Matrix e a filosofia
Por Heraldo Aparecido Silva
23/5/2003
"O que é Matrix? Controle. A Matrix é um mundo
de sonhos gerado por computador... feito para
nos controlar..." [Trecho da revelação feita por
Morpheus a Neo]
(Andy & Larry Wachowski, The Matrix, EUA, 1999).
Em 1999, o cinema americano
produziu Matrix (The Matrix, EUA, 1999), um
filme, originalmente subestimado, que
arregimentou milhares de admiradores no mundo
todo e logo se transformou em uma referência
para outras produções cinematográficas.
Um exemplo? Bem... se ficarmos apenas no
efeito bullet time, lembraremos de várias
paródias, plágios e "homenagens".
O fenômeno Matrix pode ser parcialmente
O que é a Matrix? A resposta está aí.
compreendido se levarmos em consideração a Ela está à sua procura. E te encontrará
profusão de influências e temas que aparecem, se você desejar
direta ou indiretamente, no roteiro e nas imagens
do filme. Aí vão alguns exemplos: distopia,
esperança, filosofia, 1984 de George Orwell, artes
marciais, cibercultura, agentes secretos e teorias
conspirativas, romance, Alice no país das
maravilhas de Lewis Carroll, messianismo (crença
na vinda do Salvador: Jesus, Messias, Buda, Rei
Arthur), mitologia grega e céltica, Admirável
mundo novode Aldous Huxley, efeitos especiais
revolucionários, nova estética super-heroística
(óculos escuros, roupas pretas de couro e
sobretudos substituem, respectivamente,
máscaras, uniformes colantes coloridos e capas),
ficção científica, animes e assim por diante. Como
não dá para falar de todas estas coisas em poucas
linhas, vamos especificar: faremos uma rápida
comparação entre o filme Matrix e a filosofia
grega de Sócrates e Platão.
Morpheus segue o caminho do filósofo:
Para começar, responda rápido: se o contrário de Conhece a verdade e volta à caverna
real é irreal, então qual é o contrário de virtual? para instruir os demais
Se está se perguntando qual é a relação desta Neo, o fugitivo
questão com o filme e a filosofia, respondo: tudo. O agente Smith sustenta que nós,
seres humanos, não somos mamíferos,
O filme praticamente começa com a pergunta "o porque não entramos em equilíbrio com
o meio ambiente
que é Matrix?". Alguém aí se lembra do diálogo
entre Trinity e Neo? Então... ela lhe diz: "- É a
pergunta que nos impulsiona, Neo. Foi a pergunta que te trouxe aqui. Você conhece
a pergunta assim como eu". E ele: "- O que é a Matrix?". Em seguida, a jovem
conclui: "- Sim, a resposta está aí. Ela está à sua procura. E te encontrará se você
desejar".
Mas e a relação desta passagem com a filosofia? Bem, a filosofia ocidental (o
pensamento crítico) surgiu na Grécia Antiga, por volta do século VI a. C., como
uma alternativa ao mito (o pensamento ingênuo); ela começa através da pergunta
"o que é a realidade"?. De modo geral, naquela época, os filósofos pré-socráticos
deram duas explicações. A escola jônica, que se importava mais com a
observação da natureza (physis) - daí o surgimento da física e da cosmologia -
respondeu que o real é a physis; já a escola eleática, que se importava mais com
a abstração - daí o surgimento da metafísica e da ontologia - respondeu que o real
é o ser (ontos). Destas considerações, aqui expostas de modo breve e lacunar,
originaram as investigações filosófico-científicas posteriores.
Chegou até aqui? Então, não boceje e continue.
Lembra da parte em que Morpheus (o deus dos sonhos e filho de Hipno, na
mitologia grega) leva Neo até Oráculo e ela lhe mostra a frase "conhece-te a ti
mesmo". Isso é grego também. É de um sujeito que mudou o panorama da história
da filosofia e da humanidade: Sócrates (c. 470-399 a. C.), o fundador da ética ou
filosofia moral. Por causa dele, as pessoas passaram a se interessar e estudar não
apenas a realidade exterior (questões sobre a natureza, os astros etc.), mas
também a interior (questões relativas ao ser humano, como política, educação,
organização social, comportamento).
Três máximas socráticas ilustram o modo como ele conduziu a sua existência:
1) "Conhece-te a ti mesmo"; 2) "Só sei que nada sei" e 3) "A vida sem reflexão não
vale a pena ser vivida".
E daí? (geralmente os filósofos perguntam isso). Bem, daí que, na história de
Sócrates, também tem um Oráculo, o Oráculo de Delfos, que disse para ele que o
homem mais sábio de todos era... ele mesmo. Todo mundo achava isso, menos o
próprio Sócrates. Mais ou menos como acontece com Neo no filme. Quase todo
mundo o considera o Escolhido, exceto ele próprio.
