AlessandraLC ART
AlessandraLC ART
COMUNIDADE SURDA
RESUMO
Esse trabalho tem como objetivo analisar a obra O Feijãozinho Surdo como patrimônio cultural
literário da comunidade surda, investigando sua importância na valorização da identidade surda,
na preservação da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e na promoção da representatividade
cultural e educacional da comunidade surda. Compreender quais são os aspectos que envolvem
essas literaturas, entre eles, a cultura a identidade surda, o uso da língua de sinais e a experiência
visual. Dessa forma, o presente artigo pesquisou a Literatura Surda e a Literatura Visual. Se
baseou no livro de Rachel Sutton-Spence (2021), Literatura em Libras. Além de outros autores
como Karnopp (2006), Redalyc (2023), Brasil escola (2024), Coelho (1997), Bahan (2006) e
vários outros. Baseado nesse estudo, se percebeu que a literatura Surda e a Literatura Visual estão
envolvidas em aspectos da cultura, da identidade e da comunidade surda. Constata-se ainda que a
Literatura Surda abrange aspectos fundamentais da comunidade, da identidade e da cultura surda.
Fortalecendo a comunidade ao promover vida, convívio, autonomia, e à medida que fomenta a
luta por direitos e pela participação ativa na sociedade, contribuindo de forma significativa para o
desenvolvimento cognitivo e linguístico da comunidade, ao se proporcionar o contato com suas
próprias histórias, tradições e valores.
ABSTRACT
This paper aims to analyze the work O Feijãozinho Surdo (The Deaf Little Bean) as a literary
cultural heritage of the deaf community. It investigates its importance in valuing deaf identity,
preserving Brazilian Sign Language (Libras), and promoting the cultural and educational
representation of the deaf community. The work seeks to understand the aspects involved in this
literature, including deaf culture and identity, the use of sign language, and the visual experience.
This article, therefore, researched Deaf Literature and Visual Literature. It was based on Rachel
Sutton-Spence's book (2021), Literatura em Libras, in addition to other authors such as Karnopp
(2006), Redalyc (2023), Brasil escola (2024), Coelho (1997), and Bahan (2006), among others.
Based on this study, it was found that Deaf Literature and Visual Literature are involved in
1
Discente do Curso de Especialização em Atendimento Educacional Especializado da Universidade
Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA). E-mail: [Link]@[Link].
2
Professor/Mestre do Curso de Licenciatura em Letras Libras da Universidade Federal Rural do
Semi-Árido (UFERSA). E-mail: [Link]@[Link].
aspects of the culture, identity, and community of deaf people. It also concludes that Deaf
Literature encompasses fundamental aspects of the deaf community, identity, and culture. It
strengthens the community by promoting life, coexistence, and autonomy, and by fostering the
struggle for rights and active participation in society. It also contributes significantly to the
cognitive and linguistic development of the community by providing contact with their own
stories, traditions, and values.
1 INTRODUÇÃO
Pode-se observar que a literatura em suas várias formas e expressões, faz parte de um dos
mais relevantes patrimônios culturais da humanidade. Assim, engloba diferentes modos de vida,
valores, crenças e identidades, o que contribui para a preservação e transmissão de saberes que
permeiam ao longo do tempo.
No que se refere ao contexto da comunidade surda, surge a literatura surda, que se
caracteriza por produções artísticas e narrativas que são criadas por pessoas surdas, para pessoas
surdas, e que se utiliza, predominantemente, a Língua de Sinais - Libras - como meio de
comunicação. Conforme destaca Felício (2014, p.31), “As comunidades surdas têm produzido
literatura com objetivo de se ver e se mostrar em suas peculiaridades culturais, suas vivências,
suas aspirações, desejos, sonhos e sentimentos” Salienta-se que estudar a literatura surda vai além
do campo literário, mas também nas esferas educacionais, sociais e políticas, pois tais produções
ratificam o reconhecimento da Língua de Sinais, além de incentivar práticas inclusivas que
contribuem no combate ao preconceito.
