09-Teoria Da Literatura II PDF
09-Teoria Da Literatura II PDF
LITERATURA II
autora
ALESSANDRA FAVERO
1ª edição
SESES
rio de janeiro 2016
Conselho editorial luis claudio dallier saldanha; roberto paes; gladis linhares;
karen bortoloti; marilda franco de moura
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2016.
isbn: 978-85-5548-177-2
cdd 801
Prefácio 5
2. A Estética Romântica 27
Bons estudos!
5
1
A Teoria da
Literatura e a
Estética Clássica
A arte literária clássica universal está presente até os dias de hoje em nos-
sas vidas. Essa presença se justifica pelo fato de o clássico ser o antigo que
está ainda mais presente e revigorado a cada dia, a cada nova leitura, a cada
descobrimento.
Estudaremos as produções literárias clássicas de forma distinta, ressaltan-
do as situações de criação das obras e lançando olhar atento a algumas capaci-
dades de nossos escritores eternos, para que isso desperte em você toda a magia
e a nobreza da literatura universal. Por isso, neste primeiro capítulo, faremos
algumas apreciações e ponderações sobre o que são as poéticas clássicas.
Para iniciarmos nossos estudos, é importante discorrermos um pouco so-
bre aspectos teóricos e práticos da literatura, rememorando nossas experiên-
cias de aprendizagem e cogitando algumas informações sobre a origem e as
características da produção literária humana. De tal modo, você terá oportu-
nidade de conhecer algumas abordagens sobre as disciplinas clássicas e, tam-
bém, de aprender a partir de sua própria experiência com a arte literária.
OBJETIVOS
• Conhecer um repertório de textos representativos da Antiguidade Clássica, em especial o
que se costuma chamar de “poética”;
• Estudar a arte poética sob diversos pontos de vistas teóricos.
8• capítulo 1
1.1 O que é teoria da Literatura?
A teoria da literatura é mais que uma disciplina acadêmica, é um campo de es-
tudo vasto, que envolve elementos da História e da Crítica literárias. De acordo
com Carlos Ceia, em seu o E-Dicionário de termos literários, temos:
A diversidade dos seus caminhos, bem como a ausência de uma «pureza» científica
para os cânones gerais de racionalidade que explicitam a sua configuração disciplinar,
revelam a teoria literária segundo duas grandes figuras. Por um lado, a figura que nos
mostra que é através de uma irrecusável força inclusiva que a teoria literária não só
justifica a sua coalescência face a teorias particulares da literatura e da recepção da
literatura, mas também oferece aos estudos literários uma base racional a partir da
qual se pode articular a crescente variedade de áreas por eles cobertas. Por outro
lado, a figura que nos assegura que é pela incondicionalidade do discurso impuro da
teoria literária que não só se apresentam as ambivalências próprias à reprodução da
realidade por parte da literatura e da leitura crítica da literatura, mas também se har-
monizam as diferentes abordagens intelectuais suscitadas por essa mesma realidade.
Fonte: [Link]
da-literatura&task=viewlink . Acesso em [Link].2015.
capítulo 1 •9
Mas você deve estar refletindo sobre o que acabou de ler ...
PERGUNTA
A teoria literária se faz híbrida, misturada e intercalada com elementos díspares às vezes
contraditórios, mas que, ao fim, se completam na busca de uma interpretação mais completa
e justa da produção literária? Como assim?
Calma! Carlos Ceia (2015) explica como essa hibridez dialoga de for-
ma positiva:
AUTOR
Carlos Francisco Mafra Ceia nasceu em Portalegre a 9 de Outubro de 1961. Aí fez o Cur-
so Complementar no antigo Liceu Nacional de Portalegre. Aos 18 anos, ensina Português
nesse mesmo Liceu, experiência decisiva para descobrir a vocação do magistério. Decide
então cursar Letras em Lisboa, onde se licencia em Línguas e Literaturas Modernas (Estu-
dos Portugueses e Ingleses), na Faculdade de Letras de Lisboa, em 1985. Já licenciado, foi
10 • capítulo 1
professor do ensino secundário até 1989, ensinando Português. Em 1989, faz o Curso de
Leitor do antigo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (actual Instituto Camões), sendo
depois colocado como leitor de Português na Universidade de Cardiff, Reino Unido, entre
1990 e 1993. Aí se doutorou em 1993 com uma tese com o título: «The Way of Delphi: A
Reading of the Poetry of Sophia de Mello Breyner Andresen». Regressa a Portugal em 1993
para ingressar na Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
(FCSH), para o então Departamento de Estudos Anglo-Portugueses (DEAP), hoje Departa-
mento de Línguas, Culturas e Literaturas Modernas, que coordena entre 2003 e 2004; após
a reestruturação dos departamentos da FCSH no final de 2004, coordena o novo Departa-
mento, tendo tido a oportunidade de preparar a implementação do processo de Bolonha nos
vários ciclos de ensino. Actualmente, volta a coordenar o Departamento, desde 2013-14. (...)
COMENTÁRIO
Sintetizando: a teoria literária preserva a especificidade do objeto literário sem invalidar, no
entanto, as suas várias vertentes psicológicas, sociológicas e históricas. Estas, por sua vez,
são vertentes abordadas, principalmente, pela História da literatura, como produtos culturais
e ideológicos. Já a crítica observa tudo isso e julga o que é o correto em cada um de modo
objetivo e imparcial.
capítulo 1 • 11
filósofos gregos que desenvolveram a arte da re-tórica e da poética, tendo como
principais pensadores Aristóteles, Platão e Longino.
AUTOR
Longino, Cassio (gr. Λογγiνος, lat. Cassius Longinus). - Letterato e filosofo neoplatonico (sec.
3º d. C.), oriundo della regione di Palmira. Da Atene, dove diresse l'Accademia, tenne scuola
di retorica e di filosofia ed ebbe per un certo tempo come discepolo Porfirio; passò in Siria
come maestro di greco e consigliere della regina Zenobia. Nel 273 fu dall'imperatore Aure-
liano condannato a morte perché ritenuto l'autore di una fiera epistola con la quale la regina
aveva rifiutato di arrendersi. Delle sue opere, di contenuto filosofico, grammaticale e di critica
letteraria, specialmente omerica, si hanno solo frammenti; l'unica opera di cui si conservino in-
tere parti è la Retorica. A lui fu attribuito per errore il trattato Del sublime, composto da ignoto
autore all'inizio del 1° sec. d. C., per questo noto con il nome di pseudo-Longino. Disponível
na [Link] com acesso em 15-06-2015.
CONCEITO
Longinus, Cassius (gr. Λογγiνος, lat. Cassius Longinus). - Escritor e filósofo neoplatônico
(sec. 3 º d. C.), um nativo da região Palmira . De Atenas , Onde dirigiu a Academia, que ocupou
escola de retórica e filosofia, e teve por algum tempo como um discípulo Porfirio; Ele passou
em Síria como mestre de grego e conselheiro da rainha Zenobia. Em 273 imperador Aure-
liano foi condenado à morte porque ele foi considerado o autor de uma epístola justo com
que a rainha se recusou a se render. De suas obras, conteúdo filosófico, críticas gramatical
e literária, especialmente Homer, temos apenas fragmentos; o único trabalho de que são
preservados partes inteiras é a retórica. Ele foi atribuído no erro para o sublime Tratado Del,
feita por um autor desconhecido no início do primeiro século. d. C, para este conhecido com
o nome de pseudo Longino. Disponível na [Link]
no/, com acesso em 15-06-2015.
12 • capítulo 1
©© ADRIANO CASTELLI | [Link]
Figura 1.1 – Monumento ao poeta Virgilio, filósofo latino, Mantua, Italy.
(...) a orientação aristotélica para salvaguardar o prazer que o homem tem na fruição
de um discurso rítmico e melodioso (que assegura uma das modalidades de mani-
festação da ideia de que o valor da arte reside na própria arte) se articula, no quadro
teleológico da filosofia aristotélica, com o reconhecimento mais substancial do poder
persuasivo da poesia, sobretudo através da constituição desta em instrumento peda-
gógico pela capacidade que tem de imitar as ações humanas, encorajando as virtudes
(eudamonia) e desencorajando os vícios.
Fonte: [Link]
da-literatura&task=viewlink . Acesso em [Link].2015.
capítulo 1 • 13
Você pode estar se questionando se nossos estudos serão baseados apenas
em poesia, mas não é esse o ponto. Vale explicar que arte poética é algo que vai
além de poesia, de acordo com os estudos aristotélicos
(...) Aristóteles encarou a poesia sobretudo como technê, isto é, como uso prático do
intelecto enquanto considerado no objeto produzido. Naturalmente, há condições nes-
te aspecto do pensamento aristotélico para que ele seja apropriado pela orientação
objetiva, na medida em que esta reconhece nesse pensamento o seu próprio princípio
da autonomia da obra artística (...). (CEIA, 2015)
(...) é sempre oportuno lembrar que o espectro semântico recoberto pelo termo grego
téchne é muito mais abrangente do que o que a sua tradução mais usual, arte, signi-
fica para nós. Isto ocorre porque ele não se refere apenas e tão somente à habilidade
ou destreza de um especialista qualificado capaz de produzir com maestria algum
artefato, mas também a uma dimensão teórica e especulativa. Em outras palavras, a
téchne, portanto, é para os gregos uma forma de conhecimento. (...) (p. 129)
14 • capítulo 1
Este mesmo problema assume excepcional relevo em Aristóteles, pois na Poética
claramente se afirma que “a Poesia é mais filosófica e mais elevada do que a História,
pois a Poesia conta de preferência o geral e, a História, o particular”. Por conseguinte,
enquanto Platão condena a mimese poética como meio inadequado de alcançar a
verdade, Aristóteles considera-a como instrumento válido sob o ponto de vista gnosio-
lógico: o poeta, diferentemente do historiador, não representa fatos ou situações parti-
culares; o poeta cria um mundo coerente em que os acontecimentos são representa-
dos na sua universalidade, segundo a lei da probabilidade ou da necessidade, assim
esclarecendo a natureza profana da ação humana e dos seus móbeis. O conhecimen-
to assim proposto pela obra literária atua depois no real, pois se a obra poética é “uma
construção formal baseada em elementos do mundo real”, o conhecimento proporcio-
nado por essa obra tem de iluminar aspectos da realidade que a permite.
CONEXÃO
Fernando Rey Puentes, em seu artigo A Téchne em Aristóteles, disponível na [Link]
[Link]/[Link]/hypnos/article/viewFile/18046/13406, com acesso em 25-06-2015
PERGUNTA
Aristóteles? ... Grande filósofo grego. Mas você sabia que ele é respeitado como o primeiro
crítico e teórico da literatura e da linguagem? Você sabia que suas teorias são parâmetro
para todas as teorias subsequentes nestes vinte e três séculos? É por isso, então, que Aris-
tóteles e seus escritos são considerados clássicos! Vamos tentar descobrir o que há de tão
interessante nesse homem que se atreveu a teorizar com propriedade sobre diversos assun-
tos, inclusive o discurso e a literatura?
capítulo 1 • 15
teorias, tratados ... são dois mil e trezentos anos de escritos que têm como re-
ferência a obra aristotélica, seja para tentar completar, seja para rebater suas
ideias. Se ambicionarmos entender como pôde Aristóteles discorrer e fazer bro-
tar tantos tratados sobre quase todas as áreas do conhecimento de sua época,
devemos nos debruçar um pouco sobre sua vida e seu período histórico.
©© LAMBROSKAZAN | [Link]
Figura 1.2 – Moeda grega velha entre euro – moedas, dracmas (com a face de Aristoteles,
filósofo do grego clássico)
CONCEITO
Helenismo deriva da era helênica, vem do fato de que as cidades gregas (Esparta, Atenas
etc.) localizavam-se na Hélade (conhecida hoje como Grécia), daí seus habitantes serem
chamados de helenos.
16 • capítulo 1
Aristóteles descendia de uma família de médicos e à casa reinante da
Macedônia. Não era ateniense, vivia em Estagira, uma cidade pertencen-
te à Macedônia, porém de língua grega. Atenas, cidade-Estado grega onde
Aristóteles viveu durante muito tempo, era o lugar próprio da eloquência. Seu
sistema político, seus ideais filosóficos tinham como condicionante a oratória,
seja para discutir as necessidades da cidade na Ágora, seja para debater as afli-
ções humanas no Teatro.
CONCEITO
A palavra Ágora provém do idioma grego, já que se referia, nas cidades (as chamadas “pólis”)
dessa nação, às praças públicas e às assembleias que se celebravam ali. Com o tempo, o
termo estendeu-se para fazer referência a outros locais de reunião ou de discussão.
A ágora surge na sequência da queda da civilização micénica e constitui-se como um
centro cultural, político e comercial de cada cidade. A Ágora de Atenas, onde os Atenienses
se reuniam para debater os seus problemas, foi uma das mais importantes. Atualmente, trata-
se do único edifício da Grécia Antiga que ainda conserva o seu teto de origem.
CONEXÃO
Leia mais: Conceito de ágora - O que é, Definição e Significado disponível na [Link]
de/agora#ixzz3e7XKiBAY Acesso 25-6-2015.
capítulo 1 • 17
Figura 1.3 – Escola antiga de Aristóteles, Grécia.
18 • capítulo 1
Aristóteles foi o primeiro historiador da filosofia, ou seja, o primeiro a expli-
car o desenvolvimento das ideias. No campo da linguagem, elemento que nos
interessa mais de perto, suas obras mais importantes são a Retórica e a Poética.
Por seus estudos e reflexões, Aristóteles passar a contrapor seu mestre, Platão,
quanto à concepção de arte, apesar de ser seu discípulo. Platão via a arte como
uma mimesis da natureza e, por isso, defeituosa, desvirtuada. Ao contrário,
Aristóteles via a arte como criação em suas diversas manifestações culturais,
artísticas, enfim, poéticas. Ou seja, técnica de produção de conhecimento.
CONCEITO
Do gr. mímesis, “imitação” (imitatio, em latim), designa a ação ou faculdade de imitar; cópia,
reprodução ou representação da natureza, o que constitui, na filosofia aristotélica, o funda-
mento de toda a arte. Heródoto foi o primeiro a utilizar o conceito, e Aristófanes, em Tesmo-
fórias (411), já o aplica. O fenómeno não é um exclusivo do processo artístico, pois toda ac-
tividade humana inclui procedimentos miméticos como a dança, a aprendizagem de línguas,
os rituais religiosos, a prática desportiva, o domínio das novas tecnologias, etc. Por esta razão,
Aristóteles defendia que era a mímesis que nos distinguia dos animais.
LEITURA
ANEXO A - Dissertação: Mímesis e tragédia em Platão e Aristóteles, de André Susin,
sob a orientação de Kathrin Holzermayr Lerrer Rosenfield.
capítulo 1 • 19
Só isso já explica a postura de Aristóteles em ter se preocupado em estudar
essa prática. Seu empenho concernia em observar e descobrir o que era apro-
priado para persuadir o público, examinar a estrutura do pensamento e sua ca-
pacidade de tecer discursos e criar provas racionalmente aceitas pelo interlocu-
tor, e o orador deveria proceder para convencer o outro por meio do comando
da linguagem e seus elementos argumentativos.
De acordo com a concepção aristotélica, a retórica não é uma ciência, e sim
uma poética, já que sua finalidade envolve regras da criação, em como desven-
dar o que há de persuasivo no discurso. Desse modo, a retórica institui as linhas
eficazes da prática discursiva e dos processos da oratória e dos meios dessa for-
ma de racionalidade.
Podemos inferir, então, que a preocupação de Aristóteles em tratar a retóri-
ca também como uma poética, enquanto produção discursiva, justifica-se pelo
fato de ele, vê como poética tudo aquilo que é invenção humana em sua capa-
cidade de imitação. Por isso existem diversos contornos poéticos, tais como a
lírica, a tragédia, a comédia, etc.
