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O Transtorno do Jogo é uma questão global que causa prejuízos significativos em diversas áreas da vida. Este estudo revisa a literatura sobre o transtorno à luz da Terapia Cognitivo-Comportamental, destacando sua eficácia na redução de danos associados ao jogo, e enfatiza a necessidade de maior conscientização e pesquisa sobre o tema. A pesquisa também aborda a etiologia, prevalência e neurobiologia do transtorno, sugerindo que a TCC é a abordagem mais evidenciada para o tratamento.

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O Transtorno do Jogo é uma questão global que causa prejuízos significativos em diversas áreas da vida. Este estudo revisa a literatura sobre o transtorno à luz da Terapia Cognitivo-Comportamental, destacando sua eficácia na redução de danos associados ao jogo, e enfatiza a necessidade de maior conscientização e pesquisa sobre o tema. A pesquisa também aborda a etiologia, prevalência e neurobiologia do transtorno, sugerindo que a TCC é a abordagem mais evidenciada para o tratamento.

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PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE

ISSN (eletrônico) 2446-922X

ESTUDO TEÓRICO

TRANSTORNO DO JOGO: A emergência do fenômeno e as


contribuições da terapia cognitivo-comportamental
DOI: 10.22289/2446-922X.V12A1A39

Déborah Stuani
Alisson Rodrigo Polli
Bruno Bitencourte Milani
Bruna dos Passos Trindade
Maísa Gelain Marin 1

RESUMO

O Transtorno do Jogo é uma problemática global, que provoca prejuízos significativos nos âmbitos
psicológicos, comportamentais, financeiros, familiares, ocupacionais, sociais e/ou educacionais.
Esta revisão da literatura objetivou mapear o levantamento de dados referente ao Transtorno de
Jogo à luz da Terapia Cognitivo-Comportamental, focando nas contribuições desta linha teórica
para a compreensão e tratamento deste fenômeno emergente. Além disso, o estudo visou explorar
a etiologia, os prejuízos, a prevalência, a incidência, o prognóstico e fatores de risco, e a 704
neurobiologia do transtorno. Por meio de revisões sistemáticas, meta-análises recentes, e consulta
em bibliografias clássicas, os resultados evidenciaram fortes evidências da Terapia Cognitivo-
Comportamental na redução de danos associados ao transtorno do jogo, utilizando técnicas como
identificação de distorções cognitivas, psicoeducação e modificação de comportamentos, por
exemplo. Neste sentido, pode-se perceber que a crescente popularização dos jogos de azar
demanda maior conscientização pública e investimento em pesquisas, primordialmente no que diz
respeito ao pós-tratamento psicoterapêutico, para fomentar estratégias de prevenção e tratamentos
acessíveis.

Palavras-chave: Transtorno do Jogo; Terapia Cognitivo-Comportamental; Saúde Mental; Jogos de


azar.

GAMBLING DISORDER: The emergence of the phenomenon and the


contributions of cognitive-behavioral therapy
ABSTRACT

The Gambling Disorder is a global issue that causes significant harm in psychological, behavioral,
financial, familial, occupational, social, and/or educational domains. This literature review aimed to
map the data collection related to Gambling Disorder through the lens of Cognitive-Behavioral
Therapy, focusing on the contributions of this theoretical line to the understanding and treatment of
this emerging phenomenon. It also aimed to briefly explore the etiology, damages, prevalence,
incidence, the prognosis and risk factors, and the neurobiology of the disorder. Through systematic
reviews, recent meta-analyses, and consultations of classical bibliographies, the findings highlighted

1
Endereço eletrônico de contato: maisagelain@[Link]
Recebido em 17/08/2025. Aprovado pelo conselho editorial para publicação em 11/03/2026.

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strong evidence for the effectiveness of Cognitive-Behavioral Therapy in reducing harm related to
gambling disorder, using techniques such as identifying cognitive distortions, psychoeducation, and
behavior modification, for example. That way, it is clear that the growing popularity of gambling calls
for increased public awareness and investment in research, especially regarding post-
psychotherapeutic treatment, to foster prevention strategies and accessible treatments.

