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História da MPB: Curso EAD Essencial

1) O documento apresenta um curso sobre a história da MPB brasileira, com o objetivo de dar um panorama dos principais gêneros, estilos e artistas da música popular urbana do Brasil. 2) A sigla MPB surgiu nos anos 1960 para representar uma frente ampla da música brasileira contra o regime militar, reunindo estilos como a bossa nova, músicas regionais, rock e música de protesto. 3) O curso será dividido em módulos abordando a formação da MPB, o desenvolvimento de

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História da MPB: Curso EAD Essencial

1) O documento apresenta um curso sobre a história da MPB brasileira, com o objetivo de dar um panorama dos principais gêneros, estilos e artistas da música popular urbana do Brasil. 2) A sigla MPB surgiu nos anos 1960 para representar uma frente ampla da música brasileira contra o regime militar, reunindo estilos como a bossa nova, músicas regionais, rock e música de protesto. 3) O curso será dividido em módulos abordando a formação da MPB, o desenvolvimento de

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EAD MPB – uma breve história

Introdução

Bem-vindos ao curso EAD: “MPB- uma breve história”

Esse curso tem como objetivo dar um panorama da história da nossa MPB, o que em
outras palavras nos remete à “música urbana do Brasil”, sobretudo aquela que se deu
(ou foi amplamente divulgada) na antiga capital do país - Rio de Janeiro – onde se
consolidou a indústria fonográfica e a principal mídia do Brasil, começando pela Rádio
Nacional e pelas principais gravadoras e TVs do país.

A principal intenção é tirá-lo um pouco da zona de conforto, buscando expandir,


questionar e aprofundar seus conhecimentos sobre a música brasileira, conhecendo
suas fusões, atritos, construções e manipulações feitas pela indústria fonográfica ao
longo de todo século XX. E ainda,queremos aqui propor um grande desafio: levar esse
incrível universo para dentro de sala de aula. O ambiente escolar pode ser um dos
poucos locais onde seja possível que a criança entre em contato com essa diversidade
de estilos, ritmos, instrumentos, artistas, histórias, diálogos e manifestações que
retratam nossa cultura, sem estar apenas como “vítima ou refém” da mídia de massas
ou restritos apenas ao que está na “moda” atualmente.
A partir dos textos, histórias e vídeos propostos pelo professor Fabio Bergamini, você
entrará em contato com a riqueza e com a complexidade contida em nossa música
popular, podendo criar diversos caminhos para aplicar esses conteúdos em suas aulas.

Partimos de cinco eixos básicos para a aplicação desses conteúdos com os alunos: 1.
Apreciação e percepção musical (escuta ativa), 2. A música no corpo (canto, percussão
corporal, jogos, brincadeiras de roda e danças), 3. Instrumentos musicais (conhecer,
ouvir, construir, explorar, brincar de tocar), 4. Cultura musical (gêneros, estilos, ritmos,
instrumentos e artistas do Brasil), 5. Criação musical (buscar vários jeitos de tocar e
cantar, construir instrumentos e brincadeiras, criar composições, arranjos ou letras em
cima dos gêneros, produzir apresentações, e tudo o mais que surgir ao longo do
caminho). Nos três módulos que se seguem, iniciaremos com a formação da MPB e os
primeiros gêneros urbanos do Brasil (módulo 1),em seguida estudaremos o desenrolar
dessa história que vai do samba ao rock (módulo 2), até chegar no surgimento da sigla
que dá nome ao curso: a MPB (nos idos dos anos 60).
A complexidade na música e o “método de investigação musical”

Consideramos a música como uma das atividades mais “complexas” do ser humano, não
no sentido de complicada ou difícil, mas sim, no sentido de conter em si uma riqueza
sem fim de elementos e significados, que permitem múltiplos caminhos e olhares sobre
seu universo e que transcendem apenas o aprendizado de sua linguagem específica,
assim como, pode gerar benefícios em várias áreas do desenvolvimento humano, dentre
eles: cognitivos, emocionais, sociais e culturais.

Baseado nessa ideia, podemos pensar que, a partir de uma simples escuta musical
podemos desenvolver inúmeros saberes, tanto da linguagem específica da música,
como também estabelecendo uma série de inter-relações com outras áreas do
conhecimento, como por exemplo: 1. De onde vem essa música? (fazendo relações
entre a música e geografia), 2. De quando é? (obtendo uma visão histórica da música),
3. Quem fez? (analisando os aspectos sociais dos compositores, intérpretes,
arranjadores), 4. O que diz a letra da canção (se houver)? (estabelecendo inter-relações
com a área da linguagem), 5. Existe uma dança característica? (vamos dançar?) 6. Quais
as inter-relações com as artes visuais, teatro ou o cinema? Isso tudo sem fugir da
linguagem musical propriamente dita, que sempre será o foco principal de nossas ações,
na qual podemos nos aprofundar num caminho interminável, em que você coloca o
limite até onde quer chegar, trabalhando em questões como: 7. Qual é o gênero e estilo?
8. Quais são os instrumentos presentes? 9. Como é o arranjo, a harmonia, a forma? 10.
Como é o ritmo? 11. Como é o ritmo da melodia? [Link] é relação dos intervalos
contidos na melodia (fazendo inter-relações com a harmonia, o arranjo e a letra da
canção)? 13. Vamos cantar? 14. O que faz cada instrumento? 15. Vamos tocar? 16.
Vamos criar novas formas de tocar e de cantar (arranjo, composição, improvisação,
interpretação)? Dentre muitos outros caminhos de investigação que você pode criar de
acordo com sua área de interesse.

Esse approachou “método de investigação” para com o objeto de estudo é utilizado em


inúmeras abordagens da filosofia, psicologia e pedagogia, assim como em escolas
espalhadas pelo mundo que se utilizam do “inquirybased learning” (aprendizagem
baseada no questionamento), sobretudo as chamadas IB InternationalSchools. Para
quem se interessar há diversos sites (a maioria em inglês) que se aprofundam mais no
assunto, dentre eles [Link] . Entretanto, não entraremos
mais a fundo na questão específica dessa metodologia, mas podemos utilizar como base
para o desenvolvimento dos projetos musicais na escola.

Módulo 1 - As origens

O que é MPB?

