E se EXU foi demonizado por se parecer muito com CRISTO?
E se EXU for, de fato, JESUS?
JESUS é NEGRO
JESUS é o CAMINHO
EXU é o CAMINHO
EXU é NEGRO
EXU é JESUS
LAROYÊSHUA!
Pai, Filho e Espírito Santo. Exu, Jesus e Baco. Todos são o mesmo, mas são separados
pela Igreja idólatra e disputados entre si. Jesus “vence” ao ser tratado como seu oposto
(branco, europeu, frio, excludente, triste, sisudo, movido a ódio e desprovido de corpo).
O preço a ser pago é grande. Ao ser desprovido de EXU e BACO, suas propriedades de
vida, JESUS se torna demoníaco.
Historicamente muitas das religiões são assentadas sobre uma concepção triádica. Para
boa parte delas, as forças que constituem a vida são Pai, Mãe e Filho, tríade que garante
a continuidade da existência. Masculino e Feminino como condição de possibilidade da
vida. Mas o cristianismo histórico, que renegou a Cristo em nome do poder, converte o
feminino em uma força abstrata, Espirito Santo, cuja imagem é uma pomba (que
indiretamente ainda guarda traços da força feminina). Não existe amor sem a dimensão
do feminino como Sagrado, assim como não existe amor sem a pulsão sexual e as forças
inconscientes que nos tomam, que são as propriedades sequestradas de Cristo pela
dominação fundamentalista. Propriedades de Exu e Baco. Jesus é usurpado de seu
verdadeiro poder sem essas propriedades, podendo ser manipulado em benefício de uma
minoria que se diz proprietária exclusiva de seus ensinamentos.
Para que Cristo possa se tornar aquilo que de fato é – um ser de luz que transforma, liberta
e gera vida - é preciso reabilitar seu princípio fundamental, que é Exu. É preciso
reconhecer que Jesus é talvez o maior dos Exus. A terra era sem forma e vazia, marcada
pelas trevas e pela ausência de movimento. O movimento é Exu. O ato de criação é Exu.
No início eram Exu e sua força vital, Baco.
Um JESUS que nasce do gozo.
Um JESUS que ama e goza.
A SANTÍSSIMA TRINDADE
PAI (EXU), FILHO (JESUS) E ESPÍRITO SANTO (BACO)
EXU: O GUARDIÃO DA CASA
Laroyêshua!
Sem Exu, nenhum começo é possível. Justamente por ser a potência e o próprio
movimento de transformação das coisas, a passagem de um estado a outro é propriedade
de Exu. Por ser sempre movimento, sua representação é marcada pelo dualismo e
ambiguidade: potência, movimento, duplicidade, contraditório, múltiplo. Aquilo que faz
acontecer pelo avesso, constrói ao desfazer, arruma tudo gerando o caos. Exu não se
apreende ou se fixa em uma só imagem ou lugar. “Exu não permite certezas porque nunca
pode ser alcançado. Quando se pensa tê-lo alcançado, que se chegou a algum lugar, ele
inverte o caminho e o fim passa a ser o começo, que não é só um caminho, mas uma
encruzilhada de quatro caminhos multiplicados por milhares de outras possibilidades.
Para Exu, não existe certo ou errado, mas caminhos que podem levar a diversos
lugares, ou conduzir ao mesmo local por via diferente”1
PROPRIEDADES DE EXU
ACOLHIMENTO: EXU cuida das almas que sofrem. Acolhe o
pecador aceitando seus defeitos no amor ao invés de
arrogantemente o “redimir” e “salvar”, ou seja, confinar naquilo
que é definido como padrão.
MENSAGEIRO: o senhor dos caminhos, entre a casa e a rua, o
reino dos homens e dos orixás, a via de acesso ao divino no
homem.
SENHOR DA FERTILIDADE, daí seu poder ativo na criação
do mundo.
GUARDIÃO DA ORDEM E DA DESORDEM (como
condição de possibilidade de todas as coisas)
DUALIDADE: é a dualidade que permite e garante o acesso aos caminhos. Isso também
tem em Cristo, que é Deus e homem, corpo e espírito. Faz tanto o bem quanto o mal, a
depender do que lhe pedem.
TRANSFORMAÇÃO: tudo o que vive e está em mudança é propriedade de Exu. O
próprio sentido da vida em movimento. EXU AXÉ
1
(EDELU KAWAHALA. A encruzilhada tem muitos caminhos)
MITO
CITAR AQUI ALGUM MITO DE EXU
LIGAÇÕES HISTÓRICAS ENTRE EXU E CRISTO:
CUBA: Em Cuba, Exu é sincretizado com Jesus Cristo (menino Jesus de Atocha, dos
Espanhóis), pelo aspecto de mensageiro com o reino dos céus.
SANTOS que abrem caminhos:
“No Brasil, a Santo Antônio (o mártir que anda apoiado em
um cajado), São Gabriel (anjo anunciador), São Benedito
(santo negro que deve sair em primeiro lugar nas procissões
para que não chova) e São Pedro (o porteiro que carrega as
chaves do céu). Estes santos católicos e Exu têm em comum a
tarefa de abrir os caminhos que levam os homens a Deus ou
aos orixás” (Vagner Exu).
