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Heresias e os Cátaros na História

O documento descreve a heresia dos Cátaros na região de Languedoc no sul da França entre os séculos X e XIII. Os Cátaros acreditavam em uma religião cristã gnóstica que pregava a igualdade de gênero e rejeitava a autoridade da Igreja Católica Romana. Isso levou a uma cruzada declarada pelo Papa Inocêncio III contra os Cátaros em 1207 e à criação da Inquisição em 1215.

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Heresias e os Cátaros na História

O documento descreve a heresia dos Cátaros na região de Languedoc no sul da França entre os séculos X e XIII. Os Cátaros acreditavam em uma religião cristã gnóstica que pregava a igualdade de gênero e rejeitava a autoridade da Igreja Católica Romana. Isso levou a uma cruzada declarada pelo Papa Inocêncio III contra os Cátaros em 1207 e à criação da Inquisição em 1215.

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SOBRE HERESIAS, CÁTAROS, ESPÍRITAS, ETC.

Ou: “O que foi é o que há de ser; e o que se faz, isso se tornará a fazer. Nada
há pois novo debaixo do Sol” – Eclesiastes, 1:9.
AIGLON FASOLO, de Londrina.
(Texto gentilmente cedido pelo amigo Alcântara, em 01/04/2010).
“... perdoem nem a condição, nem sexo, nem idade... Mate-os todos, cátaros
ou católicos... O senhor saberá distinguir os seus!”(01)
(Palavras proferidas por Arnold Amauri, abade de Citeaux, depois arcebispo
de Narbonne (2), em 1209, quando seus soldados lhe disseram que não sabiam
distinguir entre católicos e cátaros, no cerco, invasão e massacre da população
inteira, homens, mulheres e crianças, da cidade de Beziers, durante a cruzada
empreendida pelo para Inocêncio III contra os Albígenses ou Cátaros, da
região do Languedoc, sul da França, citando a 2ª. Carta de Paulo a Timóteo,
2:19.
Uma visita a Carcassone, cidade medieval duplamente murada, situada na
província de Aude, que pertence ao Langue D’Oc francês, alguns anos atrás,
despertou-me o interesse pela heresia dos Albigenses, tampem chamados
cátaros (do grego Káthares (puros)). Alguns folhetos distribuídos pela
comunidade dessa cidade traziam informações curiosas, sobre essa heresia,
que eu desconhecia na época.
Porque uma população inteira e uma cultura que floresceu nos séculos 10 a
13 de nossa era localizada no que hoje é parte da França, entre os Pirineus e a
fronteira com a Itália, o que conhecemos hoje como Aude e Provença, foi
dizimada durante os anos de 108 e 1245?
Os cátaros foram responsáveis por duas das mais controvertidas atitudes
tomadas pela igreja católica Romana em toda a sua existência. Contra eles foi
decretada uma cruzada pelo papa Inocêncio III em 1207 (3), e à eles se deve a
criação em 1215, pelo mesmo papa, do dito Santo Ofício, mais comumente
conhecido como Inquisição, e nomeado para exercer esse ofício o fanático
padre espanhol Domingos de Gusmão (4), criador da Ordem dos Dominicanos.
Os Occitanos (pessoas que falavam a “língua d’oc ou provençal) possuíam
na época (primeira década de 1200) uma civilização muito mais avançada do
que o resto da Europa. Sua capital era a cidade de Toulouse. Com as cidades
de Beziers, Carcassone, Albi, Narbonne, entre outras, havia um grande
intercâmbio cultural, ligando grande parte da Europa. Cultura essa transportada
pelos Trovadores (Troubadors), cantores populares que iam de cidade em
cidade, transferindo a cultura evoluída da região. Os judeus eram aceitos e
podiam praticar sua religião em sinagogas sem serem molestados, o que não
acontecia no resto da Europa, onde eram sistematicamente perseguidos.
O que mais chamava atenção era que todos eram convidados a aprender a
ler, inclusive as mulheres; O índice de analfabetismo era quase nulo. Existia
terra e trabalho para todos. As artes eram estimuladas e os artistas
valorizados. A alimentação na região era abundante, e dividida com todos.
Todo esse progresso tinha um motivo: a religião professada no local. Desde o
fim do século X, os occitanos professavam a filosofia cátara, uma religião cristã
de origem gnóstica dos primeiros anos do Cristianismo.
Os princípios fundamentais dessa religião se baseavam em que:

• O mundo material, a Terra, era um lugar mau, um lugar de expiações;


• Os homens haviam sido aqui postos por causa do pecado do orgulho;
• Por isso, deviam por aqui passar por várias encarnações, para se
purificar;
• Homens e mulheres eram iguais, com os mesmos direitos e deveres e,
ao reencarnar, poderiam fazê-lo como um ou outro;
• Possuíam pregadores, chamados Parfaits, ou Bonhommes, tanto
homens como mulheres, que se dedicavam a educar as pessoas,
principalmente crianças em escolas, que eram abertas a toda a
população, e não somente aos nobres ricos, onde alfabetizavam e
ensinavam sua doutrina;
• Esses pregadores se mantinham solteiros por opção, porém
costumavam caminhar sempre em duplas, de ambos os sexos,
indistintamente;
• Tinham que prover seu próprio sustento trabalhando, porque diziam que
ninguém era obrigado a sustentá-los;
• Como trabalho, eram especialistas em fazer papel, para confecção de
livros e artes;
• Um de seus lemas maiores era: “o trabalho é uma prece”;
• Traduziam e ensinavam os evangelhos na língua d’oc ou provençal, pois
diziam que Deus não sabia só o latim;
• Não acreditavam no Velho Testamento, pois o Deus ali
representado é cruel e vingativo, representando o mal, porém
aceitavam alguns de seus livros (5);
• Seguiam o Novo Testamento, principalmente o Evangelho de João, os
Atos dos Apóstolos e as Epístolas de Paulo;
• Diziam ser a verdadeira Igreja de Cristo, pois seguiam a sua doutrina,
dos evangelhos e dos apóstolos, em palavras e atos;
Reinérius Saccho, inquisidor dominicano (6), enumera alguns dos erros
dos cátaros, o que diziam e faziam, segundo ele:
 Todos os vícios e pecados estão na igreja católica, e só eles
(cátaros) vivem corretamente;
 São eles os legítimos pobres de espírito, e sofrem perseguição por
sua retidão e fé;
 Desprezam os estatutos da igreja por sua inutilidade;
 Os papas e todos os bispos são homicidas por causa de suas
guerras;
 Os prelados são escribas e os monges, fariseus;
 Não se deve obedecer a bispos, só a Deus;
 Ninguém é maior ou menos do que outro, na igreja (“... vós todos são
irmãos” Mateus, 23:8);
 Ninguém deve ajoelhar-se perante um padre (“... vê, não faças isso”
Apocalipse, 19:10);
 Dízimos não devem ser pagos, porque os primeiros frutos não serão
dados à igreja;
 O sacerdote não deveria ter posses. O sacerdote e toda a tribo de
Levi não devem ter parte ou herança, porque eles comem o
sacrifício, e não deverão receber mais nada (Deuteronômio, 18:1-2);
 Os clérigos, monges, bispos e abades não deveriam ter prebendas
(renda) ou direitos reais;
 As terras do povo não deverão ser divididas em partes;
 É mau fundar ou patrocinar igrejas e mosteiros;
 Não se deve fazer coletas em favor da igreja;
 Ninguém deve ser forçado a qualquer crença
 Abominam os padres por sua preguiça, dizendo que deveriam
trabalhar com suas mãos, como faziam os apóstolos;
 Reprovam títulos dignitários, como papa, bispo, etc.
 Não aceitam privilégios eclesiásticos;
 Não aceitam a imunidade da igreja, do clero e suas coisas;
 Condenam concílios, sínodos e assembléias;
 Dizem que direitos paroquiais são invenção;
 Que regras monásticas são tradição dos fariseus;
 Que a mulher, depois de parir seu filho, não precisa ser purificada e
bendita, já o sendo pela maternidade;
 Que a igreja peca ao não permitir o casamento de seus padres, visto
que a igreja do Oriente (ortodoxa) o permite e promove;
 Que a ordenação sacerdotal nada vale, que cada bom homem é um
sacerdote, como os apóstolos foram simples e bons homens;
 Que a prece de um mau sacerdote nada vale, e ridicularizam a igreja
quando nomeia conhecidos pecadores e criminosos para cargos
eminentes;
 Que o latim não é mais querido por Deus do que seu vulgar (sua
língua);
 Que cada bom cidadão, mesmo as mulheres, podem pregar. (“Eu
queria que vós falásseis outras línguas e pregassem, para que a
igreja pudesse ser edificada” – I Coríntios, 14:5);
 Que a doutrina do Cristo e dos apóstolos é suficiente para a
salvação, sem os estatutos da igreja;
 Que existe mais transgressão na tradição humana que na lei de
Deus (“Porque transgredis vós também a lei de Deus, por causa de
vossas tradições?” Mateus, 15:3);
Outro inquisidor, o cardeal Raynaldus (7), diz em seus “Annales”
(começo do século 13):

