HUBERTO ROHDEN
Roteiro
csmico
UNIVERSALISMO
Sumrio
Advertncia
Convite aos leitores
O homem univrsico
Pensamentos csmicos
Relatividade de tempo e espao
Origem e fim do universo
Liberdade
Introverso extraverso
Zen
Religio csmica e psicoterapia
Ser filsofo ser religioso
Carter numinoso
O Nada do Todo
Passividade dinmica a quintessncia do Evangelho, do Bhagavad Gita e do
Tao Te Ching
Ego-fonte ou ego-canal?
Sat chit ananda
Do penltimo ao ltimo
Guru necessrio
O encontro do homem com o seu Eu central
Mergulhando na harmonia csmica
Poder creador do homem plenamente liberto
O poder da Presena Invisvel
Liberdade, paz e alegria
Sabedoria dos outros
A felicidade no me acontece
Fumaa e fogo
De, em, para
Filosofia csmica do Evangelho
Universo e nada mais
Carbono, oxignio, fsforo, luz
Dimensional indimensional
Redeno pela cultura?
Tolerar ou compreender?
Pensar ou repetir?
Almas unidas
Conferncias ou experincia?
Do Gnesis ao Apocalipse
O segundo advento do Cristo
Gnio platnico talento aristotlico
You released me from all my prisons
Unitrio, diversitrio, univrsico
Transcendente imanente
O mistrio da esfinge
Poder versus verdade
Ainda somos cristos?
Transcendente para dentro
Razo e Vontade
Neoplatonismo
O clero vive do pecado
O nosso cristianismo judaico
Digenes, como precursor antitotalitrio
Digenes e o conhecimento humano
A lei e os profetas
Salvar o Todo salvar a parte
O mistrio da compreenso
Ocultismo, clarividncia, telepatia, etc.
Amor
Cristianismo versus Cristo
Do doloroso dever para o jubiloso querer
Creando e solucionando a problemtica da vida
O reino dos cus aqui e agora
O fato da presena e o problema da conscincia
A humanidade necessita duma nova religio?
Einstein, sobre fatos e valores
A tica da lei cristalizada na alma do amor
Matemtica csmica
Entesando e desentesando o arco
A pobreza do receber e a riqueza do dar
Era uma vez um homem
O mistrio milenar de Israel
As razes profundas do caos atual
Viso telrica viso csmica
Fazer bem d desvantagem?
Homicdio fsico suicdio metafsico
Cristianismo versus comunismo
Catolicidade platnica ou catolicismo aristotlico?
Cosmos ou caos
O homem livre?
Teologia clerical e descalabro social
Transformao da vida
Bomba atmica ou Sermo do Monte?
Fara Moiss Gandhi
Matria essa desconhecida
Ser criana ou tomar-se como criana?
Autorredeno ou alorredeno?
Yga defora ou yga de dentro?
Imitao de Cristo ou Bhagavad Gita?
O Inconsciente o divino
Totalitarismos fruto duma nova filosofia
O consciente sem o ego
Alma de fora ou alma de dentro?
Quando agimos com liberdade?
Causalidade liberdade
Sincero sine cera
Ignorncia da natureza humana fonte de todos os desvarios
Vertical transbordando em horizontal
tica pr-mstica tica ps-mstica
Transmentalizai-vos!
Morte fsica morte metafsica
Renuncia renncia!
Para alm do egosmo e do altrusmo
Beatitude csmica
O sacramento do silncio
Nosso crebro
O Deus-monstro
Gnio no funda sociedade
Vocados e evocados
Querer crer poder crer
Recusar abusar usar
Juramento de Thomas Jefferson
Clima de espiritualidade
O homem csmico viso do infinito em todos os finitos
Realizao do homem integral cosmoterapia
Donde vm os bens da vida? Contato com a fonte
Liberdade total pela Verdade
Nveis de conscincia
A tragicidade da existncia humana e sua soluo
Advertncia
A substituio da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar
aceitvel em nvel de cultura primria, porque favorece a alfabetizao e
dispensa esforo mental mas no aceitvel em nvel de cultura superior,
porque deturpa o pensamento.
Crear a manifestao da Essncia em forma de existncia criar a
transio de uma existncia para outra existncia.
O Poder Infinito o creador do Universo um fazendeiro um criador de gado.
H entre os homens gnios creadores, embora no sejam talvez criadores.
A conhecida lei de Lavoisier diz que na natureza nada se crea nada se
aniquila, tudo se transforma; se grafarmos nada se crea, esta lei est certa,
mas se escrevemos nada se cria, ela resulta totalmente falsa.
Por isto, preferimos a verdade e a clareza do pensamento a quaisquer
convenes acadmicas.
Convite aos leitores
Convido o leitor a penetrar comigo neste mundo de pensamentos
variadssimos, focalizando palpitantes problemas de cincia, filosofia,
psicologia, experincias msticas e vivncias csmicas.
Pensadores antigos e modernos so convidados, nestas pginas, a dizer o que
sabem sobre o Universo, sobre Deus, sobre o passado, o presente e o futuro
do homem esse desconhecido.
Os leitores que sabem podero saber mais, os que sofrem sofrero menos.
E todos eles acabaro crendo muito mais no muito que ignoram do que no
pouco que sabem.
Os que leram os meus livros De Alma para Alma e dolos ou Ideal? sabem que
livros de pensamentos avulsos, como este e como aquele, so bem-vindos
pelos homens da trepidante vida moderna; podem ser abertos a esmo, em
qualquer pgina, e sempre o leitor encontrar algo para enriquecer o seu
esprito e alimentar a sua alma. Coletneas de pensamentos heterogneos,
sem nexo necessrio, tm a vantagem de no cansar o leitor.
Escusado repetir que o autor no expe as suas ideias como verdades
infalveis, e espera que o leitor lhe conceda a mesma liberdade de pensamento
e de conscincia que reclama para si mesmo.
O autor tambm no se arroga a paternidade absoluta de tudo quanto diz neste
livro; possvel que ideias alheias, lidas ou ouvidas, tenham formado um
substrato no subconsciente do autor, emergindo, aqui e acol, como se fossem
prole mental dele. Quem de ns poder garantir at que ponto as suas ideias
sejam exclusivamente dele? Existir mesmo pensamento integralmente meu ou
teu?
Leitor, se te encontrares comigo, nesse roteiro csmico, sigamos de mos
dadas rumo ao Universo desconhecido dentro de cada um de ns!
Compreendamos a Verdade e a Verdade nos libertar...
O homem univrsico
solitrio em Deus e solidrio com todas as creaturas de Deus. Mantm o seu
modo de pensar e de agir independentemente da opinio pblica.
tranquilo, sereno, paciente; no grita nem se desespera.
Pensa com clareza, fala com inteligncia, vive com simplicidade.
do passado, do presente e do futuro.
Sempre tem tempo.
No despreza nenhum ser humano.
Causa a impresso dos vastos silncios da Natureza: o cu, o oceano, o
deserto.
No vaidoso; no anda cata de aplausos; jamais se ofende; possui sempre
mais do que julga merecer.
Est sempre disposto a aprender, mesmo das crianas e dos tolos.
Trabalha s pelo prazer do trabalho em si, e no pela recompensa material.
Vive dentro do seu prprio isolamento espiritual onde no chegam nem o
louvor nem a censura; mas o seu isolamento no frio, porque ele ama, sofre,
pensa, compreende.
O que ele possui dinheiro ou posio social nada significa para ele.
S lhe importa o que ele .
Renuncia opinio prpria quando verifica seu erro; no respeita usos
estabelecidos por espritos tacanhos.
Respeita somente a Verdade.
Tem mente de adulto e corao de criana.
O homem univrsico conhece-se a si mesmo, tal qual , porque conhece a
Deus e por isso conhece os homens.
(Em parte, de autor desconhecido.)
Pensamentos csmicos
(Com base parcial no livro O Universo de Einstein, de Lincoln Barnett,
prefaciado pelo prprio Einstein.)
A cincia, depois da Teoria do Quantum de Max Planck, e sobretudo depois da
Teoria da Relatividade de Einstein, admite que a Natureza no um simples
sistema de causalidade mecnica (alo-determinismo) mas que, por detrs
desse mecanismo aparentemente inexorvel, h uma espcie de
autodeterminao de causalidade no mecnica, ou livre-arbtrio, que Bergson
chamaria causalidade dinmica. Isto justifica a frase de um dos grandes
cientistas contemporneos (James Jeans) de que, antigamente, o Universo nos
parecia uma grande mquina, e hoje se parece mais com um grande
pensamento.
A cincia de hoje, diz Lincoln Barnett, se aproxima da ideia do livre-arbtrio
como parte integrante do Cosmos; quer dizer que reconhece uma causa livre
como imanente no prprio Universo.
Se a entropia do mundo mecnico, inconsciente, parece criar um nivelamento
fatal, e a consequente paralisao das atividades do Cosmos, a ectropia do
mundo dinmico e consciente cria um desnivelamento cada vez maior, pela
intensificao do consciente e superconsciente, garantindo assim a indefinida
atividade do Universo Total.
Confira o captulo 8 da Epstola aos Romanos sobre a corruptibilidade da
natureza que, pela interveno do homem crstico, pode ser transformada em
incorruptibilidade.
A cincia descreve como algo funciona.
A filosofia diz o que algo .
Universo o uni da filosofia, o verso da cincia.
Aristteles julgava saber por que as coisas aconteciam (infncia).
O cientista conhece como as coisas funcionam (adolescncia).
O filsofo sabe o que as coisas so (maturidade).
Os fsicos de hoje so cada vez mais metafsicos, ultrapassando o como e
indagando o qu dos fenmenos. A culminncia do cientista o filsofo, como
se verifica em Einstein, que admite que a cincia sobre o como das coisas
apenas um recurso temporrio, mas no uma soluo definitiva. Acha que
Deus no joga dados com o mundo.
Relatividade de tempo e espao
(Ainda com base no citado livro de Lincoln Barnett.)
Est provado cientificamente que um relgio preso a um objeto em rpido
movimento, atrasa.
Idem, que uma rgua presa a um objeto em velocidade, encurta.
O movimento, a velocidade, reduz tempo e espao.
Tempo e espao s existem na zona dos finitos. No Infinito no h tempo nem
espao, h somente o eterno (negao do tempo) e o infinito (negao do
espao).
A nossa terra se move ao redor do seu eixo a 1.600 km por hora.
A terra se move ao redor do sol com a velocidade de quase 32 km por
segundo.
Nosso sistema solar se move ao redor de um sistema estelar com a velocidade
de 20 km por segundo.
Este sistema estelar gira em torno de uma via-lctea na razo de 320 km por
segundo.
E toda essa via-lctea, incluindo nosso sistema solar e a nossa terra, se move
ao redor de uma gigantesca galxia com a velocidade de 160 km por segundo.
Somando estas cinco velocidades, chegamos concluso de que o nosso
planeta Terra, e ns com ele, nos movemos, a cada segundo, com uma
velocidade superior a 32.768.000 quilmetros.
Ora, sendo que o volume tridimensional de cada objeto est na razo direta da
velocidade a que est sujeito, segue-se que o volume de todos os objetos
terrestres no absoluto, mas relativo; se eliminssemos metade dos
movimentos que nos dominam, os objetos teriam o dobro dos seus volumes; e
se duplicssemos o movimento, os objetos teriam apenas metade das suas
dimenses.
A quarta dimenso, que o tempo, modifica as trs dimenses do espao.
Tudo relativo, nada absoluto.
Constante apenas a velocidade da luz, que de 300 km por segundo. Se um
objeto tridimensional fosse submetido velocidade da luz, deixaria de ter
dimenso ou volume mas a sua massa (substncia, contedo) coincidiria
com a da prpria luz. Esse objeto seria onipresente em sua massa, e
oniausente em seu volume.
Massa, na fsica, quer dizer realidade, substncia, contedo, a essncia, a
qualidade, a intensidade de uma coisa ao passo que o volume o invlucro,
a sua quantidade, a sua extensidade, a sua existncia.
Origem e fim do universo
(Ainda com base na citada obra de Lincoln Barnett.)
Se o tomo a primeira fase de congelamento da luz, no prototomo estava
contida toda a potncia da luz csmica e, como potncia essncia, o
prototomo era potencial e essencialmente luz, por ser lucignito, o
primognito da luz. E por isto o tomo pode tornar a ser luz; sendo lucignito,
pode lucificar-se.
A luz csmica se contrai no prototomo.
O prototomo se expande em luz.
A creao da luz obrado Logos.
A creao do tomo (base da matria) obra de Lcifer (demiurgo).
Amor expanso, luz egosmo contrao, treva (matria).
Se o Lcifer csmico creou o tomo, e o Lcifer humano destri o tomo, como
estamos fazendo (porquanto o nosso intelecto o nosso Lcifer) no ser
que provocamos as iras do poderoso Lcifer, creador do tomo, que o nosso
Lcifer destri? Ser que a nossa desintegrao atmica no uma invaso
nos domnios lucifricos, nos domnios prncipe deste mundo, que o
prncipe das trevas, isto , da matria?
O astrnomo belga Lemaitre, e o russo-americano Gamow elaboraram
interessante sistema sobre a origem e o fim do Universo. O ncleo do Universo
era um foco homogneo de energias potenciais (en-ergon = atuao interna). A
temperatura do sol de 5.500 C na superfcie, e 40.000.000 C no interior.
Mas o ncleo primitivo do cosmos era muito mais quente. Nesse calor no
havia elementos, tomos, molculas s havia nutrons livres, em catica
agitao.
No momento de concentrao mxima se deu a exploso do ncleo e eltrons
e apareceu o tomo, base do Universo material.
Durante 2 bilhes de anos houve movimento de expanso, que no terminou
ainda. O nosso Universo continua se expandindo.
Tolman, do Instituto Tecnolgico da Califrnia, admite que a essa exploso
siga uma imploso, que a expanso do passado e do presente venha a ser
seguida por uma nova contrao, no futuro.
Confira a exalao (creao) e a inalao (destruio) que a filosofia oriental
atribui a Brahman, nas suas formas de Vishnu e Shiva.
No campo da nossa filosofia, a entropia seria expanso, e a ectropia seria a
contrao do cosmos o inconsciente mecnico contrabalanado pelo
consciente dinmico. O homem, chegado ao mximo da sua incorruptibilidade,
pelo superconsciente crstico, redimir o seu corpo corruptvel da
corruptibilidade, e assim iniciaria a redeno da Natureza, que at presente
hora sofre dores de parto, aguardando a revelao dos filhos de Deus, que
possuem as primcias do esprito, o livre-arbtrio.
A nossa fsica termodinmica acha que os processos da natureza so
irreversveis, acabando, pelo clmax da entropia, na morte do Universo, por
total nivelamento mas a metafsica sabe que o processo reversvel, graas
ectropia do nosso consciente ou superconsciente, equilibrando o processo
negativo-entrpico do inconsciente mecnico pelo processo positivo-ectrpico
do consciente dinmico.
A causalidade mecnica do alodeterminismo produz o nivelamento mortfero do
cosmos mas a causalidade dinmica da autodeterminao produz o
desnivelamento vitalizador do macrocosmo graas ao microcosmo.
Por Moiss foi dada a lei (entropia, causa mecnica, destruidora), pelo Cristo
vieram a graa e a verdade (ectropia, causa dinmica, construtora).
O desnivelamento construtor, produzido pelo consciente dinmico, aumenta na
razo direta em que aumenta o nivelamento destruidor, produzido pelo
inconsciente mecnico.
E assim garantido o equilbrio do Universo do verso pelo uno.
A qualidade do uno e a quantidade do verso so complementares.
Whipple, da Universidade de Harvard, Estado Unidos, elaborou a hiptese de
reconcentrao das partculas do Universo expandindo, dando cerca de 1
bilho de anos para a formao de um novo ncleo de alta condensao
repetindo-se o processo de exploso centrfuga, mais tarde seguido por um
novo processo de imploso centrpeta. Seria o Universo em sstole e distole,
em exalao e inalao, em entropia e ectropia, em mar e vazante, em
evoluo e involuo, em incessante revezamento de morte e ressurreio.
Liberdade
Os autores do livro O despertar dos mgicos dizem, acertadamente, que
liberdade o poder de ser causa; Deus nos creou o menos possvel, para
que ns nos pudssemos crear o mais possvel. De fato, o mistrio da
liberdade, do livre-arbtrio, no est num indeterminismo, mas, sim, numa
autodeterminao. Todos os outros seres da natureza so alodeterminados,
somente o homem, aqui na terra autodeterminante, autocausante, em vez de
alocausado. O homem autor e ator da sua causalidade prpria, ao passo que
os outros seres so apenas expectadores de uma causalidade alheia. O
homem causa, isto liberdade os outros seres so causados, e isto
escravido.
Introverso extraverso
(Selbsteinkehr Welthinkehr)
Estas duas palavras sintetizam toda a sabedoria csmica da Bhagavad Gita,
como tambm do Evangelho. O homem deve entrar em si (intro-) para poder
agir corretamente fora de si (extra-), sem perder o contato com a Fonte, o Todo
do Cosmos, a Divindade. O homem que s age extra sem o intro, perde o
contato com a Fonte, o Todo, e isto egocentrismo, pecado. Por outro lado, o
homem que s age intro, sem o extra, no age plenamente no Todo da Fonte,
embora mantenha com ela um contato interno, esttico, essencial; falta-lhe a
distribuio existencial, a ao dinmica ad-extra, porque o Todo intro-extra,
essncia-existncia, Ser-Agir, Universo. O homem csmico deve ser uno e
verso, unido ao centro causante, e vertido (verso, derramado) para as periferias
causadas, solitrio no Uno, e solidrio com os Diversos.
Zen
A alma do Zen (na China Wu-wei, no fazer) esta: No sou eu (ego) que
fao as obras, mas o Pai em mim (Eu) que as faz. Eu (ego) no sou Fonte,
mas sou canal daquilo que acontece atravs de mim. Atravs de mim
acontecem grandes coisas, se eu o permitir. Permitir quer dizer: 1) ligar o canal
Fonte (mstica), 2) manter o canal puro (tica). Todas as coisas podem ser
feitas atravs de mim, mas eu mesmo no fao estas coisas. Eu, de mim
mesmo (de dentro de meu ego), nada posso fazer.
Religio csmica e psicoterapia
Gustav Schmaltz, no seu livro Oestliche Weisheit und Westliche
Psychotherapie, diz:
A religio corresponde a uma necessidade essencial do homem. Ela uma
funo da alma de profundidade, mesmo quando deixa de encontrar expresso
em forma de dogmas e credos. No existe nenhuma cultura genuna sem
religio. Sem a sua atuao nenhum homem possui plenitude e totalidade, nem
encontra paz. Quando falamos de totalizao ou autorrealizao do homem,
no nos referimos substituio de alguma religio individual por outra, mas
sim, da genuna religiosidade que, possivelmente, encerre o germe de formas
religiosas vrias, ainda oculto em escurido.
Aqui jaz, na verdade, uma tarefa para a psicoterapia do Ocidente.
Ser filsofo ser religioso
G. R. Heyer, em Wege und Wandlungen der Seelenkunde, escreve:
Hoje em dia, o homem religioso o filsofo (der Fragende). O nico caminho
para a divinizao acessvel ao homem a alma humana como autntica parte
integrante do prprio processo transcendente.
Carter numinoso
A genuna experincia do Eu tem sempre carter nitidamente numinoso,* isto
, radicado em uma ltima e absoluta Realidade, cujo odor e sabor farejado
pelo homem devidamente receptivo.
* A palavra latina nmen, donde se deriva numinoso, significa a Divindade Transcendente, que,
como tal, no objeto de conhecimento analtico mental, mas pode ser sentida ou farejada
por uma intuio espiritual.
Esse contato com o Absoluto gera no homem o senso de um dever
incondicional, que a percepo da integrao da parte num Todo, do
indivduo no Universal, da creatura no Creador.
Este senso mstico, da integrao da parte no Todo, gera, por espontneo
transbordamento, o senso tico entre as partes a fraternidade universal
produto da paternidade nica.
Onde no h experincia mstica no h vivncia tica solidamente
subestruturada porque agere sequitur esse, o agir (tico) segue ao ser
(mstico). A rvore boa (mstica) produz frutos bons (tica).
Quando o homem tenta criar em si um agir independente do ser, uma tica
sem mstica, resulta, cedo ou tarde, uma moralidade fraca e artificial, precria e
mercenria, que o mal de todas as teologias eclesisticas, que exigem de
seus adeptos um agir moral por causa de um prmio (cu) ou por medo de um
castigo (inferno). Probem o egosmo terrestre, como diz Bergson, mas
recomendam o egosmo celeste. Verdadeiramente religioso somente o
homem sem egosmo algum, que bom e pratica o bem sem segundas
intenes, sem visar recompensa nem recear castigo. Se o reino dos cus
est dentro do homem ento deve ele realizar plenamente esse seu cu interno
e no especular com algum cu externo, distante no futuro. O reino dos cus
aqui e agora mesmo, e sua manifestao depende do homem.
O Nada do Todo
Quando expira a derradeira vibrao do m final do sacro trigrama AUM, ento
entra o homem na conscincia Nada, palavra snscrita que quer dizer o
Silncio Total, o Infinito, sinnimo de Brahman. O Nada da existncia o
Todo da essncia; o fim da conscincia de nirvana. Eu e o Pai somos um.
Os portugueses, que com Vasco da Gama foram ao Oriente, trouxeram ao
Ocidente a palavra nada, como tambm, desmaiar (perder a noo de
maya, que a natureza visvel).
Passividade dinmica a quintessncia do
Evangelho, do Bhagavad Gita e do Tao Te
Ching
A humanidade possui trs livros, pequenos em volume, imensos em contedo,
em que est contida toda a sabedoria dos sculos e milnios: o Evangelho do
Cristo, a Bhagavad Gita de Krishna e o Tao, de Lao-Tse.
Mas nem os cristos do Ocidente nem os yoguis do Oriente compreenderam o
verdadeiro sentido dos seus livros sacros, e deram a essas Cartas-Magnas
interpretaes to imperfeitas como seus prprios intrpretes.
O ocidente cristo, via de regra, se esgota na esfalfante lufa-Iufa de realizaes
externas, mesmo no plano espiritual, e julga com isto o esprito do Evangelho,
quando na vida do prprio Cristo no h vestgio dessa afobao.
O oriental, por seu turno, convencido de que toda a atividade objetiva falaz e
egocontaminada, resolveu isolar-se em perptua passividade e identificar-se
com a verdade de Brahman, longe das miragens de Maya.
E assim temos a humanidade em duas metades justapostas, sem nenhum
Todo orgnico.
Nem o Ocidente nem o Oriente esto com a verdade integral, que no
atividade nem passividade, mas sim passividade dinmica ou atividade em
repouso.
Ultimamente, foi o Ocidente invadido por uma onda de orientalismo, de
yoguismo hindu, e muitos cristos, desiludidos de um cristianismo quase
bimilenar, julgam ter descoberto, finalmente, o elixir da verdade que suas
igrejas no lhes souberam dar.
Entretanto, tudo faz crer que no captaram o sentido real da Bhagavad Gita, e
do Tao, como no compreenderam o esprito csmico do Evangelho.
Contentam-se com certas prticas perifricas de yga, sem atingirem o gnio
interno da mesma.
O Evangelho no proclama a redeno do homem por determinadas atividades
externas e a Bhagavad Gita e o Tao no recomendam perfeio pela
inatividade. Todos afirmam algo incomparavelmente mais profundo e fecundo,
que s uns poucos, at agora, puderam compreender e viver. E, neste ponto,
so os livros sacros do Oriente mais explcitos do que os do Ocidente.
Vamos cristalizar em dois tpicos caractersticos essa verdade nica e central,
que forma a quintessncia tanto do Evangelho como da Bhagavad Gita e do
Tao.
Trabalha intensamente diz a Sublime Cano da ndia e renuncia a cada
momento aos frutos do teu trabalho. Lao-Tse no cessa de falar do agir pelo
no agir, da passividade dinmica.
E o Cristo recomenda a seus discpulos: Quando tiverdes feito tudo que
deveis fazer, dizei: Somos servos inteis; cumprimos a nossa obrigao;
nenhuma recompensa merecemos por isto.
Em sntese, ambos mandam trabalhar intensamente, realizar todas as obras do
plano objetivo que devem ser realizadas e ambos exigem que o homem no
trabalhe por causa de qualquer espcie de fruto, resultado ou prmio, alheia e
posterior ao trabalho mas por causa do prprio trabalho, considerado como
misso sagrada que lhe foi confiada aqui na Terra. Quem depende dos frutos
do seu trabalho depende de algo que no depende dele e isto horrvel
escravido. Via de regra, parte de favor ou desfavor das circunstncias
externas, da prosperidade ou adversidade da natureza, da bondade ou
maldade dos homens. O homem profano depende de sucesso ou insucesso,
de louvores ou vituprios, de vivas ou de vaias mas nada disto depende dele,
e sim de circunstncias externas, que jazem para alm do alcance da sua
vontade, independentes do seu querer ou no querer.
Ora, evidente que um homem que depende de algo que no depende dele
escravo e est sempre em vsperas de infelicidade, embora essa infelicidade
se ache ainda em estado de incubao; a qualquer momento pode vir a
ecloso, uma vez que ningum senhor das adversidades da natureza ou da
perversidade dos homens.
Logo, felicidade que dependa de algo que no dependa de mim infelicidade,
quer latente, quer manifesta.
Ora, os livros sacros da humanidade, que visam verdadeira e slida
felicidade do homem, exigem que o homem no trabalhe por causa de algo que
no est sob o seu controle, mas, sim, por causa daquilo cujo controle est
inteiramente em seu poder que o prprio trabalho, realizado com amor,
alegria e entusiasmo, quer venham, quer no venham frutos, em forma de
dinheiro, louvores, gratido, reconhecimento, admirao, sucessos de qualquer
espcie.
O nosso velho ego, visceralmente interesseiro e mercenrio, quer esses frutos
externos o nosso Eu divino, essencialmente desinteressado e livre, visa
somente ao prprio trabalho feito com pureza de inteno e amor, porque estas
disposies internas do prprio sujeito operante esto em poder dele e, quando
positivas, levam o homem ao seu progressivo aperfeioamento e definitiva
autorrealizao.
O ego mercenrio e lucifrico s conhece alorrealizaes o Eu livre e crstico
quer somente autorrealizao. Aquele cego para ser e vidente para o ter
este procura melhorar o seu ntimo ser, na certeza de que os externos teres
no lhe faltaro na medida necessria, pois compreendeu a filosofia csmica
das palavras do Mestre: Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua
justia (a perfeio do ser) e todas as outras coisas (os teres) vos sero
dadas de acrscimo. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro (as
quantidades externas) se sofrer prejuzo em sua prpria alma (a qualidade
interna)?
A nica coisa que compete ao homem fazer aqui na terra realizar-se a si
mesmo, sua qualidade espiritual e Deus se encarregar de realizar coisas
das quantidades materiais.
O que os livros sacros recomendam ou probem no nem atividade nem
passividade em si, mas absoluto desapego, renncia total e permanente, quer
na atividade, quer na passividade. E como, na vida presente, o homem deve
ser ativo para cumprir a sua misso terrestre de scio-creador do mundo e
scio-redentor da humanidade, s lhe compete ser ativo com desapego,
realizar qualquer trabalho honesto com 100% de perfeio, amor e entusiasmo.
Os livros sacros do Oriente falam muito em karma, que precisamente essa
substncia negativa oriunda do apego aos frutos do trabalho, esse veneno
resduo que o ego mercenrio deixa no fundo do homem por ele escravizado.
No a atividade em si que produz karma negativo, a falsa atitude com que a
atividade realizada. Essa atitude negativa que deve ser evitada, e no a
atividade em si. Quando tiverdes feito tudo que deveis fazer, trabalha
intensamente: estas recomendaes dos mestres espirituais da humanidade
mostram claramente que eles no convidam o homem inrcia e passividade
em si, como fatos externos e objetivos o que importa a atitude de liberdade
ou de escravido com que o homem ativo ou passivo e dever do homem
em evoluo terrestre ser intensamente ativo com plena liberdade, traar a
linha reta do seu nirvana de amor e pureza atravs de todos os ziguezagues
dos seus samsaras de atividade objetiva e profissional.
Ser escravizadamente ativo, como o profano, fcil.
Ser livremente passivo, como o mstico, no difcil.
Ser livremente ativo, como o homem csmico, isto glorioso.
Pois precisamente para esta atividade com liberdade que nos convidam, sem
cessar, os grandes livros da humanidade e os nossos verdadeiros mestres e
guias rumo ao Infinito.
Muitos msticos, ou pseudomsticos, para se preservarem da tara inerente a
todas as coisas que o ego produz, resolveram impor silncio e inrcia a esse
ego lucifrico porque no compreenderam que h uma redeno dessa tara,
desse pecado original do ego; e quem nos redime do pecado do ego
interesseiro precisamente o Eu divino e desinteressado, esse glorioso Eu
crstico no homem que no quer saber de prmio ou recompensa objetiva, seja
de que natureza for, mas rejubila-se com a grandiosa misso de melhorar o
mundo e a humanidade que lhe foi confiada aqui na terra; e isto suficiente
recompensa interna para renunciar a todas as pseudorrecompensas externas.
***
Mas precisamente aqui que o homem profano esbarra com o maior
impedimento, aparentemente invencvel. Por que trabalhar, pergunta ele, se
no por causa dos frutos ou resultados que de meu trabalho espero? Que
outro estmulo teria eu para realizar um trabalho difcil e prolongado, se no me
animasse, dia por dia, a cada momento, a fagueira perspectiva de um resultado
palpvel, mesmo longnquo? A presena ou aproximao desse resultado me
anima no meio da luta; a sua ausncia ou medo de frustrao acabaria, cedo
ou tarde, por me desanimar...
Com estas palavras prova o inexperiente a sua completa ignorncia sobre si
mesmo; identifica-se candidamente com o seu conhecido ego profano, e nada
sabe do seu desconhecido Eu sagrado; enxerga todas as suas periferias fsicomentais-emocionais, e nada percebe do seu centro espiritual-csmico.
Logo, a soluo do grande problema da vida consiste, essencial e unicamente,
no fator compreenso, ou seja autoconhecimento, como diziam os antigos
filsofos da Grcia: Homem, conhece-te a ti mesmo!
Mas o homem, at hoje, no se conhece a mesmo, o homem esse
desconhecido... Persiste na sua velha ignorncia de se identificar com as
periferias que ele tem, e de fechar os olhos para o centro que ele . Chega ao
cmulo do absurdo de escrever livros para decidir se ele tem uma alma
quando ele essa alma, esse Eu divino, a alma que tem um corpo, o Eu que
tem esse ego como seu instrumento.
O ego, diz a filosofia oriental, o pior inimigo do Eu; mas o Eu o melhor
amigo do ego.
O ego inimigo porque ignorante pois toda a inimizade vem da ignorncia.
O Eu amigo porque sbio amizade filha da sabedoria.
Enquanto o homem ignora a si mesmo no h soluo para o problema
fundamental do homem e da humanidade.
Mas como levar o homem da ignorncia para a sabedoria? Da incompreenso
para a compreenso?
Da inexperincia para a experincia de si mesmo?
Tratamos deste problema central em outra parte, atravs de vrios livros e em
muitas aulas de Filosofia Csmica. Aqui diremos apenas o seguinte:
Essa experincia de si mesmo no fruto de estudo de psicanlise, porque
esta no ultrapassa as fronteiras do ego. Algum fator ultraego necessrio
para que o homem cruze a misteriosa fronteira entre o que ele tem e o que ele
. O grande EU SOU no ego-manufaturado, no produto de anlises
intelectuais, no creado pelo consciente, porque o superconsciente no
homem e o menor no pode produzir o maior, o efeito no maior que sua
causa. Logo, matematicamente certo que o ego, com toda a sua agudeza e
argcia, no pode produzir a compreenso da verdade sobre a natureza do Eu.
Essa compreenso deve vir de uma fonte maior deve vir do prprio Infinito,
do Universo, do Todo, do grande Alm embora esse suposto Alm-de-fora
seja o grande Alm-de-dentro, to tremendamente de dentro que parece ser
infinitamente de fora; o seu alm-nismo aparentemente centrfugo o maior
aqum-nismo centrpeto... Mas, inicialmente, o homem experimenta essa
centralssima imanncia como a mais perifrica das transcendncias; algum
dia, o verdadeiro iniciado saber que o Infinito Csmico idntico ao EU SOU
humano eu e o Pai somos um...
Para que esta grande revelao acontea ao homem (pois deve acontecer-lhe!)
deve o homem crear um ambiente propcio ao redor e dentro de si mesmo;
pois, segundo as eternas leis do Universo, quando o discpulo est pronto o
Mestre aparece quando o homem-ego est pronto, o homem-eu se lhe
revela.
E isto autorrealizao.
Em linguagem teolgica se diz: Quando o homem tem f, Deus lhe d a
graa.
Prontido, f, no so causa do advento da verdade, da graa mas so
condio necessria e indispensvel para que a causa, o Infinito, possa agir
sobre o finito. Quem no abre uma janela no ter luz solar na sala; quem no
liga o seu canal com a fonte no ter gua mas isto no prova que janela
aberta ou canal ligado sejam causadores da luz ou da gua; prova apenas que
so veculos ou condies necessrias para que a causa (o sol, a fonte) possa
agir.
Esse ambiente propcio que o homem deve crear ao redor e dentro de si inclui
certos fatores conhecidos, como solido, silncio, introspeco, meditao,
egoevacuao e anseio de plenificao csmica; essa atitude propcia ao
autoconhecimento e autorrealizao algo como um silencioso clamor da
alma, uma dolorosa nostalgia do finito pelo Infinito, uma intensa auscultao do
viajor telrico para captar o esvado eco de uma Voz longnqua, mais
adivinhada que ouvida... Na sua vida tica e social deve o candidato
inspirao divina viver como se j fosse agraciado por essa revelao; pois, a
vivncia tica preludia a experincia mstica, e esta, uma vez realizada,
transforma totalmente a vivncia tica, fazendo compreender a verdade do
grande paradoxo: Meu jugo suave e meu peso leve...
Quando o homem, atravs do autoconhecimento e da autorrealizao, se
despoja totalmente do impuro desejo de gozar os frutos do seu trabalho;
quando no mau para no cair no inferno, nem bom entrar no cu; quando
ele compreende que embaixador de Deus e do Cristo para continuar a
creao do mundo e a redeno da humanidade no esprito desinteressado
dos seus divinos Mandantes ento, pela primeira vez, se sente ele
plenamente liberto de todas as inibies heternomas, e adquire perfeita
autonomia sobre a vida terrestre e seu destino eterno.
E ento que o homem comea a exercer uma atividade 100% dinmica e
benfica no seio do gnero humano.
esta a quintessncia dos livros sacros da humanidade.
Ego-fonte ou ego-canal?
O homem profano considera o seu ego como fonte donde deriva tudo quanto
ele faz, e isto pela razo bvia de ignorar totalmente a realidade do seu
verdadeiro Eu. Quando diz eu fao isto, eu fui ofendido, eu vou morrer,
entende pela palavra eu o seu ego personal fsico, mental, emocional e
nada sabe de um Eu maior, que se oculta por detrs dessa mscara-persona.
E, devido a esse seu senso de egoidade, no pode deixar de permear toda a
sua vida de egocentrismo e egolatria.
As palavras do Nazareno as obras que fao no sou eu que as fao, mas o
Pai em mim que as faz lhe so palavras enigmticas, sem sentido, porque
esse homem ignora que o Pai em mim o elemento divino, o Cristo, no Jesus
humano, ou, em nossa terminologia, o grande Eu no pequeno ego.
Quando, ento, o homem ultrapassa a barreira da sua ignorncia e entra na
zona da sapincia sobre si mesmo; quando descobre, para alm do seu ego
perifrico, o seu Eu central, fonte perene de guas vivas ento verifica que o
seu ego apenas um canal atravs do qual fluem as guas invisveis do seu
divino Eu. E descobre tambm que esse Eu fonte a prpria Realidade
Csmica, o Infinito, o grande Todo, Brahman, Deus, Fonte nica e Universal,
cujo esturio humano se chama Eu, ou alma. Descobre que o Eu Deus em
forma humana, o esprito de Deus que habita no homem.
A partir dessa data, est o homem em rbita, conhecendo e reconhecendo a
verdade sobre si mesmo, essa verdade que o liberta de todos os males.
Daqui por diante, age o homem como canal finito da Fonte Infinita, com a qual
tem de manter contato permanente, sob pena de esvaziar o seu canal-ego e
ficar sem as guas vivas que brotam da Fonte Infinita e jorram para a vida
eterna.
***
Quando o homem faz essa grande descoberta de no ser fonte mas apenas
canal pode acontecer o seguinte: que no queira nem sequer ser canal da
grande Fonte, com medo de recair no seu erro de se considerar fonte. E ento
se diz um verme, um nada, totalmente incapaz de tudo, etc.
De maneira que o homem profano deve libertar-se de dois erros escravizantes,
do erro primrio de se considerar fonte, e do erro secundrio de no querer
considerar-se canal do Infinito. Deus se serve de cada uma das suas creaturas
para canalizar algo da sua invisvel Essncia para os reinos visveis das suas
existncias. A Essncia divina se existencializa atravs de cada creatura; a
Fonte nica aquela, os canais mltiplos so estes. As creaturas infrahumanas so canais automticos, que funcionam inconscientemente, ao passo
que a creatura consciente livre e pode obstruir os seus canais pelo erro,
como tambm alarg-los pela verdade.
A grande libertao do homem consiste em que ele faa de si um canal
totalmente puro e largamente aberto para o fluxo das guas divinas; que seja
puro de corao, isto , isento de egosmo essa egolatria que faz considerar
o canal como fonte. Uma vez que o homem se conhea e reconhea como
canal da Fonte Infinita, entra sua vida numa nova fase, porque encontra
inefvel alegria e beatitude nessa sua misso de canal, de ministro
plenipotencirio do Universo aqui na terra, continuador da creao do mundo e
redentor dos homens.
Esse conhecimento inclui tambm a conscincia do no-merecimento, ou seja,
da absoluta gratuidade de tudo quanto recebe de Deus e d aos homens.
Compreende que nenhum finito pode merecer algo do Infinito, porque
merecer causar mas como poderia o finito causar o Infinito? Quem julga
poder merecer o cu com suas boas obras, obstrui os seus canais internos,
porque sacrifica a verdade pela inverdade; no puro de corao, e por isto
no pode ver a Deus. As palavras do Cristo quando tiverdes feito tudo o que
deveis fazer, dizei: somos servos inteis; cumprimos a nossa, obrigao
nenhuma recompensa merecemos por isto" resumem toda a verdade no
tocante relao do homem para com Deus. O ltimo passo no caminho da
grande libertao est no completo desapego de qualquer ideia de prmio ou
recompensa. As teologias ensinam a seus fiis o modo de escaparem ao
inferno e merecerem o cu mas a filosofia faz ver a seus discpulos que
devem renunciar tambm expectativa do cu como prmio objetivo pelo fato
de serem bons.
Totalmente livre somente aquele que se libertou do medo do inferno e da
esperana do cu, aquele que incondicionalmente bom, por amor Verdade.
Sat chit ananda
Uma vez plenamente liberto pela experincia mstica da suprema Realidade,
cultua o homem o Infinito em todos os Finitos, o Uno em todos os Diversos. O
Permanente e o Transitrio deixam de ser antagnicos para esse homem; so
aspectos complementares da Realidade Total do Universo, a Essncia em
todas as Existncias.
Quando o sat (ser) consciente no chit (saber), ento entra o homem no
ananda (gozo) universal, vendo e saboreando o contedo divino em todos os
contenedores mundanos.
Esse homem est em casa em qualquer parte Cosmos; tem lar e querncia em
todas as creaturas.
Do penltimo ao ltimo
No seu maravilhoso livro Der Yoga, mostra J. W. Hauer que C. G. Jung
para
nos penltimos, no ousando romper caminho para o ltimo. Parece que tem
medo de basear a autorrealizao do homem no Absoluto, no Transcendente,
no Numinoso, na Religio; no sai dos Relativos, que ele chama Urbilder
(arqutipos). No vai at onde a yga vai.
Na yga, e na verdadeira mstica, a experincia suprema da Realidade
despida de quaisquer imagens; um contato direto com a Realidade ltima e
suprema. Verdade que o Infinito vivido pelo Finito como Finito; mas, apesar
dessa finitude experiencial, o cognoscente finito fareja nitidamente que esse
Finito que ele experimenta um penltimo que aponta para um ltimo, para
uma total Alteridade, para uma longnqua Transcendncia, para a qual a
propnqua Imanncia do penltimo apenas como uma seta beira da
estrada, que aponta para alm de si mesma. O verdadeiro contedo, ou
sentido, da seta indicadora no ela mesma, mas algo alm dela.
O penltimo, o Relativo Imanente, que o homem csmico vive, tem para ele o
odor e sabor caractersticos de um ltimo, de um Absoluto Transcendente. O
homem existencial, quando no coibido em seu ntimo Ser, fareja e saboreia
nitidamente o ultraexistencial da sua verdadeira essncia, o Absoluto para alm
de todos os seus Relativos, o Transcendente para alm de todas as
Imanncias.
A psicoterapia ocidental no atingiu ainda a sua meta ltima; vive ainda
enredada num empirismo pseudocientfico, que tem um horror instintivo, quase
supersticioso, do Numinoso, do Divino, do Absoluto; estas coisas no parecem
ser cientficas aos nossos psiclogos, porque religio significa para ele
teologia e, como os telogos esto, muitas vezes, em conflito com a cincia, a
nossa psicoterapia evita ser religiosa, e por isto no avana at ltima
fronteira da Realidade, mantendo-se cautelosamente em smbolos penltimos.
No Oriente, Religio ou yga so sinnimos de Filosofia, experincia da
suprema e ltima Realidade do Universo, que religam, unem, o Finito ao
Infinito.
O faro csmico do homem liberto leva-o at ao ltimo farejado atravs dos
Penltimos.
Guru necessrio?
A clssica Yga-Sutra considera o guru como um mestre espiritual e guia
relativo e provisrio, supondo que esse mestre tenha alcanado alto grau de
autorrealizao, de maneira que possa atuar sobre seu chela (discpulo) com a
fora do seu ntimo ser, e no apenas com a luz do seu externo fazer ou dizer.
Ocorre entre mestre e discpulo uma espcie de osmose, cuja ao vai de um
elemento mais intenso para outro menos intenso, at que se d a devida
saturao a graa do mestre envolvendo e penetrando a alma do discpulo
receptivo. Quando o discpulo est pronto, o mestre aparece.
O fim do guru no levar de reboque o discpulo, mas, sim, o de dar-lhe plena
autonomia e autocracia, de maneira que, algum dia, o discpulo possa seguir o
seu caminho com perfeita clareza e absoluta luta segurana, sem o mestre. E
ento o mestre externo passou a ser um mestre interno. O maior triunfo de um
verdadeiro mestre consiste em tornar-se suprfluo; mestre que nunca se torna
suprfluo no cumpriu a sua misso.
Formas deturpadas de yga falam de bhakti que se deva prestar ao guru, como
a um deus. Onde impera o elemento emotivo, sucumbe a racionalidade. Mas a
verdadeira yga ou mstica suprema racionalidade.
O encontro do homem com o seu Eu central
O mundo do homem um grandioso cosmos, no qual o Eu central habita e
governa como soberana Essncia, a cujo servio devem estar todas as
Existncias, assim como os planetas giram em torno do sol.
Elevados so os sentidos; mais alta que os sentidos a inteligncia; acima da
inteligncia est a razo mas acima de todos est o Eu (purusha).
(Bhagavad Gita, III, 42 s.)
Se acordaste para o Eu central, e se integraste todos os teus egos perifricos
nessa centralidade divina ento poders viver no meio do mundo sem ser
derrotado, porque o teu mundo interno mais poderoso que todos os mundos
externos.
Esse Eu a silenciosa Fonte de luz e fora.
O homem que disciplinou o seu mundo interior e est consolidado no Eu,
totalmente livre do desejo de objetos desejveis esse um homem liberto.
Como uma chama colocada num lugar abrigado no bruxuleia, assim o yogui
que disciplinou o seu mundo interno e se firmou no Eu. (Bhagavad Gita, VI, 18
ss.)
