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MÓDULO 6
Coronelismo
e mundo rural
Nesta aula A primeira República foi chamada de Repú-
blica dos Fazendeiros ou República dos Coronéis . Coronéis como os pode-
rosos chefes regionais das telenovelas, a exemplo de Ramiro Bastos (Gabriela),
Odorico Paraguaçu (O Bem-Amado) ou Sinhozinho Malta (Roque Santeiro).
Tais figuras disputavam permanentemente o poder, entrando em conflito
com os velhos e poderosos chefes políticos da região e a quase sempre jovem
oposição.
Essas personagens foram e ainda são, em certas regiões (mesmo que de
forma pouco expressiva), figuras presentes na vida social brasileira deste século
e nos ajudam a entender um pouco mais as características de nossa vida política.
Nesta aula, vamos procurar responder à seguinte questão: por que era tão
forte o poder dos coronéis ?
Da Monarquia à República
O poder político das oligarquias estaduais tornou-se uma das principais
características das primeiras décadas republicanas.
Como parte integrante dessas oligarquias estavam os coronéis, que se
originaram na época do Império. Em 1831, para enfrentar as diversas rebeliões
que explodiam em algumas regiões do país e manter a ordem pública, o governo
da Regência criou a Guarda Nacional . No combate à onda de revoltas, deu aos
poderosos de cada localidade do país uma patente militar e uma missão: formar
um “exército” de homens para enfrentar os revoltosos. Seus oficiais eram os
fazendeiros, pessoas influentes, com muitas terras e escravos.
Os coronéis da Guarda Nacional, extinta em 1918, continuaram com essa
denominação - o “coroné” - atribuída espontaneamente pela população àquele
que parecia deter em suas mãos grande parcela do poder político e econômico.
Em outras palavras, aqueles que a polulação via como os ricos e poderosos.
Se as raízes do coronelismo foram sedimentadas no Império, com a Repú-
blica o coronel passou a ter outro papel dentro do novo sistema político.
No Império, as eleições tinham muito pouca importância. O Imperador, ao
escolher o partido político que comporia o gabinete, decidia também que grupo
local venceria as eleições. Na Primeira República, era o controle político do
eleitorado rural que definia a composição e a força das oligarquias estaduais .
O voto passava a ter um novo significado.
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Durante a Primeira República (1889 - 1930), o poder dos coronéis esteve A U L A
associado à força eleitoral que eles desempenhavam. Alcançou seu auge de
influência no período que se estende da presidência de Campos Sales às
vésperas da Revolução de 1930. 19
O presidente
Campos Sales
governou com
muita oposição à
sua política
econômica.
Coronelismo: compromisso político e relações sociais
O coronel nem sempre era um grande fazendeiro. Havia os coronéis cuja
base de poder estava nas atividades comerciais, industriais e até no exercício de
algumas profissões liberais.. Mas era, antes de tudo, um chefe político de
reconhecido poder econômico e prestígio junto ao governo estadual, poder esse
que se reveleva na competência para garantir eleições favoráveis aos grupos
situacionistas e fornecer benefícios à sua clientela. Da parte do governo estadual,
cabia dar carta branca ao chefe local governista em todos os assuntos relativos
ao município, inclusive na nomeação de funcionários estaduais do local.
Para ganhar eleições, era preciso ter votos. Surgiram assim os “cabos”
eleitorais, homens que, na condição de intermediários entre o coronel e a
população, eram pagos para alistar eleitores, organizar a massa, mantendo-se
em forma para os pleitos. Tinham o papel de formar um grande “curral”
eleitoral, no qual os candidatos do coronel ou por ele indicados recebiam uma
enxurrada de votos.
Vistos pela própria população como intermediários nas suas relações com
o Estado, os coronéis buscavam uma relação firme e segura como seus protetores
por intermédio da obtenção de empregos, contratação de advogados, providên-
cias médicas ou hospitalares, escolas, socorro nas situações de calamidade (a
exemplo das secas no Nordeste) e proteção contra os inimigos (como os
cangaceiros). Em geral, eram convocados para resolver questões diversas
referentes a limites de propriedades, heranças, pagamentos atrasados, educação
de crianças. Tinham ainda considerável influência na indicação de seus protegi-
dos para cargos públicos, principalmente na esfera municipal.
