I- Introduo
Este trabalho propem-se realizar, em primeiro lugar, uma descrio resumida da
verso revista da Checklist de Psicopatia de Hare (PCL-R; Hare, 1991), e o modo de
aplicar, cotar e interpretar os resultados obtidos no teste. Em segundo, pretende-se criticar,
de forma construtiva e, baseada na prtica, este instrumento de avaliao da psicopatia.
A psicopatia uma entidade nosolgica que implica a presena de um conjunto de
caractersticas ou traos de personalidade, que esto presentes, no s em alguns
delinquentes, como noutros indivduos que no tiveram problemas com a justia,
caractersticas essas que so usualmente visveis na infncia, piorando na adolescncia e
persistindo na idade adulta (Gonalves, 1999).
Os psicopatas apenas correspondero a um tero das personalidades delinquentes
(personalidades anti-sociais das DSMs), sendo necessrio diferenciar estas duas
entidades, sobretudo, devido elegibilidade para programas teraputicos, isto , situaes
em que a resposta de cada um dos grupos difere por fora da sua matriz etiolgica, e
tambm, devido s implicaes para o futuro legal dos ofensores.
Assim, fundamental a utilizao de procedimentos rigorosos de anlise e
interpretao da psicopatia para que as decises jurdicas que envolvam encaminhamento
ou, tratamento especializado, possam apresentar um maior grau de eficcia preditiva e
preventiva.
A PCL-R o instrumento de avaliao da psicopatia que, em contextos forenses,
apresentou, melhores critrios de validade e fidelidade, em estudos efectuados nos ltimos
anos, comparando com todos os outros instrumentos que avaliam esta psicopatologia.
II- Caractersticas do Teste
A PCL-R um instrumento, composto por vinte itens, que avalia o grau de
psicopatia, atravs de uma escala de 0 a 40 pontos, sendo destinado a indivduos do sexo
masculino que esto presos ou, em contextos forenses.
Este instrumento composto por dois factores inter-correlacionados. O factor 1
inclui oito itens e, refere-se aos traos de personalidade ordinariamente aceites como
descritivos clnicos do sndrome. O factor 2 relaciona-se com um estilo de vida antisocial. Os trs itens: comportamento sexual promscuo (n11); relacionamentos conjugais
numerosos e de curta durao (n17) e versatilidade criminal (n20) no pertencem a
nenhum dos factores (Quadro 1), j que a sua saturao no atingiu o valor de .40 em
qualquer um deles (Gonalves, 1999):
Factor 1
1- Loquacidade
2- Sentido Grandioso do Valor de Si Prprio
4- Mentir Patolgico
5- Estilo Manipulativo
6- Ausncia de Remorsos ou Sentimentos de
Culpa
7- Superficialidade Afectiva
8- Frieza/ Ausncia de Empatia
16- No-Acatamento de Responsabilidades pelas
suas aces
Factor 2
3- Necessidade de Estimulao
9- Estilo de Vida Parasita
10- Deficiente Controlo Comportamental
12- Comportamento problemtico precoce
13- Ausncia de Objectivos Realistas
14- Impulsividade
15- Irresponsabilidade
18- Delinquncia Juvenil
19- Revogao de Medidas Alternativas
ou Flexibilizadoras da Pena de Priso
11- Comportamento Sexual Promscuo
17- Relacionamentos Conjugais Numerosos e de Curta durao
20- Versatilidade Criminal
Quadro 1: Distribuio dos itens da PCL-R de acordo com os factores
Quanto s propriedades psicomtricas da PCL-R verificou-se, atravs de vrios
estudos realizados, em populaes forenses, nos Estados Unidos e Canada, uma forte
validade e fidelidade deste instrumento, augurando um futuro promissor em termos de
generalizao de resultados e, extenso a outras realidades culturais.
A verso original foi adaptada para o portugus, contudo no foi realizada a aferio
para a populao portuguesa.
III- Aplicao, Cotao e Interpretao
A PCL-R baseia a sua cotao numa entrevista de carcter semi-estruturado (cf.,
Anexo I) onde todas as questes numeradas devem ser efectuadas, cabendo ao investigador
escolher a forma como desenvolve a sua entrevista. Esta entrevista dura, em mdia, uma
hora e meia a trs horas, podendo ser repartida por vrias sesses.
Aps a entrevista os dados so completados recorrendo consulta dos processos
institucionais, podendo-se utilizar, para este efeito, um guio de registos de dados (cf.,
Anexo II). S ento se proceder cotao dos itens.
Os itens so cotados com 0, 1 ou 2 consoante, respectivamente: no se apliquem ao
sujeito; se apliquem apenas parcialmente; ou, por ltimo, se apliquem na sua totalidade ou,
quase totalidade. De referir que a cotao dos itens deve fazer-se com base no
funcionamento tpico do sujeito e, no somente no seu estado actual, visto que a PCL-R se
destina a avaliar traos e, no estados. Assim, o processo de atribuio da cotao envolve a
conjugao de vrias informaes da vida do sujeito para a produo do resultado de cada
item.
