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FAMÍLIA

O documento aborda a natureza jurídica do casamento em Angola, definindo-o como uma união voluntária entre um homem e uma mulher, regida por princípios de igualdade e estado laico. Discute os requisitos de validade, efeitos do casamento, invalidade, dissolução e diferenças entre casamento tradicional e civil, além de esclarecer questões sobre impedimentos e direitos dos filhos. O texto também explora a distinção entre inexistência e anulabilidade do casamento, enfatizando a imutabilidade do regime de bens e a perpetuidade do vínculo de afinidade.

Enviado por

Celestino Nvula
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FAMÍLIA

O documento aborda a natureza jurídica do casamento em Angola, definindo-o como uma união voluntária entre um homem e uma mulher, regida por princípios de igualdade e estado laico. Discute os requisitos de validade, efeitos do casamento, invalidade, dissolução e diferenças entre casamento tradicional e civil, além de esclarecer questões sobre impedimentos e direitos dos filhos. O texto também explora a distinção entre inexistência e anulabilidade do casamento, enfatizando a imutabilidade do regime de bens e a perpetuidade do vínculo de afinidade.

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1.

Conceito e Natureza Jurídica

• Definição Legal: O casamento é a união voluntária entre um homem e uma


mulher, formalizada nos termos da lei, com o objectivo de estabelecer uma plena
comunhão de vida — Artigo 20.º do CF.
• Princípios Regentes:
o Igualdade e Reciprocidade: O casamento funda-se na igualdade de
direitos e deveres — Artigo 21.º do CF e Artigo 35.º, n.º 3 da CRA.
o Estado Laico: Apenas o casamento celebrado perante o Registo Civil ou
reconhecido pela lei angolana produz efeitos jurídicos — Artigo 1.º, n.º 2
e Artigo 27.º do CF.

2. Pressupostos e Requisitos de Validade

A. Condições de Fundo (Substanciais)

• Capacidade Matrimonial: Têm capacidade todos os que não possuam


impedimentos matrimoniais — Artigo 23.º do CF.
• Idade Núbil: A idade regra é de 18 anos. Excepcionalmente permite-se aos 16
(homem) e 15 (mulher) com autorização dos pais ou suprimento judicial —
Artigo 24.º do CF.
• Mútuo Consenso: É essencial que cada nubente manifeste, de forma expressa e
perante autoridade pública, a vontade de casar — Artigo 35.º do CF.
• Impedimentos Absolutos: Incluem a demência notória, a interdição por anomalia
psíquica e o vínculo de casamento ou união de facto anterior não dissolvido —
Artigo 25.º do CF.
• Impedimentos Relativos: Parentesco e afinidade na linha recta; parentesco no
segundo grau da linha colateral (irmãos); e pronúncia por homicídio doloso contra
o cônjuge do outro nubente — Artigo 26.º do CF.

B. Condições de Forma (Formalidades)

• Processo Preliminar: Organizado perante o órgão do Registo Civil competente


para comprovar a capacidade — Artigo 28.º do CF.
• Intervenientes: Presença dos nubentes (ou um por procurador), do funcioná r io
do Registo Civil e de duas testemunhas — Artigo 34.º do CF.
• Registo: É obrigatório e os seus efeitos retroagem à data da celebração — Artigo
38.º do CF.

3. Efeitos do Casamento

A. Efeitos Pessoais

• Deveres Recíprocos: Os cônjuges vinculam-se pelos deveres de respeito,


fidelidade, coabitação, cooperação e assistência — Artigo 43.º do CF.
• Decisão Comum: Os assuntos essenciais da família devem ser decididos em
comum — Artigo 48.º do CF.

B. Efeitos Patrimoniais (Regimes de Bens)


• Liberdade de Escolha: Os nubentes escolhem entre o regime de comunhão de
adquiridos e o de separação de bens — Artigo 49.º, n.º 1 do CF.
• Regime Supletivo (Comunhão de Adquiridos): Na falta de declaração, aplica-
se este regime — Artigo 49.º, n.º 3 do CF. Constituem património comum os
bens adquiridos a título oneroso e os rendimentos do trabalho — Artigo 51.º do
CF.
• Separação de Bens: Cada cônjuge conserva o domínio e gestão dos seus bens —
Artigo 53.º do CF.

