0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 45 visualizações11 páginasSingular e Anônimo
Ensaio "Singular e anônimo" (1986) de Silviano Santiago.
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SINGULAR E ANONINO
SILVIANO SANTIAGO*
Pana os mestnandos de Panis-111
RESUMO
A_partir de poemas de Ana Cristina César e de refle
x6es delasubre o leitor, este artigo questiona teo-
rias recentes que definem a linguagem poética como
intransitiva. Snfase é dada ao papel do leitor, te-
matizado_desde Baudelaire como hipécrita, semelhan-
te e irméo. Passa-se, em seguida, 4 apresentagao de
Protocolos de leitura que configuram o leitor de po
emas como singular e anénimo. Fica a pergunta: Como
estabelecer uma comunidade de leitores?
Ao contrério do que propde Roman Jakobson em esquema fa-
moso e sempre citado, em discordancia com o que pode caber na
palavra “intransitiva" que Roland Barthes usou para defini-la,
a linguagem poética existe em estado de continua travessia pa
xa o outro. Ela nomeia o leitor, como o fandtico da alta fide
lidade indica o melhor lugar na sala para se apreciar conveni
entemente 0 som. "Se meu verso nao deu certo, foi seu ouvido
que entortou", quem nos diz é Carlos Drummond de [Link]
les Baudelaire j& nomeava o seu leitor no prefdcio-poema 4s
Flores do mat: "—Leitor hipdcrita, —meu semelhante, — meu
irmfo!" T.S. Eliot, como se sabe, seguiu as pegadas de Baude-
laire, recitando o verso em The waste Zand.
© poema, sem ser carta, sem ser carta aberta, abre no en
tanto lugar para um destinatario que, apesar de ser sempre
singular, nao € pessoal porque necessariamente andnimo. Singu
lar e andnimo o leitor, ele no & todos como também nao é uma
Gnica pessoa. O poema nao é um discurso em praga piblica para
a massa indistinta, nem papo a dois confluente e intimo, ape-
sar de ser linguagem em travessia - [Link] Valéry dis
se que preferia um leitor que 1é muitas vezes um poema a mui-
*Professor Associado de Literatura Brasileira da PUC - RJ.
0 Eixo e a Roda, Belo Horizonte, (5): p. 95-105, 1986.96
tos leitores que o leriam uma s6 vez. Nada de elitismo ai,por
favor. O poema nao é facil nem dificil, ele exige, como tudo
© que, na aventura, precisa de ser palmilhado passo a passo.
Nao se avanga sem contar com 0 desconhecido e o obstaculo. A
escalada da leitura. As exigéncias para a leitura sao as mais
variadas e miltiplas, o poema que as nomeie com clareza e des
temor. Porque, nomeando-as, abre-se a linguagem para a confi-
gura¢o do leitor.
Ana Cristina César institui dois protocolos simultaneos
e semelhantes para que o leitor atue com proveito mituo na ce
na da sua poesia.
0 primeiro protocolo se situa a nivel do conhecimento e
reconhecimento que de sua obra estavam fazendo os companhei-
ros’ de geragao (que aparece sob a forma de um depoimento pes-
soal no livro Retaate de epoca). 0 segundo protocolo se enun-
cia no préprio corpo do seu livro de poemas, A teus pés, quan
do o texto desalimenta (quer dizer: desestimula a progredir a
leitura) 0 leitor, desalimenta e desmistifica os equivocos do
que podemos chamar de leitor autoritério, & leitor autorita-
rio © que enfrenta as exigéncias do poema com idéias preconce
bidas e globalizantes. Um poema exige pouco e muito: olhos
abertos e, enre tantas outras coisas, paciéncia e imaginagao.
Lectura de vara curta
Em depoimento a Carlos Alberto Messeder Pereira, encon-
trado em Retrate de Cpoca, Ana Cristina nado sé chama a aten-
go para duas linhas que constituem a sua poesia e que nela
se constituem como ainda comenta o equivoco de leitura que es
te caminho que se bifurca ia sendo produzido pelos seus pares.
Cita o exemplo do poeta e critico Cacaso, amigo também, com
quem mantinha discussdes permanentes:
uma vez, eu li [por Cacaso] um poema meu que
eu tinha adorado fazer[...}e 0 Cacaso olhou um olho
comprido[...] leu esse poema e disse assim: 'B _mui-
to bonito, mas ndo se entende|...] 0 leitor esta ex-
cluido'. Ai eu mostrei também o meu livro pro Caca-
so[...J e ele disse: ‘Legal, mas o melhor sdo os
O Eéixo e a Roda, Belo Horizonte, (5): p. 95-105, 198697
didrios porque se entende... so de comunicagio £4-
cil, falam do cotidiano
Cacaso se enganava ao acreditar que num grupo de poemas
(os que chamava de poemas dificeis) estava “excluido o lei-
tor", enquanto no outro grupo, o de “comunicagao facil",o lei
tor se aproximava do texto sem cansacos, entendendo-o, j4 que
nao se sentia alijado do seu bojo.
Num e noutro caso, o leitor est4, por assim dizer, in-
cluido. A linguagem po&tica nunca exclui o leitor. Como seu
depoimento, Ana Cristina parece apontar para Cacaso o fato de
que —ele préprio, Cacaso —é que se excluia voluntaniamente
dos poemas do primeiro grupo no movimento da sua leitura. As
vezes 0 leitor nado & feito para certos poemas, assim como mui
tas vezes nado fomos feitos para quem, no entanto, queremos
amar: ".., £04 seu ouvido que entortou", ecoa o verso.
A dicotomia facil e dificil (t@o daninha nestes trépicos
de sombra e Agua fresca) nao existe para quem tem a forga de
sobrecarregar de significado a linguagem para que ela viaje
(significativamente) em dire¢do ao outro, para que ela sempre
se organize e se libere pela dindmica da travessia. O impor-
tante, insistia Ana Cristina no depoimento, é que era “um poe
ma que [ela] tinha adorado fazer". A dicotomia citada sé exis
te (e so eles que, em geral, a estabelecem —é claro) para
0s que abandonam a viagem, pulam do trem em movimento com me-
do de uma pedra que vislumbram no meio do caminho, ou simples
mente porque a curiosidade é curta. Ficou "dificil" continuar
no trem, poe-se as mochilas nas costas e se dio por termina-
das as “impresses de viagem", para usar a metdfora tGo reve-
ladora de Heloisa Buarque de Hollanda.
Um sertanejo diria —em ajuda de Ana Cristina — diria
apropriadamente que 6 arriscado cutucar boi brabo com vara
curta.
Os chamados textos faceis (os verdadeiros, fago a distin
¢ao) nao conseguem impulsionar a linguagem ao infinito da tra
vessia (seriam eles poemas?), reduzidos que sempre ficam a
uma viagem cujo percurso é passageiro e batido, embora 4s ve-
0 Eixo e a Roda, Belo Horizonte, (5)? p.95-105,1986.