MPB, Música Popular Brasileira; uma abreviatura, uma marca indelével na formação
cultural do país, mas essa sigla significa realmente o que seu nome propõe mesmo
atualmente no Brasil?
Música feita no Brasil com apelo popular? Hoje em dia seria então aquele tipo de canção
massificada para consumo da maioria da população? Ou seria a musicalidade de João
Gilberto interpretando Tom Jobim em seu estilo Bossa Nova? A rigor nem uma nem
outra, e ainda ambas! Confuso? Talvez, mas explicamos: Oficialmente, a sigla MPB
surgiu em 1966 como uma fusão ideológica cultural de diversas frentes musicais
aparentemente antagônicas, como por exemplo: os representantes da sofisticação da
Bossa Nova e da “nova” música brasileira da época (como Tom, Nara, Roberto Menescal
e o novato Chico Buarque por exemplo), os representantes das músicas ditas folclóricas
(sobretudo do nordeste brasileiro) ou de engajamento político dos Centros Populares
de Cultura da UNE (como Geraldo Vandré, Edu Lobo, o Quarteto Novo de Hermeto
Pascoal) e ainda, grupos que defendiam as inovações trazidas pela música norte
americana, mais especificamente o rock´n´roll e assim faziam suas fusões com a música
brasileira (como a Tropicália de Caetano e Gil). Essas inúmeras forças se uniram na sigla
MPB em meados dos anos 60 como uma frente ampla cultural, sobretudo para fazer
frente ao regime militar, após o golpe de 1964. Antes do surgimento da sigla MPB,
encontrávamos as diversas manifestações musicais brasileiras em âmbitos distintos:
“era samba pra cá, rock pra lá, o forró ainda marginalizado, a bossa para a elite, a jovem
guarda prestando um papel de rebeldia, mas sem ameaças ao regime militar, as músicas
regionais, etc. Entretanto, nos idos dos anos 60 houve então essa grande confluência
para a grande miscelânea contida no caldeirão da MPB.

Dentro desse panorama, surgiram também vários programas de rádio e TV que


apresentavam múltiplos gêneros musicais, como o “Fino da Bossa”, “Jovem Guarda”,
“Tropicália”, etc. Como resultado mediático, a rede Record de TV passou a realizar
Festivais da Canção, os quais se transformaram nos Festivais de MPB, (de onde então
surge comercialmente a sigla MPB), dos quais participavam os novos compositores e
intérpretes com suas proposições estético-ideológicas sobre os caminhos que a música
brasileira trilharia então. Nesse esteio despontaram Edu Lobo, Elis Regina, Caetano
Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes (Rita Lee), Jair Rodrigues, Chico Buarque, Milton
Nascimento, entre tantos outros, definindo assim um novo gênero musical altamente
rico e plural conceitualmente, que até nos dias de hoje denota um rigor e uma qualidade
estética à canção brasileira. Então a formação do termo MPB se dá a partir dessa
demanda de meados dos anos 60 e se estabilizou como um gênero musical profícuo e
variado, que açambarca inúmeras tendências e expressões do nosso cancioneiro
popular. Para iniciar nosso curso iremos assistir o documentário “Uma noite em 67”, que
nos mostra o que foi talvez o mais importante festival da história da música brasileira,
em que estavam presentes as inúmeras correntes artísticas e os principais nomes de
nossa MPB. Você não precisa assisti-lo de uma vez, mas pode ir pesquisando e curtindo
esse documentário ao longo de todo o curso, vamos lá?

Assista: Uma noite em 67:


[Link]

Leitura sugerida: Livro “A Era dos Festivais de Zuza Homem de Melo

Consulta rápida:
[Link]

Como surgem os gêneros, estilos e ritmos no Brasil?

Antes de entrarmos na história da MPB propriamente dita, faremos uma breve


abordagem sobre as diferenças conceituais entre ritmo, gênero e estilo musical,
direcionando o estudo para o campo da música popular brasileira, em suas múltiplas
manifestações. Esses conceitos muitas vezes se confundem e se inter-relacionam,
tornando-se muitas vezes um assunto complexo e polêmico, havendo margem à
diferentes interpretações. Entretanto, o objetivo principal desse texto é ir além de
simplesmente dar as definições e explanações exatas sobre esses conceitos musicais,
mas sim aproveitar para falarmos um pouco de música, mais especificamente da música
popular brasileira. Como sabemos, o Brasil é um incrível manancial de manifestações
musicais nas quais estão presentes muitos instrumentos, ritmos, danças, estilos e
gêneros que fazem parte de nossa cultura e de nossa história e refletem num sentido
profundo o que somos e de onde viemos.

Como dissemos na introdução do curso, quando ouvimos uma música, encontramos


uma complexa teia de elementos sobre os quais podemos colocar o foco da nossa
atenção, e que também nos permitem direcionar o trabalho com as crianças em sala de
aula, dentre eles: quais são os instrumentos que estão presentes, como é o arranjo,
como é a melodia (vamos cantar?), o que diz a letra (se houver), como é o ritmo, como
é a dança, de onde vem essa música, que grupo representa ou pertence, qual o estilo,
como é a interpretação, como são os acordes, de quando é essa música, dentre muitos
outros aspectos que podemos refletir a respeito de determinada música. Tudo isso irá
determinar qual gênero musical estamos a nos referir. Portanto, o Ritmo é apenas UM,
dos inúmeros elementos que compõe essa complexa teia que é a música, o que não o
torna menos importante, entretanto, não é o único elemento determinante para
compreendermos um gênero ou estilo musical como muitas vezes ocorre em certos
textos ou abordagens.