ATENÇÃO
Do ponto de vista aristotélico, a arte não está submissa à moral, mas em nenhum período
dissocia uma da outra, pois, ao mesmo tempo em que reflete a sociedade, chama a atenção
para aspectos morais, sociais e culturais da mesma. A arte, seja como criação ou imitação, é
dividida pelo estudioso em arte narrativa e arte dramática.
20 • capítulo 1
Figura 1.5 – Teatro antigo na ilha do Rodes, Grécia.
CURIOSIDADE
A Grécia, nasceu o teatro como o reconhecemos hoje em seus gêneros trágico e cômico,
passando pelos grandes dramaturgos de todos os tempos: Sófocles, Aristófanes, Eurípe-
des etc.
capítulo 1 • 21
O belo é uma representação simbólica do infinito; pois assim se torna ao mesmo tempo
claro como o infinito pode aparecer no finito (...) como o infinito pode ser conduzido à
superfície, ao aparecimento? Apenas simbolicamente, em imagens e signos. (...) fazer
poesia (no sentido mais amplo do poético, que se encontra na base de todas as artes)
nada é senão um simbolizar eterno. (SCHLEGEL apud TODOROV 1996, p. 251).
Isso não quer dizer que as reações finais sejam as mesmas, pois a tragédia
leva à catarse, e a comédia, ao riso, mas ambas lidam com pensamentos e senti-
mentos, embora de formas diversas de imitação e suas especificidades, segun-
do o gênero poético.
Podemos analisar como poética todos os grandes escritos ou as grandes
obras que sobrevieram dos primeiros mentores greco-romanos. Foram eles
que carregaram no papel os versos, os sentimentos, as agonias, os episódios,
enfim, os anseios humanos.
22 • capítulo 1
É preciso apreender que Aristóteles se debruça sobre a criação poética, en-
xergando nela uma revelação natural e um impulso fundamental do homem
para o belo. Atente para o fato de que o pensador não observa, em nenhuma oca-
sião, as qualidades particulares da produção artística do poeta. Isto demonstra
que ele não está preocupado com o gênio artístico, com o próprio poeta ou com
sua fonte de inspiração, nem mesmo se preocupa com a sua história pessoal.
EXEMPLO
Uma boa tragédia apresenta sempre uma intriga complexa. Que tal ler Édipo rei, de Sófocles,
por exemplo, em que o filho mata o progenitor, casa-se com sua genitora, tem filhos com ela
e, só então, depara-se com sua real identidade?
ATIVIDADES
01. Como explicar a relação teoria/história/crítica literária enquanto produção literária?
02. Por que Aristóteles trata produções argumentativas, de fundo retórico, como poética?
REFLEXÃO
Nossa experiência de aprendizado da literatura pode nos ajudar a perceber os obstáculos e
os potenciais que temos na leitura e no ponto de acesso à cultura. Ganhamos novas pers-
pectivas a respeito do que é o termo “poética. ”
Os primeiros mentores greco-romanos lavraram as obras poéticas como uma pintura
imortal, tão eterna quanto seus deuses. Não pensemos ser a poética destinada apenas e es-
pecificamente à sociedade grega período clássico... a poética ganha um caráter universalista,
pelo fato de os padrões discursivos criados e analisados por Aristóteles serem recorrentes
até hoje, tanto nos discursos e escrituras literários quanto nas teorias e críticas sobre a lite-
ratura. a linguagem e a produção humanística.
Desse modo, concluímos que a arte, na concepção clássica aristotélica, tem uma finali-
dade que se relaciona diretamente com a obra, que é externa ao artista, e isso é o que lhe
preocupa. O estudo da poética clássica visa averiguar como o belo é determinado, em sua
grandeza, coesão e sua perfeição. Enfim, a poética é uma forma de externar a Beleza.
capítulo 1 • 23
LEITURA
ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Ediouro. (Clássicos de bolso)
STALLONI, Yves. Os gêneros literários. Rio de Janeiro: Difel, 2001.
VIRGÍLIO. Eneida. Trad. Carlos Alberto Nunes. A montanha: São Paulo, 1993.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Ediouro. (Clássicos de bolso)
CEIA, Carlos. E-Dicionário de termos Disponível em < [Link]
php?option=com_mtree&link_id=40:teoria-da-literatura&task=viewlinkK >. Acesso em [Link].2015.
OROZ, Sílvia. Melodrama: o cinema de lágrimas da América Latina. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1992
PUENTES, Fernando Rey. A Tchenê em Aristóteles, disponível na < [Link]
php/hypnos/article/viewFile/18046/134066 >, com acesso em 25-06-2015.
STALLONI, Yves. Os gêneros literários. Rio de Janeiro: Difel, 2001.
AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1976. 1ª ed.
Brasileira. Versão em html disponível na < [Link] >.
Acesso em: 3-7-2015.
TODOROV, Tzvetan. Teorias do símbolo. Campinas: Papirus, 1996.
Anexo A
Resumo:
Esta dissertação visa analisar os conceitos de mimesis e tragédia nas dife-
rentes abordagens dos filósofos Platão e Aristóteles. O problema principal que
condiciona a análise é a relação entre, de um lado, as obras de arte e, de ou-
tro, a realidade e os juízos morais. Esse problema é estudado através de uma
análise dos principais textos nos quais os respectivos filósofos elaboraram
24 • capítulo 1
suas reflexões sobre o tema, a saber, os livros II-III e X da República de Platão
e a Poética de Aristóteles. Nessas diferentes obras vemos progressivamente a
elaboração da primeira reflexão ocidental sobre, a atividade artística em geral,
com ênfase especial na poesia trágica. A polêmica platônica em torno da mime-
sis e da tragédia tem por objetivo servir de pano de fundo para a compreensão
da tese aristotélica de que a ação poética é distinta da ação tal como estruturada
na vida, em função da prioridade “ontológica” concedida à ação trágica com
relação aos caracteres. A tese platônica relativa à arte é de que a mimesis está
na origem da perversão da alma intelectiva e racional capaz de estabelecer a
verdade a partir da rememoração da Forma transcendente. Como a tragédia é
a imitação da aparência visível das coisas, o que o poeta faz é absorver a coisa
sensível em uma imagem parcial, isto é, um pequeno pedaço da coisa, visto que
ela, quando sustentada unicamente pela posição do olhar do artista, estilhaça-
-se em uma multiplicidade cambiante de imagens que essa mesma coisa pode
fornecer. É apenas a Forma transcendente que pode bloquear essa proliferação
incessante de imagens que distorcem a imagem absoluta das virtudes e da ver-
dade. Ao contrário, em Aristóteles, não vemos nada dessa redução da intriga
(mythos) trágica aos conceitos discursivos ou aos valores estáveis éticos. Ao es-
tabelecer o mythos como princípio formal da tragédia, Aristóteles subordina as
demais partes constituintes da tragédia à ação enquanto disposição dos fatos
em sistema. Assim, caracteres, discursos racionalmente articulados, espetácu-
lo etc., situam-se em uma posição secundária e subordinada correspondente
ao princípio material, deixando-se, dessa maneira, determinar-se pela estrutu-
ra simultaneamente lógica e emocional da tragédia. Isso tem como consequên-
cia interditar a redução e a imobilização da tragédia em juízos morais enfáticos.
capítulo 1 • 25
26 • capítulo 1
2
A Estética
Romântica
Neste capítulo, estudaremos a estética romântica, desde as origens do Roman-
tismo literário e, principalmente, suas relações com o contexto histórico, que
determina o uso da linguagem e influencia diretamente na constituição de
suas características.
COMENTÁRIO
É bom lembrar que, no romantismo, podemos encontrar até mesmo obras que podem ser
híbridas, uma vez que os autores transitam por poesia e prosa com a maior facilidade e sem
a menor cerimônia.
OBJETIVOS
• Reconhecer as várias facetas do movimento romântico;
• Estudar suas características românticas;
• Conhecer suas variadas manifestações literárias em verso e prosa;
• Reconhecer as várias facetas do movimento romântico, seus autores, suas obras e, princi-
palmente, suas variadas manifestações literárias.
28 • capítulo 2
2.1 Origens históricas
Nas origens do Romantismo, o momento histórico social estava conturbado,
pois a sociedade estava dividida em duas camadas completamente distintas.
De um lado, tínhamos a burguesia capitalista, possuidora dos domínios políti-
cos e econômicos, e de outro, o proletariado, dotados da força de trabalho, que
constituía mão de obra barata, diga-se, elemento fundamental para o desenvol-
vimento da época.
Essa divisão social é fruto da Revolução Industrial (figura 2.1), que gerou uma
certa alteração no modo de produção. Antes da Revolução Industrial, o que se
tinha eram os artigos manufaturados. A partir da insurreição industrial, com ma-
quinários e divisão por tarefa, os produtos passam a ser industrializados, como
aconteceu, por exemplo, com tecelagem do algodão, ou seja, fruto da produção
em grande escala, podendo ser denominados “produtos de massa”, já que a esca-
la de produção era maior e atingia, também, um maior número de pessoal, além
de provocar o deslocamento da população do campo para as cidades em busca da
“suposta melhoria de vida”, diante do processo de industrialização.
Figura 2.4 – Esta cidade do norte era cidade do algodão chamado no século XIX Começou
a vida no período medieval adiantado como um número de aldeolas de cultivo cercadas pelas
casas senhoriais e pelas florestas reais, ganhando um mercado sobre 700 anos há Seu pe-
ríodo principal de expansão veio durante a Revolução Industrial, quando cresceu em uma das
cidades as mais proeminentes do moinho de Lancashire. Em seu pico, transformou-se um dos
produtores os maiores do mundo do pano de algodão e de um centro principal da engenharia
capítulo 2 • 29
Percebe-se que, com o processo de industrialização, grandes massas urba-
nas foram geradas. Essa nova formação social influenciou o mercado em geral,
inclusive o mercado literário se expandiu e se diversificou para atende ao inte-
resse da burguesia, nova classe dominante, nova apreciadora da arte literária,
principalmente do gênero romance.
COMENTÁRIO
Antes o mercado literário estava reservado a uma produção poética específica, pronto a
atender ao gosto da aristocracia.
(...) a tendência romântica para a superação da finitude da forma [está] à volta do infi-
nito, na qual tantas vezes foi indicada a própria essência da estética romântica, expri-
me-se de maneira mais evidente: se o clássico é perfeição, forma acabada, contornos
definidos e íntegros, o romântico é progresso contínuo, forma aberta, superação dos
limites definidos no tempo e no espaço. Este contraste foi muitas vezes formulado
pelos próprios teóricos do romantismo como antítese entre o caráter escultório do
clássico e o pictório do romântico. (ANGELO, 1998, p.194)
30 • capítulo 2
Na Europa, é muito comum encontrarmos o medievalismo na estética ro-
mântica, por meio do qual o mundo medieval e seus valores é trazido de volta,
como sinônimo de conquistas, heroísmo e coragem nas batalhas, como ilustra
a (figura 2.1) a seguir.
©© PARKINSONSNIPER | [Link]
Figura 2.5 – Foto de um ornamento medieval, incluindo uma espada curta e dois macha-
dos, com algum reino–como emblema. Todos são anexados em um de madeira, protegem o
suporte dado forma.
EXEMPLO
No Brasil, José de Alencar e Gonçalves Dias idealizaram o índio como o brasileiro autêntico
e o povo brasileiro como fruto da terra brasileira como elemento importantíssimo para a
valorização da Pátria.
capítulo 2 • 31
Na estética romântica, a natureza compartilha do sofrimento do eu-poético,
uma vez que pode ser vista como reflexo de seu mundo individual, de sua alma.
A natureza advém, assim, do alargamento do eu poético – triste ou alegre –dian-
te do mundo, manifestando seu estado de espírito por meio das suas produções
artísticas. Sendo assim, a expressão de uma dada realidade depende da inter-
pretação subjetiva do eu íntimo. Diante da paisagem expressa na figura 2.3,
o eu interior pode sentir-se solitário, isolado, ou ver sob uma perspectiva de
beleza, suavidade própria do outono.
©© QUDRATELLO | [Link]
ATENÇÃO
O tema da natureza também aparecia na estética árcade, mas lembremos que a paisagem
era bucólica, pano de fundo ou simples panorama para os afetos do trovador, mas ficava
insensível às emoções do eu-lírico.
32 • capítulo 2
Podemos inferir, a partir do tratamento do tema em relação à natureza, que
a estética romântica é extremamente subjetivista, já que o artesão romântico
busca versar os assuntos de forma pessoal, por intermédio de seus sentimen-
tos. De tal modo, sua alma é subjetiva, pois pinta a realidade de forma parcial.
Em certas ocasiões, o eu-lírico se transforma no cerne incondicional da obra
literária. Desse modo, percebe-se a introspecção como resultado da inadapta-
ção do indivíduo ao meio em que vive. Devido a este motivo, o artífice se abriga
em seu mundo reservado para fugir do tumulto íntimo que sente em conta-
to com a sociedade. Assim, a estética romântica revela o mundo, mas apenas
como ensejo para que o poeta possa ilustrar aquilo que interessa dentro dessa
perspectiva estética subjetivista, que é a intimidade do poeta e sua constante
frustração diante da sociedade que não o acolhe.
O subjetivismo acaba por desembocar no sentimentalismo expresso pela
estética romântica, que revelava a analogia entre o artista e o mundo ao qual
pertencia, o que proporcionava uma integração continuamente intermediada
pelo sentimento. Ante um tema amoroso, político, social ou indianista, a esté-
tica romântica aparece com grande implicação emotiva do artífice em relação
ao tema abordado. Certas dores são fiéis em todos os indivíduos, como tristeza,
solidão, saudade, desilusão, amor não correspondido...
A figura 2.4 ilustra bem uma tendência da estética romântica – o mal do sé-
culo –, expresso em forma de depressão, solidão, isolamento e tristeza.
capítulo 2 • 33
De acordo com Silveira, há uma visão integrada e progressiva da natureza
nas formulações românticas, pois
A noção de uma força da vida, uma força criativa, está aqui oposta à estrita concep-
ção mecanicista, em que causas e agentes externos eram absolutamente necessários
por porem em atividade e movimento esta natureza sem atividade interna. Havia para
os românticos, exatamente nessa consideração teleológica da natureza, a expressão
máxima da comunhão do ideal com o real. (SILVEIRA, 2012, p. 121)
34 • capítulo 2
b) Problemas e sofrimentos íntimos que torturam a alma do escritor e aos quais
este foge pelo caminho da evasão. A inquietação e o desespero dos românticos
– o mal du siècle – estão na origem da fuga ao circunstante e do anélito por uma
realidade desconhecida. (...) O tédio, o sentimento de abandono e de solidão, a
angústia de um destino frustrado constituem outros tantos motivos que abrem
aporta da evasão.
c) Recusa de um universo finito, absurdo e radicalmente imperfeito. Geralmen-
te, esta recusa envolve um sentido metafísico, pois implica uma tomada de po-
sição perante os problemas da existência de Deus, da finalidade do mundo, do
significado do destino humano, etc. Lembremos a revolta dos românticos ante o
mundo finito, ou a fuga dos surrealistas de um mundo falsificado pela razão.
Se se morre de amor!
(...)
Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!
Gonçalves Dias
capítulo 2 • 35
CONEXÃO
Leia também um estudo sobre o poema Se se morre de amor! de Gonçalves Dias disponível
em [Link] acesso
em 16-6-2010.
36 • capítulo 2
5. A criação de personagens constitui outro processo frequentemente utiliza-
do pelo escritor, particularmente pelo romancista, para se evadir. A personagem,
plasmada segundo os mais secretos desejos e desígnios do artista, apresenta as
qualidades e vive as aventuras que o escritor para si baldadamente apetecera. (...)
6. O sonho, os paraísos artificiais provocados pelas drogas e pelas bebidas, a orgia,
etc., representam outros processos de evasão com larga projeção na literatura. A lite-
ratura romântica e simbolista oferece muitos exemplos destas formas de evasão.
Na verdade, a característica que mais resume tudo o que vimos até agora é
descrita como verdadeiro e genuíno anseio por liberdade!
