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Territórios Deslizantes em Criciúma

Este documento é a tese de doutorado de Emerson César de Campos apresentada ao programa de pós-graduação em história da Universidade Federal de Santa Catarina em 2003. O título da tese é "Territórios Deslizantes: recortes, miscelâneas e exibições na cidade contemporânea Criciúma (SC) (1980-2002)" e analisa os recortes, misturas e exibições na cidade de Criciúma entre 1980 e 2002.

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Territórios Deslizantes em Criciúma

Este documento é a tese de doutorado de Emerson César de Campos apresentada ao programa de pós-graduação em história da Universidade Federal de Santa Catarina em 2003. O título da tese é "Territórios Deslizantes: recortes, miscelâneas e exibições na cidade contemporânea Criciúma (SC) (1980-2002)" e analisa os recortes, misturas e exibições na cidade de Criciúma entre 1980 e 2002.

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14

Emerson Csar de Campos

TERRITRIOS DESLIZANTES:

recortes, miscelneas e exibies na cidade contempornea Cricima (SC) (1980-2002)

Universidade Federal de Santa Catarina


2003

15

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA


CENTRO DE FILOSOFIA E CINCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM HISTRIA

TERRITRIOS DESLIZANTES:

recortes, miscelneas e exibies na cidade contempornea Cricima (SC) (1980-2002)

Tese apresentada ao Programa de PsGraduao em Histria, da Universidade Federal


de Santa Catarina, como requisito parcial e ltimo
para obteno do grau de Doutor em Histria
Cultural, sob a orientao da professora Doutora
Maria Bernardete Ramos.

Emerson Csar de Campos

Florianpolis
2003

16

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA


CENTRO DE FILOSOFIA E CINCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM HISTRIA

TERRITRIOS DESLIZANTES:

recortes, miscelneas e exibies na cidade contempornea Cricima (SC) (1980-2002)


Emerson Csar de Campos

Tese aprovada como requisito parcial para obteno do grau de Doutor em Histria, no
Programa de Ps-Graduao em Histria da Universidade Federal de Santa Catarina,
na rea de concentrao em Histria Cultural, pela Comisso Examinadora formada
pelos seguintes professores:

Profa. Dra. Maria Bernardete Ramos Orientadora (UFSC)


Prof. Dr. Durval Muniz de Albuquerque Jnior (UFPB)
Prof. Dr. No Freire Sandes (UFG)
Profa. Dra. Tnia Regina de Oliveira Ramos (UFSC)
Profa. Dra. Marlene de Faveri (UDESC UNIVALI)
Profa. Dra. Maria Teresa dos Santos Cunha Suplente (UDESC)

Florianpolis, 19 de dezembro de 2003.

17

Nadjanara, uma singular forma de amar.


O brilho nos meus olhos continua!
O mar est logo ali, e, hoje, faz sol!
Ao Pedro, humor e serenidade em apenas cinco anos.
Um olhar que eu nunca havia visto.
Eu no sei pai!
Agora ns vamos brincar!

18

Agradecimentos:

Uma palavra diferente de agradecimento talvez possa ser inventada. E com ela
talvez eu conseguisse mais facilmente mostrar minha gratido. Esta criao eu no consegui
realizar. Fica ento a conveno conhecida do agradecimento.
Maria Bernardete Ramos, orientadora que me deu liberdade para lanar-me
aventura, aos encontros e com quem acredito ter aprendido evitar o engessamento. Pessoa que
me faz continuar buscando uma palavra alm de agradecimento. Quem sabe num entre
lugar?!
Manoel Ascendino de Campos, meu pai, mineiro aposentado que continua
trabalhando para fazer a panela ferver. Pai, muito do que est aqui consegui ouvindo o teu
corao. Te amo!
Maria das Dores Silveira de Campos, hoje uma senhora, mas ainda a vejo como
aquela quase menina de 27 anos que conseguiu rir quando fugi da escola no primeiro dia de
aula. E continuou me mostrando livros! Te amo me!
Meus irmos. Everton apaixonado por doce e der pelos jogos eletrnicos. Trs
irmos juntos! Este um cdigo.
Silvia Maria vila Amador, mais que sogra, uma amiga, confidente e exmia
pesquisadora. Muitos caminhos foram por ela apontados. Agora vamos rebater, Slvia!
Evilsio Amador, amigo que me auxiliou em muitos momentos. Carro, telefone,
gravador, nomes, e outras tantas coisas. At esqueci que ele vascano. Mas enfim, nem tudo
perfeito. Valeu, meu sogro!
Nitcia, Ndia e Nicole. A primeira me fazia rir ao me chamar de doente. A outra
foi desde muito, minha parceira nos jogos do tigre. A ltima, no mundo das leis, me parece
feliz.
Newton e Maria de Lourdes, bisavs do Pedro, que sempre estiveram torcendo e
rezando por mim.
Joaquim, o tio presente de todas as horas. Tomara que a casa seja feita!
Minha av Joaquina, algum que sempre soube que iria dar certo. Meu av
Manoel Balbino (in memorian), o mais encantador contador de histrias que conheci. Dona
urea (in memorian), a v de Garopaba, com ela descobri o que era o mar. V Skim (in
memorian), nunca esquecerei o seu chapu e o sorriso.

19

Tiago Losso, com quem dividi lamrias, risos, msicas e cervejas. Algum que
sempre soube me colocar pra cima. Disposto a ouvir e falar, sempre soube me apresentar
solues. Vamos ao Rendez-vous!
Moacir Wendhausen, companheiro criciumense junto comigo tambm em
Florianpolis; com ele sempre possvel ver coisas de formas diferentes. Algum que me
apresentou manjerico, Jack Jonhson e caminhos para a gentileza. Valeu por tudo em todos os
momentos!
Luiz Felipe Falco. Companheirismo e lucidez junto a um humor refinado.
Problema ainda no ser torcedor do tigre! No Campeche habita uma grande alma.
Marlene de Faveri, que vivia dizendo: vais conseguir. Livros, sof, tv e bons
papos, como no conseguir? Seu apoio e companheirismo foram fundamentais para a
realizao desta tese. Amiga, obrigado por tudo.
Paulo Rogrio Melo de Oliveira, o homem colorado. Mostrou que Herdoto havia
nascido em Santa Maria, coisa que no havia me dado conta! Tch, vamos tomar um caf?
Falou Pablito!
Clara e Rodrigo, agora em Balnerio h algum com quem conversar. Obrigado
tambm pelos cafs e papos e pelo ingls.
Raquel e Isaas . A mineirice catarina est ali. Ambos companheiros de academia
e novos parceiros na vida.
Jos Roberto Severino, amigo de muito e que muitos dizem sermos parecidos.
Talvez. Ambos brincamos de Lego. Foi sempre um amigo disposto a ajudar, indicar fontes, e
sobretudo dialogar.
Jos Bento, humor mineiro nos corredores da Univali. Depois fiquei sabendo de
sua ligao com Garopaba. Achei timo.
Campeche.

Silvia e Luizinho, Ana Luza e Henrique, pelos papos, churrascos e cafs no

Hilrio, Lenir, Txai e ris, o pessoal que mora no canto da Lagoa, num dos lugares
mais gostosos de Floripa. Espero agora conseguir matar a saudade docs.
Marcelo da Silva, amigo com quem sempre dei muitas risadas e realizei muitas
reflexes sobre msica negra em Florianpolis e Cricima.
Jos Augusto Leandro, amigo e companheiro no Curso de Doutorado e com quem
dividi as primeiras reflexes deste trabalho.

20

Jackson Silveira que me deu uma ajuda enorme na impresso dos originais. Alm
disto sempre foi algum com quem dei boas gargalhadas.
Padre Samiro e Bill Gates me mostraram o sentido exato da lei de Murphy. O
primeiro dificultando as pesquisas na Santa Brbara, o segundo pelas inmeras vezes que
desejei jogar meu computador l de cima do dcimo primeiro andar. As barreiras foram
transpostas. Aguardo outras verses.
Em Cricima contei com apoio de muitas pessoas. Os servidores do Arquivo
Pblico Municipal, onde a funcionria Elza muito colaborou. Todos os entrevistados, e a lista
grande, tem o meu profundo agradecimento. Foram pessoas que se dispuseram soltar
afazeres e compromissos para conversar comigo. E como me ajudaram!
Ainda em Cricima, com carinho, Marli Costa, companheira de academia e de
divagaes sobre o que seria Cricima. Sua ateno e gentileza foram fundamentais para a
pesquisa. Edi Balod, que serenamente se props a narrar toda a empreitada da construo do
bar encrenca, o ponto de encontro da Quermesse, localizado logo ali, na esquina do mundo.
Um artista na melhor expresso que esta palavra possa alcanar.
Altair Guidi. Gostaria de aqui deixar claro meu agradecimento pela ateno
dispensada a mim pelo ex-prefeito, mesmo sabendo o modo comum como isto ser visto por
uma parte considervel de seus adversrios polticos, entre os quais me incluo. No com a
pretenso de fazer justia que deixo isto claro,

mas sim do reconhecimento que acabei

construindo tendo contato com a documentao sobre o municpio, e nas conversas que tive
com inmeras pessoas que ainda hoje vivem e colaboram com a cidade de Cricima
Maria Marlene Milanez Justi me auxiliou muito na melhor compreenso dos
festejos do centenrio de Cricima e da etnizao da cidade.
Leandro Avany Nunes. Esta tese fala tambm de algumas pedras. Este foi o
mdico que tirou, junto com as pedras, toda a dor que senti naquele inesquecvel ms de
outubro de 2002.

21

Povo da UDESC, alunos que se mostraram amigos. Em especial Luiza, Marcelo,


Fbio, Jlia, Dani e Jferson.
Na Univali teria que fazer pgina extra. Ficam aqui lembrados: Cris Badin, Cris
Manique, Cris Rifell, Leila, Clarisse, Geovana, Joo, Ediene, Mrio, Le da Geo, Paulo
Liedke, Sandro, Venilton, Juliana sempre ajudando, Alcina e Mersilda.
Professores e funcionrios do programa de Ps Graduao em histria da UFSC,
em especial Arthur Csar Isaia e Nazar, sempre disposta a ajudar.
CAPES e CNPQ pelo auxlio financeiro.
Nadjanara, a realizao de vrios sonhos. Companheira, confidente, me segurou
quando precisava e me fez ver coisas que no conhecia. Na reta final soube bem entender
todas as dificuldades e apoiou sempre todas as minhas decises. Algum que me fez acreditar
em mim. Entramos na serenidade. Vamos ao sol, ao mundo, vida. Eu te amo, muito!!!
Pedro. Mostrou que saudade algo ligada a um tempo muito singular. Sempre
indicava, com um olhar e sorriso sem igual: vou ficar com saudade de ti pai! Em casa, quando
me via descansando, perguntava: No vais trabalhar? Pai, eu no quero dormir! A melhor
parte de mim. Filho, agora ns vamos brincar!!! Eu te amo!!!

O que fabrica o historiador quando faz histria? para


quem trabalha? Que produz? Interrompendo sua deambulao
erudita pelas salas dos arquivos, por um instante ele se
desprende do estudo monumental que o classificar entre os
seus pares, e, saindo para a rua, ele se pergunta: O que esta
profisso? Eu me interrogo sobre a enigmtica relao que
mantenho com a sociedade presente e com a morte, atravs da
mediao de atividades tcnicas.
Certamente no existem consideraes , por mais
gerais que sejam, nem leituras, tanto quanto se possa estendlas, capazes de suprimir a particularidade do lugar de onde falo
e do domnio em que realizo uma investigao. Esta marca
indelvel. No discurso onde enceno as questes globais, ela ter

22

a forma do idiotismo: meu pato representa minha relao com


um lugar.
Mas o gesto que liga as idias aos lugares ,
precisamente, um gesto de historiador.
Michel de

Certeau

No estaria ele, devido s suas constantes divagaes,


acostumado a reinterpretar, por toda parte, a imagem da
cidade?
Walter
Benjamim

mais

A histria a reconstruo sempre problemtica e incompleta do que no existe


Pierre Nora

Ficha Catalogrfica:
CAMPOS, Emerson Csar de. Territrios Deslizantes: recortes, miscelneas e
exibies na cidade contempornea Cricima (SC) (1980-2002). Florianpolis, 2003.
214 f. Tese (Doutorado em Histria) Centro de Filosofia e Cincias Humanas,
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianpolis.
Orientadora: Dra. Maria Bernardete Ramos
Defesa: 19/ 12 / 2003.

23

Estudo percebendo as manifestaes scio-culturais empreendidas na cidade de


Cricima (SC) entre os anos de 1980 e 2002. Anlise voltada para as relaes vividas na
cidade contempornea de modo geral, inscritas na ambincia colocada naquela cidade do
sul catarinense.

24

Resumo

Este trabalho busca compreender, em forma de ensaios e em sua maior parte, a


manifestaes scio-culturais empreendidas na cidade de Cricima (SC) entre os anos de
1980 e 2002. por certo um estudo sobre a cidade contempornea de modo geral, inscrita na
ambincia colocada naquela cidade do sul catarinense. Cuida tambm de alcanar um olhar
diferenciado sobre relaes conflituosas presentes em Cricima tentando aproxima-las de
outras tantas vividas e experimentadas nas mais distintas cidades brasileiras, nas quais se
incluem as catarinenses. Tal configurao impele uma anlise mais elaborada de fenmenos
contemporneos tais como imigrao, emigrao, etnizao, processos identitrios e de
identificaes e produo de sensibilidades e subjetividades.
O primeiro ensaio toma como partida a festa Quermesse: Tradio e Cultura,
evento anualmente realizado em Cricima desde 1989, identificando nela elementos que
mostram uma conexo da cidade com produes culturais e sociais diferenciados que s vezes
se aproximam e outras se afastam, de manifestaes prprias de uma cidade viva, neste
ainda incipiente sculo XXI. Sendo assim, se busca um entendimento melhor da elasticidade
de sentidos produzidas nas cidades contemporneas.
Produzido a partir de recortes e alinhavos colhidos atravs de pesquisa,
observao, participao e conversas realizadas em Cricima, o segundo ensaio busca
analisar afinaes, dissonncias e ressonncias no que podemos chamar de polifonia citadina.
Em forma de verbetes que elucidam fragmentos, este ensaio polissmico. Nele so
discutidos as faces de novos desejos, conflitos, tradues, cones, sensibilidades e
reminiscncias da mudana desterritorializada, angustiante e avassaladora que Cricima
sofreu nas duas ltimas dcadas e, que abre caminhos para novas formas de viver a cidade.
Procurando discutir as comemoraes do centenrio de Cricima realizadas em
1980, o terceiro ensaio analisa o processo de etnizao da cidade. Para isto houve a
necessidade de um olhar sobre manifestaes colocadas em dcadas anteriores, buscando
nelas momentos destas referidas inflexes. Alm disto busca diferenciar as comemoraes do
centenrio com as manifestaes vividas na Quermesse, evitando enxergar naquelas uma
antecipao ou mesmo repetio do que seria vivido na Quermesse.
Nas ltimas consideraes se realiza uma espcie de inventrio dos caminhos
trilhados na escrita desta tese, tentando de alguma forma identificar a cidade enquanto
lugares: singulares, assustadores, por vezes hilrios ou outras caricatos, mas dos quais, de
diversas maneiras, todos parecem agora desejar participar.

Palavras Chave: Cidade, Territrios, Cultura.

25

Abstract
Exploring the textual genre essay, this work aims, in most of its lenght, at
understanding the socio-cultural manifestations that took place in Cricima (S.C.) from 1980
to 2002. It also characterizes itself as a study of the contemporary city in general, situated in
the ambience of that South-Brazilian city in the State of Santa Catarina. It also aims at
capturing a different look over conflicting relationships existent in Cricima, trying to
compare and approximate the understanding of these conflicts to those that also take place in
every important Brazilian city. This configuration directs to the accurate analysis of
contemporary phenomena, such as immigration, emigration, ethnic transformation, identity
processes and the emergence of subjectivity.
The first essay takes as its starting point the "Quermesse: Culture and Tradition",
an event that happens every year in Cricima since 1989, identifying in it elements that show
the connections between the city and cultural and social events that sometimes get closer and
other times far from proper events of a living city, in the beginning of this 21st century. In this
manner, it searchs for a better understanding of the plasticity of meanings produced in the
contemporary city.
From cut ups and juxtapositions obtained from field observation, interviews and
conversations held in Cricima, the second essay presents an analysis of tunning, dissonances
and resonances in what we can call the city poliphony. Structured as dictionary entries which
elucidate fragments, it is polissemic. It discusses the face of new desires, conflicts,
translations, icons, sensibilities and reminicenses of deterritorialized change that Cricima has
been through in the last two decades, and which opens new tracks to new ways of the living
city.
With the objective of discussing the commemoration of the centenary of Cricima
held in 1980, the third essay analyzes the ethnic transformation process in the city. In order to
achieve this aim it was necessary to look upon popular manifestations happened in previous
decades, trying to find in them the substract for the reflexions that follow. Moreover, this
essay tries to differentiate the commemoration of the centenary from the manifestations
experienced in the Quermesse. This procedure aims at avoiding a view of the first as simple
antecipations or repetitions of what would be experienced in the latter.
As a last account, a kind of inventory of the steps followed during the writing
process of this dissertation is done. It was made an atempt to identify the city as an universe
of places: singular, scaring, sometimes hilarious others, caricatural places, of which, in many
ways, everyone now seems to wish to participate.

Keywords: City, Territoryies, Culture.

26

Sumrio

Introduo
..............................................................................................

14

I Primeiro Ensaio:
Para alm da comunidade imaginada
Quermesse: encontros e desencontros na esquina do mundo
..........
- A
cidade que se encontra e se perde na festa
......................................
O
paradoxo
da
festa:
repetir
o
irrecomevel
.......................................
- A Realidade da Utopia: Entre Lugares Contemporneos
.....................
Quiasmas
contemporneos:
fronteira
e
traduo
..................................
- Instaurando a Encrenca na Esquina do Mundo
.....................................
II Segundo Ensaio:
Pequeno Dicionrio
.........................

Ilustrado

de

Aporias

Sobejos

III Terceiro Ensaio:


Futuro do Pretrito: Um aniversrio bem festejado
.........................
A
inveno
da
roda
...............................................................................
- A etnizao da cidade: um aniversrio bem festejado!
.........................
- Do preterido e no comemorado: a cidade em prosa e verso
Tem muito Serafim e Pereira l para as bandas de Bom Jardim
..........
Quase
uma
digresso
.............................................................................

32
36
52
70
90
99

108

146
148
161

170
178

27

ltimos
....................................................................................
Bibliografia
.............................................................................................

Acordes

18
1

19
2

28

INTRODUO
O Tejo mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo no mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo no o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vem em tudo o que l no est,
A memria das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para alm do Tejo h a Amrica
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ningum nunca pensou no que h para alm
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia no faz pensar em nada.
Quem est ao p dele est s ao p dele.

Alberto Caeiro, primeiro heternimo de Fernando Pessoa, apresenta o Tejo (que


todos conhecem), dedicando particular ateno ao rio que banha sua aldeia. Pelo Tejo vai-se
para o mundo. Para alm do Tejo h a Amrica. E a fortuna daqueles que a encontram (...).
Toda gente sabe disto, diz Caeiro. Mas poucos sabem qual o rio de minha Aldeia. Seria
mesmo mais livre e maior o rio da minha aldeia? A quanta gente pertence ele?
Uma senhora calmamente lava a calada em frente a sua casa e, distrada, molha
algum que por ali passa. Apressada agora a calma j foi embora ela se desculpa, dando
f da necessidade de apagar as marcas do carvo. Em sua Vila, na verdade hoje j um
distrito, tambm passa um rio. Ela e o rio esto h muitas milhas do Tejo. A senhora tambm
est apenas ao p do rio, o da sua vila, cujo nome ela faz questo de lembrar. Este no deve
ser esquecido tais quais as marcas do carvo, visto que em suas guas mais que turvas, se

29

encontram diludos ou em pequenos flocos, tantos agoras. Ao rio deram um nome, hoje
estranho para boa parte da populao do distrito: Rio Maina1.
O bonito, como em seus escritos j disse Guimares Rosa, algo sempre absurdo.
Quem teve ou tem a oportunidade de passar pelo Rio Maina pode se vislumbrar, se chocar, se
emudecer ou mesmo gritar, frente ao berrante e bonito alaranjado que do rio chega aos olhos
do eventual contemplador. Imagem viva e presente do nosso passado de absurdos gloriosos.

Rio Maina Foto: Emerson Csar de Campos em 03/08/2001

Bem mais prximo que o Tejo, a uma distncia vencida por uma caminhada de
flego do rio em que a senhora se encontra, existe um outro. o rio da gora2, e navega

Em 1894 se inicia o processo de colonizao do hoje distrito de Rio Maina. Imigrantes italianos vindos da
Lombardia (provncia de Pavia, ao norte do rio P) formavam a populao que se estabeleceu na vila. Pelo que
se pode concluir, especialmente atravs da tradio oral, a maioria destes imigrantes era analfabeta e estes
desbravadores das matas virgens, ao descobrirem um rio, e ao dessedentarem-se, batizaram o lugar de Rio
Maina (corruptela, talvez, de maggiare). Ver entre outros: BELOLLI, Mrio; PIMENTEL, Jos. Cricima
Amor. Itaja: Uirapuru, 1974, p. 17. O vilarejo se transforma em Distrito sob lei municipal n.264, de 10/04/1959,
sendo prefeito o Sr. Addo Caldas Faraco. A estranheza em relao ao nome do rio, particularmente a partir da
segunda metade do sculo XX, em grande medida se explica pelo contigente populacional formado desde ento
por pessoas de outras formaes culturais e scio-econmicas que chegam ao Distrito particularmente em busca
de trabalho na minerao. Em torno do distrito se formam outra vilas e, mesmo nelas, o estranhamento com o
nome se fazia e ainda se faz presente. particularmente o caso de uma comunidade chamada Metropolitana, ou
simplesmente Metropol, onde j na dcada de 1970 os alunos do ensino fundamental ainda eram obrigados pelos
professores a grafarem no cabealho de seus cadernos o nome do local onde moravam e com o qual no
mantinham intimidade: Rio Maina Alto.

30

nele ainda, para aqueles que vem em tudo o que l no est, a memria da cidade. Ele
tambm tem um nome estranho: Cricima3. Outrora piscoso e do qual at peixe se obtinha4,
agora o rio quase uma ausncia5.
A escolha para um tema de pesquisa acrescenta a quem se dispe a tal empreitada,
uma quietude enfim, algo do que falar! e tantas outras incomodaes: como falar, o que
usar, como fazer acontecer. Vinculado ao Programa de Ps-Graduao de Histria da
Universidade Federal de Santa Catarina, por quatro anos desenvolvi pesquisa de
doutoramento e que na ausncia de uma justa forma (esta parece mesmo de difcil controle ou
acesso), tentei compreender uma srie de manifestaes criativas que se encontram
circunscritas cidade de Cricima (SC), e ganham, segundo minha visada, um corpo mais
volumoso a partir da dcada de 1980.

A referncia que utilizo so as goras gregas: praas pblicas e mercados daquelas antigas cidades, onde se
realizavam os mais diversos encontros, sendo a mais conhecida, embora em runas, a gora ateniense. Por
razes inmeras e discutidas nesta tese, o rio assinalado rusticamente pode ser lido como aquele que banha
gora.
3
H alguma controvrsia sobre o momento de criao do ncleo colonial So Jos de Cricima. Arbitrariamente
tomo como referncia 6/01/1880, quando segundo a maioria da fonte disponvel, chega ao local o primeiro grupo
de imigrantes italianos. de se pensar que o nome dado vila fosse algo prximo daquele grupo colonizador.
Em relao a isto h tambm uma srie de discusses sob as quais no me aterei no momento. Contudo, se sabe
que o nome dado a atual cidade de Cricima, parte de uma gramnea encontrada em abundncia no local poca.
um nome de formao indgena (Tupi). Ver entre outros: MILANEZ, Pedro. Fundamentos Histricos de
Cricima. Florianpolis: ed. Do autor, 1991, p.19-20. Ainda quanto esta querela que na historiografia regional
tende a ganhar frum de grande tema, se pode acrescentar que quando da criao da abertura do livro tombo da
atual catedral da cidade, ento uma singela capela, anotou ali o padre Ludovico Coccolo (italiano recm chegado
vila): A povoaco da freghesia de cresiuma conta duzentos e vinte familhas todos italhianos. Teve principio o
dito ncleo cresiuma no dia desaseis de fevereiro do anno mil oitocento settenta oito. Edificaram-se quattro
capellas SJose, SAntonio, Sta Augusta, SJoo: mas a Igresia de SJose foi escolhida como igresia central In:
Livro Tombo da Catedral de Cricima. A grafia foi mantida conforme anotada pelo padre Ludovico Coccolo.
Os grifos so meus.
4
Durante a realizao desta tese em inmeros depoimentos coletados de modo voluntarioso era citado o
momento em que o Rio Cricima era farto em peixes. Pulsante e viva, esta no foi uma preocupao inicial,
tampouco final, do meu trabalho.
5
A memria do rio Cricima se confunde com a memria da cidade, ou ao menos existe a possibilidade de se
pensar assim. Segundo Pierre Nora, ... com efeito a memria mais um quadro do que um contedo; um
significado sempre aberto, um conjunto de estratgias, uma presena que vale menos por aquilo que do que
por aquilo que dela se faz. IN: Op. Cit. Les lieux de la memoire. A memria do Rio Maina, o rio da aldeia de
Pessoa, um indcio do mido, do pessoal ou subjetivo, nem por isso menos social.

31

Foram dois esforos iniciais e complementares, numa espcie de exerccio


tautolgico, assumindo os riscos criados a partir disto: discutir a cidade investigando outros
pontos e cuidar destes mesmos pontos de modo a aproxim-los da cidade. H, contudo, um
sentido produtivo nesta tautologia. Estar falando da cidade ao refletir sobre outros temas
(etnicidade, monumentos, diferena, diversidade, discutidos nos transcorrer da tese), e pensar
estes mesmos temas ligando-os cidade, que na falta de outro atributo, denomino
contempornea6. Delicada operao. Mesmo porque me pareceu necessrio no restringir o
trabalho a uma contribuio local ou regional.
No encontro do tema a que me dediquei muitas incertezas se apresentaram e, sob
todas as formas, elas se fazem aqui presentes, mesmo que por vezes se mostrem como
correntes de fuga ou panos de fundo. Isto, acredito, se conecta a um modo particular de se
colocar frente ao ambiente social, ou seja, face prpria vida. deste modo que um filho de
mineiro que teimosamente se apartou das vicissitudes e prazeres que tal condio o impelia,
pode hoje se aproveitar desta distncia impossvel de ser medida, mas de fcil identificao
e num enlace com a condio de pesquisador, contar histrias7. Depreende-se desta
configurao, uma histria um tanto micheleniana, no sentido de me encontrar profundamente

Nas dobras deste sculo que se inicia so cada vez mais significativas e pertinentes anlises que busquem
esboar idias e elucidar configuraes que so vividas com intensidade, criam uma dimenso por vezes hiper
real. Nesta ambincia, as cidades contemporneas so por assim dizer, um grande mote. O historiador americano
Mike Davis afirma que No limiar do sculo 21, o mundo j uma imensa cidade. Uma cidade modulada em
muitas cidades. Cidades em cadeias encadeadas, esgaradas entre si ou atadas umas s outras, umas dentro das
outras. Vistas assim, em perspectiva ampla, so as cidades que compem a cartografia do mundo, uma vasta
cartografia urbana, arquitetnica, simultaneamente catica e bablica; a mais fantstica obra de arte coletiva
(...) Neste momento, assim cartografado, desenhado em um atlas de imensas propores, simultaneamente
policrnico e polifnico, agitado e problemtico, organizado em moldes sistmicos e atravessado por irrupes
anti-sistmicas, o globo terrestre deixa de parecer um planeta, uma configurao csmica, para se revelar uma
criao humana da atividade social, de algo que se cria e recria no curso da histria dos povos, da
humanidade In: Op. Cit. Ecologia do medo: Los Angeles e a fabricao de um desastre. Traduo de Aluzio
Pestana da Costa. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 372.
7
Se em grande medida realizar uma histria mais livre (o que no significa sem compromissos) faz-la de
modo domingueiro (Philippe Aris), nossa escrita da histria, ao que me parece, tem sido muito pouco
domingueira.

32

implicado operao que realizo8. O historiador penso, naquilo que opera, deve fluidizar suas
paixes e emoes, sob o risco de se assim no o fizer, realizar uma histria bem morta. E
lembrando Certeau, no existem consideraes, por mais gerais que sejam, nem leituras,
tanto quanto se possa estend-las, capazes de suprimir a particularidade do lugar de onde
falo e do domnio em que realizo uma investigao9. Afinal, desta forma que meu trabalho
representa minha relao com um lugar, ou melhor, com lugares10.
A operao historiogrfica a qual me dediquei, e de modo a necessariamente ter
que limit-la (frente aos quase infinitos horizontes que se apresentaram), seguiu basicamente
uma disposio, mais ou menos rigorosa, de compreender territrios (culturais, sociais),
embasada numa prtica histrica materializada em um texto. Ento, voltando ao tema, ou
de sua procura at o ardiloso encontro, deixo vincado trs referncias inquietantes: um lugar
(Cricima), uma Histria (ou um conjunto delas que tentaram dar ao lugar um estamento) e,
finalmente, um instrumental (as fontes).
O lugar: em busca de uma melhor compreenso de uma relao tensa que mantive
(e talvez ainda mantenha) com a cidade de Cricima, busquei no aparar arestas neste
trabalho, mas v-las de maneira diferente. Este particular desejo se articulou a outro no
menos significativo de atender uma demanda reprimida de trabalhos que numa ao aflita,
ansiosa ou quase asmtica, tenta dar visibilidade s tenses de variadas formas dispersas no

No se trata contudo de habitar o reino das subjetividades. Mas ter claro que a objetividade mesmo um
falso problema. Segundo Certeau: A histria objetiva, alis, perpetuava(ou) com essa (a) idia de uma
verdade um modelo tirado da filosofia ou da teologia de anteontem; contentava-se (ou-se) com traduzi-la em
termos de fatos histricos... Os bons tempos desse positivismo esto definitivamente acabados. CERTEAU,
Michel de. A escrita da histria. Traduo de Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense
Universitria, 1982, p.67

CERTEAU, Michel de. Op. Cit., p.65.

10

Ainda segundo Certeau: o gesto que liga as idias aos lugares precisamente, um gesto de historiador.
nesta dimenso que o historiador francs explica a relao de seu pato com um lugar. prximo desta

33

Sul do Estado, especialmente na cidade de Cricima. Tenses estas que em quase nada se
distanciam de experincias vividas em outras tantas cidades especialmente nas trs ltimas
dcadas. E houve tambm um anseio e a pretenso de que ao proceder tal articulao,
contribuisse para um enriquecimento da historiografia catarinense, ordinariamente no que ela
traz de novo.
Em apresentao bastante rasa, a capital brasileira do carvo, teve sua histria de
tal forma imbricada, sobreposta, no que nela se convencionou chamar de pedra fundamental
do progresso11, o carvo, que parecia invivel sua construo fora desta base. Entretanto, em
1987, aps uma reduo considervel dos subsdios que por mais de 40 anos foram fornecidos
pelo governo federal indstria extrativa do carvo mineral, o setor carbonfero se retraiu
abruptamente12, provocando desemprego13 e gerando uma crise social de grandes propores.
Aps um perodo de intensas reivindicaes e lutas14, promovidas por
movimentos sociais, sindicatos, organizaes de bairros, imprensa e pelo prprio

dimenso que tambm busco refletir minha relao com um lugar, ou lugares: Cricima, a academia, meu
trabalho, meu sotaque.
11

Slogan de campanha publicitria de largo alcance, realizada em Cricima entre 1975-1980.

12

Entre uma srie de reflexes empreendidas neste sentido (de crise), destaco os trabalhos de: TEIXEIRA, Jos
Paulo. Os donos da cidade. Florianpolis: Insular, 1996 e SANTOS, Maurcio Aurlio dos. Crescimento e
Crise na Regio Sul de Santa Catarina. Florianpolis: UFSC, 1995. Dissertao de Mestrado. Ao considerar
esta perspectiva, particularmente se
mostra interessante a idia de Santos em apontar um certo
redimensionamento do setor. Por outro lado, como esta questo ser fragmentada ao longo deste texto, saliento e
adianto, que ambas (crise e redimensionamento) so modos possveis de se ler a cidade.

13

O nmero de postos de trabalho que em 1987 era de 13.000 foi reduzido para 4.000 em 1990. Tambm em
1990 o governo federal reduz ainda mais o incentivo a explorao do carvo nacional, reduzindo de 10% para
6% a cota obrigatria de compra do carvo nacional por parte das empresas que usavam este mineral. Uma
anlise bastante elaborada do colapso sofrido pelo setor carbonfero neste perodo pode ser encontrado em:
TEIXEIRA, Jos Paulo. Os donos da cidade. Florianpolis: Insular, 1996.

14

Estas lutas tomaram uma face recrudescida e, por vezes, bastante violentas. Uma das mais marcantes ocorreu
em 1991, durante o processo de privatizao da CSN (Companhia Siderrgica Nacional), que atuava em
Cricima atravs da Companhia Prspera e que era detentora de grandes reservas de carvo. Reagindo ao
processo de privatizao, os mineiros ocuparam as instalaes da empresa, queimaram caminhes e colocaram
explosivos nas imediaes da Companhia, ameaando explodir, caso no fossem atendidas suas reivindicaes.

34

empresariado local, a cidade deixou de ser divulgada15 como a capital brasileira do


carvo16. desta forma que Daltro Espndola, empresrio do setor Txtil da cidade se
coloca: Cricima no mais a capital brasileira do carvo. Aqui j foi, agora no
mais...17. Esta alterao significativa no olhar sobre a cidade, no corre apenas boca
pequena. Ela aparece em manifestaes inmeras.
Derley de Lucca, professora de Histria de um colgio secundarista de Cricima,
em artigo publicado num jornal local, afirma: a cultura do carvo acabou. Hoje os mineiros
no tem o apoio da cidade18. Contudo, introdutoriamente, cabe perceber que apesar de
esforos como os colocados, no parece possvel que quase por um decreto se instale a morte
de uma cultura. Assim, de formas que espero aos poucos apresentar, busco identificar os
processos deslizantes de significao colocadas em Cricima (em diferentes momentos e alm
da dcada de 1990), buscando um texto vivo mesmo quando possa insinuar mortes. Mesmo
porque, alinhado a Paul Veyne, acredito que uma cultura est bem morta quando a defendem
em vez de invent-la19.

15

Em realidade tal divulgao, ao que tudo indica vem sendo instrumentalizada em procedimentos diferentes
daqueles conhecidos anteriormente. Outras visibilidades da cidade do carvo podem ser percebidas atravs, por
exemplo, do uso turstico do termo capital do carvo, caso este da mina modelo criada na cidade em 1985 no
governo de Jos Augusto Hlse e anunciada como a nica mina aberta visitao pblica no mundo. Em
entrevista concedida a mim em 08/03/2002, Manoel Coelho, arquiteto, 61 anos, um dos profissionais
responsveis pelos projetos modernizadores implementados em Cricima nas dcadas de 1970 e 1980,
destacando-se a realizao do parque centenrio e do museu Casagrande, afirma o seguinte: Na ltima dcada
Cricima vem se construindo por outras referncias que no aquelas voltadas ao carvo. Vejo isto como algo
positivo. Contudo as marcas da explorao so ainda muito visveis na cidade e a memria disto no se
apagou. Tanto que se criou uma mina (modelo) aberta a visitao pblica, fundada na administrao do Hlse
(Jos Augusto Hlse, ex-prefeito e ex-vice governador do estado) e que mesmo tendo postura poltica distinta da
minha tomou uma medida benfica cidade.

16

Em livreto editado pela Prefeitura Municipal de Cricima, datado de janeiro de 1986, o ex-prefeito e atual
vice-governador do estado, Jos Augusto Hlse escreve que: instado a dar nome a um documentrio
cinematogrfico produzido sobre a cidade, o ento prefeito Addo Faraco, em 1948, o chamou de Cricima:
Capital do Carvo. Naquele momento o ttulo foi criado.

17

Entrevista concedida a mim, na cidade de Cricima, em 13/10/1999.

18

JORNAL DA MANH. Cricima: Jornal da Manh, 14/11/1996. P.11.

19

VEYNE, Paul. O inventrio das diferenas: histria e sociologia. So Paulo: Brasiliense, 1983, p.10.

35

Como referncias melhor compreenso dos temas que so tratados nesta tese,
desde j fica assinalado que em 1980 com uma populao de 99.735 habitantes, Cricima
contava com 11 empresas carbonferas instaladas no municpio, empregando mais de 50% da
populao economicamente ativa do municpio20. Em 1991, Cricima Apresentava uma
populao de 146.162 habitantes, com apenas quatro empresas carbonferas em
funcionamento21. Em 2000,

apenas uma empresa carbonfera continuava explorando no

municpio, enquanto que sua populao era de 170.274 habitantes, dos quais 152.903
dispostos na rea urbana e 17.371 na rea rural22.
Contudo, possvel afirmar, e tento mostrar isto nesta tese, que especialmente
nestes ltimos dez anos, a cidade de Cricima se encontra muito mais fraturada e, assim,
exprime uma gama de significados amplos, que dificilmente uma sentena redutora poderia
melhor qualific-la. Para melhor entender estes plats, na expresso cunhada por Deleuze,
foi necessrio fugir de lugares comuns, sem contudo abandon-los. Esta atitude,
esquizofrnica23 sem dvida, pareceu ser uma boa porta de entrada24, uma visada interessante

20

Fontes: PBDEE (Plano Bsico de Desenvolvimento Ecolgico Econmico). AMREC /UNESC, 1997.v. I.
p.195 e SANTOS, Maurcio Aurlio dos. Crescimento e crise na regio Sul de Santa Catarina. Florianpolis:
UDESC, 1997. Os dados em relao aos empregos diretos gerados pelo setor carbonferos no so claros.
Contudo certo que somado ao setor cermico (outra significativa rea produtiva da cidade), em 1980, chegam a
65,4% da economia local. Dados coletados junto ao IBGE apontam uma populao um pouco menor para o
mesmo perodo: 96.332 habitantes.

21

PBDEE (Plano Bsico de Desenvolvimento Ecolgico Econmico). AMREC /UNESC, 1997.v. I. p.195. Em
1989 Forquilhinha se emancipa de Cricima produzindo um efeito negativo no crescimento populacional e
tambm econmico, pois parte considervel das jazidas de carvo se encontravam naquele municpio. O nmero
de empregos do setor carbonfero que em 1980 era superior a 12.000 cai para menos de 3500 em 1991.

22

Dados obtidos no Relatrio Parcial-Regional Censo 2000, junto ao IBGE. Embora (2003) no seja mais
explorado carvo em seu territrio, sediam-se em Cricima a administrao de algumas empresas carbonferas
que operam na regio devido a capacidade logstica oferecida pela cidade a estas empresas.
23
Falo de uma esquizofrenia no patolgica. Por certo no a esquizofrenia da qual os saberes institudos, mais
particularmente a psicologia ou a psicanlise, tm se debruado a estudar e explicar. A esquizofrenia a a qual me
refiro voltada seara aberta por Gilles Deleuze e Flix Guatarri, constituda por um movimento de fuga
criativo e inovador. Tambm certo que esta esquizofrenia distinta promove sofrimentos, mas sempre uma
ao de partida para uma nova forma de pensar, como dito, criativa e inventora. Esta uma dimenso ensaiada
por Deleuze e Guatarri em: DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Felix. O Anti-dipo: capitalismo e esquizofrenia.
Traduo de Joana Moraes Varela e Manuel Carrilho. Lisboa: Assrio & Alvim, 1966.

36

sobre Cricima. Lugares muitos bem marcados como a cultura do carvo, usos da
etnicidade, a redeno monumental25, puderam, assim pretendi, serem vistos de modos
relacionais, imbricados e produtores de liames ou urdiduras.
A Histria: evidente que histrias mltiplas sobre Cricima foram e vem sendo
produzidas. O sentido mltiplo no necessariamente diverso. Ao contrrio, ele pode, e os
exemplos so inmeros, ser uma poderosa ferramenta ratificadora de lugares comuns. Embora
de agradvel leitura e por vezes bem humorada, a historiografia criciumense, ao menos aquela
realizada at a dcada de 1980, se compe e se constri atravs do trabalho desenvolvido pelo
que convencionalmente se pode chamar oficialistas-memorialistas26. Longe de uma histriaproblema, h nela um sentido pico e reificador, que para faz-la produzir sentidos e no
apenas lgrimas e risos27 mister, numa espcie de anti-afinidade eletiva, acionar um
dilogo que possibilite ao mesmo tempo, uma leitura compreensiva e paradoxalmente

24

Existe um texto clssico de Maria Stella Bresciani em que so sugeridas algumas portas para se realizar
leituras sobre a cidade. Ver mais em: BRESCIANI, M. Stella. Metrpoles: as faces do monstro urbano. (cidades
no sculo XIX), Revista Brasileira de Histria. So Paulo: n.8 e 9. ANPUH / Marco Zero, p.35-68, 1985.
Ainda: BRESCIANI, M. S. (org.). Imagens da cidade: sculos XIX e XX. So Paulo: ANPUH / Marco Zero,
1993, especialmente o texto de Franoise Choay, pgs. 13-27.

25

A etnicidade desde cedo se constitui num problema histrico e estuda aqui ao longo dos ensaios,
especialmente naquele da Quermesse e tambm no Futuro do Pretrito. A cultura do carvo algo ainda muito
visvel na cidade em que pese os esforos para decretar sua falncia, e cuja manifestao cultural mais visvel se
encontra na festa de Santa Brbara que vem se realizando, com algumas interrupes, h 81 anos. Quanto ao que
muito provisoriamente chamo de redeno monumental se trata de uma parcela considervel da histria da
cidade contada ou materializada em seus monumentos (ao mineiro, ao imigrante, ao centenrio).

26

Entendendo por memorialistas aquilo que em outra oportunidade Peter Burke chamou de antiqurios. Ver:
BURKE, Peter. (Org.). A escrita da histria: novas perspectivas. Traduo de Magda Lopes. So Paulo:
UNESP, 1992. Aplicado ao estudo relativo cidade de Cricima, memorialistas seriam aqueles que num
primeiro momento cuidaram de coletar fontes, reunir documentos e realizar uma histria possvel sobre a cidade.
Tal preocupao se mostra mais efetiva a partir da dcada de 1970. Oficialistas seriam os profissionais que da
mesma forma anterior, coletam dados e organizam escritos, mas estes so produzidos exclusivamente pautados
em documentos, desconsiderando quaisquer contribuies que possam ser fornecidas pela histria oral e a
memria das pessoas. Em realidade esta foi uma preocupao forte inicialmente e que com o desenvolvimento
da escrita da tese acabou se diluindo pelos ensaios. No h, portanto, um ensaio especfico onde esta crtica se
realize. Contudo me parece que ela ainda mais visvel no ensaio que tem por ttulo: Futuro do pretrito: um
aniversrio bem festejado.

27

Expresso utilizada em 1978, pelo ento prefeito da cidade Altair Guidi, na festa de recepo ao cnsul
italiano, por ocasio dos antecipados festejos do centenrio da colonizao de Cricima realizado em 1980.

37

dissonante28. H ainda que se considerar a projeo de uma historiografia ps-1980,


produzida especialmente a partir de reflexes iniciadas por professores e estudantes do Curso
de Histria da UNESC (Universidade do Extremo Sul Catarinense) e que tem contribudo
muito para a visibilidade da Cricima Contempornea.
O instrumental (as fontes): uma cidade sempre um bom lugar para se perder,
como lembra Walter Benjamim. Andar por uma cidade se lanar perdio. pouco
provvel que se consiga sair ileso ao contato dirio com as ruas e sinais que se multiplicam
numa cidade. Isto auxiliou em demasia o andamento de meu trabalho. Auxlio que acredito
agora se reflita no em uma abordagem indita, mas no encontro prazeroso de olhares
possveis sobre Cricima.
H contudo uma pedagogia da perdio que no se encontra ainda assimilada
apesar dos esforos enormes empreendidos por socilogos, antroplogos,

arquitetos e

historiadores de subversivamente caminharem em direo a esta perdio29. Portanto, parece


estranho que para me deixar perder tenha que necessariamente encontrar algo. Mas o
estranhamento uma prtica h muito absorvida pelos historiadores, e fatalmente me deparo
com elas: as fontes. Arquivos, bibliotecas, instituies, entrevistas, fotografias, publicidade,
festas, trabalho, viagens, junto ao esquecimento momentneo de outras tantas, frente a uma
evidente perdio, e num Portugus to extraviado quanto, se constituem em achamentos.
E simultaneamente so a razo do meu afeto pelo prazer que me proporcionaram e a
incerteza de meus apontamentos pela incompletude irredutvel que encerram. Incurses

28

Existe um desgaste visvel de polarizaes no debate historiogrfico atual, certo que j no existem
mocinhos e bandidos. Alis, muito recentemente a comunidade internacional de imediato rechaou a idia
posta pelo atual presidente americano, George W. Busch, de polarizar o conflito envolvendo o terrorismo
cometido s torres do World Trade Center e ao pentgono como a luta entre o bem e o mal.

29

Destaco entre outros tantos os trabalhos de: Nestor Garcia Canclini, Homi K. Bhabha, Massimo Canevacci,
Walter Benjamim, Michel de Certeau e Michel Maffesoli.

38

pela cidade, conversas, visitas a arquivos. Talvez para se deixar perder seja necessrio saber
optar por desvios incertos, ao invs de caminhos seguros.
As imagens com as quais tive contato ao longo da minha pesquisa foram
fundamentais para a transformao da tese neste resultado final que aqui se insinua. Apesar
disto este trabalho infelizmente30 no tem no trato elaborado de imagens o seu foco central.
Quando ainda procurava algo que me fosse um indcio forte da verso que queria dar tese e
que embora poca (1999) ainda no tinha amadurecido, foi justamente uma imagem que me
forneceu tal elemento. Assim, uma foto encontrada num arquivo pblico municipal de
Cricima acabou se transformando no starter desta pesquisa31. Nela, mineiros colocam como
um colar se pe garganta de quem se ama, um cacho de bananas na escultura32 de bronze
edificada em homenagem a eles. Indcio que sinaliza alteraes sensveis no corao da
cidade, mesmo queles que com ela mantenham contato epidrmico.
O ato de contar seletivo e assim que ele se torna um parente prximo do
narrar, ao esta muito bem ilustrada por Walter Benjamim33. Se um enredo constitudo por
intrigas, mexericos34, confuses e ardis, ou seja, uma maquinao nas palavras de Certeau,
parece adequado que sua formao se realize atravs de percias. No as percias tcnicas

30

Anoto infelizmente pois durante algum tempo estive tentado a desenvolver a tese atravs da discusso ou do
uso de imagens, na tentativa de obter destas os textos que comunicam. Contudo, por uma srie de limitaes,
resolvi no enveredar por to sedutor caminho. Fica ainda assinalado que na medida do possvel utilizo de
imagens na tese, embora elas sejam utilizadas ainda limitadamente como complementos. O desafio continua
colocado.
31
A foto apresentada no ensaio Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias e Sobejos.
32
A escultura faz parte do monumento conhecido como do mineiro. Em realidade o ttulo que encima a
escultura mais elucidativo (Aos homens do carvo), sendo que neste monumento esto dispostos outros
nomes (com seus respectivos medalhes) envolvidos com a cultura do carvo na cidade.
33

BENJAMIM, Walter. O Narrador. In: Op. Cit. Obras escolhidas: magia e tcnica, arte e poltica. 7ed.
Traduo: Srgio Paulo Rouanet. So Paulo: Brasiliense, 1994. (1 ed. 1987).

34

H um trabalho desenvolvido por Norbert Elias em que o mexerico, ou seja, a fofoca seriamente analisada.
A fofoca, em outras palavras, no um fenmeno independente. O que digno dele depende das normas e
crenas coletivas e das relaes comunitrias. ELIAS, Norbert. Observaes sobre a fofoca. In: Op. Cit. Os

39

(embora o historiador precavidamente no as tenha abandonado), mas sobretudo as


habilidades que fazem do narrar uma experincia histrica notvel. desta forma que o
historiador continua aprendendo a contar histrias (mesmo que ainda no tenha conquistado
tal percia). Como um arteso ele busca habilidades. Subversivamente ele deve tentar inverter
a ordem do ofcio e acatar a popular expresso: quem no trabalha, conta histria.
possvel que assim desenvolva melhor suas habilidades.
hora de optar, selecionar, imaginar aes, dilogos. Ento, hora de trilhar
desvios. Este o momento em que o contador de histrias se torna tambm protagonista delas.
Busquei uma fala quase barroca, no em sua exuberncia, mas na sua irregularidade e, se para
um texto com o propsito deste, a carncia ltima identificar sua dico, receio que esta se
mostre quase sempre gaga35.
Sobre esta realidade e como forma antecipada da polifonia a qual me dedico nesta
tese, vejamos uma notcia encarregada de apresentar a cidade e que ainda a exibe de modo
monofnica:
Fundada em bero de ouro, sob a marca da predestinao, no dia 06 de
janeiro de 1880, Cricima foi colonizada por italianos, alemes,
poloneses, negros e aorianos, que pela ordem, se fixaram na regio.
Em pouco tempo, as plantaes cresciam e surgiam as primeiras
moendas e engenhos. Nesse tempo quando se arrancavam a vida e o
progresso da terra com as mos, j eram claras as marcas que virariam
o signo e o smbolo desse povo em construo. Sinais que se
perpetuariam na audcia e no arrojo de enfrentar e vencer desafios36.

estabelecidos e os outsiders: sociologia das relaes de poder de uma pequena comunidade. Traduo de Vera
Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. Pgs. 121-133.
35

H um sentido frtil da gagueira, estimulada, por exemplo, por Gilles Deleuze conseguir gaguejar em sua
prpria lngua, isso um estilo. difcil porque preciso que haja necessidade de tal gagueira. Ser gago no em
sua fala, e sim ser gago da prpria linguagem. Ser como um estrangeiro em sua prpria lngua. DELEUZE,
Gilles. Dilogos. Traduo de Elosa Arajo Ribeiro. So Paulo: editora Escuta, 1998, p.12.

36

Internet. [Link] Capturado em 2001.

40

Ento, de forma a fugir da monofonia, nesta tese so discutidas outras temticas,


que partindo da configurao cultural e social exibida aqui prenhe de invenes e criaes
, d conta de refletir manifestaes diversas que se tornam mais visveis na cidade,
especialmente a partir da dcada de 1980, acompanhando o ocaso da explorao carbonfera.
Inserem-se nesta dimenso, a Quermesse: Tradio e Cultura (tambm conhecida como festa
das etnias), a comemorao do Centenrio de Cricima (realizado em 1980), fenmenos de
emigrao, da dolarizao crescente37, entre outros, e que permitem a audio da polifonia38
produzida na cidade.
Na polifonia criciumense h dissonncias, porque assim que uma cidade,
qualquer cidade, se constri ou se deixa ouvir. Em que pese os esforos para mostrar
Cricima, plantada no tranqilo sul catarinense39, o que se verifica na cidade so suas
fraturas, expostas numa hiperinflao de signos: um parque centenrio que agora se chama
das etnias; um monumento que era dos mineiros e que tem agora sua legitimidade
questionada40; uma festa (Quermesse) criada inicialmente (1989) para celebrar as cinco etnias

37

Fenmeno mais vivo a partir da dcada de 1990, quando se intensifica o processo de emigrao de
criciumenses para os Estados Unidos. Ver discusso mais frente, colocada no ensaio sobre a Quermesse:
Tradio e Cultura.
38
Estou me referindo instigante abordagem citadina realizada por Massimo Canevacci: A cidade se apresenta
polifnica desde a primeira experincia que temos dela. (...) a cidade em geral compara-se a um coro que canta
com uma multiplicidade de vozes autnomas que se cruzam, relacionam-se, sobrepem-se umas s outras,
isolam-se ou se contrastam, e tambm designa uma determinada escolha metodolgica de dar voz a muitas
vozes, experimentando assim um enfoque polifnico com o qual se pode representar o mesmo objeto
justamente a comunicao urbana. CANEVACCI, Massimo. A cidade polifnica: ensaio sobre a antropologia
da comunicao urbana. Traduo de Ceclia Prada. So Paulo: Studio Nobel, 1993, p.17-18.
39

ARNS, Otlia. A semente deu bons frutos. Florianpolis: Casa Civil, 1985, p.11. A referida obra, preparada
por ocasio do centenrio de Cricima (1980), mas somente publicada em 1985, foi ao menos at 1994, a
principal referncia da qual se serviu a prefeitura do municpio para promover e visibilizar a cidade tanto
domesticamente como em mbito estadual e nacional, conforme se pode verificar numa inumervel srie de
documentos, ofcios e folders emitidos pelo poder pblico local. Em entrevista realizada por mim em 15/03/2002
na cidade de Forquilhinha, antigo Distrito de Cricima e dela emancipada em 1989, Otlia Arns ratifica esta
viso sobre Cricima e particularmente sobre forquilhinha. A fala da memorialista melhor explorada no ensaio
relativo s comemoraes do centenrio de Cricima que se faz presente nesta tese.

40

Atualmente se discute de modo pulverizado entre empresrios, polticos, poder pblico a representatividade do
monumento do mineiro, criado em 1946 e transferido na dcada de 1970 para um dos cantos da praa Nereu
Ramos.

41

fundadoras e/ou construtoras da cidade, depois seis, sete, oito, para finalmente em 2001
voltar a seis; a dolarizao da cidade que aquece sua economia; e tantas outras notas que dela
ecoam41. Nesta ambincia impossvel pensar num lugar perfeito e completo, onde a
diversidade daria conta de tudo acomodar, mesmo porque, no completo perfeito, num
particpio passado constantemente atualizado, no h espao para a alteridade, nela o outro
ser sempre este difcil. O pesquisador deve saber ouvir as desafinaes e reconhecer que
no peito dos desafinados tambm bate um corao. Da a necessidade que se imps ao meu
trabalho de cuidar da (des)constituio de diferenas e no da diversidade.
Um olhar apressado sobre Cricima vivel, mas na mesma medida, acredito,
intil. Desejo afirmar que a abordagem a qual me inseri, ao invs de ter como

lugares

seguros a etnicidade, classe, religiosidade; procurou neles quase sempre sua instabilidade,
buscando ouvir e ler estes elementos como constituidores e constitudos por urdiduras. Assim
as diferenas podem, no apenas como uma espcie de compromisso moral, serem
respeitadas, mas legitimamente existirem, pois a diferena cultural no representa
simplesmente a controvrsia entre contedos oposicionais ou tradies antagnicas de valor
cultural42. Nas anlises que se podem realizar sobre a cidade das etnias h sempre e, ainda,
um alm.
Entre tantas aberturas possveis para se entrar em Cricima, duas particularmente
se mostram com maior imponncia: a cultura do carvo e o que na ausncia de uma
denominao adequada chamo de mercado tnico. Num trabalho muito bem preparado, Jos
Paulo Teixeira aponta:

41

Tpicos como a dolarizao presente em Cricima produzida pelo fenmeno da emigrao para os Estados
unidos que se avoluma a partir da dcada de 1990 so abordados nos ensaios desta tese.
42
BHABHA. Homi K. O local da cultura. Traduo de Myriam vila, Eliana Loureno Lima dos Reis, Glacia
Renate Gonalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998, p.228.

42

se vlido pensar a cidade a partir do reconhecimento social dos mineiros e


de sua fora histrica e simblica, reduzi-la a isto seria uma mistificao, uma
ideologizao da histria de Cricima, da mesma forma como faz a
historiografia oficial ao reduzir e reproduzir a histria da cidade pelo vis da
colonizao, isto , a partir das diferentes etnias que colonizaram a cidade no
final do sculo XIX e incio do sculo XX43.

Atenta observao. Partindo dela, apresento o modo pelo qual, ou melhor, os


modos pelos quais trato de discutir a etnicidade (ou seus usos) na cidade. Assim, busco na
Quermesse: Tradio e Cultura, o evento iniciador da reflexo. Se externamente, para as
demais cidades do estado, Cricima ainda lembra a capital do carvo, internamente o que se
v uma profuso de tantas outras manifestaes, entre elas, a Quermesse. As investigaes
realizadas indicaram que h mesmo um esforo considervel de fugir da Sina de Potosi44.
Significativo ento passa a ser o momento de criao da festa (1989), quando a cidade
atordoada com os cortes de subsdios que por mais de cinqenta anos garantiram a indstria
carbonfera, se inventa mais uma vez. Esta festa hoje suporta uma pondervel capacidade de
reunio. um daqueles temas que salta aos olhos do historiador.
Como j comentado, a festa foi criada com inteno de homenagear as etnias
colonizadoras de Cricima: italiana, polonesa, alem, negra e portuguesa. Parte desta
homenagem j havia se edificado, tornado monumento em 1966, quando se inaugura o
monumento do imigrante (ou da primeira m), localizado na praa do mesmo nome. Naquela
oportunidade uma pedra redonda (em forma de roda de moinho) era sustentada por trs
colunas que simbolicamente lembravam as trs etnias fundadoras da cidade: italiana, polonesa

43
44

TEIXEIRA, Jos Paulo. Op. Cit., p.34.

Referncia cidade boliviana, fundada por espanhis em 1545 com a finalidade de explorao de prata. A
partir do sculo XIX enfraquecida pelo abandono das minas, a cidade se retrai. Esta relao com Cricima foi
voluntariamente apresentada em duas entrevistas realizadas. A primeira com o ex-prefeito da cidade em duas
gestes, o arquiteto Altair Guidi. Uma outra foi citada pelo jornalista Adelor Lessa quando afirma: Cricima j
superou a sina de Potosi. Entrevistas concedidas a mim na cidade de Cricima em 23/06/2000 e 27/04/2001.

43

e alem. A populao negra e litornea (chamada etnia portuguesa) no so presentificadas.


Porm, em 1980, uma nova homenagem ganha imponente edificao: o monumento do
centenrio (conhecido tambm como das etnias). Agora So cinco etnias que se materializam
no monumento: italiana, polonesa, alem, negra e portuguesa.
Estes referenciais, simples mas contundentes, instalaram em mim desde cedo uma
forte inquietao: como mexer com isto tudo? Ento, tomamos aquilo com o qual temos
mais fontes ou afinidades e nos debruamos sobre ele na inteno de um corpo para o
trabalho? No. Decidi e para isto contribuiu muito uma orientao precisa e criativa que
a abordagem deveria privilegiar fragmentos e a partir dele tecer fios, contar histrias,
identificando diferenas e no apenas assumindo a diversidade redentora , atentando
para as fronteiras elsticas e/ou limitadoras das quais se constituem os territrios culturais, e
onde a etnicidade por vezes mais, por vezes menos, um de seus elementos formadores.
Busquei junto ao arquivo histrico de Cricima, em entrevistas e outras
possibilidades, coletar informaes em relao ao entorno do centenrio da colonizao. As
informaes quase sempre muito dispersas at hoje somente organizadas na verso
oficialista do livro A semente deu bons frutos45 apontam a possibilidade de atravs de
ofcios, entrevistas realizadas poca e outras recentes desenvolvidas por mim, relatrios de
concursos: escolha do hino, rainhas das etnias melhor compreender como at ento um
conjunto emprico de fontes, acabou cristalizando uma idia de cidade das etnias. Esta umas
das contribuies que pretendo alcanar junto crtica historiogrfica, dialogando com os

45

ARNS, Otlia. Op. Cit.

44

memorialistas-oficialistas, tentando fugir do carter solene dado a histria, que apenas


muito recentemente vem se alterando46.
Assim, tentei entender como possvel, ainda hoje, frente a toda complexidade
visvel na cidade,

a polifonia de significados e

o irredutvel hibridismo47, que na

comemorao dos 121 anos de Cricima se verifique em manchete de capa veiculada pelo
jornal de maior tiragem no municpio a seguinte manchete:Cricima, 121 anos de histria
italiana: trabalho, famlia e f: legado dos italianos que construram a maior cidade do
sul48.
Face ao que foi exposto penso numa articulao para o texto da tese que possa
fazer vazar o caudaloso rio de fragmentos. Desta forma, estimulado a realizar ensaios, nas
pginas que seguem trato de variados temas que so cingidos pela agulha penetrante da qual
se investe uma vitrine-cidade. Os ensaios, desde cedo, para mim se apresentaram como o
modo mais adequado, visto as possibilidades que neles se encerram de produzir a escrita da
histria que pretendia narrar. H uma historicizao possvel da prtica ensasta e, nela
comum se encontrar o ensaio pensado como estudo sobre determinado assunto com densidade
menor do que um tratado formal e acabado. Uma tese tem em si uma densidade, e me esforo
para alcana-la nesta que agora apresento. Talvez no aquela classicamente pensada nas
cincias humanas, onde a histria se insere. No caso especfico desta tese a categoria do
inacabado que d o tom da escrita. No houve para mim outra possibilidade, que no o

46

Se pode identificar uma quantidade razovel de trabalhos acadmicos que tentam, ainda que de maneira
bastante inicial, prestar um novo flego construo da histria de Cricima. Contribu muito para isto o Curso
de Histria da UNESC, criado em 1995.

