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???- ???-

O documento narra a experiência de uma jovem que, após uma noite de festa, se vê perdida e vulnerável em uma rua deserta, lutando contra seus sentimentos de solidão e a tentação de contatar um ex. Ela encontra um homem suspeito que a aborda de forma ameaçadora, mas consegue se afastar dele, enquanto reflete sobre a arte e a beleza que podem ser encontradas mesmo em momentos de caos. A tensão aumenta quando ela percebe que ele a está seguindo, levando-a a considerar chamar a polícia para se proteger.

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samillepabreu
Direitos autorais
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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O documento narra a experiência de uma jovem que, após uma noite de festa, se vê perdida e vulnerável em uma rua deserta, lutando contra seus sentimentos de solidão e a tentação de contatar um ex. Ela encontra um homem suspeito que a aborda de forma ameaçadora, mas consegue se afastar dele, enquanto reflete sobre a arte e a beleza que podem ser encontradas mesmo em momentos de caos. A tensão aumenta quando ela percebe que ele a está seguindo, levando-a a considerar chamar a polícia para se proteger.

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Playlist
🌳🎨🧸
◦ Why’d You Only Call Me When You’re High? - Arctic Monkeys
◦ Gasoline - Halsey
◦ Tag, You’re It - Melanie Martinez
◦ MIDDLE OF THE NIGHT - Elley Duhé
◦ RUNRUNRUN - Dutch Melrose
◦ I'm Yours - Isabel LaRosa
◦ The Night We Met - Lord Huron
◦ Cinnamon girl - Lana Del Rey
◦ Ocean eyes - Billie Eilish
◦ I love you - Billie Eilish
◦ Loml - Taylor Swift
◦ Futile devices - Sufjan Stevens

🕸🎧🖤
◦ Moment - Sean Biopcik
◦ I found - Amber run
◦ Fourth of july - Sufjan Stevens
◦ Daddy issues - The neighbourhood
◦ Softcore - The neighbourhood
◦ WRONG - Chris Grey
◦ LET THE WORD BURN - Chris Grey
◦R U Mine? - Arctic Monkeys
◦ Lovers - Anna of the North
◦ Infinity - Jaymes Young
◦ Back to friends - Sombr
◦ I don’t know you anymore - Sombr
◦ Futile devices - Sufjan Stevens
◦ Futile devices - Sufjan Stevens
◦ Futile devices - Sufjan Stevens
◦ Futile devices - Sufjan Stevens

( Quando esse símbolo aparecer ( 🎵 ) significa que você pode começar a tocar a música ou ir para a próxima.)
ᴘᴏᴠ

𝓐𝓵𝓮𝔃
Lá estava eu. Completamente bêbada outra vez. 🎵
Eu tinha acabado de sair da boate para tomar um pouco de ar fresco.
As pessoas, o espaço apertado, o forte cheiro de álcool, as luzes piscando sem parar…
era tudo… sufocante. Eu precisava respirar.
De verdade.

Eu odiava aquilo. Odiava a pessoa que eu estava me tornando. Mas aquela tinha sido
a única maneira que encontrei de tentar aliviar a dor, de tentar esquecer ele.

Esquecer ele.

Só isso. Era tudo o que eu precisava. Porque, se eu conseguisse, não precisaria mais
voltar para aquele inferno de lugar.

Mas não estava funcionando.

Se estivesse, por que eu ainda estava com o seu contato aberto?


E por que meus dedos pairavam sobre a tela, ansiosos para apertar o botão de “ligar”?
Merda.

Encarei o celular, com um peso estranho no peito, relendo o nome dele tantas vezes
que as letras começaram a parecer desconexas, quase sem sentido.

Desliguei a tela e guardei o celular na bolsa.

Ligar para o Noah seria um erro.

Um erro enorme.

Mesmo sem ter total controle das minhas ações por causa do álcool, eu sabia disso.
Se eu ligasse, estaria ultrapassando todos os limites.

Acabou. Eu precisava aceitar. Precisava seguir em frente, mesmo que parecesse que
algo dentro de mim estivesse se despedaçando.

Se continuasse assim, eu iria adoecer.


Eu iria me afundar cada vez mais nisso, além de que isso só me faria remoer a culpa
outra vez, algo que já virou uma rotina para mim.

Minha cabeça estava um caos. Eu estava um caos.


Era quase irônico como eu conseguia pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo.

Evitei esses pensamentos e voltei para a realidade. Continuar com esses pensamentos
não me levaria a lugar algum, muito menos me transportar magicamente até o meu
apartamento, então eu precisaria caminhar. Pelo tempo e pela distância que fosse. Ou
pelo menos, pela distância que meus pés aguentariam alcançar.

Eu mal conseguia me manter em pé. Caminhava aos tropeços, o mundo girando


levemente ao meu redor, um enjoo subindo devagar.
Eu sabia que iria me arrepender de ter exagerado na bebida quando amanhecesse.
Disso, pelo menos, eu tinha certeza.

Resmungava palavras desconexas, que nem eu mesma entendia, enquanto observava


ao redor, tentando reconhecer o lugar onde estava.

A rua estava deserta, vazia, assim como o meu coração.


Sorri de leve com a analogia, mesmo que ela doesse mais do que eu gostaria de
admitir.

A brisa fria envolvia minha pele como um abraço silencioso, quase reconfortante.
As luzes amareladas dos postes me traziam uma estranha sensação de aconchego e de
segurança no meio da escuridão.

Mas eu sabia que aquilo era uma ilusão.

Eu não podia me deixar enganar por aquela falsa sensação de tranquilidade.

Eu precisava ficar alerta.

Era madrugada. Não havia ninguém por perto.


Nenhum som além dos meus próprios passos.
E, naquele silêncio, qualquer presença inesperada poderia significar perigo.
Continuei vagando sem rumo, sentindo o vento bagunçar meus cabelos, confiando,
ou talvez apenas torcendo, para que minhas pernas me levassem a algum lugar.

Enquanto caminhava, deixando o ar frio da madrugada me envolver como um véu


silencioso, avistei, ao longe, a entrada de um beco escuro.

À distância, minha visão vacilava, mas ainda assim consegui distinguir a sombra de
uma figura.
Havia também um fio de fumaça subindo lentamente, se desfazendo no ar.

Conforme me aproximei, os contornos foram ganhando forma.

Era um homem.
Cheguei a essa conclusão quando a luz fraca de um poste tocou parcialmente seu
rosto.
Devia ter por volta dos trinta anos. Uma cicatriz cortava o lado direito de sua face no
formato de um raio, chamando atenção de imediato.
Seus cabelos castanhos eram interrompidos por algumas mechas grisalhas, que só o
deixavam ainda mais… estranho.
Ele segurava algo pequeno entre os dedos, e levava constantemente a boca. Era um
cigarro, isso explicaria a fumaça. 🎵
Droga. Isso era tudo que eu precisava agora.

Eu deveria evitar ele.


Só havia nós dois naquela rua vazia.
Se ele resolvesse fazer qualquer coisa… eu nem queria terminar esse pensamento.

A cada passo que eu dava, a distância entre nós diminuía.


Um arrepio percorreu minha espinha, e minhas mãos começaram a suar frio,
tremendo de leve.
Ainda assim, forcei meu corpo a se manter firme. Eu não podia deixar o medo me
dominar, não ali.

Quando cheguei perto o suficiente do beco, endireitei a postura e ajustei o ritmo da


caminhada, tentando parecer o mais normal possível.
Me afastei um pouco do asfalto, como se aquilo fosse o suficiente para me tornar
invisível.

Mas não era.

Eu senti.

O olhar dele.

Pesado. Preso em mim.

Continuei andando, fingindo não perceber, mantendo os olhos fixos à frente, como
se ele nem existisse.

Por um breve instante, acreditei que tinha funcionado.


Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo, deixando os ombros relaxarem
minimamente.
Ingênua.

O som de um assobio cortou o silêncio da rua.

Parei imediatamente.

Fechei os olhos com força por um segundo, comprimindo os lábios antes de me virar,
devagar, como se cada movimento exigisse mais esforço do que deveria.

Nossos olhares se encontraram, e eu soube, na mesma hora, que aquilo não era bom.

Ele me analisava sem vergonha alguma.


Eu fiz o mesmo, embora com muito mais cautela.

Sua aparência era… desagradável.


As roupas estavam sujas, manchadas com algo que parecia bebida alcoólica seca. O
beco atrás dele entregava ainda mais:
Latas de cerveja espalhadas, bitucas de cigarro pelo chão, restos de descuido e
abandono.

E o cheiro…

Mesmo à distância, era forte.


Álcool, cigarro… e algo mais pesado, difícil de identificar, mas impossível de ignorar.

Meu estômago revirou.


Me senti mais enjoada do que estava, e dessa vez, não era por causa da bebida.

Era por causa dele.

Que bizarro.

— O que uma jovem tão bonita faz desacompanhada nessa hora da noite? — ele me
lançou um sorriso malicioso,e uma repulsa imediata me atravessou.
Senti uma vontade imensa de arrancar todos aqueles dentes amarelados de sua boca.

— Acredito que isso não tenha nada a ver com o senhor. Agora, se puder me dar
licença… — respondi com educação calculada, sustentando um sorriso falso
enquanto já me virava para seguir meu caminho.
Ele me impediu.

— Opa, opa, mocinha, eu ainda não terminei. — disse, se aproximando ainda mais.

Eu não recuei.
Não daria a ele a satisfação de perceber meu medo.

— É perigoso andar sozinha assim… — continuou, o sorriso ainda mais torto. — Se


você der mole, alguém pode fazer alguma coisa com você. Se é que me entende.

Não respondi.
Apenas sustentei o olhar, firme, direto.

Algo na minha expressão pareceu incomodá-lo, porque o sorriso dele vacilou antes
que voltasse a falar.
— Eu poderia te acompanhar até em casa. Comigo, você estaria segura. Pode confiar.

Deixei escapar um riso curto, carregado de deboche, antes de encará-lo novamente.

— É sério? Muito obrigada pela oferta, senhor, mas estou muito bem sozinha. Se
alguém aparecer, eu sei me defender. Então não se preocupe.

Meu olhar não desviou do dele.


Era um desafio silencioso.

Ele sorriu, e, no instante seguinte, começou a gargalhar.


O som ecoou vazio na rua deserta, e algo dentro de mim ferveu.

— Tem certeza disso? Olha só esse seu bracinho… — zombou, inclinando o rosto
para mais perto do meu, com um ar de superioridade irritante. — Não faria mal nem
a uma mosca.

Aquilo foi a gota d’água.


Ergui uma sobrancelha, sentindo a irritação se sobrepor ao medo.

— Quer pagar pra ver? Se eu disse que sei me proteger, é porque sei. E mesmo que
não soubesse… por que eu aceitaria a sua proteção? — inclinei levemente a cabeça,
mantendo o tom firme. — Sem querer ofender, mas por quê? O senhor é um
completo estranho. Seria muito mais perigoso deixar que um estranho me
acompanhasse até a minha casa.

Fiz uma pausa curta, sustentando o olhar.


— Agradeço a intenção, mas me deixe ir. Se algo acontecer, eu dou conta. Então, com
licença.

Dessa vez, quando me virei, ele não me impediu.

Ainda assim, tive quase certeza de ouvi-lo murmurar algo.


Baixo, arrastado, como uma promessa desagradável:

“Vamos ver.”

Isso foi o suficiente para fazer meu passo acelerar.


Só voltei a caminhar em um ritmo mais normal quando tive certeza de que já estava
longe o bastante.

Olhei por cima do ombro.

Nada.

O vazio da rua parecia intacto, como se nada tivesse acontecido.

Soltei, então, o ar que eu nem percebia que estava prendendo havia tanto tempo.
Meus pulmões arderam levemente com a liberdade repentina.

Parei por um instante, fechando os olhos e respirando fundo, tentando estabilizar o


corpo.

Meus pés doíam.


Cada músculo parecia reclamar do esforço, do álcool, do nervosismo.

Mas eu sabia que precisava continuar.

Mesmo assim, me permiti alguns segundos ali, parada, no meio do silêncio.

Eu precisava disso.
Precisava me acalmar.

Porque, no fundo… a sensação de estar sendo observada ainda não tinha ido embora.

Então, por que não transformar o mundo ao meu redor em arte?


Isso costumava funcionar… antes.

Ergui o olhar para o céu da noite, não como quem apenas observa, mas como quem
contempla uma obra viva.
O fundo escuro parecia uma tela infinita, e as estrelas… pequenos pontos de luz
cuidadosamente espalhados, como se alguém tivesse pensado em cada detalhe.

Desci o olhar para as árvores.


As folhas dançavam com o vento, num movimento leve, quase coreografado. Era
como assistir a uma performance silenciosa, feita só para quem estivesse disposto a
sentir.

Fechei os olhos.

E ali, no meio dos sons da cidade, encontrei ritmo.


Cada ruído, cada sopro, cada eco distante… tudo se misturava como uma
composição.
Imperfeita, mas ainda assim, estranhamente bonita.

Era isso.

Se eu prestasse atenção o suficiente… tudo podia ser arte.


Até mesmo o caos dentro de mim.

Consegui captar o som, não mais como ruído, mas como composição.
Os carros passavam como notas graves, constantes.
As motos cortavam o ar em tons mais agudos.
O vento nos galhos… um sussurro suave, quase como um pincel deslizando sobre a
tela.
E então… algo que não encaixava.

Sapatos.

Secos.
Ritmados.
Fora do compasso.

Meu corpo inteiro travou.

Olhei discretamente sobre o ombro.

Era aquele homem.

Distante, mas presente demais para ser ignorado.

Ele se movia com um cuidado estranho, calculado… como se cada passo fosse
pensado antes mesmo de tocar o chão.

Como se soubesse que estava sendo observado.

Como se estivesse tentando desaparecer dentro da própria cena.

Discreto demais.

Cuidadoso demais.
Como se acreditasse, de verdade, que eu não iria perceber. 🎵
Merda, merda, merda!

Comecei a caminhar, um pouco rápido, mas não tanto a ponto de levantar suspeitas.

Engoli seco, tentando manter a calma que eu mesma tinha acabado de construir.

Não.
Eu não podia entrar em pânico agora.

Voltei a olhar para frente, como se nada tivesse acontecido, mas meus ouvidos… meus
ouvidos estavam atentos demais. Cada passo atrás de mim soava mais alto, mais
próximo, como se estivesse sendo amplificado dentro da minha cabeça.

“Transforma isso em arte!”, pensei.

Observa.
Analisa.
Não surta.

O som dos sapatos dele tinha um ritmo irregular.


Não era alguém apenas passando.
Era alguém medindo distância. Esperando.

Meu coração, traidor, começou a acelerar, bagunçando toda a “harmonia” que eu


tentei construir segundos antes.
Respira.

Inspira… expira…

O vento voltou a soprar entre as árvores, como um sussurro tentando me acalmar,


mas agora já não parecia tão gentil.

Dei mais alguns passos, controlando cada movimento, fingindo naturalidade.


Mas por dentro, cada sentido gritava.

Meu coração batia acelerado, e eu não podia deixar que ele soubesse que eu tinha o
avistado.
A tensão no ar era palpável, como se o mundo ao meu redor estivesse em câmera
lenta.
Eu precisava agir cautelosamente, cada passo contava.

Virei o rosto discretamente, tentando não chamar atenção.


O homem continuava ali, a poucos metros, sua presença se tornando um peso no
meu peito.

Ele com certeza estava me seguindo.

Um frio na barriga me fez hesitar.

Eu deveria chamar a polícia?


E se o pior acontecesse?
A dúvida me atormentava.

Se ele conseguisse se safar, eu precisaria de alguém para testemunhar contra ele.

Anna.
Com certeza ela faria isso por mim.

O plano começou a se formar em minha mente.

Eu ligaria para Anna, lhe avisaria sobre essa horrível situação, e pediria a ela que
chamasse a polícia por mim.
Mas, se ele continuasse me seguindo por mais tempo, eu chamaria a polícia eu
mesma.

O som dos meus passos se misturava com o eco distante da cidade, mas a única coisa
que eu conseguia ouvir era o ritmo acelerado do meu coração.
A adrenalina pulsava em minhas veias, e cada vez que olhava para trás, a sensação de
estar sendo observada aumentava.
Ele se aproximava, e eu senti que o tempo estava se esgotando.

Era agora ou nunca.

Eu iria ligar para Anna.

Na pior das hipóteses, a polícia conseguiria acesso a ligação, certo?

Peguei o celular discretamente da bolsa.


Meus dedos tremiam um pouco enquanto eu digitava o nome de Anna no meu
aparelho.

Então, eu liguei para ela.

Chamou uma, duas, três vezes.


E enfim ela atendeu.

— Anna… — sussurrei, a garganta seca, a palavra quase não saindo.

— Alex, se você for pedir pra eu mandar um Uber ir te buscar, esse não é o melhor
momento. Eu estou ocupada e—

— Anna, eu preciso de ajuda. — interrompi, minha voz mais urgente do que eu


gostaria.

Houve um breve silêncio do outro lado.

— Como assim? O que aconteceu? — ela perguntou, agora com a confusão evidente
no tom.

Minha voz falhou por um segundo.

— Anna… me escuta. Tem um homem me seguindo. Eu preciso que você me ajude.

— Espera… você tem certeza disso? Há quanto tempo você acha que ele está te
seguindo? — a tensão começou a aparecer na voz dela.

— TENHO, ANNA, tenho. — o nervosismo fez meu tom subir, mas eu me


controlei rapidamente, engolindo o impulso. Se ele percebesse que eu estava em
ligação com alguém, poderia piorar tudo. — Já faz mais ou menos quinze minutos…
então eu preciso que você faça alguma coisa.

As lágrimas começaram a se formar nos meus olhos sem que eu permitisse.

Um soluço escapou, baixo, traindo meu esforço de parecer firme.

Respirei fundo, tentando me recompor.

— E O QUE VOCÊ ESPERA QUE EU FAÇA, ALEX? — ela respondeu, a voz


trêmula, tão nervosa quanto a minha.

— Me escuta! — insisti, apertando o celular contra o ouvido. — Eu preciso que você


chame a polícia pra mim. E… se o pior acontecer… eu quero que você seja minha
testemunha.

— Por que você tá falando isso? Nada de ruim vai acontecer, tá bom?

— Tá bom… — minha voz saiu fraca, instável. — Mas, por favor… me ajude.

Eu odiava como o medo transparecia em cada palavra.

— É claro que eu vou te ajudar! Só me fala em que rua você está e eu— NOAH!
ESPER—

E então, a ligação caiu.

E, junto com ela, parecia que algo dentro de mim também desligava.

Meu corpo travou.

Completamente.

Tentei mexer as mãos. Depois os pés.


Nada.

Era como se eu tivesse sido arrancada de mim mesma, presa dentro do próprio corpo.

Eu não conseguia me mover.

Nem um músculo.

Era como uma paralisia do sono, só que eu estava acordada.

Tudo por causa de um nome.

Noah.

Noah.

Noah.

O som ecoava na minha cabeça, repetindo, esmagando qualquer outro pensamento.

Por que a Anna estava com ele?​


O que ela estava fazendo ?​
Por que ela não me avisou nada?

As perguntas batiam uma contra a outra, rápidas demais, altas demais, fazendo minha
cabeça latejar.

Mas tudo isso foi interrompido.

Passos.

Primeiro distantes.

Depois mais próximos.


Mais rápidos.

Meu coração disparou.

Será que ele ouviu?

Não tive tempo de pensar.

Meu corpo simplesmente reagiu antes da minha mente, como se o instinto


finalmente tivesse rompido a paralisia.

Eu comecei a correr.

E, atrás de mim…

Ele também.


Foi imprevisível. Não era a minha intenção correr assim, mas agora já era tarde
demais. Meu disfarce foi por água abaixo.

Eu acabei entrando em ruas que nunca havia pisado antes, com o coração disparado e
a respiração ofegante.
Os becos estreitos que eu passava pareciam me engolir, enquanto se tornavam um
labirinto.

Cada esquina uma luta para despistar o homem que estava logo atrás de mim.
O som dos meus passos ecoava, misturado ao barulho distante de sua perseguição,
aumentando meu pânico.
Cada curva que eu virava, uma nova onda de ansiedade me invadia.

As luzes fracas mal iluminavam o caminho, lançando sombras longas que dançavam
ao meu redor.
A incerteza do desconhecido tornava cada movimento ainda mais arriscado, e a
adrenalina pulsava nas minhas veias, transformando o medo em uma energia
desesperada.

A sensação de estar perdida me consumia.

Todas as ruas que eu passava pareciam exatamente iguais, me deixando desorientada.


Eu precisava me manter focada, mas a urgência da fuga tornava tudo muito confuso.

Meu coração batia descompassado enquanto eu corria.


O homem continuava me perseguindo, como uma sombra ameaçadora que parecia se
estender a cada esquina.
Eu não sabia há quanto tempo estava fugindo, mas a sensação de estar sendo seguida
me consumia.

Me espremi entre dois carros estacionados, escolhendo o espaço mais escuro, onde a
luz do poste mal alcançava.
O corpo encolhido, quase no chão, tentando desaparecer entre as sombras e o metal
frio.

— Ele não pode me encontrar aqui… — eu repetia para mim mesma, num sussurro,
mais para me manter firme
do que por acreditar de verdade, enquanto observava a rua deserta.

O medo me envolvia, e cada ruído, seja das folhas caindo das árvores, ou do eco
distante de passos, qualquer som me fazia estremecer.

Até o leve estalo do metal do carro ao meu lado, um som seco e inesperado que
pareceu ecoar mais alto do que deveria.

A rua não estava completamente vazia. Alguns carros alinhados, espaçados… sombras
irregulares.
Luzes fracas.
Lugares onde alguém podia passar sem ver direito.

Então os passos vieram.


Mais próximos.

Segurei a respiração na mesma hora,


me encolhendo ainda mais, o punho cerrado em torno do celular.
Ele apareceu e passou devagar, perto demais, o olhar varrendo a rua e deslizando pelos
carros sem parar….

Até que ele virou na minha direção.

Meu corpo travou.

Ele estava tão perto que eu tive certeza de que me veria.

Se ele desse mais um passo…

Mas ele continuou.

Por um segundo achei que ele fosse hesitar, que fosse ver, que fosse voltar, mas não,
ele seguiu em frente, os passos continuando, um depois do outro, se afastando aos
poucos.

Esperei.

Sem me mexer.

Sem nem respirar direito.

Só quando o som começou a se perder na distância,

O ar voltou de uma vez, pesado, descontrolado.


Mas o alívio não veio.

A adrenalina me impulsionava, mas a incerteza me paralisava.


"Pra onde eu vou agora?"
Eu pensava, a pergunta girando na minha cabeça, sem resposta, esmagando qualquer
tentativa de pensar direito.

Olhei para o celular ainda preso na minha mão.

Aquilo só estava me atrapalhando.

Se eu deixasse cair… se fizesse barulho…

Engoli em seco e, com movimentos rápidos, enfiei o celular dentro da bolsa,


prendendo a alça contra o corpo como se aquilo pudesse impedir qualquer som,
qualquer erro.

Eu não podia me distrair.

Não podia dar mais nenhuma vantagem pra ele.

Com um último olhar, decidi correr novamente.


O desespero me guiava, mas uma chama de determinação queimava dentro de mim.

Eu não ia ser pega.

E, com um novo fôlego, disparei pela próxima esquina, pronta para me esconder mais
uma vez.
A cada esquina que eu dobrava, a ansiedade crescia.
O medo se transformava em energia, pulsando nas minhas veias.

Olhei para trás, mas ele não estava mais à vista.

O alívio momentâneo foi rapidamente substituído por uma nova onda de pânico.

"Ele pode estar mais perto do que eu imagino", pensei, e a ideia me fez acelerar o passo.

Corri sem olhar para trás, o som dos meus próprios passos ecoando alto demais na
rua vazia.

Ou melhor… não exatamente passos.

O salto batendo no chão irregular tropeçava no meu próprio ritmo, falhando,


travando, me atrasando a cada segundo.

— Sua idiota… — resmunguei entre dentes, quase sem ar. — Por que eu tive que sair
de salto…?

Meu pé virou levemente em uma rachadura no asfalto e eu quase caí.


O equilíbrio veio por pouco.

— Sério, genial… — continuei, a voz falhando enquanto o fôlego desaparecia. —


Vestido curto, salto alto… perfeito para fugir, né?
O tecido grudava nas minhas pernas, limitando meus movimentos, dificultando cada
passada.
Eu puxei a barra com uma das mãos, tentando ganhar um pouco mais de liberdade,
mas só piorava.
Me deixava mais lenta, mais vulnerável.

Até que o silêncio se quebrou… e eu ouvi.

O som distante atrás de mim fez meu coração disparar ainda mais.

Não dava pra errar. Não dava pra cair.

Mas cada movimento parecia mais difícil que o anterior.

E qualquer erro… poderia acabar com tudo.

Entrei em um beco estreito, as paredes altas parecendo me engolir.


O cheiro de lixo e o som distante de água escorrendo me envolviam, mas eu não
tinha escolha.
Meus olhos se ajustaram à escuridão enquanto eu procurava um lugar para me
esconder.
Um contêiner de lixo se ofereceu como abrigo.

Com um último olhar ao redor, me agachei atrás dele, o coração disparado.


A respiração ofegante ecoava em meus ouvidos, e a adrenalina me deixava alerta.

Ouvi passos se aproximando, e meu corpo inteiro travou no mesmo instante.


O som era lento, calculado… cada pisada parecia mais pesada do que a anterior, como
se quem viesse soubesse exatamente para onde estava indo.

Meu peito apertou.

Sem pensar muito, me encolhi ainda mais atrás do contêiner de lixo, o cheiro forte
quase me denunciando, mas eu não me movi.
Nem respirei direito.
O medo me deixava rígida, presa naquele canto apertado entre o plástico rígido frio e
a parede.

Levei as mãos até a boca num impulso rápido, tampando-a com força, tentando
impedir até o menor som de escapar.
Meus dedos tremiam contra os lábios, e eu fechei os olhos por um segundo, como se
isso pudesse me tornar invisível.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que alguém poderia ouvir.

Até que as sombras começaram a se mover no chão.

O homem passou, sua silhueta distorcida pela luz fraca.


Ele parou, como se estivesse sentindo meu cheiro no ar.
O tempo parecia se arrastar, cada segundo era uma eternidade.

"Por favor, não me encontre…", pensei, desesperada, as lágrimas ameaçando escorregar


pelo meu rosto.
A escuridão me abraçava, e eu me perguntei se conseguiria escapar dessa vez.

O homem continuou a andar, seus passos pesados ecoando no silêncio do beco.


Eu mal conseguia respirar, cada inspiração parecia um desafio. A adrenalina me
mantinha alerta, mas o medo era como um peso em meu peito. A ideia de ser
descoberta me paralisava.

Ele parou por um momento, e meu coração quase parou junto.


“O que ele está fazendo?”, pensei, a tensão crescendo a cada segundo.
A escuridão do contêiner me fornecia um falso senso de segurança, mas a incerteza
me deixava inquieta.

Finalmente, ele se afastou, e eu aproveitei a chance.


Com cuidado, saí do meu esconderijo, a adrenalina me guiando.
O beco se abria para uma rua mais movimentada, mas a ideia de ser vista me fazia
hesitar.
Olhei em volta, procurando um novo caminho, uma nova chance de escapar.

