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Carimbó e Hibridismo Cultural na Mídia

Este documento discute o carimbó como uma manifestação cultural híbrida na mídia paraense. Primeiramente, apresenta conceitos de cultura híbrida segundo estudiosos como Canclini, mostrando que culturas não são puras e sim misturam elementos tradicionais e modernos. Em seguida, descreve brevemente a história e origens do carimbó. Por fim, analisa matérias de jornais paraenses para mostrar como o carimbó é representado na mídia, evidenciando sua natureza híbrida em tempos de globalização.

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Carimbó e Hibridismo Cultural na Mídia

Este documento discute o carimbó como uma manifestação cultural híbrida na mídia paraense. Primeiramente, apresenta conceitos de cultura híbrida segundo estudiosos como Canclini, mostrando que culturas não são puras e sim misturam elementos tradicionais e modernos. Em seguida, descreve brevemente a história e origens do carimbó. Por fim, analisa matérias de jornais paraenses para mostrar como o carimbó é representado na mídia, evidenciando sua natureza híbrida em tempos de globalização.

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DO TRADICIONAL AO HIBRIDISMO CULTURAL: O CARIMBÓ NA MÍDIA

PARAENSE¹.

Camila Rodrigues Neiva UNAMA/PA


Maria Goretti Sousa Lameira UNAMA/PA

Resumo
Neste artigo nos propomos refletir sobre o hibridismo cultural na manifestação do
Carimbó e suas formas de representação na mídia paraense, acompanhando suas
transformações e adaptações nas discursões que perpassam da cultura tradicional a uma
cultura hibrida. A pesquisa pauta-se na revisão de literatura, do estudo teórico da Cultura
Hibrida de Canclini, pesquisas científicas sobre o Carimbó, bem como matérias do
webjornalismo, trazendo através destes uma reflexão sobre as dinâmicas comunicativas da
cultura na manifestação do Carimbó. Iniciaremos com um breve percurso teórico pelos
estudos de Cultura Híbrida, posteriormente compartilharemos um translado histórico e
conceitual do Carimbó para trilhar um diálogo sobre a hibridização dessa manifestação
cultural. No tópico dos resultados amparamo-nos em matérias publicadas no jornal do
Estado do Pará, o Diário do Pará Online (DOL), mostraremos como o Carimbó é veiculado
na mídia e de que forma ele vem sendo difundido, discutiremos então embasados na teoria
de cultura híbrida essa influência de mídia refletindo sobre esse Carimbó hibrido em tempos
de Globalização.
Palavras-chave: Carimbó, Cultura Hibrida, Mídia.

APRESENTAÇÃO
Ainda é muito enraizada a ideia de uma cultura tradicional e de uma cultura
moderna, essa razão dualista que nos constitui historicamente, distancia a possibilidade de
compreensão de que as culturas podem se apropriar do tradicional e moderno, ou seja, que
podem estar juntas, misturadas, em fusão. O discurso às vezes obcecado pela perda da
identidade e o resgate das raízes, imposto pela noção do regional/nacional, fragmentam,
hierarquizam e categorizam o conhecimento aprisionando-nos nesse lugar de
reconhecimento.
O Carimbó foi escolhido para a construção desse artigo, por ser nosso objetivo de
tese e de práxis educacional, optamos por compreender o processo de hibridização dessa
manifestação cultural popular, eleita enquanto identidade do paraense, hoje titulada como
Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Com o processo de Patrimonialização tal bem
cultural ganha maior visibilidade no país e é veiculado como capa de frente de muitos sites
turísticos e informativos da região norte. Empenhamo-nos em refletir a questão de como a

¹ “Trabalho apresentado no III Encontro de Antropologia Visual da América Amazônica, realizado


entre os dias 19 e 21 de setembro de 2018, Belém/PA”.
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mídia paraense veicula o Carimbó? E a partir dessa asserção analisar o Carimbó
“tradicional” e o “moderno” diante desse mundo globalizado/hibridizado.
A discursão das manifestações culturais, na compreensão de seu dinamismo e de
apropriação de mudanças globais, vem sendo mais acirradas em âmbitos acadêmicos. Não
queremos aqui indicar o que deixa ou não de ser carimbó, nas concepções de
tradicionalidade/folclórica em um forjamento de autêntico e sim o que não deixa de ser o
carimbó por conta de influências do moderno e de mundo globalizado.
Partimos de um diálogo com as Culturas Híbridas de Néstor Canclini (2013), que nos
proporcionou um conhecimento sobre os conceitos e processos de hibridação. Artigos
voltados para o estudo do Carimbó desde suas origens as atualidades e partindo dessas
descrições atribuímos uma analise das matérias publicadas no jornal do Estado do Pará, o
Diário do Pará (versão on-line), coletadas no período de 2010 a 2017 nas páginas intituladas:
entretenimento/cultura e notícias/cultura que traz o discurso da mídia sobre o Carimbó
interiorano e urbano (evidenciado enquanto característica de reconhecimento) e o que é
compartilhado com o mundo em tempos de Globalização.