Keywords: Gambling disorder; Cognitive behavioral therapy; Mental health; Gambling.

TRANSTORNO DEL JUEGO: EL SURGIMIENTO DEL FENÓMENO Y


LAS APORTACIONES DE LA TERAPIA COGNITIVO-CONDUCTUAL
RESUMEN

El trastorno del juego es un problema global que causa daños significativos en el ámbito psicológico,
conductual, financiero, familiar, ocupacional, social y/o educativo. Esta revisión de la literatura tuvo
como objetivo mapear la recopilación de datos respecto al Trastorno por Juego a la luz de la Terapia
Cognitivo-Conductual, centrándose en las contribuciones de está línea teórica a la comprensión y
tratamiento de este fenómeno emergente. Además, el estudio tuvo como objetivo explorar la
etiología, las deficiencias, la prevalencia, la incidencia, el pronóstico y los factores de riesgo, y la
neurobiología del trastorno. A través de revisiones sistemáticas, metaanálisis recientes y consulta
en bibliografías clásicas, los resultados mostraron una fuerte evidência de la Terapia Cognitivo-
Conductual para la reducción de daños en el trastorno del juego, utilizando técnicas como la
identificación de distorsiones cognitivas, la psicoeducación y la modificación de conducta, por
ejemplo. En este sentido, se observa que la creciente popularización del juego exige una mayor
concienciación pública e inversión en investigación, fundamentalmente en lo referente al tratamiento
post-psicoterapéutico, para promover estrategias de prevención y tratamientos accesibles.

Palabras Clave: Trastorno del Juego; Terapia Cognitivo-Conductual; Salud Mental; Juego de
Apostas.
705

1 INTRODUÇÃO
Uma crescente expansão tem sido percebida pela indústria de jogos de azar ao redor do
mundo, podendo chegar a US$ 531 bilhões o valor total perdido pelos jogadores até metade do ano
de 2025 (Tran et al., 2024). Concomitantemente aos problemas financeiros, há um problema na
saúde pública, reconhecida mundialmente desde 1977. Tanto a CID (Classificação Internacional de
Doenças), quanto o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), já
estabelecem critérios para pessoas possivelmente diagnosticadas com um transtorno do jogo (APA,
2014).
No DSM-5-TR é considerado problemático o comportamento de jogo quando ocorre de
forma recorrente e persistente, acompanhado de sofrimento ou comprometimento considerável, por
doze meses (APA, 2023). Os critérios transpassam por necessidades crescentes de apostar
quantias maiores, inquietude, tentativas repetidas de interromper o hábito de jogar, preocupações
excessivas, mentiras, problemas de relacionamento e dependência financeira de outrem.

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No que tange aos motivos pelos quais as pessoas jogam, a fuga de estados emocionais
negativos ou a busca por sensações positivas, são achados significativos. Além disso, fatores
ambientais, genéticos e herdabilidade também parecem fazer parte do desenvolvimento do
transtorno (Potenza et al., 2019). Da mesma forma, algumas pesquisas apontam áreas do cérebro
que podem estar envolvidas no transtorno de jogo, dentre elas o estriado ventral e o córtex pré-
frontal, por exemplo (Clark et al., 2018).
Adicionalmente, embora haja estudos sobre o uso de medicações para o transtorno de jogo,
ainda há controvérsias sobre sua eficácia. Há dez anos, Jon et al. (2015) realizaram uma revisão
de dezessete estudos de farmacoterapia duplo-cegos e controlados por placebo, onde
demonstravam resultados inconclusivos; depois, Eriksen et al. (2023) corroboraram os mesmos
achados. Recentemente, uma revisão sistemática e metanálise de Loannidis et al. (2025) propôs
dados sobre possíveis medicações com efeitos significativos sobre o transtorno do jogo. As
descobertas apresentaram a naltrexona e o nalmefeno como antagonistas com evidências de
confiança moderada a alta, por mais que os efeitos colaterais estimulem a desistência do
tratamento.
Quanto ao tratamento, dentro do modelo da prática baseada em evidências (PBE), que
busca a melhor evidência nas pesquisas atuais disponíveis, a Terapia Cognitivo-Comportamental
(TCC) mostrou-se a abordagem com o maior número de evidências empíricas para intervenção em
pessoas com comportamento de jogo (Pfund, et al., 2023b). Embora a TCC possua um grande
potencial na redução da gravidade do comportamento do jogo e do transtorno do jogo, o seu efeito
pós-tratamento necessita de maiores pesquisas (Pfund et al., 2023a).
O modelo tradicional de Beck explica que a TCC tratará da formulação cognitiva,
706
compreendendo as crenças mal adaptativas, estratégias comportamentais e a manutenção dos
fatores que caracterizam um determinado transtorno, além da compreensão individual de cada
paciente e de suas crenças (Beck, 2022). A partir disso, pacientes sob cuidados da TCC poderão
aprender a reconhecer situações de alto risco, desenvolver novas estratégias de enfrentamento,
definir limites sobre o tempo jogado e aprender a pensar de forma diferente sobre o comportamento
presente e os danos ocasionados (Pfund et al., 2023b).
Considerando que o vício em jogos diminui a qualidade de vida e piora a saúde mental das
pessoas, além de que a disponibilidade de jogos de azar só aumenta, e o conhecimento social sobre
o transtorno é limitado (Moreira et al., 2023), este artigo se propõe a realizar uma revisão de
literatura sobre o transtorno do jogo e sobre as intervenções em TCC.

