Sistema Brasileiro de
Prevenção e Vigilância da
Encefalopatia Espongiforme
Bovina (EEB)
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - Mapa
Secretaria de Defesa Agropecuária - SDA
Departamento de Saúde Animal – DSA
Novembro/2015
1
manter reduzido o risco de ocorrência dessa
I. A Prevenção da EEB no Brasil doença no Brasil. Os segmentos diretamente
envolvidos na prevenção e vigilância da
EEB, e o detalhamento de suas
Devido à ocorrência da responsabilidades, são ilustrados na figura 2.
Encefalopatia Espongiforme Bovina – EEB,
popularmente conhecida como “doença da
vaca louca”, na Europa, em 1986, os Figura 2. Segmentos envolvidos no PNEEB.
mercados mundiais consumidores de
produtos de origem bovina vêm
constantemente atualizando requisitos
sanitários para importá-los, visando garantir
a inocuidade desses produtos quanto à EEB,
doença considerada zoonose.
Desde 1990, o Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento
(Mapa) vem adotando medidas sanitárias
para prevenir a ocorrência dessa
enfermidade em nosso território. A política
sanitária para EEB, que vem sendo
executada há mais de duas décadas, está
balizada nas recomendações da
Organização Mundial de Saúde Animal (OIE)
e nas informações científicas.
Os pilares do Programa Nacional de
Prevenção e Vigilância da EEB (PNEEB)
estão ilustrados na figura 1, sendo o seu
detalhamento descrito no item IV. (1) Mapa: define, coordena, supervisiona e fiscaliza
as atividades de prevenção e vigilância da EEB.
Algumas ações também podem ser executadas
diretamente, conforme a competência regimental.
Figura 1. Estrutura do PNEEB, conforme as
medidas sanitárias. (2) Órgãos estaduais de defesa sanitária animal:
executam medidas de vigilância e de fiscalização,
conforme competência.
O Mapa e os Órgãos Estaduais compõem o Serviço
Veterinário Oficial (SVO).
(3) Setor Produtivo: aplica as medidas sanitárias
estabelecidas pelo SVO. Nesse segmento, cabe
ressaltar a importância de engajamento de
pecuaristas, de estabelecimentos industriais da
cadeia produtiva de bovinos e de médicos
veterinários privados, dentre outros profissionais.
(4) Embasamento científico: o PNEEB é alicerçado
nas informações científicas emanadas por
instituições de ensino e pesquisa e nas
recomendações de fóruns sobre saúde animal, em
nível nacional e internacional.
Considerando a necessidade de
preservar a saúde dos consumidores de
produtos bovinos brasileiros e a importância
da pecuária na economia de nosso país, é
fundamental a coesão dos setores
envolvidos (oficiais e privados) no
compartilhamento de responsabilidades
das medidas do PNEEB, no sentido de
2
• Paraplexia enzoótica dos ovinos ou
II. As Encefalopatias Scrapie: afeta ovinos e caprinos,
Espongiformes Transmissíveis conhecida há mais de 200 anos e
(EET) registrada em muitos países, mas não é
considerada uma zoonose.
As Encefalopatias Espongiformes
Transmissíveis – EET são doenças • Encefalopatia Espongiforme Bovina –
neurodegenerativas que acometem a EEB, comumente conhecida como
estrutura do sistema nervoso central. São “doença da vaca louca”, é uma
causadas pelo acúmulo de uma proteína enfermidade degenerativa fatal e
anormal, a qual se origina a partir de uma transmissível do sistema nervoso central
alteração de uma proteína normal do de bovinos, com longo período de
hospedeiro. incubação.