Depois, de sua visita ao Oráculo, o ateniense Sócrates passou a abordar as pessoas
e a discutir com elas os mais variados assuntos, no intuito de achar alguém que
fosse realmente sábio, já que ele achava que nada sabia. Nestes diálogos, sempre
colocava em prática as suas máximas: "Só sei que nada sei" e "Conhece-te a ti
mesmo". Isto significa que o método socrático, elenchus, pode ser dividido em
duas partes: a primeira (destrutiva), com a ironia; e a segunda (construtiva), com
a maiêutica. Para Sócrates, a sabedoria consiste primeiro no reconhecimento da
própria ignorância - este conhecimento é o passo inicial em busca da sabedoria e
envolve o abandono das idéias preconcebidas. Afinal, "as aparências enganam" e
não queremos ser enganados por elas, certo?... certo (menos, é claro, para os
partidários do Cypher - o traidor no primeiro filme -, que podem retrucar em
uníssono: "- Me engana que eu gosto!").
Os diálogos socráticos eram inconclusivos, mas, após os mesmos, acreditava-se
estar numa situação melhor do que a de outrora, uma vez que, embora não se
soubesse o que era um objeto em questão, sabia-se o que ele não era.
O método maiêutico consiste em extrair idéias por meio de perguntas; a imagem é
a de que as idéias já existem na mente "grávida" da pessoa, mas precisam de um
"parto" para se tornarem manifestas. Este "poder da mente" é, de certo modo,
sugerido no filmes em diversas ocasiões: tanto para propiciar feitos extraordinários
quanto para causar a morte do "corpo real" através do virtual.
No fim, Sócrates foi injustamente condenado à morte por ter corrompido - através
de idéias inéditas e contestadoras - a juventude, desrespeitar os deuses e
confrontar o Estado.
O principal discípulo de Sócrates foi Platão (c. 429-347 a. C.). A passagem mais
conhecida de suas obras, a alegoria da caverna(ou mito da caverna), está no
livro A república. Agora um pouco de paciência e uma dica para entender o filme a
partir desta perspectiva filosófica: ao ler o trecho a seguir, substitua a "caverna"
pela realidade virtual de Matrix e o "fugitivo" por Neo e seus companheiros.
Platão exemplifica suas idéias sobre filosofia, política e realidade a partir da
dramática alegoria da caverna sobre um grupo de prisioneiros confinados, desde o
seu nascimento, no interior de uma caverna. Estão acorrentados de uma tal
maneira que só conseguem olhar para frente e tudo que vêem são sombras na
parede. Tais sombras são projetadas pela escassa iluminação fornecida por uma
fogueira que arde atrás deles. Entre a fogueira e os prisioneiros, há uma passagem
ascendente para fora da caverna e através da qual diversas pessoas entram e
saem, fazendo com que os prisioneiros vejam variadas formas de sombras e ouçam
o eco das vozes dos transeuntes. Em seguida, Platão afirma que um dos
prisioneiros, após árdua luta, consegue se libertar das correntes e fugir. Assim, pela
primeira vez, o ex-prisioneiro, pode contemplar algo além daquilo ao qual estava
habituado. Mais do que meras sombras, ele vê a fogueira, os outros prisioneiros, a
passagem ascendente e tudo o mais no interior da caverna. Depois, quando sai e
atinge o mundo exterior, além de descobrir a existência de muitas outras coisas, é
ofuscado por uma luminosidade ainda maior do que a da fogueira: a do Sol.
Atordoado, ele retorna à caverna em busca de refúgio e, também, para relatar o
ocorrido aos seus antigos companheiros - estes, por sua vez, não crêem na voz
dissonante do fugitivo e se recusam a serem libertados para compartilhar da
mesma ‘experiência’. Em contrapartida, os prisioneiros também não conseguem
convencer o fugitivo de seu suposto devaneio. Assim, terminam por silenciar,
hostilizar e matar o pária fugitivo.
No filme, Morpheus alerta Neo, no "programa de treinamento" (após ele se distrair
com "a Mulher de Vermelho" que, num piscar de olhos, dá lugar a um "agente"
letal), que qualquer um em Matrix é um agente em potencial.
Agora o restante da interpretação.
Se considerarmos a linguagem metafísica e dualista de Platão (luz/sombra,
ciência/opinião, essência/aparência), podemos afirmar que os prisioneiros são a
humanidade ignorante - no sentido de não saber, não conhecer. Em Matrix, eles
são representados pela humanidade prisioneira das máquinas tiranas.
As correntes que os retém são os hábitos retrógrados e nocivos (os vícios, opostos
da virtude) que, se não impede, ao menos dificulta o acesso ao conhecimento.
