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TCC Raffael

A pesquisa analisa a influência da tecnologia nas relações de trabalho no Brasil, focando no aplicativo Uber e a natureza do vínculo empregatício entre motoristas e a empresa. O estudo destaca a informalidade no mercado de trabalho exacerbada pela pandemia de COVID-19 e discute a evolução da legislação trabalhista frente às novas formas de trabalho. O reconhecimento do vínculo empregatício é debatido à luz de decisões judiciais que variam entre considerar motoristas como parceiros ou empregados da Uber.
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TCC Raffael

A pesquisa analisa a influência da tecnologia nas relações de trabalho no Brasil, focando no aplicativo Uber e a natureza do vínculo empregatício entre motoristas e a empresa. O estudo destaca a informalidade no mercado de trabalho exacerbada pela pandemia de COVID-19 e discute a evolução da legislação trabalhista frente às novas formas de trabalho. O reconhecimento do vínculo empregatício é debatido à luz de decisões judiciais que variam entre considerar motoristas como parceiros ou empregados da Uber.
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CENTRO UNIVERSITÁRIO CURITIBA

FACULDADE DE DIREITO DE CURITIBA

RAFFAEL MAZZAROTTO

O RECONHECIMENTO DE VÍNCULO EMPREGATÍCIO PARA


OS MOTORISTAS DE APLICATIVO

Curitiba

2020
RAFFAEL MAZZAROTTO

O RECONHECIMENTO DE VÍNCULO EMPREGATÍCIO PARA


OS MOTORISTAS DE APLICATIVO

Projeto de pesquisa científica


apresentado ao curso de Direito do
Centro Universitário Curitiba como parte
dos requisitos para obtenção do título
de Bacharel em Direito.

Orientadora: Prof. ª Dra. Érika Paula de


Campos

Data da Aprovação: ___/___/___


Banca Examinadora:
Orientadora - Prof.ª: ____________________________________
Membro da Banca: Prof. _________________________________
Membro da Banca: Prof. _________________________________

Curitiba

2020
Sumário

AGRADECIMENTOS .............................................................................................................. 3

RESUMO ................................................................................................................................ 4

INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 5

1. A HISTÓRIA DA UBER ............................................................................................... 7

2. DO CADASTRO DO MOTORISTA A PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. ................. 8

3. A UBER NOS TRIBUNAIS NACIONAIS ........................................................ 9

4. A RELAÇÃO DE TRABALHO DA UBER NO MUNDO ........................... 12

5. A RELAÇÃO DE TRABALHO E EMPREGO SENGUNDO A LEGISLAÇÃO


TRABALHISTA BRASILEIRA .............................................................................................. 14

6. DOS REQUISITOS PARA CARACTERIZAÇÃO DO VÍNCULO


EMPREGATÍCIO PREVISTOS NA CLT. ........................................................................... 17

7. A FLEXIBILIZAÇÃO DAS RELAÇÕES DE TRABALHO ...................................... 20

8. A FLEXIBILIZAÇÃO DE REGRAS VS. PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO


DIANTE A REFORMA TRABALHISTA DE 2017 ............................................................. 23

9. DA POSSIBILIDADE DO RECONHECI MENTO DO VÍ NCULO


EMPREGATÍCIO NAS NOVAS TECNOLOGIAS ................................................. 26

10. A DIFERENÇA DO UBER E DO TAXI ......................................................... 28

11. O FENÔ MENO DA UBERI ZAÇÃO ................................................................. 29

12. CONSI DERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 32

REFERENCIAS...................................................................................................................... 35
3

AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a orientadora a ilustre professora dra. Érika de Paula


Campos, pelo incansável auxílio prestado seja durante as aulas, seja durante toda a
orientação deste trabalho.

Agradeço a Deus e a minha família por todo apoio e incentivo sem o qual este
trabalho e toda minha graduação não seria possível.
4

RESUMO

A presente pesquisa está pautada na influência da tecnologia


nas relações de trabalho situadas no Brasil, tendo por modelo o
aplicativo da empresa Uber. No atual contexto socioeconômico
nacional, agravado ainda mais pela conhecida pandemia de COVID -19,
a informalidade faz parte da vida do cidadão brasileiro. Valendo -se
desta ótica, se realizou a escolha do tema. O tema discutido possui
grande importância no cenário jurídico atual e sua evolução como
elemento da manutenção da segurança jurídica e seu impacto na
sociedade. As mudanças ocorridas no cenário do Direito do Trabalho
ganham novos vieses e as novas formas de trabalho são um grande
desafio para a legislação trabalhista brasileira.

Palavras chaves: direito do trabalho, vínculo de emprego,


motorista de aplicativo, autônomo.
5

INTRODUÇÃO

A Sociedade está em constante evolução e com ela se inovam as


tecnologias e consequentemente as formas das relações trabalhistas e
assim o direito deve também evoluir para continuar a prestar as
garantias individuais e coletivas necessárias para as relações
trabalhistas.

Atualmente temos um novo cenário mundial. Um cenário


fortemente tecnológico que contempla as formas de comunicação,
compras e consequentemente de transporte, desta forma, a pesquisa
aqui apresentada leva em conta a influência da tecnologia nas relações
de trabalho situadas no Bra sil, tendo por modelo o aplicativo da
empresa Uber.

Diante a tantas novidades , aplicativos como o Uber ganharam o


mercado de transporte trazendo consigo questões no âmbito jurídico
trabalhista que até então a legislação trabalhista brasileira não havia
enfrentado.

A empresa Uber foi fundada em 2009 e é uma forma de


organização focada em e-hailing , ou seja, o ato de solicitar transporte
privado por meio de aplicativo de celular. A composição do modelo de
atuação da empresa é de três polos essenciais que são: (i)
passageiros, (ii) o motorista parceiro e (iii) o aplicativo.

Esta forma de negócio da Uber, acaba por gerar grandes dúvidas


e questões quanto à natureza das relações de trabalho e emprego
entre os motoristas com a empresa e assim sobre a n atureza do vínculo
de emprego gerado com esta nova forma de prestar serviços .

Toda esta questão se levanta uma vez que a Uber se


autocaracteriza como uma empresa de tecnologia e não como uma
6

empresa de transportes, pois, afirma que fornece a plataforma pa ra os


motoristas atuarem , mas, não oferecem transportes de forma direta.

Por outro lado, a Legislação Brasileira possui regras positivadas -


Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) - como pilar para coordenar
e regulamentar as relações trabalhistas no país .

Sendo assim, a CLT traz em seu bojo não somente as leis


trabalhistas que devem ser seguidas por empregados e empregadores,
mas também princípios inerentes as questões trabalhistas nacionais,
entre estas regras se positivam as características para se regu lamentar
o vínculo de trabalho e emprego.

Diante disto, a caraterização do vínculo empregatício , positivado


nos artigos 2º e 3º da CLT, acabam por conflitar com as diretrizes de
novos negócios, sendo um destes negócios, os apresentados pela
Uber.