Enquanto o homem no rompe caminho rumo ao seu Eu central, vive ele
perturbado e a sua fora dispersa. A irredeno do seu Ego se revela, em
sua vida externa, de modos vrios, como entraves, descontentamentos,
tristezas, irritao; porque o Eu hostil ao homem, enquanto o homem no o
reconhece e aceita como soberano da sua vida; mas o Eu fiel amigo aliado
do homem quando ele lhe permite que aja sobre ele com a sua inesgotvel
plenitude de luz e fora.
Entretanto, no h nenhum caminho que conduza ao Eu seno o prprio Eu
este o estranho paradoxo da vida. No nenhum objeto que, como de fora,
possa ser contemplado e invocado ele tem de evocar o seu prprio sujeito, o
seu verdadeiro EU SOU, a sua Onipotncia dormente. Quem quer contemplar
esse Ser deve s-lo. O homem que quer chegar ao seu Ser deve realizar em si
sua potencialidade central.
com o prprio Eu que se apreende o Eu. O Eu amigo do ego, mas o ego
inimigo do Eu. O homem que no descobre o Eu considera este Eu seu inimigo
e o hostiliza. (Bhagavad Gita, VI, 5 s.)
A amizade vem da sapincia, a inimizade vem da ignorncia. Enquanto a
ignorncia do ego continua a eclipsar a sapincia do Eu, nada est resolvido
quando a sapincia do Eu ilumina a ignorncia do Ego, tudo est resolvido, ou
em via de soluo. Somente a verdade total sobre o homem pode libert-lo de
todos os males de que o Ego a raiz. A experincia do Eu exerce sobre toda a
vida humana uma ao libertadora e beatfica. Quem no atinge o Eu na sua
profundeza csmica deixa-se iludir pelo carter mental ou emocional dos
pensamentos ou sentimentos, que partem do Ego e mantm o homem ligado
ao Ego ignorante e escravizante. Eu sou senhor de tudo que sei, mas eu sou
escravo de tudo que ignoro (Spinoza). Quem rompe caminho at a profundeza
csmica do Eu, do Esprito Universal no homem, at o mais profundo Ser
ultraemprico e ali descobre a Realidade, que ele mesmo em sua essncia
esse atrado para aquela luminosa e silenciosa comunidade da qual irradiam
tranquilidade e segurana, plena libertao da escravido das coisas
provisrias e imediatas.
E ento esse homem enxerga no s a si mesmo, mas o Todo, porque o seu
Ser humano radica nesse Todo, que a Realidade Csmica da Essncia e da
Existncia, do mundo Causante e do mundo Causado. E por isto ele
permeado por uma grande clareza e liberdade, que solve todos os complexos,
desperta as foras dormentes, dinamiza a coragem, purifica os desejos, amplia
o poder da vontade e d inefvel felicidade em todas as situaes da vida. A
viso do Eu estabelece contato de profundidade entre o homem e as potncias
creadoras do Universo, porquanto o Eu a presena dessa potncia eterna do
Cosmos Universal dentro do homem individual.
Assim que o Eu, uma vez descoberto e realizado, produz aquela ltima e
absoluta entrega do homem Vontade Universal; e, a partir da, a serenidade
da Divindade penetra e pervade toda a existncia e atividade do homem.
Onde esta experincia realizada em toda a sua profundeza e plenitude no
h mais desperdcio de foras, porque todas as foras esto a servio da Vida
Csmica.
O homem, assim nascido em Deus, sente despertar em si todas as foras para
agir no meio do mundo e da humanidade; liberto de todas as algemas do ego
humano, expande a onipotncia do Eu divino.
Para o homem que encontra a sua alegria no Eu, que repousa satisfeito no Eu
e nele encontra a sua suficincia, para esse no existe mais o dever que o
impelia a agir. No mais procura um para qu, nem no agir nem no desistir;
nenhuma creatura lhe serve de meio para atingir o seu fim. O homem que age
sem nenhum interesse atinge a meta e alcana o mais alto. (Bhagavad Gita,
III, 17 ss.)
Segundo a Bhagavad Gita, na realizao do Eu divino que o homem encontra
definitiva libertao da lei frrea da causalidade mecnica escravizante, porque
se coloca numa zona supracausal, onde cessa o alodeterminismo passivo e
impera, soberana, a autodeterminao ativa, que o livre-arbtrio do Eu.
Mas se o homem se desescravizou deste mundo de escravido causal, por que
continua a agir no meio desse ambiente de escravido universal? Aqui estamos
diante do maior enigma do livre-arbtrio que, em face da exultante liberdade
que goza plenamente, pode querer voltar externamente ao mundo dos
escravos, que ainda no conhecem essa liberdade.
O amor a mais alta racionalidade. (Albert Schweitzer)
E esta suprema racionalidade do amor pode cometer a mais estupenda
irracionalidade escravizando-se por amor...
este o mais profundo mistrio dos avatares e, sobretudo, do Cristo. Quem
quiser ser grande seja o servidor de todos.
Mergulhando na harmonia csmica
Poul Bjerre, psiquiatra sueco, escreve: Somente quando os nossos
pensamentos e sentimentos dirigidos Universalidade forem totalmente
permeados de amor, que conseguiremos libertar-nos da tirania dos instintos
escravizantes. esta a razo por que a ideia do sacrifcio forma o centro de
todas as religies. O corao se liberta de todas as inquietaes condicionadas
pela escravido dos instintos e das cobias somente quando conseguimos
ultrapassar o nosso ego, somente quando experimentamos a nossa comunho
com todos os seres vivos e com a prpria Vida, e quando esse senso de
totalidade penetrado por uma massa vital partes da espcie, da raa, da
humanidade, do Todo Csmico.
O homem que no est em luta consigo mesmo no entra em luta com o
mundo. As guerras mundiais so consequncias inevitveis do estado de
fermentao espiritual em que a Europa se encontra desde os tempos da
Renascena e da Reforma. Quando a vida humana se desenrola num cenrio
dominado pelos instintos e pela ambio do poder, o resultado guerra de
todos.
Mas como superar a decadncia interna e a mecanizao da alma?
Este problema no pode ser solucionado seno sobre uma base filosficoreligiosa. Todas as doutrinas sapienciais da humanidade visam, em ltima
anlise, vitria sobre a morte interna e realizao da harmonia da nossa
vida individual com a Vida Universal em sua totalidade. Trata-se de realizar em
ns a conscincia da nossa afinidade fundamental com todos os seres do
Universo.
Homem, se queres aprender a andar o caminho que leva redeno, aprende
a evitar o contato consciente com tudo que te impea nesse caminho e
mergulha na verdade da grande harmonia que existe para alm de todas as
coisas. Depois de praticares essa arte de mergulhar na harmonia csmica e de
permeares de silncio interior todo o teu ser ento poders passar pelo
mundo sem perigo de contaminao. No haver mais em ti, nas mais
profundas profundezas do teu ser, um nico ponto em que no encontres a
eternidade.
Poder creador do homem
plenamente liberto
Quando o homem consegue agir, consciente e intensamente, de dentro do seu
Ser central, seu verdadeiro Eu divino; quando todo o seu externo agir produto
genuno e integral do seu interno Ser; quando ele totalmente indiferente a
lucros e perdas, a louvores e vituprios, a sucessos e insucessos ento
adquire ele poder sobre as foras construtoras do Universo e da humanidade,
ento ele senhor e rbitro do seu destino, redentor de si mesmo e redentor
de seus semelhantes.
O caracterstico e decisivo desse seu agir no produzido por algum ato de
querer consciente do momento, mas resultado da profunda substncia do seu
autntico e permanente ser esse ser que transborda, espontnea e
irresistivelmente, num jubiloso querer e num poderoso agir.
O homem assim liberto propriamente no quer nem age ele simplesmente ,
ele to poderosamente que a veemente plenitude do seu autntico SER
transborda e irradia, de vez em quando, oportunamente, num vasto agir; mas
esse agir no age por causa do agir; antes lhe acontece, como que revelia,
porque no seno um aspecto parcial e transitrio do seu SER total e
permanente.
Esse homem fala com poder e autoridade, dizia o povo, quando o Cristo se
manifestava atravs da pessoa de Jesus. As palavras poder e autoridade
referem-se plenitude do SER do Cristo divino, esse mar imenso que lanava
umas gotas praia do veculo visvel do Nazareno. Por isto dizia ele As obras
que eu fao no sou eu que as fao, o Pai em mim que faz as obras... porque
eu e o Pai somos um.
O homem csmico, quando liberto pela conscincia da Verdade, deixa de ser
simples espectador esttico e passivo do drama do Universo e da humanidade,
e entra como ator dinmico e ativo nessa grande epopeia. Do alodeterminismo
mecnico do homem profano passou ele para a autodeterminao dinmica do
iniciado. Aps o ocaso do seu velho ego, despontou a alvorada do seu novo Eu
despojou-se do homem velho e revestiu-se do homem novo, da nova
creatura em Cristo, no dizer de Paulo de Tarso.
***
Toda a verdadeira yga, meditao, contemplao, ou que outro nome tenha,
visa essencialmente a isto: remover de dentro do homem todos os
impedimentos e entraves creados pelo seu ego e que lhe vedam realizar a
experincia do seu Eu central. O homem que no realiza essa experincia de
profundidade, mas se limita ao crculo vicioso das suas periferias, est
radicalmente desviado da sua rbita, do seu verdadeiro destino, entregue
tirania do mundo objetivo e s potncias do caos, por mais prspera que talvez
seja a sua vida terrestre. Abriu falncia no plano central da sua verdadeira
razo de ser. Vitorioso talvez nos secundrios, derrotado no primrio.
Somente pela experincia vital do seu centro entra o homem na sua rbita
csmica, que lhe garante harmonia existencial e imortalidade.
De dentro dessa experincia vital do seu Eu central pode o homem crear,
tambm aqui na terra e em todos os setores da vida, um destino feliz e
harmonioso; deixa de ser joguete da tirania da causalidade mecnica que rege
o mundo inferior, e torna-se autor e ator da causalidade dinmica, da
autodeterminao do seu livre-arbtrio; passa da velha escravido da
heteronomia para a nova liberdade da autonomia. Verifica que tudo possvel
quele que tem fides, fidelidade a seu verdadeiro Ser, e nada lhe impossvel.
Quem liga os seus canais com a Fonte da Onipotncia torna-se onipotente por
participao.
Nesta nova dimenso da sua vida, experimenta o homem, pela primeira vez, a
sua total alteridade em face de todas as coisas do mundo circunjacente;
verifica, talvez com jubilosa surpresa, que ele no uma pea na mquina do
mundo objetivo e impessoal que o rodeia; mas que, pelo poder do seu livrearbtrio, ele est desligado do automatismo escravizante dos objetos externos;
nasceu, finalmente, para a onipotncia do seu Eu central e morreu para todas
as impotncias ou semipotncias do seu ego perifrico. Verifica que essa
onipotncia estava sempre dentro dele, mas ele a ignorava uma onipotncia
ignorada funciona como impotncia. O que redime o homem de todas as suas
misrias tradicionais no o fato da sua onipotncia central, mas somente a
conscincia desse fato; no o fato dormente, mas o fato plenamente
acordado, que a conscincia do fato. A Verdade universal e onipotente
mas somente o conhecimento consciente da Verdade que liberta o homem
de todas as suas escravides.
E esse conhecimento consciente no apenas uma anlise mental, mas sim
uma realizao vital. necessrio que o Verbo mental se faa carne vital,
cheio de graa e de verdade.
O poder da Presena Invisvel
Todo homem, depois de atingir certa altura na senda da vida espiritual, sabe e
sente que h, em torno e dentro dele, um misterioso ALGO, uma Fora que lhe
d segurana, serenidade, alegria, felicidade.
uma Invisvel Presena, qual os homens do muitos nomes Cristo, Buda,
Tao, Brahman, ou outro nome simblico, mas que continua inominvel.
E que outra coisa seria esse misterioso ALGO seno a prpria VIDA universal
enquanto sentida pelo homem individual?...
Esse ALGO no produzido, causado, merecido pelo homem gratuito mas
no lhe dado arbitrariamente; para que esse ALGO gratuito aparea, deve o
homem crear um ambiente propcio, condies favorveis para que essa
poderosa Presena Invisvel se torne sensvel.
A Presena mstica mas a experincia da sua presena depende da tica.
Quando o homem se afasta dos caminhos da Verdade, da Justia, do Amor, da
Honestidade, da Benevolncia, da Solidariedade, ento essa deliciosa
Presena empalidece e acaba por se eclipsar de todo at que o homem volte
ao caminho reto.
A Graa de Deus dizem os telogos depende da F do homem.
Graa Fora e Luz F canal e veculo para elas.
Envolto e permeado por essa Invisvel Presena, sente-se o homem seguro e
invulnervel, como que no meio de rijo baluarte, cuja porta s abre pelo lado de
dentro; ningum a pode abrir seno ele; por falta de tica ele abre essa porta
e, neste caso, os seus inimigos penetram no baluarte e l se vai a segurana
e a paz da alma!...
Quando o homem descobre esse tesouro oculto, vai, cheio de alegria, vende
tudo que tem, d-o aos pobres, porque ele rico e procura adquirir esse
tesouro nos cus.
E o incio de uma vida nova...
No um remendo novo em roupa velha uma tnica nupcial toda nova e
inteiria, de alto a baixo.
O homem profano vive s para si e seu pequeno ego. Alguns vivem para o
alargamento desse ego, que a famlia e parentela; outros, mais avanados,
incluem no seu interesse o seu grupo social ou religioso, o partido, a igreja, o
povo, a nao; os mais avanados chegam ao ponto de incluir a humanidade
toda no seu interesse esses so ento os grandes altrustas, os homens
humanitrios, filantrpicos, caritativos, os benfeitores da humanidade, como diz
a publicidade.
O Homem Csmico vai alm dessa fronteira da tica humanitria que, no
melhor dos casos, lhe serve de preliminar para a sua ltima aventura mstica, o
encontro com o Infinito, o Absoluto.
O homem que, em verdade, possa dizer j no vivo eu, o Cristo que vive em
mim, eu e o Pai somos um esse ultrapassou as fronteiras deste mundo, e o
seu reino j no mais deste mundo, embora ainda esteja no mundo. E como
esse homem nada mais espera do mundo, pode o mundo esperar tudo desse
homem. Enquanto o homem necessita do mundo e da sociedade, ele um
necessitado, um pobre mendigo e que poderia um indigente dar a seus
semelhantes? O mundo s necessita de um homem que j no necessita do
mundo, mas encontrou plena suficincia em Deus.
Esse homem no necessita de dinheiro, nem de poltica nem de prestgio social
basta que se deixe guiar pela Invisvel Presena, que como que uma linha
reta atravs de todos os ziguezagues da vida.
A serpente mental s se move em serpentinas ou ziguezagues; s conhece
meios violentos e astcias armas, mentiras, poltica, diplomacia, camuflagens
de toda a espcie; nenhuma serpente se pode mover em linha reta, num
terreno limpo, porque necessita dos objetos vizinhos que lhe deem resistncia
para se mover.
A pomba espiritual voa em linha reta, no necessita da terra para se mover,
basta-lhe o ar invisvel; a sua vida toda retilnea, simples, envolta na pureza e
desnudez da Verdade e Sinceridade.
Aquele que est em mim disse o Mestre maior do que aquele que est
no mundo... Eu venci o mundo...
Essa Presena Invisvel como a alma, que permeia e vitaliza o corpo todo,
mas no percebida em parte alguma. como o grande Inconsciente Csmico
que acompanha todos os Conscientes humanos. E o homem s realmente
feliz quando mantm o contato com essa Fora Annima que est para alm e
dentro de todas as foras nominadas...
Todos os ponderveis s tm valor por causa desse Impondervel...
Despertar e reforar esse poderoso Impondervel sabedoria, santidade e
sanidade...
Liberdade, paz e alegria
O caminho nico da redeno do homem est na definitiva libertao de todas
as escravizaes do ego humano.
Essa libertao se revela como segurana, paz, alegria e profunda felicidade.
Toda a nossa infelicidade vem, em ltima anlise, de uma iluso escravizante:
Algum me fez mal... Algum cometeu uma injustia contra mim... Algum me
tratou com ingratido...
Por vezes, esse algum um algo impessoal; a nossa infelicidade no teve
origem numa consciente perversidade humana, mas numa inconsciente
adversidade da natureza circunjacente. Algo de desagradvel me aconteceu
e por isto sou infeliz...
Enquanto eu continuar a viver nesta iluso no estou remido das minhas
misrias, no sou feliz.
Somente a verdade me pode libertar. Toda e qualquer iluso me escraviza.
A grande iluso est na tradicional identificao dos meus egos perifricos com
meu Eu central, na funesta confuso daquilo que tenho com aquilo que sou;
confundo os teres do meu ego com o ser do meu Eu. O meu ego e seus
derivados so terrvel alrgicos ao impacto das circunstncias externas, s
perversidades dos homens e s adversidades da natureza mas o meu Eu
absolutamente imune e invulnervel. Posso sofrer todas as adversidades e
perversidades e, no entanto, ser profundamente feliz. Por outro lado, posso
tambm gozar de todas as prosperidades externas e ser internamente infeliz.
Ningum, exceto eu mesmo, pode fazer mal ao meu ntimo ser, que o meu
Eu eterno, individualizao do Infinito todos podem fazer mal ao meu externo
ego, que apenas um ter. Meu Eu completamente invulnervel de fora,
embora vulnervel de dentro.
O que de fora entra no homem no torna o homem impuro, mas, sim, o que de
dentro sai do homem...
O meu externo agir terrivelmente alrgico.
O meu interno ser gloriosamente imune.
Uma vez adquirida essa definitiva certeza, entra o homem numa zona de
indizvel tranquilidade e beatitude.
Nada e ningum mais o torna infeliz, embora tudo e todos o possam fazer
sofrer.
Nada e ningum o torna feliz, ainda que tudo e todos lhe possam dar gozo.
Basta que o homem entre em rbita e ser feliz; que transforme o seu
egocentrismo em Eu-centrismo, teocentrismo, cosmocentrismo e est
resolvido o problema fundamental da sua vida. E a soluo desse problema
fundamental torna possvel a soluo de todos os outros problemas ou
pseudoproblemas da sua existncia.
A egoconscincia a nossa infelicidade.
A cosmoconscincia a nossa felicidade.
Desegofica-te, homem! Cosmifica-te e sers feliz!
A primeira etapa para essa cosmificao a tica do segundo mandamento:
ama teu semelhante como a ti mesmo; o ltimo a mstica do primeiro
mandamento: ama a Deus de todo o teu corao...
***
O egocentrismo uma herana da nossa animalidade infra-humana,
intensificado pelo advento da inteligncia. Todo ser vivo necessariamente
egocntrico, embora o seu ego no lhe seja mentalmente consciente; todo ser
vivo possui egocentrismo vital, que a lei da conservao do indivduo.
O egocentrismo animal no perigoso, porque est circunscrito pelo crculo
frreo do instinto automtico, do qual no pode exorbitar. Perigoso somente o
egocentrismo consciente do homem, que pode exorbitar de todos os limites e
arrasar tudo, enquanto no for controlado por uma fora superior, pelo
universalismo da razo espiritual. Somente quando o homem ingressa na zona
superconsciente ou pleniconsciente da racionalidade do seu Eu universal que
ele contrabalana os excessos devastadores do seu ego personal, e
estabelece o grande equilbrio da harmonia universal.
E ento a sua vida inundada por uma paz dinmica que nenhum egosta
profano capaz de saborear...
Sabedoria dos outros
D-me, Senhor, a coragem de pr em dvida as minhas concepes pessoais
e d-me a humildade de aprender da experincia dos outros!
A felicidade no me acontece
Tudo me pode acontecer, menos a felicidade e a infelicidade. A felicidade e seu
contrrio no so produtos de circunstncias externas, mas, sim, creao do
meu ser interno; nascem das profundezas do meu centro csmico divino,
eterno. Queixar-se de injustias alheias pura cegueira e ignorncia;
porquanto ningum me pode fazer mal a no ser eu mesmo, pelo abuso do
meu livre-arbtrio. O meu livre-arbtrio a chave para o cu e para o inferno,
para o ser-feliz e para o ser-infeliz a onipotncia divina em mim.
Eu habito num castelo inexpugnvel.
As portas do meu castelo encantado no abrem pelo lado de fora s abrem
pelo lado de dentro.
Se eu abrir as portas do meu baluarte e for invadido pelo inimigo de quem a
culpa?
I am the captain of my soul...
Circunstncias externas podem, sem dvida, facilitar ou dificultar o exerccio do
meu livre-arbtrio mas nunca o podem forar nem impedir; em ltima anlise,
eu sou o autor da minha vitria ou da minha derrota. O meu livre-arbtrio a
onipotncia de Deus em mim. Na zona do meu livre-arbtrio cessa a lei frrea
da causalidade automtica; a impera a causalidade espontnea da gloriosa
liberdade dos filhos de Deus. No plano da causalidade, como bem diz a
cincia, nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma apenas; mas nas
alturas da liberdade algo se crea e algo se aniquila; a o homem realmente
autor de algo antes inexistente, ou destruidor de algo existente.
Fumaa e fogo
Quando a fumaa se torna muito intensa e quente, passa de preta ou cinzenta
a ser branca, de branca se torna radiante, depois vtrea, gnea e, por fim,
rompe em chama de fogo.
Assim, por vezes, os meus pensamentos humano-conscientes se tornam to
intensos que deixam de ser meus e passam a ser uma vibrao do Infinito,
radiao csmica, inspirao divina. E ento me sinto simples canal passivo, e
no mais fonte ativa do meu pensamento, que deixou de ser meu, do meu ego
consciente.
De ego pensante me torno cosmopensado.
Vida, pensamento, intuio estas coisas no so produzidas pelo homem,
mas so substncias do Infinito, radiao csmica que o homem capta e
canaliza, assim como a antena de um receptor capta as ondas de uma estao
emissora, tornando-as audveis ou visveis atravs do receptor.
Todo pecado consiste no fato de o homem se considerar fonte em vez de
simples canal. S Deus Fonte Ele, o Uno, o nico, o Todo.
O Universo uma gigantesca estao emissora de Vida, Pensamento,
Intuio. Basta que haja um Finito para captar algo da irradiao do Infinito e
aparecem as maravilhas da Vida, do Pensamento, da Inspirao.
Os pais no causam o filho.
O pensador no causa o pensamento. O mstico no causa a inspirao.
Todos recebem do Infinito, na medida da sua receptividade, e canalizam essa
parcela do Todo de acordo com a sua idoneidade.
Quem considera fonte quando apenas canal ignora a sua funo. Na
natureza infra-humana nenhuma creatura se considera fonte, todas funcionam
instintivamente como canais do Infinito e, por isto, na natureza tudo harmonia
e beleza. Com o homem comea a possibilidade do grande erro, de considerar
o seu canal como fonte e isto o pecado do ego, a grande hybris.
A redeno est em ultrapassar esse erro e entrar na zona da verdade,
fazendo conscientemente o que a natureza faz inconscientemente: As minhas
obras no so minhas, mas so do Pai que em mim est... Eu de mim mesmo
(do meu ego) nada posso fazer.
De, em, para
Tudo vem do Infinito.
Tudo est no Infinito.
Tudo volta para o Infinito.
Mas o modo de voltar varia. Os seres infra-humanos voltam para o Infinito,
donde vieram, dissolvendo-se nele e deixando de existir como indivduos
finitos; continuam a ser como Realidade Universal, mas deixam de existir como
Indivduos Realizados. O Real do seu ser coincide com o Irreal do seu existir.
Somente o homem, dentre as creaturas da terra, pode perpetuar a sua
existncia individual, o seu Eu existencial, quando regressa ao grande Todo
Universal, donde veio e no qual est. O homem, graas sua experincia
espiritual, pode integrar-se no Infinito, em vez de dissolver o seu Finito no
Infinito e deixar de existir como homem.
Tudo, quando morre, deixa de existir e continua a ser somente o homem,
quando morre, pode continuar a existir individualmente; no necessita de se
diluir no oceano do Nirvana Universal.
De que depende essa perpetuao da existncia individual?
Depende da experincia vital Eu e o Pai somos um. Eu, o Finito, sou uma
forma existencial da Essncia Universal.
O que essa experincia vital imortalizante, ningum o sabe a no ser que a
tenha vivido em toda a sua veemncia e plenitude.
Saber Ser. Quem no aquilo que quer saber no o sabe.
S sei realmente aquilo que sou.
Quando meu saber coincide com o meu ser, ento eu sei realmente, e ento o
meu saber uma fora creadora irresistvel.
Esse dinmico ser-saber um carisma, que no pode ser manufaturado pelo
ego consciente, mas recebido do Infinito pelo Eu cosmosciente, supondo que
o Eu seja idneo para conceber essa prole divina. Em face do Infinito, a alma
humana essencialmente feminina, que no pode dar antes de receber, ou
conceber o germe da Vida Divina, se permitir ao Pai Eterno que a fecunde com
o poder da sua graa: Eis aqui a serva do Senhor faa-se em mim segundo
o teu Verbo somente esta atitude de humilde receptividade que torna a
alma idnea para conceber o Verbo e ento o Verbo se faz carne e habita a
alma, cheio de graa e de verdade.
Filosofia csmica do Evangelho
O captulo 14 do Evangelho de Joo , todo ele, uma proclamao de Filosofia
Csmica, ou seja, de puro Monismo Universal. Se eu e o Pai somos um; se o
Pai est em mim, e eu estou no Pai; se o Pai est em todos os homens; se as
obras que fazemos no so nossas (dos nossos egos), mas do Pai; se nada
podemos fazer por ns mesmos (pela fora do ego), mas se o Pai em ns faz
tudo que fazemos que isto seno proclamar a imanncia de Deus em todos
os homens? Declarar que existe uma Fonte nica cujas guas derivam atravs
de canais mltiplos?...
Em face disto, deveras estranho que as teologias ocidentais, que se dizem
crists, tenham construdo sistemas dualistas, quando evidente o grandioso
monismo professado pelo Cristo. As nossas teologias herdaram o dualismo da
sinagoga judaica e no aceitam o monismo do Evangelho do Cristo. estranho
que a ideologia do judasmo tenha contaminado as grandes religies e
filosofias do mundo ocidental, o Isl (com cerca de 250 milhes de adeptos) e o
Cristianismo eclesistico (com mais de 800 milhes). At o fim do terceiro
sculo da era crist predominava no seio do Cristianismo a filosofia monista
dos neoplatnicos, com sede em Alexandria; a partir do quarto sculo
prevaleceu o dualismo aristotlico, mais tarde codificado em teologia
escolstica por Toms de Aquino e, finalmente, oficializado pelo Conclio de
Trento, no sculo XVI. O que presidiu a essa grande mudana no foi a causa
da verdade do Evangelho do Cristo e sim, a preocupao da unidade da igreja,
que parecia impossvel sem uma poderosa hierarquia eclesistica. O conceito
de hierarquia (autoridade ditatorial de cima e obedincia incondicional de baixo)
incompatvel com a filosofia monista; se Deus est imanente no homem,
ento a autoridade externa perde o melhor da sua autoridade. A hierarquia
triunfante exigia, pois, a doutrina dualista de um Deus transcendente, ausente
do homem e do mundo, para que a autoridade pudesse exercer o seu decisivo
impacto sobre a massa ignara dos obedientes incondicionais.
Sucumbiu a causa da Verdade poltica do Poder.
A verdade libertadora do Eu divino o Poder escravizante do ego humano.
As nossas teologias dualistas, interessadas no Poder e no na Verdade, so
feitas, sob medida, para jardins de infncia e escolas primrias de evoluo
espiritual ao passo que o monismo universal do Evangelho um ingresso na
Universidade do Esprito do Cristo.
esta a razo por que as religies profundamente monistas da sia, sobretudo
da ndia, no aceitaram, nem jamais aceitaro em maior escala, o nosso
cristianismo, ou pseudocristianismo. Tambm, por que tornar a soletrar o -bc da escola elementar quando se est no curso universitrio?
O escol do Cristianismo genuno est em vsperas de reatar o fio do monismo
universal dos primeiros sculos, e assim abrir caminho para a reconciliao do
Ocidente com o Oriente, atravs da harmonia espiritual do Evangelho do Cristo
com a Bhagavad Gita de Krishna.
Universo e nada mais
A nica filosofia digna deste nome deve navegar sob o signo do UNIVERSO
um em diversos, unidade com pluralidade, uma s causa revelada em muitos
efeitos.
E isto vale tanto do macrocosmo sideral como do microcosmo humano.
No h um nico crculo monocntrico no Universo s h elipses bicntricas.
A palavra UNIVERSO elptica, gravita em torno de dois polos, o uno e o
(di)verso, a causa una com efeitos mltiplos.
Plato, Aristteles, Descartes, Kant, Spinoza, Hegel, Bergson, Hermes, Buda, o
Kybalion, os Vedas, a Bhagavad Gita; as escolas emprica, metafsica,
racionalista, idealista, existencialista tudo isto pode ser aceito como outros
tantos afluentes do Amazonas da Filosofia Univrsica, mas no pode servir
como seu fundamento. Para ns, da Filosofia Csmica ou Univrsica, s existe
uma bandeira e um paradigma orientador: UNIVERSO.
esta, sem dvida, a mais bela palavra que existe em lngua latina. S um
gnio podia crear palavra to genial. Os prprios helenos, com o vocbulo
kosmos, no atingiram a genialidade da palavra Universo.
A Unidade sem diversidade monotonia.
Diversidade sem unidade caos.
Unidade com diversidade harmonia.
O universo, seja o de fora, no mundo sideral, seja o de dentro, no mundo
humano, simboliza harmonia.
Fora da harmonia no h filosofia.
A harmonia equidistante da monotonia e do caos.
Dentro do homem, essa harmonia se chama autorrealizao, cuja
manifestao o Homem Csmico, que uma vez apareceu na face da terra
como o Cristo.
O Homem Csmico gravita invariavelmente em torno de dois centros: a mstica
do primeiro mandamento revelada na tica do segundo mandamento. A raiz
divina do autoconhecimento produzindo o fruto humano da autorrealizao.
O Homem Csmico essencialmente bipolar, elptico, como todo o cosmos de
fora. Fosse o homem apenas mstica vertical, ou apenas tica horizontal,
acabaria ou em silenciosa monotonia, ou em ruidoso caos. Mas o Homem
Csmico vertical-horizontal, interno-externo, mstico-tico, solitrio com Deus
do mundo e solidrio com o mundo de Deus; e por isto ele suprema
harmonia, cheio de graa e de verdade, duro como diamante e delicado como
flor de pessegueiro.
A Filosofia Univrsica como a luz integral, incolor em sua causa una, e
multicolor em seus efeitos vrios.
Assim, deve o Eu invisvel e incolor desentranhar-se nos egos visveis e
muIticolores.
Tanto o Evangelho como a Bhagavad Gita frisam esse carter passivo-ativo do
homem, a fora interna que se revela em atividade externa.
Na razo direta que o homem percebe a sua unidade interna, mais se sente ele
impelido s pluralidades externas, na certeza de que estas no destroem, mas
intensificam aquela.
Esse crescente poder de unidade interna o liberta cada vez mais das suas
limitaes externas.
A tragicidade do existir e do agir, engendrada pelo ego separatista e
neutralizada pelo prprio existir e agir do Eu unista, o indivduo indiviso redime
homem da sua persona divisa; o Eu religa o que o ego desligou e isto
religio, yga, redeno.
Trgico no o existir e o agir trgico somente o existir e agir egosta,
interesseiro, visando a objetos, frutos e resultados externos. A tragicidade
existencial do ego abolida pela jubilosa atividade do Eu, que trabalha
intensamente, mas renuncia a cada passo aos frutos do seu trabalho. Quem
trabalha por amor a objetos, peca, crea karma, dbito, tragicidade mas quem
trabalha por amor ao sujeito, pelo aperfeioamento do Eu divino, da alma
humana, esse se redime do dbito krmico atravs da prpria atividade. O
Lcifer do ego remido pelo Cristo do Eu.
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro (objetos) se sofrer prejuzos
em sua prpria alma (sujeito)?
Carbono, oxignio, fsforo, luz
A fim de compreender a Constituio do Universo deve o homem basear-se
nos fatos seguintes:
1 Os seres vegetais tm por base o carbono. As plantas, durante o dia,
inalam carbono e exalam oxignio; de noite exalam carbono, razo por que no
convm ao homem dormir, de noite, no meio de plantas, sobretudo em recinto
fechado, porque o homem necessita inalar oxignio e exalar carbono. Com o
auxlio da clorofila, as plantas realizam a fotossntese, transformando em
substncias orgnicas os elementos inorgnicos, os sais da terra diludos na
gua; e assim preparam os nossos alimentos.
2 Os animais tm por base o oxignio, tanto assim que nenhum animal pode
viver, nem por cinco minutos, sem inalar oxignio.
3 Os seres intelectuais, aqui na terra, so capazes de pensar devido
presena de fsforo (fosfato e seus derivados), substncia predominante nos
nervos e no crebro. A palavra grega fsforo composta de fs, que quer dizer
luz, e foro, que significa trazer, portar. As palavras correspondentes em latim
so lux (lucis) e fero, que quer dizer trazer, portar. A palavra latina para fsforo
lcifer; ambas significam porta-luz. Trata-se de luz intelectual, do despertar
da conscincia. O fsforo, ou lcifer, a base do despertamento da
conscincia intelectual, assim como o oxignio a base da vida animal, e o
carbono a base da vida vegetal.
4 A base da vida racional (espiritual) a luz csmica vs sois a luz do
mundo.
Sendo que, segundo a cincia atmica, como afirma o livro sobre o Campos
Unidos, de Einstein, a luz csmica a base de todos os elementos do
Universo, um ser que adquira corpo-luz constri o seu corpo indissolvel, base
da imortalidade individual.
***
As entidades elementais, os tais demnios (no o diabo!) povoam a zona
intermediria entre os animais e os intelectuais. Possuem fsforo insuficiente
que no lhes permite pensar humanamente; e so vidos por se apoderarem
de fosfato mais denso e abundante e, por isto, tm a tendncia de sugar o
fosfato humano, agarrando-se como vampiros (ou encostos) ao crebro e aos
nervos do corpo humano, onde encontram fsforo mais condensado. O
resultado desse vampirismo fosforossuga o debilitamento da substncia
fosfrica no homem, e a subsequente decadncia vitalidade mental.
Alguns desses elementais se acham em processo de involuo e sabem que a
diminuio gradual do seu fsforo os levar, paulatinamente, ao abismo da
inconscincia, ao marco zero da inteligncia. Por isto se agarram
freneticamente a fontes de fsforo, que encontram em elevado grau no
organismo humano.
Os elementais de que falam os Evangelhos, os tais demnios ou espritos
impuros, quando se encontram com Jesus, o Cristo, pressentem o perigo e
gritam de longe: Por que vens atormentar-nos antes do tempo?... Se nos
mandares sair daqui, no nos manda para o abismo d licena que entremos
nos porcos.
E aqueles dois mil porcos foram invadidos pela legio de elementais que saiu
do possesso de Grasa; e foi tamanho o impacto deles sobre esses animais,
que possuem pouqussimo fsforo, que os sunos pereceram todos no lago,
depois de explorados.
Afirmam os entendidos que os arredores de matadouros so povoados de
entidades elementais, que sugam o fsforo do sangue fresco dos animais
recm-assassinados pelo homem.
O fosfato existente na carne e no sangue de animais, sobretudo mamferos,
inferior ao do corpo humano; mas, devido a sua afinidade prxima com este,
contamina e degrada facilmente o fosfato humano, podendo ser transformado
por ele. O fosfato dos peixes e das aves possui apenas afinidade remota com o
fosfato do corpo humano, podendo ser transformado por ele, razo por que no
h grande perigo de contaminar o do corpo humano. Moiss proibiu os
israelitas de comerem carne de porco e carne de animal estrangulado e ele
sabia por que...
Quando um mdium cai em transe, estado subconsciente, liberta boa
quantidade do seu fsforo, o qual pode ento ser utilizado pelos elementais.
Plasma e ectoplasma so substncias fosfricas. Nas experincias cientficas
que, na Europa, fiz com diversos mdiuns, sobretudo com Maria Silbert, na
cidade de Graz (ustria), como referi no meu livro autobiogrfico Por Um Ideal,
fotografamos o ectoplasma fosforescente do clebre Apolo que se formava ao
lado da mdium.
perigoso irradiar plasma fosfrico, porque nem todo ele volta ao corpo; a
reabsoro no se d totalmente, perdendo-se uma parte dessa preciosa
substncia indispensvel ao funcionamento normal da inteligncia. Da o perigo
de involuo mental.
Sobre este fato se baseia, certamente, a proibio de Moiss, no livro
Deuteronmio, de invocar os mortos; afirmando que tais coisas abomina o
Senhor e por tais maldades exterminar ele esses povos. natural que
povos mentalmente decadentes pela perda de fosfato acabem por sucumbir a
outros povos de superioridade mental.
***
Os veculos da vida carbono, oxignio, fsforo, luz podem ser
indefinidamente melhorados pelo homem dotado de livre-arbtrio, que a
essncia da racionalidade espiritual do homem, a ponto de lhe garantir a
imortalidade individual; porquanto, vs sois a luz do mundo (em grego: fs tou
cosmou, a luz csmica).
Pelo renascimento espiritual o homem lucifica to intensamente a luz do seu
corpo que ela se identifica com a luz csmica do Universo.
Dimensional indimensional
Os nossos sentidos percebem unicamente objetos dimensionais.
O nosso intelecto concebe realidades indimensionais, como relaes, verdade,
causalidade, qualidade, que no tm peso, nem medida, nem forma, nem cor,
sendo, portanto, purssimos nadas para os sentidos; para o intelecto, porm,
so solidamente reais, tanto assim que toda a nossa civilizao e cultura esto
baseadas nestas realidades indimensionais.
Entretanto, essa indimensionalidade relativa, porque nada est no intelecto
que no tenha estado nos sentidos. No podemos conceber essas qualidades
abstratas a no ser como inerentes em alguma quantidade concreta. A
indimensionalidade concebida pelo intelecto sofre da tara da dimensionalidade
percebida pelos sentidos e deste pecado original consegue o homem fsicomental libertar-se totalmente, enquanto permanecer nesse plano horizontal.
A nossa razo, porm, intui realidades absolutamente indimensionais, porque
no provenientes de objetos dimensionais, mas totalmente independentes de
qualquer causalidade mecnica; intui qualidade pura, que pode revelar-se em
quantidades, mas no depende delas.
A razo age num plano incausal, livre de qualquer causalidade mecnica.
Quando o grande Demcrito de Abdera, alguns sculos antes da era crist,
elaborou a sua Teoria Atmica, de que Einstein fala com reverncia, teve ele
uma viso da verdade suprema, de que o divisvel derivado do indivisivel (em
grego: tomo), que a quantidade vem da qualidade, que o impuro Existir
manifestao parcial do puro Ser. Esta viso essencialmente racional, lgica
(segundo o lagos, a razo), e no pode ser derivada do intelectual nem do
sensorial.
A mais pura lgica e a mais inexorvel matemtica nos obrigam a confessar
que todo mundo dimensional derivado da Realidade indimensional. Se a
transio do Infinito para o Finito creao, ento o conceito da creao uma
verdade rigorosamente cientfica e matemtica.
Na creao o efeito nasce do Nada da existncia que ao mesmo tempo o
Todo da essncia. A creatura vem do Nada existencial que o Todo
essencial.
Todos os dimensionais do mundo finito vm do indimensional do mundo
infinito.
Redeno pela cultura?
O homem que passou pelos horrores de duas guerras mundiais no pode mais
crer na fora redentora da nossa cultura e civilizao, como pretendiam certos
otimistas do sculo passado. Cincia e tcnica, cultura e civilizao no
redimem o homem.
Abrir uma escola fechar uma cadeia nenhum homem pensante pode
continuar a endossar semelhante ingenuidade. Os grandes malfeitores da
humanidade no foram os analfabetos nem os idiotas, mas homens de notvel
inteligncia e, no raro, de grande erudio porm sem experincia espiritual.
A redeno do homem no est no prolongamento do Lcifer mental mas,
sim, no descobrimento do Cristo espiritual. Nenhuma religio promete o cu
aos inteligentes, mas, sim, aos bons, diz Einstein.
Tanto o Lcifer como o Cristo residem no homem, no seu ego e no seu Eu;
mas, enquanto o Lcifer mental j est em plena adultez, o Cristo espiritual se
encontra ainda na primeira infncia, ou ainda em mera gestao...
Invocar e evocar das profundezas da natureza humana esse Cristo infante ou
nascituro este todo o problema do homem em evoluo.
Infelizmente, os nossos telogos, recaindo ao velho dualismo da sinagoga
judaica, fazem crer humanidade que Lcifer e Logos, Sat e Cristo, so
entidades alheias ao homem e fora dele; que aquele nos fez pecadores e este
nos far justos.
A Filosofia Csmica, porm, sabe que o homem tanto Sat como Cristo; se
nele prevalece o ego, fala Sat; se nele triunfa o Eu, reina Cristo.
O reino dos cus est dentro de vs... mas um tesouro oculto...
O filsofo, antes de Pitgoras, era chamado sphos, isto , sbio. O grande
iniciado de Samos achou que esse qualificativo competia somente ao Infinito
(Deus), que tudo sabe ou saboreia; mas o homem finito s pode ser um
buscador da sabedoria, um amigo da sabedoria, ou filsofo.
A cincia do intelecto.
A sabedoria da razo.
A cincia intelectual analtica.
A sabedoria racional intuitiva.
O homem intelectual produz a cincia.
O homem racional recebe a sabedoria.
A sabedoria um carisma, uma graa, uma ddiva do Infinito, que concedida
ao homem que tenha creado em si um ambiente propcio para a receber.
Tolerar ou compreender?
Ser tolerante para com outras religies e ideologias parece grande elogio a
muita gente quando, de fato, uma atitude assaz censurvel, embora melhor
que a intolerncia. O que muitos entendem com ser tolerante o seguinte: Eu
estou com a verdade voc est no erro; mas como eu sou um sujeito bom e
pacfico, eu tolero generosamente os seus erros sou tolerante.
Esta espcie de tolerncia , no fundo, orgulho e hipocrisia.
Mas quando algum compreende que cada indivduo tem o seu caminho
peculiar rumo verdade, e que cada um tem o direito e o dever de seguir o
caminho que condiga melhor com a sua ndole individual, ento no despreza
nem tolera simplesmente os seus companheiros de jornada que trilham outros
caminhos; mas a sua viso panormica lhe diz que esses seus scios de ideal
so seus amigos e colaboradores assim como as cores vrias de um prisma
so todas manifestaes da nica luz incolor, e nenhuma das cores tem o
direito de desprezar as outras como sendo erradas; o vermelho, o verde, o
azul, etc. so todos efeitos complementares da causa nica da incolor.
Nenhuma tolera a outra.
Complementaridade no hostilidade.
A harmonia do universo exige variedade na unidade.
Onde h verdadeira compreenso da verdade, a acaba tanto a intolerncia
como a tolerncia.
Ser que a rosa deve tolerar o cravo? Ser que o rubi deve tolerar a
esmeralda? Ser que o condor deve tolerar o canrio?...
Pensar ou repetir?
Os sistemas modernos de instruo e educao tm a tendncia de crear
repetidores de pensamentos alheios, em vez de pensadores autnomos. Os
estudantes devem decorar, memorar, repetir o que os livros e professores
dizem, sem saberem, por si mesmos discriminar, o verdadeiro e o falso.
Estamos na era dos crebros eletrnicos...
E com isto enchemos o mundo de autmatos humanos, reatores atmicos, cuja
reao corresponde mecanicamente ao. Em face do poder da nossa
publicidade comercial, o homem perdeu quase totalmente o critrio prprio;
compra o que o rdio, a televiso, o jornal, o cartaz mandaram comprar,
convencido de que necessita aquilo que apenas deseja.
Do homem moderno se pode dizer o que a fsica afirma da natureza. Nada se
crea, nada se aniquila, tudo se transforma.
O homem superior, porm, creador; produz novos valores, enriquece o
mundo com novos pensamentos e experincias inditas. No simples
repetidor poderoso creador.
Todo progresso verdadeiro da humanidade se baseia em dois princpios: 1)
conformidade, 2) no-conformidade; ou seja: tradio e evoluo. Deve o
homem aceitar do acervo do passado o que nele h de verdadeiro e bom e
deve acrescentar-lhe do tesouro do presente e do futuro o que nele h de
verdadeiro e bom.