1- CULTURA HÍBRIDA: APROXIMAÇÕES


Nosso inspirador, Cancline (2013), torna-se esclarecedor quando fala que os
estudos sobre hibridação modificam os modos de olhar e falar sobre identidade, cultura e as
tensões que cercam os pares: tradição/moderno, culto/profano, local/global,
autêntico/genérico etc. São diversos os estudos que se dedicam a hibridação e os processos
culturais, o nosso se dedicará ao Carimbó nessa proposta de um olhar e um falar sob a
perspectiva da cultura hibrida.
A ideia de “hibridez” ou “hibridismo” está ligada ao processo pelo qual as
manifestações artísticas e culturais mantém um diálogo entre seus códigos estéticos e se
tornariam mais conectadas entre si. Harvey (2003, p. 19) adota “a heterogeneidade e a
diferença como forças libertadoras do discurso cultural”. É a partir dessas representações
diferentes que o contexto cultural é reelaborado.
Apesar de hibrido/hibridez/hibridação serem conceitos originados da biologia é nas
“análises socioculturais” que ganha funcionalidade e poder interpretativo. O antropólogo
sueco Ulf Hannerz aponta que mestiçagem, miscigenação, sincretismo, transculturação e
outros, são termos similares à “hibridez” e que para além destes é necessário vê-la nos

¹ “Trabalho apresentado no III Encontro de Antropologia Visual da América Amazônica, realizado


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discursos de industrialização, massificação, globalização, simbolismo e nos conflitos que
por estes perpassam.
Para Canclini (2013) é essa variedade de campos e análise de objetos, que a noção
de hibridismo cultural atua e propõe o rompimento entre o que separa o tradicional do
moderno, o culto do popular e do massivo, ou seja, a hibridização consiste na mistura entre
diferentes culturas, por tanto uma heterogeneidade cultural atuante no cotidiano. “Parto de
uma primeira definição: entendo por hibridação processos socioculturais nos quais estruturas
ou práticas discretas, que existam de forma separada, se combinam para gerar novas
estruturas, objetos e práticas”. (CANCLINI, 2003, p. 19).
No Brasil são diversas as práticas do hibridismo e podem ser identificadas de várias
maneiras, como por exemplo: na música, na religião, nas danças, em festividades. Pensar em
uma identidade brasileira deve levar em consideração que o Brasil é uma sociedade híbrida e
multicultural. Falar de identidades significa despir-se de características fixas e congeladas de
uma sociedade e apropriar-se das narrativas dos processos híbridos.
Ser híbrido é ser global, visualizar um “local” universal, onde a cultural regional e a
cultura do mundo convivam com a existência do diálogo, havendo assim, a possibilidade de
minimizar a ideologia de homogeneização que concentra o cultural em um modelo
etnocêntrico, uniforme e improdutivo.
“Tanto os tradicionalistas quanto os modernizadores quiseram construir objetos
puros. Os primeiros imaginaram culturas nacionais e populares “autênticas”;
procuraram preserva-las da industrialização, da massificação urbana e das
influências estrangeiras. Os modernizadores conceberam uma arte pela arte, um
saber pelo saber, sem fronteiras territoriais, e confiaram à experimentação e à
inovação autônomas suas fantasias de progresso. As diferenças nesses campos
servirão para organizar os bens e as instituições”. (CANCLINI, 2013, p.21)

Compreender o processo de hibridação é compreender o processo das


desigualdades entre as culturas. Tanto em um translado histórico de sociedade, quanto nas
áreas de conhecimento essas cadeias de oposição são pontuadas em tradicional x moderno,
culto x popular e hegemônico x subalterno. Canclini (2013) esclarece existir três correntes
que caracteriza o popular e cada uma delas inerente a uma construção: a folclorista para os
museus, aos comunicólogos para os meios massivos e o os sociólogos políticos para o estado
e/ou partidos e movimentos de oposição, onde os diferentes processos atribuem diferentes
noções de sujeitos sociais e mesmo sendo por essas correntes estabelecidas divisões
conceituais entre elas, as mesmas se fundem e se entrelaçam.
“Através das diversas motivações de cada setor - afirmar sua identidade, marcar
uma definição politica nacional – popular ou a distinção de um gosto refinado com
o enraizamento tradicional- essa ampliação do mercado contribui para expandir o

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folclórico. Por discutíveis que pareçam certos usos comerciais de bens folclóricos,
é inegável que grande parte do crescimento e da difusão das culturas tradicionais
se deve à promoção das indústrias fonográficas, aos festivais de dança, às feiras
que incluem artesanato e, é claro, à sua divulgação pelos meios massivos”
(CANCLINI, 2013, p.217).

Segundo Canclini (2013) o Hibridismo Cultural são esses processos socioculturais


que mesmo existindo de formas separadas conseguem se combinar para produzir novas
vivências, estruturas e objetos. E por isso, entendemos que é impossível encontrar uma
cultura pura, sem qualquer tipo de alteração. Pode haver uma cultura com menos contato
social e outra com maior contato social, mas sem nenhum tipo de troca simbólica, não
existe. Bahia (2014) referenda que foi com a chegada do processo de globalização e o
auxilio da mídia, que a aproximação de diversas sociedades, com suas próprias culturas,
foram diminuindo e se misturando. “Criando uma hibridação cultural bem mais aparente do
que outrora” (p. 241).
Para Harvey (2003) ao abordar “aceleração” está se referindo ao processo de
globalização, que com a chegada da tecnologia, as experiências e os processos de
identificação culturais se tornaram mais visíveis e o consumo dos produtos estéticos
aumentaram, passando assim o ambiente cultural urbano por reestruturação ao dar espaço às
tecnologias eletrônicas. As culturas deixam de ser fixas e estáveis o acesso às tecnologias
proporcionam misturais o tempo todo, trazendo à tona novos instrumentos de produção e
novos espaços de leitura de textos que minimizam as distâncias e que as revelam
multiculturais.
A chegada dessa hipermídia, nos séculos XVIII e XIX, tem um papel importante na
distribuição desse sistema cultural. Algumas manifestações culturais populares reconhecidas
enquanto patrimônios demonstram que após o processo de reconhecimento sofrem
influências significativas em suas manifestações, uma dela é a veiculação desses bens
através da mídia (jornal, internet, revistas, blogs, sites, youtube). No Carimbó em especial
houve uma campanha articulada por grupos em relação a sua patrimonialização e
consequentemente sua maior visibilidade. Vale ressaltar que a hibridação dessa
manifestação acontece anterior às veiculações da mídia, mas com ela se disseminam as
informações com mais velocidade num alcance nacional e até (por assim dizer) mundial.