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2 MÉTODO

O presente artigo foi baseado em uma revisão narrativa de literatura, que segundo Andrade
(2021), é um método essencial para facilitar o conhecimento científico, podendo auxiliar em
pesquisas, discutir achados e apontar lacunas a serem preenchidas. Foram utilizados artigos
científicos de 2012 até 2025, das bases de dados como PubMed, Medline, Psycinfo, SciELO, bem
como o site da Divisão 12 da APA, além de livros e manuais clássicos de psicologia e psicopatologia
e Terapia Cognitivo-Comportamental. Foram utilizados os seguintes descritores em português e
inglês: “transtorno do jogo”, “jogo patológico”, “gambling disorder”, “pathological gambling”, “terapia
cognitivo-comportamental”, “cognitive behavioral therapy”, “tratamento” e ”intervenção”. Como
critérios de inclusão, foram utilizados artigos publicados em periódicos científicos revisados por
pares, estudos que verificassem intervenções baseadas em Terapia Cognitivo-Comportamental,
estudos sobre o Transtorno do Jogo em adultos e pesquisas que investigassem a etiologia e
neurobiologia além de aspectos terapêuticos ou clínicos acerca do transtorno. Já nos critérios de
exclusão, foram removidos artigos duplicados, estudos fora do período temporal estabelecido,
artigos que não tivessem foco maior em transtorno do jogo ou Terapia Cognitivo-Comportamental
e trabalhos sobre crianças. Os artigos selecionados se fundamentaram, na grande maioria, em
revisões sistemáticas e meta-análises, pois ambas, quando bem conduzidas, são consideradas o
nível mais alto na hierarquia das evidências no que diz respeito a intervenções (Souza & Gonçalves,
2024). A pesquisa se fundamentou na compreensão da contribuição da Terapia Cognitivo-
Comportamental no transtorno do jogo, bem como os determinantes do transtorno. Por fim, foram
707
utilizados aproximadamente trinta estudos.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 O transtorno do jogo

Muitas pessoas assumem riscos diariamente em suas vidas, seja dirigindo em alta
velocidade, fazendo escolhas duvidosas sobre o futuro profissional ou entrando em um local
desconhecido (Nastally & Dixon, 2012). No entanto, quando estes riscos se tornam frequentes e se
consolidam como padrões comportamentais, a probabilidade de ter prejuízos – financeiros,
comportamentais, emocionais, sociais, profissionais, entre outros – aumenta.
O jogo patológico é caracterizado por um padrão persistente e recorrente de
comportamento levando ao sofrimento ou comprometimento significativo em diversas áreas da vida
envolvendo jogos de apostas/azar (APA, 2023). Os jogadores com comprometimento significativo
e que se encaixam no diagnóstico de transtorno do jogo apresentam os seguintes critérios

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diagnósticos, separados em 3 níveis de gravidade: leve (4 a 5 critérios), moderado (6 a 7 critérios)


e grave (8 a 9 critérios).