Para começarmos a entender a música brasileira em toda sua complexidade, devemos


dar alguns passos atrás e darmos uma olhada em suas origens e suas mais diversas
influências, diálogos, atritos, miscigenações, transformações e fusões. Como um bom
ponto de partida, podemos iniciar falando um pouco de nossa herança Africana,
presente em praticamente todas manifestações musicais do Brasil, num primeiro nível
no que diz respeito à percussão, à riqueza rítmica e às danças – mas não ficando restrito
a isso, como o senso comum nos mostra, trazendo inúmeros instrumentos melódicos, o
modo de cantar e as belíssimas melodias dos inúmeros povos que cá vieram parar.
Algumas dessas manifestações musicais “afro-brasileiras”- como o jongo, o ijexá, os
maracatus, congadas, o samba de roda, o tambor de crioula, entre muitos outros -
antecedem os chamados “gêneros populares urbanos” como o samba, as marchinhas, o
baião, o samba-canção, a bossa nova e muitos outros, que estiveram desde seu início,
ligados à radio e à indústria fonográfica. Podemos desde já fazer uma distinção entre os
gêneros mais “autênticos” da música brasileira, mais ligados ao folclore e às
manifestações mais genuínas e primordiais em nossa cultura, das outras manifestações
mais urbanas que já nascem num contexto da cidade, da miscigenação, da
industrialização e dos atritos sociais presentes na sociedade brasileira a partir do início
do século XX, as quais sofrem certa influência ou,em outras palavras, são “manipuladas”
pela indústria fonográfica e pela mídia. Podemos encontrar essas primeiras, muito
presentes ainda hoje em praticamente todas as regiões do Brasil, nas festas tradicionais,
rituais, blocos de rua, nos grupos regionais, e que mantém acesa a chama de nossas
tradições musicais mais antigas nascidas em solo brasileiro.

Um primeiro problema a ser levantado quando falamos em “gêneros” do folclore ou de


tradições musicais afro-brasileiras ou mesmo da música indígena no Brasil, é cair no
senso comum e na falsa generalização provinda de um conceito euro-centrista e pouco
aprofundado. Apesar de já ser extremamente discutido atualmente, vale ressaltar a
diversidade de etnias africanas que vieram a desembarcar em nosso país, as quais foram
jogadas em solo brasileiro e tratados muito erroneamente como se fossem um único
povo, uma única cultura. O mesmo se deu com a cultura indígena. Vale enaltecer, ainda
que tardiamente, a riqueza e diversidade presente na cultura indígena, a qual tão pouco
conhecemos. Eram 5 milhões e hoje não passam de 800 mil. De 1200 povos para 230
(mesmo assim são faladas mais de 150 línguas no Brasil hoje).
Ainda para ilustrar, podemos citar o livro “Os Sons dos Negros no Brasil”, no qual o
historiador José Ramos Tinhorão retrata perfeitamente a ignorância e preconceito por
parte dos portugueses ao se referir às diversas tradições presentes no Brasil apenas pelo
conceito de batuque:

“já na terceira década dos anos seiscentos, os escravos africanos


conseguiam, em certas ocasiões, exercitar seus ritmos e danças
(e, quase certamente, embora de forma dissimulada, também
seus rituais religiosos), através de manifestações à base de
ruidosa percussão, que os portugueses definiam genericamente
sob o nome de batuque”(Tinhorão, 2008, p.36).

A partir dessa discussão, um primeiro cuidado ao se ter em usar o termo “gênero”


musical, é não cair em uma superficial generalização e pasteurização de certa
manifestação musical. Por outro lado, podemos sim nos aprofundar na riqueza e
complexidade contida em tal gênero, já que esse termo pode englobar e conter em si
uma infinidade de nuances e características que podem ser exploradas por nós.

Vamos tomar como exemplo o Samba. O Samba é um gênero musical que possui uma
história tão rica e fascinante que, se jogarmos toda sua complexidade em uma mesma
gaveta, estaremos perdendo muito de suas inúmeras correntes e facetas. Entretanto,
para começarmos a separar e aprofundar nosso conhecimento sobre esse grande
‘guarda-chuva’ que é o samba, podemos dividir ou definir cada ‘faceta’ dessas através
do conceito de “estilo”, o qual necessariamente nos leva a buscar maiores
especificidades e talvez um maior aprofundamento em seus detalhes e nuances.
Podemos citar como exemplo de estilos dentro do gênero samba: o samba de roda
(samba chula ou chula raiada), o samba de kabula (ou samba de Angola), o samba choro,
o samba-coco, o samba “de morro”, o samba de bumbo e o samba lenço do interior de
São Paulo, o samba de breque, o samba enredo das Escolas de Samba, o samba canção,
o samba de gafieira, a bossa nova, o samba jazz, o samba rock, o partido alto, samba-
reggae, entre muitos outros. Cada um desses retrata diferentes períodos, regiões,
grupos sociais e uma série de elementos que transcendem apenas a análise musical.
Portanto, para que possamos caracterizar uma manifestação musical como gênero,
evitando a ‘generalização’ no sentido negativo de ‘superficialidade’, e ainda, determinar
os variados estilos dentro desse gênero, não podemos nos basear apenas no ritmo, ou
apenas nos fatores que dizem respeito à linguagem musical, mas temos que considerar
os fatores históricos, geográficos, sociais, étnicos, econômicos e culturais para que
possamos ter uma visão mais profunda e ampla sobre cada gênero e estilo musical.
Portanto, quando falamos “Samba” estamos falando de um termo que generaliza uma
infinidade de diferentes nuances, particularidades, épocas, grupos, jeitos de tocar,
instrumentações, regiões, jeitos de compor, de se expressar, de dançar, e de se
comunicar. Vamos falar mais sobre o samba no Módulo 2.

Emprestando alguns aspectos dentro do campo da linguística, a autora Helena Hathsue


Nagamine Brandão discute as essas relações entre gênero e estilo dizendo:

“Onde há estilo há gênero. O vínculo entre estilo e gênero é


indissolúvel, orgânico. E isso se percebe claramente quando se
analisa a questão sob a ótica da funcionalidade do gênero em
que cada esfera da atividade e da comunicação humana tem seu
estilo peculiar. Cada esfera conhece seus gêneros, apropriados à
sua especificidade, aos quais correspondem determinados
estilos (BRANDÂO, 1997).

Enquanto o gênero se mostra relativamente “estável” e amplo, o estilo se mostra


peculiar, característico, idiossincrático. Apelando ao The New Groove- dictionary of
music, encontramos a seguinte definição de estilo:

“Estilo é um termo que denota a maneira do discurso; modo de


expressão; mais particularmente a maneira em que cada
trabalho de arte é executado. Nas discussões em música o termo
ganhou especiais dificuldades; ele pode ser usado para denotar
as características de um compositor individualmente, de um
período, de uma área geográfica ou centro, ou de uma sociedade
ou função social”1.

