REINTEGRAÇÃO EM CARGO PÚBLICO -Policial militar é exonerado do
cargo em razão de suposta falta grave. Procedimento administrativo
viciado. Ausência de contraditório. Cerceamento de defesa. Pede-se a
anulação do ato e reintegração do servidor ao seu cargo, com a devida
indenização.
EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA .... ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA,
FALÊNCIAS E CONCORDATAS DA COMARCA DE ....
............................................... (qualificação), residente e domiciliado na
Rua .... nº ...., na cidade de ...., Estado do ...., neste ato, por seus
advogados e procuradores judiciais infra-assinados (mandato incluso),
inscritos na OAB/.... sob os nº .... e ...., respectivamente, com escritório
profissional nesta cidade, na Rua .... nº ...., onde recebem intimações e
notificações em geral, vem, respeitosamente à presença de Vossa
Excelência, interpor a presente
AÇÃO ORDINÁRIA DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE ATO JURÍDICO, C/C
REINTEGRAÇÃO EM CARGO PÚBLICO E INDENIZAÇÃO ,
na forma que dispõe o Artigo 282 e seguintes do Código de Processo Civil,
arts. 75, 76, 82, 115, 145, III e demais outros aplicáveis à espécie do
Código Civil Brasileiro, bem como o artigo 5º, parágrafo LV da Constituição
Federal, em face do ESTADO DO ...., pessoa jurídica de direito público
interno, o qual deverá ser citado na pessoa do Excelentíssimo Senhor
Procurador Geral do Estado, na forma do que abaixo passa a expor e
finalmente a requerer, como segue:
1.0 - DOS FATOS
1.1 O Requerente, pertenceu às fileiras da Corporação da Polícia Militar do
Estado ...., para a qual ingressou em data de ...., após haver preenchido
todas as formalidades legais, prestando normalmente seus serviços ao
Requerido.
1.2 Em data de ...., foi excluído, a bem da disciplina, sob a acusação de
estar o mesmo na má conduta por cometer faltas de natureza grave, não
obstante haver sido, por várias vezes, advertido a melhorar o seu
comportamento.
1.3 Que, para tanto, foi submetido a Comissão de Sindicância, na qual
consta que deveria ser-lhe assegurado ampla defesa.
1.4 Para tanto, o Comando do ....º BPM procedeu a designação de oficiais
para procederem Sindicância, em comissão, tendo o Presidente da referida
comissão prestado o compromisso legal, de examinar com imparcialidade os
fatos que lhe fossem submetidos e opinar sobre eles, com justiça e
disciplina. Os demais membros também prestaram compromisso.
1.5 O Sindicado, ora Requerente, compareceu perante a comissão para ser
sindicado, tendo sido inquirido pelos membros, conforme consta da Ata da
1ª Sessão que se encontravam presentes todos os membros da Comissão
de Sindicância, Sindicado e seu Defensor.
1.6 Do termo de Inquirição não consta presença do Sindicato, nem de seu
defensor. O Requerido, por seus prepostos, cometeu irregularidades
processuais administrativas, por ocasião da feitura do procedimento que
culminou com a exclusão das fileiras da Corporação, do Requerente, e
tamanhas são tais irregularidades havidas, que primárias, senão infantis,
diante da arbitrariedade cometida.
1.7 Que, o Requerente foi um policial que ingressou na Corporação da
Polícia Militar do Estado ...., após haver sido aprovado no Curso de
Formação de Soldado, fato este que caso não obtivesse aprovação tal, não
teria sido admitido no serviço público estadual, tendo inclusive passado o
estágio probatório e prestando normalmente serviços para os quais fora
admitido.
1.8 Que, as testemunhas arroladas pela Comissão foram inquiridas sem a
presença do Sindicado e de seu defensor, conforme se verifica dos termos
de fls. .... da sindicância, onde constam assinaturas do Presidente da
comissão, do membro, do secretário e da testemunha, faltando, portanto, a
presença do sindicado e de seu defensor.
1.9 Novamente, apesar do despacho do presidente da comissão (fls. ....)
determinar a presença do sindicado e o defensor, para ouvida e inquirição
de novas testemunhas, isto não foi obedecido, conforme se constata pelos
termos de fls. .... e ata da 3ª Sessão de fls. .... da sindicância.
1.10 Dessa forma, evidente cerceamento de defesa foi cometido contra o
sindicado, ora Requerente, posto que, as Leis nº 6961, de 28 de novembro
de 1977 e a Lei 8115, de 25 de junho de 1985, que regulamentou os
Conselhos de Justificação e de Disciplina, são leis que mencionam ser
assegurado ao acusado amplo direito de defesa, sendo o processo
acompanhado por um Oficial, sendo a amplitude da defesa assegurado pela
via Constitucional, parágrafo artigo 5º, LV da Constituição Federal, o que
vale dizer, também aplicável mesmo nos procedimentos dos Conselhos de
Justificação e Disciplina e Sindicâncias.