1- Necessidade de apostar quantias de dinheiro cada vez maiores a fim de atingir a excitação
desejada.
2- Inquietude ou irritabilidade quando tenta reduzir ou interromper o hábito de jogar.
3- Fez esforços repetidos e malsucedidos no sentindo de controlar, reduzir ou interromper o
hábito de jogar.
4- Preocupação frequente com o jogo (ex: apresenta pensamentos persistentes sobre
experiências de jogo passadas, avalia possibilidades ou planeja a próxima quantia a ser
apostada, pensa em modos de obter dinheiro para jogar).
5- Frequentemente joga quando se sente angustiado (p. ex.: sentimentos de impotência,
culpa, ansiedade, depressão).
6- Após perder dinheiro no jogo, frequentemente volta outro dia para ficar quite (“recuperar
o prejuízo”).
7- 8- Mente para esconder a extensão de seu envolvimento com o jogo. Prejudicou ou perdeu
um relacionamento significativo, o emprego ou uma oportunidade educacional ou profissional
em razão do jogo.
9- Depende de outras pessoas para obter dinheiro a fim de saldar situações financeiras
desesperadoras causadas pelo jogo. (APA, 2023, p. 661).

Considerando riscos em jogos de apostas, por exemplo, estas são atividades nas quais os
708
jogadores envolvem certo investimento de dinheiro, na esperança de conseguir um retorno
financeiro superior ao valor investido. Cassinos, loterias, jogos de azar na internet, e assim por
diante – todos possuem características em comum: o intuito de reter os jogadores pelo maior tempo
possível (Potenza et al., 2019). Percebe-se que os prejuízos surgem quando o jogo passa de uma
atividade de lazer para um comportamento constante, que ocupa a maior parte do tempo do jogador
na tentativa de recuperar as perdas financeiras.
Os jogos de apostas exibem um esquema de reforçamento intermitente, no qual o jogador
ganha e perde em uma sequência aleatória (Lopes et al., 2024). Com isso, cada vez que o jogador
ganha um valor, aumenta a probabilidade de querer jogar novamente, na expectativa de ter um
retorno maior. Não obstante, este tipo de reforçamento opera com distorções e vieses cognitivos na
pessoa, ocorrendo uma ilusão de controle e percepção equivocada sobre o jogar e ganhar (Potenza
et al., 2019).
No que diz respeito à neurobiologia do transtorno de jogo, alguns estudos encontraram
diferenças entre as regiões frontoestriatais e límbicas do cérebro. Tais regiões estão relacionadas
com sensibilidade a recompensas ou excitação, comportamento de busca de perdas, estresse

