12
o monstro
não tem
resposta
UM CONTRAPROGRAMA
22
Sergio Cohn
TRÊS FORMAS DE AMOR
MAR
o mar é a fera em si
corpo revolto,
imenso, impossível
de abarcar,
demanda toda atenção.
mas quem dele não tira
o olho, se perde da
razão: em fúria
é indomável,
em calmaria labirinto
(azul sob azul,
nenhum deserto
é tão sucinto).
ESTRELA
a estrela é a fera em nós
o desejo anfíbio
de mutar do que somos
UM CONTRAPROGRAMA
23
Sergio Cohn
a outro –
então mergulho,
desrazão.
amor, silente
é a própria expressão
do não.
SELVA
a soma de desejos
ritmos de corpos
devorando-se
cada delícia é
uma armadilha:
úmida de vida,
a selva transforma
quem a ama
em mais um.
UM CONTRAPROGRAMA
24
Sergio Cohn
a concha que se agarra à pedra
contra a fúria das ondas.
o dente que se cerra na carne
dura da maçã. o azul que resta
entre nuvens, entre folhas,
a primeira luz da manhã.
o pulsar, gesto
e jenipapo, orla de fogo
no mato, mancha
no dorso da onça.
UM CONTRAPROGRAMA
25
Sergio Cohn
TEORIA LITERÁRIA
um é o bote da surucucu
o duro, imenso golpe
explicitando todo intento
UM CONTRAPROGRAMA
26
Sergio Cohn
CONVERSA NO JARDIM
UM CONTRAPROGRAMA
27
Sergio Cohn
ele fumou em silêncio, os olhos quietos,
a boca lutando contra a secura
do arredor e de dentro.
UM CONTRAPROGRAMA
28
Sergio Cohn
CANTO DA ESTRADA
em 2012
saindo da celebração
ao ericson pires
no circo voador
trôpego na chuva fina
peguei um taxi
para a casa
o motorista era
um cinquentão
corpulento
careca
de bigode farto
fomos conversando
a certa altura
ele me contou
que era mestre
de capoeira
UM CONTRAPROGRAMA
29
Sergio Cohn
falei do livro
que editei
com entrevistas
com grandes
mestres
de pastinha
a jelon vieira
(o presenteei
com um exemplar
ao chegar em casa)
e ele me contou
a história:
seu mestre
- cujo nome
(duplo)
perdi -
havia sumido
alguns anos atrás
era um ex-militar
mestre em
angola
que fazia sua roda
na baixada
UM CONTRAPROGRAMA
30
Sergio Cohn
e depois de anos
descobriram
que ele havia voltado
para sua cidadezinha natal
no interior da bahia
decidiram ir
encontrá-lo
tentar trazê-lo
de novo para o rio
para as rodas
o motorista
foi sozinho
com seu taxi
UM CONTRAPROGRAMA
31
Sergio Cohn
(ele abriu
o porta-luvas
e tirou duas fotos
da viagem:
uma dele com o mestre
na porta da casa
de pau a pique
que ele morava
uma rua de terra
seca poeirenta
os dois de pé
ao lado do taxi
outra
do mestre
fazendo uma ponte
com seu corpo
magro mirrado
ainda torneado
de músculos
aos oitenta anos)
UM CONTRAPROGRAMA
32
Sergio Cohn
“só se for
agora”
o mestre se despediu
da família
com sua camisa
azul desbotada
aberta no peito
e a calça
de brim amassada
e foi entrando
no carro
mas antes
parou e perguntou
ao motorista
se ele tinha
um real
para emprestar
o motorista
disse que sim
e o entregou
UM CONTRAPROGRAMA
33
Sergio Cohn
o mestre colocou
a moeda
na carteira surrada
que estava no bolso
traseiro
de sua calça
e
frente ao olhar
curioso do amigo
disse:
“não se pode
viajar
sem dinheiro”.