A estética romântica procura se libertar dos rígidos padrões da estética clás-
sica. Importam as aspirações individuais, as emoções, os sentimentos. Daí o
resultado de uma produção poética com versos livres, pois:
(...) cada homem possui sua própria natureza e seu próprio amor, também traz dentro
de si sua própria poesia. Que precisa ser preservada, tão certo quanto ele é aquilo que
é; tão certo quanto nele há alguma coisa, pelo menos, que seja original; e nenhuma
crítica pode ou deve roubar-lhe sua essência mais própria, sua mais íntima força, para
refiná-lo e purificá-lo até uma imagem comum, sem espírito e sem sentido, como se
esforçam os tolos, que não sabem o que querem. (SCHLEGEL, 1994, p. 29)
PERGUNTA
Você sabia que a estética romântica costuma ser dividida em três gerações conforme suas
manifestações em prosa e poesia e os temas abordados?
capítulo 2 • 37
Incidamos, então, ao estudo da poesia segundo a estética romântica.
A poesia romântica é uma poesia universal progressiva. Sua vocação não é apenas
unificar novamente todos os gêneros separados da poesia e estabelecer uma ligação
entre poesia e retórica. Ela quer e deve igualmente tanto misturar quanto amalgamar
poesia e prosa, genialidade e crítica, poesia e arte e poesia natural, tornar a poesia
viva e social (SCHLEGEL apud TODOROV 1996, p. 247).
CURIOSIDADE
Você sabia que Virginia Woolf escreveu uma resenha sobre Wordsworth, escritor que apregoa
a contemplação da natureza como passagem para a construção do conhecimento? Leia a
resenha disponível em [Link] Acesso em:
3-7-2015.
38 • capítulo 2
The winds that will be howling at all hours,
And are up-gathered now like sleeping flowers,
For this, for everything, we are out of tune;
It moves us not. –Great God! I'd rather be
A Pagan suckled in a creed outworn;
So might I, standing on this pleasant lea,
Have glimpses that would make me less forlorn;
Have sight of Proteus rising from the sea;
Or hear old Triton blow his wreathed horn.
ESTUDO DE CASO
William Wordsworth é reconhecido como um dos poetas que melhor soube expressar artisti-
camente a relação entre o homem e a natureza. Sua infância no norte da Inglaterra despertou
uma paixão pelo natural que eclodiria em uma inovadora forma de pensar a vida e o mundo.
Em “The world is too much with us”, tem-se não um elogio à comunhão do ser humano com
a natureza, mas um lamento pelo afastamento dos dois. Com o avanço da Revolução Indus-
trial inglesa no século XIX, Wordsworth observou o surgimento de uma sociedade voltada para
valores superficiais, interessada apenas em acumular riquezas para depois gastá-las em bens
materiais. No poema, o sujeito poético, consternado, constata esse cenário e afirma que todos
nós perdemos nossos corações, como um “sórdido presente” (l.4) dado ao mundo das máquinas
e do capital. Por essa razão, a identificação do homem com a natureza se esvai e já não mais se
consegue vê-la em nós: “little we see in Nature that is ours” (l.3). A partir daí, o eu-lírico compõe
uma vibrante imagem de um mar revolto que bate suas ondas sob um vento uivante que corta os
dias (l. 5-7) para dizer que, apesar de tamanha beleza e poder nas forças da natureza, o homem
está em completa desarmonia com ela. Não mais sintonia nem comoção entre os dois. O homem
perdeu sua sensibilidade e a capacidade de ver o belo mesmo nas coisas mais naturais da vida.
Trata-se de uma crítica recorrente na poesia romântica, pois os poetas desse tempo voltavam-se
para a natureza como um lugar de refúgio, um abrigo que pudesse salvá-los do mundo urbani-
zado onde se sentiam deslocados. Importa notar ainda que natureza contemplada no poema é
absolutamente arrebatadora, já que a sensibilidade romântica previa uma expressão subjetiva do
mundo, coerente com o sentimento do poeta. Era exatamente assim que Wordsworth sentia-se,
transtornado, confuso e aturdido frente a tantas mudanças radicais na sociedade de seu tempo.
O sujeito lírico, após apresentar sua indignação, passa a aspirar uma diferente vida. Mesmo sendo
capítulo 2 • 39
um cristão, na Inglaterra católica oitocentista, ele afirma preferir ser um pagão (l.9-10) para ver
Deus na natureza como o faziam os clássicos. O fim do poema introduz dois deuses da cultura
greco-romana ligados ao mar: Tritão e Proteus (l.13-14). Ambos eram considerados divindades
ligadas ao mar, que ali mostravam todo seu poder e exuberância. O que Wordswoth quer dizer é
que ele seria menos infeliz se pudesse ter esse mesmo tipo de relacionamento com a natureza
que os homens da Antiguidade tiveram. A religiosidade romântica reside na crença de que Deus,
o grande Criador, está presente na natureza, sua grande Criação. O simples fato de observar o
mar e sentir o vento soprar – e não a obrigatoriedade em cumprir um conjunto de dogmas pré-es-
tabelecidos – seriam, assim, meios de conhecer Deus verdadeiramente.
O século XIX assistiu a inúmeras mudanças na estruturação das sociedades modernas,
que culminaria com a formação de um mundo mecanizado e interligado por redes de co-
municação invisíveis no século XXI. Até hoje, “The world is too much with us” é um poema
muito significativo, na medida em que o homem contemporâneo continua preocupado com o
trabalho, com a aquisição de riquezas, com a busca incansável pelo lucro e ainda se esquece
de admirar as discretas belezas que a vida insiste em oferecer a todos nós.
Fonte: [Link] .
Acesso em: 3-7-2015.
AUTOR
William Wordsworth (...) fez parte do movimento romântico inglês [e] tratou do sentimento
interno e contra a razão, características do romantismo.
(...)
Wordsworth estudou na universidade de Cambridge e durante sua fase de estudante
publicou seu soneto na The European Magazine.
Em 1795 conheceu Coleridge e com sua colaboração escreveu e publicou Lyrical
Ballads. Era conhecido, juntamente com Coleridge, como “Lake Poets” por terem morado no
Lake District. Em torno de 1798 começou a escrever um poema autobiográfico, que ficou
pronto em 1805 e só foi publicado em 1850 após sua morte com o título The Prelude.
(...) No fim de seus dias, Wordsworth abandonou seus ideais radicais e se tornou patriota
e conservador.
Fonte: [Link] . Acesso
em 16-6-2015.
40 • capítulo 2
Quanto à prosa, quase todas as publicações assumiram a forma do folhe-
tim, uma vez que o artista deveria submeter-se às exigências do público bur-
guês, que estava no seu auge, e dos diretores dos jornais, que comandavam as
publicações. Desse modo, os romances eram publicados ao fim das páginas
dos jornais, em “doses homeopáticas”.
No Brasil, o panorama é tropical, pintado e descrito em toda a sua exuberân-
cia, e tem como destaques principais o indianismo, o saudosismo patriótico, a
natureza sublime, a religiosidade e o amor inatingível.
EXEMPLO
Para ilustrar a temática da segunda geração e vislumbrar a obra de Victor Hugo, você pode
assistir ao filme Os miseráveis, disponível na [Link]
31vXk . Acesso em 6-6-2015.
capítulo 2 • 41
Como se vê, a morte aparece como tema expresso de diversas maneiras,
como fuga da realidade ou elemento de gosto satânico. Agora, leia um de seus
poemas mais famosos:
42 • capítulo 2
MULTIMÍDIA
Quanto à temática dessa geração, você pode assistir ao filme Frankenstein, de Mary Shelley
disponível na [Link] . Acesso em: 16-4-2014.
AUTOR
Victor Hugo nasceu em 26 de fevereiro de 1802, em Besancon, na França. Ele foi poeta, ro-
mancista, dramaturgo e um dos mais importantes escritores românticos franceses do Século
XIX. Uma das obras mais conhecidas de Victor Hugo é Notre-Dame de Paris (também co-
nhecida como O Corcunda de Notre-Dame) escrita em 1831, além da obra Les Miserables
(Os miseráveis) de 1862. Ambas contaram com adaptações para o cinema.
(...)
Victor Hugo criou poemas e romances que integravam questões políticas e filosóficas
em histórias que procuravam retratar a sua época. Mesmo quando as obras ambientadas em
outro período histórico, a exemplo de Notre-Dame de Paris, ele levava o leitor a refletir sobre
o seu tempo. Muitos dos poemas de Victor Hugo são destinados às inquietações sociais da
França pós-revolucionária. Ele procurava escrever com simplicidade, buscando retratar de
forma bastante humana as alegrias e vicissitudes da vida. (...)
Um tema recorrente na obra de Victor Hugo é o eterno embate humano com o mal, seja
ele externo ou interno. Ele foi um expressivo narrador dos problemas do seu tempo e das
grandes inquietações humanas.
(...)
capítulo 2 • 43
Demonstra uma forte tendência ao estranho, ao maravilhoso, ao exótico e ao pitoresco.
Em 1830 estreia Hernani, sua primeira obra teatral, que representa o fim do classicismo, e
desencadeou uma polêmica apaixonada. Essa obra expressa novas aspirações da juventude.
Para Hugo, começa então um período de fecundidade, deseja afirmam-se como o único e
maior poeta lírico da França.
A busca de Victor Hugo por mais liberdade na arte é exemplificada no romance épico
Cromwell (1827). O prefácio deste trabalho é o mais influente manifesto do romantismo
literário. Nele o escritor fala da necessidade de romper com as amarras e restrições do
formalismo clássico formal para poder então refletir a extensão plena da natureza humana.
(...)
Fonte: [Link] . Acesso em 3-7-2015.
MULTIMÍDIA
Para ilustrar a temática da segunda geração e vislumbrar a obra de Victor Hugo, você pode
assistir ao filme Os miseráveis, disponível em [Link]
31vXk . Acesso em 6-6-2015.
ATIVIDADE
01. Complemente seus estudos sobre o romantismo e depois cite e explique, resumidamen-
te, os principais temas abordados na estética romântica.
REFLEXÃO
Como vimos neste capítulo, a estética romântica é fruto de um período perturbado por fortes
modificações sociais, políticas e culturais.
A Revolução Industrial trouxe, com novas invenções, o avanço de produção e a sepa-
ração do trabalho. Da Revolução Francesa nasceram os novos ideais de sociedade, com
44 • capítulo 2
respeito aos direitos individuais, por isso, do mesmo jeito que a sociedade passava por modi-
ficações, a atividade artística também visava a dissolver os moldes e as regras acadêmicas da
estética clássica, buscando a livre expressão da originalidade do artista, pensado e expresso
pelo eu poético.
Como vimos neste capítulo, a poética romântica passou por diferentes momentos, que
classificamos didaticamente em gerações, cada qual segundo suas características e temas.
No entanto, precisamos deixar claro que nosso estudo crítico não deve ser resumido ao
panorama aqui fornecido.
Enfim:
O poeta pode seguir seu gosto particular, e no amador isso passa despercebido,
por um certo tempo. O conhecedor, entretanto, e quem quiser obter conhecimento,
deve sentir a ânsia de compreender o próprio poeta, isto é: perscrutar a história de
seu espírito, o quanto for possível. Este esforço, todavia, tem de permanecer apenas
uma tentativa, porque na história da arte apenas uma totalidade explica e esclarece a
outra. É impossível compreender uma parte por si mesma; ou seja, é insensato querer
examiná-la apenas na particularidade. O todo, entretanto, ainda não está acabado; e,
portanto, qualquer conhecimento deste tipo continua aproximado e incompleto. Mas
não podemos, nem devemos renunciar completamente à ânsia pelo todo, quando esta
aproximação, este trabalho fragmentário é um componente essencial para a formação
do artista. (SCHLEGEL, 1994, p. 71)
LEITURA
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1995.
PEIXOTO, Sergio Alves. A Consciência Criadora na Poesia Brasileira: Do Barroco ao Simbolismo,
de São Paulo: Annablume, de 1999.
capítulo 2 • 45
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1976. 1ª ed.
Brasileira. Versão em html disponível na < [Link] >.
Acesso em 3-7-2015.
ANGELO, Paolo. A estética do romantismo. Lisboa: Estampa, 1998.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. São Paulo: Cultrix, 1998.
SCHLEGEL, F. Conversa sobre a poesia. Tradução de Victor-Pierre Stirnimann. São Paulo:
Iluminuras, 1994.
SCHLEGEL, F. O dialeto dos fragmentos. São Paulo: Iluminuras, 1997.
SILVEIRA, R. W. D. DA. Para Pensar a Unidade do Primeiro Romantismo Alemão In: Existência
e Arte – Revista Eletrônica do Grupo PET – Ciências Humanas, Estética da Universidade Federal de
São João Del-Rei – ANO VIII – Número VII – Janeiro a Dezembro de 2012. Disponível na < http://
[Link]/portal2-repositorio/File/existenciaearte/Para_Pensar_a_Unidade_do_Primeiro_
Romantismo_Alemao.pdf >. Acesso em 3-7-2015.
TODOROV, Tzvetan. Teorias do símbolo. Campinas: Papirus, 1996
46 • capítulo 2
3
A Estética
Moderna I:
Século XIX
Compreendemos que muitos de nossos saberes são construídos inventariados
primeiramente de acordo com o juízo ordinário, mediano. No entanto, nosso
rumo neste capítulo será o de aperfeiçoar, dilatar e adentrar o conhecimento
que já temos sobre o objeto literário. Nosso intento será acrescentar informa-
ções que estão além do senso comum, a partir do ponto de vista da teoria da
literatura.
Nesta peculiaridade, estudaremos a progresso das correntes filosóficas e
ideológicas que dialogam com a produção e a teoria literárias. Isso nos propor-
cionará uma nova investida nos estudos e compreensão da literatura do sécu-
lo XIX.
Desse modo, para analisarmos a produção literária de um século ou perío-
do, é preciso, antes, entender quais eram as correntes filosóficas vigentes àque-
la época.
OBJETIVOS
• Conhecer as correntes filosóficas do século XIX;
• Entender o contexto histórico do século XIX;
• Correlacionar as correntes filosóficas e as produções literárias do século XIX.
48 • capítulo 3
3.1 Correntes filosóficas do século XIX
Na Europa do século XIX, brotam o cientificismo e o materialismo em substitu-
tivo à alma de mundo espiritualista dos poetas do Romantismo.
CIENTIFICISMO MATERIALISMO
capítulo 3 • 49
CURIOSIDADE
O liberalismo envolve um grupo de pensadores que viveram as particularidades da Europa
nos séculos XVII e XVIII. Nessa época, o espírito empreendedor e autônomo da burguesia
propôs outras possibilidades na relação entre os homens e o mundo. A figura do burguês,
que se lançava ao mundo para o comércio e contava com sua própria iniciativa para alcançar
seus objetivos, destoava de todo um período anterior em que os homens colocavam-se sub-
servientes ao pensamento religioso.
Nesse contexto, vários pensadores se mobilizam no esforço de dar sentido àquele mun-
do que se transformava. Um primeiro ponto do pensamento liberal defendia a ideia de que
o homem tinha toda a sua individualidade formada antes de perceber sua existência em
sociedade. Desta maneira, o indivíduo estabelecia uma relação entre seus valores próprios
e a sociedade.
O modo mais sensato para que o homem pudesse equilibrar-se entre si mesmo e o social
seria o uso da razão. A razão consistia na habilidade do homem em experimentar o mundo à
sua volta (empirismo) e assim ponderar sobre as formas mais úteis e inteligíveis de se buscar
seus interesses. Essa mesma razão seria um dote visível nos homens que tivessem sede
pelo conhecimento. Em sociedade, o uso da razão também iria auxiliar na construção das
melhores instituições e práticas.
(...)
Cada pensador liberal, ao seu modo e a partir de determinadas perspectivas, lançou um
tipo de teoria. No entanto, em meio à diversidade de suas ideias, estabeleceu-se um conjunto
de valores que integravam, liberdade, razão, individualidade e igualdade como princípios nor-
teadores pela busca da felicidade humana.
Fonte: Liberalismo, por Rainer Sousa [Link]
[Link] . Acesso em 11-6-2015.