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desregulado e problemas socioemocionais (Clark et al., 2018). Deste modo, fica evidente um
sistema neurobiológico alterado no indivíduo com jogo patológico.
Quanto aos riscos relacionados ao transtorno, são multifatoriais. Os fatores
sociodemográficos mais acometidos são os grupos de jovens adultos, estudantes universitários,
adolescentes, veteranos de guerra e grupos indígenas. Mulheres também são afetadas, mas em
uma escala menor em relação aos homens. Além desses, os antecedentes familiares (parentes que
jogam algum tipo de jogo), os que possuem nível socioeconômico e educacional baixo,
desemprego, pessoas que trabalham e/ou estudam o tempo todo, e pessoas com dificuldades
financeiras. A nível pessoal, também são mais acometidos os jovens que são solteiros e moram
sozinhos, e/ou foram casados por menos de cinco anos (Moreira et al., 2023).
Por outro lado, fatores psicológicos também ganham destaque – impulsividade, estresse
significativo gerado por um ambiente escasso de recursos socioemocionais, experiências
dissociativas (despersonalização e desrealização, absorção e envolvimento imaginativo, e
influência passiva) e alexitimia. Outros fatores contribuintes: a ocorrência de comorbidades
psiquiátricas (transtornos de ansiedade, de humor e de personalidade), e fatores genéticos (maior
herdabilidade para os homens em relação às mulheres e adolescentes) (Stefanovicz & Potenza,
2022).
Em uma recente revisão sistemática realizada por Tran et al. (2024), foram encontrados
alguns dados significativos. Cerca de 46,2% dos adultos ao redor do mundo jogaram algum tipo de
jogo de aposta nos últimos 12 meses. Por outro lado, obteve-se uma estimativa de 8,7% destes
adultos que estavam engajados com algum tipo de risco no jogo de apostas, o que corresponde a
aproximadamente 439,6 milhões de pessoas, e 1,41% estavam envolvidas em jogo patológico. Por
709
fim, os tipos de jogos de apostas mais utilizados são os cassinos online (15,8%), cassinos de
apostas (10%), apostas online (8,6%), apostas esportivas (8,9%) e outros formatos.
Em termos de dados sobre o Brasil, foi realizado um estudo em setembro de 2024, pelo
Banco Central do Brasil, com o objetivo de identificar os valores gastos em jogos de apostas no
mês de agosto de 2024 (Bacen, 2024). Os resultados revelaram gastos de R$20,8 bilhões entre
usuários de pessoas físicas para 56 empresas registradas no CNAE (Classificação Nacional de
Atividades Econômicas), e R$ 300 milhões para outras 520 empresas, totalizando R$ 21 bilhões.
Quanto ao perfil de apostadores, foram identificados adultos, na maioria, entre 20 e 30 anos. Além
disso, 24 milhões de pessoas realizaram transferências no PIX com o objetivo de jogar, sendo 5
milhões delas beneficiadas pelo Bolsa Família. No entanto, este estudo possui um alto risco de viés,
visto que não abarcou empresas que não estavam registradas no CNAE e selecionaram apenas
pessoas físicas que realizaram pagamentos no formato de PIX. Diante do exposto, este estudo
corrobora os dados da literatura científica atual, que apontam adultos jovens e/ou com menor nível
socioeconômico com maior propensão para o desenvolvimento do jogo patológico (Moreira et. al.,
2023).

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3.2 Sistema de recompensa do cérebro

Aprendizagem, hábitos e vícios contemplam a mesma região cerebral. Dependendo do tipo


de reforçamento e da função do comportamento para o indivíduo, ele pode ou não vir a repetir esse
comportamento – com ou sem prejuízo. O trato mesolímbico-mesocortical está envolvido nesse
processo, e é o local onde os neurônios são projetados da área tegmental ventral para o córtex pré-
frontal, hipocampo e para o núcleo accumbens envolvidos com o processo das emoções. Moraes
et al (2022) explica que “o sistema de recompensa cerebral é uma rede de estruturas neuronais
responsáveis pela regulação de comportamentos relacionados ao prazer, à motivação e ao
aprendizado.”.
Também, a dopamina (DA) é o neurotransmissor chave no sistema de recompensa, pois
elicia as sensações de prazer, mas também aumenta a motivação do indivíduo para a busca da
sensação. A DA é um dos neurotransmissores essenciais para aprendizagem, criação de hábitos e
comportamentos repetitivos como compulsões e vícios. Ela modula as sensações de prazer e
reforça comportamentos associados a eles, potencializando a repetição do mesmo comportamento.
Moraes et al. (2022) afirmam que “quando a dopamina é liberada, ela sinaliza ao cérebro que o
comportamento foi recompensador, promovendo a repetição de ações semelhantes”.

