POLÍTICA INTERNACIONAL PROFESSOR PAULO VELASCO
AULA 05 – POLÍTICA EXTERNA DA NOVA REPÚBLICA
1. GOVERNO JOSÉ SARNEY (1985- 1990)
Governo que se deu em razão da morte de Tancredo Neves, assumindo seu vice José Sarney.
Foi um governo marcado por muitos desafios, em especial, devido à crise econômica (moratória de 1987,
inflação alta); além da crise política (era preciso organizar o novo governo pluripartidário).
No ponto de vista da Política Externa Brasileira, Sarney segue as linhas de Figueiredo.
Nesse sentido, no que concerne à América Latina, podemos observar:
Um grande aprofundamento das relações com a Argentina, que teve como marco a Declaração de
Iguaçu (1985), estabelecida entre Alfonsin e Sarney. Esse documento afirma o compromisso das
relações integradoras econômicas e comerciais. Vale notar, inclusive, que esse acordo também é
relevante no que tange a aspectos nucleares. Aqui, nota-se que a Argentina foi elevada a condição de
parceiro prioritário para o Brasil.
Neste governo, é criado o Grupo de Apoio a Contadora, em 1985, grupo criado para dar maior
visibilidade política à Contadora. Neste Grupo de Apoio, fazem parte Brasil Argentina, Peru.
Em 1986, é criado o Grupo do Rio (importante para dar estabilidade na relação dos países da América
Latina), o qual foi substituído pela CELAC em 2011. Esse grupo do Rio foi, na verdade, uma fusão entre
o grupo de Contadora (1983) e o Grupo de Apoio a Contadora (1985).
Além disso, nota-se uma continuidade à diplomacia presidencial de Figueiredo, pois Sarney aprofunda
esse aspecto, sendo o primeiro presidente a viajar toda a América Latina.
No que tange à África, podemos notar:
Um ápice do processo de afastamento da África do Sul (o que fora iniciado por Geisel e aprofundado
por Figueiredo). Sarney, em discurso na ONU em 1985, declara a suspensão de toda a qualquer forma
de cooperação cultural e esportiva com a África do Sul (isso porque quanto mais distante da África do
Sul, melhor a imagem do Brasil perante o restante do continente africano).
A criação da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, em 1987 (Zopacas), que é um sinal de
autonomia em relação às pressões dos EUA.
Nota-se ainda, no governo Sarney, a Primeira Cúpula dos Países de Língua Portuguesa (IILP – Instituto
Internacional de Língua Portuguesa), em 1989, que melhora as relações com os países africanos de
língua portuguesa.
Em relação à República Popular da China (RPC), temos:
Uma importante viagem de Sarney à RPC, que leva à assinatura do Acordo CBERS (China-Brazil Earth
Resources Satellites), em 1988, considerado o mais ambicioso acordo técnico-científico entre países
em desenvolvimento (acordo que completou 30 anos em 2018 e em 2019 está programado o
lançamento do 6° satélite).
Em relação à URSS, tem-se a viagem inédita de Sarney à URSS, recepcionado por Gorbachev.
Quanto à Comunidade Europeia, ainda se pode observar as dificuldades econômicas e comerciais, tal qual foi
no governo Figueiredo; entretanto, há uma melhora nas relações políticas (visto que a redemocratização
brasileira foi bem recebida pela Comunidade Europeia).
Quanto às relações com os EUA, notamos:
Um “encapsulamento de crises, termo cunhado por Seixas-Corrêa. Tal expressão aponta que as crises
nas relações econômica e comercial com os EUA são plenamente comuns nessas relações, entretanto,
busca-se impedir que essas crises “contaminem” o todo/a estrutura das relações BrasilEUA. Quanto
a isso, vale observar que os dois setores que mais geraram atrito nessas relações comerciais são o
farmacêutico (patentes) e o de informática.
Além disso, o Brasil foi enquadrado na “Seção 301” dos EUA, que prevê sanção comercial a países que
não exerçam o livre comércio. Também se pode perceber que, nesse caso, a moratória declarada pelo
Brasil também contribui para gerar constrangimento na relação entre os dois países, e para solucionar
isso o Brasil busca aplicar a lógica pragmática do encapsulamento de crises.
*Obs: Vale notar também que o Brasil demonstra grande autonomia nessas relações com os EUA, pois
apresenta críticas severas feitas à invasão do Panamá pelos EUA em 1989.
Nesse sentido, a política externa de Sarney, como um todo, foi caracterizada pela adoção de uma postura mais
cooperativa (saindo de uma posição mais soberanista) junto a regimes internacionais, sobretudo em matéria
de Direitos Humanos.
Nota-se, portanto, o início da ratificação dos Pactos de Direitos Humanos da ONU de 1966 e também o
início da ratificação do Pacto de San José de 1969 (da OEA sobre Direitos Humanos), dos quais o Brasil
só passa a fazer parte no governo Sarney (em razão da democratização)
Tem-se, ainda, a assinatura da Convenção contra tortura de 1984, e essa postura brasileira pode ser
muito bem observada na receptividade que a Constituição brasileira de 1988 teve no Cenário
Internacional, sobretudo, no seu artigo 4°, o qual estabelece princípios que regem as relações
internacionais do Brasil, cujo segundo princípio é a prevalência dos Direitos Humanos.
Além disso, na diplomacia do governo Sarney é afirmada a escolha do Brasil para ser sede da CNUMAD,
mostrando também uma mudança de postura do Brasil em relação à questão ambiental.
Nota-se, também, a receptividade que a Constituição brasileira tem ao trazer a afirmação de que a tecnologia
nuclear brasileira é apenas para fins pacíficos.