Era nesse campo que se estabeleciam as relações sociais que teceram o
cotidiano na vida do coronel e da gente das pequenas cidades, em diversas
regiões rurais do Brasil.
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A U L A O Brasil da Primeira República − ou República Velha, como seria denomina-
da após 1930 − não era apenas a terra dos coronéis e das oligarquias estaduais.
19 O mundo rural, era também um mundo dos homens e das mulheres de mãos
marcadas pela enxada, pelo machado, pela foice e pelo laço de couro: trabalha-
dores das estâncias do sul, que cuidavam do rebanho, cultivavam o trigo e as
vinhas; lavradores de cafezais, das plantações de cacau e tabaco; volantes dos
seringais e castanheiras do norte; boiadeiros do sertão; lavradores dos canaviais
nordestinos, entre outros.
Muitos eram trabalhadores rurais, sem legislação previdenciária e obriga-
dos a entregar ao proprietário quase a totalidade do fruto do seu trabalho. Junto
a eles, compunham o cenário social pequenos proprietários das zonas rurais e
habitantes das pequenas cidades de fisionomia basicamente rural. Esse povo
formava a maior parte do eleitorado.
Sob o aspecto político, o coronelismo pode ser definido como um sistema de
troca eleitoral − de um lado, proteção e favores, sobretudo econômicos; de outro,
o voto seguro e controlado. Era o “voto de cabresto”.
Porém, esse caráter pacífico das relações coronelísticas não era o único. Além
da barganha, da troca, havia a opressão e a violência, utilizados para captar e
conservar votos, tão empregados e usuais quanto os favores e benefícios.
Em algumas situações, a força das armas era acionada, empregando-se as
polícias particulares formadas por jagunços. Amparados pela autoridade do
coronel, encarregavam-se de “convencer” os eleitores “contrários” ou “indeci-
Clavinote: sos”. Eram as chamadas eleições de clavinote , nas quais os eleitores votavam
pequena carabina sob as vistas do jagunço. Afinal, o voto não era secreto.
Assim, o novo regime, instaurado em 1889 e organizado politicamente na
Constituição de 1891, ao mesmo tempo que permitiu a criação de mecanismos
que favoreceram uma maior descentralização do poder, não favoreceu a criação
de um sistema eleitoral sem vícios e controlado pelo poder público. O voto dos
eleitores − transformado em mercadoria de troca entre os membros da sociedade
daquela época − era manipulado e controlado pelos chefes da política nos
estados e municípios. Essa foi, sem dúvida, uma das marcas da vida política e
social na Primeira República, uma “república de coronéis”.
O tempo Os coronéis, freqüentemente vistos de maneira caricatural como fazendei-
não pára ros, figuras rústicas, brutais e ignorantes, foram personagens da vida política
brasileira que não desapareceram por completo após os anos 30. Muitos
sobrevivem ainda hoje, mesmo que como figuras isoladas.
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Relendo o texto Exercícios
A U L A
Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade. 19
1. Releia D a M o n a r q u i a à R e p ú b l i c a e identifique a origem do termo
“coronel”.
2. Releia Coronelismo: compromisso político e relações sociais e identi-
fique no texto as formas que os coronéis encontraram para se afirmar como
protetores da população.
3. Dê um novo título a esta aula.
Fazendo a História
Leia este texto com muita atenção.
Eleições na Roça
Mário Palmério - Vila dos Confins
João Soares estava com a razão: política só se ganha com muito
dinheiro. A começar com o alistamento, que é trabalhoso e caro:
tem-se que ir atrás do eleitor, convencê-los a se alistarem e
ensinar tudo, até a copiar o requerimento. Cabo de enxada engros-
sa as mãos − o laço de couro cru, machado e foice também. Caneta
e lápis são ferramentas muito delicadas.
A lida é outra: labuta pesada, de sol a sol, nos campos e nos
currais. É marcar o bezerro, é curar bicheira, é rachar pau de
cerca, é esticar arame farpado; roçar invernada, arar o chão,
capinar, colher... E quem perdeu tempo com leitura, com a escrita,
em menino, acaba logo esquecendo-se do pouco que aprendeu. Ler
o quê? Escrever o quê? Mas agora é preciso: a eleição vem aí, e o
título de eleitor rende a estima do patrão, a gente vira pessoa.
