Interdependência dos Evangelhos Sinópticos
Interdependência dos Evangelhos Sinópticos
1
Na literatura especializada por vezes surge com a sigla 2DH (“Two Document Hypothesis”), por
oposição a uma outra sua rival que seria representada com a sigla 2GH (“Two Gospel Hypothesis”).
2
“Q” procede de quelle que significa “fonte” em alemão.
1
hipotético que consistiria numa colecção de discursos de Jesus. Os autores de Mt e de
Lc teriam elaborado os respectivos Evangelhos a partir de Mc e Q.
3
Cf. Jo 18-20; Mt 26-28; Mc 14-16; Lc 22-24.
4
Cf. Jo 6,1-21; Mt 14,13-33; Mc 6,30-52; Lc 9,10-17.
5
Cf. Jo 12,1-19; Mt 21,1-11; 26,1s.6-13; Mc 11,1-10; 14,1.3-9; Lc 19,29-39.
6
Cf. Jo 6,67.70.71; 20,24.
7
Cf. Jo 1,40.44; 6,8.68; 13,6-9.24.36s; 18;10s.15-27; 20,2-6; 21,2-7.15-21.
2
André. São conhecidos também os “filhos de Zebedeu” 8, assim como outros
discípuloscujos nomes também se conhecem pelos Sinópticos. Surgem, além destes,
Pilatos9 e José de Arimateia10; e entre as mulheres que seguem Jesus, Maria Madalena11.
Nos Sinópticos “judeu” surge como título referindo-se a um povo – “rei dos
judeus”23 –, e só raramente como “habitante da Judeia” 24, enquanto no Quarto
Evangelho “judeu” parece significar quase sempre “habitante da Judeia”, embora
raramente também “descendente de Abraão”25.
8
Cf. Jo 21,2.
9
Cf. Jo 18,28-19,22.
10
Cf. Jo 19,38.
11
Cf. Jo 20,1.11-18.
12
Cf. Jo 1,45s.
13
Cf. Jo 7,41.52.
14
Cf. Jo 1,45; 6,42.
15
Cf. Jo 1,24-34.
16
Cf. Jo 19,18.32.
17
Cf. Jo 19,25; 20,2.
18
Cf. Jo 1,28.
19
Cf. Jo 2,1.11; 4,46; 21,2.
20
Cf. Jo 2,13; 5,1; 7,10; 10,22s; 12,12.
21
Cf. Jo 11,7.
22
Cf. Jo 7,1.
23
Cf. Mt 2,2; 27,11.29.37; Mc 15,[Link].26; Lc 23,3.37.38.
24
Cf. Mt 28,15; Mc 7,3; Lc 7,3; 23,51.
25
Cf. Jo 4,22.
3
Quanto às personagens surgem Natanael26, Nicodemos27 e Lázaro28 e outras
anónimas, como um funcionário de Herodes Antipas 29, uma mulher samaritana30, assim
como dois novos miraculados: um paralítico31 e um cego de nascença32. E surgem
sobretudo alguns dos Doze, que nos Sinópticos são referidos unicamente na lista dos
escolhidos, e em Jo são protagonistas de episódios, como Pedro: André33, Filipe34,
Tomé35 e Judas36. Surgem também duas irmãs – Marta e Maria 37 – cuja aparição só tem
registo em Lc38.
Estes locais e estas personagens consomem boa parte do texto narrativo, não
são referidos de uma forma marginal ou supletiva. Por outro lado, em Jo desaparecem
completamente os exorcismos, tão abundantes nos Sinópticos.
O seu dircurso está centrado na sua pessoa, que pretende revelar àqueles que o
escutam, e muitas vezes surge a expressão “eu sou”, usando uma linguagem metafórica:
«eu sou o pão»40, «eu sou a luz»41, «a porta»42, «o bom pastor»43, «a ressurreição e a
vida»44, «o caminho, a verdade e a vida»45, «a videira»46. A expressão “eu sou” chega a
ser usada como se ela própria fosse um nome 47, fazendo certa alusão ao modo como
Deus se revelou a Moisés no episódio da sarça ardente: «Eu sou “Eu sou”»48.
A palavra “reino”, que era o miolo da pregação de Jesus nos Sinópticos, quase
desaparece: só surge 2 vezes49, quando surge 55 vezes em Mt, 20 em Mc e 46 em Lc.
Em vez dela surgem outros vocábulos usados com muito mais frequência como “amor”,
“luz”, “verdade” (e o adjectivo “verdadeiro”), “testemunho”, “glória”, etc. Os milagres
agora são chamados “sinais”: sêmeía (σηµεῖα). Também nos verbos se nota uma
mudança: por exemplo, o verbo “dar testemunho” – marturéô (μαρτυρέω) – surge 35
26
Cf. Jo 1,45; 21,2.
27
Cf. Jo 3,1; 7,50; 19,39.
28
Cf. Jo 11,1; 12,2.
29
Cf. Jo 4,46-54.
30
Cf. Jo 4,7ss.
31
Cf. Jo 5,5-16
32
Cf. Jo 9,1-38.
33
Cf. Jo 1,40.44; 6,8; 12,22.
34
Cf. Jo 1,43-48; 6,5s; 12,21s; 14,8.
35
Cf. Jo 11,16; 14,5; 20,24-29; 21,2.
36
Cf. Jo 14,22.
37
Cf. Jo 11,1-3.20-45; 12,1-3.
38
Cf. Lc 10,38-42.
39
Cf. Mt 11,27; Mc 13,32; Lc 10,22.
40
Cf. Jo 6,[Link].
41
Cf. Jo 8,12.
42
Cf. Jo 10,7.9.
43
Cf. Jo 10,11.14.
44
Cf. Jo 11,25.
45
Cf. Jo 14,6.
46
Cf. Jo 15,1.5.
47
Cf. Jo 8,24.28.58; 13,19.
48
Cf. Ex 3,14.
49
Cf. Jo 3,5; 18,30.
4
vezes enquanto nos Sinópticos só aparece duas vezes50. Outros exemplos de verbos
muito usados seriam “amar”, “conhecer”, “permanecer”, “glorificar”, etc.
3.1.2 O conhecimento de Lc
50
Cf. Mt 23,31; Lc 4,22.
51
Cf. Jo 18,26.
52
Cf. Lc 22,51.
53
Jo 18,29.
54
Jo 18,30.
55
Cf. Jo 18,31s.
56
Jo 18,33.
57
Cf. Mt 27,11; Mc 15,2; Lc 23,3.
58
Cf. 1 Re 1,33s.
5
e que foi aclamado como filho de David 59, o que perturbou a cidade60, mas é em Lc que
se encontra a resposta: aqueles que entregam o prisioneiro, dizem dele «Encontrámos
este a sublevar o nosso povo e a proibir de dar o imposto a César e a dizer-se ser o Rei-
Messias»61.
Uma pista para sair do enigma é pensar que “pátria” – patrís (πατρίς) – não se
deve identificar com região, mas com povoação, não com a Galileia, mas com Nazaré.
De facto, nos Sinópticos Jesus volta a Nazaré quando já tinha começado a sua vida
pública, e sempre Nazaré é designada como “pátria” 63. Mas, mesmo assim, a frase não
se entende: porque é que o narrador a coloca neste momento em que Jesus acaba de
deixar a Judeia para vir morar na Galileia? E porque é que se junta a rejeição de Nazaré
com o acolhimento dos galileus?
Em Lc, porém, poderíamos ter uma resposta: após a narração das tentações de
Jesus no deserto da Judeia, o narrador diz que «Jesus voltou pela força do Espírito Santo
para a Galileia, e a fama acerca dele expandiu-se por toda a região, e ele ensinava nas
sinagogas deles, sendo glorificado por todos»64, para logo a seguir narrar o que sucedeu
em Nazaré onde Jesus quase foi morto pelos habitantes da aldeia 65. O contraste estava
noticiado em Lc, mas não explicado. Em Lc simplesmente se diz que por toda a Galileia
se está a gerar um movimento de adesão a Jesus, excepto na sua pátria.
O texto de Jo explica que os galileus que acolheram Jesus são aqueles que
tinham ido a Jerusalém na “festa” – trata-se da festa da Páscoa 66 – e que tinham visto
tudo o que ele tinha feito nessa ocasião – o narrador descreve-o laconicamente dizendo
que «muitos acreditaram no seu nome ao ver os sinais que ele fazia» 67 –; o leitor se tem
conhecimento de Lc percebe que os habitantes de Nazaré não foram a Jerusalém
naquela Páscoa em que Jesus realizou “sinais” e isso é o que explica a diferente atitude
dos dois tipos de galileus: os que peregrinam e os que não o fazem.
59
Cf. Mt 21,9; Mc 11,9s.
60
Cf. Mt 21,10s.
61
Lc 23,2.
62
Jo 4,44s.
63
Cf. Mt 13,54.57; Mc 6,1.4; Lc 4,23.24.
64
Lc 4,14s.
65
Cf. Lc 4,16-30.
66
Cf. Jo 2,13.
67
Jo 2,23.
6
Há algumas concordâncias assinaláveis de nomenclatura entre Jo e Lc: em Mt e
Mc só existe um Judas, chamado “Iscariotes” 68, enquanto em Lc e Jo existe um outro
Judas, «Judas de Tiago»69, ou «Judas, não o Iscariotes»70; o nome “Maria” admitia duas
escritas: uma semita – Mariám (Μαριάμ) –, e outra grega – María (Μαρία) –; ora tanto
Lc como Jo usam a forma semita para a irmã de Marta e a forma grega para a
Madalena71; Lc e Jo concordam ainda em informar que os sumos-sacerdotes são vários,
sendo Anás e Caifás os mais importantes72.
Por outro lado, o texto informa o leitor de quatro coisas que ele desconhece:
primeiro, que essas duas irmãs têm um irmão chamado Lázaro; segundo que esse irmão
era uma pessoa doente; terceiro, que os três viviam em Betânia, o nome da tal “aldeia”;
quarto, que a mulher que tinha ungido Jesus era Maria, irmã de Lázaro e de Marta.
7
De facto, nada impede que a mesma Maria tenha ungido Jesus em duas
ocasiões diferentes: uma quando acabava de ser uma pecadora na cidade, e outra quando
Jesus tinha acabado de ressuscitar o seu irmão Lázaro.