2- O CARIMBÓ: CULTURA TRADICIONAL X CULTURA MODERNA


Um símbolo da cultura nacional e reconhecida enquanto identidade paraense. O
Carimbó possui características definidoras de sua existência: a música e poesia, os

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instrumentos, a dança e a festa formando uma só manifestação com elementos indissociáveis
entre si. Segundo Figueiredo e Bogéa (2015, p. 82) também “envolve modos de viver
(manifestação cultural e movimento social) e modos de fazer (expressão artística e cadeia
produtiva)”. Cultura que tem destaque em todo o Estado do Pará, com maior evidência em
algumas regiões: Região do Salgado, Litoral Nordeste do Estado, Região Metropolitana de
Belém, na Região do Guamá e na Ilha do Marajó.
Sales e Sales (1969) acrescenta ao carimbó a característica da ludicidade,
reforçando ser a forma de “divertimento que mais anima as populações dessa região” p.259,
em que coaduna o lazer ao trabalho, o autor refere-se à manifestação do carimbó enquanto
brinquedo e a este sua conotação lúdica.
“O carimbó, trata-se de uma prática secular, imbuídas nas festas ligadas
principalmente as comemorações do intrudo e as celebrações festivo-religiosas que
homenageiam os santos, em destaque São Benedito (Cultuado por Irmandades de
cultura negra), que marca o cotidiano interiorano do estado do Pará. O carimbó se
consagra pela elaboração da música, canto e dança de conjuntos de carimbó
produzidos nos contextos de trabalho e lazer que ao longo do tempo o carimbó se
espraiou e atualmente é praticado em uma extensa área do Estado do Pará que vai
da fronteira com o Amapá até as proximidades do Estado do Maranhão”. (DOSSIÊ
DO CARIMBÓ, IPHAN, 2013 p. 15).

Teve inicio com os índios Tupinambás, onde tinha como característica uma dança
mais lenta e sem empolgação por parte dos participantes. Para Souza (2010) foi com a
chegada dos negros na região que o Carimbó ganhou novas características, tornou-se um
ritmo mais acelerado e com uma dança mais agitada e cheia de requebrados, ficando
conhecido como “limpa bancos”, pois ninguém conseguia ficar parado com esse ritmo.
O nome Carimbó teve origem do instrumento de percussão indígena chamado
“curimbó”, que é confeccionado de tronco de madeira e pele de animal, que Câmara
Cascudo (1972), interpretou que “curi” teria o significado de madeira e “imbo” de ôca.
Dando característica a esse instrumento que é utilizado para propagar o som, trazendo o
ritmo ao Carimbó. Sendo o curimbó, segundo Gabbay (2010, p. 2) “o principal artefato para
a realização dos encontros em terreiros, (...) caracteriza por sua função comunicacional e
vinculativa em torno dos rituais religiosos, festas populares e reuniões sociais”.
“Apresentado como resultado da união das influências culturais de índios, negros
e europeus (portugueses), o carimbó é comumente divulgado como uma das mais
significativas formas de expressão da identidade paraense e brasileira, já que estas
referências estariam presentes de forma integrada no canto, na música, na dança e
na formação instrumental”. (DOSSIÊ DO CARIMBÓ, IPHAN 2013 p.14)

Quanto à dança, Salles e Salles (1969), descreve como uma dança que contém
homens e mulheres em pares, os quais dançam soltos e durante o Carimbó, e durante a

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apresentação vão se formando “configurações coreográficas solistas”. Já Alfredo Oliveira
(2000) faz uma descrição minuciosa dos movimentos dos componentes:
“A dança é realizada em roda, os dançadores exibem volteios, requebros e estalam
dedos feito castanholas. A mulher executa passos graciosos, nas pontas dos pés
enquanto o homem faz curvaturas em torno da parceira e agachamento para
acompanhar um lenço caído no chão (...) a mulher tenta encobri-lo levantando a
barra da saia rodada num lance malicioso da dança”. (p. 356-357).

Cada Região apresenta sua particularidade na dança, como, por exemplo, a dança
em Soure, que é um munícipio da Ilha do Marajó, e em Marapanim e Maracanã, que são
municípios litorâneos, onde Figueiredo e Borgéa (2015, p. 83) descrevem respectivamente o
“chamado de Carimbó Pastoril” e o “Carimbó praieiro”. Cada vez mais sintetizando a
identidade Cultural do paraense. Esse “ser paraense” descrito por Figueiredo e Borgéa
(2015), mostra as diferentes formas que o Carimbó pode ser apresentado em cada Região. E
mesmo sendo diferenciadas, apresentam um sentimento em comum, que é o de pertença,
tornando-o assim parte de sua identidade. Em características mais gerais Fuscaldo (2015
p.96) contribui.
“Diversos elementos presentes no carimbó remetem ao modo de vida das
comunidades tradicionais amazônicas: a matéria-prima utilizada na fabricação de
seus instrumentos; os mitos por trás dos encantados presentes nas letras; a sua
relação com o catolicismo popular da região; a denúncia à devastação da floresta
amazônica; o conhecimento laboral adquirido na pesca e na lavoura; a íntima
relação com o mar e os ciclos da lua; o êxodo do lavrador e do pescador; a
expressão corporal dos pescadores do carimbó; que relembram as danças de roda
portuguesa; os rituais indígenas; os movimentos corporais que remetem a cultura
afrodescendente; a lembrança de um carimbó dezembrino feito para São Benedito;
as referências ao açaí, ao tacacá e ao tucupí; a importância do igarapé ao encontrar
o pau ocado que vai servir de tambor; a embaúba que faz a flauta; o fruto da
cabaça que serve tanto para o maracá quanto para a cuia de tacacá; a semente do
urucum que dá o som da maraca, inseparável do curimbó. Tudo isso é carimbó”.

