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DIREITOS HUMANOS E OS
CIDADÃOS NO MUNDO:
3 DIFERENÇA, DIVERSIDADE E A
BIOTECNOLOGIA
A igualdade nasce da ideia de que a lei não faz diferenciação entre as pessoas, ou seja,
é preciso dar a todos o mesmo tratamento perante a lei. Por sua vez, a equidade busca
atentar-se às necessidades das pessoas, considerando as distinções de cada uma para
a promoção dessa igualdade. Significa dizer que ambas almejam a justiça social, mas
há distinções importantes nesses conceitos.
Também o Pacto dos Direitos Civis e Políticos consagra a igualdade formal e, junto do
Pacto dos Direitos Econômicos e Sociais, traz a impossibilidade de discriminação por
motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de qualquer outra natureza,
origem nacional ou social, situação econômica, nascimento ou qualquer outra situação.
Mas é possível garantir a igualdade sem diferenciar as pessoas nas medidas das suas
desigualdades?
A resposta só pode ser negativa. Isso ocorre porque, não estando no mesmo patamar,
não há como garantir a existência da igualdade entre as pessoas. Então, é preciso
entender a igualdade de duas formas ou sob duas perspectivas. Uma igualdade de
natureza formal, ou seja, aquela em que se coloca que todos são iguais perante a lei e,
62
em um segundo aspecto, uma igualdade de natureza material. A igualdade material (ou
substancial) é entendida, assim, como a possibilidade de tratar os iguais de forma igual
e os desiguais de forma desigual, na medida das suas desigualdades.
3
Nesse segundo sentido é que se pode buscar a ideia de equidade, que visa tratar as
pessoas de forma diferente para proporcionar o que elas de fato necessitam, ou seja,
para que de fato possam ter as mesmas oportunidades dentro das suas realidades e
Mazzuoli (2021, p. 216) observa que o estudo dos direitos humanos das minorias e
dos grupos de vulneráveis excepciona o princípio da igualdade formal, que foi erigido
no estado liberal para consagrar a igualdade material com o reconhecimento das parti-
cularidades de cada pessoa e implementado pelo estado social, garantindo a proteção
especial a todos que detêm características singulares, por meio das chamadas discri-
minações positivas ou ações afirmativas.
Ramos (2021, p. 994) observa que a universalidade dos direitos humanos é concretiza-
da pela igualdade, questionando:
` Basta reconhecer que todos têm o mesmo direito ao trabalho e de acesso aos cargos
públicos se as pessoas com deficiência sofrem com as mais diversas barreiras de acesso,
ficando alijadas desses mercados?
` Como reconhecer o direito de acesso à justiça se os mais pobres não têm condições de
pagar um advogado?
A ideia é que a discriminação para igualar traz benefícios que diminuem as desigual-
dades que muitas vezes são perpetuadas no contexto histórico social que perpetua
discriminações nos comportamentos da sociedade, ou seja, é possível manifestar uma
ação discriminatória para promover igualdade, o que chamamos de ações afirmativas.
Mas como fazer isso sem cometer injustiças? Discriminando positivamente, ou seja,
por meio de políticas públicas e leis que reparem e favoreçam determinados grupos por
serem minoritários, em razão de injustiças históricas.
Direitos Humanos 63
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
No Brasil, por exemplo, temos, como medidas dessas práticas sociais que visam pro-
mover justiça social e equidade, programas como o Bolsa Família, que promovem uma
equidade na distribuição de renda para diminuir a pobreza, e também as políticas de
3 cotas econômicas, sociais e raciais nas universidades para democratizar o acesso ao
ensino superior e, ainda, alterações na legislação eleitoral para estimular uma maior
participação das mulheres no cenário político.
Como bem observa Piovesan (2018, p. 388), a Convenção sobre a Eliminação de To-
das as Formas de Discriminação Racial prevê, no art. 1º, § 4º, a adoção de medidas
especiais de proteção ou incentivo a grupos ou indivíduos, com vistas a promover sua
ascensão na sociedade até um nível de equiparação com os demais, ressaltando as
ações afirmativas como medidas especiais e temporárias para remediar um passado
discriminatório, de forma retrospectiva, acelerando esse processo de igualdade, mas
também de forma prospectiva, fomentando uma transformação social para o futuro,
criando uma nova sociedade, com base na igualdade, e fomentando por meio de medi-
das concretas a crença de que essa igualdade deve se moldar no respeito à diferença
e à diversidade, para promoção de uma igualdade material.
Figura 01. Proteção, vulnerabilidade e diversidade
Observe a ilustração da Figura 01.
Quando se pensa em pluralidade, é pre-
Fonte: 123rf
64
Certamente, alguns grupos, seja por razões históricas, seja por razões culturais, so-
freram e sofrem ao longo do percurso discriminação e necessitam de maior proteção.
Mazzuolli (2021, p. 216) observa que alguns grupos de pessoas são consideradas mi-
3
norias por não terem a mesma representação política dos demais cidadãos, ou ainda
por sofrerem histórica e crônica discriminação por guardarem entre si características
essenciais à própria personalidade no meio social, com uma identidade própria coletiva,
Então é necessário promover ações afirmativas que tragam para minorias e grupos em
situação de vulnerabilidade o combate a essas fragilidades e desigualdades presentes
neste mundo desigual. Basta observar o conteúdo e a formação desses grupos sociais
para perceber a importância dessas ações na atualidade.
` Crianças e adolescentes
A tutela de proteção das crianças sofreu profundas transformações ao longo dos sécu-
los. Houve o momento em que o período de infância não sofria diferenciação da fase
adulta ou em que a criança era considerada um apenso familiar, até que se passou a
perceber a criança como um ser em processo de desenvolvimento que precisa de pro-
teção específica e especial.
