DECISÃO: O Supremo Tribunal Federal tem entendido possível o
julgamento do recurso extraordinário (ou do respectivo recurso de
agravo) em momento anterior ao do recurso especial, pelo Superior
Tribunal de Justiça, não obstante a norma inscrita no art. 543, § 1º, do
CPC, desde que existentes razões de ordem formal que legitimem a
formulação, por esta Suprema Corte, de juízo de incognoscibilidade quanto
ao apelo extremo.
Vale referir que a prática processual deste Tribunal orienta-se em tal
sentido, quer se trate do próprio recurso extraordinário, quer se cuide,
quando i nadmitido, do respectivo recurso de agravo:
“ORDEM RITUAL INERENTE AO AGRAVO DE
INSTRUMENTO.
- Mostra-se processualmente viável, nos casos de
inadmissibilidade do recurso extraordinário motivada por razões de
índole técnico-formal, o julgamento imediato, pelo Supremo
Tribunal Federal, do concernente agravo, mesmo antes de o
Superior Tribunal de Justiça julgar, em caráter definitivo, o recurso de
agravo deduzido contra decisão que não admitiu o recurso especial.”
(AI 835.571-AgR-ED-ED/RJ, Rel. Min. CELSO DE
MELLO)
Examino, desse modo, o presente recurso. E, ao fazê-lo, verifico que a
decisão de que se recorre negou trânsito a apelo extremo interposto pela
parte ora agravante, no qual esta sustenta que o Tribunal “a quo” teria
transgredido diversos preceitos inscritos na Constituição da República,
notadamente aquele inscrito em seu art. 5º, inciso LV.
Sob tal perspectiva, revela-se absolutamente inviável o recurso
extraordinário em questão.
É que, com relação à alegada violação ao art. 5º, inciso LV, da
Constituição, a orientação jurisprudencial emanada desta Suprema
Corte, firmada na análise desse particular aspecto no qual se fundamenta
o recurso extraordinário em causa, tem salientado, considerado o princípio
do devido processo legal (neste compreendida a cláusula inerente à
plenitude de defesa), que a suposta ofensa ao texto constitucional, caso
existente, apresentar-se-ia por via reflexa, eis que a sua constatação
reclamaria – para que se configurasse – a formulação de juízo prévio de
legalidade, fundado na vulneração e infringência de dispositivos de ordem
meramente l egal.
Daí revelar-se inteiramente ajustável, ao caso ora em exame, o
entendimento jurisprudencial desta Corte Suprema, no sentido de que
“O devido processo legal – CF, art. 5º, LV – exerce-se de conformidade com
a lei” (AI 192.995-AgR/PE, Rel. Min. CARLOS VELLOSO – grifei), razão
pela qual a alegação de desrespeito à cláusula do devido processo legal,
por traduzir transgressão “indireta, reflexa, dado que a ofensa direta seria a
normas processuais” (AI 215.885-AgR/SP, Rel. Min. MOREIRA ALVES –
AI 414.167/RS, Rel. Min. CEZAR PELUSO – RE 257.533-AgR/RS, Rel.
Min. CARLOS VELLOSO), não autoriza o acesso à via recursal
extraordinária:
“DUE PROCESS OF LAW E PRINCÍPIO DA
LEGALIDADE.
- A garantia do devido processo legal exerce-se em
conformidade com o que dispõe a lei, de tal modo que eventual
desvio do ato decisório configurará, quando muito, situação
tipificadora de conflito de mera legalidade, apto a desautorizar a
utilização do recurso extraordinário. Precedentes.”
(RTJ 189/336-337, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
“– Alegação de ofensa ao devido processo legal: C.F.,
art. 5º, LV: se ofensa tivesse havido, seria ela indireta, reflexa, dado
que a ofensa direta seria a normas processuais. E a ofensa a preceito
constitucional que autoriza a admissão do recurso extraordinário é a
ofensa direta, frontal.”
(AI 427.186-AgR/DF, Rel. Min. CARLOS VELLOSO –
grifei)
“Inviável o processamento do extraordinário para debater
matéria infraconstitucional, sob o argumento de violação ao disposto
nos incisos LIV e LV do artigo 5º da Constituição.
