PARTE 2 — Atributos do Solo, Ciclos Biogeoquímicos e Remediação
Biológica/Química
1. Introdução a Solos e Atributos
O solo é o recurso básico que suporta toda a cobertura vegetal, sem a qual os seres vivos não poderiam
existir. É composto por três grandes grupos de constituintes que se complementam funcionalmente:
os minerais inorgânicos (areia, silte e argila), responsáveis por boa parte da estrutura do solo; a
matéria orgânica, que também contribui para a estrutura e supre parte dos nutrientes; e o ar, a água
e os nutrientes dissolvidos, que são essenciais para os seres vivos e retêm a umidade necessária ao
desenvolvimento das plantas.
1.1 Horizontes do solo
O solo se organiza verticalmente em camadas (horizontes) com composições biológicas, físicas e
químicas distintas:
● Horizonte O: o mais superficial, rico em matéria orgânica (restos vegetais e animais, detritos
e substâncias húmicas);
● Horizonte A: camada mineral com teor relativamente alto de matéria orgânica e intensa
atividade biológica, o que confere coloração escurecida (melanização); existem diferentes
subtipos de horizonte A conforme sua composição;
● Horizonte B: horizonte de materiais alterados, com baixo teor de matéria orgânica, rico em
areia, silte e argila;
● Horizonte C: material mineral não consolidado, com pouca ação biológica;
● Horizonte R: material mineral consolidado (rocha matriz).
1.2 Processos de formação do solo
A pedogênese resulta da ação combinada de fatores de formação — material de origem, clima, relevo,
organismos e tempo — que atuam sobre a rocha matriz, promovendo intemperização física, química
e biológica progressiva, com diferenciação vertical dos horizontes descritos acima.
2. Características dos Solos
2.1 Textura
A textura expressa a proporção dos componentes granulométricos da fase mineral do solo (areia, silte
e argila) e exerce grande influência sobre o comportamento físico-hídrico e químico do solo, sendo
fundamental para o uso e o manejo agrícola. A classificação granulométrica adotada no Brasil
(Embrapa, 1979) define:
● Argila: partículas menores que 0,002 mm;
● Silte: partículas entre 0,002 e 0,05 mm;
● Areia fina: partículas entre 0,05 e 0,2 mm;
● Areia grossa: partículas entre 0,2 e 2 mm.
2.2 Estrutura, matéria orgânica e erodibilidade
Os agregados do solo resultam da união de partículas primárias por ação de microrganismos, de raízes
de plantas e da própria matéria orgânica, formando pequenas estruturas responsáveis pela proteção
do carbono do solo e pela manutenção de condições ideais ao desenvolvimento vegetal.
A matéria orgânica desempenha papel central na estabilidade dos agregados: ela liga as superfícies
externas das partículas de argila e se dilata quando esforços são transmitidos através delas, evitando
a ruptura da estrutura. Essa propriedade dificulta a formação de crostas superficiais — que ocorrem
quando o impacto das gotas de chuva quebra os agregados e espalha partículas finas, selando a
superfície e reduzindo a infiltração. Solos com maior estabilidade de agregados apresentam, portanto,
maior porosidade, maior taxa de infiltração, menor escoamento superficial e maior resistência à
erosão por impacto de gotas (erosão por splash).
O fator de erodibilidade (K), já apresentado na Parte 1 no contexto da USLE, pode ser determinado
experimentalmente em parcelas-padrão (25 m de comprimento, declividade de 9%, livres de
vegetação, sem práticas conservacionistas — fatores LS, C e P unitários), sendo expresso como K = E/R
(perda de solo por unidade de índice de erosão da chuva). A tabela a seguir, adaptada de estudos
regionais (Farinasso et al., 2006, entre outros), ilustra a grande variação do fator K entre diferentes
classes de solo:
Classe de solo (EMBRAPA, 1999) Fator K [[Link]/(MJ/ha).mm/h]
Latossolo amarelo distrófico 0,028
Latossolo vermelho distrófico 0,014 – 0,018
Nitossolo vermelho eutrófico 0,011
Argissolo vermelho-amarelo distrófico 0,047
Argissolo vermelho-amarelo eutrófico 0,051
Plintossolo distrófico 0,055 – 0,057
Cambissolo háplico eutrófico 0,039
Neossolo flúvico tb eutrófico 0,046
Neossolo quartzarênico órtico 0,041
Neossolo litólico 0,036 – 0,052
Nota-se que solos com maior teor de argila e agregação estável (Latossolos, Nitossolos) tendem a
apresentar valores de K mais baixos (menor erodibilidade), enquanto solos com forte contraste
textural entre horizontes (Argissolos, Plintossolos) tendem a ser mais erodíveis.