A história do Carimbó foi definida por Souza (2011) em dois momentos: o primeiro
seria voltado pra manifestação folclórica local, onde é desenvolvido nos interiores com a
população daquele lugar, e o segundo momento voltado para o urbanismo, o reconhecimento
da indústria cultural local e regional da representatividade do Carimbó, a mudança dos
instrumentos de “pau e corda” para instrumentos modernos, tendendo cada vez mais para o
turismo. Fuscaldo (2015) define e classifica em duas expressões: “carimbó tradicional ou de
raiz”, das cidades interioranas, rurais, praieiras e o “carimbo moderno ou urbano” da capital
e nesses contextos dicotomizado a autora tece várias referências de diferenças e separações
entre um e outro.
Nas cidades interioranas, o Carimbó, era inserido nas práticas de lazer, na
religiosidade, nas manifestações artísticas, nas festas públicas e familiares. Foi a partir do

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século XVII que ele passou a se caracterizar como forma de expressão, dando origem a uma
manifestação singular, que passou a ser representada por grupos que se espalham por vários
municípios.
E a partir desse momento, o Carimbó passou a ser conhecido e visto pelo mundo
saindo de uma visão (apenas) regional, para uma visão global. E o que essa globalização
trouxe ao Carimbó? Trouxe uma conotação de pertencimento junto há muitos debates sobre
qual carimbó nos representa com ênfase ao que deixa ou não de ser legítimo.

2.1- CARIMBÓ: CULTURA HIBRIDA.


Foi no ano de 1970, que a música do Carimbó passou a interessar intelectuais e
folcloristas. Porém ainda não era uma música do consumo urbano, ou seja, das classes
médias e da indústria cultural. Era mais consumida pelos setores populares, interioranos e
suburbanos. Salles e Salles (1969, p.259) ressalta que era “o divertimento que mais anima as
populações dessa região”. O Carimbó estava presente em todas as festas, sendo elas
particulares ou em festejos regionais.
Em uma trajetória musical, o Mestre Verequete, foi o primeiro a gravar o Carimbó
e colocar pra tocar nos salões. Em 1971, ele criou o grupo “O Uirapuru do Amazonas”, que
se apresentavam em diversos locais, sendo o principal em Icoaraci. Costa (2011) traz o
relato do cantor Pinduca que é tido como um dos principais representantes da música do
Carimbó, onde o cantor fala sobre a tentativa de introduzir nos bailes populares nos anos de
1970 e que mesmo com algumas tentativas sem o resultado esperado, ele não desistiu e aos
poucos foi se popularizando.
Foi a partir da década de 1970 que o Carimbó chegou à cidade de Belém, sendo
dançado nos bares, em shows e casas de festas sociais. Diversos grupos e gravações de
vários LPs colocaram o Carimbó na televisão e nas rádios. Mas foi em 1990 que o Carimbó
chegou à mídia do mundo inteiro, através dos diversos conjuntos musicais que se formaram
se tornando tendência nos ritmos musicais brasileiros. “Cantores da terra” foi uma gravação
onde cantores consagrados regionais (Pinduca, Nilson Chaves e Fafá de Belém) apareceram
na mídia regional, divulgando o Carimbó como produto da indústria cultural.
Como esclarece o Iphan (2013) após a segunda metade do século XX, devido a um
maior processo de divulgação do carimbó como gênero musical, os grupos passam a
produzir novas coreografias e indumentárias, adereços e uniformes mais elaborados com
objetivo de atender as demandas dos centros urbanos da capital do Estado e de alguns

¹ “Trabalho apresentado no III Encontro de Antropologia Visual da América Amazônica, realizado