Podemos também analisar o surgimento dos novos gêneros ou estilos pela ótica das
rupturas ocorridas ao longo da trajetória da música. Como cita Fabbri:“um novo gênero
se forma a partir de transgressões nas regras de um ou mais gêneros anteriores (FABBRI,
1981, p.61). Para ficar mais claro podemos citar como exemplo algumas dessas

1
“Stile: a term denoting manner of discourse; mode of expression; more particulary the manner in a
work of art is executed. In the discussion of music the term raises special difficulties; it may be used to
denote music characteristic of an individual composer, of a period, of a geographical area or centre, or a
society or social function. (The New Groove Dictionary, p. 638, vol.24, second edition)
transgressões e rupturas ocorridas na história da música nos mais diversos âmbitos.
Dentro da chamada “música erudita européia” por exemplo, o romantismo transgride
as progressões harmônicas do período clássico, expandindo suas fronteiras; por sua vez
o do decafonismo rompe com o estilo romântico, construindo uma outra maneira da
manifestação musical. O mesmo se passa no jazz, quando Charlie Parker e Dizzie
Gillespie rasgam os limites do swing com o novo “Be Bop”, por conseguinte, Miles Davis
grava o Birth of the Cool contrariando a corrente virtuosística do próprio Be Bop. Já na
música popular brasileira, podemos citar por exemplo a mudança do padrão rítmico do
samba feita pelos “bambas” do Estácio no final da década de 30 (sobretudo Ismael Silva),
diferenciando-se do “samba-maxixe” do inicio do século. Outro exemplo: a gravação do
disco Chega de Saudade em 1956, na qual João Gilberto registra as inovações no modo
de cantar e de tocar violão trazidas pela bossa-nova, rompendo com o samba-canção
em voga nos anos 50. Ou na música sertaneja, com a apropriação do country norte-
americano feita pelas duplas dos anos 80 e 90 (como Chitãozinho e Xororó, João Paulo
e Daniel, Leandro e Leonardo) rompendo com as raízes da moda de viola. E hoje em dia,
o chamado ‘sertanejo universitário’ com seus novos ritmos, letras e roupagens que
rompem com o sertanejo romântico da geração anterior.

Portanto, são as rupturas, as contradições e os diálogos internos que geram novos


gêneros e novos estilos. Citando novamente Bakhtin:

Embora cada gênero tenha suas características específicas, um gênero


não é,necessariamente, uma “fôrma” que se impõe ao falante/escritor
(no nosso caso “o compositor”). Enquanto conjunto de traços marcados
pela regularidade, pela repetibilidade, o gênero é relativamente
"estável",mas essa estabilidade é constantemente ameaçada por forças
que atuam sobre asrestrições genéricas, forças de caráter social, cultural
e individual (estilísticas) que determinam ou mudanças num gênero, ou
seu apagamento, ou sua revivescência. Essa tensão entre estabilidade x
variabilidade se faz marcar de maneira específica nos diferentes gêneros,
criando assim novos estilos. (BAKHTIN, 1992).

Voltando então à música popular brasileira, podemos aplicar a afirmação de Bakhtin


refletindo sobre como “as forças de caráter social, cultural e individual”, geraram os
novos estilos na trajetória de nossa música. Alguns “marcos” na história da MPB podem
dar pistas deste comportamento (social, cultural e individual). Como por exemplo: as
composições da “revolucionária” Chiquinha Gonzaga no início do século XX; a gravação
do “primeiro” samba Pelo Telefone em 1917 por Donga; a produção da extensa obra de
Noel Rosa da Vila Isabel que morreu aos 26 anos de idade; o sucesso de Carmen Miranda
nos Estados Unidos; o boom da rádio Nacional nos anos 30 e 40; o baião de Luiz Gonzaga;
a gravação do disco Chega de Saudade em 1956; a chegada do rock no Brasil, os Festivais
da Canção na década de 60; a Tropicália; o Clube da Esquina; o Rock dos 80´; o pop dos
90´ e todas as tendências mercadológicas que emplacaram nos últimos anos gerando
imenso lucro às gravadoras como o sertanejo, o pagode, o axé, o “forró e o sertanejo
universitário” e hoje em dia o funk carioca.

Permeando toda esta trajetória da música popular, podemos pelo menos citar dois
fatores determinantes para o entendimento desta história: a intermediação da indústria
fonográfica na consolidação dos inúmeros gêneros e estilos; e a “canção” como linha
mestra que perpassa quase todos os gêneros populares da música brasileira. No livro “O
século da Canção”, o autor Luiz Tatit cita logo na introdução:

“Nossa canção incorporou ao longo desse período (o séc. XX)


uma grande variedade de fisionomias que, embora não
trouxesse qualquer obstáculo para o pronto reconhecimento da
maioria das ouvintes, tornou-se trabalhosa sua definição
artística e, acima de tudo, sua apreciação crítica. Comportou-se
como um organismo mutante que ludibriava os observadores
por jamais se apresentar com o mesmo aspecto. Onde o
comentarista procurava coerência melódica, encontrava
fragmentos entoativos independentes. Onde procurava
soluções poéticas, deparava-se com a fala crua. Quando
examinava o ritmo de fundo, a informação estava na melodia de
frente. Quando focalizava o arranjo, este era apenas um recurso
a serviço do canto. Quando se esperava maior complexidade
harmônica, reentravam em cena os três acordes básicos e nem
por isso a canção perdia seu encanto. Se o julgamento recaía
sobre o conteúdo da letra, vingavam as músicas para dançar.
Enfim, sem contar com um mínimo de consenso sobre o que a
define como expressão artística, a canção brasileira converteu-
se em um território livre, muito frequentado por artistas híbridos
que não se consideravam nem músicos, nem poetas, nem
cantores, mas um pouco de tudo isso e mais alguma coisa (TATIT,
2004).

Para finalizar esse texto, podemos relacionar também a criação dos novos gêneros e
estilos à problemática da categorização dos estilos musicais nas “prateleiras” das lojas
de discos. A cada ano surgem inúmeros estilos musicais que necessitam serem
“enquadrados” em uma categoria de venda. Muito interessante se torna os novos
termos utilizados pela indústria, como por exemplo, o “sertanejo universitário”. O termo
“universitário” tenta dar legitimidade e status a um “estilo” que antes poderia ser
caracterizado como piegas ou “brega”. Contudo, necessitaríamos uma análise mais
profunda sobre as manipulações e categorizações feitas pela indústria fonográfica para
que conseguíssemos um maior entendimento sobre o surgimento desses novos
gêneros.

