Módulo 3: A abertura europeia ao Mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos
séculos XV e XVI
Unidade 1: A geografia cultural europeia de Quatrocentos e Quinhentos
1.1 Principais centros culturais de produção e difusão de sínteses e inovações
1.1.1 As condições da expansão cultural
Época Moderna – Período cronológico da História da Humanidade que se situa entre meados do século XV e finais do
século XVIII. Nela decorreram as descobertas marítimas e o encontro de povos, o triunfo do capitalismo comercial e
a ascensão burguesa, o absolutismo régio, o Renascimento, a Reforma, a afirmação de espírito científico.
Abertura → descoberta das rotas do Cabo e das Américas → Náutica, cartografia
Ao
→ revolução das técnicas e dos conhecimentos → Pólvora, armas de fogo
Mundo
→ Imprensa
1.1.2 O Renascimento: eclosão e difusão
Renascimento – Termo criado pelo pintor e escultor italiano Giorgio Vasari (1511-2574) para designar, a partir do
século XV, um ressurgimento de literatura e das artes baseado nas obras e nos autores da Antiguidade.
Berço do Renascentismo
Itália Florença → “farol” da nova cultura renascentista → governada pela família Médicis
Roma → centro cultural renascentista → devido aos papas Júlio II e Leão X
República da Veneza
Países Baixos
Resto França
Império Germânico
Da Inglaterra
Península Ibérica → Cosmopolitismo das cidades hispânicas – Lisboa e Sevilha
Europa
Hungria
Polónia
Unidade 2: O alargamento do conhecimento do mundo
2.1 O contributo português
1. Náutica
2. Cartografia
Inovação 3. Observação e descrição da Natureza
1
2.1.1 Inovação técnica
1. Náutica
Evoluiu desde meados do século XV
Navegação à bolina: para vencerem ventos contrários, faziam sucessivas inclinações oblíquas de velas, numa
espécie de ziguezague
Caravelas: dois (ou três) mastros dotados de velas triangulares (ou latinas), mais manobráveis permitindo
tirar partido de todas as variações de direção do vento. Era um navio veloz, cerca de 15 metros de quilha e
um porte raramente superior a 150 toneladas
Nau e Galeão: associam à vela latina a vela redonda (ou quadrangular), de 20 a 70 metros de quilha e 500 a
700 toneladas de porte
“Volta de Guiné e Mina” – levava-os ao mar dos Açores. Era uma navegação por alto-mar, por um período
que podia atingir dois meses, sem qualquer referência terrestre
Navegação astronómica: técnica de navegação marítima que recorre à observação da altura dos astros e ao
cálculo da latitude para orientação dos marinheiros
Simplificaram o astrolábio e o
quadrante
Inventaram a bastilha
Tábuas de marear
2. Cartografia
→ Terra apresentava-se como um disco plano, constituído
por três continentes e rodeado de Oceano
Cartografia
Medieval → Decompunha a Terra em zonas, considerando como
inabitáveis as zonas equatorial e polares
(simples e primitiva)
→ Obra do geógrafo grego Ptolomeu e, entre várias
incorreções, não admitiam a comunicabilidade entre os
oceanos Atlântico e Índico
Representações simbólicas, não existindo critério científico nas formas, nas dimensões ou na disposição
relativa das terras, dos mares e dos rios
Fruto da expansão marítima dos séculos XV e XVI, a cartografia europeia registou um aperfeiçoamento notável.
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3. Observação e descrição da Natureza
A expansão marítima proporcionou aos portugueses uma atenta observação da Natureza, que pôs em causa muitas
das conclusões tiradas pelos Antigos.
→ Adquiriu-se uma mais correta perceção
dos continentes e mares
Alargou-se o leque de conhecimentos étnicos,
→ Explicou-se o funcionamento dos ventos botânicos, zoológicos e cosmográficos
e correntes marítimas
→ Calculou-se distâncias e latitudes
Em obras sobre geografia física, humana e económica, os Portugueses descreveram com objetividade as
informações da realidade observada.