É importante entender que a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 traz
a proteção da maternidade e da infância, evoluindo nessa percepção. Mas é com a
evolução do sistema da ONU, quando se institui uma agência própria especializada
de proteção da criança, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que
se busca uma atuação mais voltada à promoção de políticas e agendas para propiciar
essa proteção, assim como também se dá através de relatórios especiais e um comitê
onusiano que lidam com a mesma temática.
Direitos Humanos 65
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Isto é, há uma expressiva proteção dos seus direitos no cenário nacional e internacional
da promoção dos direitos humanos.
É importante perceber a criança como sujeito de direitos, com base nas conquistas
3
internacionais do Direito Internacional dos Direitos Humanos, com incorporação dos
diversos tratados e convenções fomentados pelos sistemas global, interamericano e
africano que passam, ao longo dos anos, a ser titulares de direitos, independentemente
da proteção destinada aos seus países, ou família, preceituada pela proteção da
dignidade humana.
No Brasil, influenciados por essa convenção e pela proteção integral adotada na Consti-
tuição de 1988, elabora-se o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990, que
traz a necessidade de proteção e desenvolvimento integral e uma legislação avançada
para proteção das crianças em uma série de direitos e garantias que promovam a inclu-
são e o acesso delas a direitos.
Muito embora exista ampla proteção das leis e tratados, as crianças são um dos gru-
pos que precisam de maior proteção dos direitos humanos, os quais, no entanto, não
possuem reconhecimento efetivo, de fato. A título de exemplo, embora exista o reco-
nhecimento do direito à educação, milhões de crianças ainda estão fora da escola no
mundo inteiro, milhares de meninas se casaram antes de completar 18 anos, muitas
crianças são expostas ao trabalho infantil ou à exploração sexual, sendo as primeiras
vítimas em conflitos civis e guerras, recrutadas como crianças soldados, e muitas vezes
se encontram em maior estado de vulnerabilidade diante do descaso e da desproteção
da família, do Estado e da sociedade como um todo.
De acordo com o UNICEF (2022), o Brasil tem apresentado avanços na proteção dos
direitos da criança, em especial no que diz respeito ao combate e à redução da morta-
66
lidade infantil. No entanto, verifica-se um aumento crescente da violência no País nos
últimos anos. Esse crescimento tem atingido crianças e adolescentes, especialmente,
os meninos, negros, pobres e moradores das comunidades e periferias dos centros
urbanos do Brasil, com alta taxa de mortalidade. 3
Como se verifica nesse caso, a desigualdade, além da vulnerabilidade etária, também
reverbera nas condições socioeconômicas e na questão da raça que ostentam, fomen-
` Idosos
Em um mundo cujo sistema econômico é capitalista, é preciso cuidar daqueles que não
podem mais ser fonte do valor trabalho, como uma dimensão do valor da solidariedade,
para que as pessoas não sejam consideradas inúteis para sociedade pelo fato de não
serem utilizadas para produção de mercadorias.
Envelhecer é um direito social e humano e, como tal, deve ser percebido. A preocupa-
ção não pode e não deve voltar-se apenas para questões previdenciárias, como apo-
sentadoria, de dependência, de custos na saúde, mas também para o direito de enve-
lhecer de forma ativa, plena, feliz e saudável.
Direitos Humanos 67
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
As barreiras e atitudes enfrentadas por este grupo todos os dias em nossa sociedade
são inúmeras. A ausência de interação, o menosprezo, a desídia, o descaso e o precon-
3
ceito revelam a necessidade de promoção e interação dos direitos humanos da pessoa
com deficiência no mundo inteiro.
Por essa razão, Ramos (2021, p. 279) observa que a deficiência é considerada um con-
ceito social (e não um conceito médico) em evolução, diante das barreiras – geradas
por atitudes e pelo ambiente – que impedem a plena e a efetiva participação dessas
pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais.
Assim, a luta pelos direitos das pessoas com deficiência passa não só pela afirmação
histórica dos direitos humanos e suas lutas, mas também pela necessidade de uma
mudança comportamental da sociedade.
Nesse grupo, é importante perceber que, de acordo com o UNICEF, as crianças com
alguma deficiência hoje no mundo estão sofrendo desafios de acesso à educação, à
nutrição, tendo mais probabilidade de sofrerem discriminação no ambiente social, de
serem humilhadas, receberem castigos físicos, não serem ouvidas e de não receberem
educação inclusiva.
A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) traz em seu corpo ações afirmativas
para inclusão da pessoa com deficiência.
Além disso, podemos citar como outras medidas dessa natureza na promoção da equi-
dade das pessoas com deficiência:
` a destinação de cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência,
que definirá os critérios de sua admissão (a Lei nº 8.112);
68
As mulheres historicamente – e por muito tempo – foram e são discriminadas. Elas não
puderam participar de direitos e decisões políticas, do mercado de trabalho, da educação,
em uma sociedade com ausência de igualdade e sociedade extremamente patriarcal.
3
Especialmente a partir dos anos 1970, os direitos humanos passam a ser pauta reivin-
dicatória dos movimentos feministas no mundo.
SAIBA MAIS
De acordo com a OMS, ao longo da vida, uma em cada três mulheres, cerca de 736 mi-
lhões no mundo todo, é submetida à violência física ou sexual por parte de seu parceiro ou
violência sexual por parte de um não parceiro – um número que permaneceu praticamente
inalterado na última década. Para maiores informações sobre o perfil e dados atuais, acesse
o texto do link seguinte. [Link]
ralizada-1-em-cada-3-mulheres-em-todo-mundo-sofre-violencia. Acesso em: 28 nov. 2022.
