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Sergio Cohn - Um Contraprograma

Direitos autorais
© All Rights Reserved
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Copyright © Editora Patuá, 2016.

Um contraprograma © Sergio Cohn, 2016.

Editor
Eduardo Lacerda

Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação


Leonardo Mathias | [Link]/leonardomathias

Assistente Editorial
Ricardo Escudeiro

C629u Cohn, Sergio.

Um contraprograma. / Sergio Cohn.

São Paulo: Patuá, 2016.

ISBN 978-85-8297-322-6

1. Poesia Brasileira. I. Título.


CDD – 869.91

Índice para catálogo sistemático:

1. Poesia Brasileira. I. Título. 869.91

Todos os direitos desta edição reservados à:

Editora Patuá
Rua Manuel Luiz de Araujo Costa, 287 – Casa 1
CEP 03280-020 São Paulo – SP Brasil
Tel.: (11) 2216-0407 / (11) 974928378
[Link]
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

ESTES TEMPOS | 15
(2016-2013)

UM POEMA PARA ESTES TEMPOS


BALDIO
AMOR NO MATO
MONSTRO
TRÊS FORMAS DE AMOR
ESTAR EM VOCÊ COMO
TEORIA LITERÁRIA
CONVERSA NO JARDIM
CANTO DA ESTRADA
OMA
PREFERIR NÃO
POEMAS ATUAIS | 47
(2012-2007)

UM CONTRAPROGRAMA
CICLO
PASSATEMPO
OUTRO PRELÚDIO
VIGÍLIA REMIX
SUMI
VOLTEIOS

O SONHADOR INSONE | 62
(2006-2003)

O SONHADOR INSONE (I)


O SONHADOR INSONE (II)
PASSEIO
A VOZ VIOLENTA
APROXIMAÇÕES, ENCANTAMENTOS: A NOITE
APROXIMAÇÕES, ENCANTAMENTOS: O MAR
QUEM SOMOS NÓS AGORA
DA VISÃO
OUTRO POEMA PARA O ECLIPSE
AMOR AMANHÃ
LIBERDADE, PALAVRA EROTISMO
HORIZONTE DE EVENTOS | 84
(2002-2000)

AMOR
ALICE
FUGA PARA O VERMELHO
DA CIRCUNSTÂNCIA
HORIZONTE DE EVENTOS
MNEMO
PATHOS
PÁRABOLA DA VONTADE
OFIUCO
DESCURSO
DISCURSO

LÁBIO DOS AFOGADOS | 100


(1999-1994)

PARA VIVER AQUI


MEMENTO
PAVESE
UMA MEDUSA
GAROTA DADÁ
POR MIM
Se a praça fosse um terreno baldio

Luiz Guilherme Barbosa


É como se, nesses novos poemas de Sergio Cohn, a poe-
sia se colocasse sob a questão da ética. Porque, lançado ao
leitor imprevisível, o poema como que recua de qualquer
imponência e, como antídoto ao monumento, chama para
o papo. O texto publicado contra ou apesar das palavras
de ordem, traço mesmo de alguma poesia contemporânea,
aqui se elabora nos espaços do mato, do mar, do jardim, do
terreno baldio, da selva. São espaços, para esses poemas,
de alguma praça possível, e são, esses poemas, uma res-
posta singular às dúvidas que as formas da democracia
têm suscitado.

O poema público, então, pode começar numa das festas


tristes da infância na casa da avó ou então no táxi ao voltar
da celebração ao poeta e amigo no Circo Voador. O papo do
poema começa, no primeiro poema do livro, com um poe-
ta chileno, cujos versos traduzidos para o português são o
mote de uma conversa sobre como seguir em frente quan-
do se está supostamente perdido. Seja na festa de infância,
no táxi voltando para casa ou na conversa com o poeta chi-
leno, um aprendizado que só pôde acontecer depois das
conversas se enuncia: “no fim / tudo acaba / em vida” ou
“‘não se pode / viajar / sem dinheiro’” (nem que seja só um
real) ou “e nunca estivemos realmente sozinhos”.

E por isso mesmo o que se lê nesses poemas não é lição


alguma, mas, antes de tudo, as condições de possibilidade
para que as relações aconteçam e, com elas, seus efeitos,
como, por exemplo, a aprendizagem. Se, depois de ler “Um
poema para estes tempos”, o leitor termine por saber que
“nunca estivemos realmente sozinhos”, não é propriamen-
te por ter acreditado no verso, pois o poema, em seu elo-
gio da calma, do silêncio e dos animais, já havia começa-
do “com um verso de Jodorowsky”, que na verdade são dois
(o verso não está realmente sozinho): “se estamos perdidos,
/ melhor não andarmos tão depressa”.

O poeta, não estando ele mesmo sozinho ao começar o


poema, atravessa, junto com o leitor, nos dois primeiros
versos, um espaço textual de autoria ambígua ou dupla,
pois os versos de Alejandro Jodorowsky, grafados em itá-
lico e falando por “nós”, são também a tradução feita deles
por Sergio Cohn para o português e são os versos que co-
meçam o poema de Sergio Cohn. Se o verso não está ele
próprio sozinho, um dos motivos parece ser o de que os
autores desse verso (ou, na tradução, desses versos) são,
pelo menos, dois. Mas isso não quer dizer que estar acom-
panhado signifique compartilhar a autoria.
Pois logo em seguida se lê que “a poesia é a linguagem
não-comunitária”. É por isso que, nesses poemas de Sergio
Cohn, os espaços que renovam a possibilidade da praça, sen-
do quase todos eles espaços privados ou espaços fora da
cidade, são possivelmente nomeados por algum verso co-
mo “o baldio das relações”. Não um espaço baldio, mas o
baldio, que, sendo aquilo que não vale a pena, não é nem
selvagem nem cultivado. Ou seja, é inculto. Palavra, ela pró-
pria, de origem baldia, pois provém do árabe, uma língua
que contribuiu decisivamente para a formação do portu-
guês sem que fosse cultivada pelos portugueses nem mes-
mo uma língua selvagem de estrangeiros invasores.