UM CONTRAPROGRAMA
34
Sergio Cohn
OMA
as festas na casa
da minha avó
eram tristes.
senhores magros
– excessivamente
magros –
com números
tatuados nos braços
falavam
com sotaque pesado
sobre destruição
e morte
eu e minha irmã
a gente entrava
pela porta
corria para o armário
da sala
onde minha avó
guardava balas
de hortelã
UM CONTRAPROGRAMA
35
Sergio Cohn
era nossa
brincadeira
ela fingia
que escondia
as balas
e sempre
olhava com
surpresa
quando a gente
mostrava
as mãos cheias
de pequenas
pedrinhas doces
depois
eu ficava passeando
por entre aquelas
pernas esqueléticas
e vozes em tons graves
como se
tivessem ficado
presas
em outro
tempo
UM CONTRAPROGRAMA
36
Sergio Cohn
a minha avó
não era triste
ela tinha
o mesmo sotaque
pesado
mas a voz
era viva
contava dos
seus tempos
de juventude
das festas de noite
inteira
cheias de danças
e big bands
do namorado
que era um físico
promissor
e dos amigos dele
UM CONTRAPROGRAMA
37
Sergio Cohn
de einstein
descendo a escada
de roupão
para cumprimentá-la
da sua biblioteca
guardei dois
livros:
uma antologia
de bolso
do georg trakl
pequena e delicada
em contraponto
à violência dos versos
e uma poesia completa
do gottfried benn
austera em sua
capa dura de tecido
quando estranhei
ela ler um autor
como benn
um grande poeta
mas simpatizante
da destruição
meu pai retrucou
que ela diria
UM CONTRAPROGRAMA
38
Sergio Cohn
que nem sempre
se pode confundir
política
com poesia
e minha avó
do seu jeito
seco
viajava o mundo
e namorava
recusou casamento
porque dizia
que não queria
enterrar outro
marido
o pretendente
estava ainda
vivo e ativo
na época
que ela
morreu
mas talvez
ela não quisesse
mais ninguém
para perturbar
UM CONTRAPROGRAMA
39
Sergio Cohn
suas leituras
ou o carteado
com as
amigas
ela viveu
muito
veio de navio
para uma terra
estranha
uma língua
estranha
saiu de
uma metrópole
cosmopolita
para um sítio
sem água nem luz
no meio do nada
para ver
uma parteira
salvar a vida
de seu filho
recém-nascido
que a medicina
ocidental disse
desenganado
UM CONTRAPROGRAMA
40
Sergio Cohn
e eu andando
por entre aquelas
pernas magras
altas soturnas
das suas festas
me impressionava
como as vozes
graves não cessavam
talvez apenas
quando
criança
interpelei
os convivas:
“esse homem
que vocês tanto falam
não pode só ter
feito coisas assim
tão ruins
se não fosse por ele
minha avó
não tinha vindo
para aqui
meu pai nascido
aqui
e conhecido
UM CONTRAPROGRAMA
41
Sergio Cohn
a minha mãe
se não fosse
ele
eu não existia”
e foi no silêncio
que se fez
que percebi
que não importa
o terror do tempo
no fim
tudo acaba
em vida
UM CONTRAPROGRAMA
42
Sergio Cohn
PREFERIR NÃO
o que
de mais precioso
aprendi
com meu pai
foi a impossibilidade
cedo a entendi:
uma tarde
adolescente
ouvindo syd
barrett na sala
percebi
seria anarquista
por não crer
na sua plena
realização
mas ser um porvir
(não futuro
UM CONTRAPROGRAMA
43
Sergio Cohn
mas espectro
sempre além)
e portanto ser
um movimento
contínuo
que não permite
descanso ou identidade
naquela época
meu pai ainda
não me falava
de córdoba de lorca
distante e só
sua metáfora preferida
para o trabalho intelectual:
UM CONTRAPROGRAMA
44
Sergio Cohn
talvez naquela época
meu pai nem tivesse ainda
elaborado a figura
do frankfurtiano zen
aquele que mesmo sabendo
o alvo inalcançável
lança a flecha
um rigor
um aviso
e desse olhar
fui aprendendo
o desterro
meu pai
que cita sempre
a frase do amigo:
UM CONTRAPROGRAMA
45
Sergio Cohn
não estava
em nenhum
desses lugares”
e pouco a pouco
vou transmitindo
esse olhar
para meu filho
preferir não
ter volta
UM CONTRAPROGRAMA
46
Sergio Cohn
UM CONTRAPROGRAMA
1
esta montanha invade a cidade
e à sua margem penso
não no silêncio, na astúcia
e no exílio (que já foram
tentados a contento) mas
do lado de dentro
mesmo que impossível
extraviar-me no alheio
2
o alheio: não o outro
do morro ou o rosto
da rua, mas o que
ainda despercebido pulsa
e sobreviverá ao tempo
porque o fim disto
– desta cidade – não é
o de todas as coisas.