3.1.3 O conhecimento de Mt e Mc
Ora Jo afirma coisas que contradizem o texto de Mc, mais ainda do que o de
Mt; no milagre do mar já encontrámos quatro dessas contradições: a primeira naquilo
que acontece com as multidões ao terminar o milagre do pão (são despedidas ou
esperam por Jesus para o fazer rei); a segunda, no modo como os discípulos se metem
no barco (forçados ou por livre vontade); a terceira na direcção do barco (Betsaida ou
Cafarnaum); a quarta no modo como termina o milagre (cessa o vento e Jesus embarca
ou o barco chega ao destino, mas Jesus não embarca).
8
teria voltado a ungir Jesus, mas nos pés, não na cabeça 88. Além disso, o momento em
que essa unção teve lugar também é diferente: em Mt e Mc parece ter ocorrido dois dias
antes da Páscoa89, enquanto Jo afirma que ela teve lugar «seis dias antes da Páscoa»90
88
Cf. Jo 12,12.
89
Cf. Mt 26,2; Mc 14,1.
90
Cf. Jo 12,3.
91
Cf. Mt 26,50s; Mc 14,46s.
92
Cf. Lc 22,50-54; Jo 18,10-12.
93
Cf. Jo 19,14.
94
Cf. Mc 15,25.
95
Cf. Mc 7,3s.
96
Jo 6,5s.
97
Cf. Jo 6,2.
98
Cf. Jo 6,4.
99
Cf. Jo 6,8; cf. 1,40.
9
Também na narração do milagre do mar surge um esclarecimento semelhante:
«as trevas já se tinham produzido e Jesus ainda não tinha ido ter com eles» 100. A
afirmação de que «Jesus ainda não tinha ido ter com eles» não é uma antecipação
narrativa do milagre de caminhar sobre as águas, porque então o narrador deveria ter
dito de outro modo – por exemplo, que Jesus haveria de ir ter com eles caminhando
sobre as águas, mas eles não sabiam –; trata-se de explicar que Jesus ainda não tinha
tomado o barco que ficara para ele na margem, contra o que os discípulos esperavam.
10
A análise está feita com o número de palavras e excluímos de Mc a chamada “conclusão
deuterocanónica”101, porque é considerada por muitos como estranha à forma mais
original do Evangelho. Os dados são percentuais.
Mc Mt Lc
Material em análise 100 56 40
Total comum aos 3 71 44 38
Comum só a 2 (Mc e Mt) 21 12 –
Comum a 2 (Mc e Lc) 3 – 2
Exclusivo de Mc 5 – –
Não parece que haja textos de Mc que não respeitem a finalidade perseguida
por Mt ou Lc, nem que pertençam a outro género literário, com excepção, talvez, do
título do Evangelho – «Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus» 102 – e da
conclusão deuterocanónica, que excluímos da análise. Alguns autores defenderam que
Lc tentaria evitar repetições, ou textos que fossem escandalosos ou difíceis de entender
para os seus leitores, mas isso não é conclusivo: em Lc-Act encontramos muitas
repetições, assim como textos escandalosos e difíceis de entender.
101
Cf. Mc 16,9-20. Esta conclusão não consta em alguns manuscritos antigos e noutros aparece outra
conclusão diferente.
102
Mc 1,1.
11
estruturar o seu conteúdo. O texto de Mc parece apresentar três secções narrativas que
se podem distinguir pela temática dominante e pela localização geográfica.
Ora as razões que levam a uma determinada sequência podem ser cronológicas,
temáticas ou textuais: se um episódio se deu depois de outro é natural que o evangelista
os coloque nessa ordem, tentando fazer coincidir o tempo da leitura com o tempo da
história; mas pode acontecer que dois episódios tenham uma relação temática que leve o
evangelista a uni-los sem que se tenham verificado numa continuidade cronológica;
finalmente, o evangelista pode ter conhecimento de um episódio através de um texto
onde ele já estava unido a outro e então a ordem é textual.
Quanto à ordem o que se pode assinalar é que Mt altera a ordem dos episódios
de Mc na secção “galilaica”, com excepção da introdução, i.e., os episódios do
baptismo, tentações, ida para a Galileia e chamamento dos discípulos estão na mesma
ordem que Mc; no resto da secção “galilaica” Mt arruma os episódios com uma ordem
103
Cf. Mc 1,2-20.
104
Cf. Mc 1,21-6,6.
105
Cf. Mc 6,7-29.
106
Cf. Mc 6,30-10,52.
107
Cf. Mc 11,1-11.
108
Cf. Mc 11,12-16,8.
12
diferente. Por exemplo, o primeiro milagre narrado é o do leproso 109, episódio que em
Mc é precedido pelo exorcismo na sinagoga de Cafarnaum, cura da sogra de Pedro,
milagres ao entardecer e partida de Cafarnaum 110; estes episódios são quase todos
narados por Mt, mas depois da cura do leproso111. Outro exemplo: Mt narra o exorcismo
para os porcos depois da tempestade acalmada 112, tal como faz Mc113, mas antes da cura
do paralítico114, ao contrário da sequência de Mc115.
Além disso, não é difícil perceber que é o autor de Mt quem altera a ordem e
não Mc quem se engana neste aspecto. Por exemplo, no caso da cura do leproso, Mt
situa o milagre quando Jesus descia do monte e uma grande multidão o seguia 116; na
sequência do milagre Jesus ordena ao ex-leproso que não diga a ninguém o que lhe
tinha acontecido117, o que não faz sentido se está rodeado por uma multidão. Por outro
lado, Lc segue à risca a ordem de Mc o que parece confirmar que é Mt quem a altera.
Acontece que Mt não volta a alterar a ordem de Mc nas outras duas secções. A
única excepção é a expulsão dos vendedores do Templo de Jerusalém, um episódio
situado na secção “judaica” de Mc. Aqui Mt e Lc concordam contra Mc que tal
expulsão se verificou no dia da entrada de Jesus na cidade, montado num jumentinho 120,
enquanto Mc afirma que Jesus nesse se limitou a observar121, e só no dia seguinte é que
expulsou os vendedores122. Provavelmente aqui é Mc quem altera a ordem, pelo
testemunho conjunto de Mt e Lc contra ele.
109
Cf. Mt 8,2-4.
110
Cf. Mc 1,21-39.
111
Cf. Mt 8,14-17.
112
Cf. Mt 8,23-34.
113
Cf. Mc 4,35-5,20.
114
Cf. Mt 9,1-8.
115
Cf. Mc 2,1-12.
116
Cf. Mt 8,1.
117
Cf. Mt 8,4.
118
Cf. Mt 5-7.
119
Mt 7,28s.
120
Cf. Mt 21,12s; Lc 19,45s.
121
Cf. Mc 11,11.
122
Cf. Mc 11,15s.
13
lo123; Lc só reproduz o segundo e o terceiro, omitindo o primeiro, mas o segundo e o
terceiro são reproduzidos noutra ordem: a acusação dos escribas surge muito mais
tarde124, e o pedido da mãe e dos irmãos surge no fim do discurso em parábolas125.
Ora a alteração de Lc entende-se porque não parece que Mc siga uma ordem
realmente histórica. O relato de Mc é confuso neste ponto: Jesus vem do monte onde
escolheu os Doze e ao entrar em Cafarnaum a multidão que o esperava não lhe deixou
tempo sequer para comer126. Não se percebe porque é que os parentes de Jesus pensam
que ele está louco e querem prendê-lo127; seria mais lógico pensar que a ira dos parentes
contra Jesus é provocada por aquilo que se narra a seguir: os doutores da Lei que tinham
chegado de Jerusalém dizem que ele tinha o demónio e que era pelo demónio que
expulsava demónios128. De facto, os doutores da Lei não se devem dirigir directamente a
Jesus porque está rodeado de uma multidão que não ouvirá com agrado tal insulto, mas
devem ter comentado com os parentes de Jesus, que não parece estarem entre a
multidão que o segue.
Podia ser que Mc estivesse a retratar o ambiente que paira em Cafarnaum, onde
se espalha o boato de que Jesus actua em união com Belzebú e é isso que provoca a ira
dos parentes contra ele. Aqui, portanto, Mc não seguiria a sequência cronológica mas
temática, i.e., ira dos parentes deve-se a murmuração dos doutores da Lei e ambas as
coisas ficam unidas. O pedido dos irmãos e da mãe de Jesus para falar com ele parece a
conclusão do problema, desde que pensemos que se trata de uma verificação de que
Jesus não está louco ou possesso: a sua colocação volta a ser temática. Isso poderia ser
verificado com o facto de que os parentes de Jesus pretenderem falar com ele, estando
fora de um recinto onde ele ensina os seus discípulos: alguém comunica «Eis que a tua
mãe e os teus irmãos estão lá fora e perguntam por ti» 129; se Jesus era seguido por uma
multidão não é provável que a conseguisse introduzir num local fechado.
Em conclusão, Lc talvez não altere a ordem de Mc nem sequer neste caso, mas
Mc é que pode ter alterado a ordem por querer explicar porque é que os parentes de
Jesus se opuseram a ele.
Porque é que um episódio é mais longo ou mais curto? Parece que os motivos
podem ser voluntários ou involuntários. São voluntários quando um autor considera que
um determinado episódio não requer tanto espaço, por lhe parecer que há algo
inconveniente, repetitivo ou já suficientemente conhecido. Os motivos de redução são
involuntários quando a sua causa é a falta de informação: cada autor pode ter fontes
próprias para conhecer um determinado episódio e essas fontes podem ser mais ou
menos próximas do que realmente aconteceu.
123
Cf. Mc 3,20-35.
124
Cf. Lc 11,14-26.
125
Cf. Lc 8,19-21.
126
Cf. Mc 3,20.
127
Cf. Mc 3,21.
128
Cf. Mc 3,22.
129
Mc 3,32.
14
Ora Mt, na secção “galilaica”, não se limita a alterar a ordem de Mc; ele
também reduz muito a dimensão de quase todos os milagres. A tabela mostra a redução
da dimensão dos milagres em relação a Mc, na primeira secção (nas primeiras três
colunas os valores correspondem ao número de palavras no texto grego).