3.3 O sistema de recompensa no transtorno do jogo

O comportamento vicioso pela busca do prazer no Transtorno do Jogo promove alterações


710
no sistema de recompensa, tornando-o hipersensível à DA. O Transtorno do jogo tem sido
associado a diferenças nas regiões frontoestriatais e límbicas do cérebro, como o estriado, o córtex
orbitofrontal, o córtex cingulado anterior, a ínsula, o hipocampo e a amígdala. Estas regiões
cerebrais relacionam-se com a sensibilização do sistema de recompensa à DA. Potenza et al.
(2019), expõe que essas regiões se associam a características clínicas, inclusive aquelas que dizem
respeito à sensibilidade à recompensa ou à excitação, como também ao comportamento de busca
por perdas e à desregulação do estresse e a problemas socioemocionais.
O hipocampo e a amígdala contemplam o aprendizado emocional, regulação do estresse e
do comportamento social. Associado ao aprendizado probabilístico de contingências entre estímulo
e respostas, o hipocampo se apresenta em comportamentos como prever quando pistas de jogos
indicam recompensas versus punições. Já a amígdala implica-se a análise de custo-benefício
orientadas à aversão à perda. Em esquemas de reforçamento intermitente – como por exemplo,
jogos de azar – tanto o hipocampo quanto a amígdala podem sofrer alterações, podendo influenciar
nas tomadas de decisões. Indivíduos com transtorno do jogo, têm volumes do hipocampo e da
amígdala menores (Potenza et al., 2019).

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Figura 2. Neurobiologia do transtorno do jogo.

Neurobiologia do transtorno do jogo. Estudos nas últimas duas décadas implicaram várias regiões
cerebrais no transtorno do jogo. As regiões implicadas incluem os córtices pré-frontais ventrais
(incluindo os córtices orbitofrontais medial e lateral), córtex pré-frontal medial e córtex cingulado
anterior adjacente, estriado, amígdala, hipocampo e ínsula. Com base em dados existentes, foi
proposto que a disfunção nessas regiões cerebrais esteja associada a interrupções ou diferenças
em vários processos e funções, como sensibilidade à recompensa e excitação, comportamento de
busca por perdas, desregulação do estresse e problemas socioemocionais. Fonte: Potenza et al.,
2019.

As alterações cerebrais, principalmente na área do estriado e do córtex pré-frontal (CPF)


contribuem nas tomadas de decisões disfuncionais no indivíduo. A liberação de dopamina
potencializada no estriado dorsal está associada à gravidade do transtorno do jogo. Além disso, o
aumento da ligação do receptor de dopamina e a ativação da substância negra evocada pelo jogo
(que se projeta para o estriado dorsal) foram positivamente associadas à gravidade do jogo
problemático (Potenza et al., 2019).
O córtex orbitofrontal (COF), está relacionado ao sistema de recompensa responsável 711
também pela emoção e tomada de decisão. O córtex cingulado anterior (CCA) está associado a
detecção de erros, atenção, estabilidade emocional, entre outras funções. Ambas as áreas do
cérebro demonstram alteração quando estudadas em indivíduos com transtorno do jogo. Balodis et
al. (2019) afirma que “O COF e o CCA apresentaram ativação aumentada em resposta a sinais de
jogo em indivíduos com transtorno do jogo, e essas regiões juntamente com o estriado
apresentaram ativação reduzida em resposta a ganhos relacionados ao jogo.”. Essas alterações
indicam que as regiões envolvidas no sistema de avaliação de recompensa podem ser suscetivas
a sinais externos que indicam a possibilidade de jogo do que ao resultado do comportamento de
jogar em indivíduos com transtorno do jogo.

3.4. O uso da Terapia Cognitivo-Comportamental no Transtorno do Jogo

Embora os dados apresentados sobre o transtorno do jogo sejam preocupantes, já existem


tratamentos testados e validados pela literatura científica a fim de promover melhorias na qualidade