→ Observações rigorosas sobre a hidrografia, determinação de latitudes, o magnetismo terrestre. A mesma análise
realista evidencia-se nas descrições de fauna e flora (de África, Oriente e Brasil), animais como girafas, elefantes,
rinocerontes e alimentos e plantas como ananás, manga, milho
Ao negar/corrigir os Antigos, os Portugueses ajudaram a construir um novo saber, que tem nome de
experiencialismo.
Experiencialismo – Forma de sabedoria que se identifica com a vivência das coisas, mais próxima da constatação
empírica dos sentidos e do bom senso que da reflexão científica.
O saber português dos séculos XV e XVI contribuiu para o exercício do espírito crítico que se encontra nas raízes do
pensamento moderno.
2.2 O conhecimento científico da Natureza
2.2.1 A matematização do real
Mentalidade Quantitativa – necessidade de quantificar, medir, contar… génese do método experimental das ciências
naturais, utilizando o raciocínio dedutivo como método de precisão, rigor e certeza
2.2.2 A revolução das conceções cosmológicas
Nos séculos XV e XVI: predominavam as conceções geocêntricas, de Aristóteles e Ptolomeu (a terra seria fixa, no
centro do universo e os astros giravam à volta);
Nicolau Copérnico foi o primeiro a contrariar o geocentrismo, apresentado o Heliocentrismo → a Terra e os planetas
efetuavam movimentos de translação e de rotação
Unidade 3: A produção cultural
3.1 Distinção social e mecenato
As elites cortesãs e burguesas, as próprias Cortes, apostaram no embelezamento dos palácios e no apoio aos artistas
e intelectuais como símbolo de afirmação social.
3.1.1 A ostentação das elites cortesãs e burguesas
Os séculos XV e XVI foram de grande crescimento económico → sectores (nobreza e burguesia) ligados ao comércio
e á finança enriqueceram → vão desenvolver formas de exteriorizar a sua riqueza e ascensão social: luxo, conforto,
3
festas, o apoio à cultura (mecenato) → As elites rodeavam-se de luxo e ostentação: belos palácios, roupas
sumptuosas, banquetes, etc. → Praticavam o mecenato
As cortes são um círculo privilegiado da cultura e da sociabilidade renascentista → Uma das cortes mais famosas foi
a dos Médicis em Florença → A festa privada torna-se o espaço privilegiado de divertimento dos ricos (banquetes,
bailes, teatro, jogo, etc.) → surge um conjunto de regras de civilidade (conjunto de formalidades que pautavam a
vida quotidiana e a convivência social. Identificam-se com a etiqueta e as boas maneiras)
Elites sociais
Criação de famosas cortes, como
a corte dos Médicis em Florença
Nobres e Burgueses Buscavam ascensão social
Constituíram um círculo
Rodeadas de Luxo, conforto, beleza e sabedoria privilegiado da cultura e da
sociabilidade renascentistas
Vestes sumptuosas
Ricos Palácios e Solares
Consumo de diversas iguarias Saber humanista + talentos artísticos
Adquiriam obras de arte
MECENATO
3.1.2 O estatuto de prestígio dos intelectuais e artistas
Nobres, burgueses, monarcas e membros do clero fizeram encomendas aos artistas e intelectuais (projetos de arte,
obras literárias, estudos, etc.) → A prática do mecenato era uma forma de imortalizar o nome das elites → O
estatuto do artista e do intelectual torna-se mais importante (são prestigiados e considerados) → os artistas passam
a assinar as suas obras, distinguindo-se do anonimato dos artistas medievais
3.1.3 Portugal: O ambiente cultural da corte régia
O ambiente cultural português foi influenciado pelo processo de centralização do poder real → A prática do
mecenato serviu para atrair intelectuais e artistas à Corte portuguesa
→ Não se pouparam a despesas para acolher humanistas estrangeiros e para
custear bolsas de estudo a estudantes portugueses na Itália, na França e nos
Países Baixos.
Monarcas → Patrocinaram grandes obras arquitetónicas: Mosteiro da Batalha, Mosteiro
dos Jerónimos, Torre de Belém, Convento de Cristo (Tomar); contratando
artistas estrangeiros para a corte.