De facto, não é imediata esta conclusão porque Mt, embora altere a ordem e
reduza a dimensão das narrações dos milagres na secção “galilaica”, tem elementos que
perturbam a leitura, se ele tem presente o relato de Mc. Vamos dar exemplos: nos
milagres em casa de Pedro, Jesus não é advertido do estado de saúde da sogra antes de
entrar em casa130, mas é ao entrar que constata que a senhora está doente 131, e cura-a sem
que ninguém interceda a favor dela, pelo que Jesus parece sozinho naquela casa onde a
senhora o serve só a ele132; se o leitor de Mt tivesse lido Mc poderia ficar perplexo
porque conhecia outra versão do episódio; no exorcismo para os porcos Mt afirma que
eram dois possessos133 e não um, como diz Mc (e Lc corrobora134); um leitor de Mt que
conhecesse Mc também aqui ficaria perplexo porque não se entende como é que a
“legião” de demónios135 se distribui por dois homens ou se cada um deles tem uma
“legião”; e no caso da cura da hemorroíssa o texto de Mt narra que a mulher tocou na
orla do manto de Jesus, pelo que ele se voltou e ao vê-la lhe disse: «Tem confiança,
filha! A tua fé te salvou», com o que o narrador comenta «e ficou curada a mulher a
partir daquela hora»136, o que contraria a versão de Mc (e Lc), segundo a qual a mulher
já tinha sido curada quando se encontrava oculta no anonimato entre a multidão que
cercava Jesus137.
Não parece que o autor de Mt se tenha limitado a reduzir um milagre que ele
sabia ter sido narrado por outro evangelista. Mt trata de um modo diferente os milagres
e chega mesmo a tornar “incompatível” o seu texto com o de Mc, mas isso
130
Cf. Mc 1,29; 4,38.
131
Cf. Mt 8,14.
132
Cf. Mt 8,15.
133
Cf. Mt 8,28.
134
Cf. Mc 5,2; Lc 8,27.
135
Cf. Mc 5,9; Lc 8,30.
136
Mt 9,22.
137
Cf. Mc 5,29-34; Lc 8,44-48.
15
secção “extra-galilaica” (como se pode ver Lc é aqui que não acompanha o relato de Mc
omitindo muitas das suas narrativas).
Em resumo: pelo que vimos até agora não existem razões objectivas para
aceitar que os autores de Mt e Lc se tenham servido do texto de Mc para compor os seus
Evangelhos. No caso de Mt, porque altera a ordem de Mc na secção “galilaica”,
tomando os milagres como demonstração do poder de Jesus, confirmando a sua palavra
nos sermões; e porque reduz a dimensão sem que isso pareça um procedimento
completamente voluntário. No caso de Lc, porque, embora siga a ordem de Mc e não
reduza a dimensão dos episódios narrados, omite muitos deles sobretudo na secção
“extra-galilaica”, sem que se consiga explicar a razão de ser deste fenómeno.
A seguir vamos ver o material comum só a dois dos Sinópticos: primeiro entre
Lc e Mc, e depois entre Mt e Mc.
16
das “testemunhas” de que se serviu. Como omite 26% de Mc não parece tê-lo
considerado uma testemunha, mas sim um texto rejeitado. No entanto, ao seguir a
ordem de Mc parece não o ter rejeitado, a não ser que exista algum texto comum a Mc e
a Lc que apresente a mesma ordem, e que teria sido o responsável pela coincidência dos
dois neste aspecto. Mas o mais provável é que não tenha conhecido Mc.
17
Por exemplo, o uso do verbo “acontecer” na terceira pessoa do singular do
aoristo – “aconteceu”, egéneto (ἐγένετο) –, no início de uma narração pode ser feito de
um modo elegante, com um grego aceitável, ou deselegante, por revelar uma tradução
servil de um original semita, como é o caso de o “aconteceu” estar seguido da cópula
“e” de um verbo finito, ou estar seguido da proposição “em” com o artigo definido “o” e
um verbo no infinitivo. Ora ambos os casos sucedem no material comum entre Lc e Mc.
139
Lc 5,1.
140
Lc 5,12.
141
Lc 5,17.
142
Lc 6,1.
143
Lc 6,6.
144
Cf. Lc 17,13.
145
Cf. Lc 21,7.
146
Lc 8,24.
147
Mc 4,38.
18
Também varia o modo de escrever “Nazareno”, título de Jesus: umas vezes
Nazarênos (Ναζαρηνός)148 outras Nazôraios (Ναζωραῖος)149; algumas das ocorrências
deste título no Evangelho estão em material comum a Mc, mas Mc escreve sempre com
a primeira forma, ou seja, Lc não concorda sempre com Mc. Mais do que apontar para a
dependência literária, o fenómeno volta a fazer notar a pluralidade de mãos redaccionais
no texto de Lc.
Podem parecer coisas pequenas e até desprezáveis, mas são importantes para
determinar o modo como o Evangelho foi elaborado. Julgamos que quer o estilo quer o
léxico apontam para a pluralidade de fontes escritas usadas pelo autor de Lc.
Outro título de Jesus, em Lc, é “senhor”, usado tanto no discurso directo 155,
como invocação de alguém que se dirige a Jesus, como – e isso é que o que queremos
sublinhar agora – na voz do narrador 156. Em Mc o narrador nunca nomeia Jesus como
“senhor” excepto na conclusão deuterocanónica157. O uso na boca de personagens
acontece em Mc embora poucas vezes: a mulher pagã é assim que se dirige a Jesus 158, e
quando os discípulos vão buscar o burrinho em que Jesus deve montar para entrar em
Jerusalém, dizem ao dono «o senhor necessita dele»159; aqui também Lc traz a mesma
maneira de se referir a Jesus160. Mas Lc acrescenta esta forma de se dirigir a Jesus na
boca do leproso161, e na boca do cego de Jericó 162, coisa que Mc não faz. Será um modo
livre de tomar o texto de Mc? Pelo que vimos antes, parece que é um modo de escrever
de alguma das fontes do evangelista. E isto introduz-nos um novo motivo pelo que
parece não ser de aceitar a tese de que o autor de Lc conheceu o texto de Mc: a piedade.
148
Cf. Lc 4,34 (//Mc 1,24); 24,19.
149
Cf. Lc 18,37 (//Mc 10,47); Act 2,22; 3,6; 4,10; 6,14; 22,8.
150
Cf. Lc 2,22; 13,22; 19,28; Act 8,25; 13,13; 19,21; 20,16; 21,4.15.17; 25,[Link].
151
A forma preferida por Lc-Act: 64 ocorrências; por exemplo, em Lc 6,17, o texto paralelo de Mc 3,8
apresenta Ἱεροσόλυμα.
152
Cf. Lc 1,26; 2,4.39.5.
153
Cf. Lc 4,16.
154
Cf. Mc 1,9.
155
Cf. Lc 5,8.12; 6,46; 7,6.13; 9,54.59.61; 10,17.40; 11,1; 12,41; 13,23; 17,37; 18,41; 19,31.34;
22,33.38.49; 24,34.
156
Cf. Lc 7,13.19; 10,1.41; 11,39; 13,15; 17,5.6; 18,6; 19,8; 22,61.
157
Cf. Mc 16,19.
158
Cf. Mc 7,28.
159
Cf. Mc 11,3.
160
Cf. Lc 19,31.34.
161
Cf. Lc 5,12.
162
Cf.; 18,41.
19
O título “senhor” denuncia uma submissão das personagens a Jesus. Uma
submissão religiosa, que é partilhada pelo narrador. Este ambiente de piedade que aflora
do autor das fontes lucanas pode ser encontrado noutros elementos do texto
163
Cf. Lc 3,21.
164
Cf. Lc 5,16.
165
Cf. Lc 6,12.
166
Cf. Lc 9,18.
167
Cf. Lc 9,28.
168
Cf. Lc 11,1.
169
Cf. Lc 23,34.
170
Cf. Lc 11,5-13.
171
Cf. Lc 18,1-8.
172
Cf. Lc 18,9-13.
173
Lc 18,1.
174
Cf. Mc 1,35.
175
Lc 4,42.
176
Mc 1,35; 6,46.
177
Cf. Lc 9,17.
178
Cf. Mc 3,29 (//Lc 11,20s); Mc 12,36 (//Lc 20,42); Mc 13,11 (//Lc 21,14).
20
séculos seguintes ao desterro da Babilónia. No século I, o hebraico soava a um judeu
como hoje nos soa o latim: era uma língua sagrada, clerical, usada por sacerdotes, que
soava aqui e ali como coisa conhecida quando se ouvia ler, mas que requeria uma
tradução para o comum das pessoas.
21
3.2.3 A dependência entre Mt e Mc
181
Cf. Mt 2,1.3; 3,5; 4,25; 5,35; 15,1; 16,21; 20,17.18; 21,1.10.
182
Cf. Mt 23,37; o texto é literalmente idêntico ao de Lc 13,34.
183
Cf. Mt 2,23; Mc 1,9; Jo 1,45.46.
22
paralelo184; finalmente, quando as multidões apresentam Jesus como um «profeta de
Nazaré», usa Nazaréth (Ναζαρέθ), como o faz Lc quase sempre185. Poderíamos pensar
em mais do que uma mão redaccional, mas o texto de Mt apresenta uma unidade
estilística que não permite tal conclusão.
O nome de “Maria” também admite duas escritas – uma grega e outra semita –;
Lc e Jo concordam em designar Maria Madalena na forma grega, e a irmã de Marta na
forma semita; Jo só muda designação de Madalena para a forma semita quando Jesus
ressuscitado lhe aparece junto do túmulo e a chama na forma semita: Mariám
(Μαριάμ)186; a partir de então o narrador imita este procedimento e chama-a na forma
semita187. Mt designa a Madalena na forma grega quando está junto da cruz 188, mas
depois, quando está junto do sepulcro de Jesus designa-a na forma semita 189, como se
dependesse de Jo.
Esta análise não prova que Mt não dependa de Mc; prova é que depende de
outros textos evangélicos.*
A dependência léxica de Mt ficaria esclarecida se admitíssemos um dado
fornecido pelos autores antigos, os quais afirmam que Mt teria sido originariamente
escrito na língua dos judeus e só mais tarde traduzido para grego. Este dado explicaria
porque é que o grego de Mt depende de Mc habitualmente, uma vez que mais de metade
do seu material é comum a Mc, excepto em contadas ocasiões em que o tradutor de
serviu de Lc ou de Jo por alguma razão que tornava a narração mais próxima destes dois
Evangelhos.
A tabela permite captar que Mt, no material que é comum só a Mc, e que,
portanto não consta do esquema evangélico, não só concorda com a ordem, como
concorda com a dimensão.