Mas também os eguns, que fecham os caminhos, e que utilizam nomes das entidades do
inferno.
POMBA GIRA
“A Pombagira é um Exu feminino que desafia a ordem
patriarcal da sociedade brasileira por meio da não aceitação
da subordinação da mulher aos papéis domésticos
tradicionais de esposa e mãe. Como “mulherda rua” e não
“da casa”, a Pombagira, no estereótipo da prostituta,
questiona o lar, a família, a maternidade e o casamento como
as únicas possibilidades de ação da mulher ou de expressão
do feminino. Ela se utiliza da diferença anatômica (pênis e
vagina) associada ao sexo biológico (macho e fêmea) e aos
papéis de gênero (masculino e feminino) para questionar,
através da jocosidade e da licenciosidade (como se fosse um
“trickster de saia”), o poder social que instaura as relações
de dominação”. (Vagner, Exu)
A pomba gira é a materialização feminina de Exu. A força do sagrado feminino sexual
que a religiosidade cristão busca domesticar. A bruxa, trabalho doméstico não pago
(Silvia Federicci). No caso do cristianismo, sua figura aparece como Maria Madalena, a
prostituta redimida que atrai a cristo justamente em sua condição de prostituta (cuja
santidade portanto revestia-se no interior da sexualidade)
VAGNER GONÇALVES: EXU DO BRASIL
EXU é a cara da simbologia do país, um tropo nacional. Figura das passagens, rotas,
cruzamentos, entre público e privado. Caráter carnavalizante de Exu, seu poder de
disrupção da ordem.
Exu e pomba-gira são os elementos que permitem o trânsito entre os principais sistemas
religiosos do Brasil.
“Exu e Pombagira, o casal de sexualidade icônica, seres das
encruzilhadas, coincidentemente são os que aproximam e
distanciam os diferentes sistemas religiosos brasileiros:
catolicismo, candomblé, umbanda, quimbanda e, mais
recentemente, neopentecostalismo”.
HISTÓRIA
Com a chegada do cristianismo à África no século XVI, Exu foi demonizado e
identificado com um “Príapo Negro”, pela negação cristã da sexualidade e do prazer. O
demônio cristão foi sendo representado com a imagem dos animais sacrificados para Exu.
Exu come o sangue dos animais que os cristãos consideram demoníacos.
A partir do século XIV religiões mágicas sofrem ataques a partir da perspectiva moderna
do cristianismo, que sofreram um processo de desmagização. Essa crítica do
irracionalismo dessas religiões permanece
“No século XIX, Exu continuou sendo condenado, desta vez
pela crítica da modernidade que se colocava contra o
pensamento mágico presente, sobretudo nas religiões de
possessão, de consagração de “deuses-objetos”
(“animistas”) e de exaltação do corpo, da música e da
dança para expressar o sagrado. Religiões que não passaram
pelo processo de secularização, burocratização e
“desmagização” foram vistas como especialmente
antagônicas ao desenvolvimento da modernidade, mesmo que
ciência e religião tenham se constituído como esferas
autônomas”.
BACO\DIONÍSIO: O ESPÍRITO SANTO
Em sociedade de hegemonia cristã Baco vai progressivamente se convertendo em uma
propriedade abstrata, o dionisíaco de Nietzsche em oposição a razão apolínea, senhora do
mundo. Prazeres e arte. Nietzsche buscava recuperar a igreja verdadeira ao reincorporar
o dionisíaco. Ele se torna mais abstrato e imaterial. É uma propriedade, o elo entre Jesus
e Exu, dois que são apenas um.
Assim como em Deuses Americanos os antigos deuses não desaparecem, mas assumem
novas formas para continuar existindo, Baco não desapareceu, mas ressignificou-se em
diversas práticas.
HISTÓRIA E MITO:
LIGAÇÕES HISTÓRICAS ENTRE BACO E CRISTO:
JESUS CRISTO MENSAGEIRO
Jesus é o filho concebido por Deus ao engravidar uma mulher humana. Maria, mãe de
Jesus. Da mesma maneira que acontecia com os Deuses gregos, de onde veio a inspiração
para o mito, com a diferença de que os cristãos acreditam existir um só Deus, o Deus
verdadeiro, pai de um só filho. E com a diferença também de que como a mulher e seu
prazer são pecaminosos, mas não a concepção, que é sagrada, Maria engravidou sem
conjunção carnal com Deus (ao contrário dos Deuses gregos). Livra-se, assim, Deus de
ser um violador. Livra-se também o homem da culpa pela paternidade, pois quem gera o
filho é apenas a mulher, sem participação do macho. A criação infantil é responsabilidade
exclusiva da mãe, e o homem desde então não entende o suficiente do gesto de doação
que exige a real paternidade.