4. Invalidade do Casamento

• Anulabilidade: Casamento celebrado com impedimentos, falta/vício da vontade


ou falta de testemunhas — Artigo 65.º do CF.
• Prazos de Acção: Variam de 1 a 2 anos (incapacidade/vícios) até qualquer tempo
(incesto/bigamia), observados os limites legais — Artigo 70.º do CF.
• Casamento Putativo: Se contraído de boa-fé, produz efeitos até ao trânsito em
julgado da sentença de anulação — Artigo 71.º do CF.
• Validação: A nulidade pode ser sanada se ocorrer confirmação posterior (ex: após
atingir a maioridade ou anulação de casamento anterior do bígamo) — Artigo 73.º
do CF.

5. Dissolução do Casamento

• Causas: Morte, declaração de presunção de morte ou divórcio — Artigo 74.º do


CF.
• Fundamento do Divórcio: Deterioração completa e irremediável dos princíp ios
da união e perda de sentido do casamento (divórcio-remédio) — Artigo 78.º do
CF.
• Divórcio por Mútuo Acordo: Requer mais de 3 anos de casamento e nubentes
com 21 anos de idade — Artigo 83.º do CF.
• Divórcio Litigioso: Baseado em causas como separação de facto por mais de 3
anos, abandono do país ou alteração das faculdades mentais — Artigo 98.º do
CF.

6. Casamento Tradicional e União de Facto

• Pluralismo Jurídico: A Constituição reconhece o costume como fonte de direito,


desde que respeite a dignidade humana — Artigo 7.º da CRA.
• Equiparação: O casamento tradicional pode ser reconhecido como união de facto
se preencher os requisitos de duração (3 anos), capacidade e singularidade —
Artigos 112.º e 113.º do CF.

1. A Natureza Jurídica: Contrato ou União?

• A Rasteira: O professor pode perguntar: "O casamento é um contrato civil como


qualquer outro?"
• A Resposta Certa: Não. O Código da Família angolano rejeitou a designação de
"contrato" (presente no antigo Código Civil) para defini- lo como uma união
voluntária. Diferencia-se de um contrato comum porque os seus efeitos são
imperativos (fixados pela lei) e não podem ser moldados ou limitados pela
vontade das partes.

2. Inexistência Jurídica vs. Anulabilidade

• A Rasteira: "Um casamento celebrado sem a presença de testemunhas é


juridicamente inexistente?"
• A Resposta Certa: Não, é apenas anulável. A inexistência ocorre apenas em três
casos fundamentais: falta de diversidade de sexo (embora o transexualismo possa
gerar debate), falta de declaração de vontade (consentimento) e falta de
intervenção do funcionário do Registo Civil competente.

3. O Casamento Tradicional (Alambamento) e Impedimentos

• A Rasteira: "O Belmiro casou-se tradicionalmente com a Maria. Dois anos


depois, ele decide casar-se no civil com a Josefa. O funcionário pode recusar a
celebração alegando o impedimento de bigamia?"
• A Resposta Certa: Depende. Se a união de facto com a Maria não estiver
legalmente reconhecida, ela não constitui impedimento absoluto para o novo
casamento. O casamento tradicional, por si só, não tem validade jurídica
automática no ordenamento angolano para impedir novas núpcias, a menos que
tenha sido previamente formalizado ou reconhecido como união de facto nos
termos da lei.

4. Imutabilidade do Regime de Bens

• A Rasteira: "Um casal casado sob o regime de separação de bens pode, após
cinco anos, decidir em conjunto mudar para o regime de comunhão de
adquiridos?"
• A Resposta Certa: Não. No Direito Angolano vigora o princípio da
imutabilidade do regime de bens. A escolha feita no processo preliminar e
confirmada no acto da celebração é irrevogável durante a vigência do casamento.

5. O Vínculo da Afinidade após a Dissolução

• A Rasteira: "Com a morte do marido ou o divórcio, a relação jurídica com a sogra


(afinidade na linha recta) extingue-se?"
• A Resposta Certa: Não. A afinidade não cessa com a dissolução do casamento.
Isto significa que o impedimento matrimonial de casar com a sogra ou o enteado
permanece para sempre, mesmo após a morte do cônjuge ou o divórcio.

