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Estudos Socioantropológicos

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ESTUDOS

SOCIOANTROPOLÓGICOS
Profa. Dra. Gisele Silva Lira de Resende

ESTUDOS
SOCIOANTROPOLÓGICOS

Barra do Garças - MT
UniCathedral
2018
Autora
Profa. Dra. Gisele Silva Lira de Resende

Leitura Crítica e Sugestões


Michele Salete Reis

Revisão Gramatical do Texto


Roziner Aparecida Guimarães Gonçalves

Projeto Gráfico
Atila Cezar Rodrigues Lima e Coelho
Georgya Politowski Teixeira
Matheus Antônio dos Santos Abreu

BARRA DO GARÇAS - MT
JANEIRO 2018
Copyright © by Faculdade Cathedral, 2018
Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada,
armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer
sem autorização prévia do(s) autor(es).

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) – Catalogação na Fonte


Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária Roberta M. M. Caetano – CRB-1/2914

R433e Resende, Gisele Silva Lira de


Estudos socioantropológicos / Gisele Silva Lira de Resende.
Barra do Garças: Faculdade Cathedral, 2018.

140 p. ; il. ; color.


ISBN: 978-85-54298-04-3

Conteúdo de disciplina EaD do Núcleo de Ensino a Distância


(NEaD) da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais Aplicadas do
Araguaia – Faculdade Cathedral.

1. Sociologia. 2. Antropologia. 3. Indivíduo. 4. Sociedade. I. Título.


II. Faculdade Cathedral.

CDU 316:572.02

UniCathedral – Centro Universitário


Av. Antônio Francisco Cortes, 2501
Cidade Universitária - Barra do Garças / MT
[Link]
SUMÁRIO

UNIDADE VI..................................................................................................................................... 11
As Minorias e os Movimentos Sociais ................................................................................................... 11
A Pluralidade Cultural brasileira ......................................................................................................... 13
Problemas contemporâneos .................................................................................................................. 16
A luta das mulheres pela igualdade de gênero .................................................................................. 16
Falando um pouco sobre a violência doméstica e familiar contra a mulher ..................................... 18
Problemas contemporâneos .................................................................................................................. 20
Violência contra crianças e adolescentes........................................................................................... 20
Problemas contemporâneos - Discriminação e Preconceito étnico-Racial........................................ 23

7
8
9
Autor(a) da Unidade
Profa. Dra. Gisele Silva Lira de Resende

Ao final da unidade, esperamos que você seja capaz de:

 Compreender a importância dos movimentos sociais para a conquista de direitos da população


que está a margem social;
 Reconhecer a riqueza da pluralidade cultural brasileira e sua importância para a manutenção da
harmonia social;
 Refletir sobre os prejuízos que a violência contra mulher, crianças e adolescentes trazem ao
corpo social;
 Problematizar a violência simbólica presente nas questões étnico-raciais, buscando práticas
cotidianas de alteridade, com vistas a suprimir qualquer forma de discriminação e preconceito.

10
UNIDADEVI

AS MINORIAS E OS
MOVIMENTOS SOCIAIS

Em unidades passadas foram explanadas questões que envolvem problemas de ordem social, política,
racial, econômica, cultural, agravadas em decorrência da própria evolução da sociedade.
Tais problemas são o mote dos movimentos sociais existentes há séculos, envolvem situações de
conflito que variam de intensidade e se fazem presentes em toda e qualquer sociedade. Para Ferreira
(2010),

Ao se realizar uma retrospectiva do que foi estudado, constata-se que as minorias, marcadas pelas
injustiças sociais, são aquelas sempre predispostas a exigirem que seus direitos sejam respeitados dentro
de uma sociedade e, na maioria das vezes, promovem transformações consistentes. Geralmente, são
“grupos sociais que por apresentarem características que o distinguem do todo social e que por isso sofrem
manifestações contrárias do restante dos indivíduos: [...]: aqueles que apresentam algum tipo de
deficiência, diferenças raciais ou étnicas, de gênero, de origem regional, religiosa etc.” (DIAS, 2014, p.247).
Como características, esses grupos apresentam vulnerabilidade, em relação a sua identidade cultural,
gênero etc., e, em alguns casos, lutam pelo reconhecimento legal de sua existência. Obviamente, tais
condições se apresentam de modo mais acentuado ou não, dependendo do país em que o grupo se
encontra.

