BERGSON. O Riso - Ensaio sobre a significação da comicidade.
Capitulo I: Da comicidade em geral /
A comicidade das formas e a comicidade dos movimentos força de expansão da comicidade. São
Paulo, 2007, p. 01-06.
O que significa o Riso? O que há no fundo do risível? O que haveria de comum entre uma careta
de palhaço, um jogo de palavras, um qüiproquó de vaudeville, uma cena de comédia fina? Que destilação
nos dará a essência, sempre a mesma, da qual tantos diferentes produtos extraem indiscreto odor ou
delicado perfume? Os maiores pensadores, desde Aristóteles, estiveram às voltas com esse probleminha,
que sempre se esquiva aos esforços, escorrega, escapa e ressurge, impertinente desafio lançado à
especulação filosófica.
Nossa escusa, para abordar o problema, é que não teremos em vista encerrar a invenção cômica
numa definição. Vemos nela, acima de tudo, algo vivo. Por mais ligeira que seja, nós a trataremos com o
respeito que se deve à vida. Nós nos limitaremos a vê-la crescer e desabrochar. De forma em forma, por
gradações insensíveis, diante de nossos olhos ela realizará singulares metamorfoses. Não
desprezaremos nada do que virmos. Talvez, aliás, com esse contato assíduo ganhemos alguma coisa
mais flexível que uma definição teórica: um conhecimento prático e íntimo, como o que nasce da longa
camaradagem. E talvez descubramos também que, sem querer, travamos um conhecimento útil.
Razoável, a seu modo, até em seus maiores desvios, metódica em sua loucura, sonhadora, se me
permitem, mas capaz de evocar em sonhos visões que são prontamente aceitas e compreendidas por
toda uma sociedade, por que a invenção cômica não nos daria informações sobre os procedimentos de
trabalho da imaginação humana e, mais particularmente, da imaginação social, coletiva, popular? Oriunda
da vida real, aparentada com a arte, como não nos diria ela também uma palavra sua acerca da arte e da
vida? Faremos no inicio três observações que consideramos fundamentais. Referem-se menos à
comicidade em si do que ao lugar onde esta deve ser procurada.
Vejamos agora o primeiro ponto para o qual chamaremos a atenção. Não há comicidade fora
daquilo que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou
feia; nunca será risível. Rimos de um animal, mas por termos surpreendido nele uma atitude humana ou
uma expressão humana. Rimos de um chapéu; mas então não estamos gracejando com o pedaço de
feltro ou de palha, mas com a força que os homens lhe deram, com o capricho humano que lhe serviu de
molde. Como um fato tão importante, em sua simplicidade, não chamou mais a atenção dos filósofos?
Vários definiram o homem com “um animal que sabe rir”.
Poderiam também tê-lo definido como um animal que faz rir, pois, se algum outro animal ou um
objeto inanimado consegue fazer rir, é devido a uma semelhança com o homem, à marca que o homem
lhe imprime ou ao uso que o homem lhe dá.
Cabe ressaltar agora, como sintoma não menos digno de nota, a insensibilidade que
ordinariamente acompanha o riso. Parece que a comicidade só poderá produzir comoção se cair sobre
uma superfície d’alma serena e tranqüila. A diferença é seu meio natural. O riso não tem maior inimigo
que a emoção. Não quero com isso dizer que não podemos rir de uma pessoa que nos inspire piedade,
por exemplo, ou mesmo afeição: é que então, por alguns instantes, será preciso esquecer essa afeição,
calar essa piedade. Numa sociedade de puras inteligências provavelmente não mais se choraria, mas
talvez ainda risse; ao passo que almas invariavelmente sensíveis, harmonizadas em uníssono com a vida,
nas quais qualquer acontecimento se prolongasse em ressonância o riso. Que o leitor tente, por um
momento, interessar-se por tudo o que é dito e tudo o que é feito, agindo, em imaginação, com os que
agem, sentindo com os que sentem, dando enfim à simpatia a mais irrestrita expressão: como num passe
de mágica os objetos mais leves lhe parecerão ganhar peso, e uma coloração grave incidirá sobre todas
as coisas. Que o leitor agora se afaste, assistindo à vida como espectador indiferente: muitos dramas se
transformarão em comédia. Basta taparmos os ouvidos ao som da música, num salão de baile, para que
os dançarinos logo nos pareçam ridículos. Quantas ações humanas resistiriam a uma prova de chofre do
grave ao jocoso, se as isolássemos da música de sentimento que as acompanha? Portanto para produzir
efeito pleno, a comicidade exige enfim algo como uma anestesia momentânea do coração. Ela se dirige à
inteligência pura.