A intenção deste texto foi refletir, discutir e dar uma visão geral sobre as questões
envolvidas neste tema “gêneros e estilos”, buscando abordar o assunto sob uma
perspectiva da música popular como manifestação do homem em seus vários contextos
sócio históricos, assim como, rever o vínculo inevitável da música popular brasileira com
a indústria fonográfica.

Entraremos a seguir na história da música brasileira propriamente dita, mas esse


primeiro texto servirá como base para dar continuidade às discussões e ao
aprofundamento histórico sobre os gêneros e estilos de nossa música.

As origens: gêneros que precederam a MPB

As manifestações musicais que precedem a música urbana no Sudeste.

Sabemos que a música brasileira é formada por um grande encontro de culturas e etnias
que aqui se esbarraram, trocaram farpas, se entrelaçaram, se expandiram e se
misturaram. Entretanto, podemos fazer algumas categorizações ou distinções apenas
para organizarmos nossos estudos. A primeira delas é entre a música urbana (sempre
ligada aos centros urbanos e à indústria fonográfica) e as manifestações mais
“folclóricas”, que nascem de forma mais ‘espontânea’ em nossa sociedade. Outro fator
importante, é a distinção entre as músicas produzidas mais no litoral e no eixo Rio-São
Paulo, das inúmeras músicas produzidas no interior do Brasil. Há por todo Brasil um
incontável número de manifestações musicais que surge muito antes da música urbana
do Brasil. Seria impossível aqui falar a fundo sobre todas as manifestações musicais
presentes em nosso país. Se falarmos apenas do Maranhão por exemplo, podemos listar
logo de cara mais de 15 tradições musicais e danças típicas, como o bumba meu boi (e
seus cinco sotaques básicos), o tambor de crioula, o tambor de mina, o bloco tradicional,
tribo de índio, cacuriá, baralho, dança do lelê (ou péla porco), caroço, coco, festas do
divino espírito santo (e as caixeiras do divino), além do famoso reggae do Maranhão. Se
isso ocorre em apenas um estado, imagine em todos os 9 estados. Imagine em
Pernambuco, o frevo, o maracatu, o caboclinho, o cavalo marinho e a ciranda. A Bahia e
seus inúmeros ritmos e “blocos afro”, e tradições africanas tão vívidas em suas ruas.
Estamos falando apenas sobre alguns lugares do Nordeste, imagina se falarmos de todo
interior brasileiro, suas violas, sanfonas e percussões, seus diálogos com os países
vizinhos (como a polca paraguaia ou o chamamé argentino), suas miscigenações
culturais, como as congadas, os bois, os fandangos, as festas do divino, os maracatus,
cocos, catiras, sambas, pagodes, festas, cantos e danças, vindos de inúmeros cantos do
planeta e que aqui tomaram novas cores e formas e que retratam tão profundamente a
história e cultura do Brasil.

Dito tudo isso,não seria possível neste curso abordarmos todas essas manifestações
espalhadas pelo nosso território nacional, portanto colocaremos um foco no sudeste
brasileiro, principalmente pelos seguintes motivos: estavam aqui localizadas a Rádio
Nacional, as TVs mais importantes e a principal indústria fonográfica do país, além de
ter o Rio de Janeiro sido a capital do país até meados do século anterior.

Segundo José Ramos Tinhorão, podemos dividir a música brasileira em duas principais
correntes: as de tradição africana, mais rítmicas e sensuais, como o lundu, o jongo, o
samba de roda, (que são “pais ou avós” do que se tornou o samba mais tarde), e as de
tradição europeia, mais ligadas à melodia, ao canto, à melancolia e à canção (o que mais
tarde viria a ser a música sertaneja, grosso modo). Veremos agora algumas tabelas que
resumem as “matrizes de nossa MPB” e a seguir apenas alguns exemplos de gêneros
“rurais” que estão diretamente ligados à formação da música urbana do Brasil, tanto as
de tradição afro, quanto as de origem mais europeias:

Raízes da MPB
Diálogos com os EUA

Pixinguinha e os Oito Batutas (e o jazz de New Orleans)

As orquestras da Rádio (e as Big Bands)

A Bossa Nova e o Cool Jazz

O Rock no Brasil (de Celly ao Heavy Metal)

O Funk (Tim Maia)

Diálogos com América Latina hispânica

A guarânia e a polca do MT e MS

O samba canção e o bolero

A música gaúcha e a Argentina

A guitarrada do Pará e o calipso


O axé (o merengue e o reggae)

O Reggae do Maranhão

Jongo (Sudeste/ RJ e Vale do Paraíba)

Breve histórico: O Jongo é mais um dos gêneros que fazem parte das manifestações
afro-brasileiras que vem muito antes da música urbana. Muito encontrado até hoje no
Rio de Janeiro, no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, e em Minas Gerais (onde é
chamado de Caxambu), o jongo também tem três principais tambores chamados:
caxambu (ou tambu), candongueiro e ngoma-puíta (que é uma espécie de cuíca bem
grave). De origem bantu, o jongo é considerado um dos ritmos que mais influenciou o
nascimento do samba. Com suas danças em roda, suas palmas e suas “umbigadas”, o
jongo também tem muita improvisação nos versos em suas metáforas e adivinhas
contidas nos textos dos jongueiros. Um dos jongos mais tradicionais do Brasil ainda é o
“Jongo da Serrinha” do Mestre Darcy, situado no Morro da Serrinha no Rio de Janeiro
ligado à escola de samba Império Serrano.