50 • capítulo 3
AUTOR
Charles Darwin (1809-1882) foi um naturalista inglês, autor do livro “Da Origem das Espé-
cies”. É considerado o pai da “Teoria da Evolução”.
Charles Robert Darwin (1809-1882) nasceu em Shrewsburv, Inglaterra, no dia 12 de
fevereiro de 1809. Filho de médico e neto de poeta, médico e filósofo, desde a infância
revelou-se inteligente, arguto e observador, procurando compreender tudo que lhe ensina-
vam. Gostava de História Natural e fazia coleção de pedras, conchas, moedas, plantas, flores
silvestres e ovos de pássaros.
(...)
O principal tema das pesquisas de Charles Darwin sempre foi o problema da evolução.
O naturalista foi formando sua teoria, segundo a qual as formas de vida evoluem lenta mas
continuamente através do tempo. No decorrer desse processo vai ocorrendo uma seleção
natural – a sobrevivência do mais apto. Em 1859, Darwin lança seu livro “Da Origem das
Espécies por Via da Seleção Natural ou A Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela
Vida”. O livro teve sua primeira edição esgotada em um dia.
Charles Darwin morreu de ataque cardíaco, em Downe, no condado de Kent, Inglaterra,
no dia 19 de abril de 1882. Seu corpo foi sepultado na Abadia de Westminster, em Londres.
Fonte: [Link] . Acesso em: 1-6-2015.
capítulo 3 • 51
CONCEITO
O positivismo é uma linha teórica da sociologia, criada pelo francês Auguste Comte (1798-
1857), que começou a atribuir fatores humanos nas explicações dos diversos assuntos, con-
trariando o primado da razão, da teologia e da metafísica.
Fonte: [Link] Acesso em: 1-7-2015.
CONEXÃO
Saiba mais sobre O positivismo de Auguste Comte em [Link]
br/9403/9403_4.PDF . Acesso em 1-7-2015.
AUTOR
Auguste Comte nasceu em 1798, em Montpellier, na França. Seus pais eram católicos e
monarquistas fervorosos. Comte, que rejeitou as convicções dos pais ainda bem jovem, foi
aluno brilhante, dos estudos básicos aos superiores, na Escola Politécnica de Paris. Nesse
período, seu melhor amigo foi Henri de Saint-Simon (1760-1825), expoente do socialismo
utópico, com quem viria a romper mais tarde por questões ideológicas. Comte trabalhava
intensamente na criação de uma "filosofia positiva" quando sofreu um colapso nervoso, em
1826. Recuperado, mergulhou na redação do Curso de Filosofia Positiva, que lhe tomou 12
anos. Em 1842, por divergências com os superiores, perdeu o emprego de pesquisador na
Politécnica e começou a ser ajudado por admiradores, como o pensador escocês John Stuart
Mill (1773-1826). No mesmo ano, Comte se separou de Caroline Massin, após 17 anos de
casamento. Em 1845, apaixonou-se por Clotilde de Vaux, que morreria de tuberculose no
52 • capítulo 3
ano seguinte. Clotilde seria idealizada por Comte como a expressão perfeita da humanidade.
O filósofo, que dedicou os anos seguintes a escrever Sistema de Política Positiva, morreu de
câncer em 1857, em Paris.
Fonte: [Link]
ge=3 . Acesso em: 1-7-205.
capítulo 3 • 53
Passemos agora à observação dos movimentos artísticos literários do século
XIX, diretamente influenciados pelas correntes filosóficas estudadas até aqui.
MULTIMÍDIA
Assista aos filmes:
Memórias Póstumas de Brás Cubas, disponível na [Link]
v=pcwOI-uELjc . Acesso 2-7-2015.
Dom, versão moderna do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, disponível na
[Link] . Acesso 2-7-2015.
54 • capítulo 3
Nesse ponto, a literatura realista se transforma na denominada “arte enga-
jada”, ferramenta de revelação social e batalha contra as imposições do Estado.
Por este ensejo desprezavam a monarquia, o clero e os ideais burgueses, prote-
gendo com entusiasmo os ideais republicanos e socialistas. O escritor realista
está mais preocupado em considerar a sociedade tal como ela é, visando à sua
modificação futura.
Do desprezo que o artista realista sentia pela monarquia, pelo clero e pelos
ideais burgueses, surgem outras características, frutos da “arte engajada”, que
chamaremos aqui de pseudo características, por se relacionarem mais com o
tema, tais como:
capítulo 3 • 55
Como se pode notar pela análise das pseudo características citadas acima,
o artista do realismo é levado a expressar mais uma pseudo característica – o
universalismo –, que se detém sobre os temas sob o enfoque da visão externa
do homem, ou seja, o artista se volta para as questões que se mostram diante e
fora de seu ser, assim os temas se tronam de caráter universal, isto é, contem-
porâneo na vida de todos, sem distinção de qualquer ordem.
A segunda característica realista é a contemporaneidade, uma vez que o au-
tor realista atenta para o presente, por isso abandona o nacionalismo e o retor-
no ao passado histórico, temas tão cogitados pelo artista romântico, na expe-
riência de valorizar a nação brasileira.
Fruto das correntes filosóficas vigentes à época, as obras realistas apresen-
tam, principalmente, duas temáticas vertentes de tais corrente: o materialismo
e o determinismo, sendo este último ainda mais presente no contexto natura-
lista que veremos mais adiante.
Assim, a terceira característica importante do movimento realista é a pre-
sença do materialismo, como verdadeira negação da emoção e aversão ao
sentimentalismo do poeta romântico. Dessa percepção da realidade surge a
imagem do homem-engrenagem, ou seja, o ser humano passa a ser visto como
uma peça do mecanismo do universo – como ilustra Charles Chaplin no filme
Tempos modernos (figura 3.2), contrapondo-se às questões de ordem metafísi-
ca do Romantismo e se voltando totalmente para a matéria.
©© APRESCINDERE | [Link]
Figura 3.9 – Pintura mural de Charlie Chaplin em uma cadeia de fabricação - película do
Tempos modernos - no edifício de Vevey - Switzerland.
56 • capítulo 3
Por fim, a quarta característica importante do movimento realista é o deter-
minismo (derivado da corrente filosófica determinista) e originário da Filosofia
da arte, de Hypolite Taine, que aponta três elementos determinantes para a
concepção de uma obra de arte o: meio em que o escritor está imerso, o período
histórico no qual vive e a raça a qual concerne.
AUTOR
TAINE, HIPPOLYTE ADOLPHE (1823-1893)
Positivista francê s. Historiador. Marcado pelo positivismo (...) Eleito para a Academia
Francesa em 1878. Criticando o Romantismo, inicia a postura positivista, em nome da razão
e das virtudes clássicas. Marcado pelo determinismo geográfico[ e é ] influenciado pelo dar-
winismo social. Fonte: [Link] .
Acesso em 2-7-2015.
PERGUNTA
Você sabe Hypolite Taine é o inaugurador da corrente naturalista?
HIPPOLYTE ADOLPHE TAINE: Fundador do naturalismo, em nome da trilogia race, mi-
lieu, moment. Porque há um conjunto de caracteres biológicos transmitidos hereditariamente
porque as tradições, as crenças, os hábitos mentais e as instituições modelam os indiví-
duos; porque há sempre um conjunto de circunstâncias que desencadeiam a ação. (...) Tenta
transportar para o âmbito das ciências morais os métodos das ciências físicas, aceitando o
determinismo e o mecanicismo psicológico. Porque existe uma espécie de predisposição que
dirige todas as ideias e todos os atos de um povo.
Fonte: [Link]
Acesso em 2-7-2015.
capítulo 3 • 57
3.2.2 Movimento artístico literário do século XIX: o naturalismo
irracional.
Figura 3.3 – Charles Robert Darwin (1809 - 1882) era um naturalista inglês. Estabeleceu
que todas as espécies de vida desceram sobre o tempo da ascendência comum, e propor a
teoria científica que este teste padrão de ramificação da evolução resultasse de um processo
que chamou a seleção natural. Retrato de um livro velho da enciclopédia de 100 anos.
58 • capítulo 3
Desse modo, a vida humana representada nas obras naturalistas é condi-
cionada por fatores biológicos e sociológicos, à imagem das pessoas da história
real. Assim, as personalidades das obras deste período são frutos biológico-so-
ciais ou simples fantoches de ânimos externos à sua vontade íntima, que inexis-
te diante dos componentes preexistentes e determinantes a sua constituição.
Já vimos que o naturalismo é uma disposição realista, mas o estilo naturalis-
ta exibe quatro características particulares.
A primeira característica importante do movimento naturalista é a questão
da hereditariedade de ordem física e psicológica, como fator decisivo da con-
duta humana, as personagens naturalistas apresentam um comportamento
animalizado, movido predominantemente pelo instinto, sem referência a sua
vida interior. Há ênfase na satisfação de necessidades instintivas, aproximando
o homem do animal.
A segunda característica particular do movimento naturalista é o desequi-
líbrio como sinônimo de desordem mental e emocional. Interessante notar é
que esse desequilíbrio fica oculto até que o indivíduo se depare com alguma
manifestação ou condições que possam promover o desencadeamento da
doença decorrente de fatores biológicos e sociais.
A terceira característica relevante do movimento naturalista é a que trata da
questão da miserabilidade humana (figura 3.4), por isso o escritor naturalista
tem como prioridade destacar e analisar espaços sociais miseráveis por serem
a motivo dos desequilíbrios que deseja ressaltar.
©© BR RAMANA REDDI | [Link]
capítulo 3 • 59
E, por fim, a quarta característica do movimento naturalista, e não menos impor-
tante, é a análise crítica por meio da qual o escritor desse momento revela condições
contraditórias para gerar a meditação sobre a realidade social e suas moléstias.
CURIOSIDADE
Você já ouviu falar em Émile-Édouard-Charles-Antoine Zola?
Émile-Édouard-Charles-Antoine Zola foi o fundador e o principal representante do movi-
mento literário naturalista.
(...)
Inspirado na filosofia positivista e na medicina da época, Zola partia da convicção de que
a conduta humana é determinada pela herança genética, pela fisiologia das paixões e pelo
ambiente. Conforme afirmou no ensaio "O romance experimental" (1880), o desenvolvimen-
to dos personagens e das situações deve ser determinado de acordo com critérios científicos
similares aos empregados nas experiências de laboratório. A realidade deve ser descrita de
maneira objetiva, por mais sórdidos que possam parecer alguns aspectos.
Consciente da dificuldade de conferir caráter científico a uma obra de ficção, Zola pro-
curou pôr em prática suas concepções. A partir de (...) "Germinal" (1885) a descrição das
más condições de vida numa comunidade de mineradores destaca a opressão social como
responsável pela paralisação moral da humanidade.
(...) Émile Zola e sua mulher morreram em Paris, asfixiados pelo monóxido de carbono de
um acidente com uma chaminé.
Fonte: [Link] . Acesso em 2-7-2015.
MULTIMÍDIA
Assista ao filme O Cortiço, disponível na [Link]
com acesso em 13-5-2013.
60 • capítulo 3
3.2.3 Movimento artístico literário do século XIX: o parnasianismo
capítulo 3 • 61
Diferentemente dos artistas realista e naturalistas, os parnasianos não ex-
planavam qualquer inquietação com matérias sociais, políticas, econômicas
ou religiosas.
Os poetas parnasianos concentravam sua atenção à perfeição formal, de
onde deriva o gosto por vocabulário erudito, linguagem complicada, assaz tra-
balhada para conseguir a perfeição poética formal tão almejada. Deste modo,
os temas são de ordem comum.
EXERCÍCIO RESOLVIDO
1. Como e quando surgiu o parnasianismo brasileiro?
Resposta: Com a obra de Teófilo Dias – intitulada Fanfarras –, o parnasianismo brasileiro
foi inaugurado em 1882.
ATIVIDADES
01. Defina as linhas teórico-filosóficas do século XIX.
a) Positivismo:
b) Darwinismo:
REFLEXÃO
O realismo é um movimento literário cujos autores tinham o escopo de fazer uma análise
crítica severa e precisa do mundo, com vistas a proporcionar uma modificação substancial
nos terrenos de ordem social, econômica e política. Por isso, sustentavam suas ideias no
cientificismo, no materialismo e no liberalismo, dentre outras correntes científico-filosóficas
do século XIX.
Já no movimento literário naturalista, há o exame externo dos indivíduos e da socie-
dade como um todo, uma vez que os fatores biológicos e sociais são determinantes nos
pensamento, ações e sentimentos das personagens. O homem é visto como simples fruto
da genética e do ambiente, beirando o animalesco quando revelam seus devassidões, taras,
patologias e anomalias. Essa perspectiva é consequente da visão determinista do século XIX.
62 • capítulo 3
Enfim, o movimento literário parnasiano é uma tendência artística que se desenrola den-
tro e junto do período realista/naturalista. Apresenta produção inteiramente poética, não
oferecendo amostras em prosa. Estima a “arte pela arte”, e os poetas dessa época escreviam
simplesmente pelo ato de escrever e eram despreocupados com realidade presente.
CURIOSIDADE
Há a versão Azyllo muito louco, adaptação livre do conto O alienista, de Machado de Assis.
LEITURA
O Mulato, de Aluísio Azevedo
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOEIRA, N. O Rio Grande de Augusto Comte. In: DACANAL, J. H. e GONZAGA, S. RS: Cultura e
ideologia. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980.
COMTE, A. Curso de filosofia positiva. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).
capítulo 3 • 63
64 • capítulo 3
4
A Estética
Moderna II:
Século XX –
Biografismo e
Impressionismo
Crítico
Neste capítulo, pretendemos identificar as características da crítica extraliterá-
ria do biografismo e do impressionismo. Por isso, apresentaremos brevemente
um painel dos estudos literários do século XIX, objetivando compreender como
se formou uma crítica extraliterária biográfica e impressionista.
A crítica literária impressionista acolhe o escritor ao permitir seu ponto de
vista e ao leitor quanto à questão de se obter maior autonomia interpretativa.
Já a crítica literária com base do biografismo cujas análises do documento
literário de embasamento biográfico, abalizado na vida do autor pode dificultar
ou limitar as interpretações.
OBJETIVOS
• Conhecer características da crítica extraliterária de base impressionista;
• Conhecer características da crítica extraliterária de base biográfica;
• Compreender a diferença entre biografismo e impressionismo;
• Aplicar as teorias estudadas em análises do texto literário.
CURIOSIDADE
Virgínia Woolf produziu, ao longo de sua vida, muitas obras que se distanciaram dos padrões
literários valorados pela visão acadêmica tradicional, fruto das percepções impressionistas
que já expressava em suas obras, mesmo como escritora e não como estudiosa de literatura.
Recebeu muitas críticas, mas se dedicava cada vez mais à escrita. Euler de França Belém
revela também dados pessoais da escritora.
É triste e pungente como Quentin Bell fala do fim de sua tia escritora: Na manhã de
sexta-feira, 28 de março, um dia claro, luminoso e frio, Virginia foi como de costume ao
seu estúdio no jardim. Lá, escreveu duas cartas, uma para Leonard e outra para Vanes-
sa — as duas pessoas que mais amava. Nas duas cartas explicava que vinha ouvindo
vozes e acreditava que nunca mais ficaria boa; não podia continuar estragando a vida
de Leonard. Ela colocou o bilhete sobre a lareira da sala de estar, e cerca de 11h30 es-
gueirou-se para fora, levando sua bengala de passeio; e atravessou os prados até o rio.
66 • capítulo 4
Leonard acreditava que ela já havia feito uma tentativa para se afogar: assim, teria
aprendido com o fracasso, e estava decidida a não falhar de novo. Deixando a bengala
na margem, ela esforçou-se para pôr uma grande pedra no bolso do casaco. Depois
encaminhou-se para a morte, ‘a única experiência’, dissera um dia a Vita, ‘que nunca
descreverei’.
capítulo 4 • 67
4.1 O impressionismo crítico
68 • capítulo 4
Figura 4.10 – A ponte no jardim da casa em Giverney, France de Monet.
