???- ???-
???- ???-
si=AOCPiYRbSTyC1XwNTcTjmQ
&pi=ZwBQYKTRSN-_f
Playlist
🌳🎨🧸
◦ Why’d You Only Call Me When You’re High? - Arctic Monkeys
◦ Gasoline - Halsey
◦ Tag, You’re It - Melanie Martinez
◦ MIDDLE OF THE NIGHT - Elley Duhé
◦ RUNRUNRUN - Dutch Melrose
◦ I'm Yours - Isabel LaRosa
◦ The Night We Met - Lord Huron
◦ Cinnamon girl - Lana Del Rey
◦ Ocean eyes - Billie Eilish
◦ I love you - Billie Eilish
◦ Loml - Taylor Swift
◦ Futile devices - Sufjan Stevens
🕸🎧🖤
◦ Moment - Sean Biopcik
◦ I found - Amber run
◦ Fourth of july - Sufjan Stevens
◦ Daddy issues - The neighbourhood
◦ Softcore - The neighbourhood
◦ WRONG - Chris Grey
◦ LET THE WORD BURN - Chris Grey
◦R U Mine? - Arctic Monkeys
◦ Lovers - Anna of the North
◦ Infinity - Jaymes Young
◦ Back to friends - Sombr
◦ I don’t know you anymore - Sombr
◦ Futile devices - Sufjan Stevens
◦ Futile devices - Sufjan Stevens
◦ Futile devices - Sufjan Stevens
◦ Futile devices - Sufjan Stevens
( Quando esse símbolo aparecer ( 🎵 ) significa que você pode começar a tocar a música ou ir para a próxima.)
ᴘᴏᴠ
𝓐𝓵𝓮𝔃
Lá estava eu. Completamente bêbada outra vez. 🎵
Eu tinha acabado de sair da boate para tomar um pouco de ar fresco.
As pessoas, o espaço apertado, o forte cheiro de álcool, as luzes piscando sem parar…
era tudo… sufocante. Eu precisava respirar.
De verdade.
Eu odiava aquilo. Odiava a pessoa que eu estava me tornando. Mas aquela tinha sido
a única maneira que encontrei de tentar aliviar a dor, de tentar esquecer ele.
Esquecer ele.
Só isso. Era tudo o que eu precisava. Porque, se eu conseguisse, não precisaria mais
voltar para aquele inferno de lugar.
Encarei o celular, com um peso estranho no peito, relendo o nome dele tantas vezes
que as letras começaram a parecer desconexas, quase sem sentido.
Um erro enorme.
Mesmo sem ter total controle das minhas ações por causa do álcool, eu sabia disso.
Se eu ligasse, estaria ultrapassando todos os limites.
Acabou. Eu precisava aceitar. Precisava seguir em frente, mesmo que parecesse que
algo dentro de mim estivesse se despedaçando.
Evitei esses pensamentos e voltei para a realidade. Continuar com esses pensamentos
não me levaria a lugar algum, muito menos me transportar magicamente até o meu
apartamento, então eu precisaria caminhar. Pelo tempo e pela distância que fosse. Ou
pelo menos, pela distância que meus pés aguentariam alcançar.
A brisa fria envolvia minha pele como um abraço silencioso, quase reconfortante.
As luzes amareladas dos postes me traziam uma estranha sensação de aconchego e de
segurança no meio da escuridão.
À distância, minha visão vacilava, mas ainda assim consegui distinguir a sombra de
uma figura.
Havia também um fio de fumaça subindo lentamente, se desfazendo no ar.
Era um homem.
Cheguei a essa conclusão quando a luz fraca de um poste tocou parcialmente seu
rosto.
Devia ter por volta dos trinta anos. Uma cicatriz cortava o lado direito de sua face no
formato de um raio, chamando atenção de imediato.
Seus cabelos castanhos eram interrompidos por algumas mechas grisalhas, que só o
deixavam ainda mais… estranho.
Ele segurava algo pequeno entre os dedos, e levava constantemente a boca. Era um
cigarro, isso explicaria a fumaça. 🎵
Droga. Isso era tudo que eu precisava agora.
Eu senti.
O olhar dele.
Continuei andando, fingindo não perceber, mantendo os olhos fixos à frente, como
se ele nem existisse.
Parei imediatamente.
Fechei os olhos com força por um segundo, comprimindo os lábios antes de me virar,
devagar, como se cada movimento exigisse mais esforço do que deveria.
Nossos olhares se encontraram, e eu soube, na mesma hora, que aquilo não era bom.
E o cheiro…
Que bizarro.
— O que uma jovem tão bonita faz desacompanhada nessa hora da noite? — ele me
lançou um sorriso malicioso,e uma repulsa imediata me atravessou.
Senti uma vontade imensa de arrancar todos aqueles dentes amarelados de sua boca.
— Acredito que isso não tenha nada a ver com o senhor. Agora, se puder me dar
licença… — respondi com educação calculada, sustentando um sorriso falso
enquanto já me virava para seguir meu caminho.
Ele me impediu.
— Opa, opa, mocinha, eu ainda não terminei. — disse, se aproximando ainda mais.
Eu não recuei.
Não daria a ele a satisfação de perceber meu medo.
Não respondi.
Apenas sustentei o olhar, firme, direto.
Algo na minha expressão pareceu incomodá-lo, porque o sorriso dele vacilou antes
que voltasse a falar.
— Eu poderia te acompanhar até em casa. Comigo, você estaria segura. Pode confiar.
— É sério? Muito obrigada pela oferta, senhor, mas estou muito bem sozinha. Se
alguém aparecer, eu sei me defender. Então não se preocupe.
— Tem certeza disso? Olha só esse seu bracinho… — zombou, inclinando o rosto
para mais perto do meu, com um ar de superioridade irritante. — Não faria mal nem
a uma mosca.
— Quer pagar pra ver? Se eu disse que sei me proteger, é porque sei. E mesmo que
não soubesse… por que eu aceitaria a sua proteção? — inclinei levemente a cabeça,
mantendo o tom firme. — Sem querer ofender, mas por quê? O senhor é um
completo estranho. Seria muito mais perigoso deixar que um estranho me
acompanhasse até a minha casa.
“Vamos ver.”
✨
Só voltei a caminhar em um ritmo mais normal quando tive certeza de que já estava
longe o bastante.
Nada.
Soltei, então, o ar que eu nem percebia que estava prendendo havia tanto tempo.
Meus pulmões arderam levemente com a liberdade repentina.
Eu precisava disso.
Precisava me acalmar.
Porque, no fundo… a sensação de estar sendo observada ainda não tinha ido embora.
Ergui o olhar para o céu da noite, não como quem apenas observa, mas como quem
contempla uma obra viva.
O fundo escuro parecia uma tela infinita, e as estrelas… pequenos pontos de luz
cuidadosamente espalhados, como se alguém tivesse pensado em cada detalhe.
Fechei os olhos.
Era isso.
Consegui captar o som, não mais como ruído, mas como composição.
Os carros passavam como notas graves, constantes.
As motos cortavam o ar em tons mais agudos.
O vento nos galhos… um sussurro suave, quase como um pincel deslizando sobre a
tela.
E então… algo que não encaixava.
Sapatos.
Secos.
Ritmados.
Fora do compasso.
Ele se movia com um cuidado estranho, calculado… como se cada passo fosse
pensado antes mesmo de tocar o chão.
Discreto demais.
Cuidadoso demais.
Como se acreditasse, de verdade, que eu não iria perceber. 🎵
Merda, merda, merda!
Comecei a caminhar, um pouco rápido, mas não tanto a ponto de levantar suspeitas.
Engoli seco, tentando manter a calma que eu mesma tinha acabado de construir.
Não.
Eu não podia entrar em pânico agora.
Voltei a olhar para frente, como se nada tivesse acontecido, mas meus ouvidos… meus
ouvidos estavam atentos demais. Cada passo atrás de mim soava mais alto, mais
próximo, como se estivesse sendo amplificado dentro da minha cabeça.
Observa.
Analisa.
Não surta.
Inspira… expira…
Meu coração batia acelerado, e eu não podia deixar que ele soubesse que eu tinha o
avistado.
A tensão no ar era palpável, como se o mundo ao meu redor estivesse em câmera
lenta.
Eu precisava agir cautelosamente, cada passo contava.
Anna.
Com certeza ela faria isso por mim.
Eu ligaria para Anna, lhe avisaria sobre essa horrível situação, e pediria a ela que
chamasse a polícia por mim.
Mas, se ele continuasse me seguindo por mais tempo, eu chamaria a polícia eu
mesma.
O som dos meus passos se misturava com o eco distante da cidade, mas a única coisa
que eu conseguia ouvir era o ritmo acelerado do meu coração.
A adrenalina pulsava em minhas veias, e cada vez que olhava para trás, a sensação de
estar sendo observada aumentava.
Ele se aproximava, e eu senti que o tempo estava se esgotando.
— Alex, se você for pedir pra eu mandar um Uber ir te buscar, esse não é o melhor
momento. Eu estou ocupada e—
— Como assim? O que aconteceu? — ela perguntou, agora com a confusão evidente
no tom.
— Espera… você tem certeza disso? Há quanto tempo você acha que ele está te
seguindo? — a tensão começou a aparecer na voz dela.
— Por que você tá falando isso? Nada de ruim vai acontecer, tá bom?
— Tá bom… — minha voz saiu fraca, instável. — Mas, por favor… me ajude.
— É claro que eu vou te ajudar! Só me fala em que rua você está e eu— NOAH!
ESPER—
E, junto com ela, parecia que algo dentro de mim também desligava.
Completamente.
Era como se eu tivesse sido arrancada de mim mesma, presa dentro do próprio corpo.
Nem um músculo.
Noah.
Noah.
Noah.
As perguntas batiam uma contra a outra, rápidas demais, altas demais, fazendo minha
cabeça latejar.
Passos.
Primeiro distantes.
Eu comecei a correr.
E, atrás de mim…
Ele também.
✨
Foi imprevisível. Não era a minha intenção correr assim, mas agora já era tarde
demais. Meu disfarce foi por água abaixo.
Eu acabei entrando em ruas que nunca havia pisado antes, com o coração disparado e
a respiração ofegante.
Os becos estreitos que eu passava pareciam me engolir, enquanto se tornavam um
labirinto.
Cada esquina uma luta para despistar o homem que estava logo atrás de mim.
O som dos meus passos ecoava, misturado ao barulho distante de sua perseguição,
aumentando meu pânico.
Cada curva que eu virava, uma nova onda de ansiedade me invadia.
As luzes fracas mal iluminavam o caminho, lançando sombras longas que dançavam
ao meu redor.
A incerteza do desconhecido tornava cada movimento ainda mais arriscado, e a
adrenalina pulsava nas minhas veias, transformando o medo em uma energia
desesperada.
Me espremi entre dois carros estacionados, escolhendo o espaço mais escuro, onde a
luz do poste mal alcançava.
O corpo encolhido, quase no chão, tentando desaparecer entre as sombras e o metal
frio.
— Ele não pode me encontrar aqui… — eu repetia para mim mesma, num sussurro,
mais para me manter firme
do que por acreditar de verdade, enquanto observava a rua deserta.
O medo me envolvia, e cada ruído, seja das folhas caindo das árvores, ou do eco
distante de passos, qualquer som me fazia estremecer.
Até o leve estalo do metal do carro ao meu lado, um som seco e inesperado que
pareceu ecoar mais alto do que deveria.
A rua não estava completamente vazia. Alguns carros alinhados, espaçados… sombras
irregulares.
Luzes fracas.
Lugares onde alguém podia passar sem ver direito.
Por um segundo achei que ele fosse hesitar, que fosse ver, que fosse voltar, mas não,
ele seguiu em frente, os passos continuando, um depois do outro, se afastando aos
poucos.
Esperei.
Sem me mexer.
E, com um novo fôlego, disparei pela próxima esquina, pronta para me esconder mais
uma vez.
A cada esquina que eu dobrava, a ansiedade crescia.
O medo se transformava em energia, pulsando nas minhas veias.
O alívio momentâneo foi rapidamente substituído por uma nova onda de pânico.
"Ele pode estar mais perto do que eu imagino", pensei, e a ideia me fez acelerar o passo.
Corri sem olhar para trás, o som dos meus próprios passos ecoando alto demais na
rua vazia.
— Sua idiota… — resmunguei entre dentes, quase sem ar. — Por que eu tive que sair
de salto…?
O som distante atrás de mim fez meu coração disparar ainda mais.
Sem pensar muito, me encolhi ainda mais atrás do contêiner de lixo, o cheiro forte
quase me denunciando, mas eu não me movi.
Nem respirei direito.
O medo me deixava rígida, presa naquele canto apertado entre o plástico rígido frio e
a parede.
Levei as mãos até a boca num impulso rápido, tampando-a com força, tentando
impedir até o menor som de escapar.
Meus dedos tremiam contra os lábios, e eu fechei os olhos por um segundo, como se
isso pudesse me tornar invisível.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que alguém poderia ouvir.
tela preta.
Sem bateria.
Celular… descarregado.
Alguns papéis amassados.
Maquiagem.
Foi então que vi o barista do bar, parecia estar conversando com alguém, mas eu não
conseguia ver quem era, por conta da multidão que se aglomerava ao redor.
Com o corpo paralisado pelo medo, observei a cena, tentando encontrar uma saída.
O homem riu de algo que o barista disse, e isso me fez estremecer.
"Ele está aqui, eu preciso sair agora.", pensei, olhando rapidamente para os arredores.
Fui em direção à saída dos fundos, mantendo a cabeça baixa e tentando parecer
despreocupada.
O coração batia forte, e cada passo parecia um desafio.
"Se eu conseguir sair daqui, talvez eu tenha uma chance.", pensei, enquanto me movia
discretamente, pronta para deixar aquele lugar e encontrar um novo refúgio.
Enquanto me movia em direção à saída dos fundos, não consegui resistir a um último
olhar para o homem.
Ele estava lá, ainda conversando com o segurança, mas algo me fez hesitar. Nossos
olhares se encontraram por um breve momento, e o mundo ao meu redor pareceu
congelar.
Os olhos dele eram frios e calculistas, uma mistura de confiança e determinação que
me fez sentir um frio na espinha.
Um calafrio percorreu meu corpo, e percebi que ele sabia que eu estava ali, que eu o
via.
A troca de olhares foi como um choque elétrico.
Ele sorriu, um sorriso que não transmitia qualquer bondade, e aquela expressão me
fez sentir vulnerável.
Naquele instante, tudo ficou claro. Eu não podia ficar ali mais um segundo.
O instinto de sobrevivência tomou conta de mim, e, sem pensar duas vezes, me virei e
corri em direção à saída.
O coração pulsava em meu peito, e a adrenalina me impulsionava.
A porta dos fundos se abriu com um rangido, e eu não olhei para trás.