11
Como exemplo, no Brasil, é possível citar a população negra, que nem sempre tem suas
tradições culturais e religiosas respeitadas e, por isso, sofrem preconceitos.
As mulheres, mesmo com maior nível de escolaridade, em grande parte, possuem
remuneração inferior à do homem.
Casais não heterossexuais, mesmo amparados por legislação específica, sofrem inúmeras
discriminações.

O que esses grupos possuem em comum é a luta contra a discriminação, preconceito e intolerância, e
pela legitimidade de seus direitos. Em uma sociedade democrática, tais adversidades, pela violência que
exprimem, causam preocupação e indignação, haja vista que é imprescindível que a liberdade e igualdade
sejam uma constante. Nessa acepção, os movimentos sociais são de importância vital, pois somam-se os
esforços de quem se sente oprimido e compartilha das mesmas insatisfações.

Um movimento social emergente pode fazer surgir uma linguagem especial ou novas palavras
para termos/expressões familiares. Nos últimos anos, os movimentos sociais vêm sendo
responsáveis por novos termos/expressões de auto-referência, como negros e afro-
americanos (para substituir crioulos), [...] e pessoas portadoras de deficiências (para substituir
deficientes) (SCHAEFER, 2014, p. 431).

Dessa forma, com organização, liderança e persistência, é possível haver transformação social, formação
de opinião pública, quebra da manutenção do poder dominante e, por fim, melhor qualidade de vida e
necessidades atendidas.
Na contemporaneidade, os movimentos sociais, não só de minorias, mas também, de trabalhadores,
religiosos, ecologistas, intelectuais, políticos, dentre outros tantos grupos, conseguem expor ao mundo
ideologias (positivas e negativas), de toda ordem,
principalmente, tendo a tecnologia que propaga as
notícias para lugares longínquos, pois “[...] com a
globalização e a informatização da sociedade, os
movimentos sociais em muitos países, inclusive no
Brasil e em outros países da América Latina, tenderam
a se diversificar e se complexificar” (SCHERER-
WARREN, 2006, p.109)
No Brasil, embora já existam há séculos, agora que
os movimentos sociais vêm ganhando força. Alguns
movimentos sociais, a partir da década de 70,
provocaram tantas transformações que seus reflexos

12
impactam a sociedade até os dias de hoje, como, por exemplo, a conquista da democracia, a partir do
movimento Diretas Já; a conquista dos direitos sociais, previstos, inclusive na Constituição de 1988; e as
políticas públicas que, hoje, retiram parte da população da margem social. Além dessas organizações,
outros grupos, por meio de mobilização social, também ganharam reconhecimento e espaço na sociedade,
como é o caso dos indígenas, que tiveram sua cultura e direitos reconhecidos, da mesma forma, o
movimento negro, movimento das mulheres, dentre outros de igual importância.
Tais movimentos são de suma importância na sociedade, para que haja um planejamento público mais
includente, para que se possa criar políticas públicas que garantam oportunidades para todos se
desenvolverem, em mesmo nível de igualdade, pois “políticas que favoreçam a inclusão e a participação de
todos os cidadãos garantem a coesão social, a vitalidade da sociedade civil e a paz” (UNESCO, 2001).
Nessa perspectiva, há de se desmistificar a ideia de que os que fazem parte de movimentos sociais são
pessoas ociosas, desordeiras que querem chamar a atenção para fatos não importantes; há de se remover
o pensamento etnocentrista, uma vez que a

Em um mundo globalizado, em que a mídia é um instrumento de força, é primordial ter um olhar mais
crítico, despido de preconceitos acerca das questões, dos ideais e dos valores que movem os grupos, de
diferentes movimentos sociais, com vistas a “desuniformizar” o pensamento, buscar a equidade, e
aproximar o que está escrito da realidade; vislumbram-se, assim, a transformação, a participação cidadã e o
empoderamento das minorias.