E essa fuso do verdadeiro e do bom, quer do passado, quer do presente e do
futuro, resulta no belo universal.
Almas unidas
Conferncia de Haya, Liga das Naes, Naes Unidas todas essas e outras
organizaes internacionais falham no mesmo ponto bsico: falta-lhes o fator
das Almas Unidas.
Toda unidade simplesmente decretada precria.
Somente uma unidade vivida que slida.
Mas essa unidade das almas no pode ser objeto de decretos e leis
mentalmente excogitados tem de surgir das profundezas de uma evoluo
orgnica e interna do homem, do homem individual, e no da humanidade
social.
Na Igreja Romana h ou havia uma grande unidade e uniformidade, a qual,
todavia, tem mais de mecnico que de orgnico, mais de compulsrio que de
espontneo; uma unidade oriunda de uma imposio externa e no de um
impulso interno, e por isto periclita na razo direta da libertao mental e
espiritual do homem. A unidade mecnica, autoritrio-obediencial, ganha com a
ignorncia e perde com a sapincia do homem.
A unidade orgnica e espontnea comea l onde termina a unidade mecnica
e compulsria e, como humanidade progride, e no regride, mental e
espiritualmente, a unidade orgnico-espontnea s pode ganhar o futuro,
quando a outra s tem que perder.
Conferncias ou experincia?
Toda vez que, aqui no Brasil, assistimos a uma controvrsia religiosa, temos
quase certeza de que se trata de -ismo em conflito.
Entretanto, o problema fundamental do homem e da humanidade nada tem que
ver com -ismos. No gira em torno de alguma doutrina, mas est relacionado
com a questo de experincia ou inexperincia. Estou sendo bombardeado,
ultimamente, com prospectos e convites a congressos, nacionais e
internacionais, de Religio, Filosofia, Espiritualidade, etc. Os temrios so
estupendos; em alguns deles figura at esta coisa mirabolante que se intitula
concurso de beleza espiritual. Difcil me imaginar como essas misses de
beleza espiritual se exibiro na passarela, tambm espiritual, e qual o critrio
dos juzes sobre a anatomia das candidatas realeza do mundo espiritual. E,
sobretudo, quais os juzes assaz espirituais para ajuizar sobre o valor da
beleza espiritual.
Mostra tudo isto que os protagonistas desses movimentos deixam de perceber
o alvo central de toda a evoluo superior do homem.
Que interessam, em ltima anlise, belos programas e eruditas dissertaes?
O que interessa centralmente uma coisa s: ultrapassar o plano atual da
nossa conscincia-ego e entrar na zona superior de uma conscincia-Eu.
Mas essa conquista algo eminentemente individual e ntimo, que no pode
ser objeto de eruditas discusses, programas de rdio e televiso. Esse passo
s pode ser dado no silncio e no anonimato. Os poucos que possuem
experincia superior no comparecero a esses congressos e os muitos que
comparecerem no possuem experincia real.
Os poucos experientes habitam no silncio do anonimato.
Os muitos inexperientes vociferam no barulho e na ampla publicidade.
Doutrinas e sistemas, verdade, podem, por vezes, apontar o caminho para
essa experincia, quando nascidos de experientes. Podem servir de setas
indicadoras beira da estrada, nas encruzilhadas duvidosas; mas a seta no
tem valor imanente, s cumpre a sua misso pela transcendncia quando
contemplada e depois abandonada. O sentido da seta precisamente aquilo
que no est presente nela, mas ausente dela, isto , o lugar longnquo que ela
indica ao viajor. E o viandante s cumpre a silenciosa mensagem da seta
quando a abandona fisicamente a fim de lhe realizar a misso metafisicamente.
Do Gnesis ao Apocalipse
Esses dois livros da Bblia, o primeiro e o ltimo, encerram, simbolicamente,
todo o drama da evoluo ascensional do homem. O Gnesis trata da transio
do subconsciente (den) para o consciente (Serpente), e indigita a alvorada do
superconsciente (poder que esmagar a cabea da serpente). O homem
ignorantemente inocente, o homem egoconscientemente pecador, e o homem
cristoconscientemente remido.
O Apocalipse focaliza o mesmo problema; fala do aparecimento da fera do
abismo (homem subconsciente), de Lcifer (o homem egoconsciente) e do
Cristo (o homem cristoconsciente).
Por ora, a humanidade est no plano de Lcifer, o porta-luz; algum dia
atingir as alturas do Logos, a luz do mundo. A semiluz da alvorada
preludiando a pleniluz do dia. O phsphoros, palavra grega para porta-luz,
Lcifer, precede o phs, a luz, como j dizia, nos primrdios do Cristianismo, o
grande Orgenes.
Para os ignorantes blasfemo dizer que Lcifer o precursor do Logos. No
entanto, a verdade esta: O felix culpa e o vere necessarium Adae peccatum,
do hino pascal Exultet, um absurdo perante a teologia intelectualista, mas
uma sublimidade luz da filosofia csmica. Vela e revela uma grande verdade.
Os grandes paradoxos so as grandes verdades.
As grandes verdades, porm, so veneno para os pequenos consumidores e
so alimento para os grandes assimiladores.
Pouco se pode dizer a muitos.
Muito se pode dizer a poucos.
Muito nunca se pode dizer a muitos.
Aos infantes se deve dar leite para beber.
Aos adultos se pode dar comida slida para comer.
A verdadeira parousia, o segundo advento do Cristo, se realizar quando a
semiluz da madrugada intelectual culminar na pleniluz do meio-dia espiritual.
O segundo advento do Cristo
Os tessalonicenses e muitos outros cristos do primeiro sculo aguardavam o
regresso do Cristo glorioso, ainda naquele perodo histrico.
Schweitzer acha que Jesus se enganou quanto ao tempo de sua volta terra,
mas que esse equvoco do Jesus humano no invalida a sabedoria do Cristo
divino, o qual continua a ser o mestre espiritual infalvel da humanidade.
Ser que o advento do Cristo se deve entender em sentido fsico, como esses
cristos supem tacitamente? Ser que no um acontecimento espiritual
dentro das almas humanas, quando estas adquirirem plena conscincia da
realidade do Cristo? Quando a semiluz matutina da inteligncia analtica
culminar na pleniluz meridiana da razo intuitiva?
Ento o porta-luz (Lcifer) ceder luz do mundo (Cristo).
Segundo as leis eternas da evoluo, no pode o redentor redimir os
pecadores irredentos enquanto estes no esgotarem todos os recursos
pessoais da sua pretensa egorredeno. A humanidade de hoje cr ainda
numa egorredeno pela cincia, tcnica, cultura, progresso, pelo ritualismo
legal ou sacramental. S quando todas essas tentativas de egorredeno
tiverem sido experimentadas, e tiverem falhado, ento desistir a humanidade
desses tentames egocntricos e abrir as portas para a Cristo-redeno,
acordando o Cristo dormente dentro de si mesmo.
Ento o porta-luz (Lcifer) ceder luz.
Gnio platnico talento aristotlico
Plato viu o sol da meia-noite o eterno Numenon atravs de todas as
nuvens dos Fenmenos. Ele um ultravidente; intuiu o fim ltimo de tudo, e por
isto no lhe interessam os meios intermedirios de que trata Aristteles.
A filosofia platnica no propinquamente presentista, mas sim
longinquamente futurista; Plato no escreve para esta humanidade imperfeita,
mas para uma humanidade perfeita que ele vislumbra, para alm de tempo e
espao.
Para o homem honestamente medocre, Aristteles muito mais aceitvel do
que Plato; por isto, Aristteles considerado o prncipe da filosofia, porque
hoje em dia prncipe o homem mediocremente talentoso, e no o homem
altamente genial.
O gnio intui a Meta suprema mas pouco se d dos Mtodos.
O talento se ocupa em analisar os mtodos que conduzam meta, essa meta
que ele, no raro, desconhece. O contato com a meta no feito por meio de
clculos e anlises, mas em virtude de uma intuio experiencial, que o gnio
fareja, e o talento ignora.
Esta indiferena em face de qualquer sistematizao metdica de caminhos
doutrinrios, que caracteriza a filosofia de Plato que sua grandeza e sua
pequenez o signo da genialidade. O gnio no esquematiza, no
dogmatiza, no lana trilhos, no elabora mtodos, no constri pontes, no
fabrica veculos aponta longnquos horizontes; abre vastas perspectivas e d
plena liberdade a todos para descobrirem caminhos prprios rumo Meta.
Estabelecer mtodos e esquemas concretos dogmatizar, tiranizar,
estereotipar, restringir a liberdade e tudo isto relativamente necessrio, em
face da nossa fraqueza.
o que Aristteles faz, como bom talento e esta a razo por que Toms de
Aquino adotou a filosofia do Estagirita como padro da sua teologia hierrquica
que, no fundo, procede do mesmo modo. Aristteles um filsofo dogmtico
Toms de Aquino um dogmtico filosfico , ambos exmios talentos e hbeis
codificadores, nenhum deles um gnio creador como Plato, como Jesus,
como Francisco de Assis.
Os profetas de Israel esto na linha platnica os sacerdotes da sinagoga
seguem o esprito aristotlico.
Plato o patrono de todos os msticos intuitivos Aristteles o padroeiro de
todos os escolsticos analticos.
Uma s meta e um s mtodo brasisticas, das Cruzadas e Inquisies, de
todos os ditadores.
Uma s meta e um s mtodo brandam os talentos, os sacerdotes, os
intelectualistas, os lucifricos.
Toda liberdade da genialidade mstica toda ditadura da talentosa anlise.
Plato o inspirador do Evangelho do Cristo Aristteles o precursor das
teologias eclesisticas, das Cruzadas e Inquisies, de todos os ditadores.
A filosofia platnica Universidade para adultos a epistemologia aristotlica
colgio para adolescentes.
O gnio aponta a direo em que se encontram as grandes minas de ouro, as
jazidas de pedras preciosas mas no faz artefatos desse material, que
tarefa de talentos e operrios medocres.
Theoria quer dizer viso.
Praxis ao.
O gnio tem longnquas vises da verdade, intuies creadoras, vidncias
dinmicas o talento desce a atos propnquos de utilidade imediata.
You released me from all my prisons
Foram estas as palavras com que uma senhora se despediu de mim, no fim de
uma srie de conferncias sobre a Verdade Libertadora, que realizei em
Washington. O senhor me libertou de todas as minhas prises e seus olhos
irradiavam profunda gratido, segurana e felicidade.
este o escopo supremo de toda filosofia: libertar o EU, a alma humana, das
prises que o ego creou dentro e em torno do homem. No momento em que o
homem vive a verdade sobre si mesmo, liberta-se de todas as velhas prises,
nascidas da ignorncia do erro.
Unitrio, diversitrio, univrsico
Plato unitrio Aristteles diversitrio.
O primeiro v a Realidade do Uno, o segundo a enxerga no Verso.
A Verdade, porm, no platnica nem aristotlica, no unitria nem
diversitria ela universitria, uma sntese orgnica do uno e do verso. Ela
una em sua essncia e diversa em suas existncias o Universo, Univrsica.
Plato e Aristteles representam os dois polos antitticos da grande sntese, e
por isto no so contrrios, mas complementares um do outro.
A Realidade Integral univrsica, una e diversa, simples e mltipla, um
maravilhoso conbio entre causa e efeito, entre Brahman e Maya, entre Deus e
o mundo, entre esprito e matria, entre o eterno Ser e o Temporrio Devir.
Universo Versuno!
Na ordem ontolgica do Ser predomina o Universo na ordem lgica do
conhecer prevalece o Versuno. O que primeiro o Uno, a Causa mas o que
o homem primeiro conhece o (di) Verso, os Efeitos.
Plato ontolgico Universo.
Aristteles lgico Versuno.
Transcendente imanente
O Transcendente o Infinito em si mesmo e, como tal, no objeto do nosso
conhecimento finito; est trans, alm de todo o nosso contato mental.
Mas como o Transcendente imanente em todos os finitos, ele cognominvel
como Imanente, finitizado.
Quando Plato afirma que o Infinito (Universal) o nico Real e que os Finitos
(Individuais) so meras aparncias irreais, toma ele a perspectiva ultravidente
do mstico. De fato, o Infinito no existe (ex-sistir = colocar fora); o Infinito,
como tal, . O Infinito s existe como Finito; o Transcendente s existe na
forma do Imanente. A Infinita Transcendncia , para ns, inexistente, porque
totalmente inacessvel ao nosso conhecimento finito. Para ns s existe o que
cognoscvel, consciente; o que no cognoscvel , para ns, inexistente,
irreal, embora, ontologicamente, infinitamente Real.
O TODO , para ns, O NADA.
O Real, o Pleni-Real, o Oni-Real, , para ns, o Irreal.
Somente o Semi-Real, o Parte-Real, o Realizado, que nos acessvel como
sendo Real. Tudo que, luz do nosso conhecimento lgico, chamado Real,
apenas um Realizado, isto , um Real Relativo, mas no o Real Absoluto.
Para ns, Brahman, que , apenas existe como Maya, ou como Atman; ele
na sua Infinita Transcendncia; mas existe na sua Finita Imanncia, ao
alcance da nossa faculdade cognoscitiva.
E como poderamos afirmar ou negar algo Incgnito e Incognoscvel?
Somente o Cgnito ou Cognoscvel afirmvel ou negvel.
O ateu, que afirma ter certeza da no existncia de Deus, comete enorme erro
de lgica, como se o no existente fosse objeto do seu conhecimento!
O agnstico, que afirma no saber se Deus existe ou no existe, pelo menos
est dentro da lgica.
O Transcendente ou Infinito , para ns, o Absoluto Nada, o Irreal.
E por ser o Infinito o grande Annimo, o Amorfo, o Incolor, por isto lhe damos
tantos nomes, tantas formas, tantas cores. No fosse to annimo, e no seria
to variavelmente nominado.
Toda essa multido de nominaes que damos ao Annimo e Inominvel
prova da nossa limitao cognoscitiva.
O nosso conhecer um prisma multicor em demanda do Incolor.
So rudos vrios em busca do Silncio.
So existncias efmeras clamando pela Essncia eterna.
Quando o homem se abisma diuturnamente, intensamente, profundamente, na
contemplao desta verdade suprema, vem sobre ele uma grande paz e
serenidade, que brotam do Infinito, do Eterno, do Absoluto...
S pode ser existencialmente feliz quem vive essencialmente...
O mistrio da esfinge
Meio leo, meio mulher, sntese de fora e beleza, deitada de cabea erguida,
a contemplar, com os olhos vcuos plenos de eternidade, o longnquo
horizonte do maior dos desertos do mundo que maravilhoso smbolo de
contemplao csmica!...
Poder e amor, verdade e beleza estupendo emblema de autorrealizao,
grandiosa concretizao do Homem Csmico!...
Poder versus verdade
Durante uns trs sculos, professou o Cristianismo uma filosofia cheia de graa
e de verdade.
No incio do quarto sculo apareceu Constantino Magno, o imperador romano
pseudocristo, e viu que esse movimento podia ser utilizado para seus fins
profanos de poder e de ambio poltica. Prometeu igreja do Cristo todos os
reinos do mundo e sua glria, se ela lhe casse aos ps e o adorasse como
seu Deus protetor.
E a igreja de Cristo, na sua forma hierrquica, caiu aos ps do Anticristo. Este
lhe deu todos os reinos do mundo e sua glria prestgio poltico, dinheiro,
armas todos os recursos do prncipe deste mundo.
O Poder em troca da Verdade...
A igreja de Cristo, na pessoa de seus hierarcas, esqueceu-se de que o reino do
Cristo no era deste mundo, embora opere neste mundo.
esta a razo ltima por que o Cristianismo perdeu a fora de transformar o
mundo profano. Apostatou do Cristo da Verdade, alistando-se ao Anticristo do
Poder. Recebeu todos os reinos do mundo e sua glria mas perdeu o reino
do Cristo que no deste mundo...
O Poder do ego satnico a Verdade do Eu crstico...
Verdade tambm poder, mas no esse poder-violncia e sim um poderbenevolncia... O Anticristo, porm, s conhece e s oferece um poderviolncia...
E desde ento os profetas e msticos da verdade so substitudos pelos
sacerdotes e escolsticos do Poder...
Em consequncia disto, as duas mais poderosas naes crists, os Estados
Unidos e a Rssia, esto em vsperas duma guerra de extermnio.1 Cada um
deles quer todos os reinos do mundo e sua glria e nosso mundo um s...
O mundo do Cristo no interessa a nenhum desses gigantes lucifricos...
1. A primeira edio deste livro foi publicada durante a Guerra Fria, entre os Estados Unidos e
a Rssia. (N. do E.)
Gog e Magog em violento conflito...
A voz do Sermo da Montanha, alma da mensagem do Cristo, emudeceu sob o
estardalhao de congressos polticos e discusses teolgicas... O corpo-visvel
das organizaes humanas sufocou a alma invisvel da inspirao divina...
Entretanto, numerosos discpulos do Cristo continuam a viver, margem das
instituies oficiais, o esprito do divino Mestre; o seu reino no deste mundo,
mas eles so o fermento vivo que pode levedar as trs medidas de farinha
deste mundo do Anticristo...
Ainda somos cristos?
Algum escreveu um livro com este ttulo como se j tivssemos sido
cristos...
A pergunta exata seria: J somos cristos? Ou melhor: J somos crsticos?
Quase um bilho de seres humanos se dizem cristos mas que quer dizer ser
cristo? Os maiores anticristos se diziam cristos e entre os no cristos h
muitos homens crsticos. Nesses ltimos tempos, o melhor dos cristos foi um
pago Mahatma Gandhi.
Ser cristo de verdade no quer dizer ser batizado e professar certo credo. Ser
cristo, ou crstico, quer dizer guiar-se em tudo pelo esprito do Cristo.
Transcendente para dentro
Deus transcendente?
Sim e tambm imanente, em mim e em todas as creaturas.
A sua transcendncia trans, para alm do nvel onde eu estou. Trans para
fora ou trans para dentro; para alm ou para aqum isto puramente
convencional e relativo. Em qualquer hiptese, Deus trans, para alm do
pequeno finito consciente que eu sou, no plano do meu ego. Ele o
Inconsciente-Oniconsciente.
Sendo que rumo ao centro est a qualidade, e rumo s periferias est a
quantidade, Deus mais trans qualitativamente do que eu mesmo, mais
intensamente central-qualitativo do que qualquer finito; pois ele o Infinito em
todos definitos. Se Deus o Ens Realissimum, o Uno-Todo, o Ser, o Absoluto,
ento ele transcende, ultrapassa tudo que apenas realizado, existente,
relativo.
Deus transcende toda a Parcialidade fenomenal, porque ele a Totalidade
Numenal. O Todo est alm das partes, mesmo alm da soma total das partes.
Mas nem por isto deixa o Infinito de estar finitamente em todos os finitos
assim como todos os finitos esto finitamente no Infinito.
Razo e Vontade
A Razo, o Logos, a Luz, a Vida, o Esprito Universal.
A Vontade a direo individual em que a Razo Universal flui.
A Razo como que um lago imenso, um mar, um oceano de energia esttica.
A Vontade algo como uma torrente dinmica que sai desse imenso
reservatrio-de energia esttica; uma voltagem que dinamiza a massa da
amperagem, canalizando-a em determinada direo.
Quando a Vontade canaliza parte da energia racional para fins pessoais,
egosticos, torna-se ela adversativa, satnica, contrria Razo Universal; mas
quando a Vontade canaliza as guas da Razo numa direo universal, ento
se torna ela crstica, harmonizada com o Logos.
Amor uma vontade para fins universais, construtivos rumo ao Cristo.
Egosmo urna vontade para fins pessoais, destrutivos rumo a Sat.
Neoplatonismo
O caracterstico do verdadeiro Neoplatonismo, tenha ou no tenha este nome,
est no descobrimento do mesmo contedo essencial em todas as coisas
tambm em todos os credos e em todas as filosofias.
Diferenas externas se resolvem quando reduzimos essas divergncias a
smbolos manifestativos, por detrs dos quais jaz o simbolizado real.
Descobrir a substncia, o real, o uno, em todos os acidentes, em todos os
realizados, em todos os mltiplos isto neoplatnico, porque a verdade,
iluminao, inspirao, autoconhecimento e autorrealizao.
O Real est em todos os realizados, mas no idntico a nenhum deles
compreender isto ser sbio, ser santo.
No pode haver uma frmula nica e definitiva, um credo estereotipado para
todos os graus evolutivos. Todo indivduo, por ser indivduo, diferente do
outro, embora todos venham do Universal. No pode haver duas Existncias
finitas que percebam do mesmo modo a Essncia infinita; cada indivduo a
individualiza diferentemente. esta a grande harmonia do Universo, ser Uno
em Diversos.
Decretar um credo padronizado para todos e para sempre, um sacrilgio
csmico uma leso do sacro um pecado contra o esprito santo, porque
um atentado contra a Hierarquia Csmica do Universo, que no tolera
monotonia (unidade sem diversidade) nem caos (diversidade sem unidade),
mas exige imperiosamente unidade na diversidade, isto , harmonia. O Uno
sempre Uno, e os Diversos so sempre Diversos. Querer unificar os Diversos
to anticsmico como querer diversificar o Uno.
As Existncias mltiplas devem continuar, a ser mltiplas, apesar da sua
unidade.
O Universo uma harmonia essencial-existencial, unitria-diversitria; isto ,
universitria.
O clero vive do pecado
Se no houvesse pecado, sobretudo pecado original, o clero perderia a sua
razo de ser e o seu emprego, porquanto, como ele entende, a sua funo
primria est em libertar o homem do pecado e aplicar-lhe a redeno. Se no
h pecado, no h necessidade de redeno; e se no h necessidade de
redeno, no h necessidade de clero logo, necessrio que haja pecado
para que o clero possa existir.
O Evangelho do Cristo ignora radicalmente a existncia de pecado original (e
por isto o batismo de crianas), embora reconhea a realidade de pecado
pessoal. A ideia do pecado original foi contrabandeada para dentro do
Cristianismo por uns representantes da sinagoga de Israel que adotaram o
Cristianismo.
Mesmo depois da morte do indivduo deve continuar o pecado pelo menos o
pecado venial, cujos autores esto no purgatrio e essa humanidade
pecaminosa do purgatrio incomparavelmente mais numerosa do que a deste
planeta. E o clero afirma que tambm esta humanidade do alm objeto de
sua solicitude, porque recebe o impacto benfico da atividade clerical,
sobretudo atravs da missa e dos sacramentos, que so monoplio do clero.
Os merecimentos da redeno, diz a teologia, vm do Cristo, mas a sua
aplicao depende do clero; no havendo padre para aplicar aos leigos esses
merecimentos do Cristo, praticamente esses merecimentos no existem para
eles, e no h redeno.
Tamanho o poder do clero segundo a teologia dele...
esta, certamente, uma das razes principais por que a mensagem do Cristo
ineficiente h quase dois milnios, porque depende de intermedirios humanos
to humanos...
Se o Cristo voltasse ao mundo em nossos dias, disse algum, a primeira
declarao pblica que faria humanidade seria esta: Cristos de todos os
pases e de todas as igrejas, sabei que eu no sou cristo eu sou o Cristo!
A maior tragdia que pode acontecer a um mestre espiritual ter, aps morte,
discpulos aqui na terra incapazes de compreender o esprito dele; esses
discpulos, possivelmente, ensinaro precisamente o contrrio do que o mestre
disse, e isto como sendo a pura doutrina do grande iniciado...
E donde vm todas essas monstruosidades?
Vm do falso conceito de Deus e do homem...
Ignoramos o que Deus e o que somos ns mesmos... Continua o mistrio do
Deus Desconhecido...
Continua o enigma do Homem, esse Desconhecido...
O nosso cristianismo judaico
O esprito de Israel continua a dominar o mundo ocidental em trs setores
bsicos da existncia humana:
1 pelo dinheiro;
2 pela cincia;
3 pela religio.
Pode causar estranheza o terceiro desses itens; no entanto, a verdade esta.
No s no mundo das finanas e da cincia que a ideologia judaica continua
em pleno vigor domina tambm no plano religioso.
O Isl , em grande parte, judaico.
O Cristianismo eclesistico domina o hemisfrio ocidental, a Europa e a
Amrica. O Isl impera no Oriente Mdio e no norte da frica; em parte
tambm a sia oriental.
O judasmo, antes da ltima guerra mundial, contava cerca de 15 milhes; hoje
talvez uns 10 milhes. No tempo em que se formou a mentalidade judaica, no
Egito e na Palestina, no contavam os hebreus mais de 1 milho de pessoas.
Ora, esse pugilo de homens determinou a mentalidade de quase metade da
humanidade que, em matria de religio, fundamentalmente dualista, como
so o judasmo, o Isl e o Cristianismo teolgico. Tambm o espiritismo, ltimo
rebento do Cristianismo, radicalmente dualista.
A caracterstica bsica do dualismo, em todas as suas formas, est em que ele
considera Deus como uma entidade separada do mundo, fazendo-o habitar em
alguma regio distante e ignota do Universo.
Todas essas religies so monotestas, nenhuma delas monista. O
monotesmo admite um s Deus em contraste com o paganismo politesta
mas no conhece um Deus essencialmente uno (monos) como o cosmos,
como admite o verdadeiro monismo universal.
Os ignorantes identificam monismo com pantesmo, como se pode verificar em
qualquer compndio popular de filosofia colegial ou catecismo eclesistico. O
pantesmo identifica o Infinito com a soma total dos finitos destruindo, assim,
no somente a metafsica, mas tambm a tica humana. O pantesta confunde
essncia com existncia. Segundo o monismo universal, pode uma creatura
finita ser essencialmente o Infinito mas nunca o pode ser existencialmente.
O monismo universal permite a mais perfeita tica humana, porque no destri
no homem a responsabilidade moral, o seu livre-arbtrio, a sua existencialidade
autnoma.
A histria comprova fartamente esta verdade, porquanto os homens de mais
elevado padro tico como Jesus e Gandhi so essencialmente monistas.
A mensagem do Cristo no dualista nem monotesta, nem pantesta, mas
estritamente monista. Eu estou no Pai e o Pai est em mim... O Pai est em
vs e vs estais no Pai... Vs sois deuses... Vs sois a luz do mundo... o Reino
de Deus est dentro de vs palavras como estas supem que o Infinito (Pai)
esteja nos finitos e que os finitos estejam no Infinito. Se o Pai fosse uma
pessoa, um indivduo, no podia estar em Jesus e em outros indivduos, nem
estes podiam estar no Pai. Mas, se por Pai se entende a Realidade Universal,
o Infinito, o Absoluto, no h nenhuma dificuldade em compreender a
linguagem do Nazareno.
No quarto sculo, o Cristianismo teolgico recaiu no dualismo monotesta da
sinagoga judaica, do qual no se emancipou at hoje. Tambm os setores da
igreja protestante e ortodoxa continuam a marcar passo, como o catolicismo
romano, no plano do dualismo judaico. Nos trs primeiros sculos prevalecia
no Cristianismo o monismo neoplatnico. Clemente de Alexandria, Juntino
Mrtir, Orgenes, Tertuliano e outros filsofos cristos eram decididos monistas,
chegando a afirmar que Herclito de feso e Scrates de Atenas tinham sido
precursores do Cristo, e que a alma humana crist por sua prpria natureza,
por nascimento e concepo, e no em virtude de algum ritualismo
sacramental, como se ensina hoje em dia.
A razo dessa recada da teologia eclesistica ao dualismo da sinagoga
judaica no de carter metafsico, intrnseco, mas obedeceu a fatores e
convenincias meramente externas e polticas. Em face das numerosas
ideologias crists que se digladiavam nos primeiros sculos do Cristianismo,
afirmando cada qual ser a nica verdade crist, fazia-se mister uma poderosa
hierarquia eclesistica capaz de se impor aos dissidentes e restabelecer a
unidade no meio da desunio reinante. Infelizmente, a verdade intrnseca do
Evangelho no foi capaz de crear a desejada unidade, a no ser em pequenos
grupos mais espirituais; para o grosso dos cristos mais cristos que crsticos
fazia-se necessria uma imposio externa, um decreto autoritrio.
Esse Poder externo, como j dissemos, surgiu no tempo de Constantino
Magno, que deu mo forte hierarquia eclesistica, com a condio de esta
apoiar a poltica imperial.
O monismo no oferecia base para essa unificao fora somente um
dualismo monotesta se prestava a isto, porque s ele afirmava devidamente os
dois elementos indispensveis para a ditadura hierrquica: autoridade de cima
e obedincia de baixo. Enquanto a Verdade em si no tem poder, tem de
prevalecer o Poder externo, a ditadura sobre as conscincias.
No sculo XIII, Toms de Aquino codificou devidamente o dualismo eclesistico
e, no sculo XVI, o Conclio de Trento selou definitivamente, para o setor
romano da igreja, essa teologia dualista que d o mximo de poder ao clero,
reduzindo a um mnimo o prestgio da verdade do Evangelho do Cristo.
Might is right (poder direito) estas palavras de Tomas Hobbes, preludiando
a doutrina totalitria Wrong or right, my country (errado ou certo, meu pas)
marcam o roteiro do nosso cristianismo, h quase dois milnios. O cristianismo
dos cristos suplantou o Cristianismo do Cristo; o Poder deps do trono a
Verdade. O Poder escravizante suprimiu a Verdade libertadora.
Digenes, como precursor antitotalitrio
Muito se tem dito e escrito sobre as excentricidades desse famoso Cnico
ateniense. Poucos, todavia, compreendem o fundo srio que se oculta por
detrs desses extremismos. Ignoram que a quintessncia da filosofia dos
Cnicos consiste em dois pontos de valor eterno: 1) a afirmao da dignidade
do indivduo humano, 2) a focalizao dessa dignidade no livre-arbtrio.
Todos os totalitarismos, desde Hegel at hoje, sejam da direita, sejam da
esquerda, pecam precisamente pelo fato de sobreporem alguma organizao
impessoal ao valor intangvel da personalidade, ou melhor, individualidade
humana. Uns escravizam o homem pelo fator estatal fascistas, nazistas, etc.;
outros, o subordinam ao partido comunistas, etc.; outros ainda reduzem o
indivduo humano a escravo do capitalismo industrial pragmatismo, etc.
E todas essas aberraes totalitrias nascem do erro comum de identificar o
ego perifrico com o Eu central do homem. No negamos que o ego personal
deva servir ao ns social, como exige o altrusmo; negamos, porm, que o Eu
individual do homem, que o prprio UNIVERSAL nele, deva ser subordinado
a qualquer organizao social, produto do ego.
Quando Digenes, durante uma viagem martima, acabou nas mos de piratas
e foi posto venda no mercado de escravos de Creta, perguntaram-lhe qual a
sua profisso. Respondeu o filsofo: Sou governador de homens, e pediu que
o vendessem a algum que necessitasse de um mestre, e no de um servo.
Um rico proprietrio de Corinto, por nome Xenades, o adquiriu para preceptor
de seu filho. Desde ento foi Digenes governador de homens, no meio da
mocidade corintiana, fazendo ver que o valor do indivduo humano est acima
de todos os pseudovalores das organizaes creadas pelo ego.
Certo dia algum contou ao filsofo que havia, na Samotrcia, um templo cheio
de ex-votos deixados pelos marinheiros que, por terem orado ao deus Netuno,
tinham escapado de naufrgios.
Deve ser impressionante essa coleo de ex-votos respondeu Digenes e
mais impressionante ainda seria se l estivessem tambm as ofertas dos
marujos que, depois de terem orado aos deuses, pereceram em naufrgio.
Aos homens bons recomendava o Cnico que orassem s entidades protetoras
e aos demais que no orassem, para que os deuses no se lembrassem
deles nem os castigassem por suas maldades.
Digenes e o conhecimento humano
Dizer que uma cenoura um vegetal e que uma cabra um animal, dizia
Digenes, cometer crculo vicioso, dizendo o mesmo de outro modo. A
inteligncia analtica no sai do plano horizontal; somente a razo intuitiva
que sobe ao vertical e s aqui, na zona creadora da razo, que h verdadeiro
conhecimento.
Traduzindo em termos modernos, diramos que, na horizontal da causalidade,
impera a lei que Lavoisier formulou para o mundo fsico, onde nada se crea,
nada se aniquila, tudo se transforma. E nesta zona, segundo Digenes, no h
verdadeiro conhecimento, porque s h homogeneidade, e no
heterogeneidade, coma diria Bergson. O verdadeiro conhecimento exige
heterogeneidade, de horizontal a vertical, fora creadora, e no apenas
processo criador ou transformador.
A fora creadora, porm, est na zona da incausalidade, geralmente chamada
livre-arbtrio, que da razo intuitiva, e no da inteligncia analtica.
A inteligncia, diz Einstein, descobre os fatos objetivos da natureza j
existentes mas a razo crea os valores subjetivos dentro do homem, ainda
no existente, e depois existentes. Einstein, como se v, adere ao mesmo
pensamento de que somente a razo que creadora, ao passo que a
inteligncia apenas descobridora e transformadora. Nesta h
homogeneidade; naquela, heterogeneidade. A inteligncia repete o finito que j
existe e, no melhor dos casos cria, transforma um finito em outro finito,
equivalente ao passo que a razo crea novidade convertendo parte do Infinito
num finito.
Por isto, como diz o pai da Era Atmica, a inteligncia nos faz eruditos mas a
razo nos faz bons e quem bom feliz.
A lei e os profetas
Atravs de toda a histria da humanidade correm duas linhas paralelas a lei e
os profetas, no dizer do Nazareno. A lei representada pelos sacerdotes, e os
profetas pelos videntes de Israel, no Antigo Testamento; na filosofia, pelos
intelectualistas ou aristotlicos, por um lado, e pelos racionalistas ou platnicos,
por outro.
Lcifer e Logos...
Sat e Cristo...
Poder e Verdade...
Uns querem ser servidos outros querem servir...
Uns querem ser adorados outros querem adorar...
So os dois mundos paralelos, o do ego e o do Eu...
Uns vociferam arrogantemente, com Pilatos:
No sabes que eu tenho o poder de crucificar-te e o poder de soltar-te?
Outros lembram humildemente: No terias poder algum, se no te fosse dado
do alto...
A fonte do poder, que vem do alto, a Verdade.
Mas os Pilatos encolhem os ombros, com ctico desdm, dizendo: Que coisa
a Verdade?...
No mundo atual, que se debate entre o totalitarismo da direita e o totalitarismo
da esquerda, o poder triunfa, e a verdade agoniza. Todos os egos e suas
organizaes s se interessam pelo poder.2
2. A primeira edio deste livro foi publicada durante a Guerra Fria, entre os Estados Unidos e
a Rssia. (N. do E.)
Vocifera a lei calam-se os profetas...
Imperam as teologias emudeceu o Evangelho...
Eu te darei todos os reinos do mundo e sua glria brada Lcifer.
O meu reino no deste mundo responde o Cristo.
E a tentao continua, atravs de sculos e milnios, em pleno deserto...
Muitos se alistam sob a bandeira do poder poucos seguem o estandarte da
verdade...
Por ora, o ego lucifrico governa o mundo...
Quando surgir o Eu crstico, proclamando o reino de Deus sobre a face da
terra?...
Salvar o Todo salvar a parte
Quando o homem quer salvar o seu pequeno ego custa do seu grande Eu,
age ilogicamente, antimatematicamente, porque impossvel salvar uma parte,
perdendo o Todo. Mas quando salva o seu Eu, necessariamente salva tambm
o seu ego, que aquele em forma diminuta, embrionria, potencial.
Quem salva a planta salva tambm a semente, que a prpria planta em forma
mais perfeita e evolvida.
Todo pecado , fundamentalmente, um erro de lgica e de matemtica.
Pecado ignorncia, dizia Scrates. E Jesus o confirma, dizendo: Pai, perdoalhes, porque no sabem o que fazem. Pecam porque no sabem; se
soubessem, no pecariam.
O pecado consiste essencialmente na tentativa absurda do homem ignorante
de querer salvar o menor, sacrificando o maior; de querer salvar o pequeno 10
do seu ego, sacrificando o grande 100 do seu Eu.
Quem salva o 100, salva o 10 mas quem quer salvar o 10 sacrificando o 100,
perde tanto o 100 como o 10.
Neste sentido dizia o Nazareno: Se algum quiser salvar a sua vida (ego)
perd-la- mas quem perder a sua vida (ego) por causa de mim (Eu), este a
salvar.
A Verdade, quando ampla e universal, sempre tem esse aspecto paradoxal.
Somente as verdades pequenas e unilaterais podem gabar-se de no serem
paradoxais. De toda verdade unilateral pode-se tambm afirmar o contrrio;
porque as nossas verdades so sempre parciais.
necessrio morrer para viver...
necessrio despossuir-se de tudo para possuir tudo...
necessrio perder para ganhar...
necessrio ser tolo para ser sbio...
necessrio ser fraco para ser forte...
necessrio esvaziar-se para ter plenitude...
A viso parcial cincia analtica a viso total sapincia intuitiva...
O penltimo estgio da autorrealizao virtude o ltimo sabedoria...
Quem plenamente liberto de todas as servides pode oferecer-se como servo
de todos... Quem no liberto fala muito em liberdade e detesta qualquer
servido como anttese da liberdade...
Somente o homem plenamente livre pode ser voluntariamente servo...
No znite da liberdade reduz-se o homem ao nadir da servido...
To gloriosamente livre ele que pode ser voluntariamente escravo...
Tamanhos so os paradoxos da Verdade Libertadora...
O mistrio da compreenso
Compreender que isto?
No apenas inteligir, entender, pensar, analisar.
compreender prender totalmente.
Compreender uma tremenda experincia mortal e vital ao mesmo tempo.
um misterioso morrer e nascer.
um sofrimento redentor porque morrer e nascer so sofrimento.
Sofrimento rumo a uma vida maior...
Ningum compreende algo de grande sem passar por um grande sofrimento
por um morrer e por um nascer.
Quem no crucificado, morto e sepultado no pode ressuscitar para uma
pscoa de compreenso.
Quantas vezes nos defrontamos com esse tenebroso enigma: queremos fazer
algum compreender uma grande verdade, e no o conseguimos; essa
verdade o poderia preservar de uma tragdia existencial mas ele no nos
compreende...
Por que no?
Porque ainda no sofreu devidamente as dores do parto e por isto no pode
dar luz a prole da Verdade redentora. Falta-lhe ainda um fator preliminar
qui um grande terremoto, uma tempestade, um incndio de Pentecostes. E
ningum lhe pode dar esse abalo redentor; ter de vir de dentro dele mesmo...
Para que o homem possa ver as estrelas do cu, tem de descer primeiro s
profundezas do inferno, de um inferno de sofrimento, aceito e compreendido.
S pelo terrvel contraste das trevas que o homem enxergar a luz.
Tudo quanto o egosmo creou de terrfico sobre a face da terra guerras,
devastao, tragdia, misria, angstias, morte , por tudo isto tem de o
homem passar antes que o filho prdigo amadurea para a grande ecloso do
reino de Deus.
Na verdade, o homem s aceita aquilo que ele mesmo sofre e experimenta nas
mais profundas profundezas do seu ser; ningum se converte com bons
conselhos de amigos; s o trgico dilema de ser ou no ser o far mudar de
rumo.
a crise redentora...
O homem s compreende realmente aquilo que ele mesmo sofreu em
angstias mortferas e salutferas...
Quando me encontro com um homem assim, redimido pelo sofrimento aceito e
compreendido, sinto que estou diante de um novo mundo, de inaudita grandeza
e formosura. E no tenho a menor vontade de falar, de analisar, de pensar s
tenho vontade de calar, admirar, gozar, adorar... Vontade de ser
deliciosamente...
Um homem assim um redentor. O seu silencioso ser muito mais poderoso
que todo ruidoso dizer ou fazer de outros. Ningum se converte por causa de
belas palavras, ou elevados pensamentos s se converte aquele que entrou
no campo imantado de um homem divinizado por uma compreenso da
Verdade libertadora.
Ao Tabor s atravs do Getsmane e do Glgota...
Ocultismo, clarividncia, telepatia, etc.
Diversas pessoas leram nos astros do cu ou nas linhas das minhas mos os
eventos secretos da minha vida ignota. Leram isto nas penumbras do meu
subconsciente, onde o passado e o futuro confluem no presente.
Mas, estranhamente, nunca ningum descobriu os fatores decisivos da minha
vida espiritual, superconsciente. As grandes molas reais da minha vida
propriamente humana, as que realmente forjaram o meu destino verdadeiro
essas nunca foram atingidas por nenhum ocultista, astrlogo, quiromante,
mentalista, etc.
Todos giram no plano horizontal da causalidade, consciente ou subconsciente,
ningum invadiu a zona da minha incausalidade, o livre-arbtrio, onde cessa a
concatenao mecnica dos acontecimentos, onde se rompem os elos da
grande cadeia causal, onde no mais vale o princpio cientfico nada se crea,
nada se aniquila, tudo apenas se transforma. Onde impera esta lei causal da
simples transformao de um finito em outro finito, podem os ocultistas
descobrir causas e efeitos mas na zona do meu superconsciente, onde cessa
a lei de causa e efeito, no h invaso de ocultista; l sou eu o nico senhor e
rbitro dos acontecimentos, do meu destino.
O alodeterminismo do meu ego subconsciente e ego-consciente acessvel a
certas incurses ocultistas mas a autodeterminao do meu superconsciente
zona vedada, terra incgnita, porque aqui impera a fora creadora do nada,
que transfere um algo finito ao Todo Infinito.
O meu livre-arbtrio o meu Eu em toda a sua plenitude e onipotncia, onde
no h invaso de contrabandistas ilegais das zonas inferiores.
Os meus amigos ocultistas no gostam disto, mas s eu sei que eles atingem
apenas as camadas perifricas do meu ego causal, e no conseguem penetrar
na zona sagrada do meu Eu incausal.
E justo que assim seja. O reduto central do meu Eu e um templo envolto em
mistrio, no indevassvel mistrio da sacralidade divina; ningum pode
profanar esse sacrrio. S Deus e Eu que somos um sabemos da
Realidade central da minha natureza.
Nenhum invasor pode penetrar, sem minha licena, nesse templo de Isis...
Amor
Amor, isto , compreenso universal, a definitiva abolio de qualquer forma
de egosmo unilateral, mesmo em suas formas mais altrustas e sagradas.
H trs formas bsicas de egosmo, a saber:
egosmo pessoal, que quer para si os bens que no quer para os outros e,
no raro, tira aos outros algo para dar a si mesmo;
egosmo nacional, que considera a sua terra natal como superior a todas as
outras. O chamado patriotismo um vcio tanto mais perigoso quanto mais
camuflado de virtuosidade. O livro Por que me ufano do meu pas, de Afonso
Celso, pode ser considerado como o znite desse egosmo patrioteiro. Claro
que h tambm um patriotismo sadio, mas a maior parte dos chamados
patriotas s conhece patriotismo doentio;
egosmo eclesistico, que proclama a sua igreja ou seita como a nica
religio verdadeira e despreza todas as outras formas de religio como falsas e
obra de Satans. este o mais funesto de todos os egosmos, porque
professado em nome de Deus, da verdade e da conscincia. Quando um cego
reconhece a sua cegueira h possibilidade de cura mas quando chama
vidncia a prpria cegueira, incurvel. E esta a razo por que o egosmo
eclesistico quase incurvel, por ser egosmo sob a bandeira da santidade.
Enquanto o homem no superar esses trs egosmos no est definitivamente
remido, e a humanidade no entrar num perodo de verdadeira tranquilidade.
Todo egosmo anticsmico, antiunivrsico, antidivino.
Essa superao do trplice egosmo fruto da compreenso da Verdade, da
Verdade Libertadora. Enquanto o homem vive na iluso sobre si mesmo, no
h redeno.
Compreenso Amor.
Cristianismo versus Cristo
O Cristo que as igrejas crists geralmente conhecem um Cristo
essencialmente anticrstico, porque profundamente egosta; sofre do mal do
egosmo eclesistico e, para favorecer esse vcio, os egostas fundaram
igrejas, nas quais so treinados os seus discpulos para o mesmo egosmo
eclesistico.
Toms de Aquino, em sua Summa Theologiae, tenta fazer crer que a igreja
fundada pelo Cristo seja a mais perfeita das sociedades, possuindo os trs
poderes tpicos de sociedades humanas: poder legislativo, poder executivo e
poder judicirio.