Jesus veio salvar a humanidade duas vezes. Primeiro de seu pecado, livrando-o do círculo
infernal de culpa sem expiação. Segundo, do próprio Deus, O Deus hebreu, violento e
ressentido, mito de vingança grandeza de um povo escravizado e humilhado. Lei de
Talião. Quando a palavra de Deus começa a ser ouvida pelo planeta é preciso criar um
canal para que a mensagem possa ser transmitida. Esse canal é Cristo. Existem outros
canais de comunicação e o povo, mais próximo de Deus e, portanto, mais apto a ouvi-lo,
estabelece vários deles (anjos, santos, etc). Mas esses são como que canais paralelos,
pirataria. O canal oficial do cristianismo é, de fato, Jesus Cristo.
JESUS INCORPORADO\CRISTO EXUFICADO
EXUZAÇÃO DE CRISTO
Historicamente, podemos imaginar que o homem a quem chamavam JESUS era um
sujeito que passou a vida incorporando EXU. Daí sua ligação direta com o outro plano.
JESUS CRISTO É UMA MATERIALIZAÇÃO DE EXU: daí o racismo e o
etnocentrismo relacionarem com o diabo. Para a vitória da falsa igreja idólatra que é
branca, masculina e europeia.
OU, como no Evangelho Segundo Jesus Cristo, Jesus caminho com Exu quando criança,
e foi este quem o ensinou a se revoltar contra a arbitrariedade do poder da falsa igreja
baseada no ódio e na culpa, com o homem preso no círculo eterno de culpa sem redenção.
Jesus precisa de Exu porque para que Deus salve a humanidade é preciso que incorpore
em si todas as dimensões do humano, do mais elevado ao mais baixo. Exu caminha com
Cristo por seus anos de aprendizado, a parte de sua vida que os evangelhos não narram.
O aprendizado do carne e da transmutação do profano ao sagrado. Exu é o que permite
que Jesus se converta na própria igreja, o aceso de si para si mesmo.
REDENÇÃO DE CRISTO PASSA POR EXU
Só EXU pode reabilitar Cristo. O retorno a carne, que é o lugar do amor aos homens.
EXU é o lado positivo de Cristo. A verdade do Amor Divino. Carnal (VER
ARGUMENTO SARAMAGO)
Sem Exu, Jesus é a figura do Deus institucional, figura de poder, que subordina ao
humano pelo círculo da culpa sem redenção, pois sem Exu não se transita entre os
mundos.
Baixo corporal como fonte de poder, corpo, sexualidade e mudança.
RESSIGINIFICAÇÃO: Transformar Exu em diabo é uma forma de minar o seu poder,
separando o mal (EXU) do bem (Jesus). De fato, a trindade é um só e por isso é também
uma forma de minar o poder de Cristo, que assim não se fez carne e não morreu pela
humanidade, ensinando ao homem como encontrar o divino em si. Assim, o segredo é
guardado pelos fariseus idólatras. DIVIDIR E CONQUISTAR: Cristo é pacificado para
se tornar adepto dos interesses do poder (contra os quais ele lutou em vida) e não tem
como revidar pois foi separado de EXU, a força vital que torna possível a Cristo lutar,
representação da Vontade. Uma forma de negar os ensinamentos de Cristo e aproveitar-
se de sua imagem pacificada, desprovida de sua potência vital.
A vitória desse Jesus da Vingança é a derrota de sua palavra de Amor aos homens, que
só irá emergir quando Exu se revelar em Cristo.
Quando Cristo é Amor, ele é Exu. Poderoso. Devastador. Que rompe cadeias e grilhões.
Dionisíaco. Baco é a propriedade básica do Deus que é Amor.
“E as árvores do campo darão o seu fruto, e a terra dará a sua novidade, e estarão
seguras na sua terra; e saberão que eu sou o SENHOR, quando eu quebrar as varas do
seu jugo e as livrar da mão dos que se serviam delas”. Ezequiel 34:27 LIBERDADE E
FARTURA: JESUS como faceta de Baco.
JESUS como figura HÍBRIDA: Jesus da encruzilhada, do lugar de encontro com o Outro
plano, a partir da cruz. Carne e espírito.
CADA VEZ QUE UM OPRIMIDO SE LEVANTA, JESUS É EXU
EXU é a propriedade de JESUS que defende os oprimidos contra os opressores.
“Em Marcos encontramos a luta total e constante, até o fim, de Jesus contra aqueles que
usam a lei de Deus para oprimirem os pobres. Jesus solapava as bases do poder religioso.
Eles acreditavam conhecer a lei de Deus e Jesus mostra que a lei de Deus é precisamente
a humanidade do homem. Isto é, que o homem seja curado de seus males, que seja tirado
do poder do demônio, que seja restituído em sua plena humanidade e não precisamente
honrar o sábado, os ritos etc. Tudo isso é secundário para Deus. Jesus não cessa de fazer
uma luta que é política, num sentido bem amplo da palavra, e que é tirar a autoridade
daqueles que têm o poder, para que não oprimam com sua autoridade aos pobres. Luta
até o ponto de ser considerado intolerável para aqueles que têm e querem seguir tendo a
autoridade para oprimir os pobres” (Jesus e os marginalizados de seu tempo.