Nesse contexto, as mulheres são vítimas de violência física e mental nos ambientes
domésticos e também sofrem uma série de assédios, de natureza moral e sexual, por
Direitos Humanos 69
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Um dado extremamente preocupante diz respeito aos casos frequentes, nos lares brasi-
leiros, de homicídios de mulheres, os chamados feminicídios. A violência doméstica é uma
realidade triste que assola o país e só se intensificou com a pandemia do coronavírus.
SAIBA MAIS
De Acordo com a Agência Brasil, houve aumento de casos de violência contra a mulher em
483 cidades durante a pandemia de covid-19, que atingiu o Brasil em fevereiro de 2020. O
número equivale a 20% dos 2.383 municípios ouvidos pela nova edição da pesquisa da Con-
federação Nacional dos Municípios (CNM) sobre a pandemia. Em 269 (11,3%) municípios,
houve elevação nas ocorrências de violência contra criança e adolescente, em 173 (7,3%) fo-
ram registrados mais episódios de agressão contra idosos, e em 71 (3%) contra pessoas com
deficiência. Em outras 1.684 cidades (70,7%), as prefeituras não receberam mais denúncias
de violência contra esses segmentos. Para ver os dados na íntegra, leia o texto completo no
link seguinte.
A violência doméstica não é uma realidade atual, sendo presente há décadas na reali-
dade brasileira e mundial. O Brasil, por exemplo, já foi responsabilizado perante Comis-
são Interamericana de Direitos Humanos por negligenciar políticas públicas e promoção
de justiça em situações de violência contra mulher, no caso Maria da Penha. Sobre o
caso, Mazzuoli (2021, p. 222) esclarece que:
O caso internacional mais emblemático envolvendo o Brasil sobre o
tema da violência contra a mulher foi o relativo à Sra. Maria da Penha
Maia Fernandes, vítima quase fatal de violência doméstica praticada pelo
ex-marido na década de 1980. Em decorrência da longa demora das
autoridades locais (mais de 15 anos) em levar à frente o inquérito policial
e a ação judicial respectiva, Maria da Penha peticionou junto ao Centro
pela Justiça e Direito Internacional (Cejil) e ao Comitê Latino-Americano
de Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem), que levaram o caso à análise
da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Esta, no seu relatório
anual de 2000, assim declarou: A denúncia alega a tolerância da República
Federativa do Brasil (doravante denomina- da “Brasil” ou “o Estado”) para
com a violência cometida por Marco Antônio Heredia Viveiros em seu
domicílio na cidade de Fortaleza, Estado do Ceará, contra a sua então espo-
sa Penha Maia Fernandes durante os anos de convivência matrimonial, que
culminou numa tentativa de homicídio e novas agressões em maio e junho
de 1983. [Maria] da Penha, em decorrência dessas agressões, sofre de
paraplegia irreversível e outras enfermidades desde esse ano. Denuncia-
se a tolerância do Estado, por não haver efetivamente tomado por mais de
70
15 anos as medidas necessárias para processar e punir o agressor, apesar
das denúncias efetuadas. [...] Neste caso, e pela primeira vez, a Comissão
In- teramericana aplicou a Convenção de Belém do Pará para sustentar a
responsabilidade do Estado no que tange ao dever de prevenir, sancionar e
erradicar a violência doméstica contra a mulher, notadamente em razão da 3
ineficiência judicial perante casos de violência doméstica.
Mazzuolli (2021, p. 222) ainda observa que, em 2015, o Brasil institui uma mudança no
Assim, no Brasil, medidas como a Lei Maria da Penha e do feminicídio têm buscado
combater as práticas corriqueiras de violência contra mulher e, no âmbito regional, im-
plementar a Convenção de Belém do Pará.
A violência é gritante na perspectiva de gênero, mas também nos demais grupos sociais
em situação de vulnerabilidade no Brasil, o que denuncia a existência de uma socieda-
de não inclusiva e que ainda necessita implementar na prática o princípio da igualdade
para promoção da equidade, de forma a consagrar-se como uma sociedade plural.
O Atlas da Violência (do Ipea), ilustrado na Figura 02, identifica essa realidade na socie-
dade brasileira e mostra a necessidade que ainda existe de uma longa e árdua promo-
ção e garantia da prevalência da igualdade de gênero, bem como o respeito aos cida-
dãos em razão de raça, idade, sexo, condição física e mental, para eliminação de todas
as formas de discriminação e desigualdade e o surgimento uma grande transformação
em um país que implemente os Direitos Humanos que consagra.
Direitos Humanos 71
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Dessa forma, mais do que mudanças nas leis e implementação de tratados, é preciso ha-
ver transformação e conscientização social, implementando por meio de espaços de fala
e de políticas públicas a promoção dos direitos humanos das mulheres, uma luta histórica
que se perfaz diante da necessidade de afirmação e efetividade prática da igualdade de
gênero e dos demais grupos em situação de maior vulnerabilidade no país.
72
Figura 03. Igualdade, equidade e gênero
IGUALDADE
3
` Dar a todos o mesmo tratamento e as mesmas
oportunidades perante a lei
EQUIDADE DE GÊNERO
` Promover ações necessárias para atingir a igualdade
entre homens e mulheres. Exemplo: garantir os mesmos
salários em uma empresa para homens e mulheres
na mesma posição; aumentar a representatividade
política feminina.