A PLURALIDADE CULTURAL BRASILEIRA


O Brasil, por suas dimensões continentais, apresenta uma rica diversidade cultural; termo de grande
amplitude conceitual, que, vez ou outra, provoca situações polêmicas. A multiculturalidade na população
brasileira, tem-se destacado na mídia mundial e, a cada tempo, se solidifica, tentando se desvencilhar de
conceitos pré-concebidos.
Mas, se, no Brasil, a pluralidade cultural é predominante, porque ainda existe tanta discriminação e
intolerância?
Nas primeiras unidades, foi discutido a importância da cultura para um povo, e como ela compõe a sua
identidade. Nesse sentido, cultura deve ser entendida como o

Obviamente que as práticas culturais, os hábitos variam de uma cultura para outra e devem ser
compreendidos a partir desse elemento, sem nenhum pré-julgamento. Por exemplo, em alguns países

13
orientais, na Índia, a vaca é um animal sagrado, enquanto que, no Brasil, assim como em outros países, é
um animal que fornece alimento.
Um ponto a ser sublinhado é que à medida que os valores democráticos estão presentes mais
particularidades culturais emergem e, portanto, devem ser respeitadas. Gomes (2008) salienta que

Pensando sob esse prisma, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura), proclamou a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural
Declaração Universal Sobre A Diversidade Cultural
[Link]

O Brasil, com uma população maior do que duzentos milhões de habitantes, de acordo com o IBGD de
2017, é composto por pessoas de diferentes raças, descendências, gêneros orientações sexuais, com
diferentes hábitos, costumes e crenças que, de uma forma ou de outra, relacionam-se, seja no trabalho, na
escola, no círculo de amigos, nas instituições religiosas etc. Enfim, tem-se aqui uma sociedade com múltipla
formação cultural étnica e social, que está muito longe de se vincular, apenas, aos seus colonizadores, os
portugueses. De acordo com a Declaração Universal Sobre a Diversidade Cultural e Plano de Ação – 2001,
art. 2, da UNESCO,

A população brasileira incorporou, ao longo dos séculos, hábitos e costumes de diferentes povos. Você
já parou para pensar: Por que a feijoada e a caipirinha pertencem à culinária brasileira? De onde vem o
hábito de tomar banho todos os dias? Por que a capoeira e o samba fazem parte da identidade nacional?
Todos esses hábitos estão cristalizados na cultura brasileira e são considerados bens culturais,
reconhecidos mundialmente.

14
Atualmente, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artísticos Nacionais (IPHAN) catalogou 38
bens culturais, e cinco deles foram declarados Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade
pela UNESCO.
Mostra interativa que apresenta Patrimônio Imaterial Brasileiro chega a Brasília
[Link]
patrimonio-imaterial-brasileiro-chega-a-brasilia

Diante disso, não se pode conceber que as diferenças, inerentes a cada grupo, sejam elemento que
promova problemas sociais, que são históricos, e se apresentam de maneira perversa.
Tais problemas, quando não colocam o homem em uma condição sub-humana e escravizada, negam
bens sociais importantes e fundamentais como saúde, educação, moradia, igualdade salarial e de
oportunidades etc. Ademais, criam instrumentos que geram violência, criminalidade, corrupção, dentre
outras mazelas que se voltam contra a própria sociedade, em maior ou menor intensidade.

15
PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS

A LUTA DAS MULHERES PELA IGUALDADE DE GÊNERO


Em pleno séc. XXI, a desigualdade de gênero, ainda, se faz presente nas relações organizacionais, e nas
relações familiares, especialmente, em se tratando de alguns países, onde a cultura machista e patriarcal,
ainda, prevalece.
Desde o período antigo, homens e mulheres
possuíam papéis bem definidos, além de uma
condição hierárquica. Ao homem cabia o sustento e
proteção do lar e a mulher os afazeres domésticos,
cuidado com os filhos, e a submissão ao homem, em
uma posição vertical. Inicialmente, essa obediência
era devida ao pai e, posteriormente, ao marido. A
figura da mulher era invisível diante da sociedade, “Denomina-se patriarcado a forma
não era considerada capaz de gerir bens, enfim, o de organização social na qual os
estado era de dominação e opressão. homens dominam as mulheres e
Simone de Beauvoir (2009), ao difundir suas sexismo a crença de que um sexo é
ideias em diferentes obras, coloca que os homens, inerentemente superior a outro. O
mesmo os que se dizem mais “modernos” se valem sexismo constitui, portanto, a base
do patamar que foram colocados na história, o de ideológica do patriarcado” (GIL,
soberano, e não renunciam de suas vantagens e, a 2011, p.149).
mulher, “[...] condenada a desempenhar o papel do
outro, estava, também, condenada a possuir,
apenas, uma força precária: escrava ou ídolo, nunca é ela que escolhe seu destino” (BEAUVOIR, 2009, p.
91).
Com as inúmeras transformações no campo social e econômico, sobretudo, após a Revolução Industrial,
as mulheres, inseriram-se no mundo do trabalho e passaram a contribuir com o sustento familiar. Todavia,
alguns papéis, ainda, continuam predeterminados: os cuidados da casa e dos filhos permanecem sob sua
responsabilidade, criando-se, assim, uma jornada dupla. E, embora a evolução tenha ocorrido a olhos