47

Sigo a trilha semeada por Nestor Garcia Canclini, que prefere trabalhar com processos de hibridao,
abrangendo diversas mesclas culturais. CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Hbridas: Estratgias para entrar
e sair da modernidade. Traduo de Helosa Pezza Cintro, Ana Regina Lessa. 2 ed. So Paulo: UNESP, 1998,
p.21

48

JORNAL DA MANH. Cricima: Jornal da Manh, 6 e 7/01/01. Capa e pgs. 10-11.

45

ensaio49, de falar de algo fugidio como a cidade contempornea, cuja a face nmade est a
para ser observada e vivida.
A histria realizada na ltima dcada ainda se mostra como um grande desafio. Os
sentimentos e as subjetividades que envolvem sua realizao ainda no foram experimentados
em sua maioria. Por vezes se tem a sensao semelhante quela que um chocolate amargo
provoca no paladar: ns ainda no sabemos se apreciamos o sabor, mas continuamos
comendo por pura gula.
Depreendo do que tentei apresentar, a imagem de um prato simples, com mingau
bem temperado, fumegante e quente. H um adgio popular que se pode perfeitamente ouvir
em Cricima: coma o mingau pelas beiradas. Aceito a sugesto de bom grado. E como
quem cozinha um galo, tento iniciar a gastronomia imagtica50.

49

Por certo esta uma esttica da escrita mais utilizada na literatura, mas acredito que historiadores mais e mais
se encontram seduzidos por esta possibilidade. Ento, aqui tomo a prtica do ensasta: um experimentador do
possvel como disse Eduardo Loureno, ensasta portugus. (In: LOURENO, Eduardo. Ns e a Europa ou as
duas razes. Lisboa: IN-CM, 1998). O professor de Teoria da Cultura da Universidade de Chicago, Homi K.
Bhabha, em seus escritos deixa claro, embora no se dedique a explicar, a dimenso do ensaio que eu gostaria de
elucidar. Acredito tambm que no seria possvel dizer que a obra de Bhabha carea de densidade. por certo
uma obra aberta. Mais conhecido na Amrica Latina, o antroplogo Nestor Garcia Canclini diz o seguinte sobre
a dimenso ensastica: prefiro a maleabilidade do ensaio (...) que permite mover-se em vrios nveis. Como
escreveu Clifford Geertz, o ensaio torna possvel explorar em vrias direes, retificar o itinerrio se algo no
caminha bem, sem a necessidade de defender-se durante cem pginas de exposio prvia, como em uma
monografia ou em um tratado. CANCLINI, Nestor Garcia. Op. Cit., p.28. Ainda sobre a defesa do ensaio, desta
feita a partir de crtica literria ver: PINTO, Manuel da Costa. Albert Camus: um elogio do ensaio. So Paulo:
Ateli Editorial, 1998, que entre outra afirmaes, indica: (...) O ensaio, portanto, no uma variao
subjetivante dos tratados filosficos, mas uma forma de percepo do real que, suspendendo as verdades sobre
a essncia dos objetos do mundo, e embora no possuindo ainda um saber que preencha este vazio, vai
construindo seu novo universo (...). In: PINTO, Manuel da Costa. Op. Cit., p. 23.

50

Neste caso aceito a sugesto de Michel Maffesoli quando diz ser necessrio o reconhecimento da profuso e o
papel, a pregnncia da imagem na vida social. MAFFESOLI, Michel. A contemplao do mundo. Traduo
de Francisco Franke Settineri. Porto Alegre: artes e ofcios, 1995, p.89.

46

I
Para alm da comunidade imaginada
Quermesse: encontros e desencontros na esquina do mundo
Ontem na cidade, ontem na cidade, sangue.
Na vitrine a modelo, na vitrine a modelo, linda.
Vitrine viva! Vitrine viva! Vitrine! Ontem eu
estava l, ontem eu estava l, [Link] estava
l, voc estava l e eu no vi. Que azar o meu.
Voc estava l e eu tambm. Eu no sou a vitrine
linda. Eu no sou!
(Edgar Scandurra)
O povo da cidade delicia-se a gozar a paisagem
e o tumulto do largo apinhado, onde h um

47

colorido to variado de vestes que faz lembrar


vagamente uma festa ou feira em Marrocos
(Virglio Vrzea)
Esperamos que as autoridades municipais
continuem organizando a quermesse e que as
etnias, as entidades e a comunidade continuem
integradas participando deste evento de tradio
e cultura de nossa cidade.
(Onlia Alano da Rosa Etnia Negra)

Na tenda portuguesa h um fado que se pode ouvir ao fundo. Ele se confunde


com o pop Planeta dos Macacos. Bem ornada e alinhada, se dispem pela tenda uma srie de
painis, tentando fixar imagens da presena portuguesa em solo brasileiro ao mostrar como se
deu a construo territorial do imponente achamento portugus desde o sculo XVI. A
comida oferecida, bem cuidada, proporciona um agradvel aroma. O cardpio sinaliza:
bacalhau, batatas e doce de abbora com cravo.
possvel por um agora, num tempo minsculo de um sorriso, lembrar de outras
quermesses, daquelas em que apostando algumas parcas economias, se torcia para ganhar
uma garrafa de vinho e uma camisa marrom, prmios anunciados por um microfone de
efeito quase pfio. Contudo, ao calar o sorriso, o som que se ouve outro bem diferente. O
som agora high-tech, e o que ele produz naqueles que se deixam perder nos seus
harmnicos, se encontra distante da monofonia do outro agora. Um locutor sobrepe outras
vozes. H agora uma polifonia. Imerso nela, a voz sobreposta convida a todos para que
visitem o museu Casagrande, antiga casa de um dos colonizadores da cidade. O convite
ainda se estende irresistvel prova de um pierogi polons.
mesma rua, o pierogi pode ser saboreado. Ele se transfigura, se materializa na
tenda polonesa. Nesta j no h um fado, mas sim uma msica capaz de permitir queles que
possuem habilidade de ligar sons lugares, talvez uma viagem Cracvia ou Varsvia. Nesta
tenda, h uma bandeira polonesa a informar os desavisados da territorialidade do espao. Ela

48

se confunde com outra bandeira de um grupo folclrico que tenta resgatar a cultura
polonesa.
Neste passeio, mesma rua, se encontra uma terceira tenda. A lngua a mesma
das outras tendas, se fala nela o Portugus. Mas existe uma srie de outros sinais que a
diferencia das demais. Um senhor colocado sua entrada comunica a todos a urgncia em se
saborear a comida, afinal esta a nica oportunidade no ano em que servimos comida alem
na cidade. As bandeiras no se repetem, elas so mesmo outras. Agora lembram alguma
regio ou cidade da Alemanha. A comida j no o pierogi ou o bacalhau. Come-se marreco
recheado, chucrute e a sobremesa strudel. Orgulhosamente, a tenda se mostra como a nica
a apresentar msica ao vivo: uma bandinha alem.
Agora os brases e bandeiras so outros. Eles anunciam a territorialidade italiana.
outra tambm a comida: polenta, galinha e massas so os pratos a produzir o aroma da
tenda. Algum anuncia a tarantela como msica tpica italiana, enquanto no palco em
frente, um grupo folclrico encena a msica da paquera siciliana. Neste momento, as
diferenas entre sicilianos e italianos do norte esto circunscritas a um outro lugar, em outras
tendas.
A situao, disposta mesma rua, agora j outra. Uma senhora entrada da
tenda est muito bem vestida com um manto tigresa e um turbante cabea, anunciando
outros lugares, de identificao mais imprecisa, nem por isso menos visvel. a tenda da etnia
negra. Carrancas e mscaras ornamentam as paredes. As bandeiras so muitas, e numa
profuso de cores tentam dar conta de outros lugares: Guin-Bissau, Angola e Jamaica. O
cardpio consiste em peixe, camaro, saladas e um saboroso doce de leite como sobremesa.
Em outra tenda hora de receber visitas. No muito vontade, preparando um
kafta, o governador do estado junto a sua esposa e outras tantas autoridades, est na tenda

49

rabe. Faz dois dias que o mundo assistiu o desabamento das duas torres do World Trade
Center em Nova Yorque. A configurao agua a curiosidade e o nmero de pessoas na tenda
grande.

Papiros, cristais, vus, bijuterias egpcias, caixas de madreprola, gabbehs,

lanternas, e num canto da tenda, uma moa encenando a dana do ventre. Hoje a noite da
etnia rabe. Simultaneamente, no palco principal, as apresentaes se do. Danas e msicas
em tudo tentam lembrar o mundo rabe.
H uma tenda menor, em realidade uma oca. Nela no existe comida, muito
menos tpica. No h trajes tpicos, tampouco algum que tenha suposta legitimidade para
ostent-los. Os diacrticos so outros. Balaios, redes, arcos e flechas, ossos de baleia, se
penduram em pilares, pois na oca no h o confinamento impresso pelas paredes presentes nas
demais tendas. O pblico que a freqenta bem menor. Compe-se de alguns curiosos e
outros professores e membros da Universidade local. Alguns depoimentos coletados numa
obra pouco conhecida, mas de reconhecido valor, acompanhados por grafites feitos por um
artista da cidade tentam lembrar a presena indgena naquele lugar.
Outras tendas, bem menores, e com preocupao maior em delimitar mercados
tambm esto dispostas pela rua, ou melhor, atravs das ruas. So barracas de bancos (do
Estado de Santa Catarina BESC, por exemplo), Previdncia Social, imobilirias, postos de
combustveis, emissoras de rdio e televiso, Polcia Militar, Prefeitura, e a multiculturalista
barraca de organizao do evento, e juntas empreendem esforos para transformar diversidade
e diferenas em negcios.

50

Este cruzamento de territrios, traduzidos nas ruas descritas, constituram em


2001, grosso modo, o chamado Parque das Etnias51, at 2000 conhecido como Parque
Centenrio, situado junto ao Pao Municipal de Cricima. Nele se realizou a XIII Quermesse
de Tradio e Cultura, tambm chamada de Festa das etnias. possvel que uma sensao de
se estar colocado numa espcie de esquina do mundo alcance aqueles que foram
apresentados festa atravs deste estudo. Talvez Cricima possa mesmo estar desenvolvendo
tamanha habilidade. Mas atravs de uma leitura um pouco mais cuidadosa e lenta, trato de
discutir algumas implicaes que se conectam a tais manifestaes.

51

Formalmente inexiste lei que regulamente a instituio do Parque da Etnias. Em realidade sinais para criao
deste referido parque j podem ser identificados no incio da dcada de 1980 quando do projeto do Parque
Centenrio cuja idia criadora em sua maior parte se vincula prtica modernizadora implementada em
Cricima com maior fora a partir de 1972, na gesto de Algemiro Manique Barrreto (ver por exemplo discusso
iniciada por NASCIMENTO, Dorval do. As Curvas do trem: a presena da estrada de ferro em Cricima
(1919-1975) cidade, modenidade e vida urbana. Florianpolis: UFSC, 2000. Dissertao de Mestrado) e dada
continuidade logo em seguida por Altair Guidi, o prefeito do Centenrio. Nos documentos e anotaes do
arquiteto Manoel Coelho, responsvel pelo projeto e execuo do Parque Centenrio, se pode notar hesitao em
nominar o referido Parque. Transitando entre Parque Centenrio e Parque das Etnias ao longo da dcada de
1990, o Parque se compe de grandes e imponentes edificaes: Pao Municipal Marcos Rovaris, Centro
Cultural Santos Guglielmi (que se divide entre a Biblioteca Municipal John Kennedy e Teatro Elias Angeloni), O
centro Esportivo Olavo Sartori e o Memorial da Cidade denominado Dino Gorini. A ao titubeante na
denominao sinal muito visvel da experincia incerta que mulheres e homens vivem nas ltimas duas ou trs
dcadas, mesmo se tivermos na ala da mira a contribuio crtica clssica na seara aberta por Jurgen
Habermas de que a modernidade ainda acontece. sobretudo frente a projetos racionais que a incerteza
mostra sua face, e para desespero de uma retrica no mnimo renhida, onde ela se mostra mais produtora de
tenses. Por mais dolorosa que seja a ao, necessrio aguar a sensibilidade. Eis pois a tirada do momento:
(a) temtica do sensvel bem que poderia ser a marca da ps-modernidade. IN: MAFFESOLI, Michel de.
Elogio da razo sensvel . Traduo de Albert Christophe Migueis Stuckenbruck. Petrpolis: Vozes, 1998, p.
16.

51

Portal da XIV Quermesse: Tradio e Cultura (Festa das Etnias)


Foto: Emerson Csar de Campos
A cidade que se encontra e se perde na festa:
A constituio ou organizao de uma quermesse parece ser motivada por uma
ao solidria em forma festiva. Se empiricamente quase todos ns trazemos, mesmo em
nossas lembranas mais antigas, uma idia de quermesse, campear um tino mais elaborado
no constitui uma tarefa muito simples. Surpresa pode provocar no incauto que de modo
apressado procure uma qualificao ltima para o termo, o que acredito seja ainda uma
ausncia.
A maior parte dos registros, quer sejam partidos da tradio oral ou da literatura
denunciam quermesse como uma feira paroquial, com folguedos populares, um bazar onde se
pode encontrar as mais variadas miudezas52. Uma grande feira enfim. Assim, uma das

52

neste sentido que o mais conhecido dicionrio da Lngua Portuguesa no Brasil apresenta o termo: Do
flamengo kerkmisse, pelo fr. kermesse.] Feira paroquial que era celebrada anualmente nos Pases Baixos, com
grandes folguedos populares. Bazar ou feira beneficente, em geral com leilo de prendas In: FERREIRA,
Aurlio Buarque de Holanda. Aurlio sculo XXI: o dicionrio da lngua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1999.

52

idealizadoras da primeira quermesse de tradio e cultura em Cricima (1989), explica a forja


do termo na cidade:
poca em que voltei para a Secretaria de Educao e
Cultura da Prefeitura, e estando certo dia sentada com
algumas pessoas pensando no que realizar para mexer no
ego da cidade, que sofria visivelmente a falncia do setor
carbonfero, tivemos a idia de criar uma festa para a cidade.
A quermesse saiu do Departamento de Cultura da secretaria ,
ns queramos recuperar o esprito festivo e celebrativo do
centenrio (realizado em 1980). Levantar a moral da cidade,
no adiantava ficar chorando pelos cantos. Ento optamos
por uma festa. Que nome daramos a ela? Eu imaginei uma
festa com barraquinhas coloridas, msica apresentaes de
artistas locais, grupos de dana, folclricos e outros. Gente
da cidade. Ento falei, lembrando das festas que antigamente
se realizavam: vamos fazer uma quermesse. Algum colocou
em dvida o nome, outro trouxe um dicionrio, chegaram a
dizer que o nome correto era cremesse. Por fim acabou
ficando quermesse.53

H sempre presente entre os organizadores da festa no somente a preocupao


em se mostrar como participante. Mais do que isto, a criao da festa disputada por quase
todos que se envolveram com ela desde sua primeira edio. Embora no tenha a inteno de
com este trabalho indicar os autnticos criadores, vejamos algumas exibies desta suposta
paternidade ou maternidade, partindo de olhares e lugares sociais distintos postos na cidade.
Para Archimedes Naspolini Filho, Escritor, Poltico e Assessor de Comunicao,
a quermesse uma tentativa de abafar um pouco o sucesso que um ano antes havia feito a
Porca Pipa, festa organizada por mim para a comunidade italiana (...) no foi gratuito que
no ano seguinte (1989) foi criada a Quermesse54.

53

J Maria Helosa Nazrio Felipe,

Entrevista concedida a mim por Maria Marlene Milanez Just, na cidade de Cricima, em 10-03-02. Marlene
Just foi secretria da educao na gesto de Altair Guidi e uma das principais articuladoras das comemoraes
do centenrio em 1980. Em 1989, com a volta de Guidi Prefeitura, Marlene Justi assume o cargo de
coordenadora cultural na Secretaria de Educao de Cricima. H muito vivo na falas das pessoas que se
envolvem ainda hoje na organizao da Quermesse: Tradio e Cultura, um interesse em se mostrar como
participante direto da criao da festa.
54
Entrevista concedida a mim na cidade de Cricima, em 25/04/2001.

53

professora do Ensino Fundamental, aposentada e vinculada comunidade negra do Bairro


Santa Brbara:
A quermesse comeou com uma conversa entre a gente.
Vamos a necessidade de uma festa no centro, na praa,
onde todos se integrassem. At falei para meu marido
poca: Amadeu, vamos pegar umas panelas ai e tal e vamos
ajudar o pessoal a fazer a festa na praa 55.

E ainda, Irma Tasso de Oliveira, funcionria da fundao Cultural de Cricima:


Em 1989 no foi iniciativa nossa, do poder pblico. Ela
comeou com uma iniciativa do Lions e o Rotary que queria
angariar fundos pra entidades filantrpicas. Neste momento
a quermesse est ligadssima s entidades filantrpicas e
beneficentes56.

Em trnsito, serenamente diria que h mesmo um carter domstico numa


quermesse. Uma festa para consumo interno. Sim, pois o cosmopolitismo presente hoje em
Cricima por certo de um posterior momento, ele por assim dizer engendrado no calor da
hora. A hora da ereo, o momento em que se faz necessrio levantar-se do cho, aquele em
que a festa deixa de ser para a cidade, e passa a ser da cidade, momento mais significativo
que apenas uma barganha gramatical.
Quando

do

incio

da

quermesse

realizada

em

Cricima

em

1989,

arrebatadoramente a festa tem tmida manifestao, um carter caseiro ou domstico,


realizada toque de caixa, pouco divulgada, enfim de consumo interno ou para a cidade.
Para que fique melhor apresentado, se pode afirmar que a partir de sua terceira edio, em
1991, vinculada a outras tantas irredutveis manifestaes como o corrosivo processo de
privatizao da Companhia Siderrgica Nacional que ir alterar sensivelmente o mundo do
trabalho em Cricima especialmente no setor carbonfero , a festa passa a se consolidar

55
56

Entrevista concedida a mim, na cidade de Cricima, em 28/07/2001.


Entrevista concedida a mim na cidade de Cricima, em 02/09/2002.

54

como um grande evento, at alcanar em seguida, em 1992, uma divulgao e organizao


maior, de projeo regional, da cidade para outras tantas.
A hora aquecida pelo fogo que nela atia a segunda administrao do prefeito
Altair Guidi, que desde a primeira edio da festa no medir esforos para projet-la,
priorizando a capacidade de promover encontros e celebrar a cidade. Em seguida, 1993, a
festa ser tambm priorizada pela administrao de Eduardo Moreira, poltico de oposio
administrao de Altair Guidi. Isto fica explcito na primeira reunio da ento nova equipe
que organiza a quermesse. Em ata documental da reunio preparatria para a V Quermesse de
Tradio e Cultura, o presidente da Fundao Cultural de Cricima diz o seguinte: Espero
que a Quermesse deste ano (1993) seja igual ou melhor que as dos anos anteriores57.
Uma quermesse pode ser tambm um evento articulador de significativas
manifestaes. Em 1997, quando se definiu a reintegrao de posse de Hong Kong do Reino
Unido para a China, a imprensa brasileira anunciava: (...) dia 22 de junho, uma quermesse
ter lugar no estdio de Hong Kong para festejar a entrega do territrio (...) a se efetivar no
dia 30 58. como se uma quermesse, em sua efusiva miscelnea, pudesse momentaneamente
dar conta, ao menos apresentar, as profundas transformaes ocorridas nos mltiplos
territrios de Hong Kong59, cidade que cresceu de costas para a China Comunista e foi por

57

Declarao de Henrique Packter. Ata do dia 17-05-93. Extrado do livro de registro das atas de reunies da
Quermesse de Tradio e Cultura, disponvel na Fundao Cultural de Cricima.
58
FOLHA DE SO PAULO. So Paulo, 26 de maio de 1997, p. 7-8.
59

Em 1898 os ingleses arrendaram territrios da China por um prazo de 99 anos. Hong Kong foi at 1997 ponto
de partida (e chegada) europia na China Imperial servindo durante muito tempo como nica via de contato da
Repblica Popular da China com os pases europeus. Para isto ver entre outros: FERRO, Marc. Histria das
colonizaes: das conquistas s independncias, sculos XVIII a XX. Traduo: Rosas Freire DAguiar. So
Paulo: Cia das Letras, 1996.

55

cem anos, um smbolo forte da ocidentalizao do mundo60, da economia de mercado, da


modernizao ocidental. Esta conotao transnacional61 da qual uma quermesse pode se
revestir atualmente se exibe em outros tantos exemplos.
Alcanado ao menos uma dcada de discusso substancial sobre fenmenos que
em tudo se relacionam a processos de internacionalizao do mundo, e que apenas muito
recentemente historiadores, socilogos, antroplogos e gegrafos e outros tantos
estudiosos chamamos de globalizao e, mesmo ainda um tanto nebulosos, as
configuraes que se tramam a partir de manifestaes econmicas, sociais e culturais como a
constituio de blocos econmicos, de agilidade na informao e de elasticidade ou
alargamento de fronteiras, transportam a singularidade, pouco discutida verdade, de mostrar
a todos e a cada um, para usar uma expresso de Otvio Ianni, que afinal somos parte da
humanidade. Perplexidade que assusta pela frieza do real enfim nos mostramos ao
mundo, o chamado terceiro ou quarto mundo e tambm pelo que esta narcisa configurao
gera de excluso e acirramentos.

60

A expresso cunhada por Serge Latouche encerra uma idia bastante clara de limites e fronteiras da prpria
experincia humana face inquietante universalizao planetria. Segundo Latouche Ns partilhamos a
convico de que cada cultura tem muito a aprender com as outras, que ela pode se enriquecer com numerosas
contribuies. Nem por isso certo que cada uma possa entrar no jogo da reciprocidade, isto , renunciar
concretamente a sua barbrie para obter da Outra que ela renuncie sua, para que as duas possam desfrutar de
suas trocas recprocas. Como no h qualquer esperana de buscar qualquer coisa durvel na fraude de uma
pseudo-universalidade imposta pela violncia e perpetuada pela negao da Outra, a aposta de que existe um
espao comum de coexistncia fraterna a descobrir e a construir vale a pena. In: LATOUCHE, Serge. A
ocidentalizao do mundo (ensaio sobre a significao, o alcance e os limites da universalizao planetria).
Traduo de Celso Mauro Paciornik. Petrpolis: Vozes, 1994, p. 134.

61

O termo vem sendo muito utilizado nas ltimas dcadas. Deixo assinalada a contribuio de Otvio Ianni que
diz: Quando se analisam os diversos aspectos do processo de transnacionalizao, mundializao, ou mais
propriamente, globalizao, logo se torna necessrio reconhecer que ele leva consigo tambm a ocidentalizao
do mundo (...). Simultaneamente, revelam-se manifestaes e desenvolvimentos de um processo que pode ser
denominado orientalizao do mundo, pela influncia e adoo de elementos das culturas e civilizaes orientais
(...). So mltiplos e intricados, ao mesmo tempo em que surpreendentes e fascinantes, os processos
socioculturais que se desenvolveram pelo mundo, tanto atravessando territrios, fronteiras, mares e oceanos
como mesclando culturas e civilizaes, ou modos de ser, agir, sentir, pensar e imaginar. In: IANNI, Octvio.
Enigmas da Modernidade-Mundo. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2000, p. 93.

56

Carlos Heitor Cony, lamentando a tentativa de disciplinar mercados e unificar


investimentos, naquilo que chama de economia globalizada, sinaliza:

(...) As naes sero reduzidas a parquias, com direito a


uma quermesse nos dias dedicados antiga data nacional.
O homem comum deixar de ser um nome e um cidado.
Ser o consumidor, com direito a um cdigo mais ou menos
igual aos dos usurios da Internet: "hhipt/ hgy pyj/br-Ak3".
Nem pai nem me nem sexo nem cidadania, discriminaes
superadas, inteis no admirvel mundo novo que est
chegando 62.

Afora o fatalismo de enxergar a paroquizao da comunidade poltica e


imaginada63, existe nesta ambincia chamada ps-moderna, transformaes sensveis em
relao cidadania, comunicao, flexibilidade do mundo do trabalho e tantas outras.
Assim, admirvel ou no, trata-se na verdade de um mundo novo64. Alm disto, nesta
ambincia, ou para usar uma expresso de um de seus crticos mais coerentes, nesta
modernidade lquida65, se encontram inmeras discusses, e segundo o que pra mim se
apresenta, se trata ainda de uma narrativa aberta.

62

FOLHA DE SO PAULO. So Paulo, 29 set de 1995, p. 1-2.

63

Expresso cunhada por Benedict Anderson. De imediato no gostaria de obstruir a discusso em torno da
idia de nao, mesmo porque ao longo desta tese, inevitavelmente abordado o tema. Contudo necessrio
frisar que nao um termo caro s cincias sociais desde Hegel, Herder, Max Weber, atravessando toda a
historiografia francesa e inglesa, at alcanar discusses inovadoras como as de Benedict Anderson, Eric
Hobsbawm e mais recentemente, Stuart Hall e Homi K. Bhabha.

64

CASTELLS, Manoel. A era da informao:o poder da identidade. vol.2, So Paulo: Paz e Terra, 1999, p. 17.
Expresso utilizada por Zygmunt Bauman quando de suas reflexes sobre o mundo contemporneo. O
interessante na obra de Bauman sua impressionante lucidez frente a fenmenos da contemporaneidade, como a
globalizao: suas opes polticas e as implicaes econmicas ligadas a ela. Para isto, entre outro ttulos do
autor citado, ver: BAUMAN, Zygmunt. Globalizao: as conseqncias humanas. Traduo de Marcos
Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

65

57

A cidade uma instncia significativa nesta desordem que se coloca. nela que,
por assim a dizer, a vida acontece. Para aqueles que tem nela seu foco de estudo, se torna um
desafio dirio a compreenso desta pulsante existncia. Ouvir as msicas que as cidades
cantam e todas as tm em suas harmonias e desafinaes de alguma forma vislumbrar
a sinfonia de cada uma. Numa quermesse de um pequeno e distante vilarejo, em outra
eletrnica, ou noutra realizada durante o dia do orgulho gay66, o carter celebrativo e
exibicionista se faz sempre presente. H algo que precisa ser mostrado. desta forma que
podemos visualizar a cidade como uma grande vitrine. Iluminao, opacidade ou translucidez
so nuanas desta cidade-vitrine. Uma vitrine viva.
A idia de uma vitrine viva encontra numa quermesse um bom horrio de
exibio. Para alm da possibilidade ou mesmo novidade da quermesse como um evento de
grandes propores, h tambm o sentido paroquial, caseiro e modesto da qual ela
impregnada. Cricima uma cidade que ao menos at a dcada de 1980 se constri a partir de
uma perspectiva voltada para o consumo interno. Diferente das demais cidades plos de cada
regio como Blumenau, Joinville, Florianpolis, Lages, Itaja e outras67, Cricima no se
exibia para o Estado em forma festiva. O que no significa afirmar que motivos tantos no
fossem capazes de coloc-la na ordem do dia. A extrao de carvo, por exemplo, fez com
que Cricima se apresentasse para o Estado e pas inmeras vezes. Iniciativa esta que vai
tambm promover o reconhecimento extra-citadino de ser ela, Cricima, uma cidade onde os

66

A exemplo da quermesse realizada no Arouche (So Paulo) em 27/06/2001 durante as comemoraes da


semana do orgulho gay (gay pride). Foi assim noticiada: Depois de correr o risco de ser interditada, a
Quermesse Gay no Largo do Arouche aconteceu e foi at agora o maior evento da semana do orgulho gay em
So Paulo. Internet: [Link] Capturado em 2001.

67

Conforme estimativa da populao de Santa Catarina encontrada no IBGE referente a 1999, Cricima se
apresenta como uma cidade de porte mdio, contando aproximadamente com 167.661 habitantes. No sul
catarinense, a cidade com o maior contingente populacional, seguida por Tubaro com 86.321 e Ararangu
com 55.842 habitantes. Em um total de 5.028.339 pessoas distribudas no estado de Santa Catarina poca,

58

movimentos sociais eram articulados, organizados e combativos, fato este que na dcada de
1990 contar com o apoio do poder pblico, inaugurando o nico monumento a presos
polticos no Estado68.

Monumento aos Presos Polticos Bairro Santa Luzia


Foto: Emerson Csar de Campos

Por outro lado, tambm internamente, a cidade se construiu sob uma forte
concepo tnica, que produziu mesmo um mercado69. Cricima contempornea um grande
mercado tnico. Italianos, alemes, poloneses, negros, rabes, espanhis e outras formaes,
sendo a mais recente a indgena, so enaltecidas pelo poder pblico e pelas associaes
tnicas e assistenciais. Evidente tambm que a fraca exibio deste mercado, ao menos a

Cricima era a 4a cidade em nmero de habitantes, sendo precedida por Joinville com 428.011 habitantes,
Florianpolis 281.928 e Blumenau com 244.379 habitantes.
68
Na gesto de Paulo Meller, prefeito de Cricima entre 1996 e 2000, foi criado o monumento aos presos
polticos, na tentativa de resgatar a ao valorosa da gente de Cricima que lutou contra ditadura, segundo
depoimento concedido a mim por Arnoldo Ido de Souza, Presidente da Cmara de Vereadores de Cricima,
nesta cidade em 28/07/2001. Sobre o referido monumento ver discusso mais elaborada no ensaio Pequeno
Dicionrio de Aporias e Sobejos presente nesta tese
69
Estou assumindo esta expresso devido as manifestaes que encontrei. certo que no existe um mercado
delimitado perfeitamente, um espao fsico onde se possam comprar souvenirs ou coisas do tipo, afora o espao
da festa, embora alguns produtos sejam atualmente vendidos pelos camels na cidade: bons, camisetas e outros.
Contudo, o mais significativo para mim nesta expresso so as manifestaes subjetivas, imaterializadas. Laos
como o relacionamento de grupos sociais que se constroem a partir de uma determinada expresso tnica, caso
que me parece ser a implementada, de modo mais presente, pelos descendentes de italianos quando criam suas
entidades representativas. Sobre isto ver discusso mais frente.

59

nvel estadual, fez com que a cidade no fosse reconhecida como terra de italianos, ou
cidade negra ou lugar de alemes.
Apesar da dificuldade em encontrar dados precisos sobre o contingente de
descendentes de italianos70, pois os mesmos variam muito conforme os referenciais adotados
subjetivos e objetivos a exemplo da aquisio de dupla cidadania71, ou ainda a tensa
relao Jus Soli e Jus Sanguinis onde a prtica de admitir o local de nascimento como fator
determinante se relaciona a uma outra que privilegia a descendncia , visvel que entre a
imigrao europia deslocada para o Sul de Santa Catarina, desde a segunda metade do
sculo XIX, os italianos so maioria expressiva, o que ocorre tambm de outras regies do
Estado como a Oeste e Alto Vale do Itaja (cidades de Ascurra e Rio dOeste so exemplos).
Em Cricima, por razes inmeras: fundadores do ncleo, primeiros comerciantes e polticos,
os italianos formam um contingente significativo nas correlaes de foras dispersas na
cidade.
Em

relao

populao

negra,

em

1998,

Cricima

apresentava,

proporcionalmente, o maior contingente do Estado72, populao esta que apenas muito

70

Atualmente (2002) existem projetos bastante consistentes que tm buscado inventariar a italianidade em Santa
Catarina, afora as conhecidas obras de historiadores como Walter Fernando Piazza ou ainda o trabalho do padre
Joo Leonir DallAlba (Imigrao italiana em SC). Neste sentido vem se realizando estudos sobre a imigrao
italiana, pelo CEDI (Centro de Estudos e Documentao sobre Imigrao Italiana), vinculado Universidade do
Vale do Itaja UNIVALI, sob coordenao do professor Jos Roberto Severino. Tal Centro vem procurando
relacionar o fenmeno da imigrao italiana em Santa Catarina a partir do sculo XIX, relacionando-o s
manifestaes culturais contemporneas.
71
A aquisio de dupla cidadania por parte de descendentes de italianos em Santa Catarina entre outros
estudiosos abordada por: SAVOLDI, Adiles. O caminho inverso: a trajetria de descendentes de imigrantes
italianos em busca da dupla cidadania. Florianpolis: UFSC, 1998. Dissertao de Mestrado. Sobre isto ver
tambm discusso realizada mais frente, no tpico sobre lugares presente neste ensaio.
72

Os dados so bastante contundentes quanto participao e presena da populao negra em Cricima.


Segundo o Anurio dos Trabalhadores do Dieese de 1998, Cricima se apresenta como a primeira cidade em
termos de populao negra no Estado de Santa Catarina, com um ndice de 5,45% da populao total do
municpio, seguida por Florianpolis, com 4,12%, Itaja com 2,32% e Joinville com 2,13. Os dados, contudo,
no me parecem indicar o que realmente se encontra na cidade. Do meu ponto de vista este nmero ( 5,45%)
pode ser bem maior. Contudo, mesmo do ponto de vista formal e limitado por critrios nem sempre adequados,

60

recentemente passa a ser visibilizada, quer seja por aes implementadas pelo poder pblico,
especialmente quando da organizao das comemoraes do centenrio do municpio
celebrado em 1980, ou mesmo a partir da organizao da prpria populao negra,
materializada na formao de blocos afros, associaes tnicas, clubes, lugares religiosos e
mesmo ainda do rap. Ainda assim, virtualmente inexiste expresso do tipo cidade negra,
mesmo frente ao expressivo contingente desta populao.
Ainda que atentos aos exemplos colocados, apenas muito recentemente que
Cricima vem sendo propagada, e mesmo assim sem muita projeo estadual ou nacional,
como a terra das etnias73. neste sentido que se projeta a Quermesse: Tradio e Cultura.
Especialmente se tivermos na mira que uma cidade que teve a populao praticamente
duplicada em duas dcadas74, e que sob todos os aspectos pretende se mostrar como uma
referncia regional, deseja agora se exibir. Quando da realizao da primeira quermesse da
tradio e cultura, em 1989, Cricima j sentia os efeitos do desaquecimento da economia

Cricima se apresenta com o maior contingente negro do Estado. Dados obtidos em: DIEESE-SC. Anurio dos
trabalhadores. Florianpolis: Departamento Intersindical de Estatstica e Estudos Scio-Econmicos, 1998,
p.30. Fechando estes exemplos, agora em relao aos alemes citados anteriormente, o contingente desta
populao na organizao poltica do municpio foi sensivelmente reduzido quando da emancipao poltica de
Forquilhinha, at 1989 um Distrito de Cricima e para onde se deslocou, desde 1917, a maior parte dos alemes
e seus descendentes.
73

Para isto contribui de modo decisivo a ampliao da Quermesse: Tradio e Cultura. Desde 1996, as empresas
cermicas situadas em Cricima, e que a transformou no maior plo cermico da Amrica Latina, distribuem
entre os participantes da quermesse um piso cermico onde so impressas fotos da cidade e dos grupos tnicos
organizadores da festa. No sul catarinense, existem cerca de 10 empresas de revestimento cermico que se
distribuem por seis municpios: Cricima, Tubaro, Urussanga, Cocal do Sul, Iara e Morro da Fumaa. O
destaque tem sido para Cricima e Cocal do Sul, que sediam as duas maiores empresas de cermicas de grande
porte, no s da regio, como tambm, conforme se percebe em CAMPOS, R.; Nicolau, J.& P. O cluster da
indstria cermica de revestimento em Santa Catarina: um caso de sistema local de inovao. Nota tcnica.
Cricima, Unesc, 1999 (mimeo) so as maiores empresas de cermicas do pas. A "regio sul-catarinense
participa com 46% da produo nacional e 45% das exportaes". Ver ainda discusso mais adiante sobre a
troca do nome da festa de Quermesse: Tradio e Cultura para a Festa das Etnias.

74

Em 1970 a populao de Cricima era de 81.451 habitantes. J em 1991 a populao era de 146.162. Nos
resultados preliminares do censo de 2000, a populao de cricima era de 170.274 habitantes. Dados obtidos
junto ao IBGE.

61

carbonfera, aquela mesma que ao menos por quatro dcadas e enfrentando vrias crises, foi a
principal fonte de gerao de empregos e renda do municpio75.

Cricima A Terra das Etnias


Foto obtida a partir da digitalizao de
cermica distribuda na Quermesse.

Partindo desta configurao a cidade passa a se inventar sob novas perspectivas.


necessrio cuidado para no tomar como pronta a observao de talo Calvino quando diz que
a cidade diz tudo o que voc deve pensar, faz voc repetir o discurso e enquanto voc
acredita estar visitando Tamara, no faz nada alm de registrar os nomes com os quais ela
define a si prpria e a todas a suas partes76. Tentando apanhar as partes de uma vitrine viva
e estilhaada que se pode pensar uma cidade contempornea. Para lembrar Baudelaire: de

75

O que facilmente pode ser constatado com a confrontao dos dados. Em 1984 os empregos diretos gerados
pelas carbonferas eram de 10.898. Em 1988 eram de 9.380. Em 1989 os postos de trabalho foram reduzidos para
7.910. Finalizando, em 1992 eram de 3.453. Os dados populacionais para os anos de 1984 e 1992 so
imprecisos. Contudo, como um indicativo pertinente fica apontado que em 1980 Cricima contava com 99.735
habitantes e em 1991 a populao do municpio era de 146.162 habitantes. Fontes: SIECESC e PBDEE (Plano
Bsico de Desenvolvimento Ecolgico Econmico). Cricima: AMREC /UNESC, 1997, p.195.

76

CALVINO, talo. As cidades invisveis. Traduo de Diogo Mainardi. So Paulo: Cia das Letras, 1990, p.
119. A advertncia posta tambm por Massimo Canevacci, que em A Cidade Polifnica dedica um captulo em
sua primeira parte, anlise inovadora de Calvino, da qual destaca o olhar [Link]: CANEVACCI,

62

uma cidade a histria muda mais que um corao infiel. Um visitante qualquer ao chegar em
Cricima (e que no a traga no corao ou na mente) o que v? Uma cidade italiana? Onde?
Uma cidade mineira, congelada nos monumentos tal qual o frio que a assola no inverno? Que
importncia tem para o visitante os nomes que encontra na cidade: Benedet, Castelan, Arns,
Omari, Santos, Carneiro? Estas reflexes so especialmente importantes para se entender uma
cidade que se constri, da cultura material subjetiva, sob referncias hbridas77.
Parte considervel das manifestaes que iro produzir o fruto chamado de
Quermesse: Tradio e Cultura podem ser identificadas ainda em 1980, quando da
comemorao do centenrio da cidade, e num momento em que ainda a minerao promovia
uma identificao forte de seus habitantes com a capital brasileira do carvo78. Contudo,
economicamente a cidade j apresentava diferenas que se representavam atravs de outros
setores como o txtil, o caladista, o cermico e o metalrgico79. Parte de um projeto poltico

Massimo. A Cidade Polifnica: ensaio sobre a antropologia da comunicao urbana. Traduo de Ceclia Prada.
So Paulo: Studio Nobel, 1993.
77

Por razes que so expostas no transcorrer da tese estou pensando Cricima enquanto cidade construda por
uma forte expresso hbrida, em que pese os esforos para coloc-la como resultado da ao colonizadora,
especialmente italiana, sendo que para isto contribuiram muito alguns projetos polticos implementados na
cidade em vrios momentos e ainda uma historiografia que desde cedo enalteceu esta ao. Para melhor
compreenso do hibridismo so muitas as referncias, das quais destaco os trabalhos de Nestor Garcia Canclini,
Stuart Hall e Homi K. Bhabha. Neste ltimo se pode encontrar: Para se apreender a ambivalncia do
hibridismo, ele deve ser distinguido de uma inverso que sugeriria que o originrio de fato, apenas um
efeito. O hibridismo no tem uma tal perspectiva de profundidade ou verdade para oferecer: no um
terceiro termo que resolve a tenso entre duas culturas, ou as duas cenas de um livro, em um jogo dialtico de
reconhecimento. In: BHABHA, Homi K. O local da cultura. Traduo de Myriam vila, Eliana Loureno de
Lima Reis, Glucia Renate Gonalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 165.

78

A expresso capital brasileira do carvo, que na dcada de 1990 entra numa espcie de ostracismo lingstico,
foi criada em 1948. Em livreto editado pela Prefeitura Municipal de Cricima, datado de janeiro de 1986, o exprefeito Jos Augusto Hlse escreve que: instado a dar nome a um documentrio cinematogrfico produzido
sobre a cidade, o ento prefeito Addo Faraco, em 1948, o chamou de Cricima: Capital do Carvo. Naquele
momento o ttulo foi criado. Infelizmente, apesar de inmeros esforos, no foi possvel obter maiores
informaes sobre a existncia ainda do vdeo citado pelo ex-prefeito Jos Augusto Hlse. Atualmente (2002), a
Fundao Cultural de Cricima vem patrocinando campanha de recuperao de vdeos e outros trabalhos do
gnero que tenham sido realizados sobre Cricima.

79

Na documentao encontrada sobre as comemoraes do centenrio dispostas no arquivo pblico municipal,


possvel identificar alguns expositores dos mais de 200 stands criados para a realizao de uma grande feira
chamada Expo100. Entre os expositores comerciantes e industriais da cidade e regio: Loja Lisandra, Posto So
Pedro, Jia Imobiliria, Irai Rolamentos, Metalrgica Cricima Mecril, e outros. Na oportunidade, empresas
carbonferas tambm mantiveram stands, a exemplo da CSN (atual Nova Prspera) e da carbonfera Cricima.

63

mais amplo80, em 1981 o ento prefeito arquiteto Altair Guidi em sua primeira gesto,
completa o calendrio das comemoraes do centenrio, inaugurando o Pao Municipal,
composto alm do prdio administrativo da prefeitura, tambm por um memorial da cidade,
um teatro, uma biblioteca e um ginsio de esportes dispostos num enorme Parque, poca
chamado Centenrio. No discurso de inaugurao o prefeito falava comunidade
criciumense:
(...) Basta voltar os olhos para a realidade de Cricima de alguns anos atrs
para compreender o significado e importncia deste evento que assinalamos
hoje. A Cricima de alguns anos atrs era uma cidade marcada pelo seu
destino carvoeiro. Os sinais da explorao do carvo no ficaram apenas nas
casas e praas, mas na prpria alma da cidade. Cricima era uma cidade feia,
acanhada, pequena no dimensionamento de seu futuro e no debate de suas
perspectivas como comunidade. Era por isso que os prprios criciumenses no
assumiam a sua cidade, no viviam com entusiasmo o seu dia a dia. Quem v
hoje o interesse com que os moradores cuidam das ruas, das rvores e
equipamentos urbanos mal poderiam acreditar que os criciumenses receberam
com indiferena a primeira campanha de distribuio de mudas que fizemos.
Quem v hoje a animao e participao dos habitantes nas festas da
comunidade certamente j esqueceu os tempos ainda recentes em que mal
conseguamos reunir as pessoas numa praa. Tudo isto a nova Cricima que
estamos vivendo hoje. Tudo isto o testemunho que agora os criciumenses
acreditam em sua cidade, se orgulham dela. Tudo isto o fruto invisvel que
hoje podemos colher graas a obras como esta e outras tantas que se
incorporam ao nosso patrimnio comum. Destituda de atrativos naturais e
fora da rota normal do turismo, Cricima tem que ser ela prpria a atrao,
no apenas para os turistas ou visitantes eventuais, mas principalmente para
sua prpria populao. Este um dever de todos ns cidados de hoje e esta
a melhor herana que podemos deixar para os cidados de amanh. O futuro
h de mostrar o quanto valeu a pena. O futuro ha de mostrar tambm que
estamos devolvendo a esta cidade o direito de esperar mais, querer mais, ousar
mais e assim conquistar mais.81

Seguindo trilhas insinuadas pelo discurso do prefeito Altair Guidi, possvel


vislumbrar algo do repertrio que compe a polifonia criciumense e que se estende na

Tais referncias so mais exploradas no ensaio Futuro do Pretrito: um aniversrio bem festejado, presente
nesta tese.
80

A primeira administrao de Altair Guidi (1977-1982) em grande medida a continuao do projeto


modernizador da cidade iniciado na gesto anterior, de Algemiro Manique Barreto (1973-1976), que em 1975
retirou do centro da cidade a estao de trem e sobre ela traou uma avenida inicialmente chamada de Axial e
depois modificada por Guidi como Avenida Centenrio. Sobre a retirada dos trilhos do centro da cidade ver:
NASCIMENTO, Dorval do. As curvas do trem: a presena da estrada de ferro em cricima (1919-1975)
cidade, modernidade e vida urbana. Florianpolis: UFSC, 2000. Dissertao de Mestrado.

64

Cricima contempornea82. O destino carvoeiro, como admite o prprio prefeito, deixou


marcas na alma de seus habitantes. certo que cada dia menos visveis. Contudo, sinais
colocados de modo dispersos trazem ainda marcas da Cricima carvoeira. o caso do
transporte seletivo de passageiros, implementado na cidade h cerca de dois anos por uma
empresa privada sob concesso da prefeitura municipal, que aps um concurso realizado entre
as escolas do municpio recebeu o nome de o mineirinho.
H por certo um interesse maior de quem com Cricima no mantm um contato
mais amide, em saber onde se acham tais marcas do destino carvoeiro. Para atender esta
expectativa, o observador, caso no queira realizar incurses maiores pela chamada periferia
de Cricima, bairros onde a explorao do carvo muito visvel atravs da degradao
ambiental83, deve estar atento algumas sutilezas. Vejamos uma delas:

81

CORREIO DO SUDESTE. Cricima, 21 de agosto de 1981, p. 3.


Em trecho desta citao se pode ver a aluso aos criciumenses (que) no assumiam sua cidade, pouco
inteligvel numa leitura rpida, em realidade se conecta a sentimentos e aes diversas produzidas por parte da
populao criciumense que, uma vez tendo trabalhado e contribudo para o desenvolver da cidade, decide voltar
para seus lugares de origem, quase sempre cidades litorneas do Estado. Em entrevista concedida a mim em
23/06/2000, na cidade de Cricima, o ex-prefeito Altair Guidi deixa transparecer a mgoa que sente de
criciumenses que abandonam a cidade tendo morado nela por muitos anos. A mgoa se estende tambm parte
do empresariado criciumense, especialmente aqueles vinculados ao carbonfera, que uma vez tendo
enriquecido com a explorao do carvo, pouco ou nada fizeram para o melhor desenvolvimento da cidade, e
muito contriburam para a sua degradao ambiental.
83
Bairros como Metropolitana, Laranjinha, Rio Maina, Mina do Mato, Boa vista, Santa Luzia, Vila So
Sebastio (Vila Sapo), Mina Unio, Cidade Mineira e Prspera.
82

65

A obra exposta foi produzida pela artista plstica Telma de Medeiros Uliana, que
utiliza o pseudnimo de Miri. A artista natural de Cricima, casada, 30 anos, residindo
atualmente no bairro Santa Brbara. A tela ilustra a capa do catlogo telefnico da Regio
Sul de 2002. Na legenda explicativa posta no catlogo se v anotado:

A obra uma homenagem ao processo de evoluo de toda


regio. Fruto este de combinao de tradio e cultura de um
povo forte, aliado ao seu trabalho suor na extrao do carvo.
Abrindo-se assim as portas para os diversos setores que
atualmente
so
fundamentais
ao
desenvolvimento
scio/econmico e integram a paisagem deste lugar84.

O sentido evolutivo se faz presente na pedagogia colocada pelo catlogo. Mas


para alm da crtica exaustiva que j se realizou em direo a este olhar sobre a cultura, o que
se destaca da citao a inegvel fora que o carvo forneceu construo da cidade e que
hoje se tenta congelar, a exemplo do que se produz em relao aos feitos tnicos, cuja

84

Catlogo editado por: Listel Listas telefnicas LTDA. Florianpolis: Listel, 2002.

66

quermesse expresso maior. Esta relao carvo e etnicidade se faz muito presente, ambos
com seus respectivos mercados ou nichos. Alm disto, o discurso do pioneirismo disputado
tanto pelo mundo carbonfero quanto pelo mercado tnico que o transforma hoje em festa85.
Na tela, o mineiro , segundo a prpria artista: uma figura quase paterna. Ele
abre a cidade, a exibe e apresenta. O carvo inicia tudo, mas hoje diversificou. Em seguida
faz um breve comentrio sobre a quermesse: eu freqentei poucas vezes a quermesse, mas
sei que aqui em Cricima a maior parte das pessoas so italianas. Eu acho a quermesse
vlida

pelo que mostra e exibe de nossa gente86. O mineiro retratado parece

simultaneamente pai e me daquilo que apresenta87, visto o carter andrgino que aparenta.
Mas dizer andrgino dizer pouco, pois no categoriza a imagem. Certamente o mineiro ali
exposto pouco ou quase nada tem de andrgeno, os caracteres masculinos so dissimulados,
bem diferente de um outro momento onde a virilizao88 promovia um grupo de heris: os

85

Contudo impossvel afirmar que um ou outro sejam perfeitamente delimitados. H vrios homens e
mulheres que desde cedo vo buscar simultaneamente o contato com as duas culturas. Os italianos, primeiros
europeus a chegarem na cidade, nas primeiras dcadas do sculo XX iro promover junto a outros tantos, o
crescimento da cidade na explorao do carvo, caso de Marcos Rovaris, primeiro prefeito da cidade, Joo
Zanette, e posteriormente outros tantos. Entre os trabalhadores do carvo isto ainda mais visvel. Os poloneses
de Linha Batista por exemplo, sero simultaneamente trabalhadores da mina sem abrir mo de cultivar sua
pequena lavoura. Alis uma prtica comum entre pequenos proprietrios em Santa Catarina, visto que em
cidades como Blumenau muitos trabalhadores das indstrias eram tambm colonos.
86
Entrevista concedida a mim na cidade de Cricima em 30/09/2002.
87
possvel inferir que a narrativa histrica colocada pela imagem sugere o conjunto papai-mame, j bem
discutidos por Foucault e Deleuze bem como por Freud a edipianizao dos sujeitos como ponto de partida
de uma possvel mas fugidia identidade da cidade. A partir deste mineiro atual figurado acima, fragilizado e at
mesmo trgico, a cidade pode assim ser contada. Um ensaio muito instigante, embora voltado mais
particularmente construo da masculinidade nordestina e de um eu fechado e centrado em torno dos nomes do
pai pode ser encontrado em : Durval Muniz de Albuquerque Jr. Os nomes do pai: a edipianizao dos sujeitos e a
produo histrica das masculinidades. O dilogo entre trs homens: Graciliano, Foucault e Deleuze. In: RAGO,
Margareth, ORLANDI, Luiz B. Lacerda, VEIGA-NETO, Alfredo (orgs.). Imagens de Foucault e Deleuze:
ressonncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. pginas 111-121.
88
No Arquivo Pblico Municipal de Cricima existem muitas fotos que capturam e denunciam o momento em
que a explorao do carvo era vigorosa e a populao criciumense aumentava consideravelmente (ver dados j
apresentados neste ensaio), imagens quase sempre datadas entre as dcadas de 1940 e 1960. Digressivamente
diria que os processos de construo das subjetividades vividas nas cidades sejam elas catarinenses em
particular, brasileiras de modo geral, ou mesmo ocidentais na visada maior que o termo alcana podem e
assim parece tem sido o caminho trilhado por alguns historiadores ser percebidas a partir da anlise da
virilizao e racializao do social. No se deve esquecer que mesmo num momento em que fronteiras so mais
e mais elsticas, a concretude do corpo, sua inscrio no social sempre algo que denuncia lugares de: incluso,
excluso, etnizao e tantos outros. Para um discusso mais elaborada desta perspectiva, entre outros ver:

67

homens do carvo. Na imagem produzida por Telma de Medeiros Uliana, o olhar um tanto
vago e incerto, num rosto suavizado est longe de mostrar o mineiro como o homem forte e
imponente impelido a tudo resistir. Na esteira atual dos significados a cidade no deve ficar
rf. Nem pode frente s diferenas que em forma de oferta se encontram nos braos do
mineiro.
Uma combinao de processos89 visibilizam a Cricima contempornea: o novo
dimensionamento da indstria carbonfera, o crescimento das atividades tercirias, uma maior
presena do poder pblico na periferia afinal um contingente enorme de votos bem
como o empobrecimento das camadas trabalhadoras, a urbanizao, a elevao da violncia, e
outros mais, ligados novssimas experincias, onde o fenmeno da emigrao para os
Estados Unidos e Itlia e a produo de festas so os exemplos mais notveis.

O paradoxo da festa: repetir o irrecomevel.


Lola recebe uma ligao. Do outro lado da linha numa profuso de palavras,
idias e sons, seu namorado sequer pede ajuda. Ele quer apenas falar. Contar o revs que lhe
abateu. Numa conversa de ritmo alucinante, repleta de grias e desespero, ele conta. Lola no
est satisfeita em ouvir, ela quer tambm falar, oferecer ajuda, interferir. Informada da
situao, ela passa a pensar no que fazer para livrar o seu afeto da perseguio implacvel que
se iniciar dentro de exatos vinte minutos.

RAMOS, Maria Bernardete. Fronteiras celibatrias: nao, corpo e etnia. In: NODARI, Eunice; PEDRO, Joana
Maria; YOKOI; Z. (Orgs.). Histria: fronteiras. V. II. So Paulo: Humanitas; ANPUH, 1999, p. 783-804.
89
Uma abordagem inspiradora sobre estes tipos de processos direcionada a Metrpole de So Paulo pode ser
encontrada em: CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregao e cidadania em So
Paulo. Traduo de Frank de Oliveira e Henrique Monteiro. So Paulo: Ed. 34 / Edusp, 2000. Pginas 211 e
seguintes.

68

Decidida a ajudar, Lola desliga o telefone e pensa num plano. Em realidade pensa
em vrios planos. hora de optar, selecionar, imaginar aes, dilogos. Em seu socorro, uma
seqncia de imagens chegam do crebro sua retina. Escolhe uma, a do seu pai, aquele que
poder talvez conseguir cinqenta mil, cifra necessria para que o rapaz, como pagamento,
entregue ao seu credor, e se livre da eminente perseguio. Tendo feita a opo, se inicia a
corrida. Ela corre, afinal vinte minutos passam rpido. Em sua primeira investida, no
consegue sucesso. O pai no est disposto a ajudar. Lola corre ao encontro do namorado,
quem sabe consiga convenc-lo a fugir. No chega a tempo. De sobra toma um tiro e fecha os
olhos. Retoma-se a cena em que Lola desliga o telefone.
Ela insiste em procurar o pai e sua participao no enredo cresce. Agora no
mais apenas coadjuvante de uma frentica busca. Ela inventa desvios, atropela pessoas e
atropelada por elas. Chega ao escritrio do pai. Ele est novamente irredutvel. No vai ajudla. Ela est decidida. Ento, armada de pistola, consegue o dinheiro. Segue ao encontro do
namorado, mas no chega a tempo de entregar a ele o dinheiro. Agora ele que toma um tiro.
Tambm fecha os olhos. Retoma-se a cena em que Lola desliga o telefone.
O caminho ainda o mesmo, sua opo ainda o pai, mas os desvios tomados
so outros. No filme de Yon Tykwer90, o ritmo o grande protagonista. Rpida e
imprevisivelmente as aes acontecem. E para alm do suspense ou curiosidade em saber
como estes anis sero rompidos, gostaria de incitar mais retidamente algumas consideraes,

90

O filme a que me refiro : Corra Lola Corra (Run Lola Run). Direo: Yom Tykwer, Alemanha, 1999. 81
minutos.

69

pois talvez seja quando o sentimento de urgncia se faz mais premente que convm por em
jogo uma estratgia da lentido91.
Em Corra Lola Corra, para alm da bvia importncia do ritmo, se pode ler
significa dizer enxergar tambm diferena e repetio, que de forma sedutora enredam o
filme. No estudo sobre a Quermesse de Tradio e Cultura, ou Festa das Etnias, ou extenso
festiva das comemoraes do centenrio, desde cedo alimentei uma implicncia com uma
certa facilidade em definir toda uma configurao social, ainda que em forma de festa, de
maneira redutora. Nos depoimentos colhidos, nas atas de reunies, nos jornais e em quase
tudo mais que tive contato, l estava a confuso posta: Quermesse e Festa das Etnias
alternando-se na definio do evento. Isto , uma e outra usadas sem que se percebesse os
ganhos ou as perdas de tal barganha. A prpria criao da festa tem suas verses bem
pontuadas, e quase nunca repetidas. E para alm disto, repetio concerne a uma realidade
no trocvel.
Gilles Deleuze, num trabalho inovador, discute ordens para repetio e diferena.
Para o filsofo, repetio no generalidade. Esta tem nos ciclos e igualdades, seus smbolos.
A generalidade exprime um ponto de vista segundo o qual, um termo pode ser substitudo por
outro. De outra forma, repetir comportar-se, mas em relao a algo nico ou singular.
neste sentido que para Deleuze, uma festa encerra a ardilosa tarefa de repetir o

91

MAFFESOLI, Michel. Elogio da razo sensvel. (traduo de Albert Christophe Migues Stuckenbruck).
Petrpolis: Vozes, 1998, p.11. Alis, numa abordagem um tanto distinta de Maffesoli mas conectada a ela pela
contemporaneidade que encerra, Denise Bernuzzi SantAnna em seus ensaios sobre a subjetividade
contempornea, coletados e denominados lucidamente corpos de passagem, tece consideraes a respeito da
lentido como escolha. Segundo a autora, a lentido no precisa ser exclusivamente o oposto da velocidade. E
nem deveria definir-se pelo que supostamente lhe falta. Pois ela no resulta de um trao defeituoso do corpo ou
do carter, no significa apatia, falta de imaginao ou de energia, no se assemelha a um querer sem coragem
nem a um molengar alheio realidade. A lentido no requer degredo. possvel defini-la de diferentes
maneiras e experimentar muitos de seus charmes. In: SANTANNA, Denise Bernuzzi de. Corpos de
passagem: ensaios sobre a subjetividade contempornea. So Paulo: Estao Liberdade, 2001, p. 17.

70

irrecomevel92. certo que parte importante da potncia argumentativa que tento colocar se
encontra no paradoxo: o grau mximo da diferena o que existe na repetio de algo
idntico. Os indcios e as chamadas correntes de fuga93 impelem suspeio da idia de
repetio na quermesse. No se alcanou ainda a idia de diferena sem conceito, ou
Diffrance94 como diz Deleuze, Guatarri, Derrida e outros. Numa leitura benjaminiana se
poderia dizer que a Redeno no foi alcanada.
Recuperando a idia de que uma quermesse um evento de exibio significativo,
visto que atravs dela possvel enxergar alteraes muito vivas em Cricima, e, distante do
momento em que mal se podia reunir as pessoas numa praa, a crescente etnizao da
cidade finalmente celebrada. Assim, parece interessante que cada uma das festas possam
ser assistidas e muito bem pontuadas como inseridas em ordens distintas de generalidade e
repetio, se que se pode afirmar que algo se repita. Entre as edies da Quermesse
realizadas, o que seria repetio? importante assinalar que na maioria quase absoluta das
edies da festa foram 14 at 2002 h sempre uma nova configurao95.

92

DELEUZE, Gilles. Diferena e repetio. Traduo de Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro:
Graal, 1998, p. 22. Completando, para Deleuze Repetir comportar-se, mas em relao a algo que no tem
semelhante ou equivalente. Como conduta externa esta repetio talvez seja o eco de uma vibrao mais
secreta, de uma repetio interior e mais profunda no singular que a anima.
93
A idia de correntes de fuga so desenvolvidas com consistncia por Gilles Deleuze quando da discusso dos
rizomas. Foras que correm ao fundo mas das quais ningum pode desconsiderar a presena ou os sentidos.
Teoria desenvolvida melhor em Mil Plats: capitalismo e esquizofrenia (ver ref. Bibliogrfica), publicados no
Brasil em cinco volumes. No caso especfico de Cricima, as fugas em correntes podem mais facilmente se
verificar no fenmeno da emigrao para EUA e Itlia, entre outras possibilidades.
94
A idia de Diffrance foi cunhada em dimenses distintas. Lacan a desenvolve pelo vis da psicanlise e
Derrida pelo da lingstica. Ambas dimenses so utilizadas na anlise do jogo social contemporneo. Sobre a
dimenso realizada por Derrida, comenta Tomaz Tadeu da Silva: (...)Em suma, (um) signo caracterizado pelo
diferimento ou adiamento (da presena) e pela diferena (relativamente a outros signos), duas caractersticas
que Derrida sintetiza no conceito de diffrance. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org.). Identidade e diferena: a
perspectiva dos estudos culturais. Petrpolis: Vozes, 2000, p. 80.
95
Apresento a relao de datas e locais para que de forma mais organizada e precisa, o leitor possa se encontrar.
Saliento que seria muito enfadonho discutir ano a ano cada uma delas, mas ressalto que nas indicaes que se
seguem, seria adequado verificar como datas e periodizao (quantidade de dias da festa), bem como a
realizao em lugares distintos, so visibilizadas.