A luz da lua iluminava a rua deserta, mas não havia tempo para pensar. Corri com
todas as minhas forças, as sombras me envolvendo enquanto eu buscava um lugar
seguro.
O som dos meus passos ecoava, e a sensação de ser seguida voltou com força total.
Cada esquina que eu dobrava era uma pequena vitória, mas o medo de que ele
estivesse logo atrás de mim não me deixava.
"Preciso encontrar ajuda.", pensei, enquanto disparava pela madrugada, determinada
a não ser capturada novamente.
A dor começou a crescer rápido, queimando na planta dos pés, subindo pelos
tornozelos.
Cada impacto no chão parecia errado, como se meus pés não fossem feitos para
aquilo.
Precisava.
Eu estava em desvantagem.
O medo de cair começou a travar meus movimentos, me fazendo hesitar por frações
de segundo que pareciam enormes.
Ele me levou para uma pequena sala de descanso, que tinha uma pequena janela que
mostrava a entrada do posto.
— Fica aqui. — ele disse, fechando a porta rapidamente. — Vou ver o que posso
fazer.
Por alguns minutos, tudo o que eu consegui fazer foi ficar ali, tentando recuperar o
fôlego.
Devagar.
Fundo.
Nada.
Ninguém.
A dor nos pés voltou a se fazer presente agora que eu não estava correndo.
Eu estava exausta.
Minhas mãos continuavam tremendo, e levei um tempo até conseguir respirar sem
que o ar falhasse no meio do caminho.
— Tá tudo bem… — murmurei para mim mesma, mais como uma tentativa de
acreditar do que qualquer outra coisa. — Ele não me seguiu… — sussurrei, tentando
convencer a mim mesma.
Soltei o ar devagar, deixando os ombros relaxarem pela primeira vez desde que tudo
começou.
Fiquei ali por mais um tempo, ouvindo apenas o som distante dos carros passando do
lado de fora e o leve zumbido das luzes do posto.
Cada segundo que passava aumentava aquela sensação estranha no peito, como um
aviso silencioso de que aquilo ainda não tinha acabado.
E então…
A porta se abriu.
Ela caiu no chão com um estrondo alto demais, ecoando pelo corredor silencioso.
— Preciso sair daqui. — murmurei para mim mesma, enquanto corria em direção à
saída.
Corri pelas ruas com o ar queimando na garganta, o corpo indo mais rápido do que
eu conseguia pensar. Olhar para trás virou um reflexo.
Rápido, quase automático.
Só o suficiente para confirmar que ele ainda estava lá.
Eu precisava desaparecer.
Eu estava exposta.
Eu ainda estava ali, porém, uma parte de mim parecia ter ficado para trás, presa no
movimento da corrida.
Mas então…
Passos.
Então, o olhar dele se fixou em mim, como se já soubesse exatamente onde eu estava.
— Você não vai fugir por muito tempo. — ele disse, a voz baixa, quase calma demais
para alguém que estava perseguindo outra pessoa.
Tempo suficiente.
Saí do esconderijo antes que ele desse o primeiro passo e disparei na direção oposta,
mas dessa vez não fui pelo caminho iluminado.
Cortei entre as árvores, escolhendo o escuro.
Saí do caminho de concreto sem pensar, cortando pela terra na tentativa de ganhar
distância.
Mas, a terra solta cedia sob meus pés, fazendo o salto afundar a cada passo, roubando
qualquer impulso que eu tentava ganhar.
Escorregava, falhava… me atrasava.
Os sapatos já me atrapalhavam…
mas ali, na terra fofa e desigual, parecia impossível correr de verdade.
Mais rápido.
Mais perto.
Depois o outro.
O chão gelado e irregular bateu direto na pele, mas eu voltei a ganhar velocidade.
Respira.
Pensa.
Na curva entre os arbustos, diminuí um pouco o ritmo, forçando o corpo a não fazer
tanto barulho.
Meu olhar correu rápido pelo chão, pelas sombras, em busca de qualquer coisa que
pudesse me dar uma vantagem.
Então vi o galho.
Seco.
Grande o suficiente.
Se ele estava me seguindo pelo som… então eu precisava fazer ele ouvir o que eu
quisesse que ele ouvisse.
Esperei um passo.
Mais um.
O galho arrastou pelas folhas secas, estalando alto no silêncio, como passos apressados
fugindo naquela direção.
Sem olhar para trás, segui pelo caminho contrário, prendendo a respiração e tentando
fazer o mínimo de som possível.
Não.
Cruzei o parque quase no limite, desviando sem pensar, até ver a saída iluminada à
frente.
Dessa vez, não desacelerei.
O som dos meus passos se misturava com o barulho da cidade, mas a sensação de estar
sendo seguida era palpável.
Corri mais rápido, atravessando ruas e bequinhos, mas a cidade parecia um labirinto
sem fim.
Encontrei uma sala lateral, parcialmente aberta, que dava visão direta para o espaço
principal do prédio.
Meu coração batia a mil por hora, e a escuridão ao meu redor parecia me engolir.
O silêncio era ensurdecedor, e eu me forcei a ficar parada, tentando controlar o
tremor do meu corpo, e a minha respiração.
Mas logo ouvi os passos do homem se aproximando, e a tensão na sala aumentou.
Ele entrou no prédio, e o som da sua respiração ofegante me fez sentir um frio na
espinha.
— Onde você está? — ele chamou, a voz baixa e ameaçadora. — Eu sei que você está
aqui.
O pânico tomou conta de mim, e eu sabia que precisava ser rápida.
Pela abertura da sala, vi quando ele passou, o olhar percorrendo o lugar com atenção,
analisando cada detalhe.
Por um segundo, tive certeza de que ele iria parar, virar na minha direção… entrar.
Passou direto.
Não me viu.
Esperei alguns segundos, mesmo depois que os passos começaram a se afastar, sem
confiar no silêncio de imediato.
Quando tive certeza de que ele já estava distante, decidi que não podia ficar ali.
Talvez porque a ideia de ele voltar ali não saía da minha cabeça.
Com um movimento rápido, saí do meu esconderijo e segui em direção à saída
oposta.
O coração pulsava de medo, mas a vontade de escapar era mais forte.
Veio de certeza.
A cidade estava viva ao meu redor, mas eu não tinha tempo para pensar.
O homem estava atrás de mim, e o som dos seus passos se aproximando parecia
ensurdecedor.
Entrei em uma rua deserta, a luz fraca dos postes lançando sombras longas. O silêncio
era palpável, mas não havia tempo para relaxar. Meus pés se moviam rapidamente, e
encontrei um espaço estreito entre os prédios, onde me escondi atrás de uma pilha de
entulhos.
O coração batia forte, e a esperança de que ele não me encontrasse me envolveu por
um breve momento.
No entanto, eu o escutei.
O assobio dele ainda ecoava na minha cabeça, mesmo quando não dava mais para
ouvir.
Era isso que mais me incomodava.
Durante toda essa perseguição, havia algumas coisas que eu simplesmente não
conseguia entender:
Por que esse homem estava tão determinado a me seguir daquele jeito?
Eu já havia percebido que a maneira como ele se movia era estranha, como se estivesse
perdido em um transe, e isso aumentava minha ansiedade.
—Eu te achei! — ele disse, com um tom amargo na voz, e um sorriso assustador.
Contornei o beco e corri com todas as minhas forças, o som dos meus passos ecoando
na rua vazia enquanto ele vinha logo atrás, ainda mais determinado a não me deixar
escapar.
Corri em linha reta, passando de um quarteirão por pouco… antes que meu fôlego
começasse a falhar.
Meu corpo estava ficando pesado e minhas pernas começaram a tremer enquanto eu,
numa tentativa falha, tentava recuperar o fôlego.
Meu celular foi junto, batendo contra o asfalto e deslizando um pouco antes de parar,
com a tela estilhaçada na parte de cima.
Antes que eu pudesse reagir, ele me agarrou com um dos braços, firme demais, me
prendendo contra ele.
A outra mão veio direto para minha boca, abafando qualquer som enquanto ele me
forçava a virar o rosto na direção dele.
O mundo ao redor pareceu parar.
Ele estava suado assim como eu.
O cheiro de álcool e suor invadiu meu nariz, e uma onda de pânico tomou conta de
mim, fazendo meu coração disparar.
— Ah, não precisa chorar. Pode ficar tranquila, eu não irei fazer nada demais com
você. Eu só quero me divertir um pouco. — ele se inclinou levemente, e sua voz veio
baixa, quase um segredo, roçando meu ouvido quando sussurrou aquela última frase,
e então se afastou só o suficiente para voltar a me encarar nos olhos.
Ele possuía um olhar cheio de maldade e um largo sorriso em sua face. Eu precisava
fazer algo, se eu não fizesse, ele faria.
— ME LARGA OU EU VOU—
— Chamar a polícia? Não, não… — ele murmurava enquanto passava um dedo pelos
meus lábios. — Você não faria isso. Porque se você fizesse… Me obrigaria a fazer algo
que eu não quero fazer.
Essa última frase foi o golpe final.
A confirmação do que, no fundo, eu já sabia.
— ME LARGA! — gritei desesperada, tentando usar minha força contra ele. Sem
sorte.
— Fica calminha. Eu prometo que não vai doer nada… — e então ele me beijou.
Eu me debatia sem parar, mas quanto mais eu tentava me soltar, mais ele me puxava
para perto, apertando meu pulso com uma força que fazia doer.
Sua boca tinha gosto de cigarro e mais alguma coisa que me deixou com vontade de
vomitar.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto um som preso, quase um gemido,
escapava de mim. Eu mal conseguia respirar direito.
Então, num impulso desesperado de defesa, eu mordi seus lábios com toda a força
que ainda me restava.
Ele recuou com um som de dor, finalmente me soltando, a mão indo direto aos lábios
feridos.
Aproveitei aquele instante.
Ele limpou o sangue com a palma da mão, que agora estava suja com o líquido
vermelho.
Antes que eu pudesse reagir, seus dedos haviam se fechado nos meus cabelos.
— Então é assim que vai ser? Tá bom, vamos fazer do jeito difícil então. — ele falou
enquanto puxava meu couro cabeludo cada vez mais forte.
Eu não sabia o que fazer, só sabia que, se eu não fizesse nada, não haveria tempo.
Pensei no Noah.
Sobre nós.
Um soco.
Alguém havia acertado o rosto do homem.
Foi tão forte que era possível escutar o som do punho batendo contra os dentes.
A forma brusca que o homem me largou, fez com que meu corpo ficasse no ar,
caindo em câmera lenta, e por um momento pensei ter visto quem havia dado o
golpe.
Não consegui ver seu rosto, foi tudo muito rápido, mas pude perceber que era um
homem.
Um jovem.
Me lembrava de alguém.
Mas eu só conseguia prestar atenção nos sons de luta que ecoavam do local.
🎵
Eles estavam trocando socos, e chutes.
Se a polícia aparecesse, ambos seriam presos sem hesitação pela forma que se
atacavam.
O ar, antes morno, agora parecia frio, e o cheiro de poeira misturado a algo metálico
preenchia o ambiente.
O som foi diferente, como se tivesse atingido algo que não reagiria mais.
O silêncio caiu de repente, como uma cortina pesada após um ato intenso.
Era estranho demais, depois de tantos golpes, e meu ouvido ainda esperava o próximo
impacto, alguma respiração falha.
E, de repente…
Os socos voltaram.
Eles haviam diminuído, mas era possível escutá- los frequentemente vindo de uma
direção.
O homem não parava de golpear seu rosto, mesmo o outro estando desacordado.
O som ecoava estranho na minha cabeça, como se viesse de longe e ao mesmo tempo
estivesse grudado nos meus ouvidos.
Cada impacto seco parecia atravessar o ar pesado daquela rua.
Eu não conseguia enxergar direito, mas conseguia sentir.
O ritmo irregular dos golpes, a respiração ofegante de quem ainda estava de pé, e o
silêncio assustador de quem já não reagia.
Ele continuava a golpear, e cada soco parecia um eco da dor que eu havia sentido.
Enquanto a cena se desenrolava, uma parte de mim queria gritar para parar, mas
outra parte queria que ele continuasse, que aquele pesadelo não tivesse chance de se
repetir.
Pude escutar soluços, enquanto ele continuava golpeando o homem cada vez mais
rápido.
E com mais força.
E mais força.
E mais força.
Ele saiu de cima do homem e sentou ao lado do corpo, enquanto tentava recuperar
seu fôlego.
O peito subia e descia de forma irregular, como se cada respiração ainda carregasse o
peso do que tinha acabado de acontecer.
Meu nome...?
Não. Não poderia ser isso.
Entretanto, meu corpo reagiu de uma forma que a mente não conseguia explicar.
Uma familiaridade, um reconhecimento que parecia vir de um lugar mais fundo que
a consciência.
O ar dos meus pulmões, antes preso em um nó de pânico, se dissolveu no instante em
que sua mão se estendeu para me erguer.
Sem hesitar, meus dedos frios encontraram os dele, aceitando o seu apoio.
A proximidade dele era quase sufocante, um calor repentino contra o frio que me
envolvia.
Suas mãos, que eu senti tremerem levemente, se ergueram para o meu rosto. 🎵
O toque era de uma delicadeza quase dolorosa, como se eu fosse feita de vidro e
pudesse quebrar a qualquer instante.
Seus olhos aparentavam varrer meu corpo em uma busca por qualquer sinal de dano,
cada olhar, um questionamento mudo.
Uma ansiedade colossal parecia irradiar dele, suas feições tensas e o maxilar cerrado
denunciavam um desespero que não precisava de palavras.
Seus olhos, que antes vasculhavam meu rosto em busca de ferimentos, se elevaram
lentamente para encontrar os meus.
Neles, vi um turbilhão de sentimentos, uma angústia silenciosa que me atingiu em
cheio.
— Você está bem? Ele fez alguma coisa com você? — ele perguntou. Sua voz saiu
trêmula e frágil.
O desespero o consumia, mas era a preocupação avassaladora que seus olhos não
conseguiam esconder. Eles eram um espelho de um medo profundo, de um "e se" que
poderia ter acontecido.
Não encontrando nenhum ferimento aparente, seu olhar se cravou no meu, agora
com olhos esperançosos.
Aguardando uma resposta que só eu poderia dar.
Abri a boca, mas as palavras simplesmente não saiam, estavam presas em minha
garganta.
Devia ser o peso daquele olhar fixo, tão profundo e intenso, que me deixava
completamente nervosa e confusa, como se cada célula do meu corpo estivesse sendo
analisada.
Era como se meu cérebro tivesse travado, incapaz de formular uma única frase.
Diante da expectativa silenciosa dele, a única coisa que consegui fazer foi balançar a
cabeça negativamente, um gesto simples que poderia dizer a ele as palavras que não
foram ditas.
"Não. Estou bem.”
Ele pareceu perceber minha hesitação, minha dificuldade de falar qualquer coisa, e
me olhou novamente. Seus olhos, ainda esperançosos, agora carregavam uma sombra
de dúvida, como se o meu aceno não tivesse o convencido completamente.