Então, avistei um grupo de pessoas ao longe, rindo e conversando.


Era uma festa em um bar que ainda estava aberto, com gente ocupando a calçada, e
música alta escapando para a rua.
“Talvez lá eu possa me misturar…” , pensei, e, com o coração acelerado, comecei a
correr na direção deles, determinada a não olhar para trás.

À medida que me aproximava do grupo, a música alta e as risadas se tornavam cada


vez mais nítidas.
O brilho das luzes me atraía, mas a insegurança ainda me acompanhava.

Cheguei perto do bar, e a segurança da multidão me deu um leve alívio.


Não exatamente segurança, mas anonimato.
As pessoas dançavam, algumas segurando copos, despreocupadas, sem saber do
perigo que eu carregava. Respirei fundo, tentando acalmar o turbilhão dentro de
mim, e, com um esforço, me juntei ao grupo.

Sorrindo nervosamente, entrei entre as pessoas, tentando copiar o comportamento


delas, tentando parecer relaxada, como se eu também estivesse ali por diversão, mas
minha mente estava em alerta.

Meu corpo não obedecia.


Meus olhos continuavam se movendo, atentos demais, procurando por qualquer
movimento suspeito.
Cada entrada, cada rosto, cada sombra.

Olhei ao redor, observando a entrada, esperando que o homem não aparecesse. A


música alta abafava meus pensamentos, mas meu coração ainda batia acelerado, cada
batida ecoando a urgência da minha fuga.

Enquanto eu dançava, uma sensação de liberdade momentânea tomou conta de


mim.
Mas, ao mesmo tempo, a tensão não me abandonava.
“Ele pode aparecer aqui a qualquer momento…", pensei, a ansiedade voltando como
um peso no peito.

Depois de alguns minutos, decidi que precisava de um plano.

Me afastei da pista de dança e procurei um canto mais tranquilo.


Encontrei uma mesa vazia e me sentei, tentando me esconder na multidão.
Respirei fundo, passando os olhos pelo ambiente mais uma vez… e então puxei
minha bolsa para perto.

Abri o zíper com pressa, os dedos atrapalhados pela ansiedade.

Comecei a mexer lá dentro, revirando tudo sem muito cuidado.

Peguei meu celular, pensando em ligar para alguém.

tela preta.

Sem bateria.

Um frio passou pelo meu estômago.

Celular… descarregado.
Alguns papéis amassados.
Maquiagem.

Só isso. Era tudo o que eu tinha na bolsa.

Nada que realmente ajudasse.

Nada que pudesse me dar alguma vantagem.

Fechei a bolsa com força, a segurando contra mim por um instante.


"Ótimo…", pensei, engolindo seco.
Eu estava completamente sozinha, mesmo estando cercada por pessoas.
"O que eu faço agora?", pensei, olhando ao redor, buscando uma saída.

Foi então que vi o barista do bar, parecia estar conversando com alguém, mas eu não
conseguia ver quem era, por conta da multidão que se aglomerava ao redor.

O barista parecia confiável, e uma ideia surgiu em minha mente.

Me levantei, decidida, e fui em direção ao preparador de bebidas.


Mas, ao me aproximar, meu coração afundou.
Ele estava conversando com o homem que me perseguia.
O rosto dele estava tranquilo, como se não houvesse nada de errado, enquanto o meu
mundo estava desmoronando ao meu redor.

"Não pode ser…", pensei, a adrenalina disparando novamente.


“Como… quando ele entrou aqui?”
O homem que eu temia estava ali, a poucos passos de mim, e o barista parecia não
perceber a tensão no ar.
"O que eu faço?"
A ideia de voltar para a pista de dança me parecia insuportável.

Com o corpo paralisado pelo medo, observei a cena, tentando encontrar uma saída.
O homem riu de algo que o barista disse, e isso me fez estremecer.
"Ele está aqui, eu preciso sair agora.", pensei, olhando rapidamente para os arredores.

A aglomeração ao meu redor parecia alheia ao perigo, e eu me senti completamente


sozinha.
Mas eu não podia desistir.
Com um último olhar para o segurança e o homem, decidi que precisava agir.

A multidão já não parecia proteção.


Parecia um obstáculo.

Fui em direção à saída dos fundos, mantendo a cabeça baixa e tentando parecer
despreocupada.
O coração batia forte, e cada passo parecia um desafio.
"Se eu conseguir sair daqui, talvez eu tenha uma chance.", pensei, enquanto me movia
discretamente, pronta para deixar aquele lugar e encontrar um novo refúgio.

Enquanto me movia em direção à saída dos fundos, não consegui resistir a um último
olhar para o homem.
Ele estava lá, ainda conversando com o segurança, mas algo me fez hesitar. Nossos
olhares se encontraram por um breve momento, e o mundo ao meu redor pareceu
congelar.

Os olhos dele eram frios e calculistas, uma mistura de confiança e determinação que
me fez sentir um frio na espinha.
Um calafrio percorreu meu corpo, e percebi que ele sabia que eu estava ali, que eu o
via.
A troca de olhares foi como um choque elétrico.
Ele sorriu, um sorriso que não transmitia qualquer bondade, e aquela expressão me
fez sentir vulnerável.

Naquele instante, tudo ficou claro. Eu não podia ficar ali mais um segundo.
O instinto de sobrevivência tomou conta de mim, e, sem pensar duas vezes, me virei e
corri em direção à saída.
O coração pulsava em meu peito, e a adrenalina me impulsionava.

A porta dos fundos se abriu com um rangido, e eu não olhei para trás.
A luz da lua iluminava a rua deserta, mas não havia tempo para pensar. Corri com
todas as minhas forças, as sombras me envolvendo enquanto eu buscava um lugar
seguro.
O som dos meus passos ecoava, e a sensação de ser seguida voltou com força total.

Cada esquina que eu dobrava era uma pequena vitória, mas o medo de que ele
estivesse logo atrás de mim não me deixava.
"Preciso encontrar ajuda.", pensei, enquanto disparava pela madrugada, determinada
a não ser capturada novamente.

A dor começou a crescer rápido, queimando na planta dos pés, subindo pelos
tornozelos.
Cada impacto no chão parecia errado, como se meus pés não fossem feitos para
aquilo.

Eu queria correr mais rápido.

Precisava.

Mas não conseguia.

O vestido prendia meus movimentos, o salto me desequilibrava, e meu corpo parecia


lutar contra mim a cada tentativa de acelerar.
Meu coração disparava, não só pelo esforço… mas pela certeza que se formava na
minha cabeça.

Eu estava em desvantagem.

O medo de cair começou a travar meus movimentos, me fazendo hesitar por frações
de segundo que pareciam enormes.

E isso só piorava tudo.

Mas, mesmo com meu corpo implorando para parar, eu continuei.

Mesmo com a dor.


Mesmo com o corpo contra mim.

Eu não podia deixar aquilo me impedir.

Corri pela rua deserta, a adrenalina pulsando em minhas veias.


Avistei um posto de gasolina ao longe, suas luzes brilhantes se destacando na
escuridão. O cheiro de café fresco e borracha me envolveu, e eu sabia que precisava de
ajuda.

Quando entrei, o atendente me olhou surpreso.


— Estou sendo seguida.. — eu disse, a voz trêmula. — Eu preciso de ajuda!

Ele franziu a testa, percebendo a urgência na minha expressão.


— Vem comigo. — ele respondeu, gesticulando para eu seguir.

Ele me levou para uma pequena sala de descanso, que tinha uma pequena janela que
mostrava a entrada do posto.

— Fica aqui. — ele disse, fechando a porta rapidamente. — Vou ver o que posso
fazer.

A sensação de alívio começou a me envolver, mas não durou muito.

Por alguns minutos, tudo o que eu consegui fazer foi ficar ali, tentando recuperar o
fôlego.

No começo, eu só tentei respirar.

Devagar.

Fundo.

O silêncio da sala parecia seguro demais depois de tudo.

Me apoiei na parede, passando a mão pelo rosto trêmulo, tentando me acalmar.

Os segundos foram passando… lentos demais.

Olhei para a pequena janela.

Nada.

Ninguém.

Talvez… talvez eu tivesse conseguido despistá-lo.


Alguns minutos se passaram.

Cinco… talvez mais.

Minhas mãos ainda tremiam, mas minha respiração começou a desacelerar.

A dor nos pés voltou a se fazer presente agora que eu não estava correndo.

Eu estava exausta.

Minhas mãos continuavam tremendo, e levei um tempo até conseguir respirar sem
que o ar falhasse no meio do caminho.

Apoiei a cabeça na parede por um instante, fechando os olhos.

O silêncio daquele lugar era estranho… quase reconfortante demais.

— Tá tudo bem… — murmurei para mim mesma, mais como uma tentativa de
acreditar do que qualquer outra coisa. — Ele não me seguiu… — sussurrei, tentando
convencer a mim mesma.

O tempo continuou passando.

Parecia uma eternidade.

Talvez uns dez minutos.

O suficiente para meu corpo começar a relaxar…

o suficiente para eu baixar a guarda.

Passei a mão pelo rosto, sentindo o suor frio na pele.

O tempo parecia ter desacelerado ali dentro.


Talvez ele tivesse desistido.

Talvez eu tivesse conseguido.

Soltei o ar devagar, deixando os ombros relaxarem pela primeira vez desde que tudo
começou.

Mas, mesmo assim… algo ainda parecia errado.

Fiquei ali por mais um tempo, ouvindo apenas o som distante dos carros passando do
lado de fora e o leve zumbido das luzes do posto.

Cada segundo que passava aumentava aquela sensação estranha no peito, como um
aviso silencioso de que aquilo ainda não tinha acabado.

E então…

A porta se abriu.

O som cortou o silêncio como um choque.

Meu coração disparou ao ver o homem que me perseguia entrar no posto.

Ele olhou ao redor, e minha respiração ficou presa na garganta.


O atendente tinha saído, e eu estava sozinha.

O medo tomou conta de mim novamente.


Olhei ao redor, desesperada por uma saída.
O tempo estava se esgotando.

Acabei desobedecendo às instruções do homem que me ajudou e sem pensar,


empurrei a porta da sala de descanso e me esgueirei para o corredor dos fundos.
Mas, no meio do caminho, meu pé bateu em algo metálico.

Uma lata de lixo.

Ela caiu no chão com um estrondo alto demais, ecoando pelo corredor silencioso.

Congelei por um segundo.


Meu coração pareceu parar junto com o som, mas só por um instante.

Lá na frente, ouvi o movimento.


Ele tinha escutado.

— Preciso sair daqui. — murmurei para mim mesma, enquanto corria em direção à
saída.

Quando finalmente cheguei à porta dos fundos, não hesitei.


A luz da rua iluminava meu caminho, e eu não olhei para trás.
Corri com todas as minhas forças, as sombras me envolvendo enquanto buscava um
lugar seguro novamente, determinada a não ser capturada.

Corri pelas ruas com o ar queimando na garganta, o corpo indo mais rápido do que
eu conseguia pensar. Olhar para trás virou um reflexo.
Rápido, quase automático.
Só o suficiente para confirmar que ele ainda estava lá.

Mas não havia tempo para hesitar.


Avistei um parque próximo, suas árvores oferecendo potencial abrigo.

Não pensei muito. Só fui.

Atravessei o portão de ferro já diminuindo o ritmo, forçando o corpo a obedecer.

Correr sem parar só ia me entregar.

Eu precisava desaparecer.

Entrei entre as árvores e saí do caminho principal, pisando direto na terra.


O som dos meus passos mudou na hora, estava mais abafado.
Isso era melhor.

Me joguei atrás de um banco, o corpo encolhido, tentando desaparecer nas sombras.

Por um segundo, me pareceu ser suficiente.

Mas então percebi.

Eu estava exposta.

O banco era baixo demais. Aberto demais.

Se ele olhasse com atenção…


Me veria na mesma hora.
Prendi a respiração, o coração batendo forte demais, e me arrastei para o lado sem
fazer barulho, abandonando o banco antes que virasse uma armadilha.

Fui até a sombra mais fechada de um tronco largo.


Encostei as costas na madeira áspera, tentando controlar o ar entrando e saindo do
peito.

Por um breve instante, tudo ficou silencioso.

No entanto, o silêncio me pareceu diferente.

Não apenas fuga… mas suspensão.


Não era exatamente cansaço… era como se tudo ao redor ficasse distante demais,
quase irreal.

Eu ainda estava ali, porém, uma parte de mim parecia ter ficado para trás, presa no
movimento da corrida.

Mas então…

Passos.

Não eram passos apressados.


Eram passos lentos.

E isso era pior.

Pois, significava que ele não estava apenas correndo.


Ele estava me procurando.

Inclinei o rosto só o suficiente para espiar.

A silhueta dele atravessava o caminho, cortando a luz fraca dos postes.


A cabeça girava devagar, atento demais. Como se soubesse que eu estava ali. Como se
estivesse esperando que eu cometesse algum erro.

Meu coração batia tão forte que parecia ecoar no escuro.

Até que ele parou.

Por um segundo, achei que ele fosse embora.

Então, o olhar dele se fixou em mim, como se já soubesse exatamente onde eu estava.

Ele não hesitou.

Um sorriso apareceu, pequeno, satisfeito.

— Você não vai fugir por muito tempo. — ele disse, a voz baixa, quase calma demais
para alguém que estava perseguindo outra pessoa.

Aquilo me travou por meio segundo.

Tempo suficiente.
Saí do esconderijo antes que ele desse o primeiro passo e disparei na direção oposta,
mas dessa vez não fui pelo caminho iluminado.
Cortei entre as árvores, escolhendo o escuro.

O que foi uma péssima decisão.

Saí do caminho de concreto sem pensar, cortando pela terra na tentativa de ganhar
distância.

Mas, a terra solta cedia sob meus pés, fazendo o salto afundar a cada passo, roubando
qualquer impulso que eu tentava ganhar.
Escorregava, falhava… me atrasava.

— Droga… — escapei entre os dentes, tentando recuperar o ritmo.

Os sapatos já me atrapalhavam…
mas ali, na terra fofa e desigual, parecia impossível correr de verdade.

E ele estava se aproximando.

O som atrás de mim mudou.

Mais rápido.
Mais perto.

Sua respiração pesada ecoando na escuridão.

Olhei para os meus pés.


Os sapatos estavam me prendendo, escorregando, pesados demais para aquele
terreno.

Sem parar de andar, chutei um deles pra longe.

Depois o outro.

O chão gelado e irregular bateu direto na pele, mas eu voltei a ganhar velocidade.

Respira.

Pensa.

Não adianta só correr.

Na curva entre os arbustos, diminuí um pouco o ritmo, forçando o corpo a não fazer
tanto barulho.

Correr direto não estava funcionando.

Ele estava me acompanhando.

Meu olhar correu rápido pelo chão, pelas sombras, em busca de qualquer coisa que
pudesse me dar uma vantagem.

Então vi o galho.

Seco.
Grande o suficiente.

A ideia veio na hora.

Se ele estava me seguindo pelo som… então eu precisava fazer ele ouvir o que eu
quisesse que ele ouvisse.

Sem parar completamente, me inclinei o suficiente para agarrar o galho, os dedos


fechando rápido ao redor da madeira áspera.

Esperei um passo.

Mais um.

E joguei com força para o lado oposto.

O galho arrastou pelas folhas secas, estalando alto no silêncio, como passos apressados
fugindo naquela direção.

Barulho suficiente para confundir.

Sem olhar para trás, segui pelo caminho contrário, prendendo a respiração e tentando
fazer o mínimo de som possível.

Continuei na direção contrária, prendendo o máximo possível o som dos meus


passos.

Por um instante… silêncio.


“Funcionou?”

Não deu tempo de comemorar.

Um estalo atrás de mim.

Não.

Ele não caiu.

Cruzei o parque quase no limite, desviando sem pensar, até ver a saída iluminada à
frente.
Dessa vez, não desacelerei.

Ao chegar à saída, virei à esquerda, correndo em direção à primeira esquina.

O pânico me envolvia, e eu sabia que precisava agir rápido.

O som dos meus passos se misturava com o barulho da cidade, mas a sensação de estar
sendo seguida era palpável.

A respiração estava pesada, e eu sentia que estava perdendo fôlego.


Olhei para trás e vi o homem se aproximando, sua expressão determinada.
"Ele não vai desistir.", pensei, e a adrenalina disparou novamente.

Mas então percebi algo estranho.


Ele não estava mais apenas correndo.
O ritmo dele tinha mudado.

Não era pressa… era cálculo.

Como se ele estivesse deixando eu gastar minhas forças sozinha.

Corri mais rápido, atravessando ruas e bequinhos, mas a cidade parecia um labirinto
sem fim.

O salto falhava a cada passada, instável, traindo meu equilíbrio.


Meu tornozelo ameaçou virar mais de uma vez, me obrigando a diminuir o ritmo, e
isso só aumentava o desespero.

O medo me empurrava para frente, e eu precisava encontrar um lugar seguro.

Então, avistei uma porta entreaberta de um prédio antigo.


Sem pensar duas vezes.

O interior estava escuro, abafado… vazio.

Encontrei uma sala lateral, parcialmente aberta, que dava visão direta para o espaço
principal do prédio.

Me enfiei ali dentro e me escondi atrás de uma pilha de caixas, me posicionando de


um jeito que eu pudesse ver sem ser vista.

Meu coração batia a mil por hora, e a escuridão ao meu redor parecia me engolir.
O silêncio era ensurdecedor, e eu me forcei a ficar parada, tentando controlar o
tremor do meu corpo, e a minha respiração.
Mas logo ouvi os passos do homem se aproximando, e a tensão na sala aumentou.

Ele entrou no prédio, e o som da sua respiração ofegante me fez sentir um frio na
espinha.
— Onde você está? — ele chamou, a voz baixa e ameaçadora. — Eu sei que você está
aqui.
O pânico tomou conta de mim, e eu sabia que precisava ser rápida.

Pela abertura da sala, vi quando ele passou, o olhar percorrendo o lugar com atenção,
analisando cada detalhe.

Por um segundo, tive certeza de que ele iria parar, virar na minha direção… entrar.

Mas ele continuou andando.

Passou direto.

Não me viu.

Esperei alguns segundos, mesmo depois que os passos começaram a se afastar, sem
confiar no silêncio de imediato.

Quando tive certeza de que ele já estava distante, decidi que não podia ficar ali.

Talvez porque a ideia de ele voltar ali não saía da minha cabeça.
Com um movimento rápido, saí do meu esconderijo e segui em direção à saída
oposta.
O coração pulsava de medo, mas a vontade de escapar era mais forte.

Corri novamente, atravessando a porta e saindo para a rua.

Eu me misturava ao movimento da rua, tentando parecer só mais uma pessoa indo


embora, só mais alguém qualquer.

Por alguns segundos, achei que tinha conseguido.

Mas então senti.

Um peso estranho na nuca, aquela sensação de estar sendo observada de novo.

Não veio de um som.

Veio de certeza.

Olhei de relance por cima do ombro.

Ele não estava exatamente colado em mim… mas estava ali.


Do outro lado da rua, parado por um instante, como se tivesse acabado de me
localizar.

E no segundo seguinte, começou a se mover na minha direção.

Mais uma vez, ele estava atrás de mim.


Meu estômago afundou na mesma hora.

A cidade estava viva ao meu redor, mas eu não tinha tempo para pensar.
O homem estava atrás de mim, e o som dos seus passos se aproximando parecia
ensurdecedor.

Entrei em uma rua deserta, a luz fraca dos postes lançando sombras longas. O silêncio
era palpável, mas não havia tempo para relaxar. Meus pés se moviam rapidamente, e
encontrei um espaço estreito entre os prédios, onde me escondi atrás de uma pilha de
entulhos.

O coração batia forte, e a esperança de que ele não me encontrasse me envolveu por
um breve momento.

No entanto, eu o escutei.

Ele estava assobiando uma melodia.


Parecia ser ‘Pumped Up Kicks’ do Foster the people.

Até que escutei os passos se aproximando, seguidos pela voz ameaçadora.

— Onde você se escondeu? Eu vi você correndo pra cá…

Prendi a respiração, os olhos fixos na entrada do beco.

O assobio dele ainda ecoava na minha cabeça, mesmo quando não dava mais para
ouvir.
Era isso que mais me incomodava.

Durante toda essa perseguição, havia algumas coisas que eu simplesmente não
conseguia entender:

Por que esse homem estava tão determinado a me seguir daquele jeito?

O que ele queria?

O que ele esperava conseguir comigo?

Essas perguntas martelavam na minha cabeça enquanto eu corria e me escondia,


mesmo que, no fundo, eu já suspeitasse da resposta.

Mas, uma coisa era certa:


Esse homem devia estar completamente drogado.

Eu já havia percebido que a maneira como ele se movia era estranha, como se estivesse
perdido em um transe, e isso aumentava minha ansiedade.

Olhei para a calçada, e então, eu o vi.


Ele pareceu sentir o meu olhar sobre ele, pois rapidamente olhou na minha direção.
Olhou nos meus olhos.

—Eu te achei! — ele disse, com um tom amargo na voz, e um sorriso assustador.

O pânico tomou conta de mim.


Assim que ele apareceu, não hesitei.
Saltei de trás dos entulhos no beco, empurrando tudo no caminho:
Caixas, pedaços de madeira, qualquer coisa que pudesse atrasar.

Ouvi o impacto logo atrás.

Um barulho seco, objetos sendo chutados, arrastados à força.

Ele não parou.


Mas também não passou ileso.

Contornei o beco e corri com todas as minhas forças, o som dos meus passos ecoando
na rua vazia enquanto ele vinha logo atrás, ainda mais determinado a não me deixar
escapar.

Corri em linha reta, passando de um quarteirão por pouco… antes que meu fôlego
começasse a falhar.

Os passos foram desacelerando, instáveis, quase tropeçando.

Eu não conseguia mais sustentar o ritmo que eu precisava.

Meu corpo estava ficando pesado e minhas pernas começaram a tremer enquanto eu,
numa tentativa falha, tentava recuperar o fôlego.

Olhei para trás, e o pânico cresceu.


Ele estava mais perto do que deveria.
Arregalei os olhos, o desespero tomando conta, e tentei gritar por ajuda, mas minha
voz saiu fraca, sem ar, enquanto minhas pernas perdiam força.

Até que ele me alcançou.

O impacto veio de repente, me puxando para trás com força.


Minha bolsa escorregou do meu ombro e caiu no chão, abrindo no impacto.

Meu celular foi junto, batendo contra o asfalto e deslizando um pouco antes de parar,
com a tela estilhaçada na parte de cima.

Antes que eu pudesse reagir, ele me agarrou com um dos braços, firme demais, me
prendendo contra ele.

A outra mão veio direto para minha boca, abafando qualquer som enquanto ele me
forçava a virar o rosto na direção dele.
O mundo ao redor pareceu parar.
Ele estava suado assim como eu.
O cheiro de álcool e suor invadiu meu nariz, e uma onda de pânico tomou conta de
mim, fazendo meu coração disparar.

Entretanto, algo nele estava diferente.


Seus olhos brilhavam com uma intensidade perturbadora.

Ele não parecia apenas um homem drogado como antes.


Parecia um maníaco. 🎵
— Por que você está fugindo de mim, mocinha? Não era você que conseguia se
proteger? — ele falou me encarando no fundo dos olhos com um sorriso assustador.
— Mas que pena. Eu esperava que você fosse me atacar de forma triunfante pela
maneira confiante que você estava se comportando mais cedo, mas você somente
fugiu. Que sem graça. — ele falou aproximando seu rosto do meu, com uma
amargura na voz. — No fim, você não passava de uma menininha assustada. — meus
olhos começaram a encher de lágrimas, enquanto eu me debatia contra ele.

— Ah, não precisa chorar. Pode ficar tranquila, eu não irei fazer nada demais com
você. Eu só quero me divertir um pouco. — ele se inclinou levemente, e sua voz veio
baixa, quase um segredo, roçando meu ouvido quando sussurrou aquela última frase,
e então se afastou só o suficiente para voltar a me encarar nos olhos.
Ele possuía um olhar cheio de maldade e um largo sorriso em sua face. Eu precisava
fazer algo, se eu não fizesse, ele faria.

— ME LARGA OU EU VOU—

— Chamar a polícia? Não, não… — ele murmurava enquanto passava um dedo pelos
meus lábios. — Você não faria isso. Porque se você fizesse… Me obrigaria a fazer algo
que eu não quero fazer.
Essa última frase foi o golpe final.
A confirmação do que, no fundo, eu já sabia.

Ele abusaria de mim. Eu tinha certeza.


E, se eu chamasse a polícia, talvez nem tivesse tempo.
Eu poderia acabar morta.
Ou pior… me tornar só mais um nome no jornal, mais uma vítima de abuso e
assassinato que as pessoas esquecem no dia seguinte.
Que ótimo.

— ME LARGA! — gritei desesperada, tentando usar minha força contra ele. Sem
sorte.

— Fica calminha. Eu prometo que não vai doer nada… — e então ele me beijou.

Foi uma sensação horrível.

Eu me debatia sem parar, mas quanto mais eu tentava me soltar, mais ele me puxava
para perto, apertando meu pulso com uma força que fazia doer.

Sua boca tinha gosto de cigarro e mais alguma coisa que me deixou com vontade de
vomitar.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto um som preso, quase um gemido,
escapava de mim. Eu mal conseguia respirar direito.

Não importava o quanto eu o empurrasse.

Ele era mais forte, muito mais.

Então, num impulso desesperado de defesa, eu mordi seus lábios com toda a força
que ainda me restava.

O gosto metálico do sangue invadiu minha boca.

Ele recuou com um som de dor, finalmente me soltando, a mão indo direto aos lábios
feridos.
Aproveitei aquele instante.

Comecei a me afastar, passo a passo, recuando sem tirar os olhos dele.

Meu corpo inteiro tremia, da cabeça aos pés.

Eu não conseguia parar.

Não conseguia controlar.

Ele limpou o sangue com a palma da mão, que agora estava suja com o líquido
vermelho.

Então ele ergueu a cabeça devagar para me encarar.


As sobrancelhas baixas, o olhar cravado no meu rosto.
E tudo o que havia ali era fúria.

Um sorriso surgiu, torto, quase cruel…

Antes que eu pudesse reagir, seus dedos haviam se fechado nos meus cabelos.

— Então é assim que vai ser? Tá bom, vamos fazer do jeito difícil então. — ele falou
enquanto puxava meu couro cabeludo cada vez mais forte.

Eu não queria admitir… mas eu estava completamente apavorada.

Eu não sabia o que fazer, só sabia que, se eu não fizesse nada, não haveria tempo.

Desesperada, comecei a orar em silêncio, como se me agarrasse à última coisa que


ainda me restava.
E então…

Pensei no Noah.

Sem perceber, todos os meus pensamentos foram tomados por ele.

Eu tentei resistir, mas não consegui.

Ele era tudo o que vinha à minha mente.

Cada momento. Cada lembrança.

Tudo era sobre ele.

Sobre nós.

E, no meio do medo, surgiu um desejo tão forte que quase doeu:


que ele aparecesse.
que ele me encontrasse.
que ele me salvasse.

“Noah, por favor, me ajude.”

Foi a última coisa que consegui pensar.


Eu já havia perdido as esperanças, quando de repente..

Um soco.
Alguém havia acertado o rosto do homem.

O movimento pegou ele de surpresa. Me pegou de surpresa também.

Foi tão forte que era possível escutar o som do punho batendo contra os dentes.