É objetivo desta pesquisa provocar reflexão sobre a natureza do


vínculo entre a Uber, que é uma startap, tida como uma das mais
valiosas do mundo, segundo o Jornal Wall Street Journal e seus
“parceiros” como são denominados os motoristas que trabalham com a
plataforma da Uber.

O protagonismo da Uber no mercado mundial se deu diante dos


serviços oferecidos de forma disruptiva. Esta nova forma de serviços ,
trouxe de certo novos conceitos, e um deles foi o popularmente
denominado “ubernização” do mercado de trabalho, d evido a tecnologia
existente que liga o consumidor ao motorista.

Enfim, a pesquisa apresentada, buscou analisar por via da


metodologia dedutiva com análise na bibliografia e estudo de casos a
natureza jurídica do vínculo entre os motoristas do aplicativo e a
empresa Uber e provocar uma reflexão para como esta modalidade de
trabalho/ emprego se enquadra no ordenamento brasileiro.
7

1. A HISTÓRIA DA UBER

Segundo consta no site da empresa, a Uber surgiu em 2009 nos


Estados Unidos, na cidade de São Francisco, Califó rnia idealizada por
Travis Kalanick e Garret Camp devido à dificuldade deles em conseguir
um taxi em um dia frio e chuvoso.

O aplicativo surgiu primeiramente como Ubercab em 2010 e o


serviço era realizado por carros de luxo e tinha como público alvo
empresários, onde o carro era escolhido via aplicativo e o passageiro
utilizava fazendo também o pagamento de forma eletrônica.

Em 2011 devido a um grupo de investidores a Uber ampliou seus


serviços na cidade de Nova York e posteriormente em outras cidades
como Boston, Seattle, Chicago.

Fora dos EUA a primeira cidade que recebeu a Uber foi Paris.

Em 2012 a empresa apresentou o Uber X permitindo que qualquer


proprietário de veículo possa se vincular.

O Uber chegou no Brasil em 2014 na cidade do Rio de Janeiro e


posteriormente em São Paulo, onde encontrou muitos problemas com
os taxistas e em 2015 a empresa comemorou 1 bilhão de viagens pelo
mundo e em dezembro de 2016, 2 bilhões.

Também no ano de 2014 a Uber ingressou no mercado Chinês.

A partir de 2015, a empresa começou a ampliar a forma de


atendimento com serviços para entrega de comida e corridas
compartilhadas, onde passageiros diferentes usam a mesma corrida
para se locomover.

De acordo com o sítio eletrônico da empresa, em 2016 a Uber já


estava presente em 70 países e atualmente em aproximadamente 83.
8

2. DO CADASTRO DO MOTORISTA A PRESTAÇÃO DE


SERVIÇOS.

A Uber não possui veículos e não trabalha com motoristas


contratados, mas sim cadastrados em sua plataforma.

Uma vez cadastrado, o motorista ativa o aplicativo e sua


disponibilidade podendo aceitar as “corridas” que chegam em sua tela
de smarphone.

Também pelo aplicativo o motorista é monitorado via GPS e


avaliado com notas distribuídas pelos consumidores. Os valores de
corrida se alteram conforme a localidade, hor ário, quantidade de
motoristas disponíveis na localidade e até pelo clima.

Portando, segundo a filosofia da empresa não existe


contraprestação em relação a localidade ou horário do exercício do
trabalho. Quem decide onde e quando trabalhar é o motorista.

Esta simplificação primeiro trouxe grandes transtorno para com os


taxistas que dependem de um cadastro formal junto a prefeitura com
regulamentação para poderem atuar e ainda dependem de locais
denominados “pontos” para poderem se alocar para o dia de traba lho.

Nesta toada, se salienta que possuem prefeit uras como por


exemplo de Belo Horizonte no estado de Minas Gerais que continham
regras especificas para que somente taxistas pudessem fazer o
transporte particular de passageiros conforme determinado pela Le i
12.468/2011.

Ar t . 2. É a t i v id a de pr i v at i v a dos pr of is s i o na is tax is tas


a ut i l i zaç ã o d e v e íc u lo a ut om ot or, pr óp r i o o u d e
ter c e ir os , p ar a o tr a ns p ort e p ú b lic o i n d i vi d u al
r em un er a d o de p as s a ge ir os , c uj a c ap ac i da de s er á de ,
no m áx im o, 7 (s et e) p as s a g e iros .
9

Entretanto, conforme já mencionado a Uber se classifica sendo


uma empresa de tecnologia e não de transporte, portanto, não se
enquadra na questão de transporte privado individual, o que gerou e
gera ainda hoje grandes conflitos para a adequação e regulamenta ção
de sua atividade no país.

Surge então o que foi popularmente denominado de “uberização”


que se refere a exploração de uma nova forma de trabalho. Ou seja, a
forma de trabalho que transforma o trabalhador em empreendedor. Com
uma filosofia de trabalho c olaborativo, esta nova forma de se trabalhar
não possui víncu los e nem direitos trabalhistas ou garantias sociais.

Este fenômeno, em um país de primeiro mundo, pode colocar as


pessoas diante a possibilidades de escolha entre trabalho com vinculo
ou sem vín culo com a empresa empregadora.

Entretanto, em um cenário como enfrentamos no Brasil, com


grandes carências e desemprego a nível galopante, o fenômeno da
uberização acaba por empurrar cada dia mais trabalhadores sem
opções para trabalhos cada vez mais inf ormais aprofundando assim
uma forma de desemprego estrutural.

3. A UBER NOS TRIBUNAIS NACIONAIS

Alguns tribunais nacionais do trabalho reconheceram o vínculo


empregatício entre o motorista e a Uber.

Em decisão publicada em 23.04.2019 o juiz Bruno da Costa


Rodrigues, da 2ª Vara do Trabalho de Campinas, condenou a Uber a
pagar R$ 10 mil reais a títulos de indenização (autos 0011594-
77.2017.5.15.0032 ) a um motorista, por reconhecer a quebra de
contrato entre ele e a empresa.
10

Em sua argumentação, o magistrado fr isou que atividade é um


serviço de transporte que explora o trabalho huma no sem autonomia do
trabalhador e também fundamenta sua decisão no fato da empresa
poder aplicar sanções ao motorista

A Uber recorreu da decisão e publicou nota dizendo que os


motoristas são parceiros e não empregados da empresa. A
fundamentação do argumento da empresa é que ela oferece tecnologia
e não transporta ninguém, desta forma sua natureza é somente de
tecnologia.

As indagações judiciais desta e de várias outras decisões


similares no judiciário brasileiro esbarram em questões como ser
impossível alguém se transportar por meio de uma plataforma digital e
que ninguém se cadastraria na denominada plataforma digital se ela
nada oferecesse. No caso da Uber, ela oferece transporte.

Em outro sentido, em muitas decisões que reconhecem o vínculo


empregatício dos motoristas com a empresa se analisa a diferença
entre ser uma plataforma exploradora de uma plataforma facilitadora,
pois, a empresa se coloca no mercado como uma facilitadora,
entretanto na prática se verifica que suas características de atuação
como não deter o poder de escolha de qual carro quer, ou qual
motorista, acabam por complicar a visão da empresa como uma simples
facilitadora entre prestadores de serviços e consumidores.

