31/08/2018 4 Perguntas para Sidney Shine: ‘TJRS condena psicóloga por produzir laudo irregular’ – interface psicologia e justiça
4 Perguntas para Sidney Shine: ‘TJRS condena
psicóloga por produzir laudo irregular’
Em abril o sítio eletrônico Conjur publicou a matéria ‘TJRS condena psicóloga por
produzir laudo irregular‘, que foi replicada no grupo IPJ. A matéria tratava do
“posicionamento […] da 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul,
[que] derrubou sentença que negou dano moral a um pai prejudicado [por] psicóloga
quando litigava com a ex-esposa pela guarda da filha. A psicóloga, além de não lhe
entrevistar, traçou um perfil psicológico totalmente destoante da realidade fática”. O
blog entrevistou o psicólogo Sidney Shine, do TJSP, sobre o caso, tal como divulgado
pelo Conjur. Sidney Shine é autor da tese de doutorado ‘Andando no fio da navalha‘,
defendida em 2009 na USP, na qual analisou laudos psicológicos e os problemas
éticos e técnicos de sua elaboração. Essa tese ganhou o Prêmio Capes de Teses de
2010.
1. O que se pode colher de mais importante nesse caso?
Em primeiro lugar, confirma que “quem com laudo fere, com laudo será conferido”.
2. A situação descrita na matéria, reflete os achados de sua tese de doutorado
‘Andando no Fio da Navalha’?
SIM. Apesar do estudo ter sido feito com processos éticos contra psicólogos entre
os anos de 1997 e 2005, as representações tem aumentado de lá para cá. Seria
uma questão de tempo para que saísse da esfera do CRP-CFP e adentrasse a
esfera cível na forma de Reparação de Dano Moral. Aliás seria um retorno, porque
os casos começam na justiça comum (V. de Família) e depois vão para os CRPs.
3. Como se define a atuação do psicólogo nos casos de varas de família? Qual sua
importância?
Em Vara de Família, o psicólogo participa do caso promovendo uma avaliação da
família que resulta em um laudo pericial. A importância de tal atuação é que o
resultado de seu trabalho será considerado uma prova técnica que terá a força de
influenciar a decisão judicial sobre a vida das pessoas em questão. No caso em
tela, o pai poderia ter perdido a guarda da filha em função do laudo psicológico
produzido.
4. Sobre o laudo psicológico, qual seu objetivo principal? Quais são os riscos e
desafios de sua elaboração?
O psicólogo sem prática no contexto forense custa a perceber que o Juiz não
necessita de um subsídio clínico, ou seja, ele não fará uso de diagnósticos clínicos
ou descrição de sintomas, defesas etc. Neste sentido, o laudo precisa responder a
uma indagação (que é do Juiz) sobre uma matéria que implica conhecimento
psicológico mas é de natureza legal. Por exemplo, no caso em apreciação, o Juiz
precisava saber sobre o perfil psicológico do pai e da mãe para determinar quem
teria melhores condições de ficar com a guarda, ou seja, cuidar da filha do casal.
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31/08/2018 4 Perguntas para Sidney Shine: ‘TJRS condena psicóloga por produzir laudo irregular’ – interface psicologia e justiça
O desafio de tal atuação estaria em ser objetivo na avaliação sem “perder” os
sujeitos de tal avaliação, ser preciso e compreensível na escrita sem perder o rigor
técnico, ser compreensivo e profundo o suficiente para abarcar o que é
relevante sem incorrer no furo curandis. Seria equilibrar o desejo de saber com o
desejo de tratar.
Riscos? Não sermos psicólogos conforme nossa ética e sermos processados por
falta de técnica.
Gostaria de acrescentar alguma coisa?
Gostaria de compartilhar meus sentimentos a medida que fui lendo a matéria. Em
primeiro lugar, veio certa preocupação em poder sofrer tal ação e ser condenada
como a colega. Ou seja, uma identificação com a profissional e uma preocupação
egoística. A medida que fui lendo e, principalmente, o extrato do julgamento no CRP
fui me espantando: Fez um laudo quando o pedido era de um “estudo social”? Usou
grafologia (que é um recurso não reconhecido pela comunidade psi) e depois
negou, falando em “HTP e autobiografia”, mas como se ela nem atendeu o pai?
Depois sobreveio uma certa vergonha de pertencer à mesma classe. Dizer de uma
pessoa que não conhece diretamente que teria: “Perturbação no controle do
Impulso, perturbação de ajustamento com distúrbio de conduta, ociosidade,
agressividade e brigas, acompanhado por sentimento de vingança”.
Daí comecei a pensar se a punição da advertência não teria sido muito branda,
porque é a mais leve e ninguém fica sabendo. E como ninguém fica sabendo como
evitar que absurdos como este possam acontecer? E se a punição tivesse sido mais
severa, será que o pai não teria se sentido “justiçado” e talvez não fosse à justiça
por reparação por danos morais?
Ao final, ficou uma indagação: como a colega fez tudo isto “voluntariamente” e,
provavelmente, achando que estava colaborando com as pessoas e com a justiça?
Como entender o tamanho do equívoco? Será que a graduação em Psicologia está
tão deficitária que estamos formando profissionais sem o mínimo discernimento
quanto às consequências de tais atos? Comecei com uma preocupação e terminei
com outra, pelo menos não tão egoísta.
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