O ataque repentino fez com que o homem me largasse de uma só vez.


Ele cambaleou para trás enquanto gemia de dor.

A forma brusca que o homem me largou, fez com que meu corpo ficasse no ar,
caindo em câmera lenta, e por um momento pensei ter visto quem havia dado o
golpe.

Não consegui ver seu rosto, foi tudo muito rápido, mas pude perceber que era um
homem.

Um jovem.

Ele era alto e possuía cabelos negros como carvão.

Me lembrava de alguém.

Meu corpo atingiu o chão.


O impacto que ele teve fez com que minha cabeça pesasse e me deixou extremamente
tonta.
Eu tentava abrir os olhos, mas eles não estavam conseguindo se adaptar à luz do
ambiente, o que só fazia minha cabeça doer ainda mais.
Tudo girava e tudo estava embaçado.

Era como olhar através de água suja, tudo tremendo, distorcido.


Então desisti de enxergar.

Toquei a parte latejante da cabeça, gemendo de dor enquanto tentava me concentrar


na minha própria respiração.

Mas eu só conseguia prestar atenção nos sons de luta que ecoavam do local.
🎵
Eles estavam trocando socos, e chutes.
Se a polícia aparecesse, ambos seriam presos sem hesitação pela forma que se
atacavam.

Pareciam dois animais selvagens.


Agressivos, mirando nos pontos fracos um do outro.

Mas um deles estava mais agressivo que o outro.


Enquanto um gemia de dor e tentava contra atacá-lo.
O outro parecia conseguir desviar da maioria dos golpes e os devolvia ainda mais
forte.

Seus movimentos eram precisos e brutais.

O som seco de um soco ecoava, seguido de outro, e mais um.


Havia um ritmo ali, irregular, mas insistente, como um coração pulsando em um
momento de tensão.
Cada impacto parecia mais pesado que o anterior, como se a força por trás deles
estivesse crescendo, junto com algo mais… raiva, talvez.

As respirações se tornavam a trilha sonora daquela luta:


Uma, entrecortada e quase silenciosa.
A outra, pesada e descontrolada.

O ar, antes morno, agora parecia frio, e o cheiro de poeira misturado a algo metálico
preenchia o ambiente.

Mas, um golpe partiu o silêncio.

O som foi diferente, como se tivesse atingido algo que não reagiria mais.

Até que um dos corpos caiu no chão.


A pancada ecoou pelo asfalto, pesada o suficiente para fazer tudo vibrar por um
instante.

O silêncio caiu de repente, como uma cortina pesada após um ato intenso.

Era estranho demais, depois de tantos golpes, e meu ouvido ainda esperava o próximo
impacto, alguma respiração falha.

Mas só havia silêncio.

Um silêncio sufocante que parecia engolir tudo ao meu redor.


Foi então que passos começaram a ecoar, lentos e pesados.

O som do tênis raspando no asfalto atravessou a rua.

Então, ouvi o som abafado dele se abaixando.

E, de repente…

Um som seco quebrou tudo.

Os socos voltaram.

Eles haviam diminuído, mas era possível escutá- los frequentemente vindo de uma
direção.

Tentei abrir um pouco os olhos para ver o que havia acontecido.


Tudo continuava embaçado, mas era possível enxergar um homem desmaiado no
chão enquanto o outro estava por cima, espancando-o.

O homem não parava de golpear seu rosto, mesmo o outro estando desacordado.

Era como se estivesse determinado.


Parecia que quanto mais ele batia, mais forte o soco ficava.

Se continuasse naquela frequência, alguém acabaria morto naquele local.


— FILHO DA PUTA! — xingou o jovem, com a voz trêmula.
Minha pele se arrepiou, como se meu corpo reconhecesse o som de sua corda vocal.

Sua voz estava aguda, turbulenta.


Ele estava muito agitado.
Era óbvio enxergar as suas emoções.
Ele estava furioso.
Extremamente furioso.
Ousaria dizer que ele também estava assustado, mas essa emoção era quase
imperceptível.
Ele estava tão irritado que era muito difícil conseguir enxergar qualquer outra
emoção além da raiva.

A força de seus golpes crescia a cada segundo.

O som ecoava estranho na minha cabeça, como se viesse de longe e ao mesmo tempo
estivesse grudado nos meus ouvidos.
Cada impacto seco parecia atravessar o ar pesado daquela rua.
Eu não conseguia enxergar direito, mas conseguia sentir.
O ritmo irregular dos golpes, a respiração ofegante de quem ainda estava de pé, e o
silêncio assustador de quem já não reagia.

Tentei me mexer, mas meu corpo não respondeu como eu queria.


Um leve movimento já fazia tudo girar ainda mais.
Fechei os olhos por um segundo, tentando me orientar apenas pelos sons.
O som contínuo dos golpes, o som abafado de um corpo sendo pressionado contra
o asfalto e uma respiração cada vez mais pesada, quase descontrolada.

Engoli seco, sentindo a garganta arranhar.


O ar parecia mais frio agora, ou talvez fosse só a sensação estranha tomando conta de
mim.
O tempo parecia desacelerar, como se cada segundo demorasse muito mais do que
deveria.
Cada batida, cada pausa, cada respiração… tudo se esticava.

Uma onda de emoções me invadiu:


alívio, medo e um tipo de gratidão que eu não sabia se deveria sentir.

O homem em pé estava lutando por mim, mas a brutalidade do que estava


acontecendo me deixava angustiada.

Ele continuava a golpear, e cada soco parecia um eco da dor que eu havia sentido.

Enquanto a cena se desenrolava, uma parte de mim queria gritar para parar, mas
outra parte queria que ele continuasse, que aquele pesadelo não tivesse chance de se
repetir.

Pude escutar soluços, enquanto ele continuava golpeando o homem cada vez mais
rápido.
E com mais força.
E mais força.
E mais força.

Ele iria matá-lo.

Até que os sons de luta enfim pararam.


O silêncio veio de repente, pesado, quase ensurdecedor. Só o som do vento passando
leve, e aquele mesmo jovem respirando com dificuldade, como se estivesse tentando
se acalmar.
Ou talvez tentando entender o que tinha acabado de fazer.

Abri um pouco os olhos, forçando a visão.


As formas ainda estavam borradas, mas dava pra perceber que ele ainda estava ali,
inclinado sobre o outro corpo. Imóvel agora.

Ele já não estava o agredindo.


Parecia somente avaliar o estrago que havia feito.

Pude soltar o ar, aliviada.


Ele pareceu fazer o mesmo, mas diferente de mim, ele não parecia tranquilo.
Ele estava abatido, angustiado.

Ele saiu de cima do homem e sentou ao lado do corpo, enquanto tentava recuperar
seu fôlego.
O peito subia e descia de forma irregular, como se cada respiração ainda carregasse o
peso do que tinha acabado de acontecer.

Ele ficou naquela posição por alguns segundos.

Então, lentamente, fechou os olhos.


Por um instante, pareceu distante… quase como se estivesse tentando se desligar de
tudo ao redor.

Mas algo mudou.


Mesmo de olhos fechados, sua expressão se contraiu de leve, como se tivesse
percebido.

Como se conseguisse sentir a minha atenção sobre ele.

Até que seu olhar se voltou para a minha direção.

A reação que meu corpo teve foi estranha.


Era como se eu não soubesse o que fazer para voltar a respirar.

Ele se ergueu do piso depressa, e pareceu sussurrar algo.

Meu nome...?
Não. Não poderia ser isso.

Ele passou a caminhar rapidamente na minha direção, com uma expressão de


preocupação estampada em sua face.
A cada passo dado, ele aumentava a velocidade.
Não demorou muito para que ele ficasse diante de mim.

Minha visão continuava turva, e minha cabeça ainda latejava.


Apesar da proximidade, seu rosto permanecia sendo um borrão.

Entretanto, meu corpo reagiu de uma forma que a mente não conseguia explicar.

Uma familiaridade, um reconhecimento que parecia vir de um lugar mais fundo que
a consciência.
O ar dos meus pulmões, antes preso em um nó de pânico, se dissolveu no instante em
que sua mão se estendeu para me erguer.
Sem hesitar, meus dedos frios encontraram os dele, aceitando o seu apoio.
A proximidade dele era quase sufocante, um calor repentino contra o frio que me
envolvia.
Suas mãos, que eu senti tremerem levemente, se ergueram para o meu rosto. 🎵
O toque era de uma delicadeza quase dolorosa, como se eu fosse feita de vidro e
pudesse quebrar a qualquer instante.
Seus olhos aparentavam varrer meu corpo em uma busca por qualquer sinal de dano,
cada olhar, um questionamento mudo.
Uma ansiedade colossal parecia irradiar dele, suas feições tensas e o maxilar cerrado
denunciavam um desespero que não precisava de palavras.
Seus olhos, que antes vasculhavam meu rosto em busca de ferimentos, se elevaram
lentamente para encontrar os meus.
Neles, vi um turbilhão de sentimentos, uma angústia silenciosa que me atingiu em
cheio.

— Você está bem? Ele fez alguma coisa com você? — ele perguntou. Sua voz saiu
trêmula e frágil.

O desespero o consumia, mas era a preocupação avassaladora que seus olhos não
conseguiam esconder. Eles eram um espelho de um medo profundo, de um "e se" que
poderia ter acontecido.

Seus olhos estavam vidrados em mim.


No meu rosto.
Eles percorriam cada milímetro de minha face, procurando por qualquer sinal,
qualquer indício de que eu estava bem, como se meu bem estar pudesse, de alguma
forma, afetar o bem estar dele.

Não encontrando nenhum ferimento aparente, seu olhar se cravou no meu, agora
com olhos esperançosos.
Aguardando uma resposta que só eu poderia dar.

Abri a boca, mas as palavras simplesmente não saiam, estavam presas em minha
garganta.
Devia ser o peso daquele olhar fixo, tão profundo e intenso, que me deixava
completamente nervosa e confusa, como se cada célula do meu corpo estivesse sendo
analisada.
Era como se meu cérebro tivesse travado, incapaz de formular uma única frase.

Diante da expectativa silenciosa dele, a única coisa que consegui fazer foi balançar a
cabeça negativamente, um gesto simples que poderia dizer a ele as palavras que não
foram ditas.
"Não. Estou bem.”
Ele pareceu perceber minha hesitação, minha dificuldade de falar qualquer coisa, e
me olhou novamente. Seus olhos, ainda esperançosos, agora carregavam uma sombra
de dúvida, como se o meu aceno não tivesse o convencido completamente.
Ele continuou me encarando, como quem esperava um sinal, alguma palavra a mais
que pudesse sair de mim.
Vendo que ele estava determinado a ter a certeza absoluta de que eu não havia sido
ferida, que ele não desistiria até que eu o convencesse, abaixei o olhar, me sentindo
encurralada pela sua persistência.
Respirei fundo antes de encará-lo, e me rendi a sua preocupação.
— Eu estou bem. De verdade. — consegui dizer, as palavras saindo um pouco mais
firmes do que eu esperava, mas ainda com a marca da tensão que me percorria.

Minha resposta pareceu finalmente tê-lo convencido, pois a preocupação exposta em


seus olhos desapareceu, dando lugar ao alívio.
Ele soltou um suspiro longo e pesado, como se estivesse prendendo a respiração por
uma eternidade.

E então, num movimento rápido e gentil, me puxou para um abraço apertado.

Eu senti o corpo dele se aproximar antes mesmo de entender o que estava


acontecendo.
Um braço firme envolveu minhas costas, me puxando para perto, e a outra mão veio
até a minha cabeça, grande e quente, pousando ali como um gesto instintivo de
cuidado.

Meu coração dá um salto, surpresa, e meus braços se erguem quase sozinhos, como se
soubessem o que fazer.

Mas eu paro no meio do movimento.

Minhas mãos ficam suspensas no ar, próximas demais para fingir indiferença,
distantes demais para realmente abraçá-lo.
Há um segundo de dúvida, não por medo, mas por não saber se devo avançar ou
apenas aceitar.

A mão na minha cabeça não pressiona, apenas permanece, tranquilizadora.


Nas minhas costas, o braço dele me sustentava com cuidado, como se dissesse sem
palavras que está tudo bem eu não reagir agora.
Eu respiro fundo, ainda hesitante, deixando meus braços meio levantados, presa
entre o impulso de retribuir e a necessidade de apenas sentir aquele momento, do
jeito que ele é.

Foi quando eu senti uma mudança lenta no abraço.

A mão que estava na minha cabeça deslizou, e o braço nas minhas costas se ajustou,
descendo até encontrar a minha cintura, como se fosse o lugar mais natural para ficar.
Meus braços ainda estão meio levantados, indecisos, quando sinto o toque firme
alcançar o meu abdômen e, então, se ajustar à minha cintura.

Seus braços envolveram a minha cintura com força, mas sem me machucar, e pude
sentir o calor do seu corpo contra o meu, o cheiro dele me envolvendo.
Ele apoiou o queixo no meu ombro, e por um momento ficamos ali, na segurança
daquele abraço, como se o tempo tivesse parado.

Fiquei confusa com a intensidade daquele gesto, surpresa pela forma que ele me
apertava, mas, sem pensar muito, correspondi, passando os meus braços pelo seu
pescoço.

Senti ele relaxar ainda mais contra mim.


Foi então que, com a voz abafada pelo meu cabelo, ele murmurou:
— Ainda bem... — era visível o alívio genuíno que transbordava de suas palavras.

Eu, de alguma forma, me senti bem com seu abraço, uma sensação de conforto
estranhamente familiar que me acalmou instantaneamente.
No entanto, algo me deixou pensativa.
Com minha visão ainda embaçada, eu ainda não conseguia distinguir com clareza
quem era a pessoa que me abraçava. Mas, pela intensidade e pelo carinho do gesto, eu
tinha certeza de que ele não era um estranho.

Devia ser algum conhecido.


Na verdade...
Alguém muito próximo a mim.

Meus pensamentos giravam, tentando desesperadamente conectar aquela sensação de


segurança com um rosto, um nome, uma história.

A resposta estava na ponta da minha língua.


Tudo parecia apontar para uma única direção.

"Noah".

O nome ecoou na minha mente, quase como um sussurro vindo de um lugar


distante.

Aquele cheiro, a força do abraço, a forma como ele me protegia... Tudo gritava o nome
dele.

Poderia ser ele?

A possibilidade, que antes nem entraria em cogitação, parecia quase… real.


Por um segundo, tive a sensação de que, sim, era ele. Mas a confusão me dominava.
“Não pode ser.”
“Não tem como ser ele.”

Minha mente se recusava a aceitar, empurrando a ideia para longe.


Não fazia sentido.

Tentei desesperadamente pensar em outra pessoa.


Quem me abraçaria com tanta intensidade? Com tanto carinho?
Um amigo próximo?
Um parente?

Minha mente estava em branco. Ninguém mais vinha a mente daquela mesma forma,
com aquela mesma sensação de pertencimento. Era como se meu corpo soubesse,
mas minha mente se recusasse a aceitar.
A falta de outras opções só reforçava a ideia que eu tanto tentava afastar.
Aquele momento, que deveria ser de pura tranquilidade, se transformou em um
turbilhão de incertezas.
Eu precisava saber.

— Me desculpe por perguntar, mas… nós nos conhecemos? — murmurei, cega pela
dúvida, com o coração batendo forte no peito. 🎵
Ele se afastou lentamente, como se minha pergunta tivesse o atingido em cheio,
quebrando o feitiço do abraço. Seus braços, antes firmes na minha cintura, se
soltaram devagar.
Ele deu um passo para trás, criando uma distância que antes não existia.
Seus olhos estavam fixos nos meus.
O alívio de antes foi substituído por uma expressão de choque e mágoa que cortou
meu coração.

Aquele olhar...
Era um olhar que eu não queria ter causado.

Era como se eu tivesse acabado de apagar uma memória preciosa.


Aquele olhar parecia dizer:
"Como você pode não saber?"

— Você... não me reconhece? — ele começou, com a voz rouca, num sussurro pouco
perceptível. — Eu.. eu pensei que.. — sua voz falhava, parecia ter dificuldade de
encontrar as palavras certas.

Era possível notar um tremor, quase imperceptível, em suas mãos.


Seus olhos, antes tão expressivos, agora pareciam vazios, fixos em algum ponto além
de mim, como se buscasse uma resposta que não encontrava.

— Você... realmente não se lembra? — sua voz estava carregada de uma dor que me
fez encolher.

Eu não pude responder a sua pergunta. Eu não fui capaz de pensar em uma resposta
que pudesse ser dita.
Mas meu silêncio pareceu responder por mim.

Ele balançou a cabeça, não em negação, mas como se estivesse tentando afastar uma
realidade que se recusava a aceitar.
Um sorriso amargo e triste se formou em seus lábios, e ele desviou o olhar, como se a
visão do meu rosto fosse dolorosa demais.

— Não importa. — ele murmurou para si mesmo. Era quase inaudível, como se
estivesse tentando convencer mais a ele do que a mim.

Quando ele voltou a me encarar, seus olhos estavam vazios, sem resquício algum de
qualquer emoção.
Seu rosto possuía uma expressão fria, como se cada sentimento tivesse sido deixado
para trás.
Um suspiro pesado escapou de seus lábios, e ele balançou a cabeça lentamente, como
se estivesse tentando processar algo inacreditável.

— Não. Não nos conhecemos. — ele murmurou, com uma tristeza profunda e
cortante na voz.

O silêncio que se seguiu era pesado, preenchido apenas pelo eco da sua voz
melancólica, e pela distância que ele havia colocado entre nós.

Uma pontada de confusão me atingiu, misturada com uma dor estranha que eu não
conseguia identificar.
Meu corpo parecia reagir a tristeza em sua voz e ao vazio em seus olhos, uma angústia
que eu não entendia, mas que me deixava um gosto amargo e inexplicável na boca.
Era como se meu peito se apertasse por algo que eu deveria saber, mas que minha
mente se recusava a aceitar.
Ainda assim, no meio daquela explosão de emoções, uma parte de mim sentiu um
impulso urgente de falar, de quebrar o silêncio.
— Obrigada.. — eu sussurrei, com a voz quase tão fraca quanto a dele. — Por ter me
salvado daquele homem.

Ele apenas assentiu lentamente, um movimento quase imperceptível de sua cabeça.

Seus olhos, ainda vazios, se desviaram dos meus para um ponto qualquer.
Mas não havia arrependimento neles.
Havia apenas uma aceitação cansada, como se me salvar fosse algo que ele faria de
novo, mesmo que isso o levasse a este exato momento.

Minha curiosidade me fez desviar o olhar dele e buscar o homem de quem ele me
salvou.

Meus olhos se fixaram no corpo caído a poucos metros.


A imagem me fez prender a respiração.
Um pequeno engasgo escapou de minha garganta.

O homem estava no chão, inconsciente.


A luz fraca da rua mal iluminava a cena, mas era o suficiente para revelar seu estado.
O estrago feito era evidente.
O rosto dele estava inchado.
Muito inchado, pelos golpes que levou.
Seus olhos agora possuíam uma coloração roxa, seu nariz sangrava e sua boca estava
cortada.
Seu rosto possuía várias marcas de corte que levariam tempo para cicatrizar.
E ele estava desacordado.
Ou será que estava morto?
Levei as mãos até a boca, chocada com o que estava à minha frente.
Um arrepio percorreu minha espinha, e o choque tomou conta do corpo.
A brutalidade da cena me paralisou.

— Ele.. Está morto? — eu hesitei, a pergunta quase um sussurro de horror, mal


conseguindo acreditar no que meus olhos viam.

A pergunta pareceu tirá-lo de seu transe.


Seus olhos, antes vazios, se arregalaram em negação, e ele respondeu imediatamente,
com a voz mais forte do que antes:

— O quê? Não! Claro que não! Eu apenas deixei ele inconsciente.

Minha voz explodiu, incrédula com a calma dele diante da situação:

— Você é louco?!

Ele me encarou, sem vacilar, e a resposta veio rápida, fria:

— Ele mereceu.

— Mas ele podia ter morrido! — eu insisti, o choque e o medo me dominando.

Um sorriso amargo e quase imperceptível surgiu em seus lábios.

— É. Podia.
— Esse lugar pode estar cheio de câmeras, o que você acha que vai acontecer se a
polícia descobrir?! — minha voz subiu um tom, a preocupação e a raiva se tornando
um só.

Ele desviou o olhar para o céu noturno, um suspiro pesado escapando.

— Eu não me importo.

Seus olhos voltaram para mim, e ele murmurou, quase para si mesmo,como se a frase
escapasse sem sua permissão, mas era alto o suficiente para que eu ouvisse:

— A única coisa que me importa agora... é você. Eu só me importo com a sua


segurança.

Minha mente travou. 🎵


As palavras dele ecoaram, e por um instante, o mundo ao redor ficou mais claro,
como se o foco da minha visão estivesse voltando.

Senti um calor estranho subir pelo meu rosto, e meu coração acelerou de uma forma
que não entendi.

Pisquei uma, duas, três vezes, e lentamente, a nitidez voltou.

As luzes da rua, o corpo no chão, tudo se recompôs, mas as suas palavras ainda
pairavam no ar.

Quando minha visão finalmente retornou completamente, meus olhos se fixaram na


pessoa à minha frente.
E então eu o vi.

Era ele.

Era o rosto de Noah.

Meu corpo paralisou. Eu não conseguia me mexer.

Ele estava ali.


Estava na minha frente.

Uma onda de choque me atingiu, e o ar pareceu sumir dos meus pulmões.


Senti um tremor incontrolável percorrer meu corpo.
Minhas mãos suavam frio e meu coração batia acelerado.

Dei um passo cambaleante para trás, depois outro.


Uma enxurrada de sentimentos invadiu minha mente.

“Não pode ser...”

Eu devia estar vendo coisas.


Era o álcool, com certeza.
Devia ser mais uma daquelas miragens, uma alucinação do rosto dele.
Era raro, mas acontecia de vez em quando.

Meus olhos começaram a arder, e uma fina camada de lágrimas se formou,


embasando ainda mais a imagem dele.
Eu pisquei, tentando afastar a umidade, mas foi inútil. As lágrimas escorriam
livremente pelo meu rosto, quentes e incontroláveis.
Um soluço escapou da minha garganta, e eu comecei a chorar, um choro silencioso,
mas profundo, que vinha de um lugar que eu nem sabia que existia dentro de mim.

"Não é real", pensei, minha mente insistindo em negar o que meus olhos viam.

"Essa maldita bebida deve ter me feito alucinar de novo. É só mais uma daquelas
miragens, uma visão do rosto dele, como já aconteceu das outras vezes em que eu bebi
demais. Não é real. "

Mas, por mais que eu tentasse me convencer de que era uma ilusão, algo dentro de
mim gritava o contrário.

Aquela miragem era diferente das outras.


Os contornos do seu rosto eram nítidos demais, a expressão em seus olhos, mesmo
que distante, parecia incrivelmente real.

Eu podia sentir a presença dele.


Era como se ele estivesse ali, de verdade, respirando o mesmo ar que eu.

Eu congelei por um instante, ainda perdida entre a confusão e o impacto de vê-lo ali
de verdade.

Ele usava uma camiseta preta colada ao corpo que marcava cada movimento da
respiração dele, subindo e descendo de forma pesada, como se ainda estivesse
tentando recuperar o fôlego.
Os contornos firmes ficavam levemente marcados sob a blusa, revelando a força
contida ali.
O tecido escuro contrastava com a luz da lua, delineando seus ombros, o peito, a
tensão evidente em cada músculo.

A calça de moletom cinza, simples, completava a imagem de alguém que tinha saído
às pressas.

E foi só então que as roupas deixaram de prender meu olhar.

A presença física dele, parecia sólida demais, real demais para ser apenas uma
lembrança da minha mente.

Meus olhos subiram devagar pelo rosto dele, como se não conseguissem parar.
Noah estava à minha frente de um jeito quase irreal sob a luz da lua.
O brilho prateado cortava o contorno do rosto dele, destacando cada detalhe com
uma nitidez dolorosa.
A testa dele estava levemente brilhante de suor, como se tivesse corrido ou procurado
por algo, ou alguém, por muito tempo.
O cabelo estava bagunçado, caindo de forma desordenada sobre a testa, dando a ele
um ar ainda mais humano, mais real.

E isso me destruiu por dentro.

Porque não parecia uma alucinação.

Parecia ele.
De verdade.

A luz da lua o envolvia como se o destacasse do resto do mundo, e por um segundo


eu fiquei completamente presa naquela imagem.

Hipnotizada.

Incapaz de desviar o olhar.

Mas mesmo com toda a evidência dos meus sentidos, eu ainda me agarrava à ideia de
que tudo não passava de uma alucinação, repetindo para mim mesma que era
impossível.

Uma tristeza pesada apertou meu peito, como se aquela visão fosse bonita demais
para durar, ou dolorosa demais para ser real.

O choro aumentou, e eu senti o gosto salgado das lágrimas na boca, misturado ao


amargo da negação.

Então, a miragem se moveu.

Os olhos de Noah, antes fixos nos meus, agora refletiam uma confusão seguida de
uma visível preocupação.
Ele deu um passo na minha direção, com a testa franzida.
Ele se aproximou com os olhos arregalados de desespero ao ver minhas lágrimas.
A forma como ele me olhou, com uma mistura de pânico e dor, fez meu coração se
apertar ainda mais, e a mão dele me tocou de leve, trêmula.
Ele parecia angustiado, como se a minha dor fosse a dele.
Naquele momento, eu senti uma mistura avassaladora de alívio e confusão, ainda
maior que a intensa preocupação que ele não conseguia esconder.

As mãos dele me tocavam de leve, trêmulas e hesitantes no meu corpo.


Como se estivessem tentando fazer eu me sentir melhor.

— Ei, ei...Calma, não chore… — ele pediu, com a voz baixa, tentando
desesperadamente me acalmar. Mas, por trás da preocupação, era possível também
ver a fúria em seu olhar. Ele completou, com a voz grave e tensa:

— Ele te machucou? Aquele desgraçado fez isso? — a intensidade da sua pergunta e a


raiva em seu tom me fizeram tremer ainda mais.

Eu mal conseguia processar a mudança em seu semblante. Seus olhos, antes cheios de
raiva, agora se suavizaram em angústia, e ele me olhava com uma intensidade que me
desarmava.

— Não é isso... — eu murmurei, a voz baixa e fraca pelas lágrimas que ainda desciam,
sentindo uma pontada de culpa por vê-lo tão aflito.

Ele se aproximou mais um pouco, a preocupação evidente em cada linha do seu rosto.
Havia algo em seu olhar, uma necessidade de entender que me fez sentir um nó na
garganta.

— Então por que você está chorando? — ele perguntou, a voz agora mais baixa,
quase um sussurro, carregada de uma confusão e um medo.
Eu desviei o olhar, envergonhada, sentindo que meus problemas eram bobos demais
para a intensidade da sua reação.

— Não é nada, é só coisa da minha cabeça. — respondi, tentando evitar a situação,


mas a frase soou vazia até para mim.

Ele suspirou, um som pesado que revelava sua frustração e a persistência de sua
preocupação. Ele segurou meu rosto com as mãos, me forçando a encará-lo, e seus
olhos transmitiam uma seriedade inabalável.

— Se isso te incomoda, você devia falar. — ele falou, a voz firme, mas gentil, deixando
claro que para ele, a minha dor, fosse ela qual fosse, era importante. Sua determinação
em me fazer falar era evidente, e eu senti um calor estranho se espalhar pelo meu
peito.

