ADOLESCÊNCIA EM QUESTÃO
Maicon Pereira da Cunha
Joel Birman
Introdução
A adolescência é uma construção eminentemente moderna, marcada por uma
preocupação com a biopolítica, enquanto problemática da governabilidade (FOUCAULT,
2008). Ela nasce organizada dentro de um padrão em que eram muito bem delimitadas as
denominadas “idades da vida”, tais como a infância, a adolescência, a fase adulta, a velhice.
(ARIÈS, 1981). Este paradigma das idades da vida foi calcado na biologia. Além disso, foi
na modernidade que surgiu a sociedade disciplinar, com um intenso rigor sobre a formação
dos corpos. (FOUCAULT, 2009). Aliado a isso, os discursos da medicina científica e da
psicologia forjaram um quadro que delimitou a ação humana dentro de certos padrões,
legitimando o estabelecimento de limites entre as ditas idades da vida.
A hipótese aqui levantada é a de que não se pode reduzir aquilo que se construiu
como idades da vida aos registros médico, biológico e psicológico, mas que se impõe a
necessidade de tomar como ponto de vista privilegiado a questão da construção sócio-
histórica. Para sustentar este ponto de vista trabalharemos, através de determinados
recortes, a constituição subjetiva na modernidade e na pós-modernidade, analisando as
devidas distinções que estão aí inerentes.
Na atualidade o que se percebe é que a adolescência se altera na sua conformação,
ampliando o que chamaremos de período de experimentação. Neste sentido, é o próprio
conceito de adolescência que se vê questionado na sua origem. Ser adolescente atualmente
é muito mais do que apenas estar passando por uma fase de descobertas, confusões
identitárias ou de questionamentos da ordem social vigente. Para entender melhor quem é o
adolescente de hoje é preciso investigar que mudanças sociais e histórias estão na base da
construção de um outro modo de ser, e que conseqüências são possíveis de serem extraídas
a partir desses imbróglios.
Narcisismo na pós-modernidade
Mais do que nunca se fala nos quadros ditos fronteiriços, isto é, os borderlines. A
psicopatologia da pós-modernidade se funda sob os quadros das depressões, toxicomanias e
a síndrome do pânico (BIRMAN, 2007). O paciente da atualidade não chega mais com uma
queixa tipicamente histérica ou de neurose obsessiva. A repressão de outrora, que
facilmente sugeria a histeria de conversão, cede espaço a uma queixa reveladora da ordem
da sua própria existência; ele não sabe quem ele é. As queixas são vagas. No lugar de um
quadro fóbico, geralmente o paciente relata a sua dor de existir: “Ele descreve „sentimentos
de vazio sutilmente experimentados, embora penetrantes, e de depressão‟, „oscilações
violentas de auto-estima‟ e „uma incapacidade geral de progredir‟”. (LASCH, 1983, p.62)
As formas de sofrimento contemporâneo se identificam como perturbações da
ordem do narcisismo. Sejam nos quadros de depressão, toxicomania, pânico, anorexia,
doenças psicossomáticas, a questão nevrálgica se fundamenta em um outro modo de
relação com o narcisismo. Há um processo de desnarcização dos sujeitos, na medida em
que se alteram as configurações da ordem familiar e social.
Dentro da perspectiva da identificação das novas formas de sofrimento psíquico
atrelado às perturbações narcísicas, o ponto de vista sustentado por Lasch (1983) é de que
há uma ampliação do conceito do narcisismo da clínica para o social. Neste sentido, não
apenas falamos do paciente fronteiriço, mas falamos do próprio sujeito contemporâneo.
Este sujeito é marcado por um autocentramento no eu, mas de forma superficial. O
envolvimento relacionado às experiências de afetividade se sustenta sob o registro da
efemeridade.
Economia, violência e juventude
Nos meandros da caracterização da vida contemporânea, a nova ordem social regida
pelo neoliberalismo traz, como forma de sistematização dos modos de produção, elementos
que podemos apontar como sendo correlatos das novas formas de violência urbana. A
articulação entre a atual fase do capitalismo e a ordem social tem como resultado novas
formas de subjetivação, que um autor como Sennet (1999) denomina de “corrosão do
caráter”. Segundo o autor, o próprio senso de caráter pessoal é modificado de acordo com o
novo capitalismo, na medida em que novos sentidos e significados são atribuídos ao
trabalho.
No que concerne à nova cartografia do mercado de trabalho, as alterações sociais
decorrentes das mudanças no modo de organização econômica são extremamente
importantes de serem apontadas. Destacamos aqui um aspecto interessante nesta
problemática, no que diz respeito à construção da juventude.