A força dispersiva e despersonalizadora do poema – cuja


autoria no começo se estilhaça entre poeta, poeta e leitor
– se enuncia, no entanto, de forma clara e concentrada, em
versos curtos e cortados. Isso talvez o que tenha levado
Claudio Willer, leitor da poesia de Cohn, a considerá-lo “um
insuspeito pessoano, um Alberto Caeiro atualizado”. De fato,
parece mover a obra de Sergio Cohn, entre outras forças,
a possibilidade de enunciar com clareza a dispersão – do
sujeito, da autoria, do poema, do amor, da amizade, das
relações, enfim.

E, se a dispersão não enlouquece a linguagem é porque


ela, arrepiando-a, pode conduzir à “unidade” ou à “fusão”
– ainda segundo os termos com que Willer o leu. Daí que
se admira na garota, em algum poema de amor, “a suave
permanência / de tudo o que é volátil”, e se convidam os
amantes a amar, em vez de na cama, no mato, “que é vário
como deve ser o amor / que é novo a cada instante”. Um
contraprograma que, insurgindo-se contra a cama, convida
a combater a programação do amor e das relações afetivas.

O que parece organizar a calma com que se conduz o


poema e o leitor no espaço da perdição é a proximidade
com “quem já / conhece esses espaços: / pássaros onças ou-
tros / olhares de soslaio”. Aquilo que, antes de se saber, já
se sabe, é como que o ready made com que muitos desses
poemas se escrevem. Só que o já-feito agora não são os
objetos manufaturados nem mesmo – a exacerbação deles
– o texto produzido pelas máquinas digitais. Contraprogra-
maticamente, o já-feito o foi antes do homem, e a poesia,
na cidade, convoca os saberes que, diferentemente da en-
genharia das cidades, não servem para a fabricação de uma
coisa – como um poema – e sim para possibilitar um encon-
tro, ou sulcar uma trilha pelo baldio das relações.

Noutro poema, “o amigo louco” recoloca de vez em quan-


do a questão: “o que (como / o tempo) não / teve início /
acaso existiria?”. Noutro poema ainda, o enigma se recoloca
pela mínima paisagem natural: “entre rio e vento / a flor é
um coágulo / ao amanhecer”. O tempo, como a flor – per-
gunta e coágulo – não foram programados: a presença de
cada um excede a linguagem que os nomeia. Já se sabe.
A poesia dispersa o bando comunitário pois no seu gesto
de nomear a vida ela, em linguagem comum, instala o lei-
tor em terreno baldio. Mas é por isso mesmo que, aban-
donando a comunidade, um eco se ouve na solidão da lin-
guagem: “na beira desse descaminho / não há mais nenhum
Virgílio / a nos guiar / mas veja: nada aqui é novo / nem
mesmo o labirinto / e nunca estivemos sozinhos”.

Ao final de O sonhador insone, que reúne a poesia pro-


duzida entre a estreia, em 1994, e os últimos poemas até
então publicados, em 2012, uma página negra registra a
frequência com que algumas palavras apareceram ao longo
da obra de Sergio Cohn. Tempo, chama, corpo, tudo, vida,
vento – as que mais se repetiram. De 2013 até aqui, algumas
coisas mudaram e vêm mudando na vida política e cultu-
ral, e à poesia se demanda difusamente uma resposta. Penso
que, para Sergio Cohn, essa resposta passa longe não ape-
nas de qualquer palavra de ordem, mas também de escre-
ver carregando no bolso os jornais, o Google ou as ruas.
Se, como se lê num dos “volteios”, “habitar é o que permi-
te o movimento”, então o hábito desse poeta é despir-se
no mato, voltar à cidade e nomear calmamente a nudez.
UM POEMA PARA ESTES TEMPOS

(começando com um verso de Jodorowsky)

se estamos perdidos,
melhor não andarmos tão depressa
para não sermos presas
dos próprios passos
melhor o silêncio, observar
a estratégia de quem já
conhece esses espaços:
pássaros onças outros
olhares de soslaio
sabendo que alimento e que veneno
nos espera na beira desse descaminho
não há mais nenhum Virgílio
para nos guiar
mas veja: nada aqui é novo
nem mesmo o labirinto
e nunca estivemos realmente sozinhos.

UM CONTRAPROGRAMA
15

Sergio Cohn
BALDIO

a poesia é a linguagem não-comunitária


que deriva, erra, espraia
desocupa o fascio da identidade

não é aqui nem selvagem


é o baldio de relações
sempre renovadas

UM CONTRAPROGRAMA
16

Sergio Cohn
AMOR NO MATO

não
numa cama
com a neutra suavidade de seus objetos -
uma cama
que é a anulação do mundo
entre paredes
e nos leva ao encontro concentrado
singular humano –
o amor se faz no mato
onde somos corpos entre corpos
vidas entre vidas e restos de vidas
que incomodam cheiram tocam
obrigam a busca incessante de espaço
a adequação dos sentidos ao tempo
o calor
o úmido de nós em nós
no entorno
o mato
que é vário como deve ser o amor
que é novo a cada instante
como deve ser a vida

UM CONTRAPROGRAMA
17

Sergio Cohn
aurora das coisas
espaço não-domesticado
onde juntos exploramos nosso toque
nossos ritmos nosso sexo
o conforto possível de corpos no mundo
que se querem e querem o mundo
que sabem que o amor
não é redutível
a apenas um encontro

UM CONTRAPROGRAMA
18

Sergio Cohn
MONSTRO

são duas questões

como e por que

ser o monstro

sabe-se

toda ferramenta

é também prisão

encerra

possibilidades

(a ética
do alicate)

UM CONTRAPROGRAMA
19

Sergio Cohn
4
o monstro
é a negação
da estratégia

– reinvenção

5
somente
quando rompemos
com as engrenagens
mais íntimas

– corpo e
ato –

encontramos
alguma possibilidade
de liberdade

6
a de sermos
monstros
para nós mesmos

UM CONTRAPROGRAMA
20

Sergio Cohn
7
o monstro
não é definível

ou melhor
só é definível
por si

– monstro

8
o monstro
é outro

o não
possui um fantasma

9
o monstro
pertence ao tempo

é a essência
do seu tempo

– o que irá destruí-lo

UM CONTRAPROGRAMA
21

Sergio Cohn
10
mas o monstro
pertence
a apenas um tempo?