71

Apresento a relao de datas e locais para que, de forma mais organizada e


precisa, o leitor possa se encontrar. Saliento que seria muito enfadonho discutir ano a ano
cada uma delas. Mas ressalto que nas indicaes que se seguem seria adequado verificar como
so visibilizadas as datas e durao (quantidade de dias da festa), bem como a realizao em
lugares [Link] a elas:
FESTA

DATA
4 a 12 Ag. de1989
3 a 10 Ag. de1990
9 a 17 Ag. de1991
4 a 12 Set. de1992
3 a 11 Set. de 1993
9 a 17 Set. de 1994
8 a 16 Set. de 1995
13 a 21 Set. 1996
9 a 19 Out. de 1997
9 a17 Out. de 1998
8 a 16 Out. de 1999
01 a 09 Set. 2000
06 a 15 Set. 2001
6 a 14 de Set. 2002

DURAO
Nove Dias
Oito Dias
Nove Dias
Nove dias
Nove Dias
Nove Dias
Nove Dias
Nove Dias
Onze Dias
Nove Dias
Nove Dias
Nove Dias
Dez dias
Nove Dias

Num.
Etnias*96
5
5
6
6
6
6
6
6
6
6
6
7
7
7

LUGAR
Praa Nereu Ramos
Praa Nereu Ramos
Praa Nereu Ramos
Praa Nereu Ramos
Praa Nereu Ramos
Praa Nereu Ramos
Parque Centenrio
Parque Centenrio
Parque Centenrio
Cesaca (Ant. Fbrica)
Cesaca (Ant. Fbrica)
Parque das Etnias
Parque das Etnias
Parque das Etnias

As festas, conforme visto na tabela apresentada, pouco se repetem em quaisquer


dos critrios que possam ser considerados. Fica visvel a Praa Nereu Ramos como o lugar
mais constante, da a srie de discusses que se encaminham a partir da transferncia da Praa
para o Parque Centenrio. As maiores ligadas ao desconforto que a praa promovia frente ao
sucesso e aumento do evento. O espao da Cesaca (antiga fbrica de azulejos) que serviu

96

A quantificao das etnias melhor trabalhada no ensaio Futuro do Pretrito. Contudo fao aqui algumas
consideraes. Em 1991 foi inserida a etnia rabe (justamente num dos momentos em que o mundo do carvo
estremecia, e parte do comrcio era representado pelos rabes na cidade). O nmero de seis etnias aumentado
para sete quando inserida em 2000 a etnia espanhola. Em 2001 sai a etnia espanhola e inserida uma tenda
etnogrfica lembrando os indgenas, portanto estou considerando aqui uma nova etnia. A referida tenda ser
mantida at 2003. No apresento dados de 2003 porque j estava ento na etapa conclusiva desta tese e sem ter
como trabalhar melhor os dados. Contudo, a notcia que tive mais recente dava conta do retorno da etnia

72

festa por duas oportunidades, seria trocado em seguida (2000) para o Parque das Etnias,
espao ainda no oficializado, mas j reconhecido por boa parcela da populao. Neste
sentido, vale ressaltar que o espao o mesmo, ou seja, o local onde est fixado o Parque
Centenrio, o sentido dado a ele que se altera, como veremos em seguida. Os cartazes de
divulgao da festa, at 1997 idealizados por Gilberto Pegoraro, artista da cidade, a partir de
1998 so produzidos por empresas prestadoras de servios. Atravs de uma rpida
visualizao deles se pode ver alguma alteraes que a festa sofreu:

Cartaz- Divulgao I Quermesse


Ainda sem referncia explcita s Etnias

Cartaz- Divulgao X Quermesse


Primeira na Cesaca

espanhola e a manuteno da tenda indgena. Neste caso a XV Quermesse deste ano de 2003 apresentou oito
etnias.

73

Cartaz- Divulgao XI Quermesse


Segunda e ltima na Cesaca

Cartaz- Divulgao XII Quermesse


Primeira Festa das Etnias

Para acompanharmos esta troca de sentidos colocadas, sugiro a volta barganha


do nome.

Para uma senhora que trabalhou na organizao de todas as edies97 da

Quermesse: Tradio e Cultura, a tenso colocada em torno do nome da festa desde cedo se
mostrava. Ligando a Quermesse atual a um evento de grandes propores, Irma Tasso de
Oliveira afirma:
O que tem de tnico na primeira foi buscado naquela motivao do
centenrio. Em 1980 eles criaram as associaes tnicas. Eram ento
as associaes culturais, as tnicas e as beneficentes. Foram feitas
trs categorias e ficaram muito tempo(...).Sempre formam feitas
reunies. Nunca foi nada decidido somente na Fundao Cultural.
Sempre foram os presidentes das etnias e a Fundao. As associaes
culturais e beneficentes eram chamadas depois da alocao do espao
s Associaes tnicas e com regulamento dizendo o que podia
vender e tal. Sempre houve resistncia das associaes tnicas em

97

Irma Tasso de Oliveira, nascida em Nova Veneza, residente em Cricima h mais de quarenta anos foi de
fundamental importncia para o melhor entendimento do andamento da Quermesse, pessoa a quem devo muito.
O jeito um tanto eltrico da sua fala me forneceram colocaes precisas que alinhavaram a impreciso dos dados
com os quais tive contato. Em realidade, Dona Irma no se fez presente em apenas uma das festas, aquela
realizada no ano 2000. Por motivos no muito claros, mas que indica uma relativa mgoa com a Administrao
da Fundao Cultural daquele momento, Irma naquele ano se afastou da organizao do evento.

74

relao as demais. Elas sempre quiseram mais espao. Elas achavam


que podia ser feito um outro tipo de festa para as entidades no
tnicas. A gente ao mesmo tempo que achava vlida a idia delas,
tambm achava que no. Pois as outras associaes tambm traziam
pblico para festa, e pra elas tambm. Isto tanto verdade que
somente em 2000 que conseguiram colocar o nome de Festa das
etnias98.

As associaes tnicas, referidas acima, em sua maioria foram criadas ainda


quando da realizao dos festejos do centenrio de Cricima (1980). Ao trmino da primeira
administrao de Altair Guidi99, em 1983, quatro das cinco etnias foram registradas: polonesa,
italiana, negra e portuguesa, com estatuto publicado em dirio oficial100. A partir da criao
da Quermesse de Tradio e Cultura, o nmero de associaes tnicas ir crescer a cada festa
realizada. Mesmo quando o nmero de outras entidades supera o de associaes tnicas, estas
so sempre apontadas como legtimas donas da festa, expresso utilizada em vrios
momentos nos documentos de avaliao da festa, nos depoimentos coletados dos presidentes
destas entidades, e at mesmo na imprensa local101.

98

Entrevista concedida a mim na cidade de Cricima, em 02/09/2002.


Em Entrevista concedida a mim na cidade de Cricima, em 23/06/2000, o ex-prefeito Altair Guidi entre tantos
temas abordados, fala que em sua segunda Administrao frente Prefeitura (1989-1992), tentou sob todas as
formas priorizar o atendimento criana (o tema da Gesto era Cricima Criana). Com um panfleto de sua
ltima administrao mo, o prefeito insistia na minha leitura do mesmo, especialmente a parte sobre a
criana dizia ele na oportunidade. Devido a este esforo, muitas entidades voltadas s atividades
assistencialistas receberam apoio da gesto de Guidi, e de forma aberta e legtima estas instituies estaro
reivindicando espao na Quermesse: Tradio e Cultura em todas as suas edies, mesmo que por determinao
oficial da Comisso Central de Organizao fossem elas proibidas de participar da festa, o que vai ocorrer a
partir de 2001, quando ela j se denomina Festa das Etnias: XIII Quermesse de Tradio e Cultura.
100
certo que quando da organizao da primeira Quermesse: Tradio e Cultura, houve proposta partindo da
Secretaria de Educao e Cultura, na figura de Maria Marlene Milanez Justi, para que as associaes tnicas
reformulassem seus estatutos, ou que acionassem aqueles que haviam esquecidos ou extraviados. A sugesto foi
acatada por todas as associaes que participaram da festa naquela oportunidade. Nas palavras de Marlene Justi:
No final de 1982, ainda na primeira gesto do Altair eu mesma peguei meu carro e fui registrar as associaes
tnicas. A reformulao se iniciou ainda em 1988, quando os italianos registraram a AIBTC (Associao talo
Brasileira de Tradio e Cultura, ver discusso mais a frente), depois os alemes em 1989 e assim por diante.
In: Depoimento j citado. Ver tambm os Estatutos publicados no Dirio Oficial do Estado de Santa Catarina.
No referido Estatuto se encontram publicadas as Associaes das etnias negra, italiana, polonesa e portuguesa.
A etnia alem, apesar de participar do evento do centenrio no mostrou interesse em registrar-se, coisa que
somente seria feito em 1989. In: Dirio oficial de Santa Catarina. Nmero 12.136 de 19/01/1983, pgs. 10 e 11.
101
Recentemente convocado pela Fundao Cultural de Cricima para colaborar no debate sobre as festas do
municpio, entre elas a Quermesse: Tradio e Cultura (Seminrio de Festas Populares, realizado entre 25 e 26
de maro de 2003 em Cricima) foi possvel perceber como esta concepo tnica tenta falar mais alto. Pensam
seus presidentes, a exemplo de Joo Quintino Dalpont, presidente da etnia italiana, que se a festa for aberta a
99

75

Dando voz aos presidentes das associaes tnicas, o que se pode perceber
mesmo um forte sentimento de propriedade de criao que, segundo esta perspectiva, fornece
legitimidade Quermesse: Tradio e Cultura, ou melhor, Festa das Etnias. Isto se mostra da
seguinte forma:
Partimos para a organizao da quermesse, desejando transformar em
festa das etnias. a Festa das Festas na cidade. O nome veio da
prefeitura, mas fazia sentido, porque era ao redor da igreja(...). No foi
quermesse desde do incio. Porque quermesse que eu conheo aquela
festa ao redor da igreja, com barraquinhas. A os italianos quiseram na
segunda reunio, fazer um caf colonial. Eu sugeri que a gente fizesse
um jantar. E assim foi sendo criado a festa. Desde da primeira no foi
quermesse. O nome veio da prefeitura. Ns acatamos. A idia comeou
a pegar. Meus amigos vinham de fora e perguntavam quando ia ter
quermesse. Eu trouxe gente at da Argentina pra festa. Ento outras
entidades comearam a inchar a festa. (...).Veio da prefeitura o nome.
Era quermesse porque tinha barraquinha, isto dava um ar de quermesse.
Com a participao de outras entidades a festa comeou a inchar muito.
Por vrios anos o nmero de entidades no tnicas foi maior que as
nossas. Somente em 2001 foi que conseguimos cortar estas entidades.
Isto tava descaracterizando a quermesse, que uma festa das etnias.102

O que fica vincado a partir da fala dos presidentes das Associaes tnicas a
capacidade que estes habilmente tm demonstrando, de forma bastante pragmtica, de
transformar a festa numa manifestao tnica quase que exclusiva. A documentao com a
qual tive contato (ver bibliografia) e, as conversas obtidas com vrias pessoas da cidade sobre a
quermesse me parecem suficientes para afirmar que existe uma supremacia, eu diria at mesmo

outro motivo que no o tnico ela se desfigurar, ser outra coisa, e no festa das etnias. O que tento colocar
desde j que a Festa outra faz algum tempo, ela cada dia mais uma festa da cidade e no das entidades
tnicas, ou melhor, no apenas delas. O argumento de donas da festa forte e conforme colocado no corpo do
texto, pode ser facilmente encontrado na imprensa, quer local ou estadual. No Jornal da Manh, ainda em 1991,
j se podia ver a seguinte matria: A quermesse das etnias e do sucesso. Jornal da Manh, 18/08/91, p.08.
102
Numa noite de abril de 2002, aps longo esforo, finalmente consegui reunir na Fundao Cultural de
Cricima, a exceo do representante da etnia rabe, todos os demais presidentes das associaes tnicas
envolvidos na organizao da quermesse. Embora tenham realizado ao longo das 14 edies da festa vrios
encontros semelhantes, e a documentao sobre a quermesse indica isto (sistematicamente a partir de 1993,
conforme as atas destes encontros), somente a partir de 2001 que parece mesmo uma preocupao,
especialmente do poder pblico, em entender melhor as correlaes de foras e a importncia destas entidades
no fazer da festa. A conversa naquela noite apresentada de modo fragmentado ao longo desta tese. Neste trecho
citado, as falas que se apresentam esto separadas por (...), indicando o inicio e fim de cada uma. Dele fazem
parte, pela ordem: Joo Quintino Dalpont etnia italiana; Walternei Fidncio Loch etnia alem; Arlindo
Milack etnia polonesa.

76

uma intransigncia, por parte destas referidas Associaes em aceitar o fato de que a cidade
muito mais viva e rica em possibilidades, do que um discurso unvoco seria capaz de dar conta
de expressar. A festa de fato se inicia sob a referncia tnica, suportada pela preocupao do
prefeito Altair Guidi, ainda em 1989, de preservar razes e falar de um particpio passado bem
delimitado, como j vimos aqui e, como tambm discutido no ensaio Futuro do Pretrito,
posto nesta tese103. Mas tambm fato que, com as alteraes significativas que a cidade
sofreu e vem sofrendo, seria no mnimo uma atitude imprudente virar as costas para elas. E j
que a Quermesse o evento de exibio mais significativo hoje em Cricima104, porque no
exibi-las? Afinal, a festa de modo a faz-la cada vez mais perto dos criciumenses, deveria,
segundo meu entendimento, ser mais de todos e menos de poucos. Parece-me lgico tambm, e
isto mesmo um posicionamento poltico, que embora sedutor e utilizado por mim nesta tese,
o mundo do espetculo, a gastronomia, as luzes e tudo mais, muito bem articuladas nas ltimas
trs ou quatro edies da festa, no d conta de visibilizar diferenas ou mesmo faz-las mais
vivas. Fraturas e tenses continuam ali, mesmo enquanto comemos uma saborosa caldeirada de
carneiro, um tabule ou ainda uma macarronada. A gastronomia sem dvida algo que precisa
ser explorado, mas no apenas ela. As legtimas manifestaes culturais dos grupos tnicos no
deveriam inviabilizar outras tantas105. Esta me parece uma tenso que no pode ser ignorada.
Vejamos a fala de Edison Paegle Balod, Presidente da Fundao Cultural de Cricima:
A quermesse acontecia ao lado da igreja, depois espalhou pelo centro, foi

103

O que mais chama ateno neste sentido, da o ttulo do ensaio, que a administrao para o futuro,
segundo a expresso do prprio prefeito, tenha tido como referncia o passado tnico. Ver esta discusso no
ensaio indicado.
104
Estou excetuando o carnaval, que por razes acredito, no sejam necessrias maiores explicaes frente o que
esta prtica tem de enraizamento, ou melhor, de rizoma, na cultura brasileira. O carnaval junto com a
Quermesse so certamente os maiores eventos pblicos da cidade hoje (2003). Vem Crescendo tambm a
projeo do Festival de Coros e uma nova organizao das Festas de Santa Brbara e So Jos. A administrao
atual (2003) da Fundao Cultural de Cricima realizou um evento para discusso destas festas em maro de
2003, do qual participei como convidado. O Encontro foi chamado de Seminrio de Festas Populares, sendo
organizado pela Fundao Cultural de Cricima. No grupo que discutia a Quermesse, vrios indicativos forma
apontados, entre eles a abertura maior da festa para outras tantas manifestaes, que no apenas as tnicas. Ver:
Ata relativa ao Seminrio de Festas Populares disposto na Fundao Cultural de Cricima.
105
Discuto isto de modo mais trabalhado no tpico Lugares presente neste ensaio.

77

tomando outras ruas, foi tomando vulto, tornou-se difcil de se organizar.


Havia muita reclamao por parte dos logistas. Os banheiros que no
existiam, os canteiros da praa e das rvores, as ruas, as lojas fechavam etc.
Chegou-se concluso que a festa precisava mudar de local. Da foi pro
parque centenrio, depois pra Cesaca, e novamente pro parque. A cada ano
se mostra necessrio a criao de um parque tnico, de um largo das etnias.
tambm uma preocupao da atual gesto (2002). Quando a festa foi
cercada e tomou uma face maior, aumentou tambm a projeo das etnias.
A ela deixou de ser uma quermesse e passou a ser uma festa tnica, festa
das etnias. Mas se manteve ainda o nome, quermesse de tradio e cultura.
(...).O que realmente estes grupos tnicos representam aqui? Eu
particularmente acredito que eles representam uma minoria e com interesse
especfico. (...).As etnias no prestam contas. Ns queremos que a festa se
pague pelo menos. A prefeitura no pode ter este nus. Existe uma espcie
de concesso de um cheque em branco para as etnias. Em que sentido o que
est na festa representa a experincia diria das pessoas da cidade?106

Seguindo a fala de Edison Balod e atentos participao das etnias articuladas ao


poder pblico, voltamos ao momento de criao e realizao da festa. A primeira Quermesse:
Tradio e Cultura pertence ordem das generalidades. Nela mais fcil ver semelhanas e
equivalncias com as manifestaes produzidas para celebrar o carter colonizador. Em
documento encontrado no arquivo pblico municipal, em uma das pastas destinadas a guardar
as informaes relativas a realizao da IV quermesse (realizada em 1993), aps um breve
texto do antroplogo Carlos Rodrigues Brando107, a criao da festa aparece assim
justificada:
Entendendo que um povo sem memria um povo sem referncia para
construir um futuro, o projeto Cricima Criana cuidou de criar espaos
para o desenvolvimento de aes integradas de resgate valorizao e
preservao de heranas culturais de cada raa que forma a
diversificao cultural tnica de Cricima. Procurou incrementar uma
mobilizao cultural onde o pluralismo tnico pudesse encontrar na
integrao o seu denominador comum. Assim que em 5-6-1989 foi
criada a quermesse de tradio e cultura, o evento que passou a
integrar definitivamente o calendrio cultural da cidade, estreitando
cada vez mais os laos de Cricima com sua histria e sua gente. A
quermesse vem cumprindo assim seu objetivo maior de reunir no

106

Depoimento concedido a mim na Cidade de Cricima, em 04/10/2002.


O excerto recuperado da obra de Brando o seguinte: as pessoas festejam a si mesmos atravs do que so
do que criam, do que produzem. A festa um fala, uma memria, uma mensagem. Um lugar simblico onde
cerimonialmente separam-se o que deve ser esquecido e por isto em silncio, no festejado. Daquilo que deve
ser resgatado da coisa ao smbolo. Posto em evidncia de tempos em tempos comemorando celebrando aqui e
ali, por causa dos mais diversos motivos, eis que a cultura de que somos ator paret, interrompe a seqncia do
correr da vida cotidiana e demarca os momentos de festejar.

107

78

calado da praa Nereu Ramos a criana, o jovem o adulto o idoso de


todas as camadas sociais de Cricima, organizadas em associaes
tnicas e culturais, para que atravs de sua participao efetiva e afetiva
tomem conscincia e assumam o maior patrimnio humano que a sua
identidade cultural. A este objetivo maior acrescentam-se outros como:
dar conhecimento e identificar o valor e a fora das aes artsticas
culturais das entidades envolvidas. Gerar recursos para a autosustentao das entidades participantes nos seus projetos. Como j de
costume, desde de 1989, ao trmino de cada edio da quermesse feita
uma avaliao criteriosa da mesma para que se possa planejar com mais
eficincia a prxima edio. Isto s acontece graas s anlises,
sugestes e consideraes sinceras feitas por todas as entidades e/ou
associaes, bem como o compromisso do reconhecimento das falhas e
merecimento dos acertos de cada setor envolvido nas mesmas108

Assumindo como o maior patrimnio da cidade sua identidade cultural, seria


prudente refletir de que identidade se trata. Como sentenciar para uma cidade sua identidade
cultural? De qual identidade criciumense se fala? Daquela poltica engajada? Daquela
produzida pelos envolvidos com a organizao poltica do municpio, de outros que se
preocupam com o meio ambiente e que engrossam o nmero de ongs criadas na cidade? Dos
negros ou italianos em seus vrios territrios? Dos emigrados criciumenses que agora fazem
aumentar as filas nos bancos procura dos dlares que enviam para a cidade? Isto
importante ser considerado, especialmente no momento contemporneo em que cada vez mais
o que se faz presente so signos de identificao e no sistemas de identidades hermticos.
As semelhanas para voltar a falar na generalidade , devem ser assistidas.
Desde a primeira quermesse j se discute o nome dado a ela. Para um segmento dos
organizadores da festa, o termo Quermesse: Tradio e Cultura poderia ser substitudo e
sem prejuzo algum pelo termo Festa das Etnias109. O mercado tnico, exibido como

108

Dados obtidos em fonte indicada no corpo do texto. Os grifos so meus.


Nas duas ltimas edies da Quermesse: Tradio e Cultura o termo Festa das Etnias das etnias utilizado
como sub-ttulo. Alis, h uma forte discusso na cidade para que seja criada uma Festa das Etnias, mais voltada
para o espetculo e para ser vendida no estado e pas, e outra de carter mais caseiro e domstico, chamada
quermesse. Esta discusso aparece em alguns documentos encontrados e entrevistas realizadas. Nei Manique,
jornalista j citado, diz na entrevista: sempre defendi a realizao de dois eventos anuais: a quermesse na praa,

109

79

repetio, exposto na primeira Quermesse: Tradio e Cultura era assim anunciado pela
imprensa:

Por iniciativa da comisso municipal dos festejos dos 110 anos de fundao de
Cricima, teremos no perodo de 4 a 12 prximo, no calado da praa Nereu
Ramos, a primeira Quermesse de tradio e cultura que reunir representantes
das cinco etnias, apresentaes de corais, bandas e grupos de danas folclricas.
Para esta festa que pretende repetir o espetculo inesquecvel realizado em 1980,
quando das comemoraes do centenrio de Cricima, segundo Vera Maria
Silvestre Cruz, secretria de educao, ser feita uma maior integrao dos
descendentes dos imigrantes italianos, poloneses, alemes, portugueses e
africanos, que estaro divididos em 10 barracas durante os nove dias e com um
palco apropriado para apresentaes culturais diariamente entre as 15 e vinte
horas. A secretria acredita ainda que a primeira quermesse promover a criao
do clima que se pretende fomentar em janeiro de 1990, durante as festividades
dos 110 anos de Cricima (...)110.

A primeira Quermesse de Tradio e Cultura se realizou entre os dias 4 e 12 de


agosto de 1989, organizada pela Prefeitura Municipal, inicialmente atravs da Casa da
Cultura, e posteriormente (1993) pela Fundao Cultural de Cricima (FCC), alm de
diversas entidades beneficentes, assistenciais e filantrpicas, e inmeras associaes tnicas111
e empresas da cidade e regio. Durante nove dias, barracas e restaurantes decorados

para os criciumenses. Uma Festa das Etnias no Parque Centenrio (prefeitura) para atrair pessoas de fora, com
bandas de peso, cobrana de ingressos etc. Quanto ao termo Festa das etnias, ele parece ser absorvido inclusive
pela imprensa local: "A festa das etnias, mas pode muito bem ser comparada com a torre de Babel, pela
diversidade de cultura que congrega o evento. Para sair de um restaurante italiano depois de ter provado uma
bela macarronada regada a vinho e entrar em uma tenda rabe e experimentar um arguile (espcie de charuto da
paz) precisa somente disposio e estar aberto a experimentaes. uma integrao mpar o que acontece em
Cricima, define o presidente da etnia rabe, Malih Omari. O exemplo uma vitrine para o Brasil e para o
mundo Jornal Da Manh. Cricima, 01 de set de 2000, p.3
110

Tribuna Criciumense. Cricima, 02 de agosto de 1989, p. 01. Fica explcita, assim , uma nova tentativa da
tambm nova Gesto de Altair Guidi, em organizar festejos (ver tambm Futuro do Pretrito) em torno dos
aniversrios da cidade e mais ainda, em torno da prpria idia de colonizao.

111

Como exemplo, em 1997, durante a realizao da oitava Quermesse: Tradio e Cultura, entre as 34 entidades
responsveis pela organizao da festa, 21 delas eram associaes tnicas. Cada etnia organiza-se em torno de
uma entidade principal, sendo que algumas delas, a exemplo da italiana e alem, subdividem-se em vrios outros
grupos, distribudos pelos diversos bairros do municpio, onde tambm se organizam festas tnicas menores, a
exemplo da Rio Fest, organizada no Distrito de Rio Maina, a Pro Fest, organizada no bairro Prspera e a
Pinheiro Fest, organizada no bairro Pinheirinho. Esta valorao tnica, celebrada em festa, encontra auxlio em
declaraes como a do Presidente da Comisso Organizadora da VI Quermesse, Henrique Packter: Possa a
nossa quermesse, maior expresso viva das tradies e cultura de Cricima, revigorar em nossa gente o esprito

80

ofereceram uma infinidade de artigos e opes gastronmicas, combinadas s msicas e


apresentaes artsticas realizadas e assistidas por pessoas das mais variadas faixas etrias e
camadas sociais, as quais circularam no espao da festa.
A generalizao da etnicidade112 na primeira quermesse ganha mais consistncia
quando cotejada com outras informaes. Durante a realizao da primeira festa e estando a
passos largos se construindo sob perspectivas econmicas distintas113, o presidente da ACIC
(Associao Comercial e Industrial de Cricima) era Jaime Zanatta (gesto 1987-1991),
Empresrio do setor de produtos plsticos da cidade e descendente de uma das famlias
italianas fundadoras do ncleo colonial no sculo XIX. Tambm nas atas da AIBTC114, entre
uma de suas primeiras aes est a criao de uma escola de italiano na cidade, que
inicialmente se realizar nas dependncias da casa da cultura, situada na praa Nereu Ramos,
coordenada pela secretaria de educao e cultura do municpio. Ainda segundo depoimento
coletado, o jornalista Nei Manique afirma que: no primeiro ano do curso de lngua italiana
(1988) eram cerca de 40 alunos e essa reunio foi to forte que no ano seguinte, com a

de luta, de unio e tenacidade, que bem caracterizaram os bravos colonizadores, responsveis nicos pelo nosso
ser e estar (Folder promocional da VI Quermesse: Tradio e Cultura, realizada em 1994).
112

A etnicidade hoje um dos grandes temas do qual vem se atendo as Cincias Sociais. Para Manoela Carneiro
da Cunha, por exemplo, ela a Hidra de Lerna, serpente de sete cabeas que se apresentam como humanas e que
tem a propriedade de renascerem quando cortadas (Ver: CUNHA, 1986.). Este trabalho se constri sob vrias
referncias para pensar o assunto, mantendo a preocupao no apenas neste ensaio, mas em quaisquer outros,
de no restringi-los apenas contribuio para estudos da etnicidade. Contudo, na cidade contempornea o tema
constantemente aventado, quase sempre ligado a temticas identitrias, a processos de globalizao cultural e
ainda ao nacionalismo.

113

O que se pode verificar nas atas da ACIC (Associao Comercial e Industrial de Cricima), criada ainda na
dcada de 1940. Junto ao CDL local a ACIC ir desenvolver uma srie de aes, suportada tambm pela
imprensa, no sentido de mostrar que a sada para a cidade, alm do aeroporto Diomcio Freitas, era investir cada
dia mais na diversificao econmica. Disto resultar uma srie de aes que visavam em outros objetivos,
tornar vivel a permanncia e instalao de empresas na cidade, tendo em vista o recrudescimento de
movimentos sociais no final da dcada de 1980 e incio da dcada de 1990. Esta idia explorada com
propriedade em: TEIXEIRA, Jos Paulo. Op. Cit., pgs. 120-131.
114
Associao talo Brasileira de Tradio e Cultura, criada em 1988 por um grupo de descendentes de italianos
com a inteno de estabelecer vnculos culturais e comerciais com algumas cidades e governos provinciais da
Itlia. Ver discusso mais a frente neste ensaio, no tpico sobre Lugares.

81

parceria entre a AIBTC e a prefeitura, surgiu a 1a Quermesse da Tradio e Cultura, em


agosto de 1989115.
A realizao espacial da festa ainda hoje (2002) um tema muito conflitante.
Relembrando, inicialmente realizada na praa Nereu Ramos, a Quermesse: Tradio e Cultura
foi transferida em 1995 para o Parque Centenrio, situada no bairro So Luiz, prximo ao
centro da cidade, onde se realizou at 1997. Em 1998 a festa foi transferida novamente, desta
feita para as dependncias de uma antiga cermica (Cesaca) desativada em 1992 e situada no
centro da cidade. A festa sofreu nova transferncia em 2000, para o parque centenrio, que
passa a se chamar parque das etnias, local onde se realizaram as duas ltimas edies. Esta
dissonncia espacial citada sugere algumas reflexes.

De como uma praa se torna pequena:


A praa Nereu Ramos116, situada hoje no corao da cidade, desde muito cedo,
quando da implementao do ncleo colonial, em 1880, foi um ponto de encontro da cidade.
Espao pblico por excelncia. Em seus arredores ir se desenvolver o comrcio de Cricima.
Nela, ambulantes e saltimbancos sempre promoviam a reteno de algum pblico citadino e
curioso que se deixava perder em apresentaes do homem que engolia fogo, ou de outro que
vendia uma pomada milagrosa e um elixir capaz de levantar defuntos. At o final da dcada
de 1980 era muito comum que este curioso pblico, formando uma pequena aglomerao na
praa, fosse advertido por transeuntes, talvez menos curiosos e zelosos do mundo do trabalho:

115
116

Nei Manique em entrevista j citada.

Em 1930 o ento prefeito da cidade, Cincinato Naspolini urbaniza a praa que antes chegou a ser campo de
futebol. poca a praa recebeu o nome de Etelvina da Luz (esposa de Herclio Luz). Em 1946 o nome da praa

82

Vo baixar uma mina!. Mas isto at o momento em que minas existiam para serem
baixadas. Para o visitante que chegava a cidade, um out-door posto estrategicamente em sua
entrada, se encarregava de fazer a saudao e advertia: Bem vindos Cricima, aqui se
trabalha. Este, sem dvida, j um momento em que o mundo do trabalho se estende a
todos, apesar dos esforos em pens-lo como um territrio habitado por alguns poucos
escolhidos pela sorte117.
Local escolhido para a realizao da primeira quermesse, a praa provocar
divergncias entre os organizadores da festa. Nos documentos de avaliao das quermesses
possvel perceber que desde cedo o local escolhido se mostrava inadequado: pequeno para o
grande nmero de barracas e no expansvel. Em realidade a primeira quermesse criada com
uma face caseira, domstica. Apenas em 1991 que a festa ganha proporo de um grande
evento citadino. O que vai gerar uma srie de discusses entre os vrios segmentos sociais: os
organizadores da festa (comisso de etnias e prefeitura) e a populao em geral. Contudo, o
que se altera sensivelmente a partir de 1991 o carter que a festa ir tomar. Na praa se
encontram instalados ainda alguns comerciantes antigos da cidade, que na dcada de 1990,
comeam a dividir espaos com lojas de departamentos, Shopping Center118 e outras tantas

foi substitudo para Nereu Ramos. Para isto ver: NASPOLINI FILHO, Archimedes. Cricima, orgulho de
cidade! Fragmentos da histria de seus 120 anos. Cricima: Ed. Do autor, 2000.
117

Estou me referindo a uma poro significativa de reflexes sobre Cricima que em todos os sentidos deram
conta de enaltecer o pioneirismo do imigrante europeu e que tomam pronta e resolvida uma colonizao que se
cria a cada dia. Tomo ainda a referncia de territrio num sentido muito mais fluido e pantanoso do que aquele
com os quais nos especializamos em pisar. Entre tantas concepes desta forma distinta de enxergar territrios,
destaco a reflexo de Homi K. Bhabha e Stuart Hall, e ainda a contribuio lcida e consistente de Gilles
Deleuze, que em entrevista divulgada um ano antes da sua morte, dada em 1996, argumentava: constituir (ou
identificar) um territrio quase como o nascimento de uma arte. In: DELEUZE, Gilles. O abcedrio de Gilles
Deleuze. Traduzido do ingls por Tomaz Tadeu da Silva. Digitado.

118

Nas cidades contemporneas existe uma visvel transformao dos locais pblicos, especialmente daqueles
destinados aos encontros sociais. Na comunidade transnacional de consumidores shopping centers so cada vez
mais um grande local de encontro, enquanto reduz-se sensivelmente o nmero de praas nas cidades. A grande
praa de encontro passa a ser a de alimentao do shopping. Esta idia apresenta entre outros trabalhos, por:
CANEVACCI, Massimo. Op. Cit e CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e cidados: conflitos
multiculturais da globalizao. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. O primeiro Shopping Center de Cricima, situado na

83

lojas que comeam a se instalar. Entre os reclamantes da realizao da festa na praa se


encontram os comerciantes mais antigos que agora concorrem com um autntico mundo
mix que ganha visibilidade maior com a realizao da quermesse. neste sentido que
tomando a feio de um evento de grandes propores, a praa se torna inadequada para a
quermesse.
o que se pode perceber neste fragmento recuperado quando da realizao da
stima Quermesse em 1995 no Parque Centenrio. Logo aps o trmino da festa, as opinies
divididas em relao ao novo espao da festa se mostram:
No adianta, sou teimoso. Preferia a quermesse na praa. Claro, seria
impossvel realiz-la na praa com a magnitude que teve nesta edio.
(...) Quermesse festa tpica do interior, que se desenvolve diante da
igreja principal, geralmente sua patrocinadora. uma festinha modesta,
caseira, artesanal, quase intimista, sem parafernlias de luminrias e

praa Nereu Ramos, foi inaugurado em 30 de novembro de 1984. poca o evento teve grande repercusso na
cidade, e entre outras era esta a notcia: Ontem a praa Nereu Ramos esteve bastante movimentada com o
grande nmero de pessoas indo conhecer a beleza que o Shopping Center Della Giustinna. No final da tarde a
atrao ficou com o desfile das lojas Incosul. De parabns todos os diretores do empreendimento e toda
cricima. Realmente ganhamos um novo ponto de encontro. In: JORNAL DA MANH. Cricima, 01
dezembro dez 1984, p. 3. Um segundo Shopping Center foi inaugurado na cidade em 1996, desta feita no bairro
Prspera localizado na entrada da cidade, e recebeu o nome de Shopping Cricima. Sobre o novo Shopping, o
ento prefeito de Cricima em 1997, Paulo Meller, fazia o seguinte comentrio: A economia do municpio de
forma alguma est estagnada, ela andou meio devagar, mas agora comea a ritmo e gerar empregos. Isso pode
ser observado com a instalao de um novo shopping na cidade, gerando renda e quase 500 empregos para o
municpio In: O ESTADO. Florianpolis: 04 e 05 de Janeiro de 1997, p. 12. Em depoimento concedido a mim
na cidade de Cricima em 15/10/1999, o diretor superintendente do Shopping Cricima, Joo Graciliano,
afirmava: o empreendimento recente, e surge com a vontade de mostrar a cidade que possvel crescer,
mesmo com crise. Para isto devemos deixar a cidade limpa e cuidar do meio ambiente. Aqui no shopping
estamos colocando flores e embelezando o jardim. um porto de entrada da cidade e leva seu nome tambm.
Para uma anlise produtiva sobre Shopping Centers ver: SARLO, Beatriz. Cenas da vida ps-moderna:
intelectuais, arte e vdeo cultura na Argentina. Traduo de Srgio Alcides. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997. Diz a
autora: Ir ao centro no o mesmo que ir ao shopping center, ainda que o significante centro se repita nas
duas expresses. Em primeiro lugar pela sua paisagem: o shopping center, seja qual for sua tipologia
arquitetnica, um simulacro de cidade de servios de miniatura, onde todos os extremos do urbano foram
liquidados .... Op. Cit., p. 14. Neste mesmo ano de 1999, era criado em Cricima o Estatuto que Regulamenta
a Utilizao da Praa Nereu Ramos, documento elaborado a partir da iniciativa de:CDL, Cmara da Mulher
empresria, PMC, Moradores da Praa, Diocese de Cricima (criada em 1998), ASSECRI e PM/SC. Atravs
deste documento, assinado pelos representantes das entidades listadas e mais o Prefeito Paulo Meller, ficou
acordado que as possveis infraes Praa prescritas pelo estatuto seriam penalizadas na mesma medida que
estipulava o Cdigo de Postura Urbanstica da Cidade. Este Estatuto acabou sendo um dos maiores
impedimentos colocados ao retorno da Quermesse para a Praa Nereu Ramos em 1999, sendo que devido a isto
neste ano a festa se realizou no pavilho da Cesaca (antiga fbrica de azulejos colocada no centro da cidade).

84

microfones. O bom da quermesse exatamente sua caracterstica caipira


e sadia. Nas quermesses, sente-se o cheiro quente e envolvente dos
quitutes das avs, preparando com zelo nas barraquinhas adereadas
com capricho. Os pes esto sempre quentinhos derretendo a manteiga,
os doces sempre se desmancham na boca e as meninas sempre so
brejeiras. (...) Porque no duas festas? Uma a quermesse original,
artesanal e domstica, na praa sem borogods de bandas couver e
caixas de som gigantes, algo assim como o sbado de manh na Nereu
Ramos, e outra portentosa, estadual e porque no, at nacional? Porque
no? Seriam timas as duas. A quermesse de tradio e cultura no
precisa se agigantar nem se estadualizar. Nem tudo o que tem grandes
dimenses bom. Tambm no quer dizer que a outra festa, jovem,
frica e vigorosa fosse ruim. Seria igualmente boa. S que diferente. Por
fim, temo que, o inevitvel crescimento e gigantismo da quermesse, ele
deixe de existir j na prxima edio. Tende a transformar-se numa
festa estadual de Cricima, sem cor, gosto ou cheiro, como qualquer
festival, como a Produsul de Tubaro ou qualquer um das centenas de
festivais espalhados pelo interior do pas. Festa nacional da uva, do
pinho, da cebola, do arroz, do milho, etc, etc, etc. Toda cidade do
interior tem uma festa nacional, porque se julga capital nacional de
alguma coisa. uma caracterstica das cidades que no so capitais.
Pela quermesse pequena e perene, portanto. Tenho dito119.

O desejo de realizar uma festa com dimenses caseiras neste momento (1995) j se
confunde e antagoniza com outro bastante visvel de transformar a festa num grande
espetculo. Para isto, desde que a festa sai da Praa para o Parque Centenrio, se investe na
sua produo e, se tenta inclusive, inseri-la no calendrio das festas de outubro de Santa
Catarina. A instituio de festas municipais um fenmeno que se estende para vrias cidades
de Santa Catarina. So exemplos a Oktoberfest, em Blumenau; a Fenarreco, em Brusque;
Chuchoppfest, em Gaspar; Fenachoppp, em Jaragu do Sul, a Marejada em Itaja, a Festa do
Vinho em Urussanga, Festa do Pinho em Lages, s para citar algumas delas. importante
situar esta instituio num cenrio mais global, articulado com este movimento de criao de
festas municipais no Estado, onde a cultura transformada em espetculo e vendida como
produto atravs da cultura de massa e por intermdio do fenmeno multimdia. Mesmo
porque esta a atual face (2002) em Cricima e, a vitrine na qual se pode enxergar mais

119

JORNAL DA MANH. Cricima, 18 de set 1995, p. 21. A matria assinada pelo Jornalista David Coimbra,
46 anos, residente em Cricima.

85

facilmente, atravs das presenas e ausncias, as relaes vividas na cidade. Sobre esta
dimenso maior da festa, bem como de seu financiamento, Edison Balod afirma:

A Quermesse difere muito das festas que se realiza no resto do


Estado. Blumenau vive em funo da festa. Outro detalhe estas
festas do resultado financeiro positivo. Aqui na quermesse
estrutura bancada pela prefeitura, e o resultado positivo a
participao das pessoas. O lucro dividido entre as
Associaes. Cada uma vai l monta seu restaurante e tal,
terceirizam e dividem o lucro entre eles ns no temos acesso a
isto120.

certo que a festa passa a ter uma dimenso maior e a praa fica pequena para
suport-la. Em 1991, festa da qual existe farta documentao, os nimos acirrados121 da
populao que vivia uma crise aguda de desemprego promovida pela nova estrutura do setor
carbonfero, tero como ponto de encontro ainda a praa Nereu Ramos. Em 1996, quando a
questo ambiental se torna a Tnica dos dias122 a festa j havia trocado de local (Parque
Centenrio), de calendrio para sua realizao duas vezes (agosto e setembro). A suposta
repetio das festas, que como vimos no se sustenta, acredito que esteja fundamentalmente
ligada praticas que fornecem a um lugar, um estamento. Cinco etnias, depois seis e sete e
novamente seis. Nomes: Quermesse: Tradio e Cultura e Festa das Etnias, a mesma festa e
ainda assim diferente. Uma Praa, um Parque, uma Fbrica, um outro Parque (e ainda o
mesmo). Assim, somente estando atento para as alteraes que pulsam no corao de
Cricima e refletem em aes criativas na vitrine-cidade, que se pode admitir a idia de

120

Edison Balod. Depoimento j citado.


Uma das lutas mais marcantes ocorreu durante o processo de privatizao da CSN (Companhia Siderrgica
Nacional), que atuava em Cricima atravs da Companhia Prspera e que era detentora de grandes reservas de
carvo. Reagindo ao processo de privatizao, os mineiros ocuparam as instalaes da empresa, queimaram
caminhes e colocaram explosivos nas imediaes da Companhia, ameaando explodir, caso no fossem
atendidas suas reivindicaes. Para isto Ver: TEIXEIRA, Jos Paulo. Os donos da cidade. Florianpolis:
Insular, 1996.
122
Ver discusso elaborada no ensaio Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias e Sobejos, tpico Desfile.
121

86

repetio. E, se lugares so distintos entre si, e mais ainda, constroem e produzem sentidos,
analisemos pois, mais vagarosamente estes indcios.

A Realidade da Utopia123: Entre Lugares Contemporneos


Parece-me bem indicado para ns, seguir
o exemplo que muitos nos deram e nos do,
isto , deixar estes lugares.
(Boccaccio, in Decameron)

Eu vou partir pra cidade

garantida,
proibida,
arranjar meio de vida
Margarida, pra voc gostar de mim e,
estas feridas da vida Margarida e, estas
feridas da vida amarga vida, pra voc
gostar de mim..
(Vital Farias)

Dos mapas aos lugares:


H um documento colocado entre outros tantos no Arquivo Pblico de
Cricima124,

onde so denunciados alguns pontos tursticos125 da cidade. Para alm do

123

Entenda-se que utopia aqui utilizada, stricto sensu, como lugar nenhum. Uma manifestao imaginria que
transportaria pessoa a um lugar pensado e sempre a se concretizar. Sobre isto diz Marc Auge: Certos lugares s
existem pelas palavras que os evocam, no lugares neste sentido, ou antes, lugares imaginrios, utopias banais,
clichs .Eles so o contrrio do no-lugar segundo Michel de Certeau, o contrrio do lugar dito (sobre o qual
nunca se sabe quem o disse e o que diz). In: AUG, Marc. No lugares: introduo a uma antropologia da
supermodernidade. Traduo de Maria Lcia Pereira. Campinas: Papirus, 1994, p. 88. Como a seguir tento
mostrar, outras dimenses dos lugares podem ser ensaiadas, as quais, sob diferentes maneiras, visibilizam a
fluidez contempornea e sua realidade.

124

Documento sob Ttulo: Histricos de alguns pontos tursticos, preparado pela Fundao Cultural de
Cricima e disposio no Arquivo Pblico Municipal. O documento no tem data de elaborao, mas se pode

87

inventrio dos referidos pontos, o que chama ateno no documento que, a cada local citado,
cabe uma distncia referida a partir do centro da cidade. Com isto, para quem acostumado
est, quase numa relao direta, colocar e pontuar nomes nos locais e com isto traar um
mapa, a cidade estaria assim delineada e muito bem apresentada. Contudo, tal atitude, para
anlise de uma cidade contempornea, no mnimo prematura. Afinal o que diz uma mapa?
Seria nele possvel se perceber a desordem e as diferenas postas e vividas numa cidade?
Afora o sentido de orientao mais ou menos preciso que um mapa qualquer indica, seu
observador tende a alcanar um olhar,

e mesmo uma experincia, onde ida e volta se

equilibram. Isto significa que ao encontrar a orientao pretendida, o observador, alm dela,
muito pouco acrescentar a sua compreenso sobre a cidade ou regio analisada. Este modo
particular e convencional de se estudar uma cidade faz com que, o passear e errar caminhos, o
labirntico e o desconhecido, sejam excludos da compreenso. Enfim, o mapa, como
referncia absoluta, impede a construo de um guia da cidade mais prximo do que se pode
efetivamente viver nela126. Pontos de vistas diferentes e, as vozes da cidade, no podem ser
vistas ou ouvidas atravs do mapa.

inferir que tenha sido produzido entre 1993 e 1994, dado algumas referncias colocadas no corpo do texto, tais
como nomes e nmeros telefnicos.
125

As primeiras preocupaes do poder pblico municipal com o turismo, chamado atualmente de indstria sem
chamins, podem ser encontradas na gesto de Algemiro Manique Barreto (1973-1977), quando criada a
Comisso Municipal de turismo, atendendo o incentivo dado pelo governo Estadual e Federal, representados
pelos rgos: DEATUR e EMBRATUR, respectivamente. Para isto ver: BELOLI, Mrio; PIMENTEL, Jos.
Cricima amor. Itaja: Uirapuru, 1974, p. 67. Na citada referncia se encontra anotado: Quem no tem cria, e
cria bem. O uso turstico do termo capital do carvo foi argumento maior das campanhas realizadas durante a
dcada de 1980, com destaque dado a criao da Mina Modelo em 1985, j na administrao de Jos Augusto
Hulse, anunciada at hoje (2003), como a nica mina aberta visitao pblica no mundo. Contudo, apesar da
pretenso em ter criado algo bem, somente no final da dcada de 1980 e incio da seguinte, se pode verificar uma
nfase maior no turismo na cidade, sendo a Quermesse: Tradio e Cultura uma das referncias.

126

Cristina Freire fala de uma experincia que tem com o conhecer uma cidade: Guardo sempre dois guias das
cidades distantes que visito (...) o primeiro comprado antes da partida com lugares precisamente diagramados em
ruas e distritos (...) o segundo construdo na volta. Misturam-se, a, pedaos de papel os mais variados, como
passagens...guardanapos de restaurantes...fotografias. In: FREIRE, Cristina. Alm dos mapas: os monumentos
no imaginrio urbano contemporneo. So Paulo: SESC:Annablume, 1997, p.33.

88

Em anlise derradeira e bvia, um mapa nunca faz coincidir o que apresenta com
seus territrios, e nestes, seus entre-lugares. possvel inferir que o contnuo e a estabilidade
colocada no mapa, uma coleo pases, de cidades ou ruas, promovam o enraizamento de
culturas. Enquanto as partes coloridas de um mapa se apresentam, no se pode nele perceber o
trnsito cultural prprio do contemporneo, cada qual est ali marcado: pas de florestas,
cidade do carvo, cultura martima, e assim por diante. Nele fica invivel perceber outras
enunciaes. Mais que isto, os lugares ficam to estavelmente marcados que parecem
encarnar mesmo aquilo que denominam. Assim, os criciumenses vivem em Cricima, os
operrios na periferia, a violncia em pontos delimitados. Os lugares so transformados em
espaos, e estes apresentados ento como uma grade neutra sobre a qual a diferena
cultural, a memria histrica e a organizao social so inscritas127.
No existe isomorfismo entre espao, lugar e cultura, como j indicaram Akil
Gupta e James Ferguson. Em ensaio muito inspirado128, estes antroplogos indicam como
manifestaes culturais perderam suas amarras a lugares definidos, ressaltando a importncia
da diferena cultural. Assim, a identificao de um lugar produzida na interseo entre seu
movimento especfico em um sistema de espaos hierarquicamente organizados e sua
construo cultural como comunidade ou localidade129. H uma relao tensa entre lugar e
identidade que precisa ser pensada, ao invs de negada ou ignorada130. Por isto o chamado

127

GUPTA, Akhil; FERGUSON, James. Mais alm da cultura:espao, identidade e poltica da diferena. In:
ARANTES, Antonio A. (Org.). O espao da diferena. Campinas: Papirus, 2000, p. 32.

128
129
130

Ver: Idem, pgs. 30-49.


Idem, p. 34.

Estou me referindo a prtica comum tradicionalmente empreendida por historiadores, que tinham na
identidade um lugar primeiro e ltimo das aes culturais e sociais. Seria muito arriscado e mesmo frgil, uma
atitude que de modo insistente se coloque a atribuir, de forma quase sacra, um lugar a uma identidade, em
relao direta. Mesmo porque identidade no o resultado fechado de heranas culturais, mas a produo
contnua e dolorida de criaes dirias, inseridas no jogo social. Devido a isto, certamente mais adequado
trabalhar com a idia de identificao e com as implicaes que se relacionam a ela, como a idia de traduo.
Isto uma possibilidade de pensar elementos que tentam estabelecer regras e lugares prprios a grupos ou

89

hiper-espao131coloca seriamente em suspeio a convico de que culturas possam ser


mapeadas sobre lugares e povos. O discurso ps-colonialista por demais fragmentado e
ambguo para que seja possvel ainda uma prtica to causal.
O lugar, visto por Michel de Certeau como o espao praticado ou configurao
instantnea de posies132, foi para mim ao longo desta tese, uma implicao primeira. Para
alm da dimenso do prprio em um lugar, na cidade contempornea, onde os fluxos so
intensos, o aqui e o l ficam embaados e a idia fixa de enraizamento estremecida.
Assim, se instala a ruptura significativa entre cultura e espao, ou melhor, entre cultura e

sujeitos justamente fora desta dimenso unvoca. A identificao opera com a duplicidade, do outro e de ns
mesmos, ou seja, considera os outros de ns mesmos. A identificao nunca a afirmao de uma identidade
pr-dada, tampouco, de uma atividade pr-cumpridora, traz a marca da fissura no lugar do outros de onde ela
vem. E Neste espao suplementar de duplicao no de pluralidade redutora descrita por Frantz Fanon
como profunda indecibilidade cultural que o povo como forma de interpelao emerge do abismo da
enunciao onde o sujeito se divide, o significante desaparece gradualmente e o pedaggico e o perfomativo
so articulados de forma agonstica. In: BHABHA, Homi K. O local da cultura. Traduo de Myriam vila,
Eliana Loureno de Lima Reis, Glucia Renate Gonalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 217-218. Ver
tambm na mesma referncia: Interrogando a identidade: Frantz Fanon e a prerrogativa ps-colonial. In:
BHABHA, Homi K. Op. Cit., pgs. 70-104. E ainda, como colaborao, ver: HALL, Stuart. Quem precisa da
identidade?. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org.). Identidade e diferena: as perspectivas dos estudos culturais.
Petrpolis: Vozes, 2001.
131

Termo utilizado para delinear o lugar do excesso de significados do qual a contemporanidade prenhe. Entre
outros pensadores, o hiper espao teorizado, em diferentes abordagens, por: Arjun Appadurai, Massimo
Canevacci, Marc Aug, Fredric Jameson e Zygmunt Bauman. Estes pensadores indicados divergem em muitos
pontos, mas em todos possvel identificar a preocupao com os elementos que compem e complexificam o
contemporneo, tais como: o trnsito, o lugar, o global. Tambm me parece adequado anotar que, entre os
nomes citados, Fredric Jameson aparece como um espcie de anti-afinidade eletiva, visto a crtica que estabelece
abordagem ps-moderna. Para isto ver as consideraes consistentes que Homi K, Bhabha realiza obra de
Jameson, onde se encontra, entre outras, a seguinte observao: Jameson dissipa o potencial (poltico) do futuro
como questo aberta, ou nova ordem / fronteira do mundo, ao transformar as diferenas sociais em distncia
cultural e ao converter temporalidades intersticiais, conflituosas, que podem no ser nem de desenvolvimento
nem lineares (no dispostas para cima ou para baixo em uma escala temporal), nos topoi da separao espacial.
In: BHABHA, Homi K. Como o novo entra no mundo: o espao ps-moderno, os tempo ps coloniais e as
provaes da traduo cultural. In: Op. Cit., p. 302.

132

Segundo Certeau, um lugar a ordem (seja qual for) segundo a qual se distribuem elementos nas relaes
de coexistncia. A se acha portanto excluda a possibilidade, para duas coisas, de ocuparem o mesmo lugar. A
impera a lei do prprio: os elementos considerados se acham uns ao lado dos outros, cada um situado num
lugar prprio e distinto que define. Um lugar uma configurao instantnea de posies. Implica uma
indicao de estabilidade.(...) (O Espao) Diversamente do lugar, no tem nem a univocidade nem a estabilidade
de um prprio (...) Em suma, o espao um lugar praticado In: CERTEAU, Michel de. A Inveno do
Cotidiano. Traduo de Ephraim Ferreira Alves. Petrpolis: Vozes, 1994, p. 200-202. Ainda nesta dimenso,
Certau diz tambm que entre as duas determinaes: Espao e Lugar, o sujeito transita, existem passagens. Isto
, em modo distinto, indicar a dimenso do entre lugar, do qual Homi K. Bhabha parece ser um referncia
importante. Ver discusso a respeito mais frente.

90

lugar. Esta uma perspectiva produtiva para se pensar uma cidade como Cricima. A fixidez
que a tradio atribui aos lugares em muito j se vazou para outros tantos. Existe a fluidez do
contemporneo. As diferenas no podem ser analisadas se tendo como referncia a distncia,
quase sempre apresentada em metros e, para aqueles que ainda no acordaram para isto, fica
dito que estes podem estar almoando mesma mesa, com o fundamentalismo, o racismo ou
outras manifestaes afins.

Lugares (In)Comuns:
Transitar pela cidade. Esta a atividade mais prxima do momento, mais distante
das estabilidades, menos morta da vida citadina, mais ntima das superfcies. No mais
falamos da flnerie133 ao menos no como uma referncia central porque a idia de
centro e mesmo de auge, j no mais possvel de ser posta de modo to puro ou mesmo
natural. Vivemos o tempo ex-cntrico, mais que um plural, coloquemos diferenas nisto: excntricos. Para a leitura da Cricima contempornea, isto decisivo. Fora do lugar comum de
se enxergar aes polarizadas entre a populao do centro e da periferia, e para alm de uma
simples integrao de ambas possibilidades, as produes culturais da cidade indicam este

133

Expresso muito utilizada para a anlise das cidades , especialmente pela chamada perspectiva moderna. A
referncia maior certamente ainda a obra de Walter Benjamim a comentar o lirismo de Baudelaire no tempo
em que o filsofo chamou de prprio do Auge do capitalismo. Ver: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: um
lrico no auge do capitalismo. Traduo de Jos Carlos M. Barbosa, Hemerson A. Baptista. So Paulo:
Brasiliense, 1989.

91

deslocamento; o lugar intervalar onde, no esquecendo as diferenas, inscritas sejam elas na


expresso corporal, na vestimenta ou mesmo no alimento que ingerem, as negociaes e
no s negaes se fazem. Falamos ento de uma temporalidade capaz de articular
elementos antagnicos e contraditrios.
Num sbado de primavera, hoje j mais florida em Cricima134, caminhando pela
cidade, encontro ento um roda de capoeira. Para uma cidade acostumada a outros tipos de
prticas, no mnimo menos permissveis, congelada em seus monumentos, aquilo era um sinal
forte desta negociao mencionada. Mais ainda, a inscrio do lugar gritava a mudana.
Como poderia agora tal prtica ser vista e mesmo apoiada pelo poder pblico135? No ritmo do
berimbau, elas desafiavam a solidez de uma tradio, fazendo a roda em frente ao Colgio
So Bento, no cho da Praa do Congresso136. O lugar estava definitivamente impregnado de
Outros, de um Outros de ns mesmos. Fica posto que estes Outros no so produzidos fora de
uma dimenso dolorosa e ressentida. A instaurao do referido grupo de capoeira na cidade
pode dar uma idia mais elaborada disto:

134

Ver discusso a respeito no Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias e Sobejos.


Especialmente as aes implementadas pela Fundao Cultural de Cricima e mais ainda avolumadas a partir
de 2001, por sua atual (2003) Gesto.
136
Em 1945 foi criada a casa da Criana Nossa Senhora de Ftima, vinculada a Congregao Religiosa Irms
Escolares de Nossa Senhora. Em 1952 se transfere a administrao da referida Casa para uma outra
Congregao: Irms Beneditinas, ano que estas chegam na cidade. As Beneditinas criam em 1956 o Ensino
Primrio (1a a 4 a Sries). Em 1958 ampliam as dependncias . Em 1964 criado o Ginsio Moderno So Bento,
sendo em seguida (1965) criado o colgio Normal. Em 1968 so unidos todos os graus de formao, e o Colgio
So Bento atinge a configurao que hoje possui. O Colgio So Bento, ao longo destes anos, tem privilegiado a
formao das pessoas de maior poder aquisitivo da cidade, tradicionalmente conhecida como elite. Alis,
sobre a participao deste colgio na V Quermesse (1993) rendeu alguns protestos. Sob o ttulo Discriminao,
o Jornal da Manh (ver) de 10/09/93 em sua pgina 4, a matria mostra que representantes da etnia negra
distribuam panfletos reclamando da atitude do colgio em ter colocado uma menina de cor clara
representando a etnia negra na missa das etnias organizada pelo referido colgio. A Praa do Congresso foi
criada em 1946 para centralizar as comemoraes do Congresso Eucarstico, da o nome, realizado na cidade no
mesmo ano. Ambos Colgio e Praa lugares, portanto, imbudos de uma dimenso sacra. Em forma de digresso
provocativa, gostaria de colocar o seguinte: enquanto escrevo estas linhas, percebo a solenidade que damos aos
nomes, e, isto me parece desde muito cedo. Ainda no ensino fundamental, quando de nossa alfabetizao, nos
ensinam a colocar letra maiscula em nomes prprios. Tendo em vista que hoje parece haver pouco de prprio
nos lugares, no seria hora de mudarmos tambm nossa escrita?
135

92

O grupo de Capoeira Liberdade chegou aqui em Cricima

em maro de 1996. Em julho de 1997 foi vinculado UNESC,


que mantm o grupo como forma de extenso universitria.
Quando comeamos em 1996, as pessoas nem chegavam
perto, eram frias. Acredito tambm que em parte isto se dava
porque, particularmente no meu caso, era uma mulher que
trazia isto para a cidade. E ainda de fora, pois o Grupo foi
formado inicialmente em Caxias do Sul (RS) e eu era de
Torres (RS) chegando na cidade para estudar (...). Tambm me
chama a ateno a fraca presena negra no grupo, mesmo
sabendo que uma parte importante da cidade formada por
esta populao. (...) Mas nos ltimos anos aumentou muito a
participao de todos. Comeamos com uns vinte e hoje temos
duzentos. Hoje o grupo se apresenta na cidade em muitos
eventos, como a Quermesse, por exemplo, e ainda em lugares
como o Shopping Center.137

A temporalidade a qual nos referimos pode dar conta de visibilizar as prticas


colocadas na citao acima. No contemporneo citadino, os elementos culturais quase sempre
esto mais ligados ao momento do que a um lugar perfeitamente delimitado. H que se revirar
os lugares, tal qual a prtica posta com humor pelo Circo do Revirado138 em Cricima.
Cristiane Fernandes Berg, na citao colocada acima, menciona a frieza da cidade para com a
prtica da capoeira. Na justificativa fornecida pela professora de capoeira, se pode perceber
um pouco deste revirar de lugares a qual me refiro. Atravs negociaes, no apenas de
origem (vim de Torres), nem de uma exclusividade tnica (a ausncia negra), ou mesmo de
gnero (porque sou mulher). no cruzamento palavra bem conhecida dos

137

Fragmentos recuperados de depoimentos concedidos a mim por Cristiane Fernandes Berg, 28 anos,
professora de capoeira no Grupo Liberdade. Depoimentos coletados nos dias 11/08/2003 e 18/11/2003. Cristiane
Berg tambm informou que os alunos do referido grupo pagam uma mensalidade de R$ 20,00, subsidiada pela
universidade que paga seu salrio. Tambm produziu a referida professora, um Trabalho de Concluso de Curso
(em Educao Fsica) na UNESC, sugerindo a incluso de aulas de capoeira na grade curricular do Curso de
Educao Fsica da Unesc, que, segundo a mesma, ser implementado no Curso no primeiro semestre de 2004.
Para isto ver: BERG, Cristiane Fernandes. Proposta para incluso da capoeira na grade curricular do curso
de Educao Fsica da UNESC. Cricima: UNESC, 2001. (Trabalho de Concluso de Curso). Um embate
semelhante vem ocorrendo com os grupos italianos (ver discusso sobre estes grupos mais frente) que, h
alguns anos, tentam implementar o italiano como lngua a ser estuda em Cricima, desde o ensino fundamental.
138
O Circo do Revirado h seis anos desenvolve trabalho com bonecos e atua em peas infantis. Para os artistas
envolvidos (um casal , cujo o nome do homem Reveraldo Joaquim, deu o ttulo ao Circo) os melhores palcos so
as ruas e os melhores figurinos, as pernas de pau. Ver: tribuna do dia, Cricima, 14 e 15 nov de 2003, p. 26.