Acontece, também, que Pé-de-Meia não quer saber de históri-
as: é cabo eleitoral alistador de gente, pago por cabeça e tem que
mostrar trabalho. Primeiro, a conversa pacienciosa, amaciando
terreno; a luta depois:
“Minha vista anda que é uma barbaridade. E de uns tempos
para cá, apanhei uma tremedeira que a mão não me pára demais
quieta...”
O novato sua, desiste: “Vai não, Pé-de-Meia”.
Mas o cabo é jeitoso: não força, não insiste, espera. Só o tempo
de passar a gastura que a caneta sempre dá no principiante. “Tão
fácil...” O requerimento já está pronto, rascunhado no papel
almaço a lápis fininho, fácil de apagar” João Francisco de Olivei-
ra, abaixo-assinado, brasileiro, residente...”
Depois do jantar, menos cansado, João Francisco tenta de
novo. A mulher está perto, os filhos também. O roceiro lavou as
mãos, a lamparina queima a claridade dobrada, de bom pavio novo.
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A U L A Repega o servicinho:
“Sai da frente da luz, menino: Me dá um copo d’água, ô Cota.
19 Qual... minha vista não presta mesmo mais não. Besteira teimar...” Pé-
de-Meia não deixa passar o momento:
“Me dá licença, Seu João.” E pega no mãozão cascudo, pesado. Vai
guiando a bicha para cima e para baixo, vai caminhando com ela por
sobre o papel; (...) “Já varamos um bom eito. Vamos descansar um
pouco: ainda falta o Francisco, falta o ‘de Oliveira’...”
O trabalho não é fácil, não senhor, leva tempo. Mas aos poucos João
Francisco aprende a relaxar a mão, descobre que não carece de fazer
tanta força, já não molha de suor o papel. (...) E, quando o caboclo é ruim
de ensino, Pé-de-Meia é quem enche todo papel, borrando-o de propósi-
to, errando de velhaco, completando um perfeito e indiscutível requeri-
mento de eleitor de roça. Mas quando o caboclo é jeitoso como João
Francisco, Pé-de-Meia prefere carregar-lhe a mão durante o serviço
todo (...).
A pena ringe alto, mais risca bem grosso, bonito... Pelo meio do
caminho, já dono de si, João Francisco acha até de conversar, para
mostrar desembaraço.
“Este é o que é o tal de ‘gê’? Gostei dele: uma simpatia de letra.” E
Pé-de-Meia, solícito: “Pois está ficando um serviço de gente, Seu João.
O senhor até que tem jeito − um letraço! O juiz vai gostar”.
João Soares estava com a razão. Eleição custa dinheiro. Um cabo
eleitoral prático assim como o Pé-de-Meia garantia o serviço, mas
cobrava vinte mil réis por cabeça. E as despesas não ficavam só nisso:
precisa fazer o registro dos eleitores, buscar a certidão de nascimento ou
de casamento fora do município quando o caboclo nasceu fora, entrega
dos títulos. Lá se vai um dinheirão! Depois bóia o pagode. E condução
para muita gente, pois roceiro, quando viaja carrega família toda. A fila
em frente do juiz se reveza, e isso custa mais um ajutório ao Pé-de-Meia,
cuja presença o eleitor exige para assisti-lo na hora de passar o recibo.
Lá está ele, botando coragem no povo.
“Não se afobe, capriche. Você está implicando à toa com o ‘efe’ − a
letra é facinha. Se não decorou direito a voltinha, deixa: o juiz não
repara não...”
Agora faça o que é pedido abaixo.
1. Sublinhe no texto as tarefas que cabiam ao cabo eleitoral Pé-de-Meia.
2. Substitua a expressão em destaque nesta frase por outra que tenha o mesmo
significado: “a eleição vem aí, e o título de eleitor rende a estima do patrão,
a gente vira pessoa ” .
3. As eleições, hoje no Brasil, são muito diferentes daquelas de Eleições na
R o ç a ? Justifique sua resposta.
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