[Link]
seu-tempo/)
ECLESIÁSTICO 13: "O rico comete uma injustiça e clama que foi vítima; o pobre é
injustiçado e ainda precisa desculpar-se. Enquanto lhe servires, ele te empregará; quando
nada mais tiveres, ele te abandonará". "Que relação pode haver entre a hiena e um cão?
Que ligação pode ter um rico com um pobre? O asno selvagem é a presa do leão no
deserto: assim, a presa dos ricos são os pobres".
JESUS contesta o poder instituído. A medida é o homem. Nisso também é uma figura
dionisíaca, que embaralha a ordem instituída. JESUS, BACO E EXU são entidades em
movimento.
EXU COMO RESISTÊNCIA: “Exu-Legba, como ser das encruzilhadas, das trocas, do
movimento, associado ao falo e à fertilidade, é central para pensar essa rede transatlântica
na medida em que nele os caminhos das tradições, da memória e das experiências se
cruzam. Como personagem da desordem, por um lado, ele nos remete à própria perda dos
elos da vida social dos africanos e seus descendentes ocasionada pelo regime escravocrata
(desterritorialização, desumanização, sevícia, violência etc.). Por outro lado, como agente
da ordem ele possibilita a rearticulação do mundo pela inversão, cooptação, resistência,
jocosidade, criatividade, sedução, enfim, pelos atributos relacionados em geral aos seres
que habitam às margens do mundo social ou sobrenatural” (Legba no Brasil –
transformações e continuidades de uma divindade – Vagner).
PERSEGUIÇÃO A EXU
Mas porque afinal de contas Exu é tão perseguido? Ou melhor, porque ele é mais
perseguido que outras entidades do panteão africano? Historicamente podemos pensar em
algumas razões.
1. EXU DEFENDE SEU POVO. O Deus daqueles que são sequestrados e aprisionados
no grande campo de trabalho forçado chamado Brasil. Daí os proprietários declararem
guerra.
ROGER BASTIDE: Exu é o orixá que ajuda ao povo de santo combater a escravidão e
as diversas formas de opressão. Inimigo da injustiça, consequentemente inimigo do
fundamentalismo cristão. Por não abaixar a cabeça, é demonizado. Por lutar pela
LIBERDADE DOS OPRIMIDOS, Exu precisa ser silenciado pelos inimigos da
Liberdade.
2. PODER DE EXU: Exu é a condição de possibilidade de tudo. O movimento de
sacralização que dá início a todas as coisas. É ele quem garante a possibilidade de acesso
ao sagrado. Eliminar Exu é eliminar os caminhos de acesso do homem ao divino. Quem
faz isso controla esse acesso. Daí a necessidade de demonizar e incorporar.
A religião é baseado na ideia de separação, aquilo que transfere as coisas do uso comum
e cotidiano para outros tipos de uso, a partir do estabelecimento de uma série de rituais.
A religião é o conjunto de regulação desses rituais que permitem o acesso ao sagrado.
“O termo religio, segundo uma etimologia ao mesmo tempo
insípida e inexata, não deriva de religare (o que liga e une o
humano e o divino), mas de relegere, que indica a atitude de
escrúpulo e de atenção que deve caracterizar as relações com
os deuses, a inquieta hesitação (o “reler”) perante as formas
— e as fórmulas — que se devem observar a fim de respeitar
a separação entre o sagrado e o profano. Religio não é o que
une homens e deuses, mas aquilo que cuida para que se
mantenham distintos”. (Agamben, elogio da profanação)
Exu é justamente essa passagem do cotidiano para o sagrado, o movimento de
sacralização das coisas, o momento em que elas comportam a passagem do humano para
o sagrado. Daí ser a própria condição de possibilidade da existência do ritual. O
cristianismo reduz os ritos e o regula a partir de outro princípio: o segredo de acesso ao
sagrado é o próprio Deus, tornado carne. Nesse sentido, Jesus Cristo é Exu, mas não mais
como forma de acesso a outros Deuses\Orixás, mas como condição de possibilidade de
acesso a ele mesmo. Em outras palavras, Exu é a condição fundante da própria
sacralização, ou seja, da religião.
Sem Jesus\Exu, ou melhor sem a propriedade de Exu em Cristo, o que resta é a igreja
como espaço de opressão e poder, e o homem preso em um círculo infinito de culpa. O
Deus de José Saramago, cruel e manipulador, com sede imperialista de poder. Não quer
ser apenas o Deus dos judeus, mas ampliar seu poder e se tornar o Deus dos cristãos. Para
tanto, encontra na culpa e na necessidade de sua expiação um elemento universal, capaz
de ser utilizado como instrumento eficaz na obtenção de semelhante propósito. O homem,
preso no círculo infernal de culpa e expiação, sem possibilidade de redenção.