6. O Casamento Urgente e a sua Eficácia

• A Rasteira: "No casamento urgente (em perigo de morte ou iminência de parto),


a união é válida a partir do momento em que os nubentes dizem 'sim' perante as
testemunhas?"
• A Resposta Certa: É uma validade sob condição. O casamento urgente é
celebrado sem o funcionário do Registo Civil, mas deve ser objecto de
homologação posterior. Se a homologação for recusada (por falta de requisitos
ou impedimentos), o casamento é considerado juridicamente inexistente.

7. Direitos dos Filhos em Casamentos Nulos

• A Rasteira: "Se um casamento for anulado por bigamia, os filhos nascidos dessa
união passam a ser considerados ilegítimos ou perdem direitos?"
• A Resposta Certa: Jamais. A anulação do casamento não prejudica, por
qualquer forma, os direitos dos filhos nascidos ou concebidos durante a sua
vigência. O estabelecimento da filiação resulta do facto do nascimento e é
independente da validade do vínculo matrimonial dos pais.

8. Impedimento de Conjugicídio

• A Rasteira: "Um homem pode casar-se com uma mulher cujo marido ele é
suspeito de ter assassinado?"
• A Resposta Certa: Existe um impedimento relativo se houver pronúncia
(acusação formal aceite pelo juiz) como autor ou cúmplice de homicídio doloso
contra o cônjuge do outro, enquanto não houver despronúncia ou absolvição. Se
houver condenação transitada em julgado, o impedimento torna-se definitivo.

1. O Casamento do Adoptado e a sua Família Natural

• A Pergunta: "A adopção plena rompe os laços com a família biológica. Pode,
então, um adoptado casar-se com a sua irmã de sangue?"
• A Resposta: Não. Embora a adopção faça extinguir os laços de parentesco natural
para quase todos os efeitos, a lei abre uma excepção absoluta: os laços de sangue
continuam a ser atendidos para efeitos de impedimento matrimonial. O
casamento seria anulável por incesto, nos termos dos artigos 26.º, alínea b) e 65.º,
alínea a) do CF.

2. A "Rasteira" dos Instrumentos de Trabalho

• A Pergunta: "Num casal casado sob o regime de Separação de Bens, o marido


é proprietário de uma viatura que a mulher utiliza exclusivamente para o seu
trabalho de táxi. Ele pode vender a viatura sem o consentimento dela?"
• A Resposta: Não. Esta é uma excepção importante à liberdade de gestão de bens
próprios. Independentemente do regime de bens (mesmo na Separação), os bens
móveis próprios de um cônjuge que sejam utilizados pelo outro como
instrumento de trabalho só podem ser alienados ou onerados com o acordo de
ambos. A venda sem consentimento é anulável.

3. O Conflito de Paternidade no Novo Casamento

• A Pergunta: "Se uma mulher se divorcia e casa logo no mês seguinte, de quem é
a presunção de paternidade do filho que nascer 200 dias depois do novo
casamento?"
• A Resposta: É do segundo marido. Embora o filho nasça dentro dos 300 dias
após a dissolução do primeiro casamento (o que geraria dúvida), o Código da
Família estabelece que, em caso de novo casamento da mãe, a presunção de
paternidade recai sobre o marido do casamento celebrado em último lugar.

4. A Excepção à Moratória das Dívidas

• A Pergunta: "As dívidas exclusivas de um cônjuge só podem ser pagas pela sua
meação nos bens comuns após a dissolução do casamento. Esta regra (moratória
legal) aplica-se sempre?"
• A Resposta: Não. Se a dívida for de natureza comercial (emergente de acto de
comércio), a moratória não se aplica. Os bens do cônjuge comerciante e a sua
meação nos bens comuns respondem imediatamente, sem necessidade de esperar
pelo divórcio ou morte.

5. Casamento Tradicional e o Impedimento de Bigamia

• A Pergunta: "O alambamento (casamento tradicional) não reconhecido


judicialmente impede um dos nubentes de casar com outra pessoa no registo
civil?"
• A Resposta: Legalmente, não constitui impedimento de bigamia. O
impedimento absoluto de bigamia apenas se verifica perante um casamento civil
anterior ou uma união de facto legalmente reconhecida. Como o casamento
tradicional é irrelevante perante a ordem jurídica angolana até ser formalizado ou
reconhecido como união de facto, ele não obsta a novas núpcias no civil.