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municípios com potencial turístico. Do mesmo modo, elementos formais do carimbó
passaram cada vez mais a serem utilizados em projetos musicais de artistas contemporâneos
urbanos principalmente por seu forte apelo identitário.
Através do reconhecimento oficial de uma identidade, em 11 de setembro de 2014
o Carimbó foi registrado, por unanimidade pelo Conselho Consultivo do Patrimônio
Cultural, como Patrimônio Imaterial do Brasil. Um grupo de artistas, pesquisadores,
produtores culturais e a comunidade carimbozeira do Pará organizaram a “Campanha do
Carimbó”, que tinha como objetivo de acordo com Figueiredo e Bogéa (2015, p. 90)
“consolidar a valorização do carimbó, principalmente através das ações pós-registro, que
perpetuem, depois do registro do IPHAN, a constante legitimação dessa importante
expressão cultural”. Essa Campanha definiu o Carimbó como elemento importante para a
identidade paraense, motivo este de novas misturas com outros estilos musicais, e de
destaque na imprensa regional e nacional que passou a ganhar visibilidade em todo Brasil e
em outros países.
Bem antes do fervor da patrimonialização o “Carimbó tradicional” sofre diversas
alterações e adaptações, a mais perceptível foi que o curimbó não está mais solitário,
diversos instrumentos ingressaram para compor o ritmo, passando a ser um “Carimbó
moderno”. Oliveira (2016, p. 6) fala que “não se trata de um carimbó autêntico, mas sim um
carimbó diferente, adaptado, simulado e híbrido”. Gabbay (2010) diz que mesmo com todo
esse crescimento ele ainda consegue manter-se fiel a suas raízes. No discurso dos autores, é
forte a tendência ao poder de representação e identidade apontadas à questão do tradicional
em detrimento às características modernas.
“[...] diante do popular urbano é negar pura e simplesmente sua existência cultural.
Trata-se de um mito tão forte, que falar em popular automaticamente evoca o rural,
o camponês. E se acrescentamos a essa visão a concepção fatalista com que hoje se
encara a homogeneização promovida pela indústria cultural, dizer urbano é falar o
antônimo do popular”. (MARTÍN-BARBERO, 1997, p.265)

Quando o Carimbó é objeto de um acontecimento folclórico ou regional, pende à


representação tradicionalista, e quando é objeto de um acontecimento com viés mais
contemporâneo ou global, pende à modernidade. (GABBAY, 2010, p.14). Canclini (2013)
esclarece que os processos incessantes e variados de hibridação levam a relativizar a noção
de identidade, e quando se chega a defini-la comumente desvinculam-se as práticas da
história de misturas em que se conceberam.
Aborda-se o turismo como um aspecto que transformou o Carimbó em um trabalho,
como ressalta Figueiredo e Bogéa (2015, p. 88) “assim, o turismo transforma o brincante em

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componente de grupo parafolclórico, isto é, em trabalhador, o que é um primeiro movimento
redutor”. Esse movimento redutor se dá pelo fato do Carimbó, agora interpretado como
dança típica do paraense, deixa as festas da comunidade e passa facilmente a ser encontrado
nos salões dos hotéis, pontos turísticos e festivais programados pelo governo.
Para o Carimbó ocupar um papel considerável na formação da opinião pública, é
necessário que sua representação social e cultural esteja vinculada aos meios de
comunicação. E para que isso aconteça uma aculturação é necessária, para que outros grupos
se familiarizem e se agradem com o ritmo. Para Ortriz (1990, p. 12) essa aculturação
significa “um conjunto de fenômeno que resulta do contato direto e contínuo entre grupos de
culturas diferentes, o que acarreta mudanças subsequentes nos tipos culturais de cada
grupo”.

3- O CARIMBÓ NA MIDIA PARAENSE


Essa pesquisa contou com textos coletados no jornal do Estado do Pará, o Diário do
Pará (versão on-line- DOL), em matérias publicadas no período de 2010 a 2017, nas páginas
intituladas: entretenimento/cultura e notícias/cultura e se distribuem em matérias de
informação, divulgação e esclarecimentos onde seu maior intuito nas reportagens foi em
colocar o carimbó na mídia em “valorização a cultura paraense” (frase presente na maioria
dos textos).
Na reportagem do Dol (2010) em uma matéria intitulada “Flauta do carimbó ganha
novo fôlego” divulgado no “Fala Memória”, uma iniciativa do IPHAN em parceria com o
IAP (Instituto de Artes do Pará) no intuito do resgate da confecção e o retorno da utilização
dessas flautas artesanais pelos grupos tradicionais de carimbó, uma atividade que compõe
um estudo do Iphan e que serviu de apoio a Campanha do Carimbó enquanto patrimônio
nacional. Ainda em 2010 com o título “Santarém Novo no Ritmo do Carimbó” além da
divulgação de um evento cultural do lugar, acontece o VI Encontro de Mestres do Carimbó:
“A ideia é levantar discursões sobre o recém-criado Plano Nacional de Culturas
Populares, a lei Griô Nacional e a Lei dos Tesouros Humanos do Pará, propostas
de políticas públicas que podem contribuir para a valorização de mestres e artistas
populares, além de assegurar à preservação e transmissão de cultura tradicional as
novas gerações”. (DOL, 19/12/2010)

É válido ressaltar que Santarém Novo foi um percursor da campanha que gerou um
movimento cultural e social criado desde 2005 que vem mobilizando desde então uma
significativa parcela da população em prol da patrimonialização do carimbó, onde as mídias
tem uma parcela contributiva para o grande alcance desses conteúdos. Para o ganho de

¹ “Trabalho apresentado no III Encontro de Antropologia Visual da América Amazônica, realizado


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visibilidade se faz necessário à apropriação dos veículos de massificação, Martín-Barbero
(1997, p.310) corrobora quando esclarece:
“O massivo, nesta sociedade, não e um mecanismo isolável, ou um aspecto, ou
uma nova forma de sociabilidade. São de massa o sistema educativo, as formas de
representação e participação política, a organização das praticas religiosas, os
modelos de consumo e os de uso de espaço. Assim, pensar o popular a partir do
massivo não significa, ao menos não automaticamente, alienação e manipulação, e
sim novas condições de existência e luta, um novo modo de funcionamento da
hegemonia”.