É Exu quem garante que todo homem é capaz de adentrar o reino dos céus. É a pedra de
fundação da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, que transmite a boa nova, a
possibilidade do sujeito se redimir e livrar-se do mal. Sem Exu, Jesus é apenas um ser
distante ao qual o homem deve reverenciar, máquina do mundo, uma forma de captura
do potencial emancipador do homem, em que ele é Cristo, Exu, Baco. É com Exu que a
comunhão se torna possível. Afinal, é ele o caminho.
*citar passagem de Cristo contrário aos domínios perversos da igreja
OU SEJA, TRATA-SE DA DOMESTICAÇÃO DE UM ATRIBUTO FUNDAMENTAL
DE CRISTO: Mas o principal aqui é que demonizar Exu é promover a domesticação de
um dos principais atributos de Cristo, que é o combate a tudo aquilo que afasta o homem
da divindade. A subversão contra a igreja idólatra e fundamentalista.
*As estratégias de domesticação são muitas, e todas cobram seu preço.
ESTRATÉGIAS DE DOMINAÇÃO
MARGINALIDADE
Figuras de exclusão, marginais, perseguidas
JESUS: perseguido pelos romanos e por seu próprio povo, que por ele foi perdoado
EXU: perseguido pelos Cristãos
BACO: também perseguido (ver mitologia)
*O verdadeiro JESUS, NEGRO, EXU, é perseguido e humilhado, substituído por sua
caricatura BRANCA, figura higienizada, triste, criada para promover uma redenção
através da submissão e do racismo.
INVERSÃO DE JUÍZO DE VALOR
FIGURAS de UNIÃO (ligação entre o visível e o invisível) que são interpretadas como
figuras de DESARMONIA e SEPARAÇÃO. DESEJAM e existem para UNIR, mas são
usados para SEGREGAR.
CONTROLE: Uma forma de controlar o acesso a verdade do outro plano e permitir o
acesso do homem ao divino. Forma de controle, pois só instituições específicas
controlariam o acesso a verdade. Mensagem oposta à do próprio Deus (encontrar)
BACO: orgia, negação da ordem e da razão apolínea
EXU: caos, mistura, negação dos limites e da ordem
JESUS: exclusão e perseguição fundamentalista. Não ele em si, mas o que se faz em seu
nome. Jesus é visto como amor e união (diferente dos outros, que são “só” prazer carnal,
pega e não se apega, sexo x amor). Mas é utilizado como figura de exclusão a partir do
momento em que encarna uma normatividade, quando define o jeito certo e o errado de
amar, em um projeto imposto de cima para baixo. Quando congela a multiplicidade em
normas rígidas e deixa de ter morrido por TODA a humanidade para ter morrido pela
humanidade CERTA.
JESUS precisa de sua dimensão dionisíaca e sua propriedade de Exu para garantir o
acesso dos homens a verdade universal. Precisa do corpo, precisa se fazer carne,
comungar com o vinho. Jesus descorporificado é um Jesus mutilado, Jesus sem Exu. O
fundamentalismo que nega a verdade de Exu e o transforma em diabo está mutilando e
matando ao próprio Cristo, que fez-se carne para salvar a humanidade: sem carne, não
existe salvação.
Não existe Cristo sem o espírito santo. Baco é a forma do Sagrado Espírito Santo.
GUERRA SANTA
Novo modelo religioso, a partir do pentencostalismo dos anos 1960. O adepto da
religiosidade popular tradicional, incluindo o catolicismo made in Brasil, pratica um tipo
de religiosidade sincrética que estabelece relações entre uma pluralidade de formas de fé.
Não que houvesse um paraíso de tolerância (o candomblé sempre teve que se esconder),
mas a intolerância institucional não se tornava um princípio ético do sujeito, que podia
ser cristão fervoroso e pular sete ondas, ou adotar com os santos uma proximidade
herdada dos orixás, num mecanismo particular de apropriação cultural que é marca da
cultura brasileira, que Luiz Eduardo Soares chama de “assimilação hierárquica”.
“Não consiste em eleger, dentre as várias opções religiosas,
uma verdadeira, exclusiva, ou prioritária, a que se apresenta
ao optante como a que reúne as melhores condições de
“plausibilidade” em relação às outras – segundo o modelo de
Berger (1985), – mas de compor dentro da totalidade
“encantada” de “todos os santos”, incluindo sempre aqueles
de sua preferência, numa ação complementar infinita”
(Marcelo Camurça Guerras Santas).
Ou seja, a religiosidade era afeita a prática de determinados ritos, ainda que eticamente
mais “vazios”, pois a relação com o divino era mais pragmática, baseado na permanência
de determinados rituais.
A partir da década de 60, mas principalmente a partir dos anos 1980, começa a emergir
um novo tipo de pentecostalismo mais violento e pouco inclusivo, cujo objetivo é a
demonização e extermínio simbólico da alteridade, de preferência religiões
historicamente já perseguidas, como o Candomblé e a Umbanda. Sua política é de Guerra
Santa, com retórica e práticas bélicas. A positividade do sincretismo é substituída por
uma lógica empresarial cujo objetivo é a eliminação completa da concorrência e a
formação de uma comunidade a partir do ódio ao elemento externo. Quanto mais se torna
próxima das práticas umbandistas, mais as representa como origem de todo mal.