Eu respirei fundo, meus olhos, agora vermelhos pelas lágrimas estavam fixos nos
deles, sentindo uma vergonha profunda, mas também uma necessidade desesperada
de que ele entendesse.

— Isso pode parecer bobo, e eu nem sei como dizer... — comecei, com a voz
falhando. — Mas as vezes, quando eu bebo demais, eu começo a ver coisas. Tipo...
alucinações de uma pessoa. E isso está acontecendo agora. Parece que estou vendo o
rosto dele em você, e isso está me confundindo de um jeito que eu não consigo
explicar.

Enquanto eu falava, vi uma transformação sutil, mas profunda, no rosto dele.


A tensão que antes marcava seus traços estava desaparecendo lentamente, sendo
substituída por uma compreensão quase dolorosa.
Seus olhos agora brilhavam, como se estivesse sentindo uma paixão avassaladora e um
amor profundo, mas eu, em minha confusão, não conseguia decifrar o verdadeiro
brilho daquele olhar.
A frieza que eu havia visto no rosto dele desapareceu por completo, e ele me olhou
como se finalmente tivesse encontrado a peça que faltava no quebra-cabeça.

Ele não me soltou, mas seus dedos começaram a acariciar minhas bochechas
suavemente, enxugando as lágrimas.

— Você está vendo ele em mim? — ele perguntou, a voz agora tão suave que me fez
sentir um arrepio.

Eu apenas assenti, incapaz de falar, meus olhos fixos nos dele.

— E por que você não me reconheceu, então? Quero dizer.. Por que você não
reconheceu o rosto dele? — ele perguntou, a voz baixa, com seus olhos fixos nos
meus, buscando uma resposta que eu não sabia dar.

Eu engoli em seco, sentindo o peso da pergunta.

— Eu bati a cabeça quando aquele homem me soltou no chão. — respondi, olhando


na direção do homem desacordado na calçada. — Estou muito bêbada e minha visão
estava completamente embaçada. Eu mal conseguia te enxergar direito, tudo estava...
distorcido.
Ele me observou, um alívio quase imperceptível passou por seu rosto. Ele se acalmou,
parecia que um peso tinha sido retirado de seus ombros, embora a preocupação com
o meu estado permanecesse.

— Bateu a cabeça? - ele perguntou, a voz agora mais firme, porém com um tom
preocupado. — Onde? Deixa eu ver.

— Não, não, está tudo bem. — respondi, tentando levemente afastar a mão dele que
se estendia para tocar minha cabeça. — Foi só um susto. Não foi nada demais.

Ele me encarou por um momento, com sua mão ainda no ar.


Seus olhos percorreram o meu rosto, com uma expressão pensativa que começava a
aparecer.
O alívio se misturou com uma curiosidade persistente, quase uma necessidade de
entender.

— Esse homem que você vê em mim… — ele começou, a voz mais baixa, quase um
sussurro, e seus olhos fixos nos meus. — Como ele era? Descreva para mim.

Eu hesitei.

A pergunta dele me atingiu como um choque de realidade, me relembrando toda a


razão do meu sofrimento.
Falar sobre ele, era a última coisa que queria fazer.
Meus olhos se desviaram dos dele, se fixando em um ponto qualquer no chão,
enquanto minha mente tentava encontrar uma forma de evitar a resposta.
Minha garganta ficou seca.
— Eu... eu não... — eu comecei, a voz falhando, as palavras se recusando a sair.

Ele apertou gentilmente as minhas mãos.


Seus olhos, antes curiosos, agora carregavam uma urgência que não podia ser
ignorada.

— Por favor. — ele pediu, a voz grave e suave, sem qualquer exigência, mas com uma
intensidade que me fez levantar os olhos para encará-lo novamente.

Eu suspirei , um som pesado que carregava mágoa e frustração.


Meus olhos se fixaram nos dele, e eu pude sentir uma dor profunda.
Era como se eu estivesse revivendo cada momento que eu passei ao seu lado ao
lembrar de como ele era.

— Ele... ele era alto. — comecei a falar, a voz baixa e rouca, cada palavra um esforço.
— Cabelos pretos, muito pretos, e olhos... os olhos dele eram tão escuros que
pareciam pretos também. A pele dele era pálida, quase sem cor, e ele era forte, muito
forte. Não de um jeito bruto, mas com uma força que me fazia sentir segura... e ao
mesmo tempo, completamente vulnerável.

Ele engoliu em seco, enquanto observava minha expressão.


Seus olhos pareciam arder de paixão, enquanto se aprofundava ainda mais em mim,
como se quisesse enxergar através de minha alma.
O brilho neles se intensificou.

— É mesmo? — ele perguntou, a voz quase inaudível, mas carregada de uma


intensidade que me fez prender a respiração. — E ele era especial para você? — sua
voz estava baixa e rouca, seus olhos estavam muito brilhantes e intensos, parecia que a
qualquer minuto, eles poderiam transbordar de tanta esperança que era possível
enxergar neles.

Eu o encarei, enquanto conseguia sentir uma dor antiga e uma culpa profunda se
instalar sob o meu ser outra vez.
A pergunta dele, tão suave, abriu ainda mais uma ferida que já estava aberta. Um
suspiro pesado escapou de meus lábios, carregado de arrependimento.

— Era. — eu respondi, quase como um lamento. - Ele era muito especial.

Uma lágrima escorreu pela minha bochecha, e meus lábios tremeram levemente antes
de continuar.
Minha voz saiu baixa, quase um sussurro de desespero, que carregava uma pequena
parte da culpa que me consumia.

— Mas eu consegui estragar tudo. — Ao ouvir minha confirmação, uma faísca


pareceu se acender em seus olhos.

Um leve sorriso surgiu em seus lábios. Ele soltou minhas mãos suavemente e, com
uma delicadeza de quem tocava uma frágil peça de museu, levou o polegar até minha
bochecha, limpando a lágrima que escorria. Seus olhos, que antes estavam cheios de
uma pequena esperança, brilhavam com uma intensidade avassaladora, enquanto
suavizaram, com uma evidente compaixão, o peso da minha frase ainda parecia ecoar,
como uma dor compartilhada.

— Você quer falar sobre isso? — ele perguntou em um tom suave, quase um convite,
a voz carregada de gentileza e acolhimento.
Senti um arrepio passar por todo o meu corpo. 🎵
A forma como ele me olhava naquele momento, com uma mistura de carinho,
preocupação e uma pitada de algo mais profundo, era exatamente como Noah
costumava me olhar.
Era um olhar que eu conhecia bem, que fazia eu me sentir vista e compreendida.
E olhando para o rosto dele, para aquele rosto tão familiar, a vontade que eu tive de
me abrir era quase incontrolável.

Sim, eu precisava falar sobre aquilo, precisava desabafar com alguém.

Principalmente com ele.

Mas aquele não era o Noah.


Era só um estranho.

Aquilo era pessoal demais, íntimo demais para ser compartilhado com alguém que eu
nem conhecia.
Mas a confusão do álcool borrava as linhas, e a necessidade de desabafar, de aliviar o
peso que eu carregava, era um grito silencioso em meu peito.

Aquele olhar, tão parecido com o dele, me embalava em uma falsa segurança. E assim,
vencida pela vulnerabilidade e pela bebida, eu me entreguei, as palavras foram
pronunciadas, quentes e dolorosas.

— Eu o amava. — eu confessei, com a voz baixa, um nó apertado se formava em


minha garganta. — Eu o amava muito…
Uma pausa se seguiu, onde apenas o som de nossas respirações podiam ser ouvidas.
Meus olhos se fixaram em um ponto qualquer, enquanto eu relembrava as memórias.

— No começo, a gente se odiava, sabe? Pelo menos, eu o odiava. Não sei como, mas
ele se apaixonou por mim primeiro. Eu não percebi na época, estava completamente
cega pelo meu melhor amigo. Uma paixão de anos, que nunca foi correspondida. Eu
me agarrava a essa ideia, a esse amor de infância.

Acabei rindo, um riso sem humor, lembrando da ideia que um dia passou pela minha
cabeça.

— Até que um dia, ouvi alguém dizer que "homens só dão valor quando perdem". E
quando descobri que Noah estava apaixonado por mim, uma ideia estúpida me veio à
mente. Eu pensei: "Vou dar uma chance ao Noah, talvez assim meu melhor amigo
perceba o que está perdendo e finalmente me veja". — eu soltei um suspiro,enquanto
as lembranças me consumiam. — Mas o plano não deu certo. O meu melhor amigo
nunca percebeu nada. E, sem que eu percebesse, eu comecei a me apaixonar pelo
Noah de verdade. A forma como ele me olhava, como me tratava, me fazia sentir a
pessoa mais especial do mundo. Eu comecei a amá-lo de verdade, sabe? E então
ficamos oficialmente juntos. Tudo era perfeito com ele.

Dei uma breve pausa para respirar, enquanto sentia as lágrimas se formando em meus
olhos. Me forcei a segurá-las, mas uma delas acabou rolando em meu rosto.
Limpei a lágrima com a palma da mão, irritada comigo mesma.

— Até que, um dia, ele descobriu. E ficou arrasado. Ele deve ter se sentido traído, eu
sei. Tivemos uma briga horrível, a pior de todas. Ele pediu um tempo para processar
tudo. Dias se passaram, e ele mal conseguia olhar para mim. Eu sabia que ele estava
machucado, e isso me destruía. Mas eu também não conseguia mais ver o nosso
relacionamento andando da mesma forma que antes, com essa sombra entre a gente.
Então, eu acabei com tudo. Disse que era melhor cada um seguir seu caminho. E ele…
nem pareceu se importar.

Eu finalmente voltei a encará-lo e o que vi em seus olhos não era apenas compaixão,
nem a gentileza de um estranho. Era algo mais profundo.

Era o reflexo de tudo que eu havia acabado de confessar, mas com uma dor ainda
mais antiga e pesada.
Naquele olhar, eu vi anos de amor não correspondido, de esperança e de mágoa.

Por um instante, a semelhança com Noah me atingiu com força.

O jeito que ele me ouvia, a expressão em seus olhos…

Balancei a cabeça, afastando o pensamento.


A bebida e a dor estavam pregando peças em minha mente.
Ele era um bom ouvinte, só isso.

Mas eu precisava continuar, precisava tirar tudo de mim.

— Eu tentei seguir em frente. Mas é tão difícil...Cada música, cada lugar... Tudo me
lembra dele. E o pior é que eu sei que a culpa é minha, eu comecei com uma mentira.

Eu dei um sorriso forçado, enquanto levantava as mãos em um gesto teatral.


— Agora... Aqui estou eu! Uma alcoólatra que vai em boates e baladas com o único
objetivo de esquecê-lo e falhando miseravelmente! Maravilhoso, não é? — falei com
um falso entusiasmo na voz que mal escondia minha tristeza.

— E para completar a tragédia, ainda me pego contando a minha vida para um belo
estranho, no meio de uma rua desconhecida, em plena madrugada. Meu nível de
desespero deve estar altíssimo mesmo! — Eu soltei uma risada curta e sem humor,
enquanto balançava a cabeça. 🎵
Ele me ouviu em silêncio, a expressão em seu rosto era uma mistura de dor e
compreensão.
Ele não fez perguntas, não me interrompeu, apenas absorveu cada palavra dita por
mim.

Quando eu terminei, eu senti um relaxamento imenso.


Era como se um peso gigante tivesse sido tirado de meus ombros, e a simples presença
dele, atenta e calada, foi um grande alívio para mim.

Seu olhar repousou sobre mim, e algo nele estava diferente, mais intenso.
Seus olhos agora pareciam brilhar com uma luz própria, que competia com o brilho
da lua, refletindo uma constelação de emoções que eu não conseguia decifrar.
Era uma mistura de algo que me fazia prender a respiração.

Eu senti o calor subir pelo meu rosto.


A vergonha me atingiu em cheio, quando percebi o quanto tinha me exposto para
um completo estranho.
— Me desculpe. — eu disse, desviando o olhar. — Eu não sei o que deu em mim.
Falei demais, não deveria ter te incomodado com os meus problemas. O álcool e a
situação... eu sinto muito.

Ele ouviu minhas desculpas, mas não desviou o olhar.


Pelo contrário, sua intensidade pareceu crescer, se fixando em mim de uma forma que
fez eu me sentir completamente exposta.
Seus olhos, que antes brilhavam com uma luz quase mágica, agora pareciam perfurar
minha alma.

— Você realmente se arrepende? — ele perguntou, a voz baixa, mas carregada de uma
seriedade que me fez estremecer.

Eu pisquei, um nó se formava em minha garganta.


Achei que ele estivesse se referindo ao desabafo, a forma como eu havia me exposto
para ele.

— Sim, eu... eu me arrependo de ter falado tanto para você, de ter te sobrecarregado
com meus problemas. — eu comecei, com a voz trêmula, tentando justificar a
avalanche de palavras que havia despejado sobre ele.

Ele balançou a cabeça levemente, me interrompendo.

— Não é sobre isso que estou falando. — ele disse, a voz ainda baixa, mas com uma
clareza que não deixava dúvidas. Seu olhar não vacilou. — Você se arrepende de ter
feito o que fez com o Noah?

A pergunta fez meu coração gelar.


Ela me atingiu como um golpe no estômago.

O ar escapou de meus pulmões, e por um instante, eu senti o mundo girar.

Meus olhos se arregalaram, fixos nos dele, onde a intensidade de antes agora parecia
transbordar de uma dor e compreensão que me desarmou por completo.
Não havia julgamento, apenas uma clareza que me fez sentir vista, em minha mais
profunda vulnerabilidade.
Era como se, finalmente, alguém tivesse visto a ferida mais profunda de minha alma.

Uma lágrima teimosa rolou em minha bochecha mais uma vez, quente e pesada. A
voz que saiu de meus lábios estava rouca e baixa, um sussurro quase inaudível, mas
possuía o peso de um fardo que eu carregava há muito tempo.

— Não tem um dia sequer que eu não me arrependa.

A minha confissão pareceu atingi-lo em um ponto fraco, com força.

Ele soltou o ar que parecia estar prendendo há uma eternidade, um suspiro longo e
pesado, como se um peso imenso tivesse sido tirado de seus próprios ombros
também.
Seus olhos, ainda fixos nos meus, se suavizaram um pouco, mas a intensidade
permaneceu, agora com uma profunda compaixão.
Ele me observou por um momento, absorvendo a sinceridade de minhas palavras.

— Por que você não fala isso para ele? — ele perguntou, a voz agora mais suave.
Eu acabei soltando uma risada, mas não havia alegria nela.
Era só uma risada falsa e vazia, que tentava mascarar a dor.

— Eu queria que fosse fácil assim… — eu disse, balançando a cabeça lentamente. —


Ele me odeia.

Enquanto as palavras escapavam de meus lábios, uma onda de cansaço extremo me


invadiu.
Meus olhos começaram a pesar, as pálpebras lutando para se manterem abertas, mas a
batalha estava perdida. A minha cabeça pendeu para o lado, e o chão, antes firme,
pareceu balançar sob meus pés. As pernas ficaram bambas, e eu senti o meu equilíbrio
desaparecer completamente.
Eu estava prestes a cair de joelhos no chão frio.

Num movimento rápido e instintivo, ele me segurou.


Seus braços me envolveram com firmeza, mas com a delicadeza necessária para que
não me machucasse.
Ele me puxou para perto, impedindo a minha queda, e me manteve em pé, apoiada
contra ele.

Mesmo à beira do sono, com a cabeça em seu peito, eu pude sentir seus batimentos
cardíacos.
Pude ouvir o seu coração, num ritmo descompassado.
A força pulsante contra meu ouvido.

— Não... Ele não te odeia... — Foi tudo o que eu consegui escutar antes de embarcar
até o subconsciente.

Meus olhos se abriram lentamente, um pouco pesados.

Um gemido escapou dos meus lábios antes mesmo de eu perceber que estava
acordada.

Minha cabeça latejava de uma forma familiar e incômoda, um lembrete cruel da noite
anterior.

Meu corpo estava sem energia, cada músculo do meu corpo parecia gritar em
protesto, como se eu tivesse corrido uma maratona.

Eu estava exausta, mais do que me lembrava de ter estado.

À medida que meus olhos se esforçaram para focar, as cores e os contornos


começaram a ganhar sentido.
As formas começaram a se definir:
O papel de parede, a escrivaninha bagunçada cheia de livros e maquiagem, a pilha de
roupas jogadas sobre uma cadeira, o guarda-roupa espelhado.

Era o quarto da Anna.

Mas como eu tinha chegado ali?

Uma onda de confusão me atingiu. Eu não tinha a menor ideia de como havia parado
ali.

Minha memória parecia um borrão, um quebra-cabeça com peças faltando, e a última


imagem que consegui resgatar era a de uma boate barulhenta e um par de olhos
intensos.

Foi então que senti.

Um toque leve, quase imperceptível, no travesseiro ao lado da minha cabeça. Tão


delicado que mal senti a pressão, mas o suficiente para registrar.

"Anna", pensei, ainda meio adormecida.

"Deve ser a Anna, verificando se estou bem."

Com um esforço, virei a cabeça lentamente, a voz rouca escapando em um sussurro:

— Anna...?
Mas não era a Anna. 🎵
Meus olhos, agora um pouco mais focados, encontraram um par de íris negras que eu
conhecia bem, mas que não esperava ver ali, nunca.

O rosto sério, preocupado, os cabelos escuros caindo sobre a testa.

Era Noah.

Meu coração deu um salto, gelando e aquecendo ao mesmo tempo.

Ele estava ali, ao meu lado, mexendo no meu travesseiro

— N-Noah...? O quê... O que você...? — minha voz falhou, as palavras saindo por
um fio, se perdendo em um emaranhado de confusão e surpresa, incapazes de formar
uma frase completa.
Respirei fundo, tentando me acalmar um pouco antes de continuar a falar. — O que
você está fazendo aqui? — eu consegui dizer, as palavras carregadas de espanto e uma
ponta de vergonha.

Ele retirou a mão do travesseiro, o olhar fixo no meu.

— Eu te trouxe pra cá. Você desmaiou.

Assim que as palavras deixam os lábios dele, a dor me atingiu como um raio.
Foi repentino e brutal, como se um martelo estivesse batendo dentro da minha
cabeça.

Soltei um gemido, levando as mãos às têmporas.

Meus olhos se fecharam com força, e o mundo girou.

Ouvi um movimento rápido e, quando forcei os olhos a se abrirem um pouco, vi o


rosto de Noah com uma expressão de preocupação genuína.

Ele estava perto, seus olhos fixos em mim, e em segundos, um copo de água fria
apareceu na minha frente.

— Toma, beba devagar. — ele disse, a voz suave, mas firme. — Vai te ajudar com a
ressaca.

Meus dedos, um pouco trêmulos, se estenderam para pegar o copo de sua mão.

No instante em que nossas peles se roçaram, um calor inesperado e elétrico percorreu


meu braço, se espalhando rapidamente pelo meu corpo.
Foi um choque sutil, mas intenso, que me fez prender a respiração por um milésimo
de segundo.

Se ele percebeu, não deixou transparecer.

Sua expressão permaneceu inabalável, os olhos escuros ainda fixos nos meus.

Levei o copo aos lábios, mas não bebi imediatamente.


Meus olhos não conseguiam se desviar dos dele. Era um olhar que ia além da
superfície, uma janela para algo mais profundo.
Seus olhos, antes apenas preocupados, agora pareciam carregar uma mistura de
curiosidade, uma ponta de melancolia e uma intensidade que me prendia.
Não era um olhar de julgamento, mas de uma compreensão silenciosa, quase como se
ele pudesse ver a bagunça dentro da minha cabeça, a confusão do meu coração.
E eu, tentava decifrar o que se escondia por trás daquela fachada calma, que seu rosto
tentava esconder, mas que os olhos entregavam.

O tempo pareceu parar, e o único som possível de escutar era a batida acelerada do
meu próprio coração.

— Obrigada... — acabei murmurando sem perceber.

A forma como ele me olhava, com uma mistura de admiração e algo mais profundo,
me fez prender a respiração.

Por um instante, eu senti que havia voltado no tempo, voltado para a época em que
tudo estava bem.

Até que, eu enfim voltei para a realidade.

A ficha havia caído.

Aquilo não passava de uma fantasia.


"Ele nunca me olharia assim de novo", pensei, uma pontada de tristeza misturada a
surpresa.

Nunca.

"Talvez... talvez isso seja só um sonho." A ideia se instalou na minha mente, ganhando
força.

Sim, só podia ser.

A dor de cabeça, a presença dele, esse olhar... Era tudo bom demais, intenso demais
para ser real.

— Estou sonhando? — sussurrei, mais para mim mesma do que para ele, a voz quase
inaudível.

Ele piscou lentamente, e por um instante, uma sombra de confusão passou pelo seu
rosto.

Mas o olhar não se desviou.

Seus olhos, que antes estavam fixos nos meus, baixaram por um segundo para um
ponto qualquer, talvez para o copo em minhas mãos, ou para o lençol, e então
voltaram, com a mesma intensidade penetrante, para os meus.

— Por que você acha isso? — ele perguntou, a voz baixa, mas firme, como se
realmente esperasse uma resposta.
Respirei fundo, sentindo o ar frio arranhar minha garganta.

— Porque... porque você está aqui. E você... está me olhando desse jeito... E isso é
bom demais pra ser verdade. — A última parte saiu quase como um lamento,
carregada de uma vulnerabilidade que eu não pretendia expor.

Noah permaneceu em silêncio por um momento, o olhar fixo no meu, como se


procurasse entender minhas palavras ou talvez apenas desfrutasse daquele instante.

Um sorriso lento e enigmático começou a surgir em seus lábios, transformando sua


expressão.

— Sim. Você está sonhando, Alex Ryder.

— Então, eu espero não acordar tão cedo. — respondi, um sorriso pequeno e sincero
surgindo em meus próprios lábios.

O sorriso dele suavizou com a minha resposta.

Por um instante, vi algo mudar no fundo dos seus olhos, como se minhas palavras
tivessem atravessado uma barreira que ele levou anos para construir.

Ele parecia ter um mundo inteiro para dizer... mas escolheu o silêncio.

​Era um silêncio calmo, denso, que parecia nos envolver em uma bolha.
Ele baixou o olhar devagar, percorrendo meu rosto com uma atenção tão profunda
que parecia decorar cada detalhe, até que seus olhos pararam no copo entre meus
dedos.

​Foi esse pequeno gesto que quebrou o encanto.

​Acompanhei o olhar dele e, de repente, o sonho ganhou uma cicatriz.

Uma faixa branca envolvia parte de seu punho e da palma, enrolada com uma pressa
que não combinava com ele.
Pequenas manchas de sangue escapavam pelo tecido, eram discretas, mas impossíveis
de ignorar.

— Sua mão... — murmurei, a voz saindo como um sopro. — Você… se machucou?

Noah travou.

Por um segundo, ele pareceu realmente surpreso, como se tivesse esquecido da


própria dor para conseguir cuidar da minha.

Ele olhou para o ferimento e depois voltou para mim com um sorriso torto, tentando
esconder o cansaço que agora transparecia em seu rosto.

— Não foi nada sério. Foi só… um pequeno descuido. — A voz dele estava rouca,
carregada de um cansaço que ia muito além da falta de sono.

Coloquei o copo sobre a cômoda com cuidado, sentindo que qualquer ruído poderia
destruir o equilíbrio frágil entre nós.
Meus dedos se moveram devagar, hesitantes, até alcançarem a faixa.
Toquei o tecido com uma leveza quase sagrada.

No instante em que nossas peles se tocaram, o mundo ao redor pareceu desaparecer.

Os dedos dele se ajustaram sob os meus, um movimento mínimo, mas que entregou
o quanto ele também precisava daquele contato.

Soltei o ar devagar, sentindo algo apertar no meu peito.

— Até mesmo nos meus sonhos você está machucado... — O sussurro escapou,
arranhando minha garganta seca.

A culpa se enrolou em meu pescoço como uma fumaça espessa, sufocando as


palavras.

Elas saíram quebradas, rastejando pelo silêncio do quarto, pesadas demais para o ar
parado entre nós.

Noah me observou.

O mundo lá fora chorava em linhas tortas de chuva contra o vidro, e as sombras da


madrugada desenhavam cansaço em seu rosto.

Ele baixou o olhar para a própria mão enfaixada e soltou um suspiro que pareceu
carregar o peso de um ano inteiro.
— É só um arranhão, Alex. — ele disse.

A simplicidade daquela frase destruiu o que restava do meu peito.

Noah sempre fazia isso.

Ele diminuía a própria dor para que a minha tivesse espaço para existir.

Suas mãos continuavam entre as minhas, quentes sob a gaze úmida de sangue.

E aquilo me matava lentamente.

Mesmo ferido, ele me segurava como se eu fosse a única coisa preciosa que restava no
mundo.

— A sua mão está sangrando, Noah. — Minha voz falhou, tremendo junto com o
oxigênio que eu lutava para encontrar. — Não chame isso de arranhão.

Ele ergueu os olhos.

Havia um cansaço ali, algo antigo, profundo, de quem passou tempo demais
tentando sobreviver sozinho em um inverno que eu ajudei a criar.

— Alex…

O jeito que ele pronunciou meu nome me fez desmoronar.

Não havia julgamento, nem a raiva que eu merecia.


Havia apenas aquela ternura absurda que ele insistia em me oferecer como um
presente que eu não sabia mais onde guardar.

— Isso é culpa minha. Eu menti... eu estraguei tudo. — insisti, segurando a sua mão
ferida com as duas mãos. — Agora você aparece ferido até nos meus sonhos, porque
eu sei que eu te machuquei.

Noah permaneceu em silêncio, mas o olhar dele queimava.


Eu sentia o peso do arrependimento me sufocar, a imagem da gaze manchada de
sangue se misturando às lembranças, de tudo o que eu não disse e de tudo o que
escondi.

— É por isso que você está aqui? — perguntei, a voz vacilando enquanto eu lutava
para conter as lágrimas que insistiam em se formar. — Pra me lembrar que eu
estraguei tudo?

Noah soltou um suspiro longo, deixando os ombros caírem.

O golpe daquelas palavras pareceu atravessá-lo de um lado ao outro.

Ele respirou fundo, tentando manter o próprio mundo de pé, e quando abriu os
olhos, eles brilhavam.

Não de fúria, mas de uma dor tão exposta que era insuportável olhar.

— Você acha mesmo... — a voz dele saiu rouca, quase sem força para existir — que eu
vim até aqui só pra te culpar?
Meu peito apertou tão forte que doeu para respirar.

Ele levou a mão livre ao meu rosto, afastando meu cabelo com uma delicadeza
devastadora.

Seus dedos tremiam, não por dúvida, mas porque ele também estava em ruínas.

— Eu não estou aqui pelo que deu errado entre nós, Alex.

O olhar dele caiu para a própria mão enfaixada, e depois voltou para mim.

— Esse machucado? — ele murmurou, erguendo levemente a mão — Isso não é


nada. Nada perto do que eu senti quando achei que algo tinha acontecido com você.

O mundo pareceu parar.

O cheiro de chuva e café frio, a respiração instável dele se misturando à minha... tudo
era real demais.

E a forma como ele ainda me olhava…

Meu Deus.

Ele me olhava como alguém que volta para casa e a encontra em chamas, mas decide
entrar assim mesmo.
Senti um nó apertar minha garganta, uma mistura de culpa e aquele calor estranho
que só ele conseguia provocar.