→ Contribuíram para a elevação da arte e da glória.
Festa do casamento do filho de
D. João II com a Princesa D. D. João II D. Manuel I D. João III
Isabel
→ Sumptuosa Fundou o colégio das
→ Luxuosa artes.
Embaixada de D. Manuel I ao Papa
→ Diversas Iguarias → Coimbra
Leão X.
→ Desfile de fidalgos → Métodos atualizados
→ Animais nunca antes vistos → Qualidade do corpo
→ Lançamento de moedas de ouro docente
4 ao povo
As festas renascentistas constituíram um alto momento de encenação do poder.
3.2 Os caminhos abertos pelos humanistas
Os artistas e intelectuais (Humanistas) do Renascimento abriram novos caminhos para a arte e a cultura →
desenvolveram e aprofundaram os ideais do antropocentrismo individualismo
Humanista – Em sentido estrito, é o letrado profissional, geralmente eclesiástico e/ou universitário, que, nos séculos
XV e XVI, se esforça por ressuscitar as línguas e as letras (poesia, teatro, história, filosofia, retórica) da Antiguidade
Clássica, procurando harmonizar o legado greco-romano com os valores morais do cristianismo, de modo a formar
homens cultos e virtuosos
Antropocentrismo – Conceção segundo a qual o Homem está no centro do Universo, sendo uma espécie de
microcosmo, onde se fundem harmoniosamente o material orgânico e o celestial. Como o ser mais perfeito da
Criação, o Homem define-se pelo seu poder ilimitado de descoberta e transformação
3.2.1 Valorização da Antiguidade Clássica
Uma das características fundamentais dos humanistas é a inspiração nos modelos clássicos (Grécia e Roma) →
Humanistas dedicaram-se à produção literária (poesia, história, teatro, sátira), à filosofia e à retórica → Admiravam
autores da antiguidade como: Homero, Platão, Virgílio, Cícero, Tito Lívio, etc.
Os humanistas procuravam manuscritos antigos nas bibliotecas e mosteiros, uma vez que acreditavam que os copistas
medievais tinham adulterado os textos e os pensamentos dos clássicos → Para entenderem melhor os originais destes
manuscritos, aprenderam grego e aperfeiçoaram a língua latina → Recuperaram as sagradas escrituras
Ex: Novo e Velho testamento
O latim, o grego, o hebraico, a filosofia e a história passaram a fazer parte do currículo do ensino pois eram
consideradas as áreas de estudo fundamentais para a formação moral do homem.
3.2.2 Afirmação das línguas nacionais e consciência da modernidade
Os Humanistas desenvolvem um movimento de afirmação das línguas nacionais → Os humanistas
escreveram grande parte da sua obra nas respetivas línguas nacionais, o que permitiu que mais pessoas lessem
as suas obras → Existia a ideia de divulgar pelo maior número de pessoas as novas ideias → Há uma maior difusão
da cultura na época do Renascimento
3.2.3 Individualismo, espírito crítico, racionalidade e utopia
O individuo distinguia-se e afirmava-se pelo uso da razão → Os homens do Renascimento adotaram uma
mentalidade racionalista → O individualismo valoriza o espírito de criatividade das pessoas →Os humanistas
cultivam a ideia de um mundo perfeito → Os espírito crítico tinha-os levado a compreender os problemas da época
(corrupção, ignorância, abusos dos poderosos, etc.) → surge a crítica social
Nascem as utopias → alguns humanistas imaginam mundos perfeitos onde os homens viviam em paz e felizes →
uma das utopias mais conhecidas é o livro chamado “Utopia” da autoria de Thomas More (1478-1535), onde
imaginou um mundo racional, onde existia igualdade, fraternidade e tolerância → More critica a intolerância, o
abuso de poder dos monarcas, o luxo do clero, a corrupção da sociedade
3.3 A reinvenção das formas artísticas. A imitação e superação modelos da Antiguidade
A arte deste período vai ser inspirada pelas obras greco-romanas, sendo, por isso, conhecido este período como o do
Classicismo.