Nesse viés, além da compreensão das manifestações culturais e literárias na comunidade
surda, faz-se necessário compreender como um aspecto da diversidade cultural brasileira. Dentro
dessa perspectiva, esse trabalho tem como base a análise da obra em Libras: O feijãozinho Surdo,
em que têm aborda questões identitárias, culturais, e educacionais, como também a importância
de escolas bilíngues para o desenvolvimento educacional e a inclusão dos surdos na sociedade e o
reconhecimento do ser surdo.
Portanto, o presente artigo tem como objetivo analisar a obra O Feijãozinho Surdo como
patrimônio cultural literário da comunidade surda, investigando sua importância na valorização
da identidade surda, na preservação da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e na promoção da
representatividade cultural e educacional da comunidade surda.
Com isso, trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, com caráter bibliográfico,
fundamentada em autores como Coelho (1997), Goldfeld (1997), Reily (2004), Bahan (2006),
Kaneko (2016), Sutton-Spence (2021), entre outros. Tal escolha ocorreu para que se interprete e
compreenda os elementos simbólicos e culturais presentes na literatura surda, em que se
reconhece a contribuição para a valorização e preservação da identidade surda.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Inicialmente, é preciso entendermos o que significa literatura, que de acordo com o portal
Brasil Escola (2024), a literatura é um reflexo dos valores, das crenças e do imaginário de uma
sociedade, sendo uma das formas mais antigas de registro cultural e transmissão de
conhecimentos. É representada por meio de desenhos, sons, ideias, emoções e histórias, além
disso, trabalha com os sentidos e símbolos diversos. Nem sempre representa a realidade, pois
envolve diversão, imaginação, reflexão, emoções, criatividade e o mais importante é que ela
afirma a identidade de um povo e valoriza a tradição.
Para Coelho (1997) a literatura é uma área de conhecimento de suma importância para a
formação e desenvolvimento humano, não somente pela gratuidade e entretenimento que a ficção
proporciona, mas por possibilitar aos leitores refletirem, porque vivenciam situações que são da
ficção, mas que tem inspiração na condição humana, isto é, é na vida real das pessoas que os
autores recontam essas experiências, ora valendo-se apenas do realismo cotidiano, ora do mundo
maravilhoso e fantástico.
A literatura está relacionada com aspectos culturais, pois envolve a transmissão de
valores, de tradições, de conhecimentos e experiência de um povo. Tem relação com os aspectos
políticos e sociais por mostrar os problemas da sociedade, por criticar, por ironizar, além
de contribuir com a compressão da realidade. Ressalta-se que estudos publicados na Redalyc
(2023) reforçam o papel da literatura como artefato de expressão da cultura e identidade de
grupos historicamente marginalizados.
Já no aspecto religioso essa relação está nas narrações que contam a origem das pessoas,
influenciado no desenvolvimento da cultura, da identidade e na compreensão do mundo. Segundo
Sutton-Spence e Kaneko (2016. p. 24), dizem que “a literatura é qualquer corpo de produções
baseado na linguagem que é considerado socialmente, historicamente, religiosamente,
culturalmente e linguísticamente importante para a comunidade”. Por isso, a literatura está para
além da simples comunicação em textos orais ou escritos. Ela influencia a realidade e transmite
conhecimentos, valores, ideias e críticas, se apresentando em várias formas de expressão
linguísticas que seja importante para a comunidade.
A literatura é muito mais que uma simples criação linguística e não pode se resumir
somente às obras de autores consagrados, como Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Raul
Pompéia, Castro Alves, entre outros. Muitos desses escritores, já falecidos, possuem papel
importante na contribuição de poesias, contos, romances e histórias infantis que marcaram a
história da literatura brasileira. Salienta-se que a literatura trabalhada nas escolas, geralmente
voltada para fins formais e inserida no currículo, o que é diferente daquela lida por prazer ou
entretenimento, sem objetivos acadêmicos. Para Sutton-Spence (2021, p. 24), essas obras também
fazem parte da literatura. Contudo, defende-se que ela não se limita ao uso acadêmico ou formal
— a literatura também pode ser informal e voltada ao lazer, desempenhando um papel essencial
na formação cultural e emocional dos leitores.