UM CONTRAPROGRAMA
47
Sergio Cohn
CICLO
outro tempo
é o fruto
sob a pele
fenecendo
a morte
vem de dentro
a vida
está lá fora
devora-a
e recifra.
UM CONTRAPROGRAMA
48
Sergio Cohn
PASSATEMPO
aprendi pouco a
pouco a errar pe
los jogos do dia
(ou a medusa,
amor, dor terrena)
o céu é um tabu
leiro de estrelas
sem metafísica
UM CONTRAPROGRAMA
49
Sergio Cohn
(e o que mais
se precisa?)
o amigo louco
apenas algumas
vezes volta
como uma per
gunta perdida:
o que (como
o tempo) não
teve início
acaso existiria?
UM CONTRAPROGRAMA
50
Sergio Cohn
OUTRO PRELÚDIO
UM CONTRAPROGRAMA
51
Sergio Cohn
VIGÍLIA REMIX
UM CONTRAPROGRAMA
52
Sergio Cohn
SUMI
singularidade
nua
erro
um corpo
saber
sabê-lo
um campo
de experiências
um tempo
qual velocidade
entre prisma
e cataclisma
UM CONTRAPROGRAMA
53
Sergio Cohn
qual tempo
necessário
para reflexão
diálogo
retro
aliment
ação
o longo
tecido
que somos
entre afeto
e efeito
o tempo
diferença
que
faz
diferença
UM CONTRAPROGRAMA
54
Sergio Cohn
inform
ação
controle
repetição
controle
erro
passo
a
passo
sê-lo
não
por via
(direção
traço)
mas
campo
aberto
UM CONTRAPROGRAMA
55
Sergio Cohn
dest
erro
escrito
n’água
o nome
aviva
poesia
e
a fala
se faz
apaixo
nada
mente
livre
leve
se ex
perien
cia
UM CONTRAPROGRAMA
56
Sergio Cohn
*
da viscosidade:
o nanquim
n’água
qual
carcará
volteando
sentido
algum
escoa
pela
soma
dos gestos
pela
economia
dos meios
UM CONTRAPROGRAMA
57
Sergio Cohn
e num
pis
car
de olhos
a inform
ação
se faz
destr
oços
da viscosidade:
veloz
cidade
campo
de vi
são
a
ve
nida
UM CONTRAPROGRAMA
58
Sergio Cohn
perspec
tiva
sendo
qual
quer
escolher
nosso
tempo
UM CONTRAPROGRAMA
59
Sergio Cohn
VOLTEIOS
saque dádiva
existe o saque, o se apropriar do alheio. a primeira quebra,
o primeiro movimento de superação. e existe a dádiva. só
interessa um mundo, em seu esplendor, em seu excesso,
onde oportunidades possam ser desperdiçadas.
nomadismo habitar
pertencer. tecer uma relação afetuosa com tudo. a atenção
total. conhecer é o que permite a leveza dos caminhos. ha-
bitar é o que permite o movimento.
traição vínculo
não o tempo abstrato, mas o que nos cerca. um aquário
mergulhado em alto-mar. interessa o que há de futuro nele,
as questões ainda não formuladas. interessa transbordá-lo,
estar além, imerso no espanto: o amor mínimo que as coi-
sas nos doam, quando se desvelam. interessa o que desre-
gra e possibilita.
UM CONTRAPROGRAMA
60
Sergio Cohn
invenção experiência
rio. o ir. fluxo de corpo passando pelas coisas. ritmo. mesmo
para pássaros no ar há vias. não somos. soma.
do melhor caminho (menor atrito) de repente um desvio:
novas terras férteis.
campo via
o conhecimento da via: ser o mesmo. trajetória.
o conhecimento do campo: ser o outro. estratégia.