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de vida das pessoas que sofrem com o jogo patológico. Ao utilizar do modelo de tomada de decisão
clínica da PBE, que se refere ao “processo individualizado de decisão clínica que ocorre por meio
da integração da melhor evidência disponível com a perícia clínica no contexto das características,
cultura e preferências do paciente" (APA, 2006, p. 273), a TCC mostrou-se a abordagem com mais
evidências para o tratamento de indivíduos com transtorno do jogo.
A terapia cognitiva foi criada entre as décadas de 60 e 70, por Aaron T. Beck e outros
pesquisadores, e se baseia no modelo cognitivo de que todos os transtornos possuem pensamentos
disfuncionais como elementos centrais (Beck, 2022). O tratamento da terapia cognitiva se baseia
na identificação, avaliação e reestruturação cognitiva dos pensamentos automáticos (espontâneos,
rápidos, telegráficos), das crenças intermediárias (regras e pressupostos criados pelos indivíduos),
e das crenças nucleares (rígidas, inflexíveis, absolutas) (Beck, 2022).
Uma recente revisão sistemática avaliou a eficácia da TCC para indivíduos com jogo
patológico e encontrou reduções significativas na severidade, frequência e intensidade do
comportamento de jogo no pós-tratamento em relação aos controles de tratamentos mínimos e
ativos (Pfund et. al., 2023). Tais achados corroboram os resultados mais antigos, que já apoiavam
o uso da TCC como intervenção para o transtorno do jogo (Cowlishaw et. al., 2012, Petry et. al.,
2017).
Alguns manuais fornecem auxílio na avaliação e intervenção de pacientes com transtorno
do jogo. Além de fechar o diagnóstico com base nos critérios do DSM, é necessário coletar
informações sobre a história e todo o desenvolvimento do transtorno, investigar os hábitos
individuais de jogo, bem como identificar pensamentos e crenças do paciente em relação à atividade
de jogar. A análise de outros possíveis problemas, como álcool, drogas, ansiedade ou depressão
712
devem ser realizadas pelo profissional, pois, posteriormente, podem vir a interferir no tratamento.
Além disso, fazer contato com familiares ou amigos do jogador, também contribui para a
compreensão global do caso (Ladouceur & Lachance, 2007).
Na entrevista clínica e monitoramento do progresso, podem ser utilizadas duas escalas
como instrumentos de avaliação do jogo patológico. A primeira é o South Oaks Gambling Screen
(SOGS), de Leusieur e Blume (1987), que avalia o impacto de apostar em jogos de azar, bem como
as consequências que englobam as dimensões familiares, educacionais, ocupacionais, sociais,
emocionais e financeiras. A escala possui perguntas como o tipo de apostas praticadas durante a
vida, a frequência de apostas nos últimos 12 meses, o valor gasto, se os pais possuem problemas
com jogos, entre outras. A outra é a Escala de Seguimento de Jogadores (ESJ), de Galetti (2006),
com o objetivo de acompanhar a evolução dos comportamentos relacionados ao jogo, de forma
rápida, segura e confiável. É uma escala que pode ser utilizada durante as sessões para monitorar
o progresso. Com isso, a escala tem o formato de 5 itens que perguntam sobre frequência e tempo
gastos com o jogo, atividade ocupacional, relações familiares, lazer e frequência a Jogadores
Anônimos.

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Técnicas comportamentais podem ser empregadas a fim de colocar a pessoa em