Ele continuou me encarando, como quem esperava um sinal, alguma palavra a mais
que pudesse sair de mim.
Vendo que ele estava determinado a ter a certeza absoluta de que eu não havia sido
ferida, que ele não desistiria até que eu o convencesse, abaixei o olhar, me sentindo
encurralada pela sua persistência.
Respirei fundo antes de encará-lo, e me rendi a sua preocupação.
— Eu estou bem. De verdade. — consegui dizer, as palavras saindo um pouco mais
firmes do que eu esperava, mas ainda com a marca da tensão que me percorria.
Meu coração dá um salto, surpresa, e meus braços se erguem quase sozinhos, como se
soubessem o que fazer.
Minhas mãos ficam suspensas no ar, próximas demais para fingir indiferença,
distantes demais para realmente abraçá-lo.
Há um segundo de dúvida, não por medo, mas por não saber se devo avançar ou
apenas aceitar.
A mão que estava na minha cabeça deslizou, e o braço nas minhas costas se ajustou,
descendo até encontrar a minha cintura, como se fosse o lugar mais natural para ficar.
Meus braços ainda estão meio levantados, indecisos, quando sinto o toque firme
alcançar o meu abdômen e, então, se ajustar à minha cintura.
Seus braços envolveram a minha cintura com força, mas sem me machucar, e pude
sentir o calor do seu corpo contra o meu, o cheiro dele me envolvendo.
Ele apoiou o queixo no meu ombro, e por um momento ficamos ali, na segurança
daquele abraço, como se o tempo tivesse parado.
Fiquei confusa com a intensidade daquele gesto, surpresa pela forma que ele me
apertava, mas, sem pensar muito, correspondi, passando os meus braços pelo seu
pescoço.
Eu, de alguma forma, me senti bem com seu abraço, uma sensação de conforto
estranhamente familiar que me acalmou instantaneamente.
No entanto, algo me deixou pensativa.
Com minha visão ainda embaçada, eu ainda não conseguia distinguir com clareza
quem era a pessoa que me abraçava. Mas, pela intensidade e pelo carinho do gesto, eu
tinha certeza de que ele não era um estranho.
"Noah".
Aquele cheiro, a força do abraço, a forma como ele me protegia... Tudo gritava o nome
dele.
Minha mente estava em branco. Ninguém mais vinha a mente daquela mesma forma,
com aquela mesma sensação de pertencimento. Era como se meu corpo soubesse,
mas minha mente se recusasse a aceitar.
A falta de outras opções só reforçava a ideia que eu tanto tentava afastar.
Aquele momento, que deveria ser de pura tranquilidade, se transformou em um
turbilhão de incertezas.
Eu precisava saber.
— Me desculpe por perguntar, mas… nós nos conhecemos? — murmurei, cega pela
dúvida, com o coração batendo forte no peito. 🎵
Ele se afastou lentamente, como se minha pergunta tivesse o atingido em cheio,
quebrando o feitiço do abraço. Seus braços, antes firmes na minha cintura, se
soltaram devagar.
Ele deu um passo para trás, criando uma distância que antes não existia.
Seus olhos estavam fixos nos meus.
O alívio de antes foi substituído por uma expressão de choque e mágoa que cortou
meu coração.
Aquele olhar...
Era um olhar que eu não queria ter causado.
— Você... não me reconhece? — ele começou, com a voz rouca, num sussurro pouco
perceptível. — Eu.. eu pensei que.. — sua voz falhava, parecia ter dificuldade de
encontrar as palavras certas.
— Você... realmente não se lembra? — sua voz estava carregada de uma dor que me
fez encolher.
Eu não pude responder a sua pergunta. Eu não fui capaz de pensar em uma resposta
que pudesse ser dita.
Mas meu silêncio pareceu responder por mim.
Ele balançou a cabeça, não em negação, mas como se estivesse tentando afastar uma
realidade que se recusava a aceitar.
Um sorriso amargo e triste se formou em seus lábios, e ele desviou o olhar, como se a
visão do meu rosto fosse dolorosa demais.
— Não importa. — ele murmurou para si mesmo. Era quase inaudível, como se
estivesse tentando convencer mais a ele do que a mim.
Quando ele voltou a me encarar, seus olhos estavam vazios, sem resquício algum de
qualquer emoção.
Seu rosto possuía uma expressão fria, como se cada sentimento tivesse sido deixado
para trás.
Um suspiro pesado escapou de seus lábios, e ele balançou a cabeça lentamente, como
se estivesse tentando processar algo inacreditável.
— Não. Não nos conhecemos. — ele murmurou, com uma tristeza profunda e
cortante na voz.
O silêncio que se seguiu era pesado, preenchido apenas pelo eco da sua voz
melancólica, e pela distância que ele havia colocado entre nós.
Uma pontada de confusão me atingiu, misturada com uma dor estranha que eu não
conseguia identificar.
Meu corpo parecia reagir a tristeza em sua voz e ao vazio em seus olhos, uma angústia
que eu não entendia, mas que me deixava um gosto amargo e inexplicável na boca.
Era como se meu peito se apertasse por algo que eu deveria saber, mas que minha
mente se recusava a aceitar.
Ainda assim, no meio daquela explosão de emoções, uma parte de mim sentiu um
impulso urgente de falar, de quebrar o silêncio.
— Obrigada.. — eu sussurrei, com a voz quase tão fraca quanto a dele. — Por ter me
salvado daquele homem.
Seus olhos, ainda vazios, se desviaram dos meus para um ponto qualquer.
Mas não havia arrependimento neles.
Havia apenas uma aceitação cansada, como se me salvar fosse algo que ele faria de
novo, mesmo que isso o levasse a este exato momento.
Minha curiosidade me fez desviar o olhar dele e buscar o homem de quem ele me
salvou.
— Você é louco?!
— Ele mereceu.
— É. Podia.
— Esse lugar pode estar cheio de câmeras, o que você acha que vai acontecer se a
polícia descobrir?! — minha voz subiu um tom, a preocupação e a raiva se tornando
um só.
— Eu não me importo.
Seus olhos voltaram para mim, e ele murmurou, quase para si mesmo,como se a frase
escapasse sem sua permissão, mas era alto o suficiente para que eu ouvisse:
Senti um calor estranho subir pelo meu rosto, e meu coração acelerou de uma forma
que não entendi.
As luzes da rua, o corpo no chão, tudo se recompôs, mas as suas palavras ainda
pairavam no ar.
Era ele.
"Não é real", pensei, minha mente insistindo em negar o que meus olhos viam.
"Essa maldita bebida deve ter me feito alucinar de novo. É só mais uma daquelas
miragens, uma visão do rosto dele, como já aconteceu das outras vezes em que eu bebi
demais. Não é real. "
Mas, por mais que eu tentasse me convencer de que era uma ilusão, algo dentro de
mim gritava o contrário.
Eu congelei por um instante, ainda perdida entre a confusão e o impacto de vê-lo ali
de verdade.
Ele usava uma camiseta preta colada ao corpo que marcava cada movimento da
respiração dele, subindo e descendo de forma pesada, como se ainda estivesse
tentando recuperar o fôlego.
Os contornos firmes ficavam levemente marcados sob a blusa, revelando a força
contida ali.
O tecido escuro contrastava com a luz da lua, delineando seus ombros, o peito, a
tensão evidente em cada músculo.
A calça de moletom cinza, simples, completava a imagem de alguém que tinha saído
às pressas.
A presença física dele, parecia sólida demais, real demais para ser apenas uma
lembrança da minha mente.
Meus olhos subiram devagar pelo rosto dele, como se não conseguissem parar.
Noah estava à minha frente de um jeito quase irreal sob a luz da lua.
O brilho prateado cortava o contorno do rosto dele, destacando cada detalhe com
uma nitidez dolorosa.
A testa dele estava levemente brilhante de suor, como se tivesse corrido ou procurado
por algo, ou alguém, por muito tempo.
O cabelo estava bagunçado, caindo de forma desordenada sobre a testa, dando a ele
um ar ainda mais humano, mais real.
Parecia ele.
De verdade.
Hipnotizada.
Mas mesmo com toda a evidência dos meus sentidos, eu ainda me agarrava à ideia de
que tudo não passava de uma alucinação, repetindo para mim mesma que era
impossível.
Uma tristeza pesada apertou meu peito, como se aquela visão fosse bonita demais
para durar, ou dolorosa demais para ser real.
Os olhos de Noah, antes fixos nos meus, agora refletiam uma confusão seguida de
uma visível preocupação.
Ele deu um passo na minha direção, com a testa franzida.
Ele se aproximou com os olhos arregalados de desespero ao ver minhas lágrimas.
A forma como ele me olhou, com uma mistura de pânico e dor, fez meu coração se
apertar ainda mais, e a mão dele me tocou de leve, trêmula.
Ele parecia angustiado, como se a minha dor fosse a dele.
Naquele momento, eu senti uma mistura avassaladora de alívio e confusão, ainda
maior que a intensa preocupação que ele não conseguia esconder.
— Ei, ei...Calma, não chore… — ele pediu, com a voz baixa, tentando
desesperadamente me acalmar. Mas, por trás da preocupação, era possível também
ver a fúria em seu olhar. Ele completou, com a voz grave e tensa:
Eu mal conseguia processar a mudança em seu semblante. Seus olhos, antes cheios de
raiva, agora se suavizaram em angústia, e ele me olhava com uma intensidade que me
desarmava.
— Não é isso... — eu murmurei, a voz baixa e fraca pelas lágrimas que ainda desciam,
sentindo uma pontada de culpa por vê-lo tão aflito.
Ele se aproximou mais um pouco, a preocupação evidente em cada linha do seu rosto.
Havia algo em seu olhar, uma necessidade de entender que me fez sentir um nó na
garganta.
— Então por que você está chorando? — ele perguntou, a voz agora mais baixa,
quase um sussurro, carregada de uma confusão e um medo.
Eu desviei o olhar, envergonhada, sentindo que meus problemas eram bobos demais
para a intensidade da sua reação.
Ele suspirou, um som pesado que revelava sua frustração e a persistência de sua
preocupação. Ele segurou meu rosto com as mãos, me forçando a encará-lo, e seus
olhos transmitiam uma seriedade inabalável.
— Se isso te incomoda, você devia falar. — ele falou, a voz firme, mas gentil, deixando
claro que para ele, a minha dor, fosse ela qual fosse, era importante. Sua determinação
em me fazer falar era evidente, e eu senti um calor estranho se espalhar pelo meu
peito.
Eu respirei fundo, meus olhos, agora vermelhos pelas lágrimas estavam fixos nos
deles, sentindo uma vergonha profunda, mas também uma necessidade desesperada
de que ele entendesse.
— Isso pode parecer bobo, e eu nem sei como dizer... — comecei, com a voz
falhando. — Mas as vezes, quando eu bebo demais, eu começo a ver coisas. Tipo...
alucinações de uma pessoa. E isso está acontecendo agora. Parece que estou vendo o
rosto dele em você, e isso está me confundindo de um jeito que eu não consigo
explicar.
Ele não me soltou, mas seus dedos começaram a acariciar minhas bochechas
suavemente, enxugando as lágrimas.
— Você está vendo ele em mim? — ele perguntou, a voz agora tão suave que me fez
sentir um arrepio.
— E por que você não me reconheceu, então? Quero dizer.. Por que você não
reconheceu o rosto dele? — ele perguntou, a voz baixa, com seus olhos fixos nos
meus, buscando uma resposta que eu não sabia dar.
— Bateu a cabeça? - ele perguntou, a voz agora mais firme, porém com um tom
preocupado. — Onde? Deixa eu ver.
— Não, não, está tudo bem. — respondi, tentando levemente afastar a mão dele que
se estendia para tocar minha cabeça. — Foi só um susto. Não foi nada demais.
— Esse homem que você vê em mim… — ele começou, a voz mais baixa, quase um
sussurro, e seus olhos fixos nos meus. — Como ele era? Descreva para mim.
Eu hesitei.
— Por favor. — ele pediu, a voz grave e suave, sem qualquer exigência, mas com uma
intensidade que me fez levantar os olhos para encará-lo novamente.
— Ele... ele era alto. — comecei a falar, a voz baixa e rouca, cada palavra um esforço.
— Cabelos pretos, muito pretos, e olhos... os olhos dele eram tão escuros que
pareciam pretos também. A pele dele era pálida, quase sem cor, e ele era forte, muito
forte. Não de um jeito bruto, mas com uma força que me fazia sentir segura... e ao
mesmo tempo, completamente vulnerável.
Eu o encarei, enquanto conseguia sentir uma dor antiga e uma culpa profunda se
instalar sob o meu ser outra vez.
A pergunta dele, tão suave, abriu ainda mais uma ferida que já estava aberta. Um
suspiro pesado escapou de meus lábios, carregado de arrependimento.
Uma lágrima escorreu pela minha bochecha, e meus lábios tremeram levemente antes
de continuar.
Minha voz saiu baixa, quase um sussurro de desespero, que carregava uma pequena
parte da culpa que me consumia.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios. Ele soltou minhas mãos suavemente e, com
uma delicadeza de quem tocava uma frágil peça de museu, levou o polegar até minha
bochecha, limpando a lágrima que escorria. Seus olhos, que antes estavam cheios de
uma pequena esperança, brilhavam com uma intensidade avassaladora, enquanto
suavizaram, com uma evidente compaixão, o peso da minha frase ainda parecia ecoar,
como uma dor compartilhada.
— Você quer falar sobre isso? — ele perguntou em um tom suave, quase um convite,
a voz carregada de gentileza e acolhimento.
Senti um arrepio passar por todo o meu corpo. 🎵
A forma como ele me olhava naquele momento, com uma mistura de carinho,
preocupação e uma pitada de algo mais profundo, era exatamente como Noah
costumava me olhar.
Era um olhar que eu conhecia bem, que fazia eu me sentir vista e compreendida.
E olhando para o rosto dele, para aquele rosto tão familiar, a vontade que eu tive de
me abrir era quase incontrolável.
Aquilo era pessoal demais, íntimo demais para ser compartilhado com alguém que eu
nem conhecia.
Mas a confusão do álcool borrava as linhas, e a necessidade de desabafar, de aliviar o
peso que eu carregava, era um grito silencioso em meu peito.
Aquele olhar, tão parecido com o dele, me embalava em uma falsa segurança. E assim,
vencida pela vulnerabilidade e pela bebida, eu me entreguei, as palavras foram
pronunciadas, quentes e dolorosas.
— No começo, a gente se odiava, sabe? Pelo menos, eu o odiava. Não sei como, mas
ele se apaixonou por mim primeiro. Eu não percebi na época, estava completamente
cega pelo meu melhor amigo. Uma paixão de anos, que nunca foi correspondida. Eu
me agarrava a essa ideia, a esse amor de infância.
Acabei rindo, um riso sem humor, lembrando da ideia que um dia passou pela minha
cabeça.