Prova isto que um homem altamente inteligente como o Doctor Angelicus pode
dizer coisas que so uma negao total em matria de intuio espiritual.
Sociedade organizada produto do ego, que no pode deixar de ser egosta.
Poder sinnimo de direito, e todo direito egosta.
Os trs poderes da suposta sociedade eclesistica equivalem a um trplice
egosmo, que atribudo pelos cristos ao Cristo.
No admira que um cristianismo to anticrstico, como essa teologia, tenha
perdido a sua fora redentora, atravs dos sculos.
Jesus no fundou nenhuma sociedade; proclamou o reino de Deus sobre a
face da terra mas o reino de Deus est dentro de ns, dentro de cada
indivduo humano; um tesouro oculto, que se deve transformar num tesouro
manifesto.
Felizmente, como contam os bigrafos de Toms de Aquino, esse exmio
telogo teve uma viso misteriosa e depois disto nunca mais escreveu uma
s palavra at o fim da vida, confessando: Tudo que escrevi palha.
Do doloroso dever para o jubiloso querer
Se o homem quer viver em paz com seus semelhantes, tem de ser eticamente
bom, deve amar a seu semelhante como a si mesmo.
Mas a tica dolorosa enquanto simples arranjo moral, sem experincia
mstica; o moral uma linha horizontal suspensa no vcuo; a tica uma
horizontal presa na vertical do Infinito.
Enquanto o compulsrio tu deves (moral) no passar para o espontneo eu
quero (tica), no h nenhuma garantia de estabilidade e perpetuidade.
O que difcil e sacrificial, precrio e incerto; certo e seguro somente o que
fcil e agradvel. Se o caminho estreito e a porta apertada no se
transformarem em jugo suave e peso leve, no h na terra garantia de paz
duradoura; pode, quando muito, haver um armistcio temporrio, que uma
trgua entre duas guerras.
Mas como pode o homem fazer hoje por um querer espontneo o que ontem
fazia em virtude de um dever compulsrio, e anteontem no fazia de forma
alguma? Como pode o ferro velho do dever mosaico converter-se no ouro novo
do querer crstico?
Que estranha alquimia essa?...
a estranha alquimia do compreender. Entre o ominoso tu deves e o glorioso
eu quero medeia o mistrio csmico do compreender, do autoconhecimento,
que produz a autorrealizao a mstica que transborda em tica.
Por Moiss foi dada a lei (tu deves) pelo Cristo vieram a verdade e a graa
(eu quero).
Creando e solucionando a problemtica
da vida
Com a intelelectualizao do homem-ego comeou a dolorosa problemtica da
vida. No seu estado pr-intelectual no havia problemas na vida humana, como
no os h na vida vegetal e animal. O ego intelectual, a persona do homem,
visceralmente dispersivo, centrfugo, discordante. Da neutralidade do seu
subconsciente emergiu o ego humano para a negatividade do seu consciente
em demanda da positividade do seu Eu superconsciente. O subego instintivo
se tornou um ego intelectivo. O infra-homem do den adquiriu a conscincia do
homem da serpente, a sua ego-personalidade. O seu subconsciente objetivo
transitivo se transformou num ego-consciente reflexivo, abrangendo ao mesmo
tempo o mundo objetivo e o ego subjetivo. O homem egoficado se v como
algo separado do Todo Csmico, e engendra a sua atitude de hostilidade o
seu pecado original. Algum dia, esse homem de conscincia reflexiva crear
uma conscincia esfrica, univrsica, uma conscincia csmica e dir, com
verdade e sinceridade: Eu e o Todo somos um... O Todo est em mim, e eu
estou no Todo; embora o Todo seja maior do que eu...
O recm-nascido ego se contempla a si mesmo, reflexivamente; espelha-se na
sua fascinante personalidade como Narciso no espelho da fonte, e se enamora
de si mesmo, egocentricamente. Contempla a sua egoidade como no idntica
ao Universo Total. E dessa ego-objetivao lhe nasce o estranho orgulho de
ser algo ou algum do Cosmos, de possuir personalidade prpria, autnoma.
O homem-ego tem razo em se considerar como algo ou como algum distinto
do grande Todo Csmico; mas ele confunde o seu ser-distinto com o ser
separado. Em virtude dessa confuso declara ele Eu sou algo separado do
Universo.
E desse ilusrio ser-separado nasce o hostil ser-contrrio ao Todo e o
homem-ego comea a sentir-se adverso, inimigo do Todo Csmico, da
Divindade.
este o itinerrio do estado do Lcifer intelectual para o estado do Sat
antiuniversal e assim surgiu o homem pecador. O Lcifer do separatismo
culminou no Sat da hostilidade.
Falta ainda o terceiro estgio evolutivo do homem: o Eu que se sinta distinto do
Todo Csmico, mas no se sinta separado dele nem hostil a esse Todo.
Depois de desenvolver plenamente a sua conscincia separatista ego,
passar o homem a elaborar a sua conscincia integrante Eu, dizendo Eu e
o Infinito somos um... O Infinito est em mim, e eu estou no Infinito.
E com isto nascer o Indivduo Eu, o Indiviso, o No dividido, o homem egopecador remido pelo Eu-redentor; o homem escravizado pela iluso de
separatismo, e liberto pela verdade da integrao.
O homem passando do egoconsciente para o Logo-consciente, do Sat do ego
para o Eu do Cristo, completa o seu vasto itinerrio evolutivo.
A histria do Filho Prdigo se repete atravs de sculos e milnios. A vida na
casa paterna, estgio do subego... A sada da casa paterna, o incio do egoIucifrico, que culmina no plano do ego-satnico. Sobrevm culpa livremente
cometida a pena necessariamente subsequente... O cosmos reage ao caos...
Mas esse sofrimento no simples punio , sim, uma castigao,3 uma
purificao... Pelo sofrimento, aceito e compreendido, preludia o homem a sua
redeno, rumo ao Eu crstico...
3. Castigar significa purificar. Castum-agere (tornar casto, puro), contrado em castigare,
significa fazer sofrer para purificar. Punir fazer sofrer sem inteno de purificao, resultando
num procedimento intico.
A felix culpa, o vere necessarium peccatum prepara os caminhos para o
glorioso redentor...
A monotonia esttica do den se desdobra no caos dinmico de Lcifer, a fim
de culminar na harmonia csmica do Logos...
A infrasserpente da kundalini dormente acorda na serpente da kundalini
semivgil horizontal, e atinge a sua plena evoluo na suprasserpente da
kundalini plenivgil vertical, consoante as palavras do mestre: Assim como
Moiss ergueu s alturas a serpente no deserto, assim deve tambm o Filho de
homem (Eu) ser erguido s alturas, para que todos os que tenham fidelidade
com ele no peream, mas tenham a vida eterna...
No estado do infraego o homem mortal, como todos os infraegos da natureza
mineral, vegetal, animal.
No estado do ego o homem imortalizvel, e sobrevive, em corpo astral,
destruio do seu corpo material; mas no ainda imortal.
No estado do seu Eu nasce o homem pelo esprito e se torna imortal, creando
o seu corpo-luz e vivendo indestrutvel como a prpria luz.
Completou o ltus o seu misterioso ciclo evolutivo: no limo material do lago
iniciou a sua jornada; lanou-se atravs do elemento lquido da gua, smbolo
da mente, floresce e frutifica na zona luminosa acima da gua, no mundo do
esprito, onde se realiza a imortalidade do ltus humano.
O reino dos cus aqui e agora
O que hoje em dia chamado cristianismo bem pouco tem que ver com a
mensagem do Cristo. O cristianismo organizado dos homens; o Cristianismo
individual do Cristo. H indivduos crsticos, mas no h sociedade crstica,
s h sociedades crists, que podem ser anticrsticas.
Todos os grandes iluminados da humanidade afirmam que o homem pode
crear, aqui e agora, o reino de Deus. Mas os discpulos e epgonos dos
grandes mestres foram incapazes de perpetuar os altos voos da intuio
creadora deles, e desceram s baixadas das teologias humanas. Trocaram a
Verdade pelo Poder a Verdade do Eu pelo Poder do ego. Alguns
desapareceram definitivamente da possibilidade de realizarem, aqui na terra,
uma nova ordem de coisas, contentando-se com uma pseudofelicidade
baseada em prazeres e bens materiais. Outros relegaram o reino dos cus
para alm da morte e a regies distantes que, supostamente, se alargam em
outras partes do Universo; na vida presente, dizem eles, nada se pode
modificar; ela tem de continuar assim como , composta de exploradores e
explorados.
Esses conformistas e esses escapistas se mancomunaram, h sculos, no
desespero do reino de Deus sobre a face da terra, que eles consideram como
uma utopia, sonho quimrico de uns pobres idealistas otimistas.
Entretanto, todos os grandes mestres da vida, sobretudo o Cristo, afirmam que
o reino dos cus pode e deve ser proclamado, pelo menos inicialmente, aqui e
agora.
Ainda h pouco, um escritor ingls, Frederic Sanders, no seu livro In the Power
of The Infinite, repetiu essa mensagem dos grandes iluminados, escrevendo,
entre outras coisas, o seguinte:
O reino do Cristo no jaz em alguma esfera longnqua; o reino de Deus no
condicionado por tempo e espao. Muitos pensam que a vida terrestre, com
seus sofrimentos e suas angstias, seja um estgio preliminar para a vida
eterna e que o homem deva suportar, as misrias desta vida at que soe a
hora da libertao.
Entretanto, o reino dos cus ficar distante enquanto ns o considerarmos
distante. E, contudo, agora mesmo que vivemos no reino de Deus, e no h
nenhum outro mundo. Somente o nosso consciente obscurecido que nos
torna cegos para as glrias do mundo espiritual, no qual vivemos. O homem
que tem a permanente conscincia da presena de Deus vive agora mesmo na
harmonia do seu reino, numa atitude inatingvel pelas vicissitudes dos
fenmenos externos.
No podemos descrever a um surdo as belezas da msica nem podemos dar
a um cego ideias das cores e da mesma forma no podemos fazer
compreender as glrias do reino do Cristo a um incrdulo que no as tenha
experimentado pessoalmente. Da cadeia e do alcance dos seus prprios
pensamentos tece o homem, dia a dia, o seu cu e o seu inferno.
Cu e inferno no so estados futuros que nos esperem depois da morte. A
morte no modifica em nada o estado do homem; e os chamados mortos no
esto mais perto de Deus do que os vivos. A morte no representa a transio
para um estado perfeito. A disposio de esprito de um defunto continua a ser
a mesma aps-morte que foi durante a vida terrestre.
A revelao do reino de Deus se d diariamente nas almas capazes de
receb-la, e cada pensamento espiritual acelera o advento universal desse
reino.
O fato da presena e o problema da
conscincia
fato certo e inegvel que o Infinito est presente a todos os Finitos,
porquanto ele onipresente. Mas o fato objetivo dessa onipresena do Infinito
que Verdade, Vida, Amor, Felicidade no resolve nenhum problema para
os Finitos que vivem envoltos e permeados por esse Infinito. Dentro dessa
atmosfera da infinita verdade, vida, sade e felicidade, vivem milhares de
doentes, infelizes, pecadores por qu? Porque no tm a conscincia
subjetiva dessa presena objetiva. O que resolve o problema a vivncia
prpria, imediata, dessa presena.
O reino de Deus no universo, e aqui na terra, uma realidade objetiva, mas
enquanto o homem no estabelecer contato consciente com esse fato, o reino
de Deus continua ausente para o homem, porque ele no anda na presena
de Deus, e infeliz no meio da Felicidade, pecador no meio da Santidade,
egosta no meio do Amor.
A humanidade necessita duma nova
religio?
A crescente gritaria dos nossos dias por uma nova religio no deve ser
tomada muito a srio; ela nasce duma falta de autoconhecimento do homem
moderno. Os mais avanados entre ns se arranjam muito bem sem nenhuma
igreja; e os que ainda necessitam duma igreja encontraro no seu prprio
credo o melhor meio para seu progresso espiritual.
Os que mais gritam por uma nova religio so fundamentalmente irreligiosos.
Estes, quando espiritualmente amadurecidos, verificaro que o que lhes falta
no um novo credo, mas, sim, uma verdadeira realizao espiritual da sua
existncia, e que esta realizao no requer, necessariamente, colorido
teolgico-eclesistico.
Em nossos dias, fala-se demais em religio; quando algum quer sobressair
ambiciosamente no campo espiritual, rotula de religio essa sua ambio e
funda uma nova igreja ou seita, da qual ele, naturalmente, o chefe.
A nica religio autntica o sincero desejo e esforo de autorrealizao, isto
, permeao espiritual de todas as atividades da sua vida diria.
Os melhores dentre ns no so mais convertveis para uma nova forma de
religio; quem toma a srio a sua autorrealizao, ou dispensar formas e
frmulas externas, ou ento procurar manifestar a sua experincia interna
pelos meios tradicionais da sua igreja mas nunca far consistir nessas formas
a sua religio. O homem realmente religioso pode manifestar por qualquer
veculo externo a sua experincia interna. O principal possuir realmente essa
experincia, porque s isto religio religio (religao), yga, unio com o
Infinito, transbordamento da experincia mstica em vivncia tica.
(Parfrase de palavras de Hermann Keyserling, no seu livro Reisetagebuch
Bines Philosophen.)
Einstein, sobre fatos e valores
Uma coisa certa: daquilo que (das was ist) no conduz nenhum caminho
para aquilo que deve ser (das was sein soll). Do fato de conhecermos
nitidamente o mundo objetivo no podemos derivar nenhuma meta para a
nossa atividade humana. O conhecimento objetivo dos fenmenos nos fornece
poderosos instrumentos para a consecuo de determislizao tm de vir de
outras regies. evidente que a nossa existncia e atividade adquirem sentido
somente pela creao de uma meta dessa natureza e dos seus valores
correspondentes.
O conhecimento da natureza , certamente, magnfico; mas ele incapaz de
nos servir como guia... A cincia tenta, por um processo mental, reconstruir os
fatos a fim de os compreender; mas quando perguntamos em que consiste
propriamente o caracterstico do homem religioso, talvez possamos afirmar que
est no fato de ele se libertar das algemas do seu egosmo, construindo,
atravs do seu pensar, sentir e agir, um mundo de valores suprapersonais. O
que me parece caracterstico e decisivo nessa atitude o impacto desse
contedo suprapersonal e a firme convico da sua soberana importncia. No
importa que esse contedo seja ou no relacionado com alguma entidade
divina; do contrrio, no poderamos incluir Buda e Spinoza no rol dos homens
religiosos.
O homem religioso , pois, um homem espiritual no sentido de no pr em
dvida a importncia e sublimidade daquela Realidade suprapersonal e seu
escopo importncia essa que no suscetvel nem carece de demonstrao
cientfica. Essa Realidade existe para o homem religioso com a mesma
necessidade e evidncia com que ele mesmo existe.
Neste sentido, consiste a religio no esforo antiqussimo do gnero humano
de adquirir clara e plena conscincia desses valores, aprofundando e
ampliando cada vez mais o seu impacto sobre a vida.
Em face disto, de todo impossvel qualquer conflito entre cincia natural e
religio, porquanto cincia s pode verificar aquilo que (das was ist), mas no
aquilo que deve ser (das was sein soll); o critrio sobre o valor fica fora do
alcance da cincia. A religio, por seu turno, trata somente do valor do humano
pensar e agir.
Cincia sem religio manca (lahm) religio em cincia cega (blind).
(Da coletnea de artigos e discursos de Albert Einstein intitulada Aus meinem
spaeten Jahren, artigo escrito em 1939.)
A tica da lei cristalizada na alma do amor
A lei de Moiss se resume, praticamente, na moral dos mandamentos Tu
deves tu no deves! Essa tica legal que antes moral que tica
necessria para haver uma relativa paz e harmonia Ia vida social da
humanidade.
Mas no caiamos no erro funesto de supor que esse necessrio da lei seja
tambm suficiente para o amor. Enquanto a tica legal no ultrapassar a sua
prpria legalidade moral, no est resolvido o problema central do homem e da
humanidade. Enquanto o corpo da tica legal no for vitalizado pela alma da
mstica espiritual, no h garantia sequer para a prpria tica legal, que no
passar de uma moral social, incerta e precria, e o que ela produz no paz,
seno apenas um armistcio temporrio, que uma trgua entre duas guerras.
Por qu?
Por uma razo profundamente psicolgica: toda a moral isto , uma tica
nascida de um simples tu deves , por si mesma, difcil, sacrificial, porque
um altrusmo artificial em permanente conflito com o egosmo natural, que a
quintessncia de todo ser vivo. E o que difcil e sacrificial no tem garantia de
continuao e perpetuidade. Todo ser vivo , biologicamente, egocntrico.
Esse egosmo biolgico a lei fundamental da conservao do indivduo, e da
espcie atravs do indivduo. O indivduo existe e sobrevive graas ao seu
egosmo, ou melhor, amor-prprio. O amor-prprio do individuo vivo sua lei
fundamental, que no pode ser abolida sem destruir o prprio indivduo. O
prprio Deus, diz a teologia, ama a si mesmo com infinito amor.
O amor-prprio, per se, no egosmo. Egosmo um amor-prprio
exclusivista. Quem exclui do seu amor-prprio o amor-alheio, o amor aos
outros seres, egosta; mas quem inclui em seu amor-prprio os outros seres,
esse no egosta; porquanto, segundo a natureza e segundo o prprio
evangelho, a bitola e o ponto de referncia para o amor-alheio o amorprprio; o homem deve amar os outros assim como ama a si prprio. Logo, o
amor a si mesmo o ponto de referncia para o amor para com os outros.
O verdadeiro altrusmo , pois, um amor-prprio inclusivista, ao passo que o
egosmo um amor-prprio exclusivista.
Ora, repetimos, todo ser vivo tem amor-prprio, a fim de poder existir.
No mundo infra-humano no h perigo nesse amor-prprio biolgico, porque
est circunscrito pelo circulo frreo do instinto, que mantm o amor-prprio
dentro de certos limites, dos quais o indivduo no pode exorbitar.
S com o despontar do intelecto comea a possibilidade de um amor-prprio
excIusivista, isto , o egosmo propriamente dito.
A fim de se evitar essa exorbitncia do amor-prprio em egosmo, necessita o
homem de uma fora maior que a inteligncia personal necessita da
experincia universal, que o centro da sua verdadeira individualidade, do seu
Eu, da sua alma.
Quando o homem-Eu entra nessa zona da experincia universal, continua ele a
se amar a si mesmo, mas nunca custa de algum outro ser; compreende ele
ento que, para se amar genuna e intensamente a si mesmo, pode amar todos
os outros seres seus irmos humanos, ou seus irmos infra-humanos, porque a
experincia universal o ps em contato com a Fonte nica de todos os seres,
e, sendo que essa Fonte nica e Infinita ama todos os canais finitos que dela
dimanam, perfeitamente natural e espontneo que o homem universalizado
pela experincia da paternidade nica de Deus sinta a fraternidade universal de
todos os filhos de Deus, humanos e infra-humanos, vivendo em paz e harmonia
com todos os componentes da Famlia Csmica, sob os auspcios da
Paternidade nica do Infinito.
E assim a experincia mstica transborda espontaneamente em vivncia tica.
Essa tica mais que um arranjo moral, ela o corolrio inevitvel e
espontneo da experincia mstica do Infinito.
A partir dessa experincia mstica, deixa o homem de ser virtuoso e se torna
sbio; o imperativo categrico do dever compulsrio culminou no optativo
afetivo de um querer espontneo. Passou da lei de Moiss para o Evangelho
do Cristo. E neste querer espontneo nada h de difcil tudo fcil; o
caminho estreito e a porta apertada do curso primrio dos principiantes de
boa vontade se transformaram no jugo suave e no peso leve do curso
universitrio dos acadmicos da compreenso.
O profano no fez o que deve.
O virtuoso fez o que deve. Quem fez o que deve, mas no quer o que fez, sofre
a sua prpria boa vontade e virtuosidade mas quem fez o que deve e quer o
que deve, esse goza a sua prpria sabedoria.
Quem cumpre a lei, mas no ama, esse um homem dolorosamente bom
mas quem cumpre a lei e ama, esse um homem gozosamente bom, por ser
um sbio.
Que foi que aconteceu entre o dever compulsrio de ontem e o querer
espontneo de hoje? Que foi que fez de um homem virtuoso um homem sbio?
Que foi que transformou a escravido sacrificial da lei na liberdade jubilosa do
amor?
Foi a compreenso, a compreenso de si mesmo essa maior coisa que pode
acontecer ao homem compreenso de si mesmo...
Por Moiss foi dada a lei pelo Cristo veio a verdade, veio a graa...
Se nunca tivesse havido no mundo homens que amassem a lei, que fizessem
do dever um querer pela compreenso, no existiria sobre a face da terra esse
fogo sagrado da Religio. O que lhe garante perpetuidade no o doloroso
dever, mas sim o jubiloso querer. Justo que o principiante ande pelo
caminho estreito e passe pela porta apertada do tu deves, soletrando o b-c na escola primria do jugo suave e do peso leve, na Universidade do
Cristo.
Se o comer e o beber no fossem algo prazeroso para o homem sadio, j
teriam os indivduos humanos morrido de inanio, desinteressando-se dessas
funes bsicas da vida.
Se as funes sexuais obedecessem apenas ao imperativo categrico do
dever, certo que a humanidade j estaria extinta, por falta de suficiente
interesse pelas funes sexuais, de que depende a continuao da espcie
humana. Mas uma vez que esses processos, individuais e sexuais, funcionam
sob o signo do prazer, do querer espontneo, a humanidade continua, graas a
um querer fcil, e no a um dever difcil.
Na razo direta que as coisas relacionadas com a espiritualidade humana
ultrapassam o mbito do dever compulsrio e entram na zona do querer
espontneo, que haver garantia e perpetuidade de Religio sobre a face da
terra.
Mas, repetimos, essa transio do dever compulsrio para o querer
espontneo nasce duma misteriosa alquimia, que se chama compreenso, ou
seja, autoconhecimento. Enquanto o homem se incompreende ou
descompreende, identificando-se com o seu ego fsico-mental-emocional, no
entrou na zona luminosa da verdade sobre si mesmo; e onde no h verdade,
no h liberdade. Somente a verdade que libertadora.
A funo da verdade no consiste apenas em libertar o homem da inverdade
ou do erro, mas tambm em libert-lo da dificuldade e do sacrificialismo da
virtuosidade, isto , duma boa vontade sem compreenso.
A compreenso da verdade uma viso mstica que o homem-ego no pode
produzir, mas que o homem-Eu pode receber. E quando o discpulo est
pronto, o Mestre aparece.
Para que o homem possa ser espontaneamente bom deve ser profundamente
sbio. Para fazer o bem com dificuldade basta ser virtuoso para fazer o bem
sem dificuldade necessrio ser sbio.
O autoconhecimento a chave para a autorrealizao.
O triunfo do reino de Deus sobre a face da terra depende essencialmente
dessa experincia central do homem, que resolve todos os problemas
perifricos da humanidade.
Matemtica csmica
H uma matemtica csmica que funciona com absoluta preciso. O problema
est em descobrir e aplicar essa matemtica.
As palavras de Jesus, no consignadas pelo Evangelho, mas citada por Paulo
de Tarso, H mais felicidade em dar do que em receber, resumem essa lei do
Universo.
Quando o homem chega ao ponto de no mais querer receber nada do mundo
e da humanidade, mas to somente dar, dar, dar ento acontece esse
fenmeno paradoxal, verdadeiro: quanto mais o homem d, tanto mais ele tem
e quanto menos d, menos tem.
No plano dos finitos, que o ego conhece, a matemtica do dar implica perder
mas no plano do Infinito que o Eu saboreia, a matemtica do dar implica
ganhar. No ltimo caso, o dar se processa na horizontal dos finitos mas o
receber vem da vertical do Infinito.
Se o homem d algo ao mundo ou humanidade com o secreto desejo de
receber deles outro tanto, ou mais, age de um modo fundamentalmente
errneo, embora aprovado pela matemtica-mirim dos egostas; porquanto, dar
aos outros para deles receber puro egosmo, visceralmente esterilizante e
destruidor; cedo ou tarde esse egosta, manifesto ou clandestino, sofrer o
impacto negativo da sua falsa atitude. As leis csmicas no admitem burla.
Para que o homem possa realmente dar, dar com 100% de pureza e
sinceridade, deve ele dar incondicionalmente, renunciando a qualquer desejo,
secreto e secretssimo, de receber algo em retribuio, da parte do mundo ou
dos homens mesmo que esse algo seja apenas louvor, aplauso,
reconhecimento, gratido, ou a grata esperana de se espelhar nos resultados
palpveis das suas obras. Tudo isto impureza, disfarce, camuflagem,
insinceridade, secreta pecaminosidade anticsmica e as leis csmicas no
cooperam com nenhuma atitude anticsmica.
E precisamente aqui que est o piv do problema: dar com 100% de pureza e
desinteresse! Haver entre mil doadores um s dessa natureza?
Essa atitude de absoluto desinteresse pessoal significa onipotncia porque,
quando os canais do ego esto realmente desobstrudos e puros,
matematicamente certo que as guas vivas da vida eterna fluem
espontaneamente atravs deles, realizando no homem todas as coisas antes
impossveis.
Francisco de Assis, Dom Bosco, Mahatma Gandhi, e muitos outros sem falar
do prprio Cristo so provas desta verdade.
Mas como pode algum dar sempre e no se esgotar nunca?
que esse dar na horizontal dos Finitos corresponde a um receber na vertical
do Infinito e, como o Infinito no a soma total dos Finitos, aquele nunca se
esgota nem diminui com a irradiao destes. A matemtica csmica garante
que o jubiloso doador horizontal seja sempre um inesgotvel recebedor vertical;
quanto mais liberalmente o homem d, doa, distribui s creaturas, tanto mais
abundantemente recebe ele do Creador e, como o receber do Infinito para o
Finito, ao passo que o dar do Finito para os Finitos, rigorosamente lgico
que esse doador seja um milionrio de recebimento; recebe em qualidade e
distribui em quantidade e, como a soma total das quantidades no afeta a
qualidade, certo que esse doador de Finitos e recebedor do Infinito
invariavelmente um grande possuidor, um milionrio qualitativo.
Pensar que esse receber do Infinito seja egosmo, absurdo. O doador no d
em quantidade com o fim de receber em qualidade; d incondicionalmente;
mas existe uma lei csmica, inexorvel, que enche com qualidade a quem se
esvazia em quantidade, e essa lei funciona infalivelmente, quer o homem o
saiba, quer no o saiba. Ningum pode ser realmente bom sem ser
enriquecido.
Por vezes, esse enriquecimento espiritual se manifesta no plano material; por
vezes, o milionrio de bens divinos se torna tambm milionrio de bens
humanos mas isto apenas lhe acontece por concomitncia ou
transbordamento, como que sua revelia. Esse enriquecimento material no
efeito necessrio da riqueza espiritual, como pensam certas filosofias
pragmticas modernas; apenas uma espcie de sombra casual que
acompanha a luz.
Se algum tentasse ser espiritualmente rico a fim de se tornar materialmente
prspero, agiria contra o esprito da matemtica csmica, subordinando o fim
espiritual aos meios materiais; isto no seria procurar primeiro o reino de Deus
e sua justia mas, sim, em segundo lugar; e, por isto, as "outras coisas" no
lhe seriam dadas de acrscimo; estas outras coisas correm somente atrs
daquele que no corre atrs delas.
Libertao de qualquer espcie de escravido o requisito necessrio e
indispensvel para que a matemtica csmica do Universo funcione em toda a
sua plenitude.
Entesando e desentesando o arco
clebre, na filosofia oriental, a comparao do processo de iniciao
espiritual com a atividade dupla do sagitrio: entesar e desentesar o arco.
O arqueiro puxa a seta em direo a seu corpo, entesando ao mximo o arco
flexvel, simboliza o homem que pensa intensamente, pela fora consciente do
ego intelectual; quanto mais intensa for esta atividade mental do homem-ego,
tanto mais longe pode, depois, voar a seta do homem-Eu.
Mas seria erro pensar que essa fora do sagitrio produzisse o poder volante
da flecha; esse poder produzido pela fora inerente ao prprio arco retesado,
est na flexibilidade e na lei fsica do centrifuguismo, que obriga a seta a voar
na direo oposta fora muscular exercida pelo seteiro.
Temos, pois, duas foras em ao: uma, humana, muscular outra, csmica,
universal. Para que a segunda fora possa atuar devidamente, deve preceder
primeira, no como causa, mas como condio.
No a fora muscular do homem o entesamento que lana o projtil rumo
ao seu alvo mas a fora csmica do arco o desentesamento que leva a
flecha a seu destino.
Esta comparao duma extraordinria genialidade, quando devidamente
compreendida e aplicada ao mundo superior. necessrio que o homem
ponha em atividade dinmica todas as suas foras conscientes; que
desenvolva o seu ego personal at ao mximo; que desperte todas as suas
potencialidades
dormentes,
fsicas,
mentais,
emocionais.
Esse
desenvolvimento do ego , inevitavelmente, egocntrico, lucifrico, podendo
degenerar em feroz satanidade no caso em que o homem se recuse a soltar a
flecha rumo ao alvo csmico, ultrapersonal, divino. O egosta no erra em
retesar o arco do ego, em desenvolver o poder da sua personalidade-ego
erra, peca, quando conserva o seu arco retesado, com a flecha junto ao
corao, negando-se a solt-la rumo ao Infinito, rumo ao grande Todo. Esse
homem tem o devido amor-prprio, mas falta-lhe o amor-alheio e, sobretudo, o
amor-csmico. Ama-se a si mesmo intensamente, mas no ama as outras
creaturas, nem ama o Creador. Mantm a poderosa seta do amor bem junto ao
corao, mantm o arco intensamente entesado, incapaz de o deixar
desentesar-se e por isto vive tenso, no liberto, infeliz.
Mas quando o homem enxerga nitidamente o alvo longnquo em sentido oposto
ao movimento entesante, ento, depois de forte entesamento egocntrico,
passa ao desentesamento libertador, cosmocntrico, rumo s creaturas, rumo
ao Creador.
O homem ocidental propenso ao entesamento mximo do arco e, no raro,
se contenta com esse egocentrismo.
O homem oriental, no raro, acha suprfluo entesar o seu arco, cultivar as
coisas do ego, esperando que Brahman se encarregue de fazer voar o projtil.
O homem csmico une os dois processos, egocntrico e cosmocntrico; entesa
o arco da sua natureza humana, desenvolve todas as suas potencialidades e
depois pe esse seu Eu plenipotencirio a servio do Todo.
Tambm, que adiantaria pr a servio do Todo um Eu incompleto,
semidesenvolvido? O Todo necessita de um Eu plenamente maduro,
totalmente ele mesmo. Deve o homem confiar em si mesmo, no seu ego,
como se tudo dependesse dele somente e deve confiar no Todo, no Eu,
como se tudo dependesse dele somente. O difcil realizar essa grande
sntese das duas antteses...
Convm, pois, evitar dois erros:
1 o erro de no desenvolver devidamente o egoconsciente,
2 o erro de o desenvolver plenamente, mas no pr ao servio do Todo, do
Eu divino.
No primeiro caso, o ego no cumpre a sua misso de ser uma parte existencial,
idnea, do grande Todo essencial; e, no entanto, esse Todo da Essncia se
revela necessariamente atravs das partes da Existncia.
No segundo caso, o homem no ultrapassaria as barreiras do ego, da personamscara, culminando num poderoso Eu csmico; no atingiria as alturas do
indivduo, do indiviso, da completa individualidade, indivisa em si, e indivisa do
Todo.
Esse separatismo do ego, no integrado indivisamente no Todo, a ideia
fundamental do pecado, de Sat, dibolos, palavras que significam
hostilidade.
Cumpre que todo homem entese ao mximo o arco do seu egoconsciente e
depois o desentese e deixe a seta voar livremente ao seu grande destino
csmico. este o velho problema da f e da graa. este o sentido da
sapincia oriental: Quando discpulo est pronto, o Mestre aparece.
A pobreza do receber e a riqueza do dar
fcil fazer o teste da profanidade ou da sacralidade do homem: basta medir a
intensidade de desejo de querer receber ou de querer dar.
Quem deseja e necessita de qualquer objeto prova que um necessitado, um
pobre mendigo, que ainda necessita de escoras e muletas para amparar a sua
vacilante e enferma personalidade. Espera ser recompensado, como um
mercenrio; espera ser pensado, como um incompleto; espera ser
recompensado como um doente.
Quem livre, rico e sadio, dispensa ser recompensado, compensado, pensado.
Quando o Eu divino do homem est em contato direto com o Infinito, o seu ego
humano funciona como canal distribuidor dos bens que recebe da Fonte;
distribui na horizontal o que recebeu na vertical; mas, quando no recebe da
vertical do Infinito, sente a necessidade de receber da horizontal dos finitos.
O homem que muito recebe do Infinito, verticalmente, por ser muito receptivo,
pouco necessita no finito, horizontalmente. Por fim, esse homem vive quase
sem nada; o problema da subsistncia, que atormenta os profanos, quase que
desaparece. Quanto mais o homem algum pelo contato com o Infinito, tanto
menos deseja ter algo, no mundo dos finitos. Ele um milionrio teossuficiente.
Mahatma Gandhi deixou, ao morrer, um relgio barato, uma velha canetatinteiro, um par de culos, dois pares de sandlias, uma tanga, e pouco mais;
para a sua subsistncia diria lhe bastavam sete centavos. No entanto,
passavam pelas mos desse pobre imensas riquezas, ano por ano, milhes e
milhes tudo passava nada parava...
O ego to inseguro na vida que se cerca de toda a espcie de seguro de
vida e continua inseguro em sua vida...
O Eu to seguro em si mesmo que no necessita de nenhum seguro alheio;
habita na fortaleza da sua divina individualidade, que lhe garante perfeita
segurana, e por isto dispensa trincheiras e fortificaes fictcias.
Era uma vez um homem
Duma pequena carpintaria da Galileia saiu um jovem carpinteiro e assombrou
o mundo... Nunca tratou de reformar a humanidade porque era um homem
plenamente formado, o Filho do Homem...
Nunca fundou nem defendeu uma religio porque era um homem
eminentemente religioso...
Nunca frequentou escola, nunca escreveu um livro toda a sua sabedoria
brotava das profundezas da sua alma...
Na solido de Nazar, onde esse homem passou dezoito anos, frequentou a
Universidade Csmica do Silncio... Sentado no alto de um rochedo, no meio
da selva que rodeava a pequena cidade serrana, com os olhos embebidos no
horizonte, onde o sol submergia nas guas azuis do Mediterrneo, abismava o
carpinteiro Galileu a alma do Infinito, o reino de seu Pai, enquanto o seu
corpo permanecia, quase esttua inerte, sentado no duro penhasco da
montanha...
Altas horas da noite, regressava ele do Infinito Csmico para estes finitos
telricos e, como que s apalpadelas, procurava retomar o contato com os
grandes nadas da terra que tanto interessam aos pequenos homens terrenos...
Mas a sua alma continuava a habitar no Infinito. E quando falava, o Infinito
ecoava atravs de todos os seus finitos...
Mais tarde, quando as misrias humanas o obrigaram a peregrinar pelas terras
da Judeia, da Samaria e da Galileia, depois do sol posto, subia ele a um monte,
ou se internava num deserto, e ali passava noite toda abismado no Infinito...
Quando, no dia seguinte, voltava ao meio dos homens, tentava dizer aos
amigos dos finitos algo dos ditos indizveis que ouvira no Infinito; mas como
as coisas sacras no podem ser ditas aos profanos, balbuciava algo da sua
experincia em forma de parbolas e alegorias o reino dos cus
semelhante a um fermento... a uma rede de pescar... a um gro de mostarda ...
a um semeador... a uma festa nupcial... a um tesouro oculto... a uma prola
preciosa...
Deve ter sido um tormento para a sua grande alma no poder dizer o que sabia
deliciosamente... ter de traduzir, penosamente, toscamente, ingenuamente,
umas pobres gotinhas daquele mar imenso de verdade, beleza e beatitude que
lhe enchia a alma...
Dizem os profanos e os eruditos, sobretudo os eruditos ignorantes, que o
carpinteiro galileu foi o maior sofredor da humanidade, o rei das dores e com
isto revelam toda a sua douta ignorncia e toda a sua profana arrogncia...
Como podia um homem to rico ser um pobre sofredor?...
Se jamais passou pela terra um homem plenamente feliz, ento foi certamente
esse jovem operrio de Nazar... Os seus sofrimentos fsicos, no espao de
quase 33 anos, no somam 15 horas e todos esses sofrimentos foram
voluntrios, previstos, provocados por amor nenhum deles lhe foi imposto
compulsoriamente.
Mas... os seus sofrimentos morais?... a incompreenso dos seus discpulos e a
ingratido dos homens?...
Quando um homem abraa um grande ideal, por amor, aceita, de antemo,
todos os espinhos que se ocultam entre as rosas; nada o surpreende, nada o
decepciona, nada o leva frustrao... As sombras fazem parte do grande
mosaico da sua misso, bem como as luzes...
Quem convida a humanidade a aderir a um grande sofredor, que sucumbiu
vtima de seus inimigos, afasta os homens do seguimento do Cristo.
Mas quem convida a humanidade a se alistar sob a bandeira do homem mais
poderoso e feliz do mundo, esse apela para o que h de melhor e de mais
nobre no corao do homem...
Se temos f apenas no Jesus crucificado, e no no Cristo redivivo, v a
nossa f, v a nossa pregao, e somos os mais deplorveis de todos os
homens (Paulo de Tarso).
Era uma vez um homem... O filho do homem... O Filho de Deus...
E esse homem viveu uma vida divinamente humana e humanamente divina...
O mistrio milenar de Israel
O povo de Israel atravessa o mundo como um enigma insolvel... No Antigo
Testamento, no passava de um milho de homens; antes da segunda guerra
mundial contava cerca de 16 milhes de pessoas; hoje est reduzido a cerca
de 10 milhes.
Nao pequenina, continua a dominar o mundo em trs planos: 1) na religio,
2) na cincia, 3) nas finanas.
Poder causar estranheza a primeira das nossas afirmaes e, no entanto,
verdade. Israel imps ao mundo ocidental o sinete da sua religio. O
Cristianismo eclesistico, com cerca de 1 bilho de adeptos romanos,
ortodoxos, protestantes, espritas bem como o Isl em peso, com algumas
centenas de milhes todos eles esto imbudos da ideologia religiosa de
Israel, no tocante ideia de Deus e do homem. Deus para o monotestadualista uma entidade separada do mundo, residente no se sabe em que
regio longnqua do Universo. O homem um ser essencialmente mau,
pecador, porque o seu ego, esse Lcifer da sua personalidade antidivina.
Estes dois conceitos caracterizam a mentalidade filosfico-teolgica do
Ocidente e do Oriente Mdio.
Mas nenhuma dessas concepes se encontra na mensagem do Cristo, que
essencialmente monista, imanentista. Eu e o Pai somos um... o Pai est em
mim e eu estou no Pai palavras como estas so uma blasfmia em face do
monotesmo dualista transcendental, mas so a quintessncia do monismo
imanentista, que a mensagem do Cristo.
No seu livro Der Mythus des zwanzigsten Jahrhunderts (O mito do sculo XX)
tenta Alfred Rosenberg provar que Jesus no era judeu, uma vez que a sua
mentalidade diametralmente oposta mentalidade da sinagoga de Israel.
perfeitamente compreensvel que os chefes religiosos de Israel no tenham
reconhecido o Nazareno como o Messias profetizado, porque toda a sua
filosofia monista um flagrante desafio teologia monotesta dualista da
sinagoga como um desafio a todas as nossas teologias crists. A
mensagem do Cristo nada tem que ver com a nossa teologia crist, a qual,
desde o sculo IV, foi colocada sobre o padro dualista da Torah de Israel.
A filosofia monista do Cristo uma apoteose da VERDADE as teologias
monotestas dualistas so a idolatria do PODER. A Verdade do Eu crstico
o Poder do ego lucifrico. O maior triunfo do anticristo consiste em ter
conseguido hastear a bandeira do Cristo sobre o quartel-general do anticristo.
Quase todo o mundo ocidental cristo vive na convico de que o nosso
cristianismo eclesistico seja a perpetuao da mensagem do Cristo. O nosso
cristianismo teolgico a radical negao do Evangelho do Cristo a tal ponto
que dois dos homens crsticos do presente sculo Schweitzer e Gandhi se
negaram redondamente a aceitar o nosso cristianismo em troca do Evangelho
do Cristo. Schweitzer escreve que as nossas teologias costumam vacinar os
homens com o soro do seu cristianismo, e que essa vacina teolgica imuniza
os homens contra o esprito do Cristo. Gandhi respondia a todos os
missionrios ocidentais que tentavam convert-lo ao cristianismo: Aceito o
Cristo e seu Evangelho no aceito o vosso cristianismo.
Os grandes msticos so os homens genuinamente crsticos, e por isto so um
perigo para os cristos eclesisticos, para os defensores do Poder e os
negadores da Verdade.
Por que que a ideologia dualista de Israel continua a dominar a parte mais
avanada do nosso planeta?
Qual a verdadeira misso de Israel na histria da humanidade?
Algum sabe?...
As razes profundas do caos atual
As ltimas e mais profundas razes do caos mundial da atualidade, sobretudo
da humanidade crist do Ocidente, embebem-se em ideologias antiqussimas
e erradssimas, sobre Deus, o homem e o Universo.
A cincia dos ltimos sculos retificou o geocentrismo pelo heliocentrismo.
A psicologia dos ltimos decnios procura substituir o egocentrismo da
concepo medieval do homem pelo logocentrismo do homem verdadeiro.
As teologias, porm, continuam a professar ideologia geocntrica e
egocntrica; falam de Deus como se a nossa terra fosse o centro do Universo,
e falam do homem como se o nosso ego fosse a natureza central, ignorando o
Logos, o Eu divino no homem. Se o homem o seu ego, ento ele
essencialmente mau; mas se o homem o seu Eu, ento ele bom.
Segundo a linha proftica-platnica-crstica, o homem uma manifestao
individual da Divindade Universal; e esta, que o prprio Infinito, imanente no
homem, como em todas as coisas finitas. a verdade de que o Infinito
onipresente e, portanto, nenhum finito est fora do Infinito; no h separao
entre finito e Infinito, entre o individual e o Universal como, por outro lado,
tambm no h identificao entre a Infinita Essncia e as Existncias finitas,
entre o Creador Universal e a creatura individual; h, todavia, diferena entre o
Infinito Universal e os finitos individuais.
Se houvesse separao entre finito e Infinito, estaramos em pleno dualismo;
se houvesse identificao, estaramos em pleno pantesmo,
Mas se h diferenciao, equidistante de separao e identificao, estamos
no monismo universal, que a verdade suprema, professada pelos profetas,
pelos msticos, pelos platnicos, neoplatnicos e pelo prprio Cristo no
Evangelho: Eu e o Pai somos um; o Pai est em mim e eu estou no Pai mas
o Pai maior do que eu.
O Infinito est finitamente em todos os Finitos e o finito est finitamente no
Infinito. Com outras palavras: o Infinito est parcialmente presente em qualquer
finito e qualquer finito est totalmente no Infinito.4
4 Entretanto, para fazer jus mais rigorosa lgica, devemos acrescentar que a presena
parcial do Infinito no finito se refere ordem lgica (do nosso conhecer), e no ordem
ontolgica (do ser em si). Na realidade ontolgica o Infinito que pura qualidade e, portanto,
indivisvel, est totalmente em qualquer finito, embora o nosso conhecimento finito o enxergue
como presente, parcialmente. A presena de qualquer finito quantitativo sempre
circunscritiva, ao passo que a presena do Infinito qualitativo sempre definitiva, isto ,
totalmente no Todo e totalmente em qualquer parte.
Tal a experincia da mais rigorosa lgica e da mais exata matemtica.
***
Esta mentalidade proftica-platnica-crstica orientava a concepo do
Cristianismo primitivo, durante uns trs sculos. Mas desde o incio do sculo
IV comeou a prevalecer a ideologia sacerdotal-aristotlica-teolgica segundo
a qual h separao, e no apenas distino entre o homem e Deus. O
universalismo platnico substitudo pelo individualismo aristotlico o que
representa uma recada para a mentalidade da sinagoga de Israel decadente.