A literatura se divide em três grupos: O grupo das narrativas, que é a contação de
histórias, as novelas, as crônicas, o conto, o romance e a fábula. O grupo dos líricos que são as
poesias, que expressam sentimentos e por fim o grupo dramático que está relacionado ao teatro.
Mas há tantas outras formas de literatura como as letras de músicas, as danças, os cordéis, as
histórias em quadrinhos, a literatura surda, alguns até soam estranhos como exemplos de
literatura, mas Sutton Spence (2021. p.25) cita que “cada gênero foi julgado por determinados
grupos de brasileiros como uma forma válida de se usar a linguagem criativa para gerar emoções
no público”. Por isso seu conceito está para além de se comunicar, envolve sentir prazer.
A autora supracitada (2021. p. 25) cita que “Tratamos a literatura como um artefato ou
evento linguístico não cotidiano, que vai além de simplesmente comunicar. O importante na
literatura é o uso da linguagem com o principal objetivo de proporcionar prazer, de maneira que
sua estrutura se destaque”. Esse conceito de prazer está relacionado com o conceito de estética,
isso significa que é algo belo, aprazível, agradável e divertido.
Diante de todos esses exemplos de literatura entende-se que a sua definição não é estática,
nota-se como a forma da literatura mudou e está em constante mudança, a partir do momento em
que ela envolve a história de um povo, seus costumes e tradições. Sutton Spence (2021. p. 25)
ainda relata que “Desde o modernismo, alguns poetas inovaram muito o modo de fazer poesia,
associando elementos fortemente visuais, utilizando recursos das linguagens dos meios de
comunicação de massa e buscando abolir a utilização do verso tradicional, por exemplo nos
poemas concretos”. É possível notar essa mudança não só na poesia, mas em todos as formas de
literaturas, exemplo disso são as letras de músicas como o funk, o sertanejo, o pagode, as músicas
eruditas, e tantas outras que são representações da cultura e identidade de um grupo que está
vinculado a literatura.
Conforme destaca o portal Brasil Escola (2024, n.p), “a Libras é a principal forma de
comunicação e expressão da comunidade surda no Brasil, sendo reconhecida como meio legal e
legítimo.” Trata-se de uma produção literária que envolve o uso da língua Brasileira de Sinais, a
identidade e cultura surda, pois relata a experiência de vida dessas pessoas que são escritas ou
narradas na língua materna, no caso a Libras. Segundo Karnopp (2008, p.14-15) a literatura
surda está relacionada com a cultura surda, contada na língua de sinais de determinada
comunidade linguística, é constituída pelas histórias produzidas em língua de sinais pelas pessoas
surdas, pelas histórias de vida que frequentemente relatadas, pelos contos, lendas, fábulas, piadas,
poemas sinalizados, anedotas, jogos de linguagem e muito mais. Desse modo, a literatura surda
também transmite conhecimentos e cultura, além de proporcionar interação e comunicação.
A literatura surda proporciona diversão e distração, mas também trata de temas
importantes para a comunidade surda. A ideia de literatura surda é aplaudir e sentir prazer em
assistir. Sutton Spence (2021, p.25) cita que foi “a partir do século XVI, surgiu a noção de que,
entre todos os gêneros de texto, a literatura é que tem o prazer como o principal objetivo”, porém
é preciso lembrar que também está ligada ao ensino. Ela continua sua fala citado que “Hoje, as
noções de literatura e prazer são intimamente ligadas, mas há uma certa ironia quando a maneira
de estudar a literatura se desvincula do prazer”, isso acontece por ela proporcionar o uso da
imaginação e da criatividade, ou seja, a participação do mundo imaginário.
O que a difere das outras literaturas é o fato de a literatura surda não ter sido traduzida
para a língua oral, ser visual, usar as expressões faciais e corporais, segundo Rachel (2021, p. 26),
a literatura surda original da Libras, não foi traduzida da literatura das línguas orais para língua
de sinais. Ela foca em mostrar a experiência de vida das pessoas surdas e a realidade dessa
comunidade. A literatura surda resgata “A memória das vivências surdas através das várias
gerações dos povos surdos” (Rosa, 2006, p. 61). Esse resgate leva a valorização, a afirmação da
identidade surda, a inclusão ao permitir que os surdos interajam entre eles e com os ouvintes,
além da propagação dessa arte chamada literatura surda.