93

criciumenses139 destas referncias que se pode perceber a fora da negociao e a


instabilidade dos lugares. Sim, pois at o incio da dcada de 1990, a cidade era bem menos
cosmopolita, para usar um termo de fcil compreenso, e bem mais tnica, no sentido da
preservao de razes. A Quermesse, chamada de Festa das Etnias, que numa leitura rpida
poderia ser vista como simples manifestao tnica, produz com ela seu duplo: o Outro
deslocado, que desestabiliza o chamado poder das etnias, introduzindo outros territrios140.
Para alm da fora expressiva da capoeira, vista como prtica antiga entre brasileiros141, e que
justamente por carregar esta antiguidade pode ser entendida ainda de forma tradicional, o
contemporneo criciumense vive outras possibilidades. O ritmo se coloca.
certo que lugares, mesmo que tenham pretensamente a idia de estabilidade,
no aliviam tenses. Willian Santiago Bernardo, 26 anos, rapper do Grupo Ato Consciente
de Cricima. Atravs do Rap cantado pelo grupo se pode ter uma idia do que viver numa
cidade contempornea, em seus entre lugares, quase sempre bastante territorializados. Idia
Forte142 vincando territrios na cidade. Vejamos alguns exemplos:
(...)L na zona Sul, irmo, no diferente, o rap quente, muita
gente ta dizendo idia forte. No Clube Operria, pode crer, nossa
rea, hip-hop no desanda porque tem idia forte. (...) Skate, rap,
um garrafo de vinho para esses manos, com a mina eles
amanhecem em grande estilo, o que aquilo? , aquele cara est
chegando, o Fernando, olha s que pinta de malandro, Nike
Jordan no p, na cabea o bon e ta mascando chicl (...) Na

139

Ver discusso sobre cruzamentos no ensaio Futuro do Pretrito: um aniversrio bem festejado.
Ver discusso sobre fronteira e entre-lugares mais frente.
141
E para o caso especfico de Cricima, bom que se diga, j que estamos sempre no mbito das diferenas, a
ausncia de negros no grupo de capoeira (apontada por Cristiane Berg em seu depoimento), ao que tudo indica,
se conecta a vrias implicaes, ramificaes de um grande rizoma. Contudo possvel inferir que ainda existe
uma preocupao maior de alguns negros da cidade (e no afro-descendentes, como insiste parte de um
multiculturalismo contemporneo) com a idia de preservao de razes. Tendo em vista que a capoeira
contempornea se embranqueceu, esta seria na visada negra, uma atitude de resistncia. Alm disto, como se
sabe e no se precisa ficar apresentando dados, boa parte da populao negra continua ainda inserida em
processos de excluso a aviltamento da prpria vida. Sendo assim, uma parte considervel de jovens negros, que
poderiam estar participando do grupo de capoeira citado, no o fazem pela falta de dinheiro (afinal, 20,00 reais
so, infelizmente, quase dez por cento de um salrio mnimo atualmente 2003- ) ou ainda porque trabalham
em empresas setor de servios por exemplo nas quais os horrios de seus turnos os impedem de participao
no grupo de capoeira.
142
Idia Forte ttulo de uma das msicas do primeiro CD produzido pelo Grupo Ato Consciente.
140

94

Cesaca o que rola, os parceiro to ligado se chover embaado,


outro dia estava l no terminal central(...) t chegando o
amarelinho quem ta dentro o povinho (...)143

O rapper fala da cidade de dentro dela144. A linguagem e as letras instauram


diferenas. O Clube Operria145, um dos territrios negros da cidade, ganha voz. Na Cesaca,
antiga fbrica da cidade, posteriormente transformada em pavilho onde se realizaram duas
das quinze Quermesses, como vimos, h o encontro, e rola o som. O territrio assim
mesmo, ao ar livre e na rua quase sempre, por isto, se chover fica embaado. No trnsito
vai chegando o amarelinho, o nibus de linha circular da cidade, que pode levar todos Zona
Sul, onde no diferente, o som rola e o bicho pega. Esta a territorializao local.
Contudo, h tambm, e as msicas permitem identificar isto, os territrios que se deixam
atravessar por outras manifestaes. O prprio Rap do Ato Consciente muito resultado
disto. As referncias iniciais do rap foram forjadas em territrios negros americanos, ainda
em fins da dcada de 1960. O Ato Consciente deixa claro alguns cones da expresso rapper
americana: Nike Jordan no p, na cabea o bon. Mais que isto, o Rap na cidade acaba

143

Esta citao recupera trechos de algumas msicas do Grupo Ato Consciente, sendo elas: Idia Forte; Z
Povinho; . O CD lanado pelo grupo foi uma produo caseira. Segundo Willian, um dos integrantes do Grupo,
muito caro fazer um CD registrado, e conseguir uma gravadora, ento, quase impossvel. J passamos
dificuldade para fazer a msica tocar nas emissoras de rdio da cidade, coisa que ainda no conseguimos. O
recurso foi gravar na casa de um amigo, no computador que ele tinha. Para as vendas a gente acertou com um
comerciante da cidade. Ele d o material, os cds no caso, e faz capas e tal. O Cd pirata claro. Mas foi o
jeito. Dividimos o lucro meio a meio com comerciante. Vendemos j umas 250 cpias desta forma. Tambm
vendemos cpias do cd nos shows que a gente faz pela cidade. In: depoimento concedido a mim na cidade de
Cricima, por Willian Santiago Bernardo, em 05/09/2003.
144
Um leitura muito interessante sobre isto pode ser encontrada em: ORLANDI, Eni P. Tralhas e Troos: o
Flagrante Urbano. In: ORLANDI, Eni Puccinelli. Cidade atravessada: os sentidos pblicos no espao urbano.
Campinas, Pontes, 2001, pgs. 9-24. Ver tambm na mesma obra, os sentidos pblicos no espao urbano
discutidos por Pedro de Souza (Espaos interditados e efeitos-sujeito na cidade) e Sueli Rolnik (novas figuras do
Caos: mutaes da subjetividade contempornea).
145
Clube Unio Operria, instalado na cidade desde 1937, foi desde sua fundao, um territrio negro. Mais
que isto, fez frente a outros territrios, a exemplo daquele forjado pelo Clube Unio Mineira (criado em 1935),
onde at fins da dcada de 1960, negro no entrava. A relao entre estes dois clubes sempre foi muito tensa.
Conversando com vrias pessoas do Bairro Santa Brbara, no negras, foi possvel perceber a indiferena destas
com a participao do Unio Operria na construo social do bairro. Quando da realizao da festa de Santa
Brbara (que ocorre de forma intermitente h mais de 80 anos), havia sempre no sbado noite, um baile festivo

95

contribuindo para ampliar a visibilidade e a discusso pblica de uma srie de tenses vividas
no apenas pelos negros, mas por boa parte das pessoas que vivem em territrios onde a falta
de perspectivas uma constante. Ao falar de emprego, violncia, diverso e outros tantos
temas, o Ato Consciente mostra que, como diz uma das suas msicas, malandragem de
verdade viver146. As apresentaes do grupo acontecem em muitos lugares da cidade:
Boates, Bairros da Periferia, no Calado da Praa Nereu Ramos, na Quermesse: Tradio e
Cultura147 e, apesar do protesto de alguns148, em Shopping Centers tambm.
Tendo em vista o que foi dito, se tivermos em mente os sons e os territrios hoje
vividos em Cricima, fica mais claro a visualizao da dinmica contempornea vivida. A
Praa Nereu Ramos, territrio inicial da quermesse, est repleta destas referncias. Continua
sendo o lugar de protestos, mas tambm de exibies, feirinhas, msicas, placas,
monumentos, shopping e outras tantas possibilidades, que fazem fragilizar a idia de que
exista algo de prprio nos lugares. Mais que um Centro Histrico ela hoje um grande
Parque Temtico, sim pois de se pensar a quem interessaria transformar a cidade, em sua

no Unio Operria. Incomodou-me muito o fato de boa parte das pessoas com quem conversei, desconhecer ou
simplesmente esquecer o evento que acontecia e ainda acontece.
146
Malandragem de verdade, msica do CD Dia a Dia em Cricima do Grupo Ato Consciente.
147
Neste sentido muito interessante perceber como visto manifestaes como o Rap e a Dana de Rua por
parte dos idealizadores da Festa. Como j comentei, em maro de 2003 fui convidado participar do Seminrio de
Festas Populares, organizado pela Fundao Cultural de Cricima. Quando se falou da abertura maior que
deveria ser dada a outras manifestaes que no apenas s tnicas, e citada nominalmente e Dana de Rua, um
dos membros presentes reunio de imediato falou: se ampliarmos desta forma, vamos gastar muito com
segurana, pois sabemos como se do estas danas e quem as faz. Expresso possvel para aqueles que
acreditam que a violncia se encontra circunscrita apenas a determinados territrios.
148
O prprio Willian relata que h resistncia de algumas pessoas que participam do Rap em Cricima, em
freqentar Shopping Center. Diz Willian: Eu acredito que nada tem de ruim irmos ao Shopping. Eu gosto do
ambiente, acho pessoas legais por l e tambm um grande ponto de encontro da cidade. No adianta ficar
fazendo s estilo e cara de mau. In: Willian Santiago Bernardo. Willian me pareceu uma destas pessoas
traduzidas que tento discutir mais frente. Morador do Bairro Pio Corra durante toda sua infncia, teve
contato desde cedo com pessoas de classe mdia alta. Sua famlia, era uma das poucas negras e de classe mdia
baixa no Pio Corra. No colgio (pblico) que estudou tomou contato com pessoas de outras regies da cidade e,
muito cedo comeou a freqentar a periferia de Cricima. Interessou-se por dana de rua, e entrou para um
grupo junto a amigos da Vila Zuleima. H cerca de quatro anos deixou a dana e criou um Grupo Ato
Consciente.

96

dinmica atual, num grande museu, ainda que de novidades149? Mais que um centro a ditar o
urbano e construir territrios, existe hoje a ex-centro-cidade, categoria que recentemente
reivindicou para si, em campanha publicitria, um Distrito de Cricima: Rio Maina, aqui
minha cidade150.
Assim, territrios tnicos, comunicacionais, gastronmicos151, se cruzam e
constroem sentidos. Isto implica em reconhecermos a necessidade de um cuidado maior entre
o global e o local, bem como com as diferenciaes produzidas nesta articulao. Como
mostra Stuart Hall, a globalizao de fato explora a diferenciao local. Desta Maneira. Ao
invs de pensar na substituio do global pelo local, seria mais cuidadoso pensar em uma
nova articulao entre global e local152. Cricima uma cidade que tem pouco mais de trs

149

Estou me referindo a possibilidade quase sacra de consagrar aos lugares uma estabilidade. Em frente Praa
Nereu se instalou em novembro de 2000 uma placa em bronze para fixar naquele lugar a idia de um duplo. Mas
no o duplo que tem no Outro seu encontro, e sim o duplo que tem em si mesmo a referncia. Estou falando da
placa comemorativa do Gemellaggio. Para isto ver discusso mais frente. Quanto a idia transformar cidade
num grande museu , ver desenvolvimento melhor em: Aug, Marc. No Lugares: introduo a uma antropologia
da supermodernidade. Traduo de Maria Lcia Pereira. Campinas: Papirus, 1994. Alis, entre as concepes de
lugares que tento discutir aqui, a mais radical me parece ter sido iniciada por Marc Aug que assume a idia de
uma supermodernidade e de no-lugares. Contudo, apesar de sedutora, tal perspectiva se constri sob fraca ou
nenhuma preocupao com diferenas ou mesmo a dimenso de poder que, de formas distintas, se tenta impelir
a um lugar.
150
Campanha publicitria iniciada em maro de 2003, pelos comerciantes do Rio Maina, prontamente apoiada
pela populao local. A campanha ainda vem acontecendo (novembro de 2003) e comerciantes junto ao CDL
local distribuem camisetas, folders e outros brindes pelo Distrito, especialmente, claro, em suas reas mais
carentes. Nestor Garcia Canclini fala desta relativa independncia que Bairros e Distritos tem alcanado nas
cidades contemporneas, provocada pelo desenvolvimento mais adequado e prximo do comrcios, dos
ambulatrios mdicos e outras produes. Para isto ver: CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e cidados:
conflitos multiculturais da globalizao. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. No caso especfico do Rio Maina, com
informao ltima mesmo (obtive pouco antes da impresso final desta tese), fica anotado que foi criado um site
por moradores do citado Distrito, onde seus organizadores se mostram contra ao processo de emancipao que
algumas pessoas iniciam novamente (j houve duas tentativas, uma na dcada de 1960, e outra na dcada de
1990). O processo de emancipao de Rio Maina visto pela maior parte do distrito ( segundo o resultado dos
plebiscitos), como de interesse quase exclusivo dos comerciantes do local. O endereo do site, por si, j indica o
desejo de fazer parte da cidade: [Link] (capturado em novembro de 2003).
151
A gastronomia foi, desde cedo, uma grande especialidade vendida nas Quermesses realizadas na cidade.
Entre quase uma centena de referncias que tenho coletadas quanto ao aspecto gastronmico, algumas citadas
nesta tese, deixo aqui uma em especial que chama ateno pelo carter do pioneirismo ainda vivo entre parcela
da populao criciumense: Solicitamos barraca para a quermesse em nome do Coral Infantil Rouxinis de Rio
Maina, para que nela possamos comercializar asada de frango, prato o qual Cricima pioneira In: Documento
encaminhado a Comisso Organizadora de III Quemesse: Tradio e Cultura (1991) assinado por Sueli Ronchi,
disposta na pasta nmero 85 no Arquivo Pblico Municipal de Cricima.
152
HALL, Stuart. A questo da identidade cultural. Traduo de Andra Borghi Moreira Jacinto e Simone
Miziara Frangella. Campinas: IFCH / Unicamp, n. 18, dez de 1995, p. 61.

97

dezenas de bairros, vista como capital do carvo, terra das etnias, capital do azulejo, terra
da emigrao, ou atributos outros que possam ser aventados,

onde os lugares e

circunstncias se constituem em imbricadas manifestaes hbridas153 que nada tm de


serenas e tranqilas, como vimos.

Entre lugares:
Uma cidade hbrida e fraturada em sentidos, construda sobre referenciais diversos,
um lugar onde fronteiras, territrios, identificaes, diferenas, etnizao, globalismo, so
vividos e experimentados. neste sentido que se pode ver os fenmenos contemporneos
inscritos em Cricima. O pensamento de que as culturas podem ainda formar um conjunto
distinto de referncias inscrustado em objetos ou espaos da mesma forma distintos, fenece
frente aos lugares ou territrios ocupados por mulheres e homens, habitantes das fronteiras
contemporneas. O nomadismo154 contemporneo, o nem l nem c, produz deslocamentos
em quase todas as aes culturais e sociais. Os trabalhadores nmades, furadores de
fronteiras, que passam parte do ano como sorveteiros na Alemanha, colhendo uvas na Itlia
ou ainda sendo Valet Park num hotel de luxo em Miami, podem tambm passar parte do
mesmo ano em suas casas nativas, mas sero ainda assim, estrangeiros em casa155. esta

153

A idia de hibridismo no elimina a problemtica dos lugares. O contrrio, a polemiza ainda mais. O texto
hoje clssico de Pierre Nora fala disto: Lugares portanto, mas lugares mistos, hbridos e mutantes, intimamente
enlaados de vida e morte de tempo e eternidade; numa espiral do coletivo e do individual, do prosaico e do
sagrado, do imvel e do mvel. In: NORA, Pierre. Entre Memria e Histria: a problemtica dos lugares.
Traduo de Yara Aun Khoury. In: Projeto Histria. So Paulo, (10), dez. 1993, p.22.
154
Nomadismo aqui referenciado como uma ao de trnsito e desterritorializao cultural. Em abordagem
distintas, esta perspectiva pode ser encontrada nas obras, por exemplo, de Gilles Deleuze e Michel Maffesoli.
155

As funes citadas so apenas ilustraes das inmeras atividades exercidas pelos emigrados criciumenses
nos pases para aonde se dirigem. Durante minha pesquisa tive oportunidade de conversar com pessoas que hoje
vivem neste trnsito contnuo. Na maioria dos casos que tive contato, a ambigidade presente na experincia
transitria, que faz estas pessoas encarnarem a desterritorializao cultural, voluntariamente era mencionada.
Lutam para carregar sua manifestao cultural para onde se destinam, bem como trazem, no retorno casa,
incomodaes desconfortveis quanto as referncias que eles mesmos tinham como tranqilas. No podem,

98

cultura inter-nacional, que tem bases no no exotismo do multiculturalismo ou na


diversidade de culturas, mas na inscrio e articulao do hibridismo da cultura156. Nesta
dimenso, Bhabha lembra que o fio cortante da traduo e da negociao: o entre lugar,
que carrega o fardo do significado de cultura, o espao praticado onde temos a possibilidade
de evitar a poltica da polaridade e emergir como os outros de ns mesmos157. Portanto, ao
falar da cidade contempornea e das relaes nela empreendidas, como me parece ser a
configurao inscrita em Cricima, no poderamos calar a fala sobre fronteira e hibridismo e,
a perfomatividade de suas enunciaes.
Sendo assim, falemos da cidade das pedras. Em 1999, Cricima ganhava destaque
na imprensa nacional, em reportagem que a apresentava como a nova Governador
Valadares158. A notcia tentava comparar a evaso de parcela considervel da populao
daquela cidade em direo aos Estados Unidos, j bastante conhecida no Brasil, com a

assim, afirmar seguramente se ficam ou se voltam, e se lanam ento ao trnsito. Falando sobre processos de
emigrao, Hans Magnus Enzenberger j disse que: Uma proporo considervel da humanidade sempre esteve
em movimento, migrando ou fugindo pelas razes mais diversas, de maneira pacfica ou violenta uma
circulao que s pode levar a uma turbulncia perptua. Trata-se de um processo catico, que frustra qualquer
tentativa de planejamento ou at mesmo de previso a longo prazo. In: ENZENSBERGER, Hans Magnus. A
Grande Migrao: trinta e trs letreiros de sinalizao seguidos de uma nota a respeito de certas
peculiaridades da caada humana. In: Op. Cit. Guerra Civil. So Paulo: Cia. das Letras, 1995, p.98. Idia
semelhante a respeito do nomadismo pode ser encontrada tambm em: MAFFESOLI, Michel. Sobre o
nomadismo: vagabundagens ps-modernas. Traduo de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 2001.
156

BHABHA, Homi K. Op. Cit., p. 69. Gostaria deixar claro que o trabalho com o hibridismo, apesar de sedutor,
tem suas implicaes e, mesmo, muitas limitaes. H que se pensar a forma hbrida a qual nos referimos
quando nos inserimos neste tipo de abordagem. Em minha limitada compreenso, acredito que exista um
trabalho ainda a ser feito que contemple, de forma inclusiva, posturas distintas do hibridismo. Por um lado existe
a possibilidade hbrida do estar junto, da mistura de referncias e at mesmo da chamada sociedade do
espetculo, do qual, as expresses maiores que dispomos parecem ser: Masssimo Canevacci, Nestor Garcia
Canclini e Michel Maffesoli. Por outro, existe um hibridismo que tem uma preocupao maior com a dimenso
do poltico e de suas inmeras manifestaes e negociaes, sendo em minha visada, Homi K. Bhabha seu
articulador primeiro. Ainda neste sentido, segundo minha compreenso e aps inmeras discusses com
professores amigos, mantenho a opinio de que so formas distintas, complementares e no excludentes de se
falar do viver contemporneo e, justa esta dimenso que tento nesta tese deixar marcada.

157

Vejamos que esta uma postura totalmente distinta de enxergar o inter-nacional, por muito tempo e talvez,
por muitos ainda, vista como mera ou redutora forma de um imperialismo onipresente. Idem, p. 69.

158

REVISTA VEJA. So Paulo: Editora Abril, 06 de outubro de 1999, p.128-9. Quanto situao de
Governador Valadares ver reflexo consistente realizada por: MARTES, Ana Cristina Braga. Brasileiros nos
Estados Unidos: um estudo sobre imigrantes em Massachusetts. So Paulo: Paz e Terra, 1999.

99

experincia vivida nos ltimos anos em Cricima. O nmero de criciumenses que se dirige
para os Estados Unidos em busca de trabalho aumenta a cada ano, fazendo com que a cidade
hoje (2003), seja uma referncia nacional em exportao de mo de obra para a Amrica do
Norte159 e Europa (principalmente Itlia, Portugal e Inglaterra).
Esta dispora, para alm das alteraes nas vidas daqueles que nela se lanam,
acaba promovendo tambm uma srie mudanas na cidade que fica. As motivaes para a
emigrao so inmeras, mesmo que quase sempre sejam apresentadas de forma simples:
busca pela sobrevivncia ou ainda vantajosos alcances financeiros. Alm disto, se pode dizer
que h uma inverso da antiga expresso do fazer a Amrica, antes sonhada pelos
imigrantes italianos que chegavam na cidade ainda no sculo XIX, pois o jogo do trnsito est
colocado. O romper fronteiras, agora, enuncia o fazer a Amrica como obra de emigrantes,
os colocando, nesta forma, na ordem dos dias.
Na dcada de 1990 se acentua a emigrao de criciumenses para os Estados
Unidos e Itlia e, ao que se pode perceber, se mantendo as implicaes locais que sero
discutidas a seguir, o fenmeno pouco se distancia de outras tantas trajetrias encontradas nas

159

O nmero de criciumense que emigram vem aumentando desde fins da dcada de 1980, com crescimento
considervel na dcada de 1990. virtualmente impossvel, atualmente (2003), se alcanar um nmero preciso
de emigrantes criciumenses nos Estados Unidos. Em reportagem de um jornal local se pode encontrar que: 25
mil pessoas da regio carbonfera trabalham nos Estados Unidos. In: Jornal da Manh. Cricima, 31/08/2002,
p. 5. Em entrevista concedida a mim na cidade de Cricima, em 06/06/2002, Eduardo Mondardo, conhecido
como Duda, proprietrio de uma das maiores imobilirias do municpio (Duda Imveis) afirma que
seguramente hoje existem mais de trinta mil criciumenses trabalhando nos Estados Unidos. Por seu turno,
Amilton Rocha, empresrio do setor metalrgico e, pelo que consegui levantar, um dos primeiros da regio a
viajar para Os Estados Unidos com a idia de intercmbio e tambm de trabalho, ainda em 1968, diz: acredito
que mais de vinte mil criciumenses estejam atualmente nos Estados Unidos. In: Entrevista concedida a mim na
cidade de Cricima, em 21/06/2000. Um estudo mais consistente sobre estes dados vem sendo elaborado
atualmente por Glucia O. Assis, que realiza uma tese de doutoramento sobre os emigrantes Criciumenses que
esto nos Estados Unidos. Segundo Glucia O. Assis, cerca de 3,2 % da populao criciumense emigrou para os
Estados Unidos. O nmero mais significativo quando cotejado a mdia nacional das cidades que de apenas
1%. Isto leva a pensar que, dado a populao de 180 mil habitantes em 2003 (ver dados na introduo desta
tese), seguramente, no mnimo seis mil pessoas da cidade de Cricima hoje (2003) estejam trabalhando nos
Estados Unidos. Estamos ento falando de uma cultura da emigrao que se vislumbra em Cricima. Ver ainda,
sobre os dados comentados: ASSIS, G. O. " De Cricima para o mundo": gnero, famlia e migrao. Campos

100

migraes internacionais: formao de redes160 (legais ou ilegais) que do conta de oferecer


servios desqualificados para o emigrante, a pretenso de ganhar dinheiro ou mesmo, numa
perspectiva mais ampla, a necessidade de se sentir cidado161.
Os emigrantes criciumenses, atualmente(2003),

tem colaborado de modo

significativo para alterao da realidade social vivida em Cricima. A especificidade local


flagrante. Filas enormes nas reparties de agncias bancrias destinadas ao cmbio, anncios
publicitrios dispersos ao longo de ruas e avenidas da cidade, oferecendo servios de
postagem, envio e recebimento de mercadorias e investimentos, o crescimento do setor de
servios e a notvel exploso setor imobilirio e da construo civil, so exemplos destas
alteraes. Em abril de 2000, o Jornal da Manh produziu durante todo o ms, uma srie de
reportagens sobre os emigrados, quase sempre na tentativa de aproximar e estabelecer
vnculos entre criciumenses emigrantes e seus familiares e amigos que se encontram em
Cricima. Nestas matrias se pode perceber como empresas diversas, especialmente do setor
imobilirio, se integram ao fenmeno da emigrao162. Sobre este aspecto, a fala de um dos
lderes do mercado imobilirio em Cricima contundente:

Revista de Antropologia Social. Edio Especial IV Reunio de Antropologia do Mercosul. Curitiba. UFPR, n.
03 ano 2003, p.31-51.
160

A idia de rede social e cultural j h algumas dcadas vem sendo estudada. Destaque seja dado a Barnes que
inicia a anlise a partir de processos e no da idia fixa de comunidade, isto ainda na dcada de 1960. Em
Cricima, as redes que trazem e levam emigrados, se constroem a partir de necessidades bsicas iniciais:
obteno de visto de entrada, arranjo de emprego e moradia, etc.

161

A idia de cidadania sempre cogitada quando da explicao do crescente nmero de pessoas que se
destinam aventura da emigrao, especialmente a ilegal, pois, geralmente neste caso, o nmero maior de
pessoas se constitui de mulheres e homens que, em suas cidades e pases, quase sempre esto colocados em
situao social onde o pleno exerccio da cidadania inviabilizado.

162

Os exemplos, colocados nos encartes dedicados emigrao, so muitos. Deixo anotado alguns: "Saudades
parte, morar nos Estados Unidos sinnimo de investir em negcios aqui. (Construtora Fontana), Jornal da
Manh, 19/04/2000, p.8.; "Imvel. A melhor maneira de transformar dlares em bons negcios aqui.
(Construtora Fontana)", Jornal da Manh, 11/04/2000, p.11; A realidade azul e vermelho. O sonho verde e
amarelo (Construtora Fontana) Jornal da Manh, 12/04/2000, p.18 . Em todas as matrias h o logotipo da
imobiliria Duda Imveis, uma das maiores e mais antigas da cidade. O apoio miditico no se faz presente
apenas na imprensa escrita. A Rdio Eldorado de Cricima tem um programa semanal onde durante uma hora as
pessoas conversam com seus familiares, mandam recados, etc. Recentemente, entrou no ar, no sistema de tv por

101

Em dados se pode dizer que mais de 30% do pipocar imobilirio da


cidade hoje fruto de poupana externa enviada por emigrantes que
esto nos USA. Isto certo.(...). um movimento que est apenas
comeando. irreversvel, continuo e permanente. Certamente este o
movimento que vai ser o grande fator de sustentao do setor
imobilirio.(...) O volume de dinheiro que entra na cidade bem maior
que este que conversamos. Existem pessoas que os pais no possuem
vdeo cassete, no tem telefone s vezes. A ajuda financeira que os
emigrantes mandam para estas pessoas grande. Planos de sade,
eletrodomsticos, etc. (...) Hoje eu diria que Cricima a cidade mais
internacional do Brasil. Diferente de Valadares, tem criciumenses hoje
na Alemanha, Itlia, Portugal, Espanha, Inglaterra. A maior parte deles
na faixa dos 18-35 anos. Estas pessoas no so gente do centro. gente
que no saa em coluna social. Pessoas do Pinheirinho, Prspera, Rio
Maina, da periferia. Estas pessoas viram que no tinham muitas
oportunidades aqui, de classe mdia baixa em sua maioria. L so bem
sucedidas. E aqui conquistam as colunas sociais163.

certo que a maior parte dos emigrantes pensa em conquistar algum ganho
financeiro e retornar para a cidade. Mas tambm vem crescendo o nmero de pessoas que
desejam morar em definitivo nos pases para os quais se destinam, especialmente os Estados
Unidos. Massachusetts o Estado americano preferido pelos criciumenses. Em Boston e
imediaes, os criciumenses acabam conseguindo trabalho e moradia. Colocados numa
situao financeira mais confortvel que seus parentes em Cricima, os emigrados acabam
por enviar dinheiro para a cidade, promovendo o fenmeno da dolarizao da economia. Mais
que isto, como bem aponta Eduardo Mondardo, a maior parte dos emigrados se constitui de

assinatura em canal local, um programa semanal de uma hora de durao produzido com os emigrados
criciumenses nos Estados Unidos.
163

Depoimento concedido a mim por Eduardo Mondardo, empresrio do setor imobilirio da cidade, na cidade
de Cricima, em 06/06/2002. Eduardo Mondardo se apresentou como algum que viu Cricima se
transformar. Os dados que obtive junto ao entrevistado so realmente muito expressivos. Segundo Eduardo,
em planilha enviada pelo sindicato dos imobilirios de Cricima, em 1999 foram autorizados a construo de 90
mil metros quadrados de rea na cidade, aumentando em 2000 para 130 mil, em 2001 para 200 mil, em 2002
para 400 mil metros quadrados de rea construda ou em construo. Isto gera um montante aproximado de 120
milhes de reais em quatro anos, numa mdia de 2,5 milhes de reais por ms que entram na cidade somente no
setor imobilirio. Isto deve dar uma idia do que vem acontecendo com a formulao espacial da cidade.
Comparada economia carbonfera, que produz cerca de 250 mil toneladas ms na regio, e que no tem mais
nenhuma mineradora na cidade de Cricima, se pode afirmar que 30% do que o carvo gera em toda a regio sul,
so alcanados pelo setor imobilirio apenas da cidade de Cricima. Em rea construda e em construo,
Cricima ultrapassada apenas por Florianpolis e balnerio Cambori, ficando frente de cidades maiores
dispostas no Estado, a exemplo de Blumenau e Joinville.

102

pessoas economicamente ativas, quase sempre ex-moradores da periferia de Cricima164.


Pessoas inseridas nos interstcios da cultura, habitantes dos entre-lugares. Ainda neste sentido,
e percebendo as negociaes que so engendradas em Cricima, muito interessante perceber
o desconforto que isto vem causando na chamada elite estabelecida, que no reconhece
mais boa parte das pessoas que agora freqentam as colunas sociais da cidade165. A cidade
agora de mais pessoas166.
Foi com a inteno de aproximar pessoas, gerar empregos e solidificar negcios,
que em 2002 o poder pblico municipal volta suas atenes para os emigrados. Junto a um
grupo de empresrios, o prefeito Dcio Ges, autorizado pela Cmara de Vereadores, realiza
uma visita de cinco dias populao de emigrados criciumenses nos Estados Unidos. Alm da
visita duas imobilirias167 de Cricima estabelecidas em Somerville, cidade prxima a

164

Embora seja certo que crescente o nmero de pessoas de classe mdia alta e alta que esto emigrando para
os Estados Unidos em busca de oportunidades.

165

Os exemplos so inmeros, mas deixo aqui a experincia do casal Rocha. Santos e Incia Rocha so pais de
trs filhos, todos trabalhando nos Estados Unidos. Dois deles, Fernando e Marcelo, formaram durante algum
tempo, uma dupla sertaneja de mesmo nome, inclusive com apresentaes na Quermesse: Tradio e Cultura.
Santos e Incia so moradores do Bairro Pinheirinho (Jardim Anglica). Alm da situao mais confortvel que
agora possuem, tm orgulho de ver os nomes de seus filhos saindo nos jornais da cidade, quando estes noticiam
eventos onde a band@.com se apresenta nos Estados Unidos, quase sempre para a comunidade de
brasileiros que l se encontra. In: Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima, em 12/04/2002.

166

Sobre isto os indcios so muitos. Os depoimentos coletados por mim apontam para o fato de que hoje (2003),
a cidade tem seus horizontes ampliados e o futuro est aberto. O prprio Eduardo Mondardo, j citado, afina seu
discurso com o jornalista Adelor Lessa, que diz: houve um tempo em que esta cidade pertencia a seis ou sete
famlias. Hoje, felizmente ela de muito mais pessoas. A emigrao colabora para isto. In: Depoimento
concedido a mim na cidade de Cricima, em 27/04/2001.

167

Imobilirias Pr- Casa e Bem Morar, ambas estabelecidas na cidade de Somerville, proximidades de Boston.
A Pr-Casa de propriedade de Odenir de Souza, que tambm se integrou no grupo que visitou os EUA junto
ao prefeito. Faz aproximadamente trs anos que a PrCasa estabeleceu escritrio em Somerville. Segundo o
prprio Odenir, as oportunidades americanas eram muitas e ele no poderia perd-las. Contratou um americano
para dar legalidade a empresa, e est fazendo acontecer. In: Depoimento concedido a mim, na cidade de
Cricma, em 14/10/2003. Antes do estabelecimento de empresas criciumenses em Somerville, j se tinha a
prtica comum de enviar corretores para os Estados Unidos, na inteno de vender imveis aos criciumenses
emigrados. Existem representantes do setor imobilirio de Cricima residindo em Boston, com o objetivo de l
mesmo efetuarem suas vendas. H inclusive lanamentos imobilirios em Cricima que so vendidos
exclusivamente para migrantes residentes na regio de Boston. A construtora Damiani, de Cricima, lanou
neste ano (2003) um empreendimento como nome de Somerville. Finalizando estes exemplos, as ltimas
unidades do edifcio Millenium, imponente obra construda pela Fontana no centro da cidade, foram negociadas
nos Estados Unidos. Ver: Jornal Tribuna do Dia. Cricima: Tribuna do dia, 03/09/2002, p.12. Eduardo
Mondardo, que se preparara para tambm abrir uma filial da Duda imveis em Somerville, diz que no quer

103

Boston, o prefeito almoou em restaurantes brasileiros, visitou universidades, museus e


igrejas e participou de um programa de rdio transmitido ao vivo. Tambm promoveu uma
palestra para os brasileiros que esto nos Estados Unidos. Teve ainda um encontro com a
prefeita de Somerville, Dorothy Kelly Gay, e com o embaixador brasileiro nos estados
Unidos, Mauricio Crtes. O que em realidade se mostrou viva nesta viagem foi a idia de
mover negcios e pessoas, para levar Cricima mais investimentos. Para isto, o prefeito
manifestou interesse em abrir uma espcie de escritrio representante de Cricima na cidade
de Somerville168.
Entre os encontros citados, dois chamam ateno. O primeiro com a prefeita e o
segundo com o embaixador. No primeiro, Dcio Ges ouviu de Dorothy Kelly Gay o desejo
desta em conseguir os votos dos criciumenses para sua nova candidatura.169. No segundo, com
o embaixador, aps uma explanao sobre o fenmeno de emigrao brasileira, no qual
Cricima agora vem se inserindo, o prefeito ouviu e tambm manifestou interesse em
formular o projeto para que Cricima seja transformada em cidade co-irm de Somerville,
cidade com grande nmero emigrados criciumenses.
Esta idia de formar parceria foi inicialmente utilizada pela chamada
comunidade italiana170 de Cricima, em 2000, quando criada atravs de decreto

perder espao em Cricima: alguns empresrios no mpeto de abrir negcios nos Estados Unidos acabam
perdendo fora aqui na cidade, e isto eu no quero. In: Depoimento j citado.
168

A idia partiu do conhecimento que teve o prefeito de algo semelhante criado pela prefeitura de Governador
Valadares (MG). O escritrio da prefeitura de Valadares oferece apoio e assistncia (na medida do possvel) e
orientao. In: Tribuna do Dia. Cricima: Tribuna do Dia, 20/08/2002, p. 7.

169

Em realidade, a prefeita recebeu o prefeito junto aos empresrios, e aps exposies sobre a estrutura
educacional americana e as vantagens econmicas que podem ser alcanadas nas negociaes entre o Brasil e os
EUA, a prefeita ento tentou mostrar alguns laos que podem ser apertados entre as cidades de Somerville e
Cricima. Para isto ver tambm: Jornal da Manh. Cricima: Jornal da Manh, 05/09/2002, p.5.

170

Comunidade esta formada pelos descendentes de italianos em Cricima. Contudo, a idia de comunidade para
anlise da formao de grupos que reivindicam o carter tnico italiano e o alcance das benesses que isto
possibilita: negcios, intercmbios comerciais, industriais e culturais, ainda uma forma no mnimo ingnua ou
romntica de se definir aes que nada tem de tranqilas ou seguras. A prpria constituio destes grupos se d

104

municipal171, a constituio do Gemellaggio172 entre os municpios de Cricima e Vittorio


Veneto na Itlia. Aes deste tipo podem produzir pensamentos como o de Eduardo
Mondardo, quando diz que Cricima hoje a cidade mais internacional do pas, conforme
visto.
Nesta dimenso, voltando ao trnsito de pessoas e tambm a necessidade de se
atravessar fronteiras, interessante perceber que mesmo um grupo visto como bem
estabelecido, como parece ser o caso daquele formado pelos descendentes de italianos,
buscam agora outros caminhos, que para alm do aspecto do enraizamento cultural e a
constante busca pela origens, instala outras discusses, tais como a aquisio de dupla
cidadania. Sobre isto, crescente na cidade o nmero de descendentes de italianos que, uma
vez tendo conquistado o passaporte rosso, se dirigem para os Estados Unidos e no para a
Itlia. o caso de Edson Zanette, quando afirma que:(seu) acesso aos USA facilitado pelo
passaporte italiano173.
Assim, mesmo a aquisio de cidadania italiana, que, numa leitura mais rpida,
poderia ser vista como simples tentativa de recuperao de sentimentos que se diluem mais e
mais a cada dia, deslocada para outros sentidos. No caso especfico dos descendentes de

num processo bastante intricado de relaes de foras e jogos polticos que nada tm de ingnuos. A comear
pela prpria formao dos grupos, diferenciada em sua origem: Vnetos, Bergamascos, Trentinos, entre outros.
171

Ver Lei Municipal assinada pelo prefeito Paulo Meller, Nmero 4.094, de 01/12/2000. A mesma lei foi
sancionada a partir de um projeto de lei de iniciativa do Legislativo Municipal. Ver: Projeto de Lei nmero
064/2000, de 28/11/2000.

172

O Gemellaggio vem sendo uma das formas, pela qual, os grupos formados por descendentes de italianos
implementam aproximaes com cidades reconhecidas como territrio inicial de seus familiares na Itlia. Para
um estudo mais elaborado sobre a constituio de Gemellaggios, ver: SAVOLDI, Adiles. O caminho inverso: a
trajetria de descendentes de imigrantes italianos em busca da dupla cidadania. Florianpolis: UFSC, 1998.
Dissertao de Mestrado.

173

Jornal da Manh. Cricima: Jornal da manh, 14/04/200, p.5. Evidente que na ao descrita continua
relevante a idia de nao. Aquilo que Ernest Renan (Op. Cit., 1947) chamou de plebiscito dirio, e para o qual
se teria sempre que retornar, composto por implicaes objetivas certamente: a marca divisria que separa
pases, bem como pelas subjetividades postas nos grupos que a constroem. Homi K. Bhabha interroga: O

105

italianos, outros estmulos so vislumbrados e, se encontram conectados configuraes mais


amplas, trans-nacionais, sendo a carncia de mo de obra na Itlia174, integrada Comunidade
Econmica Europia, um dos exemplos. No aspecto local, o estmulo tambm produzido
pelas inmeras associaes de tnicas criadas em Cricima a partir de 1988, quando fundada
a Associao talo Brasileira de Tradio e Cultura - AIBTC175. E ao que tudo indica, existe

desejo de ser nao circula na mesma temporalidade que o desejo do plebiscito dirio?. In: BHABHA, Homi. K.
[Link]., p. 225.
174

O que nos envia a uma discusso muito viva e recente que acontece atualmente na Itlia, trazida por extenso
para territrios outros onde por ventura tenham se estabelecidos italianos. O Ministrio Degli Italiani All
Estero no tem este o dado preciso de quantos iltalianos estariam fora da Itlia e com direito a dupla cidadania,
mas indica estimativas que ultrapassam em muito a populao da prpria Itlia. Contudo, italianos dos Estados
Unidos ou Austrlia, por exemplo, no esto conectados a esta possibilidade de dupla cidadania, tampouco de
um possvel retorno Itlia (exceto em alguns casos de aposentadoria ou mesmo turismo). A tenso maior gira
em torno do que se chama Terceiro Mundo, em pases como Brasil, Argentina e outros da frica, que
atualmente mantm um fluxo, apesar de inicial em muitos casos (Argentina por exemplo), indicando
crescimento. No menos importantes so as implicaes polticas inseridas nesta configurao. Desde de 1912 os
italianos podem ter dupla cidadania. O voto tambm possvel desde ento. H algum tempo vem se organizando
os Comites, uma espcie de parlamento no exterior, destinados a reconhecer e cadastrar italianos dispersos
pelo mundo. A partir deste Comites, os italianos mesmo fora da Itlia podero votar. Estes tero duas
possibilidades de voto. Uma optando pelo voto em candidatos circunscritos no exterior ou mesmo em
circunscrio italiana (lei n. 459, de 27 de dezembro de 2001, portanto, muito recente). Este voto ainda causa
polmica, j que diferente daquele possvel desde 1912, pois elege representantes no exterior (aquele elegia
representantes apenas na Itlia). A instituio deste Comites interessa diretamente questo brasileira, e por
extenso os descendentes de italianos dispersos em Santa Catarina, particularmente neste caso, os de Cricima.
As foras polticas que se compem a partir desta perspectiva so muito significativas. As alteraes no mbito
poltico se do, portanto, na Itlia e no Brasil. Em entrevista concedida a Alexandre Luciano Nassuti, o Cnsul
Mrio Trampetti diz no ver problemas diretos, j que vota quem quer, alm do mais os Comites decidem sobre
questes restritas. J o Vice Cnsul Ezio Librizzi, estabelecido em Florianpolis, na clssica viso liberal, pensa
que deveriam votar apenas quem pagasse imposto e morasse na Itlia. A opinio do Vice Cnsul parece no ser a
de maior potncia hoje. Para um acesso maior a estes dados e uma compreenso mais qualificada ver:
NASSUTI, Alexandre Luciano. Um trampolim para a Itlia: a busca da dupla cidadania pelos descendentes de
italianos em Florianpolis. Florianpolis: UDESC, 2003. Trabalho de Concluso de Curso. Por ltimo,
necessrio lembrar que os brasileiros tiveram reconhecido o direito a dupla cidadania apenas em 1994 (Reviso
de uma Emenda constitucional nmero 3, de 7/6/1994. Maiores informaes ver tambm: Revista/Jornal
Insieme, n. 38, fevereiro de 2002 (Curitiba), tambm a mesma Revista n. 44, agosto de 2002, bem como sua
seqncia mensal at o n. 55 de julho de 2003. Ainda sobre dupla cidadania ver: SAVOLDI, Adiles. O caminho
inverso: a trajetria de descendentes de imigrantes italianos em busca da dupla cidadania. Florianpolis: UFSC,
1998. Dissertao de Mestrado.

175

A AIBTC tem ata constitutiva data de 04/02/1988, em reunio na residncia do Sr. Joo Abel Benedet situada
no Balnerio Rinco, municpio de Iara, cidade vizinha de Cricima. Hoje a AIBTC serve de articuladora de
outras entidades criadas a partir dela e que tentam aproximar da Itlia seguindo uma regionalizao muito bem
marcada. Em entrevista concedida a mim na cidade de Cricima em 26/08/2001, o jornalista Nei Manique, 45
anos, vinculado a uma dessas associaes diz o seguinte: Antes, no final dos anos 80, ramos todos parte da
AIBTC. Com o tempo, investindo no resgate das nossas origens, passamos a compreender melhor o que era a
Itlia, uma imensa colcha de retalhos. O resgate a que me refiro nos endereou ao torro natal (Bergamo,
Treviso, Padova, Belluno etc). Retornei da Itlia no segundo semestre de 1990 com o firme propsito de reunir
os descendentes bellunenses (bellunesi, em italiano) e no ano seguinte fundamos a Associazione Bellunesi Nel
Mondo, que existe at hoje e presidida pelo empresrio Clsio Pavei. Com a fundao das associaes

106

uma tendncia de crescimento no nmero destas Associaes176. A etnizao cultural, neste


sentido tem uma forma muita mais aberta e atende um nmero maior de interesses. No
parece gratuito que uma das estudiosas sobre processos de emigrao para os Estados Unidos
tenha, inclusive, falado de uma etnia brasileira que participaria da construo tnica da
sociedade americana177.
Se falamos de diferenas seria ento producente deixar assinalado que, embora
no tenha sido possvel fazer um inventrio destas , contudo, vivel indicar que entre os
emigrados elas esto sempre colocadas, mesmo quando o jogo ainda no se iniciou, e a
Pretendida178 ainda um sonho. O crescente nmero de agncias de turismo179, escolas de
ingls, de italiano (quase sempre suportadas pelas entidades j citadas e com apoio da
prefeitura), bem como a neologia lingstica e corporal180 entre os habitantes de Cricima,
por certo esto relacionadas emergncia do novo e de como ele entra na cidade. Nas

trevisana, bergamasca e bellunese, a AIBTC passou a desempenhar um papel de entidade-me, representando


as demais nas relaes com a prefeitura.
176

Agradeo ao professor Jos Roberto Severino, que desenvolve tese de doutoramento estudando a participao
de entidades italianas na construo da italianidade, por muito gentilmente ter me fornecido a relao que agora
apresento, com siglas e data de criao em Cricima, respectivamente: Associazione Veneta 1990;
Associazione Trevisani Nel Mondo 1991; Associazione Bellunesi Nel Mondo 1991; Fescaib Federazione
Sud Catarinense Delle Associazione Ital - 1991; Societ Dei Discendenti Della; Famiglia Maccarini -1993;
Circolo Bergamasco Di Santa Catarina 1993; Ceclisc - 1996; Associazione Amici Di Forno Di Zoldo 1996.

177

Estou me referindo ao trabalho de Teresa Sales em: SALES, Teresa. Identidade tnica entre imigrantes
brasileiros na regio de Boston, EUA. In: REIS, Rossana Rocha; SALES, Teresa. Cenas do Brasil Migrante.
So Paulo: Boitempo, 1999. p. 17-44.

178

Aluso feita Fronteira utilizada por Marlow para mascarar a face cruel e mesmo demonaca da fronteira,
tomando ento o nome de uma mulher. Citado por Homi K. Bhabha em: Op. Cit., pgs-292-296.

179

No foi possvel levantar o nmero exato. Os dados destas agncias esto desorganizados e elas nem mesmo
possuem qualquer tipo de Associao. Na junta comercial de Cricima, o nmero de agncias com autorizao
(quatro em 1998) bem menor daquele encontrado na cidade, indicado inclusive no catlogo telefnico (27
apresentadas no catlogo telefnico de 2003). necessrio lembrar que algumas agncias so na verdade
fachadas de recrutamento de pessoas para trabalho ilegal nos Estados Unidos. Infelizmente no consegui
conversar com pessoas que assumissem ou permitissem citaes a respeito.

180

Afora toda a influncia inegvel que a cultura americana alcana hoje no mundo, posta atravs do cinema, da
msica, do consumo e outros, possvel enxergar como estas vem sendo negociadas e vividas entre os
criciumenses. O setor de servios parece ser o mais afetado. No comrcio local se inicia um processo de
reformulao e atendimento trazidos pelos ex-emigrados, agora de volta Cricima. As pizzarias da cidade so
exemplos disto. Quanto neologia ver discusso colocada no ensaio: Pequeno dicionrio Ilustrado de Aporias e
Sobejos verbete: Bisado, presente nesta tese.

107

conversas que tive com pessoas ligadas s escolas de ingls e nas agncias de turismo181, se
pode perceber como so vistos e tratados aqueles que de modo desesperado solicitam
informaes ou tentam arranjar um jeito n? de alcanar a Pretendida. Lembrando Homi
K. Bhabha, o que fazer neste mundo se ao mesmo tempo que sou uma soluo, tambm sou
um problema?182 Experincias postas em espaos no mapeados da paisagem urbana183
criciumense, alegorizadas na mdia e colocados como prmios na cidade184. Chegamos no
momento do alcance da fronteira. Aqui ela se mostra atravs da imagem.

Quiasmas contemporneos: fronteira e traduo

Imagem extrada do cartaz de divulgao do filme A fronteira, de Roberto Carminati.

181

Destaco duas: Entrevista concedida a mim na cidade de Cricima, em 18/07/2002, por Mirces Carminati,
scia proprietria de uma escola de ingls, e, Rosimari Lima Nunes, funcionria da agncia de turismo Ferrotur,
na cidade de Cricima em 15/07/2002.

182

BHABHA, Homi K. Op. Cit., p.124.


Existe um pequeno artigo de Felix Guatarri, onde a paisagem urbana discutida de modo a privilegiar
subjetividas e desafinaes do urbano contemporneo. Para isto ver: GUATARRI, Felix. A restaurao da
paisagem urbana. Traduo de Silvana Rubino. In: Revista do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional. n.
24. Brasilia: IPHAN, 1996, p. 293-300.
184
Na cidade muito comum enxergar o furador da fronteira como um vitorioso.
183

108

Fronteira rea de litgio. Espao praticado do desequilbrio. O desafio este:


perceber o quanto e quem vive neste lugar instvel, instncia primeira e ltima do entre-lugar.
O filme de Roberto Carminati, cineasta nascido em Cricima, cujo pai foi ainda na dcada de
1980 para os Estados Unidos, na inteno de fazer a Amrica, tentou, literalmente, de
forma agonizante, dar vazo a estas idias. O resultado de dois anos de trabalho do cineasta de
28 anos foi lanado simultaneamente em Boston e Cricima, no dia sete de setembro de 2002,
nos limites postos pelas cercas e divisrias que delineavam o lugar onde acontecia a XIV
Quermesse: Tradio e Cultura, naquele momento j reconhecida como Festa das Etnias. A
agonia e incerteza de Roberto estava ligada a forma tosca que o filme ainda tinha naquele
momento. A trilha sonora no estava pronta e, o som do filme, inacabado. Uma de suas
maiores preocupaes parecia ser se fazer entender pela platia do filme. Afinal, muitos
dilogos eram realizados em espanhol e ingls, sendo que para o primeiro no havia legenda.
A inteno era perceber como as pessoas de Cricima, que estavam agora dentro do Teatro
Municipal, enquanto a festa rolava no seu entorno, traduziriam a narrativa fronteiria que ele
havia preparado, segundo o que o prprio antecipou antes da exibio.
Maurcio o homem que consegue atravessar a fronteira. Tambm ser aquele
que tomado pela sorte, mas com muito trabalho, vai alcanar o sucesso. Em realidade o
filme bastante didtico: esto quase todos ali. O coiote de nome Lupe, a mulher que junto
com o filho pequeno se lana travessia da Pretendida, o sopro pela vida, o marido provedor
e preocupado com a famlia, o adolescente problemtico, os empresrios que vivem da venda
de sonhos e do pagamento de misrias, as redes formadas que colaboram para o que

109

Enzensberger chamou de Bulimia Demogrfica185, o estupro marcando feridas no corpo e


na alma, a jornada de trabalho de at 18 horas e, mais, mais e mais.
De que nos adiantaria um mapa? Somente o filme poderia mostrar o que estava
acontecendo. Provisoriamente, ningum se lana na emigrao se no esperasse melhorar de
vida. Contudo, o filme exibe enunciaes que no esto coladas a lugares. Com percia, o
filme mostra as motivaes que fazem brasileiros se aventurarem na ida para os Estados
Unidos. A fronteira emblemtica do Estado-Nao esta ali viva e presente, desafio maior para
aqueles que desejam furar o limite seco mais vigiado do mundo, o panptico ps-moderno.
Overdose de cenas e ritmos acelerados condizem com o fenmeno da imigrao ilegal. Os
limiares so menos estveis. Devido a isto ganha fora o nem l nem c. Na narrativa de
Roberto est presente a incerteza entre o verde das notas e o verde dos campos no interior de
Santa Catarina; um Tribunal da Migrao Americana a decidir quem fica e quem volta. Uma
narrativa anmala de situaes possveis. Quiasmas do contemporneo. H outros limiares e
tambm limites, mas j no so filmes. Vejamos.
No depoimento186 comovente que me concedeu aquela jovem mulher, o cenrio
descrito em muito se aproxima da foto montagem feita por Roberto Carminati na divulgao
de A Fronteira. O leitor atento pode perceber. Esto ali a cerca de arames, o asfalto, o cu
de um nebuloso azul, o deserto e, do outro lado, a imponncia da cidade, o alcance do sonho
vermelho e azul, ao lado da realidade verde e amarela. Silvana Aparecida Moiss Cechinel,
esta a mulher que no est no filme de Roberto, ele fez o seu, inscreveu seu corpo nele.

185

Expresso utilizada para nomear o processo de recebimento e deportao de mo de obra nos pases vistos
como potncias, a exemplo dos Estados Unidos. Ver: ENZENSBERGER, Hans Magnus. Op. Cit., p. 111. Diria a
funcionria de uma agncia de turismo de Cricima: Os americanos reclamam, mas se a mo de obra que est l
vier embora, eles quebram. In: Rosimari Lima Nunes. Depoimento j citado.

186

Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima, por Silvana Aparecida Moiss Cechinel, na cidade de
Cricima, em 13/07/2002.

110

Segundo Silvana, tudo ia bem at a falncia do setor carbonfero, ainda em 1989.


Para a jovem que se lanou ao alcance da Pretendida, o carvo era a grande fora da cidade de
pedras. Mesmo que hoje, como a prpria diz, a cidade est mais bonita e moderna, a
paisagem mudou. Com o desemprego gerado pelo setor carbonfero, o irmo e o marido
buscaram outras formas de viver. Primeiro foi o irmo. Em 1994, Carlos Alberto Moiss foi
para os Estados Unidos, voltando 3 anos depois. Hoje (2002) presidente da Cooperativa de
Transportes de Vs em Cricima, atividade produzida a partir de 1999 na cidade. Enquanto
isto, Silvana e o marido trabalhavam numa agncia de transporte areos no aeroporto
Diomcio Freitas, ironicamente o nome de uma das referncias do mundo carbonfero em
Cricima187. Trabalhvamos tambm no ponto de txi do aeroporto. Dormamos 4 horas por
dia apenas. Mais ou menos como fazem alguns dos emigrados criciumenses nos Estados
Unidos. A empresa faliu e eles ficaram desempregados. Tentaram outras atividades. Um
Salo de Beleza e uma Loja de Auto-Peas foram algumas delas. No tiveram xito. O marido
tinha uma irmo nos Estados Unidos. Chegou o desejo. Casamos no civil e pedimos visto de
entrada para passar a lua de mel nos Estados Unidos. Visto negado188. O marido decidiu ir
primeiro, e sozinho. Silvana tinha um primo que era coiote nos EUA, feito Lupe da narrativa
de Roberto Carminati. Morava em Boston, mas agenciava pessoas na fronteira do Mxico
com os Estados Unidos. Meu primo diz que a profisso arriscada, mas d muito dinheiro.
O marido atravessa a fronteira numa bia, destas de caminho que se costumava brincar nos
rios e mares no Brasil. A bia enchida com o ar de seus pulmes, o sopro da vida. Passa
dois dias acampado num barraco, alimentado literalmente por po e gua, junto pessoas de

187

O Aeroporto Municipal Diomcio Freitas em realidade se encontra no Municpio de Forquilhinha, Distrito


emancipado de Cricima em 1989. Diomcio Freitas foi um dos grandes empresrios do setor carbonfero na
cidade, morto em 1981.

188

Antes de 1999 era mais fcil conseguir visto de entrada para criciumenses nos Estados Unidos. Hoje quase
impraticvel. A cidade entrou na lista de cidade de emigrantes nos consulados americanos, a exemplo de outras,
como Governador Valadares (MG) e Cascavel (PR).

111

outras tantas nacionalidades. Consegue chegar em Houston, e dela vai para Boston. Comea a
trabalhar. Despesas desta confortvel viagem: cinco mil dlares.
hora de Silvana viajar. No vai sozinha. Esto na empreitada: Silvana, sua filha
de catorze e o filho de sete anos. Sua cunhada, com a idade de Silvana, mais a filha de seis
anos. Uma amiga de Silvana, com a filha de doze anos. Trs adultas, quatro crianas. So
recebidas em So Paulo por uma agncia de viagens. Da capital paulista seguem para a
Cidade do Mxico. Ficam uma noite e um dia num hotel da capital mexicana. O medo da
chegada no aeroporto j havia passado. Recebem a determinao do coiote. Viajam para
Reynosa, cidadezinha na fronteira com os Estados Unidos, de nibus, em mais de quinze
horas de deslocamento. Passam por doze postos de averiguao imigracional em territrio
mexicano. So treze no total at Reynosa. Na ltima delas, um problema. A cunhada de
Silvana, loira, despertou a ateno dos homens da migrao mexicana. So retiradas do
nibus.
Deslocadas em duas viaturas, enquanto inquiridas da razo de estarem ali,
passeavam por Reynosa. Entediam finalmente o sentido da msica de Mano Chao189, naquela
polifonia mexicana. No se faz turismo aqui em Reynosa, disse o policial. Nem poderia.
Quem desejaria fazer turismo naquele lugar? Cidade seca, deserta, areia preta-avermelhada,
boca seca sempre, pensou, mas no disse ao policial, somente para mim. Faz parte do jogo
da traduo, o interdito de significado, que nos leva a alguma compreenso. No teve acordo.
Foram levadas para uma repartio da imigrao. Tentaram nos colocar numa cela. Eu disse:
a no entro. No matei, no roubei. Silvana consegue uma sala maior. Ficam ali um dia

189

Mano Chaos, na msica Clandestino, diz: Solo voy com mi pena, sola va mi condena, correr es mi destino
para bular la ley, perdido em corazn de la grande babylon, me dicem el clandestino por no llevar papel. In:
Mano Chao. Clandestino. Virgin Records, 1999.

112

inteiro. So alimentadas e bem tratadas. No incio da noite a sentena: tero que voltar para
Cidade do Mxico.
A viagem de volta foi diferente para usar a expresso de Silvana. Disseram
que amos de caminho. Eu falei que de caminho no iria. Depois descobri que caminho
era a palavra usada para nibus. A traduo sempre algo incompleto, mas que instala
sentidos. Entram num nibus no incio da noite. Os passageiros eram todos homens:
nicaragenses, hondurenhos, salvadorenhos. Uma das meninas quis ir ao banheiro. No
caminho um dos passageiros tentou se insinuar a ela. Comunicamos ao policial. Aps
ameaa de algemas em todos, a coisa ficou tranqila. Nem tanto, as coisas podem ficar
muito diferentes ainda.
A certa altura da viagem, serviram comida. Algo que geralmente no precisa ser
traduzido. Claro que, por vezes, nos apresentam pratos que nos fazem perguntar: o que
isto?. Mas aquele definitivamente no era o caso. O policial distribuiu um saco plstico a
cada uma das pessoas do nibus, incluindo as crianas. Dentro de cada saco estava um frango
inteiro, assado. Este para mim o ponto de inflexo. Aquele que em outra concepo
historiogrfica seria chamado de a tomada de conscincia. Comecei a rir. E ria muito,
disse Silvana. O policial no entendia o meu riso. Comeou a fazer mmica. Dizia: Es
Pollo! Es Pollo!. Balanava os braos e fazia : Co-C-C. Eu olhava para aquela
galinha, com a bunda virada para mim, e continuava rindo.

Lgico que eu sabia que

aquilo era uma galinha, mesmo no sabendo o que era Pollo.


Como traduzir para ambos, Silvana e o policial, as referncias que estavam
implicadas naquele jogo? Como articular os desejos que so postos nestes entre-lugares? O
oficial mexicano desejando e pondo fronteira, e Silvana ansiosamente desejando atravess-la.
Ambos imersos numa cultura chamada ocidental (diria at latino americana), onde parece por

113

vezes, se esperar uma atitude prescrita do outro. O policial esperando uma atitude prescrita
queles que sempre atravessam a fronteira caso de Silvana e, a brasileira esperando do
policial a desejada cesso190. Edward W. Said insinua um raciocnio semelhante, ao falar da
viso pr-concebida que o ocidente elabora sobre o oriente. Diz Said: deixamos de
considerar as coisas como completamente inslitas ou completamente conhecidas; emerge
uma nova categoria mdia, uma categoria que nos permite ver coisas, coisas vistas pela
primeira vez, como verses de algo conhecido anteriormente191. Esta idia, acredito, vem
sendo criticada com propriedade, como vimos. De modo antecipada e num sentido diverso,
colocada na literatura, no que numa atitude mdia se chama de licena potica. Fernando
Pessoa, novamente como Alberto Caeiro, o falador: ... preciso no ter filosofia nenhuma.
Com filosofia no h rvores: h idias apenas. H cada um de ns como uma cave. H uma
janela fechada, e todo mundo l fora; e um sonho do que se poderia ver se a janela se
abrisse, que nunca o que se v quando se abre a janela192
Este , ironicamente, o momento, ou mesmo o movimento desintegrador da
enunciao colocada. Aquilo que Homi K. Bhabha chama de disjuno repentina do presente,
que torna possvel a expresso do alcance global da cultura193. A cultura colocada como
estratgia

de

sobrevivncia

tanto

transnacional

como

tradutria194.