— Até que um dia, ouvi alguém dizer que "homens só dão valor quando perdem". E
quando descobri que Noah estava apaixonado por mim, uma ideia estúpida me veio à
mente. Eu pensei: "Vou dar uma chance ao Noah, talvez assim meu melhor amigo
perceba o que está perdendo e finalmente me veja". — eu soltei um suspiro,enquanto
as lembranças me consumiam. — Mas o plano não deu certo. O meu melhor amigo
nunca percebeu nada. E, sem que eu percebesse, eu comecei a me apaixonar pelo
Noah de verdade. A forma como ele me olhava, como me tratava, me fazia sentir a
pessoa mais especial do mundo. Eu comecei a amá-lo de verdade, sabe? E então
ficamos oficialmente juntos. Tudo era perfeito com ele.
Dei uma breve pausa para respirar, enquanto sentia as lágrimas se formando em meus
olhos. Me forcei a segurá-las, mas uma delas acabou rolando em meu rosto.
Limpei a lágrima com a palma da mão, irritada comigo mesma.
— Até que, um dia, ele descobriu. E ficou arrasado. Ele deve ter se sentido traído, eu
sei. Tivemos uma briga horrível, a pior de todas. Ele pediu um tempo para processar
tudo. Dias se passaram, e ele mal conseguia olhar para mim. Eu sabia que ele estava
machucado, e isso me destruía. Mas eu também não conseguia mais ver o nosso
relacionamento andando da mesma forma que antes, com essa sombra entre a gente.
Então, eu acabei com tudo. Disse que era melhor cada um seguir seu caminho. E ele…
nem pareceu se importar.
Eu finalmente voltei a encará-lo e o que vi em seus olhos não era apenas compaixão,
nem a gentileza de um estranho. Era algo mais profundo.
Era o reflexo de tudo que eu havia acabado de confessar, mas com uma dor ainda
mais antiga e pesada.
Naquele olhar, eu vi anos de amor não correspondido, de esperança e de mágoa.
— Eu tentei seguir em frente. Mas é tão difícil...Cada música, cada lugar... Tudo me
lembra dele. E o pior é que eu sei que a culpa é minha, eu comecei com uma mentira.
— E para completar a tragédia, ainda me pego contando a minha vida para um belo
estranho, no meio de uma rua desconhecida, em plena madrugada. Meu nível de
desespero deve estar altíssimo mesmo! — Eu soltei uma risada curta e sem humor,
enquanto balançava a cabeça. 🎵
Ele me ouviu em silêncio, a expressão em seu rosto era uma mistura de dor e
compreensão.
Ele não fez perguntas, não me interrompeu, apenas absorveu cada palavra dita por
mim.
Seu olhar repousou sobre mim, e algo nele estava diferente, mais intenso.
Seus olhos agora pareciam brilhar com uma luz própria, que competia com o brilho
da lua, refletindo uma constelação de emoções que eu não conseguia decifrar.
Era uma mistura de algo que me fazia prender a respiração.
— Você realmente se arrepende? — ele perguntou, a voz baixa, mas carregada de uma
seriedade que me fez estremecer.
— Sim, eu... eu me arrependo de ter falado tanto para você, de ter te sobrecarregado
com meus problemas. — eu comecei, com a voz trêmula, tentando justificar a
avalanche de palavras que havia despejado sobre ele.
— Não é sobre isso que estou falando. — ele disse, a voz ainda baixa, mas com uma
clareza que não deixava dúvidas. Seu olhar não vacilou. — Você se arrepende de ter
feito o que fez com o Noah?
Meus olhos se arregalaram, fixos nos dele, onde a intensidade de antes agora parecia
transbordar de uma dor e compreensão que me desarmou por completo.
Não havia julgamento, apenas uma clareza que me fez sentir vista, em minha mais
profunda vulnerabilidade.
Era como se, finalmente, alguém tivesse visto a ferida mais profunda de minha alma.
Uma lágrima teimosa rolou em minha bochecha mais uma vez, quente e pesada. A
voz que saiu de meus lábios estava rouca e baixa, um sussurro quase inaudível, mas
possuía o peso de um fardo que eu carregava há muito tempo.
Ele soltou o ar que parecia estar prendendo há uma eternidade, um suspiro longo e
pesado, como se um peso imenso tivesse sido tirado de seus próprios ombros
também.
Seus olhos, ainda fixos nos meus, se suavizaram um pouco, mas a intensidade
permaneceu, agora com uma profunda compaixão.
Ele me observou por um momento, absorvendo a sinceridade de minhas palavras.
— Por que você não fala isso para ele? — ele perguntou, a voz agora mais suave.
Eu acabei soltando uma risada, mas não havia alegria nela.
Era só uma risada falsa e vazia, que tentava mascarar a dor.
Mesmo à beira do sono, com a cabeça em seu peito, eu pude sentir seus batimentos
cardíacos.
Pude ouvir o seu coração, num ritmo descompassado.
A força pulsante contra meu ouvido.
— Não... Ele não te odeia... — Foi tudo o que eu consegui escutar antes de embarcar
até o subconsciente.
✨
Um gemido escapou dos meus lábios antes mesmo de eu perceber que estava
acordada.
Minha cabeça latejava de uma forma familiar e incômoda, um lembrete cruel da noite
anterior.
Meu corpo estava sem energia, cada músculo do meu corpo parecia gritar em
protesto, como se eu tivesse corrido uma maratona.
Uma onda de confusão me atingiu. Eu não tinha a menor ideia de como havia parado
ali.
— Anna...?
Mas não era a Anna. 🎵
Meus olhos, agora um pouco mais focados, encontraram um par de íris negras que eu
conhecia bem, mas que não esperava ver ali, nunca.
Era Noah.
— N-Noah...? O quê... O que você...? — minha voz falhou, as palavras saindo por
um fio, se perdendo em um emaranhado de confusão e surpresa, incapazes de formar
uma frase completa.
Respirei fundo, tentando me acalmar um pouco antes de continuar a falar. — O que
você está fazendo aqui? — eu consegui dizer, as palavras carregadas de espanto e uma
ponta de vergonha.
Assim que as palavras deixam os lábios dele, a dor me atingiu como um raio.
Foi repentino e brutal, como se um martelo estivesse batendo dentro da minha
cabeça.
Ele estava perto, seus olhos fixos em mim, e em segundos, um copo de água fria
apareceu na minha frente.
— Toma, beba devagar. — ele disse, a voz suave, mas firme. — Vai te ajudar com a
ressaca.
Meus dedos, um pouco trêmulos, se estenderam para pegar o copo de sua mão.
Sua expressão permaneceu inabalável, os olhos escuros ainda fixos nos meus.
O tempo pareceu parar, e o único som possível de escutar era a batida acelerada do
meu próprio coração.
A forma como ele me olhava, com uma mistura de admiração e algo mais profundo,
me fez prender a respiração.
Por um instante, eu senti que havia voltado no tempo, voltado para a época em que
tudo estava bem.
Nunca.
"Talvez... talvez isso seja só um sonho." A ideia se instalou na minha mente, ganhando
força.
A dor de cabeça, a presença dele, esse olhar... Era tudo bom demais, intenso demais
para ser real.
— Estou sonhando? — sussurrei, mais para mim mesma do que para ele, a voz quase
inaudível.
Ele piscou lentamente, e por um instante, uma sombra de confusão passou pelo seu
rosto.
Seus olhos, que antes estavam fixos nos meus, baixaram por um segundo para um
ponto qualquer, talvez para o copo em minhas mãos, ou para o lençol, e então
voltaram, com a mesma intensidade penetrante, para os meus.
— Por que você acha isso? — ele perguntou, a voz baixa, mas firme, como se
realmente esperasse uma resposta.
Respirei fundo, sentindo o ar frio arranhar minha garganta.
— Porque... porque você está aqui. E você... está me olhando desse jeito... E isso é
bom demais pra ser verdade. — A última parte saiu quase como um lamento,
carregada de uma vulnerabilidade que eu não pretendia expor.
— Então, eu espero não acordar tão cedo. — respondi, um sorriso pequeno e sincero
surgindo em meus próprios lábios.
Por um instante, vi algo mudar no fundo dos seus olhos, como se minhas palavras
tivessem atravessado uma barreira que ele levou anos para construir.
Ele parecia ter um mundo inteiro para dizer... mas escolheu o silêncio.
Era um silêncio calmo, denso, que parecia nos envolver em uma bolha.
Ele baixou o olhar devagar, percorrendo meu rosto com uma atenção tão profunda
que parecia decorar cada detalhe, até que seus olhos pararam no copo entre meus
dedos.
Uma faixa branca envolvia parte de seu punho e da palma, enrolada com uma pressa
que não combinava com ele.
Pequenas manchas de sangue escapavam pelo tecido, eram discretas, mas impossíveis
de ignorar.
Noah travou.
Ele olhou para o ferimento e depois voltou para mim com um sorriso torto, tentando
esconder o cansaço que agora transparecia em seu rosto.
— Não foi nada sério. Foi só… um pequeno descuido. — A voz dele estava rouca,
carregada de um cansaço que ia muito além da falta de sono.
Coloquei o copo sobre a cômoda com cuidado, sentindo que qualquer ruído poderia
destruir o equilíbrio frágil entre nós.
Meus dedos se moveram devagar, hesitantes, até alcançarem a faixa.
Toquei o tecido com uma leveza quase sagrada.
Os dedos dele se ajustaram sob os meus, um movimento mínimo, mas que entregou
o quanto ele também precisava daquele contato.
— Até mesmo nos meus sonhos você está machucado... — O sussurro escapou,
arranhando minha garganta seca.
Elas saíram quebradas, rastejando pelo silêncio do quarto, pesadas demais para o ar
parado entre nós.
Noah me observou.
Ele baixou o olhar para a própria mão enfaixada e soltou um suspiro que pareceu
carregar o peso de um ano inteiro.
— É só um arranhão, Alex. — ele disse.
Ele diminuía a própria dor para que a minha tivesse espaço para existir.
Suas mãos continuavam entre as minhas, quentes sob a gaze úmida de sangue.
Mesmo ferido, ele me segurava como se eu fosse a única coisa preciosa que restava no
mundo.
— A sua mão está sangrando, Noah. — Minha voz falhou, tremendo junto com o
oxigênio que eu lutava para encontrar. — Não chame isso de arranhão.
Havia um cansaço ali, algo antigo, profundo, de quem passou tempo demais
tentando sobreviver sozinho em um inverno que eu ajudei a criar.
— Alex…
— Isso é culpa minha. Eu menti... eu estraguei tudo. — insisti, segurando a sua mão
ferida com as duas mãos. — Agora você aparece ferido até nos meus sonhos, porque
eu sei que eu te machuquei.
— É por isso que você está aqui? — perguntei, a voz vacilando enquanto eu lutava
para conter as lágrimas que insistiam em se formar. — Pra me lembrar que eu
estraguei tudo?
Ele respirou fundo, tentando manter o próprio mundo de pé, e quando abriu os
olhos, eles brilhavam.
Não de fúria, mas de uma dor tão exposta que era insuportável olhar.
— Você acha mesmo... — a voz dele saiu rouca, quase sem força para existir — que eu
vim até aqui só pra te culpar?
Meu peito apertou tão forte que doeu para respirar.
Ele levou a mão livre ao meu rosto, afastando meu cabelo com uma delicadeza
devastadora.
Seus dedos tremiam, não por dúvida, mas porque ele também estava em ruínas.
— Eu não estou aqui pelo que deu errado entre nós, Alex.
O olhar dele caiu para a própria mão enfaixada, e depois voltou para mim.
O cheiro de chuva e café frio, a respiração instável dele se misturando à minha... tudo
era real demais.
Meu Deus.
Ele me olhava como alguém que volta para casa e a encontra em chamas, mas decide
entrar assim mesmo.
Senti um nó apertar minha garganta, uma mistura de culpa e aquele calor estranho
que só ele conseguia provocar.
Aquelas palavras, aquele olhar... era tudo perfeito demais para ser real.
Eu estava apenas projetando nele a frase que eu mais precisava ouvir, mas que ele
nunca diria.
Minha mente tinha criado um refúgio onde ele não estava bravo, onde ele ainda se
importava, só para eu não me sufocar no meu próprio arrependimento.
Eu desviei o olhar, sentindo o peso do silêncio entre nós, tentando encontrar palavras
que não soassem tão quebradas quanto eu me sentia.
— Você nunca diria isso se realmente estivesse aqui, diria? — perguntei, a voz mal
saindo. — É que… a realidade não é tão legal comigo... porque lá, eu sempre dou um
jeito de estragar tudo.
Ele se aproximou até que não sobrasse mais espaço, até que nossas respirações se
tornassem uma só.
Naquele milímetro entre nós, existia uma vida inteira de coisas não ditas.
Ele levou a mão ao meu rosto, o polegar traçando a linha da minha mandíbula com
uma delicadeza que contrastava com a urgência de sua voz.
— Olha para mim. — ele disse, sustentando o meu olhar com uma intensidade
quase dolorosa, se recusando a me deixar desviar o rosto. — Se você fosse esse caos
todo que diz ser, eu já teria ido embora há muito tempo. Mas eu continuo aqui, não
é?
Ele sustentou o olhar por um tempo que pareceu uma eternidade, como se estivesse
lendo cada uma das minhas rachaduras e decidisse que cada uma delas valia o esforço.
Por um segundo cruel e doce, eu quis acreditar que aquilo não era uma fantasia da
minha mente.
Ele sorriu.
Não o sorriso para o mundo, mas aquele sorriso pequeno, vulnerável e carregado de
uma tristeza que só nós dois entendíamos.
O tempo desacelerou até que sobrasse apenas o ritmo das nossas respirações.
Parecia uma trilha sonora para aquele momento estranho, íntimo e dolorosamente
bonito.
Eu buscava respostas na escuridão das suas íris, e o que encontrei foi um reflexo que
eu não via há muito tempo.
Havia algo além ali, algo que parecia me atravessar, como se ele enxergasse mais do
que eu dizia.
Uma mistura sutil de carinho e uma curiosidade quase palpável, silenciosa… mas
impossível de ignorar.
— Posso te perguntar uma coisa? — ele disse, a voz um pouco mais baixa agora, quase
um sussurro.
Seus olhos, antes cheios de curiosidade, agora se tornaram sérios, quase sombrios.
A pergunta que veio em seguida me atingiu como um golpe inesperado, desfazendo a
leveza do momento.
— Você realmente acha que eu não me importei? Com o nosso término? — A voz
dele era baixa, rouca, carregada de uma mágoa contida que eu nunca imaginei que ele
pudesse sentir.
Ele se importou?
Minha mente girava, tentando processar o que ele havia dito, e a intensidade em seus
olhos me dizia que ele realmente queria saber.
— Por que você quer saber? — consegui responder, a voz um pouco mais fraca do
que eu gostaria, tentando esconder o turbilhão de pensamentos que se formavam.