A decadncia da teologia de Israel comeou cerca de quatro sculos antes da
era crist, quando faleceu o ltimo dos grandes profetas, Malaquias, e desde
ento a mentalidade legalista-sacerdotal tomou conta da sinagoga.
Com o aparecimento do Cristo, reiniciou-se a ideologia proftica-mstica. Paulo
de Tarso um misto de platonismo e aristotelismo; quando fala aos atenienses,
do alto do Arepago, tem o desassombro de dizer que Deus aquele no qual
vivemos, nos movemos e temos a nossa existncia, o que puro monismo
proftico-crstico. Agostinho, ainda no IV e V sculos, totalmente platnico
antes da sua converso ao Cristianismo; depois, um misto de monismo platnico e de dualismo aristotlico. O monismo platnico imanentista no favorece
a ideia de uma hierarquia eclesistica, que era o mais doloroso problema
daquela poca, em que dezenas de ideologias pululavam e cada uma se dizia
ser o verdadeiro Cristianismo. O dualismo transcendentalista favorece o poder,
que do ego ao passo que o monismo imantista favorece a verdade, que
do Eu.
Os grande arautos da VERDADE do Eu professam ideologia profticaplatnica-crstica.
Os advogados do PODER, que do ego, ad a uma mentalidade sacerdotalaristotlica-teolgica.
***
Para todo dualista, uma fora alheia (Lcifer) que nos faz pecadores e uma
fora alheia (Cristo) que nos redime do pecado.
Para o monista, essas duas foras, Lcifer-Cristo o primeiro Ado pecador e
o segundo Ado redentor so elementos da prpria natureza humana. Cada
um de ns Lcifer e Logos, Sat e Cristo; O Lcifer-Sat o nosso ego, o
Logos-Cristo o nosso Eu.
O dualismo separatista, Ado-Cristo, Lcifer-Logos, foi codificado, no sculo
XIII, por Toms de Aquino e, no sculo XVI, oficializado pelo Conclio de
Trento.
Com o triunfo dessa ideologia aristotlico-tomista, estava definitivamente
consolidada a hierarquia eclesistica do Poder mas a realidade crstica da
Verdade sofreu um golpe mortal. Estava solapada pela ideologia dualista a
mensagem monista do Cristo, segundo a qual o reino de Deus est dentro do
homem, embora ainda como tesouro oculto, que deve ser manifestado.
Na sinagoga de Israel, os sacerdotes eram os intermedirios legalistas entre o
homem e Deus na igreja hierrquica os sacerdotes so os intermedirios
ritualistas (sacramentais) entre o homem e Deus, a ponte necessria entre o
homem e Deus.
Com a vitria dessa ideologia sacerdotal-sacramental, adquiriu a hierarquia
eclesistica um prestgio imenso, sobre-humano mas perdeu o Evangelho do
Cristo a sua caracterstica fundamental a Verdade foi sacrificada pelo Poder,
o Cristo foi crucificado pelos cristos, assim como, em tempos idos, Jesus foi
crucificado pela sinagoga de Israel.
A Reforma Protestante do sculo XVI parecia, no princpio, querer retornar ao
Cristo, mas regressou apenas at Paulo de Tarso, no ao Paulo monista do
Arepago de Atenas, mas ao Paulo dualista de Jerusalm. O Protestantismo
no crstico-evanglico, mas, sim, paulino-teolgico, porque todo ele est
baseado na epstola de Paulo aos Romanos.
O Espiritismo dos nossos dias, forte na tica, fraco na metafsica, continua a
marcar passo no plano do dualismo teolgico, justapondo Deus ao mundo, a
exemplo do catolicismo e do protestantismo.
Entretanto, os grandes movimentos filosfico-msticos da atualidade como
sejam New Thought, New Outlook, Neugeist, Self-Realization, Seicho-no-ie e a
Alvorada entre ns esto reatando o fio do monismo universal profticoplatnico-crstico , l onde ele foi roto no incio do IV sculo.
Mesmo dentro dos arraiais da teologia romana se erguem vozes monistas
como, ultimamente, o grande cientista jesuta, P. Teilhard de Chardin, cujos
livros so, em parte, corajosas afirmaes da Verdade; como era de esperar,
os advogados do Poder ergueram enorme grita de protesto contra esse arauto
da Verdade.
No prprio Conclio Ecumnico recentemente reunido, de Roma se ouviram
vozes pr-Verdade, embora, como era de esperar, a maioria dos Padres
conciliares fossem pr-Poder.
Ns, no movimento mundial que no Brasil, chama Alvorada, com sede na
capital de So Paulo, estamos sinceramente empenhados em descobrir o
tesouro oculto do reino de Deus dentro do homem, evocando-o das
profundezas dormentes da potencialidade racional do homem crstico por
natureza, a fim de o manifestar na atualidade vgil. Partimos do princpio
proftico-platnico-crstico de que o Infinito est no finito o Pai est em mim,
e o Pai est em vs, o reino dos cus est dentro de vs. Se Deus e seu
reino esto no homem em estado latente ou dormente, porque no poderiam
acordar e manifestar-se, na vida individual do homem, e na vida social da
humanidade?
Viso telrica viso csmica
Todo o nosso mal est em possuirmos do homem e do Universo apenas uma
viso unilateral, limitada, telrica e no uma viso unilateral, universal,
csmica. Consciente ou inconscientemente, fazemos coincidir a existncia
humana com o seu estgio terrestre, que nos serve de bitola e ponto de
referncia para tudo; a morte , para ns, o fim da vida. Desta perspectiva
limitada e imperfeita, jamais conseguiremos uma compreenso exata da
mensagem do Cristo e de outros mestres sapienciais da humanidade, que
falavam da excelsa atalaia duma viso csmica. O Evangelho, sobretudo o
Sermo do Monte, que a culminncia da mensagem do Cristo, supe uma
viso ultraterrena, csmica, eterna. totalmente intil querer compreender as
palavras do Cristo por meio duma anlise intelectual, emprica, egocntrica.
Estamos escravizados pela concepo de tempo e espao s seremos
libertos por uma viso do eterno e do infinito. Somente sub specie aeternitatis,
como dizem os iluminados, possvel compreender a verdade do Evangelho.
Consoante a miopia da nossa viso telrica, deve o homem bom sofrer agora a
fim de poder gozar mais tarde ou ento gozar agora para sofrer mais tarde.
Sobre a entrada de um mosteiro trapista da Frana se acha gravada esta
legenda dualista: A mgoa de viver sem prazer vale bem o prazer de morrer
sem mgoa. Estas palavras, que cristalizam toda a nossa teologia dualista,
supem que Deus seja um ser mesquinho, sdico, que no permita a seus
filhos uma alegria completa e permanente s permite 50% de alegria contra
50% de tristeza, porm nunca 100% de alegria; a divisa desse Deus dualista :
ou gozar aqui na terra e sofrer no alm ou ento sofrer agora e gozar apsmorte.
E o prprio Evangelho do Cristo parece justificar essa concepo dualista da
vida humana, pois no fala o divino Mestre no caminho estreito e na porta
apertada que garantem ao homem a entrada no reino dos cus? No diz que
o reino dos cus sofre violncia, e s os que usam de violncia que tomam
de assalto? Preconizando assim o sofrimento, a renncia, a violncia contra si
mesmo como o preo da felicidade eterna?
Quem assim pensa e fala esquece-se do reverso da medalha, isto , de outras
palavras do mesmo Mestre, como, por exemplo, as seguintes: O meu jugo
suave e meu peso leve; ou estas: Eu dou a paz, eu vos deixo a minha paz;
no a dou como o mundo d para que a minha alegria esteja em vs, seja
perfeita a vossa alegria, e ningum mais tire de vs a vossa alegria.
Esta suavidade, leveza, paz e alegria so coisas que o Cristo oferece aos seus
discpulos, no s em tempos futuros e lugares remotos, mas agora e aqui
como compatveis com a vida humana aqui na terra, a despeito de todas as
adversidades.
Na primeira srie dos textos citados, o Nazareno fala aos principiantes, aos
profanos de boa vontade, ainda em luta com o seu velho ego; aos que se
acham no curso primrio soletrando o -b-c da vida na segunda srie de
textos, o Mestre fala aos universitrios do esprito, aos que superaram tanto a
mentalidade dos analfabetos, dos profanos de m vontade, como tambm a
condio dos semialfabetizados, dos profanos de boa vontade; fala aos que
superaram tanto a viciosidade dos maus como tambm a virtuosidade dos bons
e entraram na zona da sabedoria dos perfeitos. Os perfeitos (telios, em
grego, os que esto perto do tlos, da meta final) fazem sem dificuldade, sem
sacrificialidade, aquilo que os maus no fazem, e os bons fazem com
sofrimento; os perfeitos fazem com alegria, suavidade, leveza, o que devem
fazer, mas no o fazem por um dever compulsrio, e sim por um querer
espontneo, cujo ltimo segredo s os sbios conhecem e compreendem e
eles so os sbios, os sapientes, os sabedores da verdade e, por isto, os
saboreadores da vida da perfeita felicidade. Para esses sbios, sabedores e
saboreadores, no existe mais o ominoso dualismo do sofrer aqui para gozar
acol, ou ento gozar aqui para sofrer acol para eles, toda a existncia
humana, aqui e acol, aqum e alm, na terra e nos cus, perene alegria,
paz, leveza, suavidade, porque entraram numa outra dimenso de vivncia;
ultrapassaram a zona da ignorncia, do erro, da semissapincia, e entraram na
zona de plenissapincia, onde o velho dualismo antitico se converteu no novo
monismo sinttico e no se trata mais de viver com mgoa para morrer com
prazer, nem de viver com prazer para morrer com mgoa. Para os perfeitos,
sabedores da verdade total, os saboreadores da felicidade integral, a vivncia
humana entrou numa nova dimenso, saiu da estreiteza da viso telrica,
dualista e entrou na largueza da viso csmica, monista. O reino dos cus
foi proclamado sobre a face da terra...
E h um novo cu e uma nova terra...
Fazer bem d desvantagem?
Parece que sim, por isto todos os profanos preferem fazer o mal e gozar a
fazer o bem e sofrer.
Por que esta revoltante discrepncia? Por essa paradoxal disparidade entre o
fazer-mal e gozar e o fazer-bem e sofrer? Ser que o universo deixou de ser
um cosmos de ordem e se tornou um caos de desordem? No seria mais
csmico que o homem bom gozasse e o homem mau sofresse? Por que que
ser honesto pe o homem na retaguarda do conforto e ser desonesto o pe
na vanguarda da prosperidade terrestre?
A razo dessa filosofia pessimista est na miopia da nossa viso telrica e na
ausncia de uma viso csmica. Visualizada a curta distncia, essa
desarmonia um fato vista a longa distncia, a harmonia a verdade.
Que a nossa existncia terrestre?
Um segundo, a frao de um segundo, no quadro da nossa existncia total.
Que diferena faz que, na frao de um segundo, haja uma aparente
discrepncia ou desarmonia entre o ser-bom do sofredor e o ser-mau do
gozador?
Quando o fotgrafo revela um retrato no banho de sais, aparece tudo invertido:
o branco saiu preto, e o preto saiu branco. Ser que ele joga fora a sua
fotografia por causa dessa discrepncia? No sabe que, de incio, tem de ser
assim mesmo. Depois, no positivo, a luz inverte os claros e os escuros e sai
tudo certo. A luz, que faz o positivo, retifica o negativo feito pela gua da
soluo qumica.
No positivo da ordem csmica, ser-bom gozar e ser-mau sofrer. Mas...
esta verdade est numa outra dimenso. Quem capaz de olhar para alm do
negativo do plano telrico, de tempo e espao, e enxergar o positivo do plano
csmico, do eterno e do infinito, esse no se revoltar com o aparente caos da
vida presente, porque sabe que um pseudocaos, ao passo que o cosmos
uma realidade perene.
Quem confunde ser-feliz com gozar, e ser-infeliz com sofrer, est na egodimenso telrica; mas quem sabe que o homem pode ser feliz no sofrimento,
e infeliz no gozo, esse entrou na Eu-dimenso csmica.
Por isto, em qualquer hiptese e para todos os efeitos, o principal ser-bom,
incondicionalmente bom, quer no gozo, quer no sofrimento.
Tambm aqui vale a grande mxima da sabedoria da Bhagavad Gita:
Homem, trabalha intensamente mas renuncia a cada momento aos frutos do
teu trabalho. Ou ento a sapincia do Nazareno: Quando tiverdes feito tudo
que deveis fazer, dizei: Somos servos inteis; cumprimos a nossa obrigao
nenhuma recompensa merecemos por isto.
a sabedoria suprema de se sentir intil, de no se julgar credor, de no
ser mercenrio, aguardando algo pelo fato de ser bom...
Homem, ainda que o teu ser-bom te traga todos os sofrimentos, injustias e
ingratides no te sintas infeliz nem frustrado! s um grande vencedor! s o
construtor do teu cu... Ser bom, realmente bom, no ser mercenariamente
bom, por causa de algum gozo que da resulte; ser realmente bom ser
incondicionalmente bom, sem segundas intenes, sem temor de algum inferno
nem esperana de algum cu... Cu e inferno no so lugares objetivos fora de
ti; cu e inferno so estados de tua alma; so teu ser-bom, ou o teu ser-mau.
Enquanto o homem no se habituar a contemplar a vida cosmicamente, na
plenitude da sua verdade total, no solver esse tenebroso enigma. A iluso de
tempo e espao escraviza o homem a verdade do eterno e do infinito liberta o
homem...
Conhecereis a verdade e a verdade vos libertar...
Homicdio fsico suicdio metafsico
Sob o signo ilusrio do tempo, melhor matar do que ser morto; e, como o
nosso ego s conhece este signo e ignora totalmente o signo da verdade
eterna, perfeitamente lgico que o homem-ego, o profano, prefira matar a ser
morto. E nunca faltam motivos ao ego para justificar essa poltica egocntrica.
At o famoso telogo cristo, o santo Toms de Aquino, com a aprovao da
sua igreja, afirma na Summa Theologiae, que em quatro casos permitido ao
homem matar outro homem, a saber: 1) em caso de justa defesa, 2) em caso
de uma guerra justa, 3) pode a autoridade civil mandar matar os grandes
criminosos, 4) pode a autoridade eclesistica permitir a matana de hereges
impenitentes.
Em todos esses casos, o ego pecador que advoga a sua prpria causa
pecaminosa mesmo em nome do Cristo! O maior triunfo do anticristo
consiste, sem dvida, no fato de ter conseguido hastear a bandeira do Cristo
sobre o quartel-general do anticristo.
O Eu divino no homem prefere sempre morrer a matar, porque sabe que morrer
no morte real, ao passo que matar pode levar a uma morte real, morte
eterna do prprio matador. No temais aquele que mata o corpo temei
aquele que tambm pode matar a alma. Quem esse que pode matar a alma,
o Eu, o indivduo? o prprio homem pecador; porquanto, a morte verdadeira,
a morte eterna, no pode ser infligida por nenhum agente externo, mas s pode
ser produzida pelo prprio homem pecador, em virtude do abuso do seu livrearbtrio. A morte eterna um suicdio metafsico. O homicdio fsico comum no
morte real; apenas a destruio do corpo material, prprio ou alheio, mas
no a destruio da individualidade humana, da alma, do Eu real, que
invulnervel de fora, embora vulnervel de dentro. Somente o pecado
impenitente, o abuso do livre-arbtrio, que pode provocar a morte real, a
destruio do indivduo.
Por isto, o homem sacro prefere sofrer o homicdio fsico, infligido por mo
alheia, a cometer o suicdio metafsico, produzido por culpa prpria. Ele v um
mal maior em matar pecaminosamente do que em morrer inocente.
O ignorante prefere matar a morrer.
O sapiente prefere morrer a matar.
O Cristo nunca permitiu a morte de um nico homem, nem mesmo na mais
legtima defesa, no horto das Oliveiras, quando Simo Pedro arrancou da
espada para defender o Mestre inocente contra os agressores culpados.
O nosso cristianismo teolgico pouco ou nada tem a ver com a mensagem do
Cristo; age em nome da inteligncia lucifrica, quando o Evangelho Cristo age
em nome da razo crstica. Nossos so todos os reinos do mundo e sua
glria mas o reino do Cristo, embora neste mundo, no deste mundo.
Muitos estranham que o cristianismo no tenha melhorado a humanidade, nem
que seja capaz de evitar guerras e extermnios. Essa estranheza se baseia na
suposio tcita de que o nosso cristianismo seja a continuao da mensagem
do Cristo, o que radicalmente falso.
Cristianismo versus comunismo
Disse-me algum que neste mundo h s duas coisas: Comunismo ou
Cristianismo. Contestei a afirmao, e fiz-lhe ver que ele confundia o nosso
cristianismo com a mensagem do Cristo. O nosso cristianismo no a anttese
do comunismo, porque tanto este como aquele visam ao poder, mesmo custa
da verdade. O nosso cristianismo visa ditadura sobre as almas, ao passo que
o comunismo visa ditadura sobre os corpos so dois ditadores empenhados
na conquista do poder, com menoscabo da verdade. Ora, dois rivais no se
toleram no mesmo terreno; da a conhecida hostilidade entre o cristianismo e o
comunismo.
Os Estados Unidos, ultimamente, mostram grande simpatia pelo cristianismo
na forma do catolicismo romano, porque veem nele um aliado contra o
comunismo. Essa iluso facilmente compreensvel, em face da espantosa
ingenuidade religiosa que caracteriza, geralmente, os americanos, como o
exmio pensador contemporneo Hermann Keyserling fez ver no segundo
volume do seu livro Reisetagebuch Kines Philosophen. Parece que a
democracia americana no compreendeu ainda que a teologia romana no
defende uma tese anticomunista, mas defende a sua ditadura romana contra a
ditadura moscovita.
Catolicidade platnica ou catolicismo
aristotlico?
A filosofia de Plato, e dos neoplatnicos, essencialmente mstica, universal,
catlica (palavra grega para universal) ao passo que a ideologia de
Aristteles , de preferncia, intelectual, parcial no-universal.
A catolicidade crstica dos trs primeiros sculos da era crist tipicamente
platnica-mstica o catolicismo eclesistico, a partir do quarto sculo,
visceralmente aristotlico.
Toms de Aquino, o codificador do catolicismo aristotlico, representa a
teologia crist-clerical Francisco de Assis encarna a catolicidade crstica do
Evangelho.
Catlico, no sentido grego de universal, no admite-se adjetivo restritivo; o
catolicismo, sendo apenas universalismo, mas no universalidade, suscetvel
de adjetivao como, por exemplo, romano. A catolicidade universal no pode
ser romana, sob pena de ser restrita e parcial e, portanto, no-catlica.
Universalidade no-universal uma contradio.
A Verdade , necessariamente, universal.
O Poder pode ser parcial, embora pretenda ser universalista.
Os grandes gnios espirituais da humanidade proclamam a Verdade e no se
interessam pelo Poder, que nasce da organizao do ego. Poder no nascido
da Verdade violncia. O Poder nascido da Verdade benevolncia. Mahatma
Gandhi, abolindo a violncia (ahimsa), triunfou pela Verdade (satyagraha),
porque o Poder nascido da Verdade um Poder benfico, ao passo que o
Poder que ignora a Verdade um Poder malfico.
O Poder do ego.
A Verdade do Eu.
O tentador no deserto, Pilatos, Constantino Magno, so representantes tpicos
do Poder sem a Verdade. O Cristo o expoente mximo da Verdade e por isto
tem todo o poder no cu e na terra.
Gandhi a mais esplndida demonstrao da Verdade que se revela em Poder
benfico.
Dizer que o Cristo fundou uma sociedade eclesistica a maior difamao que
se pode assacar-lhe, porque reduzir o maior gnio espiritual da humanidade
a um talentoso codificador de preceitos e proibies, tarefa de egos
inteligentes, mas no do Eu espiritual.
Quem organiza sociedade prova que no tem confiana na onipotncia da
Verdade em si; que no necessita de escoras e muletas para garantir a
perpetuidade da Verdade.
O gnio proclama a Verdade.
O gnio organiza o Poder.
A Verdade do Eu divino.
O Poder do ego humano.
Cosmos ou caos
Vivemos na iluso de que sejamos responsveis pela ordem do Universo
como se o cosmos pudesse acabar em caos, se ns no o salvssemos!...
Achamos que devemos resistir aos malvolos, para que os benvolos no
sejam exterminados pelos malvolos, sobre a face da terra...
Quanta insensatez!
Quanta miopia!
Assim diz o insensato na sua erudita ignorncia: Se eu no resistir ao injusto,
amanh a injustia eclipsar a justia; logo, meu dever resistir ao injusto...
Mete a tua espada na bainha!...
No resista ao malvolo!...
Esta a linguagem irracional do divino Mestre mas os seus humanos
discpulos julgam de seu dever serem mais racionais, corrigirem o Mestre e
arvorarem-se em supermestres do Cristo. S de vez em quando aparece um
mahatma, uma grande alma, e resolve ser to irracional como o Mestre, e
proclamar ahimsa, no violncia, e crer incondicionalmente no poder da
Verdade, satyagraha... Mas as pequenas almas, que creem nas armas, no
creem nessa grande alma, que detesta as armas...
Achamos que, se hoje h 50% de maus contra 50% de bons, e se estes no
resistirem queles, amanh haver 100% de maus contra 0% de bons e
dever nosso evitar esse descalabro. E, por isto, conclumos, devemos tambm
ns, os bons, tornar-nos maus, resistindo aos maus, para que os maus no
tomem conta do mundo e destruam o reino de Deus sobre a face da terra.
Que da nossa lgica?
Que da nossa matemtica?
Como poderamos salvar do extermnio os bons, se ns mesmos nos
tornssemos maus?
O primeiro passo para garantirmos a vitria dos bons sermos bons ns
mesmos, e no nos nivelarmos com os maus.
Deixai crescer o joio no meio do trigo.
Toda essa confuso vem da nossa miopia de identificarmos a existncia do
gnero humano com a sua efmera vivncia neste planeta e reduzirmos a vida
do homem a 50 ou 60 anos.
A vitria do bem sobre o mal nada tem que ver com este cenrio telrico ela
essencialmente um processo csmico. Ainda que todos os bons fossem
exterminados pelos maus, aqui na terra, nenhuma derrota teria sofrido a causa
do bem. Mas se os bons resolverem tornar-se maus, a fim de salvar a causa do
bem, ento a causa do bem sofreu grande derrota as potncias do inferno
prevaleceram contra as potncias do cu.
A nossa tarefa no consiste em salvarmos a causa do bem, mas simplesmente
em sermos bons ns mesmos, incondicionalmente bons. No temos de salvar
o Universo de Deus temos de salvar somente a ns mesmos. O resto no
da nossa conta.
Se eu me salvar, se tu te salvares, se ns nos salvarmos ento o Universo
estar salvo...
to fcil envolver numa aura de amor abstrato a humanidade toda mas
to difcil amar em concreto o ser humano ao nosso lado, esse ser individual A,
B ou C!...
Ningum heri pelo que fez s heri quem sabe sofrer e renunciar
(Schweitzer).
Somos todos doutores em teorias e somos todos analfabetos na prtica...
Se algum capaz de realizar na vida prtica 1% dos 100% da sua filosofia
terica est de parabns...
As nossas altivolantes teorias abstratas produzem em ns uma embriaguez de
gloriosidade a prtica concreta de uma diminuta parcela dessas teorias nos
mantm num nvel de silenciosa humanidade...
A nica ordem e harmonia ao nosso alcance a ordem e harmonia dentro de
ns mesmos...
O homem livre?
Der Mensch kann tun, was er will aber er kann nicht wollen, was er will( o
homem pode fazer o que ele quer mas no pode querer o que quer) estas
palavras estranhas de Schopenhauer, citadas por Einstein, contm uma
verdade profunda. O homem, certo, possui livre-arbtrio, em virtude do qual
pode fazer o que quer mas ser que esse livre-arbtrio lhe permite querer
tudo que ele desejaria querer e fazer? No! O livre-arbtrio do homem
suficiente para que ele seja responsvel por seus atos livres, mas essa
responsabilidade limitada pela prpria finitude da natureza humana:
ontologicamente falando, o homem apenas parcialmente livre. Se ele fosse
totalmente livre, seria onipotente, como o Infinito. No Infinito, diz Spinoza,
coincidem a liberdade e a necessidade; Deus necessariamente livre, e
livremente necessrio.
Teologia clerical e descalabro social
Repetidas vezes, em livros e conferncias, tenho abordado este tema de
candente atualidade e quase sempre me tem valido esta franqueza o ttulo de
anticlerical. Se sou anticlerical, no sou por mero esporte e caturrice, mas a
isto sou levado pelo impacto inexorvel de fatos que ningum pode negar.
Tenho afirmado, e continuo a afirmar, que a mais profunda e a mais ignorada
raiz do nosso descalabro social est na falsa educao religiosa, desde a Idade
Mdia, mesmo desde o quarto sculo da era crist. Os resduos dessa falsa
educao desceram do consciente e se depositaram no subconsciente dos
povos, sobretudo latino-catlicos, e l no fundo formaram uma vasta
estratificao, que atua imperceptivelmente sobre a vida desses povos.
Os povos nrdicos, no latinos, graas ao seu pronunciado esprito de
autonomia, libertaram-se parcialmente dessa teologia clerical, quando, a partir
do sculo XVI, sacudiram o jugo da tutela de Roma, sede dessa infeliz
ideologia.
A teologia clerical no obriga seus adeptos a serem internamente honestos;
pode o catlico cometer qualquer pecado durante a vida inteira; mas, se se
arrepender no fim da vida e receber absolvio sacramental pelo clero, est
limpo como se nunca estivera sujo. Se sobrar alguma pena temporria a ser
expiada no purgatrio, qualquer amigo aqui na terra a poder cancelar,
mediante uma rpida e cmoda indulgncia plenria. Portanto, no
necessrio que o catlico evite os pecados, com sacrifcios, honestidade e
justia. Para que esses sacrifcios, se sem sacrifcio algum pode conseguir o
mesmo efeito? A lei do menor esforo predomina na natureza inteira; e por que
deveria o homem sujeitar-se a 50 anos de honestidade difcil, no mentindo,
no roubando, no defraudando, se pode conseguir o mesmo efeito em 5
minutos de arrependimento no fim da vida? Mesmo no caso em que esteja
inconsciente e no possa confessar-se, a Extrema-Uno, como afirma a
teologia, produz o mesmo efeito no moribundo, e a indulgncia plenria de um
amigo completar, sem sacrifcio algum, o que, porventura, falte ainda para a
entrada no cu.
Esta teologia comodista, adotada por centenas de milhes de homens, um
convite para todas as desonestidades durante a vida terrestre. Por isto, pode o
catlico viver despreocupado no meio dos seus pecados, porque a presena do
padre, chaveiro do cu, lhe garante a salvao.
O protestante no se libertou totalmente dessa ideologia funesta, mas reduziu
a extrema facilidade da salvao e estabeleceu um mtodo mais difcil, pois um
ato de f no sangue redentor de Jesus menos garantido do que uma
confisso da parte do penitente e a absolvio do padre.
Semelhante ideologia flagrantemente antitica e forma o substrato da
conscincia desses povos, impossibilitando o triunfo do reino de Deus aqui na
terra.
Ora, onde no h conscincia de honestidade interna no pode haver
verdadeira prosperidade. fato que os povos latinos, mais afetados por essa
infeliz teologia, andam sempre de reboque dos povos nrdicos, onde penetrou
mais profundamente a tica sadia do Evangelho.
Sobretudo aqui no Brasil proclamado aos quatro ventos como a maior nao
catlica do mundo o descalabro social atingiu propores calamitosas,
principalmente nas classes dominantes. Governo e funcionalismo pblico,
geralmente falando, no se julgam responsveis perante o povo; recebem o
seu salrio mensal, produto do suor do povo, e no se julgam obrigados a
prestar nao os servios correspondentes a esse dinheiro, que vem do
povo. A mais clamorosa falta de conscincia caracteriza quase todos os
departamentos da administrao pblica, federal, estadual, municipal.
Se o Brasil conseguisse um perodo, digamos, de cinco anos de administrao
100% honesta, estaramos totalmente livres da inflao interna e da dvida
externa. Mas isto exigiria a presena de meia dzia de homens autorrealizados,
ou em vias de autorrealizao e onde esto esses homens?
Esses homens deviam possuir, em uma s pessoa, dois atributos rarssimos: 1)
competncia e 2) honestidade. Por vezes, encontramos pessoas competentes
no-honestas, como tambm pessoa: honestas no-competentes mas seria
verdadeiro milagre encontrar um homem ao mesmo tempo 100% competente e
honesto.
No meu livro Educao do homem integral, pus o dedo na ferida, fiz o
diagnstico do mal nmero um do Brasil e do mundo, e sugeri tambm o
remdio nico ao grande mal.
Mas quem estaria disposto a tomar o remdio?...
A nica crise real que existe no Brasil, e alhures, a crise de conscincia...
As nossas teologias eclesisticas dominantes relegaram para aps-morte o
triunfo do reino de Deus e assim dispensaram seus adeptos de qualquer
esforo srio de o realizar, pelo menos inicialmente, aqui na terra, como exigia
o Cristo.
A sociedade humana de hoje composta de duas classes: os exploradores e
os explorados. Aos exploradores prometem os nossos telogos a salvao,
contanto que deem uma porcentagem dos seus roubos para fins religiosos ou
beneficentes enquanto os explorados recebem a magra consolao de
sofrerem mais uns 10, 20 ou 50 anos, porque pelo sofrimento que o homem
se salva, e Jesus foi o maior dos sofredores.
E assim conseguem as nossas teologias narcotizar as conscincias de
exploradores e dos explorados, perpetuando o status quo da nossa infeliz
humanidade e impossibilitando o advento do reino de Deus sobre a face da
terra. Guias cegos guiando outros cegos no repetiria o Cristo estas
mesmas palavras aos nossos guias espirituais, essas palavras candentes com
que ele fulminou os guias espirituais de Israel? Ser que alguma coisa
mudou?...
Enquanto o nosso cristianismo continua a trair o Cristo sob a bandeira do
Cristo! no h esperana de melhores dias para a humanidade.
Transformao da vida
Todos os grandes mestres da humanidade proclamaram a necessidade de
transformao da vida humana na terra nenhum deles ensinou conformismo
nem escapismo, como de uso e abuso entre os seus chamados discpulos.
Os materialistas acham que o homem deve conformar-se passivamente com as
misrias da vida terrestre, extraindo da existncia a maior soma de conforto e
prazer, e depois morrer para sempre. Os espiritualistas acham que a vida
humana pode ser transformada em algo melhor, mas s depois da morte e em
regies distantes do Universo, que chamam cu; a vida presente, dizem eles,
necessariamente culpa e pena, sofrimento universal e inevitvel. No
aprovam os crimes dos exploradores, mas acham que os explorados devem
conformar-se com a situao, at que soe a hora da libertao, em outros
tempos e outros espaos.
Tanto o conformismo dos materialistas como o escapismo dos espiritualistas
so incompatveis com o esprito de transformismo dos verdadeiros mestres da
humanidade, que proclamam, todos eles, a possibilidade de uma profunda
transformao da humanidade, aqui e agora.
Transformao em virtude de que fora?
Em virtude de uma fora que existe em cada homem, mas se acha em estado
de dormncia na maior parte dos homens. O homem pode fazer tudo que quer
escreveu Schopenhauer mas no pode querer tudo que quer. E por que
no pode o homem querer tudo que quer, ou que quisera poder? Porque o
poder querer depende de um certo grau de experincia ou compreenso
interior e poucos esto dispostos a crear em si esse ambiente, no qual
poderia vingar esse poder querer, cujo nascimento exige a morte de algo que
o velho ego no quer ver morrer. Se o gro de trigo (ego) no morre, ficar
estril...
Aqui estamos na fronteira de duas causalidades, a causalidade mecnica, que
nos escraviza, e a causalidade dinmica, que nos liberta. Aquela uma
continuao, cadeia de muitos elos concatenados este um novo incio, cuja
causa no jaz l fora, em algum elo anterior, escravizante, mas dentro do
prprio homem; essa causa interna o prprio Eu humano, divino, onipotente,
que pode causar tudo, mas no causado por nada.
Esse novo incio, essa causalidade dinmica, essa causa causante e no
causada, essa onipotncia dormente dentro do homem, o seu livre-arbtrio, o
seu onipotente eu quero.
Enquanto o homem deixar dormir essa onipotncia Eu, ele chutado como
uma bola de jogo, pelas circunstncias tirnicas, como se fosse impotente,
quando de fato onipotente, mas uma onipotncia dormente uma impotncia
e da vm todas as misrias e fraquezas do homem profano. A soluo no
est na presena da onipotncia, a soluo est na conscincia dessa
presena onipotente. Deus est onipresente, mas dentro dessa onipotente
presena de Deus existem todas as misrias e fraquezas do homem por
qu? Porque o homem no tem conscincia dessa presena libertadora, e por
isto escravo. Quando o homem passa da inconscincia da presena
onipotente, para a conscincia dessa presena onipotente, ento se torna
partcipe dessa onipotncia, porque lanou uma ponte entre si e essa
presena, e essa ponte, que a conscincia (a cincia com), o pe em
contato com a onipotncia do Universo. A ntida conscincia da presena
universifica o homem e, como o Universo onipotente, o homem assim
universificado tambm onipotente.
Tudo possvel quele que tiver fides (f)... e nada impossvel quele que
tiver fides...
Fides o radical de fidelidade; o homem que tiver fidelidade, harmonia,
sintonia, com o Todo Onipotente, tambm participa dessa onipotncia; mas se
no estiver em sintonia ou fidelidade com a Onipotncia Csmica, fraco e
impotente.
Se as circunstncias externas derrotam o homem, de quem a culpa? A culpa
do prprio homem, porque ele no evocou do sono a sua substncia interna.
Quando o homem descobre, finalmente, o tesouro oculto do reino de Deus
que est nele, embora ignoto, ento entra ele em contato direto com a energia
nuclear, que o seu Eu divino, essa luz do mundo, capaz de permear e
transformar, pelo poder da substncia interna, todas as circunstncias
externas.
As nossas igrejas dizem que o homem tem o dever de se transformar, mas no
lhe do o poder para essa transformao; e por isto o homem se convence de
que essa metamorfose no possvel, aqui e agora: se possvel , deve ser no
futuro, aps-morte, em alguma longnqua galxia do cosmos. Esperam muito
da morte como se a morte fosse mais poderosa que a vida...
A Filosofia Csmica, a Sabedoria Univrsica, a Mensagem Crstica, afirma que
essa transformao possvel, aqui e agora, pela onipotncia do nosso Eu
divino, tornado consciente, pleniconsciente; e mostra ao homem o caminho e o
processo de despertar em si essa onipotncia dormente.
Esse poder est no ncleo do homem; e uma absoluta fides ou fidelidade a
esse ncleo divino extrai dele essa energia nuclear. Quando o homem vive a
verdade Eu e o Pai somos um, Vs sois deuses ento se torna ele
onipotente. E todas as fraquezas do homem acabam em fora, todas as suas
ignorncias culminam em sapincia...
A ignorncia e o erro escravizam o homem a sabedoria o liberta.
A verdade a experincia vital Eu e o Pai somos um...
O caminho para essa experincia mstica uma profunda fides aliada a uma
genuna tica da vida diria, porque sem essa tica no possvel uma
verdadeira fidelidade Realidade Suprema.
Essa vivncia tica, que preludia a experincia mstica, , no princpio, um
caminho estreito e uma porta apertada; mas acaba, no fim, em um jugo
suave e num peso leve. Por causa dessa dificuldade inicial, muitos homens
deixam de descobrir a facilidade final; muitos preferem ser alegremente maus a
viverem tristonhamente bons porque no descobriram ainda o maravilhoso
elixir de serem alegremente bons.
Bomba atmica ou Sermo do Monte?
A bomba atmica o ltimo produto da inteligncia lucifrica do homem, essa
inteligncia que sempre destri pela violncia o que construiu pela cincia.
O Sermo do Monte o mais perfeito produto do esprito crstico, que tudo
constri pelo amor, e nada destri pelo dio.
A negatividade do dio no compreende a positividade do amor.
Enquanto o homem marcar passo no plano da falsa matemtica, de opor
violncia, continuar a reao em cadeia das violncias destruidoras, e a
humanidade marcar passo nesse interminvel crculo vicioso, de construir
para destruir.
Somente quando o homem aprende a nova matemtica infinitesimal, de opor
benevolncia violncia, amor ao dio, bondade maldade, que ele rompe
um elo da cadeia e a cadeia est inutilizada.
Somente o comunismo das almas pode acabar com o comunismo das armas.
Somente esta matemtica-au do amor pode neutralizar a matemtica-mirim do
dio.
Basta quebrar um nico elo duma cadeia de cem elos, e a cadeia est
inutilizada. Se um nico homem chega plenitude do amor, neutraliza o dio
de muitos milhes (Gandhi).
Mas para quebrar um nico elo na cadeia do dio, requer-se uma fora to
grande que at parece fraqueza e covardia aos olhos dos profanos. Pagar mal
com mal, olho por olho, dente por dente; ferir a quem nos feriu; reclamar o
manto que algum nos roubou; negar a outrem um servio de mil passos que
nos pediu tudo isto chamado fora e brio pelos profanos, e o contrrio
considerado falta de brio e de dignidade.
Se eles soubessem que os violentos so os fracos, os valentes so os
covardes e os mansos e pacficos so os fortes, os homens cheios de brio e
de dignidade!...
Mas... cada um pensa e age segundo a medida do seu conhecimento ou da
sua ignorncia...
Fara Moiss Gandhi
A violncia do Fara derrotada pela inteligncia de Moiss e estas duas
so superadas pela benevolncia de Gandhi. Cada um apela para aquele tipo
de fora que lhe parece ser a maior. Quem no dispe da magia mental de
Moiss, deve lanar mo da violncia brutal do Fara mas quem descobriu a
benevolncia espiritual, pode aposentar aquelas outras foras. Quem dono
da fora do esprito pode renunciar ao esprito da fora.
Que diria um leo, um elefante, um bfalo, se lhe recomendssemos que
estudasse energia eletrnica ou fsica nuclear, em vez de derrotar os seus
inimigos com a fora dos seus msculos, dos seus dentes, das suas garras,
dos seus chifres? Tacharia de fraqueza a inteligncia humana e consideraria o
clmax da fora a violncia material que usa.
Que diria um homem inteligente se lhe recomendssemos ama os teus
inimigos, faze bem aos que te fazem mal? No acharia melhor a velha praxe
matar teus inimigos e faze mal a quem te fez mal? Consideraria fracos,
tolos, covardes a todos os cultores da bondade espiritual... E teria razo, l do
seu ponto de vista. Cada um julga as coisas assim como ele , e no assim
como elas so, porque o conhecido est no cognoscente segundo o modo do
cognoscente. O homem material s pode dar valor s coisas materiais cada
qual com seu igual. O homem intelectual s d valor s coisas da inteligncia.
O homem espiritual no pode ser compreendido pelo homem mental ou
material.
Quem conhece apenas 10 no d valor ao 50; e o conhecedor de 50 no d
valor ao 100.
Todo o nosso conhecer depende do grau do nosso ser. O critrio dos nossos
valores bitolado pelo grau da nossa evoluo interna.
Matria essa desconhecida
O materialista ingnuo julga saber o que matria. Fala da matria como de
uma coisa nitidamente conhecida. Pensa que matria seja algo tangvel,
visvel, cognoscvel.
E, no entanto, matria mera hiptese, um enigma, uma eterna incgnita, um
misterioso X. Nunca ningum viu nem tangeu matria. Matria um smbolo
para algo intangvel, incognoscvel; pode ser tudo, at esprito ou Deus, como
C. G. Jung desenvolveu to magistralmente no seu prefcio ao livro Die grosse
Befreiung; de Evans-Wentz.
O que os nossos sentidos percebem e a nossa mente concebe da matria no
passam de simples manifestaes ou atributos fenomenais da matria, mas
no a matria em si, a sua ntima essncia, esse eterno X do Universo.
De maneira que o materialista um dogmtico erudito, um crente ingnuo, que
cr e adora um deus desconhecido, pensando que o smbolo visvel da sua
divindade seja a prpria divindade que ele cultua. Todo materialista um
idlatra, que adora um eidolon (dolo), em vez do eidos (realidade). Mas como
ele ignora a sua prpria ignorncia, fala em tom de grave convico sobre a
sua matria essa desconhecida e, possivelmente, briga com seu vizinho
espiritualista, que adora um falso deus, o esprito.
Na realidade, ningum sabe o que esprito, como ningum sabe o que
matria; so dois rtulos para algo comum, que no isto nem aquilo, como
mostra Bertrand Russel, no incio do seu livro Analysis of Mind.
Materialistas e espiritualistas so ambos irmos de Dom Quixote que, como
refere Cervantes, passou uma noite inteira lutando contra moinhos de vento,
pensando que fossem formidveis regimentos inimigos; quando, ao
amanhecer, inspecionou o campo de batalha, o heri s viu asas de cataventos
despedaadas em vez de cadveres sangrentos de inimigos.
Quanta luta dom-quixotesca entre os devotos da matria e os cultores do
esprito! Luta em torno de dois smbolos cognoscveis que ocultam um
Simbolizado Incognoscvel...
Quando o homem se aproxima notavelmente do Simbolizado Incognoscvel, da
Realidade Absoluta, ento desiste de toda a luta, porque passou da ignorncia
para a sapincia e a sapincia no bandeira sob a qual se possa lutar
lutar s se pode sob o signo da ignorncia ou do erro.
Quem sabe no discute.
S discute quem ignora ou duvida.
Quando o materialista se torna espiritualista, troca de prefixo, hasteia nova
bandeira simblica mas continua a marcar passo no plano dos smbolos,
ignorando o Simbolizado. Quem conhece experiencialmente o Simbolizado, a
eterna Realidade para alm dos efmeros Realizados, esse no mais professa
materialismo nem espiritualismo; saiu da zona dos espelhos e enigmas e
contempla a Realidade face a face.
Quando eu era criana...
Quando me tornei adulto...
Muitas so as crianas que brigam por causa das suas lindas bonecas
simblicas poucos so os adultos que silenciam o que sabem, porque o
Simbolizado o grande Silncio...
Quem no sabe fala...
Quem sabe cala...
Quando algum sapiente troca o calar pelo falar tem a plena convico da sua
insipincia; mas, por vezes, as circunstncias o obrigam a agir como insipiente
e somente o plenissapiente pode sujeitar-se a esse paradoxo de parecer
insipiente; os insipientes ou semi-insipientes devem defender zelosamente a
sua pseudossapincia... Devem escor-la com toda a espcie de argumentos,
para que no desabe em runa...
O pouco pode ser dito a muitas crianas insipientes.
O muito s pode ser dito a uns poucos adultos sapientes.
O pouco ruidoso.
O muito silencioso, so os ditos indizveis de Paulo de Tarso.
Ser criana ou tornar-se como criana?
O homem ingenuamente crente no se tornou como criana, como o Nazareno
exige; ficou simplesmente criana, nunca saiu da infncia espiritual de um
ingnuo crer.
O descrente, o ctico, deixou de ser criana, no se tornou adulto. Passou da
infncia sadia para um infantilismo doentio.
Somente o homem sapiente adquiriu genuna adultez e por isto por mais
estranho que parea pode tornar-se como criana. A verdadeira sapincia
experiencial uma adultez infantil (embora no pueril); o homem experiente na
zona da suprema Realidade adquiriu uma sabedoria simples; to difana, to
distante de todas as sofisticaes, to cheia de segurana, de calma e de
evidncia, que jaz para alm de todas as ruidosas e orgulhosas discusses da
inteligncia analtica. Esse homem no um erudito, mas um homem culto.
Pode ser que esse homem no conhea muitas coisas, como o homemenciclopdia mas sabe muito; o seu saber antes qualidade do que
quantidade. No um fichrio de conhecimentos justapostos e desconexos o
seu saber tem algo de viso panormica, que sabe do lugar exato de cada
creatura do Universo.
O homem sapiente e culto sempre um homem serenamente dinmico e
calmo; no necessita correr afobadamente de c para l, a fim de apanhar e
segurar as mil e uma coisas e coisinhas da vida ele se acha como que numa
vasta plancie meridianamente iluminada, abrangendo simultaneamente todas
as latitudes e longitudes da redondeza; embora viandante, est sempre no
termo de todas as suas jornadas.