Comecei a contar mentalmente as batidas do meu próprio coração, esperando o


momento em que eu acordaria em um quarto vazio, com o frio da madrugada me
lembrando da verdade.

Porque, no fundo, eu sabia.

Aquelas palavras, aquele olhar... era tudo perfeito demais para ser real.

Eu estava apenas projetando nele a frase que eu mais precisava ouvir, mas que ele
nunca diria.

Minha mente tinha criado um refúgio onde ele não estava bravo, onde ele ainda se
importava, só para eu não me sufocar no meu próprio arrependimento.

Eu desviei o olhar, sentindo o peso do silêncio entre nós, tentando encontrar palavras
que não soassem tão quebradas quanto eu me sentia.

— Você nunca diria isso se realmente estivesse aqui, diria? — perguntei, a voz mal
saindo. — É que… a realidade não é tão legal comigo... porque lá, eu sempre dou um
jeito de estragar tudo.

Soltei um suspiro pesado, sentindo o peso de cada erro cometido finalmente se


instalar nos meus ombros.

— Eu sou um desastre... — quebrei no meio da frase.


— Não diga isso. — ele rebateu rápido, a voz firme, mas os olhos cheios de medo.
O medo de quem passou tempo demais tentando me impedir de me destruir sozinha.

Ele se aproximou até que não sobrasse mais espaço, até que nossas respirações se
tornassem uma só.

Naquele milímetro entre nós, existia uma vida inteira de coisas não ditas.

Ele levou a mão ao meu rosto, o polegar traçando a linha da minha mandíbula com
uma delicadeza que contrastava com a urgência de sua voz.

— Olha para mim. — ele disse, sustentando o meu olhar com uma intensidade
quase dolorosa, se recusando a me deixar desviar o rosto. — Se você fosse esse caos
todo que diz ser, eu já teria ido embora há muito tempo. Mas eu continuo aqui, não
é?

Ele sustentou o olhar por um tempo que pareceu uma eternidade, como se estivesse
lendo cada uma das minhas rachaduras e decidisse que cada uma delas valia o esforço.

— Você não é um desastre, tá bom?

Por um segundo cruel e doce, eu quis acreditar que aquilo não era uma fantasia da
minha mente.

Que o Noah estava mesmo ali, sangrando e me amando no meio do caos.

Ele sorriu.
Não o sorriso para o mundo, mas aquele sorriso pequeno, vulnerável e carregado de
uma tristeza que só nós dois entendíamos.

O tempo desacelerou até que sobrasse apenas o ritmo das nossas respirações.

O mundo parecia ter encolhido.


Só existia aquele espaço pequeno entre nós, onde o passado e o presente se
misturavam.

Lentamente, meus dedos começaram a se afastar. Um por um.


A distância trouxe um frio imediato, um vazio onde antes havia eletricidade. O toque
se quebrou, deixando um rastro de saudade na minha pele, mas a conexão
permaneceu ali, esticada ao máximo, prestes a romper.

Meus olhos continuavam presos aos dele, se recusando a acordar.

A chuva preenchia os silêncios entre nós, mas já não parecia só um barulho.

Parecia uma trilha sonora para aquele momento estranho, íntimo e dolorosamente
bonito.

Eu buscava respostas na escuridão das suas íris, e o que encontrei foi um reflexo que
eu não via há muito tempo.

Havia algo além ali, algo que parecia me atravessar, como se ele enxergasse mais do
que eu dizia.
Uma mistura sutil de carinho e uma curiosidade quase palpável, silenciosa… mas
impossível de ignorar.

— Posso te perguntar uma coisa? — ele disse, a voz um pouco mais baixa agora, quase
um sussurro.

Assenti com a cabeça, incapaz de desviar o olhar.

Seus olhos, antes cheios de curiosidade, agora se tornaram sérios, quase sombrios.
A pergunta que veio em seguida me atingiu como um golpe inesperado, desfazendo a
leveza do momento.

— Você realmente acha que eu não me importei? Com o nosso término? — A voz
dele era baixa, rouca, carregada de uma mágoa contida que eu nunca imaginei que ele
pudesse sentir.

Meu coração deu um salto no peito, e o ar pareceu desaparecer de meus pulmões.


Aquele sorriso que eu tinha no rosto morreu. Eu não esperava por isso. A pergunta
dele me pegou completamente desprevenida, e uma onda de emoções me invadiu:
Surpresa, uma pontada de culpa, e a velha dor que eu sentia constantemente
ressurgiu com força.

Ele se importou?

De verdade? Ou isso é só mais uma das minhas fantasias?

Minha mente girava, tentando processar o que ele havia dito, e a intensidade em seus
olhos me dizia que ele realmente queria saber.
— Por que você quer saber? — consegui responder, a voz um pouco mais fraca do
que eu gostaria, tentando esconder o turbilhão de pensamentos que se formavam.

Ele inclinou a cabeça, seus olhos escuros fixos nos meus. Um brilho quase
imperceptível surgiu neles, uma mistura de vulnerabilidade e uma súplica silenciosa.
Seus lábios se apertaram por um instante antes de ele responder, a voz agora um
pouco mais suave, mas com uma urgência que não podia ser ignorada.

— É só... curiosidade. — A palavra "curiosidade" soou pequena demais para a


profundidade em seu olhar. Seus olhos pareciam gritar:

"Por favor, Alex, fale. Eu preciso saber o que você pensa, o que você sentiu."

Era como se ele estivesse me pedindo para abrir uma porta que eu tinha trancado há
muito tempo.

Respirei fundo novamente, sentindo o peso daquela pergunta e a expectativa


silenciosa dele.

Era como se ele estivesse me dando a permissão para ser honesta, para desenterrar algo
que eu tinha guardado a sete chaves.

— Acho. —a palavra saiu quase inaudível, um sussurro carregado de uma dor antiga
e uma ponta de ressentimento que eu não sabia que ainda existia.
Os olhos dele se arregalaram levemente, e ele franziu a testa, a curiosidade se
misturando com uma confusão genuína. Ele se aproximou um pouco, a intensidade
de seu olhar me prendendo, exigindo uma explicação.

— E por que você acha isso? — a voz dele era baixa, mas firme, sem um pingo de
acusação, apenas uma necessidade real de entender.

Engoli em seco, sentindo minhas mãos começarem a suar. Era difícil revisitar aquele
momento, mas a forma como ele me olhava me deu coragem.

Eu precisava que ele soubesse.

— Quando terminamos... eu queria que você me pedisse pra não ir. Queria que você
me implorasse pra ficar, como da primeira vez, quando você disse que não podia me
perder. Eu esperava que você lutasse por nós. Mas você não fez nada. Você não
transmitiu nenhuma emoção, nem tentou me impedir. Você só … aceitou. E pra mim,
isso significou que você não se importava. Que eu não significava nada pra você
naquele momento.

O rosto de Noah se contraiu ligeiramente, uma sombra de frustração passando por


seus olhos escuros. Ele desviou o olhar por um instante, como se estivesse
processando minhas palavras, ou talvez lutando contra as suas próprias. Quando ele
voltou a me encarar, havia uma melancolia profunda, quase dolorosa.

— Você realmente não entende, não é, Alex? — a voz dele era tão baixa, que eu não
tive certeza se tinha ouvido direito.

Pareceu mais um desabafo para si mesmo do que uma pergunta direcionada a mim.
Minha testa se franziu em confusão.

O que ele queria dizer com aquilo?

Aquela frase, dita daquele jeito, me deixou ainda mais perdida.

— Como assim? — perguntei, me inclinando ligeiramente para ter certeza de que


não perderia nada, meu coração apertado pela incerteza.

Ele balançou a cabeça levemente, os olhos fixos em um ponto qualquer acima do meu
ombro, mas quando seus olhos voltaram a olhar para os meus, havia neles uma
intensidade diferente.

A frustração que havia em seu rosto era palpável, mas em vez de se afastar, ele parecia
paralisado, incapaz de quebrar o contato visual.

Era como se suas pernas quisessem recuar, mas algo em seus olhos o mantinha preso a
mim, uma batalha interna visível em sua expressão.

— Não é nada. — a voz dele saiu um pouco mais ríspida do que o necessário, um
claro sinal de seu desconforto. Ele apertou os lábios, a linha de sua mandíbula tensa, e
então, com um suspiro quase inaudível, acrescentou, a voz um pouco mais suave,
embora ainda carregada de um peso.

— Olha, Alex, é melhor você ir descansar. — enquanto falava, ele se ergueu de onde
estava, e eu o observei, enquanto ele se aproximava ainda mais de minha cama. Com
movimentos precisos e habituais, como se ainda fizesse isso todos os dias, ele
começou a arrumar os lençois amassados, esticando o edredom com cuidado. Era um
gesto tão familiar, tão dele, que me trouxe uma pontada de nostalgia e dor.

Eu o observei, sentindo meu estômago revirar.

Descansar?
Dormir?

A última coisa que eu queria era fechar os olhos e acordar dali a algumas horas, com a
certeza de que ele não estaria mais ali.

Não queria que aquele momento, por mais tenso que fosse, terminasse. 🎵
— Não quero. — minha voz saiu um pouco rouca, um sussurro quase inaudível, mas
carregado de uma emoção crua. Eu senti um nó na garganta. — Se eu fechar os
olhos... você vai desaparecer.

Noah, que já estava ao lado da cama, curvado para arrumar o edredom sobre mim,
parou o que estava fazendo. Seus olhos encontraram os meus com uma intensidade
que fez meu coração acelerar. O brilho que surgiu em suas íris escuras conseguiu
também iluminar seu rosto, e um sorriso doce e gentil surgiu em seus lábios,
suavizando as linhas tensas de seu rosto. Ele se inclinou um pouco mais, e sua voz,
agora um sussurro reconfortante, foi como um abraço.

— Eu não vou a lugar algum. Pode confiar em mim. — ele terminou de alisar o
edredom sobre mim com um toque final, demorando por um instante, como se
quisesse que o calor de sua mão e a sinceridade de suas palavras me envolvesse por
completo.
O gesto simples, combinado com seu olhar e sua promessa, me deu uma esperança
inesperada e uma calma que eu não sentia há muito tempo.

Uma onda de emoções me atingiu.

Aquela promessa, aquele olhar... Eu sentia que precisava dizer algo, algo que estava
entalado na minha garganta, algo que eu necessitava que ele soubesse antes que eu
perdesse a chance, antes que eu perdesse a oportunidade.

No momento em que ele começou a se endireitar para se afastar um pouco da cama,


minha mão agiu por conta própria, meus dedos envolvendo seu antebraço com uma
urgência que me surpreendeu.

Ele parou imediatamente, se virando para mim com uma expressão de surpresa, mas
sem tirar o doce sorriso dos lábios. Seus olhos me questionaram em silêncio por um
instante, antes que ele finalmente verbalizasse a pergunta que estava em seu olhar.

— O que houve…? — ele perguntou, a voz ainda suave, mas com um tom de
curiosidade e preocupação.

Meus olhos se fixaram nos dele, a intensidade da minha súplica ecoando no meu
olhar. A verdade escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-la, um grito
silencioso da minha alma.

— Eu queria tanto que você voltasse a me amar... — Minha voz era um sussurro
rouco, carregado de toda a dor e o desejo que eu sentia.
Noah permaneceu em silêncio por um instante, o sorriso doce ainda em seus lábios,
mas seus olhos brilhavam com uma emoção que eu não consegui identificar
completamente.

Ele não respondeu diretamente a minha súplica.

Em vez disso, ele apertou gentilmente minha mão que ainda segurava seu braço, e sua
voz, agora ainda mais suave, me embalou.

— Durma, Alex. Descanse. — ele me puxou um pouco mais para a cama, ajeitando o
edredom ao redor do meu corpo com um carinho que me fez sentir segura e acolhida.
O calor de sua mão em meu braço e o som de sua voz era como um feitiço.

Eu me senti confortável o suficiente para começar a fechar os olhos, o cansaço


finalmente me alcançando.

Justo quando minhas pálpebras estavam quase unidas, eu o vi. Seus lábios se
moveram, formando palavras que foram tão baixas que eu não ouvi, mas que, de
alguma forma, eu achei ter entendido pela leitura labial.

Um sussurro, quase um segredo, que ecoou em minha mente enquanto eu deslizava


para o sono.

"Eu nunca deixei de te amar."

Um sorriso fraco, mas genuíno, surgiu em meus lábios, e uma lágrima solitária
escorreu, perdida no travesseiro.
Com o coração finalmente em paz, eu me entreguei ao sono, sabendo que, talvez,
nem tudo estivesse perdido.
ᴘᴏᴠ

𝓝𝓸𝓪𝓱
Ali estava eu. Mais uma vez, mergulhado na confusão e nas memórias que eu
não conseguia deixar para trás. 🎵
Eu estava no meu apartamento, cercado pelo silêncio do meu quarto, cujo ambiente
era um refúgio de desordem.
As paredes, pintadas de um cinza neutro, pareciam absorver a luz, tornando o
ambiente ainda mais sombrio.
A cama, desfeita, tinha lençois amassados e um travesseiro meio afundado,
testemunhas da minha insônia.

O único som que rompia o silêncio era o da brisa fria que entrava pela janela, fazendo
as cortinas balançarem, e os ecos distantes de explosões e perseguições que ecoavam da
televisão.
Às vezes, um carro passava, quebrando a quietude, mas logo o silêncio voltava, como
a angústia que vinha me consumindo a cada dia.

O despertador na escrivaninha ao lado da minha cama, parecia zombar de mim,


lembrando que o tempo continuava a passar, mesmo que eu ainda continuasse preso
nesse ciclo de lembranças.

A luz da televisão lançava um brilho suave nas paredes, enquanto um filme de ação
preenchia o ar com explosões e diálogos intensos.
Mas, à medida que a trama se desenrolava, uma lembrança me atingiu como um
golpe inesperado.

Alex.

A imagem dela, com seu sorriso e suas risadas, apareceu na minha mente.

O peso no meu coração aumentou, e, sem pensar duas vezes, desliguei a TV,
deixando o silêncio tomar conta novamente.

Peguei meu celular e coloquei os fones de ouvido, com o intuito de distrair minha
mente.
Me deitei na cama, enquanto olhava para o teto.
Tentei me concentrar na letra da música, no ritmo.
Porém, mais uma vez, a imagem de Alex invadiu minha mente, como uma sombra
que nunca me abandonava.
O instrumental até tentava me envolver, mas, em vez disso, cada acorde parecia
invocar ainda mais lembranças de Alex.

Com raiva, arranquei os fones e me sentei na cama, a frustração fervendo dentro de


mim.

Eu tentava a todo custo esquecer, superar, mas tudo o que fazia só me trazia mais
lembranças dela.

Parte de mim queria seguir em frente, especialmente por tudo que havia acontecido,
por como tudo aquilo me destruiu. Mas, ao mesmo tempo, era como se uma parte de
mim estivesse presa a ela, incapaz de abrir mão desse sentimento que ainda pulsava.

Era uma batalha interna, e a parte de mim que queria deixar tudo para trás lutava
contra a parte que ainda se agarrava ao que tínhamos.

Eu simplesmente não conseguia evitar os pensamentos sobre Alex.

Nunca imaginei que seria tão difícil tirar alguém da cabeça, superar alguém que
havia se tornado parte de mim.
A presença dela ecoava em cada canto da minha mente. Alex era a prova viva de que
eu estava errado sobre o que pensava saber sobre o amor e a perda. Era como se,
mesmo longe, ela ainda tivesse a capacidade de me prender de alguma forma.
Com um impulso, abri a galeria de fotos. Meu olhar parou nas imagens que tinha, e a
verdade é que eu não conseguia apagá-las.
Em cada foto, eu sorria, e em todas, ela estava ao meu lado.
A única alegria que eu ainda guardava vinha dela.
Foi então que me deparei com uma foto que não lembrava ter.
Ela estava distraída, sorrindo ao observar as flores de um jardim, com o pôr do sol
iluminando seu rosto.

Ela estava maravilhosa.

Um sorriso surgiu de forma espontânea em meus lábios, mas logo me contive,


desligando o celular e me punindo mentalmente por não conseguir me desprender
disso.

Perdi as contas de quantas vezes quase liguei para ela, me perguntando se, pelo menos
uma vez, ela sentiu algo semelhante ao que eu estava sentindo agora. Mas eu decidi
que não queria saber a resposta.
Talvez porque eu tivesse medo de saber.

Eu me joguei na cama, sentindo o colchão afundar sob meu peso.


Com as mãos, cobri o rosto, tentando abafar os pensamentos que me atormentavam.
O toque do tecido era um pequeno consolo, mas não conseguia escapar da
tempestade de emoções.
A frustração e a tristeza se misturavam, enquanto eu buscava um momento de paz em
meio ao caos.

Virei a cabeça para o lado, perdido em pensamentos.


Um desejo avassalador me consumia: queria voltar e reviver cada momento ao lado de
Alex, cada risada, cada olhar trocado.
Mas a realidade me atingiu como um soco no estômago.
Era impossível.
Essas lembranças, por mais vívidas que fossem, eram apenas memórias inalcançáveis,
sempre presentes, mas fora do meu alcance.

Um suspiro pesado escapou de meus lábios enquanto eu murmurava para mim


mesmo que precisava dormir.
As sombras da noite pareciam mais densas, e a batalha dentro de mim continuava,
sem um fim à vista.

Esse conflito me deixava exausto, e eu sabia que precisava dar um jeito de libertar a
dor que me consumia.

Tentei fechar os olhos, buscando o sono que parecia tão distante.


A respiração lenta e o silêncio da noite me envolviam, mas, alguns segundos depois, o
som insistente da campainha cortou a tranquilidade.
Abri os olhos, confuso e irritado, e olhei para o relógio:
Uma e quinze da manhã.
Quem estaria na minha porta a essa hora?
Eu não esperava visitas.

Com um suspiro, coloquei meu celular na carga na escrivaninha, sentindo uma


pontada de ansiedade.
O coração acelerado batia no peito, misturando curiosidade e inquietação. Passei as
mãos pelo cabelo, bagunçando-o para me livrar da sonolência.
Tentei fechar os olhos novamente, desejando que o barulho parasse e que eu pudesse
dormir. Mas a expectativa me deixava nervoso.
Uma parte de mim queria ignorar a campainha e continuar na cama, enquanto a
outra parte ansiava por respostas.

Me sentei na cama por um momento, respirando fundo, antes de me levantar.


A preguiça me envolvia, e cada passo em direção à sala de estar parecia um esforço.
Caminhei lentamente, a mente cheia de perguntas e uma leve frustração.
Por que alguém estaria me incomodando a essa hora da noite?

Os sentimentos de confusão e cansaço se misturavam, enquanto eu me dirigia à porta


principal.
O eco dos meus pés no chão parecia intensificar a hesitação que sentia.
Mas, apesar da minha falta de vontade, a expectativa e a dúvida me deixavam
inquieto, enquanto a campainha continuava a tocar, insistente.
Como um chamado que não podia ser ignorado.

Finalmente, cheguei à porta e olhei pelo olho mágico.


Meu coração pulou de surpresa ao me deparar com uma garota ruiva com cabelos
cacheados, olhos verdes brilhantes e sardas que decoravam seu rosto branco.
Era Anna.
A namorada do meu amigo e melhor amiga da garota que ocupava meus
pensamentos.

Uma onda de confusão me atingiu. Como ela sabia do meu endereço?


O que a trazia aqui a essa hora?
A surpresa me deixou atordoado, e uma mistura de ansiedade e curiosidade me
deixava inquieto.
Eu nunca esperaria vê-la assim, tão tarde, e essa inesperada visita despertava uma série
de perguntas.

Com uma mistura de hesitação e determinação, destranquei a porta e a abri, ainda


observando o rosto dela, um pouco confuso.

Eu tinha muitas perguntas, mas a principal era:


Como ela sabia onde eu morava?
Era isso que eu queria saber antes de tudo.

— Anna? Como você… — Antes que eu pudesse concluir a minha frase, Anna
encarou meu rosto, como se já soubesse a pergunta que eu iria fazer.
Então, com um olhar sério, ela respondeu apenas com um nome:

— Jean.

Quando Anna falou o nome "Jean", uma onda de compreensão percorreu meu
corpo.
Esse nome era extremamente revelador.
Ele trazia consigo uma série de respostas.
Eu percebi que, sempre que Anna precisava de algo, era Jean quem contava e fazia
tudo por ela, sem pensar duas vezes, o que tornava fácil para Anna descobrir algo
como o meu endereço.

— Então, foi ele quem te disse onde eu moro.. — acabei afirmando, pensando alto.
— Eu deveria ter adivinhado.
Olhei para Anna, tentando decifrar suas intenções.
— Você veio até aqui por causa dele?

Talvez fosse isso, já que Jean parecia realmente preocupado com meu estado atual.

Eu tinha evitado falar sobre isso, e talvez ele tivesse enviado sua namorada, que por
acaso é amiga de Alex, para tentar obter alguma informação de mim.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.


Perguntas fervilhavam na minha mente, mas a expressão dela me dizia que havia
muito mais por trás daquela visita inesperada.

Quando percebi que Anna estava prestes a responder, uma expressão de seriedade
tomou conta do seu rosto.

— Não é por isso. — disse ela, com um tom que deixava claro que havia mais a ser
revelado.

— Então, qual é o motivo? O que te traz aqui a essa hora da madrugada? —


perguntei, meio intrigado.

A pergunta pairou no ar enquanto a ansiedade crescia em meu peito. Eu precisava


saber o motivo daquela visita inesperada, e a última coisa que eu queria era que ela
estivesse aqui apenas por causa de Jean.

— Eu preciso falar com você.


Anna me encarou, sua expressão séria me deixou confuso. Meus olhos faziam
perguntas que eu não conseguia formular.
Finalmente, não pude mais conter a curiosidade:
— Conversar comigo? Sobre o quê?

Ela me olhou de um jeito que despertou uma suspeita dentro de mim. Além de ser
namorada de Jean, Anna também era amiga de Alex, e isso me fazia pensar em
possibilidades que eu preferia não considerar.

— É importante. — ela respondeu, e a gravidade de suas palavras ecoou no ar,


aumentando minha inquietação. — Eu simplesmente não posso esperar por mais
tempo. — ela disse, com um tom triste, quase desesperado.
Apesar das minhas suspeitas de que ela falaria sobre Alex, o tom triste de sua voz me
fez ceder.
Bufei, sentindo a pressão aumentar.
— Seja rápida. — eu disse, abrindo ainda mais a porta e fazendo um gesto com a mão
para que ela entrasse.

Enquanto a fechava, o rangido da porta parecia amplificar a tensão no ar, como se


cada segundo contasse.

Acendi a luz da entrada, permitindo que um brilho suave iluminasse o ambiente,


mas deixei as outras apagadas, criando uma atmosfera de mistério.

Quando Anna entrou na minha casa, um desconforto imediato me envolveu. O


medo de que algo estivesse desarrumado ou fora do lugar me fez coçar o pescoço
nervosamente.
O ambiente parecia mais bagunçado do que eu lembrava, mesmo que eu tivesse feito
uma limpeza cuidadosa a poucas horas atrás.
Ela olhou ao redor, e eu me perguntei se ela notava a desordem.

— Bom, já que o que você tem a me dizer é tão importante, talvez você queira... —
comecei, fazendo um gesto com a mão em direção à mesa, onde algumas cadeiras
estavam fora do lugar.

Antes que eu pudesse terminar a frase, Anna já havia entendido a sugestão. Ela me
lançou um olhar agradecido e disse: — Quero sim, muito obrigada. — ela disse, com
um leve sorriso no rosto, enquanto se dirigia à mesa e se acomodava, parecendo mais à
vontade.
Logo, decidi fazer o mesmo que Anna, me acomodando na cadeira de frente para ela,
tentando parecer o mais tranquilo possível.

Anna ficou em silêncio por alguns segundos, desviando o olhar dos meus olhos. Eu a
observei, notando como seus dedos se moviam nervosamente, traçando padrões
invisíveis na mesa. A inquietação dela era palpável, e um pesado suspiro escapou de
seus lábios, como se estivesse se preparando para algo difícil.
Quando finalmente levantou os olhos e encontrou os meus, senti uma mistura de
expectativa e preocupação. Ela estava prestes a falar, e eu sabia que o que viesse a
seguir seria importante.

— É sobre a Alex. — ela disse, comprimindo os lábios e com o rosto tenso.


Eu já suspeitava que seria isso e um frio na barriga se instalou em mim. Soltei um
suspiro profundo, cruzando os braços em um gesto defensivo, enquanto inclinava o
corpo para trás, me encostando ainda mais na cadeira.
A ansiedade crescia, misturada com um leve medo do que ela poderia revelar. Meu
coração acelerou, e eu me preparei para ouvir, sabendo que a conversa poderia mudar
tudo.

— Na verdade, é sobre vocês dois. — ela falou, e um peso denso se instalou dentro de
mim, como se meu coração estivesse sendo comprimido.

— Eu sabia... Olha, Anna…— comecei, mas a hesitação me paralisou. As palavras


pareciam travadas na minha garganta, e eu não sabia como expressar o que sentia.

— Noah, por favor! Eu preciso que você me escute! — ela me interrompeu, sua voz
carregada de desespero, o que só aumentou a ansiedade que já me dominava.

Anna ficou calada por alguns segundos, parecendo ainda mais inquieta. Seus olhos
vagavam, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas para expressar o que
sentia. O silêncio entre nós era pesado, e eu podia ver a luta interna em seu rosto, a
preocupação estampada em seus olhos.

Anna finalmente encontrou a coragem para falar, sua voz tremendo um pouco.

— Noah, você e a Alex precisam se resolver. É óbvio que ambos estão sofrendo um
pelo outro. Eu vejo isso nos olhos dela, e sinto que você também está se perdendo
nessa dor.
Ela fez uma pausa, tomando um fôlego profundo, e continuou, determinada.
— Vocês precisam conversar, esclarecer tudo isso. Não dá mais pra continuar assim,
sufocando sentimentos. É hora de enfrentar o que está entre vocês, antes que seja
tarde demais.
As palavras de Anna ressoaram como um eco dentro de mim, cada sílaba pesada e
carregada de verdade.
Um turbilhão de emoções me envolveu:
Saudade, dor e uma pontada de esperança.
Eu sabia que ela estava certa, mas a ideia de confrontar o passado me deixava
angustiado.

— Anna, o que aconteceu entre mim e a Alex é passado. — eu disse, tentando manter
a voz firme, embora a insegurança transparecesse. — Nós dois precisamos seguir em
frente, tanto ela quanto eu.
Falei isso como uma tentativa de me convencer, mas a verdade era que o peso do que
eu ainda sentia por ela me prendia.

Anna respirou fundo, como se estivesse reunindo coragem para continuar.

— Eu entendo o que você está dizendo, Noah, e eu até poderia acreditar que você está
seguindo em frente. — ela disse, olhando nos meus olhos com intensidade. — Mas
não é a mesma coisa para a Alex. Ela ainda está presa a tudo isso. Aos seus próprios
sentimentos.
Ela fez uma pausa, e a preocupação em seu olhar se intensificou.
— A Alex... ela precisa de você pra resolver isso. Não dá pra ignorar o que vocês dois
sentem.