Quando falamos em personagens que se fazem visível e mobilizam o público, o


cantor Pinduca é um clássico exemplo, está presente em vários títulos de matérias e quando
não esta nos títulos está nos textos, levando a denominação de “Rei do Carimbó”. Em
divulgação da “Quintarrada”, um evento que antecede a festa do Círio e que reúne vários
artistas e ritmos locais divulga-se o cantor Pinduca como “um dos grandes símbolos da
cultura paraense mundo afora”, identificando o Pará em qualquer lugar do planeta, Pinduca é
um dos pioneiros nessa área (Dol, 08/10/2015). Mostrando o Pará através de um carimbó
hibrido o cantor sempre levou seu estado/região a outros países. “Em uma entrevista à
agência Pará, ele disse estar muito feliz com o reconhecimento nacional do carimbó, mas
defendeu que o ritmo já é consagrado nacional e internacionalmente” e acrescenta “Carimbó
não é mais musica regional, ela é internacional. Faço shows em toda América Latina estive
recentemente na França e sei o quanto esse ritmo contagia o público” (Pinduca, Dol,
12/09/2014). O cantor apenas quis dizer que o carimbó já era ressonante (reconhecido) ao
povo paraense (e no mundo), mas enquanto Patrimônio Cultural Nacional se oficializou o
que já era oficial para o nortista.
Em 2011 Dona Onete entra para as matérias do DOL e não sai mais trazendo a
característica “ do carimbó solto, ou chamegado, e também o carimbó praieiro que são os
dois estilos preferidos desta cantora e compositora de Cachoeira do Arari, na Ilha do
Marajó” , “ aos 71 anos, Dona Onete colhe frutos de uma vida inteira dedicada à música”,
em mesma matéria é ressaltado que a banda que acompanha a cantora “tem uma pegada
moderna ,mas que Dona Onete tem a tradição do cancioneiro do Pará”.(Dol, 11/03/2011).
“Se a cultura popular se moderniza, como de fato ocorre, isso é para os grupos
hegemônicos uma confirmação de que seu tradicionalismo não tem saída; para os
defensores das causas populares torna-se outra evidência da forma como a
dominação os impede de serem eles mesmos” (CANCLINI, 2013, p.206)

A causa popular, numa visão conservadorista “é sempre uma tentativa de subtrair o


popular à reorganização massiva” (p.213), no entanto não conseguem conceber uma cultura
hibrida em que o tradicional possa se favorecer da modernidade com sua veiculação em

¹ “Trabalho apresentado no III Encontro de Antropologia Visual da América Amazônica, realizado


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mídia e exportação ao mundo, e o moderno, por conseguinte obrigado a se limitar apenas
aos aparatos urbanos em setores sociais e econômicos, isso resultaria em isolamento das
culturas e fortalecimento de uma narrativa folclórica de preservação e que se transformou
em um discurso (quase que automático) sobre “resgate”.
O que ocorrem com essas culturas populares quando a sociedade se massifica?
Marapanim é um Município Paraense que pode mostrar um pouco disso, esclarecendo que
os territórios do Carimbó são amplos e que as linguagens são diversas, ou seja, em cada
lugar: interferências, transformações, tensões, negociações e formas de organização se
apresentam de maneiras diferentes.
O Festival de Marapanim que está em sua 12ª Edição, possui uma divulgação ampla
em diversos meios massivos: facebook, youtube, mídias de rádio e tv, jornais on-line (G1,
DOL, ORM), blogs, e provavelmente se reformula desde sua concepção para manter vivo o
seu carimbó. Sobre o evento o Diário esclarece ser de programação tradicional da cidade em
que “o objetivo é divulgar talentos, fortalecer a cultura paraense e promover o carimbó,
símbolo cultural de nosso estado” (Dol, 18/01/2012), sua regulamentação contempla o
Carimbó de Raiz (delimitando o tradicional) e o Carimbó Livre (concebendo as misturas).
“Com o Título Mestre Lucindo, em homenagem a um dos principais compositores
e responsáveis pela difusão do gênero, a seleção será dividida em duas
modalidades: o Carimbó de Raiz, que conta com a participação de grupos locais e
compositores que exaltam a formação instrumental tradicional, e a modalidade
Carimbó Livre, que, como o nome já ressalta constitui uma leitura livre do gênero,
a partir da criatividade de compositores vindos de diferentes partes do Pará. O
concurso também engloba também a mostra coreográfica dos grupos de carimbó
de Marapanim, o festival gastronômico, a feira de Turismo e o concurso da mais
bela sereia”. (DOL, 18/10/2011)

Aliado a este também está à promoção turística da Cidade, no bojo das reportagens
vem informações das praias, hotéis, restaurantes e uma programação que contempla a
divulgação do tradicional sem eliminar características modernas que trará o público ao
prestígio ao evento, consequentemente movimentação turística e econômica. Bom ou ruim?
As respostas estão com as pessoas da cidade de Marapanim. É sabido que as opiniões serão
diversas, mas que vai pender para um determinado discurso que só poderemos saber se
formos a campo e como defende Geertz, se propor a uma pesquisa “densa”.
Produções de filmes são divulgadas (documentários, longa metragem), “Pau de
corda: histórias do carimbó” com direção de Robson Fonseca teve suas gravações em
Belém, Santarém Novo, Curuça e Marapanim coletam depoimentos com a proposta de
mostrar “experiências e visões alternativas do carimbó” Robson Fonseca, Dol, 2012. Nesse
momento apesar de sabermos existir uma categorização e/ou denominações diferenciadas as