Curiosidades- Os ritmos Afro-brasileiros:

Os portugueses chamavam todos esses ritmos afro brasileiros pelo nome genérico de
BATUQUE. Entretanto, os ritmos e estilos, como o maracatu, o jongo, o tambor de
crioula, o ijexá, (entre muitos outros), tem suas peculiaridades e idiossincrasias,
devendo ser estudados separadamente, para que entendamos seus símbolos, ritmos,
danças, significados e mensagens. Além disso, existem também os ritmos usados dentro
do ritual do candomblé e que fazem parte de nossa cultura, como: o barra vento, o
congo de ouro, o kabula (ou samba de Angola), o ilu, oagueré de oxossi, entre tantos
outros. Cada nação africana tem também suas peculiaridades. As principais nações
(dentre muitas outras) são a Ketu, mais ligada à cultura yorubá do noroeste da África e
a nação Angola, mais ligada à cultura bantu, da região sudoeste africana. No candomblé
Ketu são usadas baquetas (chamadas de Aquidavi) enquanto na nação Angola, os
atabaques são tocados com as mãos. Encontramos hoje em dia o ritmo Congo de Ouro
(que é utilizado no Maculelê da capoeira), sendo usado no ‘Funk Carioca’. Seu ritmo é
contagiante e quente, o que faz o “funk” ser tão atrativo e tão parte de nossa cultura.
Entretanto, podemos questionar suas letras, timbres e sua excessiva comercialização,
que muitas vezes banalizam a cultura negra e “da favela”, assim como muitas vezes
retratam o machismo e a banalização do sexo e da mulher. Falaremos mais sobre esse
polêmico assunto um pouco mais para frente.

Links relacionados
• Jongo da Serrinha [Link]
• Jongo de Guaratinguetá [Link]
• Jongo com Antonio Nobrega: [Link]

Samba de Partido Alto

O partido alto é originalmente o samba improvisado, ou o samba de palma de mão.


Ligado diretamente ao samba de roda (ou chula raiada), o samba partido alto é o samba
mais africano, que tem suas origens na Bahia, mas que se desenvolveu e se transformou
no Rio de Janeiro, sobretudo na chamada “Pequena África” onde ficavam as casas das
“tias” baianas (*pesquisar Casa da Tia Ciata) em que ocorriam as festas (ou pagodes) em
que se tocava o samba de partido alto até altas horas da madrugada. Um dos
instrumentos típicos desse partido alto mais ‘antigo’ é o “prato e faca”, tocado pelo
partideiro que improvisa os versos.

Atualmente o samba de partido alto ganhou uma nova roupagem a partir do “pagode”
da década de 80 e 90. Um dos mais representativos grupos do partido alto moderno é o
grupo Fundo de Quintal, que criou uma nova instrumentação para o estilo, incluindo o
banjo, o tantã, o repique de mão e o repique de anel. Entretanto, vários outros grupos
e cantores tem influência direta desse samba de partido alto feito no Cacique de Ramos
a partir dos anos 70, dentre eles: Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre, Arlindo
Cruz, Nei Lopes e Diogo Nogueira.

[Link]
[Link]
[Link]

O “interior do Brasil”

Batuque de Umbigada- SP (Tietê, Piracicaba e Capivari)

Há uma série de gêneros brasileiros ligados à umbigada. Podemos citar o Semba


angolano (cultura Bantu), como uma das origens das umbigadas no Brasil. Tradições
como o jongo, o tambor de crioula, o coco de umbigada, o samba de roda, entre tantos
outros, tem em sua dança a ‘Umbigada’. No interior de São Paulo encontramos o
Batuque de Umbigada, encontrado sobretudo na região de Tietê, Piracicaba e Capivari.
Vejamos abaixo um texto retirado do livro “Batuque de Umbigada” da Associação
Cultural Cachuera:

“O batuque de umbigada veio da caiumba, dançada em locais afastados das fazendas


como meio de os negros escravizados poderem manter viva sua cultura. Desde a época
do escravismo até a atualidade, as modas do batuque discursam contra a opressão, o
preconceito e a discriminação que atingem os negros da região, e também relatam o
dia-a-dia dos batuqueiros, seus amores e sonhos. Em algumas modas, o forte uso de
metáforas e a linguagem simbólica permite manter discrição sobre o que está sendo
cantado, e para quem. Da mesma forma que a capoeira ludibriava os capitães do mato,
despertando olhares para a dança ao mesmo tempo que se fortalecia como luta e
autodefesa, o batuque, considerado simples diversão entre os negros na visão dos
donos de fazendas, também funcionava como forma de articulação por meio das
cantorias. O tambu, o quinjengue, a matraca e o guaiá são os instrumentos de percussão
que acompanham as modas. A dança do batuque tem formação em duas fileiras
confrontantes, de homens e de mulheres, e tem como principal característica a
umbigada trocada pelos casais dançantes.

Fonte: O Batuque de Umbigada de Tietê, Piracicaba e Capivari - SP (2015)


Realizadores: Associação Cultural Cachuera!, comunidade do Batuque de Umbigada de
Tietê, Piracicaba e Capivari.

Umbigada [Link]

Batuque Paulista [Link]

Samba de bumbo de SP (Pirapora) [Link]

As Matriarcas do Samba de bumbo [Link]

Samba Paulista [Link]

Observação: a umbigada, as batidas de palmas e o canto responsorial (com o coro


respondendo) são algumas das principais características da cultura africana em nossa
música.

Vejamos agora um pouco da herança portuguesa em nossa música:

A modinha portuguesa e música caipira (Sudeste e Centro-oeste)


Não podemos deixar de citar a música “sertaneja” e as modas de viola tão presentes no
interior de São Paulo e em toda cultura do interior (Goiás, Paraná, MT, MS e MG) e que
também precederam a chamada MPB. Consta em inúmeros livros que a viola e a sanfona
estavam presentes em território nacional desde o primeiro século da colonização
portuguesa (meados de 1500).Portanto, a maior herança que nossos antepassados
portugueses poderiam nos deixar, além da própria língua, foram esses dois
instrumentos , além de outros como o triângulo, o adufe (pandeiro), e a alfaia, que tanto
retratam nossa história de lutas e desafios.
Obs: Vale a pena assistir a série documental “Milagre de Santa Luzia” em o músico
Dominguinhos viaja pelo Brasil pesquisando os diversos “sotaques” da sanfona em
nosso país.
[Link]

A moda de viola

Provindas de Portugal, as “modas” de viola são a essência da música sertaneja e caipira.


Entretanto, mais uma vez vale diferenciar a viola tocada nas diversas regiões do Brasil.
Anterior ao violão, a viola portuguesa, que se transformou em nossa viola caipira, está
presente em todo interior de nosso país, de norte a sul, tocada de diferentes formas em
diversas manifestações específicas.