A questão que se coloca é, de novo, saber para que é que o autor de Mt,
sabendo que existia Mc, escreve um novo Evangelho onde reproduz o que já está em
Mc com a mesma ordem e a mesma dimensão? Que vantagem tem este novo escrito?
Pelo menos no material comum, nenhuma.
Além disso, também Mt omite algum material de Mc, embora pouco, sem
razão aparente para o fazer. Fazer depender Mt de Mc é uma solução que não soluciona.
Os problemas continuam sem solução.
23
Em resumo, não parece fácil atribuir ao autor de Mt o conhecimento do texto
de Mc por várias razões, algumas delas já encontradas em Lc: por um lado, não se
entende porque é que se havia de repetir o material já narrado noutro Evangelho, com a
mesma dimensão e a mesma ordem, como acontece com os relatos que não constavam
no esquema evangélico; por outro, não se entendem as omissões de Mt a Mc, caso o
quisesse copiar; finalmente, a semelhança léxica com Mc parece dever-se mais ao
tradutor do Mt original para grego, de acordo com os dados dos autores antigos.
Quem são os autores antigos que se debruçam sobre a origem dos Evangelhos?
São sete: Papias de Hierápolis (séculos I-II), Ireneu de Lyon (140-202), Clemente de
Alexandria (150-220), Orígenes (185-254), o anónimo que escreveu o fragmento de
Muratori (séculos II-III), Eusébio de Cesareia (263-339) e Jerónimo (347-420)190.
190
Para conhecer a opinião destes autores pode-se consultar, para Papias, H.E. (= Historia Ecclesiastica
[Ἐκκλησιαστικῆ ἱστορία], “História eclesiástica”) 3,39,16; para Ireneu, Adv. haer. (= Adversus haereses,
“Contra as heresias”) 3,1,1; H.E. 5,8,2; para Clemente, H.E. 2,16; 3,23,6.8; 6,14,5-7; e Adumbratio in 1
Pe (“Clarificação sobre 1 Pe”) 5,13; para Orígenes, H.E. 6,15,4-6; o Fragmento de Muratori está editado
em várias obras especializadas; para a opinião de Eusébio H.E. 3,24 e também Quaest. ad Marinum
(“Perguntas a Marino”; PG 22,941); para Jerónimo, sobretudo De vir. ill. (= De viris illustribus, “Os
homens ilustres”; PL 23,821-956).
191
O adjectivo ta sômátika (τὰ σωμάτικα) significa “coisas corporais”.
192
H.E. 6,14,7.
193
H.E. 3,39,4.
24
Como se pode observar o testemunho de Papias recolhido por Eusébio fala de
dois presbíteros com o mesmo nome “João”. No entanto o verbo “dizer” é usado em
tempos diferentes. No primeiro caso no passado – «tinha dito» (aoristo) – e no segundo
no presente: «dizem». Parece que o segundo é contemporâneo de Papias, enquanto o
primeiro não; e, segundo Ireneu, Papias não teria conhecido pessoalmente o autor do
Evangelho194. Fica a impressão de que o segundo “João” é posterior e contemporâneo de
Papias, enquanto o primeiro é anterior.
Se ele «repousou sobre o peito» de Jesus, isso quer dizer que quando morreu já
Clemente de Alexandria: «por último João, tendo consciência de que as coisas
corporais já tinham sido tratadas nos Evangelhos, urgido pelos conhecidos e movido
divinamente pelo Espírito, compôs um Evangelho espiritual» (H.E. 6,14,7). Este autor
também chama a João «presbítero» (cf. H.E. 3,23,6.8).
O Canone de Muratori, nas linhas 9-16, afirma que Jo teria sido escrito: (1) por
pedido dos seus discípulos e de outros bispos, (2) entre os quais o apóstolo André, (3)
depois de um jejum de 3 dias, para que, no fim, se revelasse a vontade de Deus, e (4) foi
revelado que João deveria escrever em nome próprio.
194
Cf. Adv. haer. 5,33,4; H.E. 3,39,1-3.
195
Adv. haer. 3,1,1; H.E. 5,8,4.
196
Cf. Adv. haer. 2,22,5; H.E. 3,23,3s.
197
Esta notícia foi-nos dada por M.-J. Lagrange, Évangile selon saint Jean, Gabalda, Paris, 61936, p. lxvi.
Lagrange dá crédito a este dado de Efrém.
25
Jerónimo: «João, o apóstolo predilecto de Jesus, o filho de Zebedeu, o irmão do
apóstolo Tiago decapitado por Herodes, depois da morte do Senhor, sendo já o único
sobrevivente do Colégio Apostólico, escreveu o seu Evangelho a pedido dos bispos da
Ásia» (De vir. ill. 9).
Podemos dizer que os Antigos consideravam que Jo tinha sido escrito (1) por
um apóstolo, chamado João, (2) que é classificado como «ancião» – presbyteros –
talvez por ter morrido muito velho, (3) que escreveu por pedido de outros e (4) depois
de terem sido redigidos os outros três Evangelhos.
Aliás ele é o único autor antigo que se tenha debruçado sobre o modo como os
Evangelhos foram escritos, e que afirme tal coisa. Os outros autores não se pronunciam
sobre esta questão.
No entanto, estes valores são muito superficiais porque não têm em conta que
parte o material pode ser aumentado com discursos, que Mc evita. Por exemplo, a
apresentação do Baptista, tanto em Mt como em Lc, ao incluir os seus ensinamentos,
que Mc omite, faz com que o material seja muito acrescentado 198. A regra mais geral é
que tanto Mt como Lc tendem a diminuir o material comum a Mc, e a razão é que o
estilo de Mc apresenta muitas frases ou palavras que são redundantes ou desnecessárias,
coisa que tanto Mt como Lc procuram evitar.
198
Os ensinamentos do Baptista constituem um texto com 232 palavras em Lc (cf. Lc 3,7-18) e 135 em
Mt (cf. Mt 3,7-12), ou seja, 67% e 57% da sua apresentaçãog.
199
Cf. Mt 8,14-16; Mc 1,29-39.
200
Cf. Mt 8,1-4; Mc 1,40-45.
201
Cf. Mt 9,1-8; Mc 2,1-13.
202
Cf. Mt 8,23-27; Mc 4,35-41.
203
Cf. Mt 8,28-34; Mc 5,1-20.
204
Cf. Mt 9,18-26; Mc 5,21-43.
26
Estas reduções na dimensão são importantes sobretudo se se comparam com o
que sucede com Lc, que, para os mesmos episódios tem variações muito mais pequenas:
-6%, +1%, +0,5%, -20%, -11% e -22%, respectivamente.
As alterações à dimensão não têm uma regra fixa. Mesmo na secçao galilaica
há episódios como o da vocação de um publicano 205, onde Mt reduz 1% e Lc não altera
a dimensão, o do jejum206 onde Mt reduz 20% e Lc aumenta 9%, o das espigas colhidas
ao sábado207, onde Mt aumenta 24% e Lc reduz 16%, etc.
205
Cf. Mt 9,9-13; Mc 2,14-17; Lc 5,27-32.
206
Cf. Mt 9,14-17; Mc 2,18-22; Lc 5,33-39.
207
Cf. Mt 12,1-8; Mc 2,23-28; Lc 6,1-5.
208
Cf. Butler, Originality.
209
A expressão “Reino dos Céus” ocorre 30 vezes em Mt, enquanto a expressão mais comum nos outros
dois Sinópticos – “Reino de Deus” – só ocorre quatro vezes (cf. Mt 6,33; 12,28; 21,31.43).
27
divino, i.e., a voz passiva em que o agente da passiva é Deus 210; o recurso frequente às
Escrituras como verificação de que Jesus cumpria o que fôra anunciado211.
28
contrário do que sucede em Lc, onde assistimos a uma multiplicidade de estilos ao
longo do texto222.
São frequentes os refrães conclusivos como «aí haverá o choro e o ranger dos
dentes», repetido 7 vezes228, ou introdutórios como «o Reino dos Céus assemelha-se
a…», repetido 4229, ou quando se pretende introduzir uma citação da Escritura: «isto
aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta…», repetido 11 vezes230.
29
modo caótico correspondendo provavelmente às circunstâncias em que foi surgindo
historicamente, e às várias fontes de que se serviu o autor; em Mt está arrumado talvez
porque os seus destinatários já o conheciam mas queriam um produto fácil de manusear.
Mc parece fugir dos discursos longos.
Mt 4,18-22 Mc 1,16-20
18 16
Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu Passando ao longo do mar da Galileia, viu
dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André o Simão e André, o irmão de Simão, a lançar
seu irmão, a lançar a rede ao mar, pois eram redes ao mar, pois eram pescadores.
pescadores.
19 17
E disse-lhes: “Vinde atrás de Mim e farei de E disse-lhes Jesus: “Vinde atrás de Mim e farei
vós pescadores de homens”. de vós pescadores de homens”.
20 18
Eles então imediatamente, deixando as redes, E imediatamente, deixando as redes,
seguiram-no. seguiram-no.
21 19
E avançando dali, viu outros dois irmãos: E avançando dali, viu Tiago, o [filho] de
Tiago, o [filho] de Zebedeu, e João o seu irmão, Zebedeu, e João, o seu irmão, e eles na barca a
na barca com Zebedeu, o pai deles, a consertar consertar as redes.
as redes deles.
E chamou-os. 22Eles então imediatamente, 20
E imediatamente chamou-os. E, deixando o pai
deixando a barca e o pai deles, seguiram-no. deles, Zebedeu, na barca, com os assalariados,
partiram atrás dele.
233
Cf. Lc 12,54-59; 17,20-37; Lc 21,8-36. Repare-se, por exemplo, na coincidência textual entre Mt
24,50s e Lc 12,46.
234
Cf. Lc 11,37-54; 20,46s.
235
Para dar um exemplo, em Mt o exorcismo para os porcos faz-se com dois possessos e não um (cf. Mt
8,28), do mesmo modo, em Jericó, Jesus curou dois cegos e não um (cf. Mt 20,30); a duplicação dos
protagonistas dos milagres dificulta a leitura de Mc.
236
Cf. Mt 23,37 = Lc 13,34.
30
Estas características: primitividade de Mt e dependência na letra em relação
aos outros Evangelhos parecem ser contraditórias. Não é fácil compatibilizar a
anterioridade de um texto à sua dependência daqueles a quem precede. A estas duas
características soma-se uma terceira que é a liberdade do redactor de Mt para compor os
discursos de Jesus, juntando palavras que provavelmente foram ditas em ocasiões
diferentes, ou para alterar a ordem de alguns milagres, contrariando a sequência seguida
por Mc e Lc.