A grande diferença entre empresa facilitadora e exploradora seria


o fato de uma plataforma facilitadora (Airbnb, por exemplo) de
economia compartilhada de uma plataforma que controla uma atividade
econômica por meio digital e telemático em proveito própri o, como no
caso da Uber.

A Jurisprudência pátria por vezes acaba por classificar a empresa


como querer o melhor dos mundos, pois, ao afirmar não ser uma
11

empresa de transportes não estará sujeita a regulamentação dos


transportes, e consequentemente da legis lação trabalhista, tributária e
previdenciária e, quando se trata de empresa fornecedora de serviços,
e ainda busca escapar de regulamentação consumerista , ao afirmar
que não oferece o serviço de transporte, portanto, não é responsável
pelos vícios na ativ idade.

Sendo assim, após uma questão de competência para julgamento


de uma ação originária do Tribunal Regional Trabalhista de Minas
Gerais a questão sobre o reconhecimento de vínculo trabalhista entre
motoristas e o aplicativo Uber foi levada até o Superi or Tribunal de
Justiça onde se decidiu que não há caracterização de vínculo de
emprego entre os motoristas e a empresa Uber:

CO NF L IT O N EG AT I VO DE CO M P ET Ê NC IA . I NC ID E NT E
M AN EJ A DO SO B A É G ID E DO N CP C. AÇ Ã O D E O B RI G A Ç ÃO
DE F A Z ER C .C . R E P AR A Ç ÃO DE DANOS M AT ER I AI S E
MO R A I S AJ UI ZA D A P O R MO T O R IST A D E A P LI C AT IVO U B E R.
RE L A ÇÃ O D E T R A B A LHO N ÃO C A R ACT E RIZ A D A. SH AR IN G
EC O NO M Y. N AT U R E ZA C Í V EL . CO M PET ÊN CI A D O J UÍZO
E ST A DU A L. 1 . A c om p et ê nc i a ra t io n e m at er i ae , v i a d e r e gra , é
qu es tã o a n ter i or a q ua l q uer j uí zo s o br e o utr as es p éc ies d e
c om pet ê nc ia e, s e n d o d e term i na d a em f unç ã o d a n at ur e za
j ur í d ic a d a pr et e ns ã o , d ec orr e d ire t am ent e d o pe d i do e d a
c aus a d e pe d ir d ed u zi dos em j uí zo . 2. O s f u nd am en tos d e f at o
e de d ir e it o d a c aus a n ão d i zem r es p e it o a e ve nt u a l r e laç ã o
de em pr e g o h a vi d a en tr e as par t es , t am po uc o ve ic u lam a
pr e t ens ã o d e r ec eb im en t o de v erb as d e n a tur e za tra b a lh is ta .
A pr et e ns ã o d ec orr e do c o ntr at o f irm ado c om em pres a
de t en tor a de ap l ic at i v o d e c e l u lar , d e c u n ho em in en t em ent e
c i v i l. 3. As f err am ent as t ec no l ó gic as d is p o ní v e is at ua lm en t e
per m i tir am c ri ar uma no v a m oda l i d a de de in t er aç ã o
ec o n ôm ic a , f a ze n d o s urg ir a ec o nom i a c om par t i lh a da (s h ar i ng
ec o n om y) , em q u e a pres t aç ã o d e s er v iç os p or d et e nt or es d e
v eíc u los p ar tic u l ares é in t erm ed ia d a por a p lic a ti v os g er id os
por em pr es as d e tec n o lo g ia . N es s e pr oc e s so, o s moto r ist a s,
ex e cut o r es da ativ i dad e, atu am com o e mp r een de do re s
12

indiv idu ai s, s em v í ncu lo de em pr eg o c om a em pr e sa


prop r ie t á ri a da pl at afo rm a. 4 . C om pe te a J us t iç a Com um
Es t a du a l j u l ga r aç ão de ob ri g aç ã o de f a ze r c . c . re p araç ã o d e
da n os m at er i a is e m ora is aj ui za d a p or m ot or is t a d e a p l ic a t i vo
pr e t en d en d o a r e at i v a ç ão d e s u a c o nt a UB E R par a q ue p os s a
v o lt ar a us ar o a p l ic a t i v o e re a l i za r s e us s e rv iç os . 5 . C o nf l it o
c on h ec id o par a dec l ar ar c om pe t en t e a J us t i ç a Es t ad u a l. ( gr if o
nos s o) . ( ST J - C C: 16 4 54 4 MG 20 1 9/ 0 07 9 95 2 - 0, Re l a tor :
M in is tr o M O U R A R I B EI RO , D a ta d e J u lg a m ento : 28 / 08 /2 0 1 9,
S 2 - S EG U ND A SE Ç Ã O , Da t a de Pu b l ic aç ã o : D J e 0 4 /0 9/ 2 01 9) .

Neste sentido, os motoristas de aplicativo são vistos como meros


empreendedores in dividuais que possuem total controle e autonomia
sobre sua rotina de trabalho.

Neste contexto retro é importante destacar a evidente finalidade


da atividade da empresa Uber, qual seja, transporte de passageiros e o
aplicativo por ela difundido é um instrum ento para que se alcance tais
finalidades.

As questões da manutenção do controle da Uber sobre os


motoristas com descredenciamentos da plataforma e avaliações
configuram que o motorista não é um simples empreendedor, mas sim
um dependente do aplicativo par a poder prestar seu serviço.

4. A RELAÇÃO DE TRABALHO DA UBER NO MUNDO

A discussão sobre como regulamentar a relação do Uber com


seus motoristas é global . Em países como Reino Unido a empresa
enfrenta questões duras da “justiça do trabalho” londrina.

Em 2016 um magistrado londrino fez pesadas acusações dizendo


que a empresa buscava burlar as questões trabalhistas e reconheceu
13

todos os direitos trabalhistas dos motoristas Uber condenando a


empresa a pagar indenização a todos motoristas cadastrados.

No ano de 2018 o Tribunal de Apelações do Reino Unido manteve


a decisão de 2016 e considerou que há sim vínculo trabalhista entre os
motoristas e a Uber.

Em outros locais como parte da Alemanha a Uber não pode


operar, ou deve operar somente com licenças comerciais o ficiais e isto
se repete em países como Itália, França e Holanda.

O tribunal alemão considera que a Uber é a prestadora de


serviços de transporte e deve se comprometer com a legislação do
setor, isto fez com que a empresa se retirasse aos poucos do país.

Na Bulgária, ocorreram proibições de operação da Uber no país,


onde decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Administrativo teceram
críticas sobre as práticas de negócios d a Uber, incluindo permitir que
os motoristas trabalhassem sem uma licença oficial de táxi.

Na Espanha também ocorreram o reconhecimento de vínculos


trabalhistas entre empresas de aplicativos e seus prestadores de
serviços.