Da lhe vem esse indefinvel qu de paz dinmica, de tranquila segurana que,
no raro, envolve e penetra at as pessoas que dele se aproximam.
Saber tornar-se como criana em plena adultez uma arte divina, um
carisma mstico, a sabedoria csmica do homem que atingiu a estatura da
plena maturidade do Cristo.
Autorredeno ou alorredeno?
dificlimo para o cristo ocidental ser um bom yogui, no sentido oriental. Yga
implica autorredeno, e as nossas teologias so visceralmente
alorredentoristas. As teologias eclesisticas nasceram todas num perodo em
que nada se sabia da ntima natureza do homem. Para os telogos medievais
e as teologias que nunca saram da Idade Mdia o homem simplesmente
um pecador, porque ele o seu ego, o seu Lcifer mental e como poderia
um pecador redimir o pecador?
Da o instintivo horror que todo cristo eclesistico tem ideia de
autorredeno, porque confunde autorredeno com egorredeno.
A psicologia de profundidade dos ltimos decnios, de mos dadas com a
filosofia multimilenar do Oriente, nos deu uma compreenso mais profunda e
exata da natureza humana; sabemos hoje que o homem tanto o seu egopecador como tambm o seu Eu-redentor. O seu ego a sua persona (ou
mscara ilusria), o seu Eu a sua individualidade verdadeira. Somente pelo
Eu verdadeiro pode o homem perpetuar-se, incluindo o seu ego efmero que,
neste caso, se eterniza, integrado no seu Eu.
O que em ns peca o ego, a personalidade mental, a serpente rastejante, o
Lcifer do nosso semiconsciente mas o que nos liberta do pecado do ego o
Eu, a mesma serpente, mas j erguida s alturas, o nosso Cristo interno, a
luz do mundo, esse Eu indiviso em si e indiviso do grande Todo.
Entretanto, segundo as eternas leis csmicas, o que primeiro acorda no
homem, aps a longa hibernao inconsciente, o seu ego personal, e por isto
o homem se torna primeiramente pecador, ou pecvel, antes de despontar nele
a luz divina do Eu redentor. Esse tesouro oculto do reino de Deus no homem
continua dormente, ou semidormente.
Mas essa dormncia, ou semidormncia, do Eu divino no homem no nos d o
direito de identificar o homem com o seu ego pecador ou pecvel; pelo
contrrio, a ntima natureza do homem divina, crstica, pura, como a luz do
mundo.
Enquanto o cristo ocidental no ultrapassar a sua teologia medieval e no
descobrir o Evangelho do Cristo, no poder, de conscincia tranquila, praticar
yga;5 porque a verdadeira yga gira toda em torno da ideia da autorredeno
(no ego-redeno) pelo encontro do Cristo interno.
5. Escusado dizer que no estamos falando de hatha-yga, que muita gente pratica hoje em
dia e que nada tem que ver com a yga superior, mental e espiritual, de que aqui falamos.
Felizmente, o Evangelho do Cristo a Carta Magna da autorredeno, como
se v sobretudo luz do Sermo do Monte, que a quintessncia da
mensagem do Cristo. Nesse documento mximo de espiritualidade, como lhe
chama Mahatma Gandhi, tudo redeno do homem-ego pelo homem-Eu.
Bem-aventurados os pobres pelo esprito...
Bem-aventurados os puros de corao...
Bem-aventurados os que tm fome e sede da justia (verdade)...
Bem-aventurados os mansos...
Bem-aventurados os pacificadores...
Amai os vossos inimigos... fazei bem aos que vos fazem mal...
Deles o reino dos cus... eles vero a Deus... eles sero chamados filhos de
Deus...
Nenhuma palavra de ritualismo, sacramentalismo, magias mentais,
dogmatismos eclesisticos, porquanto o reino dos cus est dentro de vs...
O despertamento desse tesouro oculto do reino dos cus, que est dormente
em cada homem que isto seno yga?
A razo ltima da ineficincia do nosso cristianismo teolgico a expectativa
de uma alorredeno, de uma redeno e dum redentor que venha de fora do
homem, quando a redeno e o redentor esto dentro de cada homem. Mas,
como j dissemos, o simples fato da presena de Deus ou do Cristo no homem
no redime ningum; somente a conscincia dessa presena que redime o
homem de todas as suas misrias.
Por isto pode o homem crstico praticar yga com todo o sossego de
conscincia e com todo o entusiasmo do seu corao, na certeza de que est
no caminho reto e luminoso do prprio Cristo, sem qual ningum vai ao Pai,
porquanto um s o vosso guia, um s vosso mestre, o Cristo, ele que o
caminho, a verdade e a vida...
Hoje em dia se est avolumando, em todos os pases do mundo, a onda de
autorredeno. A elite da humanidade crist se est tornando cada vez mais
crstica; a massa continua a marcar passo no cristianismo teolgico ineficiente,
porque a hierarquia eclesistica no permite a emancipao espiritual, que
diminui o poder dos guias cegos guiando outros cegos. A humanidade rumo
ao Cristo no quer saber o que pensam os telogos quer saber o que disse e
fez o prprio Cristo. Pois, como dizia Tertuliano, toda a alma humana crstica
por sua ntima natureza. A alma teotrpica, ou cristotrpica, assim como as
plantas, sobretudo o girassol, so heliotrpicas, voltando-se sempre para a luz.
O cristianismo teolgico protesta contra a nossa apostasia mas o
Cristianismo crstico prossegue, impertrrito, na sua gloriosa jornada
ascensional. O sopro sopra onde quer...
O nosso cristianismo eclesistico um soro que injetamos aos homens, e
quem vacinado com o soro da nossa teologia crist est imunizado contra o
esprito do Cristo (Schweitzer).
Aceito o Cristo e seu Evangelho no aceito o vosso cristianismo (Mahatma
Gandhi).
Yga de fora ou yga de dentro?
Nesses ltimos decnios, como j foi dito, milhares de homens do Ocidente
procuram embeber-se de yga, e alguns ultrapassam a zona meramente fsica
da hatha-yga e tentam entrar no mundo desconhecido da yga superior raja,
bhakti, gnani, karma, e at kriya-yga. Organizam-se sociedades e cursos de
meditao, segundo o esquema dos mestres do Oriente, alguns dos quais
aparecem entre ns, de tempos a tempos. O prprio autor deste livro
frequentou, por diversos anos, um desses centros de yga oriental dirigido por
um autntico yogui da ndia, do qual foi discpulo, auxiliar e substituto
temporrio.
Entretanto, a maior parte desses praticantes de yga consideram essa prtica
como algo importado de terras longnquas; no descobriram ainda que todo o
Oriente e todos os Himalaias esto dentro de cada um de ns, que so
patrimnio nosso, intimamente nosso. O Eu central de todo homem o bero
da yga, e tanto a Bhagavad Gita como o Evangelho do Cristo so magnficos
roteiros para a mais ampla genuna yga que se possa imaginar.
No necessrio que pratiquemos yga importada importa que exportemos
yga de dentro de ns mesmos. O Oriente o nosso centro divino, o nosso
Cristo interno. O Himalaia a nossa alma, embora ainda envolto nas nuvens
da ignorncia. Uma vez dissipadas essas nuvens da ignorncia pelo sol da
sapincia, estamos em ntima unio (yga) com o Infinito, o Pai; porquanto o
Pai est em vs. Se o Pai est em mim, e se eu descubro a presena do Pai
em mim, ento sou um perfeito yogui, um homem unido ao Pai, um homem
divinizado.
O meu ocidente profano o meu ego o meu oriente sagrado o meu Eu.
Muitos dos nossos yoguis ocidentais nada disto compreendem; reforam cada
vez mais o seu pendor extravertido, buscando algo fora de si, quando deveriam
introverter-se descobrindo a verdade dentro de si mesmos. O nosso funesto
dualismo teolgico no lhes permite descobrir o grande monismo do Evangelho
do Cristo.
Quem tem de buscar o seu Deus de fora, e no o recebe de dentro escreve
Meister Eckhart esse no possui, e facilmente lhe acontece algo que o
desaponte.
Muitos cristos ocidentais esto decepcionados com o cristianismo eclesistico
e lanam-se agora, sfregos, a essa tbua de salvao que lhes vem do
Oriente, que lhes parece um supercristianismo. Uma coisa, porm, certa:
enquanto esses exerccios forem apenas uma mercadoria importada de fora
no tm persistncia nem daro tranquilidade definitiva. Para o oriental, a
experincia divina algo natural, de dentro da alma; a evoluo gradual das
suas ntimas potencialidades, e por isto encontra na contemplao mstica
plena e definitiva satisfao.
Enquanto o homem ocidental, desviado da verdade pelo dualismo teolgico,
no viver o profundo monismo da mensagem do Cristo, enquanto no viver a
verdade bsica do Pai em mim, do Eu no Pai, no poder praticar com a
mesma naturalidade e eficincia a sua yga.
Somente a verdade sobre si mesmo, sobre seu eterno EU SOU, que o
poder libertar e tornar profundamente tranquilo e feliz, na experincia da
verdade libertadora.
Imitao de Cristo ou Bhagavad Gita?
Que enorme diferena entre esses dois livros de fama mundial a Imitao de
Cristo, de Toms Kempis; e a Sublime Cano do Oriente, a Bhagavad Gita! A
Imitao procura, a todo transe, humilhar o homem, deprimi-lo, para que Deus
tenha pena dele. O motivo com que ela joga compaixo, pena, comiserao.
A Gita, por seu turno, procura levar o homem ao conhecimento da sua
verdadeira grandeza divina, a fim de superar as misrias humanas, ecoando
assim a mensagem do Cristo, segundo a qual o prprio Deus habita no
homem. Para o Gnesis de Moiss, homem ainda p, e em p se h de
tornar o que exato concernente ao ego mas, segundo o Cristo, o homem
luz, a mesma luz do mundo que o Cristo e isto se refere ao Eu divinocrstico do homem. A Imitao parece ter sido escrita no curso primrio de
Moiss a Gita nasceu na Universidade do Cristo.
Por Moiss foi dada a lei pelo Cristo vieram a graa e a verdade.
Da Imitao sai o homem deprimido da Gita sai ele sublimado.
Mas... para muitos prefervel soletrar o -b-c na escola primria antes que
possa compreender algo da alta sabedoria na Universidade do esprito...
O Inconsciente o divino
A superfcie consciente da nossa natureza o nosso pequeno ego humano
as profundezas inconscientes so o nosso grande Eu divino.
A Realidade Universal o grande Inconsciente, no o Inconsciente da
vacuidade, mas o Inconsciente da plenitude. O Inconsciente da plenitude o
Oniconsciente, mas esse Oniconsciente se apresenta ao nosso ego consciente
como sendo o Inconsciente. Os extremos se tocam. Quem olha para dentro da
treva nada enxerga; quem olha diretamente dentro da luz solar, nada enxerga.
Aquela escurido a ausncia da luz, esta a plenipresena da luz. Treva
total e luz total so, para a nossa percepo finita, a mesma coisa o Nada, o
Vcuo, a Treva, a Ausncia. Ns, os finitos, s enxergamos o Todo quando ele
reduzido a Algo, mas no o enxergamos como o Todo, que nos parece o
Nada. A Luz Incolor da Realidade Total no objeto de nossa percepo finita;
s a Luz Colorida da Realidade Parcial, isto , do Algo Finito, que pode ser
percebida por ns. Os nossos sentidos e o nosso Intelecto o nosso ego
humano funcionam como vlvulas de reduo, diz Aldous Huxley; se assim
no fosse, no poderamos existir como indivduos. O impacto da Realidade
Total
nos
aniquilaria,
desindividualizando-nos,
universalizando-nos;
deixaramos de existir finitamente, continuando a ser universalmente. Mas esse
ser universal no sou eu, no s tu, no nenhuma creatura finita, isto a
Realidade Infinita do puro Ser. Ns, os finitos, existimos graas nossa
finitude; existimos merc das nossas limitaes. Se no fssemos limitados,
no existiramos como indivduos.
Por isto, o Inconsciente do Todo, do Ser, do Infinito, percebido por ns como
um Inconsciente. O ontologicamente Inconsciente , para ns, logicamente
consciente, uma vez que o conhecido est no cognoscente segundo o modo
do cognoscente.
Quando nos abismamos em profunda contemplao espiritual, estabelecemos
ponto de contato entre o nosso finito consciente e o Infinito Inconsciente. E,
quando o Inconsciente do Infinito sobrepuja o nosso consciente finito, ento
perdemos a percepo dos sentidos e a concepo do intelecto; tudo
desmaia6 diante do nosso consciente, nada mais sabemos de tempo e
espao, que so criaes do ego consciente, e temos a impresso de
submergirmos no eterno e no infinito, que so a negao de tempo e espao.
Quando entramos profundamente no sagrado Aum, e quando espira a
derradeira vibrao sutil do m final, ento, dizem os orientais, entramos no
grande nada,7 que a derrota do nosso consciente pelo Inconsciente.
Estamos no terceiro cu, no samadhi, no ekstasis (xtase), expresses vrias
para designar a absoro do consciente pelo Inconsciente.
6. A palavra desmaiar no vem do latim. Provavelmente, os portugueses a trouxeram do
Oriente, em sculos pretritos. Maya a palavra snscrita para natureza; quem desmaia,
perde a noo de Maya; est fora de tempo e espao, ambiente da natureza perceptivoconceptiva.
7. Como a palavra desmaiar, tambm o vocbulo nada no de origem latina. Na lngua
snscrita, o termo nada quer dizer silncio absoluto, o Infinito, o Vcuo. Quando o homem
atinge o auge da sua contemplao mstica, depois de esgotar todas as vibraes do sacro
trigrama AUM, abisma-se no grandioso Nada do silncio de Brahman. Esse Nada do existir
o Todo do Ser. O Nada da Imanncia de Deus o Todo da Transcendncia da Divindade. Da
Divindade nada pode o homem saber; de Deus ele sabe um pouco.
Totalitarismos fruto duma falsa filosofia
Desde que Hegel estabeleceu a sua famosa trilogia do esprito absoluto,
esprito objetivo e esprito subjetivo, comearam os totalitarismos da direita e
da esquerda.
Totalitarismo a falsa ideia filosfico-psicolgica de que alguma organizao
criada pelo ego seja superior realidade do Eu; o erro de que as coisas da
personalidade sejam mais importantes que a individualidade.
Consequncia inevitvel: o Poder, que do ego, derrotando a Verdade, que
do Eu. Quando as violncias do Poder-ego prevalecem contra as potncias da
Verdade-Eu ento estamos em pleno totalitarismo, seja da direita, seja da
esquerda, no fundo o mesmo erro anticsmico. H totalitarismo estatal,
partidrio, militar, econmico, industrial sempre baseado na ideia de que o
mundo objetivo (ego) seja mais importante do que a realidade subjetiva (Eu). O
erro de Hegel est em colocar o esprito objetivo acima do esprito subjetivo
quando, na verdade, este est acima daquele.
Como se v, a base do totalitarismo no poltica, mas filosfica, psicolgica; e
por isto intil querer refutar o totalitarismo no campo poltico; ele pode ser
refutado s no terreno em que nasceu. Mas como os polticos so, geralmente,
fracos na filosofia, no h refutao eficiente do erro hegeliano.
Todo totalitarismo uma aberrao anticsmica, um sacrilgio que atenta
contra a inviolabilidade do indivduo humano, do Eu divino no homem, da alma,
que degradada a servir como meio de algum fim considerado superior
prpria individualidade do Eu.
Neste sentido, a mensagem do Cristo profundamente antitotalitria ao
passo que o nosso cristianismo teolgico est em permanente e secreto
namoro com os totalitarismos hostilizando, por exemplo, o esquerdismo
comunista no por incompatibilidade com o esprito totalitrio, mas porque
dois totalitrios no se toleram no mesmo terreno. Que , afinal de contas, o
nosso cristianismo teolgico? No procura, por todos os meios, ser a ditadura
das almas, assim como o comunismo a ditadura dos corpos? No exige de
seus adeptos que creiam de olhos fechados, sem pensar, sem discutir, sem
discordar? Mesmo o setor do cristianismo que proclama o livre-exame, e
aquele outro, recente, que pretende ser no dogmtico no acabaram todos
eles em ditadura espiritual?
Onde o catlico que tenha o direito de pr em dvida a infalibilidade pontifcia?
Onde o protestante que tenha a liberdade de duvidar da infalibilidade da Bblia?
Onde o esprita que d a seus irmos a alternativa de aceitar ou no aceitar a
reencarnao?
Como poderiam essas ditaduras das almas confraternizar com a ditadura dos
corpos?
As ditaduras esto baseadas, todas elas, no princpio do Poder, que, em ltima
anlise, violncia.
A Verdade, porm, ignora a violncia do Poder, porque nasceu da liberdade, e
culmina na Liberdade. Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertar.
O princpio hegeliano da ditadura totalitria est dominando o mundo, da direita
e da esquerda, no mundo civil e religioso. Do meio desse caos totalitrio
emerge, sublime e silencioso, o obelisco monoltico da mensagem do Cristo,
que proclama a soberania da individualidade humana sobre todas as
organizaes da sociedade estatal, partidria, militar, industrial, econmica,
ritual, sectria, clerical, etc.
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro (objetos externos, ego,
persona) se chegar a sofrer prejuzos em sua prpria alma (sujeito interno,
Eu, indivduo)?
***
Mas, objetam, no o bem social mais importante que o bem individual? No
deve o homem servir sociedade; no deve o individualismo sujeitar-se ao
altrusmo?
Funesta confuso de conceitos!
nesta confuso que, de fato, se baseiam todos os totalistarismos, e at com
aparncias de verdade e honestidade.
Confuso entre o ego da personalidade e o Eu da individualidade.
Confuso entre aquilo que o homem tem e aquilo que ele .
fora de dvida que o ego personal deve subordinar-se ao ns social.
Mas o ego no o Eu, em sua plenitude. O Eu , na realidade, o Universal, o
Todo, o Infinito, o Absoluto e esse Absoluto nunca pode submeter-se aos
Relativos, o Infinito no um meio para os Finitos.
Nem verdade que todos os egos finitos perfaam o Eu Infinito, porque todos
os finitos so quantidades, ao passo que o Infinito qualidade. Mas a
qualidade no a soma total das quantidades; algo totalmente diverso.
Do mundo dos fatos diz Einstein no h nenhum caminho para o mundo
dos valores; estes vm de outra regio. Como o grande matemtico acertou a
verdade! Os fatos so as quantidades (o mundo inteiro) os valores so a
qualidade (a alma, o Eu). No h caminho que, das quantidades dos fatos do
ego personal, conduza ao mundo da qualidade dos valores, do Eu individual;
estes valores tm de vir de outras regies.
Os totalitrios, porm, querem derivar os valores dos fatos, querem subordinar
a qualidade sagrada do Eu individual (alma) s quantidades profanas do ego
personal esta a tendncia, consciente ou inconsciente, de todos os
totalitrios, da direita e da esquerda, da poltica e da teologia.
Quem subordina o esprito subjetivo (Eu) ao esprito objetivo (ego), renega a
Verdade, proclama o Poder.
A Verdade do Eu o Poder do ego.
Que pretendem todos os totalitrios seno isto: oferecem ao homem todos os
reinos do mundo e sua glria mas exigem dele que se proste em terra e
adore o ego e seus dolos como suprema divindade do Universo.
Aquele misterioso tentador, no deserto da Judeia, poderia ser proclamado
como o fundador e rei de todos os totalitarismos.
Seria de esperar que pelo menos o cristianismo fosse antitotalitrio. O nosso
cristianismo, porm, no inimigo, e sim rival dos totalitarismos profanos. E a
razo disto est no fato de o nosso cristianismo, na sua forma medieval
dominante, conhecer a realidade central do homem; os telogos de todos os
matizes continuam a identificar o homem com o seu ego personal; e por isto
afirmam que o homem essencialmente mau, pecador, filho de Satans,
devendo ser divinizado por meio de um rito sacramental (batismo) tudo isto
em flagrante oposio mensagem do Cristo, que ignora totalmente essa
infeliz teologia. Em qualquer exame teolgico dos nossos seminrios
eclesisticos, o Cristo seria redondamente reprovado em teologia como a
sinagoga j o reprovou, no ano 33 da era crist, porque a sinagoga era to
anticrstica como o so as nossas teologias.
Ora, uma vez que, segundo as nossas teologias, o homem o seu ego, e esse
ego o princpio do mal, do pecado lgico, luz dessa premissa, que o
homem-ego seja mau, pecador e, como a teologia ignora o homem-Eu, no
pode deixar de ser tambm totalitria, aguardando redeno de fora do
homem, e no de dentro dele.
No tempo da sinagoga, a teologia esperava redeno pela aplicao da lei
mosaica, isto , de um fator externo e isto totalitarismo!
Em nossos dias, a teologia espera redeno pela aplicao de um rito
sacramental, ou duma profisso de f num fator externo e isto tambm
totalitarismo!
***
A yga, esperando redeno do Eu divino do homem, redeno de dentro,
visceralmente antitotalitria; subordinando o esprito objetivo ao esprito
subjetivo, o ego ao Eu e nisto coincide com o esprito do Evangelho do
Cristo.
Yga incompatvel com a teologia eclesistica, mas perfeitamente
compatvel com a mensagem do Cristo. O Sermo do Monte, como j
dissemos, a Carta-Magna da autorredeno, no da egoredeno, mas da
Cristo-redeno, que o ponto central da yga. O ego pecador eclipsado
pelo Eu redentor.
O consciente sem o ego
Para o homem ocidental, inimaginvel a existncia de um consciente sem
um ego subjacente; o consciente parece ser um veiculado, e o ego o veculo.
Para o homem oriental fcil experimentar o consciente sem nenhum ego
subjacente; para ele, o consciente uma realidade autnoma,
autossubsistente, repousando em sua prpria identidade.
Esse consciente sem suporte, como se v, o Infinito, o Ser, o Todo, o
Universal, a Essncia, Brahman, a Divindade, o Absoluto e isto o verdadeiro
Eu Csmico.
O tu Csmico a Conscincia Universal.
Quando esse Eu Csmico se individualiza no homem, aparece o Eu Universal
como o Eu Individual; a sua forma mudou, mas a sua substncia ficou a
mesma. Neste sentido, Eu sou o Eu Csmico, Eu e o Pai somos um...
O meu existir individual tem por base o Ser Universal ou melhor, Eu sou o
Ser Universal, em forma individual; a Essncia Universal se existencializa na
minha individualidade. Assim como o contedo duma onda do mar o mar,
embora a sua forma seja da onda, assim Eu sou o Universal Absoluto em
forma individual relativa.
Eu e o Pai somos um, mas o Pai maior do que Eu nestas poucas palavras
do Cristo est sintetizada toda a filosofia csmica dos sculos e milnios. Mas
como o grosso da humanidade se acha ainda no plano da evoluo dualista,
impossvel, para a maior parte dos homens, aceitar esse avanado monismo
do Cristo e de outros mestres da humanidade.
O consciente sem suporte, sem veculo subjacente, o meu EU SOU: o
Nada Existencial, idntico ao Todo Essencial. a morte do ego separatista e a
vida do Eu unitivo. o meu silencioso Nirvana que surge do seio do ruidoso
Samsara.
Neste sentido, o Nirvana a total extino da personalidade e da definitiva
ressurreio da individualidade. O indivduo, que a minha identidade,
continua a existir integrado na Universalidade.
Esse estado nirvnico; esse terceiro cu, uma vez plenamente vivido e
saboreado, produz no homem to fascinante embriaguez mstica que todas as
belezas e grandezas do antigo Samsara desmaiam e so totalmente
eclipsadas, assim como a luz e as estrelas desaparecem no cu ao despontar
dos fulgores solares; continuam a existir, mas so como inexistentes.
Por isto, o homem que saboreou o Nirvana, e depois regressa, externamente,
ao Samsara da vida cotidiana, incapaz de se entusiasmar realmente pelas
grandiosas vacuidades de outrora, porque entrou em rbita, encontrou um
centro de gravitao mais poderoso e belo. Se, por motivos externos, tem de
tratar ainda das velhas profanidades, ele o faz por um senso de dever para
com os outros, mas nunca mais por um interno querer.
O homem que uma vez saboreou a sacralidade da Verdade est
definitivamente inutilizado para as pequenas e grandes futilidades do mundo do
ego.
Entretanto, acontece esse estranho paradoxo: precisamente pelo fato de ser
esse homem totalmente desapegado do Samsara profano por amor ao sagrado
Nirvana, por isto mesmo exerce ele um impacto veemente e irresistvel sobre o
mundo das iluses externas que superou.
Nada pode o mundo esperar de um homem que algo espera do mundo!
Tudo pode o mundo esperar de um homem que nada espera do mundo!
O homem que nada espera nem receia do mundo nem louvores nem
censuras, nem sucesso nem insucesso esse homem liberto e liberdade
poder, liberdade total onipotncia.
Para ser redentor do mundo, deve o homem ser redento do mundo; o irredento
em si mesmo no pode ser redentor para os outros; antes de ser redentor dos
outros deve o homem ser redentor de si mesmo. Ningum d o que no tem
ou melhor, o que no .
Quem nunca submergiu e se afogou totalmente no grande Inconsciente do
Oniconsciente no tem poder sobre os pequenos Conscientes.
Quem nunca morreu no vive plenamente.
O nascimento da planta uma consequncia da morte da semente.
A morte metafsica do ego um preldio necessrio para a ressurreio
mstica do Eu...
Morrer para viver...
Perder para ganhar...
Renunciar para possuir...
Alma de fora ou alma de dentro?
O homem ocidental dificilmente se convence da realidade da alma; mesmo que
a aceite, mais uma persuaso externa do que uma convico interna. O
ocidental to extraverso que s pode aceitar algo como real se veio de fora,
seja por doutrina humana, seja por graa divina e, para ns, Deus est do
lado de fora, uma entidade transcendente, e no uma realidade imanente.
Para ns, nada de positivo e bom vem de dentro do homem tudo vem de fora
dele; o homem objeto, mas no sujeito de algo divino.
Por isto, parece-nos a ideologia toda introversa como algo artificialmente
enxertado em nossa alma, e est sempre em perigo de se desprender, como
um enxerto que no pegou.
S quando vivemos a profunda experincia de que ns somos a prpria alma,
ento tudo muda.
Quando agimos com liberdade?
Agimos com liberdade total s quando somos autodeterminantes, quando
agimos com toda a nossa alma, totalmente identificados com o nosso Eu,
quando agimos com 100% daquilo que somos, sem nenhuma mescla daquilo
que temos, fazemos ou dizemos. Geralmente, agimos com 10, 20 ou 50% do
nosso ego, e apenas com uma pequena porcentagem do nosso Eu somos
parcialmente alodeterminados e parcialmente autodeterminantes.
Geralmente, somos tanto mais livres quanto menos agimos pelas razes
conscientes do ego, e tanto mais pela razo inconsciente do Eu. Somos livres
em nosso centro, somos escravos em nossas periferias; livres no sujeito,
escravos pelos objetos.
A razo (Eu) tem razes de que o intelecto nada sabe e ento somos
realmente livres. O ego personal o alodeterminado, no totalmente, mas de
prevalncia.
O Eu individual autodeterminante, por vezes sua totalidade.
Na verdadeira liberdade age a intuio direta do Eu central e no agem as
anlises indiretas do ego perifrico.
O Eu plenissbio o ego semissbio e semi-ignorante.
O ego peca o Eu redime do pecado.
O ego Lcifer o Eu Logos.
Realmente livre s o ato do qual o Eu tem a exclusiva paternidade, ato
emanado do Eu, s do Eu, todo do Eu.
A relao entre o Eu e o ato livre no definvel em termos de causalidade
alodeterminista, mas s como creatividade autodeterminante.
Causalidade liberdade
Causalidade necessidade, alodeterminismo, onde h repetio, equivalncia,
homogeneidade. Vai de finito a finito. produo.
Liberdade espontaneidade, autodeterminao, onde h
creatividade, heterogeneidade. Vai do Infinito ao finito. a creao.
novidade,
Causalidade continuao, cadeia com elos concatenados liberdade novo
incio, elo isolado, no preso no passado nem no futuro , o aqui e o agora
em sua plenitude.
Bergson distingue entre causalidade mecnica (fora) e causalidade
dinmica (dentro); desta eu sou o sujeito e o autor, daquela eu sou apenas
objeto.
Sincero sine cera
A palavra sincero derivada de sine cera (sem cera). Em grego, eilikrins, de
eile, calor ou fulgor solar, e krins, testado. Literalmente testado pelo sol.
Os antigos gregos e romanos fabricavam vasos de cermica e porcelana
finssima; mas alguns vasos rachavam ao calor do forno; mercadores
desonestos tapavam as rachas com cera branca, invisvel, da cor do vaso.
Somente quando exposto ao calor solar, no mercado, o vaso revelava ser
remendado com cera. Por isto os mercadores honestos marcavam os seus
produtos com a palavra sine cera (sem cera), em grego eilikrins ( prova de
sol).
Da, sincero: o que no foi falsificado.
Ignorncia da natureza humana fonte de
todos os desvarios
Em pginas anteriores focalizamos os totalitarismos, da direita e da esquerda,
que nasceram, todos eles, da ignorncia da verdadeira natureza humana.
Deste mal sabiam os filsofos da Grcia, quando mandaram gravar no
frontispcio do santurio de Delfos o clebre imperativo: Homem, conhece-te a
ti mesmo! Mas o homem continua a se desconhecer o homem, esse
desconhecido. Todas as nossas teologias crists, ou pseudocrists, pecam
pela mesma ignorncia. Por que que as igrejas declaram o homem pecador,
essencialmente mau e filho da ira divina? Se esta maldade se referisse
apenas ao homem adulto, poderamos compreend-la, mas em nossas
teologias, ela concerne criana recm-nascida, e at criana nascitura,
apenas concebida.
Esse erro universal das nossas teologias provm da ignorncia universal da
natureza humana; porquanto todas as nossas teologias radicam na Idade
Mdia, quando o homem no tinha ideia exata nem sobre o Universo, nem
sobre o homem. O nosso mundo externo era geocntrico (terra-centro); o
homem era egocntrico e at hoje predomina nas igrejas o erro do
egocentrismo. Estranhamente, os dois vocbulos geo e ego tm as mesmas
letras, apenas em ordem diferente. As teologias aceitaram, geralmente, o
heliocentrismo (sol-centro) em vez do geocentrismo mas recusam-se a
aceitar o logocentrismo (Eu-centro) em vez do egocentrismo. O Eu divino no
homem, o seu Cristo interno, o Logos, a Razo, o Esprito. Se as teologias se
converterem do velho egocentrismo para o logocentrismo do homem, haver
radical transformao na estrutura bsica do nosso cristianismo teolgico;
abraaremos a mensagem do Cristo, que essencialmente logocntrica Eu
e o Pai somos um... o Pai est em mim... o Pai tambm est em vs... vs sois
a luz do mundo... vs sois deuses tudo isto revela puro logocentrismo,
cristocentrismo, teocentrismo.
Se as nossas teologias estivessem mais interessadas na Verdade do que no
Poder, desde h muito teriam abandonado o egocentrismo pelo logocentrismo.
Mas as teologias so produto do homem-ego, que no pode deixar de ser
egosta, e todo egosta sacrifica a Verdade pelo Poder.
O retorno do nosso cristianismo teolgico mensagem do Cristo , pois, uma
questo da vitria da Verdade sobre o Poder, da individualidade espiritual do
homem sobre a sua personalidade intelectual, o triunfo do Eu divino sobre o
ego humano. As nossas igrejas so do partido do ego, e no do Eu; alistaramse no exrcito do Tentador Eu te darei todos os reinos do mundo e sua
glria e apostataram a causa sagrada do Tentado o meu reino no
deste mundo... eu sou o rei da Verdade...
As nossas teologias encolhem os ombros e perguntam com Pilatos quid est
veritas? e ficam devendo resposta a essa pergunta magna... E repetem, com
Pilatos: no sabes que eu tenho o poder?
Vertical transbordando em horizontal
Toda a genuna verticalidade produz espontaneamente verdadeira
horizontalidade; mas, quando falta aquela, acaba esta em mero horizontalismo.
Em termos menos geomtricos: onde h genuna experincia mstica nasceu
uma tica slida; mas, quando falta a mstica ou quando degenerou em
misticismo, ento a tica acaba em mero eticismo, num moralismo puramente
convencional.
o mal da nossa humanidade moderna: faltam indivduos que tenham contato
real e consciente com o Infinito, e por isto nada de grande acontece na zona
dos Finitos. Os mais belos canais no veiculam guas se lhes faltar a fonte.
O mais garante o menos, mas este no tem consistncia sem aquele.
O tronco vertical sustenta a trave horizontal, mas se faltar aquele, quem
sustentar esta?
Ama et fac quod vis! escreveu Agostinho. Ama e faze o que quiseres!
Poucos dos seus discpulos alcanam o sentido profundo destas palavras;
alguns chegam a ponto de pervert-las totalmente, tirando delas
consequncias diametralmente opostas, afirmando que tudo lcito e bom,
contanto que tenha por base o amor, que uma atitude de amor santifica todos
os atos externos. Mas o que eles entendem por amor aquele egosmo a dois,
o sensualismo, a libido que os romances profanos chamam amor, e que
justificaria todos os pecados.
Quem de fato ama, entrou na zona central do primeiro e maior dos
mandamentos, e de dentro desta verdade e pureza no pode praticar atos
maus, porquanto agere sequitur esse (o agir segue ao ser). Se o homem
todo amor no seu ntimo Ser, todos os atos de seu externo agir s podem ser o
transbordamento da sua pura interioridade.
Toda rvore boa produz frutos bons no pode a rvore boa produzir frutos
maus...
tica pr-mstica tica ps-mstica
No incio da jornada ascensional do homem est o caminho estreito e a porta
apertada e no fim est o jugo suave e o peso leve.
Estas duas expresses do divino Mestre so aparentemente contraditrias
nas verdades, porm, so complementares.
Todo homem resolvido a fazer a jornada ascensional do esprito verifica que
esse caminho sacrificial, doloroso, sangrento; experimenta em seu velho ego
que o reino dos cus alvo de violncia, e que somente os violentos o tomam
de assalto. Outrora, essa violncia era dirigida contra os outros, como de
uso e abuso de todo ego; agora essa violncia dirigida contra o prprio ego.
esse o estgio pr-mstico do homem em evoluo ascensional. O homem
de boa vontade, e ainda sem a devida compreenso, sofre a sua bondade e
virtuosidade.
Mas se conseguir escalar o Everest do seu sagrado Himalaia e entrar na luz
plena da experincia mstica, se estabelecer contato com o Infinito, e depois
regressar ao mundo das coisas finitas, verificar que esse ingresso no
santurio da experincia mstica produziu nele uma estranha alquimia o
caminho estreito e a porta apertada do seu dever compulsrio de ontem se
transformaram no jugo suave e no peso leve do querer espontneo de hoje.
A disciplina tica continua a ser a mesma; o dever no mudou mas o modo
como o homem mstico enfrenta e pratica essa disciplina do seu dever, esse
mudou totalmente. O lgubre tu deves assumiu o aspecto de um sorridente
eu quero. Amar os inimigos, fazer bem aos que nos fazem mal, e os demais
preceitos do Sermo do Monte que sacrifcio sangrento lhe parecia tudo isto!
O homem pr-mstico, quando consegue praticar esses horrores, s o pratica
como exceo da regra, nunca como regra geral; e essas excees logo o
enchem de uma conscincia de herosmo extraordinrio, de virtuosismo moral,
que reclama como compensao algum prmio, alguma recompensa, se no
na vida presente, pelo menos na vida futura.
Mas agora, aps a submerso no oceano divino da experincia mstica,
aqueles atos se lhe tornaram atitude normal e jubilosa. Aps o ocaso do dever
compulsrio amanheceu a alvorada do querer espontneo e isto redeno,
redeno mesmo na vida presente, entrada no reino dos cus, aqui e agora.
Donde vem essa grande diferena?
Que aconteceu entre aquele dever doloroso e esse querer gozoso?
Aconteceu a maior coisa que acontecer pode ao homem compreenso!
Compreenso de qu?
Compreenso de si mesmo!
Esse homem compreendeu a verdade sobre si mesmo, e essa verdade o
libertou. Libertou-o no s da inverdade, mas tambm do sacrificialismo da
prpria verdade ainda incompreendida.
O velho eu sou o meu ego se converteu na nova verdade eu sou o meu Eu.
A ego-iluso passou a ser autocompreenso.
E como a verdade essencialmente libertadora, essa verdade sobre si mesmo
libertou o homem no do dever, do qual ningum pode ser liberto, mas da
dolorosidade do dever, do carter sacrificial tu deves.
A lei mosaica tu deves, tu no deves, que caracteriza o declogo, cedeu
compreenso crstica eu quero, que do Evangelho.
A compulso foi substituda pela compreenso.
Por Moiss foi dada a lei pelo Cristo veio a verdade, veio a graa.
A ignorncia compatvel com o sacrifcio a sapincia ignora o sacrifcio.
A tica pr-mstica virtude a tica ps-mstica sabedoria.
O Cristianismo, na sua zona mais elevada, sabedoria e espontnea facilidade
nos seus estgios inferiores virtude e dificuldade.
A virtude o reto querer a sabedoria o reto compreender.
O profano no cumpre o seu dever.
O virtuoso cumpre o seu dever com sacrifcio.
O sbio cumpre o seu dever com jbilo.
A sabedoria, sendo o mais, inclui o menos, que a virtude.
As nossas teologias insistem em que o homem seja virtuoso, tico, bom, custe
o que custar a filosofia csmica mostra ao homem o caminho para ser sbio,
perfeito, feliz.
Quando todo o nosso dever passar para querer, e quando todo nosso querer
nascer do compreender ento ser proclamado reino de Deus sobre a face
da terra...
Ento haver um novo cu e uma nova terra...
Transmentalizai-vos!
esta uma das palavras mais maravilhosas do Evangelho, no texto grego do
primeiro sculo.
Metanoeite! transmentalizai-vos!... o que Joo, o Mergulhador, bradava,
em equivalente aramaico, s turbas nas margens do Jordo.
Metanoeite! transmentalizai-vos!..., metnoia, palavra composta do prefixo
met (alm, trans) e nous (mente), significando literalmente alm-mente, ou
seja, transmentalizai-vos, ultrapassai a vossa mente atual e entrai em um novo
esprito. Despojai-vos do velho ego e revesti-vos do novo Eu!
Esse processo interno e externo de metnoia ou transmentalizao se chama,
em latim, conversio, derivada de convertere.
Converter o contrrio de averter. Quando o homem-ego se averte de Deus
torna-se pecador, avertido, averso, de costas voltadas para Deus; quando d
meia-volta e o homem-Eu se converte a Deus, de rosto voltado para Deus,
ento se torna justo, remido, santo.
Certas tradues do Evangelho reproduzem o metanoeite por fazei
penitncia; outras preferem dizer arrependei-vos. Nenhuma dessas
tradues plenamente equivalente ao texto grego. Pode o homem fazer
quanta penitncia ou mortificao quiser; pode at arrepender-se dos seus
pecados, e no se converter, como fez Judas Iscariotes, que de to
arrependido fez a maior das penitncias, cometendo suicdio e, no entanto,
no consta que se tenha convertido.
Converter-se detestar o mal que se fez e fazer o bem que no se fez.
metnoia, transmentalizao total.
Morte fsica morte metafsica
Uma das palavras mais enigmticas do Cristo a seguinte: No temais aquele
que mata o corpo temei aquele que pode tambm matar a alma.
Quem que mata o corpo, isto , o corpo fsico do homem? um acidente, um
assassino, uma doena, a velhice.
Quem pode matar a alma, isto , o prprio indivduo, o Eu central do homem?
Somente o prprio homem, se pecar contra o esprito santo (universal) e assim
se tornar ru de pecado eterno.
Circunstncias externas podem matar o corpo material somente o prprio
homem pode matar a sua substncia imaterial.
A morte fsica uma pseudomorte temporria a morte metafsica uma
morte real, eterna. Quem morre fisicamente continua a viver; quem morre, ou
se suicida metafisicamente, aniquila a sua prpria individualidade, volta do algo
para o nada do existir, embora viva no Todo do Ser. Mas esse Todo do Ser
Universal no sou eu, no s tu, no nenhum indivduo humano, mas a
Realidade Universal, que no pode deixar de ser, mas eu posso deixar de
existir.
Essa morte do indivduo s pode ser provocada pelo livre-arbtrio do homem,
essa onipotncia para o bem e para o mal, para a vida eterna e para a morte
eterna.
Somente o Infinito atualmente imortal.
Qualquer Finito mortal por sua natureza.
Mas quando um Finito adquire alto grau de conscincia espiritual
(renascimento pelo esprito) imortaliza-se por participao ou integrao no
Infinito Imortal. Mas se deixa de se integrar no Infinito, desintegra-se, e esta
desintegrao a destruio do indivduo.
Nada se perde do esprito da Divindade; desaparece apenas uma forma
individual da Realidade Universal; recai uma onda ao seio do mar, mas o mar
no sofre diminuio com essa morte da onda, como no sofreu aumento com
o seu nascimento.8
8. Um tabelio no estado do Esprito Santo, tendo lido pensamentos similares no meu livro A
grande libertao, exprime o receio de que, se as centelhas divinas das almas humanas no
regressarem Divindade, mas se extinguirem, seja gradualmente diminuda e at extinta, a
Fonte Divina donde elas emanaram.
Esse receio est baseado no velho equvoco de que a alma humana (o Eu divino) seja uma
parcela ou centelha da Divindade. permitido aos poetas e oradores usarem essas
expresses mas proibido ao pensador filosfico. Nenhum Finito parcela ou centelha do
Infinito; os Finitos so manifestaes da divindade assim como o pensamento uma
manifestao do pensador. Os Finitos no so novas substncias ou realidades: so aspectos
existenciais da Essncia nica; so formas imanentes do grande Transcendente; so como
ondas na superfcie do Mar; essas ondas, quando surgem, no adicionam nova realidade ao
Mar e quando submergem no oceano no lhe subtraem nenhuma realidade substancial.
A alma humana, quando, por deciso prpria, se desintegra como individualidade existencial,
segue o mesmo curso que todos os outros seres da natureza seguem, quando morrem: a sua
individualidade existencial se dissolve na Universalidade Essencial, donde vieram. Essa
Essncia Universal quantidade dimensional que possa sofrer aumento ou diminuio; o
Infinito quando se revela em Finitos no cresce, e o Infinito, quando reabsorve em si os Finitos,
no decresce.
A nica diferena entre o indivduo hominal e os outros indivduos infra-hominais (minerais,
vegetais, animais) est em que estes no podem perpetuar a sua individualidade e por isto,
quando morrem, se dissolvem no todo Universal, sem dbito (culpa, karma) - ao passo que o
indivduo hominal, merc do seu consciente, pode perpetuar sua individualidade; e quem pode
deve, e, podendo e devendo e no fazendo, cria dbito (culpa, karma). Mas a culpa livremente
cometida acarreta pena necessariamente subsequente. Se essa culpa no for neutralizada
acarreta, no termo do ciclo evolutivo (aion, eternidade), a desintegrao do indivduo, que no
se integrou no Todo Universal (Divindade).
O perodo que precede a essa desintegrao final (morte eterna) chama-se inferno, isto ,
perodo de inferiorizao, involuo. enorme, no meio lgico, a confuso entre morte eterna
e inferno. Se h uma morte eterna, isto , definitiva, como poderia haver ainda um sofrimento
eterno? Como poderia um indivduo metafisicamente morto, desintegrado, continuar a sofrer?...
Se o indivduo consciente e livre pode criar sua vida eterna, perfeitamente lgico que possa
criar tambm a sua morte eterna. O Finito que no se integra no Infinito se desintegra isto
lei csmica.
Eu, portanto, sou imortalizvel, isto , potencialidade imortal.
Ora, se eu sou imortalizvel, tenho o dever de me imortalizar. Toda a potncia
reclama ato. Onde h um poder h um dever; e se o meu poder potencial se
converter em dever, crio dbito, culpa (karma).
***
Segundo a eterna matemtica da Constituio Csmica do Universo, todo
poder exige fazer, quem pode deve; e quem pode e deve e no faz, cria dbito,
culpabilidade. E toda a culpa livremente cometida acarreta pena
necessariamente consequente. A pena, ou o sofrimento, a sano, a reao
necessria da lei csmica contra uma culpa livremente cometida.
