Índice
Páginas
Introdução........................................................................................................................................2
1. PODER LOCAL EM MOÇAMBIQUE..................................................................................3
1.1. A descentralização a luz da Constituição de 1990............................................................4
1.2. A Materialização do poder Local em Moçambique..........................................................5
1.2.1. As estruturas do poder local em Moçambique..............................................................5
2.1. Quadro das Atribuições.....................................................................................................6
2.2. Quadro Legal dos Órgãos Locais......................................................................................6
2.3. Função dos Órgãos Locais................................................................................................7
2.4. Princípios de Organização e Funcionamento....................................................................7
2.5. Coordenação entre os Órgãos Locais do Estado e as Autarquias Locais..........................7
Conclusão........................................................................................................................................9
Referência Bibliográfica................................................................................................................10
Introdução
O presente trabalho versa sobre O PODER LOCAL EM MOÇAMBIQUE, que se
circunscreve no âmbito do Poder Administração. Onde o Poder Local é na verdade uma
materialização da descentralização, um sistema em que a função administrativa está confiada não
apenas a nível, mas também a outras pessoas colectivas.
Assim, em Moçambique o processo de descentralização introduzido na constituição de
1990, traz um novo parâmetro de relacionamento entre o governo central e o governo local,
criando oportunidade de coabitação de diferentes factores dentro do mesmo espaço político, com
atribuições e competências distintas, com um único objectivo, maior flexibilidade na
administração pública e consequentemente melhor prestação de bens e serviços públicos. Daí a
criação de autarquias locais, com atribuições específicas na gerência na administração local, de
modo a proporcionar o bem-estar e a melhoria de renda e da qualidade de vida dos cidadãos, o
que é possível através do desenvolvimento dos serviços em cada comunidade local.
Desta feita, o nosso estudo é composto por um capítulo, que corresponde o ponto central
“o poder local”, no qual apresentaremos a contextualização da descentralização política em
Moçambique desde a independência, passando pela constituição de 1990 que foi o epicentro
desta nova forma de tratamento de poder do Estado, até a constituição de 2004, que melhorou
consideravelmente a redacção e o entendimento do poder local em Moçambique.
Pretendemos com o presente trabalho, fazer um estudo superficial do poder local em
Moçambique, elencando as principais fases da sua gestação e concebimento.
A elaboração do trabalho foi graças a consulta bibliográfica de diferentes autores que de
forma nobre contribuíram no entendimento da actual administração politica local moçambicana.
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1. PODER LOCAL EM MOÇAMBIQUE
Para Canhanga (2001, citado por Teresa Nhambire, 2011) Após o país ter alcançado a
independência, em 1975, o Estado moçambicano adoptou um sistema político e económico
centralmente planificado. Este era um modelo socialista da administração pública. Assim,
conforme explica o Prof. Dr. Cistac (2001) “Devido a complexidade do modelo então adoptado,
o Estado torna-se sobredimensionado a nível central e muito fraco a nível provincial e distrital.
Localmente as competências e a autonomia política das autoridades era muito reduzida, assim
como eram quase inexistentes os meios financeiros próprios”.
O que então, houve tentativas de abolir as autoridades tradicionais, e foram igualmente
dissolvidas as Câmaras Municipais autónomas (estruturas do período colonial). Devido ao
modelo político e ideologia instituída pelo Estado no período pós independência (Teresa
Nhambire, 2011, p. 13). O preâmbulo da Lei 6/78, lia-se que “com a formação das assembleias
do povo em todos os escalões, nasceram novos órgãos do poder do Estado democrático popular e
criaram-se novas condições, para a organização do Estado, de acordo com as decisões da
FRELIMO.” Para Chambule, (2010), dessa maneira tornasse imperiosa a extinção de antigas
estruturas do aparelho do Estado, assumindo os órgãos do poder popular e o seu aparelho de
Estado, todas as tarefas necessárias
Para Lichunge (2003), as reformas iniciadas na altura criaram um novo sistema unificado e
centralizado de administração pública. Assim, em substituição das antigas estruturas
administrativas locais, foram instituídas as assembleias do povo e os respectivos conselhos
executivos da cidade e do distrito. Os órgãos do Estado ou instituições criadas e em
funcionamento ao nível local eram centralmente nomeados, e eram por excelência, entidades de
direito público com a mesma personalidade jurídica da do Estado, mais sem autonomia
administrativa, financeira nem patrimonial. Neste contexto as relações que se estabelecem entre
o Estado e os Órgãos Locais eram de completa subordinação hierárquica destes aos órgãos
centrais do Estado.