16
vistos, inclusive no campo legislativo, algumas dessas questões, tais como a desigualdade, continuaram
arraigadas. Gil (2011) elucida que

Para se ter uma ideia, no Brasil, somente a partir de 1962 a mulher deixou de pedir
autorização para trabalhar, porque, até então, no código civil de 1916, sem anuência do
marido, não lhe era permitido sequer receber uma herança.
Mesmo com esse avanço, a desigualdade, ainda era evidente e, somente a partir da
Constituição de 1988, a mulher, no âmbito legal, foi considerada em nível de igualdade ao
homem.
Conheça mais sobre o Estatuto da Mulher Casada
[Link]

Obviamente, com o passar dos anos, a partir de muitas lutas, algumas conquistas foram alcançadas,
principalmente sob a ótica legal. Em tese, as mulheres possuem a mesma igualdade de direitos. Contudo, a
realidade é diversa do que se apresenta, inclusive em leis, em várias partes do mundo.
Embora o Brasil tenha também evoluído, constata-se que a cultura machista, proveniente de um
modelo patriarcal, ainda impera, haja vista o contraste nas remunerações salariais, nos cargos ocupados, na
obrigatoriedade dos cuidados do lar.
Nesse contexto, impulsionar um debate sobre as questões do trabalho, sob a perspectiva de gênero é
provocar reflexões acerca da desigualdade de
oportunidade e de remuneração que existe, nos quatro
cantos do mundo, permeada, inclusive pela
discriminação e pela violência doméstica, ainda tão
viva no seio familiar.
De acordo com a Organização Internacional do
trabalho (OIT), em relatório publicado em 2018, apenas
48,5% das mulheres estão empregadas e, a cada 10
homens, somente 6 se encontram em trabalhos
formais. Ainda, segundo o informe Perspectivas
sociales y del empleo en el mundo: Avance global

17
sobre las tendencias del empleo feminino - 2018, elaborado pela OIT, nos países desenvolvidos, as taxas de
desemprego entre homens e mulheres não apresenta tanta divergência; na Europa, essas taxas são
superiores a dos homens; África e Estados árabes duas vezes mais altas. Outro ponto intrigante desse
informe é que em países emergentes, como o Brasil, as taxas aumentam a olhos vistos.
No Brasil, embora a legislação exija um percentual de vagas para mulheres, no mundo do trabalho e,
também no âmbito político, percebe-se sua ausência nesses campos e a igualdade parece estar distante. De
acordo com o IBGE (2018), ao realizar as Estatísticas de Gênero - Indicadores sociais das mulheres no Brasil,
mesmo com um nível de instrução maior do que o dos homens, o que a priori, em tese, confere maior
preparo, em concorrência, de modo geral, e, em específico, para cargos mais altos, portanto, melhor
remunerados e mais prestigiados, há grandes desvantagens. Já no trabalho informal, é quase que massiva a
presença das mulheres, sobretudo em atividades domésticas. Embora as atividades domésticas tenham
tido seu reconhecimento em lei, as mulheres, em grande parte são as que ocupam esse posto.
Quais serão os principais motivos para tal fenômeno discriminatório que se recusa a reconhecer a
igualdade?
Tal questionamento pode, sim, encontrar resposta no contexto histórico, que coloca a mulher em
posição inferior e lhe confere responsabilidade com a maternidade; reforçando, dessa forma, o
conservadorismo de pensamentos retrógrados para a sociedade pós-moderna.
Ressalta-se ainda, que, no mesmo estudo realizado pelo IBGE (2018), as mulheres negras sofrem
duplamente tal discriminação e se encontram em situação de desvantagem em relação à mulher branca ou
parda. Embora o Brasil seja um País de grande miscigenação, não se pode deixar de observar significativa
discriminação racial e, mais uma vez ao fazer uma retrospectiva, há indícios de que a história de
subserviência vivenciada pelos negros perdura.