Depois da visão geral, vamos estudar o que sucede com cada dois Sinópticos, e
começamos por Lc porque é o caso onde os dados parecem mais evidentes a favor da
independência, i.e., da conclusão de que o autor de Lc não conheceu o texto de Mc, pelo
menos aquele que nos chegou.
Para dar um exemplo: o milagre do pão (episódio) é narrado pelos três e isso é
verificável pelos dados envolvidos: 5.000 comensais, dotação de 5 pães e 2 peixes, 12
cestos de sobras. Não é possível confundir este episódio com outro, mesmo que a versão
de cada evangelista tenha pequenas diferenças, porque são concordes nestes dados. O
outro milagre do pão vê-se que é outro episódio porque envolveu 4.000 comensais, 7
pães e 7 canastas de sobras, só sendo narrado por dois Sinópticos (Mt e Mc) 237. Percebe-
se que o primeiro é comum aos três e o segundo só a dois.
237
Cf. Mt 15,29-39; Mc 8,1-10.
238
Cf. Mt 5,1-12; Lc 6,20-26.
31
terceira, repete a ideia da 8ª – «Felizes os perseguidos por causa da justiça porque é
deles o reino dos céus»239 –, sendo redundante, e é muito mais longa. Compare-se:
Mt 5,11s Lc 6,22s
Felizes sois quando vos maltratarem e vos Felizes sois quando vos odiarem os homens e vos
perseguirem e disserem todo o mal contra vós por desprezarem e vos maltratarem e tomarem o
minha causa; vosso nome como mau por causa do Filho do
homem;
alegrai-vos e exultai porque a vossa recompensa é alegrai-vos nesse dia e saltai porque eis que a
grande nos céus; assim perseguiram os profetas vossa recompensa é grande no céu; da mesma
antes de vós. maneira fizeram aos profetas os seus pais.
32
(δέ), que tem muitos significados de coordenção de frases, entre eles o copulativo, e o
kaí: em Mc a proporção é de 1 dé para 5 kaí, proporção que em Lc só é atingida nos
Evangelhos da Infância241; em Mt a proporção é de 1 dé para 1,5 kaí, e nas secções de
Lc comuns a Mc a proporção é de 1 dé para 1,2 kaí242. A tabela que se apresenta permite
ver como o uso da parataxe é particularmente acentuado nos primeiros seis capítulos
(sobretudo nos capítulos 3, 5 e 6 e que depois decai para níveis mais baixos).
14,00%
12,00%
10,00%
8,00% Proporção de kaí por
6,00% palavra em Mc
4,00%
2,00%
0,00%
1 3 5 7 9 11 13 15
Capítulos de Mc
Mc foge dos discursos longos. As frases de Jesus são curtas, ditas a propósito
de um gesto ou de uma circunstância, fáceis de memorizar, mas os discursos requerem
que o narrador recorra à leitura o que se torna incómodo se se trata de um testemunho
oral. Assim, em Mc Jesus só fala longamente em três ocasiões: no discurso em
parábolas243, nas instruções aos discípulos sobre o maior244 e no discurso escatológico245.
Mc não faz recurso à Escritura, citando-a raramente, em contraste com Mt, mas
na citação inicial do Evangelho diz «como está escrito no profeta Isaías: “Eis que envio
o meu anjo diante de ti, o qual preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto:
‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’”» 246. Ora a frase «uma voz
clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”» pertence
de facto a Isaías247, mas a frase «eis que envio o meu anjo diante de ti, o qual preparará
o teu caminho» pode evocar o livro do Êxodo 248, mas não pertence a Isaías. Isto seria
mais um indício de que Mc está construído sobre a oralidade, onde é mais difícil fazer
citações com rigor249.
241
Cf. Lc 1-2.
242
Cf. Turner, N., Grammar, 57.
243
Cf. Mc 4,1-30.
244
Cf. Mc 9,33-50.
245
Cf. Mc 13,3-37.
246
Mc 1,2s.
247
Cf. Is 40,3.
248
Cf. Ex 34,20.
249
Cf. Orchard, The Making, 369s.
33
que Jesus indicou que a multidão se sentasse «grupo a grupo (sympósia sympósia),
sobre a erva verde»250. O “verde” da erva não era requerido.
Por outro lado, Mc parece dirigir-se a um leitor que não conhece a Palestina
nem a língua aramaica; o narrador esclarece que Nazaré se situa na Galileia 251, e que o
Monte das Oliveiras se situa diante do Templo252; traduz a expressão Boanerges, Talitha
qum, Korban, Abba, Golgotha, «Elôi, Elôi, lema sabachthani»253; explica que no
primeiro dia dos Ázimos se deve sacrificar a Páscoa e em que consiste a
“preparação”254. Ao narrar que os fariseus e os escribas se escandalizam por verem os
discípulos comer com as mãos “impuras”, explica, «isto é, sem lavar», e acrescenta «é
que os Fariseus e todos os Judeus, sem antes lavarem cuidadosamente as mãos não
comem, guardando as tradições dos Anciãos; e ao vir da praça pública sem se lavar não
comem e são muitas outras coisas que ensinam a guardar: lavagens das taças e dos
jarros, e das bacias de cobre, e dos divãs»255, explicação que está ausente na passagem
paralela de Mt256.
250
Mc 6,39.
251
Cf. Mc 1,9.
252
Cf. Mc 13,3.
253
Cf. Mc 3,17; 5,41; 7,11; 14,36; 15,22.34.
254
Cf. Mc 14,12; 15,42.
255
Mc 7,2-4.
256
Cf. Mt 15,1s.
257
Cf. Mc 6,27.
258
Cf. Mc 15,39.44s.
259
Mc 12,42.
260
Cf. Lc 21,2.
261
Cf. Mc 1,14s.
262
Cf. Mc 13,10; 14,9.
34
se deve entregar a vida263, cuja adesão deve preceder a recepção do baptismo 264. A
introdução de Mc dá-se com a seguinte frase: «início do evangelho de Jesus Cristo,
Filho de Deus»265, título que não surge em mais nenhum Evangelho. O leitor percebe
que está diante de um texto autoritativo: este é “o” evangelho de Jesus Cristo.
3.3.1 Sobre Mt
Ora o tradutor de Mt procuraria ter diante dos olhos os textos dos outros
Evangelhos já escritos em grego para se inspirar nas passagens paralelas; a semelhança
ou dependência do grego de Mt em relação aos outros é explicável por este facto, assim
como as incongruências láxicas a que antes fizémos referência: por exemplo, a forma de
designar Jerusalém ou Nazaré.
263
Cf. Mc 8,35; 10,29.
264
Cf. Mc 16,15.
265
Mc 1,1.
266
Ἑβραΐδι διαλέκτῳ, diz Papias, segundo Eusébio (H.E. 3,39,16), mas “hebraico” pode querer dizer
“aramaico”; γράμμασιν Ἑβραϊκοῖς, “letras hebraicas” escreve Orígenes com maior precisão (H.E. 6,15,4);
os caracteres não são gregos mas hebraicos, mas a língua pode ser aramaica que se escrevia com os
mesmos caracteres que o hebraico.
267
A expressão de Papias é ἡρμήνευσεν δ᾿ αὐτὰ ὡς ἦν δυνατὸς ἕκαστος, «cada um traduzia estas coisas
[discursos do Senhor] como era capaz» (H.E. 3,39,16).
268
A Palestina tinha conhecido duas guerras contra Roma (66-70 e 132-135) a última das quais significou
uma mudança radical de estatuto dos judeus no império e uma anulação de Jerusalém como cidade que
passou a chamar-se Aelia Capitolina. Se Mt foi traduzido depois do ano 135 a dificuldade em encontrar
um tradutor pode ter sido grande.
35
Se houve um tradutor podemos pensar que houve um segundo autor de Mt,
uma vez que traduzir é sempre interpretar 269. Qual o contributo do tradutor, qual a
influência dele no texto que nos chegou? É muito difícil tentar isolar o efeito do tradutor
porque o texto de Mt mantém uma ideossincrasia que denota bem a sua origem e
primitividade. Creio, no entanto, que existem pelo menos dois pequenos indícios da
segunda mão: são duas citações bíblicas de reflexão, uma no anúncio angélico a José270,
e a segunda na entrada de Jesus em Jerusalém 271. Em ambos os casos a citação está
colocada a meio da narração, contra a prática do narrador em todas as outras citações,
que se situam só no fim272. Parece-me, porém, que em ambos os casos o tradutor não faz
mais do que exprimir a leitura da comunidade cristã que olhava para a concepção
virginal de Jesus à luz de Isaías e para a sua entrada montado num burrinho à luz de
Zacarias273.
269
De facto, o verbo grego hermêneúô (ἑρμηνεύω) possui os dois significados: “interpretar” e “traduzir”,
indicando que as duas operações se confundem.
270
Cf. Mt 1,22s.
271
Cf. Mt 21,4s.
272
Cf. Mt 2,15.17.23; 3,3; 4,14; 8,17; 12,17; 13,35; 27,9. Aliás há mais um motivo para separar estas duas
citações das 9 restantes: a introdução é mais pomposa; em vez da frase habitual «para se cumprir o dito
através do profeta ao dizer», em Mt 1,22 a introdução é «tudo isto, de facto, aconteceu, para se
cumprir…», e em Mt 21,4 «isto, de facto aconteceu para se cumprir…».
273
Cf. Is 7,14; Zc 9,9; esta última citação já tinha sido associada à entrada de Jesus em Jerusalém em Jo
12,14s, com o seguinte comentário do narrador: «estas coisas [o cumprimento da profecia naquele
momento] os discípulos primeiro não entenderam, mas quando Jesus foi glorificado então lembraram-se
que estas coisas estavam escritas sobre ele» (Jo 12,16). Acontece que o texto de Mt falava de dois animais
– um burrinho e uma asna (cf. Mt 21,1s) – pelo que o tradutor sentiu que devia reforçar o cumprimento da
profecia porque o texto dos LXX, de onde ele retirou a citação, também lia dois animais, e não um, como
o texto hebraico.
274
Cf. Mt 10,2-4; Mc 3,16-19; Lc 6,13b-16; Act 1,13.
275
Mt 5,46s.
276
Mt 18,17.