O termo “sertanejo” por exemplo,nos remete diretamente aos violeiros do Nordeste.


Suas emboladas e repentes, seus aboios, cocos e martelo-agalopados, suas histórias
cantadas e toda a tradição da viola nordestina reflete a história de lutas e conquistas do
povo nordestino em seus acordes e sonoridade tão característica. Luiz Gonzaga traz
muitos elementos dessa tradição posteriormente em seu baião (veremos esse assunto
no módulo 2).

Diferente da música do sertão nordestino, é a música caipira do interior de São Paulo,


Paraná, Minas e sobretudo da região Centro Oeste do Brasil, com seus siriris e cururus,
suas violas de cocho e as querumanas, suas guarânias, chamamés e polcas, suas catiras,
pagodes e toadas que tanto contam a história desse povo que se adentrou pelo Brasil.

Contudo, a indústria fonográfica novamente “generaliza” toda essa diversidade e coloca


tudo sob o mesmo “guarda-chuva”, classificando-os como “sertanejo de raiz”, (já que
atualmente existem inúmeros estilos de “sertanejo”, como o sertanejo romântico e o
sertanejo universitário).
Podemos citar alguns artistas do “sertanejo raiz” ligados à cultura caipira, mas que já
fizeram parte do cenário fonográfico do Brasil, dentre eles: Alvarenga e Ranchinho,
Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Tião Carreiro e Pardinho, Inezita Barroso, as
Irmãs Galvão.

A viola ainda está arraigada em nossa cultura nos mais diversos cantos do Brasil. Há
uma nova geração de violeiros (como Ivan Vilela, João Paulo Amaral, Paulo Freire, entre
tantos outros) que mantém viva a tradição da música caipira e ainda expandem o
universo da viola tocando também outros gêneros.

Já na década de 80, a chamada “música sertaneja” fugiu muito de sua essência, sofrendo
influências do country norte americano, da música pop e da música romântica. Sua
instrumentação mudou, incluindo o uso de guitarra, bateria, teclados, e as letras não
mais se relacionam com a essência da música caipira ou sertaneja. (*Ver country norte
Americano). Hoje, as novas duplas do chamado “sertanejo universitário” tocam ritmos
como o “arrocha”, axé music e até funk carioca, falando sobre temas, como bebida,
balada, traição, dinheiro, relacionamentos conflituosos, entre outros. Esses gêneros,
criados pela indústria fonográfica, fazem um apelo aos elementos mais presentes no
imaginário popular (sobretudo da juventude), criando um pastiche com um ritmo
‘contagiante’, uma letra que ‘pega’, e um produto que lhes é muito rentável.

Curiosidade 1: Os violeiros gostam de contar “causos” interessantes e engraçados sobre


os caboclos, caipiras, e sobre o povo que vive no interior desse “Brasilzão”. Geralmente
sentam em volta de uma fogueira e passam a noite cantando e contando histórias muito
interessantes sobre a vida no campo. Pesquise e mostre para seus alunos essa riqueza e
essa belíssima atmosfera dos contadores de causo e violeiros do Brasil.
[Link]

A viola caipira

A viola caipira chegou ao Brasil trazida pelos portugueses desde o início da colonização.
O violão por exemplo veio muitos anos mais tarde trazido pela influência hispânica em
solo brasileiro. As origens da viola e do violão são muito antigas, vinda dos instrumentos
árabes como uds e alaudes. A viola brasileira provem da viola campanisa de Portugal e
tem dez cordas dispostas em cinco pares. O “ponteio” (jeito de tocar) usa muito as
cordas soltas fazendo seu lindo timbre soar ao vento. Existem muitas lendas em torno
da viola. Uma delas é sobre um jeito de afinar a viola que eles chamam de Cebolão.
Dizem que esse nome vem por causa das “muié”, que só de ouvir o violeiro afinando a
viola já choram de emoção, igual quando cortam a cebola.

Curiosidade 2. Tem um ritmo da viola que se chama “PAGODE” e que não tem nada a
ver o samba, e é um ritmo muito usado nas modas e nas rodas dos violeiros. Outros dois
ritmos que tem o mesmo nome, mas que são bem diferentes são: o XOTE do Nordeste,
mais ligado ao forró, e o XOTE gaúcho, que é uma música típica do Rio Grande do Sul
mais ligada às danças europeias, havendo muitas peculiaridades e estilos como o “xote
carreirinho” e o “xote duas damas”, em que o cavalheiro dança com duas mulheres ao
mesmo tempo.

Links relacionados (vídeos complementares)

Modas de viola [Link]


Tião Carreira e Almir Sater [Link]
Jongo da Serrinha [Link]
Jongo de Guaratinguetá [Link]
Jongo com Antonio Nobrega: [Link]
Umbigada [Link]
Batuque Paulista [Link]
Samba de bumbo de SP (Pirapora) [Link]
As Matriarcas do Samba de bumbo [Link]
Samba Paulista [Link]

Segue abaixo uma tabela com um resumo de alguns dos principais


gêneros musicais do Brasil em cada região:
Nordeste Norte Sudeste Centro- Sul
Oeste
Xote, Carimbó, Jongo, Catira ou Tango e Milonga
xaxado, Lambada, batuque de Cateretê,
coco, Guitarrada umbigada, Bate pé ou
embolada, e Brega do samba Fandango
aboio, Pará lenço, Chamamé
repente, cavalhadas,
baião samba de
bumbo,
catira e
congadas
Ijexá, samba Boi de Choro, Guarânia e Xote e chula
de roda e Parintins maxixe, Polca gaúcha
blocos afros samba (Paraguai) Fandango, pau
da Bahia de fitas, bugio
Maracatu, Marabaixo Bossa nova Moda de Vaneira e
frevo, do MPB Viola chamamé
ciranda, Amapá, (festivais Cururu, siriri
cavalo Gambá de da canção)
marinho, Mauês Jovem
caboclinho guarda,
do Recife Clube da
*Movimento Esquina,
Armorial Tropicália
Bumba meu Músicas Rock, Música Congada da Lapa
boi, tambor indígenas Heavy sertaneja (PR)
de crioula, metal, funk (caipira), Boi de mamão
festa do e música sertanejo (SC)
divino, eletrônica universitário
cacuriá do (urbano)
Maranhão