UM CONTRAPROGRAMA
61
Sergio Cohn
O SONHADOR INSONE (I)
um ângulo no espelho
que subtrai do olhar
tudo que é próprio
então mergulho –
a imponderável medusa
restituindo o que pulsa
a um
UM CONTRAPROGRAMA
62
Sergio Cohn
O SONHADOR INSONE (II)
ao léu e vário
abrir as portas
de par em par
e sair para as ruas
tudo é nascente
o sol pleno de setembro
traz da mão
do garoto que passa
um cheiro de fruta
(a vida já é um tempo
por demais interessante)
UM CONTRAPROGRAMA
63
Sergio Cohn
PASSEIO
no muro lá fora
um mendigo rabiscou
mandalas:
é possível encontrar
as mesmas em quase
toda cidade
UM CONTRAPROGRAMA
64
Sergio Cohn
construindo uma geografia
outra, íntima
uma aventura talvez
para o olhar
assim também
seu corpo para
mim:
o que se abre,
o que se reflete
em sorriso
UM CONTRAPROGRAMA
65
Sergio Cohn
A VOZ VIOLENTA
o tempo é um aquário
mergulhado em alto-mar
meu corpo
é o corpo do meu tempo
cultivado e cuidado
com as técnicas do meu tempo
minhas palavras
UM CONTRAPROGRAMA
66
Sergio Cohn
onde conjugar futuro nelas?
eu sou meu tempo
um aquário mergulhado
em alto-mar
UM CONTRAPROGRAMA
67
Sergio Cohn
APROXIMAÇÕES, ENCANTAMENTOS:
A NOITE
noite
quão fundo é seu leito?
(lâmina d’água
rio lamacento)
(poeira de cores
no universo negro)
noite
por trás do
invisível contorno
de que é feito
seu leito?
UM CONTRAPROGRAMA
68
Sergio Cohn
(
noite
se não houve
o assombro
de uma criação
ex nihil
quem retirou
do caos
as possibilidades
o sopro e o
precipício?
quem a concebeu
ao lhe dar
um limite?
noite
é como o figo
via espessa
UM CONTRAPROGRAMA
69
Sergio Cohn
o avesso de flor
guardando para si
as sementes,
os segredos
noite
se a concebo
é como um momento
sem corpo
volume ou erro
que o definisse
mas momento
já que nos toca
e influi
feito a luz
que é o avesso
e não ausência
UM CONTRAPROGRAMA
70
Sergio Cohn
)
noite
não concebo
agente
ou engenho
e nem ao menos
o acaso
para mim
é solução –
insone
me perco
entre gaia ciência
(anima mundi)
e silêncio
)
noite
não substantivo
mas verbo
UM CONTRAPROGRAMA
71
Sergio Cohn
um estar
que só vejo
(tudo vejo)
em tradução:
negra porcelana
enfeitiçada
pelo líquido bestiário
de suas constelações
UM CONTRAPROGRAMA
72
Sergio Cohn
APROXIMAÇÕES, ENCANTAMENTOS:
O MAR
azul e vertigem
o mar
é um campo
onde todos os seres
são fogo
ou mercúrio
o mar
ao meio-dia
veste a pele
da cobra-grande
UM CONTRAPROGRAMA
73
Sergio Cohn
olhos de cipó
despreendendo
cinema:
motivos, coágulos
de luz
e tudo então
é enorme
e lento
um ser
se revolvendo
mar
um conhecimento
temporário
e fechado em si
acumulando
nenhum musgo
na tarefa que o aprisiona
UM CONTRAPROGRAMA
74
Sergio Cohn
(
)
mar
nenhuma máquina
(nem o mundo o é)
mas organismo
um corpo
que se basta
admirando as coisas
sem querer tê-las
(carícia de navalha
na areia)
mar
campo de evocações
suas ondas
a respiração
desta pedra
que já foi fogo
gás, nada
UM CONTRAPROGRAMA
75
Sergio Cohn
e hoje se veste
de animal
UM CONTRAPROGRAMA
76
Sergio Cohn
QUEM SOMOS NÓS AGORA
no rastro no rastilho
desta festa de imprevistos
corpo novo
amalgamado ao meu
: cintilam as gotas
contra a persiana cerrada
o ar melado de fumo
o húmus o introspecto
sorriso que nada atinge
na mão o copo evaporado