Eu sou livremente pecador, mas sou necessariamente sofredor.
Eu sou pecador porque quero eu sou sofredor porque devo.
A culpa minha a pena vem do cosmos.
Uma vez posta a culpa, e no revogada, segue-se inevitavelmente a pena.
Se assim no fosse, o cosmos poderia ser reduzido a um caos, a ordem
acabaria em desordem, porque o livre-arbtrio uma espcie de onipotncia,
que pode voltar-se contra as potncias do Universo e destru-las o que evita
essa destruio do cosmos pelo pecador o sofrimento, pelo qual o cosmos
garante a integridade e estabilidade da sua ordem e equilbrio. Se houvesse
culpa sem pena, poderia o cosmos ser destrudo pelo pecador dotado de livrearbtrio. Somente um livre-arbtrio equilibrado pelo sofrimento que deixa de
ser uma potncia anticsmica.
Estranhamente, porm, no coincidem a cessao da pena com a cessao da
culpa; o sofrimento continua, no raro, mesmo depois da extino da culpa,
assim como as guas do mar continuam agitadas ainda depois de cessar a
tempestade. que o homem individual no sofre apenas a sua culpa individual
cada um sofre a culpa da humanidade total. A solidariedade no mal to real
como a solidariedade no bem. Enquanto houver homens culpados, no deixam
os no culpados de sofrer as penas dos culpados.
Eu sou responsvel pela humanidade a humanidade responsvel por mim.
O homem liberto de culpa prpria pode sofrer as penas dos outros, ainda no
libertos das suas culpas. H um dbito coletivo. E todo homem sem dbito
prprio participa do pagamento dos dbitos alheios. uma tarefa gloriosa,
embora dolorosa. Infeliz do homem que ainda tem de sofrer por seus dbitos
prprios! Feliz do homem que j no tem de sofrer por seus dbitos prprios e
pode sofrer por dbitos alheios! ele um grande benfeitor da humanidade,
embora talvez totalmente desconhecido dos sofredores culpados. Quando o
filho de mulher passa ento a ser filho do homem cessa o sofrimento
compulsrio, porque esse homem plenamente liberto no s da culpa prpria,
mas tambm das penas alheias. E, a partir desse momento feliz, pode o
homem sofrer livremente, se assim quiser. E esse seu sofrimento livre exerce
um impacto muito mais poderoso sobre a humanidade culpada e sofredora do
que o sofrimento compulsrio dos outros sofredores.
Mas... aqui principiam as grandes trevas para os que no ingressaram ainda na
luz da iniciao espiritual...
Renuncia renncia!
Um homem tinha um espinho cravado num p; lanou mo de outro espinho e
com ele extraiu o espinho do p; depois lanou fora tambm este espinho.
Assim deve o homem teleios, o homem que demanda a libertao suprema:
deve renunciar, e renunciar prpria renncia.
Quem no renuncia prpria renncia pode ser um semiliberto mas no um
pleniliberto.
Renuncia a este mundo aqui na terra!
Renuncia ao outro mundo no cu!
Renncia esperana de seres premiado!
Renuncia ao medo de seres punido!
Renuncia conscincia de seres um super-homem por seres bom!
E, por fim, renuncia a todas as tuas renncias para seres plenamente liberto
pela verdade.
Para alm do egosmo e do altrusmo
A nossa egoidade quase sempre acaba em egosmo.
O nosso egosmo acaba em altrusmo.
Algum dia, o altrusmo te libertar do egosmo mas quem te libertar do
altrusmo, que a forma mais sutil do egosmo?
Por que s altrusta? No para mereceres um cu no alm? Sacrificas os
cus do aqum para receberes um cu no alm e no compreendes,
homem, que isto trocar o egosmo terrestre pelo egosmo celeste?
At quando te enganas a ti mesmo, sendo assim condicionalmente bom?
Quando comears a ser incondicionalmente bom?
O egosmo celeste a quintessncia de todas as teologias crists do
Ocidente. E precisamente este a ltima razo da ineficincia do nosso
cristianismo teolgico. Trocamos um egosmo manifesto e pecador por um
egosmo disfarado e virtuoso. Temos de ser bons, praticar boas obras, a fim
de ganharmos o cu, entendendo por cu um belo lugar que nos ser dado
como recompensa das nossas boas obras quando os grandes iluminados
entendem por cu um estado interno de conscincia em perfeita harmonia com
o Infinito, sem nenhuma especulao mercenria sobre recompensas externas.
Quando tiverdes feito tudo que deveis fazer, dizei: Somos servos inteis;
cumprimos a nossa obrigao nenhuma recompensa merecemos por isto
(Evangelho do Cristo).
Homem, trabalha intensamente e renuncia a cada passo aos frutos do teu
trabalho (Bhagavad Gita do Oriente).
Beatitude csmica
Poucos homens gozam uma beatitude genuna, pura, universal, uma delcia
csmica, porque no conseguem largar totalmente os estreitos litorais do
apego e perder-se no vasto oceano de um desapego total e incondicional. A
sua consciente vontade doadora sempre contagiada pelo inconsciente
instinto recebedor. Querem dar doadores a 50%, 80%, 90%, mas nunca a
100%; guardam para o seu avaro e perverso ego uma certa porcentagem,
mesmo que seja apenas 10% ou 1%; e assim o seu esprito doador no chega
ser total. So altrustas, mas no conseguem ser universalistas.
E isto, por qu?
No tm ainda a experincia total e absoluta da verdade sobre o seu Eu divino,
onipotente, esse Eu que tem tudo e no necessita de nada. O ego, por ser
fraco e necessitado, sempre especula por alguma recompensa, precisamente
por ser um necessitado, pobre, indiferente. Quem deseja ser recompensado
por suas bondades um egosta mercenrio; quem deseja ser compensado
prova que incompleto; quem deseja ser pensado, mostra que est doente,
ferido e necessita de algum ou de algo que lhe pense as chagas.
Estranhamente, o nosso termo pensar se refere tanto a um processo mental
como a um processo corporal; tanto o ego mental como tambm o ego corporal
deve ser pensado, porque nenhum deles representa a sade perfeita.
Quando o homem consegue despojar-se 100% de qualquer desejo de receber,
mas s pensa em doar e se doar, ento adquire ele sade perfeita e fora
integral e isto amor genuno.
Todas as tragdias conjugais nascem desse desamor ou pseudo-amor.
Deus d tudo e no recebe nada e todo homem tanto mais divino quanto
mais d e quanto menos quer receber.
Querer-receber denota doena, fraqueza.
Querer-dar indica sade e fora.
O recebedor um indigente, um necessitado o doador um rico, um
milionrio.
Entretanto, a Constituio Csmica do Universo de tal natureza que o doador
total e incondicional sempre um grande recebedor, queira ou no queira,
saiba ou no saiba.
No plano material, dar quer dizer perder no plano espiritual, dar quer dizer
ganhar e possuir mais firmemente aquilo que se d.
Dar ou doar no se refere, primariamente, ao objeto que dado, mas, sim, ao
sujeito que d; refere-se disposio interna com que o doador d o que tem e
d o que . O doador a medida da doao. O objeto dado reveste as auras e
os fluidos do sujeito doador. No muito importante o que se d
importantssimo como se d. Um objeto dado de m vontade est
impregnado dos fluidos negativos do doador, e s pode causar malefcios ao
recebedor.
O objeto dado algo quantitativo, neutro, incolor mas o sujeito doador algo
qualitativo, positivo ou negativo, que d cor ao objeto incolor. O doador imanta
das suas auras positivas ou dos seus fluidos negativos o objeto dado. E se o
recebedor desse objeto tiver alegria para essas auras ou esses fluidos, ser
beneficiado ou maleficiado por esses elementos pessoais de que est
impregnado o objeto impessoal.
O objeto doado valorizado ou desvalorizado pelo sujeito doador.
H mais felicidade em dar do que em receber.
Deus ama a quem d com alegria.
Aquele vintenzinho da viva do Evangelho tinha mais qualidade positiva, mais
valor qualitativo, do que todo o dinheiro dos outros doadores, cujas doaes
eram apenas quantitativas, neutras, ou at negativas.
Quem espera receber algo da natureza ou da humanidade o ego humano, e
no o Eu divino, porque este s recebe de Deus, do Infinito, a fim de o distribuir
no plano dos Finitos. O homem tem, aqui na terra, a misso de receber do
Infinito e distribuir no Finito. Receber na vertical, e distribuir na horizontal.
O receber do Infinito e o querer-dar no Finito a prpria natureza do Universo
essncia-existncia. O Infinito, sendo absoluta Plenitude, no pode receber,
porque tudo tem e tudo ; mas a sua natureza se revela num incessante dar,
num fluir rumo aos Finitos. Por isto, todo homem, quanto mais prximo est do
Infinito, mais quer dar, e tanto menos deseja receber. E, segundo a Lei eterna,
quanto mais liberalmente o homem d aos Finitos, tanto mais abundantemente
recebe do Infinito.
Deus 100% doador e 0% recebedor; quanto mais o homem desperta em si a
conscincia divina eu e o Pai somos um tanto mais o doador e tanto
menos o recebedor. Onde h abundncia e plenitude, a h irresistvel
transbordamento do Infinito rumo aos Finitos.
Se o sol no fosse plenitude de luz, no poderia iluminar os espaos csmicos.
Se o mar no fosse plenitude de guas, no poderia inundar a terra, em forma
de chuvas benficas, distribuindo o seu contedo a todas as creaturas.
Quanto maior o Ser do homem, tanto menor o seu desejo de Ter.
A mania de querer-ter nasce da pobreza do Ser.
Quem Algum pela plenitude do Ser, de poucos Algos necessita para ter o
suficiente.
Os que hipertrofiam os Algos atrofiam o Algum e, por fim, o Algum definha
e morre, asfixiado pelos Algos.
Quando o Ser-Algum sobe ao znite da sua potncia, ento o Ter-Ego desce
ao nadir da sua impotncia.
O pouqussimo que Mahatma Gandhi deixou aps a sua morte, prova o
muitssimo que ele era em vida.
Quando Jesus deu o derradeiro suspiro na cruz no tinha mais nada, nem
sequer as roupas do corpo, que j andavam nas mos dos soldados romanos;
e, antes de morrer, se desfez dos dois tesouros vivos que ainda possua, sua
me e seu discpulo amado Eis a teu filho eis a tua me!...
E assim plenamente liberto das coisas do ego humano, podia o seu Eu divino
voar livremente ao Infinito Pai em tuas mos entrego o meu esprito...
Pode-se dizer, em resumo, que toda a grandeza do homem consiste no grau
do desapego voluntrio de todas as coisas do ego, porque, segundo uma Lei
eterna, a afluncia da plenitude diretamente proporcional existncia da
vacuidade: o grau da presena corresponde ao grau da ausncia.
A vacuidade, a ausncia de apego, deve ser produzida pelo livre-arbtrio do
homem; a plenitude, a presena da riqueza, realizada pela Lei Csmica, pelo
Infinito; pela Divindade.
Se o homem conseguisse 100% de desapego voluntrio, pelo Ser-Algum, o
Ter-Algo seria to abundante na humanidade que o reino dos cus seria
proclamado sobre a face da terra, aqui e agora.
E a Beatitude Csmica seria gozada por todos os habitantes do globo.
O sacramento do silncio
O que eu possa dizer a Deus ou de Deus no importante importantssimo
aquilo que Deus pode dizer a mim. E Deus dir coisa importante a mim, se eu
crear em mim ambiente propcio para ouvi-lo.
Mas, para que Deus possa falar, eu devo calar.
Deus no me fala se eu no me calar.
O silncio do ego provoca o verbo de Deus.
A minha ruidosa ignorncia afugenta a silenciosa sapincia de Deus.
O meu rudo estril, o silncio de Deus fecundo.
Quem fala esteriliza a mente.
Quem pensa esteriliza a alma.
Quem no fala nem pensa, fertiliza a alma.
Para alm de palavras e pensamentos comea a conscincia espiritual.
necessrio, primeiro, pensar mentalmente depois conscientizar
espiritualmente e jorrar para dentro de mim a plenitude da Realidade Divina.
O sacramento do silncio e da solitude produz a conscincia espiritual.
Muitos sabem falar eloquentemente.
Alguns sabem pensar corretamente.
Poucos sabem silenciar dinamicamente.
Mas... o silncio a agonia do ego. E, por isto, os eglatras tm horror ao
silncio, porque tm horror ao egocdio preldio para a ressurreio do Eu
crstico no homem.
Para quem viveu do barulho 30, 50, 80 anos, se afoga no mar do silncio. E,
por isto, tenta agarrar-se a qualquer tbua de salvao.
O ambiente vital do ego rudo, seja material, seja mental, seja emocional o
ego no vive sem rudos e barulhos de toda a espcie. Quando ento lhe falta
esse indispensvel elemento vital, sente-se o ego como que sem ar, sem
alimento e, se no consegue adaptar-se ao ambiente do silncio, acaba
morrendo de asfixia ou inanio.
Nosso crebro
A cincia demonstrou que o crebro humano contm 9 milhes de clulas
nervosas localizadas na substncia cinzenta do crtex, e cada uma dessas
clulas tem um nervo de transmisso. A soma total desses nervos, alinhados,
daria um comprimento de uns 500 mil quilmetros, isto , cerca da distncia
terra-lua.
Acham os materialistas que esse crebro material seja o rgo do pensamento
e que, faltando esse rgo, o homem seja incapaz de pensar.
Entretanto, foi experimentalmente provado que o crebro material no o
rgo do pensamento; o que serve de base ao pensamento algum crebro
imaterial, alguma vibrao, algum campo de foras muito mais sutil.
O Deus-monstro
A mais monstruosa blasfmia que as igrejas crists esto cometendo, h
sculos, a afirmao de que os males da humanidade so a expresso da
vontade de Deus.
Fulano morreu de um acidente... de cncer... paralisia infantil...
Pacincia! foi a vontade de Deus...
Uma criana inocente nasceu cega, surda, muda, deformada, idiota...
Seja feita a vontade de Deus!...
Se assim fosse, que sentido teria a petio ensinada pelo Cristo: Pai, seja feita
a tua vontade assim na terra como nos cus?! Nos cus, a vontade do Pai
feita com perfeita sade, alegria e felicidade, sem sofrimento nem lgrimas e
por que ela no feita assim tambm aqui na terra? Impossvel? Ento por que
essa petio, se o seu contedo irrealizvel?
Evidentemente, o Cristo admite a possibilidade de cumprir o homem, aqui na
terra, a vontade de Deus com perfeita sade e felicidade; se assim no est
acontecendo, no por culpa de Deus, nem porque Deus tenha mudado, ou
porque no queira os mesmos bens para todos os seus filhos. A diferena vem
da humanidade no necessariamente do homem individual que sofre o mal,
mas da humanidade, da conscincia coletiva, que o Cristo chama o prncipe
deste mundo, o prncipe das trevas, esta a vossa hora e o poder das
trevas.
Goldsmith, no seu livro A arte de curar, desenvolve maravilhosamente este
tema: Os nossos males no vm de Deus, nem sempre vm do indivduo A, B
ou C, que sofre, mas vm da humanidade como de um todo orgnico, cuja
solidariedade se manifesta to bem no mal como no bem. Mas, como at o
presente dia, prevalece na humanidade a mentalidade lucifrica do ego, e no
a espiritualidade crstica do Eu, o ambiente geral de sofrimento.
O sofrimento vem do ego pecador coletivo, da sua tendncia separatista, como
Moiss fez ver no Gnesis, e Gautama Buda explanou nas Quatro verdades
nobres da sua profunda filosofia.
Essa mentalidade-ego sat (adversrio), diabo (opositor), na linguagem do
Cristo. Simo Pedro opondo-se ideia do sofrimento voluntrio de Jesus,
dominado pelo ego, chamado sat. Judas Iscariotes, que ia trair o seu
Mestre, sob o signo do ego, apelidado de diabo; tanto este como aquele
agem em nome do prncipe deste mundo, da conscincia coletiva da
egoidade humana, que no pode deixar de ser egosta.
Quando se refere quela mulher que, havia dezoito anos, sofria duma espinha
encurvada, afirma o Evangelho que Satans a mantinha presa a esse estado.
Quando o povo tenta deter Jesus, declara ele que deve destruir tambm nas
outras cidades da Galileia as obras de Satans, referindo-se aos males dos
homens, doenas e pecados, que nascem da mesma fonte do ego coletivo.
Estamos habituados a glorificar a cruz como smbolo sagrado; entretanto, a
cruz foi fabricada pelos pecadores, e no por Deus. O que glorioso a
atitude de Jesus em face da cruz dos pecadores; mas gloriosa no a cruz em
si mesma, como produto do pecado. A cruz telrica, do Calvrio, a
quintessncia do pecado maldito seja quem pende do madeiro! somente a
cruz csmica, dos cus, que gloriosa, porque a superao daquela,
smbolo de suprema libertao. A cruz-telrica, com o p mais comprido, ainda
preso terra, sinal de sofrimento, que nasceu da culpa dos pecadores a
cruz csmica, com as quatro pontas iguais, livremente suspensa no espao,
o smbolo da libertao da glria e da vida eterna.
Muitas pessoas crists costumam usar como adorno uma cruzinha de ouro ou
outro material quase sempre a cruz do Calvrio, emblema de sofrimento, da
pena causada pela culpa da humanidade. Ser que essas pessoas se do
conta do que fazem?...
Gnio no funda sociedade
Nenhum gnio verdadeiro funda uma sociedade, uma igreja, um grupo, uma
organizao qualquer, para garantir a vitria das suas palavras e experincias;
o gnio sabe que a Verdade imortal em si mesma, e no necessita de
escoras e muletas para sobreviver; sabe que as potncias do inferno no
prevalecero contra ela.
Se um gnio fundasse uma igreja, uma sociedade, seria o limite da sua
genialidade e grandeza; seria o mesmo que querer encaixotar luz solar,
engarrafar vida, carimbar esprito.
O talento, sim, funda sociedades, precisamente por ser talento, e no gnio.
Quando Toms de Aquino tentou provar, com imensa erudio mental, que
Jesus fundou a igreja, a mais perfeita das sociedades, reduziu ele o maior
dos gnios csmicos a um talento humano, a um hbil codificador de preceitos
e proibies.
Incio de Loyola recusou-se, por muito tempo, a elaborar uma constituio para
a recm-chegada Ordem dos Jesutas, porque, aps um ano de silncio
auscultativo com Deus, na gruta de Manresa, achava ele que a experincia
mstica do amor universal suficiente para garantir a vida e prosperidade de sua
Ordem. Sentia ainda como gnio espiritual, e no ainda como talento mental.
Mas onde h muitos egos humanos a serem mantidos em certa harmonia (pelo
menos externa e mecnica), a no basta a genialidade do Eu divino;
necessria a habilidade do talento humano, de legisladores e codificadores, a
promulgarem os ominosos tu deves sobre as runas do glorioso eu quero,
como desenvolvi no captulo Agonia das primaveras; do meu livro Problemas
do esprito.
Eu quero a voz do esprito.
Tu deves o brado do intelecto.
A letra tu deves mata.
O esprito eu quero d vida.
Por Moiss foi dada a lei tu deves pelo Cristo veio a verdade, veio a
graa eu quero.
Muitos devem compulsoriamente.
Poucos querem espontaneamente.
Muitos so moralmente bons.
Poucos so espiritualmente perfeitos.
Penltima a boa vontade do homem virtuoso.
ltima a compensao do homem sbio.
Muitos so os vocados.
Poucos so os evocados.
Francisco de Assis era um gnio csmico de excelsa grandeza. O seu ideal era
ser espontaneamente bom; ser bom por querer, e no por dever.
Mas foi obrigado pelo papa Honrio a submeter o regulamento da sua
fraternidade incolor erudio multicor dos telogos eclesisticos, que
elaboraram uma constituio repleta de prescries, de obrigaes e
proibies, de prmios e castigos.
Foi esta a dolorosa agonia da primavera do ideal franciscano. Toda a
espontaneidade do gnio csmico submetida obrigatoriedade dos talentos
eclesisticos.
A fraternidade franciscana s pde sobreviver em forma duma ordem romana.
Toms de Aquino, pelo fim da sua vida, teve uma viso e depois disto no
escreveu mais nada e confessou aos amigos: Tudo que escrevi palha.
Quando desperta o gnio, todo o talento palha.
Quando eclode a mstica, toda a teologia palha e palhaada.
Toms de Aquino um Santo, ento ele o porque condenou como palha
toda a sua erudio teolgica.
Vocados e evocados
A palavra grega para evocar ekkalo (ex-evocare, evocar, chamar para
fora). De ekkalo veio ekklesa (em latim ecclsia, em portugus igreja).
O verdadeiro sentido da igreja a ideia da evocao, ou seja, a elite, o escol
dos evocados, dos que foram vocados; chamados, e responderam
jubilosamente a essa vocao ou chamamento e se fizeram os vocados; os
outros so apenas os vocados no evocados, os chamados que no
responderam ao chamamento.
Muitos so os vocados, poucos os evocados.
De maneira que o conceito genuno de igreja ou ekklesa no o de massa,
mas, sim, de elite. Nem todos os que so fisicamente da igreja pertencem
espiritualmente Igreja, porque esta no est neles. S os que atenderam
evocao e assim se tornaram evocados que so realmente da Igreja de
Deus, porque pertencem interiormente ao pusillus grex dos homens sacros da
ekklesa A vs dado compreender os mistrios do reino dos cus.
esse compreender, esse prender totalmente; esse saber, que
saborear, que perfaz a invisvel realidade da ekklesa.
A verdadeira igreja consta, pois, dos sapientes, dos iniciados, dos libertos e
no dos apenas crentes. A verdadeira fides uma fidelidade interna, uma
harmonia espiritual, uma sintonia com o Cristo interno.
Os membros da verdadeira igreja de Deus so os teleios, os que se aproximam
dos telos, isto da meta final da jornada, na expresso de So Paulo. O texto
latino traduz teleios por perfectus (perfeito), os que j per-fizeram, fizeram
plenamente a jornada ascensional e se aproximaram da meta suprema.
Teleios, perfectus o sapiente, aquele que sabe e saboreia em seu ntimo a
realidade divina.
Os descrentes so profanos de m vontade.
Os crentes so profanos de boa vontade.
Somente os sapientes que ultrapassaram a profanidade tanto dos descrentes
como dos crentes, e ingressaram na sacralidade dos sbios, que sabem como
Deus sabe, porque lhe tomaram o sabor, saboreando-o deliciosamente. Estes
formam a ekklesa dos evocados.
Querer crer poder crer
O homem no cr naquilo que quer cr naquilo que pode. S se cr
realmente naquilo que se pode crer; e esse poder depende de certo grau de
evoluo interior.
O querer-crer de muitos o poder-crer de poucos. Verdade que todos
podem potencialmente crer mas poucos podem atualmente crer; aqueles que
no atualizaram a sua potencialidade e isto o seu grande pecado, porque
quem pode deve, e quem no faz o que pode e deve cria dbito e todo dbito
gera sofrimento.
Schopenhauer escreveu: Eu posso fazer tudo que eu quero, mas nem sempre
posso querer aquilo que quisera querer. E Einstein cita com grande admirao
esta frase de Schopenhauer.
Para podermos querer requer-se um certo poder, que mais se adquire pela
vivncia do que pela querncia.
Recusar abusar usar
Recusar uma atitude preliminar necessria para poder usar corretamente,
sem abusar.
O homem profano abusa.
O homem virtuoso recusa.
O homem sbio usa.
O celibato de Gandhi, diz Tagore, antes budismo que brahmanismo, mais
virtude que sabedoria.
O homem sbio deve ser capaz de usar tudo, sem recusar nada e sem abusar
de nada.
Mas... melhor recusar do que abusar. E quem no assaz forte para usar
sem abusar, faz bem em recusar.
Muitos abusam.
Alguns recusam.
Poucos usam.
Juramento de Thomas Jefferson
No interior do grandioso monumento dedicado ao grande legislador Jefferson,
em Washington, esto gravadas as palavras:
Perante Deus e minha conscincia, jurei eterna hostilidade a toda a tiranizao
da mente humana.
A palavra inglesa mind pode significar a mente humana no sentido de
inteligncia; e pode tambm significar a alma do homem.
Pode a alma, o esprito de Deus no homem, ser tiranizada? No ela
soberanamente livre?
Se a alma, potencialmente livre, no se toma atualmente livre, cai vtima da
prepotncia tirnica da inteligncia lucifrica. Mas quem pode deve, e quem
no fez o que pode e deve cria dbito, e todo o dbito gera sofrimento.
Clima de espiritualidade
Sbado de aleluia. Um dos meus estudantes de filosofia me perguntou se havia
certeza histrica sobre a ressurreio do Cristo. Respondi-lhe o que podia, mas
ele no pareceu satisfeito.
Depois da retirada do estudante, me senti envolto e permeado por
pensamentos talvez no pensados por mim em tomo do problema, porque
para uns evidente o que para outros obscuro.
Deve haver um determinado clima, uma impondervel atmosfera em certas
pessoas; e neste ambiente germina com facilidade a semente da certeza
espiritual, sem nenhuma argumentao violenta. Em outras pessoas, a mesma
semente no brota.
Ser que A de natureza crdula, emocional, ao passo que B naturalmente
incrdulo, ctico?
Entretanto, a mais profunda razo dessa diferena outra.
Um vive habitualmente num clima propcio aceitao do mundo espiritual, e
por isto enxerga facilmente os fatos que tm afinidade com a sua atitude
positiva; toda a modalidade do seu ser interno, mesmo inconsciente,
favorvel aceitao do fato. O que, na verdade, determina o assentimento do
homem este ou aquele argumento analtico que no passa de um
catalisador, de uma espoleta de ignio que lana a fasca na massa explosiva
preexistente. O interno Eu do homem espiritual como lenha que pega fogo
com a aproximao de uma pequenina chama de fsforo ao passo que em
outra alma essa lenha est muito mida, e no reage facilmente ignio da
chama.
Em nossos cursos de filosofia csmica tenho feito, atravs de muitos anos, a
observao que compreender no quer dizer ter ouvido ou lido;
compreender no um ato isolado, desconexo, mas supe uma longa srie
de atos, at que esses atos formem uma atitude, uma longa cadeia de elos
concatenados. Finalmente, quando todo o ambiente est saturado de atitude
propcia, surge essa coisa misteriosa e indescritvel que se chama
compreenso.
Essa compreenso no vem de provas, demonstraes, argumentos analticos
que podem servir de lenha, mas a lenha, por mais seca, no ateia fogo por si
mesma. Todos esses preliminares conscientes so necessrios mas nenhum
deles suficiente para a ignio ou compreenso final. Algo do extraconsciente
deve acontecer para que o consciente pegue fogo.
, pois, de suma importncia essa creao de ambiente, porque quando o
discpulo est pronto, o mestre aparece...
O homem csmico viso do infinito em
todos os finitos
No znite da sua experincia csmica, vive o homem a suprema Realidade do
Universo, em toda a sua plenitude e integridade; vive o UNO em todos os
DIVERSOS; percebe a presena do eterno Nirvana em todos os Samsaras
temporrios.
E, por isto, pode o homem csmico amar sinceramente todas as Existncias
finitas na Essncia infinita, porque percebe o Creador em todas as creaturas.
A averso do mundo experimentada pelo mstico culminou na converso ao
mundo vivida pelo homem csmico (Welthinkehr setzt Weltabkebr voraus).
Aps o penltimo estgio evolutivo, que a fuga do mundo, atinge o homem
csmico o ltimo, que a convivncia com o mundo no mais a convivncia
do profano, que derrota, mas a convivncia do iniciado, que vitria. O
estgio antepenltimo do profano escravo, e o penltimo do desertor mstico,
fundiram-se no ltimo do vencedor csmico.
Esse homem enxerga a sacralidade do Infinito em todas as profanidades
finitas, e assim todas as profanidades de outrora so sacralizadas pelo
conhecimento da Verdade Libertadora, a Verdade de que o Infinito est em
todos os Finitos, e todos os Finitos esto no Infinito. Os DIVERSOS de fora so
iluminados pelo UNO de dentro o homem-csmico vive e saboreia este UNIVERSO.
A fim de chegar a essa viso de transparncia csmica, enxergando o Infinito
em todos os Finitos, deve o homem contemplar primeiro a Luz do Infinito em si
mesma, isoladamente, longe das coisas opacas do mundo dos Finitos; s
depois de se identificar totalmente com essa Luz como tal, isolada,
transcendente, e viver intensamente essa experincia mstica, que o homem
pode ver, mais tarde, essa Luz, como imanente em todas as coisas do mundo
objetivo e profano a opacidade de ontem se converteu na transparncia de
hoje.
Somente o homem habituado a ser solitrio com Deus pode ser solidrio com o
mundo a solido com Deus do mundo lhe confere a necessria
invulnerabilidade para poder ser solidrio com o mundo de Deus sem alegria
escravizante. O homem meramente social e socivel, que nada sabe da feliz
solido mstica, a ss com Deus, esse no pode ser solidrio com o mundo
sem apostatar da solido com Deus.
Essa solido em Deus deve ter-se tornado no homem uma segunda natureza,
uma querncia, um lar, um cu, um paraso, em que ele poderia habitar
eternamente.
Mas... essa profunda verticalidade da solido clama por uma vasta
horizontalidade de ao. Meditao e contemplao querem manifestar-se em
ao. Estranhamente, esta palavrinha ao, de duas slabas, est contida
naquelas palavras maiores, de quatro slabas. O homem de genuna meditao
e contemplao de irresistvel ao e atividade.
Do homem que algo espera do mundo nada pode o mundo esperar.
S o homem, assim liberto do mundo pela experincia da Verdade, pode
afirmar sem perigo e amar sinceramente todas as coisas do mundo, porque
deixou de ser escravo e se tornou senhor do mundo.
O Cristianismo uma afirmao do mundo, que passou pela negao do
mundo (Albert Schweitzer).
Homem! renuncia ao mundo, entrega-o a Deus! e depois recebe-o de volta,
purificado, das mos de Deus! (Mahatma Gandhi).
Quem no renunciar a tudo que tem no pode ser meu discpulo... quem
perder a sua vida ganh-la-; mas quem quiser salvar a sua vida perd-la-
(Jesus, o Cristo).
Eu morro todos os dias, e por isto que vivo mas j no sou eu que vivo, o
Cristo vive em mim (Paulo de Tarso).
De maneira que chegamos a esse estranho paradoxo da Verdade integral:
Quem nunca negou internamente o mundo profano no pode sem perigo
afirmar o mundo; a averso do mundo pela negao deve preceder
converso ao mundo pela afirmao isto libertao, equidistante da
escravido do profano e da desero do mstico.
Com isto no negamos, todavia, que a desero mstica seja melhor que a
escravido profana; pelo contrrio, afirmamos que a desero mstica um
meio necessrio para conseguir a libertao final. Todos os mestres espirituais
da humanidade insistem na necessidade da negao pela mstica para que o
homem possa conseguir a libertao total pela afirmao da Verdade.
Todas as coisas do mundo objetivo iludem e escravizam o homem que no
tenha experimentado a Verdade do seu mundo interior; s depois desse
encontro real e definitivo com a Verdade do seu Eu Divino, que as coisas do
ego humano podem ser aceitas sem perigo e at como auxiliares de
autorrealizao porque, depois dessa experincia da Verdade, a alegria de
outrora se converteu na imunidade de agora. S ento podem as delcias
(ananda) do Nirvana ser saboreadas em todas as formas do Samsara, sem
perigo, sem remorsos, sem vacilaes.
Na sua mais profunda intuio, mesmo inconsciente, est o homem normal
convencido plenamente vencido pela verdade de que nenhum ser do
mundo de Deus mau em si, contrrio ao Deus do mundo; uma voz interna lhe
diz, em profundo silncio, que todos os Finitos existem em virtude do Infinito;
que o eterno Transcendente Imanente em todas as coisas temporrias; que o
temporrio apenas uma manifestao parcial e transitria da Realidade total
e eterna.
neste sentido que Tertuliano escreveu que toda alma humana crstica por
sua prpria natureza. Esse teotropismo crstico que no homem se pode tornar
consciente, em todas as coisas do mundo de Deus.
O homem, embora parea ser um exilado aqui na terra, sabe no seu ntimo que
pode encontrar aqui um lar, uma querncia temporria, que no est
necessariamente em conflito com a querncia eterna, mas que pode ser um
preldio compatvel com a vida eterna; ele quer poder amar a existncia
terrestre sem amargura, sem remorsos, sem nenhum senso de culpa, porque
sabe que o reino de Deus deve e pode ser proclamado sobre a face da terra,
para que haja um novo cu e uma nova terra. Sabe que ele, e s ele, que
pode e deve libertar da corruptibilidade a natureza, que at a presente hora
geme e sofre dores de parto, ansiando pela gloriosa liberdade dos filhos de
Deus, que receberam as primcias do esprito.
Mas, enquanto as coisas do mundo lhe so opacas, simples objetos profanos,
no pode o homem repousar nelas sem inquietao interior, sem uma futura
converso; s quando ele v em todas as coisas externas outras tantas formas
e veculos finitos da Realidade Infinita; s quando o eterno UNO transparece
dos efmeros DIVERSOS; s quando o homem descobre o verdadeiro UNIVERSO Deus em tudo e tudo em Deus s ento pode ele reconciliar-se,
definitiva e jubilosamente, com o mundo dos Finitos sem apostatar do Infinito.
E ento ingressa o homem na grande Famlia Csmica, que o Reino de Deus
em toda a sua Integridade e Plenitude.
Quando a vivncia profana passa pela viso mstica, e quando a viso mstica
culmina na experincia csmica ento o Verbo se faz carne e habita no
homem cheio de graa e de verdade; ento o homem diversitrio do mundo
profano se une ao homem unitrio da solido mstica e desse conbio nasce
a maravilhosa prole do homem universitrio, o homem csmico, o homem
crstico, a Luz do mundo.
Realizao do homem integral
cosmoterapia
Todos os grandes mestres da humanidade sobretudo o Cristo so
unnimes em afirmar que o homem realiza a prosperidade da sua vida externa
quando espiritualiza a sua vida interna. As conhecidas palavras do Nazareno
no andeis solcitos pelo que haveis de comer e de vestir procurai em
primeiro lugar o reino de Deus e sua justia, e todas as outras coisas vos
sero dadas de acrscimo, estas palavras so extremamente absurdas aos
olhos de qualquer homem inexperiente; parecem expresso de um grande
idealismo, e ao mesmo tempo da ausncia total de um realismo prtico.
E, aparentemente, os profanos tm razo em no aceitar esse idealismo
espiritualista; pois no vemos todos os dias que essa focalizao unilateral da
conscincia espiritual no realiza as coisas materiais das quais temos
incessante necessidade? No falemos agora das coisas de imediata e
indispensvel necessidade para a vida de cada dia. Se eu no sei donde tirar o
feijo e o arroz, o po e a carne, para mim e minha famlia; se no tenho
recursos para pagar o meu aluguel, o nibus de cada dia, os impostos, a luz
eltrica, o telefone e outras coisas inseparveis da vida moderna, e se eu me
puser a rezar, a rezar intensamente, se fizer uma ou mais hora de meditao
espiritual ser que estas coisas indispensveis caem do cu sobre a minha
mesa?
Todos ns sabemos que essas coisas indispensveis no aparecem e, se eu
persistir em rezar e meditar morrerei rezando, e todos os meus acabaro na
misria e na mendicidade.
Isto to certo como duas vezes dois so quatro, to certo como certo que o
sol nasce cada dia no Oriente e se pe no Ocidente.
E, no entanto, continuam os grandes mestres da humanidade a afirmar
categoricamente que suficiente procurar as coisas espirituais, e que todas
essas coisas materiais viro por si mesmas, sem serem procuradas.
Como explicar esse estranho paradoxo?
Ser que todos esses mestres, o Cristo frente, so uns pobres enganados?
Ou so uns perversos enganadores? Ou so uma e outra coisa ao mesmo
tempo?
***
Vamos devagar, passo a passo, a ver se conseguimos solver esse enigma.
Antes de tudo, necessrio que tenhamos absoluta certeza e clareza sobre
uma verdade fundamental: que a Infinita Realidade est presente em todas as
coisas Finitas; que os Finitos s existem como manifestaes parciais da
Realidade Infinita Total. Os seres vivos existem porque neles est presente a
Vida; as Existncias Finitas so manifestaes parciais da Essncia Infinita.
Esta presena do Infinito em qualquer Finito um fato objetivo mas nem em
todos os Finitos existe a conscincia subjetiva desse fato.
A natureza infra-humana embora esteja imersa no mar do Infinito e esse
infinito esteja presente em qualquer ser da natureza, o mundo mineral, vegetal
e animal no tem conscincia dessa presena do Infinito nele.
Aqui na terra, somente o homem pode ter conscincia deste fato.
O homem pode ser consciente dessa presena e pode tambm ser
inconsciente (talvez melhor semiconsciente) dessa presena.
Quem pode, deve.
E quem, podendo e devendo ser consciente, no consciente, cria em si uma
atitude de dbito, de culpabilidade. E isto que acontece no homem-ego, que,
podendo e devendo ter conscincia da presena do Infinito nele, no possui
essa conscincia; no sabe que o Infinito est nele, e se ele est no Infinito; o
homem-ego no sabe que de si mesmo (pelo ego) ele nada pode fazer; mas
quem faz as obras o Pai (o Eu) que nele est.
Essa inconscincia culpada do homem-ego cria nele um estado negativo,
antirrealista, anticsmico. O homem-ego um separatista, sentindo-se
desligado da grande Fonte Csmica, do Uno, e s tem conscincia do (di)
Verso.
Destarte, o homem-ego faz de si um canal sem fonte.
Ser que um canal, ou encanamento, por si mesmo, pode produzir gua?
Certamente, possvel tirar gua da torneira de um encanamento, supondo
que se tenha deitado gua nele, com um balde ou regador; e sai justamente
tanta gua da torneira quanta foi deitada no encanamento, nem uma gota mais.
esse precisamente o estado do homem-ego. Ele tem de colher aquilo que
semeou. Tira das coisas Finitas tanto quanto nelas deitou. Se deixa de deitar
gua no encanamento, no vai tirar gua da torneira. Se deixa de tomar as
devidas providncias, no vai ter produtos, feijo, arroz, po, carne, ou dinheiro
para comprar essas necessidades.
assim que o homem-ego se move num eterno crculo vicioso, de produzir e
colher.
E, quando lhe faltam as coisas necessrias, possivelmente se lembra de
invocar poderes extramundanos para receber auxlio deles; o homem-ego,
quando crente, reza, pede, tenta fazer negcio com a Divindade, para pr gua
nos encanamentos da sua humana previdncia; e, por vezes, consegue de
poderes extramundanos inesperado auxlio no plano das suas previdncias
humanas.
Mas todo o seu rezar e pedir no sai fora da zona dos canais, se h mais gua
na torneira, porque os canais foram grandemente ampliados e alongados,
talvez por muitos quilmetros, de maneira que a fluncia das guas
notavelmente aumentada. Mas... no h ligao com uma fonte perene, que
independa dos encanamentos.
A soluo no est no aumento dos canais do ego a soluo est
unicamente no contato do canal com uma Fonte original.
Que essa Fonte?
Essa Fonte o Infinito.
Onde est esse Infinito?
Est presente em todos os Finitos tambm no homem.
Mas se a Fonte Infinita est presente no homem, porque no garante um fluxo
contnuo atravs de seus canais?
Porque, no homem consciente e livre, o fluxo da Fonte Infinita atravs dos
canais finitos depende da conscincia que o homem tenha dessa presena do
Infinito no Finito.
Na natureza infra-humana, h um fluxo permanente, porque da natureza infrahumana no se exige conscincia; o fluxo se realiza automaticamente pelo
canal inconsciente do instinto, que a inteligncia automtica da natureza.
No homem, porm, no h esse fluxo automtico; tem de ser um fluxo
espontneo, consciente e livre.
Sendo, porm, que a ndole do homem-ego visceralmente separatista,
negativista, o ego no liga o seu canal com a Fonte. E por isto, na vida do
homem-ego h somente aquela medida dos bens da vida que ele mesmo
produzir pela fora do seu egoconsciente, que muito limitado e precrio.
***
Quando ento o homem descobre que h uma Fonte perene para alm de
todos os seus canais intermitentes, que essa Fonte perene inesgotvel e flui
dia e noite; ento no h nenhuma necessidade que o homem deite gua nos
encanamentos das suas previdncias humanas, porque descobriu a Fonte da
Previdncia divina; descobriu a Fonte Absoluta alm de todos os seus canais
relativos. E, uma vez ligado Fonte perene do Infinito o canal finito, pode o
homem na certeza de que nunca faltar gua na torneira. E, pela primeira vez,
compreende o homem que o reino de Deus e sua justia a Fonte perene do
Absoluto e Infinito, e que todas as outras coisas, todas as necessidades da
sua vida material, fluem espontaneamente dessa Fonte.
A partir da, no precisa mais ganhar o seu po no suor de seu rosto,
arrancando-o da natureza; muito menos tem necessidade de tirar dos outros
homens os bens da vida; esse processo de transferncia seja da natureza,
seja dos outros homens se tornou inteiramente suprfluo.
O homem-Eu, que sucedeu ao homem-ego, partir da vive para trabalhar, mas
no trabalha viver.
Mas, enquanto a semiconscincia do homem-ego no se transformar na
pleniconscincia do homem-Eu, que traz em si a fonte das guas vivas, no
haver fluxo permanente de guas, isto , dos bens da vida material. E,
enquanto no se realizar esse processo interno, no adianta rezar, pedir,
porque falta contato entre os canais e a Fonte.
Quando o homem vive conscientemente o fato da presena do Infinito no Finito
o Pai est mim... e eu estou no Pai ento a Fonte Infinita comea a fluir
atravs dos seus canais finitos, mantendo-os sempre plenos de todos os bens
da vida. E o homem pode viver tranquilo e despreocupado em todos os planos
da sua vida material, porque a Fonte Infinita garante o suprimento constante de
todas as coisas finitas e necessrias.
A Fonte Infinita o grande SIMBOLIZADO os canais finitos so os pequenos
smbolos. Uma vez estabelecido o contato consciente com a Fonte, todos os
smbolos dinheiro, emprego, sade, bem-estar, boas relaes sociais, etc.
aparecem por si mesmos, como corolrios e consequncias naturais do reino
de Deus.
***
Mas, dificlimo ao homem profano inexperiente crer nessa matemtica
csmica. Se lhe faltam as coisas necessrias, dinheiro, roupa, alimento, casa
ser que o homem-ego pode produzir essas coisas?
Em carter precrio e transitrio, essas coisas parecem ser produzidas pelo
ego; mas no so durveis, nem do satisfao a seu possuidor.
O homem-ego, sendo essencialmente mope, no percebe que esse modo de
arranjar as coisas necessrias no um mergulho na Fonte Infinita; apenas
um prolongamento dos canais ego-fabricados. remendo novo em roupa
velha. Esse arranjo do ego no a cura do mal apenas uma represso
temporria de sintomas do mal e isto charlatanismo.
O ego produtivo.
O Eu creativo.
Produzir (ou criar) quer dizer passar de um finito a outro finito.
Crear (no criar) quer dizer passar do Infinito para o Finito.
Sendo que todas as coisas Finitas esto contidas no Infinito, o homem-Eu, que
descobriu o seu poder creador, tira da Fonte do Infinito todas as coisas finitas
da vida.
Esse tirar-do-Infinito no dispensa necessariamente os elementos finitos j
existentes. Jesus fez vinho de gua, fez po e peixe da luz csmica. O Eu
divino no homem possui esse poder creador, que pode ser um processo do Ser
Universal para o Existir Individual, como tambm uma forma definitiva de uma
coisa existente, um aperfeioamento de um existente em outro existente.
Todo o problema est em conseguir suficiente intensidade ou densidade de
conscincia para romper a barreira de tempo e espao e remontar ao Infinito e
Eterno.
Mas como o Infinito e o Eterno esto no homem, so a quintessncia da sua
natureza, o homem pode ter plena conscincia desse Infinito e Eterno, supondo
que avance at ao ntimo reduto da sua natureza humana.
Donde vm os bens da vida?
Contato com a fonte
Donde vem a gua que sai da minha torneira?