Anna me olhou com um entendimento profundo, como se soubesse exatamente o


que eu estava pensando.
Era como se ela pudesse ver a dor e a confusão que eu tentava esconder.
— Eu sei que você não seguiu em frente, Noah. — Anna disse, sua voz carregada de
sinceridade. — Todo dia, eu ouço o Jean falando o quanto você está distante desde o
ocorrido. Ele tem se preocupado muito com você.

Ela olhou ao redor do apartamento e continuou:


— Assim que eu entrei aqui, eu percebi o quão frio está esse lugar, como se até as
paredes soubessem como você se sente. — Anna voltou a me olhar nos olhos, e seu
olhar era intenso, repleto de compreensão e empatia.
— Esse não é você, e eu sei que você também sabe disso.

Anna baixou o olhar para as mãos, os dedos entrelaçados, enquanto se preparava para
dizer algo sério, como se cada palavra precisasse de um peso especial. 🎵
— Eu sei que o que a Alex fez pra você no passado te machucou muito… — ela
começou, sua voz suave, mas firme. — Mas eu também sei que ela está arrependida
do que fez. Ela se deu conta disso há muito tempo, do quanto você significa pra ela,
antes mesmo de tudo acontecer.

Ela me olhou nos olhos, a sinceridade refletida em seu olhar.


— Noah, ela ama você. E eu claramente vejo isso.

Enquanto Anna falava, uma parte de mim quase cedia, como se a esperança quisesse
brotar em meio ao caos que eu sentia.
Mas as lembranças do que aconteceu voltaram, pesadas e dolorosas.
A raiva e a traição ainda estavam frescas, e eu me perguntava como poderia acreditar
que ela realmente se importava.

— Eu não consigo acreditar nisso, Anna… — eu disse, a voz tremendo de emoção.


— Ela só me usou. Mesmo depois de quase um ano… Eu não consigo parar de pensar
que se o Lucas tivesse criado sentimentos por ela durante todo aquele plano, ela me
descartaria, como lixo.

O peso da traição me sufocava, e a ideia de que eu poderia ser apenas uma peça em
um jogo me deixava angustiado.

— Como eu posso confiar que agora é diferente? Que ela realmente me ama?

As palavras saíram com uma mistura de dor e frustração, e eu sabia que cada uma
delas carregava um pedaço do meu coração quebrado.

Anna ficou em silêncio por um tempo, como se não soubesse como me responder.
A seriedade no ar estava se tornando palpável.

Ela me olhou com o rosto sério, como se concordasse com o que eu dizia, mas
também reconhecesse a complexidade do outro lado da história.

— Aquela decisão da Alex foi muito idiota, eu concordo com você, e eu entendo o
que você sente, Noah. — ela começou, a voz mais baixa, mas firme. — Mas é
importante que você saiba que ela realmente se arrepende. O que aconteceu... Isso
não muda o fato de que ela se apaixonou de verdade por você.

Um riso falso escapou dos meus lábios, uma tentativa amarga de esconder a dor que
eu sentia. Era como se a ironia da situação fosse insuportável.

— Me desculpe, Anna, mas eu simplesmente não consigo acreditar. — eu disse, a


frustração transparecendo na minha voz.
— Mesmo tendo sido eu quem foi destruído, foi ela quem terminou. Ela nunca nem
procurou saber como eu estava depois disso.

Fiz uma pausa, sentindo o peso das palavras.


— Se a Alex tivesse me contado a verdade, que mesmo depois de tudo isso ela se
apaixonou de verdade por mim, eu poderia perdoá-la. Mas ela preferiu esconder isso
ao invés de ser honesta.
Com o coração apertado, eu continuei:
— Você consegue entender que se eu não tivesse descoberto, ela nunca teria me
contado nada? Como posso confiar em alguém que não teve coragem de me contar a
verdade?

Anna parecia pensativa, a preocupação misturada com uma irritação crescente em seu
rosto.
— Talvez ela não tenha te contado por medo da sua reação. — disse ela em um tom
tão baixo que eu não tinha certeza se realmente a ouvi.

— O quê? — eu soltei, incapaz de processar as palavras.

A expressão dela mudou, e a irritação se tornou evidente.


Ela soltou um suspiro exagerado, enquanto fechava os olhos com força.
— Puta que pariu.. — ela disse, enquanto comprimia os lábios, parecendo se esforçar
para conter a explosão de emoções, o que acabou sendo inútil.
Ela fixou os olhos nos meus, a intensidade do olhar me fazendo sentir um frio na
barriga. Ela golpeou a mesa com as mãos, transbordando de irritação.
— Porra, Noah! Você não consegue ver que eu estou desesperada?! — sua voz estava
carregada de emoção, como se cada palavra fosse um grito silencioso por
compreensão.
Anna parou, respirando fundo, enquanto as palavras que havia gritado ainda
ecoavam no ar.
Eu estava completamente confuso, e o meu olhar certamente refletia essa confusão,
pois isso pareceu tê-la feito perceber que havia se deixado levar pela raiva.
Ela baixou o olhar, a expressão dela se suavizando.

— Me desculpe por ter gritado assim… — ela disse, com a voz tremendo. — Mas você
não sabe como isso me afeta.

Ela respirou fundo, tentando recuperar a calma, mas a frustração ainda pairava no ar.
— Olha, eu só estou tentando processar tudo isso.. — continuou, a voz agora mais
controlada, mas ainda firme.
— É só que… Não está sendo fácil pra ninguém.. — ela finalizou.

A tensão entre nós era palpável, e eu percebi que a Anna que eu conhecia estava de
volta, mais autêntica e vulnerável do que antes.

O silêncio que se seguiu era pesado, como se o ar estivesse carregado de expectativas.


Anna evitava meu olhar, mas não parecia esperar que eu dissesse algo.
A expressão em seu rosto era uma mistura de preocupação e determinação, e eu me
sentia perdido, incapaz de decifrar o que se passava em sua mente.

Anna soltou um suspiro profundo, mantendo os olhos baixos. A tristeza em sua voz
era clara quando ela disse: — Eu não sei se deveria te dizer isso… — as palavras saíram
carregadas de um cansaço que refletia o peso da situação.
Ela hesitou por um momento, como se estivesse avaliando o que poderia acontecer ao
se abrir comigo.

Anna soltou um suspiro rendido, olhando nos meus olhos, e a voz dela tremia. 🎵
— Desde que tudo aconteceu, há oito meses, a Alex não é mais a mesma… — ela
começou, a dor evidente em suas palavras. — Ela perdeu a alegria que tinha. Sempre
sai de casa à noite, e às vezes eu nem sei pra onde ela vai. Quando ela volta, é como se
um pedaço dela tivesse ficado pra trás. Tudo que ela faz é chorar… — ela continuou,
a frustração crescendo.
— Aquela paixão que ela tinha pela arte desapareceu. Ela parou de pintar os quadros
que costumava adorar. É como se o brilho dela tivesse se apagado.

Anna respirou fundo, como se estivesse organizando os pensamentos.

— Ela está tão distante, Noah.


Não come direito, mal toca na comida. Às vezes, fica dias sem se alimentar, e essa
falta de alimento a deixa com dores no estômago que a incomodam constantemente.
Isso realmente me preocupa. Mas, a falta de apetite é só o começo. Além disso… —
ela continuou, a voz tremendo. — A Alex acabou se afastando de muitas pessoas
depois de tudo que aconteceu, principalmente do Lucas… — ela disse, a tristeza
evidente em sua voz.
— Ele está muito preocupado com ela e até chateado com esse afastamento. É como
se ela tivesse colocado uma barreira entre eles.

Ela passou a mão pelo cabelo, claramente lutando para expressar seus sentimentos.

— O Lucas sempre foi um bom amigo, e agora ele até tenta ajudar a Alex, mas ela
simplesmente não deixa. É como se ela estivesse culpando os sentimentos que um dia
teve por ele, como se aquilo tivesse sido a causa de tudo que acabou acontecendo
entre vocês.

Anna respirou fundo novamente, como se estivesse reunindo coragem.

— Ela parece tão desmotivada. As coisas que antes a faziam feliz agora não têm mais
sentido. A arte, a pintura... tudo isso desapareceu. É como se a vida tivesse perdido a
cor pra ela.

O sentimento dela parecia se aprofundar, e ela olhou para baixo, claramente abatida.
— E o pior… — ela hesitou, a voz quase falhando. — Ela tem insônia, Noah. Fica
acordada a noite inteira, e isso a faz tomar alguns remédios. Mas ela sempre exagera, e
eu... eu tenho medo do que pode acontecer. — A preocupação em seu tom era
palpável.

— E eu nem sequer posso contar aos pais dela… — disse Anna, a voz quase um
sussurro. — Ela me pediu para não contar, porque ela não quer deixá- los
preocupados. Então, eu sou obrigada a mentir o tempo todo, dizendo que está tudo
bem, quando na verdade, não está.

Enquanto Anna falava, uma onda de tristeza me invadia. Cada palavra era como uma
facada no coração.
Saber que a Alex não estava comendo e que perdeu a paixão pela arte me deixava
arrasado. Lembro das cores vibrantes que ela usava em seus quadros, agora tudo
parecia vazio.
O que mais me preocupava eram os remédios para insônia. A ideia de Alex se
afundando nisso me deixava em pânico. Eu ainda a amava muito, e pensar que ela
estava se machucando assim me fazia sentir impotente.

Senti um nó na garganta, como se o peso do mundo estivesse sobre mim. Como eu


poderia ajudar alguém que estava se afastando?
A dor de pensar nela, estando tão fragilizada despertava em mim um desejo intenso
de agir, mas também um medo de que já fosse tarde demais. Meu amor por ela
queimava forte, mas
vinha junto com uma angústia profunda.

Anna respirou fundo, como se estivesse se preparando para abrir seu coração mais
uma vez.
— Eu preciso te contar uma coisa, Noah… — começou, a voz tremendo.
— Sempre que a Alex está bêbada, ou até mesmo quando está dormindo, ela começa
a chamar pelo seu nome.
Ela olhou para baixo, os olhos marejados.
— É como se, em momentos de fraqueza, ela não conseguisse escapar dos
sentimentos. Ela murmura “Noah” e, em seguida, começa a se desculpar, pedindo
perdão por tudo o que aconteceu. Meu coração se parte sempre que eu ouço isso. —
ela diz, colocando a mão sobre o peito, como se quisesse segurar a dor que sente no
coração.

— Às vezes, ela fica tão angustiada que não consegue parar de chorar. Eu sinto que,
mesmo quando está tentando se afastar, uma parte dela ainda precisa de você. É como
se ela estivesse presa entre o que sente e o que aconteceu.
Anna pausou, a tristeza em seu olhar se aprofundando.
— Isso me deixa tão confusa, porque eu vejo o quanto ela ainda se importa. Mas, ao
mesmo tempo, não sei como ajudá-la a lidar com isso.

Ela piscou forte, tentando segurar as lágrimas que ameaçavam escapar. Ficou em
silêncio por alguns segundos, a atmosfera parecia densa, quase pesada.
Então, com a voz embargada, começou a falar:
— Eu só... Estou cansada, Noah. Estou cansada de ver a Alex sofrer e não conseguir
fazer nada a respeito.
Ela passou a mão pelo rosto, tentando se recompor, mas a dor era evidente.
— É difícil vê-la assim, tão perdida e sozinha. Eu só queria que ela pudesse encontrar
um jeito de se curar, de voltar a ser quem era. Mas, em vez disso, eu só vejo a dor
crescendo. Isso me machuca tanto, e eu não sei como lidar com isso.

Quando Anna terminou de falar, uma dor profunda tomou conta de mim. Cada
palavra sobre Alex era como um peso enorme no meu peito, me lembrando do que
ela estava passando.
Mas acabei percebendo que também estava agindo de forma parecida:
Sem dormir, me afastando, me sentindo vazio.
A angústia começou a me consumir.

Flashbacks invadiram minha memória, me levando de volta ao dia em que tudo


desmoronou. 🎵
Perder meu pai foi devastador, e desde então, eu nunca mais fui o mesmo. Mas a Alex
entrou na minha vida como um raio de sol, trazendo à tona uma parte de mim que eu
nem sabia que existia. Ela despertou o melhor de mim e me fez acreditar na felicidade
novamente.
Quando descobri que ela tinha aceitado ficar comigo pensando em outro homem,
me senti traído. A dor de saber que meu amor não era o suficiente me derrubou.
Mesmo assim, eu ainda a amava, e a ideia de perdê-la me deixava angustiado.
A situação piorou quando ela começou a aparecer bêbada nos lugares, uma
lembrança dolorosa do meu pai, que também havia partido em um acidente por
causa do álcool.
Essa conexão me deixava muito preocupado, e, frustrado, eu gritei com ela, sem
conseguir expressar meu medo.

Quando Alex terminou o nosso relacionamento, foi como se o meu mundo tivesse
desmoronado.
Eu me lembrava de passar noites em claro, desejando que ela voltasse e dissesse que
ainda me amava.
Eu pensava que, se a visse mais uma vez, morreria como um homem feliz.
Mas quando ela disse seu último adeus, uma parte de mim realmente morreu junto
com o que tínhamos.

Me recordo das noites em que chorei na minha cama, o travesseiro encharcado de


lágrimas, desejando intensamente que ela voltasse.
Passei dias procurando por ela, indo aos lugares que costumávamos frequentar, mas
parecia que ela havia desaparecido.
Um dia, a encontrei perto do parque onde costumávamos ir, sorrindo. Naquele
momento, pensei que ela estava bem sem mim, e essa ideia me feriu profundamente.

Refletindo sobre tudo isso, percebi que não estava com raiva de Alex por ter me
usado. Na verdade, nunca me senti assim.
Mesmo chateado, eu ainda queria estar ao lado dela, mesmo sabendo que ela poderia
amar outro homem.
O que realmente me destruiu foi o fim do nosso relacionamento.
No dia em que gritei com ela, expressando meu medo de perdê-la, ela decidiu
terminar tudo.

A tristeza me envolveu.
Porém, eu acreditava que, mesmo que ela tivesse me usado para outro amor, uma
parte de mim sabia que a Alex realmente tinha se apaixonado por mim.
Que ela me amava.
Mas agora, com tudo acabado, eu me sentia perdido, e a dor de sua ausência ecoava
em cada parte da minha alma.

Mas se ela me amava, por que ela me deixou… ?

Enquanto eu pensava sobre tudo, essa pergunta ecoava na minha mente.


Era essa dúvida que me impedia de acreditar nas palavras de Anna sobre Alex.
Como poderia alguém que ama de verdade simplesmente partir?

Essa pergunta me perseguia a cada momento. Eu tentava encontrar respostas, mas


tudo o que conseguia era mais dor.
Eu lembrava dos momentos que tivemos juntos, dos sorrisos e das promessas.
Como algo tão bonito poderia acabar assim?

A cada vez que a Anna falava sobre os sentimentos da Alex, eu me via dividido entre a
esperança e a realidade.
Eu queria acreditar que ela ainda sentia algo por mim, mas essa dúvida me paralisava.
Era como se uma sombra estivesse sempre ao meu lado, me lembrando do que perdi e
do que nunca poderia ter de volta.
Eu queria entender, queria que a Alex explicasse por que tudo isso aconteceu.
Mas, enquanto essa pergunta permanecia sem resposta, eu me sentia cada vez mais
perdido.
A dor da separação e a confusão sobre seus sentimentos tornavam tudo ainda mais
difícil.

O silêncio se instalou entre nós, pesado e desconfortável.


Cada segundo parecia se arrastar, enquanto a dor pela ausência de Alex pulsava em
nossos peitos.

Olhei para o chão, vendo as pequenas imperfeições, enquanto Anna parecia distante,
perdida em seus próprios pensamentos.
O espaço entre nós era palpável, um abismo que se formava a cada batida do meu
coração.

A luz fraca da lua entrava pela janela, criando sombras ao nosso redor, mas não havia
conforto nisso.
O tempo parecia parado, e eu só conseguia ouvir minha respiração, entrecortada pela
tristeza.

Pensamentos sobre Alex invadiam minha mente, trazendo uma mistura de amor e
perda.
A dor que compartilhávamos era pela incapacidade de ajudá-la, mas a minha era
ainda maior, pois eu já tinha perdido a Alex há muito tempo.
Eu sabia que Anna sentia o mesmo.
Sua expressão mostrava a dor que compartilhávamos, mas a minha ferida era mais
profunda, marcada pela ausência que nunca se apagaria.
Enquanto o silêncio se arrastava, eu queria quebrá-lo, mas a tristeza nos mantinha
presos. Estávamos em um limbo, lutando contra a realidade que nos cercava, dois
corações feridos unidos pela dor de Alex.

O silêncio continuava, mas havia algo no olhar de Anna que indicava que ela tinha
mais a dizer.
Ela respirou fundo, como se estivesse se preparando para enfrentar um mar de
emoções.

— Eu me sinto tão perdida… Mas é por isso que estou aqui. — começou ela, a voz
trêmula, mas firme.
— A Alex precisa de nós. Ela precisa de você, e se você conversasse com ela, talvez
pudesse ajudar. Eu sinto que você é a única pessoa que pode fazer a diferença.

Suas palavras ressoaram em mim, e eu a observei, absorvendo cada sílaba.


A sinceridade em seu olhar era reconfortante, mas também trazia à tona a dor que
ambos carregávamos.
— Eu também me sinto perdido sem ela… — acabei soltando as palavras antes
mesmo de perceber, a voz quase um sussurro. — Mas o que eu diria? Não sei se
consigo encontrar as palavras certas.

Anna se inclinou um pouco mais perto, sua expressão cheia de esperança.


— Você só precisa ser honesto. Falar sobre o que você sente, sobre como você se
preocupa com ela. Isso pode ser o que ela precisa pra se recuperar.

Enquanto falava, seu olhar se fixou em algum ponto distante, como se estivesse
visualizando um futuro que poderia ser. Mas, de repente, o som estridente do
telefone ao seu lado quebrou a tensão, interrompendo suas palavras.
Minha atenção se desviou para o celular de Anna, que vibrava na mesa. Sem querer,
acabei olhando para a tela e vi o nome que fez meu coração apertar:

“ Alex”.

Um turbilhão de emoções tomou conta de mim, e o ar pareceu faltar.

Anna estava com os lábios comprimidos, a expressão tensa.


Ela olhava de relance para o celular e, em seguida, para mim, como se estivesse em
dúvida sobre o que fazer.

— Você devia atender, pode ser importante. — eu disse, a voz saindo mais suave do
que eu pretendia, mas cheia de urgência.
Era um momento que não podíamos deixar passar, e eu de alguma forma, sabia que a
Alex precisava de apoio, fosse qual fosse a razão da ligação.

Anna hesitou por um instante, a luta interna clara em seu olhar, mas a preocupação
por Alex prevaleceu.
Ela respirou fundo, soltando um suspiro rendido.
— Desculpe, espera um segundo. — disse ela, antes de pegar o aparelho.

Anna atendeu e colocou o telefone na orelha, seu olhar fixo e determinado.

— Alex, se você for pedir pra eu mandar um Uber ir te buscar, esse não é o melhor
momento. Eu estou ocupada e... — ela pareceu ter sido interrompida, e, enquanto eu
estava perdido em meus próprios pensamentos, com o olhar baixo, acabei olhando
para o rosto de Anna.
Sua expressão estava confusa e preocupada.

— Como assim? O que aconteceu? — ela perguntou, senti uma onda de ansiedade
crescer dentro de mim.
Ela parecia realmente confusa.

Enquanto a Anna escutava o que a Alex falava, vi a transformação sutil em seu rosto:
De confusão, foi para pânico, uma angústia evidente.
— Espera... Você tem certeza disso? Há quanto tempo você acha que ele está te
seguindo?

Quando ouvi essa última frase, o mundo parou.


Uma sensação gelada percorreu meu corpo, e entendi de imediato o que estava
acontecendo. 🎵
Alguém estava seguindo a Alex.
Meu coração disparou, e a adrenalina tomou conta de mim.
Imagens de notícias sobre garotas sequestradas e abusadas invadiram minha mente,
cada relato mais aterrorizante que o anterior.

Essa realidade me paralisava, aterrorizado pela possibilidade de que Alex pudesse ser a
próxima.

Mas, apesar da angústia que começava a me consumir, uma parte de mim se


questionava se eu poderia estar me enganando.
E se não houvesse realmente ninguém seguindo a Alex?
E se eu tivesse interpretado mal?
Eu tentava me agarrar a essa ideia, mas, ao olhar para Anna, vi a preocupação
profunda em seu rosto.
A forma como ela mordia o lábio e desviava o olhar me dizia que eu não estava
sozinho nesse medo.

A maneira como seus dedos se fechavam em um punho trêmulo apenas confirmava


minha intuição, pois, pela inquietação evidente em seu comportamento, parecia que
minhas suspeitas estavam corretas.

A tensão no ar e a expressão em seu rosto só reforçavam a ideia de que algo estava


errado.

O desespero me envolveu como uma névoa densa.


Eu não conseguia pensar claramente.
A ideia de Alex em perigo era insuportável.
A respiração ficou pesada, e uma onda de pânico começou a me consumir.
Meu estômago se revirou, e uma sensação de impotência me dominou.
Eu queria gritar, correr, fazer algo, mas estava paralisado, como se uma força invisível
me mantivesse preso.

Anna, com a mão trêmula, segurava o celular como se fosse a única conexão que
tinha com a realidade. Seus olhos estavam arregalados, e eu podia ver que ela tentava
processar as palavras de Alex, mas a tensão no ar era palpável.
A preocupação e o medo eram tão intensos que eu mal conseguia ouvir a voz de
Anna no telefone.
Cada palavra que ela trocava com Alex parecia um eco distante, como se eu estivesse
mergulhado na água.
O que estava acontecendo com ela?
O que eu poderia fazer para ajudá-la?
Meu coração estava prestes a explodir de angústia, e a incerteza me deixava em um
estado de completa agitação.

Pensamentos sombrios começaram a preencher minha mente.


E se algo acontecesse com a Alex?
E se eu nunca mais a visse?
Uma raiva fervilhava dentro de mim, não apenas pela situação, mas pela fragilidade
da vida e pelas ameaças que existiam.
A ideia de perder alguém que eu amava, de ver a história se repetir, me deixava em
um estado de desespero absoluto.
Cada segundo que passava parecia um eterno tormento, e eu estava disposto a fazer
qualquer coisa para protegê-la.

O desespero se transformou em uma determinação feroz dentro de mim.


Eu sabia que precisava agir, e a urgência pulsava dentro de mim.
O medo de perder Alex se misturava com raiva, e eu percebi que não podia ficar
parado, assistindo tudo de longe.

Aquela sensação de impotência me consumia, mas uma certeza se formou em minha


mente:
Se aquele homem não parasse de seguir a Alex, ele precisaria rezar para não cruzar
comigo pelo caminho.
A ideia de que alguém ousasse ameaçar a segurança dela me fazia sentir uma fúria
incontrolável.

Eu imaginava cada passo que daria em direção a ele, a adrenalina disparando


enquanto meu coração batia forte.
Eu não era mais um espectador.
Estava me tornando um guardião.
A imagem de Alex vulnerável me perseguia, e a raiva me dava foco.

Eu não me importava com as consequências.


O que importava era a segurança dela.

Se isso significasse confrontar aquele homem, que assim fosse.

Mas eu não permitiria que ele fizesse mal algum a ela.


Eu lutaria com todas as minhas forças, só para protegê-la.

Me levantei da mesa com um movimento brusco, a fúria queimando em meu olhar.


Olhei ao redor do cômodo, buscando as chaves da minha moto, que brilhavam em
cima da estante.
Anna estava conversando com Alex, mas percebi que ela logo notaria minha
determinação.

— É claro que eu vou ajudar! Só me fala em qual rua você está e eu— NOAH!
ESPERA! — ela gritou, mas eu já estava em movimento.

Me dirigi até a estante e peguei as chaves, o metal frio nas minhas mãos intensificando
minha vontade.

Olhei para trás e vi Anna encarando a tela do celular.


A expressão em seu rosto foi o suficiente para eu entender que a ligação havia caído.

— Merda! — ela exclamou, olhando para o celular antes de fixar o olhar em mim.
Segui direto para o meu quarto, com a urgência pulsando em cada movimento.

Sem hesitar, fui em direção à escrivaninha e puxei o celular do carregador às pressas,


como se o tempo estivesse contra mim, apertando-o na mão com urgência.

Eu precisava dele.
Precisava mostrar a foto dela para qualquer pessoa que pudesse tê-la visto, ligar para
quem quer que fosse, fazer qualquer coisa que me desse uma mínima chance de
encontrá-la. Qualquer coisa.

Ouvi Anna vindo logo atrás de mim, com passos apressados.

— O que você pensa que tá fazendo? Você não pode ir atrás dela desse jeito! — a
preocupação estava estampada em seu rosto.

Parado na porta, a raiva pulsava em minhas veias.

— Você não entende! Eu não posso ficar aqui parado enquanto aquele cara chega
perto dela. — minha voz tremia com a intensidade da emoção.

Anna deu um passo à frente, tentando me acalmar.

— Noah, pode ser perigoso! E se ele estiver armado?

Soltei um riso amargo, a frustração transbordando.


— Então é exatamente por isso que eu preciso ir. — minha voz subia, refletindo a
tempestade interna que me consumia.

— Noah, você tá ouvindo o que você tá dizendo? Acho que é melhor só deixar isso
com a polícia… — ela sugeriu, a voz tensa.

— Não! — minha voz explodiu no corredor, ecoando nas paredes. — Eu não vou
esperar a polícia chegar! Até eles chegarem, pode ter sido tarde demais!

— Anna… eu juro que se ele encostar em um fio de cabelo dela… eu não vou
responder por mim. — a intensidade em meu olhar fez Anna hesitar, e eu vi a
preocupação em seu rosto.

O silêncio entre nós ficou pesado, e meu coração apertava. Eu sabia que ela estava
certa em se preocupar, mas a raiva me cegava.

Comecei a caminhar em direção à porta principal, cada movimento carregando a


urgência da situação.

— Noah... — ela começou, a voz mais suave, mas eu já estava me virando, a decisão
tomada.

— Eu não vou esperar.

— E se você estiver pensando errado? — ela insistiu, mais firme agora. — E se você só
estiver indo no impulso?
— Eu não tô indo no impulso. — pausei, respirando fundo. — Eu tô indo porque, se
algo acontecer com ela… eu não vou conseguir me perdoar.

Decidido, eu dei um passo para fora do meu apartamento, segurando a maçaneta com
firmeza. Mas antes que eu pudesse criar qualquer distância entre nós, Anna soltou
um suspiro profundo. A tensão no rosto dela mudou, como se ela tivesse decidido
exatamente como continuar aquela conversa. E o que ela disse a seguir me fez hesitar.

— Noah, você pelo menos tem noção de onde ela está pra querer sair assim? — Anna
perguntou, a preocupação bem evidente em seu olhar.

A pergunta dela me atingiu em cheio.

Eu realmente precisava saber onde a Alex estava… mas a verdade era simples e irritante
demais.

Eu não tinha a menor ideia.

— Eu... Ah... Merda. — respondi, a frustração crescendo dentro de mim, quase me


sufocando.

As palavras saíram antes que eu conseguisse pensar direito.


Passei a mão pelo rosto, tentando organizar o caos na minha cabeça, mas tudo parecia
piorar conforme eu tentava entender o que fazer a seguir.

Anna franziu o cenho na mesma hora, como se aquilo confirmasse exatamente o que
ela já suspeitava.
— Ah… eu sabia. — ela respondeu, num tom meio incrédulo. — Você ia sair sem
direção nenhuma.