11
é possível
a vida
sem monstro?

12
o monstro
não tem
resposta

UM CONTRAPROGRAMA
22

Sergio Cohn
TRÊS FORMAS DE AMOR

MAR
o mar é a fera em si
corpo revolto,
imenso, impossível
de abarcar,
demanda toda atenção.
mas quem dele não tira
o olho, se perde da
razão: em fúria
é indomável,
em calmaria labirinto
(azul sob azul,
nenhum deserto
é tão sucinto).

ESTRELA
a estrela é a fera em nós
o desejo anfíbio
de mutar do que somos

UM CONTRAPROGRAMA
23

Sergio Cohn
a outro –

então mergulho,

desrazão.

a estrela não retorna

amor, silente

é a própria expressão

do não.

SELVA

a selva é a fera nos outros

a soma de desejos

que faz o seu jogo comum –

ritmos de corpos

devorando-se

sob a aparente calmaria.

cada delícia é

uma armadilha:

úmida de vida,

a selva transforma

quem a ama

em mais um.

UM CONTRAPROGRAMA
24

Sergio Cohn
a concha que se agarra à pedra
contra a fúria das ondas.
o dente que se cerra na carne
dura da maçã. o azul que resta
entre nuvens, entre folhas,
a primeira luz da manhã.
o pulsar, gesto
e jenipapo, orla de fogo
no mato, mancha
no dorso da onça.

ESTAR EM VOCÊ COMO

UM CONTRAPROGRAMA
25

Sergio Cohn
TEORIA LITERÁRIA

um é o bote da surucucu
o duro, imenso golpe
explicitando todo intento

outro, filhote de jararaca


deixando quase sem aviso
o mais terrível veneno

UM CONTRAPROGRAMA
26

Sergio Cohn
CONVERSA NO JARDIM

“Sempre que acreditei


que não havia nada acontecendo
descobri que era eu
que estava no lugar errado”

sentamo-nos no chão ressequido


como suas mãos
a enrolar um fumo

“veja, aqui é silêncio


mas se olharmos com mais calma
ali no canto há uma luta de morte
entre um besouro e as formigas.
num jardim, assim como no mundo,
sempre tem coisas acontecendo”

o fósforo era brasa sob brasa


tudo era brasa às duas horas
da tarde.

UM CONTRAPROGRAMA
27

Sergio Cohn
ele fumou em silêncio, os olhos quietos,
a boca lutando contra a secura
do arredor e de dentro.

ao seu lado, observava as plantas


até me fixar numa mirrada, no esforço
para crescer à margem das graminhas.
perguntei que erva era aquela.

“não sei, nunca a vi.


nem sei se é boa ou daninha.
mas, na dúvida, melhor deixar germinar”.

UM CONTRAPROGRAMA
28

Sergio Cohn
CANTO DA ESTRADA

em 2012
saindo da celebração
ao ericson pires
no circo voador
trôpego na chuva fina
peguei um taxi
para a casa

o motorista era
um cinquentão
corpulento
careca
de bigode farto

fomos conversando
a certa altura
ele me contou
que era mestre
de capoeira

UM CONTRAPROGRAMA
29

Sergio Cohn
falei do livro
que editei
com entrevistas
com grandes
mestres
de pastinha
a jelon vieira
(o presenteei
com um exemplar
ao chegar em casa)

e ele me contou
a história:
seu mestre
- cujo nome
(duplo)
perdi -
havia sumido
alguns anos atrás

era um ex-militar
mestre em
angola
que fazia sua roda
na baixada

UM CONTRAPROGRAMA
30

Sergio Cohn
e depois de anos
descobriram
que ele havia voltado
para sua cidadezinha natal
no interior da bahia

decidiram ir
encontrá-lo
tentar trazê-lo
de novo para o rio
para as rodas

o motorista
foi sozinho
com seu taxi

depois de dias de viagem


chegou na cidade
encontrou a casa
bateu palmas
foi recebido
pelo mestre
e seu neto

UM CONTRAPROGRAMA
31

Sergio Cohn
(ele abriu
o porta-luvas
e tirou duas fotos
da viagem:
uma dele com o mestre
na porta da casa
de pau a pique
que ele morava
uma rua de terra
seca poeirenta
os dois de pé
ao lado do taxi
outra
do mestre
fazendo uma ponte
com seu corpo
magro mirrado
ainda torneado
de músculos
aos oitenta anos)

falou para o mestre


que gostaria
de levá-lo de volta
para as rodas
cariocas

UM CONTRAPROGRAMA
32

Sergio Cohn
“só se for
agora”

o mestre se despediu
da família
com sua camisa
azul desbotada
aberta no peito
e a calça
de brim amassada
e foi entrando
no carro

mas antes
parou e perguntou
ao motorista
se ele tinha
um real
para emprestar

o motorista
disse que sim
e o entregou

UM CONTRAPROGRAMA
33

Sergio Cohn
o mestre colocou
a moeda
na carteira surrada
que estava no bolso
traseiro
de sua calça
e
frente ao olhar
curioso do amigo
disse:

“não se pode
viajar
sem dinheiro”.