Desta feita, “Esta situação limitou o espírito de iniciativa dos níveis inferiores da
administração, uma vez que estes últimos eram desprovidos de todo o poder de decisão e de
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todos os recursos e capacidades para realizar as actividades necessárias dos interesses das
comunidades. Este sistema de administração fragilizou a gestão das instituições locais e produziu
efeitos negativos no que diz respeito a qualidade dos serviços fornecidos às populações” (Cistac;
2012, p. 3).
Por isso que, No início dos anos 80, o Governo reconheceu, oficialmente, que o sistema em
vigor, até então, era centralizado excessivamente e que o Estado era sobredimensionado ao nível
central e de muito fraca eficácia ao nível das províncias e distritos (Idem).
1.1. A descentralização a luz da Constituição de 1990
Segundo Amaral (1998), a descentralização é “o sistema em que a função administrativa
esteja confiada não apenas ao Estado, mas também as outras pessoas colectivas territoriais,
designadamente autarquias locais”.
Assim, a Constituição de 1990 introduziu profundas mudanças políticas, como o pluralismo
político e a existência de autonomias locais, e também económicas, nomeadamente pelo
abandono do sistema de economia planificada e pela consagração da economia de mercado. Com
isso, o novo texto constitucional estabeleceu a separação dos órgãos do poder local, que
passaram a ser dotados de personalidade jurídica própria face ao aparelho administrativo central.
Outrossim, para Cistac (2001), a Constituição catalisou as oportunidades para uma reflexão
sobre a necessidade de mudanças profundas na governação e o fim da guerra civil, criando
condições favoráveis para o desenvolvimento do processo de descentralização no país Por isso, a
emenda constitucional de 1996, introduziu a questão do poder local, viabilizando que as
reformas de descentralização se transformassem num instrumento importante do processo de
reconfiguração do Estado a nível local.
Na sequência de emendas constitucionais produzidas pelo Estado, foi então, produzida uma
série de legislação que deu corpo ao processo de reformas, com maior destaque para a Lei nº
2/97 relativa as autarquias locais e a lei nº 8/2003 sobre os órgãos locais do Estado. Que para
Teresa Nhambirre (2012), Estas reformas resultaram num sistema de governação local de duas
formas:
Uma que é de devolução de poderes, funções e recursos (descentralização politica), para
os 33 Municípios que actualmente são 43, de acordo com a Lei 3/08, com a realização
regular de eleições locais;
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E a outra que é a descentralização administrativa, que consiste na transferência de
recursos, tarefas e poder de decisão para as autoridades hierarquicamente inferiores (os
distritos).
1.2. A Materialização do poder Local em Moçambique
Em Moçambique o processo de devolução do poder e do aprofundamento e a consolidação
da democracia, foi criado e configurado com base na Lei n.º 2/97 de 18 de Fevereiro de 1997. De
acordo com Alves e Cossa (1998, citado por Teresa Nhambirre, 2011), esta lei é criada, como
forma da decisão já não ser tomada em nome e por conta do Estado, mas sim em nome e por
conta de uma autarquia local por um órgão que emana dele e que tem autonomia financeira,
patrimonial e administrativa. Assim conforme, explica Amaral (1998), este poder local dá
“capacidade efectiva de as autarquias locais regulamentarem e gerirem, nos termos da lei, sob
sua responsabilidade e no interesse da respectiva população, uma parte importante dos assuntos
públicos”.
A Constituição da República de Moçambique (revista em 2004) consagra, no seu TÍTULO
XIV, a existência do “Poder local”. De acordo com o Artigo 271 da Lei fundamental:
“1. O Poder Local tem como objectivos organizar a participação dos cidadãos na solução dos
problemas próprios da sua comunidade e promover o desenvolvimento local, o aprofundamento
e a consolidação da democracia, no quadro da unidade do Estado Moçambicano.
2. O Poder Local apoia-se na iniciativa e na capacidade das populações e actua em estreita
colaboração com as organizações de participação dos cidadãos”.
Assim, a Lei Fundamental atribui objectivos ao “Poder Local” que este deverá prosseguir.