Portanto, entende-se que, para promoção da igualdade entre as minorias e grupos so-
ciais, ainda há um longo caminho de pautas, agendas e lutas sociais que se faz neces-
sário, a fim de alcançar a afirmação histórica e a concretização dos direitos humanos de
forma a promover uma verdadeira justiça social na proteção das minorias e grupos em
situação de vulnerabilidade
Recomendação de filmes
01. As Sufragistas (2015)
O filme reflete a luta de mulheres pelo direito ao voto feminino, em meados do século 20, por
meio da busca pela igualdade no movimento sufragista.
A reflexões em forma de drama romântico são trazidas no filme por uma professora que, na
década de 1950, é contratada para lecionar história da arte em uma escolar feminina tradicio-
nal e desperta em suas alunas uma nova percepção cultural nos modos e hábitos de vidas
das mulheres à época.
Direitos Humanos 73
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Inspirado em um best-seller mundial de mesmo nome lançado em 2013, o filme ensina sobre
3 aceitação e a capacidade de compreender o outro, refletindo sobre a diversidade e os pre-
conceitos enfrentados por uma criança com deficiência ao chegar na escola.
Caso de aplicação:
Os direitos humanos das mulheres têm sido expressivos em julgados presentes na Corte
Interamericana de Direitos Humanos, especialmente os que envolvem violência de gênero.
Um exemplo de aplicação prática é o que ocorreu no caso Gonzales e outras (Campo do
Algodoeiro), em que o Estado do México foi responsabilizado por violação à Convenção
Americana e à Convenção de Belém do Pará, diante da ausência de diligências regulares nas
investigações das mortes e do desaparecimento decorrentes de crimes sexuais contra Laura
Berenice Ramos Monárrez (de 17 anos), Claudia Ivette González (de 20 anos) e Esmeralda
Herrera Monreal (de 15 anos), cujos corpos foram encontrados em um campo algodoeiro na
Cidade Juárez, em Chihuahua, no México, com sinais de violência sexual e demais abusos
físicos relativa- mente às três vítimas e seus familiares.
Esse tema é importante e impacta diretamente na forma como se vive e como as pes-
soas se relacionam na nossa sociedade em todos os países do mundo.
O fato é que basta ser um observador do modo como as pessoas se percebem e perce-
bem os outros para entender a importância de se fazer representar e de conviver com
a diversidade.
Em tempos de bolhas digitais, em que as pessoas se isolam cada vez mais nos próprios
mundos, com a ausência de diálogos e com posicionamentos em redes sociais que fo-
mentam discursos de ódio nas manifestações dos pensamentos dos indivíduos, a ques-
tão da proteção à diversidade e à representatividade se faz cada vez mais presente e é
matéria de necessária reflexão.
Isso é posto porque, quando se olha ao redor para a forma de comportamento social,
identifica-se que alguns grupos possuem maior dificuldade de ocupar alguns espaços
na sociedade, ter voz e lugar de fala, ter a condição de pertencimento. Em razão disso,
são colocados em situações de vulnerabilidade, inferiorização e total exclusão, como os
povos indígenas, as mulheres, a comunidade LGBTQIA+ e os refugiados.
74
que, embora possua uma população etnicamente diversa, o país é fechado à questão
da representatividade, o que colabora para atitudes excludentes, racistas, classistas,
sexistas e, portanto, discriminatórias por parte da população.
3
Por exemplo, a dominação cultural e a colonização eurocêntrica ainda trazem presente na reali-
dade do país a ausência de proteção e de respeito às comunidades originárias, os povos indíge-
nas, que aqui ocupavam as terras antes da chegada dos portugueses, espanhóis, holandeses,
A substituição da escravidão pela migração europeia e asiática trouxe ainda mais ele-
mentos de diversidade para nosso modo de viver, nossa cultura, nossa língua e nossa
gastronomia Tal amplitude cultural, no entanto, não é traduzida em uma aceitação e
inclusão de todas raízes que compõem nosso povo.
Direitos Humanos 75
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Nesse contexto, Gonzaga (2021, p. 2) traz, em suas importantes reflexões críticas so-
bre decolonialismo indígena, a importância de não trazer o termo “índios” ao se referir
aos povos originários. Eis que é preciso frear, na visão do autor, a imprecisão histórica
desrespeitosa e ideológica que perdura desde Cristóvão Colombo como referência aos
povos que habitavam a Índia, para não mantermos as visões dos livros de história do
Brasil da figura mitológica e estereotipada dos povos indígenas, associados muitas ve-
zes a conotações negativas, como “preguiçosos”, “primitivos”, “selvagens” e “canibais”.
De acordo com os dados do IBGE (2020), no Brasil estima-se que, em 2020, existia
um total de 1.108.970 pessoas residentes em localidades de povos indígenas no Brasil
76
Entretanto, essa população faz parte de um grupo social de extrema invisibilidade no
país, ocupando as cinco regiões do Brasil e tendo massiva presença nos territórios da
Amazônia e em alguns estados da região Nordeste.
3
Sofrendo desprezo na preservação das suas heranças culturais, ancestrais, popula-
ções e territórios, assim como as comunidades tradicionais, com fortes ameaças a ex-
ploração de suas terras, os povos indígenas, como se pode verificar, são acometidos de
É, assim, nesse momento, que o país passa de direito a adotar uma postura de respeito
à identidade cultural desses povos e ao direito originário sobre as terras que tradicional-
mente ocupam. Nesse sentido, a Constituição estabelece a possibilidade da educação
na língua portuguesa, assegurando aos indígenas a utilização de sua linguagem ma-
terna e mecanismo próprio de aprendizagem, como proteção cultural, e tenta instituir
políticas públicas na proteção das comunidades tradicionais, e de suas terras, trazendo
dispositivos em sua defesa.
Direitos Humanos 77
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
SAIBA MAIS
Para compreensão do caso “Raposa Serra do Sol”, acesse o texto sobre o episódio no link
3
seguinte.