UM CONTRAPROGRAMA
34

Sergio Cohn
OMA

as festas na casa
da minha avó
eram tristes.
senhores magros
– excessivamente
magros –
com números
tatuados nos braços
falavam
com sotaque pesado
sobre destruição
e morte

eu e minha irmã
a gente entrava
pela porta
corria para o armário
da sala
onde minha avó
guardava balas
de hortelã

UM CONTRAPROGRAMA
35

Sergio Cohn
era nossa
brincadeira

ela fingia
que escondia
as balas
e sempre
olhava com
surpresa
quando a gente
mostrava
as mãos cheias
de pequenas
pedrinhas doces

depois
eu ficava passeando
por entre aquelas
pernas esqueléticas
e vozes em tons graves
como se
tivessem ficado
presas
em outro
tempo

UM CONTRAPROGRAMA
36

Sergio Cohn
a minha avó
não era triste

também era magra


muito magra
mas não tinha
nenhum número
no braço

ela tinha
o mesmo sotaque
pesado
mas a voz
era viva

contava dos
seus tempos
de juventude
das festas de noite
inteira
cheias de danças
e big bands

do namorado
que era um físico
promissor
e dos amigos dele

UM CONTRAPROGRAMA
37

Sergio Cohn
de einstein
descendo a escada
de roupão
para cumprimentá-la

da sua biblioteca
guardei dois
livros:
uma antologia
de bolso
do georg trakl
pequena e delicada
em contraponto
à violência dos versos
e uma poesia completa
do gottfried benn
austera em sua
capa dura de tecido

quando estranhei
ela ler um autor
como benn
um grande poeta
mas simpatizante
da destruição
meu pai retrucou
que ela diria

UM CONTRAPROGRAMA
38

Sergio Cohn
que nem sempre
se pode confundir
política
com poesia

e minha avó
do seu jeito
seco
viajava o mundo
e namorava

recusou casamento
porque dizia
que não queria
enterrar outro
marido

o pretendente
estava ainda
vivo e ativo
na época
que ela
morreu

mas talvez
ela não quisesse
mais ninguém
para perturbar

UM CONTRAPROGRAMA
39

Sergio Cohn
suas leituras
ou o carteado
com as
amigas

ela viveu
muito

veio de navio
para uma terra
estranha
uma língua
estranha

saiu de
uma metrópole
cosmopolita
para um sítio
sem água nem luz
no meio do nada
para ver
uma parteira
salvar a vida
de seu filho
recém-nascido
que a medicina
ocidental disse
desenganado

UM CONTRAPROGRAMA
40

Sergio Cohn
e eu andando
por entre aquelas
pernas magras
altas soturnas
das suas festas
me impressionava
como as vozes
graves não cessavam

talvez apenas
quando
criança
interpelei
os convivas:

“esse homem
que vocês tanto falam
não pode só ter
feito coisas assim
tão ruins
se não fosse por ele
minha avó
não tinha vindo
para aqui
meu pai nascido
aqui
e conhecido

UM CONTRAPROGRAMA
41

Sergio Cohn
a minha mãe
se não fosse
ele
eu não existia”

e foi no silêncio
que se fez
que percebi
que não importa
o terror do tempo

no fim
tudo acaba
em vida

UM CONTRAPROGRAMA
42

Sergio Cohn
PREFERIR NÃO

o que
de mais precioso
aprendi
com meu pai
foi a impossibilidade

o gosto pelo volteio

cedo a entendi:

uma tarde
adolescente
ouvindo syd
barrett na sala
percebi
seria anarquista
por não crer
na sua plena
realização
mas ser um porvir
(não futuro

UM CONTRAPROGRAMA
43

Sergio Cohn
mas espectro
sempre além)

e portanto ser
um movimento
contínuo
que não permite
descanso ou identidade

naquela época
meu pai ainda
não me falava
de córdoba de lorca
distante e só
sua metáfora preferida
para o trabalho intelectual:

“por mais que saiba os caminhos/


jamais chegarei a córdoba”

nem sobre grothendieck


e seu jeito de abordar
um problema
sem confronto direto
ser sinuoso
buscando uma
resolução natural

UM CONTRAPROGRAMA
44

Sergio Cohn
talvez naquela época
meu pai nem tivesse ainda
elaborado a figura
do frankfurtiano zen
aquele que mesmo sabendo
o alvo inalcançável
lança a flecha

mas havia algo no seu olhar


que dizia sobre resignação
e impossibilidade

um rigor
um aviso

e desse olhar
fui aprendendo
o desterro

meu pai
que cita sempre
a frase do amigo:

“ele estava aqui


depois foi para ali
mas temo
que seu coração

UM CONTRAPROGRAMA
45

Sergio Cohn
não estava
em nenhum
desses lugares”

e pouco a pouco
vou transmitindo
esse olhar
para meu filho

como uma herança


de família

saber que seguimos


por um caminho
destinado
a nunca chegar

preferir não
ter volta

UM CONTRAPROGRAMA
46

Sergio Cohn
UM CONTRAPROGRAMA

1
esta montanha invade a cidade
e à sua margem penso
não no silêncio, na astúcia
e no exílio (que já foram
tentados a contento) mas
do lado de dentro
mesmo que impossível
extraviar-me no alheio

2
o alheio: não o outro
do morro ou o rosto
da rua, mas o que
ainda despercebido pulsa
e sobreviverá ao tempo
porque o fim disto
– desta cidade – não é
o de todas as coisas.

UM CONTRAPROGRAMA
47

Sergio Cohn
CICLO

entre rio e vento


a flor é um coágulo
ao amanhecer

outro tempo
é o fruto
sob a pele
fenecendo

a morte
vem de dentro
a vida
está lá fora

devora-a

e recifra.

UM CONTRAPROGRAMA
48

Sergio Cohn
PASSATEMPO

passa que penso


no amigo louco
e não me vejo

aprendi pouco a
pouco a errar pe
los jogos do dia

(ou a medusa,
amor, dor terrena)

o céu é um tabu
leiro de estrelas
sem metafísica

e tudo foi escul


pido pelo tempo

assim sigo resig


nado pela falta
lado a lado com
a vida

UM CONTRAPROGRAMA
49

Sergio Cohn
(e o que mais
se precisa?)

o amigo louco
apenas algumas
vezes volta
como uma per
gunta perdida:

o que (como
o tempo) não
teve início
acaso existiria?