Ele inclinou a cabeça, seus olhos escuros fixos nos meus. Um brilho quase
imperceptível surgiu neles, uma mistura de vulnerabilidade e uma súplica silenciosa.
Seus lábios se apertaram por um instante antes de ele responder, a voz agora um
pouco mais suave, mas com uma urgência que não podia ser ignorada.
"Por favor, Alex, fale. Eu preciso saber o que você pensa, o que você sentiu."
Era como se ele estivesse me pedindo para abrir uma porta que eu tinha trancado há
muito tempo.
Era como se ele estivesse me dando a permissão para ser honesta, para desenterrar algo
que eu tinha guardado a sete chaves.
— Acho. —a palavra saiu quase inaudível, um sussurro carregado de uma dor antiga
e uma ponta de ressentimento que eu não sabia que ainda existia.
Os olhos dele se arregalaram levemente, e ele franziu a testa, a curiosidade se
misturando com uma confusão genuína. Ele se aproximou um pouco, a intensidade
de seu olhar me prendendo, exigindo uma explicação.
— E por que você acha isso? — a voz dele era baixa, mas firme, sem um pingo de
acusação, apenas uma necessidade real de entender.
Engoli em seco, sentindo minhas mãos começarem a suar. Era difícil revisitar aquele
momento, mas a forma como ele me olhava me deu coragem.
— Quando terminamos... eu queria que você me pedisse pra não ir. Queria que você
me implorasse pra ficar, como da primeira vez, quando você disse que não podia me
perder. Eu esperava que você lutasse por nós. Mas você não fez nada. Você não
transmitiu nenhuma emoção, nem tentou me impedir. Você só … aceitou. E pra mim,
isso significou que você não se importava. Que eu não significava nada pra você
naquele momento.
— Você realmente não entende, não é, Alex? — a voz dele era tão baixa, que eu não
tive certeza se tinha ouvido direito.
Pareceu mais um desabafo para si mesmo do que uma pergunta direcionada a mim.
Minha testa se franziu em confusão.
Ele balançou a cabeça levemente, os olhos fixos em um ponto qualquer acima do meu
ombro, mas quando seus olhos voltaram a olhar para os meus, havia neles uma
intensidade diferente.
A frustração que havia em seu rosto era palpável, mas em vez de se afastar, ele parecia
paralisado, incapaz de quebrar o contato visual.
Era como se suas pernas quisessem recuar, mas algo em seus olhos o mantinha preso a
mim, uma batalha interna visível em sua expressão.
— Não é nada. — a voz dele saiu um pouco mais ríspida do que o necessário, um
claro sinal de seu desconforto. Ele apertou os lábios, a linha de sua mandíbula tensa, e
então, com um suspiro quase inaudível, acrescentou, a voz um pouco mais suave,
embora ainda carregada de um peso.
— Olha, Alex, é melhor você ir descansar. — enquanto falava, ele se ergueu de onde
estava, e eu o observei, enquanto ele se aproximava ainda mais de minha cama. Com
movimentos precisos e habituais, como se ainda fizesse isso todos os dias, ele
começou a arrumar os lençois amassados, esticando o edredom com cuidado. Era um
gesto tão familiar, tão dele, que me trouxe uma pontada de nostalgia e dor.
Descansar?
Dormir?
A última coisa que eu queria era fechar os olhos e acordar dali a algumas horas, com a
certeza de que ele não estaria mais ali.
Não queria que aquele momento, por mais tenso que fosse, terminasse. 🎵
— Não quero. — minha voz saiu um pouco rouca, um sussurro quase inaudível, mas
carregado de uma emoção crua. Eu senti um nó na garganta. — Se eu fechar os
olhos... você vai desaparecer.
Noah, que já estava ao lado da cama, curvado para arrumar o edredom sobre mim,
parou o que estava fazendo. Seus olhos encontraram os meus com uma intensidade
que fez meu coração acelerar. O brilho que surgiu em suas íris escuras conseguiu
também iluminar seu rosto, e um sorriso doce e gentil surgiu em seus lábios,
suavizando as linhas tensas de seu rosto. Ele se inclinou um pouco mais, e sua voz,
agora um sussurro reconfortante, foi como um abraço.
— Eu não vou a lugar algum. Pode confiar em mim. — ele terminou de alisar o
edredom sobre mim com um toque final, demorando por um instante, como se
quisesse que o calor de sua mão e a sinceridade de suas palavras me envolvesse por
completo.
O gesto simples, combinado com seu olhar e sua promessa, me deu uma esperança
inesperada e uma calma que eu não sentia há muito tempo.
Aquela promessa, aquele olhar... Eu sentia que precisava dizer algo, algo que estava
entalado na minha garganta, algo que eu necessitava que ele soubesse antes que eu
perdesse a chance, antes que eu perdesse a oportunidade.
Ele parou imediatamente, se virando para mim com uma expressão de surpresa, mas
sem tirar o doce sorriso dos lábios. Seus olhos me questionaram em silêncio por um
instante, antes que ele finalmente verbalizasse a pergunta que estava em seu olhar.
— O que houve…? — ele perguntou, a voz ainda suave, mas com um tom de
curiosidade e preocupação.
Meus olhos se fixaram nos dele, a intensidade da minha súplica ecoando no meu
olhar. A verdade escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-la, um grito
silencioso da minha alma.
— Eu queria tanto que você voltasse a me amar... — Minha voz era um sussurro
rouco, carregado de toda a dor e o desejo que eu sentia.
Noah permaneceu em silêncio por um instante, o sorriso doce ainda em seus lábios,
mas seus olhos brilhavam com uma emoção que eu não consegui identificar
completamente.
Em vez disso, ele apertou gentilmente minha mão que ainda segurava seu braço, e sua
voz, agora ainda mais suave, me embalou.
— Durma, Alex. Descanse. — ele me puxou um pouco mais para a cama, ajeitando o
edredom ao redor do meu corpo com um carinho que me fez sentir segura e acolhida.
O calor de sua mão em meu braço e o som de sua voz era como um feitiço.
Justo quando minhas pálpebras estavam quase unidas, eu o vi. Seus lábios se
moveram, formando palavras que foram tão baixas que eu não ouvi, mas que, de
alguma forma, eu achei ter entendido pela leitura labial.
Um sorriso fraco, mas genuíno, surgiu em meus lábios, e uma lágrima solitária
escorreu, perdida no travesseiro.
Com o coração finalmente em paz, eu me entreguei ao sono, sabendo que, talvez,
nem tudo estivesse perdido.
ᴘᴏᴠ
𝓝𝓸𝓪𝓱
Ali estava eu. Mais uma vez, mergulhado na confusão e nas memórias que eu
não conseguia deixar para trás. 🎵
Eu estava no meu apartamento, cercado pelo silêncio do meu quarto, cujo ambiente
era um refúgio de desordem.
As paredes, pintadas de um cinza neutro, pareciam absorver a luz, tornando o
ambiente ainda mais sombrio.
A cama, desfeita, tinha lençois amassados e um travesseiro meio afundado,
testemunhas da minha insônia.
O único som que rompia o silêncio era o da brisa fria que entrava pela janela, fazendo
as cortinas balançarem, e os ecos distantes de explosões e perseguições que ecoavam da
televisão.
Às vezes, um carro passava, quebrando a quietude, mas logo o silêncio voltava, como
a angústia que vinha me consumindo a cada dia.
A luz da televisão lançava um brilho suave nas paredes, enquanto um filme de ação
preenchia o ar com explosões e diálogos intensos.
Mas, à medida que a trama se desenrolava, uma lembrança me atingiu como um
golpe inesperado.
Alex.
A imagem dela, com seu sorriso e suas risadas, apareceu na minha mente.
O peso no meu coração aumentou, e, sem pensar duas vezes, desliguei a TV,
deixando o silêncio tomar conta novamente.
Peguei meu celular e coloquei os fones de ouvido, com o intuito de distrair minha
mente.
Me deitei na cama, enquanto olhava para o teto.
Tentei me concentrar na letra da música, no ritmo.
Porém, mais uma vez, a imagem de Alex invadiu minha mente, como uma sombra
que nunca me abandonava.
O instrumental até tentava me envolver, mas, em vez disso, cada acorde parecia
invocar ainda mais lembranças de Alex.
Eu tentava a todo custo esquecer, superar, mas tudo o que fazia só me trazia mais
lembranças dela.
Parte de mim queria seguir em frente, especialmente por tudo que havia acontecido,
por como tudo aquilo me destruiu. Mas, ao mesmo tempo, era como se uma parte de
mim estivesse presa a ela, incapaz de abrir mão desse sentimento que ainda pulsava.
Era uma batalha interna, e a parte de mim que queria deixar tudo para trás lutava
contra a parte que ainda se agarrava ao que tínhamos.
Nunca imaginei que seria tão difícil tirar alguém da cabeça, superar alguém que
havia se tornado parte de mim.
A presença dela ecoava em cada canto da minha mente. Alex era a prova viva de que
eu estava errado sobre o que pensava saber sobre o amor e a perda. Era como se,
mesmo longe, ela ainda tivesse a capacidade de me prender de alguma forma.
Com um impulso, abri a galeria de fotos. Meu olhar parou nas imagens que tinha, e a
verdade é que eu não conseguia apagá-las.
Em cada foto, eu sorria, e em todas, ela estava ao meu lado.
A única alegria que eu ainda guardava vinha dela.
Foi então que me deparei com uma foto que não lembrava ter.
Ela estava distraída, sorrindo ao observar as flores de um jardim, com o pôr do sol
iluminando seu rosto.
Perdi as contas de quantas vezes quase liguei para ela, me perguntando se, pelo menos
uma vez, ela sentiu algo semelhante ao que eu estava sentindo agora. Mas eu decidi
que não queria saber a resposta.
Talvez porque eu tivesse medo de saber.
Esse conflito me deixava exausto, e eu sabia que precisava dar um jeito de libertar a
dor que me consumia.
— Anna? Como você… — Antes que eu pudesse concluir a minha frase, Anna
encarou meu rosto, como se já soubesse a pergunta que eu iria fazer.
Então, com um olhar sério, ela respondeu apenas com um nome:
— Jean.
Quando Anna falou o nome "Jean", uma onda de compreensão percorreu meu
corpo.
Esse nome era extremamente revelador.
Ele trazia consigo uma série de respostas.
Eu percebi que, sempre que Anna precisava de algo, era Jean quem contava e fazia
tudo por ela, sem pensar duas vezes, o que tornava fácil para Anna descobrir algo
como o meu endereço.
— Então, foi ele quem te disse onde eu moro.. — acabei afirmando, pensando alto.
— Eu deveria ter adivinhado.
Olhei para Anna, tentando decifrar suas intenções.
— Você veio até aqui por causa dele?
Talvez fosse isso, já que Jean parecia realmente preocupado com meu estado atual.
Eu tinha evitado falar sobre isso, e talvez ele tivesse enviado sua namorada, que por
acaso é amiga de Alex, para tentar obter alguma informação de mim.
Quando percebi que Anna estava prestes a responder, uma expressão de seriedade
tomou conta do seu rosto.
— Não é por isso. — disse ela, com um tom que deixava claro que havia mais a ser
revelado.
Ela me olhou de um jeito que despertou uma suspeita dentro de mim. Além de ser
namorada de Jean, Anna também era amiga de Alex, e isso me fazia pensar em
possibilidades que eu preferia não considerar.
— Bom, já que o que você tem a me dizer é tão importante, talvez você queira... —
comecei, fazendo um gesto com a mão em direção à mesa, onde algumas cadeiras
estavam fora do lugar.
Antes que eu pudesse terminar a frase, Anna já havia entendido a sugestão. Ela me
lançou um olhar agradecido e disse: — Quero sim, muito obrigada. — ela disse, com
um leve sorriso no rosto, enquanto se dirigia à mesa e se acomodava, parecendo mais à
vontade.
Logo, decidi fazer o mesmo que Anna, me acomodando na cadeira de frente para ela,
tentando parecer o mais tranquilo possível.
Anna ficou em silêncio por alguns segundos, desviando o olhar dos meus olhos. Eu a
observei, notando como seus dedos se moviam nervosamente, traçando padrões
invisíveis na mesa. A inquietação dela era palpável, e um pesado suspiro escapou de
seus lábios, como se estivesse se preparando para algo difícil.
Quando finalmente levantou os olhos e encontrou os meus, senti uma mistura de
expectativa e preocupação. Ela estava prestes a falar, e eu sabia que o que viesse a
seguir seria importante.
— Na verdade, é sobre vocês dois. — ela falou, e um peso denso se instalou dentro de
mim, como se meu coração estivesse sendo comprimido.
— Noah, por favor! Eu preciso que você me escute! — ela me interrompeu, sua voz
carregada de desespero, o que só aumentou a ansiedade que já me dominava.
Anna ficou calada por alguns segundos, parecendo ainda mais inquieta. Seus olhos
vagavam, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas para expressar o que
sentia. O silêncio entre nós era pesado, e eu podia ver a luta interna em seu rosto, a
preocupação estampada em seus olhos.
Anna finalmente encontrou a coragem para falar, sua voz tremendo um pouco.
— Noah, você e a Alex precisam se resolver. É óbvio que ambos estão sofrendo um
pelo outro. Eu vejo isso nos olhos dela, e sinto que você também está se perdendo
nessa dor.
Ela fez uma pausa, tomando um fôlego profundo, e continuou, determinada.
— Vocês precisam conversar, esclarecer tudo isso. Não dá mais pra continuar assim,
sufocando sentimentos. É hora de enfrentar o que está entre vocês, antes que seja
tarde demais.
As palavras de Anna ressoaram como um eco dentro de mim, cada sílaba pesada e
carregada de verdade.
Um turbilhão de emoções me envolveu:
Saudade, dor e uma pontada de esperança.
Eu sabia que ela estava certa, mas a ideia de confrontar o passado me deixava
angustiado.
— Anna, o que aconteceu entre mim e a Alex é passado. — eu disse, tentando manter
a voz firme, embora a insegurança transparecesse. — Nós dois precisamos seguir em
frente, tanto ela quanto eu.
Falei isso como uma tentativa de me convencer, mas a verdade era que o peso do que
eu ainda sentia por ela me prendia.
— Eu entendo o que você está dizendo, Noah, e eu até poderia acreditar que você está
seguindo em frente. — ela disse, olhando nos meus olhos com intensidade. — Mas
não é a mesma coisa para a Alex. Ela ainda está presa a tudo isso. Aos seus próprios
sentimentos.
Ela fez uma pausa, e a preocupação em seu olhar se intensificou.
— A Alex... ela precisa de você pra resolver isso. Não dá pra ignorar o que vocês dois
sentem.