Classicismo – Tendência estética característica do Renascimento que considera os valores clássicos latinos e gregos
(nas artes e na literatura) como modelos a imitar.
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Tal como os Humanistas, os artistas Renascentistas vão “repudiar” a estética medieval por a considerarem destituída
de “ordem e graça”.
O retorno aos Clássicos deveu-se às suas características:
• Harmonia
• Proporção
• Beleza
Porém a admiração pelos clássicos jamais conduziu a uma simples cópia. Assim como os humanistas tiveram
consciência dos seus talentos, e se revelaram pessoas criticas e interventivas, também os artistas souberam superar
os modelos da antiguidade.
Surgiu, então, a pintura a óleo, as perspetivas e o naturalismo, que levavam a uma maior aperfeiçoamento graças
aos conhecimentos desenvolvidos pelo estudo da matemática, da anatomia e da natureza.
Pintura
→ Pintura a óleo
→ Representação da 3ª dimensão – profundidade através da perspetiva.
→ Gradação de cores e efeitos de luz – Sfumatto
→ Temas mitológicos, religiosos, nus e retratos
→ Realismo
→ Racionalidade das formas obedecendo a esquemas geométricos.
→ Simetria
→ Proporção
→ Representações Naturalistas (Redescoberta do homem, paisagens e animais)
→ Expressividade dos rostos
→ Rigor anatómico
→ Principais pintores: Botticelli , Rafael, Miguel Ângelo, Tintoretto, Grão Vasco (português)
Arquitetura Escultura
→ Vai absorver as suas características nas antigas
construções gregas e romanas:
Arco de volta perfeita;
Abóbadas de berço;
Colunas e pilastras encimadas por capitéis
clássicos; Escultura passa a valer por ela própria
Frontões deixando de ser apenas objeto de
Cúpulas: símbolo do cosmos. ornamento
→ Vai acabar com algumas características do Estilo Inspirada nos temas e formas greco-
Gótico, nomeadamente a verticalidade, voltando a romanos (nus, mitológicos, estátuas
trazer a horizontalidade e a racionalidade. equestres)
Rigor anatómico
Proporção → A obra perfeita deveria inscrever-se
Naturalismo, realismo.
num cubo ou paralelepípedo.
Expressividade na figura humana
→ Simetria: Planta centrada Monumentalidade
Esquemas compósitos (baseados na
→ Perspetiva linear: criar o edifício como uma geometria)
pirâmide visual, onde o observador seja guiado Principais escultores: Donatello, Miguel
através do “ponto de fuga”. Ângelo, etc.
→ Urbanismo
→ Principais arquitetos: Miguel Ângelo, Bramante e
Brunelleschi.
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3.3.4 A arte em Portugal: o gótico-manuelino e a afirmação das novas tendências renascentista
Arquitetura
Reinado de D. Manuel
Estilo artístico vincadamente português
Ligações às descobertas marítimas
Nacionalista e patriotista
Afirma-se na arquitetura e na decoração arquitetónica
Decoração exuberante nas formas naturalistas (motivos marinhos + vegetação terrestre)
Heterogénea
Plateresco, mudéjar, mourisco, flamejante
Função militar, religiosa, civil.
Decoração naturalista (vegetação, cordas, algas, boias, conchas, corais, …)
Simbologia régia: Esfera armilar, escudo real e a cruz da ordem de cristo
Simbologia cristã: Instrumentos da Paixão de cristo e conchas (símbolo de vida)
Estrutura inovada:
Os arcos quebrados deixam de ter exclusividade e associam-se a uma profusão de arcos (conopiais, ogivais
, asa de cesto, trilobados ou abaixados).