Assim como na literatura, a pintura impressionista não se preocupa com a visão obje-
tiva e estática da realidade. Não é uma pintura intelectual ou moldada por conceitos
estéticos. Ela se limita a representar a impressão do pintor, isto é, o efeito mais ou
menos pronunciado que a ação dos objetos exteriores produz sobre os órgãos dos
sentidos; é a visão particular que o artista vai representar na tela e não mais o que
ele sabe das coisas, nem o que sua formação lhe ensinou. O que importa são os
diferentes pontos de vista do observador. Assim, não há na natureza cores permanen-
tes: existe uma constante mutação. As formas das coisas são criadas pela luz e não
pelas linhas. É uma arte das sensações, isto é, procura registrar os objetos através de
impressões que a paisagem causa ao expectador.
Por tal justificativa, as obras de Monet são frutos de seu ponto de vista, como
ilustra a figura 4.2:
capítulo 4 • 69
Figura 4.11 – The Bridge in Monet's Garden
70 • capítulo 4
A tendência marcante da crítica impressionista, de que foram expoentes figuras como
Anatole France (...), era sair do objeto para o sujeito, mudar ou transferir o interesse
para o crítico, suas impressões e emoções, despertadas
AUTOR
Jacques Anatole François Thibault adotou o pseudônimo de Anatole France porque seu pai,
um livreiro em Paris, chamava sua loja de "Librarie de France". Desde muito jovem, Anatole
foi um leitor insaciável. Sua primeira coleção de poemas, "Poemas Dourados", foi publicada
em 1873.
(...)
Influenciado pelo racionalismo radical de inspiração humanista, France condenava as
formas de dogmatismo e especulação filosófica. Seu estilo apresenta um tom de ceticismo
urbano e hedonismo. Essa visão da vida aparece explicitamente em "O Jardim de Epicuro"
(1895). Seu primeiro grande sucesso foi "O crime de Silvestre Bonnard" (1881), premiado
pela Academia Francesa, da qual France tornou-se membro em 1896.
(...)
Em 1888 France publicou "O livro do meu amigo" um tipo de romance autobiográfico,
que continua com "Pierre Nozière" (1899), "Le Petit Pierre" (1918) e "La Vie en Fleur"
(1922).
(...)
capítulo 4 • 71
Seus trabalhos incluem a biografia "Vida de Joana d?Arc", "Os Deuses têm Sede", "A
Rebelião dos Anjos", "A Ilha dos Pingüins", "O Artista", "Axis Mundi", "O Cristo do Mar"; "Mar-
guerite" e "Missa dos Mortos", entre outros.
Fonte: [Link] .
Acesso em: 6-7-2015.
72 • capítulo 4
O mais importante no Impressionismo é o instantâneo e único, tal como aparece ao
olho do observador. Não é o objeto, mas as sensações e emoções que ele desperta,
num dado instante, no espírito do observador, que é por ele reproduzido caprichosa
e vagamente. Não se trata de apresentar o objeto tal como visto, mas como é visto e
sentido num dado momento. (1959, p. 240)
De acordo com Afrânio Coutinho, além de Graça Aranha, com a obra Canaã,
Raul Pompeia e Machado de Assis, na fase final de suas composições, também
teriam aderido ao espírito impressionista.
PERGUNTA
Por que o impressionismo é uma tendência tão discutida pelos críticos e até mesmo incor-
porada pelos autores?
capítulo 4 • 73
O próprio Graça Aranha esclarece:
Todo o mal está na Força e só o Amor pode conduzir os homens.... Tudo o que vês, todos
os sacrifícios, todas as agonias, todas as revoltas, todos os martírios são formas errantes da
Liberdade. (...) Eu te suplico, a ti e à tua ainda inumerável geração, abandonemos os nossos
ódios destruidores, reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte... (1982, p. 218)
74 • capítulo 4
Levando em conta a relação autor/sociedade, surge uma nova relação entre
autor/obra. Neste ponto, brota, entre os membros da intelectualidade brasilei-
ra, uma nova ordem crítica, denominada “crítica biográfica”.
O biografismo crítico ou a crítica biográfica reza que uma análise de um
documento literário não pode abrir mão de subsídios biográficos pertinentes
para uma apreensão da mensagem de forma mais ampla, pois, como revela
Souza (2009, p. 131.)
capítulo 4 • 75
natural dos estudos literários: em vez de chegar-se à obra através do autor, como po-
deria ser o legítimo objetivo da biografia literária, passou-se a usar a obra como ponte
para atingir-se o autor, idealizado romanticamente na sua individualidade. A hipertrofia
biográfica chegou a ponto de afastar a leitura das obras em proveito do conhecimento
da vida dos autores.
AUTOR
Charles Augustin Sainte-Beuve (1804 – 1869) nasceu em Paris e foi um crítico literário e
um dos grandes nomes da literatura francesa.
Saint-Beuve possuía uma metodologia crítica de que a obra de um escritor deveria ser
um reflexo de sua vida e explicar-se por ela; este método é sobre a busca da intenção poética
do autor (intencionalismo), e suas qualidades pessoais (biografismo).
Fonte: [Link] .
Acesso em: 7-7-2015.
76 • capítulo 4
• Benedetto Croce não concordava em rotular a obra literária a partir de
uma categorização de gêneros. De acordo com seu pensamento, a análise lite-
rária precisaria apenas se deter à obra, ao texto, e nada mais.
Croce não compartilha das teorias propostas por seus antecessores, por isso
despreza a crítica subjetivista de Anatole France e considera inadequado o mé-
todo cientificista de Taine. Desse modo, em sua obra intitulada Estética, bus-
cou contrabalançar os elementos propostos pela crítica impressionista e com
aqueles pertinentes à crítica biográfica.
AUTOR
(....)
Em 1903 fundou a revista "La Critica", onde publicou a maioria de seus escritos. A re-
vista duraria até 1943. Croce interessou-se primeiramente por história e, mais tarde, por
influência do filósofo Gianbattista Vico, passou a interessar-se por filosofia. Comprou a casa
onde Vico viveu.
(...) passou a estudar a obra do filósofo idealista alemão Georg W. F. Hegel, escrevendo
um livro sobre seu pensamento. Embora tenha ficado conhecido como um dos maiores filó-
sofos marxistas, Croce rejeitou o marxismo.
Elaborou sua própria filosofia, chamada de filosofia do espírito. A exposição destas ideias
foi feita de forma sistemática, em quatro volumes que tratam de estética, lógica, ética e filo-
sofia da história. Estes livros foram publicados entre 1902 e 1917.
Em 1910, Benedetto Croce tornou-se membro do senado italiano. Em 1914, casou-se
com Adela Rossi, com quem teve quatro filhas. Entre 1920 e 1921, foi ministro da Educação,
cargo que abandonou sob o regime fascista de Mussolini, voltando a ocupá-lo depois da Se-
gunda Guerra. Entre 1943 e 1947, foi presidente do Partido Liberal. Em 1947 abandonou a
política e fundou o Instituto Italiano de Estudos Históricos.
O pensamento dialético de Croce exerceu profunda influência no panorama intelectual
do século 20. Croce deixou várias obras de crítica literária, crítica de arte e teoria da história,
entre as quais "Ariosto, Shakespeare e Corneille", "História da Europa no século 19", "Breviá-
rio de Estética" e "Croce, o Rei e os Aliados", extratos de seu diário de 1943-44.
(...)
Fonte: [Link] . Acesso em 7-7-
2015.
capítulo 4 • 77
No Brasil, temos uma estudiosa – Flora Sussekind – que não perde tempo
criticando uma ou outra teoria crítica. Na verdade, seus estudos literários arre-
metem a uma harmonia: extrair da obra de arte e de sua autoria somente aquilo
que se fizesse o mais importante e indispensável para uma boa análise literária.
Flora Sussekind (1985, p. 67), em seu estudo A literatura do eu – Onde se lê
poesia, leia-se vida, sobre a poesia contemporânea brasileira sugere uma con-
cepção biográfica da literatura não mais baseada nos fatos que marcam a vida
do autor, mas na percepção de que vida e obra se integram mutuamente, já que
“são as vivências cotidianas do poeta, os fatos mais corriqueiros que constitui-
rão a matéria da poesia
AUTOR
Maria Flora Sussekind (Rio Janeiro RJ 1955). Crítica literária, professora e pesquisadora
universitária. Na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC/RJ inicia a carrei-
ra acadêmica em letras: bacharela-se em 1977, torna-se mestre em 1982, doutora-se em
1989, e leciona no período de 1978 a 1982. Passa em seguida pela Universidade Federal
Fluminense - UFF e se estabelece na Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, onde
atualmente dá aulas sobre teatro brasileiro e literatura dramática. É pesquisadora do Setor de
Filologia do Centro de Pesquisas da Fundação Casa de Rui Barbosa, desde 1981. Entre suas
atividades de crítica, destacam-se a colaboração semanal no Caderno B, do Jornal do Brasil
- JB, na seção de teatro, de 1979 a 1985, e a coluna mensal no caderno Ideias, também do
JB, de 1995 a 2000. Além de organizadora de diversos livros de teoria literária e ficção, tem
farta produção de ensaios sobre literatura brasileira.
Fonte: [Link] .
Acesso em: 7-7-2015.
78 • capítulo 4
PERGUNTA
Você sabia que é corriqueira a associação entre literatura e filosofia, literatura e história,
literatura e sociologia, literatura e psicanálise como pontos de reflexão e análise? Você sabia
que existe um novo biografismo?
capítulo 4 • 79
obra no mundo literário. É preciso, então, a apoio de críticos renomados para
validar e dar peso a esse método de análise dos textos literários.
Walnice Nogueira Galvão expõe que:
Entretanto, salienta que, no Brasil, o novo biografismo tem uma origem es-
pecífica, a de promover:
(...) o resgate da saga da esquerda, duramente reprimida pela ditadura militar que se
implantou por golpe em 1964. Depois se ramificaria em várias direções; afora a bio-
grafia, na literatura, no romance, na reportagem, no tratado histórico. E em cinema, no
filme de ficção, no documentário longo, no documentário curto para TV, no docudra-
ma. (GALVÃO, 2005)
(...) O livro relata sua experiência como médico do presídio e o conhecimento íntimo
da vida dos detentos que assim adquiriu. O Carandiru foi por décadas a principal
prisão da cidade de São Paulo, ora desativada e demolida. Nela ocorreu o "massacre
do Carandiru", em que uma rebelião foi reprimida ao custo de 111 detentos mortos,
em 1992. Em decorrência, outros escreveram sobre o mesmo assunto, filmes foram
feitos, inclusive um diretamente sobre esse livro, pelas mãos de ninguém menos que
Hector Babenco. O assunto renderia ainda o documentário O prisioneiro da grade de
ferro: auto-retratos (2003), direção de Paulo Sacramento, interessante experimento
80 • capítulo 4
em que o diretor cede a câmera aos presos, para que filmem uns aos outros. Varella
agora passou a escrever ficção, em Por um fio (2004), com relatos ficcionalizados de
sua prática médica. Com fotos clicadas pelo fotógrafo profissional Doug Casarin, já
surgiu mais um, Carandiru 111 (2003). (GALVÃO, 2005)
CURIOSIDADE
A obra Estação Carandiru, de Dráuzio Varella, publicada em 1999, vendeu 470 mil exemplares!
Como se pode notar, o novo biografismo pode ser encarado como mais do
que romance enquanto gênero literário. O novo biografismo forma uma mina
de ouro para os amantes e produtores de cinema e de televisão. Exemplo disso
é a minissérie JK, baseada na vida de Juscelino Kubitschek:
produzida e veiculada pela Rede Globo de Televisão, em 2006, pode ser considerada
um lugar de memória. Para tal compreensão, é necessário explorar a narrativa seriada
como uma ficção controlada e ainda como os recursos utilizados pela teledrama-
turgia de reconstituição histórica dão credibilidade à obra, como a verossimilhança
e a mescla de personagens e imagens ficcionais com reais. Por se tratar de uma
produção televisiva extensa, este estudo foca apenas as tensões que envolveram a
posse de Juscelino Kubitschek, entre outubro de 1955 e janeiro de 1956 (...). (ALVES
e SOUZA, 2010)
ATIVIDADES
01. O que é mais importante no Impressionismo, de acordo com Afrânio Coutinho?
capítulo 4 • 81
02. Como é composta a crítica impressionista?
03. Como a obra literária era vista de acordo com o entendimento de Sílvio Romero e dos
outros críticos e historiadores literários da fase naturalista e positivista do final do século XIX
e começo do XX?
06. Walnice Nogueira Galvão expõe que dois traços definem os inícios do novo biografismo.
Quais são eles?
REFLEXÃO
É prosaica a relação associativa/dissociativa entre literatura e filosofia, literatura e história,
literatura e sociologia, literatura e psicanálise como pontos de reflexão e análise.
Os estudos se baseiam em teorias várias que acolhem aos imperativos da compreensão
da obra de arte literária, corpus ou objeto de análise dos críticos e estudiosos da Literatura.
É comum crítica acadêmica no domínio da universidade, mas precisamos estar cientes
de que outras formas de enxergar as obras literais são possíveis. Cabe a cada um julgar a
melhor dentro de suas perspectivas e finalidades.
LEITURA
BARBOSA, RUI. Saudação a Anatole France. Disponível na [Link]
dados/DOC/artigos/rui_barbosa/FCRB_RuiBarbosa_Saudacao_a_AnatoleFrance.pdf >. Acesso 6-7-
2015.
COUTINHO, Eduardo. A Contribuição De Afrânio Coutinho Para Os Estudos Literários No
Brasil, In: 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM
COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A
CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL. Disponível na < [Link]
coloquiogrupodeestudos2011/anais/[Link] > . Acesso 6-7-2015.
82 • capítulo 4
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, Fabiana A.; SOUZA, Florentina das Neves. Entre a história e a ficção: a minissérie
JK como um lugar de memória. In: Discursos Fotográficos Disponível na < [Link]
revistas/uel/[Link]/discursosfotograficos/article/view/7473/7026 >. Acesso 6-7-2015.
ARANHA, Graça. Canaã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
BARBOSA, RUI. Saudação a Anatole France. Disponível na [Link]
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2015.
BELÉM, Euler de França. VIRGINIA WOOLF TENTOU ‘CURAR’ SUA LOUCURA PELO SUICÍDIO
IN: ENSAIOS. DISPONÍVEL NA < [Link]
loucura-pelo-suicidio/ >. Acesso 6-7-2015.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959.
COUTINHO, Afrânio. O IMPRESSIONISMO EM LITERATURA. Rio de Janeiro: ABL, 1962. Disponível
na < [Link] >.
Acesso 6-7-2015.
COUTINHO, Eduardo. A Contribuição De Afrânio Coutinho Para Os Estudos Literários No
Brasil, In: 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM
COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A
CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL. Disponível na < [Link]
coloquiogrupodeestudos2011/anais/[Link] > . Acesso 6-7-2015.
GALVÃO, Walnice Nogueira. A voga do biografismo nativo. In: Estudos Avançados, vol.19, no.55, São
Paulo Sept./Dec. 2005, disponível na < [Link] >
. ISSN 1806-9592
PROENÇA Filho, Domício Estilos de época na literatura através de textos comentados. RJ/SP,
Liceu, 1973.
RICCIARDI, Giovanni. Sociologia da literatura. Lisboa: Publicações Europa-América, 1971.
SERULLAZ, Maurice. O impressionismo. Trad. José Carlos Bruni. São Paulo: Difusão Europeia do
Livro, 1965.
SILVA FILHO, Gilvan José da. Impressionismo E Sensacionismo Em Alberto Caeiro IN: Anais do II
Seminário Nacional Literatura e Cultura. Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128
SOUZA, Eneida Maria de. Crítica genética e crítica biográfica. IN: Patrimônio e memória. UNESP –
FCLAs – CEDAP, v.4, n.2, p. 129-138, jun. 2009. ISSN: 1808-1967
SUSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária – polêmicas, diários & retratos. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1985. p. 67
capítulo 4 • 83
Anexo A
Fonte: [Link]
d=12221&sid=310 . Acesso 6-7-2015.