A cidade de Madrid ilustrou grandes disputas inclusive jurídicas


entre plataformas de aplicativos e prestadores de se rviços em busca do
reconhecimento do vínculo de emprego. O primeiro Julgado consta
como o Juzgado de Lo Social nº1 de Madrid e teve como objeto o
pedido de reintegração do entregador Don Victor Artiaga Flores , contra
sua contratante, a plataforma digital d e delivery denominada “Glovo”,
em março de 2019 .

O julgado levou em considerações fatos como os mecanismos de


controle que a empresa exercia sobre o trabalhador, a pessoalidade do
14

serviço prestado, horário e local pré -determinados pela empresa sem a


possibilidade de negociação do entregador com os clientes.

No caso da Uber levou -se também em considerações questões


como a preparação do motorista para o atendimento, sendo que sendo
mero intermediador dos serviços, o motorista não precisaria se r
“treinado” nos moldes da empresa para exercer a função pela qual está
se cadastrando.

Como se verifica, a forma de trabalho da Uber agrada e desgrada


os mais variados mercados, mas as questões trabalhistas são um ponto
em comum da divergência sobre a atuação da empresa.

5. A RELAÇÃO DE TRABALHO E EMPREGO SENGUNDO A


LEGISLAÇÃO TRABALHISTA BRASILEIRA

No Brasília norma que regulamenta as relações trabalhistas é a


Consolidação das Leis Trabalhistas . Por ela se regula m entre outros
pontos os requisitos para que se diferencie a s relações de emprego e
onde se positiva o que caracteriza o vínculo empregatício.

No artigo 2º e 3º da CLT consta que:

Art. 2º - Considera-se empregador a empresa, individual ou


coletiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica,
admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço.

§ 1º - Equiparam-se ao empregador, para os efeitos exclusivos da


relação de emprego, os profissionais liberais, as instituições de
beneficência, as associações recreativas ou outras instituições
sem fins lucrativos, que admitirem trabalhadores como
empregados.
15

Art. 3º - Considera-se empregado toda pessoa física que prestar


serviços de natureza não eventual a empregador, sob a
dependência deste e mediante salário.

Parágrafo único - Não haverá distinções relativas à espécie de


emprego e à condição de trabalhador, nem entre o trabalho
intelectual, técnico e manual.

O Direito Trabalhista Brasileiro é cunhado na Constituição


Federal e também tem fontes em tratados internacionais e decretos,
estando assim, subordinado a gar antias constitucionais que visam a
proteção do trabalhador.

Entretanto, o Direito do Trabalho é o ramo que mais sofreu


flexibilização em suas regras.

Neste sentido, conforme determina a CLT, os requisitos para a


caracterização do vínculo empregatício são: serviço prestado por
pessoa física, pessoalidade, não eventualidade, subordinação e
onerosidade.

A prestação do serviço por pessoa física é entendida pela


doutrina de Delgado por se entender que o trabalhador é sempre
pessoa natural.

A subordinação é ente ndida como obrigação natural do


empregado, afirma Delgado em sua obra Curso de Direito do Trabalho,
2009 que a subordinação deriva de sub (baixo) e ordinare (ordenar),
portanto, uma relação de hierarquia, posições ou valores.

A habitualidade se caracteriza como obrigação mínima de


permanência, onde o trabalho não precisa ser executado todos os dias,
mas, a atividade deve se repetir junto ao tomador de serviços para ser
considerada habitual.

O elemento da pessoalidade apresenta que o trabalho pode ser


realizado pela pessoa contratada, não podendo ser substituída por
16

outra, e o elemento da onerosidade se caracteriza sob a


contraprestação recebida pelos serviços contratados e executados.

Portanto, é considerado vínculo de emprego a relação entre


empregado e emp regador, cuja relação seja realizada por uma pessoa
física em favor a uma jurídica, pessoalmente, ou seja, somente ela
pode prestar o serviço contratado, de forma constante sob
subordinação e que tenha um pagamento.

Lado outro, a doutrina de Maurício Delga do Godinho explica ainda


que a relação de trabalho é um gênero e refere -se as relações jurídicas
que colocam o labor como objeto, ou seja, como prestação de serviço
ou prestação de obrigação mediante o recebimento, vejamos:

Refere-se, pois, a toda modalidade de contratação de trabalho


humano modernamente admissível. A expressão relação de
trabalho englobaria, desse modo, a relação de emprego, a relação
de trabalho autônomo, a relação de trabalho eventual, de trabalho
avulso e outras modalidades de pactuação de prestação de labor
(como trabalho de estágio, etc.). Traduz, portanto, o gênero a que
se acomodam todas as formas de pactuação de prestação de
trabalho existentes no mundo jurídico atual. [...] (DELGADO, 2009,
pág. 270).

Nesta toada, a tecnologia se fa z presente como aliada, porém, as


limitações necessárias à sua participação na sociedade devem ser
pautadas na proteção dos direitos fundamentais.

Atualmente com o crescimento das relações trabalhistas por meio


de aplicativos e a informalidade, trazem para o cenário jurídico
trabalhista grandes preocupações, pois, a interação da tecnologia é
tamanha que se dificulta a limitação entre as relações ditas como
virtuais e as que fazem parte de uma relação de emprego.

Portanto, de acordo com a CLT, a relação de emprego se


caracteriza sendo um relacionamento contra prestativo entre
17

empregador e empregado num ambiente jus -laboral, que ao se


desenvolver gera direitos e obrigações.

6. DOS REQUISITOS PARA CARACTERIZAÇÃO DO VÍNCULO


EMPREGATÍCIO PREVISTOS NA CLT.

Conforme descrito no artigo 3º da CLT, para ser configurado o


vínculo de emprego se faz necessário estarem presentes os seguintes
requisitos: ser uma pessoa f ísica, pessoalidade, não eventualidade,
onerosidade e subordinação.

A pessoalidade é descrita como um requ isito a ser analisado por


dois parâmetros: a visão do empregado e a visão do empregador.

Quanto a visão do empregado, a pessoalidade é vislumbrada


durante a relação de emprego desde sua constituição até seu término

O primeiro fator exigido para a configuração de vínculo de


emprego é que o trabalho seja executado por uma pessoa natural, ou
seja, vedado que uma pessoa física preste serviços com CNPJ.

Logo, o trabalhador será caracterizado sendo uma pessoa


física/natural.

Posteriormente o segundo fator é a configuração ao requ isito da


pessoalidade. Ou seja, a prestação do serviço será realizada
exclusivamente por quem foi contratado para o executar.

Segundo Mauricio Godinho em sua doutrina Curso de Direito do


Trabalho:

É es s e nc ia l à c onf ig ur aç ã o da r e l aç ã o de e m preg o q u e
a pr es t aç ã o d o tra b a l ho , p el a p es s oa n a tu ra l, t en h a
ef et i v o c ar át er d e in f un gi b i l id a de , n o qu e ta n g e ao
tr a b al h a dor . A r e laç ão j urí d ic a pac t ua d a – ou a
18

ef et i v am ent e c um pri da – d e ve s er , d es s e m o do , in tu i tu
per s o n ae c om res p e it o ao pr es t a dor d e s er v iç os , q ue
nã o po d erá , a s s im , f a ze r - s e s u bs t it u ir
i nt er m it en tem e nt e p or ou tr o tr a ba l h ad or ao l on g o d a
c onc r e ti za ç ã o d os s e rv iç os pac tu a dos ”. ( DE LG A DO ,
20 0 8, p á g. 2 9 2.) .