Recentemente, a questão do marco temporal foi debatida e retomada pelo STF. Sobre
o referido caso, Ramos (2021) esclarece:
No RE 1.017.365/SC (rel. Min. Edson Fachin, em trâmite em setembro de
2020), que possui repercussão geral. Foi proposta, pela PGR, a seguinte
tese, que resume a importância do caso para que seja afastada a tese do
marco temporal em sentido estrito: “A proteção da posse permanente dos
povos indígenas sobre suas terras de ocupação tradicional independe da
conclusão de processo administrativo demarcatório e não se sujeita a um
marco temporal de ocupação preestabelecido. O art. 231 da Constituição
Federal reconhece aos índios direitos originários sobre essas terras, cuja
identificação e delimitação deve ser feita por meio de estudo antropológico,
o qual é capaz, por si só, de atestar a tradicionalidade da ocupação segundo
os parâmetros constitucionalmente fixados, e de evidenciar a nulidade de
quaisquer atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse
dessas áreas”. (RAMOS, 2021, p. 1.493)
SAIBA MAIS
Para uma leitura mais completa sobre o tema, acesse o texto do seguinte link.
78
também a Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões
Culturais, de 2005, e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos
Indígenas, de 2007.
3
Em 2016, aprovou-se a Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas,
pela OEA, visando garantir a proteção dos povos da América do Norte, América Central,
América do Sul e do Caribe, possibilitando excelente avanço e reconhecimento de direi-
Apesar dos desafios atuais, com essas medidas e esses instrumentos nacionais e in-
ternacionais, os povos originários passam a ser reconhecidos como atores e sujeitos
de direito, buscando espaços de representatividade, atuando e reivindicando posturas
e promoção de respeito aos direitos e a suas culturas, demonstrando a importância da
preservação cultural, da proteção das comunidades, das medidas antidiscriminatórias e
da compreensão fundamentalmente da relação de grupo social com a terra.
Direitos Humanos 79
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Fonte: 123RF.
3
BRASIL
Galib (2021, p. 36) observa que essa distinção, ao menos no campo jurídico, surgiu
apenas ao final da Segunda Guerra Mundial, período da história em que aumento o
número de pessoas que não podiam contar com a proteção jurídica dos Estados.
80
As pessoas, muitas vezes, deixam seus países de forma voluntária para buscar oportu-
nidades de emprego, estudos, melhor qualidade de vida. O migrante tem, assim, uma
previsibilidade dessa condição como um projeto de vida. Há nessa condição uma volun-
tariedade, da escolha do país a que pretende migrar, do período durante o qual viajará 3
até lá, das formas e condições da viagem, até a vivência de uma aventura de vida. Por
envolver caráter e prospecção financeiros, na busca por melhores condições de vida,
salários, empregos e/ou estudos, são chamados de migrantes econômicos.
Bauman (2017, p. 9), percebendo esse fenômeno, observa, no entanto, que a migração
em massa não é um fenômeno recente; o autor entende que é nosso modo de vida
moderno que produz pessoas redundantes, excessivas ou não empregáveis, rejeitadas
por conflitos e dissensões causados por transformações sociais/políticas e subsequen-
temente lutas por poder. Assim, observa que, mesmo na qualidade de migrantes econô-
micos ou refugiados, são recebidas por interesses empresariais aonde chegam, com a
percepção de serem mão de obra barata e lucrativamente promissoras.
Como pondera Galib (2021, p. 37), não há tratado de direito internacional que traga
uma definição de imigrante, sendo a única referência a Convenção Internacional so-
bre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros de
suas Famílias, adotada pela Resolução nº 45/158 da Assembleia Geral da ONU, que
dispõe exatamente da descrição do trabalhador migrante: pessoa que exerce atividade
remunerada em território que é não nacional. Galib conclui que o fato de ser um único
instrumento com essa perspectiva limita a qualidade de ser migrante, quando não se
atenta para as realidades dos movimentos migratórios atuais: a circulação de pessoas
é consequência de motivos diversos, razão pela qual o trabalho não é a única pers-
pectiva. Isso manifesta a redução do fenômeno que denuncia Sayad (1998, p. 47 apud
GALIB, 2021, p. 37), ou seja, o migrante compreendido sempre como um trabalhador a
título provisório, temporário e em trânsito.
Não há como não concordar com a autora quando aponta que tal situação limita muito
a possibilidade de incorporação de direitos em caráter permanente aos migrantes por
todos os países onde estiverem, como medida de promoção de igualdade e garantia da
dignidade humana.
É importante perceber que a nova lei de migração mostra uma perspectiva humanitária
e dignificante do migrante, trazendo importantes princípios e direitos a ser assegurados
para todo estrangeiro em território nacional, como os direitos sociais – saúde, educa-
ção, assistência social, trabalho em condições de igualdade com o nacional –, tendo
Direitos Humanos 81
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Assim, é preciso refletir e debater nos espaços públicos sobre a percepção do outro
como sujeito e titular de direitos humanos, pela simples condição de existir e poder par-
tilhar do mundo, independentemente das fronteiras erguidas pelos Estados.
A cada dia somos expostos, na mobilidade humana, à violação de direitos humanos das
pessoas que muitas vezes são forçadas a fugir de suas terras a fim de encontrar asilo
e refúgio.
O número de refugiados no mundo e pessoas que circulam e saem de seus países for-
çosamente aumenta a cada dia, sendo possível afirmar que vivemos, em pleno século
XXI, uma crise humanitária.