FALANDO UM POUCO SOBRE A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER


Ainda que fique escondida, como um segredo que não pode ser revelado, a violência doméstica é um
fenômeno que, aos poucos, vem sendo alardeado em todo o mundo. Mulheres de diferentes
nacionalidades, com diferentes costumes e hábitos, possuem em comum a mesma trajetória do ciclo de
violência.
A Legislação brasileira, a partir da Lei conhecida
como Maria da Penha (11.340/2006) coloca no seu Art.
5º que a violência doméstica é aquela praticada contra
mulher em uma unidade doméstica, não
necessariamente a casa onde vive, mas em um espaço
de convivência frequente, por pessoas que mantém
vínculo, independente de laços familiares. Já a
violência familiar, como o próprio nome indica, é
praticada por alguém que compõe unidade por
membro da família, observando que a unidade familiar
pode ser composta por pessoas que são consideradas parentes, pelo vínculo biológico, espontâneo ou pela
afinidade.
A Lei Maria da Penha se originou a partir de uma tragédia pessoal da farmacêutica Maria da Penha,
nordestina, vítima de violência doméstica, praticada por seu marido, um professor universitário que, por
três vezes, tentou matá-la, e a deixou paraplégica.
As denúncias foram feitas, mas seu esposo só foi preso muitos anos depois, após a vítima recorrer à
Comissão Interamericana de Direitos Humanos (OEA), a qual sentenciou o Brasil por omissão. A partir desse
fato, é que se pensou em uma legislação específica para os casos de violência doméstica e familiar contra a
mulher.

18
Para conhecer um pouco mais a história da farmacêutica Maria da Penha que teve
repercussão mundial e impulsionou a criação da Lei 11.340/2006, acesse o link:
STJ Cidadão #256 - A vida de Maria da Penha
[Link]

O Brasil, conforme o mapa da violência, divulgado em 2015, em notícia divulgada pela Universidade
Federal de São Paulo (UNIFESP), está entre os países, onde a mulher sofre agressões. Ainda, nesse mesmo
estudo, a mulher negra vítima de violência doméstica e/ou familiar, aparece em índices crescentes e altos.
Apesar dos avanços e das conquistas, muitas mulheres permanecem caladas por anos a fio. Assim,
entende-se que esse problema social

De acordo com a Declaração de Direitos Humanos e a Constituição Federal Brasileira (1988), homem e
mulher são sujeitos de direitos iguais, logo, não cabe situação de superioridade, tampouco de violência ou
exploração. Todavia, o que se percebe é que a violência doméstica está tomando proporções tão absurdas,
que, de caso de polícia, tornou-se um caso de saúde pública. Entende-se como “violência doméstica e
familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão,
sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial” (BRASIL, 2006).
Em dados divulgados pelo Anuários Brasileiro de Segurança Pública (2017), no ano passado, 4657
mulheres foram assassinadas, dentre as quais 533 foram feminicídio, sem contar as que sofreram outros
tipos de violência: física, moral, psicológica e patrimonial, além daquelas de cunho machista, vivenciada na
vida cotidiana. Raramente, “na primeira agressão, a mulher procura ajuda. A denúncia só ocorre, na
maioria dos casos, quando a situação se agrava; isso tudo devido à própria cultura brasileira ser omissa, e
ter como paradigma que ‘em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher’” (SALES e RESENDE, 2013,
p.50).
Desta feita, embora haja legislação específica que coíbe a Violência contra Mulher – 11. 240/ 2006 e
13.105/2015 - fazem-se necessários ajustes no âmbito legal e políticas públicas que tenham, não só caráter
punitivo, mas também pedagógico.