Mulheres

desterritorializadas, nmades, inseridas no discurso dos fluxos contemporneos. Esta Cesura

190

N seu depoimento Silvana disse que se ns tivssemos dado propina ao policial, ele nos liberaria.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como inveno do Ocidente. Traduo de Toms Rosa Bueno.
So Paulo: Cia. das Leras, 1990, p. 69. Ainda sobre esta atitude mdia, Bhabha, ao estabelecer uma crtica ao
racismo (suportado tambm pela atitude mdia) diria que: (Desta forma) ns sempre sabemos de antemo que
os negros so licenciosos e os asitico dissimulados. In: BHABHA, Homi. K. Op. Cit. , p. 117.
192
Obras em Prosa de Fernando Pessoa, Lisboa, publicaes Europa-Amrica, 1987.
193
BHABHA, Homi K. Op. Cit., p. 298.
194
Ainda seguindo Bhabha, transnacional porque os discurso ps-coloniais contemporneos esto enraizados
em histrias especficas de deslocamento cultural (...) tradutria porque estas histrias espaciais de
deslocamentos agora acompanhadas elas ambies territoriais das tecnologias globais de mdia tornam a
questo de como a cultura significa, ou o que significado por cultura, um assunto bastante complexo. In:
BHABHA, Homi K. Op. Cit., p.241.
191

114

nos territrios,

parece ser a forma narrativa de se falar e viver o contemporneo195.

Paradoxalmente, apenas atravs de uma estrutura de ciso e deslocamento

descentramento fragmentado e esquizofrnico do eu que a arquitetura do novo sujeito


histrico emerge (...)196. A narrativa de Silvana, prxima e mais viva que a de Roberto em
A Fronteira, fornece significado s passagens intersticiais e s diferenas culturais inscritas
no entre lugar, e na prpria dissoluo temporal que constri o texto global.
As ambigidades esto presentes na narrativa de Silvana. O discurso pscolonialista contemporneo se constri desta forma. A mmica197 utilizada pelo policial e,
tambm vivida por Silvana, impele compreenso deste sentido fugidio e doloroso da
experincia contempornea. A ambivalncia da mmica: o frango quase exatamente o mesmo,
mas ainda diferente. Isto no apenas rompe a fixidez, instalando a incerteza, mas tambm faz
presente uma forma de insero no mundo sempre parcial, em que pese a tentativa estvel e
homegenizadora198 do discurso colonial, em realidade, um falso dilema como diz Stuart Hall:
Isto porque existe outra possibilidade: a da Traduo199. Claro que toda traduo sempre
inexata e mesmo deformante, mas ela que permite a comunicao e o entendimento.

195

Tambm vejo com um auxlio a resposta para e pergunta: Que estamos ajudando a fazer de ns mesmos?,
colocada como reflexo inicial de um colquio recentemente realizado (sobre Foucault e Deleuze, em Campinas
Unicamp, entre os dias 24 e 27 de novembro de 2000), tendo entre outras incomodaes, aquela de sondar a
nossa potncia de variar no prprio meio que nos constitui. In: RAGO, Margareth; Orlandi, Luiz B. Lacerda;
Veiga-Neto, Alfredo (orgs.). Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p. 10.

196

Idem, p.298.

197

Na obra de Bhabha pode ver claramente a opo pela mmica e no mimese. Aquilo que faz com que nos
apropriemos e imitemos algo a fala ps-colonialista das metrpoles por exemplo mas que ao faz-lo, o
resultado nunca ser igual ao primeiro. Este o sentido positivo do hibridismo e talvez a maior contribuio
poltica que dele pode ser feita. Uma legitima forma de resistncia. No a resistncia demaggica e meramente
retrica, mas uma resistncia acionadora.

198

Segundo Marc Aug, j no so mais os Estados unidos ou Europa que est em questo, mas a
contemporaneidade como tal, sob aspectos mais agressivos ou mais desarmnicos da atualidade mais atual. In:
AUG, Marc. Op. Cit., p. 17.

199

HALL, Stuart. Fundamentalismo, Dispora e Hibridismo. In: Op. Cit., A questo da identidade cultural.
Traduo de Antonio Augusto Arantes. Campinas: Unicamp (Textos Didticos, n. 18-fev/1998), p.69. Hall

115

Falamos de fronteiras, e finalizando esta parte, gostaria de voltar brevemente a


duas dimenses colocadas. Os limites e limiares200. O caso de Silvana201 bem pode continuar
explicitando isto. Em outra fala, na mesma entrevista, ela colocou que aguardava a concesso
da dupla cidadania ao marido, criciumense descendente de italianos, para ter facilitado seu
acesso aos Estados Unidos. Falou tambm que j que este negcio de etnias t em moda,
veja s a Festa das Etnias, quero aproveitar. Antes nem ouvia ou sabia o que era isto.
Agora ela consegue traduzir. Para ela o sentido tnico prtico e real. Esta uma
compreenso de fronteira enquanto limite, e mesmo neste sentido, para alm da idia clssica
de Estado-Nao ou de uma comunidade poltica e imaginada e imaginada como
implicitamente limitada e soberana202, na hoje j bastante surrada expresso de Benedict
Anderson, esto ali os entre-lugares. Engana-se quem pensa que os entre-lugares so
expresses apenas dos limiares, os limites se fazem neles presentes tambm. Na juno do
possvel, limite e limiar esto vivos e presentes no jogo hbrido. Territrios que so
deslocados, que se constituem a partir de sentidos deslizantes.
Finalmente, territrio sendo etmologicamente instvel, deriva tanto de terra
como de terrere (amedrontar), de onde territorium, um lugar do qual as pessoas so

privilegia a abordagem da traduo, pois esta permite o fluxo e o trnsito, enquanto a tradio insiste em falar de
um continuum.
200

H muito se v discutindo a idia de fronteira enquanto limites e limiares. Gostaria de deixar claro meu
agradecimento ao professor e amigo Luiz Felipe Falco, quem primeiro me chamou ateno para esta noo.
Alis uma abordagem interessante e competente desta possibilidade de fronteira pode ser encontrada em sua
tese, transformada recentemente em livro. Ver: FALCO, Luiz Felipe. Entre ontem e amanh: diferena
cultural, tenses sociais e separatismo em Santa Catarina no sculo XX. Itaja: UNIVALI, 2000.

201

Apenas tentando no deixar no ar o desfecho da saga de Silvana, deixo anotado seu encerramento. Aps a
viagem e chegando na capital mexicana novamente, as mulheres foram encaminhadas para a deteno nacional
de emigrantes no Mxico. L ficaram presas por vinte e dois dias, e, aps interveno de advogados, do
consulado brasileiro e at mesmo da Anistia Internacional, foram deportadas pelo governo mexicano. Chegando
no Brasil de volta, uma delas, amiga de Silvana, voltou imediatamente ao Mxico, mantendo contato com outro
coiote, fazendo novamente o mesmo trajeto. Desta vez a amiga conseguiu atravessar. Quanto a Silvana, quatro
meses aps ter me concedido a entrevista, conseguiu finalmente entrar nos Estados Unidos, de modo diferente.
Obteve visto e entrou legalmente naquele pas.

116

expulsas pelo medo203. Para cricima, muitos medos esto presentes na constituio de seus
territrios: o desemprego, o fim do carvo (ou no mnimo deslocamento de seu sentido), a
crescente etnizao, e para os emigrados, o apavorante medo de atravessar a fronteira, ou
ainda, da prpria expulso. Apurando os sentidos possvel enxergar estes medos sendo
exibidos na realizao da Quermesse: Tradio e Cultura, a Festa das Etnias. Os limiares
gastronmicos oferecidos nas mais variadas tendas do espao praticado da festa; anncios em
forma de raios laser a relampejar um mundo sem fronteiras204; uma festa que agora j no
est mais na praa, na qual para participar se paga um real, dito na tpica expresso de
pechincha e; nesta mesma festa, a exibio do filme de Roberto Carminati205, feito para
lembrar a experincia de mulheres e homens de Cricima que se destinam a atravessar a
fronteira. Pessoas estas quase sempre de poder aquisitivo reduzido, muitas das quais,
inclusive, circulando no espao da festa, e que dificilmente disporiam de vinte e cinco reais
para assistir A Fronteira. Para estas no havia telo nem laser capazes de ligar imagens
lugares, construindo outros territrios.

202

ANDERSON, Benedict. Nao e conscincia [Link] de Llio Loureno de Oliveira. So Paulo:


tica, 1989, p.14.

203

BHABHA, Homi K. Op. Cit., p. 147.

204

Anncio de uma empresa de telefonia celular (TIM SUL), que em forma de lazer, se projetava pelo espao da
festa. Dizia o anncio: Viver sem fronteiras.

205

O filme foi exibido durante a XIV Quermesse: Tradio e Cultura como j indicado. Em realidade, o diretor
(Roberto Carminati), junto produo do filme, elencou a Quermesse como evento para exibio do filme, por
pensar a festa como a de maior projeo na cidade, como o prprio afirmou em conversa comigo. Por seu turno,
a Prefeitura Municipal, na oportunidade representada pela Fundao Cultural de Cricima (responsvel pela
gerncia do referido espao), tomou cuidado de inserir a exibio do filme na programao da referida festa.
Segundo o Presidente da Fundao Cultural (Edison Paegle Balod), Jaci Carminati (pai de Roberto Carminati)
procurou a Fundao, e esta marcou a data e tudo mais. As pessoas vo jantar, andam pela festa e no sabem
da programao A maioria, acredito, no sabia que tinham filmes sendo exibidos, tanto o Fronteira quanto
outros curtas, que estavam no folder da festa. O Fronteira, entendamos que seria convertido em bitola
comercial. Disponibilizamos o Teatro para a produo do filme e no cobramos por isto. Foi uma contribuio
da Fundao para promover e, desta forma, contribuir para o lanamento do filme. Apesar de tudo, acredito
que a Quermesse chamou o [Link] foi pensado em se colocar teles fora do Teatro, no espao da festa.
bem possvel que vrias pessoas que circularam nela tivessem parentes ou amigos nos estados Unidos. Foi
Sugerido que o filme fosse passado no barraco onde foram exibidos alguns curtas. Mas ali tnhamos problemas
com iluminao e acstica. In: Edison Balod. Depoimento concedido a mim, na cidade de Cricima, em
04/10/2002.

117

Instaurando a Encrenca na Esquina do Mundo:


Criao o mote do tempo contemporneo. Do momento onde as identidades
prt--porter206, so produzidas e inventadas. Evidente que isto diz muito pouco, mas apesar
de esforos diversos, seria praticamente invivel falarmos do contemporneo sem colocarmos
na discusso a positiva arte de criar. Especialmente quando a arte parece finalmente sair dos
museus e universidades e ganhar as ruas. Mesmo porque, em funo especfica de uma
clssica idia de separao entre arte e vida, prpria do contemporneo, a utopia de religlas continua na ordem do dia; mas esta questo, que atravessa toda a histria da arte
moderna, recoloca-se, hoje, em novos termos207. Esta concepo nova bem pde ser vista
atravs da instaurao, uma arte de fazer, colocada na Quermesse: Tradio e Cultura, para
fugir do termo pseudo Redentor de Festa das Etnias.
Instaurao o nome dado por Tunga, artista plstico, para uma prtica utilizada
em seus trabalhos, e que consiste em incorporar obra pessoas estranhas ao mundo da arte,
protagonistas de uma espcie de performance, seguindo um ritual com objetos e materiais
sugeridos pelo artista. O conjunto formado pela performance + processo + instalao,
instaura um mundo208. Neste j extenso ensaio, o leitor h de compreender a necessidade
ltima de pensarmos uma instaurao presente na Quermesse. Ela se inicia com um artista
local, que bem soube articular as performances, processo e instalao.

206

Termo utilizado por Sueli Rolnik para designar o neocapitalismo (que) convoca e sustenta modos de
subjetivao singulares, mas para serem reproduzidos, separados de sua relao com a vida, reificados e
transformados em mercadoria: clones fabricados em massa, comercializados com identidades prt-a-porter. In:
ROLNIK, Sueli. Despachos no museu: sabe-se l o que vai acontecer . In: RAGO, Margareth. ORLANDI,
Luiz B. Lacerda. VEIGA NETO, Alfredo. (orgs) Imagens de Foucault e Deleuze: ressonncias nietzschianas.
Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p. 309-310.

207

ROLNIK, Sueli. Op. Cit., p. 312.

118

Edi Balod artista plstico de Cricima. Mas o que se enxerga na obra colocada
na citada Quermesse uma forma de insero no mundo que muito extrapola os limites da
cidade. Melhor dizendo, instaura a obra na cidade, falando simultaneamente de outros lugares,
como espero deixar indicado. O Boteco Encrenca, segundo o prprio Edi Balod:
Nasceu da idia de contar histrias da cidade; causos de
assombrao, conversas de bares, coisas ligadas as mais
diferentes entidades. Junto aos alunos da Disciplina
antropologia cultural que ministrei na UNESC, instalamos o
Boteco, primeiro na sala de aula, depois nas comemoraes
crticas dos 500 anos do Brasil, includo no Projeto Abril 2000.
Faz uns trs anos desde a primeira instalao. Em 2001 eu havia
me envolvido com a Oca Indgena que colocamos na
Quermesse. Em 2002, mantivemos a Oca, mas eu achei que era
hora do boteco entrar na festa, e assim o fizemos209.

Mais significativo que a possvel gnese do Boteco, destaco as referncias sob as


quais ele se construiu e exibiu. Para aqueles que foram apresentados Quermesse por este
ensaio, vale lembrar que hoje o ambiente agradvel e quase assptico que a festa encerra,
especialmente depois que saiu da praa, em muito contrasta com aquele instaurado pelo
Boteco na festa. Um universo de diferenas instaurado. Com o boteco se quebra a lgica
monofnica ditada pelas etnias. Enquanto toda estrutura das tendas tnicas e restaurantes
presentes na festa so muito bem cuidadas e arrumadas, o Boteco foi instaurado com material
de reas de invaso210 na cidade, regies perifricas onde a maior parte das pessoas, quando

208

Idem, p. 312.

209

Edi Balod. Depoimento j citado.

210

As reas de invaso territorial em Cricima so relativamente antigas. As primeiras manifestaes podem ser
encontradas ainda na primeira Gesto de Altair Guidi, quando se intensifica a ocupao da regio onde se
estabeleceu a Vila Manaus. No final da primeira Gesto de Altair Guidi (1982), mais de 1200 famlias, formadas
por sem tetos, trabalhadores pobres de Cricima e migrantes da regio se encontravam na Vila Manaus.
Contudo, a rea de invaso mais discutida atualmente parece ser aquela denominada pela prpria populao local
de Mina 4 e batizada pelo poder pblico municipal de Renascer. Uma professora (Iracema Possamai Della
Stefani) que trabalha naquela comunidade, para usar um expresso prpria das discusses sobre esta temtica,
em conversa comigo contou que h um esforo da diretoria da escola em educar os alunos no sentido da
assimilao do nome dado, Renascer. Como vou conseguir te convencer que teu nome no Emerson? me
perguntou a referida professora. In: Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima, em 13/05/2002.

119

muito, se alimenta de sonhos211. Este material se encontrava no depsito da prefeitura


municipal, obtido em realidade, a partir de desocupaes por determinao judicial. As tbuas
utilizadas j traziam algumas inscries, e nestas outras foram anotadas. Uma destas primeiras
anotaes se relaciona ao nome dado ao Boteco: Encrenca. A instalao212 da instaurao
rendeu muito trabalho. Enquanto se instalava o Boteco, passou pelo lugar o Sr. Aldo Furlan213
(prefeito de Cocal do Sul, municpio vizinho de Cricima) e, vendo a toda sucata disposta por
ali, foi logo dizendo: Boteco da Encrenca.

Fachada lateral do Boteco Encrenca


XIV Quermesse: Tradio e Cultura

Interior do Boteco Encrenca


XIV Quermesse: Tradio e Cultura

Ainda sobre a rea referida, ver preocupaes iniciais do poder pblico (Gesto Jos Augusto Hlse), entre
outros, em: TEIXEIRA, Jos Paulo. Nos tempos do Z. Florianpolis: Instituto Cidade Futura, 1999, ou ainda:
Jornal da Manh. Cricima, 16/05/1985.
211
Sei que esta insero pode ser vista como algo inscrito no mbito da concesso ou mesmo da indiferena.
Deixo claro que o sentido outro e, mesmo, inverso. Um exemplo: estava eu andando pelo Bairro Progresso (ver
tpico Piastra colocado no ensaio Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias e Sobejos) e conversando com um
menino de 14 anos sobre coisas da cidade, vistas por ele como importantes, tais como o Aeroporto. O menino era
apaixonado por avies. Um senhor mais velho, tio do menino, que estava por perto disse: deixa de besteira guri,
no tens o que comer direito, no que respondeu o menino: mas ainda posso sonhar.
212
Toda instaurao tem sua instalao correspondente. Para o Boteco algumas precisaram ser realizadas.
Levantar paredes, colocar cobertura, instalar canos e fios e assim por diante. Edi Balod relata que Para a
instalao procurei apoio entre o pessoal da Codepla (Companhia de Planejamento do Municipio). Tinha uma
arquitetura na cabea e quis visualiza-la junto com o pessoal da Secretaria de Obras. Desenvolvi um estudo
fotogrfico com as imagens coletadas em reas de ocupao do municpio, disponveis no arquivo da Codepla.
A partir disto desenvolvemos ento algumas plantas e acabei optando por aquela que foi instalada, estilo
meia-gua, prpria de uma rea de ocupao. In: Balod. Depoimento j citado.
213

Aldo Furlan era responsvel por uma outra instalao naquela mesma Quermesse: um engenho de cana. Isto
pode parecer lugar comum, mas no se deve esquecer que Cocal do Sul pela primeira vez tinha uma instalao
na Quermesse. A tendncia das ltimas trs festas tem sido de regionalizar o evento e ampliar a visibilidade dos
municpios vizinhos Cricima. Alm da regionalizao incipiente, se deve ressaltar que a instalao de um
engenho de cana de acar por um prefeito de uma pequena cidade onde se diz que a cultura italiana foi
mantida, confirma, em parte verdade, a perspectiva hbrida da festa e da prpria regio. Infelizmente, esta
uma instalao a qual no poderei aprofundar a discusso.

120

Em realidade, o nome que as pessoas envolvidas tinham pensado para o lugar era
Paraso. Nome de um Bairro de Cricima214 onde foram implementadas aes do poder
pblico, na gesto de Jos Augusto Hlse (1983-1988), no sentido de melhorar as instalaes
residenciais de pessoas que moravam margem de um rio, totalmente poludo pelos rejeitos
do carvo e, mesmo fornecer instalaes a outras pessoas que no tinham residncia, isto
ainda em 1983215. De qualquer forma, segundo Edi Balod: Encrenca nos pareceu um bom
nome. Encrenca pode ser uma coisa mal resolvida esteticamente, mas pode tambm ser o
lugar da confuso, da tenso. A polcia estava ali sempre216. A instaurao seguia seu
curso. Uma vez instalado, vai se formando o lugar com as performances dos prprios
freqentadores do Boteco. um chegava e dizia: posso escrever alguma coisa a?. E ns
dizamos: Claro! Esta a idia217. Desta forma, o boteco foi ganhando faces. Um escrevia:
chup-chup a um conto, outro: compro galo puro, ou ainda: vendo parelha de boi,
faso frete Maycon, vio cuiudo, Vendo uma Morada Vendo Barco

218

. E vo se

seguindo outras manifestaes: objetos, msicas, comida. Um pote com ovo cozido, outro
com cachaa curtida, aros e placas de automveis, um rdio antigo, cabea de boi seca,
lampio para quando faltar luz, gaiola para passarinho; todas performances de

214

O Bairro Paraso tambm conhecido pelo nome de Baixadinha. Em Cricima, os bairros onde a ausncia
do poder pblico mais visvel, ou seja, na periferia da cidade, se teve e ainda se tem, a prtica de nomear
novamente o bairro, seja por iniciativa do prprio poder pblico ou mesmo da comunidade, com ttulos
antagnicos realidade vivida. So exemplos: O citado Bairro Paraso, Corda Bamba nomeado de Cristo
Redentor e Mina 4 nomeado de Renascer.
215
Um excelente estudo sobre a ampliao da partio popular iniciada na Gesto de Jos Augusto Hlse, que na
cidade ficou conhecido como o prefeito dos bairros (em oposio a Altair Guidi, visto como gestor do centro da
cidade), pode ser encontrada em: TEIXEIRA, Jos Paulo. Nos tempos do Z. Florianpolis: Instituto Cidade
Futura, 1999.
216

Edi Balod. Depoimento j citado.

217

Idem.

218

Todas expresses foram citadas conforme escritas no Boteco. O Barco que posto venda, se trata do
Balco de atendimento do boteco, onde se instaurou a palavra.

121

manifestaes culturais vivas, embora nem sempre visibilizadas na cidade. Os homens


ordinrios, na expresso de Certeau, finalmente tinham, nos entre lugares da festa, forjado um
territrio219.
Aquilo que uma chamada perspectiva engajada, por outro, chamariam de
cultura popular (insistindo quase sempre na lgica de cultura subalterna), so tticas
mesmo, na melhor expresso certoniana, e, no Encrenca, dissimuladas na prtica da sucata.
Mais que simples espectadores, aqueles que se identificaram com o Encrenca participaram da
ao criativa. Esta a dimenso na qual se pode falar de uma resistncia no por oposio
realidade vigente numa suposta realidade pararela; seu alvo, agora, o princpio que
norteia o destino da criao220. Criao que instaura a resistncia no prprio ato de criar.
devido a isto que a criao do Encrenca, literalmente festejada na XIV Quermesse, teve como
prioridade a prpria vida.
Sueli Rolnik aponta para distino entre anomalia e anormalidade. Esta seria a
palavra que qualificaria aquele que contradiz a regra, definido-se em relao a caractersticas
genricas, enquanto anomalia designaria o rugoso, o desigual, o singular221. Neste sentido
seria adequado pensar que, mais que uma transgresso a uma ordem social colocada de forma

219

Infelizmente no tive oportunidade de participar da XV Quermesse: Tradio e Cultura, realizada neste ano
de 2003. Mas o Boteco foi instalado novamente na festa, de uma forma distinta novamente. Em conversa que
tive com Edi Balod, no dia 17 de novembro de 2003, o mesmo me disse que: Neste ano como o espao da festa
foi novamente trocado, tivemos que fazer algumas adaptaes no Boteco. A primeira dela foi quanto ao nome.
Estava na praa Nereu quando um amigo me disse: Balod, e eu que no sou de nenhuma etnia, onde me
encaixo nesta festa? Ento falei para ele: Aparece no Boteco que l tu te encontras. Ele prontamente me disse:
Ento t, sou mesmo um desgarrado. Disto resultou no nome do boteco este ano. In: Edi Balod. Depoimento
concedido a mim no dia 17/11/2003. Desgarrados ento passou a ser a nova instaurao da quermesse.
Novamente uma alternativa interessante, porque se a pretenso de fazer uma festa da cidade, reduzi-la a
dimenso tnica seria, mais que reduzir diferenas, aniquil-las. Quem, sob diferentes maneiras, no se sente
portugus, alemo, rabe, italiano, negro ou espanhol (outra novidade da festa), onde estaria situado na festa e na
prpria cidade? Esta uma questo aberta e tensa que, acredito, no se resolver sem um embate maior entre os
organizadores da festa, os presidentes das etnias e principalmente, a populao da cidade.
220
ROLNIK, Sueli. Op. Cit, p. 311.
221

Idem , p. 310.

122

insistente pelas etnias, a anomalia posta no Encrenca positiva o homem ordinrio, e, sua
criao deixa de ser maldita. Voltando ento a Certeau, o uso da sucata pode fabricar objetos
textuais que signifiquem uma arte e solidariedades; jogar

esse jogo do intercmbio

gratuito, mesmo que castigado pelo patres e pelos colegas,(...); inventar os traados de
conivncias e de gestos; responder com um presente a outro dom; subverter assim a lei que
(...) aniquila progressivamente a exigncia de criar e a obrigao de dar222. O prprio Edi
Balod elucida o que apontado por Certeau:
Vrias pessoas chegaram e diziam: eu cresci num barraco pior
que este. E isto mesmo. Histria do municpio que vivida
pelas pessoas e no apenas por esta coisa tnica. Quem so estes
alemes e italianos? Na periferia eles tambm bebiam cachaa,
enrolavam palheiro. Quem chegava no boteco eram pessoas que
tinham referencias. O boteco bateu mais com as pessoas dos
bairros. O pessoal do centro passava por ali, adorava a idia, mas
no ficava. As pessoas dos bairros se identificavam de cara.
Apareceu um menino gaiteiro ali no primeiro dia e no saiu
mais. Veio uma mulher que tocou gaita. Fizeram ali uma
polenta, um pouco de galinha, distriburam cachaa. 223

Portanto, o que se tinha de poltico e de embate tava muito bem exibido e


instaurado no Encrenca. Certamente, de um territrio hbrido onde um sujeito toca uma viola
de dez cordas, outro uma gaita, enquanto se faz fofoca e se prepara comida, ningum sai
indiferente. Foi comentado inicialmente que a instaurao de Balod falava de Cricima, mas
no apenas dela. Assim, para uma cidade em trnsito como vimos ao longo deste ensaio, os
entre lugares se fazem presentes. A instaurao do Encrenca est ligada a esta possibilidade.
Placas com sinais a indicar caminhos, preos, sugestes, cardpios. Neste presente, que Gilles

222

CERTEAU, Michel de. A Inveno do Cotidiano: 1. Artes de Fazer. Traduo de Ephraim Ferreira Alves.
Petrpolis: Vozes, 1994, p. 90.

223

Edi Balod. Depoimento j citado.

123

Deleuze chamou de diferena contrada224, o Encrenca comunica e enuncia a capacidade


criativa e mesmo Redentora, profanando a solenidade do espao, retirando sua estabilidade.
Bem frente do Encrenca se instalou um conjunto de placas. Estas em realidade tinham o
propsito instaurador e anmalo de informar aos curiosos as territorialidades do Encrenca e,
certamente, da prpria festa. Sinais que seduziam pela gama de possibilidades que indicavam.
Perguntado sobre tais placas, Edi Balod diria: Eu tenho paixo pela esquina do mundo. Ns
pensamos: estamos aqui e em outros tantos lugares. Lembramos as pessoas daqui, aludindo
ao mundo externo. Ento instalamos a Esquina do Mundo225.

Esquina do Mundo Boteco Encrenca na XIV Quermesse: Tradio e Cultura

224

DELEUZE, Gilles. Diferena e repetio. Traduo de Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro:
Graal, 1988. p. 149.

225

Edi Balod. Depoimento j citado.

124

Fotos: Gilmar Bonifcio e Emerson Csar de Campos

Assim, se instaurou no Encrenca a Esquina do Mundo. Esto ali: New York,


Afeganisto, Rio Maina, Cear (alm de Estado, um Bairro de Cricima), Iraque, So Paulo,
Periferia (com P Maisculo!), Floripa, Kandahar. Na fachada algum escreveu: Whor
Trade,

lembrando o desabamento das torres gmeas. Foi tambm escrito logo abaixo das

placas indicativas que compem a Esquina do Mundo: Vamo Endireit!. No ponho f em


tal preciso. Deixemos torto assim, Encrencado mesmo. Referncias a um contemporneo
que nada tem de harmnico ou tranqilo. Performances de vidas postas nos entre lugares.
Diferenas que no podem ser reduzidas, justamente porque, sob todas as formas, ocupam o
mesmo espao.
Por ltimo, chamaria a ateno para Quermesse: Tradio e Cultura, que agora
vem sendo conhecida com Festa das Etnias. Foi este pulular agonizante que sob todas as
formas tentei colocar nesta tese. Uma festa que era paroquial enquanto a cidade tambm o era.

125

Em seguida, ou dando saltos, o paroquial localizado se insere na ambincia global. Uma


ginstica bastante cansativa e dolorida para a maior parte da populao de Cricima. Uma
ambincia viva no mundo contemporneo. A derradeira observao posta por Homi K.
Bhabha:

A dimenso local de que falo muito mais perto da temporalidade que


da historicidade: uma forma de vida ao mesmo tempo mais complexa
de uma comunidade, mais simblica de uma sociedade, mais
conotativa de um pas, menos patritica das ptrias, mais retrica da
razo de estado, mais mitolgica de uma ideologia, menos homognea
da hegemonia, menos concentrada da cidade, mais coletiva do sujeito,
mais ligada psique da civilizao e, enfim, mais hbrida no
desenvolver as diferenas culturais e identificaes (...). Precisamos de
um outro momento de escrita, altura de manifestar intersees
ambivalentes e quiasmticas de tempo e lugar que constituem a
problemtica experincia moderna da nao ocidental. 226

226

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Traduo de Myriam vila, Eliana Loureno de Lima Reis, Glucia
Renate Gonalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 199.

126

II
Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias e Sobejos:
... [quanto] aos brbaros, no precisamos ficar sua
espera nos portes. Eles j esto sempre entre ns

(Enzensberger)

(...) fica ligada no link que eu vou confessar my love,


depois do dcimo drink, s um bom e velho engov, eu
tirei o meu green card e fui pra Miami Beach, posso
no ser pop star, mas j sou um noveau riche (...)
venha provar meu brunch, saiba que eu tenho
approach, na hora do lunch, eu ando de ferryboat .
(Samba do Approach Zeca Baleiro)

Saber olhar para o passado uma arte. Uma arte que no pede licena para ser
produzida. Esta arrogncia positiva somente quando tentamos sob formas diferentes,
resistir tentao de preencher faltas e sufocar silncios. Falo de uma narrativa que
pretensamente busque um passado reconhecendo imediatamente nele sua incompletude e
imperfeio, que solidamente confirmam a imprevisibilidade do presente.
Acredito que no existam antnimos para o significado de dicionrio. Melhor,
muito difcil encontrarmos uma alternativa desorganizadamente precisa, que fale sobre o que
vivemos. Em nenhum momento o dicionrio nos indica ou mostra a coisa mesma ou o o
conceito mesmo. Nele a presena de coisas e conceitos indefinidamente adiada, existindo
como uma espcie de rastro de uma presena que nunca se concretiza227. neste sentido,
como uma presena que pode ser enunciada, que tento construir este pequeno dicionrio de
aporias. Tomando aporias como uma estratgia peculiar de ambivalncia ou duplicao: da

227

Uma abordagem como esta desenvolvida por Tomaz Tadeu da Silva em: SILVA, Tomaz Tadeu (Org.).
Identidade e Diferena A perspectiva dos estudos culturais. Petrpolis: Vozes, 2000, p.103-133. Original:

127

experincia contempornea poderamos ns retirar ou obter alguma estabilidade? Desconfio


muito disto. As dificuldades insolveis colocadas na ambincia cultural contempornea, parte
das quais tento de alguma forma apresentar neste estudo, so exibidas aqui de forma de
confrontos e dissonncias, na medida do possvel, literalmente ilustradas.
Os verbetes apresentados seguem o desejo de insinuar a experincia
contempornea em Cricima. Arrisco dizer que em vrios momentos o que este ensaio
possibilita uma leitura de manifestaes culturais vividas em outras tantas cidades, afora o
caso especfico de Cricima. Sendo assim, no existe uma preocupao em apresentar uma
disposio de verbetes que mantenha uma cadncia constante. Tento seguir o ritmo narrativo
que se coloca a parir da polifonia citadina228. Vamos a ele.
Sorriso: Respeitar um ato apenas inicial229. Um pequeno passo para se alcanar algum
sorriso. Quando nos indicam a necessidade de respeitar tudo e todos; quando isto se ouve na

Who Needs Identity? In: HALL, Stuart e DUGAY, Paul (ed.). Questions of Cultural identity. London: SAGE,
1997.
228
A idia de cidade polifnica com muita habilidade apresentada por Massimo Canevacci em: Op. Cit. A
cidade polifnica: ensaio sobre a antropologia da comunicao urbana. Traduo Ceclia Prada. So Paulo:
Studio Nobel, 1993.
229
Gostaria de deixar claro que neste trabalho a base para se contemplar a cultura, que Guattari sentencia como
conceito reacionrio, a da diferena cultural e no da diversidade. Parece posto que no mbito da diversidade
cultural, afora a redundncia, a cultura entendida enquanto objeto do conhecimento emprico, enquanto a
diferena cultural o processo ou resultado sincrnico da enunciao da cultura como conhecvel, legtimo,
adequado construo de sistemas de identificao cultural (BHABHA, Homi K. O local da cultura.
Traduo de Mriam vila, Eliana Loureno de Lima Reis, Glucia Renate Gonalves. Belo Horizonte: Ed.
UFMG, 1998. P 63). Evidente que se pode levar a discusso adiante e no sentido j clssico de compreenso das
diferenas ( que realizo em partes distintas deste trabalho) positivas e negativas. Mas o que cabe neste tpico
antes de mais nada, relacionar diferena a processos de subjetivao. Precisamente daquele que leva hoje algum
a fazer malabares nas esquinas de uma cidade vista tradicionalmente como operria. Para alm da fala simplista
da busca pela sobrevivncia temos uma srie de intervenes e invenes que se inserem na dimenso do que
Maffesoli chama de estilo de uma poca, embora no seja somente disto que se trata. Sim, pois o estar junto,
reificado pela viso liberal, como lembra Homi Bhabha (Op. Cit., p. 264-65) bastante diferente da noo da
agncia, de um encontro com o social. Sueli Rolnik (GUATARRI, Flix; ROLNIK, Sueli. Micropoltica Cartografias do Desejo. Petrpolis: Vozes, 1993, p. 25-31.) mostra que (...) a produo de subjetividade
talvez seja mais importante do que qualquer outro tipo, pois no mundo capitalstico (onde se encontram todos
os mundos: o chins, o terceiro e quarto mundo ... ) a subjetividade produzida por agenciamentos de
enunciao. Cabe ainda uma ltima digresso. De modo mais prximo, a historiografia catarinense se construiu
sobre a fala da diversidade. Reconhecemos uma cidade e um estado diversos, mas acredito que nosso trabalho no
sentido de contemplar a diferena, e no apenas respeita-la - umas das referncias do liberalismo ocidental
ainda bastante inicial. Fica o contra exemplo dito acima, nas palavras de um estudioso que versa sobre igualdade

128

polifonia citadina, ainda um sinal laranja. Algo que leva a pensar se na hora de atravessar
ou no para o outro lado. Uma cidade sempre entre tantos outros lugares, aquele dos
humores. Um palhao malabarista que sobrevive de catar trocados nas esquinas hoje
movimentadas de Cricima tem ganhado alm de midos nqueis, alguns sorrisos. No h
melhor incio para o pensamento do que o riso. pois uma atitude de coragem a que se presta
aquele que tem por aventura fazer outro sorrir. Especialmente numa cidade onde por muito
tempo no apenas os ares230 eram cinzas, mas suas pessoas sisudas.
Em 1978, num baile de carnaval em um clube da periferia de Cricima, no bairro
Metropolitana, a banda da noite cantava a seguinte marchinha composta pelos msicos de
fora (sul rio grandenses, em sua maioria): Larguei os compromissos e quase fui em cana,
sambar o carnaval aqui na metropolitana. Aquele aroma que a mina tem, no gostoso mas
pra mim faz bem. Salve o mineiro que no v o sol e viva as garotas do Metropol231. O
aroma que no gostoso, e bem pode fazer apenas para quem se coloca dele distante, agora
est fenecendo. Recentemente (2002), ao receber um amigo na ex-capital do carvo, fui
convocado a mostrar os efeitos da explorao carbonfera na cidade. Pensei que fosse uma
tarefa simples. Bastaria olhar ao redor. A paisagem cinza, nebulosa e triste j no existe, ao
menos no na face cruel que tinha at 1990. Na oportunidade acabei encontrando, isto certo,
alguns lugares onde ainda persiste o cenrio decorado pelo ouro dos tolos a pirita. O que

e diversidade. O socilogo Alain Torraine afirma que no se trata mais de reconhecer o valor universal de uma
cultura ou de uma civilizao, mas, de maneira bem diferente, de reconhecer em cada indivduo o direito de
combinar, de articular em sua experincia de vida pessoal ou coletiva, a participao no mundo dos mercados e
das tcnicas com uma identidade cultural particular. O que preciso reconhecer em cada indivduo. O que
preciso reconhecer no a inspirao universalista de uma cultura, mas a vontade de individuao de todos os
que procuram reunificar o que nosso mundo, economicamente globalizado e culturalmente fragmentado, tende
sempre mais fortemente a separar. In: Op. Cit. Igualdade e diversidade: o sujeito democrtico. Traduo de
Modesto Florenzano. Bauru: EDUSC, 1998, p. 65.
230
A cidade que exalava de seus poros o enxofre curtido pelo sol escaldante que sobre ela se abatia, hoje respira
um tanto mais aliviada. J em 1961, Noel Gist ao tratar das redes de prestgio social, associadas para ele a
formao e grupos, na obra chamada Homem e cidade (Editora fundo de cultura, RJ, 1961) afirmava que o ar
torna o homem livre.
231
Informao obtida junto ao sr. Manoel Ascendino de Campos antigo morador do bairro citado.

129

ainda continua bastante fcil de ser visto e encontrado a miserabilidade e o esquecimento no


qual esto colocadas aquelas populaes. O canto de Nietzsche soa nestes locais: possvel
viver, mesmo feliz, quase sem nenhuma memria, como demonstra o animal; mas
absolutamente impossvel viver sem esquecimento, um esquecimento que marca o corpo,
subjetiva uma gente quase sempre pobre pela subsistncia ou miservel pela falta232.
Quanto mais fora se gasta na visibilidade de uma gnese citadina, mas solene e
triste ela fica233. A cidade de pedras hoje uma cidade um pouco mais alegre, at mesmo
feliz, talvez antecipadamente anunciada numa marqueteira campanha poltica no incio da
dcada de 1990234. Antes que o semblante se franza, desafrontemos. Afinal, uma cidade pode
ser aquilo que dela se v ou se entende235.

232

Completando a sentena sobre ar e liberdade colocada por Noel Gist, gostaria de lembrar, como bem faz
Nestor Garcia Caclini em Consumidores e cidados (Canclini, 1995), que aqueles que vivem literalmente
margem social, moradores da periferia, local onde um saber excludente diz que o vento faz a curva, sem
emprego, com baixo nvel de instruo e num tempo de economia de mercado (capitalstica), fundamentalmente,
no consumidores, dado ao limitadssimo oramento, se encontram excludos desta perspectiva urbana mais
arejada. De modo algum gostaria que isto fosse visto com uma espcie de concesso ou mesmo preocupao
com a visibilidade, visto que j foi falado. profundamente lamentvel e irritante que continuemos vivendo de
costas para isto. A fronteira ali um limite, e no um [Link] tese, excluso e incluso esto em dilogo
constante, apresentado ao longo de sua escrita. Mesmo porque acredito que cada vez mais as culturas de uma
cidade sejam produzidas tambm por minorias chamadas destitudas ou excludas, mesmo que projetos
institudos, por vezes, ainda insistam em ignorar esta presena. Gostaria, contudo, deixar anotado um artigo
escrito por Joana Sultanum onde a cidade contempornea mostrada tambm como a cidade dos excludos. Ver:
[Link] Capturado em 2002.
233
possvel inferir que ao menos at a dcada de 1980, quando o carvo ainda era a pedra da vez, Cricima
apesar do grande contingente extra-citadino presente nela, era uma cidade pouco cosmopolita, para usar um
termo que tem vigor hoje. A sobra disto que nas dobras de quase todas as falas sobre a cidade era muito
comum ouvir a pergunta, em forma de inquisio: Voc de Cricima? Qual o seu sobrenome? o que se pode
chamar de gnese citadina . Como muito bem apontam os estudos mais recentes, o discurso colonialista, se
entenda, civilizador, ambivalente. Quando falamos ento hoje de processos capitalsticos e olhamos para
Cricima , sem muito esforo se pode dizer que a partir da dcada de 1990, j com grande parte da populao
hbrida, produzida desde cedo na cidade e visibilizada somente muito recentemente, a inquisio muda de tom:
Voc vai embora de Cricima? Para onde voc vai? Tal situao em tudo se conecta a um modo particular e ao
mesmo tempo amplo de se inserir nos processos de globalizao, cujo fenmeno de emigrao (para os EUA e
Itlia) acompanhada de uma valorizao tnica (sempre ela diria um morador da periferia da cidade) so
certamente os exemplos mais significativos.
234
No apenas colocada por uma gesto especfica, certo que feito Fnix deve nascer de cinzas, foi o mote de
quase todas as campanhas realizadas pelos governos do municpio, e se insinua com maior nfase no incio da
dcada de 1990. A administrao municipal bem soube captar a imaginao social e transforma-la em marketing.
Na segunda gesto de Altair Guidi (1989-1992), com Eduardo Moreira (1993-1996) e Paulo Meller (1997-2000),
bem como da atual de Dcio Ges (2001-2004), sendo que este ltimo deixa assinalado o seguinte depoimento
concedido por ocasio da visita do prefeito comunidade de criciumenses instalada nos arredores de Boston

130

As fronteiras do presente so cada vez menos algo a ser ultrapassado e,


hodiernamente, mais o reconhecimento de que j as habitamos h algum tempo. isto que
nos faz colocar a cultura na esfera do alm. O momento de trnsito, com todas as vantagens
e deficincias que nisto se apresenta: a velocidade inconstante. Fronteira no um lugar
ltimo de aes: classe, gnero, etnias, imigrao, violncia. Ao contrrio do que
insistentemente pensamos (e das sentinelas que colocamos), a fronteira um lugar onde algo
comea a se fazer presente236. Tocar o futuro do lado de c, tal o fim permitido ao
entendimento do alm237. Entre lugares permitem estratgias de subjetivao singular ou
coletiva que do incio a novos signos de identidade e postos inovadores de colaborao e
contestao, no ato de definir a prpria idia de sociedade238.
No solo comum da cidade de pedras, muitos territrios se cruzam. No h
possibilidade de que se assuma a homogeneidade de territrios mesmo quando se alardeia aos
quatros ventos que a regio carbonfera o meu cho, voto na regio239. Este mesmo o
solo no qual agora se investe em desenvolvimento ambiental, em produo de festas, em
etnicidade, em empregos, em incluso social, mas tambm numa compresso de tempo-

(EUA): Cricima est crescendo, est mais alegre (Jornal da Manh, 31-8-02, p.5). Em outra dimenso, Edi
Balod, artista plstico e atual (2002) Presidente da Fundao Cultural de Cricima, afirma: Antes as pessoas
tinham vergonha da cidade. Quando algum chegava aqui de avio, sobrevoando a cidade, em seguida diziam:
que maravilha, a cidade toda asfaltada!, como que ironizando a pavimentao das estradas feita de pirita. E
ainda diziam: s chegar aqui que a gente comea a tossir, cidadezinha ruim!. Agora outra coisa. As
pessoas que aqui chegam, saem elogiando a cidade e at mesmo perguntam: o que ta acontecendo por aqui? A
cidade parece bem mais colorida e feliz!. IN: Edson Paegle Balod (Edi Balod). Depoimento concedido a mim na
cidade de Cricima, em 04/10/2002.
235
CALVINO, talo. As cidades invisveis. Traduo de Diogo Mainard. So Paulo: Cia das Letras, 1990. p 17.
236
BHABHA, Homi K. Op. Cit., p. 24.
237
Este um olhar que tenta, sob diferentes formas, contemplar o presente. Embora seja uma discusso
realizada com propriedade por Homi K. Bhabha, a ao marcante desta perspectiva j era encontrada em Walter
Benjamim, um homem capaz de pensar o presente em seu agora, num lugar intermdio, um entre lugar.
238
BHABHA, Homi K. Op. Cit., p.20.
239
Tema de campanha publicitria patrocinada por empresrios e polticos da regio sul, muitos de Cricima,
que produziu out-doors, adesivos e mesmo chamadas em rdio e televiso durante todo o ano de 2002. Muito
comum encontrar carros transitando pela cidade ostentando adesivos com esta chamada.

131

lugar240 - os territrios onde sistematicamente tudo isto foi negado ou invibilizado.


Pluralizando a singularidade de Drummond, no meio do caminho existem vrias pedras.
Para que se possa minimamente vislumbrar a complexidade da vida
contempornea que explode nas cidades necessrio inverter setas e escalas, ser um bom
apanhador de fragmentos. Inegvel foi contribuio do chamado paradigma moderno, bem
como da crtica que a ele se empreendeu. Mas a cidade pensada e constituda como um
sistema racional, perde flego. Fala-se em cidade-cultura, cidade evento, cidade ecolgica,
cidade da moda, e acrescenta-se, cidade tnica, cidade do carvo, cidade da emigrao, e
para as quais os paradigmas interpretativos das cidades modernas j no so mais
eficientes241. Para se contar estas histrias producente mergulhar em seus tempos.
Entender Cricima de hoje , em muitos sentidos, se aproximar do entendimento
de outras cidades contemporneas242, o que significa dizer: vivas e inacabadas. Maffesoli
afirma que estamos dispostos a buscar a felicidade a qualquer preo. Dizer qualquer preo

240

fato que a discusso sobre a compresso espao-tempo, muito prpria de uma leitura clssica da
modernidade e propaganda entre outros pensadores por Marshall Berman e David Harvey, consistente e
produzida, desejosamente ou no, a partir da alterao da realidade a qual os estudiosos passaram a lidar. O mais
instigante nisto que tal alterao vai produzir tambm uma significativa mudana narrativa que se realiza a
respeito desta realidade contempornea. Exemplos mais prximos temporalmente podem ser enxergados nas
aes sob olhares diferenciados de Fredric Jameson, Appadurai, Canclini e Canevacci, apenas para ficar
nestes.
241
FLORES, Maria Bernardete Ramos. Oktoberfest: turismo, festa e cultura na estao do chopp.
Florianpolis: Letras contemporneas, 1991, p.65.
242
Muito j se realizou de histria comparada em relao s cidades. Benjamim j o fez com Berlim e Paris;
Mike Davis realiza um trabalho brilhante em relao a Los Angeles e em diversos momentos comparando-a
com outras tantas metrpoles; Canevacci em seus estudos comparativos entre cidades europias especialmente
italianas, e brasileiras como So Paulo e Salvador; Michael Certeau com New York e Recife. No Brasil tal
prtica, recente, tem entre outros exemplos os da professora Sandra Jatahy Pesavento que realizou um estudo a
partir da literatura sobre o urbano tomando com referncia as cidades de Paris, Rio de Janeiro e Porto Alegre
(PESAVENTO, Sandra Jatahy. O imaginrio da cidade: vises literrias do urbano, Paris, Rio de Janeiro, Porto
Alegre: UFRGS, 1999.). Contudo, o que atualmente me parece evidente que cidades antes vistas como bastante
provincianas, e nisto Cricima, por razes inmeras, foi desde muito cedo um bom exemplo, nas ltimas duas
dcadas em particular, podem ser comparadas a outras tantas cidades, sejam elas metrpoles ou no, se
mantivermos na ala de mira algumas demandas sciais colocadas: o crescimento da violncia, a midiatizao
social, as polticas pblicas, a emigrao e assim por diante. Antes de ver como um elementar desejo de quero
ser grande, tais demandas so em grande medida engendradas por processos bem marcados da economia
capitalstica, no mundo globalizado que se configura atualmente.

132

no imputa em tirar o valor da felicidade, ao contrrio, para a Cricima desde cedo ela tem
um preo alto. certo que isto algo recente na anlise citadina. No momento em que a
aparncia, o senso comum ou a vivncia retomam uma importncia que a modernidade havia
lhes negado. Contudo, saudvel evitar o porre, pois se o interesse no ps-modernismo
limitar-se a uma celebrao da fragmentao das grandes narrativas ps-iluminista, ento,
apesar de toda sua efervescncia intelectual, ele permanecer um empreendimento
profundamente provinciano243.

Ento finalizando estas consideraes temporneas, antes de colocar uma defesa


da celebrao ou festejos da vida fragmentada, subjetivada, individualizada, parece prudente
que uma anlise citadina contempornea se construa de modo a privilegiar o sensvel,
evitando uma abertura em fanfarra, apesar do ritmo acelerado em que mergulhamos;
avanando lentamente de moderato a allegretto244 e, dele ao mais intenso da
contemporaneidade. Isto um modo de alcanar sentidos e enxergar o sorriso.

243

BHABHA, Homi K. Op. Cit., p.23


Esta uma dimenso ensaiada por Michel Maffesoli. cf: MAFFESOLI, Michel. Elogio da razo sensvel.
Traduo de Alberto Cristophe Migueis Stuckenbruck. Petrpolis: Vozes, 1998.

244

133

Desfile: Antes de qualquer reflexo havia a imagem impressa naquele papel jornal. Poderia
ser contrrio ao que ali indicava, ao andamento do movimento, ou tomando um caminho
inverso, ser solidrio a ela, persistir no ritmo agonizante de uma experincia que clamava
socorro. Estas eram duas opes entre muitas que poderia escolher. Mas certo que no
poderia ser indiferente a ela a tendncia de um olhar ordinrio , porque em sua justa
forma, aquela imagem instalava a diferena. Um cacho de banana, pendurado no pescoo
daquele mineiro estilizado em bronze, fazendo referncia a um momento ainda de transio
entre uma urbanidade incipiente e uma periferia rural ou operria muito viva245. O tempo
histrico pode ser apreendido em sua intensidade e no apenas em sua cronologia246. Tempo
anunciado e enunciado na crnica bem humorada e sarcstica de um jornalista da cidade:
H muita gente que fala mal de Cricima. Porm cumpre-nos
dizer que Cricima no tudo aquilo que falam os cronistas ou
outras pessoas . A capital do carvo apenas uma cidade
diferente. (...) Cricima a perfeita concretizao do velho sonho
de Plato. a cidade perfeita, a terra da luz, a terra da
compreenso e da bondade. onde de vez em quando se tem a
fnebre honra de assistir a um solene fretro em que um venervel
cadver canino transportado palidamente pelas guas lmpidas
do Rio Cricima, envolvendo as circunvizinhanas com o
agradvel aroma que em muito faz lembrar as mais finas resinas
da longnqua ndia. A nossa prefeitura, longe como est situada do
aludido Rio no goza deste privilgio.247

No momento em que preparava um estudo sobre Cricima ainda, em 1999,


aquela foto era a confirmao mais evidente de que ali existia e aflorava um modo diferente
da cidade se construir. Os desejos j no podiam mais ser sublimados, estava acontecendo. A
cidade que tinha na explorao carbonfera uma referncia, um modo de se construir, escolhia

245

O monumento aos homens do carvo foi institudo em 1946, quando Cricima explodia em sua demografia e
uma urbanizao pouco elaborada se cruzava com experincias ainda bem vivas dos homens da roa, em sua
maioria descendentes dos primeiros imigrantes italianos e os operrios do mundo do carvo.
246
Este um olhar prprio de Walter Benjamin. Para ver uma discusso mais elaborada a respeito, consultar:
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Histria e narrao em Walter Benjamin. So Paulo: Perspectiva, 2000, p. 8 e
seguintes.

134

outros caminhos. Antes, mesmo em seu centro urbano limpo da aridez carbonfera, era
possvel a todos a percepo de um mundo de pedras negras, estava no ar. Mas o que fazia
ento aquele cacho de bananas no monumento? Se precisamos estar atentos intensidade,
vamos ento a primeira delas.
Um senhor de nome Paulo Marcus, engenheiro de minas, nascido em Bucareste,
Romnia, chega em Urussanga por volta de 1915, para trabalhar na pesquisa do solo
carbonfero. Estabelece contatos, forma amizades que hoje desfilam em placas colocadas nas
esquinas de ruas lhes dando nomes. Entre suas aes se encontra a criao da Carbonfera
Prspera em 1920, da qual se torna scio fundador. Em 1925 um mal sbito lhe traz a morte.
A primeira grande morte carbonfera. No parece necessrio dizer o prestgio social que um
engenheiro de minas contava naquele momento num local que estava para se emancipar
politicamente de Ararangu.
O dilema est criado. Paulo Marcus alm de estrangeiro, de no ser da cidade ou
da Vila de Cricima, era luterano, ou seja, protestante. Neste momento, o cemitrio que se
tinha na cidade, ao menos no centro dela, era administrado pela igreja, catlica, com padre
italiano em seu segundo ministrio na igreja matriz, Ludovico Coccolo. O padre no aceita
enterrar um protestante. Impossvel dizer que desconhecia outra f que no a catlica, pois j
havia na regio um ncleo de protestantes instalados desde 1890. Mesmo assim a recusa se
fez. O que fazer ento? O corpo precisava de um enterro. Naquele momento a soluo posta
em prtica foi a de dividir o cemitrio em duas partes, pondo nele uma cerca. A fronteira
delimitava aqueles que seriam enterrados com beno do descanso eterno, e outros, aqueles
que no caso de Paulo Marcus, nem a sorte econmica servia, que seriam postos no lado sem
benzedura alguma.

247

Tribuna Criciumense. Cricima, 23 set de 1957, p. 5 e 8.

135

Acontece que Paulo Marcus era um homem do carvo, vivia entre administradores
e operrios. Estes tinham o costume desde 1918 de organizar a festa de Santa Brbara.
Naquela, realizada em 04 de dezembro de 1925, houve um grande protesto, um desfile de
empregados da Carbonfera Prspera pelo centro da cidade, reclamando o fim da fronteira em
forma de cerca e a conseqente administrao do cemitrio passada prefeitura, que somente
seria instalada em primeiro de janeiro de 1926. Um traslado (desfile) foi feito da capela ao
cemitrio prximo dela. Deste protesto foi produzido um ofcio e encaminhado ao Bispo em
Florianpolis. O primeiro prefeito da cidade foi Marcus Rovaris, scio e amigo de Paulo
Marcus. Rovaris tinha vindo da Itlia no fim do sculo XIX. Especula-se que a cerca tenha
sido retirada a mando dele. Mas nisto poucos colocam f. H notcias desta cerca presente no
cemitrio na dcada de 1940248. Mas a intensidade disto tudo est na morte e no desfile. Era o
mundo do carvo em toda a sua efervescncia. Era tambm um desfile tnico249, sim pois
entre aqueles que correram no socorro da memria de Paulo Marcus, havia gente de toda
sorte, e a espetacularizao disto pertencer a outros agoras, quando se instalar a
reprodutibilidade de aes e uma economia capitalstica que integram um outro desfile, como
veremos.

248

Assim era noticiado o evento pelo jornal O Mineiro n. 19, de 15/12/1926, cujos nmeros impressos, apesar
de muitos esforos, no consegui ter contato: Aos quatro do corrente, Cricima engalanou-se em homenagem
padroeira dos mineiros, elementos que do vida ao comrcio local, como brao preponderante vitalidade de
Cricima, que depende muito das minas de carvo (...) Os mineiros da Cia. Prspera lembraram-se de prestar
uma homenagem pstuma ao Dr. Paulo Marcus, fundador desta mina, alma mater da explorao mineira nesta
cidade. Aps a procisso, admiradores desse mineiros dirigiram-se seu tmulo onde flores foram depositadas.
Orando, no momento. O sr. Costa Arantes, funcionrio do tribunal de Justia do Estado. Dali partindo a
comisso popular, aps ter conduzido desde a igreja de Cricima at a capela de Santa Brbara a imagem
protetora dos mineiros. Ficou resolvido que um abaixo assinado seria feito, com o intuito de ser retirada a cerca
que separa o tmulo do engenheiro querido, do cemitrio geral, sob pretexto de que este no era catlico.
Sentimos dizer que foram malsucedidos os operrios da Prspera, embora amparados pelo comrcio local, pois
no obtiveram este desideratum In: MILANEZ, Pedro. Fundamentos Histricos de Cricima. Cricima: Ed. Do
Autor, 1991, p. 95.
249
No era contudo um desfile tpico, se entendermos por isto uma gama de diacrticos, entre estes, a
vestimenta, por exemplo. Mulheres e homens no andavam vestidos de italianos, poloneses, portugueses ou
outras referncias deste tipo. Andavam como criciumenses daquele perodo, com as possibilidades que lhes
estavam colocadas. Ver exemplo disto em foto apresentada nesta tese no ensaio Futuro do Pretrito: Um
aniversrio bem festejado.

136

H outro padre, em outro presente. Carlos Wecter foi proco da igreja Santa
Brbara, no bairro de mesmo nome, entre 1964 e 1974. Apontado pela maior parte da
populao daquele bairro, colado ao centro da cidade, como um grande fazedor de festa da
padroeira dos mineiros, padre Carlos foi o organizador de um outro desfile. Em 1972, durante
o cortejo da imagem de Santa Brbara do Bairro So Cristvo Parquia Santa Brbara,
passando pelo centro da cidade, em cima da carroceria de um caminho, o padre falava ao
microfone: Vejam senhores comerciantes e mineradores, estes so os homens que lutam pela
sua sobrevivncia e arriscam suas vidas nas minas. Olhem pra eles. Alguns sem braos,
outros sem pernas, outros em cadeiras de rodas250.
Animadas com o desfile que seus filhos participariam naquele sete de setembro de
1976, as senhoras Zonilda e Maria das Dores estavam tambm orgulhosas. Era o primeiro
desfile dos filhos na escola com o nome de Filho do Mineiro situada no bairro Metropolitana.
A tristeza chegou quando souberam que seus filhos desfilariam trajados de mineiros. Sujos de
carvo e carregando uma lanterna, como todo mineiro. Aquilo era para elas ver transferida
nos filhos a experincia diria acompanhada cada qual com seu marido mineiro. Foram
solicitar diretora uma mudana no traje. Encontrada a soluo. Um dos meninos desfilou de
Lobo Mau, o outro de Mickey Mouse251. Alm de um time de futebol famoso na dcada de
1960252, o bairro agora tinha sinal de televiso chegando nele.