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entre os dias 19 e 21 de setembro de 2018, Belém/PA”.
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manifestações da cidade e do interior Robson nos diz que a diversidade no carimbó e tão rica
e nos propôs a conhecê-la.
“O documentário não busca buscar história antropológica do carimbó, mas sim,
mostra história de uma gente que mantém acessa a chama dessa cultura tão rica e
singular na sua diversidade”.
“Um dos filmetes apresenta o “carimbó de exportação em um passeio turístico
pela orla de Belém, outro evidencia o carimbó como fonte de pesquisa para outras
linguagens artísticas, outro aborda a pesquisa do inventário do carimbó, e por ai
vai de acordo com o contexto em que estão inseridos” (ROBSON FONSECA,
DOl, 23/01/2012)

Outra produção divulgada foi à apresentação do primeiro longa-metragem que vai


abordar o Carimbó regional com título: “O Caboclo Carimbó”. Ele foi exibido em um ponto
turístico de Belém, a Estação das Docas, e em mais cinco municípios. Com o objetivo de
apresentar o Carimbó e suas histórias, “mostrar os preparativos de uma festa tradicional de
carimbó, tanto do ponto de vista de seus organizadores como dos moradores da região, que
aguardam ansiosamente por ela” (Dol, 04/07/2014). A intensão do diretor Fernando Rassy é
levar esse longa-metragem para ser visto na Alemanha, Espanha e Portugal. Com isso
podemos observar o Carimbó saindo dos muros regionais, buscando uma expansão, novos
adeptos ao conhecimento de “nosso” ritmo até então divulgado nas músicas e dança e que há
algum tempo já não é mais só “nosso”.
No documentário que fala sobre o carimbó de Maiandeua de título “Mestres
Praianos do Carimbó de Maiandeua”, chega homenageando o Mestre Roque Santeiro, “ele
era um dos principais mestres de Maiandeua e ainda assim muitos só o conhecerão depois do
filme, para você ver qual o valor do documentário que a gente fez”. “Tentamos ao longo
desse processo entender o que é um mestre no carimbó, e entendemos ser aquele que
não só detém o conhecimento da música como o repassa adiante”. (Pierre Azevedo,
Dol, 14/04/2013). Chico Braga um dos homenageados do documentário falece dois anos
após a reportagem anterior, o texto informa que o Mestre foi reconhecido tardiamente,
gravou seu primeiro CD em 2011 sob insistência de longos três anos. Chermont (produtor)
“[...] considerava Chico um artista “marginal” (Dol, 08/09/2015), mas que mesmo na
resistência em mostrar para o mundo seu trabalho deixou registros importantes, sendo
referência na região influenciando gerações.
Nos anos de 2010 a 2015 o tema a Campanha do “Carimbó como Patrimônio
Cultural Brasileiro”, bem como o acompanhamento do processo de patrimonialização são
matérias recorrentes, aquecem e alimentam as mídias não só nas páginas do Dol, mas em
diversos meios de divulgação regional e nacional. Declarado Patrimônio Cultural e Artístico

¹ “Trabalho apresentado no III Encontro de Antropologia Visual da América Amazônica, realizado


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do Estado desde 2009 (Lei n 7.345), passou a integrar aos calendários artístico, culturais e
turísticos. O Município de Marapanim intitulou no mesmo ano, o dia 5 de dezembro como
Dia Municipal do Carimbó. (Dol, 24/10/2013).
Em 2014 Dol publica, “Mestres reivindicam reconhecimento do carimbó”, onde
alerta Issac Loureiro coordenador da Campanha do carimbó:
“Na divulgação do dossiê, a mídia paraense deu ênfase em um carimbó elitizado,
usado como produto de produção turística ou como fruto de uma indústria cultural
local. Nós gostaríamos de enfatizar a dimensão comunitária e popular do
carimbó”.
A matéria se dedica então ao esclarecimento de sua origem, dá ênfase às
classificações de carimbó e estabelece as distinções de um carimbó autêntico (tradicional) e
um carimbó pop- industrializado (urbano).
No ano de 2014, ano da oficialização do Carimbó enquanto Patrimônio Cultural do
Brasil, as publicações no DOL viram os holofotes para essa temática, os debates fervem em
relação ao viés do carimbó raiz (tradicional) e o viés do carimbó pop (moderno), mas de um
fator existe uma concordância, tanto dos que defendem um ou outro viés, que é a bandeira
da patrimonialização do Carimbó.
E quando se pergunta que carimbó nos representa? Recorremos à própria história de
quase 200 anos de carimbó, que já nasceu de uma mistura e se difundiu em mais de 39
municípios e até no ano de 2013 eram 160 grupos de carimbó reconhecidos, tamanha é a
dimensão de significados, formas de fazer e ser, e de se organizar que tem cada um deles.
Então o carimbó que nos representa é aquele que reconhecemos seja no tradicional ou no
moderno, de raiz ou urbano, ou como essas categorizações funcionam para cada
entendimento. Mas que em fato o carimbó é uma cultura híbrida desde suas origens.
Essas misturas do carimbó com outros ritmos do Brasil e de outros países já eram
presentes desde 1970, mas potencializa-se uma maior divulgação e visualização após sua
patrimonialização. “Do tango ao carimbó” divulga um especial na capital Buenos Aires e
Belém do Pará de mistura de ritmos e culturas (Dol, 28/09/2011). “Batida paraense faz
sucesso na pista” DJs que de todo canto do Brasil que se inspiram nas carimbó, siriá e
retumbão para a descoberta de novas batidas.(Dol, 28,08,2016). “Virada Cultural movimenta
São Paulo com presença Paraense”, com a presença especial do cantor Pinduca. (Dol,
20/05/2016)
São inúmeras as matérias que divulgam o Carimbó nas casas de festas de Belém,
nas tradicionais “baladas” dos jovens, “o grupo de Carimbó Os Safos da Capital, que faz um
som com curimbós, maracás e um repertório que mistura o cancioneiro popular a artistas