Eu passei a mão pelo rosto, impaciente.

— Eu não tô sem uma direção, Anna. Eu só… só preciso encontrar ela. — a voz saiu
mais dura do que eu queria. — O mais rápido possível.

Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse organizando tudo na cabeça,
avaliando cada possibilidade.

— Tá… mas, e se você fosse até lá e não encontrasse nada? Ia fazer o quê depois?
Continuar andando sem direção até piorar tudo?

Eu hesitei por um segundo, travando.

Ela deu um passo mais perto, agora mais séria.

— Noah… você não resolve isso se perdendo também. Se acalma. Nós vamos dar um
jeito nisso, juntos. Não posso deixar que você saia correndo feito um louco.

Eu fiquei em silêncio por alguns segundos.

Não porque ela estava errada… mas porque eu odiava admitir isso.

Minha respiração ainda estava pesada, e a sensação de estar completamente sem


direção só piorava tudo. Eu apertei os dedos contra a própria palma, como se isso
fosse me manter no controle.
— Eu não tô tentando piorar nada… — minha voz saiu mais baixa agora, menos
agressiva. — Eu só… não consigo ficar parado sabendo que algo pode acontecer…

Ela suavizou um pouco a expressão, mas não recuou.

— Eu entendo isso. De verdade. — ela respondeu, com mais calma. — Mas agir
assim, no desespero, só vai te colocar em mais problemas. E não vai ajudar a encontrar
a Alex mais rápido.

Aquilo me atingiu com força.

Porque, no fundo, eu sabia que ela estava certa.

Eu soltei o ar devagar, passando a mão pela nuca, tentando organizar o caos dentro de
mim.

— Então fala. — murmurei, finalmente cedendo um pouco. — Qual é a sua ideia?

Anna assentiu, como se estivesse esperando exatamente essa pergunta.

— Primeiro, pare de tentar resolver isso sozinho. — ela disse, firme. — E segundo…
me escuta. A gente não precisa ficar perdendo tempo aqui tentando adivinhar onde
ela está ou criando mil teorias.

Ela fez uma pausa curta, como se escolhesse bem as palavras.


— Porque… eu sei pra onde ela foi… mas não sei onde ela está agora. Ela me disse
antes que ia pra um lugar… então, se ela perdeu o contato no caminho, deve estar
perto daquele lugar.

O olhar dela ficou mais sério.

— Então, é por lá que a gente começa, entendeu?

Eu franzi o cenho, ainda inquieto.

— E se a gente já estiver perdendo tempo?

— E se você for sair sozinho agora e acabar piorando tudo? — ela rebateu na hora,
sem hesitar.

Eu travei de novo.

Dessa vez, não tive resposta imediata.

— Então… pra onde ela foi? — minha voz saiu quase em um sussurro, a ansiedade me
consumindo, o coração acelerando.

— Até onde eu sei, ela foi pra boate *****, na rua ******.

— Você tem certeza? — o aperto no meu peito aumentou, me lembrando de como


Alex costumava frequentar lugares como esse, quando tudo aconteceu.

— Tenho. Você conhece essa rua? — Anna me encarou, esperançosa.


— Tenho uma ideia de onde fica. Mas como eu vou descobrir por onde a Alex
realmente passou? — a insegurança se refletia em meu rosto.

Anna respirou fundo, tentando organizar seus pensamentos.

— Normalmente, quando a Alex vai pra essa boate, ela caminha até um ponto de
ônibus próximo e fica sentada lá, esperando que eu chame um Uber pra ela. De
madrugada, os ônibus raramente passam por aquele ponto. Acredito que, se você
fizer o percurso da boate até o ponto de ônibus, pode encontrá-la. Mas se você
realmente for até lá, precisa ter cuidado. — sua voz tremia, misturando preocupação e
urgência.

— Tá bom. — eu disse finalmente. — Então eu vou por esse caminho.

Olhei para Anna, e um sentimento de culpa me invadiu.

— Eu… me sinto meio mal em deixar você aqui desse jeito… — confessei, a culpa
pesando em meu coração. — Mas eu não tenho outra alternativa.

— Não tem problema, Noah. — ela respondeu, um sorriso compreensivo, mas com
os olhos cheios de preocupação.

— Vou deixar as chaves com você, caso queira sair. — eu disse, ela assentiu.

— Vá e cuide da Alex. — ela disse, com um pequeno sorriso no rosto.

Antes que eu pudesse dar um passo, Anna segurou meu braço com firmeza.
— Espera.

— O que foi? — perguntei, parando instantaneamente.

— Pensa com cuidado no que eu te falei, tá bom? — seu olhar era intenso, quase
implorando.

Nesse momento, recordei toda a conversa que eu tive com a Anna sobre a Alex.
As palavras dela ecoavam em minha mente:
“Você só precisa ser honesto. Falar sobre o que você sente, sobre como você se preocupa com
ela.”
Eu sabia que precisava abrir meu coração para Alex, compartilhar minhas
preocupações sobre ela.
E essa urgência só intensificava meu desejo de protegê-la.

Eu percebi o peso da responsabilidade que estava prestes a assumir.

Senti algo no coração, uma mistura fervilhante de ansiedade e determinação, como se


cada batida me empurrasse para a ação.

— Tudo bem, mas eu realmente preciso ir. — ela assentiu mais uma vez, porém, seu
olhar vagava, como se ainda tivesse mais a dizer, até que, mais uma vez, ela me
impediu.

— Ah, e mais uma coisa — ela disse, a voz firme, como um comando.

— O quê?
— Acaba com aquele desgraçado.

Sorri e assenti, finalmente sentindo que, apesar de tudo, eu e Anna pensávamos da


mesma forma.

A adrenalina pulsava em minhas veias.

Era hora de agir.


Eu não poderia hesitar.

A determinação queimava em mim, e eu sabia que faria tudo o que fosse preciso para
proteger a Alex.

Saí do apartamento em disparada, meu coração pulsando como um tambor em meu


peito.
Apertei o botão do elevador, mas a luz do andar parecia descer a uma velocidade
agonizante.
Cada segundo se arrastava, e a ansiedade me consumia.
A imagem de Alex em perigo queimava minha mente, transformando cada batida do
meu coração em um lembrete agonizante de que eu precisava agir.

Desesperado, decidi que não podia esperar mais.


Me virei e desci as escadas em dois ou três saltos, meus passos ecoando em um ritmo
frenético.
O cheiro do concreto e do metal me acompanhava, cada passo me levando mais
perto da minha missão.
Ao chegar ao estacionamento, avistei minha moto, um símbolo de liberdade e
velocidade que agora representava a única coisa entre mim e a proteção de Alex.

Me aproximando, senti a adrenalina disparar nas minhas veias.


Com as mãos trêmulas, coloquei o capacete na cabeça, a pressão do momento quase
me sufocando.
A chave estava fria em minha mão, mas ao inseri-la na ignição, uma onda de
determinação tomou conta de mim.
O ronco do motor ecoou como um grito de guerra, ressoando em meu peito e me
lembrando do que estava em jogo.

Acelerei, sentindo o vento fresco em meu rosto enquanto a moto ganhava vida sob
mim.

Acelerando pela cidade, senti a adrenalina pulsar em minhas veias, como se cada gota
de combustível fosse uma injeção de determinação.
A moto rosnava sob mim, um rugido que ecoava por todo o ambiente enquanto eu
passava por semáforos, desafiando as leis e o tempo.
Em um instante, ultrapassei um sinal vermelho, o semáforo piscando em verde antes
de se transformar em vermelho novamente.
O pensamento de que as câmeras haviam capturado meu ato imprudente cruzou
minha mente, mas eu não me importava.
Uma multa? Que fosse.
Nada poderia me deter agora. 🎵
O vento batia forte em meu rosto, como se tentasse me puxar para trás, mas eu não
deixaria que isso acontecesse.
Cada rajada era um lembrete da velocidade com que estava indo, da urgência que me
empurrava adiante.
A cidade se transformava em um borrão de luzes e sombras, cada curva que eu fazia
era um passo mais perto de Alex.
O medo de que algo pudesse acontecer com ela me consumia, fazendo meu coração
disparar tão rápido quanto a velocidade da moto.
As imagens de Alex, vulnerável e assustada, dançavam em minha mente, cada uma
mais vívida que a anterior.
Eu quase podia ouvir sua respiração ofegante, sentir seu desespero.
Isso me impulsionava a acelerar ainda mais, a desafiar os limites do que era seguro.
O som dos motores e buzinas ao meu redor se tornava um ruído distante, abafando
pela batida intensa do meu coração e pela urgência de minha missão.

Eu sabia que, no final, as consequências viriam.


As câmeras registrariam minha imprudência, e eu teria que enfrentar as
consequências.
Mas, naquele momento, isso não importava.
A única coisa que eu conseguia pensar era em chegar até ela, em garantir que estivesse
a salvo.
O medo de perdê-la superava qualquer preocupação com multas ou reprimendas.

A velocidade me envolvia como um manto, e a liberdade que eu sentia na moto se


diferenciava da prisão emocional que eu carregava dentro de mim.
Cada aceleração era uma promessa silenciosa de que eu faria o que fosse necessário
para protegê-la.
O mundo ao meu redor se tornava um borrão, mas a minha determinação era
cristalina.
Eu estava disposto a arriscar tudo, a enfrentar qualquer obstáculo, porque eu sabia
que a Alex precisava de mim agora mais do que nunca.

Estacionei a moto em frente à boate que Anna havia falado, o motor ainda roncando
enquanto eu observava a cena.
A música pulsava intensa, vibrando no ar e se espalhando para fora, se misturando ao
cheiro forte de álcool que pairava na entrada.
Mesmo a certa distância, a energia da festa era palpável, mas eu não tinha tempo para
isso.

Eu olhei ao redor, mas não havia sinal algum da Alex.


O desespero começou a se instalar em meu peito, uma pressão crescente que me fazia
sentir como se estivesse sufocando.
A adrenalina me impulsionava, mas o medo de não encontrá-la me consumia.

Com o coração acelerado, liguei a moto e segui em direção ao ponto de ônibus, o


caminho se estendendo à minha frente.
A cada acelerada, a ansiedade aumentava.
A imagem de Alex, vulnerável e assustada, continuava dominando meus
pensamentos.

O percurso parecia interminável.


Eu acelerava, a impotência e o pânico crescendo dentro de mim.
O cheiro de fumaça e álcool ainda me seguia, mas agora havia uma nuvem de
preocupação que me envolvia, pesada e sufocante.
Eu precisava encontrá-la.
Cada quilômetro até o ponto de ônibus era uma promessa silenciosa de que faria o
que fosse necessário para protegê-la.

Cheguei ao ponto de ônibus e, ao olhar ao redor, não vi a Alex.


Duas garotas estavam sentadas na calçada, rindo e claramente bêbadas.
O desespero tomou conta de mim, e deixei a moto de lado, caída no asfalto e em um
lugar que claramente eu não podia estacionar, enquanto me aproximava delas.

— Ei, meninas, me desculpe o incômodo, mas vocês viram alguma garota passar por
aqui? — eu perguntei, um tanto nervoso. — Ela é baixa, tem cabelos castanhos curtos
e também uma franja. — descrevi, a voz trêmula de ansiedade. — Ela tem olhos
verdes.

As meninas ficaram em silêncio por um instante, se entreolhando.

Um sorriso apareceu nos cantos dos lábios de uma delas, enquanto cutucava a outra
com o cotovelo, tentando disfarçar o riso, enquanto ambas desviavam os olhos de
mim como se fosse óbvio demais o motivo da distração.
Elas trocaram mais algumas palavras baixas, rindo entre si, claramente mais
interessadas em me analisar do que em responder.

Uma delas até mordeu o lábio, tentando segurar o sorriso, e a outra balançou a cabeça
negativamente, ainda rindo como se achasse tudo aquilo divertido demais.

Mesmo assim, nenhuma parecia realmente focada na pergunta.

Eu engoli seco.

Sem me dar por satisfeito, puxei o celular do bolso e desbloqueei a tela com pressa,
abrindo a foto dela.

— Olha… — minha voz saiu mais baixa, mais séria dessa vez. — Vocês têm certeza
que não viram essa garota? Eu preciso saber, por favor.

Virei a tela na direção delas, repetindo a pergunta, agora mais firme, como se minha
vida dependesse daquilo.

As meninas balançaram a cabeça, rindo entre si, sem prestar atenção.


— Não, gato, não vimos ninguém assim! — uma delas respondeu, enquanto a outra
soltava um comentário sobre como eu era um “gatinho”.

Ignorei, o desespero crescendo em meu peito.

Olhei ao redor, a mente em um turbilhão.


A cidade pulsava, cheia de vida, mas eu me sentia completamente perdido.
A imagem de Alex não saía da minha cabeça.
Cada segundo que eu passava sem encontrá-la era um golpe a mais no meu coração.

Eu havia feito exatamente o percurso que Anna havia indicado, mas agora, com a
mente turva de preocupação, comecei a me perguntar se tinha deixado algo para trás.
Algo que poderia ter feito a diferença.
O que eu não vi?
O que poderia ter acontecido com ela enquanto eu estava distraído?

A pressão no meu peito se intensificou, e o pensamento de que eu poderia ter


perdido a única chance de protegê-la me deixou tenso.
Olhei para a moto caída, como se ela fosse a responsável por minha impotência.
O que mais eu poderia ter deixado para trás?
Um sinal?
Uma pista?
Eu sentia que estava em um labirinto sem saída.

Sem mais tempo a perder, a adrenalina tomou conta de mim e, em um impulso


desesperado, comecei a correr, deixando a moto para trás.
Cada passo parecia um grito em busca de Alex, a cidade novamente se
transformando em um borrão ao meu redor enquanto eu corria.
Eu não podia desistir.
Eu precisava encontrá-la, custasse o que custasse.
A incerteza e o medo eram agora combustível, e eu estava determinado a não parar até
que a encontrasse.

O meu coração batia descontrolado, eu sentia como se estivesse perdendo cada


segundo precioso.
A preocupação de ter deixado a moto, meu único meio de transporte, era sufocante,
mas a ideia de não encontrar a Alex me consumia ainda mais.
A cada passo, uma onda de pânico me envolvia, como se estivesse afundando em um
abismo.

O asfalto sob meus pés parecia um lembrete constante da urgência da situação.


Meu peito estava apertado, e a respiração curta.
O pensamento de Alex, vulnerável e sozinha, me impulsionava para frente, como se
cada batida do meu coração gritasse por ela.

Comecei a gritar o nome da Alex, a chamando com toda a força que eu conseguia
reunir.
A esperança de que ela estivesse por perto e me respondesse era tudo o que eu
desejava.
Mas o silêncio que se seguiu apenas aumentou minha angústia, um nó apertando
meu peito.

Correr era a única opção que agora me restava.


A moto, agora parecia insignificante diante da possibilidade de não encontrá-la.
O medo de que algo pudesse ter acontecido a ela me fazia sentir como se eu estivesse
em um pesadelo.
Cada passo que eu dava era uma mistura de desespero e determinação, e eu não iria
parar até que a encontrasse.

A adrenalina me empurrava, e eu não conseguia pensar em mais nada além de Alex.


A cidade se tornava um borrão, mas a imagem dela, com seu sorriso e seus olhos
verdes, era a única coisa que iluminava meu caminho.
Eu estava decidido a não desistir.
Enquanto corria, a cidade ao meu redor se tornava um borrão frenético, mas algo me
chamou a atenção:
Um beco estreito, quase invisível entre as luzes e a agitação.
Um impulso, uma intuição profunda, fez meu coração acelerar ainda mais.
Algo dentro de mim gritava para que eu entrasse, como um chamado.

Não pensei duas vezes antes de entrar.


Com o corpo em um movimento quase automático, desviei para o beco, a adrenalina
pulsando nas veias.
A escuridão parecia engolir a luz da rua, mas não hesitei.
Cada passo que eu dava ecoava como um tambor em minha mente, e a sensação de
urgência se intensificava.
Eu sentia que, de alguma forma, a Alex poderia estar ali.

O medo se misturava à esperança, e o desespero me empurrava para frente.


A respiração estava ofegante, e o cheiro de umidade e álcool impregnava o ar. Meu
coração batia descompassado, cada batida uma oração silenciosa para que eu a
encontrasse.

Eu não iria parar até que encontrasse a Alex.


Cada passo no beco era uma promessa, um grito de que eu faria o que fosse
necessário para trazê-la de volta.

Quando atravessei o beco, percebi que havia entrado em uma rua que não
reconhecia, completamente diferente.
Mas isso não me deteria.
Comecei a correr, e enquanto eu corria, as ruas se desdobravam à minha frente, cada
esquina revelando um novo beco escuro, como se a cidade estivesse me guiando de
forma misteriosa.
A adrenalina pulsava nas minhas veias, e a sensação de estar sendo puxado por uma
força invisível intensificava a urgência em meu coração.

Era como se a Alex estivesse chamando por mim, e eu não podia ignorar o chamado.

Passei por outro beco estreito.


O cheiro de fumaça e álcool se misturava ao ar pesado, mas não havia tempo para
hesitar.
Meus pés se moviam quase sozinhos, guiados pela intuição, cada passo mais firme e
decidido.

A cada novo beco que cruzava, uma onda de emoções me envolvia.


A esperança e o desespero se entrelaçavam, criando um turbilhão dentro de mim.
Meus pensamentos giravam em torno de Alex, sua imagem se tornando cada vez
mais vívida.
Era essa imagem que me impulsionava a seguir em frente.

Entrei em um beco mais escuro, onde a luz mal penetrava.


As sombras dançavam ao meu redor, e a sensação de ser observado aumentou.
Mas, mesmo assim, não parei.
Algo dentro de mim sabia que cada um desses becos poderia me levar a ela.
A cidade, com suas vozes e luzes, agora parecia um labirinto, e eu estava determinado
a não me perder.
Cruzando mais um beco, vi um grupo de pessoas rindo em um bar, parecia estar
tendo uma festa.
A tensão crescia, e o desespero me envolvia, mas eu não podia parar.

Finalmente, ao sair de um beco e entrar em uma rua mais iluminada, uma sensação de
clareza me atingiu.
Eu estava perto.
Eu sentia que estava.
A esperança me impulsionava, e a determinação se tornava uma força inabalável.
Não havia mais espaço para dúvidas.
Eu precisava encontrá-la, custasse o que custasse.

Enquanto eu corria, avistei um posto de gasolina à frente, suas luzes brilhando como
um farol na escuridão.
Com o coração acelerado, me aproximei apressadamente, enquanto eu mantinha
meus olhos fixos em um homem que parecia inquieto, olhando constantemente para
a rua.
Algo na postura dele me dizia que ele podia saber de algo.

— Oi, me desculpe, mas você viu uma garota chamada Alex? — perguntei, tentando
controlar a urgência na minha voz, enquanto tirava o celular do bolso. — Ela tem
cabelos castanhos, uma franja e…

O homem me olhou, os olhos se arregalando.


— Olhos verdes? — ele perguntou, e uma onda de esperança me atravessou.

— Sim! Você a viu? — perguntei, sentindo a expectativa crescer.


Ele respirou fundo, a expressão mudando para preocupação.
— Ela apareceu aqui, desesperada, dizendo que estava sendo seguida por alguém. Eu
a mandei se esconder numa sala dentro do posto enquanto chamava a polícia, mas…
ela desapareceu.

O desespero me atingiu como um soco no estômago.

— Você viu pra onde ela foi? — perguntei, a voz tremendo.

O homem balançou a cabeça, mas então apontou para a rua.


— Não vi para onde ela foi, mas… eu vi um homem indo naquela direção. Ele parecia
suspeito, e eu tenho quase certeza de que era o cara que estava seguindo ela.

A adrenalina tomou conta de mim enquanto eu seguia o olhar dele.


O homem apontava para uma rua escura que se perdia na noite.
A urgência pulsava em meu peito, e não havia tempo a perder.

— Certo, muito obrigado! — gritei, já me virando e correndo na direção que ele


indicou.

Cada passo era uma corrida contra o tempo, e a esperança de encontrar Alex me
empurrava para frente, sem olhar para trás.

Enquanto corria, a noite se tornava um borrão de emoções intensas.


O coração batia descompassado, cada batida ecoando o desespero e a esperança.
A mente girava entre memórias de Alex e o medo de não encontrá-la.
O ar estava pesado, e eu sentia a pressão de cada segundo que passava.
Ao sair de uma rua, avistei um parque à frente, suas árvores altas se destacando contra
o céu escuro.
Meu olhar se fixou no chão, e logo notei algumas pegadas de terra fresca, como se
alguém tivesse passado por ali recentemente.

A esperança acendeu dentro de mim, e com um impulso renovado, comecei a seguir


as marcas, os pés batendo firme contra o chão.

Mas então, as pegadas sumiram repentinamente.


Um frio na barriga me acompanhou, mas a determinação me impediu de desistir.
Olhei ao redor, buscando qualquer sinal, qualquer pista que pudesse me guiar,
porém, nada.
Mas não era a falta de pistas que iria me impedir de continuar.

Enquanto eu seguia em frente, passei por um prédio abandonado, o vidro quebrado


refletindo a luz da lua.

Segui adiante, cruzando com alguns becos que se abriam em ruas diferentes, cada um
parecendo mais vazio que o anterior.
A sensação de estar sendo puxado me guiou até um beco estreito entre dois prédios,
onde entulhos estavam espalhados, como se alguém tivesse passado por ali às pressas.
A esperança renasceu, mas logo foi acompanhada por um frio na espinha.

Foi então que, parado ali, uma voz fraca cortou o silêncio da noite. “Socorro!”
A palavra mal chegou a ser um sussurro, tão distante que parecia vir de muito longe.
Mas, mesmo assim, algo dentro de mim reconheceu aquele chamado.
Era a Alex.
A adrenalina disparou, e a dúvida desapareceu.
Eu não sabia como, mas eu a ouvi.

Sem pensar, uma força desconhecida tomou conta de mim, e comecei a correr com
uma velocidade que eu não sabia que tinha.
Cada passo era guiado pela urgência de encontrá-la, de resgatar a dona daquela voz.

O chão sob meus pés parecia tremer, e a respiração ofegante ecoava em meus
ouvidos.
As sombras dançavam ao meu redor, criando uma sensação de urgência que me fazia
acelerar ainda mais.

Foi então que ouvi a voz novamente, baixa, mas agora parecia estar mais próxima.
“ME LARGA!”
O grito cortou o ar, e um frio percorreu minha espinha.
A intensidade da situação me fez sentir que não havia tempo a perder.

Sem hesitar, decidi cortar caminho, pegando atalhos entre os prédios, a mente focada
na Alex e em resgatá-la.

Com uma velocidade sobrenatural, meus pés batiam no chão, e gotas de suor
escorriam da minha testa, pingando no chão enquanto eu avançava.
Eu nunca havia corrido assim antes.
Era como se uma força desconhecida estivesse me guiando.
Cada esquina que eu dobrava, cada beco que eu cruzava, parecia me aproximar dela.

O coração batia forte no peito, e a sensação de que estava em um filme de ação me


envolvia, mas a realidade era muito mais intensa.
A urgência de encontrá-la me empurrava, e eu não pararia até que estivesse ao seu
lado.

A determinação se transformava em combustível, me levando cada vez mais rápido


em direção ao seu chamado desesperado.

Enquanto eu corria, a sensação de que estava cada vez mais próximo de Alex crescia a
cada passo.
O coração batia em um ritmo frenético, e a voz dela ecoava em minha mente, me
guiando como uma bússola em meio à escuridão.

Finalmente, após uma corrida alucinante, decidi parar para respirar, os pulmões
queimando e a mente fervilhando de emoções.

Quando levantei o olhar, um alívio profundo inundou meu ser ao vê-la, mesmo que
a uma certa distância.

O simples fato de vê-la ali, trouxe um brilho de esperança em meio ao meu desespero.

Mas esse alívio foi rapidamente dissipado pela cena indignante que se desenrolava
diante de mim:
Um homem estava puxando os cabelos dela com força, seu rosto contorcido em uma
expressão de raiva.

A dor em seu olhar era profunda, e o medo que irradiava dela cortou meu coração.
🎵
Uma raiva incontrolável começou a tomar conta de mim, como um fogo que arde
sem controle.
Meu coração disparou, e eu cerrei o punho, sentindo a pressão de cada batida pulsar
em meu corpo.
A cena diante de mim era insuportável.
Ver a Alex assustada, vulnerável, despertou algo dentro de mim.
O instinto de proteção se transformou em um desejo ardente de vingança.
Eu queria que aquele homem sentisse a mesma dor que estava causando a ela.

"Como ele pôde tocá-la?”


Como pôde machucá-la?"
Esses pensamentos fervilhavam na minha mente, cada um mais intenso que o
anterior.
A ideia de que ele estava fazendo isso, de que estava se aproveitando da sua
fragilidade, me deixava em chamas.
Eu queria que ele pagasse por cada lágrima que ela havia derramado, por cada grito
que não ousou soltar.

A raiva pulsava nas minhas veias, se transformando em uma força que eu não podia
mais conter.
Eu queria fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para que ele soubesse que não
poderia tocar nela impunemente.

A escuridão ao meu redor se tornava um campo de batalha, e eu estava preparado


para lutar.
Eu queria que ele sentisse o terror que estava infligindo a Alex.
Queria que ele soubesse que sua brutalidade não ficaria sem resposta.
Eu estava pronto para fazer o que fosse necessário para garantir a segurança dela.
Eu nem percebi quando comecei a correr em direção ao homem.
Foi como se um instinto primordial tivesse tomado conta de mim, me empurrando
adiante com uma força incontrolável.
Cada passo parecia ecoar em meu coração, e a adrenalina pulsava nas minhas veias, me
enchendo de uma determinação que eu não sabia que possuía.

Quando finalmente percebi onde estava, já estava segurando o ombro do homem,


girando-o abruptamente.
O olhar dele passou de raiva para surpresa e, em seguida, para confusão.

Com toda a força que consegui reunir, soquei o rosto dele com um golpe seco, o
impacto ecoando através do meu punho.

O som do soco era como um estalo no ar, e a satisfação que senti foi rapidamente
dissipada pela fúria que queimava dentro de mim.

No instante em que meu punho colidiu com seu rosto, uma onda de raiva e alívio me
invadiu.
Eu queria que ele sentisse a dor que havia infligido a Alex, que soubesse que não
poderia escapar de suas ações.

O homem cambaleou para trás, surpreso, mas a visão do seu rosto, agora marcado
pela minha agressão, apenas intensificou meu desejo de continuar.

Mas, quando o homem recuou, ele acabou soltando a Alex de um só vez.


O som do corpo dela atingindo o chão ecoou em minha mente, e meu coração
afundou ao ver o medo que ela exalava.
Ela estava tão vulnerável, e isso despertou uma onda de proteção feroz dentro de
mim.

Sem pensar, me virei, e estava prestes a me agachar para ajudá-la, mas antes que eu
pudesse, o homem se recuperou e socou meu rosto com toda a força que tinha.

O golpe me pegou de surpresa, e eu cambaleei para trás, a dor explodindo em minha


cabeça como fogos de artifício.
O mundo ao meu redor girou, mas tudo que consegui fazer foi olhar para Alex.