Abobada rebaixada
Abobada de cruzamento de ogivas com nervuras
Classicismo:
Reinado de D. João III
Abandono do manuelino
Simplificação das nervuras nas abobadas de cruzaria
Utilização das abobadas de berço redondo
Substituição de contrafortes por pilastras laterais
Delimitação das naves por arcadas redondas, assentes em colunas toscanas
Multiplicação de frontões, colunas, capitéis clássicos e entablamentos
Expansão do modelo igreja-salão
Aparecimento da planta centrada
Principais arquitetos: João de Castilho, Diogo e Francisco de Arruda, Diogo Torralva
Pintura
No século XV verifica-se uma renovação na pintura portuguesa que se aproxima do Renascentismo europeu,
devido a artistas estrangeiros
Cores vivas
Realismo
Técnica do sfumatto
Proporção anatómica
Corpos trabalhados
Principais pintores: Nuno Gonçalves e Vasco Fernandes
Escultura
Ligada á arquitetura (Igrejas)
Estatuária de túmulos, portais e altares
Obras multifacetadas devido à variedade da nacionalidade dos artistas (flamengos, franceses, espanhóis)
Os mestres, atraídos pelo cosmopolitismo que lhes oferecia Lisboa, deslocavam-se para cá e eram
requisitados quer por reis, bispos e outros mecenas.
Principais escultores: Diogo Pires, João de Castilho, Diogo Arruda
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Unidade 4: A renovação da espiritualidade e da religiosidade
4.1 A Reforma Protestante
4.1.1 Individualismo religioso e críticas à Igreja Católica
As grandes calamidades do século XIV (fomes, guerras e pestes) desenvolveram nas pessoas um clima de pessimismo
→ Como agravante, a Igreja está dividida → Entre 1378 3 1417 existem dois Papas – um em Roma, outro em Avinhão
– É o designado Cisma do Ocidente
O fim do Cisma não significou o fim da crise da Igreja → os Papas renascentistas levavam uma vida pouco condizente
com os ideias cristãos → os maus exemplos abundavam em toda a hierarquia católica → Na Igreja abundava o
abandono espiritual dos fiéis, o absentismo do clero e a dissolução dos costumes
As práticas religiosas
Desenvolvem-se práticas de supersticiosas e fanáticas (feitiçaria, procissões de flagelantes, etc.), divulga-se o culto
dos santos populares e o desenvolvimento das confrarias
Surgiram novas formas de piedade mais intimistas e mais individuais, de ligação mais direta com Deus, através da
oração individual. Concretizavam-se no movimento “Devotio Moderna”
As críticas à igreja
Decadência dos costumes do alto clero secular → críticas aos bispos, cardeais e papas: devido à
imortalidade, ao absentismo, à falta de vocação, à compra e venda de cargos eclesiásticos (simonia)
Aparecimento de heresias (negação/dúvida de algumas verdades da Fé católica por um cristão batizado)
Heresia de John Wyclif → Contestou a autoridade do Papa (pôs em dúvida a utilidade do clero e o
valor dos sacramentos) e traduziu a Bíblia (que considerava ser a única fonte de fé), defendeu
também a abolição do culto dos santos e das relíquias. Os seus seguidores ficaram conhecidos como
lolardos;
Heresia de Jan Huss → Defendeu a criação de uma Igreja nacional, não dependente do Papa, isto é,
desligada da obediência do Papa, e a comunhão sob as duas espécies (pão e vinho). Foi condenado
no Concílio de Constança, acabando na fogueira. Ficou conhecida como heresia hussita.
4.1.2 A rutura teológica
A questão das indulgências
Reforma – Cisma (ou divisão) ocorrido na Igreja Católica durante a primeira metade do século XVI, que conduzia ao
aparecimento das doutrinas protestantes – o luteranismo, o calvinismo, o anglicanismo, entre coisas. Embora com
particularismos, os credos protestantes têm, como pontos comuns, a justificação pela Fé, a exclusividade da Bíblia
como fonte da Fé, o sacerdócio universal e a não aceitação da supremacia do Papa. São genericamente conhecidos
pelo nome de protestantismo.