¹ “Trabalho apresentado no III Encontro de Antropologia Visual da América Amazônica, realizado


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como Dona Onete e Pinduca em uma grande roda”. O grupo Na Cuíra Pra Dançar mistura o
ritmo do Carimbó com o xote, baião, toada de boi e bregas marcantes dos anos 80. Na
reportagem do Diário do Pará (2016) o grupo relata sobre o surgimento desse desejo em
trabalhar com esse estilo de música, que foi “reverenciar os mestres que compõem músicas
regionais e de fazer uma proposta mais divertida musicalmente”.
Daniela Mercury também fez parte dessa mistura. “Banzeiro” é uma música
conhecida dos paraenses que faz parte do repertório do carimbó chamegado de Dona Onete,
conhecida como a musa do carimbó, presenteia a cantora com esse ritmo. Em entrevista
Daniela disse que “o talento de Dona Onete, como artista e compositora merece muitas
gravações”. E foi assim que ela resolveu juntar Belém e a Bahia nesse ritmo. São
reportagens que mostram o crescimento de um Carimbó que se faz híbrido mesmo sendo
tradicional ou moderno e cheio de modificações voltadas para essa era da globalização, que
pode compactuar com o Carimbó em suas diversas formas de representatividade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo buscamos compreender que a cultura singular não existe, logo não
existe um Carimbó único. O “tradicional” ou o “moderno”, todos de alguma forma são
alterados pela sociedade onde são inseridos. É a atualização da cultura e sua hibridação, com
o objeto de garantir a própria sobrevivência.
As representações do Carimbó, nos textos do jornal local analisados, apresentam
diferença. Quando o Carimbó é um objeto de um acontecimento folclórico ou regional,
apoia-se à representação tradicionalista, e quando é objeto de um acontecimento com viés
mais contemporâneo ou global, apoia-se à modernidade.
Essa expansão comunicacional proporciona as pessoas cada vez mais experiências
culturais, que costumavam ser próprios de determinada localidade. Como diz Canclini
(2003, p. 190) que mesmo “aqueles que não compartilham constantemente este território,
nem o habitam, nem têm, portanto, os mesmo objetos e símbolos, os mesmos rituais e
costumes, são os outros, os diferentes. Os que têm outro cenário e uma peça diferente para
apresentar”.
Colocando na prática do Carimbó, são aquelas pessoas que não são paraenses, mas
se identificam de alguma forma com esse ritmo. Mesmo não conhecendo o “tradicional”,
esse ritmo musical e dançado, apresentado pela mídia e levado para outros lugares, não
deixa de ser Carimbó. Com isso, apresentamos essa grande sistematização desse objeto

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estético que é resultado do hibridismo cultural, onde mostra as experiências não serem mais
comuns e determinadas daquela região.
Autores como Sales e Sales (1969) denunciavam em sua pesquisa a “mudança”, a
“desculturação” e a “integração” enquanto características poderiam gerar uma possível
desintegração das tradições Brasil afora, em autores mais atuais como Fuscaldo (2015) que
também aborda o moderno como degradante, mas que mostra resultados em sua pesquisa
(em Algodoal na Ilha de Maiandeua) que o que se evidencia como fator de aniquilação do
carimbó não é a industrialização ou massificação e sim invasão das igrejas (petencostais e
neopetencostais) e sua relação conflitiva e de condenação do carimbó.
O Carimbó tradicional ou de “raiz” perdura por mais de 200 anos em história, sob
ameaças reais (desde a proibição do estado em 1880 à proibição de igrejas atual) as ameaças
de aniquilamento pela modernização, que apesar de terem sido vista dessa forma por
historiadores, folclóricos, antropólogos, não passaram de uma retórica construída em função
de estabelecer as delimitações de nação. O tradicional, como assim é estabelecido, se
dinamiza, se re-constrói, se re-conceitua , sobrevive e perdura.
Sabemos existir os contrapontos e conflitos inerentes à ação da modernidade na
cultura tradicional, o que não podemos mais afirmar e/ou sustentar é que a modernização
provoca ou provocaria o desaparecimento dessas culturas. A situação conflitos e/ou
problemática não se localiza em conservar ou resgatar tradições, mas sim, trata-se de como
estão se transformando e como reagem as forças da modernidade. CANCLINI, 2013.
Os espaços das manifestações do carimbó são diversos e em muitos deles como
mostram as reportagens coletadas coadunam desse carimbó tradicional com o moderno e
vice-versa, delimitar até que ponto pode ir cada um deles seria controlar o poder criativo,
dinâmico e transformador da cultura. Sentir-se representado pelo carimbó de Marapanim ou
da Ilha de Maiandeua ou pelo Carimbó difundido por Pinduca, Lia Shopia (de pagada mais
rápida e inovações de arranjos) não nos fará sentir menos ou mais paraenses, longe de trazer
aqui uma reflexão romântica, mas queremos dizer que talvez o respeito à diversidade de
culturas seja a mensagem mais adequada e que o povo paraense pode se sentir representado
e com orgulho de uma cultura impar que já atravessou as fronteiras do regional para o
mundo.

¹ “Trabalho apresentado no III Encontro de Antropologia Visual da América Amazônica, realizado


entre os dias 19 e 21 de setembro de 2018, Belém/PA”.
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