Ao historiador literário, o século XIX aparece como uma das épocas mais
fascinantes, máxime levando-se em conta a variedade de correntes estéticas
que a atravessam, cruzando-se e entrecruzando-se, atuando umas sobre outras,
opondo-se, prolongando-se, superando-se ou interpenetrando-se de modo a
torná-lo um dos maiores laboratórios de ideias estéticas e uma encruzilhada de
alta relevância espiritual e artística. Graças à ebulição produzida pelo entrecho-
que das doutrinas, é de intensa fecundidade o período.
(...)
A década de 1880 assiste à liquidação do Naturalismo como movimento li-
terário, a qual acompanha a crise do Materialismo e Positivismo. Em verdade
a concepção materialista da vida e da Arte já cansava os espíritos. Uma onda
de religiosidade e reespiritualização, subjetivismo e idealismo, procurava afas-
tar a Arte e o pensamento do mundo da realidade estrita, da crua pintura da
Natureza, repelindo a teoria de que Arte e Natureza se confundem. A reação
exprimia um sentimento de desgosto, tédio e revolta, contra a hipertrofia da
matéria, em nome do subjetivismo e misticismo. O Materialismo era identifi-
cado com a concepção burguesa da vida, daí a reação concretizar-se na atitude
de rebeldia da boêmia, decadentismo ou exotismo, mundos diferentes para os
quais se pudesse escapar.
Do âmago dessa tendência desenvolveram-se novos estilos e escolas artís-
ticas – o Simbolismo e Impressionismo. O primeiro tem sido devidamente va-
lorizado, mas o Impressionismo, em sua expressão literária, só recentemente
encontrou compreensão e estudo crítico adequado, especialmente graças aos
métodos e doutrinas da nova crítica. Utilizando a periodologia estilística, pela
aplicação dos conceitos e da análise dos estilos individual e de época, a nova
crítica e historiografia literárias vêm descobrindo ou redefinindo épocas ante-
riores inclassificadas ou figuras retardadas ou perdidas.
84 • capítulo 4
Está entre essas o Impressionismo literário. Tanto quanto o conceito de bar-
roco aplicado à definição da Literatura seiscentista, o Impressionismo literário
do final do século XIX foi batizado por um conceito oriundo das belas-artes.
Proveio da Pintura, como extensão da denominação dada por Claude Monet a
um seu quadro, Impression, exposto no salão de 1874. (...)
No Impressionismo, como estilo artístico, dominam os princípios da
Pintura, repetindo o velho conceito horaciano do Ut pictura poesis. A Literatura
e a Música deixam-se impressionar de tal modo com as seduções da Pintura,
que esquecem muitos dos seus próprios requisitos.
Desde 1850, a Arte buscava novas direções. Em 1863, no Salon des Réfusés,
no qual se reuniram os trabalhos rejeitados pelo júri tradicionalista do salão
oficial, um quadro marcou as atenções: Le Dejeuner sur l’herbe, de Manet, e
a ele se deve o impulso inicial da escola impressionista em Pintura, a fórmula
pictórica estendendo-se em poucos lustros à Música e à Literatura, num desen-
volvimento paralelo ao Simbolismo.
(...)
Em Literatura, o Impressionismo afirmou o triunfo da descrição sobre a
narração; o domínio da atmosfera das grandes cidades; o entusiasmo pelo mo-
vimento, pela vida, água, sol, cor, ritmo; a superioridade da Poesia pura; a ob-
sessão com o elemento psicológico e sua expressão; a redução de todo valor
poético à sensação pura e sua descrição, negando a forma externa das realida-
des; o uso da linguagem em combinações de palavras tais que sejam o instru-
mento de registro das impressões, abolindo em conseqüência no escritor a re-
flexão sobre as coisas, e exigindo dele que se anule para assimilar as qualidades
do objeto na sua inteireza.
Em verdade, o Impressionismo, em Literatura, é resultante da fusão de ele-
mentos simbolistas e realistas. A realidade, cuja reprodução exata era a norma
do Realismo, deixou de existir como foco de interesse, pois o impressioniosta
procura registrar a impressão que a realidade provoca no espírito do artista,
no mesmo instante em que se dá a impessão. Daí que o mais importante seja
o instantâneo, o momento exato em que as emoções e sensações surgem no
espírito do observador. Não se trata de apresentar o real tal como é visto, mas
como é visto e sentido num dado momento. A subjetividade colabora, e foi gra-
ças a este elemento que o Impressionismo se aliou ao Simbolismo no movi-
mento finissecular de reespiritualização da Arte. O real passou a ser encarado
através de um temperamento, pelas sensações e impressões que desperta, num
capítulo 4 • 85
singular momento que passa transferindo o negistro das relações externas para
o das relações internas e o das impressões produzidas no espírito pelo conta-
to com as coisas, cenas, paisagens ou pessoas, sem falar nas obras de Arte e
Literatura. Conforme acentua Arnold Hauser, a filosofia da vida implícita no
Impressionismo é aquela ideia de Heráclito de que o homem não mergulha
duas vezes no rio da vida em eterno movimento, os fenômenos não sendo os
mesmos nesse fluxo constante. Daí o domínio do momento sobre a continui-
dade e a permanência, pois a realidade não existe estável e coerente, mas em
vir-a-ser, em curso, em metamorfose, em crescimento e decadência. O méto-
do impressionista, assim, é a captação do momento, do fragmentário, instá-
vel, móvel, subjetivo. A própria noção de tempo modifica-se acompanhando a
transformação da experiência da realidade, pois é através do fluir do tempo e
da soma dos diversos momentos de nossa mutável realidade existencial que se
logra a integração da vida espiritual. O presente é o resultado do passado, res-
suscitemos pois o passado, recordando-o, revivendo-o. A filosofia de Bergson e
o romance de Proust constituem os marcos dessas teorias.
A técnica literária impressionista, arte de cunho pictórico, consiste no
“pontilhismo” e “divisionismo”, é uma pintura com palavras, acumulando
sensações isoladas e detalhes de aparências efêmeras, uma gota de chuva, uma
linha melódica de som ou de cor, uma nesga de memória apreendendo a reali-
dade não em estado de repouso, mas nas impressões e na captação afetiva de
aspectos do real. O estilo impressionista é dotado, assim, de uma qualidade
fugitiva. A narrativa, o enredo, a seqüência de causa e efeito entre os eventos
e os indivíduos são substituídas pelo registro dos estados de alma, emoções e
sentimentos, de acordo com a lógica subjetiva, pessoal, vaga. O que se procura
surpreender é a essência do momento, incidente ou paisagem, graças a uma
captação instantânea do estado de alma do artista ou do espírito do observador,
das intermitências do coração ou da memória, que ou são capturadas instanta-
neamente ou desaparecem. Além disso, o instante é percebido visualmente, va-
lorizando-se os efeitos da cor e das tonalidades. A própria estrutura da narrativa
é reformada, pois não são os acontecimentos que importam acima de tudo, po-
rém o deleite das sensações e emoções criadas, subordinando-se a coerência, a
unidade e o suspense à atmosfera, às sensações, às cores e qualidades tonais.
As convenções tradicionais da narrativa, o efeito total, os elementos literários
cedem lugar aos aspectos pictóricos. As massas quebram-se em detalhes, daí
86 • capítulo 4
certa impressão de vago, difuso, obscuro, sem começo e fim. A Natureza é in-
ventada ou interpretada, antes que vista e descrita objetivamente. A onipotên-
cia da Natureza cede à liberdade artística.
Além dos traços gerais, a arte impressionista criou um estilo, uma concep-
ção lingüística adequada à reprodução do instantâneo e único. A linguagem
usada pelos escritores impressionistas compreende a impassibilidade e a im-
personalidade, uma sintaxe esquemática oposta à sintaxe estruturada tradicio-
nal, abandonando a estrutura regular da frase, a ordem lógica, as ligações con-
juntivas subordinantes e coordenantes, as conjunções; usa a ordem inversa e o
anacoluto, o modo imperfeito, a metáfora e o símile, o colorido e a sonoridade.
É uma linguagem expressiva da fantasia e da imaginação, que recebeu a deno-
minação de écriture artiste.
Foi a estética formulada pelos Irmãos Goncourt, na França, que fixou o im-
pressionismo, libertando a Literatura do Naturalismo pela ênfase na forma ar-
tística. Consideram-se eles, destarte, os fundadores e representantes máximos
do novo estilo. E se Manet, Degas, Monet, Renoir são alguns dos mais notáveis
pintores impressionistas e Debussy, Ravel, os músicos mais importantes da
escola, em Literatura destacam-se Pierre Loti, Henry James, Joseph Conrad,
Anton Tchecov, Stephen Crane, Marcel Proust, Katherine Mansfield, sem fa-
lar nos elementos precursores encontrados na técnica estilística de Flaubert,
Baudelaire, Verlaine, Daudet.
(...)
Anexo B
Querido, tenho certeza de que estou enlouquecendo de novo. Sinto que não
podemos passar por outra daquelas terríveis fases. E desta vez não ficarei cura-
da. Começo a ouvir vozes, e não posso me concentrar. Assim, estou fazendo
o que me parece melhor. Você me deu a maior felicidade possível. Não creio
que duas pessoas pudessem ser mais felizes até chegar esta doença terrível.
Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida e que sem mim
você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Está vendo, nem consigo mais escre-
ver adequadamente.
capítulo 4 • 87
Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da mi-
nha vida. Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero
dizer isso — e todo mundo sabe. Se alguém pudesse me salvar, teria sido você.
Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade. Não posso mais continuar estra-
gando sua vida. Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que
nós fomos.
88 • capítulo 4
5
A Estética
Moderna III:
Século XX
Neste capítulo abordaremos 4 tópicos da teoria vigente no século XX: o forma-
lismo russo, o estruturalismo, o New criticism e a nova crítica no Brasil.
O formalismo russo foi uma crítica literária vigente na Rússia entre 1914 e
1930. Interessante saber que foi uma questão política que decidiu acabar com
essa corrente, e não uma inovação na teoria literária.
Veremos que o estruturalismo não é uma teoria literária, mas sim uma me-
todologia científica que pode servir ao estudo do texto literário a partir de ele-
mentos comuns que regem a linguagem. Isto significa dizer que todos os subsí-
dios que compõem o texto estão inter-relacionados por um princípio exclusivo
de significação denominado “estrutura”. Por tratar de estrutura, encontramos
o estruturalismo presente nos estudos de psicologia, sociologia, antropologia,
filosofia, psicanálise etc., por isso o estruturalismo não é visto como uma cor-
rente específica dos estudos literários
Adentraremos o New Criticism, que tem como base os trabalhos do filósofo
Monroe Beardsley e dos críticos americanos John Crowe Ransom, William K.
Wimsatt, Cleanth Brooks, Allen Tate Richard Palmer Blackmur, Robert Penn
publicados durante as décadas de 1940 e 1950.
Já a Nova Crítica no Brasil propõe uma análise crítico-teórica que vê no pró-
prio texto a sua significação, mas isso não quer dizer que tenhamos de ignorar
por completo o contexto histórico-cultural em que a obra foi lançada.
Na verdade, o que se busca na Nova Crítica é que o aspecto extrínseco ao
texto seja abolido, nos casos em que se vê a obra apenas como reflexo da reali-
dade e de uma sociedade. O texto deve ser visto como realidade autônoma, no
entanto é preciso observar que a relação com o contexto é um passo imperativo
de qualquer método crítico.
OBJETIVOS
Estudar e entender a teoria crítica literária vigente no século XX:
• o formalismo russo;
• o estruturalismo;
• o New criticism;
• a crítica no Brasil:
– Afrânio Coutinho;
– Antônio Cândido.
90 • capítulo 5
5.1 Formalismo russo
O nome do movimento é fruto dos estudos formalistas russos do Círculo Lin-
guístico de Moscovo, constituído por alunos da Universidade de Moscovo (fi-
gura 5.1), que tinham o intento de originar novos estudos de poética e de lin-
guística, abdicando dos preceitos da linguística tradicional, e de promover a
renovação da poesia russa.
capítulo 5 • 91
Os formalistas russos promoveram uma verdadeira renovação da metalin-
guagem crítica, abastecendo o arsenal teórico com novos termos de análise do
texto literário e novas discussões. Carlos Ceia elenca as principais, tais como:
• A relação entre a função emotiva e a função poética, promovida por
Roman Jakobson;
• A entoação como princípio constitutivo do verso, segundo Boris
Mikhailovich Eikhenbaum;
• A influência do metro, da norma métrica, do ritmo nas produções em poe-
sia ou prosa, segundo Boris Tomachevski;
• A estrutura do conto fantástico, com Vladimir Propp;
• A metodologia dos estudos literários, de J. Tynianov.
Observe que, por exemplo, Roman Jakobson ressalta que a relação e a expo-
sição da linguagem vão além do poético, pois:
Ainda que a poética que interpreta a obra do poeta através do prisma da linguagem e
que estuda a função dominante na poesia represente, por definição, o ponto de parti-
da na explicação dos poemas, é evidente que seu valor documentário, seja psicológico
ou psicanalítico, seja sociológico, permanece aberto à investigação dos especialistas
nas disciplinas em questão, mas eles são, todavia, obrigados a dar conta do fato de
que a dominante pesa sobre as outras funções da obra e que todos os outros prismas
se acham subordinados ao da textura poética do poema. Esta tautologia guarda toda
sua eloqüência persuasiva (...) (1973, p. 486-487).
92 • capítulo 5
• Morfologia do Conto, de Propp;
• Teoria da Literatura, na qual Boris Eikhenbaum trata especificamente
do romance.
Outro grupo importante foi o Círculo Linguístico de Praga (figura 5.2), fun-
dado em 1920 na belíssima capital da República Tcheca, cujos principais repre-
sentantes foram os formalistas russos Roman Jakobson, Nikolay Sergeyevich
Trubetzkoi e Pietr Bogatiriev e o estudioso checo len Mukarovski.
CURIOSIDADE
O checo Mukarovski é autor da teoria geral de estética, intitulada Funções Estéticas como
Reflexos de Normas e Factos Sociais, datada de 1936, e dos fundamentos de uma estética
estrutural em Estudos sobre Estética, 1966.
capítulo 5 • 93
Alguns teóricos sugerem ser escola de Praga uma espécie de transição do
formalismo para o estruturalismo ou ainda que a escola de Praga foi a origem
científica do New Criticism.
LEITURA
O formalismo russo
Movimento que desencadeou uma abordagem linguística da literatura, teve Jakobson
e Chklovski entre seus representantes e procurou mostrar como o texto poético instaura
a consciência formal do discurso literário em seus níveis semântico, sintático e fonológico.
TEIXEIRA, Ivan. O formalismo russo. In: Fortuna crítica 2. Disponível na <[Link]
[Link]/cje/anexos/depaula/ivan_cult_formalismo_russo.pdf >. Acesso em 8-7-2015.
5.2 Estruturalismo
COMENTÁRIO
Os estudos de Ferdinand Saussure só foram publicados postumamente, como Curso de
Linguística Geral, em 1916.
94 • capítulo 5
Introduction to the Study of Language e posteriormente redenominada, em
1933, como Language.
• Noam Chomsky, em 1955, anuncia sua obra com descrição empírica das
regras linguísticas The Logical Structure of Linguistic Theory.
• Jonathan Culler recebeu, em 1975, um prêmio respeitável conferido pela
Modern Language Association of America por sua obra Structuralist Poetics.
LEITURA
CASSADEI, Eliza Bachega. As diferentes noções de código narrativo na obra de Roland
Barthes: as translações de sentido em um conceito. In: Estudos Semióticos. vol. 8, n.1, junho
de 2012, semestral, ISSN 1980-4016 p. 66-79. Disponível na <[Link]
semiotica/es/eSSe81/2012esse81_ebcassadei.pdf >. Acesso em 23-4-2013.