250

Trecho de depoimento concedido a mim pelo Padre Carlos Wecter, na cidade de Nova Veneza, em 17-102000.
251
Episdio relatado a mim na cidade de Cricima, por Maria das Dores Silveira Campos, em 21-07-2002.
252
O bairro Metropolitana, lugar onde a explorao do carvo foi muito intensa, entre as dcadas de 1950 e 1970
conseguiu projeo na cidade de Cricima. Eram muito concorridos os bailes de carnaval realizados no Clube
Recreativo e Esportivo Metropolitana. Ainda em 15 de novembro de 1945 havia sido fundado o Metropol
Esporte Clube, modesto clube de um pequeno bairro de Cricima. Mas em 1959, com dificuldades para por fim a
uma greve mineira que mexia com a cidade, os dirigentes das Companhias Carbonfera, em especial o diretor da
Cia. Metropolitana, senhor Dite Freitas, profissionaliza o time do bairro, contratando jogadores de prestgio
nacional e investindo forte na idia do futebol como aliviador de tenses. A profissionalizao se efetiva em
1960, com a sociedade Freitas-Guglielmi administrando o clube atravs da Carbonfera Metropolitana. O
Metropol ganha fama na dcada de 1960, se consagra tri-campeo catarinense, disputa o campeonato brasileiro,

137

Quando foram vistos aqueles tratores no centro da cidade, fazendo barulho,


pisando nas estradas com o vigor de suas rodas de mquinas imponentes, a populao que
assistia o desfile se perguntou: E essa agora?. Como podem falar em preservao,
agricultura e outras coisas do gnero se em nome de uma tradio de explorao desenfreada
viramos as costas para isto tudo? Mas as mquinas continuavam por ali, e eram barulhentas.
Em realidade o barulho, mansamente comeou a ser produzido um pouco antes daquele ano,
1996.
Corria o ano de 1989 da graa carbonfera e preocupados com o avano da
minerao de carvo realizada pela CSN, poca estatal, no subsolo de um morro
ironicamente chamado Albino253, alguns homens moradores do local, entre eles engenheiros
agrnomos e agricultores, iniciam uma luta com tino delimitado: Preservar o ltimo
manancial de gua potvel e terras agricultveis em Cricima. Em 1990 aprovada por
unanimidade na cmara de vereadores a lei 2.459 de oito de junho do mesmo ano, e mais que
um simples nmero, tal lei declara rea de proteo ambiental os Morros Estevo e Albino. A
lei de autoria do vereador Vital Plotegher recebe o apoio do executivo municipal, sendo
prefeito Altair Guidi, o prefeito do Centenrio e tambm da Quermesse. Guidi nunca fez

na poca chamado de Taa Brasil e faz uma excurso pela Europa. Foi o primeiro time catarinense a realizar
uma viagem deste porte. A sociedade se desfaz em 1969 e com ela o time profissional chega ao fim. possvel
hoje chegar no Clube Metropolitana e ainda ver, numa sala pequena e pouco cuidada, os trofus obtidos pelo
time. Atualmente (2003) o bairro Metropolitana no possui nenhuma mineradora em atividade. Aos domingos
ainda se realizam jogos. Os jogadores so em sua maioria moradores do bairro. O cenrio desolador. A pirita
colocada nos fundos das runas do antigo Estdio Euvaldo Lodi, inaugurado em 23/12/1952, do conta de
informar o abandono que est colocado o bairro, onde funciona alis uma escola pblica municipal de nome
Filho do Mineiro. Os mais velhos torcedores do clube parecem ainda acreditar numa volta do Metropol aos
seus grandes momentos. Como j disse Jos da Silva Junior, hoje jornalista conhecido no pas e que tem
familiares ainda no bairro, so homens que se alimentam de lembranas. Este um tema que gostaria de
desenvolver mais vagarosamente e com maior densidade. Contudo, dado aos recortes que realizei no foi
possvel tal lentido. A fundao cultural de Cricima desde de 2001 vem estudando o Caso Metropol e
buscando alternativas para se visibilizar esta memria. Para um estudo mais cuidadoso sobre o time de futebol
Metropol, ver: SILVA JUNIOR, Jos da. Histrias que a bola esqueceu a trajetria do Esporte Clube
Metropol e de sua torcida. Florianpolis: CMM Comunicao, 1996.
253
O nome deriva de uma expresso italiana: Alba. Chegando no local no final do sculo XIX, no momento a
alvorada (Alba em italiano), e admirando a beleza que de cima do morro era possvel vislumbrar, lhe deram o

138

muita questo em ser simptico, para usar uma expresso inteligvel, ao setor carbonfero. No
corpo da lei, precisamente seu art. 5, era permitido ao chefe do executivo, mediante decreto,
restringir, proibir ou permitir, atividades econmicas ou no que causassem poluio no ar,
solo ou guas na regio. A tradio dos governos brasileiros de legislar sob decretos estava ali
presente. Quando a lei foi aprovada, a situao de explorao de carvo em Cricima j era
difcil, como se pode perceber nesta tese e em outros trabalhos254.
Em 1992, aps inmeras discusses, a Carbonfera Prspera vendida ao
minerador Realdo Guglielmi, de descendncia italiana e membro representante dos
empresrios do setor carbonfero da regio. criada a companhia Nova Prspera. Em maio de
1995, as comunidades de Morro Estevo e Albino percebem furos de sondas naquela regio.
Feito vulco que desperta de um longo sono, as sondas pareciam cuspir fogo sobre as
comunidades. O medo se instaura. deste sentimento que se produz as primeiras reunies
com os membros das comunidades. Em agosto de 1995 eles se renem inicialmente na cmara
de vereadores, sabendo que no seria fcil derrotar um paradigma de existncia que era at
ento a ao carbonfera na cidade. Bem articulados, convidam para a reunio o promotor
pblico Jacson Correa, que sugere a criao de uma ao pblica.
Era setembro de 1995 quando ocorre uma grande reunio com as comunidades
envolvidas, em Morro Estevo, da qual participam mais de 300 pessoas. Naquela reunio
seria criada a comisso de trabalho que iria montar um levantamento completo dos
mananciais de gua e do meio ambiente da regio. Em novembro este levantamento se
encontra pronto e entregue no Centro das Promotorias da Coletividade, e encaminhado ao

nome de Morro Albino. No existe um consenso para o nome, mas entre outras possibilidades que me foram
contadas, esta que apresento me parece mais viva entre as pessoas do local.
254
Ver introduo e ensaio sobre a Quermesse. Entre outros trabalhos sobre o tema destaco o de Jos Paulo
Teixeira, in: [Link]. Os donos da cidade. Florianpolis: insular, 1996.

139

promotor como ao pblica. O relatrio com o qual tive contato muito bem elaborado e no
resisto tentao de deixar aqui assinalado uma de suas partes. O histrico deixado para a
promotoria busca em famlias tradicionais

em sua maioria italianas seus feitos.

Contudo, o movimento muito mais amplo que apenas uma conveno histrica pode dar
conta. Vejamos:
A colonizao efetiva do Morro Estevo iniciou-se nos idos de
1890, quando as famlias Zanette, Lutemberg, Bortuluzzi, De
Luca, Dagostim, Dal To, Bortogollo, Dal Pont, Tognon entre
outras, l fincaram suas bandeiras da colonizao, iniciando um
processo, j naquela poca, de preservao ambiental, pois ainda
hoje, nota-se matas nativas que cobrem grande parte do referido
local. Nestas condies dedicavam-se exclusivamente
agricultura, ao manuseio de gado leiteiro e criao de sunos, cuja
comercializao era feita na prpria regio e estendia-se at o Vale
do Ararangu e Pedras Grandes. (...). Grandes personalidades
daqui saram, dentre as quais, destaca-se Joo Zanette que foi o
primeiro conselheiro de Cricima e, seus restos mortais
encontram-se sepultados no cemitrio de Morro Estevo. Ana
Casagrande , esposa de Joo Zanette, encontra-se perpetuada no
Museu de Cricima, batizado com seu nome255.

Um conselho, segundo Walter Benjamin, se conecta necessidade de se continuar


narrando algo, e neste caso o que se podia ouvir entre a gente das comunidades era que gato
escaldado tem medo de gua fria. Os agricultores no esperavam outra postura dos
mineradores e tambm dos mineiros que no fosse a tentativa de minerar nos Morros. A
campanha que desenvolvem a partir das comunidades alcana ressonncia em vrios
segmentos: entre empresrios, entre polticos, entre movimentos sociais, igrejas256. O
documento j citado, em seu fechamento diz o seguinte:

255

Documento protocolado pelo Centro das Promotorias da Coletividade, no Frum de Cricima.


Na documentao disponvel que est com Ricardo D. Zanette, foi possvel constatar vrias entidades e
associaes fornecendo apoio ao movimento de preservao. So exemplos: EPAGRI, IAB-Instituti de
Arquitetos do Brasil SC, Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Cricima, ASCEA Associao Sul
Catarinense de Engenheiros e Arquitetos, AEASC Associao dos Engenheiros Agrnomos de Santa Catarina,
COOPERA Cooperativa Mista Pioneira Ltda., Prtico Comercial de Cricima, RG Bastos Indstria de
Mveis Ltda., Diocese de tubaro Comisso Pastoral da Terra. Um ltimo apoio apresentado de forma lacnica

256

140

A comunidade do Morro Estevo questiona: para atender


interesses econmicos de uma empresa valido agredir o ambiente
em equilbrio em prejuzo de mais de cinco mil pessoas que
dependem direta ou indiretamente da riqueza do solo, da gua em
abundncia e da boa convivncia com a natureza???257.

Depois destas mobilizaes, a Cmara Municipal deu nova forma lei 2.459 de
oito de junho de 1990, proibindo sob quaisquer

hipteses a minerao ou atividade

depreciadora do meio ambiente. Foi criada ento, em novembro de 1995 a lei 3179, aprovada
por unanimidade novamente. Os problemas estavam apenas comeando...
A companhia Nova Prspera, que na oportunidade tinha uma mineradora em
atividade no bairro Verdinho, prximo aos Morros Albino e Estevo, comeava a ter
dificuldades na explorao de carvo. Parte ento da empresa o desejo de minerar em Morros
Albino e Estevo, j que era certo que havia uma jazida considervel de carvo no subsolo
destes Morros. Nos discursos realizados na Cmara de Vereadores quando da aprovao da
lei, com grande presena dos moradores dos Morros Albino e Estevo, se pode perceber o
apoio de todos os vereadores causa, embora no desfecho final as coisas tomassem outros
rumos. Vejamos algumas partes destas falas:
Vereador Vital Plotegher: (...) foi elaborado uma rea de reserva
ambiental, uma pequena arma na tentativa de impedir as minas de
fazer a extrao de carvo naquela rea (Morros Albino e Estevo).
Os anos foram passando, houve paralisao das minas, no houve
mais ameaa, e a comunidade ficou quieta. Agora com manifesto

me chamou a ateno: da a Ricardo Zanette, presidente da comisso de proteo ambiental dos Morros, ELIANE
Revestimentos Cermicos, umas das maiores empresas de cermica do pas , informa nesta carta que: A
unidade IV, localizada na Rodovia Luiz Rosso km 4, Morro Estevo, consome diariamente 66.000 litros de
gua por dia, na fabricao dos revestimentos cermicos, assinando o Sr. Jovani Fernandes, gerente industrial.
Perguntado o porqu do tom lacnico e pouco comprometido da carta, Ricardo Zanette relata que as cermicas
tinham receio de comprar briga com as carbonferas . Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima em
13-07-2002.
257
Extrado do documento j citado. O referido documento foi assinado por Ricardo D. Zanette (presidente da
comisso do movimento), que gentilmente tambm me concedeu vrios depoimentos que apresento em
diferentes momentos nesta tese.

141

dos mineradores de voltar a explorar, retornou a preocupao.


Vereador Manoel Satiro: Dirijo-me s comunidades dos Morros
Estevo e Albino aqui presentes: A poluio provocada pelas
minas grande na regio em que moro (Boa Vista) a gente sofre
com 21 hectares de pirita a cu aberto. (...) Ns sabemos o quanto
sofre o mineiro e quanto ns sofremos tambm, ns que somos da
periferia (...) e se vocs no se cuidarem e no tiverem acesso (a
preservao) vocs tambm vo ter (problemas com a poluio).
Vereador Valdemar Serafim: Com relao ao substitutivo, ns
acreditamos que vamos obter aprovao por unanimidade, j votei
no projeto anterior, acho que de suma importncia, e injusto
que uma meia dzia de empresrios, que enriqueceram nas costas
dos pobres, que queiram tirar o pouco verde que ns ainda temos,
que Cricima tem, levando a minerao para Morro Estevo,
Morro Albino e outras localidades258.

Conforme comentado, a lei aprovada por unanimidade, aumentava a rea de


preservao, antes de 2.970 hectares, para 3.600 hectares. Voltando Companhia Nova
Prspera, a mineradora coloca a seguinte situao aos criciumenses: tem-se no Verdinho, 480
mineiros trabalhando. L j no existe mais nada a ser explorado. Ento se a Cmara
Municipal fornecer autorizao para minerar nos Morros Estevo e Albino, reduzindo a rea
de proteo de 3.600 para 1.500 hectares, os empregos sero mantidos, caso contrrio no
poderemos garanti-los. A situao criada era bastante delicada e vai dividir opinies,
pareceres, aes259.
O Ministrio Pblico do Estado de Santa Catarina, representado pelo promotor
Jacson Correa, entra com Ao Civil Pblica contra a Nova Prspera Minerao S.A. em
dezembro de 1995. O Juiz Jnio Machado concede liminar proibindo a minerao at o
julgamento da Ao. Em seguida, janeiro de 1996, a Nova Prspera consegue o efeito

258

Trechos da Ata 58 da Sesso Ordinria da Cmara Municipal de Cricima. Disponvel no citado local.
Uma professora universitria envolvida com os movimentos sociais da cidade comenta: naquela
oportunidade ns no sabamos ao certo de que maneira posicionarmos. Se ficvamos junto aos mineiros ou se
ramos solidrios causa ambientalista e dos agricultores dos Morros Estevo e Albino. Uma coisa era certa: a
cidade tava mudando. Depoimento concedido a mim por Marli Costa na cidade de Cricima, em 21-04-2001.

259

142

suspensivo desta liminar. A cidade, antes capital brasileira do carvo, comea desejar respirar
novos ares. Em pequeno trecho da Ao Civil se pode ler:
Os operrios das minas, antes atrados pela esperana de uma
vida mais digna, tambm foram lenta e gradativamente sendo
corrodos pelas doenas adquiridas em razo das condies hostis
de trabalho, transformando-se ao longo do tempo em uma legio
de invlidos. A situao agravou-se a tal ponto que em sua fase
urea, a poluio atmosfrica decorrente da explorao das jazidas
de carvo respondeu de cerca de 70% das internaes hospitalares,
isto somente aqui, que tais tempos ostentou com orgulho o ttulo
de Capital Nacional do Carvo.260

No inicio de abril, junto s guas que fecharam o vero, num dia quente, mais de
cem tratores e mquinas agrcolas desfilam pela cidade, estacionando em frente do Frum
Municipal, poca situado bem no centro. A cidade comea a ter uma idia mais viva da
fora e organizao daquele movimento, e especialmente a imprensa local passa a dar
visibilidade a ele. Voltaremos ao tratorao mais frente.

Cena do Tratorao

Foto: Mauricio Vieira / Jornal da Manh.


Cricima, 03 de abril de 1996, capa.

260

Cena do Tratorao

Foto: Mauricio Vieira / Jornal da Manh.


Cricima, 03 de abril de 1996, p. 05.

Parte da Ao Civil Pblica assinada pelo promotor Jacson Corra e disponvel no Frum de Cricima.

143

Em maio se realiza uma grande missa campal, sendo que em seguida o


movimento ir receber (junho) uma moo de apoio da CNBB. Ainda no mesmo ms sai o
resultado da Ao Civil. O Juiz Jnio Machado julga o municpio competente para agir em
relao ao meio ambiente e confirma a proibio minerao de carvo sob a rea de
proteo ambiental dos Morros Estevo e Albino. Seguem-se vrios depoimentos dos
agricultores e moradores daquela regio, todos afirmando a solidez do movimento e tambm
sua organizao.
Em outra dimenso, causava surpresa a fragilidade organizacional dos mineiros
muitos acreditam agora (2002) que o despertar foi tardio e mais ainda do minerador Realdo
Guglielmi. Ao que tudo indica, acreditando no prestgio social que contavam, mineiros e
minerador apostavam numa resoluo a favor da minerao. Em junho se esgota o prazo para
que a empresa mineradora recorra da deciso. No dia seguinte ao fim do prazo, a empresa
anuncia o encerramento das atividades e a demisso de 480 funcionrios. Quando todos
acreditavam que tudo estava resolvido, foi justamente a partir disto que se iniciou a etapa
mais difcil para a consolidao da rea de proteo ambiental.
O sindicato dos mineiros inicia campanha para derrubada da lei. O vereador Jos
Paulo Serafim (em 2002, deputado estadual), que nas duas oportunidades de votao da lei de
proteo ambiental, se manifestou a favor de sua manuteno, era morador da regio do
Morro Estevo e tambm vice-presidente do sindicato dos mineiros. Os mineiros, em grande
medida, constituam a base eleitoral de Jos Paulo Serafim. Mineradores e mineiros, que de
longa data sempre tiveram um relacionamento difcil, agora estavam juntos. Uns no

144

querendo perder as benesses que o carvo havia lhes fornecido261, outros desejando manter
seu emprego. Junto a isto uma cidade com diferenas fervilhando.
Desde a deciso tomada seguiram-se, entre junho e setembro de 1996, vrias
sesses na Cmara de Vereadores, sempre muito tensas, marcadas pela presso psicolgica e
ameaas fsicas262. A Cmara solicita realizao de laudo tcnico para auxlio na tomada de
deciso. Os mineiros, em aviso prvio trabalhista, deixavam claro que o desejo maior era a
preservao do emprego e no do meio ambiente263. A falta de credibilidade que as
mineradoras tinham frente populao criciumense no sentido de minerar sem causar danos
ao ambiente era muito grande264.
Ao menos trs laudos so emitidos por instituies265 e pesquisadores distintos e,
apesar do protesto dos mineiros, em todos eles houve o condicionamento da explorao
carbonfera ao prejuzo do meio ambiente, especialmente dos recursos hdricos. deciso
judicial no cabia mais recurso, mas a Cmara poderia alterar a lei.
A proposta da reduo da rea de proteo ambiental de 3.600 hectares para 1.500
foi assinado por sete vereadores e encaminhado para tramitao pelo vereador Jos Paulo

261

A explicao dada pelo empresrio Realdo Guglielmi foi a seguinte: Decidi desativar o setor de produo
da Nova Prspera e rescindir contrato com a CSN pois a mesma me informou sobre a legislao de 1990, que j
impedia as atividades das minas A (em atividade) e B, projetada para 1995. Cansei de ser pressionado e vou
cumprir a deciso da justia. In: Jornal da Manh. Cricima. 16-06-1996, p. 8
262
Em vrios depoimentos, colocados nos jornais, os vereadores se mostram pressionados. Em depoimento
concedido a mim na cidade de Cricima, Ricardo Zanette relata que nestes meses era muito comum receber
ligaes em sua casa ou empresa ameaando sua integridade fsica. Fato compartilhado tambm por alguns
agricultores envolvidos no movimento. In: Depoimento j citado.
263
Ver entre outras notcias aquela veiculada em 17-06-1996, p. 6, no Jornal da Manh: ecologia assunto pra
conversar l fora do sindicato, aqui ns queremos emprego com ou sem preservao ambiental.
264
Vrios vereadores nesta poca diziam isto abertamente imprensa. Casos, por exemplo, para ficar apenas
neles, das vereadoras Maria Dal Farra Naspolini e Ivone Farias. A primeira afirma o seguinte: se hoje 480
mineiros ficaram sem emprego em conseqncia do fechamento da mina, com a mudana na lei, 700 famlias de
agricultores podero ficar sem terra frtil para tirar seu sustento. A segunda coloca que: os agricultores tem
seus motivos para no acreditarem que possvel minerar e ao mesmo tempo preservar o meio ambiente. Eles
tm muitos motivos para desconfiarem In: Jornal da Manh. Cricima, 04 jul de 1996, p.7.
265
Entre estas, trs universidades: UNESC, UDESC e UFSC.

145

Serafim266. O mesmo vereador deixa claro que os mineiros no reconhecem competncia nos
tcnicos do Estado de Santa Catarina, especialmente os indicados pela UFSC. Assim mesmo,
em outubro de 1996, uma parceria da UFSC com a UNESC conclui o laudo tcnico, favorvel
aos agricultores. Enquanto isso os mineiros esto desempregados, alguns deles trabalhando
gratuitamente na mina para evitar que a mesma seja inundada por falta de manuteno.
Naquela situao, a Prefeitura, no dia primeiro de agosto, lana o programa da VIII
Quermesse: Tradio e Cultura.
Um ltimo laudo envolvendo profissionais da USP, UFSC e UDESC foi
concludo. Exposto em mais de quatro horas na Cmara de Vereadores. Nele, o representante
dos mineiros, Jos Paulo Serafim,

reconhece a importncia das colocaes, mas acaba

dizendo que parece que o resultado deste diagnstico acabar com a categoria, entendo
que pode ter minerao de forma responsvel, ao que responde o gelogo Aldo Cunha
Rebouas:a execuo das tarefas na rea em questo implica em fatores limitantes, no
possvel assegurar que no haver riscos267. Aps incontveis adiamentos, marcada a
sesso da Cmara dos Vereadores. Por vislumbrar uma sesso tensa, os vereadores decidem,
como medida de segurana, transferir a sesso para o Frum municipal. Era chegada a hora da
ona beber gua.
Estavam todos l. Ou quase todos. Boa parte dos agricultores que participaram do
Tratorao, mais os mineiros, polcia, vereadores, promotor, juiz, curiosos, sorveteiros,

266

O poder executivo tambm se manifesta. O prefeito poca era Eduardo Moreira, atual vice-governador do
Estado de Santa Catarina, assume para a prefeitura os custos envolvidos nos laudos tcnicos que precisavam ser
realizados. O projeto custou 12 mil reais, fora custos com hospedagens e transporte.
267
Jornal da Manh. Cricima, 02 nov de 1996, p.5. No referido laudo tcnico, em sua parte conclusiva
possvel encontrar: Em relao aos aspectos econmicos tem-se claro que a conservao do uso do recurso a
longo e indefinido prazo mais determinante para a estratgia do desenvolvimento sustentvel, do que a maior
rentabilidade mercadolgica que poderia ser auferida de imediato em sua explorao submetida ao risco da
escassez ou at mesmo da extino do recurso In: Diagnstico Preliminar dos impactos da minerao na rea

146

fotgrafos, gente da imprensa. O dia 12 de novembro de 1996 comeou quente. Naquela


tera-feira, desde muito cedo, faixas e mquinas dividiam espao com muitas pessoas. O
vereador Jos Argente que j havia se manifestado favorvel causa ambiental foi vaiado e
xingado ao entrar no Frum para a votao. O som no alto falante dizia: se mineiro perder,
pau vai comer. Os momentos de luta do movimento dos mineiros haviam voltado, mas no
era o mesmo, tampouco era a mesma cidade. Mesmo porque, o passado enquanto tal somente
pode voltar como no identidade consigo mesmo268. O futuro estava aberto. Todos
aguardavam o resultado da votao, realizada em aberto pelos vereadores. A ex-capital do
carvo assistiu ativamente vitria dos agricultores por doze votos contra oito, sem a
necessidade do voto do presidente269.
Sobre o resultado, comentaria Ricardo Zanette, presidente da Comisso de
Preservao Ambiental de Cricima: Nesta batalha, no houve vitoriosos nem derrotados.
Todos ganhamos com a manuteno da lei, evitando que a rea de preservao ambiental
fosse minerada. Afinal o futuro de Cricima que estava em jogo, e os 12 vereadores que
votaram pela preservao, certamente sero lembrados com orgulho pelas geraes
emergentes270. Carlos Antunes, 40 anos, tcnico em minerao, que trabalhou na antiga
CSN (Nova Prspera), comentaria posteriormente o episdio271: eu acho que os agricultores

do Morro Estevo e Morro Albino Cricima S.C. disponvel na Cmara de vereadores e na biblioteca da
UNESC em Cricima.
268
GABNEBIN, Jeanne Marie. Histria e narrao em Walter Benjamin. So Paulo: perspectiva, 1999, p 14.
269
Os votos foram dispostos da seguinte forma: A favor dos agricultores: Jos Argente Filho (PFL) Marcio
Zaccaron (PSDB), Adair Locks (PPB), Vital Plotegher (PMDB), Vilson Faraco (PPB), Itamar da Silva (PPB),
Maria Dal Farra Naspolini (PSDB), Albertino Pacheco (PDT), Ivone Faria (PFL), Luis Dal To (PFL), Astor dos
Santos (PPB), Valdemir Rosso (PPB). A favor dos mineiros: Manoel Satiro (PDT), Perez Dutra Lemos (PPB),
Jos Hilariano (PMDB), Agecy Xavier (PMDB), Jos Paulo Serafim (PT), Antnio de Jesus Costa (PMDB),
Tadeu Mossmann (PMDB), Ado da Silva (PMDB). Informaes obtidas junto Cmara de vereadores.
Tambm disponvel, contudo sem relao dos nomes com os partidos, na edio do Jornal da Manh do dia 14
de novembro na pgina 10.
270
Tribuna Criciumense. Cricima: 16 de novembro de 1996, p. 07.
271
Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima em 22/06/2000. Continuaria ainda Carlos Antunes: No
Japo tiram carvo at do oceano, mas aqui em Cricima a gente sabe como , minerador fala que vai explorar
sem poluir, consegue licena, depois alega que deu um problema e tal..da o estrago j foi feito. Por isto acho

147

mostraram grande capacidade de organizao, ajudados que foram tambm por movimentos
mundiais que se dedicam preservao ambiental. Para Cricima foi positiva a preservao
dos mananciais e do verde. Cricima contava nesta poca com aproximadamente 160.000
habitantes, sendo que 90,45% deles situavam-se na rea urbana da cidade e o setor agrcola
respondia por apenas 4,8% da populao economicamente ativa da cidade, o que fornece uma
relevncia considervel deciso tomada272. A cidade agora tinha tambm outras
preocupaes alm daquelas voltadas apenas s conquistas econmicas.
Pedras, gritarias, depredao, espancamentos, perseguies, prises. O prdio do
Frum teve quase todas as suas vidraas quebradas, e no final de todo o protesto foram presas
nove pessoas273, oito mineiros entre estes o vereador Jos Paulo Serafim e um estudante
universitrio. No dia seguinte Cricima ganhava a manchete de quase todos os maiores
jornais do estado, bem como rdio e televiso local, estadual e nacional. Todos queriam
entender o que havia acontecido.
Sete dias depois, sob fiana paga com dinheiro arrecadado entre vrias pessoas,
so libertados os presos. As nove pessoas acompanhadas por familiares e amigos realizam
uma passeata, um desfile pela Avenida Getlio Vargas em direo a Praa Nereu Ramos. O

que a medida, apesar do custo social inicial, foi correta. Em realidade o depoimento de Carlos Antunes, exmineiro, atualmente um micro empresrio bem sucedido no setor de panificao, refora a idia de que havia
chegado o fim da onipresena dos mineradores em decises significativas para a cidade. Ao menos o fim de um
famoso Pipocas Club, um lugar conhecido de muitos na cidade e freqentado por um seleto grupo de
empresrios, do carvo em sua maioria, que durante muitas dcadas, se pode dizer ao menos at 1988, tinha a
capacidade de indicar muitos dos destinos que tomaria a cidade. Segundo o que se fala, ressalto que
virtualmente inexiste documentao comprobatria, muitas eleies foram decididas nos encontros realizados
no tal Clube, do qual hoje existe apenas uma porta de metal a encerrar suas histrias. No fechou, dizem,
implodiu.
272
Informaes obtidas in: Plano Bsico de Desenvolvimento Ecolgico-Econmico - PBDEE. Cricima:
UNESC, 1997. Ver pginas 208 e seguintes. Os dados aqui apresentados so relativos ao ano de 1995, exceo
feita a PEA que relativa a 1991.
273
A relao dos presos a seguinte (mantidas as idades e as funes de cada um em 1996): Jos Paulo Serafim,
vereador e sindicalista, 37 anos, Celso Delmar Ianke, mineiro desempregado da Nova Prspera, 37 anos; Jos
Ana Vicente, motorista desempregado, 47 anos; Edevaldo de Oliveira, estudante de direito, 29 anos; Arlindo
Barzan, presidente da Federao Interestadual dos Mineiros, 52 anos; Jos Luiz Rodrigues, mineiro, 33 anos;

148

cacho de bananas alado ao pescoo do mineiro de bronze. No coube ao presente realizar a


promessa de um passado carvoeiro. As bananas colocadas no pescoo de bronze foram
celebradas em festa. Conectada manifestaes politicamente corretas e a novas
sensibilidades em relao ao meio ambiente, em 1997 se realiza uma campanha entre
agricultores, gente da indstria, da Universidade local (UNESC), Epagri, empresas cermicas,
no sentido de uma maior conscientizao ecolgica. Aps grande esforo, criada em
dezembro de 2000 a CEMEA (Conscincia Ecolgica Meio Ambiente), uma Organizao
No Governamental sinal explcito da chamada nova forma de organizao social dos
Morros Estevo e Albino. Em outubro de 2001 se realiza a Primeira Festa da Banana e
derivados, no Morro Estevo. Nesta festa o artista plstico Edison Paegle Balod (conhecido
como Edi Balod) coloca um cavalete com fotos da minerao em Cricima, justo naquele
lugar. As bananas e os homens que as cercam nesta alegoria ligam imagens a sentidos, se
opondo ao ideal de eternidade de um mundo do carvo ou da agricultura. Inicia uma nova
histria. Que no se repete. Nem como tragdia, tampouco como farsa. preciso estar atento
aos desfiles.
Desejo: J se falou muito sobre a situao de Cricima nas dcadas de 1980 e 1990, aqui
nesta tese como em outros tantos trabalhos. E falar, falar, falar algo que cansa tanto quem o
faz quanto quem escuta. Deleuze lembra disto em seu Abecedrio274. Estou por conta e risco
ligando fala e escrita, criando um agenciamento, pois bem da ausncia de uma fala desejosa
e caadora de encontros que gostaria de escrever quando falo da cidade de pedras. Os

Joceni Lopes, mineiro soldador, 42 anos; Vanderlei Gomes, mineiro da CBCA, 35 anos, Gelson Luiz Paes,
mineiro eletricista, 35 anos. Dados publicados in: Jornal da Manh. Cricima: 15-16-17 novembro de 1996, p.7.
274
Falar fazer charme diz Gilles Deleuze. O abecedrio de Gilles Deleuze resultado de uma srie de
entrevistas, em trs partes, oito horas no total, realizadas com Deleuze por Clarice Parnet. Neste trabalho aparece
uma face muita divertida e espontnea do filsofo, e sua leitura muito me ajudou a construir idias para este
pequeno dicionrio. O abecedrio no foi publicado ainda em portugus. Contudo, existe um mimeo traduzido
por Tomaz Tadeu da Silva com a autorizao fornecida por Charles J. Stivale, a partir do ingls. H tambm a
mesma verso disponvel na Web.

149

agenciamentos275 mais conhecidos e duramente castigados por sua conduta radical, como o
momento solicitava que fosse assim mesmo parte considervel da sociedade os tenha
condenados justamente por isto so aqueles promovidos pelos movimentos sociais entre
1990 e 1991, de onde foram produzidas aes no sentido de garantir empregos, evitar a
evaso de trabalhadores da cidade e superar a crise que a privatizao da CSN (efetivada em
1993) havia gerado na economia de Cricima. Na crise visvel que a cidade atravessou e que
talvez, em sentido diacrnico, nunca tenha sado dela, existe os interditos, as correntes de
fuga.

Construir territrios deslizantes, como aqueles onde deveriam ser colocados os

desempregados, desterritorializar outros, como aquele em que habitava o medo de no ter


como tocar a vida, medo da reverso demogrfica276; so enunciaes daquele momento.
Aes movidas pelo desejo. O grande interdito, a alta corrente de fuga o desejo. Se h algo
de positivo na insistncia em se pensar na crise, acredito que isto deve ser condicionado
emergncia do desejo.

Estamos conversando sobre um momento em que os desejos

explodem. Partindo deste olhar se pode dizer que a crise maior foi aquela em que, para se
manter o peso de uma tradio: a extrao do carvo, era tacitamente quase proibido desejar.

275

Tomo a noo de agenciamento cunhada por Gilles Deleuze: agenciamentos referem-se a estados de coisas,
de forma que cada um de ns pode encontrar o estado de coisas que lhe serve. Agenciamento implica em
territrios (...) e em processo de desterritorializao. DELEUZE, Gilles. O Abecedrio de Gilles Deleuze.
Traduzido do ingls por Tomaz Tadeu da Silva. Digitado.
276
Muitos desempregados, especialmente do setor carbonfero tiveram que encontrar ou fazer acontecer outras
possibilidades de trabalho. Estes tiveram participao no crescimento do setor de servios (abrindo, quando
possvel, pequenos negcios) e tambm do setor informal (vendendo churrasquinhos, pipoca, trabalhando como
sacoleiros, cambistas). A reverso demogrfica se mostra por um perodo breve, mas contundente, iniciado com
a emancipao poltica de Forquilhinha, em 1989, antes distrito de Cricima, e segue com a evaso de muitas
pessoas da cidade, especialmente procura de empregos e melhores condies de vida, elementos estreitamente
relacionados a fenmeno de emigrao para a Itlia e Estados Unidos. Se inicia tambm neste momento, a
criao de condomnios fechados e de reas mais seguras e tranqilas destinadas s classes mdia e alta. Fica
bastante conhecida na cidade neste perodo a construo de uma manso no bairro So Simo, de classe mdia
baixa, de propriedade do empresrio Paulo Freitas, ligado ao setor carbonfero. A comunidade at hoje se
pergunta: o que esta casa faz aqui?. Tambm profissionais liberais e pequenos e mdios empresrios j desde
do incio da dcada de 1990 comeam a migrar de suas antigas residncias, localizadas no centro da cidade, para
lugares, vistos por eles, como mais tranqilos. o que atualmente acontece com a regio do Morro Estevo onde
um condomnio fechado (Lago Dourado) formado por casas bem planejadas foi construdo recentemente. Isto,
contudo, no neutraliza o crescente processo de acentuao vertical que o centro da cidade e suas imediaes
vem sofrendo, com maior fora, nos ltimos cinco anos, devido ao aquecimento do setor de construo civil e
imobilirio (ver discusso a respeito no ensaio sobre a Quermesse).

150

certo que a linguagem mais convincente, diria melhor, explcita e simultaneamente


imaginativa para criar um ambiente de compreenso para o desejo e, mais ainda para os
desejos em Cricima, a cinematogrfica.
A identificao foi imediata. As imagens mostravam um outro lugar, menos
poludo, o verde ainda vivia e tinha at flores, mas os contatos, os olhares, as falas, as
cobranas eram muito semelhantes. Apenas semelhantes,

no se repetiam.

Em Billy

Elliot277, um menino com seus onze anos, morador de um pequena cidade na Inglaterra cuida
da av, vive numa famlia em srias dificuldades financeiras. O irmo mais velho trabalha na
minerao quando isto possvel pois os tempos bicudos rareiam aquelas atividades. O pai
tambm mineiro. Eles queriam apenas viver. Do pouco dinheiro que tinha o pai ainda
separava algum para pagar aulas de boxe para o filho, orgulho mximo para um minerador: o
filho lutador. A interdio impedia a percepo de que o menino j era um lutador feito ao
nascer. Billy manifesta desejo em aprender a danar, melhor, em ser bailarino. A recusa em
se inserir nos processos de serializaes do desejo sempre vista como desvio, esquisito e se
investe na sua interdio. Como algum na periferia da cidade de pedras pode pensar em
estudar: fazer faculdade? Para que? Negar o cio baixar a mina. E aqueles que no queriam
estudar nem baixar a mina? Que desejos lhes eram permitidos? Mdicos passam a ser
professores, estes so jogadores de futebol, estes so mineiros, estes durante muito tempo
foram exatamente isto278. Mais os desejos antes bem pontuais agora alcanavam uma
dimenso mais ampla.

277

Filme: Billy Elliot. Direo: Stephen Daldry. Roteiro: Lee Hall. Inglaterra, 2000, 111 minutos.
Acredito que em quaisquer cantos de Cricima, at ao menos fim da dcada de oitenta, especialmente na
periferia operria, muitos desejos foram inviabilizados. Penso nos muitos amigos que tive at meus 17 anos,
mais capazes do que eu de escrever sobre isto, tenham abortado seus desejos. Eram muitos. Meninas
transformadas em mulheres prematuramente atravs do casamento, meninos que de escritores, mdicos,
pescadores, mineiros, foram pela falta, transformados em sobreviventes, apenas. A prtica discursiva colonial,

278

151

Estar atentos aos inconscientes que protestam e nas cartografias que o desejo vai
traando, diferentes micropolticas, que correspondem a diferentes modos

de insero

social279. A partir daqueles agenciamentos colocados no incio, os criciumenses entravam


definitivamente no processo de serializaes subjetivas, transformados em produtores das
linhas de montagem do desejo: de cuidar do meio ambiente, de ter segurana no emprego, de
ir embora para poder ficar mais, de fazer festas, de ser cosmopolita. Desejos quase sempre
padronizados pela economia capitalstica, hoje dita globalizada. A cidade desejosa.

Memorial Che Guevara

Foto: Emerson Csar de Campos

Bairro Progresso (Cricima)


Foto: Emerson Csar de Campos

Piastra: Conhecer uma cidade somente andando por ela, sentindo seus cheiros, seus vcios,
suas verses, suas tticas. Michel de Certau dedicou grande parte de sua fecunda obra a isto.

lembrando Homi Bhabha, tem sentido polissmico. A interdio dos desejos um deles. Em muitos casos o
maior.
279
ROLNIK, Sueli, GUATARRI, Flix. Micropoltica - Cartografias do desejo. Petrpolis: Vozes, 1993, p.
11.

152

Naquela tarde de sbado de primavera fui conhecer o bairro progresso. Havia crianas e
adolescentes brincando em frente ao memorial a Che Guevara. Memorial no sentido clssico
da palavra, com sua idia de fixar uma ordem e delimitar um territrio. Pergunto a uma
menina da f e graa que ela d quela pedra com uma placa. Ela me responde que aquele
sujeito na placa seu av. Um outro menino, ao seu lado, fala que um primo do pai dele.
Por fim a menina diz: Sei l moo... a gente nem sabe porque que isto ta a. Mas ele
continua l, e as pessoas passam na sua frente para o trabalho, compartilham uma praa com
ele. Existem outros homens que sabem bem a razo da existncia daquilo. A fala de um dos
idealizadores do memorial:
A comunidade foi escolhida porque queramos promover um
resgate social naquela regio. No foi iniciativa da
comunidade, foi nossa, na prefeitura. Algumas pessoas
achavam que apenas determinada concepo poltica poderia
trabalhar com cones da esquerda. Mostramos que no280
O bairro mencionado se chama Progresso. Pela pequena foto exibida, acima e ao
lado do memorial, se pode ter uma idia do que o progresso fez com o Progresso. Na placa
inscrita no memorial se l: El

revolucionario verdadero esta guiado por grandes

sentimentos de amor. O memorial no tem imponncia, no est alado ao alto. Mas est
ali. Canclini lembra: Nem sempre a identificao horizontal com o ambiente consegue que o
propsito exaltador se realize281. Seria necessrio separar o memorial de seu contexto para
que dele desse f no somente a menina e seu amigo, mas toda a comunidade? Marcar com
uma imagem imponente para que o significado se torne verossmil? Acredito que isto seria
apenas uma possibilidade romntica, para fazer aluso ao amor dito na placa. Os sinais
colocados nos arredores indicam outra manifestaes. Iluso imaginar que os processos de

280

Depoimento concedido a mim por Arnoldo Ido De Souza, presidente da Cmara de vereadores (filiado ao
PMDB), 56 anos, em 28/07/2001, p. 295.

153

excluso social, estes sim cada vez mais imponentes, produzam apenas vtimas. Antes era em
nome dos deserdados da periferia que o olhar se fixava no centro da cidade. Agora ningum
mais includo ou excludo totalmente do que quer que seja. O mundo s miservel para
aqueles que o julgam assim282. Numa casa ao lado da praa uma placa indica: chup-chup 1
real. Um outro sujeito, na mais elevada categoria cunhada por Foucault, coloca um placa
em frente a sua casa: gravo CDs e promovo festas. Um ltimo aviso visto d conta de
informar: Fao piastra por dois reais. A chapinha ganha uma cara italiana. Naquele lugar
mais fcil se entender o que seja uma piastra do que um ravioli; isto numa cidade vista como
italiana? No rdio que algum levou para a praa e colocou num volume alto, se anuncia o
jogo do Cricima para o domingo. Um rapaz que jogava bola num canto da praa comenta
com um amigo: vou ouvir pelo rdio, meu tio que ta trabalhando em Boston sempre manda
notcias na hora do jogo via e-mail, o Mrio Lima l, legal283. Tudo isto numa tarde de
sbado num bairro chamado Progresso. H quem insista em pensar na pureza.
Luminosos: Na dcada de 1950, um jornal da cidade trazia um anncio que muito orgulhava
os criciumenses. Um desenho de um avio e logo abaixo a comunicao urbana: Menos
tempo e mais [Link] Porto alegre em 1h50m284. Isto seria mesmo uma
grande conquista caso o trajeto fosse feito de carro. Mas de avio? Duas horas eram
suficientes para ir ao Rio de Janeiro. Naquele momento no era assim. Logo abaixo da frase

281

CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Hbridas: estratgias para entrar sair da modernidade. Traduo de
Helosa Pezza Cintro, Ana Regina Lessa. So Paulo: Edusp, 1998, p. 295.
282
MAFFESOLI, Michel. Sobre o nomadismo: vagabundagens ps-modernas. Traduo de Marcos de Castro.
Rio de Janeiro: Record, 2001, p.11. Este a dimenso libertria na qual entendo a fala de Maffesoli. E deixo dito
isto, pois em relao a este intelectual h sempre um porm. Para mim fica claro que o mundo continua
miservel para boa parcela da populao, e acredito que Maffesoli tenha forte compreenso disto. Para uma
opinio contrria sobre o que digo, onde o citado intelectual comparado a um escritor irresponsvel, ou quando
muito algum dado a auto ajuda, pode ser encontrada em: RUDIGER, Francisco Ricardo. Civilizao e
barbrie na crtica da cultura contempornea: Leitura de Michel Maffesoli. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.
283
Mrio Lima locutor (em 2002) da rdio Eldorado AM de Cricima, a emissora mais antiga da cidade (55
anos).
284
Anncio veiculado semanalmente, entre os meses de maro e dezembro de 1952, como se pode verificar,
como exemplo, em: JORNAL FOLHA DO POVO. Crescima: Folha do povo, 07/04/1952, p.3.

154

seguia um roteiro que o viajante devia realizar: Tomar um carro at Ararangu, viagem de 60
minutos. Em seguida tomar o avio para Porto Alegre. A cidade de pedras no tinha ainda
um aeroporto285. Ganharia o seu primeiro semforo286 alguns anos depois. O sinal criado
naquele momento em seu colorido era dissonante do tom cinza que tinha Cricima. No outro
lado da cidade, sem contato com anncios ou semforo, em 1978, Bairro Metropolitana, o
sinal mais presente ainda o da cruz. Numa formatura de primeira comunho as meninas e
os meninos que participavam daquele rito de passagem tinham uma folha de cantos287 nas
mos. Na abertura daquele evento cantavam Decolores so todas as cores, um arco ris.
O canto tinha talvez a potncia de transportar aquelas crianas para um outro lugar que no
aquele monocromtico, cinza, que o rejeito piritoso havia criado. Agora, quando a cidade
est repleta de semforos, lombadas, avenidas, as cores so dadas pelos luminosos digitais:
relgios, temperatura, anncios que vo desde imobilirias at viagens para Miami, Boston e
Roma. As cores voltaram. Ainda que digitais. Mas agora at as minas so floridas.

285

O Aeroporto Municipal Leoberto Leal, o primeiro de Cricima (funcionando no Bairro Pinheirinho e


transferido na dcada de 1980 para o Bairro Santa Lbera, atual municpio de Forquilhinha, com o nome de
Diomcio Freitas) foi inaugurado no dia 30 de junho de 1957. Para isto ver: MILANEZ, Pedro. Fundamentos
Histricos de Cricima. Cricima: Ed. do autor, 1991, pgs. 214-218.

286

O primeiro semforo foi instalado em 1960. Ver: NASPOLINI FILHO, Archimedes. Cricima, orgulho de
cidade: fragmentos da Histria de seus 120 anos. Cricima: ed. do autor, 2000, p. 57.
287
Informao obtida no acervo da Capela Sagrada Famlia no bairro Metropolitana.

155

Mina Florida

Foto: Digitalizada a partir de Folder produzido pela Cia. Carb. Cricima

Antnimos: Sempre me interessei muito por antnimos, no sei ao certo a razo. Creio que
por ter crescido em cricima, vivido em vila operria, gostar de mar e senti-lo distante. A
cidade um lugar de antnimos. O dono da bola, os demais sem tal posse, os que andam de
automvel e os que compartilham outro com 42 lugares sentados. Ainda pequeno havia
os que eram mineiros, ou melhor, filhos de e os que incompreensivelmente no os eram
e assim adiante. Esta prtica infantil e maniquesta que a tudo atribua uma forma boa ou
m, bela ou horrorosa se fez presente tambm nas anlises sobre as cidades. Os excludosincludos, os pobres-ricos, os do centro-periferia, os trabalhadores-vagabundos. s vezes
necessrio mesmo polarizar para polemizar. Mas em relao s cidades, esta prtica no
mnimo redutora. Afinal compreender uma cidade significa colher fragmentos. E lanar
sobre eles estranhas pontes, por intermdio das quais seja possvel encontrar uma
pluralidade de significados288.
A gramtica das civilizaes, para usar um temo cunhado por Braudel, at onde
tenho conhecimento, pouco se mostrou preocupada com o sentido de antnimos. Bons

156

fragmentos para se pensar a cidade. Neles muito mais que uma simples oposio entre
elementos distintos se pode verificar s negociaes e at mesmo o chamado entre lugar.
Sempre me comoveu muito um poema de Jacob Levy Moreno apresentado a mim por um
grande amigo:
Um encontro de dois, olhos nos olhos, face a face.
E quando voc estiver perto arrancarei os seus olhos e os
colocarei no lugar dos meus;
Arrancarei meus olhos, e os colocarei no lugar dos seus.
Ento, verei voc com os meus olhos, e voc me ver com
os meus olhos.

Esta negociao vista na prtica hermenutica certamente sedutora. Tomamos


o gosto pelo outro, mesmo que ele ainda seja este dificil289. Em Cricima as polticas
pblicas, os fazeres de toda a gente e sorte,

durante muito tempo foram limitados a

territrios bem delimitados. So conhecidos os bairros negros, poloneses, italianos. Era


necessrio bem definir o outro para saber em que territrio se pisava. Nas duas ltimas
dcadas, com a chegada de muitos profissionais direcionados especialmente ao setor de
servios, com a volta de muitos dos emigrados para Estado Unidos e Itlia, estes territrios
foram se fluidizando e, por extenso, tornando cada vez mais hbrida a cidade.
Nesta ambincia mais difcil certamente delimitar os antnimos. Eles se situam
nos entre lugares. Chegamos a uma situao de compreenso mais elaborada daquilo que
Mrio de S Carneiro, poeta portugus, contemporneo de Fernando Pessoa escreveu no
poema O outro:
Eu no sou eu nem sou o outro,
sou qualquer coisa de intermdio:
Pilar da ponte de tdio,
Que vai de mim para o outro

288

CANEVACCI, Massimo. Op. Cit, p.35


Conforme expresso utilizada por Brando em: BRANDO, Carlos R. O outro: esse difcil. In: Brando,
Carlos Rodrigues. Identidade e etnia. A construo da pessoa e resistncia cultural. So Paulo: Brasiliense;
1986.

289

157

Assim mesmo, o outro causa estranhamento, sempre. Durante a realizao deste


trabalho tive alguns, ou melhor, vrios estranhamentos. Um deles foi provocado novamente
por uma imagem colocada num jornal local. Quando das comemoraes dos 121 anos de
Cricima, em 2001, foi desta forma que a capa do jornal mostrou a cidade:

Cricima nos seus 121 anos

Foto: Jornal da Manh, 6 e 7 de Janeiro de 2001. Capa.

O texto quase ilegvel abaixo da figura diz o seguinte: Bandeira e braso de


Cricima, junto a imagens dos primeiros imigrantes e da cidade de 121 anos atrs. O
monumento ao mineiro, que na foto aparece quase em primeiro plano, no citado na legenda
explicativa. Mas enfim, Esto todos ali, inclusive as ausncias. O mercado tnico e o mundo
do carvo lembrados atravs de seus pioneiros. Uma imagem de possveis identidades, mas j
no presas. A imagem, produzida e veiculada no jornal, traz a marca de fraturas ou fissuras
que os lugares no deram conta de por mscaras ou esconder. Uma casa simples, algumas
pessoas posando para o fotogrfo e o mineiro ao fundo. Lembranas de uma Cricima de
amanh?

158

Rota: No incio eram picadas. Depois foram caminhos. Dali para as trilhas foram poucos
pulinhos. Da chegavam homens e mulas. E tinham tambm os italianos, negros, poloneses,
alemes, portugueses menos, eles ainda no haviam sido inventados na cidade. As mulas
foram embora. Nem todos parecem ter ficado com saudade delas. O cavalo de ferro
atravessou a cidade. Depois o poder, que pblico, ouviu falar no progresso e ficou
entusiasmado com uma coisa chamada urbanizao. A trilha de ferro foi arrancada. Sobre
esta trilha de ferro correu o asfalto. Pistas largas batizadas de Avenida. Como tinha o
Centenrio, ficaria ento: Avenida Centenrio. Mas as mulas podem render mais contos. E
No cruzamento da Centenrio com as trilhas feitas pelas mulas, e por homens que as
montavam, a imigrao foi celebrada. No dia em que se fez a festa, a primeira da Rota,
Celebrou-se tambm a memria Muar. Tinha churrasco e polenta tambm. O acontecido se
deu em 15/07/2001. Era o dia da Festa da Rota da Imigrao. Caminho por onde os
imigrantes, especialmente os italianos, quando chegaram, tiveram que passar. Hoje uma
estrada, pequena e estreita, mas uma estrada. Por ali se faz cachaa, e muito boa. Tem muita
banana tambm. As mesmas pelas quais lutaram aqueles homens que ganharam a peleja do
desfile, em 1996. Caminhos e sentidos se cruzam e clamam recordaes. Eu disse no incio
que as picadas abertas e pisadas por mulas e homens dariam outros contos. Estes agora
recebem o nome de Turismo290.

290

A Rota da Imigrao foi implementada pela Prefeitura Municipal de Cricima, junto Fundao Cultural, e j
se encontra atualmente na terceira edio. Segundo Rodeval Jos Alves, atual (2003) Presidente da Sulcatur
Associao Sul Catarinense de Turismo a gente j tinha idia de fazer uma festa e at uma grande rota ligando
os municpios do Costo da Serra: Praia Grande, Jacinto Machado, Timb do Sul, Morro Grande, Nova Veneza,
Siderpolis, Treviso, Lauro Muller, Orleans e Gro Par. Todas as Associaes de Municipio do Sul esto
envolvidos nesta idia: AMUREL, AMREC E AMESC. Entrevista concedida a mim na cidade de Cricima, em
05/06/2002.

159

Bisado: Mike Davis um historiador Norte Americano, entre obras muito interessantes que
produziu, se encontra, por exemplo, a Ecologia do Medo291. Nela o historiador discute
como um lugar inseguro quanto a fenmenos naturais: tufes, terremotos, foi vendido aos
americanos e ao mundo, como uma espcie de paraso terrestre. Ilan Stavans um lingista
mexicano, professor na Universidade de Amherst, Massachusetts. Do encontro dos dois se
produz um debate interessante. Stavans est para lanar um livro (em 2002), um dicionrio
sob o curioso ttulo Dictionary of Spanglish. Nele o lingista espera dar conta de organizar
as expresses utilizas por latinos que vivem nos Estados Unidos. Uma lngua que j no o
ingls nem espanhol. Uma lngua hifenizada. Davis discorda, dizendo que o spanglish
apenas um estgio intermedirio at o domnio completo do ingls pelos hispnicos.
Argumento nacionalista, por certo. Davis talvez no tenha percebido que no contemporneo
o pertencimento e no a autenticidade que constri territrios, inclusive ou especialmente, o
lingstico. Em Cricima atualmente reside uma mulher que talvez nem conhea Davis,
muito menos Stavans292, mas o dilogo dos dois,

quem sabe poderia ajud-la. Mirces

Carminati nasceu em Siderpolis, cidade vizinha Cricima e com vinte anos foi morar nos
Estados Unidos. Ficou por l dez anos. Diz Mirces:

Fomos um dos primeiros a ir para l (EUA). Tivemos muita


dificuldade no incio, depois acostumamos. Vivamos prximos de
alguns brasileiros, j no final da minha estadia. Mas no era pelo fato
de algum ser brasileiro que eu necessariamente tivesse que me
relacionar com ele. Os brasileiros que l esto no falam portugus
direito, quanto mais ingls. Dizem coisas do tipo: Fulano t Bisado
(para ocupado); olha, eles to faitando (brigando); Fulano, Parqueia
(estaciona) o carro pra mim?293

291

DAVIS, Mike. Ecologia do medo. Traduo de Aluzio Pestana da Costa. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Este debate entre Stavans e Davis pode ser encontrado em : [Link]
Capturado em setembro de 2002.
293
Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima, em 18/07/02.
292

160

Conforme o comentado, talvez o dilogo de Davis e Stavans possa auxiliar


Mirces. Uma forma distinta de falar da ecologia dos medos.

E ainda dizem que as

diferenas so da ordem da distncia.

Lavoura: Distante de uma to desesperada quanto intil busca pela verdade, o historiador
deve estar atento s diferenas. A diferena cultural nos confronta com a disposio de
saber ou com uma distribuio de prticas que existem lado a lado, abseits, designando uma
forma de contradio ou antagonismo social que tem que ser negociado em vez de ser
negado294. Uma negociao, para ficar no mbito bsico do valor do trabalho, mostrada com
humor, por um jornal de Cricima:

Jornal da Manh

O sujeito que chega para visitar o sogro trazendo consigo marcas e expresses
prprias de um momento em que mesmo o trabalho se flexibiliza, francamente convidado a
negociar. Os argumentos so transformados em objetos, codificados. A enxada mostrada d

294

BHABHA, Homi K. Op. Cit., p.228.

161

conta de que o negcio mais em baixo, neste caso, explicitamente no cho. possvel,
especialmente entre os mais velhos habitantes de Cricima, se verificar esta negociao ainda
hoje colocada. Um fala que d saltos no tempo ao menos num tempo tradicionalmente
visto como homogneo e se exibe. Qesta e Manero so expresses que qualificam
esta negociao. Contudo, h tambm, e no esqueamos disto, uma espcie de balana que
ainda insiste em pender para um dos lados. Em Cricima, uma e outra expresso so vistas de
modo desigual, e como tanto visibilizadas desproporcionalmente. Parece ser o caso particular
de programas de rdios e campanhas publicitrias que num sentido mais amplo e, quase
didtico, tentam dar ao lugar o estamento de uma cidade de italianos, mesmo que sua
populao seja visivelmente hbrida. Uma rdio FM que em 2000 tinha a maior audincia da
Regio Sul, cria uma personagem de nome Rufino, justamente utilizando das referncias de
um momento um tanto menos aberto negociao295. A rdio Eldorado de Cricima tem um
programa h dez anos no ar, em que todos os domingos, logo pela manh cedinho, uma
roda de conversa entre italianos (descendentes) articulada por um locutor, fornece
visibilidade italianidade, diria at a sua gramtica296.

295

Falo de um passado muito bem marcado e que mesmo frente a uma cidade hoje vista como aberta, se insinua
e tenta se firmar. Isto mais visvel em Cricima at incio da dcada de 1980, quando a cidade ainda tinha
mesmo um carter mais reservado, pouco cosmopolita e menos dada ao que nela se chamava poca de
estrangeirismos. Mesmo l continuo me perguntando como foi possvel a cegueira, at mesmo historiogrfica,
em no enxergar o que j estava desde cedo bem vivo. Se existe um sentido positivo na etnizao da cidade com
maior propriedade produzida nos festejos do centenrio (ver Futuro do Pretrito), o de mostrar outras faces
e vidas que pulsam no corao da cidade, at mesmo no seu centro, tradicionalmente habitado em sua maior
parte pelos pioneiros. No desejo aqui aprofundar esta discusso, dada a dimenso final que esta tese tomou,
mas um excelente trabalho em que se analisa a relao entre estabelecidos e out-siders pode ser encontrada
em: ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relaes de poder a partir de uma pequena
comunidade. Traduo de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

296

Em vrios programas que tive a oportunidade de ouvir, o que no significa entender, foi possvel perceber a
preocupao em se falar o italiano. Melhor dizendo, as lnguas regionais que trouxeram com eles mulheres e
homens quando de sua vinda para Cricima, ainda no final do sculo XIX. Mulheres e homens que j foram
mostrados to fortes quanto a vontade, como o livro produzido por Nelma Baldin aponta (BALDIN, Nelma.
To fortes quanto a vontade: Histria da imigrao italiana no Brasil os vnetos em Santa Catarina.
Florianpolis: Insular, 1999.). H uma mistura de dialetos neste programa, com predominncia maior dada ao
Vneto e ao Bergamasco. Mesmo entre este grupo, a partir de um elemento irrefutvel que a lngua, possvel

162

Talk Show:
O enxofre: Eu achava estranho, aqueles meninos pobres do meu bairro tomando banho no
rio poludo pela pirita do carvo. Depois fiquei sabendo que eles faziam aquilo para matar a
sarna. Irades Sonego, moradora do Bairro Santa Brbara (Cricima). Depoimento concedido a mim na
cidade de Cricima, em 28/04/2001.

Estrangeiros: Eu lembro que quando os Brigos chegaram aqui (1940) vindos de Cocal do
Sul, que aqui do lado, as pessoas comentavam: chegaram de fora e j querem mandar. Isto
acontecia especialmente em relao ao comrcio. A Mecril (Metalrgica Cricima) veio de
Fora (Cocal do Sul). Irades Sonego, moradora do Bairro Santa Brbara (Cricima). Depoimento
concedido a mim na cidade de Cricima, em 28/04/2001.

Cigana: O objetivo da Quermesse era levantar o astral das pessoas. Acho que conseguiu.
Pena que no tem um lugar certo. uma festa cigana.
Carlos Antunes, 40 anos, ex-mineiro, atualmente comerciante . Depoimento concedido a mim na cidade de
Cricima em 22/06/2000.

Primeira: Fui a primeira criana que nasceu no dia seis de janeiro de 1980. Agora estou
querendo ir para os Estados Unidos melhorar de vida. Aqui a vida est bem difcil
Entrevista concedida a mim na cidade de Cricima por Paula Regina Patrcio Lino, em 29/07/2001. Paula
Regina foi a primeira criciumense nascida no dia seis de janeiro de 1980, ano da comemorao do Centenrio de
Cricima.

Emprego: Meu pai veio pra c porque tinha grande oferta de emprego. Agora as pessoas vo
embora em busca dele. Pedro Barcelos, 56 anos, ex-presidente do clube Unio Mineira. Depoimento
concedido a mim na cidade de Cricima, em 26/04/2001.

Acabou a pipoca: Houve perodo que era muito fcil identificar um referencial. Carvo,
depois cermica, em seguida os dois juntos. Agora no, est pulverizado. Isto bom pra
cidade. Perdeu-se um referencial exclusivo, ou apenas um grupo muito pequeno deles.
Adelor Lessa, jornalista, 43 anos. Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima me 27/04/2001.

Entre-Lugar: Alguns americanos falam que Miami no Estados Unidos. Tem muito
latino aqui. No dia 11 de setembro de 2002 todo mundo ganhou folga. Aqui em casa a gente
fez um churrasco com os amigos, ouvimos msicas. Os americanos no entenderam nada, eu
acho. Gilnei Benedet, 31 anos, Valet Park em Miami. Depoimento on line (com Web Cam) concedido a mim,
entre Miami e Cricima , em 07/06/2002.

Mulher negra, mscaras brancas: Olha! Uma negra!!! Foi isto que me disseram, enquanto
em frente ao Cine Milanez, no dia da minha formatura, eu aguardava na fila junto a outros, a
entrega do meu diploma. Maria Lima, 68 anos, moradora do Bairro Santa Brbara. Depoimento concedido
a mim na cidade Cricima, em 26/08/2000.

se perceber fraturas e diferenas. Por isto o investimento mais recente na programao do referido programa em
se ensinar a lngua italiana falada hoje na Itlia (ver para isto a participao das entidades italianas no Sul do
Estado, especialmente os crculos italianos, listado no ensaio sobre a quermesse nesta tese). As negociaes
continuam.

163

Os tnicos:
Italiana: Joo Quintino Dalpont
Portuguesa: Evanir Teresa
Negra: Ado da Rosa
Polonesa: Arlindo Milack
Alem: Walternei Fidncio Loch.
Entrevista concedida a mim na cidade de Cricima, em 08/04/2002.
Portuguesa: O que descaracterizou a quermesse este nmero elevado de outras instituies.
As filantrpicas foram cortadas mesmo somente no ano passado.
Italiana: A quermesse traz uma unidade, uma grandeza pra cidade. Ns os italianos, no
conhecamos a comida tpica dos negros, dos portugueses, alemes, poloneses. Vivamos em
Vila separadas.
Portuguesa: As pessoas que vieram de Portugal, vieram pra c do litoral. Os portugueses
mesmo vieram para Florianpolis e outras cidades. Este pessoal do litoral veio pra c para
trabalhar nas minas. A maioria que tava aqui era italiano. Mas aqui tambm se misturou tudo.
Mas o portugus mesmo minoria aqui. Tivemos que desenvolver os pratos tpicos. O
bacalhau um prato caro. Tu achas que vamos comer isto no cotidiano? No d n?
Polonesa: Acho que surgiu em 1980, com a festa da colonizao do centenrio. Mexeu com
todas as etnias, formaram-se grupos de dana. Depois nos anos seguintes estes grupos foram
morrendo. Eu creio que quando o Altair assumiu a prefeitura novamente ele quis de certa
forma, junto com a secretaria de cultura, reativar aquilo tudo. Foi bolada ento esta festa que
foi chamada de quermesse.
Italiana: Eu lembro que na ocasio do centenrio de cricima, o Diomcio Freitas
patrocinou os portugueses, o Santos Guglielmi patrocinou os italianos. Os poloneses os
Gaidzinski
Negra: Acho que o sucesso da festa no depende da administrao. Agora, claro que
sempre houve apoio, de todas as gestes. Se no houvesse nem teramos condies de fazer
uma festa desta. O apoio sempre houve. O nosso maior problema a falta de local.
Italiana: Vamos aproveitar que estamos aqui com todos. Temos que todos trabalhar juntos
pra fazer existir um local definitivo. No simplesmente chegar no prefeito e dizer que
queremos. fazer todos trabalhar juntos. Seja centro de convenes ou no. Temos que criar
o local. O ideal um parque tnico.
Negra: A praa no tem a menor condio de comportar a festa.
Portuguesa: O esprito inicial fechava, comportava direitinho.
Alem: A luta primeiro foi para que a festa ficasse no local. Mas os comerciantes
reclamavam muito. O som da festa incomodava.
Negra: Havia tambm problemas com a higiene.