As EET ocorrem em muitas espécies
e, após a instalação do quadro clínico, é
invariavelmente, fatal. Atualmente não é III. A EEB
passível de tratamento específico e é de A EEB é caracterizada pela presença
difícil diagnóstico. Muitas vezes, só é de lesões degenerativas no encéfalo, por um
possível identificar um indivíduo com esta longo período de incubação (média de
doença quando os sinais degenerativos quatro a cinco anos) e pela quase total
finais começam a manifestar-se com maior ausência de reações inflamatórias e
evidência. Neste grupo das EET, as imunológicas. Não possui predisposição por
enfermidades de destaque são: raças ou sexo, porém acomete
• Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ): é principalmente os bovinos criados sob
uma EET que afeta humanos. A maioria sistema de fornecimento de rações ou
dos casos aparece espontaneamente e concentrados, como suplementação
sem causa conhecida (DCJ esporádica) nutricional, devido ao risco de contaminação
– com incidência anual de cerca de um desses alimentos com subprodutos
caso por milhão de pessoas. Essa forma eventualmente infectados pelo agente da
ocorre, na maioria das vezes, em EEB.
pessoas idosas (média de 65 anos de Naturalmente, a EEB acomete
idade). Além da forma espontânea, bovinos domésticos (gêneros Bos e
outras formas mais raras de DCJ podem Buballus). Experimentalmente, a doença foi
ocorrer, sendo: transmitida, por exposição parenteral ou oral,
- DCJ iatrogênica: devido à transmissão a diversos mamíferos, tais como:
do indivíduo infectado a outro (por camundongos, ovinos, caprinos, primatas
produtos biológicos ou por instrumental não humanos e mustelídeos.
cirúrgico); Há relatos de casos de EEB em
- DCJ familiar: predisposição genética a felinos domésticos e em felinos e ruminantes
desenvolver a doença; de zoológico, devido ao fornecimento de
alimentos contaminados pelo príon
- DCJ nova variante (vCJD): é
infeccioso.
considerada uma zoonose, associada à
ingestão de alimentos contaminados com Não há registro de casos de EEB em
o agente da EEB. Em contraste à forma cães, equinos e aves. Em suínos, a
clássica da DCJ, essa variante exposição oral não replicou a doença,
normalmente afeta pessoas jovens (entre diferentemente da exposição intracerebral.
20 a 30 anos). Os sintomas, geralmente,
são: emoções instáveis (distúrbios
psiquiátricos e do comportamento), 1. O agente causador
sinais sensoriais dolorosos, sinais
neurológicos retardados, perda de A EEB é causada por um agente
memória, cansaço e rápida perda de transmissível não convencional, denominado
peso, dificuldade locomotora, visual e príon (PrPsc), que é uma proteína infecciosa
linguística e desabilidade cognitiva antes decorrente da modificação pós-translacional
da morte. de uma proteína normal (Figura 3). As
formas normais (PrPc) são convertidas em
formas anormais (PrPsc), replicando e
3
originando cópias do príon, iniciando uma por calor e degradação por enzimas
reação em cadeia durante o longo período proteolíticas. Esse agente pode manter sua
de incubação da doença. A proteína infectividade, mesmo após a exposição ao
infecciosa (PrPsc) é resistente à protease, calor seco, a 160°C por 24 horas. Os
diferentemente da forma normal (PrPc). O desinfetantes comuns (etanol, formaldeído,
príon infeccioso não induz resposta imune, iodóforos e fenólicos) não são efetivos.
pois é uma proteína do animal e assim não é
Os produtos obtidos de animais
reconhecido como estranho ao hospedeiro.
infectados são a principal fonte de material
infectivo, especialmente o sistema nervoso
central (SNC).
Figura 3 – Conversão da proteína PrPc em
PrPsc. Por ser uma proteína, é necessário
Fonte: University of Southhampton Environmental alterar a estabilidade do príon para a
Health Unit. redução de infectividade. Em farinha de
carne e ossos (FCO) de ruminantes, isso é
obtido com processamento em atmosfera
saturada de vapor, em temperatura mínima
de 133°C, por um período mínimo de 20
minutos e a uma pressão absoluta de 3 bar.
Este processamento é recomendado pela
OIE e conhecido como “esterilização”, sendo
capaz de reduzir a infectividade na FCO em
até mil vezes, se o agente da EEB estiver
presente nesse subproduto.