Martinho Lutero (1483-1546) desencadeou a Reforma → Dotado de elevada espiritualidade e desejoso do contacto
próximo com Deus, colocava a si mesmo a questão: “Como pode alguém levar uma vida perfeita perante Deus?” →
depois de várias leituras bíblicas, Lutero encontrou uma rutura teológica. Essa rutura ficou conhecida por Reforma
Protestante e foi desencadeada pela Questão das Indulgências
As indulgências consistiam no perdão (ou remissão) das penas devidas pelos pecados perdoados → Entre estas
penas contavam-se as orações, os jejuns, as peregrinações ou a oferta de somas de dinheiro, o que deu origem à
expressão “venda/compra de indulgências”
Em 1515, o Papa Leão X, porque precisava de dinheiro para obras na Basílica de São Pedro (Vaticano), autorizou a
pregação de vendas de indulgências → Contra essa situação se revoltou Lutero, afixando, no dia 31 de outubro de
1517, as “95 Teses Contra as Indulgências” → Nelas acusava o Papa e os dogmas da Igreja pois afirmava que a
salvação depende da Fé e não de boas obras, como as penitências ou a compra de indulgências
Em 1521, Lutero foi excomungado e expulso da Alemanha
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Dogma – Verdade religiosa considerada irrefutável e, como tal, não podendo ser criticada nem analisada. Ex.: os sete
sacramentos, a Imaculada Conceição.
A justificação pela Fé e a doutrina da predestinação
A justificação pela Fé é a base doutrinaria da reforma luterana, é uma nova doutrina da salvação → Lutero
considerava o Homem um ser irremediavelmente inclinado para o pecado, pelo que as suas obras seriam sempre
desonradas e não o poderiam salvar → Só a Fé na Humanidade na infinita misericórdia de Deus tornava o Homem
justo e o conduzia à salvação → É Deus que decide sobre a salvação dos homens, ou seja, é Deus que predestina uns
homens para a salvação, outros para a condenação → Assim, o luteranismo abre caminho às teses da predestinação
que serão desenvolvidas por Calvino
Predestinação – Vontade de Deus sobre a salvação de cada um. A teologia reformista dá-lhe grande relevo, sendo a
forma mais fatalista de predestinação a apresentada por Calvino.
4.1.3 As igrejas reformadas
O Luteranismo
Lutero considerava a Bíblia como única fonte de Fé e autoridade doutrina
Rejeitou as obras dos Padres da Igreja e as decisões dos concílios que considerava meras palavras humanas e
por isso sujeitas à crença e à revisão
Negou o monopólio papal na interpretação da Bíblia, afirmou que qualquer crente podia ler as Escrituras
sem intervenção do clero
A missa foi substituída por uma cerimónia na língua vulgar
Os cultos da Virgem e dos Santos foi abandonado
Proclamou o sacerdócio universal
O celibato e as ordens religiosas foram abandonadas
O chefe da Igreja passa a ser o chefe de Estado. Surgem as Igrejas Nacionais Evangélicas. Os bens da Igreja
ficam na mão dos príncipes alemães
Só reconheceu dois Sacramentos: Batismo e Eucaristia
Para Lutero, a prática cristã define-se pela relação pessoal do crente com Deus e não pelo
comprometimento com regras, leis e ritos estabelecidos pelos homens
A vida religiosa é uma ação de amor a Deus
Sacramentos – Sinal sensível instituído por Jesus Cristo e confiado à Igreja, por meio do qual se presta culto a Deus e
se obtém a santificação dos homens. A Igreja Católica consagra, como dogma, a existência de sete sacramentos.
Segundo a doutrina protestante, os sacramentos são apenas dois (Batismo e Comunhão), produzindo uma relação
pessoal com Deus sem criar um estado de graça.
O luteranismo expandiu-se rapidamente na Alemanha. Foi apoiado pelos burgueses. Os príncipes ficaram com os
bens da Igreja Católica e por isso aderiram à nova Igreja. A imprensa contribuiu para a divulgação da nova Fé.