164

Italiana: As famlias que moravam ao redor sentiam-se prejudicadas pelo som e barulho da
festa.
Negra: Nos encontramos apenas por ocasio da festa.
Polonesa: Ns estamos divididos em vrios etnias que colonizaram. Outras vieram depois.
J que se trata de uma festa tnica ns deveramos abrir para novas que desejem se integrar.
No podemos dizer: No, apenas cinco. Eu sinto falta do espanhol, acho que deveria
participar. Ns temos bastante espanhis em Cricima. O rabe, por exemplo que chegou
mais tarde e um grupo pequeno, participa.
Portuguesa: J que uma festa das etnias, no sei porque as outras etnias no entraram, para
no ficar apenas as colonizadoras.
Negra: A etnia em si, quando eu falo etnia negra aquele sentido que se d pra resgatar
qualidade os costumes, do negro no caso. E assim todas as outras etnias. Porque quando eu
vou fazer a festa da etnia negra eu fao a minha comida, minha dana, meu pagode.
Negra: Agora a gente j v negros colocando adesivo: eu sou descendente de africano,
angolano, moambicano. Ns negros temos esta introspeco de inferioridade. Temos que
levar ao nosso povo que ele igual aos outros. Na nossa festa para o nosso povo este o
objetivo. No mostrar as outras raas, mostrar o povo negro.
Alem: Falasse uma grande verdade. Acho que por a, a introspeco. Ela a base de
tudo. Eu no tenho esta coisa de diferena comigo. Eu tenho vizinhos negros. Eu nasci na
vila operria. Nunca tive problemas. Comigo nunca tiveram, mas s vezes a gente sente que
ficam submissos.
Alem: Eu olho pra televiso estas coisas que acontecem no mundo e fico assustado. Aqui
no acontece disto. A coisa acontecendo em guetos nos Estados Unidos.
Alem: No tem nada do carvo na Quermesse. Mesmo que hoje fosse s carvo. Ns
estamos mostrando outra coisa: A formao do povo que est nesta regio.
Italiana: No tem nada a ver. No se identifica, no tem ligao nenhuma. Nada.
Negra: Nem com carvo, nem com azulejo, nada.

Entrevistador: Finalizando este Talk show e, para no calar as vozes que batem nos meus
ouvidos, eu deixo apenas o comentrio de Walter Benjamim: Quanto maior a naturalidade
com que o narrador renuncia s sutilezas psicolgicas, mais facilmente a histria se gravar

165

na memria do ouvinte, mais completamente ela se assimilar sua prpria experincia e


mais irresistivelmente ele ceder inclinao de recont-la um dia297.

III
O FUTURO DO PRETRITO:
Um aniversrio bem festejado

mais fcil cultuar os mortos que os vivos, mas


fcil viver de sombras que de sis, mais fcil
mimeografar o passado que imprimir o futuro.
No quero ser triste, como poeta que envelhece
lendo maiakvski na loja de convenincia. No
quero ser alegre como co que sai a passear com o
seu dono alegre sob o sol de domingo. Nem quero
ser estanque como quem constri estradas e no
anda. Quero no escuro como um cego tatear
estrelas distradas...
(Zeca Baleiro)
o homem uma corda. Atada entre o animal e
o alm-do-homem, uma corda sobre o abismo.
Perigosa travessia, perigoso a-caminho, perigoso
olhar-para-trs, perigoso arrepiar-se e parar.
Grande no homem que ele uma ponte e no
um fim: o que pode ser amado no homem que
ele um passar e um sucumbir
(Nietzsche)
O defeito mais comum na caracterizao do
povo foi pensar que os agentes agrupados sob
este nome so como uma massa social compacta
que avana incessante e combativa rumo a um
porvir renovado
(Nstor Garcia Canclini)

297

BENJAMIM, Walter. O Narrador: consideraes sobre a obra de Nikolai Leskov. In: BENJAMIM, Walter.
Magia e tcnica, arte e poltica: ensaios sobre literatura e histria da cultura. Traduo de Srgio Paulo
Rouanet. So Paulo: Brasiliense, 1994, p. 204.

166

Naquela madrugada quente de seis de janeiro de 1980 a cidade no iria dormir. Ao


menos no uma parte dela, acostumada com os festejos daquela efemride. Uma data a mais
no calendrio, mas que encerrava uma srie de preparativos e discursos, dilogos, acordos,
emoes. Dali h algum tempo estas seriam cantadas por um rei da msica popular
brasileira, Roberto Carlos298. Desde do dia anterior ouvia-se pela cidade o repicar de sinos,
buzinas, foguetrio.

A partir das 23:00 horas, um grupo de seresteiros299 se encarrega da

musicalidade dos festejos, que em realidade mais parecia uma solene celebrao. No que o
povo tenha assistido aquilo bestializado, como diriam dos festejos (celebrao?) da instalao
da repblica brasileira, mesmo porque tudo aquilo que estava sendo mostrado e vivido havia
sido programado de longa data. Foram trs anos de preparao para os festejos do centenrio,
o tempo arranjado para dar visibilidade ao Ano 100

de Cricima. Da Cricima

(ps)colonizada300.

298

Informao obtida atravs de ofcio encaminhado comisso dos festejos do empresrio de Roberto Carlos
acusando o recebimento do cheque de um milho (sinal de 50%) pagos pela carbonfera metropolitana ao
cantor. O show se realizou no dia 29/11/1980. O contrato est disponvel na sua integra na pasta de nmero 55
do arquivo pblico municipal. Sobre a contratao do cantor, uma das principais expresses musicais do Brasil
naquela oportunidade, Maria Marlene Milanez Just, secretria da educao durante as comemoraes do
centenrio, em entrevista concedida a mim na cidade de Cricima, comentaria: Sabes o que era em 1980 trazer
Roberto Carlos Cricima? Uma grande dificuldade. Partimos para algumas estratgias. A principal dela foi
fazer uma espcie de jogo de egos entre as pessoas de maior posse, especialmente os empresrios do carvo. Em
1980 no se tinha esta sociedade do espetculo que se tem hoje. O patrocnio no aparecia, ao menos no de
maneira explcita. Ento, ns organizadores chegamos para os dois: Realdo Guglielmi e Diomicio Freitas, e
dissemos que se um no trouxesse o outro traria o Roberto Carlos. Neste jogo falou mais alto o ego do Realdo
Guglielmi, presidente da carbonfera Metropolitana. O show custou no total dois milhes de cruzeiros (moeda
da poca). Nesta poca um jornal local custava 5,00 cruzeiros e uma geladeira era anunciada nas lojas da cidade
por 9.590,00 cruzeiros. Nesta proporo, com o dinheiro gasto no show era possvel a compra de
aproximadamente 210 geladeiras que poderiam ajudar a resfriar um pouco o calor que faz em Cricima no vero.
Atualmente (2003) 210 geladeiras custam em mdia 150 mil reais.

299

Eram eles: Baslio Dal B, Joo Kontovikz, Albertino de Oliveira, Valdir Silva, Jos Ado, Alende, Pedro
Nakagaki, Alvinho, Carlos Lacombe, Tairone Mandeli, Darcioni Silva. Ver listagem apresentada em: ARNS,
Otlia. A semente deu bons frutos. Florianpolis: IOESC, 1985. p. 225.
300
Nesta etapa desta tese o leitor deve estar cansado de ver o prefixo ps colocado. A explicao para este uso,
que reconheo possa ser visto com demasiado foi mesmo proposital. Minha inteno foi deixar que ao longo da
leitura desta tese, fosse o leitor capaz de vislumbrar o que estes prefixos tm de situacional. Mas agora para no
deixar em suspenso o meu posionamento, indico uma das reflexes, no meu entender, mais acabadas para este
experincia prefixal, afinando meu pensamento ao que a seguir dito: Nossa existncia hoje marcada por
uma tenebrosa sensao de sobrevivncia, de viver nas fronteiras do presente, para as quais no parece
haver nome prprio alm do atual e controvertido deslizamento do prefixo ps: ps-modernismo, ps-

167

zero hora do dia seis de janeiro era dado o incio solene. O prefeito municipal,
Altair Guidi, e o presidente da Comisso dos festejos, Dino Gorini, discursavam e suas falas
eram transmitidas pela rdio e TV Eldorado301 de Cricima e TV Catarinense de
Florianpolis. Uma viglia nas maternidades da cidade havia sido criada para cuidar do
nascimento da primeira criana do ano 100. Ela nasceria em Cricima no dcimo primeiro
minuto de seis de janeiro; uma menina a quem foi dado o nome de Paula Regina Patrcio
Lino302. A partida estava dada. No h dvidas de que se relacionava com uma chegada. E
tambm com pedras. E com homens que as inventaram, quer dizer, inventaram por estas
bandas do sul do Estado Catarinense. Possa ser que celebrao seja dada outras
historicidades303. Nesta aqui ela se inicia com a inveno da roda.

Limiar histrico da beatitude: s existe histria


onde h um preo a pagar. O repouso s se
alcana mediante este tributo
(Michel de Certeau)

A inveno da roda:

colonialismo, ps-feminismo (...) Se o jargo de nossos tempos ps modernidade, ps colonialidade, psfeminismo tem algum significado, este no est no uso popular do ps para indicar seqencialidade
feminismo posterior ou polaridade antimodernismo. Estes termos que apontam insistentemente para o alm
s podero incorporar a energia inquieta e revisionria deste se transformarem o presente em um lugar excntrico de experincia e aquisio de poder. In: BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Traduo de
Myriam vila; Eliana Loureno de Lima Reis; Glucia Renate Gonalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998, pgs.
19-23.
301
A Tv Eldorado, nome da emissora de televiso local, propriedade do Grupo Freitas, poca importante grupo
carbonfero da cidade, havia sido inaugurada pouco tempo antes, em 1979. Aquele era formalmente o primeiro
evento de grande porte com o qual a TV Eldorado estaria envolvida.
302
Ver uma parte da entrevista que fiz com Paula Regina no ensaio Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias e
Sobejos (verbete: Talk Show). A conversa que tive com Paula Regina muito me ajudou a entender o
acontecido no dia seis de janeiro. Na pequena citao colada no ensaio indicado possvel ter uma idia, ainda
que vaga, de como a vida de Paula Regina se encontra hoje (2003). Para isto ver: Entrevista concedida por Paula
Regina Patrcio Lino a Emerson Csar de Campos em 29/07/2001. Transcrio presente no acervo pessoal do
entrevistador.
303
H disponvel vrias leituras sobre os festejos do centenrio da colonizao de Cricima. Tal empreendimento
conta com vasta documentao disposta no Arquivo Pblico Municipal e, na medida do possvel, fao referncia
ela na escrita desta tese. Oficialmente o que tem de mais sistematizado e publicado ainda a obra de Otlia
Arns: A semente deu bons frutos (ARNS, 1985). Demais reflexes s encontram dispersas pelos jornais locais,
estaduais e at mesmo na mdia nacional (matrias pagas em revistas de circulao nacional, a exemplo daquela
publicada na revista Veja de 01/10/1980, p. 106, patrocinada por empresrios locais e pelo governo do Estado de
Santa Catarina).

168

Havia uma preocupao pertinente aos primeiros imigrantes italianos que


chegaram e viveram em Cricima ainda no sculo XIX (1880). Segundo relatos e as escritas
da histria produzidas sobre Cricima304, acostumados que estavam com o consumo de
polenta, promoveram a construo de uma atafona305 com a inteno de se produzir a farinha
de milho. Contudo, um problema logstico desde cedo dificultava a criao da primeira
indstria da cidade, como lembrada quase sempre. Seria necessrio uma roda resistente
para se colocar junto ao moinho a ser construdo. Para isto se providenciou a encomenda de
rodas feitas de pedras, chamadas ms. Duas foram confeccionadas em Rancho dos Bugres,
sob encomenda de Benjamim Bristot, um imigrante italiano que se destinou a resolver o
problema com as ms.

Rancho dos Bugres distava 25 Km de Cricima, na cidade de

Urussanga. Como no havia estradas abertas, o transporte das pedras foi realizado a p,
atravs da nica picada aberta poca at Urussanga.
O jeito mais fcil de carregar aquelas pedras era tambm o mais bvio: se
colocou um pedao de madeira no furo central de cada uma das ms e as trouxeram rolando
dos Rancho dos Bugres at Cricima. Aps 29 dias de caminhada chegam finalmente ao

304

Estou me referindo a uma boa parte da historiografia local que de longa data, acredito, pelas informaes que
consegui coletar durante meu doutoramento, desde a dcada de 1950, quando foi criado o jornal Tribuna
Criciumense, de propriedade de Jos Pimentel, em me entender, um dos primeiros memorialistas-oficialistas que
a cidade teve. Segue este tipo de relato hitoriogrfico depois na dcada de 1960 com expresses de Pedro
Milanez, seguido de Mrio Beloli, Arquimedes Naspolini Filho, Otilia Arns, e mesmo desterritorializado (reside
e trabalha em Curitiba-PR- e nascido em Florianpolis), Manoel Coelho. Estas pessoas que relaciono acima
(exceo Pedro Milanez e Jos Pimentel, falecidos) sempre foram muito gentis comigo e muito me ajudaram a
entender a vivncia criciumense. Ao mesmo tempo, no posso me furtar a dizer que minha insero
historiogrfica muito difere daquela proposta por estas pessoas listadas. E, se este trabalho em significativa parte
trata de diferenas, esta foi uma positiva, que instaurou sempre o desafio.
305
Atofona o nome dado aos moinhos, sejam estes manuais, tocados cavalos ou bois, ou ainda, movidos por
fora hidrulica recuperada de guas correntes. Em Cricima, as primeiras atofonas sero feitas manualmente,
em piles dispersos nas casas de seus habitantes interessados em produzir algum tipo de farinha, mas quase
sempre de milho ou amendoim. Os primeiros imigrantes iro tentar aprimorar esta tcnica criando moinhos
maiores. Sero bastante conhecidos os moinhos construdos por Marcos Rovaris e Benjamim Bristot, ambos
imigrantes italianos estabelecidos no atual centro da cidade, em pontos distintos. Boa parte da populao da
cidade, especialmente os descendentes de italianos, usa o termo tafona. Marcos Rovaris foi eleito primeiro
prefeito da cidade, aps uma tenso muito grande vivida quando do desmembramento de Cricima do Municpio
de Ararangu, em 04/11/1925 e sucessiva instalao realizada em 01/01/1926. Benjamim Bristot entre outras
atividades exerceu a de ferreiro.

169

cimo do Morro das Bananeiras, atualmente (2003) conhecido como Mina Brasil. Para quem
no conhece a paisagem, vale dizer que eles haviam chegado num lugar de onde se podia
avistar a pequena Vila de Cricima e da qual distavam, quando muito, dois quilmetros. Por
chegarem no avanado das horas e estando muito cansados, resolveram, aqueles homens,
passar a noite ali mesmo, vislumbrando a Vila logo abaixo. Descansaram tambm as pedras,
se possvel pedras cansarem, as encostando numa rvore que viram por ali. Durante a
madrugada choveu muito, o que tornou aquele cho escorregadio. As pedras rolaram para o
lado oposto ao da Vila. Ao despertar, os homens procuram pelas ms, e as encontram l
embaixo, local onde j haviam passado rolando as pedras. No lhes restou outra alternativa
que no fosse aquela de rolar as pedras morro acima, novamente.

Aps toda a saga

enfrentada por eles, finalmente as pedras chegam ao seu destino e a farinha passa a ser
produzida em Cricima306.
Certamente esta a verso mais conhecida e contada na cidade, para a realizao
vigorosa finalizada pelos imigrantes recm chegados na cidade de Cricima. Mas os rastros
que as ms provocaram foram sentidos e visibilizados de maneiras distintas. Rastros
entendidos como presena de uma ausncia. Sem dvidas o rastro algo que j foi e, isto
impele a uma perspectiva que contemple, portanto, a distncia, ou melhor qualificando, a
tentativa de abolir esta mesma distncia entre um passado longnquo e a realidade presente.
So os rastros, assim, iluminados pelos lampejos do agora, a dimenso benjaminiana307. A
experincia valorosa e dolorida, vivida por homens308 que arrastaram as ms est

306

De forma um tanto diferenciada, esta narrativa pode ser encontrada tambm em quase todos os livros
publicados pela aqui chamada historiografia memorialista-oficialista. So exemplos: MILANEZ (1991) e
NASPOLINI FILHO (2000).
307
Para uma melhor anlise comentada desta dimenso ver o instigante trabalho de : GAGNEBIN, Jeanne Marie.
Histria e Narrao em Walter Benjamim. So Paulo: Perspectiva, 1999.
308
Basta num exerccio possvel de imaginao social, refletir sobre o estado de cansao provocado pelas
condies precrias descritas na viagem de 29 dias. Mais que isto, as condies colocadas, mulheres e crianas
esperando por seus pais companheiros, num momento em que bem j se sabe, o machismo dava a tnica dos

170

irremediavelmente perdida. Mas as narrativas produzidas a partir disto, de diferentes


maneiras, inauguram falas sobre a cidade, das quais o sentido tnico parece ser, ainda hoje
em Cricima, um dos mais provocativos.
Por ter uma implicao com o sentido tnico colocado mais pretensamente como
ao redentora e esta definitivamente no nos pertence do que propriamente vivido
entre os criciumenses de modo geral309, busco ento colocar a discusso inicialmente referida
crtica ao carter pico e por extenso, reificador. Um tempo vazio e homogneo poderia
tudo acomodar e, disto ainda se obter como lucro a conquista de uma narrativa definitiva da
cidade. E somente nesta dimenso que se poderia sentenciar que:

Cricima, senhores, uma cidade sem memria. E o pouco que nos


foi transmitido, por nossos antepassados, ainda est sendo
vergonhosamente mutilado. Como esta estria de que cinco ou sei l
quantas etnias fizeram a nossa colonizao. Isto um desrespeito
quelas famlias italianas que desbravaram nosso cho. Afirmar que a
colonizao de Cricima foi feita por italianos, alemes, poloneses,
lusos e negros, o mesmo que afirmar que Forquilhinha foi colonizada
por alemes e japoneses; o mesmo que afirmar que Linha Batista foi
colonizada por poloneses e russos. Nada disto. Aqui, os italianos, e
somente os italianos colonizaram; na Forquilhinha, foram apenas os

dias. No menos significativo, seguindo este exerccio, foi o estranhamento causado na populao indgena que
subitamente v suas terras, ao menos terras onde viveram no somente eles, mas seus precedentes, sendo
apropriadas por gente que no pertencia as suas experincias. Alis, o lugar de onde so trazidas as pedras
lembra como que para no deixar no limbo, a vida dos indgenas colocados naquela regio: Rancho dos Bugres.
Bugres foram assim denominados pelos colonizadores a populao indgena Xokleng, hoje virtualmente
inexistente em Cricima. Todos sabemos como se trataram os indgenas em nosso pas. Em Cricima, um
episdio pode permitir, grosso modo, vislumbrar como esta relao foi vista e contada. Nos primeiros momentos
da colonizao, estando trabalhando com madeira junto a outros amigos, Domenico Snego foi atingido por
uma flecha indgena que o levou a morte. A seta que matou o colono est hoje no Museu Augusto Casagrande.
E os ndios mortos onde estariam?
309
Da a pertinente preocupao dos trabalhos mais recentes realizados sobre Cricima, em mostrar a cidade
construda por vrias perspectivas colonizadoras, e no somente uma petrificada nas rodas das ms. Os ttulos
mais recentes que pensam a cidade tem se dirigido para este sentido. So exemplos os trabalhos produzidos pelo
Curso de Histria da UNESC, Universidade do Extremo Sul Catarinense, localizada em Cricima. Ainda neste
sentido, durante vrias entrevistas que realizei, foi possvel identificar que a ao colonizadora e at mesmo a
narrativa sobre as ms conhecida, ou ativada pela memria, voluntria ou involuntria, de uma gerao mais
velha, na faixa etria dos 70 a 80 anos. Exceo seja feita a uma outra parte da historiografia criciumense que,
desde seus primeiros escritos, deixa claro a preocupao em ratificar o lugar do empreendimento colonizador
feito pelos imigrantes, especialmente italianos. o que se pode encontrar nas obras do que chamo de
oficialistas-memorialistas, como j comentado.

171

alemes; e na Linha Batista, somente os poloneses. O resto que se conta


por a inveno sei l de quem.310

Fica claro que, neste caso nem mesmo a diversidade311, dispositivo outro que
coloca a cultura enquanto um objeto emprico, considerada. Como se pode perceber, no
foram cinco ou sei l quantas etnias que fizeram a colonizao. Em Cricima os italianos,
e somente os italianos colonizaram. A nica indicao que, paradoxalmente, parece prxima
de fazer viver a cidade na citao apresentada aquela que diz: no foram e nela eu
acrescentaria: no foram apenas. Sim, pois como mesmo poderia uma categoria de anlise
forjada intelectualmente, e da qual poucos na cidade ao menos sabem signific-la312, poderia
ser transformada em sujeito, e como tal encarnar uma experincia nica? Estamos por demais
informados que Etnia313 no existe fora de uma ambincia relacional. Ou reconhecemos isto
ou jogamos fora a criana com a gua do banho314. Se etnias so aquilo que nos une,
seria ento possvel se pensar uma cultura que fosse a justa manifestao disto. Depois de
tanto ter falado no discurso ps-colonialista durante esta tese, acredito que esteja claro que
numa realidade hbrida no h espao para monofonia. A simples afirmao da diferena,

310

NASPOLINI FILHO, Archimedes. Cento e dez anos de Histria. IN: MILANEZ, Pedro. Fundamentos
Histricos de Cricima. Cricima: Ed. Do Autor, 1991. p. 17. O referido texto tambm foi publicado pelo
Jornal da Manh, de Cricima, no dia 02/01/1990. importante que se diga que a preocupao da Archimedes
Naspolini, pelo que se pode deduzir na ntegra de seu texto, com a memria e do que ele entende por velho.
311
Ver discusso a respeito no Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias e Sobejos, verbete Sorriso.
312
Em quase todos os depoimentos coletados onde tive a preocupao de perguntar ao entrevistado o que ele
entendia por etnia, colocava o mesmo sempre em desconforto. Mesmo os presidentes das Etnias, entrevistados
por mim, no sabiam me dizer o que entendiam dela para alm de um jargo muito conhecido de aquilo que
nos une.
313
Para que no fique nenhuma dvida, esta tese no tem a pretenso de buscar uma discusso fundadora e densa
ou mesmo uma reviso historiogrfica do temo Etnia, exerccios os quais de modo competente j realizaram
pensadores como Fredrik Barth, Werner Sollors, de modo mais geral, e Carlos Rodrigues Brando, Manuela
Carneiro da Cunha, Giralda Seyferth e Regina Weber, na dimenso brasileira, e isto pra ficar apenas nos nomes
mais contemporneos. No caso especfico desta tese mostro, entre outras tantas coisas, que a categoria Etnia no
pode ser pensada fora de uma dimenso poltica, iniciada ao que tudo indica, com maior rigor, a partir da
administrao de Altair Guidi (1977-1983; 1989-1992) articulada a uma escrita da histria que criou uma
pedagogia tnica na cidade. isto que tento, sob diferentes maneiras, apresentar aqui.
314
E desta forma viraramos as costas para produes intelectuais de flego, a exemplo de Michel Foucault e
toda sua teoria sobre a constituio de sujeitos (e no poderes, como ficou mais conhecido) ou Homi K. Bhabha
com sua crtica ao o ps-colonialismo.

172

conforme pde ser vista na citao colocada, a partir de uma originalidade qualquer,
reserva um nmero incontornvel de contradies315. E a diversidade que tenta contar as
culturas, as entendendo como tnicas a priori, no sentido prtico: trs, quatro, cinco, muito
pouco contribui para que uma pedagogia, at mesmo numrica, seja fragilizada.
Contudo, certo que em 1980 e, tambm antes disto, a cidade de Cricima era
mais territorializada do que atualmente (2003). E talvez isto tenha contribudo para uma
idia que se teve na cidade de ver o colonizador como algum exclusivamente europeu ou um
seu descendente. E tambm no esqueamos que sendo colonizador e pioneiro, o lucro
maior ainda. Colonizador e Pioneiro so expresses bastante utilizadas para indicar uma
modo bastante particular de articular aes e se inserir na cidade. Quando acionado fulano
pioneiro, e em muitas entrevistas que realizei pude perceber isto, o que quase sempre se faz
, para alm do mero reconhecimento, instituir territrios e fronteiras. So

palavras

recursivamente utilizadas tanto por quem as institui na poltica ou na escrita da histria,


quanto por quem bem aprendeu esta mesma pedagogia. Evidente que no estou falando de
vidas316 que se construram e mesmo atravessaram os momentos mais duros do incio da
urbanizao e constituio da cidade, cada dia menos presentes nela, dado a idade avanada
que possuem estes viventes. Falo de prticas (polticas e pedaggicas) que partindo de uma
experincia que no pode mais ser atualizada, buscam nela a Redeno, instituem o Futuro do

315

SOUZA, Otvio. Fantasia de Brasil: as identificaes na busca da identidade nacional. So Paulo: Escuta,
1994, p.34.
316
Lembro de um sbado no incio da noite quando, junto a uma amiga, entrevistei o senhor Joo Soratto. A
narrativa posta por aquele senhor, gentil e divertido, era o que se poderia dizer, uma seqncia de conselhos.
Aluses a um mundo que de forma dolorida (ao menos me pareceu) ele via cada dia mais fenecer. Como quem
um conselho fornece tem a inteno ltima (ou primeira) de fazer continuar sendo narrada uma histria, como
diz Walter Benjamim, acredito que a dor de seu Joo tenha sido em grande parte, por constatar que o futuro
(naquele presente) no havia dado conta de cumprir as promessas do passado, de outros agoras. Observaes
colocadas a partir da entrevista realizada por Marli de Oliveira Costa e Emerson Csar de Campos, com Joo
Soratto, 94 anos, em Cricima no dia 13/07/2000. Este foi para mim o exemplo mais vivo. No Arquivo Pblico
Municipal existe uma srie de entrevistas realizadas com os habitantes mais antigos da cidade ainda vivos em
1980. Nas entrevistas que tive oportunidade de ler (transcritas), muito da experincia colocada pelo seu Joo

173

Pretrito. As pedras que rolaram agora esto bem fixadas. Voltemos ao momento onde se vai
buscar fix-las.
No incio da dcada de 1960, um grupo de estudantes criava uma Instituio de
nome UESC317. A UESC foi criada num momento bastante tenso da cidade e mesmo do pas.
Ainda em 1958 quando de uma campanha realizada para salvar o carvo que tinha por
palavras de ordem: O carvo nosso, foi cogitada a possibilidade de se criar uma
organizao estudantil capaz de dar suporte quele movimento. A UESC fruto daquela
realidade, diria em entrevista concedida a mim, um de seus presidentes318. A UESC ir
participar ativamente de boa parte das reivindicaes e lutas colocadas319 na cidade entre os
anos de 1960 e 1964.
Com a extino da UESC, ficou ainda entre seus participantes o interesse pela
cidade. Entre estes participantes, Lcio Nernberg havia sido um dos seus presidentes. A
famlia de Lcio Nernberg havia se transferido do Bairro So Bento320 para o Centro da

Soratto se faz ali presente. Para isto ver: Arquivo Pblico Municipal, Pasta de Entrevistas Realizadas no
Centenrio.
317
Unio dos Estudantes Secundaristas de Cricima, criada em 12 de maro de 1960. Segundo Archimedes
Naspolini Filho um punhado de estudantes criciumenses resolve se unir em torno de ideais comuns e funda a
entidade representativa da classe: nascia a Unio dos Estudantes Secundaristas de Cricima, conhecida pela
sigla UESC. Na sua grande maioria, todos alunos da Escola Tcnica do Comrcio de Cricima, nico
estabelecimento escolar que funcionava noite em nossa cidade. In: NASPOLINI FILHO, Archimedes.
Cricima, Orgulho de Cidade! II: fragmentos da histria de seus 120 anos. Cricma: Ed. do autor, 2000, p. 97.
Foram presidentes da UESC de 1960 at 1964 (fechada quando da instalao do regime militar autoritrio
brasileiro iniciado no mesmo ano), pela ordem: Flvio Naspolini (ainda em 1959, antes da regulamentao),
Olmpio Vargas, Archimedes Naspolini Filho, Rodeval Jos Alves, Lcio Nernberg, Archimedes Naspolini
Filho e Eno Steiner. Cf. NASPOLINI FILHO, Archimedes. Op. Cit. vol. I, p. 130.
318
Rodeval Alves, professor e um dos principais articuladores do movimento de criao da FUCRI (que em
1997 foi transformada em UNESC Universidade do Extremo Sul Catarinense) me forneceu entrevista na
cidade de Cricima, em 05/06/2002. As referncias apontadas por Rodeval tambm so apresentadas por
NASPOLINI FILHO, Archimedes. Op. Cit. p. 130.
319
Segundo depoimento concedido a mim na cidade de Cricima em 07/06/2002, Luiz Carlos Brigo, advogado
e comerciante: A UESC era uma Associao que congregava estudantes de toda cidade, mas a maioria de ns
era do Centro ou prximo dele. Ns conseguamos algumas vantagens com a organizao: descontos no
comrcio, meia-entrada no cinema, etc. As lutas polticas tambm eram constantes. Teve um momento que eu fui
estudar em Porto Alegre, da me afastei da cidade e da UESC.
320
O Bairro So Bento esteve integrado ao municpio de Cricima at 1958, quando se deu a Emancipao
Poltica de Nova Veneza, passando o Bairro referido a integrar este municpio criado.

174

cidade ainda na dcada de 1950.

Em So Bento havia uma comunidade alem mais

territorializada321. Fato que sentindo saudade das referncias que tinha no Bairro So Bento
e, depois de ter passado pela administrao da UESC, Lcio Nrenberg, junto a outros
amigos322 teve a idia de fazer algo para lembrar os fundadores da cidade.

Eu achava, como outros, que aquele jeito de ser dos


nossos antepassados estava indo embora. Da tivemos a
idia de fazer um monumento. Este monumento seria do
imigrante. A gente conhecia a histria das ms. Eu tive
idia de ver onde que elas se encontravam. Algum nos
informou que aquelas pedras estavam na Rua do Fogo
(municpio de Morro da Fumaa). Falamos com o prefeito
na poca para pedir apoio. O Arlindo Junkes
disponibilizou o caminho da prefeitura e ns trouxemos
de l as pedras. O Fernando Carneiro fez o projeto, e o
monumento foi inaugurado com aquelas pedras nele 323.

O projeto desenvolvido por Fernando da Cunha Carneiro foi pensado, segundo


palavras do prprio arquiteto, com trs colunas mestras para lembrar as trs etnias
fundadoras de Cricima: a italiana, a alem e a polonesa324. Estava iniciada a pedagogia
tnica e o falar dela. Como vimos, os nmeros ainda so modestos, apenas trs etnias
fundadoras, colonizadoras e pioneiras. Nesta poca (1966), Cricima contava com
aproximadamente 65.000 habitantes325. Em 1950, a cidade tinha 50.854 habitantes e 27.753

321

Em realidade tal comunidade havia se iniciado ainda em 1917, quando um grupo de alemes nela se
estabeleceu.
322
Esta correlao de foras que estou apresentando foi muito difcil de ser melhor trabalhada, frente s fontes
que tive acesso. Em realidade as fontes quantificveis me pareceram suficientes. Contudo as informaes eram
apresentadas de forma desencontradas e entre os entrevistados, foram ao menos quatro: Lcio Nrenberg,
Archimedes Naspolini, Luis Carlos Brigo e Rodeval Alves, foi difcil encontrar um consenso. Contudo, isto no
se deu por falta de vontade dos entrevistados. O que acontecia quase sempre que eles lembravam de
fragmentos e reminiscncias. E foi partindo disto que realizei esta escrita.
323
Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima, por Lcio Nernberg em 22/07/2002. Arlindo Junkes
era nascido em Nova Veneza (So Bonifcio) e havia participado da diretoria da UESC, antes de ser prefeito.
324
Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima, por Fernando da Cunha Carneiro, em 23/07/2002. O
grifo na fala meu.
325
Os dados foram inferidos. Mais precisamente, se pode contar com: 61.975 habitantes em 1960. Cf. IBGE
Instituo Brasileiro de Geografia e Estatstica: Censo Demogrfico de 1960, p. 76.

175

em 1940326. No se precisa de um exerccio matemtico apurado para se perceber que, em


pouco mais de vinte anos, a populao da cidade duplicada. Isto se deu, em grande
medida, pelo fluxo de pessoas que entre 1940 e 1960 chegam na cidade em busca de trabalho,
especialmente no setor carbonfero e, quase sempre se destinaram para a periferia da cidade.
Se tivermos em mente que, em 1966 boa parte da cidade j era seguramente constituda por
pessoas ditas de fora, aquele monumento poderia parecer estranho uma parcela
considervel da populao327. O monumento foi inaugurado no dia seis de janeiro de 1966. Na
placa colocada em uma das colunas se encontra escrito:

ESTAS PEDRAS FORAM ROLADAS

ENTRE MATA VIRGEM, CERCA DE 40 KM.


DESTINADAS PRIMEIRA INDSTRIA DE
CRICIMA, EM 1880. ARLINDO JUNKES,
EM 6 1 1966. HOMENAGEM AOS
BRAVOS COLONOS FUNDADORES DESTA
CIDADE328.

326

Conforme dados obtidos junto ao IBGE, nos censos demogrficos dos respectivos anos citados.
Especialmente se considerarmos que os embates que se promovem a partir, ou melhor, nesta paisagem
urbana, se admite, no estariam excludos de uma investigao bastante detalhada, ao que pelos recortes que
fiz no me foi possvel, das relaes empreendidas entre grupos, sendo os tnicos, ao meu ver, os mais
significativos e suscetveis para esta possvel anlise. Algo que a antropologia vem realizando de modo eficiente.
Um convite a uma reflexo inicial nesta perspectiva pode ser encontrado em: CUNHA, Manuela Carneiro da.
Etnicidade: da cultura residual mas irredutvel. In: CUNHA, Manuela Carneiro da. Antropologia do Brasil:
mito, histria, etnicidade. So Paulo: Brasiliense, 1986, pgs. 96-108.
328
Inscrio colocada na placa do monumento do imigrante, tambm conhecido como monumentos das ms. A
grafia e as letras utilizadas foram mantidas do original, por isto o uso de caixa alta no texto referido.
327

176

Monumento ao Imigrante -Rua Seis de Janeiro


Foto: Emerson Csar de Campos

O monumento ao imigrante, entendido como um Patrimnio Cultural329 e


engendrado pela necessidade de memria, que j havia tempo se transformado em histria,
posto a ruptura existente entre as pedras que rolaram e as trs colunas que as sustentaram,
tentava perpetuar a recordao de um grupo ou coletividade maior, justamente porque

329

A lei mais recente e em vigor sobre o Patrimnio Histrico, Artstico e Natural da Cidade data de 14 de
Outubro de 1998 (lei n. 3.700) sendo o prefeito da poca o Sr. Paulo Meller. A cidade, pela documentao
consultada, teve ao menos uma lei a mais e anterior, na administrao de Jos Augusto Hlse (lei 2.063 de
13/06/85). Entre os nomes que se apresentam nas Comisses organizadas para o tombamento, como praxe
nestes casos, so contemplados arquitetos, artistas, professores e historiadores, entre estes ltimos, Mrio Beloli
(em 1997) e Dorval do Nascimento (em 2000). Entre os artistas, Edi Balod (em 1985). Seguindo a lei em
vigncia, a Comisso Tcnica de Relatrio e Sugestes para Tombamento de Bens Municipais, em parecer do
dia 11/07/2000. sugeria o seguinte: Para que no se perca e que permanea como marco na Rua 06 de Janeiro,
em homenagem aos bravos colonos fundadores da cidade. A data de sua construo remete ao tempo em que
as autoridades locais comearam a se preocupar com a memria da cidade. A fundao Cultural de Cricima
favorvel ao tombamento do Monumento primeira M. In: Documento citado, disponvel na Fundao
Cultural de Cricima. Em setembro deste ano de 2003, j pela lei em vigor, foram tombados seis bens pblicos,
entre eles: o Museu Augusto Casagrande (criado por ocasio do centenrio) A Casa da Cultura (antiga
Prefeitura) e a Casa da Associazione Bellunesi Nel Mondo (em Morro Albino). Nenhuma as praas at agora
foram tombadas, includas a Praa do Imigrante (onde esto as ms) nem a Praa do Mineiro (Praa Nereu

177

clamava pela no-morte. Mas o que sobrevive, como bem indica Le Goff, no o conjunto
daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas foras que operam no
desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam cincia
do passado e do tempo que passa, os historiadores(...)330. E se um monumento traz consigo
uma idia de fixar algo, de por assim dizer, no interromper uma fala, o mesmo nos indica
ento uma posio: cultural, social ou de qualquer outro tipo. Se olha para ele, mesmo que
no se o conhea e se chega logo sentena indagativa: O que aconteceu por aqui? Que
homens tenham rolado pedras em busca de conforto, isto algo muito compreensvel; que
outros as tenham fixado, se trata de um intricado processo de criao.
A imprensa criciumense que, junto ao poder pblico, iniciava a contagem e a
visibilidade da etnicidade, assim noticiava a instalao do monumento na cidade:
Movida pela fora humana estas pedras foram roladas entre mata virgem,
cerca de 40 km. Destinadas primeira indstria de cricima em 1880...
estas so, em parte, as palavras contidas na placa de bronze do
monumento ao imigrante inaugurado na ltima quinta feira, dia seis de
janeiro, data em que Cricima comemorou seu 86a aniversrio de
fundao. O monumento ao imigrante a concretizao de uma
proposio apresentada pelos estudantes de nossa cidade, atravs de sua
entidade mxima, a UESC, quando da gesto de Lcio Nuernberg. Foi
construdo pela prefeitura, na administrao Arlindo Junkes e composto
de duas pedras de moinho sustentadas por trs colunas, estas simbolizando
as nacionalidades dos imigrantes, italianos alemes e poloneses, que de
1880 em diante aqui se fixaram. Estes homens deixaram ao findar o sculo
XIX, uma Europa civilizada e se embrenharam num continente
desconhecido onde a luta contra o meio, o ndio e a terra saram
vencedores, proporcionando-nos com seu trabalho uma vida mais cmoda
e menos spera do que a que tiveram. A eles devemos nosso
desenvolvimento de hoje. (...)331.

A citao acima faz o acabamento daquilo que havamos iniciado um pouco antes.
Contudo, vamos algumas outras consideraes. possvel inferir, com boa chance de
acerto, que a populao criciumense em 1966 dividida entre rural e urbana, estivesse no

Ramos, onde fica o monumento aos homens do carvo). Embora instigante, o tema de Patrimnio Pblico,
pelos recortes que fiz nesta tese, no pde ser aprofundado. Fica assim como uma potncia do devir.
330
LE GOFF, Jacques. Histria e Memria. Traduo de Bernardo Leito. Campinas: So Paulo, 1994, p. 535.

178

limiar da igualdade332, com indicao clara de crescimento acelerado desta ltima. Sendo
assim, no fica difcil imaginar que na cidade, no mnimo uma gerao antes de 1960, j se
fazia presente em Cricima toda uma sorte de gente que no colonizadora, no pertence333
a um grupo tnico (ou no se entendia como tal) e muito menos era vista como pioneira. E
para estas pessoas, o que significaria a inveno da roda?
Atravessando a dcada de 1960, em folder de divulgao de Cricima, mostrada
na oportunidade como capital do carvo, a administrao de Algemiro Manique Barreto
(prefeito entre 1973 e 1977) indicava:

Monumento aos Homens do Carvo334


At 1971 o monumento aos homens do carvo se encontrava colocado bem ao
centro da praa, quando foi dele retirado e colocado em dos cantos da mesma praa Nereu

331

JORNAL TRIBUNA CRICIUMENSE. Cricima: Tribuna Criciumense, 08/01/1966. p. 8. Notar que o diretor
presidente do referido Jornal era na oportunidade o Sr. Jos Pimentel; frente ao que consegui levantar, acredito
que seja um dos primeiros memorialistas-oficialistas da cidade.
332
Embora igualdade seja um termo infeliz para ser critrio de alguma anlise, no me ocorre agora outro termo.
Em 1960 a populao rural representava aproximadamente (tendo por base os dados do IBGE j citados) 55 %
da populao total. Em 1970 esta mesma populao rural representava 32% da populao total. Isto refora a
idia de exploso urbana iniciada na dcada de 1960 e levada a efeito com maior fora na dcada de 1970.
Apenas para que se tenha uma dimenso mais elaborada disto, em 1980 com uma populao de 110.604
habitantes, Cricima tinha em sua rea urbana 87 % da populao. Ainda sobre a dcada de 1970, no me parece
gratuito que segundo depoimento de Fernando Carneiro j citado a dcada de 1970 foi aquela em que eu ganhei
mais dinheiro, onde fiz mais projetos arquitetnicos na cidade.
333
A categoria pertencimento o grande mote das anlises sobre relaes tnicas, como se pode ver em Barth:
334
Foto extrada de um folder de divulgao, cf. citado no corpo do texto. No foi possvel identificar o ano de
publicao, acredito que tenha sido produzido entre 1974-75.

179

Ramos. Esta descida do mineiro tem algumas explicaes. Era um monumento para fotos, o
mineiro era muito pequeno para a altura que havia sido colocado335, me diria em entrevista
o arquiteto Fernando Carneiro. O mesmo arquiteto ainda lembrou que o monumento foi
colocado no principal local de confluncia de trnsito da praa, num momento em que ainda
se podia contorna-la de automvel.
A administrao de Nelson Alexandrino (1970-1973) havia deixado uma marca
discutida at hoje pela historiografia local336. Ao invs da inscrio inicial de 1946, onde se
podia ler Cresciuma, aos homens do carvo 1913-1946, foi ento inscrito, Cricima ao
Homens do carvo 1913-1971. Neste ano aps uma viagem cidade de Concrdia (SC) e
vislumbrado com um chafariz fluorescente que l encontrou, o ento prefeito Nelson
Alexandrino, aps a retirada do monumento do centro da Praa Nereu Ramos e deslocamento
para um dos seus cantos, constri em seu lugar um chafariz. O canto triangular que agora
(2003) ocupa se chamava Praa do Imigrante (antes Etelvina da Luz), substitudo desde ento
por Praa do Mineiro337. Mas, para mim o que resulta deste cruzamento de territrios, do
deslocamento de sentidos dados aos lugares, fica mostrado no Folder publicado na
administrao de Manique Barreto, como visto, sucessor de Alexandrino. Ao lado da foto do
mineiro mostrada acima, existe a foto do monumento ao Imigrante, e nela se pode ler:
Homenagem do municpio de Cricima a sua colonizao: italiana, alem e polonesa338. A
pedagogia continuava, mas ainda com trs, numericamente modesta.

335

Depoimento j citado.
Ver por exemplo: BELOLI, Mrio; PIMENTEL, Jos. Cricima amor. Itaja: Uirapuru, 1974.
338
Ver: Decreto Municipal n. 898, de 08/06/1972.
338
Folder- documento j citado.
336

180

E como falamos de pedras, poderemos falar tambm de sementes. De algumas que


foram lanadas e das quais, para alguns sem prejuzo339, foram produzidos frutos, e bons
frutos. Isto se pode ver em dois momentos distintos. O primeiro mais prximo do agora em
que se fixaram as pedras, o outro, bem, o Outro se relaciona com um incremento na
pedagogia, como veremos.
No primeiro momento, ainda em 1960 era assim que o vereador Nelson
Alexandrino340, poca vereador e presidente da Cmara Municipal, felicitava os cidados
criciumenses, por ocasio das comemoraes do 80 anos da colonizao:
6-1-1880 / 6-1-1960: 80 anos de progresso: salve Cricima, capital do
carvo. (...)(Cricima) possu o fascnio de atrair forasteiros que acabam
devotando-lhe um imenso amor, ajudando-a a construir uma civilizao
que orgulha a terra barriga verde. Invocando um herosmo dos
pioneiros de 1880, modestos e abnegados imigrantes italianos, muitos
dos quais tombaram flechados por silvcolas, depositemos sobre os
tmulos destes plantadores de cidade, o nosso sentido de saudade e
gratido.(...) Uma cidade predestinada a ocupar lugar de relevo na vida
econmica social e cultural de Santa Catarina. De inexpressvel burgo
acabanado de 10 anos atrs, hoje Cricima provoca em todos os que a
conhecem e sentem a hospitalidade e cordialidade de seu povo uma
afetuosa e sincera amizade(...). A semente foi lanada no dia 6 de
janeiro de 1880. Toda vez que se comemora mais um aniversrio de
fundao de Cricima, muito naturalmente o nosso pensamento ser
lanado para os primeiros dias de colonizao. Seja pela curiosidade de
conhecer como foi fundada, seja para reverenciar a memria de seus
fundadores, ou seja ainda para apreciar os propsitos iniciais e
acompanhar a sua evoluo para a magnfica realidade do presente (.. )
na qualidade de presidente da cmara municipal presto homenagem aos
fundadores de gratido aos fundadores desta progressiva cidade. E a
todos os habitantes uma mensagem de felicitaes, desejando-lhes um

339

Na verdade um modo de julgar bastante sutil. A palavra prejuzo nas demais lnguas latinas: prejuicio,
pregiudizio, prejug, e tambm no ingls: prejudice, se relaciona a um pr-juzo, que em portugus ficou
estabelecido como preconceito. Em realidade em portugus ela veio a significar dano, e no conceito ou
opinio formada antecipadamente, sem maior ponderao. Fao este esclarecimento porque me parece uma
prtica muito comum o uso de prejuzo como um dano causado ou recebido, e no como uma opinio sobre algo
ou algum formada a priori. Em muitas entrevistas que realizei foi perfeitamente identificvel, na fala das
pessoas, esta sutileza lingstica. Para isto ver o comentrio de Paulo Csar de Souza, o tradutor do livro de
Nietzsche, Alm do bem e do mal,publicado no Brasil pela Cia das Letras em 1992 (ver bibliografia). Quanto ao
aspecto mais geral, em: DONNE, Marcella Delle (Org.).Relazioni etniche, stereotipi e pregiudizi: Fenomeno
immigratorio ed esclusione sociale. Roma: EdUP, 1998, a citada autora operacionaliza o conceito de pregiudizi
(preconceito) a partir dos processos de categorizao de qualquer grupo humano. A questo do pregiudizi est
definida logo na introduo pgs. 9-12. Estarei voltando a esta idia do prejuzo ao longo deste mesmo ensaio.
340
O mesmo Nelson Alexandrino que seria eleito prefeito, como vimos, que levou o chafariz para o centro da
praa, que desceu o mineiro do seu pedestal imponente, e que para se eleger prefeito teve que entrar num
intricado jogo de poder, segundo o que me diria Rodeval Alves (em depoimento j citado).

181

feliz ano novo e que todos continuem a trabalhar pelo progresso de


nossa terra, Cricima341.

Relutei em colocar uma citao to grande para no perder a ateno de quem o l.


Mas foi irresistvel. Est quase tudo colocado ali. O que dali algumas dcadas seria muito
bem trabalhado pela administrao pblica e tambm pela historiografia local. O
reconhecimento da ajuda dos forasteiros, aqueles que no tiveram a sorte de ter chegado
cidade em seus primeiros momentos. Homens e mulheres (como foi possvel perceber atravs
das vrias entrevistas que realizei) hifenizados, que forjaram um espao entre na ordem que
se institua. Homens que tomavam caf com mistura, alguns comendo peixe, o que lhes
renderia o prejuzo de marisqueiros. Mulheres que nem sequer sonhavam o que viria ser
Etnia na cidade. Esta populao existia, no estava s portas da cidade, batendo ou pedindo
licena para entrar. Eles chegaram. E eram muitos342. Como se entocados tivessem, sua
publicidade seria alcanada somente num outro agora. Vamos a este Outro.

A etnizao da cidade: um aniversrio bem festejado!

Se eu lhe disser senhor consul que aqui nesta cidade o senhor pode se
sentir como se estivesse em casa, no estaria fazendo esta afirmao por
mera cortesia protocolar. Pois a verdade que esta nossa comunidade o
fruto do trabalho, do sacrifcio, da perseverana e coragem de um grupo
de famlias italianas que aqui vieram h quase cem anos atrs, semear
nesta terra as suas esperanas. (...) Foi assim, portanto que esta cidade
comeou a nascer. Sem sangue, mas com suor e lgrimas. por isto que
hoje ns recordamos os passos dos imigrantes italianos, com respeito e
admirao, mas tambm com orgulho, pois esta cidade de trabalho e
progresso o fruto daquela semeadura. E em 1980, haveremos de
assinalar festivamente o centenrio da colonizao. Desde j criamos em
Cricima um conselho de cultura, para entre as atribuies coordenar o
programa de comemoraes alusivas a data, para que o esforo e a

341

Jornal Tribuna Criciumense: Cricima, 04/01/1960, p.1.


Foi mesmo impressionante para mim o nmero de pessoas com os quais falei que de modo voluntrio diziam:
eu nasci aqui, mas meu pais so de fora. Ou ainda; meus pais so de linha de fora, para o caso especfico
dos chamados marisqueiros.

342

182

memria dos primeiros imigrantes sejam condignamente celebrados. A


sua visita, Sr. Consul, configura o momento mais oportuno para convidlo a nos dar a honra de sua participao e apoio. Estamos ligados a
generosa e a bela Itlia pelas nossas prprias razes, e a Itlia e sua
brava gente que desejamos homenagear no centenrio da colonizao. E
a Itlia , aqui to bem representada oficialmente que em nome desta
cidade desejo brindar neste momento.343

O pequeno texto apresentado acima uma parte menor do discurso produzido


pelo prefeito Altair Guidi em 20/05/1978, quando da recepo organizada pela Comisso
Central dos Festejos do Centenrio CCF344 para receber a visita do Cnsul Italiano em
Cricima. A celebrao seria realizada para alguns poucos convidados. Antes do almoo
oferecido, o prefeito ensaiava ento seus passos e falas mais vigorosos. Passos estes que
seriam seguidos muitas vezes at o dia seis de janeiro de 1981, data programada para o
encerramento dos festejos do centenrio. Isto que era festa bem programada! E vale dizer
desde cedo que, com todo o incentivo dado pela Prefeitura Municipal atravs de suas
Secretarias e Conselhos, houve a participao efetiva da populao criciumense com os

343

O texto na sua ntegra se encontra disponvel no Arquivo Pblico Municipal Pedro Milanez, na pasta de num.
59 Centenrio. At onde consegui investigar se trata de um texto ainda no publicado, sendo ouvido apenas
pelos convidados recepo. Na mesma pasta citada possvel encontrar, em folha escrita tinta, o total das
despesas envolvidas no almoo de recepo do Cnsul. Foram gastos Cr$ 6.240 do total, dos quais Cr$ 4.393,00
foram pagos pela prefeitura sendo o restante onerados aos 102 convidados presentes. Cricima foi visitada
tambm pelo Cnsul de Portugal, da Polnia e da Alemanha, sempre convite da CCF do Centenrio. A
documentao disponvel no Arquivo Pblico Municipal a este respeito muito grande. Ofcios, cartas,
congratulaes que confirmam como levado com afinco as comemoraes do Centenrio. Ainda sobre Cnsul,
desta feita em relao a etnia negra, a CCF encaminhou convite para a Embaixada da Angola nos Estados
Unidos naquela oportunidade. No consegui encontrar resposta da embaixada, mas certo que o Cnsul no
compareceu.
344
CCF : Comisso Central dos Festejos. Ainda no governo de Algemiro Manique Barreto (1973-1977) foi
criado o Conselho Municipal de Cultura, sob sugesto de um mdico da cidade chamado Jos Alfredo Beiro.
Tal Conselho regulamentado pela lei N. 1.358, de 22/11/77. At esta data, segundo o que consegui levantar, a
diretoria do Conselho era eleita por representantes de algumas instituies vistas como expressivas na cidade:
Faculdade, Rotary, Colgios mais antigos. Em 1977 a Cmara Municipal faz eleio entre seus membros para
indicao que seria ratificada pelo prefeito. Os 13 vereadores da poca elegem o historiador Mario Beloli como
presidente. O Conselho Municipal de Cultura cria a Comisso Central dos Festejos - CCF, em 04/05/1978, e a
oficializa atravs do decreto No. SE/052/79 de 16/04/1979. Dados obtidos nas pastas relativas ao centenrio
localizadas no Arquivo Pblico Municipal e na entrevista concedida a mim por Mrio Beloli na cidade de
Cricima, em 21-05-01. Em 1978 tambm ser fundado o Grupo Folclrico e Artstico Seis de Janeiro, primeira
de outras tantas entidades criadas a partir dos festejos, com a inteno de dar apoio aos mesmos. Ver tambm:
ARNS, Otlia. Op. Cit., p. 220.

183

festejos, ainda que por vezes de forma compulsria345. No foram medidos esforos para que
o ano de 1980 fosse fundante.
Ainda sobre o texto lido na ocasio, nele se faz presente uma descrio completa
desde o recrutamento realizado por Demtrio Drio, incansvel propugnador da conquista
de novas terras, ainda na Itlia em 1879 do qual seriam reunidas 50 famlias oriundas de
Beluno, Treviso, Udine e Vicena, at a chegada destas pessoas na vila So Jos de
Crescima, em seis de janeiro de 1880. O que mais chama a ateno neste discurso a
apropriao que dele foi feito, pelo que se tem de indicado. O texto, em realidade se trata de
uma coletnea de informaes at ento dispersas:permita-me recordar agora, nas palavras
do historiador, os primeiros passos desta gente herica346. A narrativa contada ali, que
insisto em ler, apesar do distanciamento que tentei realizar, lembrando Guimares Rosa,
como uma espcie de Sagarana, ser repetida durante as comemoraes dos 98, 99, e 100
anos da colonizao. Mais do que isto, em quase todas as comemoraes de carter oficial
do municpio, tais como desfiles de sete de setembro, dia da fundao (seis de janeiro) e
outros tantos, esta fala em alto e bom som mostrada aos criciumenses347. o que chamo

345

Em vrios ofcios encaminhados a CCF e a Secretaria Municipal de Educao (disponveis no arquivo j


citado) possvel identificar a preocupao que tinham as (os) Diretoras (es) e as (os) professoras (es) de
colgios do Municpio, em cumprir as determinaes quanto presena de alunos e funcionrios nas
celebraes que ocorriam, especialmente durante o ano de 1980. Contudo, dado o carter obtuso daqueles anos
do governo Joo Batista Figueiredo, fica muito difcil determinar at onde o receio era com a administrao
municipal, poca base de apoio do governo Estadual e Federal, ou com o medo pulsante que boa parte da
populao criciumense sentia em ser alvo de represses mais organizadas, tendo em vista que a cidade era
famosa, ainda naqueles anos, por ter movimentos sociais organizados e uma poltica de resistncia bem viva.
346
Em realidade no se pode afirmar quem seja o historiador mencionado pelo prefeito. Pelo que consegui
investigar, se trata de recortes e colagens, como j disse, lidos em diversas oportunidades na cidade, e que de
maneira mais organizada esta na obra de Otlia Arns: A semente deu bons frutos. Ver: (ARNS, 1985).
347
Como foi possvel perceber na fala do locutor do desfile realizado em sete de setembro de 2002. Quando da
passagem dos grupo tnicos, (sim eles tambm estavam l, e no mesmo dia estariam tambm na XIV
Quermesse: Tradio e Cultura ou Festa das Etnias, conforme j discutido em outro ensaio), nos alto falantes
dispostos pela Avenida Centenrio, o discurso citado estava novamente sendo ouvido pela populao e tambm
transmitido pelas rdios locais: Hulha Negra e Eldorado. Este carter solene e fixador tambm pode encontrado
nos discursos que so escritos para as comemoraes do centenrio pelas autoridades convidadas pela Comisso
Organizadora. nesta dimenso que so escritos os discursos apresentados na obra de ARNS (1985), onde falam
Joo Batista Figueiredo (presidente poca), o Papa Joo Paulo II (em seus primeiros anos de papado), Jorge
Konder Bornhausen (governador), e o Cardeal Joo Paulo Evaristo Arns (nascido em Forquilhinha, poca

184

aqui de pedagogia da repetio348, melhor qualificando,

seria das semelhanas. Assim

mesmo: repetio que no se realiza, a no ser como semelhana349.


Nesta volta pedagogia que mencionei, o incremento precisa ser discutido. Ele
comea de um jeito territorializado. Novamente eles, os territrios. Maria Marlene Milanez
Justi era Secretria da Educao na primeira Gesto de Altair Guidi. Uma Gesto que
segundo a prpria Marlene, afinada ao que, em entrevista a mim, o prefeito mesmo diria
para daqui vinte anos, para marcar a Histria de Cricima350. Uma das primeiras notcias
que me deram os entrevistados foi que Tnhamos que conhecer nossas razes. Uma outra
foi a de que Cricima era uma cidade muito territorializada. Tinha receio e desconfiana de
gente de fora. Tanto que foi com dificuldade que implementamos o Parque Centenrio. A
cidade demorou a digerir a obra do Manoel Coelho, que era de Curitiba351. Mas o que fazer
para sacudir a cidade? Por onde comear? Estavam no comeo da Gesto, era o ano de 1977.
Precisavam fazer a cidade se encontrar, sair da recluso. Evidente que as pessoas desde cedo
se encontravam, mas o poder pblico, na compreenso de seus administradores, pouco havia
colaborado para que a cidade fosse cada vez mais de todos352.

municpio de Cricima). Para uma idia mais elaborada dos desfiles na cidade ver nesta tese o tpico Desfile,
inserido no ensaio Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias e Sobejos. Para uma abordagem mais abrangente,
desta feita construda sob as representaes da ordem social exibida numa parada (desfile) ver: RYAN, Mary. A
Parada Norte-americana: representaes da ordem social do sculo XIX. In: HUNT, Lynn. A nova histria
cultural. Traduo de Jefferson Luiz Camargo. So Paulo: Martins fontes, 1992, p. 177-209. Ver tambm: La
Petite enclose dans la grende: regionalismo e identidade nacional na Frana durante a terceira Repblica (18701940). In: Estudos Histricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 15, 1995, p. 3-16.
348
Ver discusso sobre a idia de repetio e suas (im) possibilidades no ensaio sobre a Quermesse, presente
nesta tese.
349
Idem. Ver tambm discusso colocada no final deste ensaio.
350
Expresso utilizada por Marlene Justi e Altair Guidi, em entrevistas que ambos me concederam na cidade de
Cricima, nos dias 10/03/2002 e 23/06/2000, respectivamente.
351
Conforme j comentado no insaio sobre a Quermese, Manoel Coelho, arquiteto e criador do Parque
Centenrio, foi desde o incio visto com desconfiana, especialmente pelos que se poderia chamar
estabelecidos.
352
Uma das principais expresses utilizadas na divulgao dos festejos do Centenrio. Presente em quase todos
os folders, cartazes e tudo o mais com que consegui ter contato.

185

Foi resolvido que uma grande festa seria realizada. Mas por onde comear? A
ocasio lhes indicou o caminho. Comemorar os cem anos da colonizao do municpio.
Precisariam de uma grande estrutura: Comisso Organizadora, um novo Pao Municipal, um
Parque Pblico, um Hino e um Monumento353. Mas precisariam que as pessoas
manifestassem interesse pela festa. A seduo seria trazida de fora. Mais precisamente de
Caxias do Sul (RS):
Como queramos uma grande festa, e no achvamos nada
semelhante por perto, algum falou da festa de Caxias. Fomos
em duas oportunidade para l. Uma vez depois da festa da uva.
A segunda um tempo depois354

No Arquivo Pblico Municipal se pode encontrar o relatrio destas visitas. Caxias


do Sul estava comemorando seu Centenrio, o que aumentava ainda mais a importncia da
visita. Viajaram para Caxias do Sul: Mario Sonego, vice prefeito; Maria Marlene Milanez
Justi, Secretria de Educao, Joice Quadros, Relaes Pblicas; Nivaldo Goulart, professor
da Fucri (Faculdade Cricima). Da viagem trouxeram boas idias: criao de um museu, um
profissional (Vanderlei Rocha) que auxiliaria na construo do Museu Augusto Casagrande
de Cricima, realizaram uma entrevista com Ivo Rossi (Coordenador Geral d Festa da Uva
em Caxias) e tambm com Flavio Ioppe (Presidente da Festa da Uva).
A estrutura organizacional estava idealizada aps a visita Caxias. Precisavam
achar um presidente para a Comisso Central dos festejos. Esta seria uma tarefa difcil, pois
naquele momento na cidade algumas pessoas tinham que trocar de roupa cinco vezes por

353

Resumidamente, todos estes eventos foram levados cabo pela CCF e tambm e especialmente, pela
Administrao de Altair Guidi. Existe uma quantidade enorme de documentos no Arquivo que tratam da criao
destes elementos citados. A ttulo de exemplo, foi organizado concurso para o projeto arquitetnico do Parque e
para a eleio do hino. Ver discusso em seguida nesta ensaio.
354
Maria Marlene Milanez Justi. Depoimento citado.