Anna baixou o olhar para as mãos, os dedos entrelaçados, enquanto se preparava para
dizer algo sério, como se cada palavra precisasse de um peso especial. 🎵
— Eu sei que o que a Alex fez pra você no passado te machucou muito… — ela
começou, sua voz suave, mas firme. — Mas eu também sei que ela está arrependida
do que fez. Ela se deu conta disso há muito tempo, do quanto você significa pra ela,
antes mesmo de tudo acontecer.
Enquanto Anna falava, uma parte de mim quase cedia, como se a esperança quisesse
brotar em meio ao caos que eu sentia.
Mas as lembranças do que aconteceu voltaram, pesadas e dolorosas.
A raiva e a traição ainda estavam frescas, e eu me perguntava como poderia acreditar
que ela realmente se importava.
O peso da traição me sufocava, e a ideia de que eu poderia ser apenas uma peça em
um jogo me deixava angustiado.
— Como eu posso confiar que agora é diferente? Que ela realmente me ama?
As palavras saíram com uma mistura de dor e frustração, e eu sabia que cada uma
delas carregava um pedaço do meu coração quebrado.
Anna ficou em silêncio por um tempo, como se não soubesse como me responder.
A seriedade no ar estava se tornando palpável.
Ela me olhou com o rosto sério, como se concordasse com o que eu dizia, mas
também reconhecesse a complexidade do outro lado da história.
— Aquela decisão da Alex foi muito idiota, eu concordo com você, e eu entendo o
que você sente, Noah. — ela começou, a voz mais baixa, mas firme. — Mas é
importante que você saiba que ela realmente se arrepende. O que aconteceu... Isso
não muda o fato de que ela se apaixonou de verdade por você.
Um riso falso escapou dos meus lábios, uma tentativa amarga de esconder a dor que
eu sentia. Era como se a ironia da situação fosse insuportável.
Anna parecia pensativa, a preocupação misturada com uma irritação crescente em seu
rosto.
— Talvez ela não tenha te contado por medo da sua reação. — disse ela em um tom
tão baixo que eu não tinha certeza se realmente a ouvi.
— Me desculpe por ter gritado assim… — ela disse, com a voz tremendo. — Mas você
não sabe como isso me afeta.
Ela respirou fundo, tentando recuperar a calma, mas a frustração ainda pairava no ar.
— Olha, eu só estou tentando processar tudo isso.. — continuou, a voz agora mais
controlada, mas ainda firme.
— É só que… Não está sendo fácil pra ninguém.. — ela finalizou.
A tensão entre nós era palpável, e eu percebi que a Anna que eu conhecia estava de
volta, mais autêntica e vulnerável do que antes.
Anna soltou um suspiro profundo, mantendo os olhos baixos. A tristeza em sua voz
era clara quando ela disse: — Eu não sei se deveria te dizer isso… — as palavras saíram
carregadas de um cansaço que refletia o peso da situação.
Ela hesitou por um momento, como se estivesse avaliando o que poderia acontecer ao
se abrir comigo.
Anna soltou um suspiro rendido, olhando nos meus olhos, e a voz dela tremia. 🎵
— Desde que tudo aconteceu, há oito meses, a Alex não é mais a mesma… — ela
começou, a dor evidente em suas palavras. — Ela perdeu a alegria que tinha. Sempre
sai de casa à noite, e às vezes eu nem sei pra onde ela vai. Quando ela volta, é como se
um pedaço dela tivesse ficado pra trás. Tudo que ela faz é chorar… — ela continuou,
a frustração crescendo.
— Aquela paixão que ela tinha pela arte desapareceu. Ela parou de pintar os quadros
que costumava adorar. É como se o brilho dela tivesse se apagado.
Ela passou a mão pelo cabelo, claramente lutando para expressar seus sentimentos.
— O Lucas sempre foi um bom amigo, e agora ele até tenta ajudar a Alex, mas ela
simplesmente não deixa. É como se ela estivesse culpando os sentimentos que um dia
teve por ele, como se aquilo tivesse sido a causa de tudo que acabou acontecendo
entre vocês.
— Ela parece tão desmotivada. As coisas que antes a faziam feliz agora não têm mais
sentido. A arte, a pintura... tudo isso desapareceu. É como se a vida tivesse perdido a
cor pra ela.
O sentimento dela parecia se aprofundar, e ela olhou para baixo, claramente abatida.
— E o pior… — ela hesitou, a voz quase falhando. — Ela tem insônia, Noah. Fica
acordada a noite inteira, e isso a faz tomar alguns remédios. Mas ela sempre exagera, e
eu... eu tenho medo do que pode acontecer. — A preocupação em seu tom era
palpável.
— E eu nem sequer posso contar aos pais dela… — disse Anna, a voz quase um
sussurro. — Ela me pediu para não contar, porque ela não quer deixá- los
preocupados. Então, eu sou obrigada a mentir o tempo todo, dizendo que está tudo
bem, quando na verdade, não está.
Enquanto Anna falava, uma onda de tristeza me invadia. Cada palavra era como uma
facada no coração.
Saber que a Alex não estava comendo e que perdeu a paixão pela arte me deixava
arrasado. Lembro das cores vibrantes que ela usava em seus quadros, agora tudo
parecia vazio.
O que mais me preocupava eram os remédios para insônia. A ideia de Alex se
afundando nisso me deixava em pânico. Eu ainda a amava muito, e pensar que ela
estava se machucando assim me fazia sentir impotente.
Anna respirou fundo, como se estivesse se preparando para abrir seu coração mais
uma vez.
— Eu preciso te contar uma coisa, Noah… — começou, a voz tremendo.
— Sempre que a Alex está bêbada, ou até mesmo quando está dormindo, ela começa
a chamar pelo seu nome.
Ela olhou para baixo, os olhos marejados.
— É como se, em momentos de fraqueza, ela não conseguisse escapar dos
sentimentos. Ela murmura “Noah” e, em seguida, começa a se desculpar, pedindo
perdão por tudo o que aconteceu. Meu coração se parte sempre que eu ouço isso. —
ela diz, colocando a mão sobre o peito, como se quisesse segurar a dor que sente no
coração.
— Às vezes, ela fica tão angustiada que não consegue parar de chorar. Eu sinto que,
mesmo quando está tentando se afastar, uma parte dela ainda precisa de você. É como
se ela estivesse presa entre o que sente e o que aconteceu.
Anna pausou, a tristeza em seu olhar se aprofundando.
— Isso me deixa tão confusa, porque eu vejo o quanto ela ainda se importa. Mas, ao
mesmo tempo, não sei como ajudá-la a lidar com isso.
Ela piscou forte, tentando segurar as lágrimas que ameaçavam escapar. Ficou em
silêncio por alguns segundos, a atmosfera parecia densa, quase pesada.
Então, com a voz embargada, começou a falar:
— Eu só... Estou cansada, Noah. Estou cansada de ver a Alex sofrer e não conseguir
fazer nada a respeito.
Ela passou a mão pelo rosto, tentando se recompor, mas a dor era evidente.
— É difícil vê-la assim, tão perdida e sozinha. Eu só queria que ela pudesse encontrar
um jeito de se curar, de voltar a ser quem era. Mas, em vez disso, eu só vejo a dor
crescendo. Isso me machuca tanto, e eu não sei como lidar com isso.
Quando Anna terminou de falar, uma dor profunda tomou conta de mim. Cada
palavra sobre Alex era como um peso enorme no meu peito, me lembrando do que
ela estava passando.
Mas acabei percebendo que também estava agindo de forma parecida:
Sem dormir, me afastando, me sentindo vazio.
A angústia começou a me consumir.
Quando Alex terminou o nosso relacionamento, foi como se o meu mundo tivesse
desmoronado.
Eu me lembrava de passar noites em claro, desejando que ela voltasse e dissesse que
ainda me amava.
Eu pensava que, se a visse mais uma vez, morreria como um homem feliz.
Mas quando ela disse seu último adeus, uma parte de mim realmente morreu junto
com o que tínhamos.
Refletindo sobre tudo isso, percebi que não estava com raiva de Alex por ter me
usado. Na verdade, nunca me senti assim.
Mesmo chateado, eu ainda queria estar ao lado dela, mesmo sabendo que ela poderia
amar outro homem.
O que realmente me destruiu foi o fim do nosso relacionamento.
No dia em que gritei com ela, expressando meu medo de perdê-la, ela decidiu
terminar tudo.
A tristeza me envolveu.
Porém, eu acreditava que, mesmo que ela tivesse me usado para outro amor, uma
parte de mim sabia que a Alex realmente tinha se apaixonado por mim.
Que ela me amava.
Mas agora, com tudo acabado, eu me sentia perdido, e a dor de sua ausência ecoava
em cada parte da minha alma.
A cada vez que a Anna falava sobre os sentimentos da Alex, eu me via dividido entre a
esperança e a realidade.
Eu queria acreditar que ela ainda sentia algo por mim, mas essa dúvida me paralisava.
Era como se uma sombra estivesse sempre ao meu lado, me lembrando do que perdi e
do que nunca poderia ter de volta.
Eu queria entender, queria que a Alex explicasse por que tudo isso aconteceu.
Mas, enquanto essa pergunta permanecia sem resposta, eu me sentia cada vez mais
perdido.
A dor da separação e a confusão sobre seus sentimentos tornavam tudo ainda mais
difícil.
Olhei para o chão, vendo as pequenas imperfeições, enquanto Anna parecia distante,
perdida em seus próprios pensamentos.
O espaço entre nós era palpável, um abismo que se formava a cada batida do meu
coração.
A luz fraca da lua entrava pela janela, criando sombras ao nosso redor, mas não havia
conforto nisso.
O tempo parecia parado, e eu só conseguia ouvir minha respiração, entrecortada pela
tristeza.
Pensamentos sobre Alex invadiam minha mente, trazendo uma mistura de amor e
perda.
A dor que compartilhávamos era pela incapacidade de ajudá-la, mas a minha era
ainda maior, pois eu já tinha perdido a Alex há muito tempo.
Eu sabia que Anna sentia o mesmo.
Sua expressão mostrava a dor que compartilhávamos, mas a minha ferida era mais
profunda, marcada pela ausência que nunca se apagaria.
Enquanto o silêncio se arrastava, eu queria quebrá-lo, mas a tristeza nos mantinha
presos. Estávamos em um limbo, lutando contra a realidade que nos cercava, dois
corações feridos unidos pela dor de Alex.
O silêncio continuava, mas havia algo no olhar de Anna que indicava que ela tinha
mais a dizer.
Ela respirou fundo, como se estivesse se preparando para enfrentar um mar de
emoções.
— Eu me sinto tão perdida… Mas é por isso que estou aqui. — começou ela, a voz
trêmula, mas firme.
— A Alex precisa de nós. Ela precisa de você, e se você conversasse com ela, talvez
pudesse ajudar. Eu sinto que você é a única pessoa que pode fazer a diferença.
Enquanto falava, seu olhar se fixou em algum ponto distante, como se estivesse
visualizando um futuro que poderia ser. Mas, de repente, o som estridente do
telefone ao seu lado quebrou a tensão, interrompendo suas palavras.
Minha atenção se desviou para o celular de Anna, que vibrava na mesa. Sem querer,
acabei olhando para a tela e vi o nome que fez meu coração apertar:
“ Alex”.
— Você devia atender, pode ser importante. — eu disse, a voz saindo mais suave do
que eu pretendia, mas cheia de urgência.
Era um momento que não podíamos deixar passar, e eu de alguma forma, sabia que a
Alex precisava de apoio, fosse qual fosse a razão da ligação.
Anna hesitou por um instante, a luta interna clara em seu olhar, mas a preocupação
por Alex prevaleceu.
Ela respirou fundo, soltando um suspiro rendido.
— Desculpe, espera um segundo. — disse ela, antes de pegar o aparelho.
— Alex, se você for pedir pra eu mandar um Uber ir te buscar, esse não é o melhor
momento. Eu estou ocupada e... — ela pareceu ter sido interrompida, e, enquanto eu
estava perdido em meus próprios pensamentos, com o olhar baixo, acabei olhando
para o rosto de Anna.
Sua expressão estava confusa e preocupada.
— Como assim? O que aconteceu? — ela perguntou, senti uma onda de ansiedade
crescer dentro de mim.
Ela parecia realmente confusa.
Enquanto a Anna escutava o que a Alex falava, vi a transformação sutil em seu rosto:
De confusão, foi para pânico, uma angústia evidente.
— Espera... Você tem certeza disso? Há quanto tempo você acha que ele está te
seguindo?
Essa realidade me paralisava, aterrorizado pela possibilidade de que Alex pudesse ser a
próxima.
Anna, com a mão trêmula, segurava o celular como se fosse a única conexão que
tinha com a realidade. Seus olhos estavam arregalados, e eu podia ver que ela tentava
processar as palavras de Alex, mas a tensão no ar era palpável.
A preocupação e o medo eram tão intensos que eu mal conseguia ouvir a voz de
Anna no telefone.
Cada palavra que ela trocava com Alex parecia um eco distante, como se eu estivesse
mergulhado na água.
O que estava acontecendo com ela?
O que eu poderia fazer para ajudá-la?
Meu coração estava prestes a explodir de angústia, e a incerteza me deixava em um
estado de completa agitação.
— É claro que eu vou ajudar! Só me fala em qual rua você está e eu— NOAH!
ESPERA! — ela gritou, mas eu já estava em movimento.
Me dirigi até a estante e peguei as chaves, o metal frio nas minhas mãos intensificando
minha vontade.
— Merda! — ela exclamou, olhando para o celular antes de fixar o olhar em mim.
Segui direto para o meu quarto, com a urgência pulsando em cada movimento.
Eu precisava dele.
Precisava mostrar a foto dela para qualquer pessoa que pudesse tê-la visto, ligar para
quem quer que fosse, fazer qualquer coisa que me desse uma mínima chance de
encontrá-la. Qualquer coisa.
— O que você pensa que tá fazendo? Você não pode ir atrás dela desse jeito! — a
preocupação estava estampada em seu rosto.
— Você não entende! Eu não posso ficar aqui parado enquanto aquele cara chega
perto dela. — minha voz tremia com a intensidade da emoção.
— Noah, você tá ouvindo o que você tá dizendo? Acho que é melhor só deixar isso
com a polícia… — ela sugeriu, a voz tensa.
— Não! — minha voz explodiu no corredor, ecoando nas paredes. — Eu não vou
esperar a polícia chegar! Até eles chegarem, pode ter sido tarde demais!
— Anna… eu juro que se ele encostar em um fio de cabelo dela… eu não vou
responder por mim. — a intensidade em meu olhar fez Anna hesitar, e eu vi a
preocupação em seu rosto.
O silêncio entre nós ficou pesado, e meu coração apertava. Eu sabia que ela estava
certa em se preocupar, mas a raiva me cegava.
— Noah... — ela começou, a voz mais suave, mas eu já estava me virando, a decisão
tomada.
— E se você estiver pensando errado? — ela insistiu, mais firme agora. — E se você só
estiver indo no impulso?
— Eu não tô indo no impulso. — pausei, respirando fundo. — Eu tô indo porque, se
algo acontecer com ela… eu não vou conseguir me perdoar.