6. A Natureza Jurídica do Divórcio em Angola

• A Pergunta: "O nosso sistema permite o 'divórcio-sanção', onde o juiz declara


quem é o culpado pelo fim da relação?"
• A Resposta: Não. O Código da Família angolano rejeitou a concepção de
"divórcio-sanção" (punição ao culpado) e adoptou o divórcio-remédio (ou
divórcio-falência). O fundamento não é a culpa, mas sim a deterioração
completa e irremediável da união e a perda de sentido do casamento para os
cônjuges e para a sociedade.

7. Casamento Urgente e a Homologação

• A Pergunta: "Um casamento celebrado em perigo de morte (urgente), sem o


funcionário do registo civil, é válido e nulo se o nubente sobreviver?"
• A Resposta: Ele é válido sob condição de homologação. Se não for homologado
pelo funcionário do Registo Civil (por falta de provas ou impedimentos), o
casamento é considerado juridicamente inexistente. A mera celebração perante
testemunhas não basta para a existência jurídica definitiva.

8. Diferença entre Inexistência e Anulabilidade

• A Pergunta: "Qual a consequência prática de um casamento ser 'inexistente' em


vez de apenas 'anulável'?"
• A Resposta:
o Inexistência: O acto não produz qualquer efeito jurídico, não precisa de
acção para ser declarado (o juiz apenas verifica o facto) e pode ser
invocada a todo o tempo por qualquer pessoa.
o Anulabilidade: O casamento produz efeitos como se fosse válido até que
uma sentença o anule. Está sujeita a prazos de caducidade e apenas certas
pessoas têm legitimidade para pedir a anulação.

1. A Perpetuidade do Vínculo de Afinidade

• A Pergunta: "Se o Belmiro se divorciar da Maria, ele pode casar-se com a mãe
dela (sua ex-sogra)?"
• A Resposta: Não. O casamento é proibido por ser um impedimento relativo.
• O Fundamento Legal: Nos termos do Artigo 15.º, n.º 2 do CF, a afinidade não
cessa pela dissolução do casamento. Assim, o impedimento de parentesco e
afinidade na linha recta previsto no Artigo 26.º, alínea a) do CF permanece para
sempre, mesmo após o divórcio ou a morte.

2. A Excepção à Moratória das Dívidas (Dívidas Comerciais)

• A Pergunta: "É verdade que os bens comuns do casal nunca podem ser
executados por dívidas exclusivas de um cônjuge enquanto o casamento durar?"
• A Resposta: Falso. Existe a excepção para dívidas de natureza comercial.
• O Fundamento Legal: Embora o Artigo 64.º, n.º 1 do CF estabeleça a moratória
legal (exigibilidade da meação apenas após a dissolução), o Artigo 10.º da Lei
n.º 6/03 (que alterou o Código Comercial) determina que não há lugar a essa
moratória quando a dívida resulta de uma obrigação emergente de um acto de
comércio.

3. Alienação de Bens Próprios e "Instrumentos de Trabalho"

• A Pergunta: "No regime de Separação de Bens, o marido pode vender, sem o


consentimento da mulher, um camião que é propriedade exclusiva dele, mas que
a mulher utiliza para o sustento da casa?"
• A Resposta: Não. A venda é anulável.
• O Fundamento Legal: Independentemente do regime de bens, o Artigo 56.º, n.º
2 do CF exige o acordo de ambos os cônjuges para a alienação de bens móveis
utilizados por qualquer deles como instrumento de trabalho. A violação desta
norma gera a anulabilidade do acto, conforme o Artigo 60.º, n.º 1 do CF.

4. Conflito de Paternidade (Turbatio Sanguinis)

• A Pergunta: "Se uma mulher casar novamente 30 dias após o divórcio e tiver um
filho 200 dias depois deste segundo casamento, de quem é a presunção de
paternidade?"
• A Resposta: A paternidade presume-se do segundo marido.
• O Fundamento Legal: O Artigo 165.º do CF resolve este conflito de presunções
estabelecendo que, se a mãe tiver contraído novo casamento antes de dissolvido o
anterior ou dentro dos 300 dias após a dissolução, a paternidade presume-se do
marido do casamento celebrado em último lugar.
5. Suspensão do Direito ao Divórcio pelo Marido

• A Pergunta: "Um marido pode pedir o divórcio se descobrir que a mulher o traiu
e está grávida de outro homem?"
• A Resposta: O direito está suspenso, a menos que ele impugne a paternidade.
• O Fundamento Legal: O Artigo 103.º, n.º 1 do CF proíbe o marido de requerer
o divórcio sem o consentimento da mulher durante a gravidez ou até um ano após
o parto. A única excepção legal que permite ao marido avançar com o pedido
nesse período é se ele impugnar a paternidade do filho.