UM CONTRAPROGRAMA
50

Sergio Cohn
OUTRO PRELÚDIO

atenção: há uma onça no jardim


por entre as cores
(ah, as cores)
em tenso engenho
de distinto alemão
um ponto de fuga
ao largo do lago
da indiferença
um sim

atenção: não é o vento


que move seus gestos
há desejo (um contratempo)
nesse jardim:
repara no lento pulsar
do seu corpo
feito de sol e negra lua
a singularidade nua
de tanta beleza
e fúria

UM CONTRAPROGRAMA
51

Sergio Cohn
VIGÍLIA REMIX

ame amanhã quem jamais amou


e quem já amou ame amanhã!

j’aime! amanhã, aos primeiros raios,


quando o orvalho umedece pétalas e
lábios, fazendo-os abrir, gotas
sem lua ou deuses entrelaçam os corpos,
e o amor depõe as armas.

ame amanhã sob o púrpura sem pudor,


aos primeiros raios, lábios umedecidos do encontro
dos próprios corpos, do passeio ao amanhecer.
o amor é belo, mesmo nu está em armas.
mas é primavera, no orvalho lua não há,
é nova, tempo de semear, e sem cautela
os corpos se abrem.

ame amanhã quem jamais amou


e quem já amou ame amanhã!

UM CONTRAPROGRAMA
52

Sergio Cohn
SUMI

singularidade
nua

erro

um corpo

saber
sabê-lo

um campo
de experiências

um tempo

qual velocidade

entre prisma
e cataclisma

UM CONTRAPROGRAMA
53

Sergio Cohn
qual tempo
necessário

para reflexão

diálogo

retro
aliment
ação

o longo
tecido
que somos

entre afeto
e efeito

o tempo

diferença
que
faz
diferença

UM CONTRAPROGRAMA
54

Sergio Cohn
inform
ação

controle
repetição
controle

erro

passo
a
passo

sê-lo

não
por via

(direção
traço)

mas
campo

aberto

UM CONTRAPROGRAMA
55

Sergio Cohn
dest
erro

escrito
n’água

o nome
aviva
poesia

e
a fala

se faz
apaixo
nada

mente
livre

leve
se ex
perien
cia

UM CONTRAPROGRAMA
56

Sergio Cohn
*

da viscosidade:

o nanquim
n’água

qual
carcará

volteando
sentido
algum

escoa

pela
soma

dos gestos

pela
economia

dos meios

UM CONTRAPROGRAMA
57

Sergio Cohn
e num
pis
car

de olhos

a inform
ação

se faz

destr
oços

da viscosidade:

veloz
cidade

campo
de vi
são

a
ve
nida

UM CONTRAPROGRAMA
58

Sergio Cohn
perspec
tiva

sendo
qual
quer

escolher
nosso
tempo

UM CONTRAPROGRAMA
59

Sergio Cohn
VOLTEIOS

saque dádiva
existe o saque, o se apropriar do alheio. a primeira quebra,
o primeiro movimento de superação. e existe a dádiva. só
interessa um mundo, em seu esplendor, em seu excesso,
onde oportunidades possam ser desperdiçadas.

nomadismo habitar
pertencer. tecer uma relação afetuosa com tudo. a atenção
total. conhecer é o que permite a leveza dos caminhos. ha-
bitar é o que permite o movimento.

traição vínculo
não o tempo abstrato, mas o que nos cerca. um aquário
mergulhado em alto-mar. interessa o que há de futuro nele,
as questões ainda não formuladas. interessa transbordá-lo,
estar além, imerso no espanto: o amor mínimo que as coi-
sas nos doam, quando se desvelam. interessa o que desre-
gra e possibilita.

UM CONTRAPROGRAMA
60

Sergio Cohn
invenção experiência
rio. o ir. fluxo de corpo passando pelas coisas. ritmo. mesmo
para pássaros no ar há vias. não somos. soma.
do melhor caminho (menor atrito) de repente um desvio:
novas terras férteis.

campo via
o conhecimento da via: ser o mesmo. trajetória.
o conhecimento do campo: ser o outro. estratégia.

UM CONTRAPROGRAMA
61

Sergio Cohn
O SONHADOR INSONE (I)

ombros, lábios, vapor, pêssego


o favor do esquecimento

um ângulo no espelho
que subtrai do olhar
tudo que é próprio

então mergulho –

a imponderável medusa
restituindo o que pulsa
a um

(o amor como o inferno


não permite medida comum)

UM CONTRAPROGRAMA
62

Sergio Cohn
O SONHADOR INSONE (II)

ao léu e vário
abrir as portas
de par em par
e sair para as ruas

tudo é nascente
o sol pleno de setembro
traz da mão
do garoto que passa
um cheiro de fruta

e tudo agora é sorriso


contra qualquer amor
ou aviso
que se levante

(a vida já é um tempo
por demais interessante)

UM CONTRAPROGRAMA
63

Sergio Cohn
PASSEIO

esta é uma cidade


inabitada

em suas ruas, pela


madrugada,
todo passeio é possível:

saltar parque lage adentro


ou caminhar
à sombra dos
próprios pensamentos

no muro lá fora
um mendigo rabiscou
mandalas:

é possível encontrar
as mesmas em quase
toda cidade

UM CONTRAPROGRAMA
64

Sergio Cohn
construindo uma geografia
outra, íntima
uma aventura talvez
para o olhar

assim também
seu corpo para
mim:

o que se abre,
o que se reflete
em sorriso

nenhum crime, nenhum castigo

UM CONTRAPROGRAMA
65

Sergio Cohn
A VOZ VIOLENTA

este é o meu tempo

o tempo é um aquário
mergulhado em alto-mar

seus limites só tangíveis


pelo toque de corpo
ideias, palavras

meu corpo
é o corpo do meu tempo

cultivado e cuidado
com as técnicas do meu tempo

minhas palavras

– saque dádiva nomadismo habitar


traição vínculo invenção experiência –

são as palavras do meu tempo

UM CONTRAPROGRAMA
66

Sergio Cohn
onde conjugar futuro nelas?
eu sou meu tempo

um aquário mergulhado
em alto-mar

esquecer meu corpo


e esquecer meu reflexo na água

UM CONTRAPROGRAMA
67

Sergio Cohn
APROXIMAÇÕES, ENCANTAMENTOS:
A NOITE

noite
quão fundo é seu leito?