2. Transmissão, patogenia e sinais
clínicos
As vias de infecção da EEB diferem
de acordo com as formas da doença, sendo:
A teoria atual mais provável postula
que o príon infeccioso surge a) na forma clássica: infecção
espontaneamente em bovinos, assim como pela ingestão de alimentos
doenças priônicas de outras espécies, a contaminados com o príon
exemplo da doença de Creutzfeldt-Jakob infeccioso;
(DCJ), de ocorrência espontânea em b) na forma atípica: ocorrência
humanos. de uma mutação espontânea da
Atualmente, o agente da EEB possui proteína normal, sem estar
três tipificações, conforme o peso molecular, relacionada à ingestão de
o que pode ser visualizado pela técnica de alimento contaminado.
Western Blotting, sendo: A EEB não é contagiosa e não há
a) príon de peso molecular considerado evidências de transmissão horizontal ou
padrão, sendo o causador da EEB vertical entre animais, sendo a infectividade
clássica; restrita ao tecido do SNC e alguns outros
b) príon de peso molecular alto, tecidos, como as placas de Peyer e tonsilas.
causador da EEB atípica tipo H
(high); Outras vias de infecção também
c) príon de peso molecular baixo, devem ser consideradas, como a inoculação
causador da EEB atípica tipo L (low). do agente de forma iatrogênica, quando o
príon infeccioso é inoculado devido a
As formas atípicas são muito raras e cirurgias e pelo contato direto com áreas
vêm sendo detectadas em países que muito inervadas lesionadas. Portanto,
contam com um sistema sensível para produtos biológicos derivados de tecidos de
vigilância da EEB. bovinos infectados podem constituir rota de
Uma característica peculiar do agente transmissão da doença.
da EEB é sua resistência à inativação por Mesmo com rotas adicionais de
processos químicos ou físicos, incluindo transmissão, o fator de risco de maior
congelamento, radiação ultravioleta, enterrio, impacto na ocorrência da doença é o
métodos comuns de desinfecção química ou fornecimento de FCO contaminada com o
4
príon, por isso o controle da alimentação de do contexto da sua utilização, como triagem
bovinos é fundamental para prevenção da ou a fim de confirmações de suspeitos, além
EEB. da situação clínica do animal.
Na forma clássica dessa doença, A porção anatômica mais indicada
após a ingestão do alimento contaminado, o para o diagnóstico da EEB é a região da
agente se dissemina por rota neural até o medula oblonga indicada no óbex (Figura 4).
SNC. Dados experimentais indicam a
difusão simultânea via nervo vago e nervos
esplênicos à medula espinhal, em direção ao Figura 4 – Região de eleição para
cérebro. diagnóstico de EEB: óbex.
Devido ao seu longo período de
incubação (3 a 8 anos, em média 5 anos), a
doença se manifesta em bovinos adultos
(normalmente entre 5 e 7 anos). Já na sua
forma atípica, a ocorrência é mais comum
em bovinos mais velhos (> 7 anos).
Pela resistência às proteases, o príon
infeccioso se acumula no SNC, ocasionando
a morte tecidual, o que dá início aos sinais
clínicos, que são insidiosos, e uma vez
iniciados, a doença evolui invariavelmente
para morte em um curso de três semanas a
seis meses. Em consequência à
Fonte: CFSPH, 2013.
degeneração progressiva do SNC, os
animais podem apresentar alterações
comportamentais, do temperamento, da 3.1. Exame histológico
sensibilidade e da locomoção, isolada ou
concomitante. Além disso, é comum Esse método possibilita visualizar
apresentarem decréscimo na produção de alterações neurodegenerativas com
leite e perda de peso, apesar da caracterização de uma vacuolização
manutenção do apetite. Raramente um caso espongiforme. E é esse aspecto de
de EEB pode apresentar sinais agudos e “esponja”, conferido pelas vacuolizações,
progressão rápida. que deram o nome à doença (encefalopatia
espongiforme). As lesões degenerativas na
As características da forma atípica substância cinzenta do tronco encefálico são
em bovinos ainda são incompreendidas, e, simétricas e bilaterais. Em casos pré-
em sua grande maioria, foram clinicos, normalmente não ocorrem
diagnosticadas em animais assintomáticos alterações histológicas. Não é indicado para
durante a vigilância rotineira, em animais amostras autolisadas, devido à perda de
mortos ou em abates de emergência. estrutura morfológica do tecido nervoso.