6. Casamento Urgente e Inexistência Jurídica

• A Pergunta: "O que acontece se um casamento celebrado 'em perigo de morte'


(casamento urgente) não for homologado pelo Conservador?"
• A Resposta: O casamento é considerado juridicamente inexistente.
• O Fundamento Legal: O casamento urgente, previsto no Artigo 37.º do CF, é
celebrado sem a presença do funcionário do Registo Civil. No entanto, a sua
validade definitiva depende de homologação posterior. Sem essa homologação
(que supre a falta da autoridade pública), falta um pressuposto de existênc ia
previsto no Artigo 34.º, alínea b) do CF, gerando a inexistência.

7. Adopção e Impedimentos de Sangue

• A Pergunta: "A adopção plena extingue todos os laços com a família natural.
Pode um filho adoptado casar-se com a sua irmã biológica?"
• A Resposta: Não. O impedimento de parentesco mantém-se.
• O Fundamento Legal: O Artigo 206.º do CF determina que a adopção faz
extinguir os laços de parentesco natural, mas ressalva expressamente que estes
serão de atender para o efeito de constituírem impedimento matrimonial.
Assim, aplica-se o impedimento do Artigo 26.º, alínea b) do CF (parentesco no
2.º grau da linha colateral).

8. Casamento Tradicional vs. Bigamia

• A Pergunta: "O alambamento (casamento tradicional) constitui impedimento de


bigamia para um casamento civil posterior?"
• A Resposta: Não, a menos que tenha sido previamente reconhecido como união
de facto.
• O Fundamento Legal: O impedimento absoluto de bigamia, previsto no Artigo
25.º, alínea b) do CF, apenas se refere a "casamento ou união de facto legalmente
reconhecida". Como o casamento tradicional só produz efeitos jurídicos se for
reconhecido nos termos da lei (Artigo 1.º, n.º 2 do CF), se esse reconhecime nto
não ocorreu, ele não obsta a novas núpcias no civil.

1. A Perpetuidade do Vínculo de Afinidade

• Cenário: "Se o Belmiro se divorciar da Maria, ele pode casar-se com a mãe dela
(sua ex-sogra)?"
• A Resposta: Não. O casamento é proibido por se tratar de um impedime nto
relativo que sobrevive ao fim do vínculo matrimonial.
• O Fundamento Legal: Nos termos do Artigo 15.º, n.º 2 do CF, a afinidade não
cessa pela dissolução do casamento. Assim, o impedimento de parentesco e
afinidade na linha recta previsto no Artigo 26.º, alínea a) do CF permanece para
sempre, mesmo após o divórcio ou a morte.

2. A Excepção à Moratória das Dívidas (Dívidas Comerciais)

• Cenário: "É verdade que os bens comuns do casal nunca podem ser executados
por dívidas exclusivas de um cônjuge enquanto o casamento durar?"
• A Resposta: Falso. Existe a excepção fundamental para dívidas de natureza
comercial.
• O Fundamento Legal: Embora o Artigo 64.º, n.º 1 do CF estabeleça a moratória
legal (exigibilidade da meação apenas após a dissolução), o Artigo 10.º da Lei
n.º 6/03 determina que não há lugar a essa moratória quando a dívida resulta de
uma obrigação emergente de um acto de comércio.

3. Alienação de Bens Próprios e "Instrumentos de Trabalho"

• Cenário: "No regime de Separação de Bens, o marido pode vender livreme nte,
sem o consentimento da mulher, um camião que é propriedade exclusiva dele,
mas que a mulher utiliza como táxi para o sustento da casa?"
• A Resposta: Não. A venda sem o acordo dela é anulável.
• O Fundamento Legal: Independentemente do regime de bens, o Artigo 56.º, n.º
2, alínea a) do CF exige o acordo de ambos os cônjuges para a alienação de bens
móveis utilizados por qualquer deles como instrumento de trabalho. A violação
desta norma gera a anulabilidade do acto (Artigo 60.º, n.º 1 do CF).