Portanto, a literatura surda surgiu dentro das escolas de surdos. Bahan (2006) menciona
registros da trajetória histórica da literatura surda, passando por internatos e escolas de surdos,
nas quais os surdos mais velhos contavam histórias para os mais novos. Nesses momentos e
nesse ambiente criado por eles contaram e recontaram narrativas, piadas, histórias e
experiências de vida e vários gêneros literários da sua comunidade. Essa prática está em acordo
com o que defendia Emille Durkheim que “a educação é a ação exercida pelas gerações adultas
sobre aquelas que ainda não estão maduras para a vida social” (Durkheim, 2012. p. 53-54).
Acontecia desse modo, pois a língua de sinais era proibida nas escolas, sendo assim não havia o
reconhecimento da cultura e identidade surda. Segundo afirma Karnoop (2008), “o ensino
priorizava o aprendizado da fala e da língua portuguesa. Nas escolas, não havia espaço nem
aceitação para as produções literárias em sinais”. E por isso que não se há registros dessas
histórias. Foi só com o surgimento da Língua de Sinais no século XIX, que esse processo começa
a mudar, nessa história marcada por desrespeito, preconceito e exclusão.
Segundo Goldfeld (1997) apud Araujo et al. (2015, p. 01), os surdos eram tratados com
piedade e vistos como pessoas castigadas pelos deuses, sendo abandonados ou sacrificados. A
surdez e a consequente mudez eram confundidas com uma inferioridade de inteligência. E até o
século quinze foi visto como uma pessoa primitiva que não poderia ser educada.
Outro fato que também prejudica a literatura surda é que nem todo surdo participa da
comunidade surda, pois nem todos se aceitam e se reconhecem como surdos, por viverem no
ambiente dos ouvintes muitos encontram essa dificuldade de reconhecimento de sua identidade
surda. Na realidade eles vivem no mundo dos ouvintes, trabalham com os ouvintes, muitas vezes
em sua maioria são os únicos surdos na família. Logo, Doron e Parot, (2001), mencionam que “a
identidade implica o processo de consciência de si próprio, sendo que esta ocorre por meio de
relações intersubjetivas, de comunicações linguísticas e experiências sociais, tornando-se um
processo ativo”. Mas entre os que não encontram dificuldades de aceitação, eles conseguem se
encontrar dentro de associações e até mesmo dentro das escolas, apesar de pouco tempo juntos,
nada os impede de trocarem experiências de vida, contar histórias, poemas e piadas e criarem sua
própria cultura, identidade e literatura.
A partir de ambientes socializadores que os surdos se divertem e se reconhecem como
surdo e usuários da língua de sinais. Para Alves e Karnopp (2003) os surdos reúnem-se
frequentemente para contar histórias e, entre as preferidas, estão às histórias de vida, as piadas e
aquelas que incluem elementos da cultura surda, com personagens surdos, com tramas que, em
geral, envolvem as diferenças entre o mundo surdo e o ouvinte. Essa troca de informações e
ideias fortalece a comunidade surda, a cultura surda, a identidade surda e o mundo visual ao qual
eles pertencem. Assim como os ouvintes, eles gostam de se reunirem e é nesse momento que eles
se reconhecem como surdos e compartilham a língua de sinais, assim como citam Kile e Woll,
(1985, p. 21), “Eu sou uma pessoa surda e desejo estar em contato com outras pessoas que
compartilham minha língua”. Isso significa que ao se reconhecer como uma pessoa surda haverá
mudanças de posturas e comportamentos, valorização e empoderamento da cultura surda, além da
aceitação do que é diferente e do que faz parte dessa comunidade.