• “... dizem (os cátaros) existir dois Criadores. Um benevolente, que


é o Novo Testamento, outro malévolo e mentiroso, também
homicida, que é o Velho Testamento. Mentiroso, porque afirmou
que se o homem comesse o fruto da árvore do conhecimento por
certo morreria, porém isso não aconteceu, somente ficou sujeito a
miséria da morte. Homicida, por ter destruído as cidades de
Sodoma e Gomorra, além de devastar o mundo pelo dilúvio e
afogar os soldados do faraó no Mar Vermelho, e malévolo por
dizer que se arrependia de ter criado o homem, embora o tenha
criado à sua imagem e semelhança”.
• “... dizem também que o Cristo, nascido em Belém e crucificado
em Jerusalém, era somente um homem, embora tivesse uma
alma divina, e que Maria Madalena era sua concubina...”.
• ...que a igreja católica era um covil de ladrões, e era a grande
meretriz do Apocalipse de João (Apocalipse, 17:1 a 4).
• “Dos mandamentos da santa igreja, dizem que a santa água do
batismo não é mais que água de rio, que a hóstia consagrada não
é mais que pão. Confissões, consideram também vãs e frívolas”.
• ...”negando também a ressurreição da carne, postulam algumas
noções jamais ouvidas, que nossas almas são espíritos
angelicais, tendo sido expulsos do Céu pelo pecado do orgulho.
Que depois de sucessivamente habitar sete corpos terrenos para
cumprir sua penitência, essas almas retornarão à seu estado
angelical”.
• “... também costumam fazer imposição de mãos sobre os simples,
dizendo que com isso podem curar males do espírito e do corpo,
perdoando seus pecados”.
• Chamam aos que seguem rigorosamente sua doutrina “Perfeitos”,
que podem ser tanto homens como mulheres, com direitos
absolutamente iguais. Esses se ocupam de difundir sua doutrina
pelo exemplo de perfeição de sua conduta, não se submetendo a
nenhuma autoridade da santa igreja católica, sejam padres,
bispos sou superiores, dizendo que esses são corruptos, ladrões,
blasfemos e pecadores!
O dominicano Bernardo Guidone, ou Bernardo Gui, como era
comumente chamado, talvez o mais famoso dos Inquisidores, cita os
mesmos pecados praticados pelos Cátaros, somente de maneira
mais didática (8):
 “... dizem de si mesmos, que são bons cristãos, que não
juram, mentem, ou falam mal dos outros. Não matam homem
ou animal ou nada que tem o sopro da vida, pois são
vegetarianos. Que sustentam a fé em Cristo e seus
evangelhos, como ensinado por seus apóstolos. Ocupam hoje
o lugar dos apóstolos, e por causa disso os da igreja romana,
prelados, curas e monges, e especialmente os inquisidores de
heresias os perseguem e chamam de hereges embora sejam
bons cristãos, e que são perseguidos como Cristo e os
apóstolos o foram pelos fariseus”.
 “... falam das vidas laicas dos sacerdotes e prelados da igreja,
da sua cupidez, lassidão, avareza e vida pouco honesta, que
todo o povo conhece. Esses prelados, curas e monges são