(...) o nível narracional tem (...) um papel ambíguo: contíguo à situação narrativa (...), ele
abre sobre o mundo onde a narrativa se desfaz (se consome); mas ao mesmo tempo,
coroando os níveis anteriores, ele fecha a narrativa, constituindo-a definitivamente
como fala (parole) e uma língua que prevê e contém sua própria metalinguagem.
(BARTHES, 1971, p. 51)
capítulo 5 • 95
Por isso, defende a ideia de que o texto literário possui em si mesmo o cer-
ne de sua inteligibilidade, assim não pode ser simplesmente analisado como
demonstração de conflitos sociais, históricos, psicológicos etc. Barthes nega a
ideia de que o texto seja apenas um modelo de verdade ou de reprodução da
realidade e prega uma investigação da natureza simbólica do texto, já que o
texto é polissêmico, cuja pluralidade de sentidos de uma obra literária cria uma
espécie de ambiguidade, elemento fundamental para a edificação da definição
de literariedade.
No nível da narrativa, Tzvetan Todorov apresenta possibilidades de pontos
de vista assumidos pelo narrador como na denominada:
CONEXÃO
Leia: As estruturas narrativas, de Tzvetan Todorov disponível em < estrut narrativas_todorov.
doc - Páginas Pessoais >. Acesso em 8=7-2015.
96 • capítulo 5
• Narração - ato narrativo produtor, o conjunto da situação real ou fictícia
na qual toma lugar.
(...) a distinção na narrativa entre (1) récit, a ordem dos acontecimentos do texto, (2)
histoire, a sequência na qual esses acontecimentos ocorreram “realmente”, como pode-
mos deduizr do próprio texto e (3) narration, o próprio acto de narrar. As duas primeiras
categorias equivalem à distinção clássica dos formalistas entre “trama” e “história”.
capítulo 5 • 97
O New criticism tem como fundamento a opinião de que todo texto deve ser
interpretado em sua unidade e autonomia. Com essa justificativa, Eliot não vê
o poema como uma expressão da personalidade e dos sentimentos vividos pelo
poeta. Para ele, a construção de um texto é a apropriação da tradição literária,
de modo que a visão individual deve se transformar em uma sabedoria técnica,
que
Mas isso não se refere apenas à poesia; no campo da prosa também é perti-
nente, pois
Para Eliot, o autor deve compor seus textos com símbolos universais que
tragam uma percepção e uma reação emocional no leitor, e não com suas emo-
ções particulares na produção de uma obra.
Outro ponto interessante é que o New Criticism crê que o contexto em que
determinada obra foi produzida pode ser ignorado. Desse modo, a teoria é ino-
vadora por possuir um caráter completamente autobiográfico e anti-histórico,
contrariando as propostas academicistas tradicionais. Assim, grande parte dos
críticos ligados ao New Criticism desprezavam a intenção do autor e da história
social em que uma obra foi produzida.
98 • capítulo 5
Surgem, então, dois conceitos no New Criticism, fundamentados nos escri-
tos de William K. Wimsatt e Monroe Beardsley: a falácia intencional e a falá-
cia emocional.
Entendamos:
capítulo 5 • 99
Reforçando essa ideia, Alfredo Bosi afirma que a Nova Crítica “deveria desta-
car e valorizar a qualidade estética da obra, deixando em segundo plano os fato-
res históricos e biográficos tidos por exteriores à criação literária” (2002, p. 27).
Coutinho pregava que a Nova Crítica brasileira era uma “tendência geral
da evolução crítica, a qual caracteriza a primeira metade do século, tudo indi-
cando que a dirige para a constituição da crítica literária como uma disciplina
autônoma” (COUTINHO, 1975, p.91). Por isso, nota-se que Coutinho tinha a
expressa vontade de tornar a Nova Crítica uma ciência:
Como se pode notar, o objetivo maior de Coutinho era criar uma consciên-
cia crítica, afastado do empirismo e do amadorismo que caracterizava a crítica
literária feita até então. Isto porque a
A crítica literária tem por meta o estudo da literatura, dos gêneros, mas não é um
deles. Ela os analisa, sem se confundir com eles. É uma atividade intelectual, reflexiva,
100 • capítulo 5
usando o raciocínio lógico-formal, procurando adotar um método rigoroso, tanto
quanto o das ciências, porém de acordo com a natureza do fenômeno que estudo o
fenômeno literário, a obra de arte da linguagem. É um método específico para um
objeto específico. Não é uma atividade imaginativa, embora consinta no auxílio da
imaginação; é uma atividade científica, sem utilizar os métodos das demais ciências
(biológicas, físicas, naturais), nem se valer das suas leis e conclusões; não é a filoso-
fia, mas recorre ao raciocínio lógico-formal, para refletir sobre os fenômenos da arte
da palavra. (COUTINHO, 1978, p.92)
Desse modo, a Nova Crítica via a literatura como estrutura artística, que pro-
curava ver que um texto literário é ao mesmo tempo uma obra de arte da lingua-
gem. Partindo dessa conjectura,
(...) a análise verdadeiramente crítica, tal como concebida pela nova crítica, incorpora a
análise formal à análise da imagística e do símbolo e mito, bem como a decomposição
de sua estrutura arquitetônica, sem o que não se pode apreender a unidade da obra, a
sua orgânica unidade e sua autonomia como forma de arte, como um todo de sentido,
na constituição do qual entram os artifícios literários e os signos estéticos (COUTI-
NHO, 1968b, p. XLVI).
AUTOR
Antonio Candido de Mello e Souza (Rio de Janeiro RJ 1918). Escritor, crítico literário, soció-
logo e professor. (...). Lançada em 1959, sua obra mais influente e polêmica é a Formação da
Literatura Brasileira, na qual estuda os momentos decisivos da formação do sistema literário
capítulo 5 • 101
brasileiro. Candido escreve no capítulo "Traços gerais": 'O momento decisivo em que as ma-
nifestações literárias vão adquirir, no Brasil, características orgânicas de um sistema é mar-
cado por três correntes principais de gosto e pensamento: o neoclassicismo, a ilustração, o
arcadismo' (Formação da Literatura Brasileira, v. 1, p. 41, Itatiaia, 7ª edição, 1993). De volta à
USP, em 1961, assume como professor colaborador a disciplina de teoria literária e literatura
comparada. Entre 1964 e 1966, dá aulas de literatura brasileira na Universidade de Paris e,
em 1968, atua como professor visitante de literatura brasileira e comparada na Universidade
de Yale, Estados Unidos. Aposenta-se pela USP, em 1978, mas permanece ligado à pós-
graduação e à orientação de trabalhos acadêmicos. (...)
FONTE: [Link] .
Acesso em: 8-7-2015.
Não desejo aqui propor uma teoria sociológica da arte e da literatura, nem mesmo
fazer uma contribuição original à sociologia de ambas; mas apenas focalizar aspectos
sociais que envolvem a vida artística e literária nos seus diferentes momentos. (CAN-
DIDO, 2006, p.25)
No entanto, isso não quer dizer que devamos fazer uma análise extrínseca
do texto, pois o que Antônio Candido nos expõe é que os estudos das obras li-
terárias que almejam status de crítica literária precisam continuamente consi-
derar o caráter natural do texto, ou seja, mostra que devemos moldar o método
analítico à obra. Por isso, o crítico de literatura não deve acercar-se de aprecia-
ções pré-definidas em relação ao texto em análise, mas partir dos dados inter-
pretativos apresentados pela própria obra.
102 • capítulo 5
Desse modo,
O primeiro cuidado em nossos dias é, portanto, delimitar os campos e fazer sentir que a
sociologia não passa, neste caso, de disciplina auxiliar; não pretende explicar o fenôme-
no literário ou artístico, mas apenas esclarecer alguns dos seus aspectos. Em relação a
grande número de fatos dessa natureza, a análise sociológica é ineficaz, e só desorien-
taria a interpretação; quanto a outros, pode ser considerada útil; para um terceiro grupo,
finalmente, é indispensável. Dele nos ocuparemos. Neste ponto, surge uma pergunta:
qual a influência exercida pelo meio social sobre a obra de arte? Digamos que ela deve
ser imediatamente completada por outra: qual a influência exercida pela obra de arte
sobre o meio? Assim poderemos chegar mais perto de uma interpretação dialética,
superando o caráter mecanicista das que geralmente predominam. Algumas das ten-
dências mais vivas da estética moderna estão empenhadas em estudar como a obra de
arte plasma o meio, cria o seu público e as suas vias de penetração, agindo em sentido
inverso ao das influências externas. (CANDIDO, 2006, p.26)
A função total deriva da elaboração de um sistema simbólico, que transmite certa visão
do mundo por meio de instrumentos expressivos adequados. Ela exprime representa-
ções individuais e sociais que transcendem a situação imediata, inscrevendo-se no patri-
mônio do grupo. (...) A função social comporta o papel que a obra desempenha no esta-
belecimento de relações sociais, na satisfação de necessidades espirituais e materiais,
na manutenção ou mudança de uma certa ordem na sociedade;" e o "lado voluntário da
criação e da recepção da obra concorre para uma função específica, menos importante
que as outras duas e frequentemente englobada nelas, e que se poderia chamar de
função ideológica, - tomando o termo no sentido amplo de um desígnio consciente, que
pode ser formulado como ideia, mas que muitas vezes é uma ilusão do autor, desmenti-
da pela estrutura objetiva do que escreveu. (CANDIDO, 2006, p.55- 56)
capítulo 5 • 103
CONEXÃO
Acesse: [Link] e leia Antonio
Candido o mestre do Brasil.
Crítico literário, pensador social e militantepolítico, Antonio Candido revolucionou a ma-
neira dever a cultura nacional e de interpretar o Brasil/
ATIVIDADES
01. Qual é a origem e a finalidade do formalismo russo?
06. Como explica Carlos Ceia conceitos narrativos propostos pela divisão estruturalis-
ta genettiana?
REFLEXÃO
Longe de estabelecer pontos decisivos acerca da crítica literária do século XX como um
todo, visou-se neste capítulo a uma reflexão sobre a vertente da crítica russa, francesa, nor-
te-americana e suas influências no Brasil. Mostramos um percurso e uma história breve a
respeito de princípios e propostas de análise literária.
As inúmeras explanações de um texto estão amarradas à visão particular daquele que
lê, por isso, corrente crítica convém como instrumento para a tarefa de interpretar a arte que
o crítico tem.
Vale ressaltar que nenhuma crítica literária será satisfatória para a análise completa de
uma obra literária. Consecutivamente, necessário é considerar aspectos da linguagem para
se chegar ao mais próximo possível de uma interpretação completa, enquanto ciência.
104 • capítulo 5
Desse modo, cabe ao aluno de Letras, e estudioso da literatura, adquirir cada vez mais
informação sobre as principais correntes críticas da literatura desenvolvidas ao longo da
história, para completar sua formação e angariar conhecimento. A tarefa árdua para qualquer
crítico, mas não impossível!
LEITURA
CASSADEI, Eliza Bachega. As diferentes noções de código narrativo na obra de Roland
Barthes: as translações de sentido em um conceito. In: Estudos Semióticos. vol. 8, n.1, junho de 2012,
semestral, ISSN 1980-4016 p. 66-79. Disponível na <[Link]
eSSe81/2012esse81_ebcassadei.pdf >. Acesso em 23-4-2013.
TEIXEIRA, Ivan. O formalismo russo. In: Fortuna crítica 2. Disponível na <[Link]
anexos/depaula/ivan_cult_formalismo_russo.pdf >. Acesso em 8-7-2015.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, Roland. A Atividade Estruturalista, In: O Método Estruturalista, HEUSH, L. et al., Rio de
Janeiro: Zahar, 1967.
BARTHES, R. Análise estrutural da narrativa. Petrópolis: Vozes, 1971.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006.
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9 ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006.
CEIA, Carlos. E-Dicionário de termos. Disponível em < [Link] >. Acesso em
[Link].2015.
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. [Link]. Rio de Janeiro: Sul Americana, 1968.
COUTINHO, Afrânio. A Crítica e os Rodapés. Rio de Janeiro: Simões Editora, 1969.
COUTINHO, Afrânio. Da crítica e da nova crítica. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
COUTINHO, Afrânio. Crítica literária. In: ______. Notas de teoria literária. [Link]. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1978.
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura – Uma Introdução. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
ELIOT, T. S. A essência da poesia. Tradução de M. L. Nogueira. Rio de Janeiro: Artenova, 1972.
GENETTE, Gérard. Discurso da narrativa. 3. ed. Lisboa: Vega, 1995.
JAKOBSON, Roman. Questions de poétique. Dir. de Tzvetan Todorov. Paris Éditions du Seuil, 1973.
PAZ, O. O arco e a lira. Trad. O. Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
capítulo 5 • 105
Anexo A
Fonte: [Link]
John Crowe Ransom foi um dos principais poetas da sua geração. Um pro-
fessor altamente respeitado e crítico, Ransom estava intimamente ligado ao
movimento literário início do século XX conhecido como os fugitivos, mais tar-
de, os Agrários do Sul. Por volta do ano 1915, um grupo de quinze ou mais pro-
fessores e estudantes da Universidade de Vanderbilt começou a se reunir infor-
malmente para discutir as tendências na vida americana e literatura. Liderados
por John Crowe Ransom, em seguida, um membro do corpo docente Inglês da
universidade, esses jovens "Fugitives", como eles chamavam a si mesmos, em
oposição tanto o sentimentalismo tradicional da escrita do sul e que o ritmo
cada vez mais frenético da vida como os anos de guerra turbulentos deu lugar
à Heróis Esquecidos. Eles gravaram as suas preocupações em uma revista de
poesia intitulado o fugitivo, que, embora parecia pouco mais do que uma dúzia
de vezes após a primeira edição foi publicada em 1922, revelou-se na vanguar-
da de um novo movimento literário-Agrarianismo-e um novo forma de analisar
obras de arte-the New Criticism. Como um dos principais porta-vozes do grupo
(juntamente com outros membros Allen Tate , Robert Penn Warren , e Donald
Davidson), John Crowe Ransom, eventualmente, veio a ser conhecido como o
decano dos poetas e críticos americanos do século XX.
Tanto quanto Ransom e seus companheiros estavam preocupados Agrários,
observou John L. Stewart em seu estudo sobre o poeta e crítico, "a poesia, as
artes, ritual, tradição, e da forma mítica de olhar a natureza prosperar melhor
em uma cultura agrária baseada em uma economia dominada por pequenas
propriedades de subsistência. Trabalhando diretamente e intimamente com
a natureza o homem encontra satisfação estética e é mantido a partir concei-
tedness e cobiça pelas muitas lembranças dos limites do seu poder e entendi-
mento. Mas em uma cultura industrial que ele é cortado da natureza ... Seus
artes e religiões murchar e ele vive miseravelmente em uma selva retilínea de
fábricas e apartamentos de eficiência. " Em suma, explicou Louis D. Rubin,
Jr., em Escritores do Sul moderna ", para Ransom a imagem agrária é do tipo
de vida em que o lazer, a graça, a civilidade pode existir em harmonia com o
106 • capítulo 5
pensamento e ação, fazendo do indivíduo vida, uma experiência harmoniosa
saudável .... Sua agrarianism é da antiga plantação de Southern, a vida gentil,
educado de lazer e requinte, sem a necessidade ou inclinação para pioneiro.