(lâmina d’água
rio lamacento)

vejo suas estrelas


como agudas suturas
em relevo

(poeira de cores
no universo negro)

noite
por trás do
invisível contorno

de que é feito
seu leito?

UM CONTRAPROGRAMA
68

Sergio Cohn
(

noite
se não houve
o assombro
de uma criação
ex nihil

quem retirou
do caos
as possibilidades

o sopro e o
precipício?

quem a concebeu
ao lhe dar

um limite?

noite

é como o figo
via espessa

UM CONTRAPROGRAMA
69

Sergio Cohn
o avesso de flor

guardando para si
as sementes,

os segredos

noite
se a concebo
é como um momento
sem corpo

volume ou erro
que o definisse

mas momento
já que nos toca
e influi

feito a luz
que é o avesso

e não ausência

UM CONTRAPROGRAMA
70

Sergio Cohn
)

noite

não concebo
agente
ou engenho

e nem ao menos
o acaso
para mim
é solução –

insone
me perco
entre gaia ciência

(anima mundi)

e silêncio
)

noite

não substantivo
mas verbo

UM CONTRAPROGRAMA
71

Sergio Cohn
um estar
que só vejo
(tudo vejo)

em tradução:

negra porcelana
enfeitiçada
pelo líquido bestiário

de suas constelações

UM CONTRAPROGRAMA
72

Sergio Cohn
APROXIMAÇÕES, ENCANTAMENTOS:
O MAR

azul e vertigem

o mar
é um campo
onde todos os seres
são fogo

ou mercúrio

seu frio deslizar


queimando retinas

o mar
ao meio-dia

veste a pele
da cobra-grande

UM CONTRAPROGRAMA
73

Sergio Cohn
olhos de cipó
despreendendo
cinema:

motivos, coágulos
de luz

e tudo então
é enorme
e lento

um ser
se revolvendo

mar
um conhecimento
temporário
e fechado em si

com sua sede


de sísifo

acumulando
nenhum musgo
na tarefa que o aprisiona

UM CONTRAPROGRAMA
74

Sergio Cohn
(
)

mar
nenhuma máquina
(nem o mundo o é)
mas organismo

um corpo
que se basta
admirando as coisas
sem querer tê-las

(carícia de navalha
na areia)

mar
campo de evocações

suas ondas
a respiração
desta pedra
que já foi fogo
gás, nada

UM CONTRAPROGRAMA
75

Sergio Cohn
e hoje se veste
de animal

com seus peixes


como estrelas
circundando
algo que só
à distância
é silêncio

ser como o mar:


alimentar a obscuridade

UM CONTRAPROGRAMA
76

Sergio Cohn
QUEM SOMOS NÓS AGORA

o que nosso tempo dita


no vício de estar vivo
entre pares

no rastro no rastilho
desta festa de imprevistos
corpo novo
amalgamado ao meu

onde todo ruído branco


se perde em significados
& as frutas
luzem no espanto
do quarto escuro

: cintilam as gotas
contra a persiana cerrada
o ar melado de fumo
o húmus o introspecto
sorriso que nada atinge
na mão o copo evaporado
sem prumo

UM CONTRAPROGRAMA
77

Sergio Cohn
no chão hakim bey & beck
“je suis un révolutionnaire”
um ou outro universo
esquecido

as vozes ardem
contra a mente
esta noite

e lá fora a chuva
é o silêncio
de todas as coisas:

vozes, sons perdidos


o copo evaporado
de eras

o fértil, o terrível
iporã, espaço aberto
onde tudo é possível

“ou a total liberdade


no reino da impossibilidade”

ecoa a amiga
antes de desaparecer

UM CONTRAPROGRAMA
78

Sergio Cohn
DA VISÃO

desfazer o puzzle
e encontrar outro dentro:

não me interessa
o que esse pôr-do-sol
na lagoa me oferta
com seus passantes
o horizonte amplo
e a árvore fincada
em pleno desvão
da pedra da gávea:

as verdadeiras questões
ainda estão para ser inventadas

(mas se o olhar perco


é uma asa de borboleta
pura chama congelada
o sol indo de encontro
com a água)

UM CONTRAPROGRAMA
79

Sergio Cohn
OUTRO POEMA PARA O ECLIPSE

(DOIS MOVIMENTOS)

1
não a cidade ofertada
mas o sem-fim de ecos
de uma poça no asfalto

não os passantes
mas o que foge
à estrada, a trilha
guaxinins, jaguatiricas
aos pés
da serra da cantareira

o espanto

não há como celebrar o raro


sem o encontro

UM CONTRAPROGRAMA
80

Sergio Cohn
2
que corpo é esse
que se firma
por seus limites

e sob o belo céu


azul outonal
ou a lua rubra
do eclipse
assina seu nome

inquietação

UM CONTRAPROGRAMA
81

Sergio Cohn
fazer um poema ontem
com o amor de amanhã

UM CONTRAPROGRAMA
82

Sergio Cohn
liberdade, palavra-erotismo
puro fetiche, contra-
naturam encalço
não síntese, além, alheio
amor posto no irrestrito

a canto para não temer


no momento propício
o fértil, o terrível
que seu nome é abrigo

UM CONTRAPROGRAMA
83

Sergio Cohn
AMOR

o que espreita e se insinua


animal furtivo
(chumbo corpo,
pés de pluma)
dançando conforme a lua

o que pouco a pouco


queima da memória
os outros nascimentos
e anuncia a renúncia
que tudo é vário e novo
e está por ser feito
e será

a medusa que assassino


cotidianamente
no meu peito
em que rosto
renascerá?