O Calvinismo
João Calvino fixou-se em Genebra onde publicou “Da instituição da religião cristã” que contém o essencial da
sua doutrina – o Calvinismo
Baseia a sua doutrina na justificação da Fé, no sacerdócio universal e na autoridade exclusiva da Bíblia
Entende a predestinação como absoluta, afirmando que, para ele, um ser humano jamais perderia a “graça
da Fé”, se tivesse nascido com ela
Da predestinação absoluta nasceu uma grande intolerância para com outras doutrinas
Os calvinistas faziam parte de um grupo de eleitos (os predestinados). Ex.: Se um homem tinha êxito nos
negócios, era um predestinado
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Não aceitou a ideia de Lutero da chefia da Igreja ser entregue aos chefes de Estado, pelo contrário, defendeu
a supremacia da Igreja sobre o Estado
Genebra transformou-se numa sociedade teocrática e perseguiu católicos e outros protestantes
Calvinismo difundiu-se na França, Alemanha, Países Baixos, Hungria, Polónia, Inglaterra e Escócia
A Reforma na Inglaterra: o anglicanismo
Iniciado por Henrique VIII
Este rei inglês pediu ao Papa para lhe conceder o divórcio, que recusou
O monarca proclamou o Ato de Supremacia (1534) que o tornou chefe supremo da Igreja inglesa
Autorizou a tradução da Bíblia e secularizou os bens das ordens religiosas mas manteve-se fiel à doutrina
católica
No reinado do seu filho, Eduardo VI (1537-1553), a Igreja inglesa identificou-se com o calvinismo
No reinado de Maria Tudor (1516-1558), a Inglaterra voltou ao catolicismo e perseguiu os protestantes
No reinado de Isabel I (1533-1603) consolidou-se a Igreja anglicana num compromisso entre o catolicismo e
o calvinismo
Em 1571 publicou a “Declaração dos Trinta e Nove Artigos” que ainda hoje é a base doutrinal da Igreja
anglicana
Defendia a justificação pela Fé, mas não aceitavam a predestinação absoluta
Reconheciam a autoridade absoluta da Bíblia
Só reconheciam como sacramentos o Batismo e a Eucaristia
Aboliram o celibato dos padres mas mantiveram uma hierarquia semelhantes aos católicos
A Inglaterra passou, em termos religiosos, por tempos conturbados:
o Os católicos levaram o Papa a excomungar Isabel I
o Os calvinistas queixavam-se da Igreja anglicana que, aos seus olhos, era igual a uma igreja católica. O seu
rigor doutrinal valeu-lhes o nome de puritanos
o Isabel I perseguiu católicos e puritanos. Fez da reforma religiosa uma arma de reforço da autoridade real
o Muitos puritanos emigraram para os Países Baixos e para a América
4.2 Contrarreforma e Reforma Católica
A resposta da Igreja Católica à rutura protestante chamou-se contrarreforma e reforma católica
O Concílio de Trento, a criação da Companhia de Jesus, a reativação da Inquisição e do Índex foram alguns dos
instrumentos utilizados pela Igreja Católica.
4.2.1 A reafirmação do dogma e do culto tradicional. A reforma disciplinar˜
O Concílio de Trento
Em 1545 reuniu-se o Concílio de Trento, convocado pelo Papa Paulo III. Este concílio terminou os seus trabalhos 3m
1563, com uma condenação inequívoca do protestantismo.
Principais decisões tomadas:
Condenação dos princípios da predestinação e da justificação da Fé → Reafirma-se o papel das obras
humanas na Salvação
Confirma-se a existência do Purgatório
A par da Bíblia, proclamou-se o valor sagrado da tradição como fonte de Fé
Mantiveram-se os Sete Sacramentos
Reforçou-se o poder do Papa
Manteve-se o culto dos Santos e da Virgem
Manteve-se o latim como língua litúrgica. A língua vulgar era reservada para sermões e pregações
Sobre a reforma disciplinar o Concílio de Trento proclamou o seguinte:
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Proibição de acumulação de benefícios eclesiásticos´
A residência obrigatória dos padres e bispos nas paróquias e dioceses
Manutenção do celibato eclesiástico
Proibição da ordenação de sacerdotes e bispos com idades inferiores a 25 e 30 anos, respectivamente
Criação de seminários para a formação dos futuros clérigos
Publicou-se um Catecismo (1566) com a compilação dos princípios doutrinais decididos em Trento
Foram publicados um breviário (1568) e um missal para regular oração e culto