19
PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS

VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES


Até aqui foram abordados temas que se referem à mulher adulta, mas é quando a violência ocorre
contra crianças e adolescentes, independente se do sexo feminino ou masculino? Esse é um grave
problema que assola muitos países e que trazem consequências gravíssimas para a própria sociedade.

Segundo dados divulgados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em 2017,
“A cada 7 minutos, em algum lugar do mundo, uma criança ou um adolescente, entre 10 e 19
anos, é morto, seja vítima de homicídio, ou de alguma forma de conflito armado ou violência
coletiva. Somente em 2015, a violência vitimou mais de 82 mil meninos e meninas nessa faixa
etária – 24,5 mil dessas mortes aconteceram na região da América Latina e do Caribe”.

20
A violência contra esse público possui raízes
históricas e acompanha a humanidade em épocas
diversas, observando, principalmente, seu aspecto
cultural. Ela se expressa de diferentes formas no seio
familiar ou doméstico, independe da classe social e
traz consigo reflexos negativos, muitas vezes,
irreversíveis, às suas vítimas. “Desde a Antiguidade
podem-se constatar registros de agressões à
intimidade de crianças e adolescentes. Tal violação
surgiu como forma de punição, em alguns casos, e, em
outros, [...] eram ligadas a guerras, dentre demais
motivos” (FONTENELE JÚNIOR E RESENDE, 2017, p.
24).
Atualmente, tal fato desperta indignação em todos
os setores, porque, assim como a violência contra a
mulher, é um problema social que envolve, inclusive a saúde pública; não se limita, apenas, aos índices de
mortalidade, mas também envolve sequelas biopsicossociais.
Tendo em vista que a atual Constituição Federal do Brasil (1988) fundamenta o conceito de cidadania na
dignidade da pessoa humana, não é possível conceber atitudes violentas contra crianças, por parte
daqueles que, a priori, deveriam proteger, oferecer segurança física, afetiva e psicológica. Do mesmo
modo, o Art. 5°, do Estatuto da Criança e do Adolescente dispõe que “nenhuma criança ou adolescente
será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão,
punindo na forma da lei qualquer atentado por ação ou omissão, a seus direitos fundamentais” (BRASIL,
1990).
A literatura seja ela da área psicológica, sociológica seja jurídica traz como pontos de convergência que,
independente da modalidade de violência, deixam efeitos desastrosos na vida da vítima. Esses efeitos se
manifestam, na maioria das vezes, em forma de retraimento, baixa autoestima, dificuldades de
relacionamento, agressividade, uso de drogas ilícitas, fobia, reações de medo, vergonha, culpa, depressão,
ansiedade, transtornos afetivos, distorção da imagem corporal, amadurecimento sexual precoce, tentativa
de suicídio, problemas de aprendizagem, dentre outras sequelas. Enfim, há um comprometimento no
projeto de vida da vítima de abuso sexual, podendo, inclusive se tornar um agressor em potencial.
Inclusive, segundo Castanho (apud SEIXAS; DIAS, 2013, p. 57), “estudos apontam que parece existir um
padrão na aceitação da violência que mostra que mulheres, que possuem um histórico de violência, estão
mais propensas a entrar, ou permanecer, em relacionamentos violentos”.
De modo recorrente, a mídia apresenta casos de abusos sexuais e físicos, inclusive com óbito, cometidos
por pais, professores, treinadores, ou seja, por pessoas que, em tese, deveriam cuidar, acolher. Roure
(1996) elucida que

Embora o abuso sexual e físico, ainda, seja um tabu na sociedade brasileira, e de difícil detecção por
parte daqueles que não estão envolvidos, muitas vítimas, quando já não suportam mais o sofrimento,
tornam-no público, permitindo, assim, que seus agressores sejam punidos, que novas formas de proteção

21
sejam pensadas pelo poder público e que campanhas de conscientização alcancem o maior número
possível da população.
Outro elemento que merece ser amplamente discutido é a exploração sexual de crianças e
adolescentes, em suas diferentes formas, incluindo o turismo. Do Bem (2005) explica que