Vem do encanamento.
verdade? no vem da fonte?
Koestlers, no seu livro entre Gandhi e Nehru, conta do espanto de certos
indianos primitivos das montanhas quando, em casa de um missionrio
americano, viram sair gua da parede. Eles, os nativos, s conheciam gua a
sair da terra, no meio das montanhas ou das florestas. E agora, como que a
gua sai duma parede seca?
o caso de todos os profanos inexperientes: enxergam o trecho final do
conduto; nada sabem do trecho inicial, de alguma nascente distante, que nunca
viram. Os nativos indianos no viam a parte do encanamento dentro da parede
da casa, nem viam a parte que, antes de entrar na parede da casa, passava
pelo solo, ligando-se a uma fonte, distante talvez da a cem quilmetros.
O homem profano sabe que o po vem do cereal e de outros produtos da terra;
sabe que esse cereal tem de ser plantado num solo frtil. Mas o que h para
alm do cereal e do solo? Ser que nesses fatores visveis e imediatos est a
primeira origem do po?
O homem comum nada enxerga para alm do imediatismo do trecho final dos
canais da sua humana previdncia; a sua viso curta, mope; nada percebe
da Fonte Primria, da origem longnqua das coisas. Tambm no sabe que
essa Fonte Primria inesgotvel e pode mesmo funcionar sem nenhum canal
visvel. Uma nascente no meio das montanhas flui h centenas de sculos e
milnios, sem nenhum encanamento. Este serve apenas para dar determinada
direo s guas, mas no lhes d origem. Canal continuao, fonte incio.
A Fonte creativa o canal apenas produtivo, ou condutivo.
A descoberta mais estupenda que o homem pode fazer, aqui na terra ou
alhures, a de verificar que os bens da vida diria no vm do seu trabalho
inteligente, embora este lhes sirva, geralmente, de canal ou condutor. Quando
o homem descobre que todos os bens da vida material tm a sua origem
primria e fundamental numa Fonte imaterial, no visvel, ento, de profano,
passa ele a ser um iniciado, porque descobriu o incio de todas as coisas
continuadas. Outrora, essas continuaes sucessivas, conhecidas do velho
ego, eram para ele o suposto incio; o homem-ego, graas sua miopia, era
um continusta, e no um iniciante; confundia a longa srie das
continuaes derivadas com o nico incio original; toda a sua erudita
ignorncia era uma colcha de retalhos feita de farrapos de continusmo, de
fragmentos de canais. No conhecia incio nem iniciativa, s conhecia
continuao ou continuativa. O homem-ego tira os seus recursos de cada
dia da natureza material ao alcance dos seus sentidos e do seu intelecto,
mediante certas manipulaes agrcolas e industriais quando no tira esses
recursos das mos de seus semelhantes, transferindo-os da posse alheia para
posse prpria. Em ltima anlise, todo esse processo de transferncia de bens,
da posse de A para a posse de B ou de C, uma espcie de latrocnios; mas,
com a lei positiva dos homens civilizados legalizou certos tipos de
desapropriao e apropriao, a nossa sociedade considera legtima
propriedade certos latrocnios praticados dentro da lei; estes so considerados
honestos, ao passo que outros latrocnios, no legalizados, so tachados de
desonestos.
A nica forma de apropriao de bens realmente honesta a sua creao, a
sua eduo do seio da Fonte Primria, da alma do Cosmos, das profundezas
da Divindade, do Infinito, do Absoluto.
Mas enquanto o homem no adquirir conscincia da onipresena do Infinito em
todos os Finitos, no pode ele realizar esse ato creador, esse haurimento
imediato dos bens da vida de dentro do seio do mundo invisvel.
Quem nada sabe da Fonte longnqua, tem de recorrer aos canais propnquos.
Saber poder.
No saber no poder.
Quem no sabe que o Infinito est presente no Finito, no o pode utilizar,
eduzindo o visvel de dentro do invisvel, creando coisas materiais das
profundezas da Realidade imaterial.
O saber, a sapincia, a conscincia o Pai que est em mim me diz que a
Fonte de todas as coisas est em mim, embora ainda tesouro oculto; e
quando esse fato objetivo vivido subjetivamente, em plena conscincia, ento
essa vivncia ntima faculta ao homem o poder de tirar de dentro dessa Fonte
Infinita, desse Pai em mim, todos os recursos da vida cotidiana.
Enquanto o homem no realizou esse contato consciente com a Fonte Infinita
dentro dele, tem ele de tirar as coisas necessrias do mundo de fora, tem de
ganhar o seu po no suor do seu rosto.
A ignorncia produz trabalho forado, doloroso.
A sapincia convida a um trabalho espontneo, gozoso.
A ignorncia da presena do Infinito em mim diz: Tu deves!
A sapincia dessa presena diz: Eu quero!
Tu deves escravido eu quero libertao.
O Cristo nunca foi escravo de trabalho forado; nunca teve dinheiro nem
emprego; nunca adquiriu um lote de terra; nunca construiu uma casa para si;
nunca se preocupou com a subsistncia material e, no entanto, nunca foi
mendigo nem andou de tanga; no Calvrio, os soldados romanos repartem
entre si as vestimentas do crucificado e lanam sortes sobre a preciosa tnica
inconstil.
Dom Bosco dava casa e comida a centenas de meninos abandonados mas
nunca tratou de ter uma fonte de renda econmica na zona do ego; que as
suas previdncias humanas recebiam tudo diretamente da Fonte da
providncia divina.
A Instituio Cottolengo, em Turim, um milagre permanente; alimenta, dia a
dia, grande nmero de necessitados, mas no calcula nem quer saber donde
vm os recursos de cada dia; todas as suas previdncias so eclipsadas pela
Providncia; dispensa canais humanos, porque recebe da Fonte divina.
Mahatma Gandhi libertou centenas de milhes de hindus, canalizando as
guas vivas da Providncia divina pelos canais da previdncia humana, mas
no caiu jamais no erro funesto de querer tirar os recursos de dentro dos
canais humanos, dispensando a Fonte divina.
A miopia da inteligncia do ego s enxerga previdncias humanas.
A largueza da sapincia do Eu sabe da Providncia divina e, embora se sirva
muitas vezes das previdncias humanas, em hiptese alguma considera estas
como Fonte Primria e suficiente. No homem sbio, a inteligncia da serpente
est sempre integrada na simplicidade da pomba.
Essa atitude conhecida pelo nome de f, frmula verncula da palavra latina
fides, que o radical de fidelidade.
F , pois, fidelidade, harmonia, sintonizao.
Quando o homem sintoniza o seu pequeno ego finito com o seu grande Eu
Infinito, ento tem f, fides, fidelidade e ento tudo lhe possvel, e nada lhe
impossvel, porque ento a onipotncia da Fonte flui livremente atravs da
potncia dos canais; e a vacuidade destes plenificada pela plenitude daquela.
O mundo inteiro um sistema genial de matemtica de preciso: tudo funciona
em virtude de leis imutveis, rigorosamente exatas e infalveis.
O homem sapiente conhece intuitivamente essa matemtica csmica; esse
homem, l da excelsa atalaia da sua centralidade, tem uma viso cosmormica
do Universo em derredor; a sua viso unitria (Uno) lhe revela com segurana
todos os mistrios diversitrios (Verso). O homem sapiente conhece a lei que
rege esse maravilhoso Universo e, como ele atingiu o Uno, sabe de antemo
como funcionam os (di) Versos.
O homem sapiente discpulo do Uni-verso ele o autntico Universitrio.
Quando ele quer debelar um mal qualquer pecado ou doena evoca o
centro do Bem santidade e sanidade que est no homem e no cosmos.
Portanto, o homem e o cosmos so concntricos, tm o mesmo centro. Por
isto, o homem plenamente homificado est plenamente cosmificado.
Assim consegue o homem sapiente libertao total, mediante o conhecimento
intuitivo da Verdade.
***
Quando o homem descobre que os bens da vida no nascem dos canais da
previdncia do ego, mas, sim, da Fonte da Providncia do Eu, do Infinito dentro
do homem, ento pode ele distribuir liberalmente os bens materiais, porque a
Fonte espiritual lhe garante suprimento inesgotvel, sem nenhum perigo de
empobrecimento. Quanto mais ele distribui tanto mais lhe aflui do ubertoso seio
da Riqueza Infinita. O influxo vertical garante um efluxo horizontal.
Quem puxa um nico fio eltrico da usina para sua casa, no ter luz, nem
calor, nem motor, porque a atividade eltrica exige sempre dois polos, ida e
volta. Quem pretende receber algo da usina sem nada dar, nada ter; somente
quem recebe para dar que ter luz, calor, e movimento.
O egosta quer receber para ter.
O asceta no quer receber para no ter.
O sbio quer receber para dar.
Somente esta ltima atitude receptiva-dativa que est de acordo com a
Constituio Csmica do Universo, que um contnuo receber-dar, um influxoefluxo, uma infinita Plenitude em contnuo transbordamento rumo aos Finitos.
Dos canais finitos as guas vivas voltam para a Fonte Infinita.
Se os mares no evaporassem sem cessar as suas guas e as fizessem
descer em chuvas sobre a terra, dentro em breve no mais haveria fontes e
rios na terra; o contnuo dar do oceano possibilita um incessante receber.
Quando o homem-ego d algo de dentro dos seus canais finitos, perde aquilo
que d, e vai se empobrecendo.
Quando o homem-Eu d algo de dentro da Fonte Infinita, atravs dos seus
canais finitos, no perde aquilo que d, porque o Infinito no pode perder; pelo
contrrio, quanto mais o homem-Eu d tanto mais recebe do Infinito quanto
mais d aos Finitos. O receber diretamente proporcional ao dar. Recebe em
qualidade, e d em quantidade. Por isto, na zona superior, dar enriquecer
dando aos outros, em quantidade, o homem enriquecido em qualidade. Dar
algo valoriza o algum; empobrecer externamente em quantidade, enriquece
internamente, em qualidade. Perder no Finito ganhar no Infinito. E, por fim,
tambm ganhar nos Finitos.
O 1, enriquecendo de si os 000 sua direita 1000 no perde nada da
qualidade do seu 1, pelo fato de plenificar a vacuidade dos 000; o 1 pode
plenificar milhares e milhes de 00000000000000, nada perde do seu valor
pelo fato de valorizar os desvalores dos zeros.
O Infinito, dando aos Finitos, nada perde da sua Infinitude.
O Infinito no Homem o Eu.
O nico modo de enriquecer realmente dar liberalmente.
Em resumo e sntese: os bens da vida no vm dos canais do meu ego mas
sim da Fonte do meu Eu. Descobrir e fazer funcionar essa Fonte suprema
sabedoria, poder e felicidade.
H mais felicidade em dar do que em receber.
Liberdade total pela Verdade
O homem , aqui na terra, o nico ser que atingiu conscincia individual, que
pode dizer eu, que sente a sua alteridade em face do Todo Csmico. Os
outros seres da natureza mineral, vegetal, animal sentem, apenas
vagamente, a sua alteridade do Cosmos; no so eu, no tm conscincia
ntida da sua alteridade. O homem sente a sua alteridade.
Esse senso de que eu sou outro, eu no sou o Cosmos, essa alteroconscincia, privilgio nico do homem, aqui na terra. provvel que, em
outras regies do Universo, existam seres ainda mais nitidamente conscientes
da sua alteridade em face do Todo Universal; mas, aqui no planeta Terra, no
conhecemos nenhum ser que possua essa conscincia da sua no identidade
com o Todo Csmico. Os outros seres da terra podem ser cientes, mas s o
homem consciente, isto , ciente com, ciente de que ele outro, diferente
do Cosmos. At contra-ciente.
O primeiro estgio desse ser-consciente-de-si mesmo como um altar, como
algo no idntico com o Todo, produz um senso de separao ou separatismo.
Em vez da simples noo eu sou diferente do Todo, o homem, no primeiro
estgio da sua conscientizao, se sente como separado, distanciado do Todo;
e, no raro, a sua alteridade se revela como hostilidade. E isto
profundamente psicolgico. A fim de reforar o seu altero-consciente, recmnascido, fraquinho, precrio, vacilante, o homem primitivo luta com todas as
suas foras para no recair ao seio do Mar Universal e para manter-se na
superfcie como onda individual. Luta desesperadamente por afirmar e
intensificar a sua incipiente individualidade consciente, o maior tesouro que
conquistou atravs de milhes de anos de lenta e progressiva evoluo
ascensional.
E no tem o homem razo em defender com veemncia essa sua grande
conquista de alteridade individual?
Essa vigilante defesa da sua recm-adquirida e ainda incerta individualidade
como sendo primitivo a proclamar a sua jovem individualidade como sendo
uma personalidade autnoma, separada, como uma mscara (persona),
suscetvel de ser destacada do grande Todo Csmico, donde emergiu. O
homem primitivo recm-emerso do Mar Universal, proclama o seu Eu
individual, como sendo um Ego personal, proclama o Indiviso e Indivisvel do
Indivduo como sendo diviso ou divisvel, como persona.
Esta proclamao da personalidade, divisa ou divisvel, , por conseguinte, a
grande iluso, nascida de uma viso unilateral e incompleta da Realidade. No
existe nem pode existir Finito algum separado do Infinito assim como no
existe uma onda separada do mar.
Com outras palavras, o homem-ego vai ao extremo oposto do seu antigo
estado, pr-consciente, de identidade com o Cosmos, e desenvolve em si uma
conscincia de alteridade acsmica e anticsmica; faz da sua alteridade
acsmica uma hostilidade anti-csmica. No satisfeito com a sua alteridade Eu,
o seu indivduo, proclama freneticamente a sua hostilidade Ego, a sua persona.
Ainda no consciente da sua individualidade indivisa, vive na falsa embriaguez
de uma personalidade separada.
esta a felix culpa, o vere necessarium peccatum de que fala misticamente o
hino pascal do Exultet. O mal no est em que o homem passe por uma
evoluo, o mal est em que ele pare a meio caminho dessa jornada
ascensional.
este o nascimento do homem-ego, do homem persona, do homem-pecador,
que Moiss simbolizou pela serpente.
O homem-ego Lcifer, o porta-luz, no ainda a luz do mundo, mas j o
primeiro alvor matutino da luz, a alvorada penumbral do sol meridiano; e desse
semi-homem lucifrico pode, um dia, surgir o pleni-homem crstico suposto
que o homem descubra no seu intelectualismo atual a sua racionalidade
potencial.
Esse alvorecer do ego-consciente no homem primitivo que o pecado
original, a iluso sobre sua origem humana, o conceito primitivo na sua
homificao. Enquanto o homem-ego no atingir o homem-Eu, continua ele no
seu pecado original; somente a pleniluz crstica do indivduo Eu o poder
redimir da semiluz lucifrica da persona-ego.
Todas as grandes filosofias e religies, sobretudo o Evangelho e a Bhagavad
Gita, giram em tomo desse processo evolutivo do homem-ego rumo ao
homem-Eu do homem velho (Ado) e do homem novo (Cristo), do Aham
(ego) e do Atman (Eu). A conscincia da hostilidade separatista deve culminar
na conscincia da alteridade da individualidade unitiva. Quando o homem
conseguir viver a realidade csmica Eu e o Pai somos um... o Pai est em mim
e eu estou no Pai, mas o Pai maior do que eu ento estar ele remido do
seu pecado original, e entrou no reino dos cus, isto , saiu do seu ego
lucifrico e entrou no seu Eu crstico.
***
O primitivo homem-ego vive na iluso de que o seu ego personal seja a fonte
das obras que ele faz; enxerga o canal propnquo do seu ego, mas no v a
Fonte longnqua do Eu, e por isto a sua miopia o leva a considerar os canais do
seu ego como a Fonte do seu Eu.
Mais tarde, na progressiva visualizao da Fonte, para alm dos canais,
comea o homem, em evoluo ascencional, a perceber que existe uma nica
origem, causa ou fonte, donde dimanam e fluem todas as guas da Realidade
nica atravs dos canais mltiplos; percebe o Uno original nos Diversos
derivados do UNIVERSO e se torna consciente de que todos os Finitos vm do
Infinito.
No princpio, tem ele a impresso de que o Infinito da Fonte se acha para
alm dos Finitos dos canais, e comea a crer numa Fonte distante e
transcendente. Aos poucos, porm, descobre que o alm da Fonte no um
alm local, geogrfico, astronmico, mas, sim, um alm perceptual, isto ,
que esse alm-nismo da Fonte Infinita creado pela imperfeita experincia
dele, por sua fraqueza visual. Por fim, o homem faz a estupenda descoberta de
que o Infinito da Fonte no est, localmente, num longnquo alm, mas, sim,
dentro de todos os Finitos dos canais assim como a substncia do mar est
em cada uma das formas das suas ondas.
O homem descobre que o Transcendente de Infinito est imanente, presente,
em todos os Finitos, como a essncia invisvel de todas as existncias visveis.
A partir da, o homem em gradativa evoluo ascensional sabe que, embora o
Infinito (Pai) esteja nele e nele faa as obras, contudo o homem, como canal
dessa Fonte, responsvel pelos seus atos livres, porque esses atos revestem
a atitude do homem que lhes serve de canal e veculo. Se o canal humano
fosse apenas um autmato passivo e inconsciente como no mundo mineral,
vegetal, animal , no seria o canal responsvel pelo contedo recebido da
Fonte, porque obedeceria lei da causalidade mecnica; mas o canal do
homem livre , da sua parte, responsvel pelo carter que imprime s guas
que veicula, uma vez que a causalidade dinmica do livre-arbtrio, privilgio
supremo do homem, o constitui autor responsvel dos seus atos livres.
Se, por um lado, o homem sabe que as obras que ele faz so obras da Fonte
(Pai), por outro lado tem a conscincia da sua responsabilidade humana. A
ntida conscincia que ele tem da pureza das guas vivas recebidas da Fonte
Infinita gera no homem o anseio de manter altamente puros os canais
humanos, e o menor tomo de impureza o faz sofrer dolorosamente.
Quanto mais consciente o homem se torna da pureza da Fonte Divina tanto
mais consciente se torna ele tambm da mais leve impureza dos seus canais
humanos.
Os grandes Iluminados, enquanto ainda viajores ascensionais sempre se
julgam grandes pecadores; porquanto, numa sala intensamente iluminada, o ar,
julgado puro num ambiente menos luminoso, se revela cheio de impurezas, por
menores que sejam.
O homem, em avanada jornada ascensional rumo luz, sofre tanto mais as
suas insuficincias quanto mais se aproxima da Fonte da Luz, e as sombras
que projeta aps si se tornam cada vez maiores e mais espessas. Parece que
somente o Filho do Homem, que fizera os seus canais to puros como as
guas da Fonte, podia dizer afoitamente quem de vs me arguir de um
pecado?
Toda a tarefa do homem terrestre consiste em se compenetrar da verdade de
que o seu canal finito recebe tudo da Fonte Infinita e esfora-se por tornar os
seus canais humanos to puros como a Fonte Divina.
***
Sendo que o ego personal , per se, impuro (egosta), no podem os atos dele
emanados deixar de ser impuros, contaminando as guas puras da Fonte.
Da a tendncia de muitos msticos, sobretudo do Oriente, quererem desistir de
qualquer atividade e carem em total passividade, a fim de no aumentarem os
seus atos impuros.
Entretanto, os mais Iluminados dentre eles compreendem que a soluo do
doloroso problema da tragicidade existencial do homem no est na inatividade
como no est tampouco na atividade, mas est numa outra espcie de
atividade numa atividade no inspirada pelo ego pecador, mas, sim, pelo Eu
redentor. No agir por motivo de frutos ou resultados objetivos, externos, mas
to somente para cumprir a vontade daquele que me enviou isto redime
todas as nossas atividades da maldio do egosmo e lhe garante a pureza da
Fonte do Eu divino, do Pai em ns.
O meu Eu indiviso, no separado da Fonte Divina, e as obras que esse Eu
faz em nome da Fonte, so obras da Fonte, embora veiculada pelos canais
humanos, guas puras no contaminadas pelo ego, puras como o Eu crstico,
redentor.
esta a libertao total e definitiva do homem, aqui e agora, pela proclamao
do reino dos cus no homem e sobre a face da terra.
Nveis de conscincia
(Com base em autores vrios)
Toda a ascenso, na escala dos seres, consiste na mudana do seu nvel de
conscincia; essa modificao a razo de ser de todas as diferenas; ela
que faz a diferena entre o selvagem e o sbio, entre este e Deus.
Quando se diz que o homem superior est acima das coisas, isto literalmente
verdadeiro; certas coisas no o prendem mais; pelo fato de ele as encarar de
outro modo, por ser outro ele mesmo, essas coisas no tm mais poder sobre
ele.
Quem sabe superou aquilo que sabe e se libertou dele. Saber conscientemente
superar, libertar-se daquilo que se sabe assim como no saber ser
escravo daquilo que no se sabe.
Esse ver-melhor e conhecer-melhor no uma condio preliminar para a
redeno a prpria redeno ou libertao.
No h poder maior que o conhecimento sapiencial, que a verdadeira
compreenso. Neste sentido foi dito pelo Cristo Conhecereis a verdade; e a
verdade vos libertar.
No possvel nenhum progresso interior sem esse conhecimento, sem essa
elevao do nvel da conscincia.
No h crendice mais funesta do que a crena na invencibilidade do
determinismo das leis da natureza. A natureza, certo, age de um modo
determinado; no seu prprio plano ela invarivel, inderrotvel; entretanto,
todas as foras atuam to somente num determinado plano; mas quem se
eleva acima deste plano liberta-se da sua influncia e no atingido pelo seu
impacto. Graas ao nvel superior da sua conscincia, do seu livre-arbtrio, est
o homem acima do nvel da natureza inferior, onde atua apenas a lei da
causalidade mecnica, ao passo que no homem funciona a lei da causalidade
dinmica.
Quando o homem consegue elevar o seu nvel de conscincia do plano das
foras mecnicas, escapa ele desse plano, no apenas na imaginao, mas na
mais completa realidade; porque ter outra conscincia ser outro.
O nvel do nosso consciente determina o nvel do nosso ser.
Com 10 graus de consciente eu sou 10 graus; com 50 graus eu sou 50 graus,
com 100 graus de consciente eu sou 100 graus.
A medida do meu consciente a bitola do meu ser e do meu poder.
Na ntima essncia da sua natureza, o homem onipotente, e quanto mais
consciente ele se tornar desta verdade tanto mais se liberta das peias que o
escravizam.
Toda a nossa ascenso rumo a um poder superior essencialmente um
processo de conscientizao. Na minha ntima essncia eu sou o poder infinito,
embora na minha externa existncia os meus poderes sejam limitados. Eu sou
essa essncia onipotente, que a fonte de todas as minhas existncias, que
eu tenho, mas no sou.
luz desta verdade, possvel que tenham razo os sbios da ndia, quando
afirmam que o homem, chegado ao mais alto grau de conscincia, pode
superar a prpria morte.
E no seria este o sentido das palavras do Cristo Quem tiver fidelidade (f) a
mim, no morrer, e, ainda que tenha morrido, viver para todo o sempre? Ter
fidelidade a seu Cristo interno o mesmo que atingir o mais alto nvel de
conscincia.
E quando ele afirma o Pai est em mim, e eu estou no Pai o Pai tambm
est em vs, e vs estais no Pai, supe a possibilidade de crearmos em ns
esse nvel de conscincia, que ele tinha realizado em si, e que existe
implicitamente em cada ser humano.
***
Toda a redeno consiste, pois, num conhecimento perfeito e intuitivo. E a f
prepara o caminho para esse conhecimento.
A f, em sentido teolgico, consiste na aceitao implcita do contedo duma
verdade, antes mesmo de ser esse contedo conhecido explicitamente pela
razo como tal. A f, neste sentido, supe boa vontade, humildade e
devotamento. Mas toda verdade, quando aceita sem resistncia e abraada
com reverncia e amor, exerce um impacto sobre o consciente, e mais ainda
no subconsciente do homem, que muito mais sensvel do que ele mesmo
supe. nessa zona subconsciente que a f inicia uma espcie de germinao
ou incubao, que se desenvolve na direo do contedo fixado pela f, rumo
ecloso final, que a fides como experincia mstica.
Muitos homens que no esto em condies de compreender, chegam a ter
certeza das verdades graas a essa f firmemente fixada e sinceramente
praticada.
A Divindade Universal, Transcendente, se revela em muitas formas individuais,
imanentes. Pouco importa qual seja a forma sob a qual o homem cultue a
Divindade; ningum conhece a Divindade como tal; basta que cada um cultue
aquela forma individual da Divindade, aquele deus, que for mais acessvel
sua experincia pessoal.
Quanto mais o homem consegue elevar o nvel da sua conscincia tanto
menos importncia d ele a seu deus individualmente concebido e cultuado, e
tanto mais se aproxima da Divindade em si mesma.
E a razo direta que se aproxima do centro nico de todas as linhas
convergentes, aproxima-se tambm das outras linhas que demandam o centro
comum, aproxima-se dos outros cultores da Divindade, seus vizinhos e
companheiros de jornada.
Quanto mais o homem se aproxima do centro nico, tanto mais e aproxima de
todas as linhas convergentes, realizando assim a mstica do primeiro
mandamento pela tica do segundo mandamento.
A tragicidade da existncia humana
e sua soluo
Todos os grandes pensadores e mestres da humanidade falam do carter
trgico da vida humana.
Gautama Buda, nas suas Quatro verdades nobres, focaliza o problema da
tragicidade existencial do homem aqui na terra. O homem sofre, diz ele, porque
se individualizou num ego consciente. O mundo universal de Brahman no
ego, e por isto no sofre. Todo processo de existencializao individual um
movimento de separatismo centrfugo, um movimento antitotalista, anticsmico
que representa o caracterstico da culpabilidade e, como toda a culpa acarreta
pena, no pode a existncia individual deixar de estar sujeita ao sofrimento.
O mundo individual infra-humano vegetal mineral, animal no sofre ou sofre
pouco, porque no possui uma egoidade consciente; a individualidade desses
seres no culpadamente separatista.
A tragicidade do sofrimento comea com o mundo do homem, porque a
comea a egoidade consciente, responsvel por um separatismo consciente e
livre.
O mal, o pecado, a culpa est, pois, na persona do ego consciente e livre.
O Todo, o Universal, Brahman, o Bom, o Santo, o Feliz.
A Parte, o Individual, Maya, Atman, representam o polo oposto, antibom, o
antissanto, o antifeliz.
Toda a filosofia de Buda gravita em torno desta ideia.
Moiss, no Gnesis, concorda inteiramente com esta filosofia, quando diz que
o mal e o sofrimento comearam com o fato de ter o homem comido do fruto
da rvore do conhecimento do bem e do mal, isto , de ser tornado um ego
consciente, por sugesto da serpente, smbolo da inteligncia. No den da sua
inconscincia era o homem inocente e feliz, sem culpa nem pena; mas, depois
de entrar na zona fatdica da conscincia, tornou-se pecador, foi expulso do
paraso, e logo viu o mundo coberto de espinhos e abrolhos, isto , de
dolorosos problemas. A tragicidade da existncia nasceu com o processo da
intelectualizao consciente do homem.
Segundo Buda e Moiss, o pecado original consiste, pois, na egoidade ou na
egoficao do homem, processo pelo qual o homem deixou de ser uno com o
Todo (Whole, Heil), e deixou de ser Total (Holy, Heilig).
Ser uno com o Todo Universal ser Bom e Feliz no ser uno com esse Todo
Universal ser Mau e Infeliz. Per se, toda individualizao culpa que acarreta
pena; mas nos seres inconscientes essa culpabilidade no imputada ao
indivduo e, por isto, inexiste, ou existe em baixo grau, a tragicidade da pena.
No homem, essa tragicidade cresce na razo direta da sua conscincia-ego,
que responsvel pelo grau da sua culpabilidade.
Existir individual e conscientemente , portanto, o grande mal. No o existir
inconsciente ou subconsciente da natureza, mas o existir egoconsciente do
homem.
Os grandes pensadores e mestres identificam o ego com Lcifer, o porta-luz, a
alvorada da conscincia, base do separatismo pecador; quando esse Lcifer
completa a sua separao centrfuga torna-se sat, significa adversrio.
Ora, todo existir traz em si o germe do agir e, quando o existir consciente,
tambm o agir consciente.
Esse agir autnomo , potencialmente, uma atitude de oposio, hostilidade e
rebeldia contra o Todo. A individualidade uma antitotalidade.
***
Em face desta verdade, concluram muitos pensadores msticos que o bem e a
felicidade esto em no agir, da desistncia de qualquer atividade individual, na
submerso em total e permanente passividade. Essa passividade reduz o mal
da existncia ativa; um existir com apenas 10% de atividade menos mau do
que um existir com 50% ou 100% de atividade.
Boa parte do mundo oriental segue essa filosofia de passividade.
A concluso ltima e mais radical seria no agir nem existir de forma alguma,
um regresso total ao Todo do Ser sem Existir a submerso no Nirvana
Amorfo e Annimo, a extino do Atman em Brahman, do indivduo humano no
Todo da Divindade.
E, de fato, muitos mestres budistas aconselharam essa eutansia mstica como
remdio definitivo culpa e pena, extinguindo assim a tragicidade da vida
humana. Evidentemente, a cura mais radical de uma doena consiste em matar
o doente.
Essa pretensa abolio definitiva da culpa e pena no consiste num suicdio
fsico, mas, sim, num suicdio metafsico, na extino da prpria individualidade
humana, e no apenas na destruio do seu invlucro material. Em parte
alguma probe a filosofia oriental o suicdio fsico, mas sabe perfeitamente que
essa destruio do corpo material no representaria nenhuma soluo do
problema da tragicidade existencial do homem porque, com ou sem corpo
material, o homem como indivduo-ego, continua a existir e, como a destruio
do corpo material seria um covarde escapismo, a tragicidade existencial, em
vez de solucionada, seria ainda mais agravada.
Como, pois, solver o problema da tragicidade da vida humana?
Como pode o homem existir e agir sem se onerar de culpa e pena? Se todo
existir agir, e se todo agir culposo, como existir e agir sem ser culpado e
merecer penalidade?
A soluo do problema, como bem frisa a Bhagavad Gita, no pode consistir
numa espcie de alopatia, baseada na cura do mal por seu contrrio, mas deve
consistir numa tal ou qual homeopatia, que cura semelhante com semelhante.
Quer dizer que o nosso existir e agir humano no pode ser sanado pelo no
existir e no agir, como em grande parte pretende a filosofia oriental, mas deve
consistir no prprio existir e agir.
Mas como? Se o prprio existir e agir visceralmente mau, como pode ele
sanar o mal que produziu.
Aqui que estamos na grande encruzilhada! Aqui que se bifurcam os
caminhos do pensamento.
Os grandes mestres da humanidade negam que o mal do homem consista no
fato de ele existir como indivduo e de agir como tal.
Como pode o homem sanar o seu agir pelo prprio agir?
Pelo mesmo processo pelo qual a medicina moderna cura as doenas e
epidemias: pela profilaxia da vacinao. A prpria bactria venenosa,
devidamente desenvenenada no laboratrio, deve fornecer o remdio contra a
epidemia causada por bactrias venenosas. O antdoto do veneno vem do
veneno. O nosso agir venenoso deve ser submetido a um agir no venenoso,
mediante um processo de imunizao, a fim de fornecer o antdoto contra o
agir venenoso. necessrio desenvenenar o nosso agir comum, e com este
soro medicinal neutralizar o veneno produzido pela nossa egoidade ou nosso
egosmo.
A sabedoria dos mestres descobriu que o mal no est no existir nem no agir
como tal, mas, sim num certo modo de agir. O fato objetivo de eu agir no me
toma culpado, mas, sim, uma determinada atitude de agir. O que de fora entra
no homem no torna o homem impuro mas, sim, o que de dentro sai do
homem...
No posso deixar de agir, mas posso deixar de agir de certo modo, e posso
agir de outro modo. Posso fazer brotar a minha atividade de motivos bons e
puros, e esta fonte boa e pura do meu ser e existir torna bons e puros os
canais do meu agir. Os meus atos revestem a natureza, boa ou m, da minha
atitude. Os meus atos so o que minha atitude , mas a minha atitude sou eu
mesmo. o meu ntimo e permanente modo de ser. No h l fora nenhum
objeto bom ou mau em si; toda bondade ou maldade do objeto vem do meu
sujeito, bom ou mau. Se eu tenho para com todas as creaturas uma atitude de
benevolncia e amor, os meus atos externos nascidos dessa atitude interna s
podem ser bons e benficos. Os meus atos so o que eu sou. So canais cuja
fonte sou eu. E, como as guas brotam da fonte e fluem pelos canais, assim os
meus atos brotam da minha atitude e fluem atravs de atividades externas.
Posso agir com interesse pessoal ou sem interesse.
O agir interesseiro no pode ser abolido pelo simples agir, nem pelo no agir,
mas tem de ser neutralizado por um agir desinteressado.
Interesseiro e desinteressado so, para ns, termos de carter tico na
realidade, porm, so categorias metafsicas. O que interesseiro
existencial, o que desinteressado essencial. O meu ego um aspecto
existencial, o meu Eu uma realidade essencial; o meu verdadeiro Eu , de
fato, a prpria essncia do Todo, do Universal, do Infinito, percebido por mim
como sendo o meu Eu. O meu Eu a luz do mundo, o esprito de Deus
que habita em mim, a prpria divindade transcendente que em mim se
tornou consciente como o deus imanente, segundo as palavras do Nazareno
vs sois deuses.
Agir em nome do ego existencial, objetivamente, mau agir em nome do Eu
essencial, subjetivamente, bom.
Agir por causa de qualquer fruto objetivo dinheiro, prazer, louvor, gratido, ou
pelo temor de seus contrrios intrinsecamente interesseiro, mau,
pecaminoso, e este modo de agir cria a tragicidade existencial da vida.
Agir em nome do meu Eu divino, pelo seu aperfeioamento, pela sua plena
realizao, isto bom, porque harmoniza com o Todo, o Universal, a
Divindade.
Mas o meu sujeito Eu s pode ser realizado atravs de objetos. Esses objetos
no so um fim, mas so meios para atingir o fim da plenitude do Eu. Quem
toma os objetos por um fim age interesseiramente, mau, pecador; quem no
se serve dos objetos, mas procura abster-se deles, como pretendem certos
ascetas, procura fazer o impossvel, porque ningum pode, de fato,
desobjetivar-se totalmente; tem de agir porque existe.
Logo, a soluo no est nem no agir nem no no agir, mas em agir
corretamente.
Os objetos so uma espcie de ponte entre o sujeito e o objeto. Estes servem
de meios de realizao para aquele.
Sendo que o sujeito Eu o Infinito da Essncia manifestado no Finito da
Existncia, deve o Finito Existencial agir essencialmente deve agir sub specie
aeternitatis, no dizer dos santos; nunca sub specie temporis, que o agir
interesseiro e mau do ego. A tragicidade do existir e agir no pode ser
solucionada por nenhum conformismo, nem por algum escapismo, mas
unicamente por um transformismo.
O homem profano procura conformar-se com a situao trgica, inventando
lenitivos e derivativos de todo o gnero, distraindo-se com negcios, prazeres,
poltica, ambio, cincia, arte, tcnica, etc., mas nada disto soluo do
problema, que continua latente e doloroso por debaixo dessas ruidosas
superfcies.
O homem espiritual tenta desertar da vida presente refugiando-se na viso
duma vida futura feliz, mas esta atitude antes um desespero da soluo do
que uma soluo do problema, uma evaso do aqum e uma invaso no alm.
O homem csmico age de outro modo. Ele sabe que o problema s pode ser
solucionado no mesmo plano em que foi criado, isto , no plano do existir e agir
terrestre, aqui e agora, e nunca por uma atitude de passividade, nem num
plano de existncia futura em regies longnquas. Esta soluo, porm, exige
um processo de transformismo.
A profilaxia de imunizao contra a tragdia do agir est no prprio agir, agora
e aqui. Agir se cura pelo agir. Se o agir alodeterminado do ego crea
tragicidade, ento o agir autodeterminante do Eu deve abolir essa tragicidade.
O alodeterminismo do ego mortfero, a autodeterminao do Eu salutfera.
O velho agir interesseiro do ego objetivo deve ser sanado pelo novo agir
desinteressado do Eu. E vez de querer ganhar objetos quantitativos dinheiro,
prazeres, louvores, reconhecimento, aplausos, resultados externos deve o
homem visar, com a sua atividade, o aperfeioamento do seu sujeito
qualitativo, a sua autorrealizao, servindo-se dos objetos como meios para
atingir este fim. Se aqueles objetos no visados lhe acontecem, deixe-os
acontecer!
***
Em face desta filosofia surge, invariavelmente, a objeo de que o homem que
se libertou da especulao dos objetos acabar por cair na inatividade, na
inrcia, na indiferena pelas coisas do mundo, como o Oriente parece provar.
O profano vive na iluso de que o homem que no se interessa vivamente
pelos objetos e pelos resultados palpveis dos seus trabalhos, seja incapaz de
trabalhar dinamicamente e com entusiasmo, porque lhe falta o necessrio
estmulo para essa atividade.
De fato, quem nada sabe do verdadeiro Eu central do homem, se paralisar os
estmulos do ego perifrico do homem, cai necessariamente na passividade
total, extinguindo o Eu com o ego.
Mas quem descobriu o seu Eu central tem intensos motivos para a atividade,
porque todo agir desinteressado, desegoficado, desobjetivado, intensifica a
realizao do Eu. O homem que descobriu o seu Eu central, como motivo de
atividade, se torna cosmocntrico, em vez de egocntrico.
A transio do egocentrismo para o cosmocentrismo a transio duma
semiverdade para a pleniverdade. A Natureza age no plano de um
cosmocentrismo inconsciente. O homem-ego age em nome de um
egocentrismo consciente. O homem-Eu age em virtude de um cosmocentrismo
consciente pleniconsciente.
E com isto est solucionado definitivamente o problema da tragicidade
existencial da vida humana.
DADOS BIOGRFICOS
Huberto Rohden
Nasceu na antiga regio de Tubaro, hoje So Ludgero, Santa Catarina, Brasil
em 1893. Fez estudos no Rio Grande do Sul. Formou-se em Cincias, Filosofia
e Teologia em universidades da Europa Innsbruck (ustria), Valkenburg
(Holanda) e Npoles (Itlia).
De regresso ao Brasil, trabalhou como professor, conferencista e escritor.
Publicou mais de 65 obras sobre cincia, filosofia e religio, entre as quais
vrias foram traduzidas para outras lnguas, inclusive para o esperanto;
algumas existem em braile, para institutos de cegos.
Rohden no est filiado a nenhuma igreja, seita ou partido poltico. Fundou e
dirigiu o movimento filosfico e espiritual Alvorada.
De 1945 a 1946 teve uma bolsa de estudos para pesquisas cientficas, na
Universidade de Princeton, New Jersey (Estados Unidos), onde conviveu com
Albert Einstein e lanou os alicerces para o movimento de mbito mundial da
Filosofia Univrsica, tomando por base do pensamento e da vida humana a
constituio do prprio Universo, evidenciando a afinidade entre Matemtica,
Metafsica e Mstica.
Em 1946, Huberto Rohden foi convidado pela American University, de
Washington, D.C., para reger as ctedras de Filosofia Universal e de Religies
Comparadas, cargo este que exerceu durante cinco anos.
Durante a ltima Guerra Mundial foi convidado pelo Bureau of lnter-American
Affairs, de Washington, para fazer parte do corpo de tradutores das notcias de
guerra, do ingls para o portugus. Ainda na American University, de
Washington, fundou o Brazilian Center, centro cultural brasileiro, com o fim de
manter intercmbio cultural entre o Brasil e os Estados Unidos.
Na capital dos Estados Unidos, Rohden frequentou, durante trs anos, o
Golden Lotus Temple, onde foi iniciado em Kriya-yoga por Swami Premananda,
diretor hindu desse ashram.
Ao fim de sua permanncia nos Estados Unidos, Huberto Rohden foi convidado
para fazer parte do corpo docente da nova International Christian University
(ICU), de Metaka, Japo, a fim de reger as ctedras de Filosofia Universal e
Religies Comparadas; mas, por causa da guerra na Coria, a universidade
japonesa no foi inaugurada, e Rohden regressou ao Brasil. Em So Paulo foi
nomeado professor de Filosofia na Universidade Mackenzie, cargo do qual no
tomou posse.
Em 1952, fundou em So Paulo a Instituio Cultural e Beneficente Alvorada,
onde mantinha cursos permanentes em So Paulo, Rio de Janeiro e Goinia,
sobre Filosofia Univrsica e Filosofia do Evangelho, e dirigia Casas de Retiro
Espiritual (ashrams) em diversos estados do Brasil.
Em 1969, Huberto Rohden empreendeu viagens de estudo e experincia
espiritual pela Palestina, Egito, ndia e Nepal, realizando diversas conferncias
com grupos de iogues na ndia.
Em 1976, Rohden foi chamado a Portugal para fazer conferncias sobre
autoconhecimento e autorrealizao. Em Lisboa fundou um setor do Centro de
Autorrealizao Alvorada.
Nos ltimos anos, Rohden residia na capital de So Paulo, onde permanecia
alguns dias da semana escrevendo e reescrevendo seus livros, nos textos
definitivos. Costumava passar trs dias da semana no ashram, em contato com
a natureza, plantando rvores, flores ou trabalhando no seu apirio-modelo.
Quando estava na capital, Rohden frequentava periodicamente a editora
responsvel pela publicao de seus livros, dando-lhe orientao cultural e
inspirao.
zero hora do dia 8 de outubro de 1981, aps longa internao em uma clnica
naturista de So Paulo, aos 87 anos, o professor Huberto Rohden partiu deste
mundo e do convvio de seus amigos e discpulos. Suas ltimas palavras em
estado consciente foram: Eu vim para servir Humanidade.
Rohden deixa, para as geraes futuras, um legado cultural e um exemplo de
f e trabalho, somente comparados aos dos grandes homens do sculo XX.
Huberto Rohden o principal editando da Editora Martin Claret.
Relao de obras do
Prof. Huberto Rohden
Coleo Filosofia Universal
O pensamento filosfico da Antiguidade
A filosofia contempornea
O esprito da filosofia oriental
Coleo Filosofia do Evangelho
Filosofia csmica do Evangelho
O Sermo da Montanha
Assim dizia o Mestre
O triunfo da vida sobre a morte
O nosso Mestre
Coleo Filosofia da Vida
De alma para alma
dolos ou ideal?
Escalando o Himalaia
O caminho da felicidade
Deus
Em esprito e verdade
Em comunho com deus
Cosmorama
Por que sofremos
Lcifer e Lgos
A grande libertao
Bhagavad Gita (traduo)
Setas para o infinito
Entre dois mundos
Minhas vivncias na Palestina, Egito e ndia
Filosofia da arte
A arte de curar pelo esprito. Autor: Joel Goldsmith (traduo)
Orientando
Que vos parece do Cristo?
Educao do homem integral
Dias de grande paz (traduo)
O drama milenar do Cristo e do Anticristo
Luzes e sombras da alvorada
Roteiro csmico
A metafsica do cristianismo
A voz do silncio
Tao Te Ching de Lao-tse (traduo)
Sabedoria das parbolas
O Quinto Evangelho segundo Tom (traduo)
A nova humanidade
A mensagem viva do Cristo (Os quatro Evangelhos traduo)
Rumo conscincia csmica
O homem
Estratgias de Lcifer
O homem e o Universo
Imperativos da vida
Profanos e iniciados
Novo Testamento
Lampejos evanglicos
O Cristo csmico e os essnios
A experincia csmica
Panorama do cristianismo
Problemas do esprito
Novos rumos para a educao
Cosmoterapia
Coleo Mistrios da Natureza
Maravilhas do Universo
Alegorias
sis
Por mundos ignotos
Coleo Biografias
Paulo de Tarso
Agostinho
Por um ideal 2 vols. autobiografia
Mahatma Gandhi
Jesus Nazareno
Einstein o enigma do Universo
Pascal
Myriam
Coleo Opsculos
Catecismo da filosofia
Sade e felicidade pela cosmo-meditao
Assim dizia Mahatma Gandhi (100 pensamentos)
Aconteceu entre 2000 e 3000
Cincia, milagre e orao so compatveis?
Autoiniciao e cosmo-meditao
Filosofia univrsica sua origem sua natureza e sua finalidade