Ademias, com o tempo isso foi mudando, como citado anteriormente, foi com o
surgimento da Língua de Sinais, com o pioneirismo do professor francês Charles-Michel de
L’Épée, responsável por criar um alfabeto de sinais para ensinar seus alunos surdos, no ano de
1755, por esse feito e também por se dedicar à educação de surdos, recebeu o nome de “pai dos
surdos”. Segundo Reily (2004, p. 116) “A iniciativa de L’Épée revolucionou as possibilidades de
educação, comunicação, interação e cidadania para os surdos, um grupo que se encontrava
marginalizado e excluído até então.” Logo, no ano de 1755, a Língua de Sinais surgiu, mas foi só
com o reconhecimento dessa língua que a comunidade surda e tudo que se refere a esse grupo
começa a ter notoriedade. A Lei de nº 10.436/2002, cita que a Libras é aceita como um meio de
comunicação e expressão entre surdos, reconhecendo que a Libras possui gramática própria e é a
língua materna das pessoas surdas. O documento, ainda em seu parágrafo único. “Entende-se
como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema
linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema
linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do
Brasil” (Brasil, 2002, n.p). Isso é de fundamental importância, pois permite que as pessoas
surdas, tenham acesso à informação, aos estudos, à vida social, à cultura e ao lazer, ou seja, que
eles possam usufruir dos seus direitos e deveres que estão citados na Constituição Federal de
1988. Além disso, a lei também traz que a Libras precisa ser ensinada na formação de
professores, faculdades e cursos de extensão.
Art. 3º A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos
cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível
médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino,
públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.
§ 1º Todos os cursos de licenciatura, nas diferentes áreas do conhecimento, o
curso normal de nível médio, o curso normal superior, o curso de Pedagogia e o
curso de Educação Especial são considerados cursos de formação de professores
e profissionais da educação para o exercício do magistério.
§ 2º A Libras constituir-se-á em disciplina curricular optativa nos demais cursos
de educação superior e na educação profissional, a partir de um ano da
publicação deste Decreto. Com isso, libras já passou a ser ensinada nas
faculdades e em cursos diversos, como nos cursos de extensão, nos cursos de
formação continuada e nos de curta duração (Brasil, 2002, n.p).
Foram esses recursos de multimídia que permitiram que a literatura surda pudesse ter
mais registros de suas obras. Por ser a libras uma língua visual- gestual para registrá-la é preciso
fazer imagens, vídeos, filmagens, gravações em fitas de VHS, CD, DVD. Há também registros,
que mesmo em poucas quantidades, na escrita de sinais SignWriting. Sutton-Spence (2021), cita
em seu livro Literatura em Libras, “a literatura surda em língua de sinais não se desenvolve
somente na modalidade sinalizada. Existem alguns exemplos de Literatura em Libras Escrita,
especialmente, e atualmente, em SigWriting”. Essa escrita que permite ler e escrever sem precisar
de tradução para uma língua oral, vem ganhando espaço gradualmente, e se tornando uma forma
de registrar essas obras. São exemplos de textos originais em Línguas de Sinais que já estão na
escrita de SignWriting, a história Onze histórias e um segredo - desvendado as lendas
amazônicas, em que apresenta origem nas lendas indígenas e foi escrito por Taísa
Sales. Conforme Marquezi (2019), “esse sistema já foi usado para as histórias infantojuvenis
traduzidas ou adaptadas por razões didáticas”. Essas razões didáticas se relacionam com a
aprendizagem eficaz, pois torna o texto visual, assim como simplifica a linguagem e ajusta o
material de acordo com a necessidade do estudante. Além disso, as histórias mexem com o
imaginário das crianças, despertam a criatividade e o desenvolvimento cognitivo. A contação de
histórias torna-se mais prazerosa quando está de acordo com a cultura das crianças, por isso a
necessidade de ser em língua de Sinais, respeitando a cultura e a identidade surda. Consoante ao
exposto anteriormente, Oliveira (2016, p. 7), cita que “[...] em contato com crianças surdas em
sala de aula podemos observar o quanto elas se interessam pelos contos infantis e em especial os
próprios da sua cultura”. Exemplo de um livro bilíngue, que é escrito em português e Libras, é o
Cinderela Surda, de acordo com Silveira, Karnopp e Rosa (Silveira; Karnopp; Rosa, 2003).
