CAPTULO 1 A TRAJETRIA DA HISTRIA DOS SURDOS Histria da Educao dos Surdos Segundo Decreto 5.
.626, considera se a pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experincias visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Lngua Brasileira de Sinais - Libras. Pargrafo nico. Considera se deficincia auditiva a perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibis (dB) ou mais. Antigamente os surdos no eram considerados humanos, pois acreditava se que com a surdez, os surdos no seriam capazes de expressar os pensamentos, sendo assim, eram excludos pela sociedade. Mais tarde a igreja catlica se interessa por valores religiosos, acreditando se em manter suas almas imortais, e que tambm ajudariam a Santa Madre Igreja. Na Idade Mdia, surgem interesses em educar os surdos, para integr los a sociedade, nesse perodo, os surdos foram alvos da medicina, pois serviam de pesquisas. No sculo XVII, era percebido o grande interesse que os estudiosos tinham pela educao dos Surdos, principalmente porque tinham descoberto que esse tipo de educao possibilitava ganhos financeiros, pois as famlias que tinham descendentes Surdos pagavam grandes fortunas para que seus filhos aprendessem a falar e escrever. (HONORA, FRIZANCO, SARUTA, 2009, p. 21) Segundo as autoras acima mencionadas, destacaremos a seguir alguns aspectos histricos, relevantes para o entendimento do nosso tema. Fizeram parte da histria dos surdos; educadores, filsofos, mdicos, padres; cada um com seu ponto de vista, defendiam o que julgavam correto, como o uso do oralismo, que a compreenso e produo de uma lngua oral; e a leitura labial, tcnica em que sons e palavras so interpretadas pelo movimento dos lbios. Mas em toda essa trajetria, o marco principal, o que chamado Pai dos Surdos, conhecido com Charles-Michel de L Epe, por defender o uso da Lngua de Sinais; assim publicando em 1776, a obra com o ttulo A Verdadeira Maneira de Instruir os Surdos-Mudos, tratando a Lngua de Sinais com respeito. Em outro momento dessa trajetria, no ano de 1814, um mdico cirurgio francs, chamado Jean-Marc Itard, por 16 anos fez experincias absurdas com os surdos, para mais tarde convencer se, que a nica maneira de educar os surdos, seria por meio da Lngua de Sinais. Houve um grande avano em 1864, fundou se a primeira faculdade para surdos, localizada em Washington, o Oralismo foi a principal forma de educao para os surdos nos 80 anos posteriores. Hoje ela conhecida como Universidade Gallaudet, por ter sido fundada por Edward Gallaudet. a nica Universidade que tem como disciplina artes liberais, e por adotar a Lngua de Sinais em suas aulas. O sculo XVII considerado por muitos o perodo mais prspero da educao dos surdos. Neste
sculo, houve a fundao de vrias escolas para Surdos. Alm disso, qualitativamente, a educao do Surdo tambm evoluiu, j que, atravs da Lngua de Sinais, eles podiam aprender e dominar diversos assuntos e exercer diversas profisses. (HONORA, FRIZANCO, SARUTA, 2009, p. 22) Com toda essa linhagem do tempo, observa se que a luta dos Surdos, foi e intensa, primeiramente que s acreditava se no oralismo como sendo a nica forma de educar essas pessoas; hoje, depois do convencimento que o uso de sua lngua natural, a lngua de sinais, como sendo a forma principal de educa los e alfabetiza los, nos deparamos com outras barreiras, como discriminaes, a falta do conhecimento dessa linguagem, tanto pela parte da famlia, como dos profissionais da rea de sade e do ensino, e at a falta de aceitao da prpria famlia. 1.2 - Histria da Educao dos Surdos no Brasil A educao dos Surdos no Brasil, iniciou se no Segundo Imprio, mas a Lngua de Sinais deu se origem devido influncia da Lngua Francesa. Em 1857, fundou se o INES Instituto Nacional de Educao dos Surdos; que utilizava a Lngua de Sinais, e que mais tarde tambm adota o Oralismo, devido determinao do Congresso Internacional de Surdos Mudos de Milo. A partir dessa votao com os participantes do congresso, foi recomendado que o melhor mtodo seria o oral puro, abolindo oficialmente o uso da Lngua de Sinais na educao dos Surdos. (HONORA, FRIZANCO, SARUTA, 2009, p. 24) Na dcada de 70, chega ao Brasil filosofia da Comunicao Total, e na dcada seguinte, difundido o Bilinguismo, atualmente estas duas filosofias so adotadas paralelamente no Brasil. Para uma melhor compreenso, vale ressaltar que: Comunicao Total: envolve a fala, leitura orofacial, treinamento auditivo, expresso facial e corporal. Bilinguismo: a lngua natural da comunidade surda, onde a fala uma opo. No captulo 3, ser abordado mais sobre esses dois assuntos. 