UM CONTRAPROGRAMA
84

Sergio Cohn
ALICE

o sonho é uma pedra


arremessada no poço

sua turbulência
moldando o dia

UM CONTRAPROGRAMA
85

Sergio Cohn
FUGA PARA O VERMELHO

o sangue que bate


uníssono
na pura vontade
de libertar-se
do pulso

gostaria de dizer
de muitos, mais
(e pluribus plus)
mas o mundo
sem esquadros
é excessivo

todo suicida
é um assassino tímido

UM CONTRAPROGRAMA
86

Sergio Cohn
DA CIRCUNSTÂNCIA

aqui no meu refúgio


no vigésimo andar
pego o livro do Breton
ainda marcado de vinho
daquela tarde

quando entrelençóis
nos esquecemos.
a chuva caía fina
e ao meio-dia
na praça buenos

aires cavaquinho
e grades conviviam.
abaixo, o balé ready-
made das calçadas
passa caudaloso

como a prosa
invadindo esta poesia.

UM CONTRAPROGRAMA
87

Sergio Cohn
HORIZONTE DE EVENTOS

saudade pertence ao
antigo léxico

Jorge Mautner

era um ser sem saudade.


o que significa o máximo exílio,
desterro.
não tinha saudade porque vivia
num mundo de instantâneos
simulacros.
a presença constante
de tudo que desejasse.
saudade, já em si,
é um simulacro.
mas um simulacro
ao avesso.
ausência preenchendo espaço.
saudade é quando a coisa
pertence ao espaço
e não ao tempo do encontro.
quando permanece mesmo partida.
não sei se era um ser feliz.
não tinha noção de morte,
a nostalgia de um tempo que não vivemos.
era um ser sem questões.

UM CONTRAPROGRAMA
88

Sergio Cohn
o fato é que foi se tornando pedra,
uma imensa rocha cravada à beira do mar.
o rosto voltado para cima
eternamente
se deliciando com a mutação das nuvens.

UM CONTRAPROGRAMA
89

Sergio Cohn
MNEMO

há um resíduo de futuro
no vento, fotograma ante-
cipado, montagem de fragmentos
induzindo à cena. como
aquela árvore se curvando com-
placente aos invisíveis pesos,
como o mormaço
predizendo chuva. repito,
há um canto anterior
a qualquer canto, uma réstia,
um eco primeiro, como um som
que ressoa por dentro de cada
palavra, como todo gesto se
desenha e apaga, então
novamente. há o revés,
o diáfano, o termo, beleza
posta e perdida, o desen-
cadeamento, assim

UM CONTRAPROGRAMA
90

Sergio Cohn
como a sede do vapor
por uma forma, assim
como tudo retorna
à imaginação
por trás da cortina
da memória.

UM CONTRAPROGRAMA
91

Sergio Cohn
PATHOS

o sopro de veneno no ouvido. o jorro


impossível assaltando os olhos. luzes
intermitentes. tantas luzes
no azul manto escuro. um passo,
então silêncio. uma árvore
se sobressai no mercúrio. o verde
de tantos matizes, a cadência
dos tons. rico universo de uma só cor
e tantas dimensões pressentidas.
uma árvore. poderia chamar-lhe
pau-ferro, caesalpinia ferrea,
mas é uma apenas uma árvore
à beira do caminho.
catedral ao avesso, sacraliza o ao redor.
as formas tatuadas no seu tronco,
rostos tão estranhos. uma folha cai.
é possível perceber nosso semblante
em suas nervuras, a reciprocidade

UM CONTRAPROGRAMA
92

Sergio Cohn
do espanto. ou sentar-se
a observar os cristais de orvalho,
mônadas no ventre do tempo.
uma árvore, convite.
nela ver o mundo,
missiva do imponderável.

UM CONTRAPROGRAMA
93

Sergio Cohn
PÁRABOLA DA VONTADE

a carne é uma caverna móvel


no ar sólido

Michael McClure

líquido, um raio
sulca o céu
com seus dedos

árvore em negativo
busca astu-
cioso
o melhor caminho

sendas, frestas
leito

o esforço que
nos entregamos
para aquilo
(móbile)
que chamamos de vida.

UM CONTRAPROGRAMA
94

Sergio Cohn
OFIUCO

o som – bolhas na superfície


do silêncio

john cage

segure a serpente
nas palmas abertas
de suas mãos

ouça
através do silêncio
onde seu corpo
pede apoio
(canção de músculos,
fibras, vibração)

para que ela


não se volte
contra você

UM CONTRAPROGRAMA
95

Sergio Cohn
DESCURSO

o mundo que se abre à minha frente é um campo magnéti-


co, mínimas cordas nos fazendo música, a soma harmonia
a partir da dissonância. interagir perpétuo, oposição, movi-
mento. sou um corpo, às vezes círculo, às vezes pirâmide.
sou a soma dos ângulos do voo de uma seta que não espera
atingir seu alvo, mas mesmo assim se arremessa. sou gesto,
me movo, ocupo espaço. um sistema tão complexo que sub-
verte suas próprias leis. um vírus pronto para se esquecer.

do ponto mágico em que me encontro vejo um mundo de


trocas. tudo que toco se projeta, me acrescenta e nega. onde
começo e acabo, os companheiros: absinto na tempestade,
ácido sol do sertão. observando gaviões no musgo das pa-
redes. lendo a fúria das dunas em igrejas submersas. no tem-
po em que nos inventamos.

eis o meu tempo. não de negação e margem, mas de en-


contros. a arte do encontro. o furto. o furto do alheio. o grão
de sal que todo canto pede para não se auto-consumir. a
bela infidelidade.