Diante dos fatos tratados, pode-se observar que a literatura surda está vinculada à
questão da identidade e da cultura surda, não é algo estático, pelo contrário, está passando por
transformações constantemente. Expressa as experiências de vidas, a cultura e a identidade das
pessoas surdas, assim como as lutas e conquistas por meio da língua de sinais. Para Mianes,
Muller e Furtado (2011), a literatura surda [...] pode ser compreendida como uma das formas
utilizadas pelos sujeitos surdos para transmitirem sua(s) cultura(s). Por meio dela, eles registram
suas histórias de vida, suas lutas e as conquistas das comunidades surdas ao longo dos anos,
produções que são (re)criadas de uma geração para a outra, também relatam dificuldades,
desejos, práticas de sua comunidade e percepções acerca do mundo; e, a partir disso,
posicionam-se e manifestam-se politicamente. Além disso, produz-se humor e prazer estético,
mergulhando em um universo imaginativo que, nem por isso, deixa de estar relacionado às suas
experiências e à circulação das produções culturais surdas em diferentes culturas.
O estudo iniciará pela história, logo após será realizada a análise da obra: O
feijãozinho Surdo, de Kuchenbecker, (2009). A obra destina-se ao público infantil e faz parte da
criação da literatura surda. A obra foi escrita e ilustrada por Liêge Gemelli Kuchembecker. A
tradução para a escrita de sinais foi realizada por Erika Vanessa de Lima Silva e Ana Paula
Gomes Lara. Trata-se de um livro ilustrado, com muitas cores, que utiliza língua de sinais escrita
e a Língua Portuguesa. Para Bakhtin (2019), cultura não pode ser fechada como algo pronto e
acabado, mas sim, é tida como uma unidade aberta. A cultura se arma como o lugar de concepção
do eu na interação com o outro, ou seja, o lugar de pensar, de ser pensado e interagir entre o eu, o
outro e a cultura (Pajeú; Miotello, 2018). Aprender sobre a cultura é saber como se organizam
socialmente, como pensam, interagem com o mundo, além de entender a identidade deles.
Figura 01 - Capa do livro
A fada também sai em busca de uma escola para o feijãozinho, a primeira escola que
ela encontra tem feijõezinhos ouvintes, mas que tinha intérprete de Libras.
Figura 03 - Ilustração da literatura surda - O feijãozinho surdo (Parte II).
A fada resolve continuar sua busca por escolas, e encontra uma escola bilíngue, na qual
todos os estudantes eram surdos e que os professores ensinavam em Língua de Sinais. A fada
volta e conta para os pais e o feijãozinho sobre a novidade.
Além disso, a modalidade é inclusiva, pois ela é visual e vai permitir o acesso a
informações, a interação, a comunicação, auxiliando também no desenvolvimento cognitivo e de
habilidades. Skliar (1997, p. 56), “Já afirmei que ser surdo é pertencer a um mundo de
experiência visual e não auditiva”. O convívio que a inclusão permite nas palavras de Collares é
“[...] um espaço de vida no qual se faz história, que é construída e reconstruída a cada dia. É um
lugar onde se tomam decisões e se constroem um fazer solidário, no qual todos têm o que
aprender e ensinar ao outro” (Collares, 2003, p. 53).
Diante do exposto, fica evidente que a Literatura Surda enfrenta muitos desafios. Desafios
esses que são causados pela falta de reconhecimento que essa comunidade sofre, assim como a
falta reconhecimento da sua língua materna que é a Língua de Sinais, a falta de materiais
acessíveis a esse grupo e a exclusão. Para superar esses desafios envolvem-se ações que vão
desde a formação de professores e intérpretes de Libras para que eles possam ter acesso a uma
educação de qualidade, faz-se necessário também a implementação da Libras como disciplina
escolar em todos os níveis e modalidades de educação. Damázio (2007) cita tanto a importância
da aprendizagem em Libras, como a formação de professores beneficiam estudantes surdos:
[...] é ideal para os alunos com surdez pelo fato de a estrutura, o tipo de
comunicação, os métodos de ensino da língua oral e da escrita serem específicos,
facilitando aos professores a atuação, pois agiliza o trabalho, já que não se
expõem esses alunos ao modelo padrão ouvintista e valoriza-se a igualdade de
condições entre pares, respeitando-se a língua gestual visual, a cultura, a
identidade surda (Damázio, 2007, n.p.)