Diante da escassa informação sobre
o quadro clínico das formas atípicas, é
imprescindível realizar o diagnóstico Figura 5 – Múltiplos vacúolos em bulbo
laboratorial, para diferenciação de outras neuronal. Fonte: Barros, et al., (2000).
enfermidades.
3. Diagnóstico
Não há diagnóstico validado 'in
vivo' e são necessários testes post
mortem em material encefálico. Conforme
o método de diagnóstico utilizado, será
realizada a avaliação das características
morfológicas do tecido encefálico e a
detecção da forma anormal do príon. A
eleição do método de diagnóstico dependerá
5
3.2. Imuno-histoquímica
Esse método permite detectar o Figura 7 – Técnica de diagnóstico de
PrPsc, devido à ligação de anticorpos anti- Western Blotting. Fonte: Centers for Disease Control
proteína priônica que se ligam apenas a um and Prevention (CDC), 2006.
sítio protéico. O tecido é previamente tratado
com proteases, que destroem a proteína
priônica normal. Como os príons infecciosos
são resistentes às proteases, caso os
anticorpos marcados se liguem aos sítios
proteicos específicos, há indicação da
presença da proteína priônica infecciosa
(Figura 6).
Por esse método pode-se detectar
pequenas quantidades de príons, e assim é
indicado para animais em fase pré-clínica,
além de ser possível examinar tecidos
autolisados ou fixados em formol.
3.3. Elisa
Normalmente é utilizado como teste
Figura 6 – Marcação do PrPsc pela técnica rápido para triagem, necessitando de exame
de imuno-histoquímica. Fonte: Profº Eurípedes confirmatório. Nesse método, são
Batista Guimarães, 2006.
apresentadas as macromoléculas do
complexo antígeno-anticorpo, e, para a EEB,
é utilizado um anticorpo anti-príon.
- Outros métodos: além dessas técnicas de
diagnóstico da EEB, outras reconhecidas
pela OIE podem ser aplicadas na rotina de
vigilância de um país ([Link]).
3.2 Western Blotting (WB)
Assim como na imuno-histoquímica,
o WB é o método de eleição para
diagnóstico definitivo o qual realiza a
precipitação do príon infeccioso com a
utilização de proteases, ácido fosfotúngstico
(ATP) ou outros produtos químicos. A PrPc
será digerida, enquanto a PrPsc será
parcialmente, podendo ser visualizada na
eletroforese, que é um método sensível e
rápido (Figura 7). Esse método ainda
permite a tipificação do príon, conforme o
seu peso molecular.
6
IV. A política de prevenção e
vigilância da EEB no Brasil
Devido à complexidade da
epidemiologia da EEB, além do controle
da importação e da vigilância da doença, Tabela 1 – Ano de início das medidas de
as medidas de mitigação de risco são EEB no Brasil.
fundamentais para a manutenção de
situação sanitária de menor risco para Medida Ano de adoção
EEB.