Ela estava tremendo, seus olhos estavam cerrados com força enquanto ela massageava
a nuca.
Ela parecia estar apavorada, e aquilo me cortou como uma faca.
A visão dela, tão assustada e desprotegida, fez com que a raiva dentro de mim se
tornasse uma tempestade incontrolável.
Não era apenas um desejo de vingança.
Era uma necessidade de protegê-la a todo custo.

Com uma raiva que escapava do meu controle, avancei novamente em direção ao
homem.
Cada passo era alimentado pela fúria que queimava em meu peito.
Eu não poderia deixar que ele a machucasse mais, não enquanto eu estivesse de pé.

A adrenalina pulsava nas minhas veias, e eu estava pronto para fazer o que fosse
necessário, mesmo que isso significasse arriscar tudo. 🎵
O ar estava tenso enquanto eu avançava, e a luta se desenrolava em uma série de
movimentos rápidos.
O homem tentou um soco, mas eu desviei com facilidade, meu corpo se movendo de
forma instintiva.
Ele estava desesperado, e isso o tornava desajeitado.

Com um golpe rápido, atingi seu estômago, o fazendo se curvar.


Aproveitei a oportunidade e desferi um direto no rosto dele, o impacto ressoando
como um trovão.
Ele cambaleou, mas rapidamente se recompôs, tentando um chute que passou
raspando ao meu lado.

Com um movimento ágil, agarrei seu braço e o puxei para baixo, desequilibrando-o.
Ele caiu de joelhos, e eu não hesitei:
Um soco forte direcionado à sua mandíbula fez com que sua cabeça girasse. O
homem tentou se levantar, mas eu o segurei pela camisa, puxando-o para mais perto,
e desferi uma série de socos rápidos, cada um mais potente que o anterior.

Ele conseguiu acertar um golpe em meu lado, mas a dor era mínima.

Lancei um soco cruzado que acertou seu nariz, fazendo sangue jorrar.
O homem estava claramente perdendo a força, mas ainda tentava se defender,
bloqueando alguns dos meus ataques.

Mas eu não parei.


Com um movimento rápido, desferi um uppercut que o fez cair de costas no chão.

Quando o homem caiu, o soco foi tão forte que ele desmaiou instantaneamente.
Mas a raiva dentro de mim estava em ebulição.

Não era o suficiente apenas derrotá-lo.

Avancei em sua direção, me agachando para continuar a golpeá-lo.


Segurei a gola da camisa dele, puxando-o para mais perto, e comecei a socar seu rosto
repetidamente, cada golpe mais forte e mais rápido que o anterior.

A fúria que me consumia era incontrolável.


Eu pensava na Alex, em como ela havia ficado vulnerável enquanto eu não estava lá
para protegê-la.
A imagem dela tremendo de medo, caída no chão, se repetia na minha mente como
um pesadelo.
Cada soco era uma liberação da dor e da angústia que eu sentia.
O que poderia ter acontecido se eu não tivesse chegado a tempo?
A ideia de que algo terrível poderia ter acontecido com ela me deixava ainda mais
enfurecido e angustiado.

— FILHO DA PUTA! — gritei, a voz rouca e carregada de emoção.


O homem não respondia, já que estava desmaiado.
Mas isso não diminuía a minha raiva.

Eu socava com a intenção de fazer ele sentir cada dor que ele havia causado a Alex,
cada ferida que ele poderia ter infligido.

Comecei a soluçar, desejando chorar de tanto ódio.


As lágrimas ameaçavam se formar nos meus olhos, não apenas pela raiva, mas pela
angustiante preocupação com a segurança dela.
A luta não era só física.
Era uma batalha interna, um grito desesperado por justiça.

O homem não merecia misericórdia, e eu estava determinado a extrair dele toda a dor
que ele havia causado.

A raiva e a angústia se entrelaçavam, e eu não sabia se conseguiria parar.


Cada soco era um lembrete do que estava em jogo, e eu não ia desistir até que ele
sentisse o peso de seus atos.

Mas então, eu parei.


O punho ainda erguido, prestes a desferir mais socos.
O homem estava desmaiado, sua cabeça pendia para o lado, e eu o segurava pela gola
da camisa, a raiva fervendo em minhas veias.
O desejo de continuar batendo era forte, mas algo dentro de mim começou a hesitar.

Enquanto o olhava, lembrei da Alex, do medo que ela sentiu.

Um turbilhão de emoções me invadiu:


Ódio, dor, mas também uma necessidade intensa de justiça.
Eu não queria ser o mesmo monstro que ele.
Não queria que a minha vingança se transformasse em algo que eu não pudesse
controlar.

Com um suspiro pesado, percebi que a verdadeira punição não era me igualar a ele.
Era deixá-lo apodrecer na cadeia, onde ele não poderia mais machucar ninguém.
Devagar, eu fui abaixando o punho, e com um movimento brusco, soltei sua gola,
permitindo que seu corpo deslizasse para o chão.

Eu permaneci em cima do homem, o peso do meu corpo pressionando-o contra o


chão.
Minha respiração estava descompassada, a adrenalina pulsando em minhas veias.
Eu não o agredia mais.
Em vez disso, eu somente observava o estrago que eu havia causado.
O rosto dele estava marcado, e eu sentia uma satisfação sombria ao ver as
consequências da minha fúria.
Ele estava inconsciente, e a ideia de que não poderia mais machucar ninguém me
trouxe uma sensação de alívio.

Não havia arrependimento em mim.


A raiva que me consumia agora se transformava em uma determinação fria.
Eu não era um monstro, mas estava disposto a fazer o que fosse necessário para
proteger a Alex.

Então, com um movimento repentino, me afastei do corpo e me sentei ao seu lado,


tentando recuperar o fôlego.
O chão era duro, mas a frieza do contato era um lembrete da realidade que eu havia
escolhido.

Fiquei ali, perdido em pensamentos, com o homem desmaiado caído ao meu lado.
A certeza de que eu havia feito o que precisava ser feito pulsava em mim.

Eu não me importava com a dor que ele sentia.


O que importava era que ele não poderia mais ameaçar ninguém.
Mas a sensação de alívio que deveria me envolver era rapidamente encoberta por uma
angústia profunda.
O peso da vitória não aliviava a tempestade que se formava dentro de mim.
A imagem de Alex, presa nas garras daquele ser, não saía da minha mente.
O medo do que poderia ter acontecido se eu não tivesse chegado a tempo me
consumia, como uma sombra implacável.

Cada segundo que eu passei ignorando aquele beco, cada desvio que fiz, era uma
facada na minha consciência.
Se eu tivesse tomado o caminho certo, talvez eu não estivesse ali, lutando contra a dor
da incerteza.

Eu deveria ter sido mais rápido, mais esperto.


A vitória sobre o agressor parecia vazia diante da possibilidade de que, se as coisas
tivessem sido diferentes, eu poderia ter salvado a Alex antes.
A luta, a raiva, tudo parecia insignificante comparado ao que poderia ter acontecido.

Mas mesmo assim, eu desejava que ela soubesse que eu estava ali, que eu faria
qualquer coisa para protegê-la.

Cada batida do meu coração ecoava o desejo de que ela se sentisse segura.

Fechei os olhos por um instante, deixando o ar entrar devagar, tentando organizar a


confusão dentro da minha cabeça.

Mas não veio paz.


Veio outra coisa.

Um arrepio subiu pelos meus braços, lento, inevitável, fazendo cada pelo do meu
corpo se eriçar.

Não era o frio.


Não era cansaço.

Era uma sensação.

Como se alguém estivesse me atravessando com o olhar.

Eu sabia.

Sem precisar ver, eu sabia que era ela.

Minha respiração falhou por um segundo, e meus olhos se abriram de imediato,


quase por impulso.

Até que finalmente, os nossos olhares se encontraram. 🎵


Meu olhar se prendeu ao de Alex, e tudo ao nosso redor desapareceu.
Ela já me observava, e naquele instante, uma onda de emoções intensas me envolveu.
Meu coração disparou, mas tentei manter a calma.

Ver ela caída no chão me atingiu como um soco no estômago.


A preocupação me dominou, cada batida do meu coração ecoando a pergunta:
“Ela está bem?”
Eu queria correr até ela, envolvê-la em meus braços e protegê-la de qualquer perigo.

A urgência de garantir que ela estivesse segura me consumia, e a incerteza de sua


condição era uma faca afiada cortando minha esperança.
Eu queria gritar, perguntar se ela estava bem, mas as palavras pareciam presas na
minha garganta.

— Alex… — acabei sussurrando, as palavras não saindo do jeito que eu esperava.

Havia tanto não dito entre nós.

Me levantei depressa, o coração acelerado, e corri em direção a Alex.


Cada passo parecia pesado, carregado de medo e urgência.

Quando cheguei perto, estendi a mão para ela, um gesto simples, mas repleto de
significado.

Ela segurou minha mão sem hesitar, e naquele toque, uma eletricidade percorreu
meu corpo.
O alívio foi imediato, mas a preocupação ainda dominava cada pensamento.

Minhas mãos tremiam ao segurar seu rosto, cada toque uma mistura de cuidado e
desespero.
O calor da pele dela sob meus dedos me fazia sentir a fragilidade daquela situação,
como se ela pudesse se desmanchar a qualquer instante.
Meus olhos percorriam seu corpo, buscando qualquer sinal de ferimento que aquele
homem pudesse ter causado.
Cada arranhão, cada contusão, seria uma facada no meu peito se eu os encontrasse.
A ansiedade crescia a cada segundo que passava, e eu precisava saber se ela estava
realmente bem.

Procurei por machucados em seu rosto, nos braços, em qualquer lugar que pudesse
indicar dor ou desconforto.

A imagem do homem a machucando me assombrava, e eu me perguntava se ele tinha


feito algo a mais para ela.

Meus olhos se fixaram em seu rosto, buscando qualquer sinal de ferimento.


Eu queria ter certeza de que estava tudo bem, que não havia arranhões ou marcas.
Mas, ao me aproximar, acabei me perdendo na profundidade de seus olhos.
O que eu via em neles não era apenas o reflexo do que havia acontecido, mas uma
confusão que me deixava inquieto.
Havia uma vontade silenciosa ali, como se ela estivesse tentando processar tudo, mas
minha preocupação turvava minha percepção.
Eu estava tão consumido pelo medo de perder a Alex que não conseguia reconhecer a
complexidade de suas emoções.
Para mim, parecia que a sombra da ameaça ainda pairava no ar, intensificando meu
temor.

A tensão em meu corpo era intensa, e a impotência de não saber o que mais poderia
ter acontecido me deixava em um estado de alerta constante.

Enquanto nossos olhares se encontravam, percebi que a força da minha preocupação


era palpável.
O calor da sua pele contra a minha me lembrava de quão vulnerável ela era, e a
expressão de medo estampada em seus olhos me fazia sentir como se estivesse à beira
de um abismo.

O pensamento de que eu não estivesse chegado a tempo me atormentava, como um


eco incessante de angústia.
O que teria acontecido se eu tivesse demorado mais?
Essa cogitação me deixava nervoso, e a ideia de que ela poderia ter sofrido me fazia
sentir um vazio no estômago.

Eu precisava saber que ela estava bem, que nada a havia machucado.

— Você está bem? Ele fez alguma coisa com você? — minha voz saiu trêmula, cheia
de desespero.
Olhei em seu rosto, em seus olhos, buscando neles qualquer sinal de que ela estava
bem.
Meu coração batia forte, e a ansiedade pulsava nas minhas veias, como se cada
segundo de silêncio fosse uma eternidade.

Olhei para Alex em silêncio, o coração acelerado, esperando que ela dissesse a resposta
que eu tanto desejava ouvir. Cada batida parecia ecoar a urgência do momento, e o
medo de não gostar do que eu ouviria me consumia.

Ela abriu a boca por um instante, mas hesitou, e nesse momento, percebi a luta
interna em seus olhos.
A confusão e o medo estavam lá, misturados com algo que eu não conseguia
identificar.
Quando balançou a cabeça negativamente, seus olhos pareciam transmitir a resposta
que eu temia, mas o simples gesto não foi suficiente para me convencer.

A hesitação dela me inquietou.


Eu queria acreditar que ela estava bem, mas a dúvida se instalava em meu peito,
pesada e angustiante, como um fardo que eu não conseguia descarregar.

Eu precisava saber a verdade.

Continuei a encarando, desejando que ela encontrasse as palavras certas, aquelas que
pudessem dissipar a tempestade de incertezas que me atormentava.
Cada segundo parecia uma eternidade, e eu ansiava por uma resposta que me
trouxesse paz, como se minha própria vida dependesse disso.
Eu precisava de um sinal de que ela estava, de fato, bem.
A expectativa me consumia, e a preocupação se tornava um peso difícil de suportar.

Enquanto a observava, percebi que Alex finalmente entendeu a profundidade da


minha determinação em saber se ela havia sido ferida.
Seu olhar se desviou, e pude notar a maneira como respirou fundo, como se estivesse
rendida pela minha insistência.

Então, depois de um momento que parecia durar uma eternidade, ela levantou os
olhos novamente, encontrando os meus com uma sinceridade que eu precisava
naquele instante.
A expressão em seu rosto começou a mudar, e eu senti uma leve esperança brotar
dentro de mim, como um raio de luz em meio à escuridão.

— Eu estou bem. De verdade.


Essas palavras atingiram meu coração como um sopro de alívio, e embora a dúvida
ainda pairasse no ar, a maneira como ela às pronunciou me fez acreditar, mesmo que
apenas por um instante, que ela realmente estava bem.

Soltei um suspiro profundo, aliviado com a resposta, e puxei Alex para um abraço
apertado. 🎵
Não era apenas uma demonstração de afeto.
Era uma expressão de toda a minha preocupação e cuidado.

Eu precisava dela, como se o mundo pudesse desmoronar sem ela por perto, mas ali,
naquele momento, eu a manteria segura.

Uma das minhas mãos repousava delicadamente na cabeça dela, os dedos abertos e
firmes, transmitindo a proteção que eu tanto desejava oferecer.
Meu toque era como um lembrete de que eu estava ali, presente e atento.

Com a outra mão, segurei seu corpo com força na altura das costas, a urgência
emocional pulsando em cada toque.
Eu temia soltá-la, como se isso pudesse fazê-la desaparecer.
Meu corpo se inclinava ligeiramente para frente, fechando o abraço, assumindo a
posição de quem cuida, de quem luta para proteger.

Senti a tensão em meu rosto, o maxilar contraído e as sobrancelhas levemente


franzidas.
Mesmo sem dizer nada, eu sabia que minha preocupação estava estampada em meu
rosto.
Eu tentava me manter forte, não apenas por mim, mas por ela.

Minhas mãos deslizaram até sua cintura, e a abracei com mais firmeza, como se
quisesse me certificar de que ela estava realmente ali, que nada poderia nos separar
novamente.

Meus braços envolveram seu corpo com uma força que ia além do físico, uma força
que vinha de memórias, de um amor que nunca se apagou completamente.
Cada centímetro do meu corpo buscava o dela, ansioso por sentir o calor familiar, o
cheiro que me era tão íntimo, que me trazia de volta a um tempo em que éramos um
só.
Aquele abraço não era apenas um gesto.
Era um refúgio, um grito silencioso de um "eu ainda te amo", um pedido para que o
tempo parasse e nos permitisse reviver o que um dia tivemos.

Apoiei o queixo em seu ombro, sentindo a suavidade da sua pele, o ritmo do seu
coração que parecia ecoar da mesma forma que o meu.
Naquele momento, a segurança que eu sentia era avassaladora.
Era como se, de repente, todas as barreiras que havíamos construído caíssem, e
apenas o amor que ainda nos unia permanecesse.

Fiquei confuso com a intensidade da minha própria reação, surpreso pela forma
como meu corpo reagia ao seu toque, como se ansiasse por essa proximidade há
muito tempo.
Senti as mãos dela deslizando pelo meu pescoço, o toque suave e familiar que me fez
sentir como se o tempo não tivesse passado.
De repente, uma pontada de preocupação me atravessou.
Meu corpo estava suado, e o medo de que isso pudesse deixá-la incomodada, e ela
pudesse se afastar me atingiu com força.
Mas a sensação do toque dela, a forma como ela correspondeu ao meu abraço,
dissipou qualquer insegurança dentro de mim.
Eu estava tão entregue a aquele momento que a possibilidade de lhe causar qualquer
desconforto era insignificante perto da alegria de a ter ali, tão perto.
Era uma mistura de saudade e desejo, uma confissão muda de que, apesar de tudo,
meu coração ainda batia por ela.

Meu corpo, tão tenso antes, começou a relaxar, como se cada preocupação e medo se
dissolvessem naquele momento.
O calor do seu toque me envolveu, e eu me entreguei à sensação de que estávamos
juntos novamente, como se o mundo não importasse.
A respiração dela, suave e calma, me ajudava a encontrar paz em meio ao caos que me
cercava.
Era como se, ao corresponder ao meu abraço, ela estivesse dizendo que tudo ficaria
bem, e eu me permiti acreditar nisso, mesmo que por um instante.

Com a voz embargada, abafada pelo seu cabelo que acariciava o meu rosto,
murmurei, carregado de emoção, mais para mim mesmo do que para ela:

— Ainda bem...

Era visível o alívio, sim, mas havia algo a mais.


Havia a esperança de que aquele abraço pudesse ser o começo de um recomeço, a
chance de resgatar o que havíamos perdido.
Era a confissão de que, mesmo separados, ainda éramos um do outro, e eu faria de
tudo para garantir que ela estivesse a salvo, longe do mundo que poderia machucá-la
novamente.

Aquele abraço, que começou como um alívio palpável, se transformou em um portal


para um passado que eu acreditava ter enterrado.

Era como se, durante todos esses meses, uma parte de mim estivesse adormecida,
esperando o toque dela para despertar.

Eu sempre soube que sentia a falta dela

E agora, sentindo o calor do seu corpo, o ritmo familiar da sua respiração, eu


percebia que essa falta era mais do que saudade.

Era uma ausência constante, um vazio que nenhuma outra presença conseguia
preencher.

Era a ausência da minha própria essência, que só se completava ao lado dela.

Mas, naquele abraço, a verdade se revelou com uma força avassaladora.

Eu não sentia apenas a falta dela.

Eu sentia a falta disso.

A falta do calor do seu corpo contra o meu, do cheiro que me embriagava, do jeito
que ela me abraçava como se os meus braços fossem o único lugar seguro no mundo.
Era uma falta que transcendia a saudade, um anseio profundo que eu nem sabia que
existia em mim.

O tempo pareceu parar, e naquele instante, tudo o que importava era a sensação dela
ali, tão perto, tão real.
E naquele momento, eu soube, com uma clareza que tocou minha alma, que faria de
tudo para nunca mais deixar essa sensação escapar.
O aperto dos seus braços em volta do meu pescoço era um lembrete constante do
que eu havia perdido e do que, talvez, pudesse reconquistar.
Cada batida do seu coração contra o meu era uma promessa silenciosa, um eco de
um amor que, apesar do tempo e da distância, ainda pulsava forte.

“Noah, ela ama você. E eu claramente vejo isso.”

O eco das palavras de Anna ressoava em minha mente, uma melodia de esperança em
meio à tempestade de incertezas que me assombrava.

"Você só precisa ser honesto. Falar sobre o que sente, sobre como você se preocupa com ela.
Isso pode ser o que ela precisa pra se recuperar."

A honestidade.

A preocupação.

Palavras simples, mas que, naquele momento, pareciam a chave para um universo
desconhecido.
Enquanto eu a abraçava, sentindo a fragilidade e a força contidas em seu corpo, as
palavras de Anna ganhavam um novo peso.

Ela ama você.

A ideia, antes um sussurro distante, agora se tornava um grito mais audível em meu
peito.
Pensei no homem que eu havia desfalecido, e a intensidade do meu desejo de
protegê-la, de garantir que nenhum mal a tocasse novamente, era gigantesca.

Era essa a preocupação que a Anna mencionava?


Era essa a honestidade que eu precisava expressar?

Uma onda de clareza me atingiu, tão forte quanto o abraço que nos unia.
Talvez Anna estivesse certa.
Talvez, em meio a toda a confusão, ao medo e a dor que nos cercavam, houvesse um
fio de amor que ainda nos conectava.
A forma como ela se aconchegou em mim, a maneira como seu corpo cedeu ao meu
toque, a calma que emanava dela... tudo isso falava de uma conexão profunda, de um
sentimento que o tempo não havia sido capaz de apagar.

Ela ama você.

A frase ecoava, e pela primeira vez, eu me permiti acreditar.


A possibilidade de um recomeço, antes uma miragem distante, agora parecia ao
alcance das mãos.
Se ela ainda me amava, se havia uma chance de reconstruir o que havíamos quebrado,
então eu precisava ser corajoso.
Precisava ser honesto, não apenas com ela, mas comigo mesmo.

Decidi ali, naquele abraço que era um refúgio e um campo de batalha para minha
alma, que tentaria.
Tentaria ser o homem que Anna descrevia, o homem que a Alex precisava.
Falaria sobre o que sentia, sobre a saudade que me consumia, sobre o medo de
perdê-la para sempre.
Se o amor ainda existia entre nós, talvez essa confissão fosse a ponte para um novo
começo.

Talvez, apenas talvez, pudéssemos, de fato, começar de novo.

O pensamento era um turbilhão de emoções, um emaranhado de esperança e medo,


mas, ao mesmo tempo, era incrivelmente libertador.

Eu estava quase cedendo, permitindo que as palavras de Anna penetrassem em meu


coração.

Respirei fundo, sentindo o aroma dela, e soube que estava pronto para arriscar tudo.

Porém, antes que eu pudesse ter qualquer reação, Alex quebrou o silêncio, me
surpreendendo com suas palavras.

O que ela disse despedaçou qualquer esperança que eu ainda nutria dentro de mim.

Cada sílaba que ela pronunciou ressoou em mim como um alarme, e a sensação de
segurança que eu havia começado a construir se desfez como areia entre os dedos.
O ambiente ao nosso redor, que antes pulsava com a promessa de um recomeço,
agora parecia pesado, como se o ar tivesse se tornado denso e insuportável. 🎵
— Me desculpe por perguntar, mas… nós nos conhecemos?

As palavras dela, simples e cruéis, me cortaram como uma lâmina afiada.

Eu fiquei paralisado.

O ar pareceu fugir dos meus pulmões, e um choque gelado percorreu meu corpo, me
prendendo no lugar.

Sua fala ressoava em minha mente como um eco distorcido, e eu não conseguia
encontrar minha voz.
Era como se um nó se formasse em minha garganta, impedindo qualquer som de
escapar.

O chão sob meus pés pareceu ceder, instável.


Senti minhas pernas tremerem, e por um instante, tive a certeza de que desabaria ali
mesmo, no meio daquele silêncio ensurdecedor.

A tristeza me invadiu, pesada e sufocante, como uma onda que me arrastava para as
profundezas do desespero.

Eu me afastei lentamente, sentindo o peso da pergunta dela como uma lâmina


invisível que perfurava meu peito, quebrando o feitiço do momento que
compartilhávamos. Meus braços, antes firmes envolvendo sua cintura, se soltaram
devagar, como se cada músculo estivesse hesitante em deixar o contato, em perder
aquilo que ainda me parecia real.

A sensação de perda já começava a me sufocar.

Dei um passo para trás, criando uma distância que antes não existia, um espaço frio
que parecia crescer entre nós e congelar o tempo.
O ar ficou denso, pesado, e eu senti minhas pernas fraquejarem.

Como?

Como ela podia não saber?

Como podia olhar pra mim e não ver nada do que fomos?

Do que éramos?

Meus olhos se fixaram nos dela, buscando desesperadamente respostas, tentando


decifrar o que aquela expressão confusa escondia.

Meu coração apertou, uma mistura amarga de dúvida e dor aguda.

A confusão nos olhos dela era um labirinto sem saída, e eu me perdi ali, sem saber se
aquele olhar era um fingimento ou se o que tínhamos realmente não existia mais para
ela.

Será que ela estava fingindo não me conhecer?


Ou seria possível que, naquele instante, ela realmente não me reconhecesse?
A incerteza me torturava.

Eu estava ali, paralisado, tentando juntar os pedaços que minha mente insistia em
esconder.

Minha voz saiu rouca quando eu consegui falar, quase um sussurro que eu mal
conseguia controlar:

— Você... não me reconhece? — perguntei, a garganta apertada, a insegurança me


dominando.

Minhas mãos tremiam, apesar de eu tentar disfarçar.


Era como se um frio interno me consumisse, e os pensamentos fugissem rápido
demais para que eu pudesse alcançá-los.
A confusão era um nó apertado no peito, e meus olhos, que antes brilhavam com
esperança, agora estavam turvos, fixos em algum ponto distante, como se buscassem
algo que não podia mais ser alcançado.

— Eu... eu pensei que... — tentei continuar, mas a voz me traiu, falhando no meio da
frase.
As palavras que eu queria dizer se perdiam no vazio, e tudo o que restava era essa
sensação dolorosa de ausência.

Cada segundo parecia esticar, e a dor de não ser reconhecido me atingia com força,
uma ferida invisível que sangrava silenciosamente dentro de mim.
Eu queria que ela entendesse, que visse além do que eu era naquele momento, mas
tudo que eu conseguia era sentir o peso do silêncio entre nós.
— Você... realmente não se lembra? — minha voz carregava uma tristeza profunda,
quase um pedido desesperado, enquanto eu sentia a distância crescer entre nós, como
um abismo que eu não sabia se conseguiria atravessar.

Seria possível ela realmente não se lembrar de mim?


Do meu rosto?

Ela ficou calada, não respondeu a minha pergunta.

Parecia que buscava em vão por uma resposta, uma memória que se recusava a vir.

A confusão em seus olhos era palpável, e o silêncio dela era um eco ensurdecedor.

Cada instante sem resposta, era uma pontada a mais no meu peito.

Cada segundo que passava, sem uma palavra, sem um gesto, era uma confirmação
cruel.

Eu me peguei pensando, com uma ironia amarga, que talvez fosse menos doloroso se
ela estivesse fingindo.
Se aquele olhar vago fosse uma máscara, uma forma de me afastar.
Mas não, o silêncio dela era pesado demais, carregado de uma verdade que me
esmagava.
O olhar dela, fixo e vazio, não era de quem se esquecia propositalmente, mas de quem
não tinha mais nada para lembrar.
O rubor em suas bochechas, um tom avermelhado que contrastava com seu tom de
pele habitual, era um sinal inconfundível.
E o aroma forte que pairava no ar ao redor dela, não deixava margens para dúvidas.

Ela estava bêbada.

A constatação, em vez de trazer alívio ou uma explicação plausível, apenas


aprofundou a ferida.

O fato de que o álcool havia apagado a nitidez do meu rosto, era um golpe baixo.

Significava que o que tínhamos, os momentos que eu guardava com tanto carinho, as
promessas sussurradas, não foram fortes o suficiente para resistir a um pouco de
bebida.

Para ela, talvez, tudo aquilo não tivesse tido o peso que teve para mim.
A ideia de que o nosso amor, a nossa história, pudesse ser tão temporário, tão
facilmente apagado pela embriaguez, me deixava com um vazio ainda maior.

Era como se o que eu sentia fosse unilateral, uma lembrança preciosa para mim, mas
apenas um borrão insignificante para ela.

A dor da incerteza era terrível, mas a dor da certeza, de que o que tivemos não foi tão
importante assim, era infinitamente pior.

Eu me sentia diminuído, uma memória passageira, um fantasma que ela não


conseguia mais evocar.

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