sem prumo
UM CONTRAPROGRAMA
77
Sergio Cohn
no chão hakim bey & beck
“je suis un révolutionnaire”
um ou outro universo
esquecido
as vozes ardem
contra a mente
esta noite
e lá fora a chuva
é o silêncio
de todas as coisas:
o fértil, o terrível
iporã, espaço aberto
onde tudo é possível
ecoa a amiga
antes de desaparecer
UM CONTRAPROGRAMA
78
Sergio Cohn
DA VISÃO
desfazer o puzzle
e encontrar outro dentro:
não me interessa
o que esse pôr-do-sol
na lagoa me oferta
com seus passantes
o horizonte amplo
e a árvore fincada
em pleno desvão
da pedra da gávea:
as verdadeiras questões
ainda estão para ser inventadas
UM CONTRAPROGRAMA
79
Sergio Cohn
OUTRO POEMA PARA O ECLIPSE
(DOIS MOVIMENTOS)
1
não a cidade ofertada
mas o sem-fim de ecos
de uma poça no asfalto
não os passantes
mas o que foge
à estrada, a trilha
guaxinins, jaguatiricas
aos pés
da serra da cantareira
o espanto
UM CONTRAPROGRAMA
80
Sergio Cohn
2
que corpo é esse
que se firma
por seus limites
inquietação
UM CONTRAPROGRAMA
81
Sergio Cohn
fazer um poema ontem
com o amor de amanhã
UM CONTRAPROGRAMA
82
Sergio Cohn
liberdade, palavra-erotismo
puro fetiche, contra-
naturam encalço
não síntese, além, alheio
amor posto no irrestrito
UM CONTRAPROGRAMA
83
Sergio Cohn
AMOR
UM CONTRAPROGRAMA
84
Sergio Cohn
ALICE
sua turbulência
moldando o dia
UM CONTRAPROGRAMA
85
Sergio Cohn
FUGA PARA O VERMELHO
gostaria de dizer
de muitos, mais
(e pluribus plus)
mas o mundo
sem esquadros
é excessivo
todo suicida
é um assassino tímido
UM CONTRAPROGRAMA
86
Sergio Cohn
DA CIRCUNSTÂNCIA
quando entrelençóis
nos esquecemos.
a chuva caía fina
e ao meio-dia
na praça buenos
aires cavaquinho
e grades conviviam.
abaixo, o balé ready-
made das calçadas
passa caudaloso
como a prosa
invadindo esta poesia.
UM CONTRAPROGRAMA
87
Sergio Cohn
HORIZONTE DE EVENTOS
saudade pertence ao
antigo léxico
Jorge Mautner
UM CONTRAPROGRAMA
88
Sergio Cohn
o fato é que foi se tornando pedra,
uma imensa rocha cravada à beira do mar.
o rosto voltado para cima
eternamente
se deliciando com a mutação das nuvens.
UM CONTRAPROGRAMA
89
Sergio Cohn
MNEMO
há um resíduo de futuro
no vento, fotograma ante-
cipado, montagem de fragmentos
induzindo à cena. como
aquela árvore se curvando com-
placente aos invisíveis pesos,
como o mormaço
predizendo chuva. repito,
há um canto anterior
a qualquer canto, uma réstia,
um eco primeiro, como um som
que ressoa por dentro de cada
palavra, como todo gesto se
desenha e apaga, então
novamente. há o revés,
o diáfano, o termo, beleza
posta e perdida, o desen-
cadeamento, assim
UM CONTRAPROGRAMA
90
Sergio Cohn
como a sede do vapor
por uma forma, assim
como tudo retorna
à imaginação
por trás da cortina
da memória.
UM CONTRAPROGRAMA
91
Sergio Cohn
PATHOS
UM CONTRAPROGRAMA
92
Sergio Cohn
do espanto. ou sentar-se
a observar os cristais de orvalho,
mônadas no ventre do tempo.
uma árvore, convite.
nela ver o mundo,
missiva do imponderável.
UM CONTRAPROGRAMA
93
Sergio Cohn
PÁRABOLA DA VONTADE
Michael McClure
líquido, um raio
sulca o céu
com seus dedos
árvore em negativo
busca astu-
cioso
o melhor caminho
sendas, frestas
leito
o esforço que
nos entregamos
para aquilo
(móbile)
que chamamos de vida.