“Tu, espírito imundo, que foi pago no cemitério, na
cachoeira. Isto é obra de macumbaria, feitiçaria. Omolu está
aqui de joelho […]. Você que vai consultar Maria Mulambo,
olha ela aqui de joelhos na Igreja Universal […]. A
Macumba é uma porcaria e nós vamos lutar contra esta
porcaria até o fim […]. Na Macumba tem uma legião de
demônios; estes demônios da macumba só querem roubar,
matar, destruir […]. Ele é um exu em forma de
caboclo”(Neopentecostal Macumbeira).
“Estes grupos se destacam por defender uma afiliação religiosa exclusiva, rejeitar
qualquer mistura religiosa e pregar um maior compromisso do indivíduo com a
instituição”. O que não somos nós é o inimigo.
RELIGIOSIDADE MODERNA: “Ou seja, essas correntes religiosas parecem introduzir
princípios racionalizantes na religiosidade brasileira: uma ética de salvação em lugar da
noção de proteção da religiosidade média dos brasileiros (Fernandes, 1990, pp. 4-5), a
escolha pessoal movida pela fé e não pela participação em rituais, e uma identidade
religiosa baseada numa crença (produto de uma escolha pessoal) e não num seguimento
da tradição atávica” (Marcelo Camurça, Guerra Infinita).
Essa postura mais baseada em ética do que em ritos torna-se mais exclusivista – existe
uma religião que detém o código correto – e, consequentemente, mais excludente, levando
ao arrefecimento de vários tipos de fundamentalismo. Se antes a católica era oficial mas
o sujeito poderia pular sete ondas sem ferir o dogma em seu fundamento, pois não é de
dogma que se trata, mas de diversos rituais de proteção, agora a superstição passa a ser
combatida como demoníaca.
Seguindo as lições de Cristo, Baco e Exu, a religiosidade brasileira promovia um trânsito
entre os vários elementos, correspondente a pluralidade de crenças e padrões étnicos que
apareciam culturalmente combinados. Com o novo modelo conservador fundamentalista,
a ordem é atirar para matar, acabando inclusive com a própria memória. Esse Cristo perde
sua propriedade de Exu e voltamos ao modelo do Velho Testamento, com um Deus
violento e fiéis pautados pelo terror.
IGREJA UNIVERSAL
REVISTA USP, São Paulo, n.68, p. 319-332, dezembro/fevereiro 2005-2006.
Instituição nacional de maior influência entre 1995 e 2015. Uma Igreja profundamente
Barroca.
Estratégias:
1. Embate direto e violento com outras vertentes religiosas, rompendo com a mais
tolerante hegemonia cultural católica. Demonização, ridicularização e destruição do
inimigo e de sua memória. Daí a semelhança com as estratégias do governo miliciano de
extrema direita. Depois de demonizar, você pode fazer o que quiser com o inimigo. Por
isso os absurdos e ofensas ditas não são sentidos como algo errado. Depois de
demonizado, vale qualquer coisa.
“Muitos cristãos vivem pedindo oração porque estão sendo
perseguidos pelo diabo. É de estarrecer, porque a realidade
deveria ser outra. Os cristãos é que devem perseguir os
demônios. Nossa luta é muito mais de combate do que de
defesa; devemos nos armar de toda a armadura de Deus para
libertar os oprimidos. A igreja deve ser triunfante e estar
sempre na ofensiva”. (Neopentecoalismo macumbeiro)
2. Apropriação e ressignificação de práticas de outras religiões. Hibridismo, que tem em
todas, mas que a Universal parodia e demoniza (estratégia da nova direita). Nova forma
de catolicismo popular (objetos mágicos, correntes). O médium se torna um fantoche nas
mãos dos pastores
Igreja Antropofágica e, nesse sentido, profundamente brasileira. Mas o lado perverso e
negativo da antropofagia: incorpora a cultura, demonizando e causando devastação real
nos praticantes originais. Porque a antropofagia tem uma dimensão de morte do outro que
é devorado.
3. Exacerbar a presença do religioso no espaço público (templos e catedrais, na mídia, na
política, grandes espaços públicos); superdimensionar o poder do demônio; hipertrofiar
os rituais de exorcismo; redimensionar o significado do dinheiro, etc.
4. Igreja Midiática
5. Religião paga: sacralização do Capital incorporado a própria lógica da instituição.
ENCENAÇÃO: a encenação do exorcismo da universal (descarrego) é ainda uma forma
de pagar tributo a Exu. Para alcançar a prosperidade, é preciso invocar essa entidade, que
assim segue viva, ainda que demonizada. Exu não tem problemas com o lugar da
negatividade, ainda que o culto afro tenha.
ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA
Entretanto, se Jesus é Exu e Exu é Jesus, é preciso reconhecer que Exu é ardiloso, na
medida em que é o próprio movimento. Exu surge como vitória justamente na derrota,
porque quando se pensa tê-lo subordinado e trancafiado, ele revela-se como seu oposto,
e quem está na cela é, de fato, o carcereiro.