A Igreja procurava disciplinar os fiéis e é imposta uma doutrina unânime e indiscutível
4.2.2 O combate ideológico
Índex
Os fiéis católicos deveriam ser afastados das heresias e por isso deveriam ser proibidos de ler os livros que
colocavam a Fé católica em causa → em 1543, foi criada a Congregação do Índex para elaborar a lista de
obras consideradas perigosas → A lista ficou conhecida pelo nome Índex
Esta lista teve consequências culturais perniciosas para o desenvolvimento cultural dos países do espaço
católico, e fomentaram o atraso em relação ao mundo protestante → Muitos dos livros que foram colocados
no Índex diziam respeito a publicações filosóficas e científicas, de autores como Galileu, Descartes, Newton e
Leibniz
O proselitismo das novas congregações: a A Inquisição
Companhia de Jesus
Inácio Loyola (1491-1556) foi o fundador da
Companhia de Jesus em 1534
A Inquisição (Santo Ofício) tinha sido criada
O seu proselitismo contribuiu para a
em 1231. Era um tribunal religioso criado
expansão do catolicismo
para combater as heresias
Funcionava como uma organização militar
A sua reativação foi considerada uma forma
Era dirigida por general ou geral
de combater o protestantismo
Os jesuítas estavam submetidos a uma
Em 1542, o Papa Paulo III ordenou a
rigorosa disciplina e consideram-se os
reorganização do tribunal da Inquisição
“soldados de Cristo”
Nos países católicos onde o tribunal da
Proclamaram uma obediência incondicional
Inquisição se instalou moveu uma
ao Papa
perseguição a protestantes, cristãos-novos,
Preocupavam-se com a formação intelectual
filósofos, cientistas, etc.
dos seus membro
Instruía processos com bases em denuncias
Viviam no meio da população
anónimas e usava tortura para obter
Distinguiram-se como missionários na Ásia, confissões
América e África Condenava a penas de prisão e à morte na
Fundaram uma vasta rede de colégios de fogueira
qualidade que lhes permitiu uma ascendência Confiscava os bens dos culpados
sobre a juventude
Desenvolveram a arte da oratória nos seus
sermões
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4.2.3 O impacto da reforma católica na sociedade portuguesa
Portugal integrou-se completamente no movimento da Contrarreforma e da Reforma católica
Membros da hierarquia clerical portuguesa participaram no Concílio de Trento e cumpriram as decisões
tomadas no concílio
As ideias protestantes tiveram um fraco eco nas populações portuguesas
No reinado de D. João III, chamou a Companhia de Jesus para Portugal
Estes desempenharam um importante papel na missionação do Brasil e do Oriente
Entre os jesuítas destacam-se os nomes de Francisco Xavier, Manuel da Nóbrega e António Viera
Criaram uma rede de colégios quer em Portugal quer nas suas colónias
Em 1555 ficaram com a direção do Colégio das Artes e em 1559 com a direção da Universidade de Évora
O clima de intolerância religiosa desenvolve-se em Portugal originando o recuo das ideias humanistas e do espírito
de livre crítica:
Em 1547 foi publicado o primeiro Índex, estabelecendo a lista dos livros proibidos → Foi particularmente
violento: atingia obras e autores, bem como impressores, livreiros e possuidores das obras
Todos os motivos eram válidos para provocar a atenção da Inquisição: heresia, bruxaria, bigamia, sodomia,
blasfémia, etc
O Tribunal da Inquisição estará em vigor, em Portugal, entre 1536 a 1821
Os cristãos-novos (judeus que se tinham convertido ao cristianismo) foram o alvo preferido da Inquisição →
Eram vítimas da inveja do seu sucesso nos negócios → Muitos cristãos novos abandonaram o país, levando
consigo capitais que faziam falta ao país
A Inquisição portuguesa utilizou todos os métodos à sua disposição: tortura para obter confissões,
condenações à morte na fogueira, auto de fé, etc.
Portugal via-se mergulhado na inveja, denúncia e intriga. A Inquisição deixou marcas terríveis na sociedade
portuguesa, contribuindo para o atraso do país:
Impôs severos padrões morais e doutrinas
Modelaram as consciências e os comportamentos
Implementaram a angústia do pecado e da culpa
Instalaram o medo da punição (terrestre e divina)
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