O entendimento casa com a jurisprudência onde se reconhece


que a configuração do vínculo de emprego se dá diante e tipificação de
todos os requisitos do artigo 3º da CLT (TRT 15ª R. - Proc. 27515/03 -
(2053/04) - 2ª T. - Rel. Juiz José Pitas - DOESP 06.02.2004 - p. 60).

Portanto, se não houver o requisito da pessoalidade, não se


classifica a relação de emp rego, pois, o trabalho dever á ser exercido
por quem foi contratado.

No caso da Uber, a serviço deve ser prestado por uma pessoa


física e é exigido que o motorista inscrito no aplicativo seja o mesmo a
prestar o serviço, ou poderá ocorrer seu descredenciamento da
plataforma.

Existe, porém, uma forma de se descaracteriza r este requisito ao


efetuar a contrataç ão de uma pessoa f ísica, porém, mediante a
vinculação do documento de pessoa jur ídica (CNPJ). Esta pratica é
comum, porém, ilegal.

A não eventualidade trata -se de elemento que se caracteriza pela


prestação de serviço de forma contínua, portanto, se exige uma
regularidade no exercício laboral.

Ao se tratar do requisito da não eventualidade é importante olhar,


não para a quantidade de tempo trabalhado de forma contínua, mas
para a ininterruptividade. Desta forma, precisamos diferenciar
continuidade de ininterrupção, pois, o emprego existe mesmo com o
contrato suspenso.
19

O elemento da onerosidade surge como a obrigação da


contraprestação, onde o empregado receberá do empregador valor pelo
trabalho prestado.

Onerosidade é o elemento do salário mediante pre stação de


serviço. Ou seja, o trabalhador coloca sua força de trabalho à
disposição do empregador mediante um pagamento.

Por último, porém, não de menor importância, tem -se o fator da


subordinação que é tido como elemento essencial para a
caracterização da relação de trabalho e emprego.

Na CLT não há conceito para conceituar a subordinação, porém, a


doutrina de Delgado a descreve como sendo um fenômeno jurídico,
derivado do contrato estabelecido entre trabalhador e tomador de
serviço. (DELGADO, 2007). Portanto a subordinação é o elo de ligação
entre empregado e empregador sob o qual o empregado está sujeito as
demandas determinadas pelo empregador.

A subordinação está no artigo 3º da CLT ilustrada pela


denominação: dependência e tem como finalidade ilustrar a
vulnerabilidade do trabalhador diante a relaç ão de trabalho.

A ilustre professora Ana Frazão (2016) aponta que, dentre os


inúmeros aspectos explorados para justificar a consequente existência
de vínculo de emprego entre motoristas e Uber, encontram -se os
seguintes fatos: existe um recruta mento e uma entrevista feita pela
empresa Uber para cadastrar seus motoristas parceiros e ; a Uber
controla as suas informações pessoais uma vez que para se cadastrar
no aplicativo é obrigatório mandar foto da carteira de motorista ,; a Uber
também exige que motoristas aceitem viagens e/ou não cancelem
viagens, assegurando a eficácia desta exigência por meio da
desconexão dos motorista s que violarem tais obrigações e é a empresa
20

quem determina a rota padrão, fixando a tarifa conforme sua forma de


análise do trecho.

Pelo que se vê a Uber impõe inúmeras condições aos motoristas


que variam desde modelo do automóvel até instruções para que o
trabalho seja realizado. Portanto há uma coordenação.

Portanto, a Uber, estabelece regras rígidas aos seus “parceiros” ,


os colocam diante a critérios de avaliação, métodos de vigilância sobre
seu trabalho, ao passo que se exime de responsabilidades e de
exigências que poderiam configurar um vínculo empregatício.

7. A FLEXIBILIZAÇÃO DAS RELAÇÕES DE TRABALHO

Entende-se que as transformações sociais estão intimamente


ligadas as atividades exercidas pelas pessoas físicas e jurídicas e
quando uma pessoa física desprende sua força de trabalho em favor de
uma pessoa jurídica, se estabelece então uma relação de prestação de
serviço.

Em meio a todo regramento, a tecnologia avança e apresenta ao


dia a dia das relações, novas formas de se relacionar, e estas novas
transformações apresentam novos desafios ao Direito Trabalhista
pátrio.

Segundo o sítio eletrônico da empresa, a Uber fornece uma


plataforma sem a qual o tr abalho não pode ser exercido, seu aplicativo
está presente em pelo menos 83 países e possui atividades no Brasil
desde 2014.

Como ramo de atividade a empresa se classifica como sendo uma


empresa de tecnologia e conforme o cadastr o de pessoas jurídicas
21

(CNPJ), a empresa possui o ramo de atividade em desenvolvimento e


licenciamento de programas customizáveis.

A empresa afirma ser uma intermediária na relação entre o


consumidor e o motorista e não uma empresa de transporte ou que
promove o transporte. Esta forma de caracterização da empresa não se
iguala a uma empresa tomadora de serviços, apesar de reconhecer a
relação de consumo existente.

Esta nova forma organizacional aponta para a possibilidade de


uma nova categoria de trabalhado res, onde os motoristas são
denominados “motoristas de aplicativo ”.

O modelo de trabalho proposto pela empresa Uber aos motorista s


que se vinculam na plataforma, gera grande impacto na forma no setor
de transportes no Brasil e no mundo e faz com que as so ciedades se
modifiquem.

Por outro lado, o modelo organizacional aplicado pela empresa


levanta dúvidas e questões quanto a legalidade e regulamentação para
sua atuação. Desta forma, diante de tantas mudanças, o vínculo
empregatício entre empresa e trabalhad ores se vê modificado,
flexibilizado ou até inexistente.

A questão central analisada versa sobre a Uber se beneficiar do


“trabalho” do motorista, ou seja, o aplicativo da empresa depende do
cadastramento dos motoristas para operar e gerar receita e não o
contrário, pois, qualquer motorista pode prestar serviços como
motorista particular e efetuar cobranças de acordo com sua realidade e
dos clientes.

De grosso modo o que se verifica é: os motoristas que se


vinculam a plataforma do aplicativo n ão possuem vínculos trabalhistas,
e isto significa que não possuem direitos trabalhistas resguardados.
22

Sendo assim, diante ao cenário atual de grande desemprego, a


falta de previsões de garantias de emprego e renda impactam
diretamente no mercado brasileiro tanto na cons tituição de renda como
na de formação das empresas.

Com as novas formas de organização, a forma da relação entre o


indivíduo e o trabalho sofre flexibilizações que antes não existiam.