Mas essa inteligência deve permanecer em contato com outras inteligências. Esse é o terceiro
fato para o qual desejamos chamar a atenção. Não saborearíamos a comicidade se nos sentíssemos
isolados. Parece que o riso precisa de eco. Ouçamo-lo: não é um som articulado, nítido, terminado; é algo
que gostaria de prolongar-se repercutindo de um ponto ao outro, algo que começa com um estrépito para
continuar em ribombo, assim como o trovão na montanha. E no entanto essa repercussão não deve ir ao
infinito. Ela pode caminhar no interior de um círculo tão amplo quanto se queira; nem por isso o círculo
deixa de ser fechado. Nosso riso é sempre o riso de um grupo. Ao leitor talvez já tenha ocorrido ouvir, em
viagem de trem ou à mesa de hospedarias, histórias que deviam ser cômicas para os viajantes que as
contavam, pois que os faziam rir com muito gosto.
O leitor teria rido como eles se pertencesse à sociedade deles. Mas não pertencendo, não tinha
vontade alguma de rir. Um homem, a quem perguntaram por que não chorava num sermão em que todos
derramavam muitas lágrimas, respondeu: “Não sou desta paróquia”. O que esse homem pensava das
lágrimas seria ainda mais aplicável ao riso. Por mais franco que o suponham, o riso esconde uma
segunda intenção de entendimento, eu diria quase de cumplicidade, com outros ridentes, reais ou
imaginários. Quantas vezes já não se disse que o riso do espectador, no teatro, é tanto largo quanto mais
cheia está a sala; quantas vezes não se notou, por outro lado, que muitos efeitos cômicos são
intraduzíveis de uma língua para outra, sendo portanto relativos aos costumes e às idéias de uma
sociedade em particular? Mas foi por não se ter entendido a importância desses dois fatos que se viu na
comicidade uma simples curiosidade em que o espírito se diverte, e no próprio riso um fenômeno
estranho, isolado, sem relação com o resto da atividade humana. Donde as definições que tendem a fazer
da comicidade uma relação abstrata entre idéias percebidas pelo espírito, “contraste intelectual”,
“absurdidade sensível” etc., definições que, mesmo convindo realmente a todas as formas da comicidade,
não explicariam de modo algum por que o que é cômico nos faz rir. Por que motivo, com efeito, essa
relação lógica particular, tão logo percebida, nos contrai, nos dilata, nos sacode, enquanto todas as outras
deixam nosso corpo indiferente? Não é por esse lado que abordaremos o problema. Para compreender o
riso, é preciso colocá-lo em seu meio natural, que é a sociedade; é preciso, sobretudo, determinar sua
função útil, que é uma função social. Essa será – convém dizer desde já – a idéia diretiva de todas as
nossas investigações. O riso deve corresponder a certas exigências da vida em comum. O riso deve ter
uma significação social.
Marquemos nitidamente o ponto para o qual convergem nossas três observações preliminares. A
comicidade nascerá, ao que parece quando alguns homens reunidos em grupo dirigirem todos a atenção
para um deles, calando a própria sensibilidade e exercendo apenas a inteligência. Qual é então o ponto
em particular para o qual deverá dirigir-se a atenção deles? E que será empregada a inteligência?
Responder a essas perguntas será já cercar mais o problema. Mas é indispensável dar alguns exemplos.