Decidido, eu dei um passo para fora do meu apartamento, segurando a maçaneta com
firmeza. Mas antes que eu pudesse criar qualquer distância entre nós, Anna soltou
um suspiro profundo. A tensão no rosto dela mudou, como se ela tivesse decidido
exatamente como continuar aquela conversa. E o que ela disse a seguir me fez hesitar.
— Noah, você pelo menos tem noção de onde ela está pra querer sair assim? — Anna
perguntou, a preocupação bem evidente em seu olhar.
Eu realmente precisava saber onde a Alex estava… mas a verdade era simples e irritante
demais.
Anna franziu o cenho na mesma hora, como se aquilo confirmasse exatamente o que
ela já suspeitava.
— Ah… eu sabia. — ela respondeu, num tom meio incrédulo. — Você ia sair sem
direção nenhuma.
— Eu não tô sem uma direção, Anna. Eu só… só preciso encontrar ela. — a voz saiu
mais dura do que eu queria. — O mais rápido possível.
Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse organizando tudo na cabeça,
avaliando cada possibilidade.
— Tá… mas, e se você fosse até lá e não encontrasse nada? Ia fazer o quê depois?
Continuar andando sem direção até piorar tudo?
— Noah… você não resolve isso se perdendo também. Se acalma. Nós vamos dar um
jeito nisso, juntos. Não posso deixar que você saia correndo feito um louco.
Não porque ela estava errada… mas porque eu odiava admitir isso.
— Eu entendo isso. De verdade. — ela respondeu, com mais calma. — Mas agir
assim, no desespero, só vai te colocar em mais problemas. E não vai ajudar a encontrar
a Alex mais rápido.
Eu soltei o ar devagar, passando a mão pela nuca, tentando organizar o caos dentro de
mim.
— Primeiro, pare de tentar resolver isso sozinho. — ela disse, firme. — E segundo…
me escuta. A gente não precisa ficar perdendo tempo aqui tentando adivinhar onde
ela está ou criando mil teorias.
— E se você for sair sozinho agora e acabar piorando tudo? — ela rebateu na hora,
sem hesitar.
Eu travei de novo.
— Então… pra onde ela foi? — minha voz saiu quase em um sussurro, a ansiedade me
consumindo, o coração acelerando.
— Até onde eu sei, ela foi pra boate *****, na rua ******.
— Normalmente, quando a Alex vai pra essa boate, ela caminha até um ponto de
ônibus próximo e fica sentada lá, esperando que eu chame um Uber pra ela. De
madrugada, os ônibus raramente passam por aquele ponto. Acredito que, se você
fizer o percurso da boate até o ponto de ônibus, pode encontrá-la. Mas se você
realmente for até lá, precisa ter cuidado. — sua voz tremia, misturando preocupação e
urgência.
— Eu… me sinto meio mal em deixar você aqui desse jeito… — confessei, a culpa
pesando em meu coração. — Mas eu não tenho outra alternativa.
— Não tem problema, Noah. — ela respondeu, um sorriso compreensivo, mas com
os olhos cheios de preocupação.
— Vou deixar as chaves com você, caso queira sair. — eu disse, ela assentiu.
Antes que eu pudesse dar um passo, Anna segurou meu braço com firmeza.
— Espera.
— Pensa com cuidado no que eu te falei, tá bom? — seu olhar era intenso, quase
implorando.
Nesse momento, recordei toda a conversa que eu tive com a Anna sobre a Alex.
As palavras dela ecoavam em minha mente:
“Você só precisa ser honesto. Falar sobre o que você sente, sobre como você se preocupa com
ela.”
Eu sabia que precisava abrir meu coração para Alex, compartilhar minhas
preocupações sobre ela.
E essa urgência só intensificava meu desejo de protegê-la.
— Tudo bem, mas eu realmente preciso ir. — ela assentiu mais uma vez, porém, seu
olhar vagava, como se ainda tivesse mais a dizer, até que, mais uma vez, ela me
impediu.
— Ah, e mais uma coisa — ela disse, a voz firme, como um comando.
— O quê?
— Acaba com aquele desgraçado.
A determinação queimava em mim, e eu sabia que faria tudo o que fosse preciso para
proteger a Alex.
Acelerei, sentindo o vento fresco em meu rosto enquanto a moto ganhava vida sob
mim.
Acelerando pela cidade, senti a adrenalina pulsar em minhas veias, como se cada gota
de combustível fosse uma injeção de determinação.
A moto rosnava sob mim, um rugido que ecoava por todo o ambiente enquanto eu
passava por semáforos, desafiando as leis e o tempo.
Em um instante, ultrapassei um sinal vermelho, o semáforo piscando em verde antes
de se transformar em vermelho novamente.
O pensamento de que as câmeras haviam capturado meu ato imprudente cruzou
minha mente, mas eu não me importava.
Uma multa? Que fosse.
Nada poderia me deter agora. 🎵
O vento batia forte em meu rosto, como se tentasse me puxar para trás, mas eu não
deixaria que isso acontecesse.
Cada rajada era um lembrete da velocidade com que estava indo, da urgência que me
empurrava adiante.
A cidade se transformava em um borrão de luzes e sombras, cada curva que eu fazia
era um passo mais perto de Alex.
O medo de que algo pudesse acontecer com ela me consumia, fazendo meu coração
disparar tão rápido quanto a velocidade da moto.
As imagens de Alex, vulnerável e assustada, dançavam em minha mente, cada uma
mais vívida que a anterior.
Eu quase podia ouvir sua respiração ofegante, sentir seu desespero.
Isso me impulsionava a acelerar ainda mais, a desafiar os limites do que era seguro.
O som dos motores e buzinas ao meu redor se tornava um ruído distante, abafando
pela batida intensa do meu coração e pela urgência de minha missão.
Estacionei a moto em frente à boate que Anna havia falado, o motor ainda roncando
enquanto eu observava a cena.
A música pulsava intensa, vibrando no ar e se espalhando para fora, se misturando ao
cheiro forte de álcool que pairava na entrada.
Mesmo a certa distância, a energia da festa era palpável, mas eu não tinha tempo para
isso.
— Ei, meninas, me desculpe o incômodo, mas vocês viram alguma garota passar por
aqui? — eu perguntei, um tanto nervoso. — Ela é baixa, tem cabelos castanhos curtos
e também uma franja. — descrevi, a voz trêmula de ansiedade. — Ela tem olhos
verdes.
Um sorriso apareceu nos cantos dos lábios de uma delas, enquanto cutucava a outra
com o cotovelo, tentando disfarçar o riso, enquanto ambas desviavam os olhos de
mim como se fosse óbvio demais o motivo da distração.
Elas trocaram mais algumas palavras baixas, rindo entre si, claramente mais
interessadas em me analisar do que em responder.
Uma delas até mordeu o lábio, tentando segurar o sorriso, e a outra balançou a cabeça
negativamente, ainda rindo como se achasse tudo aquilo divertido demais.
Eu engoli seco.
Sem me dar por satisfeito, puxei o celular do bolso e desbloqueei a tela com pressa,
abrindo a foto dela.
— Olha… — minha voz saiu mais baixa, mais séria dessa vez. — Vocês têm certeza
que não viram essa garota? Eu preciso saber, por favor.
Virei a tela na direção delas, repetindo a pergunta, agora mais firme, como se minha
vida dependesse daquilo.
Eu havia feito exatamente o percurso que Anna havia indicado, mas agora, com a
mente turva de preocupação, comecei a me perguntar se tinha deixado algo para trás.
Algo que poderia ter feito a diferença.
O que eu não vi?
O que poderia ter acontecido com ela enquanto eu estava distraído?
Comecei a gritar o nome da Alex, a chamando com toda a força que eu conseguia
reunir.
A esperança de que ela estivesse por perto e me respondesse era tudo o que eu
desejava.
Mas o silêncio que se seguiu apenas aumentou minha angústia, um nó apertando
meu peito.
Quando atravessei o beco, percebi que havia entrado em uma rua que não
reconhecia, completamente diferente.
Mas isso não me deteria.
Comecei a correr, e enquanto eu corria, as ruas se desdobravam à minha frente, cada
esquina revelando um novo beco escuro, como se a cidade estivesse me guiando de
forma misteriosa.
A adrenalina pulsava nas minhas veias, e a sensação de estar sendo puxado por uma
força invisível intensificava a urgência em meu coração.
Era como se a Alex estivesse chamando por mim, e eu não podia ignorar o chamado.
Finalmente, ao sair de um beco e entrar em uma rua mais iluminada, uma sensação de
clareza me atingiu.
Eu estava perto.
Eu sentia que estava.
A esperança me impulsionava, e a determinação se tornava uma força inabalável.
Não havia mais espaço para dúvidas.
Eu precisava encontrá-la, custasse o que custasse.
Enquanto eu corria, avistei um posto de gasolina à frente, suas luzes brilhando como
um farol na escuridão.
Com o coração acelerado, me aproximei apressadamente, enquanto eu mantinha
meus olhos fixos em um homem que parecia inquieto, olhando constantemente para
a rua.
Algo na postura dele me dizia que ele podia saber de algo.
— Oi, me desculpe, mas você viu uma garota chamada Alex? — perguntei, tentando
controlar a urgência na minha voz, enquanto tirava o celular do bolso. — Ela tem
cabelos castanhos, uma franja e…
Cada passo era uma corrida contra o tempo, e a esperança de encontrar Alex me
empurrava para frente, sem olhar para trás.
Segui adiante, cruzando com alguns becos que se abriam em ruas diferentes, cada um
parecendo mais vazio que o anterior.
A sensação de estar sendo puxado me guiou até um beco estreito entre dois prédios,
onde entulhos estavam espalhados, como se alguém tivesse passado por ali às pressas.
A esperança renasceu, mas logo foi acompanhada por um frio na espinha.
Foi então que, parado ali, uma voz fraca cortou o silêncio da noite. “Socorro!”
A palavra mal chegou a ser um sussurro, tão distante que parecia vir de muito longe.
Mas, mesmo assim, algo dentro de mim reconheceu aquele chamado.
Era a Alex.
A adrenalina disparou, e a dúvida desapareceu.
Eu não sabia como, mas eu a ouvi.
Sem pensar, uma força desconhecida tomou conta de mim, e comecei a correr com
uma velocidade que eu não sabia que tinha.
Cada passo era guiado pela urgência de encontrá-la, de resgatar a dona daquela voz.
O chão sob meus pés parecia tremer, e a respiração ofegante ecoava em meus
ouvidos.
As sombras dançavam ao meu redor, criando uma sensação de urgência que me fazia
acelerar ainda mais.
Foi então que ouvi a voz novamente, baixa, mas agora parecia estar mais próxima.
“ME LARGA!”
O grito cortou o ar, e um frio percorreu minha espinha.
A intensidade da situação me fez sentir que não havia tempo a perder.
Sem hesitar, decidi cortar caminho, pegando atalhos entre os prédios, a mente focada
na Alex e em resgatá-la.
Com uma velocidade sobrenatural, meus pés batiam no chão, e gotas de suor
escorriam da minha testa, pingando no chão enquanto eu avançava.
Eu nunca havia corrido assim antes.
Era como se uma força desconhecida estivesse me guiando.
Cada esquina que eu dobrava, cada beco que eu cruzava, parecia me aproximar dela.
Enquanto eu corria, a sensação de que estava cada vez mais próximo de Alex crescia a
cada passo.
O coração batia em um ritmo frenético, e a voz dela ecoava em minha mente, me
guiando como uma bússola em meio à escuridão.
Finalmente, após uma corrida alucinante, decidi parar para respirar, os pulmões
queimando e a mente fervilhando de emoções.
Quando levantei o olhar, um alívio profundo inundou meu ser ao vê-la, mesmo que
a uma certa distância.
O simples fato de vê-la ali, trouxe um brilho de esperança em meio ao meu desespero.
Mas esse alívio foi rapidamente dissipado pela cena indignante que se desenrolava
diante de mim:
Um homem estava puxando os cabelos dela com força, seu rosto contorcido em uma
expressão de raiva.
A dor em seu olhar era profunda, e o medo que irradiava dela cortou meu coração.
🎵
Uma raiva incontrolável começou a tomar conta de mim, como um fogo que arde
sem controle.
Meu coração disparou, e eu cerrei o punho, sentindo a pressão de cada batida pulsar
em meu corpo.
A cena diante de mim era insuportável.
Ver a Alex assustada, vulnerável, despertou algo dentro de mim.
O instinto de proteção se transformou em um desejo ardente de vingança.
Eu queria que aquele homem sentisse a mesma dor que estava causando a ela.
A raiva pulsava nas minhas veias, se transformando em uma força que eu não podia
mais conter.
Eu queria fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para que ele soubesse que não
poderia tocar nela impunemente.
Com toda a força que consegui reunir, soquei o rosto dele com um golpe seco, o
impacto ecoando através do meu punho.
O som do soco era como um estalo no ar, e a satisfação que senti foi rapidamente
dissipada pela fúria que queimava dentro de mim.
No instante em que meu punho colidiu com seu rosto, uma onda de raiva e alívio me
invadiu.
Eu queria que ele sentisse a dor que havia infligido a Alex, que soubesse que não
poderia escapar de suas ações.
O homem cambaleou para trás, surpreso, mas a visão do seu rosto, agora marcado
pela minha agressão, apenas intensificou meu desejo de continuar.
Sem pensar, me virei, e estava prestes a me agachar para ajudá-la, mas antes que eu
pudesse, o homem se recuperou e socou meu rosto com toda a força que tinha.
Ela estava tremendo, seus olhos estavam cerrados com força enquanto ela massageava
a nuca.
Ela parecia estar apavorada, e aquilo me cortou como uma faca.
A visão dela, tão assustada e desprotegida, fez com que a raiva dentro de mim se
tornasse uma tempestade incontrolável.
Não era apenas um desejo de vingança.
Era uma necessidade de protegê-la a todo custo.
Com uma raiva que escapava do meu controle, avancei novamente em direção ao
homem.
Cada passo era alimentado pela fúria que queimava em meu peito.
Eu não poderia deixar que ele a machucasse mais, não enquanto eu estivesse de pé.
A adrenalina pulsava nas minhas veias, e eu estava pronto para fazer o que fosse
necessário, mesmo que isso significasse arriscar tudo. 🎵
O ar estava tenso enquanto eu avançava, e a luta se desenrolava em uma série de
movimentos rápidos.
O homem tentou um soco, mas eu desviei com facilidade, meu corpo se movendo de
forma instintiva.
Ele estava desesperado, e isso o tornava desajeitado.
Com um movimento ágil, agarrei seu braço e o puxei para baixo, desequilibrando-o.
Ele caiu de joelhos, e eu não hesitei:
Um soco forte direcionado à sua mandíbula fez com que sua cabeça girasse. O
homem tentou se levantar, mas eu o segurei pela camisa, puxando-o para mais perto,
e desferi uma série de socos rápidos, cada um mais potente que o anterior.