No fim de 2020, de acordo com o ACNUR ([s. d.], [n. p.]), 82,4 milhões de pessoas ao
redor do mundo foram forçadas a deixar suas casas, das quais 26,4 milhões são refu-
giadas. Há, ainda, milhões de pessoas apátridas, a quem a nacionalidade foi negada,
o que as impede de ter acesso a direitos básicos como educação, plano de saúde,
emprego e liberdade de movimento.
82
SAIBA MAIS
Para melhor compreensão dos dados, acesse o texto sobre o assunto no link seguinte.
3
Disponível em: [Link] Acesso em: 2
dez. 2022.
Cada dia mais as pessoas são forçadas a deixar seu país de origem, suas casas, suas
famílias. Por vezes, cruzam fronteiras, por vezes, mantêm-se em seus países, mas em
outra região que não o lugar onde nasceram e tinham vínculo originário.
SAIBA MAIS
Os dados da OIM apontam que, até o ano de 2021, 55 milhões de pessoas no mundo esta-
vam em situação de deslocamento forçado interno. Em relação ao começo do século, isso
implica um aumento de 160% (OIM, 2022).
Os refugiados, nesse contexto, são aqueles que cruzam as fronteiras de seu país e
recebem o status de protegidos, na situação de refúgio, mediante um processo que
reconhece que essa condição foi consequência de perseguição em razão de religião,
nacionalidade, raça, associação a determinado grupo político, motivos que impedem as
pessoas de regressar ao país de origem. Antes do reconhecimento formal pelo país, re-
cebem a denominação de solicitantes de refúgio. No entanto, por que temos limitações
para perceber uma pessoa como refugiado?
Direitos Humanos 83
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Inicialmente, ele foi associado a perseguições políticas, passando a ser fomentado de-
3
pois apenas nesse aspecto, no âmbito da America Latina, sendo concebido como asilo
político.
No entanto, é no século XX, de acordo com Jubilut (2007, p. 48), sob a égide da Liga
das Nações em 1921, e posteriormente com a criação das Nações Unidas, que surge a
ideia do refúgio como atualmente percebida.
Assim, a definição jurídica que temos hoje de refugiado foi criada em 1951, após os
horrores da Segunda Guerra Mundial, que deixou muitas pessoas sem proteção dos
Estados, necessitadas de proteção. A iniciativa se deu pelo Alto Comissariado das Na-
ções Unidas para Refugiados (ACNUR), criado em 1950, uma agência da ONU para
proteção e defesa dos direitos dos refugiados.
A Convenção de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados, no entanto, trazia uma li-
mitação temporária e geográfica, posto que só era aplicável aos refugiados oriundos
de países europeus, com marco temporal do período anterior a 1º de janeiro de 1951.
É apenas em 1967 que se elabora um protocolo para acabar com essas limitações, o
Protocolo de 1967. O fato de ser considerado refugiado garante a essa pessoa uma
série de benefícios que resguardam os direitos humanos e uma proteção internacional
pelos países, como o acesso a direitos sociais, podendo exercer um trabalho no local
com direitos equiparados aos nacionais, ter direito à educação e à escolaridade para as
crianças, auferir benefícios sociais, abrir contas em bancos, não sofrer discriminação
por origem (que não é exclusivo a refugiado), regularizar sua documentação e ainda
impossibilitar que o país que o acolheu devolva-o ao país em que sofreu perseguição ou
em relação ao qual exista fundado temor de perseguição, o que é chamado de princípio
da não devolução (não rechaço) ou non-refoulement.
Há instrumentos regionais que protegem a pessoa refugiada com uma perspectiva mais
ampla que a Convenção de 1951. Por exemplo, a Convenção Relativa aos Aspectos
Específicos dos Refugiados Africanos, de 1969, adotada pela então Organização da
Unidade Africana (OUA), amplia o conceito trazendo o refúgio a qualquer pessoa ori-
unda de local que tenha sofrido agressão externa ou tenha passado ocupação, domínio
estrangeiro ou eventos que perturbem seriamente a ordem pública em parte ou em todo
o país de origem ou nacionalidade, bem como perigos generalizados.
Ramos (2021) observa que essa declaração tem a natureza jurídica original de soft law,
ou seja, é considerada um costume aplicado pelos países na América Latina, de natu-
reza não vinculante aos Estados, muito embora tenha sido muitas vezes adotada para
reconhecimento de refúgio, inclusive por países europeus.
84
Em 2016, edita-se a Declaração de Nova York, ratificada por 193 países, da qual resul-
tam dois pactos globais, o Pacto Global para Refugiados – sob os auspícios do ACNUR,
e o Pacto Global para Migrações – este último a ser coordenado pela Organização
Internacional da Migração, ambos os quais buscam a promoção de uma política migra- 3
tória que considere os grupos em situação de vulnerabilidade sob suas perspectivas,
promovam o direito de migrar e garantam o direito de não se deixar ninguém para trás.
Muito embora exista uma série de tratados e declarações, o fato é que essa realidade
só aumenta, o que nos faz perceber a necessidade de implementação prática das nor-
mas protetivas e ampliação dessa proteção.
O Afeganistão, por exemplo, passa por grave crise, conflito civil e instabilidade política,
sendo o terceiro país no mundo com maior número de pessoas a buscar refúgio, de
acordo com o relatório de tendências globais (2020) do ACNUR, somando 2,6 milhões
de pessoas que tiveram que buscar proteção internacional, ficando atrás apenas da
Síria e da Venezuela.
SAIBA MAIS
Para maiores informações e acesso ao relatório sobre o Afeganistão, leia o texto do link
seguinte.