CITAR AQUI ALGUM MITO QUE COMPROVA ESSA PROPRIEDADE DE
EXU
É preciso reconhecer, portanto, que aquilo que aos olhos humanos parece ser a derrota
definitiva no interior de uma Guerra Santa declarada pela religiosidade do capitalismo
travestida de culto neopentecostal é, de fato, mais um dos truques de Exu, uma forma de
retornar a casa de Cristo e perpetuar seus rituais.
O CARÁTER ZOMBETEIRO DE EXU
CARÁTER ZOMBETEIRO DE EXU: Exu assume a forma do diabo para si, como forma
de tirar onda dos medos cristãos. No panteão politeísta das religiões afro uma entidade
binária como Diabo sequer faz sentido lógico\estrutural. Mas Exu assume essa
performance para zombar dos cristãos. Para assustá-los e, as vezes, ajudá-los. A estratégia
é a mesma dos rappers que usam roupas e linguagem de “bandido”: ao assumir a
performance usada para sua marginalização, revela o desejo mais profundo daquele que
demonstra preconceito. O diabo é aquilo que os fundamentalistas evangélicos desejam e
cultuam.
EXUFICAÇÃO DA IGREJA CRISTÃO: ao entrar nas igrejas neopentecostais e se tornar
o centro dos cultos - ao lado do Deus dinheiro – essas assumem características da própria
Umbanda. Mais um truque do estrategista Exu, que sobrevive na transformação, deixando
seus inimigos com as mesmas características como forma de sobrevivência. A
“subversão” é atributo de Exu, e o permite sobreviver.
“Se uma pessoa chegar à Igreja no momento em que as
pessoas estão sendo libertas, poderá pensar que estão em um
centro de macumba, e parece mesmo” (Macedo, 1987, p. 135
– grifos meus).
DEMONIZAÇÃO CRISTÃ
EXU CRISTIANIZADO: Bastide afirma que a religião afro também foi cristianizado ao
longo dos anos, e EXU foi assumindo a performance que lhe atribuíam (as entidades são
relacionais), progressivamente imitando ao “diabo” mais caricato do imaginário infantil
ocidental. Mas Jesus Cristo é sua verdadeira forma.
ZOMBETEIRO: Exu é um zombeteiro. Trickster. Ele passa a assumir a forma do diabo
da religião hegemônica como forma também de tirar uma onda. EXU é brincalhão e não
condena, pois não existe pecado em seus domínios, pois acolhe o humano em sua
integralidade. Edir Macedo sabe que nada acontece sem Exu, e por isso em seus cultos
sempre convoca a entidade. Exu aceita participar, pois não interessa que Edir Macedo
seja um manipulador covarde. Além do mais, a piada é muito boa: a igreja que mais
persegue os filhos de santo e o próprio Exu é a que mais o cultua em suas práticas. O
domínio de Exu amplia-se consideravelmente, pois aqueles que vão até a Igreja todos os
domingos estão cultuando Exu achando que estão o combatendo. Pouco importa que o
tratem como diabo. É só mais um nome, como tantos outros com que os homens o
reverenciam. O que importa é que nessa igreja ele é mais essencial do que o próprio Deus.
É por meio dele que se chega até o divino, e por isso sua presença é a razão de ser daquela
religião.
A PROPRIEDADE de sobrevivência de Exu é a subversão, a transformação. Ele está
onde está o inesperado.
* MITO do Exu zombeteiro
PENSAR TAMBÉM a relação entre Cristianismo e Dionísio
SINCRETISMO RELIGIOSO
SÉRGIO FERRETI: se faz sentido pensar que o sincretismo (cultuar santos orixás
disfarçados de santos) inicialmente era forma de burlar a censura católica, cabe perguntar,
passados tantos anos, porque a estratégia continua. Ou seja, não terá se tornado um modo
particular de crença, com uma entidade mista?
Sincretismo é termo que adquire muitas vezes sentido perjorativo, de deturpação da
“verdadeira” religião. Deturpação da pureza. É o caso da Umbanda, por exemplo, pensada
como deturpação do cristianismo e do candomblé. Inicialmente, porém, sincretismo tinha
sentido político de junção de forças de grupos diferentes contra um inimigo comum. Seu
sentido original é de resistência.
“O Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda (1975)
apresenta cinco sentidos desta palavra. O primeiro deles
como “reunião dos vários Estados da Ilha de Creta contra o
adversário comum”. Como explica Canevacci (1996, p. 15):
“Dizia-se, de fato, que os cretenses, sempre dispostos a uma
briga entre si, se aliavam quando um inimigo externo
aparecia. [...] Na antiguidade significava junção de forças
opostas em face ao inimigo comum, de acordo com o primitivo
sentido político apresentado pelo Dicionário do Aurélio. A
partir do século XVII, tomou caráter negativo, passando a
referir-se à reconciliação ilegítima de pontos de vistas
teológicos opostos, ou heresia contra a verdadeira religião.”