fariseus e falsos profetas, pois não fazem o que pregam”.
 “... batismo, comunhão, unção são maneiras de vender caro
água, óleo e farinha, e que sendo pecadores, os padres não
tem poder de ligar e religar e, não sendo limpos, não podem
limpar outros pela confissão”.
 ‘... que a cruz de Cristo não devera ser venerada, porque
ninguém veneraria a forca na qual seu pai, parente ou amigo
fosse enforcado”.
 “Além disso tudo, lêem os evangelhos e as epístolas em sua
língua vulgar (occitano), contrariando as normas da igreja e
expondo-a a que seja vilipendiada, e aplicando-as a seu
favor”.
Quando o papa Eugênio III enviou, em 1147, o monge
cluniacence Bernardo de Claivaux (São Bernardo), famoso pelas
palavras “pela persuasão, não pela violência, os homens são
vencidos pela fé”, e reconhecidamente um dos maiores
pregadores que a igreja teve, de conceito moral reconhecido,
para converter esses ímpios cátaros, o mesmo, espantado com a
devassidão, corrupção e lassidão existente em todo o clero local,
contrastando com a vida correta e regrada dos ditos hereges,
desistiu da missão e voltou, comunicando que para conseguir
algum êxito seria necessário destituir todas as autoridades
católicas da região, e que não havia encontrado pecado grave
nos cátaros. O papa Inocêncio III decretou indulgência plena para
quem fosse dizimar os cátaros no Langue D’Oc. Os cruzados
podiam matar, violentar e roubar todos, sem distinção de sexo,
idade ou ordem, que seus pecados seriam imediatamente
perdoados. Teve nessa cruzada o grande auxílio dos reis Felipe
Augusto e depois Luís VIII e seus nobres do norte da França,
interessados nas terras e riquezas dessa região.
Os historiadores estimam que mais de quinhentas mil pessoas
foram ali assassinadas, nos pouco mais de vinte anos de duração
dos combates.

ANOTAÇÕES:
(1) – Caesarius of Heiterbach em seu Dialogus Miraculorum
(Medieval Sourcebook);
(2) Dele Inocêncio III disse anos depois – “... não conhece outro
deus que não o dinheiro, tem uma bolsa no lugar do coração.
Seus monges e curas tem amantes vivem de usura...São
objeto de riso e desprezo da comunidade laica em toda a
região”.
(3) Herbert George Wells em seu livro “Crux Ansata” – “A História
desta cruzada é um capítulo que os historiadores da igreja
católica tem feito o máximo para obliterar”.
(4) Domingos de Gusmão morreu em 1221, e foi por seus serviço
à cauãs da igreja canonizado logo após, em 1234.
(5) Aceitavam os livros de Salomão, Provérbios, Eclesiastes, e
Cântico dos Cânticos, Juízes, Jó e Salmos.
(6) Em seu livro “Das seitas dos modernos hereges” (cerca 1250).
(7) Cardeal Odoricus Raynaldus, em “Annales ca. 1331”.
(8) Em seu livro “O Manual do Inquisidor” (Practica Officii
Inquisitionis Hereticae Pravitatis ou Do trabalho prático do
inquisidor Nas depravações heréticas), escrito em 1331.

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