1.11 A ausência de defensor habilitado, quer constituído quer nomeado,
implicou em inconteste prejuízo ao acusado, eis que o Oficial nomeado pela
comissão, não contestou as penas aplicadas ao Sindicado, não produziu
provas, sendo que ao final de suas razões de "defesa", desejou a comissão
de Sindicância, votos de sucesso.
1.12 Nota-se que a sindicância fora dirigida para um determinado fim, qual
seja, exclusão do Requerente, posto que, não lhe fora dado oportunidade
para indicação de provas, seu defensor nomeado não contestou, não
reperguntou, inclusive, sempre ausente nas oportunidades das inquirições,
nem alegou que pelas transgressões disciplinares o Requerente já teria
cumprido penas de advertência e prisão.
1.13 A ausência de defensor, como já dissemos anteriormente, quer
constituído, quer nomeado, implica em inconteste prejuízo ao acusado,
posto que a Lei nº 42115,d e 27 de abril de 1963, declara taxativamente,
verbis: (Lei 8.906/94 art 4º)
" - São nulos os atos privativos de advogado praticados por pessoas não
inscritas na OAB, sem prejuízo das sanções civis ou penais em que
incorrem."
1.14 Que, diante da inexistência do contraditório, nem a participação de
defensor, nas seções de ouvida de testemunhas, com direito a reperguntas
e portanto, inexistindo ampla defesa, não havendo dúvida, que o ato não
pode e nem deve prevalecer, eis que contrário à determinação legal, é
visceralmente nulo.
1.15 Diante de tal circunstância, o Requerente não tendo outra alternativa
do que, após tamanha injustiça a que foi submetido por parte do Requerido,
recorrer ao Poder Judiciário, ao contencioso jurisdicional, como única forma
de ser restabelecido o direito, eis que, além de tudo, a Comissão de
Sindicância apurou que o sindicado fora advertido de sua última
oportunidade para melhorar seu comportamento sob pena de ser submetido
a sindicância, não constando que tenha cometido, após essa oportunidade,
transgressão que estaria sujeito as sanções a que foi submetido.
2.0 - DO DIREITO
2.1 Que, a legislação pátria em vigor aplicável à espécie, é a que tomamos
a liberdade, como se vê:
CONSTITUIÇÃO FEDERAL
"Art. 5º - ....
Parágrafo LV - A lei assegurará aos acusados ampla defesa, com os
recursos a ela inerentes.
XXXVII - Não haverá foro privilegiado, nem Tribunais de exceção.
XXXIX E XL Parágrafo 16 - A instrução criminal será contraditória,
observada a lei anterior, no relativo ao crime e à penal, salvo quando
agravar a situação do réu."
CÓDIGO CIVIL BRASILEIRO
"Art. 75 - A todo direito corresponde uma ação, que o assegura."
"Art. 76 - Para propor, ou contestar uma ação, é necessário ter legítimo
interesse econômico ou moral."
"Art. 82 - A validade do ato Jurídico requer agente capaz, objeto líquido e
forma prescrita ou não defesa em lei."
"Art. 115 - São lícitas em geral, todas as condições, que a lei não vedar
expressamente. Entre as condições defesas se incluem as que privarem de
todo efeito o ato, ou o sujeitarem ao arbítrio de uma das partes."
"Art. 130 - Não vale o ato, que deixar de revestir a forma especial,
determinada em lei (art. 82) salvo quando esta comine sanção diferente
contra a preterição da forma exigida."
"Art. 145 - É nulo o ato jurídico"
....
inc. III - quando não revestir a forma prescrita em lei."
DECRETO ESTADUAL Nº .... de .... de .... (Regulamento interno e de
serviços gerais da Polícia Militar)
"Art. - Na Polícia Militar do Estado, terá aplicação o Regulamento
Disciplinar em vigor no Exército Nacional, com as alterações constantes
deste Regulamento."
2.2 Que, a lei é clara, e não foi obedecida pelo Poder Público, que deve, em
tese ser o primeiro a dar o exemplo do fiel cumprimento da legislação
vigente, e nunca ao contrário, já que é quem promulga e faz,
necessariamente, valer o preceito do jus scriptum.
2.3 Que, na demonstração que faz-se nesta oportunidade, evidencia- se de
longa margem, que o Requerido passou por cima de tudo o que determina o
preceito legal, tornando-se um transgressor aberto e as claras das mais
comezinhas normas jurídicas, que por sua própria formalidade, é que
resguarda os sagrados direitos do ora suplicante.
2.4 Que, ser acusado, como foi, sem qualquer direito de defesa, como
ocorreu, e ser penalizado administrativamente, para também ser excluído,
após a conclusão da Comissão, é o cúmulo do absurdo, pois o ato cometido
é crime, preceituado na legislação penal, ou é simplesmente transgressão
disciplinar, nunca os dois ao mesmo tempo, sob pena de aplicar- se uma
dupla penalização.
2.5 Que, porém, o Requerido, na sua ânsia descomedida, de querer aplicar
à Justiça aos seus próprios olhos e maneira, acaba finalmente por cometer
a barbaridade que ora se vê, de atos jurídicos visceralmente nulos, sem
qualquer efeito legal, pela pressa, pela desconsideração, pelos preceitos
legais.