1. Restrição de importação de bovinos de
1990
A OIE não aplica o termo livre no países de risco para EEB
reconhecimento de “status” de EEB, e sim 2. Restrição de importação de farinhas
gradações de risco, sendo: insignificante, de ruminantes e outros produtos de 1990
controlado e indeterminado, em ordem origem animal
crescente de risco. 3. Proibição de alimentar ruminantes com
certos produtos de origem animal (“feed- 1996
As medidas sanitárias do Mapa, ban”)
inclusive as relacionadas à EEB, são 4. Notificação obrigatória de EEB e
instituídas por diversos instrumentos 1997
categorias de vigilância
regulatórios, abrangendo documentos 5. Organização da rede de diagnóstico
internos (memorando, instrução de serviço, 2001
das EET
norma interna) ou externos (portaria, 6. Monitoramento e proibição de abate de
instrução normativa, decreto). A tabela 1 bovinos importados de países de risco 2001
ilustra as principais medidas de EEB, para EEB
conforme o ano de sua primeira adoção. 7. Mitigação de risco – processamento
em resíduos de ruminantes: esterilização 2003
de FCO (133º/20min/3 bar)
8. Mitigação de risco – remoção de MRE 2005
9. Reorganização do PNEEB, com
objetivo de gerenciamento das medidas 2013
de EEB já existentes
A cadeia epidemiológica da EEB é ilustrada
na figura 8, indicando os pontos críticos que
propiciam a transmissão da doença e as
respectivas medidas de controle em cada
ponto.
7
Figura 8 – Cadeia epidemiológica da EEB e as medidas de controle em cada ponto crítico da
cadeia.
Fonte: DSA/SDA/Mapa
b) monitoramento de bovinos
Considerando as informações
importados, visando ao controle de
científicas sobre a EEB e as recomendações
localização, movimentação e
da OIE, o Programa Nacional de Prevenção
destinação desses animais.
e Vigilância da EEB (PNEEB) é estruturado
em subprogramas, conforme o escopo das Qualquer que seja a situação
atividades, que são detalhados a seguir. sanitária do país de origem quanto à EEB, a
OIE não recomenda restrição de importação
de leite e produtos lácteos, sêmen e
1. Controle de importação embriões colhidos e manuseados conforme
as recomendações da Sociedade
O subprograma de controle de
Internacional de Transferência de Embriões,
importação visa prevenir a entrada do
peles e couros; gelatina e colágeno
agente da EEB no País, mediante
preparados exclusivamente de peles e
procedimentos de:
couros, sebo desproteinado (com impurezas
a) controle da importação, no que insolúveis correspondendo, no máximo, a
concerne ao risco de veiculação do 0,15% do peso) e produtos derivados do
agente da EEB em animais, seus mesmo, fosfato dicálcico (sem traços de
produtos e subprodutos; e proteínas ou gorduras), carne desossada
8
(excluindo carne mecanicamente separada) A vigilância de doenças nervosas em
de bovinos submetidos a métodos herbívoros no Brasil é predominantemente
específicos de abate e de prevenção da direcionada à raiva, que é considerada
contaminação com material de risco, e endêmica no país. Desde 1997 a notificação
sangue e hemoderivados de bovinos de doenças nervosas em herbívoros é
submetidos a métodos específicos de abate. compulsória em todo território nacional e,
Para bovinos vivos ou outros produtos de desde então, também houve a incorporação
bovinos, a OIE recomenda requisitos das EET (EEB e Scrapie) ao sistema de
sanitários, conforme a situação sanitária do vigilância da raiva dos herbívoros. Entendeu-
país de origem, ou até, mesmo, não se que o sistema de vigilância já implantado
recomenda a comercialização dessas para a raiva seria aplicável à vigilância das
mercadorias. EET, pela capilaridade nacional, pela
sensibilidade para detecção de doenças
Os requisitos brasileiros para
nervosas em geral e por sua consolidação
importação de animais, seus produtos e
no sistema produtivo brasileiro.
subprodutos, são revisados continuamente
no sentido de alinhamento às A vigilância epidemiológica para EET
recomendações da OIE. E, por haver é realizada pelo serviço veterinário oficial
mudanças, devem ser rotineiramente (SVO) e por médicos veterinários privados,
consultados junto ao Mapa para verificação sendo que esses últimos devem reportar ao
da versão mais atual. SVO as suspeitas que vierem a atender.