277
Cf. Mt 9,9-13; Mc 2,14-17; Lc 5,27-32.
36
modéstia e humildade278. Devemos juntar a estes dados o facto de um publicano ser
alguém a quem se exigia saber escrever, o que não era requerido a um pescador.
Quanto à data, todos afirmam que Mt foi o primeiro Evangelho a ser redigido,
mas Ireneu, afirma que Mateus redigiu o seu Evangelho enquanto Pedro e Paulo
evangelizavam e fundavam a igreja de Roma 280, o que apontaria para os anos 61 a 63;
Eusébio acrescenta que Mateus redigiu antes de partir 281 sem especificar para onde nem
porque motivo; é razoável, no entanto, pensar que a saída se tenha realizado em
previsão de uma perseguição que se sentia estar para chegar. De facto, Josefo afirma
que, depois da morte súbita de Festo, procurador da Judeia entre 60 e 62, enquanto não
chegava o seu substituto, o sumo-sacerdote Anano mandou matar Tiago, chefe da igreja
de Jerusalém282; a morte de Tiago deveria corresponder a um desejo anterior do sumo-
sacerdote que se sabe ter querido a morte de Paulo, desde antes do ano 60 283. Se esta
suspeita tem cabimento, Mt terá sido escrito antes do ano 62.
3.3.2 Sobre Mc
Em relação a Mc, a tradição atribui a redacção a um tal João Marcos que teria
sido companheiro de Pedro em Roma, e, segundo, Papias284, se teria tornado seu
intérprete ou tradutor – ἑρμηνευτὴς Πέτρου γενόμενος –, escrevendo com todo o rigor –
ἀκριβῶς ἔγραψεν – tudo o que recordava, mas sem ordenar os discursos do Senhor –
οὐχ ὥσπερ σύνταξιν τῶν κυριακῶν ποιούμενος λογίων –, ao contrário do que tinha feito
Mateus. A escrita de Marcos, portanto, é rigorosa, i.e., corresponde ao que Pedro
ensinava, mas não tem a preocupação de agrupar tematicamente as palavras de Jesus.
A estadia de Marcos em Roma deve ter iniciado no ano 61, porque, segundo
Eusébio, até ao oitavo ano de Nero, esteve em Alexandria onde tinha fundado a
igreja285; segundo o mesmo autor, «o fulgor da piedade brilhou de tal modo diante dos
ouvintes de Pedro que eles não se satisfaziam de ouvi-lo uma só vez, nem de ter
recebido o anúncio oral da doutrina, mas insistiam de todos os modos, suplicando a
Marcos, cujo Evangelho chegou até nós, e que era o companheiro de Pedro, que lhes
deixasse um monumento escrito da palavra transmitida oralmente. Não desistiram de
278
«Na autobiografia emerge de alguma maneira a glória do sujeito, mas na autobiografia de carácter
religioso esta anotação tem o seu reverso, pois nela aparece a humilhação do herói para destacar assim a
glória de Deus» (Balaguer, Marcos, 151s).
279
H.E. 3,39,16.
280
Τοῦ Πέτρου καὶ τοῦ Παύλου ἐν Ῥώμῃ εὐαγγελιζομένων καὶ θεμελιούντων τὴν ἐκκλησίαν (H.E. 5,8,2;
Adv haer.3,1,1).
281
Ὡς ἤμελλεν καὶ ἐφ᾿ ἑτέρους ἰέναι (H.E. 3,24,6).
282
Cf. Ant.20,199-202.
283
Cf. Act 23,2; 24,1, aqui com o nome de Ananias e não Anano.
284
Cf. H.E. 3,39,15.
285
Cf. H.E. 2,24. Estes dados foram tratados com alguma confusão por Jerónimo, o qual, por um lado,
confirma que Marcos esteve ao lado de Pedro sendo seu intérprete, mas por outro, afirma que teria ido
depois para Alexandria onde viria a morrer no 8º ano de Nero (cf. De vir. ill. 8; PL 23,844), o que é um
engano, uma vez que esse seria o ano 61, e Paulo pede a Timóteo que leve consigo Marcos pelo ano 67
(cf. 2 Tm .4,11).
37
suas preces, enquanto não o coagiram e assim deram ocasião a que fosse escrito o
Evangelho “segundo Marcos”»286.
Para Clemente, a redacção de Mc foi feita a pedido dos ouvintes de Pedro, mas
acrescenta que este – Pedro – nem a proibia nem estimulava 287; pelo contrário, Jerónimo
afirma que quando Pedro escutou, aprovou e deu a ler às igrejas com a sua autoridade 288.
Pode-se pensar que Pedro, enquanto Marcos lhe manifestou o projecto e o foi pondo em
prática se limitou a deixar fazer, mas ao ver concluída a obra e ao escutar a sua leitura
confirmou-a com autoridade.
Ireneu, pelo seu lado, acrescenta um dado que produz certa perplexidade e
parece ser confirmado por Clemente: «depois da partida destes – μετὰ δὲ τὴν τούτων
ἔξοδον – [i.e. de Pedro e de Paulo] (…), tendo escrito as coisas pregadas por Pedro, no-
las entregou»289, o que colocaria a redacção depois do ano 67, quando Paulo foi morto.
No entanto, o verbo “entregar” – paradídômi (παραδίδωμι) –, usado no perfeito, é que
poderia estar ligado à “partida” dos apóstolos, e não o verbo “escrever” – gráphô
(γράφω) –, usado no aoristo; ou seja, Marcos poderia ter escrito muito antes de ter
publicado. Clemente afirma que os primeiros Evangelhos a serem escritos foram
aqueles que contêm genealogias290, i.e., Mt e Lc, colocando a redacção de Mc para um
momento posterior.
Assim, a redacção de Mc deve situar-se entre o ano 61, quando Marcos deixa
Alexandria, e o ano 64, quando Pedro é morto em Roma, tendo sido completada depois
do ano 67 com a conclusão deuterocanónica.
3.3.3 Sobre Lc
Quanto a Lc, os autores não dizem quando é que foi redigido. Informam-nos de
que o seu autor seria Lucas, médico de Antioquia da Síria e companheiro de Paulo, de
origem pagã e escrevendo para as comunidades fundadas por Paulo, maioritariamente
formadas por gentios. O Prólogo Monarquiano, um documento do século II ou III293,
afirma que Lucas teria redigido na Acaia (actual Grécia). Estes dados não são explícitos
286
H.E. 2,15.
287
Μήτε κωλῦσαι μήτε προτρέψασθαι (H.E. 6,14,6).
288
Quod cum Petrus audisset, probavit, et Ecclesiis legendum sua auctoritate edidit (De vir. ill. 8; PL
23,844).
289
H.E. 5,8,2.
290
Cf. H.E. 6,14,5.
291
Cf. Mc 16,9-20; vide supra 3.2.1 e nota 57.
292
Cf. Carlson, Clement of Alenxandria, 118-125.
293
Cf. Ricciotti, gJesus, 129 (n. 136).
38
sobre uma data mas não nos parece difícil supor que Lc (e Act a outra obra do mesmo
autor), fosse redigido pouco depois do ano 63.
Os Actos dos Apóstolos têm algumas secções onde o narrador usa a primeira
pessoa do plural – “nós” (We-Sections na literatura especializada em inglês) –,
manifestando ter sido testemuha presencial daquilo que está a escrever 294. Era ponto de
honra dos historiadores gregos o procurar conhecer os factos que narravam não só por
fontes escritas, mas deslocando-se aos locais e tentando contactar testemunhas,
enquanto os historiadores romanos podiam consultar os arquivos imperiais sem sair de
Roma295; de facto, o prólogo de Lc fala da consulta de fontes e de testemunhas, e está
escrito num grego muito elegante, imitação do estilo dos historiadores; as “secções do
nós” apresentam um grego próximo do clássico296, denunciando a mesma mão que
escreveu o prólogo. Estas secções mostram que o redactor acompanhou Paulo em várias
ocasiões e estava na Palestina quando este foi preso em Jerusalém e mais tarde mudado
para Cesareia Marítima, onde esteve dois anos até que apelou a César e foi levado para
Roma.
Pode-se pensar que a data mais provável seria o ano 63 ou 64, quando Lucas já
não se encontra com Paulo e ainda não voltou para a sua companhia porque os últimos
elementos que fornece da vida do apóstolo é a sua prisão domiciliária romana durante 2
anos.
3.3.4 Sobre Jo
294
Cf. Act 16,10-17; 20,3-21,18; 27,1-28,16.
295
Cf. Keener, Jesus, 89s.
296
Cf. Turner, Grammar, 50s.
297
Cf. Act 28,30s.
298
Cl 4,14.
299
Cf. 2 Tm 4,11.
39
enquanto vivia em Éfeso, o que parece ter sido até aos tempos do imperador Trajano
(98-117), portanto nos últimos anos do primeiro século.
É pouco provável que alguém que não um dos doze pudesse estar na última
ceia e reclinar a sua cabeça sobre o peito de Jesus, ou tão junto da cruz como a sua mãe,
ou com Pedro na manhã da ressurreição, quando Maria Madalena os foi avisar de que o
corpo de Jesus desaparecera, ou embarcado a pescar com Pedro no Mar da Galileia 306. A
proximidade de Pedro e de Jesus fazem pensar, não só num dos doze mas um dos
principais entre os doze. A hipótese de que o autor seja João, filho de Zebedeu, que se
identifique com o discípulo amado e que conheça o sumo-sacerdote deveria ser
encarada mais a sério.
O que é que esta hipótese nos obriga a considerar? Na minha opinião, seria de
toda a conveniência que admitíssemos que Zebedeu, um rico armador de pesca de
Cafarnaum, tivesse tomado por esposa uma mulher de ascendência sacerdotal, oriunda
dos meios sacerdotais de Jerusalém, e que, pelas vicissitudes pelas que passou o sumo-
sacerdócio e a que já fizemos referência 307, o seu pai ou o seu irmão viessem a ser
nomeados sumo-sacerdotes pelo poder político. Assim, o seu filho João podia conhecer
o sumo-sacerdote e muitos meandros da alta sociedade de Jerusalém.