4. Conflito de Paternidade (Turbatio Sanguinis)

• Cenário: "Se uma mulher casar novamente 30 dias após o divórcio e tiver um
filho 200 dias depois deste segundo casamento, quem será legalmente o pai?"
• A Resposta: A paternidade presume-se do segundo marido.
• O Fundamento Legal: O Artigo 165.º do CF resolve este conflito de presunções
estabelecendo que, se a mãe tiver contraído novo casamento antes de dissolvido o
anterior ou dentro dos 300 dias após a dissolução, a paternidade presume-se do
marido do casamento celebrado em último lugar.

5. Suspensão do Direito ao Divórcio pelo Marido

• Cenário: "Um marido pode pedir o divórcio se descobrir que a mulher está
grávida de outro homem?"
• A Resposta: O exercício do direito está suspenso, a menos que ele decida
impugnar a paternidade.
• O Fundamento Legal: O Artigo 103.º, n.º 1 do CF proíbe o marido de requerer
o divórcio sem o consentimento da mulher durante a gravidez ou até um ano após
o parto. A única excepção legal que lhe permite avançar nesse período é se ele
instaurar a acção de impugnação da paternidade do filho.
6. Casamento Urgente e Inexistência Jurídica

• Cenário: "Um casamento celebrado 'em perigo de morte' (casamento urgente)


sem o funcionário do registo civil é válido se os nubentes sobreviverem?"
• A Resposta: Ele é válido apenas sob condição de homologação posterior.
• O Fundamento Legal: O casamento urgente (Artigo 37.º do CF) é celebrado
sem a presença da autoridade pública, mas a sua validade definitiva depende de
despacho de homologação pelo Conservador. Se a homologação for recusada por
falta de requisitos ou impedimentos, o casamento é considerado juridicame nte
inexistente.

7. Adopção e Impedimentos de Sangue

• Cenário: "A adopção plena extingue todos os laços com a família natural. Pode,
então, um filho adoptado casar-se com a sua irmã biológica?"
• A Resposta: Não. O impedimento de parentesco natural mantém-se para fins
matrimoniais.
• O Fundamento Legal: O Artigo 206.º do CF determina que a adopção faz
extinguir os laços de parentesco natural, mas ressalva expressamente que estes
serão de atender para o efeito de constituírem impedimento matrimonial.
Assim, aplica-se o impedimento do Artigo 26.º, alínea b) do CF.

8. Falta de Testemunhas: Inexistência ou Anulabilidade?

• Cenário: "Um casamento civil celebrado apenas perante o Conservador, mas sem
a presença de qualquer testemunha, é inexistente?"
• A Resposta: Não, é apenas anulável.
• O Fundamento Legal: A falta das duas testemunhas exigidas pelo Artigo 34.º,
alínea c) do CF não gera inexistência jurídica, mas sim anulabilidade nos termos
do Artigo 65.º, alínea c) do CF. Importante notar que esta acção de anulação
apenas pode ser intentada pelo Ministério Público (Artigo 69.º do CF).

1. A Presunção de Propriedade no Regime de Separação de Bens

• Cenário: "No regime de Separação de Bens, um credor quer penhorar uma


televisão cara que está na sala. O marido diz que é dele, a mulher diz que é dela,
mas nenhum tem fatura. De quem é o bem?"
• A Resposta: O bem pertence a ambos em compropriedade.
• O Fundamento Legal: No regime de separação, em caso de dúvida sobre a
titularidade, os bens móveis consideram-se pertencer em compropriedade a
ambos os cônjuges (Artigo 53.º, n.º 2 do CF).

2. Direitos de Autor: Bens Próprios ou Comuns?

• Cenário: "Um escritor casado em Comunhão de Adquiridos recebe 1 milhão de


Kwanzas em direitos de autor por um livro publicado durante o casamento. Esse
valor entra na massa comum do casal?"
• A Resposta: Não. É um bem próprio do autor.
• O Fundamento Legal: O Artigo 52.º, alínea c) do CF determina que os direitos
de autor são bens próprios de cada um dos cônjuges. A doutrina de Maria Medina
clarifica que isto abrange tanto o conteúdo pessoal quanto o conteúdo
patrimonial (o dinheiro recebido).

3. A Suspensão do Divórcio: Desigualdade de Género?

• Cenário: "O marido não pode pedir o divórcio se a mulher estiver grávida (Art.
103.º CF). Mas a mulher grávida pode pedir o divórcio contra o marido nesse
mesmo período?"
• A Resposta: Sim. A lei apenas suspende o direito de ação do marido.
• O Fundamento Legal: O Artigo 103.º, n.º 1 do CF refere-se especificamente ao
marido ("O marido não pode... requerer o divórcio, estando a mulher grávida"). A
doutrina explica que esta norma visa proteger a mulher em estado de gestação de
enfrentar uma ação litigiosa, mas não a impede de ser ela a iniciativa da rutura se
assim desejar.