A partir dessa clara explicação do autor, entende-se que esse fenômeno é contumaz, principalmente,
em regiões turísticas e litorâneas, ou em locais que possuem eventos de grande dimensão, como carnaval,
por exemplo, nas quais falta assistência do poder público para suprir necessidades que são básicas.
Geralmente, tem como protagonistas crianças e adolescentes de classes bem carentes que, em troca do
sexo, recebem comida ou pequena quantia em dinheiro.
Nesse contexto, não é raro, também, encontrar pais que são coniventes com esse crime e justificam que
essa é a única forma de sustento da família. São pessoas invisíveis, excluídas, praticamente sem acesso aos
bens sociais, com quase nenhuma oportunidade de trabalho, e que, muitas vezes, também tiveram sua
infância roubada, da mesma forma, por pessoas que tiram proveito de uma condição sub-humana. Há
casos de gerações inteiras que foram exploradas. Não se está sendo cúmplice aqui, dessas motivações. Mas
é necessário refletir que, onde não há a
presença do Estado, instaura-se um
poder paralelo que condiciona a
sobrevivência humana a inúmeras
crueldades, como, por exemplo, a
prostituição infantil, a distribuição de
drogas por crianças, trabalho infantil,
dentre outros crimes etc.
No Brasil, embora o aliciamento (seja
qual for) de crianças e adolescentes seja
crime, constata-se que há dificuldades
em punir os agressores. Não se pode
negar que houve progressos em relação à
proteção desse público, porém, ainda, há
muito o que reajustar.
Nesse sentido, as redes sociais cumprem papel imprescindível pela proximidade que possuem com
público de diferentes faixas etárias. Além disso, as redes têm sido instrumento de denúncias de vítimas ou
que trazem para especialistas elementos que permitem a compreensão da personalidade de diferentes
agressores, que, em muitos casos, um dia, também foram vítimas.
Em assim sendo, com vistas a minimizar essas adversidades que acabam se voltando contra a própria
sociedade, onerando de diferentes maneiras a população, é de grande relevância que não só o poder
público, mas também toda a sociedade civil assuma a responsabilidade no que se refere à proteção de
crianças e adolescentes, seja punindo na forma da lei, fiscalizando, mais atentamente, as situações que
geram desconfiança, discutindo em massa essas questões, que, até então, eram consideradas tabus,

22
principalmente, nas instituições de ensino, seja realizando denúncias, pois essas últimas são molas
propulsoras para que essas modalidades de violência não assumam aspecto epidemiológico. Somente,
dessa forma, poder-se-á idealizar uma pátria mãe que cuida dos seus.

PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS - DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO ÉTNICO-RACIAL


A escravização de negros e índios aponta para um período histórico perverso no mundo. A construção
histórica da colonização brasileira não foge à regra: escravizou indígenas e negros, libertou-os, mas
promove até os dias de hoje a segregação, em diferentes espaços. Embora a discriminação de raça, cor ou
etnia seja crime, é recorrente na mídia brasileira, e também, em outros países, situações que denotam
preconceito, de modo explícito ou velado.
Convém, antes de abrir essa discussão, diferenciar raça e etnia, uma vez que é comum serem tomados
como se tivessem o mesmo significado.

Diferenciados os termos, algumas tessituras sobre a população indígena, independente da etnia são de
extrema importância.
A questão do indígena no Brasil traz muitas contradições, pois a cada dia se integram a sociedade não
indígena; todavia, esta última não aprendeu a lidar com as diversidades, para assim, democratizar as
diferenças. Para que, de fato tenham a sensação de pertencimento, é necessário que todos reconheçam
como legítima a cultura do outro (RESENDE; MAGALHÃES, 2010).
Os problemas que envolvem esse grupo são inúmeros e vão desde a questão da terra, ou a falta dela,
até as condições de extrema pobreza, uma vez que algumas etnias estão abandonadas à própria sorte.
Embora diversas políticas públicas tenham sido apresentadas, constata-se que a inclusão do indígena é uma
realidade muito distante, em todo e qualquer segmento social: na política, na educação, no trabalho etc.
Embora tenha havido crescimento na escolarização desses povos, os números, ainda, são muito baixos, seja
na Educação Básica seja no Ensino Superior. Além disso, são estereotipados, explicitamente, como pessoas
avessas ao trabalho, que recebem benefícios
indiscriminadamente, alcoolistas, que não
respeitam a legislação, porque possuem um
estatuto próprio, dentre outros adjetivos
depreciativos, que só reforçam uma imagem
negativa, sem nenhum pudor. Observa-se
aqui, grande falta de informação e uma
dificuldade imensa, em aceitar a cultura do
outro que, na verdade, é apenas diferente, e
não inferior a qualquer outra.