O SVO, quando notificado da
suspeita de ocorrência de síndromes
2. Vigilância nervosas em herbívoros, atende a
O subprograma de vigilância visa à notificação em até 24 horas. Sempre que
detecção precoce de eventual caso de EEB, possível, deve ser coletado material para
mediante procedimentos de: diagnóstico laboratorial, conforme
preconizado no Manual de Procedimentos
a) notificação e investigação de para o Diagnóstico das Doenças do Sistema
doenças nervosas em ruminantes; Nervoso Central de Bovinos do Mapa.
b) realização de testes para A vigilância para a EEB é
diagnóstico das EET em populações direcionada a qualquer bovino, com idade
específicas de animais. superior a 24 meses, que demonstre
A OIE recomenda o direcionamento sinais neurológicos, sendo considerado
da vigilância a determinadas subpopulações um potencial suspeito de doença nervosa
de bovinos, por ser enfermidade de baixa e assim deverá ser submetido a
prevalência e pela ausência de diagnóstico diagnósticos diferenciais. Adicionalmente
“in vivo”. a essa categoria, outros ruminantes são alvo
dessa vigilância, com base nas
O artigo 11.5.20 do Código de
recomendações da OIE.
Sanitário de Animais Terrestres da OIE
recomenda as diretrizes de um sistema de Considerando a constante
vigilância para EEB, no sentido de: atualização das medidas, é necessária a
consulta rotineira às normas emitidas pelo
i. detecção do agente da doença,
Mapa, para acessar as atuais
mediante a prevalência estimada em
subpopulações de animais alvo de vigilância
um país;
da EEB. Mas, de maneira geral, são os
ii. realização do monitoramento de bovinos e bubalinos:
progressão da doença, caso esteja
a) com sinais clínicos de doença nervosa;
presente na população bovina do
b) com doença crônica, caquetizante ou
país;
depauperante;
iii. verificação da efetividade das c) em decúbito ou que não se locomove sem
medidas de mitigação de risco, ajuda;
especialmente quanto à proibição do d) encontrado morto na fazenda, durante o
fornecimento de produtos de origem transporte ou no matadouro;
animal aos ruminantes - feed ban; e) submetido ao abate de emergência ou
condenado na inspeção ante mortem;
iv. petição de reconhecimento de status
sanitário para EEB.
9
f) importado de país considerado pelo Mapa ação do médico veterinário na adequada
como de risco para EEB; colheita e envio de amostras ao laboratório.
g) com vínculo epidemiológico de
O fluxo de atendimento a suspeitas
investigação de EEB;
de EEB, esquematizado na figura 10,
h) negativos para raiva, ao teste de
demonstra as medidas adotadas pelo SVO
imunofluorescência.
em caso de ocorrência da doença, em nível
As amostras encefálicas provenientes de campo e de abatedouro.
das subpopulações acima são enviadas a
um laboratório indicado pelo Mapa para o
teste diagnóstico das EET. E, para a
continuidade dessa vigilância, é primordial a
Figura 10 - Medidas adotadas pelo SVO em ocorrência da doença à nível de campo e
abatedouro. Fonte: DSA/SDA/Mapa
Medidas de
saneamento de
foco de raiva
10
matadouros. A figura 9 ilustra a remoção de
3. Medidas de mitigação de risco MRE nos estabelecimentos de abate.
A EEB clássica é uma doença
infecciosa multifatorial, por isso é
Figura 9- Materiais de risco específico para
necessário gerenciar os fatores que
encefalopatia espongiforme bovina (MRE¹) -
propiciam o ingresso do agente na cadeia Fonte: FFA Leila Mussi - Mapa, 2009.
produtiva de bovinos (em matadouros,
‘graxarias’ e fábricas de ração para
ruminantes).