Agravo regimental improvido.”
(AI 447.774-AgR/CE, Rel. Min. ELLEN GRACIE – grifei)
Nem se alegue, neste ponto, que a suposta transgressão ao
ordenamento legal – derivada da interpretação que lhe deu o Tribunal
“a quo” – teria importado em desrespeito ao princípio constitucional da
legalidade.
Não se pode desconsiderar, quanto a tal postulado, a orientação
firmada pelo Supremo Tribunal Federal, cuja jurisprudência vem
proclamando, a propósito desse tema, que o procedimento hermenêutico do
Tribunal inferior – quando examina o quadro normativo positivado pelo
Estado e dele extrai a interpretação dos diversos diplomas legais que o
compõem, para, em razão da inteligência e do sentido exegético que lhes
der, obter os elementos necessários à exata composição da lide – não
transgride, diretamente, o princípio da legalidade (AI 161.396-AgR/SP,
Rel. Min. CELSO DE MELLO – AI 192.995-AgR/PE, Rel. Min. CARLOS
VELLOSO – AI 3 07.711/PA, Rel. Min. CELSO DE MELLO).
É por essa razão – ausência de conflito imediato com o texto da
Constituição – que a jurisprudência desta Corte vem enfatizando que “A
boa ou má interpretação de norma infraconstitucional não enseja o recurso
extraordinário, sob color de ofensa ao princípio da legalidade (CF, art. 5º, II)”
(RTJ 1 44/962, Rel. Min. CARLOS VELLOSO – g rifei):
“E é pacífica a jurisprudência do S.T.F., no sentido de não
admitir, em R.E., alegação de ofensa indireta à Constituição Federal,
por má interpretação de normas infraconstitucionais, como as
trabalhistas e processuais (...).”
(AI 153.310-AgR/RS, Rel. Min. SYDNEY SANCHES –
grifei)
“A alegação de ofensa ao princípio da legalidade, inscrito
no art. 5º, II, da Constituição da República, não autoriza, só por si, o
acesso à via recursal extraordinária, pelo fato de tal alegação tornar
indispensável, para efeito de sua constatação, o exame prévio do
ordenamento positivo de caráter infraconstitucional, dando ensejo,
em tal situação, à possibilidade de reconhecimento de hipótese de mera
transgressão indireta ao texto da Carta Política. Precedentes.”
(RTJ 189/336-337, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Não foi por outro motivo que o eminente Ministro MOREIRA
ALVES, Relator, ao apreciar o tema pertinente ao postulado da
legalidade, em conexão com o emprego do recurso extraordinário, assim
se pronunciou:
“A alegação de ofensa ao artigo 5º, II, da Constituição, por
implicar o exame prévio da legislação infraconstitucional, é
alegação de infringência indireta ou reflexa à Carta Magna, não
dando margem, assim, ao cabimento do recurso extraordinário.”
(AI 339.607/MG, Rel. Min. MOREIRA ALVES – grifei)
Cumpre acentuar, por oportuno, que essa orientação acha-se
presentemente sumulada por esta Corte, como resulta claro da Súmula 636 do
Supremo Tribunal Federal, cuja formulação possui o seguinte conteúdo:
“Não cabe recurso extraordinário por contrariedade ao
princípio constitucional da legalidade, quando a sua verificação
pressuponha rever a interpretação dada a normas infraconstitucionais
pela decisão recorrida.” (grifei)
Finalmente, o acórdão recorrido decidiu a controvérsia à luz dos
fatos e das provas existentes nos autos, fundando-se, ainda, para resolver
o litígio, em interpretação de cláusula contratual, circunstância esta que
obsta o próprio conhecimento do apelo extremo, em face do que se
contém nas S úmulas 279 e 4 54 do Supremo Tribunal Federal.
Sendo assim, e pelas razões expostas, n
ego provimento ao presente
agravo de instrumento, eis que se revela inviável o recurso
extraordinário a que ele se refere.
Publique-se.
Brasília, 30 de maio de 2012.
Ministro CELSO DE MELLO
Relator