O Iêmen, por sua vez, da mesma forma foi apontado pela ONU como o país que passa
pela pior crise humanitária do século. Diante de uma guerra civil que perdura desde
2014, a população do país passa por fome aguda, cujos efeitos podem atingir 16 mi-
lhões de pessoas e levar à morte por fome mais de 5 milhões, tendo sofrido, além
disso, os efeitos de chuvas torrenciais, as inundações, a crise de combustível, a praga
de gafanhotos, a cólera e a covid-19 (veja mais informações em: [Link]
iemen-a-maior-crise-humanitaria-do-mundo/; acesso em: 7 dez. 2022).
É importante salientar que os países fronteiriços às citadas nações são os que mais
acolhem refugiados, a exemplo de Turquia, Uganda, Paquistão, Colômbia. A Alemanha
é o único país que se encontra no topo de mais acolhedores embora não esteja
próximo a fronteiras das regiões em conflito. Verifica-se que a maioria são países
em desenvolvimento, não podendo fomentar uma acolhida humanitária sem uma
Direitos Humanos 85
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Um grupo que acende o alerta entre os países são as pessoas em situação da mais
3
ampla vulnerabilidade, como idosos, deficientes, mulheres. Desse grupo, cerca de me-
tade são crianças, sendo crescente o número das que estão cruzando fronteiras e estão
desacompanhadas de seus pais ou familiares, culminando em ampla vulnerabilidade.
` Aquela que, não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve residência
habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias anteriores;
Uma das causas não reconhecidas formalmente nos instrumentos internacionais diz
respeito à migração forçada em razão de mudanças climáticas.
Embora não haja o reconhecimento formal pelos instrumentos normativos, essa rea-
lidade poderá atingir cerca de 216 milhões de pessoas até meados dos anos 2050,
em razão de desertificação, seca, ausência de água, inundações e enchentes, dentre
outros fatores, o que é extremamente preocupante.
Nesse sentido, é preciso, de acordo com Banco Mundial, estar atento para a determi-
nação dos países em reduzir as emissões mundiais de gases poluentes e garantir um
desenvolvimento sustentável verde, inclusivo e resiliente, o que poderá reduzir as mi-
grações por questões climáticas, devendo haver uma preocupação de natureza global
por políticas que promovam o desenvolvimento sustentável.
Da mesma forma, muito embora a condição e perspectiva econômica não esteja pre-
vista nos instrumentos internacionais como gatilhos de reconhecimento da condição
de refúgio (sendo enquadradas como migração econômica), ela pode colocar uma po-
pulação em extrema situação de vulnerabilidade e influenciar no reconhecimento da
condição de visto por questões humanitárias ou, em perspectiva da definição ampliada
de Cartagena, em decorrência da grave e manifesta violação de direitos humanos.
Foi o que ocorreu, por exemplo, nas situações vivenciadas pelos haitianos em 2010
após um terremoto naquele país, e pelos sírios, após a deflagração da guerra em 2011,
sob o contexto da primavera Árabe. Galib (2021, p. 103) observa que tanto no caso dos
86
haitianos como no dos sírios, a solução dada pelo Brasil é similar ao conceder o refúgio
por razões humanitárias, sendo relevante o fato de que nesse período ainda não estava
em vigor a Lei de Migração, sendo uma resposta do país diante da urgência e da neces-
sidade de deslocamento da população. 3
Da mesma forma, a migração venezuelana, que é oriunda de uma grave crise humanitá-
ria vivenciada pela República Bolivariana da Venezuela, implicou o reconhecimento pelo
Como se pode ver, em pleno século XXI o exercício da cidadania não garante a condição
de ter direitos. O abandono por parte do Estado é evidente em algumas regiões no planeta.
SAIBA MAIS
Leia mais sobre a migração venezuelana nos dois links seguintes.
Por fim, é importante ressaltar que, apesar do número de refugiados presentes no Brasil,
muitas vezes a população traz manifestação discriminatória com relação aos migrantes e
refugiados no território nacional, com atitudes de repúdio, ojeriza, preconceito e até violência.
Direitos Humanos 87
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Muitas vezes, tal situação é percebida diante da própria ausência de uma política de
3
acolhimento humanitário realizado de maneira adequada pelo governo brasileiro, como
o que ocorreu nas cidades de Pacaraima e Boa vista, onde a população local, que viu a
saturação do acesso dos serviços públicos de saúde e educação e ainda a presença de
muitos migrantes como moradores de rua, agiu violentamente em relação aos migrantes.
Assim, e como se pôde perceber ao longo desta unidade, há uma ampliação da preca-
rização das condições de refúgio diante da situação de pobreza, mudanças climáticas,
da falta de acesso a direitos humanos básicos, de conflitos, guerras, crises sanitárias,
crise alimentar, o que reforça a a falta de proteção humanitária da população migrante,
em manifesta ofensa às normativas que os protegem, tanto por parte dos Estados quan-
to da própria população que insiste em desconhecer o valor da solidariedade humana.
Fonte: elaborado pela autora com base nas definições da Lei 13.445/2017.
88
Links recomendados:
[Link] [Link]
3
Filme ou Documentários:
1. Samba (2014)
País: França
Idioma: Inglês
Para mais informações sobre filmes na temática de migrações, acesse https:// [Link]-
[Link]/.
No texto, você encontrará acervo de indicações atualizadas em uma plataforma criada pelo
Observatório de Cinema e Migrações Transacionais, com o objetivo de ampliar e atualizar,
de modo permanente, o conjunto de obras audiovisuais sobre migração transnacional, em
diferentes formatos e linguagens.