As medidas de mitigação de risco são
fundamentais para evitar as condições
favoráveis de propagação/manutenção de
eventual príon infeccioso na população
bovina, pois:
i. a detecção precoce de um caso de EEB
reduz a possibilidade de ingresso do
agente da doença na cadeia de
alimentação. Entretanto, a existência de
um sistema de vigilância não é
totalmente efetivo para prevenção do
ingresso de casos subclínicos na cadeia
de alimentação, devido à baixa
prevalência da doença e à ausência de a) Íleo distal; b)tonsilas; c) olho; d) encéfalo; e)
diagnóstico “in vivo”, que poderiam vir a medula espinhal.
detectar os casos pré-clínicos de EEB;
ii. o longo período de incubação prejudica a
¹O agente da EEB se distribui de maneira desigual no
detecção de um caso pré-clínico de EEB,
organismo dos bovinos infectados, havendo predileção
o que propiciaria a disseminação da
em certos tecidos, que são denominados de material
doença de maneira silenciosa,
de risco específico para EEB (MRE). O Comitê
principalmente em um país com frágil
Científico da União Europeia define MRE como sendo
sistema de vigilância ou ineficaz controle os tecidos com níveis significativos de infectividade de
da alimentação dos bovinos. Nessa
EEB, mesmo antes de apresentação de sinais clínicos
situação, a EEB não seria detectável por
da doença, e devem ser excluídos da cadeia de
muitos anos. alimentos.
As medidas de mitigação de risco são
imprescindíveis e complementares ao
controle de importação e à vigilância,
principalmente diante de eventual ocorrência
de EEB atípica. A lista de MRE pode sofrer alterações
e, assim, deve ser consultada junto ao
Mapa, para verificação da versão mais atual.
3.1 Em estabelecimentos de abate de
ruminantes
O subprograma de mitigação de risco
em estabelecimento de abate visa à redução 3.2 Em ‘graxarias’ (estabelecimentos
de risco de eventual ingresso do agente da processadores de resíduos de origem
EEB na cadeia abate/alimentação, mediante: animal)
a) retirada de materiais de risco específicos Este subprograma visa mitigar o risco
– MRE¹ da carcaça dos bovinos, que não de presença do agente da EEB nas farinhas
podem ser destinados à alimentação de ruminantes, mediante os seguintes
humana ou animal; procedimentos:
b) realização de vigilância das EET em i. redução de partículas a um tamanho
ruminantes submetidos ao abate de máximo de 50mm antes de ser
emergência ou encontrados mortos em submetida a tratamento térmico;
matadouros ou no desembarque em
11
ii. processamento em atmosfera encefálico, contendo o príon
saturada de vapor, em temperatura infeccioso, pode ser suficiente para
mínima de 133°C, por um período causar a doença. Na Europa, foi
mínimo de 20 minutos e a uma observado que a “CC” propiciou a
pressão absoluta de 3 bar; continuidade de ocorrência de EEB
mesmo em bovinos nascidos após o
iii. proibição de integrar MRE nessas
“feed ban”. Com base no risco de
farinhas.
“CC” é que vários outros produtos,
além de FCO, integram a lista de
alimentos proibidos para os bovinos.
3.3 Em estabelecimentos fabricantes
de alimentos para ruminantes e de
produtos veterinários para uso em 3.4 Em estabelecimentos de criação
ruminantes de ruminantes
Este subprograma visa reduzir o risco Este subprograma visa prevenir a
de contaminação de alimentos para contaminação de alimentos destinados aos
ruminantes ou produtos veterinários para ruminantes com produtos de origem animal
esses animais, com o agente da EEB, proibidos, fortalecendo a obediência ao
mediante os procedimentos de: “feed ban”, principalmente em regiões com
a) inspeção e fiscalização dos risco de circulação e contaminação com
estabelecimentos que fabricam alimentos FCO (acidental ou intencionalmente) ou com
destinados a ruminantes e produção de bovinos em sistema intensivo
monitoramento dos seus produtos, para ou semi-intensivo.
prevenir a contaminação com produtos Para o sucesso deste subprograma,
de origem animal proibidos; além das fiscalizações, é imprescindível a
b) controle da produção, da participação efetiva do setor produtivo,
comercialização e da utilização de visando conscientização dos produtores
produtos veterinários destinados a rurais quanto à adoção de boas práticas de
ruminantes, para prevenir a alimentação dos ruminantes, com o fim de
contaminação com produtos de origem evitar o fornecimento de subprodutos de
animal proibidos. origem animal proibidos e a contaminação
cruzada dos alimentos na propriedade rural.