Além disso, Brito e outros autores (2022) também defendem a importância de Libras
como disciplina nas escolas. “[...] é notória a necessidade de Libras como disciplina curricular”
(Brito et al., 2022, p. 149). Ademais, campanhas de conscientização da sociedade citando a
importância da inclusão, do respeito a esse grupo e da propagação da Língua de Sinais.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esse trabalho teve como objetivo analisar a obra O Feijãozinho Surdo como patrimônio
cultural literário da comunidade surda, investigando sua importância na valorização da identidade
surda, na preservação da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e na promoção da
representatividade cultural e educacional da comunidade surda. Observou-se a relevância da
Literatura Surda para a comunidade surda, uma vez que ela representa a produção de textos
literários em língua de sinais, traduzindo a experiência visual e compreendendo o ser surdo não
como ausência, mas como presença. Essa forma de expressão possibilita novas representações
sobre os surdos e os reconhece como um grupo linguístico e cultural distinto (Kaenopp, 2010).
Desse modo, constata-se que a Literatura Surda abrange aspectos fundamentais da
comunidade, da identidade e da cultura surda. Fortalecendo a comunidade ao promover vida,
convívio, autonomia, e à medida que fomenta a luta por direitos e pela participação ativa na
sociedade. É uma literatura feita por surdos, geralmente membros da comunidade surda, de
acordo com Sutton-Spence (2021). Além disso, compreendeu-se que a Literatura Surda e em
Libras apesar de terem sido, ao longo da história, prejudicadas pela falta de registros, atualmente
o cenário tem se transformado, permitindo à comunidade surda documentar suas obras e construir
seu próprio acervo cultural.
Nota-se ainda, que a Literatura Surda e Visual contribui de forma significativa para o
desenvolvimento cognitivo e linguístico da comunidade, ao se proporcionar o contato com suas
próprias histórias, tradições e valores. Nesse viés, possibilita também que os sujeitos surdos
criem e recriem novas narrativas, reafirmando sua identidade e ampliando suas formas de
expressão. Além do que fortalece a comunidade surda, pois não existe literatura surda em Libras
sem a comunidade surda. Isso se confirmar a citação de Sutton-Spence (2021, p.40) em que “Há
muitos exemplos de literatura surda criada e apresentada nas línguas de sinais e que tem como
características ser feita por surdos, tratar da experiência de ser surdo e do conhecimento da
cultura surda”. Ademais ainda nessa esteira, a literatura em Libras age como um instrumento de
fortalecimento, empoderamento da luta pelos diretos da comunidade, além de promover a
valorização da Língua de Sinais. Como destaca Paulo Freire (2000, p. 40), é essencial que os
sujeitos surdos sejam “um ser capaz de intervir no mundo e não só de a ele se adaptar”.
O desenvolvimento desse artigo pode contribuir para surdos como ouvintes, assim como
incentivar o aprendizado da língua de sinais e o entendimento da importância da escola bilíngues
como foi observando na obra literária Feijãozinho surdo. As áreas da educação, política e sociais
podem ser beneficiadas contribuindo para o entendimento de como são as características e
necessidades desse público. Além de promover o respeito, a igualdade e a inclusão estão entre as
vantagens de se estudar a comunidade surda.
Conforme afirma Montoan (2003), “Inclusão é o privilégio de conviver com as
diferenças”, e a visibilidade proporcionada pela Literatura Surda contribui para a redução do
preconceito e para a efetiva inclusão social dos surdos, o que colabora para a formação de
cidadãos críticos, conscientes de seu papel social e capazes de transformar a realidade em que
vivem.
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