"Embora o sonho rústico da Agrarians mais ou menos evaporou-se com a vinda
da Depressão, ele deixou a sua marca filosófica sobre o trabalho posterior de
Ransom. Como Richard cinza observou em seu livro The Literature of Memory ",
a tese de que a quase totalidade da escrita [de resgate] propõe a provar, de uma
forma ou de outra, é que apenas em um tradicional e rural sociedade o tipo
de sociedade que é simbolizadas por Ransom pela antebellum Sul-o ser huma-
no pode atingir a completude que vem de exercer a sensibilidade ea razão com
igual facilidade. "
Os poemas de resgate, escritas principalmente entre 1915 e 1927, mas revi-
sadas várias vezes durante os anos seguintes, refletiu essa preocupação com o
regionalismo ea luta entre razão e sensibilidade de uma temática, bem como
um ponto de vista estilístico."Mundo poético", de Ransom por exemplo, rela-
tou o Washington Post Book World 's Chad Walsh, "é principalmente no Sul,
não o Sul como ele realmente era quando o algodão ea escravidão foram coroa-
dos cabeças, não o sul-empírica de que os sociólogos estudam hoje , mas um
poder-ter-sido-Sul, uma visão de gentileza em todos os sentidos que a palavra
Chaucerian. " Stewart concordou que Ransom era "verdadeiramente um escri-
tor sul", mas ele atribuiu isso a menos para a escolha do poeta de temas e fun-
dos do que com "seu estilo e sua visão". Explicou o crítico: "qualidades [regio-
nais], a violência juntamente com elegância, afinidade para dicção incomum,
a preocupação com a insígnia do feudalismo eo chevalier como a incorporação
de seus valores, paródia do homem de ideias, e assim por diante, são transfor-
mados por visão dupla de Ransom e ironia em uma poesia tão conspicuamente
seu próprio que sua individualidade ao invés de qualquer regionalismo impres-
siona pela primeira vez o leitor .... No entanto, é difícil conceber tal poesia sen-
do escrito no século XX americano por qualquer pessoa e não do Sul. "
Além de ser inequivocamente do Sul, em caráter, o mundo de Ransom é um
mundo de opostos fundamentais, um mundo onde o homem está constante-
mente cientes de "as ambiguidades inesgotáveis, os paradoxos e tensões, as
dicotomias e ironias que compõem [moderna] vida", escreveu Thomas Daniel
novo em um estudo do [Link] temas, continuou Young, enfatizou "dupla
natureza do homem e da miséria inevitável e desastre que sempre acompa-
nham a incapacidade de reconhecer e aceitar essa verdade básica; mortalidade
capítulo 5 • 107
ea fugacidade de vigor juvenil e graça, a decadência inevitável da beleza femini-
na, a disparidade entre o mundo como homem teria-lo e como ele realmente é,
entre o que as pessoas querem e precisam emocionalmente e que está disponí-
vel para eles, entre o que o homem deseja eo que ele pode obter; sensibilidades
dividida do homem e as guerras constantemente em fúria dentro dele, o inevi-
tável colidir entre corpo e mente, entre razão e sensibilidade; a necessidade de
apreensão simultânea do homem de indiferença da natureza e do mistério e
sua apreciação de suas belezas sensoriais; a incapacidade do homem moderno,
em seu estado incompleto e fragmentário, para experimentar o amor ".
Estes vários dualismos na poesia de Ransom poderia ser melhor descrito
em termos de um debate entre a cabeça eo coração, isto é, como Young obser-
vou, entre a razão ea sensibilidade estética. Ransom procurado continuamente
o equilíbrio entre os dois, um equilíbrio que, no entanto precária que poderia
ter sido, tentou dar tempo igual para ambos lógica e sentimento. Detestava ex-
tremos de qualquer tipo e deliberadamente se esforçou para um certo distan-
ciamento em sua poesia que atingiu alguns críticos como sendo bastante frio e
acadêmica. Ao estabelecer tal "distância estética", no entanto, Ransom sentiu
que poderia fornecer ao leitor uma visão melhor de seu assunto do que aqueles
poetas que imbuídos seu trabalho com sentimentalismo e outras atitudes pes-
soais que distraem. Assim, o poema típico Ransom nunca foi autobiográfico
ou didática, pois, como Wesley Morris apontou em seu livro Rumo a um Novo
Historicismo ", a teoria dualista [de resgate] exige que no reino do discurso poé-
tico do artista nunca deve afirmar a sua própria personalidade; ele deve perma-
necer como 'quase anônimo "quanto possível". Como resultado, Thornton H.
Parsons observou em seu estudo crítico ", uma apreciação adequada das cha-
madas poesia de Ransom para um cultivo modesto de ascese literária. O leitor
deve acostumar-se à ideia de que ele vai encontrar nenhum retrato de personali-
dades fortes, não muito drama emocional, e (exceto muito fraca e indiretamen-
te) pouco senso de terrível auto-descoberta de um poeta. Ele deve ajustar-se a
registar sutilezas indescritíveis de percepção e elegâncias de rima, sagacidade,
e retórica. Ele deve ser um pouco disposto a perdoar Ransom para a auto-cons-
ciência estética aguda que o fez paixão habitualmente subordinado ao controle
tonal. Ele deve ser indulgente de vícios de Ransom para empalidecer ou ironia
paralisante e capricho refinado. Em breve, ele deve aceitar as limitações ineren-
tes a uma poesia civilizado e tentar saborear as excelências frágeis ".
(...)
108 • capítulo 5
ANEXO B
Fonte: [Link]
tonio-candido/ . ACESSO EM 8-7-2015.
Leia a seguir uma entrevista exclusiva com o ensaísta sobre seu papel na
transformação da crítica brasileira, suas referências metodológicas e os recém
-lançados Textos de Intervenção e Bibliografia de Antonio Candido, que resga-
tam um período pouco conhecido de sua obra
capítulo 5 • 109
Qual a sua opinião sobre as críticas de Afrânio Coutinho –defensor de uma
formação teórica de matiz acadêmico – aos rodapés literários?
Creio que ele não foi propriamente crítico, mas, como dizia, um critic’s critic,
uma espécie de doutrinador por meio do jornal, interessado em divulgar cer-
tas tendências modernas da crítica, sobretudo a americana. A partir de dado
momento insistiu na importância da crítica universitária, que estava se esbo-
çando no Brasil, mas é curioso que uma das correntes que mais preconizou, o
new criticism, era formada por autores que valorizavam sobretudo a leitura de
textos em profundidade e tentavam se afastar o mais possível da crítica univer-
sitária tradicional, baseada na erudição e na história. Mas o critério de Afrânio
Coutinho era aberto, tanto assim que considerava obra máxima da nova crítica
Mimesis, de Auerbach, cuja orientação é filológica e atenta ao contexto históri-
co. Essa abertura influiu favoravelmente a obra fundamental por ele organiza-
da, A literatura do Brasil, cujos colaboradores foram deixados livres para seguir
os respectivos pontos de vista, que freqüentemente não coincidiam com os do
organizador. O seu ataque ao jornalismo crítico tem um lado paradoxal, pois
ele próprio se realizou sobretudo na imprensa periódica.
110 • capítulo 5
Quais eram os seus critérios de orientação na Universidade? Como atuava
em relação aos seus orientandos?
É preciso esclarecer que até os quarenta anos fui na Universidade assistente
de sociologia. Quando me tornei professor de literatura em 1958, na Faculdade
de Assis, e a partir de 1961 em São Paulo, nos cursos procurei sobretudo con-
trapor o trabalho com os textos à tendência histórica e biográfica tradicional,
ou ao exagero de teoria que estava começando. Além disso, iniciei o estudo dos
autores modernistas e seus sucessores, que até então não eram tema de ensino
superior. Neste sentido, usei em aulas e seminários textos de Mário de Andrade,
Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, João Cabral,
além de sugerir Mário de Andrade e Oswald de Andrade como assuntos de dis-
sertações e teses. Com relação aos orientandos, a minha tendência era dar toda
assistência aos que a solicitavam e precisavam dela, deixando liberdade com-
pleta aos que não queriam e nem precisavam. Este último caso ocorreu sobre-
tudo nos doutorados pelo regime antigo, bastante informal, onde a elaboração
da tese era praticamente tudo e não havia a obrigação de seguir cursos. Nesse
regime tive candidatos já maduros intelectualmente, inclusive alguns de reno-
me, aos quais, é claro, deixava liberdade total.
capítulo 5 • 111
Parece que os ensaios que o sr. chama “de interpretação cultural” duram
mais porque têm mais alcance aos olhos do público, na medida em que se re-
ferem ao país, à sociedade, à formação histórica, geralmente de interesse mais
geral do que a literatura. Seja como for, nunca houve no Brasil um livro de crí-
tica ou de história literária da categoria dos que foram escritos pelos autores
que citou.
Textos de Intervenção traz críticas sobre poesia que o sr. não incluiu em
seus livros anteriores – em que predominam análises de obras em prosa. Por
que havia essa predominância da prosa em sua obra pregressa?
Não se esqueça de que sempre escrevi muito sobre poesia e que tenho um
livrinho didático, Na sala de aula, no qual só há análises de poemas.
112 • capítulo 5
supervalorizando livros fracos de autores famosos; mas não me lembro de ne-
nhum erro calamitoso, isto é, considerar de primeira plana quem não era ou
desqualificar alguém de alto nível. Mas talvez a memória esteja manobrando a
meu favor…
O sr. acredita que o impacto das obras literárias altera os princípios meto-
dológicos da crítica? Obras como as de Guimarães Rosa e Clarice Lispector es-
timularam a criação de novos conceitos da teoria literária?
Creio que sim, embora não necessariamente. Eu próprio tive a oportunida-
de de estudar como o poema cavaleiresco do Renascimento italiano suscitou o
primeiro esboço de teoria do romance em Giraldi Cinthio. A ficção de Stendhal
e a de Balzac influíram na formação dos pontos de vista críticos de Taine, orien-
tados pelo determinismo. A obra de Henry James foi decisiva para certo tipo
de teoria do romance, que privilegiava a perfeição formal, encarnada no que
alguns denominaram “o romance bem feito” (the well made novel). Haja vista o
livro de Percy Lubbock, The craft of fiction, que tanta influência teve. As obras
brasileiras que o sr. citou levaram muitos críticos a focalizar problemas de cria-
ção linguística.
capítulo 5 • 113
estrangeiros, que nos marcaram profundamente, e com meus companheiros
de geração, o chamado “grupo deClima”. Com isso vejo que não respondi à sua
pergunta, mas disse algo que explica minha formação.
GABARITO
Capítulo 1
01. A teoria literária preserva a especificidade do objeto literário sem invalidar, no entan-
to, as suas várias vertentes psicológicas, sociológicas e históricas. Estas, por sua vez, são
vertentes abordadas, principalmente, pela História da literatura, como produtos culturais e
ideológicos. Já a crítica observa tudo isso e julga o que é o correto em cada um de modo
objetivo e imparcial.
02. Aristóteles trata produções argumentativas, de fundo retórico, como poética porque as
analisa do campo da linguagem. Por esse fato, Aristóteles se contrapões às ideias de seu
mestre, Platão, quanto à concepção de arte, apesar de ser seu discípulo. Platão via a arte
114 • capítulo 5
como uma mimesis da natureza e, por isso, defeituosa, desvirtuada. Ao contrário, Aristóteles
via a arte como criação em suas diversas manifestações culturais, artísticas, enfim, poéticas.
Ou seja, técnica de produção de conhecimento.
Capítulo 2
01. a) Positivismo é uma linha teórica da sociologia, criada pelo francês Auguste Comte
(1798-1857), que começou a atribuir fatores humanos nas explicações dos diversos assun-
tos, contrariando o primado da razão, da teologia e da metafísica. De acordo com a corrente
filosófica positivista, todos os acontecimentos poderiam ser esclarecidos por meio da ciência,
analisando a realidade dos eventos através da metodologia experimental.
b) Darwinismo ou evolucionismo é uma nova compreensão biológica elaborada pelo
cientista inglês Charles, que recusa a procedência divina dos seres e oferece uma variante
para a genealogia das espécies em sua obra A origem das espécies, que versava principal-
mente sobre a seleção natural como a causa da evolução das espécies, de acordo com a qual
os seres mais fortes se adaptavam e sobreviviam aos mais fracos, ao passo que estes não
conseguiam se adaptar e acabavam por perecer.
02. A literatura realista é exemplo da denominada “arte engajada”, pois a preocupação maior
do escritor desse período é adequar a noção da realidade com vistas a causar sua modifica-
ção. Quando avalia a realidade, o autor realista adota uma posição cientificista ao registrá-la
objetivamente, como se lançasse um olhar atento e imparcial, produzindo um retrato fiel do
que vê, não apregoando, qualquer ajuizamento de valor, embora a obra possa despertar no
leitor esse julgamento.
Já arte pela arte é praticada pelo artista parnasiano, uma vez que os assuntos e temas
eram simples desculpa para exercer o prazer do ato de escrever. Para os parnasianos, o
tema não interessava tanto, mas, sim, o como este era trabalhado poeticamente, buscando
unicamente a perfeição formal.
Capítulo 3
capítulo 5 • 115
• Subjetivismo = expressão íntima do eu-poético acerca dos temas e aflições humanos
• Pessimismo = depressão, melancolia, mal do século
• Fuga da realidade = por intermédio da natureza, da fantasia, da imaginação e até da mor-
te idealizada
• Condoreirismo = visão ampla da sociedade, já com demonstração de preocupação social
Capítulo 4
01. O mais importante no Impressionismo é o instantâneo e único, tal como aparece ao olho
do observador. Não é o objeto, mas as sensações e emoções que ele desperta. Não se trata
de apresentar o objeto tal como visto, mas como é visto e sentido num dado momento.
02. A crítica impressionista se compõe de uma apreciação constituída somente nos sen-
timentos que o texto suscita no leitor, ou seja, análises impressionistas passam a ser for-
muladas por meio das impressões causadas no leitor por sua relação individual com o tex-
to literário.
03. De acordo com essa perspectiva, a obra literária era vista como uma instituição social,
um documento – de uma raça, uma época, uma sociedade, uma personalidade – e as rela-
ções entre a literatura e a vida se resolviam em favor da vida, de que a literatura tinha que
ser um espelho.
04. O biografismo crítico ou a crítica biográfica reza que uma análise de um documento
literário não pode abrir mão de subsídios biográficos pertinentes para uma apreensão da
mensagem de forma mais ampla.
05. A proposta crítica de Flora Sussekind é a de extrair da obra de arte e de sua autoria so-
mente aquilo que se fizesse o mais importante e indispensável para uma boa análise literária.
06. O primeiro traço versaria as vidas ou de brasileiros ou de pessoas de interesse crucial
para a história do Brasil, pouco divulgadas; O segundo traço defenderia causas progressistas.
Capítulo 5
01. O nome do movimento é fruto dos estudos formalistas russos do Círculo Linguístico
de Moscovo, constituído por alunos da Universidade de Moscovo, que tinham o intento de
originar novos estudos de poética e de linguística, abdicando dos preceitos da linguística
tradicional e promovendo a renovação da poesia russa.
02. Não. Os usos especiais de linguagem que pertencem ao mundo literário também exis-
tem fora dele, como por exemplo, em discursos orais do cotidiano, cheios de metáforas e
outros elementos literários.
116 • capítulo 5
03. O fenômeno estruturalista acredita não no reconhecimento do sentido propriamente dito
ou nas construções de interpretação do sentido, mas sim no estudo sincrônico de estruturas
ou sistemas que produzem o sentido.
04. Não. Barthes nega a ideia de que o texto seja apenas um modelo de verdade ou de
reprodução da realidade e prega uma investigação a natureza simbólica do texto, já que o
texto é polissêmico, cuja pluralidade de sentidos de uma obra literária cria uma espécie de
ambiguidade, elemento fundamental para a edificação da definição de literariedade.
05. São 3 os pontos de vista do narrador.
Visão com: que apresenta um narrador sabe tudo o que uma personagem sabe;
Visão por detrás: de acordo com a qual o narrador conhece mais da realidade narrativa
do que uma personagem;
Visão de fora: segundo a qual o narrador sabe ou finge saber menos do que qualquer
personagem.
06. récit, a ordem dos acontecimentos do texto,
• histoire, a sequência na qual esses acontecimentos ocorreram “realmente”, como podemos
deduizr do próprio texto
• narration, o próprio acto de narrar. As duas primeiras categorias equivalem à distinção
clássica dos formalistas entre “trama” e “história”.
07. ele representa uma impiedosa desmistificação da literatura.
• o estruturalismo era espantosamente não-histórico: as leis da mente que ele dizia isolar
– paralelismos, oposições, inversões, e todo o resto – agiam em um nível de generalidade
bastante distante das diferenças concretas da história humana.
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ANOTAÇÕES
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