Por ter uma base na forma de economia colaborativa, ou seja, po r


ter a base em questões como a de utilização por compartilhamento, a
Uber se destacou e c riou uma forma própria de gerir sua plataforma.

Todavia, o estudo das relações trabalhistas e suas evoluções,


não podem deixar de ter como base a dignidade do trabalhador.

Se faz necessária uma análise a fim de compreender a


possibilidade ou não do reconhecimento do vínculo empregatício da
forma como o conhecemos atualmente diante estas novas formas
organizacionais e das novas formas de se relacionar com o emprego e
o quanto isto pode impactar a vida cotidiana.

No ano de 2017, o plenário do Senado Federal Brasileiro discutiu


sobre o Projeto de Lei 28/2017, que tinha por objetivo regulamentar o
serviço de transporte por aplicativo no paí s. Tal projeto de lei deu
origem a Lei nº 13.640, de 26 de março de 2018 que regulamentou o
transporte remunerado privado individual de passageiros, nos termos
do inciso XIII do art.5º e do parágrafo único do art.170 da Constituição
Federal, flexibilizando assim a forma de parceria entre aplicativ o e
motorista.

Segundo a doutrina de Roberto Bueno, a flexibilização é


entendida como um conjunto de medidas, que visa compatibilizar a
norma com as transformações. (BUENO, 2001).
23

Analisando por esta ótica a flexibilização se transforma em uma


série de ajustes das normas para que estas compreendam melhor os
casos reais e concretos para se garantir a manutenção das relações
trabalhistas.

O foco da Uber é se desvincular da determinada relação de


trabalho, justamente por não se enquadrar na ideia de não cobrar por
jornadas ou contrato de trabalho.

Desta forma, o modelo de trabalho apresentado confronta com a


realidade de empregos formais, tradicionais, com jornadas
determinadas e contrato pré -formado, apresentando maior liberdade.
Lado outro, tanta flexibilizaç ão deve ser observada com cautela , uma
vez que regras entre particulares não podem ser hierarquicamente
superiores a normas de ordem públicas.

8. A FLEXIBILIZAÇÃO DE REGRAS VS. PRECARIZAÇÃO DO


TRABALHO DIANTE A REFORMA TRABALHISTA DE 2017

A proposta da reforma trabalhista realizada em 2017 e aprovada


pelo então presidente Michel Temer tinha como objetivo a criação de
emprego.

O autor do texto da reforma, o Senador Ricardo Ferraço,


fundamenta a necessidade da reforma para se devido ao Brasil te r um
péssimo cenário para empregabilidade, pois, possui “regras demais”.

Lado outro, a reforma trabalhista , Lei 13.467 de 2017, tornou -se


uma grande aliada a não proteção de direitos trabalhistas, pois,
prejudica questões como o a forma de reconhecimento do vínculo
empregatício, vide seu artigo 442 -B:
24

Ar t . 4 42 - B . A c o n tra t aç ã o d o a ut ôn om o, c um pri das por es t e


to d as as f orm al id a des l eg a is , c om ou s em ex c lus i v i da d e, d e
f or m a c on tí n ua o u n ão , af as ta a q u al i d a de d e em pre g ad o
pr e v is ta no art . 3o des ta C o ns o l i daç ã o. ( BR A SI L , 20 1 7 ) .

Sob o lema de “menos direito mais empregos ” a reforma


trabalhista estabeleceu novas formas de contratos para trabalhadores
autônomos afastando o reconhecimento do vínculo empregatício desta
modalidade, ao passo que abril oportunidade para maior e mais
frequência de fraudes contratuais.

O resultado de toda esta “flexibilização” se dá com a precarização


de inúmeros postos de trabalhos onde o contrato formaliza uma forma
de prestação de serviço e a realidade se mostra outra completamente
diversa.

As modificações realizadas na seara das leis trabalhistas


confrontam com o Princípio da Dignidade Humana.

Segundo o Ministro Luiz Roberto Barroso, a dignidade humana é


um conjunto de valores.

A d i g n id a de da p es s oa h um ana ex pres s a um c onj u nt o d e


v a lor es c i vi l i za t ór i o s inc or po ra d os ao p a tr im ôn io da
hum an i d ad e . O c o nt e úd o j urí d ic o d os pr i nc í p ios v em
as s oc i a do aos di re i t os f u n d am ent a is , e n v o l ve n do as p ec t os
dos d ir e i tos i nd i v i du a is , p o lí t ic os e s oc i ais . Se u n úc le o
m ater ia l e lem e nt ar é c om pos t o do m ínim o e x is t e nc ia l , loc uç ão
qu e i d en t if ic a o c onj u nt o de b e ns e ut i l id a d es bás ic as p ara a
s ubs is tê nc i a f ís ic a e i n d is p e ns á v e l a o d es f rut e d a pr ó pr ia
l ib er d ad e. A q uém d aq u e le p at am ar, a in da q u an d o h aj a
s obr e v i v ênc i a, n ão h á di g n id a de . O e l e nc o de pr es t aç ões qu e
c om põem o m ín im o e x i s t e nc ia l c om por ta v ar iaç ã o c o nf orm e a
v is ão s u bj et i v a d e q ue m o e l ab or e, m as par e c e h a ver r a zo á v e l
c ons e ns o de que in c l ui : r e nd a m ín im a, s a úd e b ás ic a e
ed uc aç ã o f un d am ent a l . H á, a i n da , um el em en t o ins tr um ent a l,
qu e é o ac es s o à j us ti ç a, in d is pe ns á ve l par a a ex i g ib i l i da d e e
ef et i v aç ão d os d ir e it os (B A RR O SO , 2 0 01 , p . 40) .
25

Como forma de proteção ao Trabalhador a Constituição Federal


elenca em seu segundo capítulo os direitos sociais onde busca garantir
a redução das desigualdades sociais com garantia de salário mínimo
nacional, salário família, duração das horas de trabalho não superior a
44 horas semanais entre outros.

Neste sentido, a dignidade da pessoa humana deveria ser a ótica


a ser ilustrada as relações no âmbito trabalhista, entretanto, o que se
visualiza na prática em relações como as de motoristas com a empresa
Uber não é o que ocorre o respeito à dignidade humana do trabalhador.

O contrato firmado entre o motorista e a Uber possui uma relação


que não é classificada como relação de trabalho, não possui garantias
fundamentais e nem trabalhistas.

A sensação prática da questão é de que se criou um estado de


exceção. Ou seja, o que se observa é que com a força da reforma
trabalhista as relações de trabalho e emprego diminuem.

A luz da Constituição Federal de 88, que buscou proteger a


relação de trabalho a fim de barra r abusos e infrações cometidas
contra os trabalhadores tendo como base os valores sociais do
trabalho, a reforma trabalhista de 2017 descaracterizou a relaç ão de
proteção do indivíduo quanto trabalhador.