Para começar, convém pensar em questões de ordem prática – que serão trabalhadas
nos próximos tópicos em termos doutrinários –, a fim de que se perceba a importância
da temática. Como primeira abordagem, tome-se como exemplo o caso de um cidadão
que, tendo uma enfermidade incurável, após esgotadas todas as hipóteses de trata-
mento, deseja abreviar seu sofrimento praticando eutanásia. Como uma segunda abor-
dagem, tome-se como exemplo o caso de empresa que, apesar de trazer dinamização
econômica para uma região, provoca consideráveis danos ambientais. Para finalizar,
Direitos Humanos 89
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
uma terceira abordagem poderia ser o caso de um cidadão que, para angariar recur-
sos para reformar a casa, deseja comercializar um órgão do seu corpo (como um rim).
Todos esses exemplos demandam a necessidade de atrelamento de valores éticos,
3 biológicos e jurídicos.
É preciso tomar cuidado, entretanto, para distinções conceituais, haja vista que a eu-
tanásia é absolutamente diferente da ortotanásia, que, por sua vez, é absolutamente
diferente da distanásia. Nada obstante pequenas variações doutrinárias: a eutanásia,
como já dito, consiste na morte provocada para abreviar a dor ou o sofrimento (prática
vedada); a distanásia é o prolongamento artificial e desnecessário da vida, aumentando
o sofrimento da pessoa e de seus familiares, como o caso de paciente com morte
cerebral mantido vivo, apenas, graças a aparelhos (prática repudiada, muito embo-
ra alvo de dilemas médicos quanto à aceitabilidade); a ortotanásia, finalmente, é
aquela em que, muito embora não haja abreviação da vida, deixa-se de prolongá-la
indevidamente se não houver mais perspectiva de cura do paciente, como o caso de
interrupção de um tratamento que causa pesarosos efeitos colaterais além de ser inefi-
caz, por exemplo (prática admitida).
Ante o exposto, percebe-se grande diferença entre abreviar voluntariamente a vida (eu-
tanásia – o que é proibido) e evitar que a vida seja desnecessariamente mantida com
auxílio artificial (ortotanásia – o que é permitido).
Dessa maneira, em termos ilustrativos, um pai pode, para fins de transplante, “doar” um
dos seus rins ao filho, caso este necessite de cirurgia para ter qualidade de vida; por ou-
tro lado, esse mesmo pai não pode vender um dos seus rins para quitar eventual dívida
do filho: no primeiro caso, o objetivo é altruístico; no segundo caso, o objetivo afronta a
lei, os bons costumes e a dignidade humana.
Ainda, conforme se pode observar, a disposição do próprio corpo pode ocorrer se isso
for medida de sobrevivência para quem vai dispor ou se não importar diminuição
90
permanente da integridade física: o primeiro caso exemplifica-se pela situação de
pessoa que precisa amputar uma perna para conter o alastramento de um tumor cance-
rígeno na região para o restante do corpo; o segundo caso exemplifica-se pela doação
de sangue, uma vez que isso não importará diminuição permanente da integridade físi- 3
ca (afinal, após alguns dias, o corpo humano naturalmente repõe a quantidade doada).
Finalmente, menciona-se o art. 14 do Código Civil, pelo qual é válida, com objetivo científi-
Desde a década de 1970, o assunto está na “ordem do dia” dos organismos nacionais
e internacionais de proteção dos Direitos Humanos (principalmente, a Organização das
Nações Unidas – ONU). O documento que marca, formalmente, o início de tais preo-
cupações é a Declaração de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano, de 1972.
Busca-se assegurar o princípio da cooperação/solidariedade intergeracional, a par-
tir do qual a geração atual deve utilizar os recursos ambientais a fim de garantir que a
próxima geração também os utilize (e assim sucessivamente).
Direitos Humanos 91
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
Todas as preocupações que se acabou de mencionar são resumidas no art. 225, caput,
da Constituição Federal, pelo qual todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impon-
do-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações (BRASIL, 1988, [n. p.]).
Links recomendados:
92
BRASIL. Presidência da República. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil).
Diário Oficial da União, 11 jan. 2002. Disponível em: [Link]
leis/2002/[Link]#: Acesso em 08 dez. de 2022.
3
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Biblioteca virtual de direitos humanos. Declaração de
Estocolmo sobre o meio ambiente humano – 1972. Disponível em: [Link]
[Link]/wp-content/uploads/2020/06/[Link]. Acesso em 08
Filme sugeridos:
Sugerimos assistir a Mar Adentro, filme baseado em fatos reais que conta a história do
tetraplégico espanhol Ramón Sampedro, quem, por trinta anos – desde o acidente que o
colocou em tal condição –, postulou na justiça espanhola o direito de morrer de uma ma-
neira digna.
Dados do filme:
Mar Adentro. Direção: Alejandro Amenábar. Ano de produção: 2004. Duração: 125 minutos.
Classificação: não recomendado para menores de 12 anos.
Leitura complementar:
O artigo que a seguir recomendamos apresenta uma visão interdisciplinar da Bioética, para
que se perceba (e se confirme) que as discussões não ficam exclusivamente restritas ao
ambiente jurídico.
Caso de Aplicação:
Direitos Humanos 93
Direitos Humanos e os Cidadãos no Mundo: Diferença, Diversidade e a Biotecnologia
CONCLUSÃO
Ante as situações trabalhadas neste material, percebe-se que os direitos humanos as-
3 sumem tal posição interdisciplinar, que questões ético-biológicas influem diretamente
nas relações cotidianas. Desse modo, deve-se evitar, a todo custo, uma análise uni- di-
mensional de assuntos pertinentes aos biodireitos humanos, a fim de estimular que va-
riáveis sejam consideradas, argumentos sejam conjugados e chegue-se a uma solução
que respeite (o máximo possível) a relação simbiótica do ser humano com a natureza.
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3