Ele conseguiu acertar um golpe em meu lado, mas a dor era mínima.
Lancei um soco cruzado que acertou seu nariz, fazendo sangue jorrar.
O homem estava claramente perdendo a força, mas ainda tentava se defender,
bloqueando alguns dos meus ataques.
Quando o homem caiu, o soco foi tão forte que ele desmaiou instantaneamente.
Mas a raiva dentro de mim estava em ebulição.
Eu socava com a intenção de fazer ele sentir cada dor que ele havia causado a Alex,
cada ferida que ele poderia ter infligido.
O homem não merecia misericórdia, e eu estava determinado a extrair dele toda a dor
que ele havia causado.
Com um suspiro pesado, percebi que a verdadeira punição não era me igualar a ele.
Era deixá-lo apodrecer na cadeia, onde ele não poderia mais machucar ninguém.
Devagar, eu fui abaixando o punho, e com um movimento brusco, soltei sua gola,
permitindo que seu corpo deslizasse para o chão.
Fiquei ali, perdido em pensamentos, com o homem desmaiado caído ao meu lado.
A certeza de que eu havia feito o que precisava ser feito pulsava em mim.
Cada segundo que eu passei ignorando aquele beco, cada desvio que fiz, era uma
facada na minha consciência.
Se eu tivesse tomado o caminho certo, talvez eu não estivesse ali, lutando contra a dor
da incerteza.
Mas mesmo assim, eu desejava que ela soubesse que eu estava ali, que eu faria
qualquer coisa para protegê-la.
Cada batida do meu coração ecoava o desejo de que ela se sentisse segura.
Um arrepio subiu pelos meus braços, lento, inevitável, fazendo cada pelo do meu
corpo se eriçar.
Eu sabia.
Quando cheguei perto, estendi a mão para ela, um gesto simples, mas repleto de
significado.
Ela segurou minha mão sem hesitar, e naquele toque, uma eletricidade percorreu
meu corpo.
O alívio foi imediato, mas a preocupação ainda dominava cada pensamento.
Minhas mãos tremiam ao segurar seu rosto, cada toque uma mistura de cuidado e
desespero.
O calor da pele dela sob meus dedos me fazia sentir a fragilidade daquela situação,
como se ela pudesse se desmanchar a qualquer instante.
Meus olhos percorriam seu corpo, buscando qualquer sinal de ferimento que aquele
homem pudesse ter causado.
Cada arranhão, cada contusão, seria uma facada no meu peito se eu os encontrasse.
A ansiedade crescia a cada segundo que passava, e eu precisava saber se ela estava
realmente bem.
Procurei por machucados em seu rosto, nos braços, em qualquer lugar que pudesse
indicar dor ou desconforto.
A tensão em meu corpo era intensa, e a impotência de não saber o que mais poderia
ter acontecido me deixava em um estado de alerta constante.
Eu precisava saber que ela estava bem, que nada a havia machucado.
— Você está bem? Ele fez alguma coisa com você? — minha voz saiu trêmula, cheia
de desespero.
Olhei em seu rosto, em seus olhos, buscando neles qualquer sinal de que ela estava
bem.
Meu coração batia forte, e a ansiedade pulsava nas minhas veias, como se cada
segundo de silêncio fosse uma eternidade.
Olhei para Alex em silêncio, o coração acelerado, esperando que ela dissesse a resposta
que eu tanto desejava ouvir. Cada batida parecia ecoar a urgência do momento, e o
medo de não gostar do que eu ouviria me consumia.
Ela abriu a boca por um instante, mas hesitou, e nesse momento, percebi a luta
interna em seus olhos.
A confusão e o medo estavam lá, misturados com algo que eu não conseguia
identificar.
Quando balançou a cabeça negativamente, seus olhos pareciam transmitir a resposta
que eu temia, mas o simples gesto não foi suficiente para me convencer.
Continuei a encarando, desejando que ela encontrasse as palavras certas, aquelas que
pudessem dissipar a tempestade de incertezas que me atormentava.
Cada segundo parecia uma eternidade, e eu ansiava por uma resposta que me
trouxesse paz, como se minha própria vida dependesse disso.
Eu precisava de um sinal de que ela estava, de fato, bem.
A expectativa me consumia, e a preocupação se tornava um peso difícil de suportar.
Então, depois de um momento que parecia durar uma eternidade, ela levantou os
olhos novamente, encontrando os meus com uma sinceridade que eu precisava
naquele instante.
A expressão em seu rosto começou a mudar, e eu senti uma leve esperança brotar
dentro de mim, como um raio de luz em meio à escuridão.
Soltei um suspiro profundo, aliviado com a resposta, e puxei Alex para um abraço
apertado. 🎵
Não era apenas uma demonstração de afeto.
Era uma expressão de toda a minha preocupação e cuidado.
Eu precisava dela, como se o mundo pudesse desmoronar sem ela por perto, mas ali,
naquele momento, eu a manteria segura.
Uma das minhas mãos repousava delicadamente na cabeça dela, os dedos abertos e
firmes, transmitindo a proteção que eu tanto desejava oferecer.
Meu toque era como um lembrete de que eu estava ali, presente e atento.
Com a outra mão, segurei seu corpo com força na altura das costas, a urgência
emocional pulsando em cada toque.
Eu temia soltá-la, como se isso pudesse fazê-la desaparecer.
Meu corpo se inclinava ligeiramente para frente, fechando o abraço, assumindo a
posição de quem cuida, de quem luta para proteger.
Minhas mãos deslizaram até sua cintura, e a abracei com mais firmeza, como se
quisesse me certificar de que ela estava realmente ali, que nada poderia nos separar
novamente.
Meus braços envolveram seu corpo com uma força que ia além do físico, uma força
que vinha de memórias, de um amor que nunca se apagou completamente.
Cada centímetro do meu corpo buscava o dela, ansioso por sentir o calor familiar, o
cheiro que me era tão íntimo, que me trazia de volta a um tempo em que éramos um
só.
Aquele abraço não era apenas um gesto.
Era um refúgio, um grito silencioso de um "eu ainda te amo", um pedido para que o
tempo parasse e nos permitisse reviver o que um dia tivemos.
Apoiei o queixo em seu ombro, sentindo a suavidade da sua pele, o ritmo do seu
coração que parecia ecoar da mesma forma que o meu.
Naquele momento, a segurança que eu sentia era avassaladora.
Era como se, de repente, todas as barreiras que havíamos construído caíssem, e
apenas o amor que ainda nos unia permanecesse.
Fiquei confuso com a intensidade da minha própria reação, surpreso pela forma
como meu corpo reagia ao seu toque, como se ansiasse por essa proximidade há
muito tempo.
Senti as mãos dela deslizando pelo meu pescoço, o toque suave e familiar que me fez
sentir como se o tempo não tivesse passado.
De repente, uma pontada de preocupação me atravessou.
Meu corpo estava suado, e o medo de que isso pudesse deixá-la incomodada, e ela
pudesse se afastar me atingiu com força.
Mas a sensação do toque dela, a forma como ela correspondeu ao meu abraço,
dissipou qualquer insegurança dentro de mim.
Eu estava tão entregue a aquele momento que a possibilidade de lhe causar qualquer
desconforto era insignificante perto da alegria de a ter ali, tão perto.
Era uma mistura de saudade e desejo, uma confissão muda de que, apesar de tudo,
meu coração ainda batia por ela.
Meu corpo, tão tenso antes, começou a relaxar, como se cada preocupação e medo se
dissolvessem naquele momento.
O calor do seu toque me envolveu, e eu me entreguei à sensação de que estávamos
juntos novamente, como se o mundo não importasse.
A respiração dela, suave e calma, me ajudava a encontrar paz em meio ao caos que me
cercava.
Era como se, ao corresponder ao meu abraço, ela estivesse dizendo que tudo ficaria
bem, e eu me permiti acreditar nisso, mesmo que por um instante.
Com a voz embargada, abafada pelo seu cabelo que acariciava o meu rosto,
murmurei, carregado de emoção, mais para mim mesmo do que para ela:
— Ainda bem...
Era como se, durante todos esses meses, uma parte de mim estivesse adormecida,
esperando o toque dela para despertar.
Era uma ausência constante, um vazio que nenhuma outra presença conseguia
preencher.
A falta do calor do seu corpo contra o meu, do cheiro que me embriagava, do jeito
que ela me abraçava como se os meus braços fossem o único lugar seguro no mundo.
Era uma falta que transcendia a saudade, um anseio profundo que eu nem sabia que
existia em mim.
O tempo pareceu parar, e naquele instante, tudo o que importava era a sensação dela
ali, tão perto, tão real.
E naquele momento, eu soube, com uma clareza que tocou minha alma, que faria de
tudo para nunca mais deixar essa sensação escapar.
O aperto dos seus braços em volta do meu pescoço era um lembrete constante do
que eu havia perdido e do que, talvez, pudesse reconquistar.
Cada batida do seu coração contra o meu era uma promessa silenciosa, um eco de
um amor que, apesar do tempo e da distância, ainda pulsava forte.
O eco das palavras de Anna ressoava em minha mente, uma melodia de esperança em
meio à tempestade de incertezas que me assombrava.
"Você só precisa ser honesto. Falar sobre o que sente, sobre como você se preocupa com ela.
Isso pode ser o que ela precisa pra se recuperar."
A honestidade.
A preocupação.
Palavras simples, mas que, naquele momento, pareciam a chave para um universo
desconhecido.
Enquanto eu a abraçava, sentindo a fragilidade e a força contidas em seu corpo, as
palavras de Anna ganhavam um novo peso.
A ideia, antes um sussurro distante, agora se tornava um grito mais audível em meu
peito.
Pensei no homem que eu havia desfalecido, e a intensidade do meu desejo de
protegê-la, de garantir que nenhum mal a tocasse novamente, era gigantesca.
Uma onda de clareza me atingiu, tão forte quanto o abraço que nos unia.
Talvez Anna estivesse certa.
Talvez, em meio a toda a confusão, ao medo e a dor que nos cercavam, houvesse um
fio de amor que ainda nos conectava.
A forma como ela se aconchegou em mim, a maneira como seu corpo cedeu ao meu
toque, a calma que emanava dela... tudo isso falava de uma conexão profunda, de um
sentimento que o tempo não havia sido capaz de apagar.
Decidi ali, naquele abraço que era um refúgio e um campo de batalha para minha
alma, que tentaria.
Tentaria ser o homem que Anna descrevia, o homem que a Alex precisava.
Falaria sobre o que sentia, sobre a saudade que me consumia, sobre o medo de
perdê-la para sempre.
Se o amor ainda existia entre nós, talvez essa confissão fosse a ponte para um novo
começo.
Respirei fundo, sentindo o aroma dela, e soube que estava pronto para arriscar tudo.
Porém, antes que eu pudesse ter qualquer reação, Alex quebrou o silêncio, me
surpreendendo com suas palavras.
O que ela disse despedaçou qualquer esperança que eu ainda nutria dentro de mim.
Cada sílaba que ela pronunciou ressoou em mim como um alarme, e a sensação de
segurança que eu havia começado a construir se desfez como areia entre os dedos.
O ambiente ao nosso redor, que antes pulsava com a promessa de um recomeço,
agora parecia pesado, como se o ar tivesse se tornado denso e insuportável. 🎵
— Me desculpe por perguntar, mas… nós nos conhecemos?
Eu fiquei paralisado.
O ar pareceu fugir dos meus pulmões, e um choque gelado percorreu meu corpo, me
prendendo no lugar.
Sua fala ressoava em minha mente como um eco distorcido, e eu não conseguia
encontrar minha voz.
Era como se um nó se formasse em minha garganta, impedindo qualquer som de
escapar.
A tristeza me invadiu, pesada e sufocante, como uma onda que me arrastava para as
profundezas do desespero.
Dei um passo para trás, criando uma distância que antes não existia, um espaço frio
que parecia crescer entre nós e congelar o tempo.
O ar ficou denso, pesado, e eu senti minhas pernas fraquejarem.
Como?
Como podia olhar pra mim e não ver nada do que fomos?
Do que éramos?
A confusão nos olhos dela era um labirinto sem saída, e eu me perdi ali, sem saber se
aquele olhar era um fingimento ou se o que tínhamos realmente não existia mais para
ela.
Eu estava ali, paralisado, tentando juntar os pedaços que minha mente insistia em
esconder.
Minha voz saiu rouca quando eu consegui falar, quase um sussurro que eu mal
conseguia controlar:
— Eu... eu pensei que... — tentei continuar, mas a voz me traiu, falhando no meio da
frase.
As palavras que eu queria dizer se perdiam no vazio, e tudo o que restava era essa
sensação dolorosa de ausência.
Cada segundo parecia esticar, e a dor de não ser reconhecido me atingia com força,
uma ferida invisível que sangrava silenciosamente dentro de mim.
Eu queria que ela entendesse, que visse além do que eu era naquele momento, mas
tudo que eu conseguia era sentir o peso do silêncio entre nós.
— Você... realmente não se lembra? — minha voz carregava uma tristeza profunda,
quase um pedido desesperado, enquanto eu sentia a distância crescer entre nós, como
um abismo que eu não sabia se conseguiria atravessar.
Parecia que buscava em vão por uma resposta, uma memória que se recusava a vir.
A confusão em seus olhos era palpável, e o silêncio dela era um eco ensurdecedor.
Cada instante sem resposta, era uma pontada a mais no meu peito.
Cada segundo que passava, sem uma palavra, sem um gesto, era uma confirmação
cruel.
Eu me peguei pensando, com uma ironia amarga, que talvez fosse menos doloroso se
ela estivesse fingindo.
Se aquele olhar vago fosse uma máscara, uma forma de me afastar.
Mas não, o silêncio dela era pesado demais, carregado de uma verdade que me
esmagava.
O olhar dela, fixo e vazio, não era de quem se esquecia propositalmente, mas de quem
não tinha mais nada para lembrar.
O rubor em suas bochechas, um tom avermelhado que contrastava com seu tom de
pele habitual, era um sinal inconfundível.
E o aroma forte que pairava no ar ao redor dela, não deixava margens para dúvidas.
O fato de que o álcool havia apagado a nitidez do meu rosto, era um golpe baixo.
Significava que o que tínhamos, os momentos que eu guardava com tanto carinho, as
promessas sussurradas, não foram fortes o suficiente para resistir a um pouco de
bebida.
Para ela, talvez, tudo aquilo não tivesse tido o peso que teve para mim.
A ideia de que o nosso amor, a nossa história, pudesse ser tão temporário, tão
facilmente apagado pela embriaguez, me deixava com um vazio ainda maior.
Era como se o que eu sentia fosse unilateral, uma lembrança preciosa para mim, mas
apenas um borrão insignificante para ela.
A dor da incerteza era terrível, mas a dor da certeza, de que o que tivemos não foi tão
importante assim, era infinitamente pior.