Contudo, a realização destes objectivos precisa de estruturas (A) e um grau de autonomia suficiente
(B) para permitir a realização concreta dos interesses e fins consagrados pela Constituição. No
entanto, a criação das autarquias locais não liberta o Estado da sua responsabilidade global sobre o
país e o funcionamento das diversas instituições constitucionalmente existentes; deve, por
conseguinte, exercer algum controlo sobre as autarquias locais (C) (Cistac, 2012, p. 5).
1.2.1. As estruturas do poder local em Moçambique
Segundo Cistac (2012), duas perspectivas devem ser abordadas:
a) Descrever a organização, o funcionamento e as competências dos órgãos das
autarquias locais (A administração das autarquias locais é confiada à dois tipos de órgãos:
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um órgão deliberante e representativo: a assembleia municipal ou de povoação; e órgãos
executivos: o conselho municipal ou de povoação e o presidente do conselho municipal ou de
povoação.
b) Apresentar as relações entre os órgãos destas mesmas autarquias locais (os órgãos
executivos das autarquias locais são constituídos pelo conselho municipal ou de povoação; e
pelo presidente do conselho municipal ou de povoação.
Desta feita, o quadro normativo estabelecido define que as autarquias locais, gozam de:
i. Autonomia administrativa, que tem o poder de praticar actos definitivos e
executórios na área da sua circunscrição territorial, criar, organizar e fiscalizar
serviços destinados a assegurar a prossecução das suas atribuições;
ii. Autonomia financeira, que tem como poderes elaborar, aprovar, alterar e executar
planos de actividades e orçamento, bem como elaborar e aprovar as contas de
gerência. As autarquias locais devem também dispor de receitas próprias, ordenar e
processar as despesas e arrecadar as receitas que por lei forem destinadas as
autarquias; e
iii. Autonomia patrimonial, que tem como poder gerir o património autárquico para a
prossecução das suas atribuições6.
2.1. Quadro das Atribuições
Para Teresa (2011), as atribuições das autarquias locais respeitam os interesses próprios,
comuns e específicos das respectivas populações, e essas mesmas atribuições são feitas com
recursos financeiros ao seu alcance e respeita a distribuição de competências entre os órgãos
autárquicos e os de outras pessoas colectivas de direito público, nomeadamente o Estado,
determinadas pela presente Lei e por legislação complementar. Estas atribuições dizem respeito
ao desenvolvimento económico e social, meio ambiente, saneamento básico e qualidade de vida,
abastecimento público, saúde, educação, cultura, tempos livres e desporto, polícia da autarquia,
urbanização, construção e habitação.
2.2. Quadro Legal dos Órgãos Locais
Tendo-se verificado a necessidade de a administração do Estado dispor de um representante
específico, em cada Município da cidade capital de província, a fim de tornar mais viável a
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representação do Estado, foram introduzidas alterações ao artigo 1 do Decreto n.º 65/2003, de 31
de Dezembro. Esta alteração vai constar no Decreto n.º 52/2006, do mesmo artigo, na qual é
nomeado o representante do Estado, na figura do Administrador Distrital (Decreto n.º 52/2006,
de 26 de Dezembro). O administrador distrital é, no respectivo Distrito, o representante da
autoridade central da administração do Estado, cujo dirige a execução do programa do governo,
do plano económico e social e do orçamento do Estado. Cabe também ao administrador distrital
responder individualmente pelas actividades administrativas do Distrito perante o governo
provincial (Lei nº 8/2003) (Nhambirre, 2011).
2.3. Função dos Órgãos Locais
Os Órgãos Locais do Estado têm a função de representação do Estado ao nível local para a
administrar o processo de desenvolvimento do respectivo território e contribuem para a unidade
e integração nacional. No âmbito das suas funções de direcção estatal, exercem competências de
decisão, execução e controlo no respectivo escalão. Estes sem prejuízo da autonomia das
autarquias locais, garantem a realização de tarefas e programas económicos, sociais e culturais
de interesse local e nacional, observando a constituição, as deliberações da Assembleia da
República e as decisões do Conselho de Ministros e dos órgãos do Estado de escalão superior 8
(Artigo 2 da Lei n.º 8/2003).
2.4. Princípios de Organização e Funcionamento
A organização e funcionamento dos Órgãos Locais do Estado obedecem aos princípios da
desconcentração e da desburocratização administrativas, visando o descongestionamento do
escalão central e a aproximação dos serviços públicos as populações, de modo a garantir a
celeridade e a adequação das decisões as realidades locais9. Estes mesmos órgãos observam o
princípio da estrutura integrada verticalmente hierarquizada (Nhambire, 2011).