Propor o sincretismo Baco, Exu e Jesus é, portanto, mas próximo do verdadeiro princípio
religiosos do que a segregação e pureza higienizadora. O sincretismo está na origem de
todas as religiões. A verdadeira religião é sincrética. A compartimentação é mecanismo
de manipulação política e estratégia de dominação. Dividir e conquistar.
“Costuma-se atribuir também o termo sincretismo em nosso
país, quase que exclusivamente ao catolicismo popular e às
religiões afro-brasileiras. Mas o sincretismo está presente
tanto na Umbanda e em outras tradições religiosas africanas,
quanto no Catolicismo primitivo ou atual, popular ou erudito,
como em qualquer religião. O sincretismo pode ser visto como
característica do fenômeno religioso”. [pg. 183]
“Lembra que o sincretismo afro-americano tem sido atacado
pelos missionários neopentecostais como pacto com o
demônio e com o paganismo e, pelos intelectuais da tradição
negra yoruba ou bantu, como herança da escravidão e uma
traição das raízes africanas” [21]. (Sincretismo e hibridismo
na Cultura Popular)
O sincretismo das religiões afro-brasileira é uma estratégia que veio de África, comum
na relação entre povos colonizadores e colonizados. Não é, pois, uma deturpação imposta
pelo cristianismo, mas uma estratégia ativa de resistência diante do poder maior do
colonizador.
“O sincretismo afro-brasileiro foi uma estratégia de
sobrevivência e de adaptação, que os africanos trouxeram
para o Novo Mundo. No Continente Africano, nos contatos
pacífi cos ou hostis com povos vizinhos, era comum a prática
de adotar divindades entre conquistados e conquistadores”.
[188]
É óbvio que escravos e quilombolas foram forçados a mudar
coisas que não mudariam se não submetidos à pressão
escravocrata e colonial, mas foi deles a direção de muitas
dessas mudanças, pois não permitiram transformar-se naquilo
que o senhor desejava. Nisso, aliás, reside a força e a beleza
da cultura que escravos e quilombolas legaram à posteridade.
(Reis, 1996, p. 20).
Nas religiões afro-brasileiras o sincretismo é uma forma de
relacionar o africano com o brasileiro, de fazer alianças como
o escravo aprendeu na senzala e nos quilombos “sem se
transformar naquilo que o senhor desejava” (Reis, 1996, p.
20), nem ficar “presos a modelos ideológicos excludentes”
(Munanga, 1996, p. 63).
(São Benedito, por exemplo, era marginal dentro do panteão católico. Foi a atuação dos
negros que “forçou” a inclusão ao sistema de culto católico. Sua canonização só
aconteceu em 1807, mas já era cultuado desde o período colonial, pelos escravos).
_______. Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural. Horizontes Antropológicos,
Porto Alegre, ano 4, n. 8, p. 182-198, jun. 1998. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 31 de ago.
de 2018.
***
NOVO TESTAMENTO: a fúria de Deus é terceirizada, ele não faz mais coisas negativas.
Seu poder tem o limite na pureza. Percepção mutilada da vida.
REGINALDO PRANDI:
EXU foi associado pelo cristianismo ao DIABO (o que contraria as regras, imagem de
subversão) e a PRIAPO (justamente o falo de Dioniso. A dimensão sexual, corpórea, o
desejo que permite ascender ao divino em nós).
AGAMBEN: Sagrado e profano representam, pois, na máquina do sacrifício, um sistema
de dois polos, no qual um significante flutuante transita de um âmbito para outro sem
deixar de se referir ao mesmo objeto. Mas é precisamente desse modo que a máquina
pode assegurar a partilha do uso entre os humanos e os divinos e pode devolver
eventualmente aos homens o que havia sido consagrado aos deuses.
Se os dispositivos do culto capitalista são tão eficazes é porque agem não apenas e nem
sobretudo sobre os comportamentos primários, mas sobre os meios puros, ou seja, sobre
comportamentos que foram separados de si mesmos e, assim, separados da sua relação
com uma finalidade. Na sua fase extrema, o capitalismo não é senão um gigantesco
dispositivo de captura dos meios puros, ou seja, dos comportamentos profanatórios. Os
meios puros, que representam a desativação e a ruptura de qualquer separação, acabam
por sua vez sendo separados em uma esfera especial.
BACO EXU DO BLUES
A imagem dos Deuses (assim como a do Blues) assume múltiplos significados e sentidos.
1. É um lugar comum do Hip Hop, em que os negros se apresentam como sujeitos
orgulhosos, guerreiros que ninguém derruba. Postura de guerra. Levado ao extremo, o
sujeito se compara com Deus, ou Jesus. Baco incorpora pelo menos três entidades.
2. No caso de Baco (e Kayne West) tem a ver com originalidade. Figuras tão originais e
criativas que rompem com as expectativas e criam um novo universo, como um Deus de
sua criação.
3. Para Baco ainda tem a ver com ruptura de fronteiras. Baco, Exu, Jesus.
LIA: POÉTICA DA ENCRUZILHADA. Linguagem marcada pelo trânsito e pelo
hibridismo.