2.6 Que, ser julgado, em procedimento administrativo, sem qualquer defesa,
sem qualquer produção de provas (documental, testemunhal e pericial), sem
qualquer oportunidade de contraditar testemunhas de acusação, é forma
imperialista, desumana e antijurídica, senão ditatorial, na promoção de tais
atos, e, estas atitudes, que por si só falam mais alto, do que dissemos
nesta ocasião, é uma pequena demonstração dos atos do Requerido, no
abuso de autoridade cometida contra os direitos do autor.
3.0 - DA DOUTRINA
3.1 Que, a doutrina, por seus ilustres mestres do direito, nos ensinam o
seguinte:
PONTES DE MIRANDA
Comentários à Constituição de 1967, 2ª Edição, Tomo V, p. 235:
"O direito de defesa deve ser assegurado em qualquer processo penal,
administrativo ou policial."
HELY LOPES MEIRELES
Direito Administrativo Brasileiro, Ed. Revista dos Tribunais - SP. 1981, p.
569.
"Essa garantia constitucional se estende a todo e qualquer procedimento
acusatório, judicial ou administrativo e se consubstancia no devido
processo legal (due process of law), de prática universal nos estado de
Direito. É a moderna tendência da jurisdicionalidade do poder disciplinar
que impõe condutas formais e obrigatórias para garantia dos acusados
contra arbítrios da administração, assegurando-lhes não só a oportunidade
de defesa, como a observância de rito legalmente estabelecido para o
processo."
3.2 Que, nem poderia ser diferente diante dos textos legais, eis que a
doutrina em consonância com a lei, pois que analisa friamente a aplicação
desta, também não pode estar distante da jurisprudência, que vem a ser a
aplicação do texto legal frente aos fatos e atos jurídicos ocorridos, quando
os Tribunais, são chamados a se pronunciarem, como veremos a seguir:
4.0 - DA JURISPRUDÊNCIA
4.1 Que, para tanto, trazemos nesta ocasião, algumas decisões, que em
muitos são aplicáveis à presente causa:
"O julgamento da legalidade dos atos administrativos, está incluído na
competência jurisdicional que protege qualquer lesão de direito individual."
(STF, in RDA 110/243).
"Ainda que discricionário o ato administrativo, deve conformar-se com a
finalidade legal." (TJSP, in RDA 36/121).
"A motivação jurisdicional do ato administrativo, tem seus limites no
formalismo que cerca o ato." (TFR, in RDA 61/135).
"A faculdade discricionária não pode ser usada abusivamente sob pretexto
de pena disciplina r." (TJBA, in RDA, 105/150).
Portanto, Nobre Julgador, caracterizado está dentro da lei vigente da
doutrina e da jurisprudência, a ilicitude civil praticada pelo Requerido,
contra os direitos do Requerente, e que, nada mais resta, a bem da
JUSTIÇA, do que decretar a nulidade do ato administrativo.
5.0 - DO REQUERIMENTO
5.1 - Que, diante do que ficou exposto, requer pela citação do Requerido, já
qualificado para que tome conhecimento da presente ação, e querendo em
tempo hábil, venha a Juízo proceder a sua defesa, sob pena de assim não o
fazendo, serem tidos como verdadeiros os fatos articulados nesta inicial, e
correrem à sua inteira revelia processual e conseqüente condenação.
5.2 Que, protesta provar o acima exposto, por todos os meios de prova em
direito admitidas, quer sejam documentais fora os que inclusos vão,
testemunhais, cujo rol declinará oportunamente e tempestivamente, pericial,
se necessário for, bem como, pelo depoimento pessoal do representante
legal do Requerido, na forma do que dispõe o art. 343, parágrafo 1º, do
C.P.C.
5.3 Que, após os trâmites legais, requer pela inteira procedência da
presente ação, para decretar, por sentença de mérito, a nulidade do ato
jurídico, que excluiu o Requerente das fileiras da Polícia Militar do
Estado ...., e via de conseqüência, reintegrá-lo à mesma, na condição de
direito que dispunha como funcionário público estadual, Soldado ...., com
todos os direitos advindos de tal declaração judicial, tais como, contagem
de tempo de serviço, promoções e vantagens pecuniárias, e a condenar
ainda o Requerido ao pagamento dos salários não recebidos, desde data de
.... para cá, acrescidos de juros de mora, correção monetária e demais
cominações legais aplicáveis à espécie, por ser de direito e de justiça.
5.4 Que, pede ainda, pela condenação do Requerido, nas custas
processuais, em devolução, honorários advocatícios à base usual de 20%
sobre o montante final apurável em execução de sentença, e demais
cominações legais.
5.5 Requer os benefícios da JUSTIÇA GRATUITA, de conformidade com a
Lei 1060/50 e alterações posteriores, eis que se trata de pessoa
reconhecidamente pobre na acepção jurídica do termo, conforme declaração
anexa.
5.6 Dá-se a presente, para efeitos fiscais e de alçada o valor de R$ .... (....)
Termos em que
Pede Deferimento
...., .... de .... de ....
...............................
ADVOGADO OAB/...