2.5. Coordenação entre os Órgãos Locais do Estado e as Autarquias Locais
No que respeita a coordenação dos Órgãos do Poder Local (autarquias locais) com os Órgãos
Locais do Estado (Distritos), a Lei n.º 8/2003, diz que de acordo com o Artigo 9, os órgãos locais
do Estado respeitam a autonomia, as atribuições e competências das autarquias locais,
coordenando seus planos e programas, projectos e acções com os órgãos das autarquias locais
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compreendidas no respectivo território, visando a realização harmoniosa das suas atribuições e
competências.
Na necessidade de se estabelecerem funções e competências dos distritos, como órgãos locais
do Estado, surge a Lei n.º 8/2003 de 19 de Maio de 2003, mostrando os princípios da
desconcentração. De acordo com o Artigo 46 da referida Lei, no âmbito da administração geral,
são competências do governo distrital:
a) Dirigir a execução do programa do governo e do plano económico e social;
b) Aprovar o plano de desenvolvimento e o orçamento do distrito;
c) Aprovar o relatório de balanço e de contas de execução do orçamento distrital e submete-
lo ao governador provincial;
d) Aprovar relatórios de balanço de execução dos planos de desenvolvimento local;
e) Zelar pela cobrança das receitas fiscais e não fiscais do Estado, na sua área de
competências;
f) Garantir a defesa e consolidação do domínio público do Estado e do património do
Estado no respectivo distrito;
g) Fixar as taxas e tarifas de receitas não fiscais, conforme as competências atribuídas por
lei; e
h) Aprovar o seu regulamento interno.
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Conclusão
O poder Local em Moçambique como vimos no presente trabalho teve diferentes etapas e
sofreu imensos ajuste, de modo a satisfação dos interesses da comunidade moçambicana, a nível
local. Por isso que, nesse exaustivo processo investigativo sobre O PODER LOCAL EM
MOÇAMBIQUE, tema em questão do trabalho, concluímos que, o poder local remota no
período colonial. Com a independência de moçambique o poder que estava distribuído nas
localidades, foi centralizado. E na fracassada tentativa de responder a necessidade e os objectivos
do Estado, foram redistribuídos os poderes a nível local, de modo que houvesse mais
aproximação ao cidadão na participação na gestão pública.
Assim, concluímos ainda que, com a descentralização consagrada na segunda e demais
constituições, foram criadas Autarquias Locais, cujas estas autarquias foram munidas de
Autonomia financeira, administrativa, patrimonial e normativa. Portanto, sendo uma entidade
diferente do Estado, foram criadas, também órgãos locais com poderes especiais para
responderem face a nova estrutura administrativa local.
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Referência Bibliográfica
Legislações:
Constituição da República de Moçambique (2004).
Lei n.º 8/2003, de 19 de Maio de 2003
Manuais
Amaral, D. F. Manual de Direito Administrativo, Volume I (3ª ed.). Coimbra, Portugal:
ALMEDINA.
Cistac, G. (2001). Manual de Direito das Autarquias Locais. Maputo, Moçambique:
Livraria Universitária.
Chambule, A. (2010). Organização Administrativa em Moçambique. Maputo,
Moçambique.
Cistac, G. (2012, abril). Moçambique: Institucionalização, Organização e Problemas do
Poder Local, apresentado nas Jornadas de Direito Municipal comparado Lusófono, Lisboa,
Portugal.
Nhambirre, T. R. J. (2011). Análise da Coordenação Institucional entre Órgãos do
Poder Local e Órgãos Locais do Estado: o Caso da Matola (2004-2008). Dissertação de
Mestrado. Universidade Eduardo Mondlane, Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Maputo,
Moçambique.
Lichuge, N. L. (2003). A Problemática da Coabitação dos Órgãos Locais do Estado e os
Órgãos do Poder Local: Conflito, Cooperação e Instabilidade Institucional – O Caso do
Município da Vila da Manhiça, Maputo. Dissertação de Mestrado. Universidade Eduardo
Mondlane, Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Maputo, Moçambique.
CANHANGA, N. J. V. (2001). Descentralização, Participação Comunitária e do
Desenvolvimento Municipal: O Caso do Município de Quelimane, Zambézia. Dissertação de
Mestrado. Universidade Eduardo Mondlane, Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Maputo,
Moçambique
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