*Obs: Os chanceleres do governo Sarney foram Olavo Setúbal e Roberto de Abreu Sodré.
2. POLÍTICA EXTERNA DOS ANOS 1990
Quando pensamos na política externa desse período, podemos observar três bases conceituais:
Integração Regional
Renovação de Credenciais (Gélson Fonseca Júnior)
Multilateralismo
2.1 INTEGRAÇÃO REGIONAL
Quanto à integração regional, podemos notar que:
O Mercosul, criado em 1991, é tido como papel central nas relações diplomáticas brasileiras.
A proposta de criação da ALCSA em 1993, que não se concretizou porque cedeu lugar à criação
da ALCA, em 1994, proposta pelos EUA.
E ainda podemos notar a criação da IIRSA (Iniciativa para Integração da infraestrutural Regional
Sul-Americana) em 2000.
2.2 RENOVAÇÃO DE CREDENCIAIS
Além do esforço para a integração regional, notamos um processo de renovação de credenciais:
Em 1992, em matéria de Direitos Humanos, há a ratificação dos Pactos de 1966 da ONU e do
Pacto de San José de 1969.
Em 1993, temos uma ativa participação do Brasil na Conferência de Direitos Humanos da ONU
em Viena.
Em 1998, com FHC, o Brasil reconhece a jurisdição obrigatória da Corte de San José, o que na
prática, significa colocar a sua soberania, em matéria de Direitos Humanos nas mãos de uma
Corte Internacional.
Em matéria de Meio Ambiente, temos:
Em 1992, uma ativa participação brasileira (anfitrião) na CNUMAD (Rio 92) E
em 1997, uma pronta aceitação do Brasil ao Protocolo de Quioto.
Em matéria de não proliferação, temos:
Em 1991, a criação da ABACC – Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle
(que visa a fazer um monitoramento e controle das atividades nucleares do Brasil e Argentina).
Em 1994, o Brasil se torna parte plena do Tratado de Tlatelolco (tratado de 1967). E
em 1998, o Brasil se torna parte do TNP (tratado de 1968).
*Obs: O embaixador Gelson Fonseca Júnior afirma que a renovação de credenciais é condição para a
“autonomia pela participação” ( em contraposição ao conceito de autonomia pela distância, marcada
nos governos militares).
2.3 MULTILATERALISMO
O multilateralismo é o espaço de atuação para aqueles Estados que não têm excedente de poder.
Vale notar que no multilateralismo, há uma maior horizontalidade nas relações, devido às coalizões feitas (por
exemplo, o Brasil no BRICS não é visto como Brasil apenas, mas é visto o BRICS enquanto bloco, o que possui
maior voz e respeito diante de países com maior poder e influência, como os EUA). É no âmbito multilateral
que o Brasil consegue ter voz diante das assimetrias de poder no Sistema Internacional.
3. ANOS 2000
3.1 LULA
Podemos notar uma autonomia pela integração (Tullo Vigevani), que é acrescentada por uma diversificação,
não apenas de parcerias, mas também de temas de atuação da diplomacia brasileira, o que caracteriza um
universalismo.
Nesse sentido, a política externa do governo lula foi marcada por:
Uma ênfase grande nas relações Sul-Sul
Uma ênfase no desenvolvimentismo ativo, em que o Brasil se coloca numa postura de cooperação
(cooperação técnica, cooperação para o desenvolvimento, sem exigir concessões como o “Norte”
faz, uma cooperação desinteressada), postura de oferecer ajuda, de perdoar dívidas, e de ser um
exemplo a ser replicado na questão de combate à fome.
Uma integração pós-liberal, em que o projeto do Mercosul não se dá apenas no sentido do comércio.
Um multilateralismo de reciprocidade, em que o Brasil quer reformar o multilateralismo para dar mais
visibilidade ao Sul, o que estimulou a política reformista, pleiteando por uma reforma do Conselho de
Segurança da ONU, do FMI, do Banco Mundial. Assim, num contexto multipolar, buscase transformar
as plataformas multilaterais em espaços mais representativos.
Além disso, nota-se também uma grande diversidade.
3.2 DILMA
Política externa herdada dos conceitos dos governos anteriores (Sul-Sul, Reciprocidade, etc), entretanto, não
foi dada muita intensidade a esses conceitos, sobretudo, pelas crises internas.
Assim, foi marcado por um declínio na Política Externa Brasileira, com falta de investimento nas embaixadas,
por exemplo, e pouco ativismo, o que demonstra um período de instabilidade política (marcado, inclusive,
pela troca de três chanceleres em apenas 5 anos e meio de governo)
3.3 TEMER
Foi um governo que iniciou com um discurso reformista, mas na prática, devido às crises internas, seguiu a
mesma linha da política externa adotada pela Dilma, embora tenha havido um certo estímulo à política
externa, marcado por um investimento um pouco maior no Itamaraty e por viagens a todos os países do
BRICS (e nenhuma viagem presidencial aos EUA)
3.4 BOLSONARO
Antes de tudo, é preciso ter ciência de que não há tempo hábil para se chegar a algum tipo de conclusão para
este governo, em especial porque o discurso inicialmente divulgado de um afastamento do multilateralismo,
de rompimento com órgãos Internacionais, de um alinhamento às políticas do Norte, ainda, não se pôde ser
verificado na prática. O que se pode observar, no entanto, é cada vez mais um ofuscamento da figura do
chanceler e uma projeção da figura do vice-presidente, no cenário internacional, que se põe ao lado de uma
certa “autonomia” do Itamaraty, com respeito às tradições diplomáticas e “amortecendo” políticas de
governos que fogem às linhas tradicionais de ação. Nesse sentido, a análise se torna, por enquanto,
inconclusiva em matéria de política externa do presente governo.