EmMatrix, as correntes também são nossos pseudoprazeres, a rotina e ilusão de
realidade, resultado da "simulação neurointerativa".
Uma vez que as sombras são as únicas coisas que os prisioneiros vêem - não
possuem outros referenciais - é natural que acreditem nelas como sendo a própria
realidade - quando na verdade não são. Em Matrix, se você está sonhando e não
percebe, como pode saber que tudo aquilo não é realidade? "- Acorde, Neo. (...)
Siga o coelho branco".
O fugitivo representa o filósofo, aquele que tem acesso à luz - ao conhecimento.
Em Matrix: é o que desconfia que está vivendo uma ilusão, como Neo.
O percurso até o conhecimento é ascendente e íngreme, assim como
a passagem que une o interior ao exterior da caverna. Da mesma forma que a
visão necessita de tempo para, de forma gradativa, assimilar as mudanças de tons
claros e escuros a que são submetidos os objetos quando passamos das luzes às
trevas e vice-versa; a compreensão e a aprendizagem demandam tempo, requerem
um período para adaptação. Em Matrix recorde o difícil processo de readaptação
pela qual Neo e todos os outros antes dele tiveram de se submeter.
A missão do filósofo (e de Neo ou de qualquer um que se livre do controle
de Matrix, conforme esta interpretação) é conhecer a verdadeira realidade (sair da
Matrix), regressar à caverna - lugar obscuro, pleno de crenças, aparências e
superstições - (voltar à Matrix) e instruir os demais (em Matrix: libertar todos).
Tarefa nada fácil, já que as idéias retrógradas são predominantes e costumam
condenar, de modo prévio, todo ineditismo (em Matrix: não resista, esqueça, se
submeta para não precisar ser eliminado).
Parafraseando Platão, podermos dizer que "a realidade não é o que alguns
apregoam que ela é". A realidade é virtual, é Matrix.
Em virtude da extensão do legado platônico, muitas de suas idéias não foram aqui
abordadas; todavia, faz-se necessária uma pequena e lacunar menção sobre duas
noções importantes: a teoria das formas ou idéias e da doutrina da
reminiscência.
Para Platão, no diálogo Mênon, o início do processo de conhecimento é justificado
pela doutrina da reminiscência ou anamnese, uma precursora solução inatista que
sustenta a idéia segundo a qual existe um conhecimento prévio, resultante da
contemplação das formas perfeitas e imutáveis pela alma imortal antes da
reencarnação. Portanto, a partir deste exemplo, podemos notar que é através
da teoria das formas ou idéias e da doutrina da reminiscência, que Platão defende
que o conhecimento é a rememoração. Já no filme, na barganha que Cypher faz
com o agente Smith, ele exige entre outras coisas, esquecer tudo, não se lembrar
de nada.
Para finalizar, um pouco de heresia filosófica: o "momento aristotélico" do filme fica
por conta das máquinas. Calma, eu explico.
Antes de seguir suas próprias idéias Aristóteles foi o mais importante discípulo de
Platão. Sistematizador da lógica, ele valorizava extremamente o conhecimento
empírico e as ciências naturais. Classificava tudo metodicamente, principalmente
quando se tratava de suas investigações no campo da biologia. Se alguém aí falou
"Agente Smith" e "Inteligência Artificial", acertou.
Vamos recordar. No universo do filme Matrix, por volta de 2199, a Terra fica
devastada como resultado de uma guerra ocorrida entre humanos e máquinas. A
humanidade não consegue vencer a Inteligência Artificial, "uma consciência singular
que gerou uma raça inteira de máquinas" (segundo relato de Morpheus),
bloqueando a energia solar da qual dependiam as máquinas. Ironicamente, os
seres humanos derrotados tornam-se baterias de "bioeletricidade" e acabam
substituindo a função do Sol, pois, através de uma "espécie de fusão", são usados
para fornecer a energia de que elas precisam.
Na cena em que Morpheus encontra-se prisioneiro do Agente Smith, este revela
que, ao tentar classificar a raça humana, fez uma descoberta surpreendente: ele
sustenta que nós, seres humanos, não somos mamíferos, porque não entramos em
equilíbrio com o meio ambiente. Ao contrário dos mamíferos, nós nos mudamos
para uma área e nos multiplicamos até consumirmos todos os recursos naturais
para depois, mudar novamente para outra. Segundo o Agente Smith, o "outro
organismo neste planeta que segue o mesmo padrão" é um "vírus".
Conforme especulações e notícias divulgadas recentemente sobre a continuação -
Matrix Reloaded - teremos oportunidade de nos confrontarmos de novo com os
golpes, a retórica e a lógica do agente Smith.
Heraldo Aparecido Silva, professor de filosofia e vice-presidente do Centro de Estudos em Filosofia Americana