Terminologias internacionais e
importantes nesse tema são: 4. Controle e avaliação
i. “feed ban”: proibição de alimentar Este subprograma visa o
bovinos com farinhas de carne e gerenciamento das medidas de EEB, no
ossos (FCO) de ruminantes. Essa sentido de manter o PNEEB exequível e
medida é reconhecida como a atualizado, além de propiciar informações
principal maneira de interromper o para questionários de avaliação sanitária,
ciclo da EEB típica; requisitados pela OIE e por terceiros países.
ii. “contaminação cruzada (CC)”: Aliado ao gerenciamento, este
relacionada à contaminação acidental subprograma é responsável por manter a
do alimento do bovino com alimentos contínua conscientização, capacitação e
destinados a outros animais e que treinamento dos segmentos envolvidos no
contêm FCO em sua formulação. PNEEB.
Uma das particularidades na
transmissão dessa doença é que
menos de um grama de material
12
armazenagem, na pesagem e no
V. O que se deve fazer para próprio cocho dos animais;
manter o mínimo risco de EEB não reutilizar embalagens para o
do Brasil armazenamento de alimentos para
ruminantes;
Dentre todas as medidas de não utilizar na alimentação de
prevenção da EEB, destaca-se o cuidado na ruminantes produtos de origem
criação dos ruminantes (bovinos, bubalinos, desconhecida, sem registro no Mapa;
ovinos, caprinos e outros), ressaltando-se: guardar sempre os comprovantes e
não alimentar esses animais com notas fiscais de compra de rações,
certos produtos de origem animal, concentrados e suplementos
inclusive a cama de aviário, os protéicos, e também das matérias-
resíduos da exploração de suínos, primas, caso estes alimentos sejam
farinhas de animais; preparados na propriedade;
armazenar de maneira segura esses se você notar um animal
produtos de risco na fazenda, para apresentando algum sinal de doença
que os ruminantes não tenham nervosa, como alteração do
acesso aos mesmos; comportamento, dificuldades de
locomoção, paralisia, andar
antes de alimentar os ruminantes cambaleante, entre outros, avise a
com rações, concentrados e unidade local do SVO mais próxima
suplementos protéicos, conferir no da sua propriedade;
rótulo destes produtos. Não use, se
encontrar os dizeres: “Uso proibido manter-se informado e atualizado
na alimentação de ruminantes”; sobre as medidas de prevenção e as
normas e procedimentos definidos
caso a ração, os concentrados ou os pelas autoridades sanitárias,
suplementos protéicos sejam visitando com periodicidade a
preparados na propriedade, deve-se unidade local do serviço veterinário
ter certeza de que não está oficial e a página do Mapa na internet
misturando alimentos para animais ([Link]);
não ruminantes (cavalos, suínos,
frangos, cães, gatos, coelhos, peixes, pelo telefone 0800 704 1995,
dentre outros) na alimentação dos informar ao Mapa suspeitas de
ruminantes eventuais descumprimentos às
legislações vigentes. Também
manter esses alimentos controlados poderá esclarecer dúvidas por este
e separados, para não haver o risco número ou acessando a Ouvidoria na
de contaminação no transporte, na página do Mapa na internet
([Link]).
Elaboração: Fiscais Federais Agropecuários e Médicos Veterinários
- Elaine Fátima de Sena
- Carlos H. Pizarro Borges
- Ellen Elizabeth. Laurindo
- Juliana do Amaral Moreira C. Vaz
- Maria Carmen de Rezende Costa
Colaboração: Médica Veterinária Dayanne Mayra de Almeida Oliveira
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