1.3 - Legislao e Declarao de Salamanca A legislao que regulamenta oficialmente a Lngua Brasileira de Sinais datada de 24 de abril de 2002 (vide anexo 1), e recebe o nmero 10.436: Art. 1 - reconhecida como meio legal de comunicao e expresso a Lngua Brasileira de Sinais LIBRAS e outros recursos de expresso a ela associados. Pargrafo nico Entende se como Lngua Brasileira de Sinais LIBRAS a forma de comunicao e expresso, e que o sistema lingustico de natureza visual motora, como estrutura gramatical prpria, constituem um sistema lingustico de transmisso de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas no Brasil. (HONORA, FRIZANCO, SARUTA, 2009, p. 31)
O Decreto n 5626 (vide anexo 2), de 22 de dezembro de 2005, regulamenta a Lei n 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispe sobre a Lngua Brasileira de Sinais LIBRAS, e o art. 18 da Lei n 10.098, de 19 de dezembro de 2000. A Declarao de Salamanca considerou como uma das caractersticas mais peculiares da educao de surdos (que muitas vezes desconsiderada pelos rgos competentes na promoo da Educao para Todos) a importncia da linguagem dos sinais como meio de comunicao para todos os surdos, e deve ser assegurado a todos os surdos acesso ao ensino da linguagem dos sinais do seu pas. (MACHADO, 2008, p. 54 55) 1.4 - Cultura dos Surdos O conceito de cultura um conjunto de uma prtica simblica de determinado grupo: lngua, artes, religio, sentimentos, ideias, modos de agir e vestir. Na cultura surda existe um forte sentimento de orgulho ao seu patrimnio cultural e lingustico. A cultura surda o lugar para o sujeito surdo construir sua subjetividade de forma a assegurar sua sobrevivncia e a ter seu status quo diante das mltiplas identidades, como disse Hall (1997), so constitudas dentro das culturas e no fora delas, pois, no interior dos discursos culturais, existem possibilidades de subjetivao. (THOMA, LOPES, 2004, p. 78) A partir de sua forma de comunicao, os surdos foram formando sua prpria comunidade, onde se renem e convivem socialmente. No me parece possvel compreender ou aceitar o conceito de cultura surda seno atravs de uma leitura multicultural, ou seja, a partir de um olhar de cada cultura em sua prpria lgica, em sua prpria historicidade, em seus prprios processos e produes. (SKLIAR apud MACHADO, 2008, p. 53) Na maioria das vezes, o surdo no sabe ao qual grupo (cultura) pertencer, pois alguns pais de surdos desconhecem (ou fingem desconhecer) a cultura ao qual o filho deveria estar inserido. Segundo Perlin (2004), a definio da identidade surda, abrange a lngua, as ideias, as crenas e os hbitos do povo surdo. A cultura surda, o jeito do sujeito surdo entender o mundo. Os defensores da lngua de sinais afirmam que s por meio dela, adquirida em qualquer idade, o sujeito surdo constitura uma identidade surda, j que ele no ouvinte. (SANTANA, 2007, p. 41) A Libras para o surdo o reconhecimento do seu eu, com seus valores e sua personalidade, afirmando se dentro de uma comunidade dominante de ouvintes, se fazendo entender e ser respeitado como ser humano, capaz de comunicar os seus interesses sociais, emocionais. Para muitos ouvintes, a cultura surda no existe, com h ideia de que existe apenas uma cultura universal. Quando uma criana faz parte da sua cultura, fica mais fcil entender o seu mundo, de se
conhecer. Poucas crianas surdas tm a oportunidade de conviver dentro da comunidade surda desde pequena. Os surdos que vivem em condies de subordinao parecem estar vivendo na terra do exlio e esse o ambiente em que vivem na maioria dos surdos que so filhos de pais ouvintes. o ambiente da cultura dominante. (PERLIN apud THOMA e LOPES, 2004, p.144). A criana surda, quando filha de pais surdos, tem a oportunidade de conviver desde pequena com a comunidade surda, favorecendo desta forma o aprendizado da lngua de sinais de uma maneira mais natural. O que importante, para que ela estabelea uma melhor comunicao com seus iguais. Agora quando a criana surda filha de pais ouvintes, esta depende dos mesmos para que a apresentem para a comunidade surda. Caso isso no ocorra, elas no