Eusébio faz constar que Policrato, bispo de Éfeso no século II, escrevendo ao
Papa Victor, diz que João «se tornou sacerdote e trouxe o pétalon, sendo testemunha e
mestre»308. De facto, o autor de Jo chama-se a si mesmo “testemunha” 309, mas o
“pétalon” (πέταλον) é um elemento novo; trata-se de uma insígnia própria do sumo-
sacerdote310. Que quer isto dizer? O contexto em que Policrato de dirige ao Papa Victor
é o de acentuar a autoridade litúrgica de João como seu antecessor na sede de Éfeso, não
300
Cf. Jo 21,24, que faz referência a Jo 21,20:
301
Cf. Jo 13,23.25.
302
Cf. Jo 19,26.
303
«O outro discípulo que Jesus amava» (Jo 20,2).
304
Cf. Jo 18,15s.
305
Assim, alguns autores defendem que o autor seria o outro discípulo, uma pessoa diferente do discípulo
(cf. Cullmann, Le milieu, 103s); outros, que o discípulo amado é que seria o autor e este seria João, mas
não o outro discípulo (cf. Keener, John, 81-91); outros ainda defendem que discípulo amado e o outro
discípulo seriam a mesma pessoa, mas não João, antes um sacerdote essénio (cf. Petitfils, Jésus, 521-
534); há ainda quem identifique o discípulo amado com Lázaro (cf. Hunt, Lazarus, 207-209).
306
Cf. referências ao “discípulo amado”: Jo 13,23-25; 19,26; 20,2; 21,20.
307
Vide supra cap. 1, 1.3.1 in fine e 1.3.2.
308
H.E. 5,24,3.
309
Cf. Jo 19,35; 21,24.
310
Cf. Ex 38,36-38 (segundo a versão dos LXX).
40
como autor do Quarto Evangelho; no entanto a informação pode ser verdadeira: poderia
ter acontecido que a insígnia do sumo-sacerdote lhe fosse entregue mercê da sua filiação
materna, em virtude que todos os sumos-sacerdotes e seus familiares terem morrido
durante a guerra de 66-70 em Jerusalém.
Julgo por isso que João, filho de Zebedeu, poderia ser de família sacerdotal
pela sua mãe, emparentada com o sumo-sacerdote em exercício. Isso explicaria também
que tivesse uma casa em Jerusalém311.
Os dados que nos fornecem os autores antigos podem ajudar a perceber algo
que já tínhamos concluído em relação à questão sinóptica e à questão joanina: que não
houve interdependência entre os três Sinópticos porque devem ter sido escritos quase
simultaneamente e em lugares muito afastados geograficamente; pelo contrário, Jo
poderia ter conhecido os Sinópticos, uma vez que a sua redacção dista 30 anos e isso
explicaria que as circunstâncias históricas pudessem obrigar a um outro tipo de escrito.
Estas questões prendem-se com a autenticidade dos Evangelhos, i.e., com a identidade
da pessoa que redigiu cada um: a aceitação dos dados dos autores antigos possibilita
uma aproximação maior às circunstâncias da redacção, às fontes e aos destinatários.
Por exemplo, o milagre dos pães tem muitas frases que são literalmente
idênticas nos três Sinópticos; o tradutor de Mt pode ser responsável pelas coincidências
de Mt, mas entre Mc e Lc elas também existem, como se pode ver no seguinte quadro
sinóptico (em negrita o que é idêntico e em itálico o que surge noutra ordem).
Mc 6,31-44 Lc 9,10b-17
31
e diz-lhes: «Vinde vós mesmos em privado para
um lugar deserto e descansai um pouco». Porque
os que chegavam e os que partiam eram muitos, e
não tinham tempo para comer.
32 10b
E partiram no barco para um lugar deserto, em e tomando-os [os apóstolos] afastou-se em
privado privado
Para uma cidade chamada Betsaida.
311
Cf. Jo 19,27. Cf. García-Moreno, Juan, 20s e nota 11.
41
33 11
e viram-nos partir e perceberam muitos, e As multidões, porém, sabendo, seguiram-no
concorreram a pé desde todas as cidades para ali e
anteciparam-nos
34
e saindo viu uma grande multidão e e acolhendo-as falava-lhes sobre o reino de Deus,
compadeceu-se deles porque eram como ovelhas e àqueles que tinham necessidades de cura
sem ter pastor, e começou a ensinar-lhes muitas sanava.
coisas.
35 12
E já a hora sendo tardia aproximando-se dele O dia, porém, tinha começado a declinar,
os seus discípulos, diziam-lhe: aproximando-se os Doze disseram-lhe:
«Deserto é este lugar e a hora já tardia. «Despede a multidão, para que indo às aldeias e
36
Despede-os para que indo aos casais e aldeias casais das redondezas se abriguem e encontrem
das redondezas comprem para si algo que comida, porque aqui estamos num lugar deserto».
comer».
37 13
Ele, porém, respondendo disse-lhes: «Dai-lhes Disse, porém, para eles: «Dai-lhes vós de
vós de comer». comer».
E dizem-lhe: «Havemos de ir comprar duzentos
denários de pães e dar-lhes para que comam?»
38
Ele, porém, diz-lhes: «Quantos pães tendes? Ide!
Vede!».
E conhecendo dizem: «Cinco e dois peixes» Eles, porém, disseram: «Não nos são mais que
cinco pães e dois peixes a não ser que indo nós,
havemos de comprar para todo este povo
comida». 14Porque eram como cinco mil homens.
39
E ordenou-lhes fazer reclinar a todos, grupo a Disse, então, para os seus discípulos: «Fazei
grupo, sobre a erva verde. 40E sentaram-se, grupo sentar em convívios como de cinquenta». 15E
a grupo, de cem e de cinquenta. assim fizeram e todos se sentaram.
41 16
E tomando os cinco pães e os dois peixes, Tomando, então, os cinco pães e os dois
olhando para o céu abençoou-os e partiu os peixes, olhando para o céu abençoou-os e
pães e deu-os aos seus discípulos para que os partiu-os e deu-os aos discípulos a distribuir à
apresentassem a eles multidão
e os dois peixes distribuiu-os inteiramente
42 17
E comeram todos e ficaram saciados E comeram e ficaram saciados todos.
43
E levantaram pedaços de doze cestos cheios e E levantou-se do que lhes sobrou doze cestos de
dos peixes pedaços
44
e eram os que comeram os pães cinco mil
homens.
42
Lucas)312. Este esquema conteria sobretudo frases de Jesus que era aquilo que mais se
apreciava por ser o que mais facilmente poderia ser alterado ou mesmo deturpado, e por
exigir uma presença mais próxima de Jesus nos acontecimentos relatados313.
Não é estranho, por isso, que tivessem surgido “muitas” narrações319; os textos
de Mc e Lc poderiam ter nascido também daqui; ambos arrancavam do mesmo guião
que Marcos completaria com as recordações de Pedro e que Lucas procuraria entre
aquilo que se conservava em Jerusalém, durante o período de dois anos em que terá
permanecido na Palestina acompanhando Paulo que se encontrava preso em Cesareia
Marítima. Quanto a Mt, advertimos a liberdade do autor: Mateus sendo ele próprio um
dos doze apóstolos dispensa-se de seguir o guião.
Certos esboços parecem acenar-se nalguns discursos relatados nos Actos, como
o de Pedro no dia de Pentecostes, onde o acontecimento central é a crucifixão de
ressurreição de Jesus, ao qual se juntam «poderes, milagres e sinais» realizados antes 320;
o mesmo apóstolo, diante de um centurião romano chamado Cornélio, e da sua família,
em Cesareia Marítima, concretiza as obras de Jesus como «fazer o bem e curar todos os
que eram oprimidos pelo diabo» e a patência da ressurreição com o comer e beber com
ele321; mais tarde Paulo, perante um auditório judaico mas extra-palestinense 322, recorda
o testemunho de João Baptista, conhecido pelo judaísmo do mundo grego, desde
312
Cf. Leon-Dufour, Jésus, 237; Boismard, Introduction, 253; A. Plummer defendia uma narrativa
primitiva, usada pelos três Sinópticos e que seria a principal fonte de Mc (cf. Luke, xxiii).
313
B.L. Mack defende que aquilo que primeiro se fez foi coleccionar os ditos de Jesus e não as narrações
(cf. O Evangelho perdido, 9).
314
Cf. Act 2,41.
315
Cf. Act 4,4.
316
Act 6,4.
317
Lc 1,2.
318
Cf. Lc 1,1s.
319
Cf. Lc 1,1.
320
Cf. Act 2,22-24.
321
Cf. Act 10,37-41.
322
Cf. Act 13,23-31.
43
Alexandria323 até Éfeso324. No entanto, todos estes discursos são breves: limitam-se a
apresentar uma figura e não se prendem com narrações mais pormenorizadas porque se
dirigem a quem ainda não é discípulo. Os Evangelhos completavam esta apresentação
para aqueles que aderiram325.
Mateus, no entanto, embora não se denuncie na sua escrita, sendo muito sóbrio
no modo de narrar, deixa alguns indícios do seu próprio testemunho pessoal, em
pormenores que os outros não recolhem e que parecem manifestar uma proximidade de
alguns dos doze. Por exemplo, o episódio de Pedro caminhar sobre as águas 327, ou o dos
cobradores da didracma328, ambos envolvendo Pedro; ou, em relação a Judas Isacriotes,
a sua pergunta na ceia329, a devolução do preço da entrega e o seu suicídio 330. Além
destes, encontramos alguma informação que o parece aproximar do contingente romano
de Jerusalém: o episódio da mulher do procurador331, e dos soldados que montaram a
guarda ao sepulcro332.
323
Cf. Act 18,24s.
324
Cf. Act 19,1-3.
325
Tudo isto ajuda a não se precipitar a classificar Mc como o primeiro Evangelho; se o fosse narraria
alguma aparição de Jesus ressuscitado e é o único que não o faz (excepto na conclusão deuterocanónica).
326
Cf. Lc 11,39-54 que é paralelo a Mt 23,13-36 e está mais bem contextualizado em Lc do que em Mt,
uma vez que neste último Jesus passa de falar na terceira pessoa do plural, referindo-se a quem não tem
diante dos olhos, para a segunda; a presença dos fariseus às palavras de Jesus entende-se melhor no
contexto de uma refeição (cf. Lc 11,37s). Sobre a rejeição dos publicanos pelos fariseus cf. Mt 9,11 e
par.; Lc 15,1s.
327
Cf. Mt 14,28-31.
328
Cf. Mt 17,24-27.
329
Cf. Mt 26,25.
330
Cf. Mt 27,3-5.
331
Cf. Mt 27,19.