Para a cotao propriamente dita, os scores de cada item so marcados numa folha
de cotao, onde estes aparecem j divididos segundo os factores (cf., Anexo III). Obtmse, deste modo, a pontuao final e, os resultados evidenciados em cada factor que depois,
podem ser transformados em percentis para obteno de um perfil. As instrues para a
cotao desses itens (cf., Anexo IV) e obteno dos totais ponderados esto presentes no
manual da PCL-R (Hare, 1991).
Um resultado igual ou superior a 30 pontos indicador de existncia de psicopatia,
considerando-se, ainda, como no-psicopatas todos os indivduos que pontuam abaixo de
20 e, moderadamente psicopatas, os que pontuam entre os 20 e 29 pontos.
IV- Critica PCL-R
Para mim a PCL-R um instrumento de avaliao complementar muito importante
para a psiquiatria forense, em geral, e para o diagnstico da psicopatia, em particular.
Por um lado, torna possvel a comparabilidade de resultados, em estudos cientficos,
decorrentes da utilizao de um instrumento de despiste da psicopatia com alto teor de
fiabilidade, visto que, anteriormente existncia desta checklist, a psicopatia era
confundida com delinquncia, tornando difcil comparar os estudos (Gonalves, 1999).
Por outro lado, no que se refere praxis clnica, este instrumento revela-se til, em
os indivduos com esta psicopatologia, que tm caractersticas de personalidade (por ex.:
estilo manipulativo) as quais podero provocar facilmente dificuldades no diagnstico. O
diagnstico , efectivamente importante, no s, para a programao teraputica, mas
tambm, para indicar a forma adequada como a equipa clinica deve abordar o doente. Da
minha experincia inferi que sempre que a situao no se verifica, toda equipa clnica,
pode ser afectada negativamente, visto que, estes indivduos tm uma grande capacidade
em beneficiar do desconhecimento dos pressupostos referidos. Dentro desta linha de
raciocnio, quando existem dvidas, por parte de algum elemento da equipa, acerca do
diagnstico de psicopatia, proposto pelo mdico psiquiatra, a PCL-R surge como uma
prova quase irrefutvel.
No entanto, devemos ter em ateno que, a avaliao atravs deste instrumento, no
est isenta de erros e, necessrio um cuidado suplementar ao diagnosticar esta
psicopatologia, devido s consequncias jurdicas e sociais que tal acarreta, pois um
psicopata encarado pelo Juiz e, sociedade em geral, como algum com caractersticas
malficas e sem possibilidade de perdo. Por isso, necessrio combinar estratgias de
diagnstico entre o PCL-R, a entrevista clnica, o MMPI e o Rorschach, para que a margem
de erro seja minimizada.
Hare (1991), chama ainda a ateno para eventuais enviesamentos na cotao dos
sujeitos. Os mais frequentes so o efeito de halo (atribuir a pontuao de cada item com
base numa impresso global do indivduo) e o enviesamento causado por uma impresso
demasiado positiva do sujeito nice guy bias que conduz a uma cotao demasiado baixa
em todos os itens.
Deste modo, no s se torna imprescindvel um amplo conhecimento dos referentes
tericos explicativos desta entidade, como ainda, no se deve desprezar todas as indicaes
referentes habilidade manipulativa, capacidade simuladora e, naturalmente, ao charme
que muitos psicopatas exalam. Todos estes factores, aliados eventual inexperincia do
investigador/terapeuta, podem prejudicar os propsitos mais srios de qualquer estudo ou
interveno.
Outra das limitaes, deste instrumento, prende-se ao facto deste, no poder ser
aplicado fora dos contextos forenses. Ora, a verdade que, se muitos dos psicopatas se
encontram atrs das grades, o seu enquadramento na sociedade livre, tambm um facto,
como a prpria definio da psicopatia refere (cap. I, pag. 1), desde de que algumas das
suas
caractersticas,
nomeadamente
um
bom
background
educacional,
estejam
intactas(Gonalves, 1999). Deste modo, necessrio saber at que ponto possvel
generalizar os resultados obtidos, nos estudos sobre a psicopatia, que apenas tomavam
como medida da psicopatia, a PCL-R, em funo de outros instrumentos e de outras
populaes, nomeadamente as que se referem aos psicopatas socialmente bem sucedidos.
, tambm, importante ter em conta o tempo alargado na aplicao deste
instrumento. Na minha opinio, tendo em conta a praticabilidade clnica, a PCL-R no
dever ser aplicada, indiscriminadamente, mas somente, em indivduos que revelem traos
de personalidade ou, comportamentos que indiciem a existncia de psicopatia.
Em suma, quanto a mim, a PCL-R um instrumento de avaliao da psicopatia
importante, na clnica e investigao forense, desde de que seja utilizada de forma
cuidadosamente informada e, em situaes especficas.
Bibliografia
American Psychiatric Association. (2002). Manual de diagnstico e estatstica das
perturbaes mentais (DSM-IV) (4th. ed. revista). Lisboa: Climepsi Editores.
Hare, R. D. (1991). The Hare Psychopaty Checklist-Revised. Toronto: Multi Health
Systems.
Gonalves, A., G. (1999). Psicopatia e Processos Adaptativos Priso. Braga: Centro de
Estudos em Educao e Psicologia, Universidade do Minho.