É importante constar que mesmo sendo de grande importância, a


flexibilização de algumas leis da esfera trabalhista, n ão podem perder
o seu papel no contexto s[ ócio protetiva, devendo a flexibilizaç ão
assegurar dentre outros fatores, a efetividade dos direitos
fundamentais.
26

9. DA POSSIBILIDADE DO RECONHECIMENTO DO
VÍNCULO EMPREGATÍCIO NAS NOVAS TECNOLOGIAS

A configuração do vínculo empregatício no Brasil , diante as novas


tecnologias, enfrenta questões como uma ressignificação dos
elementos clássicos da legislação trabalhista atual.

O mundo está mudando, as relações de trabalho também e isto


insere novas propostas e maiores e novos desafios ao Direito
Trabalhista.

Neste sentido, é importante olhar para as condições fáticas dos


trabalhadores autônomos e/ou empreendedores autônomos em nosso
país.

Este olhar se faz importante devido a vulnerabilidade que estes


indivíduo s estão cada vez mais expostos, pois, tais rel ações com
tamanha vulnerabilidade requer a proteção de garantias expressadas
pela declaração de Direitos Humanos e também pela nossa
Constituição Cidadã.

Garantir boas condições trabalhistas neste novo contexto que


estamos sendo apresentados é importante p ara combater práticas
abusivas e fraudulentas no ambiente trabalhista mascaradas por
contratos atípicos.

Princípios como da onerosidade, subordinação e n ão


eventualidade devem ser olhados de novos prismas e novas distinções
diante as situações fáticas encontradas nas relações de trabalho.

No caso da onerosidade, o valor é retido pela empresa dona do


aplicativo e o valor auferido pelo motorista vai depender da quantidade
de horas de serviços realizados.
27

Analisando os casos fáticos se observa que os motorista s da


Uber ocupam posições de trabalhadores comissionados, pois,
“produzem” para receber uma porcentagem dos ganhos.

Neste contexto, a onerosidade deve ser encarada da intenção do


prestador de serviços de auferir renda e, para isto, oferece sua força
de trabalho. Isto se torna claro uma vez que a Uber retém o valor pago
pelo consumidor e repassa um percentual ao m otorista que realizou a
corrida gerando assim uma contraprestação.

Se observa ainda que as atividades dos motoristas passam pela


mediação do aplica tivo gerando assim um tipo de subordinação com
controle de localização e coleta frequente de dados pessoais.

A questão da não eventualidade é vista pela doutrina de Maurício


Delgado com quatro teorias distintas senso as mais adequadas a teoria
dos fins da empresa e da fixação jurídica.

A teoria dos fins da empresa ilustra que será eventual o


trabalhador convocado a exercer a atividade que não componha a
atividade fim. Neste contexto, a Uber dá a entender que efetua a
conexão entre consumidores e motoristas como sendo a atividade fim,
onde o negócio é a tecnologia.

Sendo assim, se a atividade fim coincide com as atividades


realizadas pelo motorista, resta comprovado o caráter não eventual da
prestação de serviço, possibilitando assim o reconhecimento do víncu lo
empregatício.

O Princípio da Primazia da Realidade, remete ás reais condições


de trabalho e emprego que a população trabalhadora brasileira é
submetida. Este princípio se faz essencial para se estruturar um novo
olhar sobre as novas tecnologias e novas condições de trabalho em
que a população está exposta.
28

Segundo Delgado, (DELGADO, 2018, p. 242) os olhos devem se


voltar para o que realmente acontece no dia a dia do trabalhador e não
para o que foi estipulado em contrato. Desta forma, o reconhecimento
da verdade dos fatos seria considerado pelo Direito Trabalhista e
questões abusivas e contratos fraudulentos seriam combatidos.

Aquele que empreende atividade econômica, assume riscos da


atividade que exerce e isto é distinto de empreender em atividades
autônomas como ser motorista de aplicativo.

O motorista de aplicativo n ão se assemelha ao empregador/


empreendedor, pois, n ão assume os riscos da atividade econ ômica do
negócio. Portanto, configura como empregado, se m o ser.

10. A DIFERENÇA DO UBER E DO TAXI

Apesar de semelhantes, as atividades dos motoristas de


aplicativo como o Uber e os taxistas se distinguem em sua natureza.

O Taxi é regulamentado por lei (lei 12.468/11), que determina que


o transporte individual remunerado de passageiros é atividade privativa
dos taxistas.

Lado outro, aplicativos como o da empresa Uber se assemelha


quanto ao transporte individual de passageiros . E por esta razão,
motoristas cadastrados no aplicativo Uber busquem o reconhecimento
do vínculo empregatício.

A função do taxista, regulamentada pela lei 12.468, exige que


estes profissionais sejam inscritos em órgãos como o INSS como
autônomos e que o ve ículo seja do taxista.

Com o aplicativo Uber, o motorista vai efetuar o transporte de


passageiros mediante contratação individual, p orém, não há exigências
29

de que o carro seja dele e nem que o motorista contribua para o INSS
como trabalhador aut ônomo.

Em comparação aos taxistas, a atividade é semelhante, porém,


não idêntica. Os taxistas possuem legislaç ão própria que estabelece
regras da atividade.

É fato que o crescimento e a popularidade da empresa Uber se da


a natureza disruptiva dos serviços prestados, pois, estes serviços s ão
inovadores no mercado de transporte e tecnologia.

11. O FENÔMENO DA UBERIZAÇÃO

Diferente do imaginado, o fenômeno da uberização não afeta


somente motoristas de aplicativo. Parafraseando Ludmila Costhek
Abilio, a uberização se caracteriza como sendo um novo estágio da
exploração do trabalho.

Em 2016, foi sancionada a lei nº 13.352, conhecida como “ Lei do


Salão Parceiro” que desobriga estabelecimentos de beleza a
reconhecerem o vínculo e mpregatício dos profissionais das áreas de
manicure, depiladores, barbeiros, maquiadores, entre outros.

Por esta lei, o salão disponibiliza a infraestrutura para que


parceiros autônomos realizem seu trabalho fazendo com que estes
profissionais saiam da esf era de empregados para prestadores de
serviços sem vínculo e direitos trabalhistas.

Vemos então um novo fenômeno ocorrendo no mercado de


trabalho; um fenômeno que passa o trabalhador de empregado para um
tipo de empreendedor e ao mesmo tempo que se retiram as garantias
do vínculo empregatício, passa ao profissional a responsabilidade para
arcar com o recolhimento de seus impostos e Fundo de Garantia por
Tempo de Serviço (FGTS).
30

Entretanto, o que se vê na prática são trabalhadores sem


garantias mínimas ao pa sso que se mantém a subordinação e a
hierarquia. O maior exemplo deste fenômeno é o que acontece com os
trabalhadores que efetuam entregas de alimentos que ganham por
entrega feita, muitas vezes usando bicicletas sem nenhuma proteção,
desbravando os trânsi tos das mais diferentes cidades do mundo.

A Uber abriu uma porta onde coloca o mercado de trabalho em


um novo patamar, diante de questões de qualidade de emprego,
desenvolvimento, mobilidade urbana, legislações pouco flexíveis e uma
necessidade urgente de se estudar como isso tudo converge ao mesmo
tempo.