UM CONTRAPROGRAMA
94
Sergio Cohn
OFIUCO
john cage
segure a serpente
nas palmas abertas
de suas mãos
ouça
através do silêncio
onde seu corpo
pede apoio
(canção de músculos,
fibras, vibração)
UM CONTRAPROGRAMA
95
Sergio Cohn
DESCURSO
UM CONTRAPROGRAMA
96
Sergio Cohn
sou visitado por um punhado de terra que roubo do chão.
mistura comovente dos três reinos. animal, vegetal, mineral.
três formas de vida com seus diferentes ritmos. tudo se ex-
pande como um grito.
lsd, 2002.
UM CONTRAPROGRAMA
97
Sergio Cohn
DISCURSO
ir, perscrutar
para além do verde
opaco da próxima curva
ir
pelo puro prazer
da paisagem
UM CONTRAPROGRAMA
98
Sergio Cohn
ao estrangeiro
só
é permitido
o esplendor
UM CONTRAPROGRAMA
99
Sergio Cohn
PARA VIVER AQUI
1
a chuva transfigura
a cidade em brilhos
como a relva ao orvalho
2
folhas descendem
de uma única árvore
tingindo de ardor a calçada
3
pangarés sonham macios
em sonhos de milho gelado
4
amo seus olhos
seus dedos ágeis
prestidigitando meu coração
UM CONTRAPROGRAMA
100
Sergio Cohn
5
mas eu sei o vento
– rastro azul que se esvai –
a livre ambiguidade do seu abandono
6
um girassol se voltou à sua passagem
UM CONTRAPROGRAMA
101
Sergio Cohn
MEMENTO
permanece o eu
esse simulacro
frágil lacre de refrões
UM CONTRAPROGRAMA
102
Sergio Cohn
pavese é o olho
da cobra verde
córdoba de lorca
e a cama
em noites de coca
narciso encalacrado
(um suspiro
cravado na carne)
o intrincado das nascentes
sempre além
e essa cama
e esse sono
que nunca vem
UM CONTRAPROGRAMA
103
Sergio Cohn
uma medusa me habita
sorri nas reentrâncias do muro
me espreita nas trepadeiras e heras
em sua pele de velcro e fogo
se faz pressentida
UM CONTRAPROGRAMA
104
Sergio Cohn
GAROTA DADÁ
gottfried benn
1
garota dadá no banheiro do bar
lábios corroídos de arsênico
gosto de porra na boca
duelam os elementos
entre nossos olhares
enquanto ela seca
sob uma lâmpada
seu corpo encharcado de suor
2
irrompem ogivas de sua língua
olhos tão negros que poderiam
refletir o dia
eu ando envolto em suas fantasias,
seus cheiros, seus passos
por um mundo que não tem nada de nosso
por entre ruas estreitas, praias
cachoeiras sempre reluzentes
sob um céu da cor do lábio dos afogados
UM CONTRAPROGRAMA
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Sergio Cohn
3
flui em vagas o ar à nossa volta
adelbarã em seu olhar
o outono em garras
dança lentamente
pássaros hipnotizados ao longe
4
voam pássaros nos vidros do carro
plana a lua
tão próxima que é possível o contato
e à sua frieza
meu hálito cria um halo
UM CONTRAPROGRAMA
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Sergio Cohn
ela me diz
com seus olhos de um passo adiante
que tem que voltar
para ver o vento invadir as cidades
o outono transfigurado
segue seu rastro
fogo de santelmo
em seu corpo de alto-mar
5
kleist o suicídio como uma das belas artes
claustrofobia do horizonte
UM CONTRAPROGRAMA
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Sergio Cohn
por mim eu ficaria para sempre ali
à sua orla
longe das ruínas
que se desconhecem
ruínas
e dançam a amarga melodia
dos motores
ali
à sombra de seu sorriso
seus olhos de naufrágio
por mim
UM CONTRAPROGRAMA
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Sergio Cohn
mas você tem a suave permanência
de tudo o que é volátil
e novamente
a minha vida
escoa
e livre
flutua
UM CONTRAPROGRAMA
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Sergio Cohn
Esta obra foi composta em Calibri
em setembro de 2016 para a Editora Patuá.