23
Conheça o Estatuto dos povos indígenas
[Link]
Indio_CNPI/Estatuto_Povos_Indigenas-Proposta_CNPI-[Link]
Benefícios sociais e previdenciários fornecidos aos indígenas
[Link]
beneficios-sociais-e-previdenciarios-que-os-indigenas-tem-direito

Em se tratando da população negra, assim como da indígena, observa-se que enfrenta muitos
preconceitos e está exposta à violência de todos os tipos. Ao contrário do indígena que não está totalmente
presente na sociedade não indígena, o negro compõe o corpo social, desde sua construção.
Se em outros tempos foi escravizado de modo cruel e desumano, hoje possui igualdade em termos
legais. Apesar desses esforços para propiciar igualdade de oportunidade e de direitos, é habitual episódios
que se configuram, mesmo que com muita discrição, como racismo. Ressalta-se que, no Brasil, é
considerado um crime inafiançável.

Constantemente jovens negros são confundidos com marginais em lojas, em espaços mais luxuosos.
Por várias vezes, são animalizados, abertamente. Quem não se lembra do caso que se tornou público,
em que um jogador negro foi chamado de macaco por torcedores, os quais também jogaram, no campo,
bananas.
Vamos para uma situação aparentemente inocente: em novelas brasileiras, principalmente em horário
nobre, os negros dificilmente aparecem como protagonistas; na maioria das vezes, desempenham
personagem que são empregados domésticos de pessoas brancas.

Os exemplos acima mencionados só indicam as dificuldades com que o negro se depara para ter sua
identidade reconhecida e ser tratado com igualdade, além de expor uma falsa democracia racial, pois
situações de servidão e de subordinação de um grupo a outro fazem parte da essência da ideologia do
racismo (GIL, 2011).
O mercado de trabalho, também, é excludente, à medida em que a oportunidade de emprego para os
negros, mesmo que tenham maior nível de
escolaridade, é menor do que para homens brancos ou
pardos
Logo, estão mais predispostos ao trabalho informal,
negando-lhes, mais uma vez, direitos sociais
conquistados ao longo dos anos, pela classe
trabalhadora.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios Contínua 2016 (IBGE), 66% das atividades
domésticas eram ocupadas por trabalhadores pretos e
pardos, e, no campo agropecuário, na construção civil,

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dentre outros. Outro dado que confirma as ideias discutidas é que mais de 25% da população negra e
parda, no terceiro trimestre de 2017, estavam na atividade informal como ambulantes.
Em relação à escolarização, a pesquisa aponta que essa população permanece, em média, apenas, 7
anos na escola; lembrando que a Educação Básica é de 12 anos, sendo 09 no Ensino Fundamental e 03 no
Ensino Médio. Da mesma forma, em termos de acesso ao Ensino Superior, principalmente para os cursos
mais concorridos, como Medicina, Engenharia, etc., mesmo que os índices tenham crescidos, ainda são
muito tímidos, tendo em vista que a maior parte da população brasileira é composta por negros e pardos.
Em síntese, em todos os segmentos, a população negra enfrenta desvantagens, logo, na educação não seria
diferente.
Diante desse contexto, apesar de a legislação promover maior oportunidade e ter avançado de modo
considerável, é urgente que o Estado se sensibilize com as questões que promovem a desigualdade social,
criando mecanismos específicos.
Contudo, entende-se que uma educação básica, e qualidade para todos, é o primeiro vetor para que
possa conduzir a emancipação do ser humano, seguida de condições adequadas de moradia, alimentação,
saneamento, saúde de qualidade, com medidas preventivas, oportunidade de emprego e de qualificação, e
de uma conscientização de massa acerca de como o racismo pode contribuir para com a proliferação da
violência, seja ela simbólica seja concreta, no corpo social. Esses são fatores essenciais para minimizar
desigualdades e construir uma sociedade mais justa.

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