332
Cf. Mt 27,62-66; 28,4.11-15.
333
Cf. Mt 1,1-2,23.
44
Mateus parece identificar-se com Cafarnaum ao escrever; o seu texto sobre a
chegada de Jesus à localidade indicia quase a comoção: «Tendo sabido que João tinha
sido entregue, retirou-se para a Galileia, e, deixando Nazaré, veio habitar Cafarnaum, a
que está junto ao mar, nos limites de Zabulon e de Neftali, para que se cumprisse o que
o profeta Isaías anunciara: “Terra de Zabulão e Neftali, caminho do mar, região de além
do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que jazia nas trevas viu uma grande luz; e aos
que jaziam na sombria região da morte surgiu uma luz”» 334. Diríamos que Mateus, ou
era oriundo de Cafarnaum ou escrevia nessa terra ou ambas as coisas.
Marcos também não se denuncia como autor mas há um pormenor que bem
poderia ser autobiográfico: o do rapaz do lençol339; a sua colocação manifesta alguma
artificialidade, evidenciando um acrescento que não pertencia ao relato primitivo de
Pedro nem ao escrito de Mateus340.
Outro texto que poderia ser da autoria de Marcos e não não uma transcrição das
memórias de Pedro, é a conclusão deuterocanónica, acrescentada numa segunda edição
do Evangelho341; trata-se de uma listagem das aparições de Jesus ressuscitado
começando por Maria Madalena, que transmite aos discípulos, narrada mais
334
Mt 4,12-16.
335
Cf. Act 12,12.
336
Por exemplo, a vocação dos pescadores (perícope 5) e muitos outros episódios (perícopes 28, 31, 33-
36, 38-40, 43, 46, 52s, 58, 61, 68, 76, 81 e 94).
337
Cf. Mc 11,1-15,47.
338
Cf. Mc 4,1-34; 13,3-37.
339
Cf. Mc 14,51s.
340
O texto começa com a frase «certo jovem seguia-o envolvido num lençol sobre a nudez» (Mc 14,51);
mas para “seguir” é necessário que Jesus já estivesse em andamento, o que ainda não tinha sido dito; o
versículo anterior fala apenas da prisão de Jesus e da fuga dos discípulos (cf. Mc 14,50); depois de
narrada a fuga do jovem é que se diz que Jesus foi conduzido a casa do sumo-acerdote (cf. Mc 14,53);
além disso, Jesus é preso no Monte das Oliveiras o que parece longínquo para ir descalço e envolvido
num lençol; é mais plausível pensar que o próprio Marcos morasse perto da casa do sumo-sacerdote e
que, na altura em que introduziam o prisioneiro tivesse escutado o ruído e saísse de casa envolvido no
lençol em que dormia; era suspeito porque poderia esconder uma arma e por isso o tentaram prender, mas
o movimento rápido da fuga foi eficaz na cidade onde se podia enfiar na escuridão por uma das ruelas e
meter-se em casa. O incómodo da leitura do texto tal como ele se apresenta, justifica-se se Marcos não
quis retocar as palavras de Pedro.
341
Cf. Mc 16,9-20.
45
amplamente em Jo342, e de quem diz terem sido expulsos sete demónios, informação
também presente em Lc343; depois a aparição a dois discípulos enquanto caminhavam,
narrada com mais detalhe em Lc344; finalmente a aparição aos doze, que poderia
coincidir com aquilo que narra Jo mais desenvolvidamente 345. Notemos que as
referências do texto de Mc não são redundantes em relação às narrações paralelas de Jo
e Lc, uma vez que acrescentam pormenores desconhecidos: por exemplo, que os
discípulos estavam «tristes e chorosos»346, que o destino dos dois era uma “quinta” –
agrós (ἀγρός)347–, e que os doze se encontravam reclinados – anakeimémoi
(ἀνακειμένοι)348–, posição que indica estarem a tomar uma refeição; além disso, reforça
a ideia de não terem acreditado no testemunho dos que tinham visto Jesus
ressuscitado349, o que leva a pensar que a informação poderia não depender da leitura de
Lc ou de Jo.
Lucas dedicou-se a completar esse guião com os relatos que foi obtendo em
Jerusalém, e, que, de facto, parecem ter sido redigidos por cristãos da Judeia como
denotam a presença de hebraismos e uma visão não galilaica dos acontecimentos.
Repare-se que só em Lc o lago é chamado assim, “lago”, e não “mar da Galileia” 356, que
a cidade de Jerusalém tem uma importância fora do comum (o Evangelho começa e
termina no Templo357, o caminho para Jerusalém é referido profusamente 358 e o nome da
cidade também359). É também notável que em Lc Jesus tenha tanto convívio com
342
Cf. Jo 20,1s.11-18.
343
Cf. Lc 8,2.
344
Cf. Lc 24,13-32.
345
Cf. Jo 20,19-23.
346
Mc 16,10.
347
Mc 16,12.
348
Mc 16,14.
349
Cf. Mc 16,11.13s.
350
Cf. Mc 16,7.
351
Cf. Act 8,40; 21,8.
352
Act 21,8.
353
Cf. Act 6,5.
354
Cf. Act 8,5-25.
355
Cf. Act 8,26-40.
356
Cf. Lc 5,1.2; 8,22.23.33 vs Mt 4,18; 8,[Link]; 13,1; 14,25.26.29; 17,27; Mc 1,16; 2,13; 3,7;
4,1.39.41; 5,1.13.21; 6,47.48; 7,31; Jo 6,[Link].19.22.25; 21,1.7.
357
Cf. Lc 1,8; 24,53.
358
Cf. Lc 9,52s.57; 10,38; 13,22.33; 17,11.
359
31 vezes em Lc, contra 15 em Mt e 10 em Mc.
46
fariseus que o convidam para a mesa360, quando os fariseus estão presentes sobretudo na
Judeia, e, além disso, em duas ocasiões o narrador pareça enganar-se na geografia
colocando a Judeia na Galileia361.
Capta-se facilmente que este material não está bem colocado mas Lucas não
teria provavelmente outro modo de o fazer. Por exemplo, o episódio das duas irmãs,
Marta e Maria, se é verdade que viviam em Betânia como afirma Jo 371, deveria estar
situado já perto de Jerusalém e não a meio do caminho 372; a parábola do bom
360
Cf. Lc 7,36ss; 11,37ss; 13,31ss; 14,1ss.
361
Cf. Lc 4,44; 7,17.
362
Cf. Lc 10,1.
363
Cf. Lc 24,33.
364
Cf. Jo 6,66.
365
Cf. Jo 10,40s.
366
Cf. Act 6,7.
367
Cf. Act 21,17s.
368
Cf. H.E. 2,23,4.18.
369
Cf. Lc 9,51-18,14.
370
Cf. Lc 6,17-8,3.
371
Cf. Jo 11,1.
372
Cf. Lc 10,38-42.
47
samaritano373 pede um auditório que conheça a estrada onde se verificou o assalto, e a
pergunta do doutor da lei reforça uma localização em Jerusalém374; a parábola do rico e
de Lázaro375 poderia estar a referir-se ao amigo de Jesus que vivia em Betânia; também
o episódio de Zaqueu pode não se ter verificado depois da cura do cego 376, mas a
indicação geográfica de Jericó obrigou a colocá-lo aí377.
De qualquer modo, o que se pode entender é que Lucas não tem a liberdade de
Mateus para usar o guião como lhe apraz e que para o restante material procura respeitar
as fontes e obter um escrito minimamente congruente.
Percebe-se também porque é que Lucas não conheceu o milagre do mar: a sua
fonte não deve ter tido acesso a este prodígio de Jesus que só foi testemunhado pelos
doze, e que não devia constar no guião catequético, talvez por ser um episódio estranho.
A testemunha que narra o milagre dos pães parece só ter encontrado Jesus perto de
Betsaida, quando já tinha desembarcado e se encontrava a curar e a ensinar a multidão
na praia378.
373
Cf. Lc 10,29-37.
374
Cf. Lc 10,25-28.
375
Cf. Lc 16,19-31.
376
Cf. Lc 18,35-43.
377
Cf. Lc 19,1-10.
378
Cf. Lc 9,11.
379
Cf. Ashton, John, 43.53.136s; Chapa, Juan, 52.82s; García-Moreno, Juan, 159; Meier, Judío marginal,
I, 66.
380
Jo 20,30s.
381
Jo 21,24s.
48
A existência de duas conclusões e o facto de, na segunda, se mudar
abruptamente da terceira pessoa do singular – “este é” – para a primeira do plural –
“sabemos” –, fez hesitar os críticos. No entanto, estilisticamente o capítulo 21 de Jo não
é diferente dos outros nem há vestígios de que alguma vez o Evangelho tenha circulado
sem esta última parte382. O uso da terceira pessoa do singular para designar o narrador
surge noutro momento383, assim como a primeira pessoa do plural 384; note-se que na
primeira epístola atribuída ao mesmo João, a primeira pessoa do plural surge em todo o
primeiro capítulo, e o segundo começa com «meus filhos, escrevo-vos isto…»385. O
plural parece consistir numa certa comunhão com outros ou uma forma de tornar um
escrito autoritativo386.
João, tendo lido o que Lucas escrevera sobre o milagre dos pães, talvez se
tenha apercebido de que as fontes deste Evangelho eram discípulos da Judeia e resolveu
contar o que tinha acontecido com estes discípulos. De facto, tinham ficado
impressionados com o milagre e o seu entusiasmo até levou a querer entronizar Jesus
ali; ele, porém, afastou-se para o monte 387 e deixou que os doze regressassem a
Cafarnaum sem ele, indo depois ter com eles sobre as águas 388. Os discípulos da Judeia
passaram a noite no lugar do milagre esperando ver Jesus descer do monte na manhã
seguinte, mas nada disso aconteceu. Então foram de barco para Cafarnaum e lá, ao vê-
lo, interrogaram-no sobre o que se tinha passado de noite 389. Jesus em vez de lhes
satisfazer a curiosidade levou a conversa para um novo tema, o do “pão do céu” que era
a sua carne390, e eles debandaram391.
Conclusão
49
também é admissível que Mateus tenha escrito algumas recordações e que Marcos as
usasse, mas essas narrações não coincidem com o seu Evangelho. De resto, nenhum dos
Sinópticos foi produzido com a presença de outro; o que não anula que o tradutor do
texto aramaico de Mt se tenha servido de Mc e de Lc no seu trabalho.
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