4. Casamento Tradicional e a Falta de Vontade

• Cenário: "Um professor pergunta: 'Pode-se equiparar sempre um casamento


tradicional (alambamento) a uma união de facto para produzir efeitos jurídicos?' "
• A Resposta: Nem sempre. Falta muitas vezes o requisito da voluntariedade.
• O Fundamento Legal: Enquanto a união de facto exige o mútuo consenso
(Artigo 112.º do CF), Maria Medina aponta que, em certos casamentos
tradicionais regidos por regras estritas, a mulher pode não ser chamada a expressar
o seu consentimento livre, o que impede a sua conversão automática em união de
facto perante a lei angolana.

5. Mentiras no Processo Preliminar

• Cenário: "Se um nubente mentir sobre o seu estado civil no processo preliminar
perante o Conservador, o casamento é juridicamente inexistente?"
• A Resposta: Não. O casamento existe, mas o nubente incorre em
responsabilidade penal.
• O Fundamento Legal: Nos termos do Artigo 29.º, n.º 2 do CF, a declaração para
casamento é prestada sob juramento, e a falsa declaração faz incorrer o nubente
em responsabilidade criminal e civil, mas não gera por si só a inexistência do ato.

6. A "Procuração" Revogada no Casamento por Procurador

• Cenário: "O noivo está no estrangeiro e manda uma procuração para casar. No
dia anterior à cerimónia, ele revoga a procuração, mas o casamento acontece
porque a notícia não chegou a tempo. O casamento vale?"
• A Resposta: Não, é um casamento inexistente.
• O Fundamento Legal: O casamento por procuração exige que a procuração seja
válida no momento da celebração. Se ela caducou ou foi revogada, há falta de
declaração de vontade de um dos nubentes, o que é um pressuposto de existênc ia
previsto no Artigo 35.º do CF e reforçado pela doutrina.
7. Litisconsórcio Necessário em Imóveis

• Cenário: "Um marido casado em Comunhão de Adquiridos é processado por


uma dívida e o credor quer penhorar uma casa que é bem próprio do marido. Ele
precisa de citar a mulher para o processo?"
• A Resposta: Sim. É obrigatório.
• O Fundamento Legal: De acordo com o Artigo 56.º, n.º 3 do CF, a alienação de
imóveis exige o acordo de ambos. Processualmente, a doutrina nota que ações de
que possa resultar a perda de um direito sobre imóveis exigem que ambos os
cônjuges sejam chamados a juízo (litisconsórcio necessário), sob pena de
ilegitimidade.

8. Divórcio por Mútuo Acordo e a Coabitação

• Cenário: "No divórcio por mútuo acordo, após a primeira conferência onde o juiz
declara o 'divórcio provisório', os cônjuges ainda são obrigados a viver juntos até
à sentença definitiva (90 dias depois)?"
• A Resposta: Não. O dever de coabitação fica suspenso.
• O Fundamento Legal: O Artigo 94.º do CF determina que o divórcio provisório
suspende o dever de coabitação dos cônjuges e permite-lhes requerer o
arrolamento de bens.

1. O Caso do "Piano" (ou Bens de Valor Elevado)

• Cenário: "Um marido, com o seu salário, compra um piano caro para seu uso
exclusivo. No regime de Comunhão de Adquiridos, esse piano é um bem próprio
por ser de uso pessoal?"
• A Resposta: Não. O piano integra o património comum.
• O Fundamento Legal: Embora a alínea e) do Artigo 52.º do CF considere bens
próprios os de "uso pessoal", a doutrina e a jurisprudência (conforme as provas
resolvidas) esclarecem que bens de valor económico considerável ou que não
sejam estritamente necessários à identidade da pessoa (como vestuário básico)
integram a comunhão se adquiridos a título oneroso na constância do casamento,
nos termos do Artigo 51.º, n.º 1, alínea a) do CF.