186

dia355. isto mesmo, com o estranhamento que isto causa. A atividade de Marlene Justi no
era insalubre ou danosa, mas era territorializada: Para cada lugar que eu ia diferente, eu
trocava de roupa. Eu entrevistava pessoa italianas, polonesas, alems, negras e portuguesas,
as vezes no mesmo dia. E eu tentava ento entrar no mundo daquelas pessoas, a comear
pela aparncia que eu daria para elas356 . O presidente da Comisso teria que ser algum
extra-envolvido. Mas necessariamente da cidade. No poderia ser poltico, tampouco algum
da prefeitura. Na tabulao, foi encontrado o mdico Dino Gorini que havia sido mdico de
muitas famlias da cidade357.
Eu gostaria, contudo, de falar do incremento produzido no depoimento de
Marlene Justi, um incremento produzido, tal qual a tabulao do mdico que provocou o
encontro, pela excluso. Eis que em 1980 seria ento comemorada tambm, uma populao
que embora viva e presente na cidade, no havia sido celebrada, muito menos com
monumento. Na conta pedaggica que apresentamos no incio deste ensaio estvamos com
trs etnias. Nas comemoraes do centenrio agora seriam cinco. A explicao para isto vem
de um dos idealizadores deste incremento:
Ns estvamos reunidos na prefeitura, toda a Comisso.
Comeamos a pensar nas pessoas que precisavam ser lembradas,
homenageadas. Ns queramos uma festa para cidade inteira, de
todos. A comearam a listar grupos. Algum falou dos poloneses,
outro dos italianos, outro dos alemes. Eu disse: A gente tem que
botar a os negros. Esta cidade foi tocada pelos negros. E tem que
colocar tambm os portugueses, que eu nem acho que seja
portugus, mais o aoriano sei l. Os primeiros que chegaram
aqui no foram os italianos. s ver os barraces que tinha por
a.358

355

Idem.
Idem.
357
Depoimento de Altair Guidi, j citado.
358
Idem.
356

187

Chegamos ento ao momento em que j no so mais trs, mas cinco etnias.


Contudo, a Comisso no queria algo somente emprico. Queriam sistematizar, deixar
marcado. Neste sentido, para a Comisso que organizou as comemoraes, e isto fica claro
tanto pelos depoimentos coletados quanto pela documentao que tive acesso, seria
necessrio profissionais muito qualificados. Ento chamada para organizar dados e
gerenciar as entrevistas que estavam a todo vapor sendo feitas, uma senhora de nome Otilia
Arns. Professora na Universidade Federal do Paran, em Curitiba, Otlia Arns era irm de
Bertoldo Arns, integrante da Comisso Central dos Festejos, quem na verdade acabou
indicando Otlia Arns:
Fui convidada pelo meu irmo para auxiliar na organizao
dos dados. Quando eu cheguei de imediato tive muita
dificuldade. Depois foi se organizando melhor. Eles estavam
querendo chamar grupos distintos para a festa. Eu achei que
o nico jeito de contar toda aquela histria era falando de
cada etnia. Eu j conhecia o termo. Depois ento o ttulo, que
falavam sempre quando eu os encontrava: a semente, estes
so os frutos da semente plantada359

As cinco etnias ento agora estavam criadas, mas faltava a celebrao disto. Um
outro Curitibano vai chegar em auxlio. Manoel Coelho havia feito arquitetura com Altair
Guidi em Curitiba na poca eu at achava Altair vermelho, diria o Arquiteto comentando o
posicionamento poltico do ex-prefeito poca. Experiente em administrao de obras
pblicas, Manoel Coelho foi o construtor do Centenrio. Projetou a Avenida Centenrio,
que fria Fernando Carneiro, arquiteto de Cricima dizer a centenrio veio de Curitiba,
ainda o novo Pao Municipal, o Parque Centenrio e o Memorial Dino Gorini, inaugurado
em seis de janeiro de 1981, portanto um ano aps o primeiro repicar dos sinos, naquele
aniversrio bem festejado.

359

Entrevista concedida a mim, na cidade de Forquilhinha, por Otlia Arns, em 15/03/2002.

188

J falamos sobre o Parque Centenrio no ensaio sobre a quermesse, mas


recordando, o referido Parque constitudo pelo Pao Municipal Marcos Rovaris, Teatro e
Biblioteca do Municpio, Ginsio de Esportes e ao Centro, dividindo partes, o Memorial
Dino Gorini. No arquivo pblico existe um documento que foi publicado tambm em vrias
edies de jornais da cidade, por ocasio dos festejos do Centenrio. Diz o seguinte:

A obra dos colonizadores foi a semeadura de um amanh

melhor, conquistado com as foras de sua prprias mos. Em


meio adversidade e desesperana, essa semente fundou razes
profundas e ergueu uma cidade sobre o solo, arrancando da terra
um testemunho de luta, de perseverana e de grandeza. O que o
monumento expressa este movimento (....) Do fundo da terra
brotou um novo tempo. Do fundo da terra, somando e integrando
trabalho, cinco etnias extraram a energia que impulsionou para
frente e para cima, etapa aps etapa.

Fica claro a idia de instituir e solidificar uma idia de cidade que, mesmo tendo
a idia de movimento citada, guardaria as razes. Na cidade existem controvrsias quanto a
leitura sobre o monumento, chamado das etnias pela maior parte das pessoas. Algumas
pessoas dizem que o monumento representa cada uma das cinco etnias, e mais ainda pela
ordem presencial: italianos, alemes, poloneses, portugueses, negros.

Em entrevista

concedida a mim, Manoel Coelho diz que:


No pensei nisto quando fiz o projeto. Pelo contrrio, queria
integrar mais as pessoas. O monumento representa os cinco dedos
das mos, trazendo a riqueza para cidade. Pensei que isto fosse
claro: a unio entre o que foi agricultura e depois o carvo,
construindo a cidade. Mas agora o carvo diminuiu. O
monumento est l360

360

Manoel Coelho se mostrou, desde meu primeiro contato com ele, um sujeito bastante disposto a ajudar.
Ligou para minha casa espontaneamente ao menos duas vezes, com a inteno de falar sobre Cricima. Passoume fontes que sero muito teis trabalhos futuros, tanto meus quantos daqueles que tiverem disposio para
pesquisa no Arquivo Pblico Municipal Pedro Milanez, local para onde estarei dirigindo estas mesmas fontes. A
foto maquete apresentada acima, indica de alguma forma a qualidade e o detalhamento das fontes as quais me

189

O monumento est l, e apesar de problemas como infiltrao e outros, continua


falando para a cidade: Cinco. Se h algo positivo na valorao tnica, bom que se diga que,
ao que pude perceber populaes antes pouco visibilizadas ou excludas, caso da chamada
etnias portuguesa e da negra, alcanaram visibilidade. Mas isto no significa necessariamente
incluso.

Maquete do Memorial projetado por Manoel Coelho361

refiro. E tambm de como aquilo que havia sido projetado tenha sido efetivamente construdo. Manoel Coelho
concedeu entrevista a mim, em 08/03/2002.
361
Foto obtida do acervo pessoal de Manoel Coelho.

190

Memorial Inaugurado em 06-01-1981362

Folder- Convite Cricima de Todos 363

Do preterido e no comemorado: a cidade em prosa e verso


Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras no era a beleza das frases, mas a doena delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu preceptor,
esses gosto esquisito. Eu pensava que fosse um sujeito
escaleno. Gostar de fazer defeitos na frase muito
saudvel, o padre me disse. Ele fez um limpamento em
meus receios. O padre falou ainda: Manoel, isso no
doena, pode muito que voc carregue para o resto da
vida um certo gosto por nadas... E se riu. Voc no
de bugre? E continuou. Que sim eu respondi. Veja que
bugre s pega por desvios, no anda em estradas. Pois
nos desvios que encontra as melhores surpresas e os
ariticuns maduros. H que apenas que saber errar bem
o seu idioma. Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro
professor de agramtica.

362
363

Foto digitalizada a partir de folder publicado em 1998.


Folder distribuido pela Prefeitura Municipal de Cricima durante todo o ano de 1980. Acervo pessoal.

191

(Manoel de Barros)

Tem muito Serafim e Pereira l para as bandas de Bom Jardim:


Escritor pantaneiro como o prprio se define, Manoel de Barros ao longo de seus
escritos, cria, como uma aranha a sua teia, uma obra empanzinada de jeitos e formas que
lembram no apenas o ser pantaneiro, mas uma forma particular de insero social de
homens vistos como rudes e toscos. Ele por assim dizer, um narrador. Homem capaz de
encarnar o esprito cada vez mais fugidio de Guimares Rosa, contando coisas de lugares do
tamanho do mundo.
Uns e outros homens tiveram o desprendimento de se lanarem no a travessia do
atlntico, como o fizeram portugueses, espanhis, italianos e tantos outros conhecidos e
lembrados pelo carter civilizador impelido em Terra Brasilis, mas a real aventura de
transformar desvios em caminhos, e desta forma particular se integrarem tambm postura
civilizadora. Os tropeiros foram desde o sculo XVII at a primeira metade do sculo XX,
homens de trnsito. Diferente da perenidade imposta por outros desbravadores da regio onde
se localiza Cricima, caso dos imigrantes italianos, alemes e poloneses, eles se preocuparam
em trilhar. Isto no significa dizer que os demais homens civilizadores no tenham se
dedicado tarefa, mas eles, os tropeiros, deram a ela um certo estilo. Assim, parece adequado
que tais homens sejam, ainda que de forma prosaica, tirados dos rodaps da histria da cidade.
H uma tela de Willy Zumblick (artista plstico catarinense) onde os caminhos
abertos pelos tropeiros na regio sul so mostrados. Ainda no imprio brasileiro, certo que
nos seus ltimos suspiros, se implementa o surto modernizador no sul de Santa Catarina, cujo
ato inaugural indica ter sido a criao da estrada de ferro Dona Tereza Cristina em 1884. Os
tropeiros no incio do sculo XIX, por suas andanas pelo Sul, encontraram o carvo. A

192

notcia, espalhada rapidamente por eles, fez como que o governo imperial brasileiro
deslocasse para a esta regio da provncia, alguns pesquisadores, para bem dar conta da fofoca
gerada pelos homens de tropas. Aps uma srie de investidas dos pesquisadores, apenas em
1913 que o carvo passa a ser explorado em Cricima.
Este caminho atravessa a cidade e, em um de seus pontos, numa comunidade dita
italiana, h um memorial aos caminhadores, onde no se menciona os tropeiros. certo que a
Rota da Imigrao364 uma opo turstica porque em grande medida carrega uma memria
muar. Uma presena que se sente pela ausncia: de relatos, de contos e monumentos. Uma
memria que tem seus fazedores: criciumenses em geral. Contudo sua escrita foi muito
seletiva365.
A idia de que a cidade nasce a partir de cruzamentos relatada nos vrios
depoimentos que coletei. De modo voluntrio e bem vontade, as pessoas se dispuseram a
falar sobre como viam a cidade e suas referncias iniciais. Entre estas pessoas, o atual (2003)
prefeito Dcio Ges pode ser apontado. Segundo Dcio Ges: Cricima nasce meio de uma
encruzilhada, da estrada de ferro com as estradas de rodagem, e a partir dai cresce um
comrcio. Pouca gente daqui mesmo. Daqui tem as famlias dos imigrantes italianos que
vieram inicialmente366. Esta hibridao precoce de Cricima, pode ser encontrada, mesmo
nas obras mais oficialistas que pensam a cidade. Vejamos a foto texto que segue, no sentido
de vislumbrar um pouco do que falo:

364

Ver discusso sobre a Rota da Imigrao colocada no Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias e Sobejos.
Insisto em dizer que esta seleo no exclusividade de um grupo especfico, ela esta mais conectada a um
modo particular de se realizar a escrita da histria. Evidente est que a perspectiva na qual se inserem o que
chamo de memorialistas-oficialistas muito distinta daquela implementada pela nova historiografia local,
representada em sua maior parte pelas produes realizadas pelos estudiosos da UNESC.
366
Depoimento concedido a mim na cidade de Cricima em 23/11/2000.
365

193

Fonte: ARNS, Otlia. A semente deu bons frutos. Florianpolis: Casa Civil, 1985, p. 50.

Nesta imagem, os italianos em 1909 quer seja pela postura corporal ou pela
vestimenta, explicitam uma gama de significados que esto muito longe de indicar uma
identidade acabada ou uma pureza cultural. Uma imagem que em muito lembra uma das
inmeras cenas de conquista do velho oeste americano. E no a nica onde estes homens
aparecem desta forma.
Falamos em tropeiros, ouvimos ento a fala de um vivente, usando a expresso do
povo tropeirista, o senhor Antonio Manoel Pereira, 48 anos, residente em Cricima. Ele se
coloca como inserido e excludo de uma identidade, ou seja, utiliza referncias que
momentaneamente o identificam como serrano, para logo em seguida se excluir desta. O Sr.
Antnio casado com uma descendente de alemes da cabea bem branquinha. O que
resulta sempre algo incompleto. Estrangeiros ou brbaros no o so por natureza, tampouco
ns somos idnticos por termos uma cultura. A barbrie relacional, uma vez que implica
numa relao com outros, uma distino entre ns e os outros. Assim que se pode em alguma
medida apenas entender o que no implica em admisso tcita porque o brbaro (ou
mesmo bandido) sempre o outro. Vejamos o que diz seu Antnio:

194

Meu av veio da serra. No me lembro o tempo que ele nasceu


(mais tarde fala em 1910). Quando chegou aqui ele casou com
uma alem, da cabea bem branquinha. Ele veio l de Bom
Jardim. O nome dele era Serafim Pereira. Tem Muito Serafim e
Pereira l para as bandas de Bom Jardim.(...). Meu pai era um
homem valente, era fogo. At por sinal, os irmos do meu av,
todos eles morreram matados. S sobrou o meu av. uma raa
muito do toa. At hoje os serranos so fogo, no tem moleza.
a raa mais toa que tem. Serrano d tapa e no quer nem saber,
na bala. Pega o 38 l e puf! No tem brincadeira, bobeou mata
mesmo. Mas hoje eles se estabilizaram um pouco, ficaram mais
quietos, na deles. 367

E para completar meu raciocnio, deixo um questionamento que, acredito, ser


muito bem compreendido pelos criciumenses em geral, mais particularmente por parte da
historiografia local preocupada e ampliar as discusses quanto participao pblica nos
caminhos que a cidade acaba trilhando, bem como na representatividade de uma parcela maior
da populao nos bens pblicos, entre estes os monumentos. Causa estranhamento o fato de
que ao se falar de caminhos e mesmo de tropas368, os homens que se lanaram a esta aventura
inicialmente no sejam lembrados. No seria interessante uma reflexo mais elaborada a
respeito? Refletir sobre monumentos que no existem, no no sentido de ergue-los, no esta
minha inteno, mas no sentido de reconhecer esta temtica como algo que possa instigar uma
visibilidade e participao efetivamente maior de todos nos destinos da cidade.
Foi possvel entender um pouco sobre Pereiras e Serafins, no comemorados
durante os festejos. No enquanto Pereiras e Serafins. Talvez tenham sido formalmente
enquanto tnicos, e da desconfio que seriam assim, includos como portugueses369, uma etnia

367

Entrevista concedida a mim, na cidade de Cricima, em 21-06-2000.


Ver discusso brevemente iniciada sobre a Rota da Imigrao, no ensaio Pequeno Dicionrio Ilustrado de
Aporias e Sobejos, tpico Rota.

368

369

Para esta intimidade entre a cultura brasileira e a portuguesa ver: RAMOS, Maria Bernardete. A intimidade
luso-brasileira Nacionalismo e Racialismo. In: RAMOS, M.B.; SERPA, E.C.; PAULO, H. O Beijo atravs do
atlntico. O lugar do Brasil no pan-lusitanismo. Chapec / SC, Argos, 2001, pgs. 357-422.

195

que se incluiu em Cricima, parodoxalmente, por excluso370. Sigamos um pouco mais e ento
veremos como outras vozes tambm foram preteridas.
Durante o concurso para a escolha do Hino de Cricima, 52 concorrentes foram
inscritos371 e apenas uma letra e uma msica, ou seja, apenas uma ordem monofnica foi
ouvida. As demais se encontram no Arquivo Pblico Municipal, espera de quem se disponha
a ouvi-las. O regulamento372 do concurso prescrevia o anonimato, neste caso so indicados os
pseudnimos utilizados por cada um dos inscritos. Tambm quero deixar claro que, embora
tivesse o desejo de colocar todos, no sentido de sacudir a poeira que lhes foi colocada, no foi
possvel assim proceder. Ficam ento apenas dois deles, que de forma rpida tentarei mostrar.
Um primeiro me chamou muito ateno, com o pseudnimo de Juvina de Jesus, um dos seus
trechos diz o seguinte:
Faz cem anos que o branco imigrante,
nesta terra selvagem pisou,
e com a fora de um bravo pioneiro uma nova cidade
fundou.
Oh Cricima sereia morena, que nasceste no verde serto, do
teu seio rojaram as minas e das minas jorrou o carvo
Das itlicas plagas partiram, argonautas buscando o
Eldorado,
E aos pouco Cricima surgiu, do trabalho de um povo
arrojado.
O italiano, o alemo e o polaco
O africano e o luso irmanados
Entoaram a msica rude
Dos engenhos, das minas e arados.
(...)
Cricima de tantos janeiros,
Cricima no teu centenrio,
As novis geraes te sadam,
Cricima, torro legendrio. 373

370

Embora em Fundamentos histricos de Cricima, Pedro Milanez indique algumas famlias (Milanez, 1991, p.
66) no h um ncleo, comunidade ou um grupo mais significativo de portugueses na cidade. Isto pode ser visto
inclusive nos depoimentos das prprias pessoas envolvidas com esta etnia, a exemplo do depoimento que
concedeu a mim, junto a outros presidentes, Evanir Teresa (ver Ensaio Pequeno Dicionrio Ilustrado de Aporias
e Sobejos, tpico: Os tnicos).
371
Existe um outro documento que indica 50 inscritos.
372
Para o regulamento ver pasta do Centenrio, no Arquivo Pblico Municipal.
373
Parte da letra do hino de Juvina de Jesus. O nmero de inscrio do Hino o 7. Os grifos so meus, e fazem
parte da discusso mais frente.

196

No foi possvel identificar o autor, talvez no ainda. Sigamos. impressionante a


semelhana desta letra com o Hino vencedor do Centenrio de autoria de Pe. Cornlio
DallAlba e Sueli Mazurana, que seria cantado na cidade durante todo ano, gravado em Long
Play pela Associao Coral de Cricima. Apresento apenas as partes mais interessantes, pois
este bastante conhecido:
Faz cem anos que o nosso imigrante
Nesta terra selvagem pisou
E coa fora de um bravo pioneiro
Uma nova cidade fundou.
(...)
O italiano, o alemo, polons, africano e o luso irmanados
entoaram a msica
Dos engenho, das minas e arados.
Cricima de tantos janeiros....374

Vamos aos comentrios. O concurso para o hino prescrevia alguns critrios:


originalidade, correo e beleza de estilo, adequao para o ritmo musical, interpretao do
tema histrico da colonizao, correspondncia ao gosto popular. Numa primeira etapa (269-79 a 20-10-79) houve 16 inscritos e nenhum vencedor. Numa segunda chamada (22-10-79
a 6-11-79), com 52 inscritos e o vencedor indicado, como vimos. Pois bem, Sueli Mazurana
tem inscrio com outro hino (n. 25), utilizando o prprio nome. Como espcie de
palimpsesto375, na letra de Juvina de Jesus foi posto o que est apresentado no Hino
vencedor. Disto se pode apenas inferir: Juvina pode ser o pseudnimo de Sueli Mazurana.
Neste caso A vencedora havia concorrido com dois hinos, o que poderia tambm ser

374

Hino vencedor, com nmero de inscrio 52. Autoria de Pe. Cornlio DallAlba e Sulei Mazurana. Tambm
publicado em vrios livros locais, em: ARNS, Otlia. A Semente deu bons frutos. Flrorianpolis: IOESC, 1985,
p. 224. Tambm importante dizer que em ofcio encaminhado ao Dr. Dino Gorini, presidente da CCF, datado
de 7/03/1980, o mesmo Pe. Cornlio DallAlba comunica que j est encaminhado a traduo para o italiano da
letra do Hino do Centenrio. In: Pasta Centenrio, documento protocolado sob n. 052 de 15/03/80.

197

possvel, tendo em vista que no houve classificados376 na primeira etapa. Isto acho menos
significativo. O que mais me chama ateno que a letra primeira de Juvina de Jesus foi
alterada, visivelmente para fazer ajustes musicais, mas em palavras um tanto caras
construo histrica do Municpio. Da o porque de cuidar do palimpsesto. Sobre o imigrante
branco se inscreveu o nosso, sobre o polaco se inscreveu o polons. No foi possvel
identificar quem fez as alteraes, mas os documentos esto l, sobrescritos desta forma. E
sobre tudo isto os prejuzos. Acredito que o vencedor tem importncia menor frente aos
prejuzos.377
Um outro hino bem se adapta ao critrios estabelecidos. Nele no encontrei
palimpsesto, no materializado. Ele talvez esteja inscrito no esprito. Marlene Justi, na longa
conversa que teve comigo, deixou claro o ressentimento em relao aos mineradores, mais
ainda ao prprio mundo do carvo. Veja o que fizeram com a cidade. Aqui atrs da minha
casa tinha um rio e guas limpas que o carvo tratou de poluir. As pessoas estranham a
ausncia dos homens do carvo no Centenrio. Acho que eles se envolveram pouco
mesmo378. Observao seja feita que em 1980 a memria do carvo ainda era muito viva, e
talvez sua ausncia em lugares estabelecidos seja explicada justamente por isto. Para lembrar

375

Estou me referindo aos antigos palimpsestos, onde textos primitivos eram raspados para sob o mesmo
pergaminho, inserir nova escrita. A anlise de palimpsestos hoje requer tcnicas apuradas. O ofcio do
historiador no seria, entre outros, cuidar de palimpsestos?
376
O jri foi o seguinte: Valdenir Zannete Cecrisa; Albertino De Oliveira - Inamps (Lauro Muller); Baslio
Dalb - Pepsi Cola; Arlindo Junkes Colegio; Telmo Locatelli - Pref, Municipal de Blumenau; Irm Vernica
Weber Laguna, Nevio Capeller - Radio Tub, Tubaro; Dulce do Pra -Escola de Msica Bella Bartok; Joo
Kantovizk - Hosp. So Jos ; Nri Milanez - Colgio So Bento; Flvio Vitrio - Banda Cruzeiro do Sul;
Jeremias F. Dos Santos - Assemblia de Deus. Dados obtidos junto ao Arquivo Pblico Municipal.
377
Ver idia de prejuzo apresentada anteriormente.
378
Maria Marlene Milanez Justi. In: Depoimento j citado. A principal ausncia sentida dos mineradores foi
quando da ocorrncia da Expo 100, uma grande feira industrial e comercial (realizada entre 4 e 10 de outubro de
1980), organizada para mostrar o que faz Cricima e o que Cricima faz, conforme veiculado por toda
imprensa durante aquele ano e muito comentada na cidade

198

Pierre Nora, quando ainda habitamos a memria no h necessidade de lhe consagrar


lugares379.
Continuando, entre os critrios para a escolha do Hino, um estabelecia a
necessidade de interpretao do tema histrico da colonizao, como vimos. Sendo
assim, no prprio Hino vitorioso se percebe o reconhecimento da agncia colonizadora posta
tambm pela minerao e no somente pelo imigrante380. Foi neste sentido que me chamou
ateno a inscrio nmero 27. O nome inscrito era Edite da Silva Freitas, astuciosamente
usando o pseudnimo Dite Freitas. Ora, supondo que poucas pessoas conhecessem Edite, o
mesmo no se podia dizer de Dite Freitas, alcunha de Jos Francione de Freitas, que at onde
eu sei e consegui investigar, no se inscreveu. O Dite famoso era um grande empresrio em
Cricima, representante do setor carbonfero. Certamente um nome a provocar
ressentimentos, dado o que se sabia sobre o carvo e o que ele havia feito com a cidade.
Finalizando, vejamos o que a Dite, menos conhecida, fala sobre duas colonizaes: cada qual
com suas pedras:
Imigrante em terras distante, num pas tropical veio parar.(...). Rolando pedras e
moinhos, do subsolo viu o carvo segregar. Cortanto matas abrindo caminhos, a
distncia fazendo encurtar. Cricima centenria, de povo herico e tradio, baluarte
da energia, s capital do carvo. Unindo todas as raas erguendo praas e
campanrio, hoje canto com civismo na festa do centenrio.381

379

Ver NORA, Pierre. Entre Memria e Histria: a problemtica dos lugares. Traduo de Yara Aun Khoury. In:
Projeto Histria. So Paulo, (10), dez. 1993, p. 7-28
380
necessrio dizer que boa parte dos imigrantes italianos, mais expressivos do ponto de vista econmico,
tambm acabam se envolvendo com a minerao. Contudo, na segunda metade do Sculo XX, j era bem
visvel a suplantao destes por homens que haviam chegado de fora. Neste sentido, o caso mais expressivo
o da famlia Freitas, que chegou na cidade vinda de Orleans (SC), no incio da dcada de 1940. A famlia Freitas
por mais de 40 anos foi certamente o nome econmico mais expressivo de Cricima.
381
Parte da letra do Hino Escrito por Edite da Silva Freitas, sob Pseudnimo Dite Freitas. Inscrio N. 25.
Disponvel no Arquivo Pblico Municipal.

199

Quase uma digresso:


Licena seja dada colocaes ltimas. Articulando o que foi dito neste ensaio
com o outro sobre a quermesse, gostaria de voltar ao tema da repetio. As manifestaes
tnicas colocadas aqui so quase sempre lembradas, e nisto eu concordo, com a concepo
tnica levada para a Quermesse. Contudo no esqueamos que temos um agora distinto. A
etnicidade hoje tem uma dimenso que se articula no somente com a de uma comunidade
mais caracterizada ou local (ou mesmo daquela politicamente imaginada), ela est tambm
conectada a uma concepo global. Somente assim, penso, se pode afirmar que em Cricima
as etnias se repetem (mesmo porque na quermesse sero criadas outras trs que no pensadas
no centenrio, pela ordem: rabe, espanhola e indgena). Um exemplo que pode diferenciar
bem o que digo a relao entre os festejos do centenrio e festas outras, como Santa
Brbara e So Jos382.
No me parece gratuito que os encargos de organizao e promoo destas duas
festas citadas realizadas no ano de 1980, durante as comemoraes do centenrio
tenham sido dadas ao negros e aos italianos respectivamente383. Estas duas festas citadas,

382

Em 1918 se realiza a primeira festa de Santa Brbara, no local ainda hoje chamado Mina Velha (Bairro Santo
Antonio). Em 1920 se constri a primeira capela prxima a primeira mina aberta na cidade. Desta data em diante
cresce muito o nmero de devotos da Santa bem como a empatia de boa parte da populao criciumense
envolvida com a minerao. As festas acompanham o ritmos da indstria carbonfera, isto no geral. possvel
dizer que a Santa tenha sido a padroeira de fato do Municpio por mais de quatro dcadas. Digo de fato, porque
de direito o ttulo cabia e cabe at hoje a So Jos. As festas de So Jos se iniciam em 1932. Ambas, Brbara e
Jos so festas que seguem o ritmo da vida das pessoas e hoje parecem um pouco esquecidas frente a eventosespetculos como a quermesse. As identificaes das pessoas com os citados santos e com a cidade foram
implicaes iniciais desta tese, que na sua etapa final no as contemplou. Nesta tese o tema , no meu entender,
seria parodoxalmente: redundante e muito deslocado. Contudo, indico que estou preparando um artigo para
publicao posterior a tese, onde este tema melhor analisado.
383
Conforme documentao encontrada nas pastas do Centenrio no Arquivo Pblico Municipal. Aos poloneses
coube o encargo da festa de So Cassemiro, um show artstico no estdio de futebol do atual time do Cricima
Futebol Clube aao encargo e em homenagens aos portugueses, e por ltimo a Festa do Colono em Forquilhinha,
ao encargo da etnia alem.

200

pelo que consegui investigar, foram desde cedo dispositivos em torno dos quais havia uma
identificao mais especfica de grupos sociais. A periferia e a minerao mais identificada
com Santa Brbara Padroeira dos Mineiros, e So Jos mais identificado com o Ncleo
inicial formado pelos italianos. E nesta dimenso que de forma ressentida, estas festas,
especialmente Santa Brbara, sero lembradas nos festejos da quermesse. Vejamos um
exemplo:
(...) a gente se pergunta se a responsabilidade da festa est restrita a esta pequena
parcela da populao de Cricima. Acho que no. A festa da padroeira dos mineiros
merece a ateno e a participao das demais mineradoras. Interessante que nos
municpios vizinhos de Cricima, a minerao comemora o feriado, mas no participa
da festa. Nem mineiro, nem minerador. Talvez porque o carvo no representa mais a
primeira economia da regio. Isto no justifica. Em outras pocas, a festa de Santa
Brbara contava com a participao de toda a minerao. Era o maior evento. Inclusive
com a eleio da rainha e o baile do carvo. bem verdade que as coisas mudaram.
nesta mudana que a cada ano que passa vem se firmando cada vez mais no calendrio
de Cricima a Quermesse. Em primeiro lugar, a quermesse festa das etnias,
congraamento das raas que participam do desenvolvimento do municpio e da festa.
Em segundo lugar a quermesse conta com a iniciativa e o total apoio do governo,
enquanto que a festa da Santinha Brbara tem auxlio limitado. necessrio a
participao de toda a populao, muito mais das empresas, dos poderes, da imprensa
(...). Conclamamos aqueles que querem, temos que preservar nossas razes, o nosso
saudosismo, a nossa tradio, o nosso uso, a nossa cultura, o nosso hbito, o nosso
costume. A festa de Santa Brbara no morrer, um dia voltar a ser o maior evento de
nossa regio384.

Para finalizar, falemos de uma quantificao capaz de fragilizar ou mesmo


destruir qualquer pedagogia da repetio. Na Quermesse existe preocupao desde sua
primeira edio em quantificar a festa. I, II, III, IV, V, ..e assim por diante at a XV que se
realizou neste ano de 2003. Nos festejos de Brbara e Jos isto no existe. As festas
acontecem e so sempre como se fosse uma nova, tanto que, acostumado quantificao pelo
ofcio, tive muita dificuldade em saber qual o nmero de cada edio da festa. No existe
XXXIII Festa de Santa Brbara ou XXXIII Festa de So Jos. Estas sim, andam mais
prximas da repetio, embora ainda no as tenha alcanado. No chegou nelas o momento

201

da primeira repetir a ltima de modo antecipado, como fala Deleuze sobre a repetio385.
Caso repetissem, alcanariam a Redeno, como diria Walter Benjamim.
Chego ao agora que nos basta, mesmo que eu ainda fique sentindo o gosto de
desejar mais. Talvez este pequeno ensaio, e espero sinceramente, possa permitir que outras
discusses interessantes sejam produzidas sobre Cricima, uma cidade de muitas pedras.
Discusses que para alm de uma polarizao entre o carvo e as etnias, entre centro e
periferia, entre os da cidade e os forasteiros, sejam voltadas fluidez dos sentidos, aos
entre-lugares, permitindo assim que vidas se instaurem num Futuro Aberto e no num Futuro
do Pretrito, ou seja, onde estas vidas simplesmente aconteam.

384

JORNAL DA MANH. Cricima, 19 jan 1994. p.2. O texto foi escrito por Mauro Snego, 71 anos,
funcionrio pblico aposentado.
385
Ver discusso a respeito no ensaio sobre a Quermesse.

202

ltimos Acordes:

Esta tese, a exemplo de outras tantas, durante sua realizao tomou rumos e trilhas
que sequer haviam sido imaginados em sua partida. Alguns dos caminhos que se insinuaram
na realizao deste trabalho uma cartografia da cidade contempornea tendo como
referncia a cidade de Cricima foram trilhados, outros abandonados e em outros foram
postos desvios, construdas pontes.
Nos caminhos e desvios por onde enveredei, tomei cuidado em guardar alguns
ttulos, na esperana de que servissem para a substantivao das possibilidades realizadas e
de outras que no consegui ou no priorizei. Tambm tento com esta reflexo atender a uma
inquietao externa que me foi constantemente colocada: responder de modo objetivo em que
consistiria meu estudo. Esta foi um das tarefas mais duras de ser realizada. Infiro que tal
dificuldade se construiu solidamente sob uma base subjetiva e como tal, antagnica
indagao pertinente colocada. Nomear sempre foi algo muito estimulante para mim. Acredito
que seja para quase todos. Corriqueira a necessidade que temos de dar nome s coisas ou
situaes que para ns produziram vincos. neste sentido que os ttulos e sub-ttulos so aqui
apresentados.

A cidade de pedras:
Durante muitas dcadas, Cricima, cidade localizada no Sul de Santa Catarina,
se fez representar como a capital brasileira do carvo. Entretanto, em 1987, aps uma reduo
considervel dos subsdios que por mais de 40 anos foram fornecidos pelo governo federal

203

industria extrativa do carvo mineral, o setor carbonfero se retraiu sensivelmente,


provocando desemprego e gerando uma crise social de grandes propores. Em realidade, a
histria da cidade encontrava-se de tal forma imbricada, sobreposta, no que nela se
convencionou chamar de pedra fundamental do progresso, ou seja, o carvo, que parecia
invivel sua construo histrica fora desta base. A partir de ento, ocorreram mudanas
significativas na forma da cidade se construir, o que discuto ao longo desta tese, ainda que de
forma dispersa. Realizar uma histria invivel, ao menos a princpio, ou mesmo um conjunto
delas, se tornou algo estimulante para mim. Assim, a explorao do carvo ou seu suposto
ocaso , segundo minha particular visada, foi uma grande geradora de desejos. Ficar ou sair
da cidade, nela viver ou sobreviver, habitar o centro ou a periferia, transitar por lugares, ver
outros tantos serem construdos, destrudos, inventados. Permanecia a idia de que, sob vrios
aspectos, os desejos produzidos eram como pedras colocadas, materializadas por discursos
perenes de crise constante em conluio com uma acentuada baixa estima citadina vivida nos
primeiros cinco anos da dcada de 1990. Uma novidade para Cricima, que desde cedo tenta
se colocar como um orgulho de cidade386, alis, nome dado a um programa de rdio local,
do qual resultaram dois livros inseridos na historiografia criciumense. Escalar ou desviar
destas pedras foi o que, entre outras coisas, busquei fazer.
Para alm de Cocanha e Potosi:
No incio da minha investigao, quando ainda acreditava que a polarizao de
experincias citadinas antagnicas seria uma forma producente de refletir sobre Cricima,
sempre me ocorria a idia de uma relao entre duas concepes distintas de cidade, se leia
mundos: Cocanha e Potosi.

386

Cf. NASPOLINI, Archimedes. Cricima, orgulho de cidade: fragmentos da Histria dos seus 120 anos.
Cricima: Ed. Do Autor, 2000.

204

Cocanha ao que tudo indica um relato social construdo ainda no medievo


europeu e setentrional seria aqui deliberadamente ligada e aludida ao processo de
imigrao, especialmente europia e mais especificamente italiana, que se realizou no final
do sculo XIX no Sul de Santa Catarina, ou seja, a regio onde se encontra Cricima. Era
parte ento do chamado imaginrio social europeu a idia de que existiria um lugar onde a
vida seria repleta de facilidades, onde os desejos seriam realizados e a felicidade uma
extenso do encontro com estes elementos. Em quase todos os estudos sobre imigrao,
especialmente aqueles que se destinam a estudar o sculo XIX, grosso modo se faz meno s
campanhas, publicitrias ou no, realizadas para dar ao lugar destino Mrica, Mrica,
Mrica, cantada em prosa e verso um jeito, um cenrio, uma posio e at mesmo um
estamento. Neste Locus libertus, o esprito humano seria, a exemplo do lugar, livre. Um
homem sem preocupao com o trabalho, alimentao, compromisso, idade, vesturio,
religio, ou seja, a anttese do que viveriam quando chegaram. Homens transformados em
menores que seus sonhos, encarnando em vida o desespero de no os alcanar, os inscrevendo
no telos do porvir e assim sentenciando vrias geraes. Na prpria historiografia
memorialista-oficialista existe simultanemante o reconhecimento e o lamento disto: Eles
vieram para Cricuma por determinao do governo, imaginavam encontrar aqui o paraso,
um cu aberto, A Terra Prometida, com alimentao fcil e abundante, no pensavam
encontrar a mata virgem, o deserto. Quando chegaram foram surpreendidos por uma enorme
e triste iluso387.
Potos, cidade boliviana fundada por espanhis em 1545 foi certamente o primeiro
Grande Eldorado da Amrica. A prata era a promessa vendida. Alcana seu florescimento no

387

MILANEZ, Pedro. Fundamentos Histricos de Cricima. Cricima: Ed. do Autor, 1991, p.62.

205

sculo XVIII, antes da chegada dos italianos na Amrica. Em seguida, com o fim ou quase
isto, da explorao da prata, a cidade inicia sua mngua. O Eldorado j no era o mesmo no
sculo XX.

A idia de cruzamento que gera a cidade, de explorao mineral e outros

elementos apenas semelhantes, alcanados nos depoimentos colhidos por mim e que
versavam sobre Cricima me impeliam a relacionar o carvo e a prata.
Como se trata de uma investigao contempornea, as aluses aqui descritas,
evidentes, so alegorias. Num momento em que falar de cidade em grande medida falar do
mundo, estamos certamente Para Alm de Cocanha e Potos. O ttulo me pareceu
interessante, pois entre as inmeras tarefas que me coloquei, busquei relacionar o que chamo
de mercado tnico com o mundo do carvo, identificando o que se perdeu e se solidificou
nesta negociao. sobre isto que discorro no ensaio sobre Quermesse e que agora no final
sob inspirao hbrida ficou com outro nome. Em realidade este ttulo bem como o ensaio
citado que teve o seguinte: Para Alm da comunidade imaginada: Quermesse encontros e
desencontros na esquina do mundo parte da perspectiva cunhada por Homi K. Bhabha,
ensasta que muito colaborou para as leituras que fiz da cidade. O entre lugar me fez enxergar
para alm de polarizaes. Ento um ttulo que gosto, mas que fica apenas como uma boa
lembrana, quase infantil.

De novo pra voc o que voc nunca viu:


O inusitado da expresso, provocativa por certo para quem coloca sentinelas na
imaginao e busca quase tudo engessar. uma grande sentena ratificadora da
impossibilidade de que alguma referncia ou construo social possa se repetir. Catada de
uma fala colocada num scape atual que o vdeo-clipe Tits, Isso , De novo pra
voc o que voc nunca viu seria uma recorrncia deleuziana a narrativa histrica? Aposto
muitas fichas nesta possibilidade. um ttulo bem humorado e traz em si o trocadilho da

206

repetio. Voc...Voc. O outro que nunca se repetiu e que esteve sempre presente. A festa
que nunca foi a mesma e que se repete. Como repetir o irrecomevel? Nunca demais o que
assinalou com propriedade Castoriadis: A histria no existe fora da imaginao criativa.
Para mim este ttulo tem muito disto.

A superao de Potosi:
Subttulo abandonado que faz referncia a uma tentativa iniciada de elucidar, mas
ainda muito sob o olhar da economia, a superao de um modus vivendi, para usar uma
expresso adequada. Uma forma de insero no mundo voltada monocultura carvoeira.
Acredito que por ter muito desta jaula de significados bastante hermtica e por desejar realizar
uma histria, ou uma narrativa histrica mais aberta, o termo foi abandonado. De qualquer
forma fica aqui assinalado.

Territrios deslizantes, fronteiras da diferena:


fragmentos e miscelneas de uma cidade em trnsito (Cricima SC- 1980-2002).

A primeira inspirao quanto ao deslizante veio da leitura de um texto publicado


por Maria Bernardete Ramos388 que tem por ttulo: fronteiras deslizantes. Frente ao ttulo e
percebendo que meu trabalho, em sua maior parte, no tratava especificamente daquela
possibilidade, me permitir ir alm dela. Maria Bernardete Ramos havia feito um trabalho
competente em seu texto, instaurando em mim a incomodao do alm. E ainda havia o
deslizante, ele permanecia. Ainda mais, a palavra deslizante tem uma ambigidade muito
interessante: a do vacilo, do titubear. E tambm como Homi K. Bhabha havia feito um

388

FLORES, Maria Bernardete Ramos. Fronteiras deslizantes: lugares de cultura, raa, gnero e indivduo. In:
PAINEL: Fronteiras e populaes. Maring / PR: Programa Associado de Ps-Graduao UEM/UEL, 2000,
pgs. 41-51.

207

estrago nos meus pensamentos, tendo na sua fala uma preocupao com a ambigidade do
discurso ps colonialista, estava ento encontrado o termo: os territrios tambm deslizam,
muito. E nos colocam desafios.
O territrio entendido como um espao priori desde algumas dcadas tem tido
uma abordagem mais ampla nos estudos feitos pelos historiadores. Foram muitos os esforos
empreendidos na anlise de territrios, assim mesmo, no plural, especialmente a partir da
configurao scio-cultural engendrada depois da segunda guerra. Os embates promovidos no
campo terico, cujo maior parece ainda estar sendo jogado: Modernismo e Ps-Modernismo,
podem no ter apresentado diagnsticos precisos, tampouco solues terminais. Contudo,
fato que qualquer anlise mais criteriosa sobre a realidade vivida e tambm imaginada,
onde o crescimento da literatura e do chamado realismo fantstico so amostras significativas
se debrua agora sobre uma pluralidade de territrios, ou seja, o cho cada vez mais
movedio. Segunda minha compreenso, incipiente mas penso, provocativa, as fronteiras
subjetivas, sejam elas abseits com as objetivas, ou mesmo de forma mais sutil, deslocadas
para um alm de delimitao complexa, promoveram um alargamento das possibilidades de se
narrar a contemporaneidade.
Realizar anlise deste empreendimento tendo como cho a cidade sob todas as
formas, mesmo que se relute por vezes, admitir que o rizoma social vive fincado em
territrios que se fraturam, que deslizam feito placas tectnicas. As diferenas se constituem
assim em importantes elementos para no apenas se reconhecer (no sentido de explicar) os
deslizamentos, mas sobretudo, num esforo hermenutico,
sentido da permisso).

melhor compreende-los (no

As lutas pela afirmao positiva da etnicidade e no da raa,

especialmente a negra, sim, negra com toda a carga de visibilidade alcanada e com este
termo mesmo e no um outro que insiste em colocar prefixos eufmicos do tipo afro, em

208

Cricima foi e para mim, entre outros, um sinal desta tectonia territorial. O mito do homem
e da sociedade e minado na configurao ps-colonial. A ambivalncia se instaura. Como
lembra Homi Bhabha ao citar Frantz Fanon: o preto escravizado por sua inferioridade, o
branco escravizado por sua superioridade, ambos se comportam de acordo com uma
orientao neurtica389.
A ambivalncia do discurso que tende a polarizar a histria entre vencidos e
vencedores, das quais muitas obras foram produzidas, somente refora a necessidade
premente de produzirmos uma histria que se construa de modo aberto, que permita o
encontro, que considere os agenciamentos. A acuidade das negociaes e dos agenciamentos
produzidos para exibir esta transitoriedade foi sempre uma preocupao colocada na
realizao desta tese. O ttulo tautolgico, como um cachorro que se vira ao redor do prprio
rabo. Os territrios deslizam e as fronteiras se colocam de modo diferente.
Para finalizar a compreenso deste ttulo me recordo de uma histria contada pelo
antroplogo Nestor Garcia Canclini, homem feito ao trato hbrido. Uma anedota, e me
pergunto o que seria de ns sem elas no momento adequado para quebrar o gelo, que se
constri a partir de uma leitura infantil sobre o mercado: o horror! o horror! de quase todas as
tentativas de explicao das manifestaes culturais. Dedicando seu livro sob o ttulo:
Culturas Hbridas: estratgias para entrar e sair da modernidade, aos seus filhos Teresa e
Julin, Canclini nos conta o seguinte:

... por essa capacidade dos filhos de mostrar-nos que o culto e o


popular podem sintetizar-se na cultura massiva, nos prazeres do

389

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Traduo de Myriam vila, Eliana Loureno de Lima Reis,
Glucia Renate Gonalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 74.
.

209

consumo que eles, sem culpas nem prevenes, inserem no cotidiano


como atividades plenamente justificadas. Nada melhor para reconheclo que evocar aquele natal em que o instituto Nacional do Consumidor
repetia obsessivamente: presentei afeto, no o compre, em seus
anncios anticonsumistas no rdio e na televiso; Teresa empregou a
palavra afeto pela primeira vez em sua linguagem vacilante dos
quatro anos. Voc sabe o que quer dizer? Sei respondeu rpido -,
que voc no tem dinheiro390.

Este ttulo tinha ainda outras possibilidades: To longe, To perto: Fronteiras da diferena
na cidade contempornea, e ainda: Solos comuns, territrios perdidos. Por fim, como a
tese se construiu sob a perspectiva hbrida, seu ttulo definitivo foi mesmo a mistura e a
ambiguidade de nomes que se apresentaram, ficando desta forma: Territrios Deslizantes:
recortes, miscelneas e exibies na cidade contepornea Cricma (SC) 1980-2002.
Museu de grandes novidades: a cidade contempornea e suas exposies.
A frase, ouvida de uma cano de Cazuza, por muito tempo permaneceu em mim,
incomodando. A msica bastante conhecida O tempo no pra foi sempre uma sntese
pertinente do modo como durante muito tempo eu olhei para Cricima. Eu vejo o futuro
repetir o passado, vejo um museu de grandes novidades, o tempo no pra!...A tua piscina
est cheia de ratos, suas idias no correspondem aos fatos.... Evidente que esta era a minha
compreenso juvenil sobre a cidade, e no sei ainda dizer o que sinto ao ver que boa parte da
gurizada com quem tive contato, em especial aqueles que vivem na periferia da cidade
como eu vivi, ainda mantm este olhar sobre Cricima. O sentido colocado por mim, agora j
mais maduro, neste sub-ttulo, tem mais de compreenso e menos de ressentimento. Est
conectado a idia de mostrar Cricima ligada prticas citadinas contemporneas e, a uma
leitura mais livre que tentei dar a face que hoje tem o centro da cidade, especialmente a Praa
Nereu Ramos, lugar de onde partiu a tese.

390

CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Hbridas: estratgias para entrar e sair da modernidade. Traduo de
Heloisa Pesa Cintro e Ana Regina Lessa. So Paulo: USP, 1998, p. 16.

210

A cidade aberta : estudos contemporneos sobre Cricima.


Na narrativa da cidade contempornea no me ocorre outro termo que tenha
paradoxalmente leveza e densidade alm de aberta. A fluidez dos lugares, o trnsito, a
compresso espao-tempo, as relaes, esta miscelnea se inscreve na ambincia aberta. E,
entre os demais ttulos, este foi o ltimo a me ocorrer. Foi pensado depois de uma nova
leitura de um texto de Benjamim, e de um livro escrito por uma de suas leitoras mais
competentes, a professora Jeanne Marie Gagnebin. Este ttulo tem outra variante: Em busca
da narrativa perdida: pequena contribuio heurstica da cidade contempornea.

Rodaps da cidade:
Percebi ao longo da escrita desta tese que havia uma preocupao forte em mim
em no fazer desta narrativa algo sustentado apenas pela base terica. Tendo em vista minha
formao e a seduo que a teoria provoca em mim, foi muito difcil controlar isto na escrita,
se que de alguma forma consegui alcanar tal intento. Estabeleci ento uma relao dos
tpicos que pareciam saltar aos olhos e que deveriam ser pensados. Coincidncia ou no,
percebi que estes eram tratados pela historiografia local, quando muito, como notas de rodap.
Desta abordagem o ttulo foi produzido facilmente. E a teoria colocada em rodaps tambm,
na medida do que me foi possvel. Este ttulo tem outra variante: Silncios incontidos.

Outros de ns mesmos:
Idia que me ocorreu depois do contato com O local da cultura, escrito por
Homi K. Bhabha. Como em alguma medida esta tese tenta dar voz ao outro, e quanto mais ele
grita mais nos conhecemos nele, outros de ns mesmos parece dar uma boa idia desta
dimenso. Ns, habitantes do terceiro espao, expresso da existncia intervalar, viva, irnica
e muitas vezes dissimulada.

211

A ltima porta: faces da cidade contempornea:


Um dos primeiros ttulos que escrevi. Produzido atravs do contato com a
abordagem clssica sobre cidades, e a partir da leitura de vrios textos nesta dimenso escritos
pela professora Maria Stella Bresciani. H uma escrita cunhada por Bresciani que nos impele
direo de portas de entradas na abordagem das cidades. Como sei que a porta que
procurava de certa forma ainda no havia sido aberta, ou ao menos no se insinuava entre as
que se apresentavam na oportunidade, decidi ento tentar criar uma. Como no sabia se uma
era suficiente, no enumerei. Apenas a coloquei como ltima.
ltima nota:
Numa das inmeras viagens que fiz Cricima durante a realizao da pesquisa
para esta tese, quando o nibus chegava finalmente ao seu destino, um dos passageiros ao se
levantar para o desembarque, olhou para outros quatro companheiros de viagem seus, e disse:
Chegamos em Cricima, a terra do vende-se e aluga-se. Esta sentena ficou sacolejando em
mim durante alguns dias. Para algum que havia crescido em Cricima aquilo incomodava.
No sabia ao certo como ler aquele encontro. Sorte me encontrar ainda no incio da pesquisa,
o que poderia me fazer alcanar uma gramtica mais adequada para o texto que se colocava.
Era muito comum em outras viagens no muito remotas, ouvir expresses menos vagas e
mais precisas: chegamos na capital do carvo ou ainda estamos chegando em Cricima,
possvel saber pelo cheiro de enxofre. Percebi que aquela sentena dita num sotaque muito
distante do criciumense, e de uma inscrio corporal no menos estrangeira, era um
arremate, uma trova muito bem colocada da Cricima que estava ali e que eu me recusava a
ver. O cheiro de enxofre j no estava ali, coisa que eu ainda no havia me dado conta, frente
a quase naturalizao do olfato criciumense. Foi necessrio desviar olhar para encontrar a
cidade que estava ali e que demorei a enxergar. Incio de uma vida estrangeira. Melhor, a

212

densidade dos agoras me fazia sentir como um estrangeiro em casa, sugesto que Homi
Bhabha me indicava cada vez que lia o local da cultura. Eu havia participado de muito
daquilo que estava estudando e acho que, at aquele momento, observado pouco. Foi ento
que comecei a formular uma resposta mais estrangeira, tentando me aproximar da lngua
usada pelo passageiro sentenciador.
Cricima estava ento sendo abandonada e nos imveis se colocava ento placas
com vende-se a aluga-se? A resposta era sim e no com o mesmo vigor. Era certo que muitos
tinham ido embora, quase sempre para a terra do tio Sam, a Cocanha eletrnica anunciada nas
telas de cinema. Tambm era certo que muitos ficaram e estavam embrenhados em arranjar a
musicalidade nova para a cidade. Para estes, o dinheiro enviado dos Estados Unidos era
muito bem vindo. Aquecia a cidade e produzia alguns espiges. Nunca se construiu tanto em
to curto perodo. A cidade que havia se construdo sob o signo do carvo indicava agora
outros sinais. As placas eram literalmente um destes. Para uma cidade que durante quase todo
o sculo XX recebeu trabalhadores, a exportao destes agora era algo realmente estranho.
Mas outros chegavam. E outros ainda esto indo embora. Uma cidade em trnsito, inserida
neste tempo nmade. Cada vez mais somos outros de ns mesmos. O cosmopolitismo est ali,
e ser da cidade agora no apenas ter nascido nela, isto tem menor importncia. O
enraizamento est fenecendo. Falemos dos desenraizamentos. Da mxima colocada pelo
senhor Alcides Nunes, 86 anos, morador da Vila Operria, agora Santa Brbara: Quem
fundou Cricima? Qualquer um povo que tava a n?. A cidade ficou. E outra foi embora.
Gosto do resultado at aqui, embora ainda me parea estranho, e tenha sempre um
alm. Mas estou satisfeito. Isto me basta. Ficar empazinado agora seria desejar muito. O
passo inicial para a grande caminhada est dado. Vejamos pra onde os meus ps me levam.
Bom no rizoma sua imperfeio, suas ramificaes. Deixemos assim. As fontes me olham,
sugerindo outras histrias. Foi alm de prazeroso, uma catarse.

213

BIBLIOGRAFIA
Fontes:
1 - Sobre a Quermesse: Tradio e Cultura (Festa das etnias):
1.a. Documentos diversos nas caixas dispostas no Arquivo Pblico Municipal Pedro Milanez
1.b. Jornais:
1.c. Legislao: Estatutos, regras e demais documentos coletados nas pastas do Arquivo
Pblico Municipal.
1.d. Folhetos, Atas de Reunies, Discursos Impressos e Folders coletados desde a primeira
festa realizada.
1.e. Jornais e revistas: Tribuna Criciumense, Jornal da Manh, Notisul, Dirio Catarinense, O
Estado; vrios nmeros e edies.
2 Sobre as festas de Santa Brbara e So Jos:
2.a. Documentos diversos de clubes (Unio Operria e Unio Mineira) e das festas (nas
respectivas parquias).
2.b. Depoimentos (fontes orais) diversos coletados (ver listagem apresentada)
2.d. Documentos diversos sobre as festas coletados em acervos particulares.
2.e. Jornais e revistas: Tribuna Criciumense, Jornal da Manh, Notisul, Dirio Catarinense, O
Estado; vrios nmeros e edies.
Revistas: Veja, Isto , Manchete; vrios nmeros e edies.
3 - Sobre as comemoraes do centenrio (Futuro do Pretrito: um aniversrio bem
festejado):
3.a. Documentos diversos do Arquivo do Pblico Municipal Pedro Milanez: relatrio de
exposies, folders, letras e nominata dos concorrentes ao hino do centenrio.

214

3.b. Depoimentos (fontes orais) diversos coletados (ver listagem apresentada).


3.c. Fontes coletadas em acervo particular de Otlia Arns e Manoel Coelho.

4 Depoimentos coletados (por ordem cronolgica)


ENTREVISTADO

Jorge Feliciano
Daltro Espndola
Almir Rodrigues
Altair Rodrigues
Aluim Michels
Amilton Rocha
Antonio Manoel Pereira
Carlos Antunes
Altair Guidi
Joo Soratto
Helio dos Santos
Aldacir dos Santos Souza
Glaisson Citadin
Aldo Lima
Carlos Wecter
Lourival Lopes
Dcio Ges
Jos Vnio Piacentini
Archimedes Naspolini Filho
Alcides e Teresa Nunes
Pedro Barcelos
Hugo Verdieri
Agenor Neves Marques
Irades Snego
Adelor Lessa
Mrio Beloli
Arnoldo Ido de Souza
Maria Heloisa N. Felipe
Suzana Meller
Paula Regina Paulino Lino
Paulo Joo Marcelo
Nei manique
Manoel Coelho **
Otlia Arns
Maria Marlene Milans Justi
Presidentes das Etnias
Eduardo Mondardo (Duda)
Rodeval Alves
Luiz Carlos Brigo
Gilnei Benedet **
Silvana A. Moiss Cechinel
Telma de Medeiros Uliana**
Rosimari Lima Nunes
Mirces Carminati
Lucio Nurenberg
Fernando da Cunha Carneiro
Ricardo Zanete
Irma Tasso Oliveira
Edison Paegle Balod (Edi Balod)
Leila Maria Peixoto

IDENTIFICAO

66 anos, sindicalista aposentado, ex-deputado estadual.


39 anos, empresrio do setor txtil.
42 anos, mineiro.
55 anos, comerciaria.
72 anos, comerciante: um alemo em terra de italianos
51 anos, empresrio do setor metalrgico.
51 anos, vigilante.
37 anos, ex mineiro, atualmente comerciante setor alimentcio.
65 anos, arquiteto, ex prefeito de Cricima.
94 anos, comerciante: Sou um dos pioneiros.
61 anos, ex-presidente do Unio Mineira.
53 anos, comerciante, moradora do bairro Santa Brbara.
25 anos, engenheiro: Mi soi italian gracia a dio
74 anos, mineiro aposentado. Morador do bairro Santa Brbara.
70 anos, padre, atuou na parquia S. Brbara entre 1964-1974.
61 anos, mineiro aposentado, juiz classista.
48 anos, arquiteto, atual (2002) prefeito de Cricima.
59 anos, ex-prefeito de Urussanga, atual secretrio da AMREC.
59 anos, jornalista memorialista.
73 e 71 anos, moradores do bairro Santa Brbara.
56 anos, ex-presidente Unio Mineira festeiro da festa de S. Jos
67 anos, comerciante aposentado, festeiro da festa de S. Brbara.
82 anos, padre, trabalhou na Parquia [Link] S. Brbara 40-52
68 anos, moradora do bairro Santa Brbara.
42 anos, jornalista da rdio Eldorado de Cricima.
Historiador.
56 anos, presidente da Cmara de vereadores de Cricima.
62 anos, professora aposentada, moradora do bairro S. Brbara.
39 anos, fotgrafa, rainha do centenrio (etnia italiana)
22 anos, a filha do centenrio.
50 anos, mineiro aposentado.
46 anos, jornalista da rdio eldorado.
61 anos, Arquiteto do Centenrio.
74 anos, professora universitria aposentada.
63 anos, professora universitria, artista plstica.
Nomes listados no momento das citaes.
Empresrio do Setor Imobilirio
Profissional das reas de Turismo e Educao do Municpio.
Advogado e Comerciante.
32 anos, Emigrante, Valet Park, Miami, Florida, EUA.
34 anos, despachante de trfego areo.
30 anos, artista plstica.
32 anos, agenciadora de turismo (Agncia Ferrotur)
50 anos, scia proprietria de uma escola de ingls.
Advogado e Comerciante.
74 anos, arquiteto: a praa est desfigurada.
Engenheiro Agrnomo, comerciante do setor txtil.
Funcionria Pblica Municipal.
Presidente da Fundao Cultural de Cricima (2002-2003).
54 anos, comerciante ceramista.

LOCAL

Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
N. Veneza
Cricima
Cricima
Urussanga
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Urussanga
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Curitiba/Cric.
Forquilhinha
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Miami/Cric.
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Cricima
Florianpolis

DATA

12-10-99
13-10-99
19-06-00
20-06-00
21-06-00
21-06-00
21-06-00
22-06-00
23-06-00
13-07-00
22-07-00
23-07-00
06-08-00
26-08-00
17-10-00
08-11-00
23-11-00
25-04-01
25-04-01
26-04-01
26-04-01
27-04-01
28-04-01
28-04-01
27-04-01
21-05-01
28-07-01
28-07-01
29-07-01
29-07-01
25-08-01
26-08-01
08-03-02
15-03-02
10-03-02
08-04-02
06-06-02
05-06-02
07-06-02
07-06-02
13-07-02
14-07-02
15-07-02
18-07-02
22-07-02
23-07-02
05-08-02
02-09-02
04-10-02
02-03-03

215

Cristiane Fernandes Berg


Willian Santiago Bernardo

28 anos, professora de Educao Fsica e Capoeira


26 anos, Rapper do grupo Ato Consciente, de Cricima.

Cricima
Cricima

05-08-03
05-09-03

* Todas as entrevistas foram realizadas por Emerson Csar de Campos. As entrevistas de Joo Soratto e com os presidentes das etnias,
alm do autor, contaram com a participao de Marli de Oliveira Costa e Silvia Maria vila Amador, respectivamente. ** Nos casos
assinalados, frente dificuldade de realizar pessoalmente as entrevistas, estas foram executas de forma diferenciada. Com Manoel Coelho
foram realizadas duas conversas telefnicas gravadas, uma de 45 minutos, outra de uma hora e meia. Com Telma de Medeiros Uliana uma
conversa de 30 minutos, via telefone. Com Cristiane Fernandes Berg, duas conversas alternadas de 20 minutos. Com Gilnei Benedet a
conversa foi realizada via internet com gravao das informaes em arquivo eletrnico, inclusive das imagens, com utilizao de Web Cam.

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