UM CONTRAPROGRAMA
96

Sergio Cohn
sou visitado por um punhado de terra que roubo do chão.
mistura comovente dos três reinos. animal, vegetal, mineral.
três formas de vida com seus diferentes ritmos. tudo se ex-
pande como um grito.

na parede desenhada pelo tempo, na umidade criando fa-


ces em relevo, algumas gritando, algumas serenas, vejo um
oráculo esquecido pelo cotidiano. no corpo um memento
mori. seus lábios, tulipas que nunca cicatrizam. mar que en-
tramos lentamente. primavera amarela.

o corpo é um claustro por se romper. para que possamos


possui-lo inteiramente. estou distinto das coisas e triste. me
fecho e sinto frio. nuvens sorriem e a arqueologia do ar ain-
da está por ser feita. me interessa tudo que se perdeu.

se me movo, sou outro. um halo violeta me chama do ar-


busto em frente. de perto, alvura em flor. violenta vestal em
sua beleza.

lsd, 2002.

UM CONTRAPROGRAMA
97

Sergio Cohn
DISCURSO

tecer o fio de Ariadne


sem ao menos a intenção
de um dia retornar

tecer pelo exercício


narcísico
de se conhecer e doar

ir, perscrutar
para além do verde
opaco da próxima curva

sabendo cada passo


apenas eco
do anterior

ir
pelo puro prazer
da paisagem

UM CONTRAPROGRAMA
98

Sergio Cohn
ao estrangeiro

é permitido
o esplendor

UM CONTRAPROGRAMA
99

Sergio Cohn
PARA VIVER AQUI

1
a chuva transfigura
a cidade em brilhos
como a relva ao orvalho

2
folhas descendem
de uma única árvore
tingindo de ardor a calçada

3
pangarés sonham macios
em sonhos de milho gelado

4
amo seus olhos
seus dedos ágeis
prestidigitando meu coração

UM CONTRAPROGRAMA
100

Sergio Cohn
5
mas eu sei o vento
– rastro azul que se esvai –
a livre ambiguidade do seu abandono

6
um girassol se voltou à sua passagem

UM CONTRAPROGRAMA
101

Sergio Cohn
MEMENTO

permanece o eu
esse simulacro
frágil lacre de refrões

e a noite a pede de volta

UM CONTRAPROGRAMA
102

Sergio Cohn
pavese é o olho
da cobra verde
córdoba de lorca
e a cama
em noites de coca

narciso encalacrado
(um suspiro
cravado na carne)
o intrincado das nascentes
sempre além

e essa cama
e esse sono
que nunca vem

UM CONTRAPROGRAMA
103

Sergio Cohn
uma medusa me habita
sorri nas reentrâncias do muro
me espreita nas trepadeiras e heras
em sua pele de velcro e fogo
se faz pressentida

como a sede das cambaxirras


nuances do branco
e estreitos intransponíveis
há na liberdade da entrega
toda e nenhuma renúncia

e uma medusa me espera


a ela prometi
meu silêncio de pedra

UM CONTRAPROGRAMA
104

Sergio Cohn
GAROTA DADÁ

ela é um abismo de flores


selvagens & escuras

gottfried benn

1
garota dadá no banheiro do bar
lábios corroídos de arsênico
gosto de porra na boca
duelam os elementos
entre nossos olhares
enquanto ela seca
sob uma lâmpada
seu corpo encharcado de suor

2
irrompem ogivas de sua língua
olhos tão negros que poderiam
refletir o dia
eu ando envolto em suas fantasias,
seus cheiros, seus passos
por um mundo que não tem nada de nosso
por entre ruas estreitas, praias
cachoeiras sempre reluzentes
sob um céu da cor do lábio dos afogados

UM CONTRAPROGRAMA
105

Sergio Cohn
3
flui em vagas o ar à nossa volta
adelbarã em seu olhar

o outono em garras
dança lentamente
pássaros hipnotizados ao longe

ela fala de olhos sonados de boxeador


corroendo o horizonte
e a vida encerrada entre dois totens
de libertação
enquanto eu me sento pensando
quantos olhos olharão
seu corpo intermitente
nesse gramado sublimado em prata
pelo luar

4
voam pássaros nos vidros do carro
plana a lua
tão próxima que é possível o contato
e à sua frieza
meu hálito cria um halo

garota dadá como espasmos no ar

UM CONTRAPROGRAMA
106

Sergio Cohn
ela me diz
com seus olhos de um passo adiante
que tem que voltar
para ver o vento invadir as cidades

o outono transfigurado
segue seu rastro
fogo de santelmo
em seu corpo de alto-mar

5
kleist o suicídio como uma das belas artes
claustrofobia do horizonte

UM CONTRAPROGRAMA
107

Sergio Cohn
por mim eu ficaria para sempre ali
à sua orla
longe das ruínas
que se desconhecem
ruínas
e dançam a amarga melodia
dos motores

ali
à sombra de seu sorriso
seus olhos de naufrágio

por mim eu ficaria para sempre onde


o seu gesto me desvendasse um espaço
um refúgio sempre em fuga

por mim

UM CONTRAPROGRAMA
108

Sergio Cohn
mas você tem a suave permanência
de tudo o que é volátil
e novamente
a minha vida
escoa
e livre
flutua

UM CONTRAPROGRAMA
109

Sergio Cohn
Esta obra foi composta em Calibri
em setembro de 2016 para a Editora Patuá.

O mês em que esse livro foi impresso

tem uma simbologia especial para o autor, um mês-patuá.

Foi em setembro que os seus três grandes mestres

– Gabriel Cohn, Roberto Piva e Leo Cohn – nasceram.

Em 2016, 23 de setembro marca o início da primavera,

do mais belo azul celeste aqui no Rio, da celebração do encontro.

Que esse livro traga um pouco de setembro para as pessoas.

Tiragem de 1000 exemplares

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