2. A "Rasteira" da Dívida Comercial e a Moratória

• Cenário: "Se um cônjuge for comerciante e contrair uma dívida no exercício da


sua atividade, o credor tem de esperar pelo divórcio para penhorar a meação nos
bens comuns?"
• A Resposta: Não. A execução pode ser imediata.
• O Fundamento Legal: Esta é a exceção à "moratória legal" do Artigo 64.º, n.º 1
do CF. De acordo com o Artigo 10.º da Lei n.º 6/03 (que alterou o Código
Comercial), as dívidas comerciais são imediatamente exigíveis, não havendo
lugar à suspensão da execução prevista no processo civil comum para dívidas
exclusivas.

3. O Regresso do Cônjuge "Morto"


• Cenário: "Um cônjuge foi declarado morto por presunção de morte. O sobrevivo
casou-se novamente. Dois anos depois, o 'falecido' reaparece. O segundo
casamento é nulo por bigamia?"
• A Resposta: Não. O segundo casamento permanece válido.
• O Fundamento Legal: Nos termos do Artigo 76.º, n.º 3 do CF, se após a
declaração de presunção de morte o cônjuge presente tiver contraído novo
casamento, este será considerado válido, mesmo que o ausente reapareça. A
revalidação do primeiro casamento só seria possível se nenhum deles tivesse
casado novamente (Artigo 76.º, n.º 2 do CF).

4. Responsabilidade por Má Fé na Anulação

• Cenário: "Se um casamento for anulado e ficar provado que um dos cônjuges
agiu de má fé (sabia do impedimento), o que acontece às doações que ele recebeu
em razão do casamento?"
• A Resposta: Ele perde todos os benefícios e doações.
• O Fundamento Legal: O cônjuge de má fé não beneficia da putatividade.
Segundo o Artigo 72.º, n.º 2 do CF, as doações e benefícios recebidos pelo
cônjuge de má fé caducam, e ele pode ainda ser responsabilizado pelos prejuízos
causados ao cônjuge de boa fé ou a terceiros.

5. O Filho "Precoce" e a Presunção de Paternidade

• Cenário: "Um filho nasce apenas 150 dias (5 meses) após a celebração do
casamento. O marido é automaticamente considerado o pai?"
• A Resposta: Não opera a presunção automática do casamento, mas pode ser
estabelecida por declaração.
• O Fundamento Legal: A presunção de paternidade (pater est) exige que o filho
nasça pelo menos 180 dias após a celebração (Artigo 163.º do CF, interpretado
com o período mínimo de gestação). Se nascer antes, considera-se concebido
antes do casamento, o que afasta a presunção legal automática, exigindo - se
declaração de filiação no processo preliminar ou posterior (Artigos 161.º e 164.º
do CF).

6. A "Ilegalidade" do Alambamento como Impedimento

• Cenário: "O professor pergunta: 'O Belmiro casou-se tradicionalmente com a


Maria. Agora quer casar no civil com a Josefa. A Maria pode opor-se ao
casamento alegando o impedimento de bigamia?'"
• A Resposta: Não, a menos que a união de facto esteja reconhecida.
• O Fundamento Legal: O Artigo 25.º, alínea b) do CF exige, para o
impedimento de bigamia, um casamento anterior ou uma união de facto
legalmente reconhecida. Como o casamento tradicional (alambamento) não tem
validade jurídica automática sem reconhecimento estatal (Artigo 1.º, n.º 2 do
CF), ele não obsta legalmente ao novo casamento civil.

7. Irrenunciabilidade do Direito ao Divórcio

• Cenário: "Pode um casal assinar um pacto antenupcial onde ambos renunciam ao


direito de pedir o divórcio durante os primeiros 10 anos de casamento?"
• A Resposta: Não. O pacto é nulo.
• O Fundamento Legal: O direito ao divórcio é de natureza pessoal e
irrenunciável. A lei não permite que os titulares renunciem antecipadamente a
direitos familiares fundamentais, pois estes visam proteger interesses que
transcendem o indivíduo.

8. Gestão de Bens Próprios e Arrendamento

• Cenário: "O marido é o único titular de um contrato de arrendamento da casa da


família. Ele pode rescindir o contrato sozinho sem avisar a mulher?"
• A Resposta: Não.
• O Fundamento Legal: Independentemente do regime de bens, o Artigo 57.º do
CF exige o acordo de ambos os cônjuges para a resolução ou denúncia do contrato
de arrendamento relativo à residência da família. A falta deste acordo gera a
anulabilidade do ato.

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