MPB e os primeiros gêneros urbanos do Brasil (marcha, choro e maxixe)

A partir do final do século XIX, com o fim da escravidão e o começo da urbanização e da


modernização das cidades brasileiras, surgem, em meio as mais diversas inovações
tecnológicas (dentre elas a Rádio Nacional), os mais diversos gêneros musicais urbanos
no Brasil. Vejamos agora alguns dos principais:

Curiosidade: Ver link Samba paulista e o ‘progresso’ da cidade de São Paulo


[Link]

Choro
O Choro é um dos primeiros gêneros musicais urbanos tipicamente brasileiros. Segundo
diversos historiadores, ele surge da apropriação dos gêneros europeus pelos músicos
populares do Rio de Janeiro, no final do século XIX, tendo características muito próximas
às músicas de salão da época do império, principalmente pelos contrapontos e pela
riqueza melódica de suas composições. No início, seus principais instrumentos eram de
sopros e posteriormente surge a formação: flauta, cavaco e violão. Entretanto, ao longo
do século XX foram introduzidos muitos outros instrumentos, como: o pandeiro, o
clarinete, o bandolim, o sax, o piano e até o acordeom.
Podemos citar como precursores do Choro, os compositores Joaquim Calado, Ernesto
Nazareth, Anacleto de Medeiros e a compositora Chiquinha Gonzaga. Entretanto, ele se
consolidou na primeira metade do século XX através de nomes como Pixinguinha, Jacob
do Bandolim e Waldir Azevedo, entre muitos outros.

O Chorinho é ainda hoje muito presente em todo o Brasil, com seus regionais e suas
formações mais inusitadas. Podemos destacar o bairro da Lapa no Rio de Janeiro como
principal reduto do Choro, e também outros locais do Brasil, como São Paulo, Brasília,
Goiânia e Vitória.

PIXINGUINHA FOI UM DOS GRANDES MESTRES DA


MÚSICA BRASILEIRA E COMPÔS MUITOS CHOROS E
SAMBAS MARAVILHOSOS, COMO CARINHOSO ,
LAMENTO E 1 a 0.

Curiosidades: Uma das principais características do Choro são as melodias rápidas e


exigentes para os músicos, com seus contrapontos, improvisações e sobreposições de
vozes. Vamos ouvir algumas interpretações do grupo Época de Ouro, que é uma das
principais referências do Chorinho em toda sua história.
Links relacionados ao Choro:
• Época de Ouro [Link]
[Link]
• Pixinguinha [Link]
• Choro atual [Link]

As marchas carnavalescas, o tango brasileiro e o maxixe

Podemos considerar as marchas carnavalescas, o choro e o maxixe (anteriormente


chamado de tango brasileiro, ou até de corta-jaca) como os primeiros gêneros musicais
urbanos genuinamente brasileiros. Até então fazia-se ainda uma separação - ainda que
ilusória, devido as miscigenações anteriores a chegada dos povos no Brasil, entre as
diversas etnias de povos africanos e também europeus - entre a música de procedência
portuguesa ou europeia, da música provinda da África e suas diversas nações e etnias.
Uma das precursoras da música brasileira, símbolo de luta feminista e da busca dos
sonhos e dos direitos da mulher foi a maestrina Chiquinha Gonzaga, uma das primeiras
a valorizar a “mistura” de culturas contida no Brasil, o que fez o amálgama sonoro de
nossa música desde seu início até os dias de hoje.

CHIQUINHA GONZAGA (1847- 1935)

Se voltarmos por volta de cento e cinquenta anos atrás, vamos encontrar uma mulher
que revolucionou a história da música brasileira. Francisca Edwiges Neves Gonzaga, mais
conhecida como Chiquinha Gonzaga, foi a primeira mulher a reger uma orquestra no
Brasil, além de ser, mesmo sem saber, uma das primeiras “feministas” a lutar pela
igualdade direitos entre homens e mulheres, sendo também uma das primeiras
mulheres a se divorciar no brasil. Chiquinha compôs músicas nos vários estilos musicais
que surgiam no Brasil daquela época, dentre eles: as modinhas, o lundu, o tango
brasileiro, os maxixes, choros, valsas, polcas e marchas. Ela também foi a criadora da
primeira marchinha de carnaval a ficar bem conhecida. Era a “ô abre alas”, tocada até
hoje em alguns salões do brasil.
ERNESTO NAZARETH 1863 – 1934

ERNESTO NAZARETH É VERDADEIRO SÍMBOLO DA CULTURA BRASILEIRA. ELE ESTUDOU


PIANO E CONHECIA MUITO BEM A CULTURA EUROPEIA. POR OUTRO LADO TRAZIA EM
SUAS MÚSICAS A AFRICANIDADE E AS TRADIÇÕES DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA.
UMA DE SUAS MÚSICAS MAIS CONHECIDAS FOI ODEON. VAMOS OUVIR?

• Época de Ouro [Link]


[Link]
• Pixinguinha [Link]
• Choro atual [Link]

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

BAKHTIN, M. “Gêneros do discurso”. In: Estética da Criação Verbal. São Paulo:


Martins Fontes, l992.

TATIT, Luiz. O Século da Canção. Cotia: Ateliê Editorial, 2004.


FABBRI, F. A theory of musical genres - two [Link]: First International
Conference on Popular Music Studies, Popular Music Perspectives (ed. D. Horn and
P. Tagg; 1982, Göteborg and Exeter: International Association for the Study of Popular
Music). Amsterdam, 1981.

BRAIT, B. (Org.)(2005) “Estilo” In: Bakhtin: Conceitos-chave. São Paulo: Contexto. .


DOLZ, J. & SCHNEUWLY, B. "Gêneros e progressão em expressão oral e escrita". In:
Gêneros orais e escritos na escola (Trad. e org. Roxane H. R. Rojo e Glaís S. Cordeiro).
Campinas: Mercado de Letras. 2004.

BRANDÃO, HHN. Estilo, Gêneros do discurso e implicações didática. In: Língua


Portuguesa: Pesquisa e ensino. São Paulo: Educ/Fapesp, 2007.

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