Um mapeamento da juventude atual é feito por Birman (2008), em um trabalho que
se pauta na perspectiva da enunciação de uma relação entre as novas condições
econômicas, novas formas de viver e de construir uma subjetivação. O autor sustenta uma
caracterização baseada numa narrativa que abrange a totalidade dos aspectos relativos à
juventude na sua forma de entrelaçamento com a criminalidade e a violência, que não se
isolam na periferia das grandes cidades, mas que estão instauradas na classe média. A
juventude atual se caracteriza por uma radical diferença quanto aos padrões antigos de ser
adolescente. O que nos interessa aqui é uma nuance no que diz respeito à juventude como
um processo de construção e não como um dado estático, fundamentada somente sob um
ponto de vista de uma evolução biológica.
A adolescência em questão
Pensar a juventude como uma construção sócio-histórica permite avançar na
discussão de uma conjuntura que precisa ser contextualizada. O que percebemos na
atualidade é um fenômeno que se intensifica e se torna cada vez mais comum, que é a
continuação da vida na casa dos pais mesmo depois dos 30 anos de idade. Há algum tempo
atrás, o fato de que alguém passasse um pouco dos 20 anos para se casar, rapidamente seria
identificado como um grande problema. Esse era o molde de uma organização que se
consolidou no século XIX, da família nuclear burguesa, onde o papel da mulher era a de ser
mãe e de educar os filhos.
Com mudanças radicais ocorridas na metade do século XX, tais como o advento das
tecnologias anticoncepcionais e as revoluções feministas, a família nuclear é desmantelada.
O papel da mulher como gestora apenas do espaço doméstico ruiu. Desta forma, a rígida
organização familiar se encontra desestruturada, alterando as conformações pré-
estabelecidas do que era entendido como devendo ser uma família. Se antes, portanto, a
adolescência era entendida como um período de experimentação, uma espécie de advento
para a vida adulta, o que depreendemos é que este período aumentou bastante na atualidade.
Atrelado ao modo de organização econômica neoliberal, os “trintões” ou até mesmo os
“quarentões” não vêem necessidade de sair da casa dos pais, para construir a sua própria
família.
Birman (2008) argumenta que “a infância se estreita atualmente em decorrência dos
imperativos de performance impostos às crianças desde muito cedo, diminuindo bastante o
espaço e o tempo dos jogos e brincadeiras infantis.” (p. 94). E continua sustentando a tese
de que, em contrapartida, “a adolescência se prolonga excessivamente, como conseqüência
da impossibilidade de inserção social dos jovens no mundo do trabalho e nos impasses para
a constituição de um novo núcleo familiar”. (BIRMAN, 2008, p. 94).
Conclusão
Após termos feito um mapeamento sobre os novos quadros da adolescência
expostos na contemporaneidade, colocamos, então, em questão a legitimidade dos critérios
pautados no discurso biológico e psicológico para identificar hermeticamente uma “idade
da vida”, pois verificamos que a adolescência se estende na sua duração na atualidade.
A adolescência se situa como forjada por uma complexa e múltipla rede de fatores
determinantes, que não se esgotam no enquadramento etário tradicional. Num artigo
intitulado “Adolescência Prolongada”, Cintra (2006) discute o caso de uma paciente “cuja
adolescência se prolongava interminavelmente, minando a sua esperança de algum dia
crescer e emancipar-se.” (p.45). Cintra situa a problemática na fragmentação do superego
arcaico, que seria a causa de sua desestruturação psíquica. Este exemplo de leitura
psicanalítica sugere uma assertiva ontogenética para a questão em debate, que criticamos
neste artigo. O que tentamos chamar atenção neste estudo é que para entender a
adolescência é preciso ampliar o foco, desconstruir a idéia de que a adolescência é um
período formal, bem circunscrito biológica e psicologicamente entre a infância e a vida
adulta. A adolescência atual se prolonga não porque o adulto vive uma etapa “errada” da
vida, mas porque justamente ela não se encaixa neste quadro estereotipado como se
costuma entender o adolescente.
BIBLIOGRAFIA
ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: Editora Guanabara,
1981.
BIRMAN, J. Mal-estar na Atualidade: a Psicanálise e as Novas Formas de
Subjetivação. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira Editora, 2007.
BIRMAN, J. Adolescência Sem Fim? Peripécias do Sujeito Num Mundo Pós-Edipiano In:
CARDOSO, M. R; MARTY. F. (org.). Destinos da Adolescência. Rio de Janeiro: 7letras, 2008.
CINTRA, E. Adolescência Prolongada In: CARDOSO, M. R.; AGUIAR, H. et al (org.).
Adolescentes. São Paulo: Editora Escuta, 2006.
FOUCAULT, M. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
LASCH, C. A Cultura do Narcisismo. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1983.
SENNETT, R. A Corrosão do Caráter. Rio de Janeiro: Record, 1999.
SOBRE OS AUTORES
Maicon Pereira da Cunha. Bolsista de Mestrado do CNPq. Mestrando do Programa de
Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(PPGTP-UFRJ)..
Joel Birman. Professor Titular / pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Pesquisador no programa de mestrado e doutorado em Teoria Psicanalítica. Professor
adjunto do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-
UERJ). Pesquisador associado do Laboratório Psicanálise e Medicina , da Universidade
Paris VI, Pesquisador NÍVEL 1-A do CNPq.