abstinência do jogo. Restringir a entrada nos estabelecimentos de jogos (alguns cassinos também
oferecem ao jogador a oportunidade de impedir sua própria entrada nos estabelecimentos), evitar
passar por perto de casas de apostas, recusar convites de jogos – são procedimentos iniciais para
afastar o jogador do problema de jogo. Compreender a situação financeira, pregressa e atual, pode
contribuir no entendimento dos motivos que levam a pessoa a correr riscos em prol de dinheiro, e
solicitar ajuda de amigos ou familiares na administração das finanças pode limitar a disponibilidade
de dinheiro para o uso inadequado. Preencher o tempo livre e descobrir outras áreas de interesse
também são intervenções chave para afastar o jogador do problema com o jogo (Ladouceur &
Lachance, 2007).
Do mesmo modo, técnicas cognitivas precisam ser inseridas ao fazer o jogador perceber
quais pensamentos ele tem ao escolher o jogo e o lugar onde joga. Além disso, descobrir quais os
gatilhos presentes, quais estratégias ele usa ao jogar, ou se ele possui pensamentos errôneos sobre
suas possibilidades de ganhar ou perder, fazem parte de procedimentos cognitivos utilizados para
auxiliar o paciente. (Ladouceur & Lachance, 2007).
No geral, os achados apresentam fortes evidências dos efeitos da TCC no tratamento do
transtorno do jogo, por meio de revisões sistemáticas e meta-análises recentes. Pfund et al. (2023b),
sintetizaram o rigor metodológico de cinco meta-análises com 56 estudos únicos e 5389
participantes, evidenciando uma forte recomendação empírica do uso da TCC para o transtorno do
jogo, além de que os efeitos da TCC se demonstraram mais fortes do que intervenções breves no
pós-tratamento. Evidências representadas através dos critérios da tabela de Tolin et al. (2015) onde
a recomendação fortemente da TCC cumpre os critérios: Critério A: Existem evidências de alta
713
qualidade de que o tratamento produz um efeito clinicamente significativo nos sintomas da doença
tratada; Critério B: Existem evidências de alta qualidade de que o tratamento produz um efeito
clinicamente significativo nos resultados funcionais; Critério C: Existem evidências de alta qualidade
de que o tratamento produz um efeito clinicamente significativo nos sintomas e/ou nos resultados
funcionais pelo menos três meses após a sua interrupção; Critério D: Pelo menos um estudo bem
conduzido demonstrou eficácia em contextos não relacionados à pesquisa. Ainda além, Eriksen et
al (2023), ao analisarem meta-análises, revelaram que a TCC é a modalidade mais estudada, e que
não houve diferenças com o uso da abordagem tanto para pacientes com ou sem comorbidades.
Por fim, Loannidis et al. (2025), em um estudo com o objetivo de compreender o uso de medicações
no tratamento do transtorno do jogo, também sugeriram a TCC como uma terapia amplamente
utilizada.
A TCC reduziu consideravelmente a gravidade do transtorno do jogo, sugerindo uma
melhora de 65% - 82% se comparada com grupos controle que não tiveram acesso ao tratamento,
ou grupos que tiveram acesso mínimo – como apenas psicoeducação, ou encaminhamento para
Jogadores Anônimos – (Pfund et al., 2023b). De todo modo, os artigos pesquisados sugerem a

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necessidade de mais pesquisas, justamente por salientarem a importância de se atentar para


inconsistências metodológicas, tamanhos de efeito e vieses de publicação que acabam aparecendo
na literatura disponível até então (Pfund et al., 2023a).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como demonstrado nas análises deste artigo, tanto resultados anteriores quanto evidências
mais atuais classificaram a TCC como a prática mais indicada para intervenção em adultos com
transtorno do jogo (Cowlishaw et al., 2012, Eriksen et al., 2023). Em contrapartida, algumas
evidências também discutiram a carência de estudos demonstrando os benefícios da terapia no
longo prazo (Eriksen et al., 2023).
Percebeu-se a necessidade de avaliar outros elementos para além do transtorno, como
ansiedade, depressão, uso de substâncias e outras comorbidades, a fim de desenvolver um plano
de intervenção específico para cada caso. O contato com familiares e amigos de pessoas em
tratamento se mostrou fundamental no processo do tratamento e a recuperação de indivíduos com
jogo patológico, visto que servem de auxílio na prevenção de recaídas. Somado a isso, com a
crescente disponibilidade dos jogos de azar na última década, se percebeu uma falta de aceitação
social dos prejuízos relacionados ao jogo patológico devido ao baixo conhecimento acerca dos
transtornos relacionados a ele. Isso, acaba causando uma ideia errônea de “fraqueza moral” e não
de um transtorno psicológico (Moreira et al., 2023).
Não obstante, ficou clara a necessidade de formação educacional para terapeutas e outros
profissionais que possam estar envolvidos no tratamento. Os prestadores de serviços devem 714
considerar as especificidades das pessoas com transtornos relacionados ao jogo e buscar uma
adaptação mais adequada dos conteúdos dos programas terapêuticos e/ou criação de novos
materiais utilizados na terapia (Moreira et al., 2023). Além disso, o artigo se deteve em pesquisas
da literatura estrangeira, visto que no Brasil as informações tendem a estar desatualizadas em
relação ao contexto global, o que gerou uma limitação geográfica e cultural da pesquisa. Por fim, o
trabalho não realizou uma comparação minuciosa da eficácia da TCC em relação a outras
abordagens.

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