conseguiro se integrar com os surdos, e no tero um desenvolvimento adequado. Para Goldfeld (1997), o ambiente lingustico deve ser adequado criana surda, tanto no contexto familiar, como no social, para aquisio da lngua de sinais e, com ela, evitar o atraso na construo da linguagem e todas as suas consequncias, no que diz respeito percepo, generalizao, formao de conceitos, ateno e memria. Acrescenta que provavelmente a lngua de sinais ser a lngua mais utilizada na construo planejadora da linguagem, j que esta lngua a mais fcil e natural para o surdo. importante a criana surda se integrar na cultura surda, pois com isso, sua aquisio da Lngua de Sinais ocorrer de maneira natural, e ela ter um ambiente apropriado para se estabelecer a interao comunicativa e o desenvolvimento lingustico e cognitivo. Surdez como diferena refere se a uma minoria lingustica que faz uso de uma outra lngua Lngua de Sinais. Remete a necessidade de se pensar em Polticas Pblicas que atendam s especificidades da comunidade surda e que no prescindam da participao das lideranas surdas nos debates sobre suas realidades sociais, culturais, educacionais, de trabalho, de lazer, entre outros. (THOMA, LOPES, 2004, p. 89) 1.5 - Comunidade Surda atravs da Comunidade que surge um grupo de pessoas, que compartilham os mesmos objetivos, as mesmas metas e ideias, e que querem alcanar os mesmos ideais, e atravs de movimentos sociais, construindo polticas para atenderem suas especificidades. Pessoas que no so surdas tambm podem participar dessa Comunidade, onde elas apoiam os objetivos da Comunidade, e trabalham junto com os surdos para alcanarem seus objetivos. O que difere a Comunidade Surda de outras comunidades a prpria lngua Lngua de Sinais, onde eles tambm apresentam costumes, histria, cultura, nisso que h faz diferente e muito interessante. Os Surdos, que frequentam esses espaos de Surdos, convivem com duas comunidade e cultura: a dos surdos e a dos ouvintes, e precisam utilizar suas lnguas; a LIBRAS e a lngua portuguesa. Portanto, numa perspectiva scio lingustica e antropolgica, uma Comunidade Surda no um lugar onde pessoas deficientes, que tm problemas de comunicao se encontram, mas um ponto de articulao poltica e social porque, cada vez mais, os Surdos se
organizam nesses espaos enquanto minoria lingustica que lutam por seus direitos lingusticos e de cidadania, impondo se no pela deficincia, mas pela diferena. (FELIPE apud FILHO e OLIVEIRA, 2010, p. 6). Em nossa prpria sociedade, muitas vezes a Lngua de Sinais no considerada, por falta de conhecimento, e que se trata de uma lngua, o que provoca a falta de comunicao entre as famlias, dos surdos, com os profissionais e tambm com os ouvintes. importante se considerar a Libras, permitindo que se consiga a interao entre a comunidade surda e a ouvinte. Muitas famlias, quando descobrem que um membro surdo, comeam a rejeita lo. E logo o encaminham para um especialista, como fonoaudilogo, para que a criana aprenda a falar, para ser normalizada. Isso tambm ocorre pelas comunidades, pela cultura e a lngua de sinais, estarem fora da realidade de muitos ouvintes, por no terem seus direitos respeitados. Os membros da comunidade surda, devem estimular todos, principalmente os ouvintes, h conhecerem e respeitarem os direitos dos surdos, isso envolve tambm, educao de qualidade. ...a educao deve manter intercmbio com a comunidade surda, por exemplo, aproximando os surdos do cotidiano escolar, permitindo o reconhecimento das possibilidades do surdo para atuar em sociedade. (MACHADO, 2008, p. 152) A Comunidade Surda tambm deve estar inserida no mbito escolar. A escola um local onde aprendemos, e que nos marcam em muitos aspectos, e a comunidade surda inserida na escola, tambm proporciona esse sentimento, que ficar marcado no aluno surdo. Cabe aos gestores da escola proporcionarem essa troca entre as comunidades, atravs de dilogos, experincias significativas, abordando o que pode ser til na educao dos surdos. O surdo quando inserido na comunidade ouvinte, no quer ser visto como um Deficiente Auditivo ou Surdo, mas quer ser visto por quem aceita as diferenas, luta por seus direitos, que respeita sua cultura e respeita a cultura do prximo, e que usa a lngua de sinais como meio natural de comunicao, mas que acima de tudo se orgulha da sua histria, tem orgulho da sua lngua.