A uberização traz empresas que por meio de aplicativos e


plataformas on line conectam consumidores e trabalhadores onde as
formas de controle do trabalho se relativizam .

É fato que a Uber e empresas simila res realizam uma ponte entre
os clientes e os prestadores de serviço, entretanto, é importante se
analisar que não se trata de uma relação direta entre o cliente e seu
prestador de serviço, mas sim uma relação triangular (motorista -Uber-
cliente) com finalidade de lucro, acima de tudo do aplicativo.

No Brasil, tal fenômeno acaba por empurrar cada vez mais


trabalhadores para a informalidade e consequentemente a riscos ao
passo que empresas cada vez maiores arrecadam porcentagens sobre
o trabalho alheio por se caracterizarem como somente como
mediadoras entre relações de consumidores e prestadores de serviços.

Sobre o tema, a pesquisadora e escritora de Havard, Jill Lepore


traduz a atual realidade vivenciada afirmando que “os efeitos colaterais
dos novos modelo s de negócios muitas vezes provocam, por
despreparo do ecossistema corporativo, a falência de empresas
tradicionais, a demissão em massa e a precarização do mercado de
31

trabalho. ” (LEPORE, Apud KZAN. Disponível em


<[Link] -o-que-e-para-que-serve-e
como-funciona. Acesso em 22/10/2020 ).

De acordo com site “Santander Negócios e Empresas”, a


economia compartilhada, marcada pela “uberização”, é uma saída para
a crise (SANTANDER, 2016) .

A sensação que paira é que a informalidade ga nha novo viés, um


viés legalizado onde é legalmente aceitável trabalhadores realizarem
cada vez mais trabalhos degradantes sem manutenção de garantias
mínimas, o ser humano se submete aos trabalhos mais degradantes
que existem, pelo estado psicológico de n ecessidade.

Sendo assim, mediante a oscilação econômica, muitos aderem a


essa forma de emprego, para garantia do sustento e abre -se mão dos
direitos trabalhistas, uma vez que o que se denomina de economia
compartilhada nada mais é do que o fato de a Uber, arrecadar uma
porcentagem do valor pago pelo cliente a cada viagem feita em um
carro que não lhe pertence, conduzido por alguém que não é
regulamentado como seu funcionário e que assume sozinho o risco da
atividade.

Diante de tal incongruência, o mercado brasileiro se aprofunda da


crise econômica, sem promover uma ampliação de direitos sociais.
Vemos diariamente o fenômeno do empreendedorismo se tornando uma
demanda de mercado de trabalho, onde não existem mais
trabalhadores, mas sim microempreendedores.

Desta forma, plataformas como a Uber conquistam cada vez mais


espaço. O fenômeno da uberização é algo que vem tomando cada vez
mais o contexto das relações trabalhista.
32

Uma boa opção para que se regulamente tais questões esbarram


em situações como a imposiçã o de se fixar contratos de trabalho de
modalidades distintas das que conhecemos hoje.

Entretanto, é de se atentar que as imposições de novas formas


contratuais poderiam descaracterizar as atividades realizadas via
aplicativo e assim desencorajar empresas como a Uber de operar no
país.

É importante observar que há um conflito de interesses entre


fornecedores de serviços, plataformas digitais e consumidores,
entretanto, a forma de não se regulamentar as atividades pode se
tornar algo a longo prazo problemáti co, principalmente em um país com
grande crise econômica e social como o Brasil.

12. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo da análise realizada no presente trabalho se verificou


que apesar de já ter havido reconhecimento do vínculo empregatício
entre os motoristas e a empresa Uber, esta questão foi superada pelo
Superior Tribunal de Justiça ao decidir que o motorista da Uber é um
mero empreendedor indivi dual.

Se analisou também que diante a complexidade das novas


tecnologias nas relações empregatícias nacionais nossa l egislação não
possui ferramentas para regularizar, ou regulamentar plataformas
digitais como a Uber no território nacional.

Diante disso, apesar da controvérsia em torno do tema, se


constatou que a Uber opera legalmente em nosso país.
33

A luz do Princípio da Dignidade Humana, percebe -se que a


relação de trabalho entre a Uber e seus motoristas é bem mais e maior
que simplesmente uma forma de empreendedorismo individual.

Lado outro, conforme se verifica pelo mundo, a imposição de


reconhecimento mesmo que por vi as de um contrato eventual de
trabalho poderia ser causador da saída da Uber do mercado e isto
geraria ainda mais miserabilidade e pobreza e um grande impacto na
forma de transporte urbano das cidades.

O trabalho em tela busca levar a reflexão sobre o papel da


tecnologia nas relações de trabalho. Desta for ma, consta evidente que
existe a necessidade de se repensar as formas de trabalho previamente
estabelecidas diante a evolução tecnológica da sociedade ponderando
a Dignidade da Pessoa Humana.

A situação atual do Brasil, diante de crises econômicas e sociai s


e atualmente sanitária movida por conta da pandemia de COVID -19,
escancara que a flexibilização exacerbada de direitos não apresentou e
não apresenta os resultados prometidos, ou esperados.

O momento atual passa uma sensação de que a informalidade


atinge um viés de legalidade, onde tudo é aceito, porém, nada é
seguro, onde é legalmente aceitável trabalhadores realizarem cada ve z
mais trabalhos degradantes sem manutenção de garantias mínimas, o
ser humano se submete aos trabalhos mais degradantes que exis tem,
pelo estado psicológico de necessidade.

Nas decisões favo ráveis da Justiça Trabalhista para o


reconhecimento do v ínculo empregatício entre os motoristas e a Uber,
se vislumbra que h á possibilidade de se reconhecer o elemen to da
pessoalidade entre as partes , uma vez que os motoristas passam por
seleção para serem escolhidos e n ão poder ser substituídos por outra
pessoa. Se reconheceu tamb ém o requisito da onerosidade, pois, a
34

dinâmica da divisão dos lucros entre a empresa Uber e o motorista se


assemelham a contratos comissionados.

A subordinação foi auferida uma vez que os motoristas s ão


treinados pela plataforma para melhor pre star o serviço de transporte e
são sujeitos a recebe r sanções e punições como serem desvinculados
da plataforma, caso n ão cumpridas exigências.

A questão da eventualidade gerou maiores controversas, pois, o


motorista do aplicativo pode escolher em quais per íodos deseja
trabalhar, entretanto, caso cancelem corridas, podem ser punidos.

A grande questão levantada sobre a Uber é se ela realmente é


uma empresa de tecnologia facilitadora ou se trata realmente de uma
empresa de transporte de passageiros que atua de forma mais modern a
na exploração de mão de obra e que nossas leis ainda não se
prepararam para entender .

Atualmente nossa legislação somente consegue alcançar o


reconhecimento do v ínculo de trabalho para aqueles trabalhadores que
se enquadram nos requisitos da pessoalidade, on erosidade,
eventualidade e subordinação elencados na CLT, e, no caso da
empresa Uber, apesar de ser altamente semelhante, os requisitos n ão
encontram sustentação expressiva a fim de garantir o vínculo de
emprego entre os motoristas e a empresa.
35

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