2.3 Porosidade do solo
A porosidade total é definida como a proporção entre o volume de poros e o volume total do solo,
sendo inversamente proporcional à densidade do solo (Ds) e de grande importância direta para o
crescimento de raízes e para o movimento de ar, água e solutos. A textura e a estrutura do solo
explicam, em grande parte, o tipo, o tamanho, a quantidade e a continuidade dos poros presentes.
A porosidade total resulta da soma dos poros entre os elementos da textura, dos poros dos agregados
e dos bioporos — estes últimos, arredondados, formados pela morte e decomposição de raízes ou
pela atividade de animais e insetos do solo, como minhocas e térmitas.
A classificação mais usual da porosidade refere-se à distribuição de tamanho dos poros em duas
classes funcionais:
● Microporosidade: poros que, após saturados em água, a retêm contra a ação da gravidade
— responsáveis pela retenção e pelo armazenamento de água no solo;
● Macroporosidade: poros que, após saturados, não retêm a água (esvaziam-se pela
gravidade) — responsáveis pela aeração do solo e pela maior contribuição na infiltração de
água.
2.4 Principais classes de solo (Sistema Brasileiro de Classificação — Embrapa)
Classe Características principais
Argissolos Desenvolvimento diferenciado de cor, estrutura e textura da superfície para baixo;
aumento substancial do teor de argila em profundidade (de arenosa a argilosa); bem
estruturados; fertilidade natural variável, com predomínio de solos relativamente
pobres.
Cambissolos Estágio incipiente (inicial) de evolução do horizonte subsuperficial, com fragmentos de
rocha e/ou minerais primários; fraco desenvolvimento de estrutura e cor; horizonte B
incipiente sob horizonte superficial escuro, rico em matéria orgânica e muito fértil.
Chernossolos Evolução pouco avançada; horizonte A normalmente espesso, escuro e bem
estruturado; moderadamente ácidos a fortemente alcalinos; ricos em carbono e
matéria orgânica; muito férteis, com elevados teores de Ca e Mg; geralmente pouco
profundos.
Espodossolos Predominantemente arenosos da superfície à profundidade; acúmulo superficial de
matéria orgânica associada a compostos de alumínio (podendo conter ferro); solos
muito pobres e ácidos, com altos teores de alumínio trocável.
Gleissolos Horizonte glei mineral e superficial (popularmente "tabatinga"); cores
predominantemente acinzentadas nos primeiros 150 cm; material argiloso a muito
argiloso, com processos de oxirredução em ambiente hidromórfico mal a muito mal
drenado; associados a sedimentos recentes próximos a cursos d'água.
Latossolos Horizonte B latossólico uniforme em cor, textura e estrutura; solos profundos, antigos
e geralmente pobres; intemperização intensa (concentração de óxidos/hidróxidos de
Fe e Al); textura variável, porosos e macios, com baixa fertilidade natural.
Neossolos Solos pouco evoluídos, sem horizonte B diagnóstico; pouca diferenciação de horizontes
(A seguido de C ou R); predomínio de características herdadas do material de origem;
constituídos por material mineral ou material orgânico com menos de 20 cm.
Nitossolos Textura argilosa a muito argilosa, com pouco ou nenhum incremento de argila em
profundidade; profundos, bem drenados e estruturados; coloração de vermelha a
brunada; moderadamente ácidos; cerosidade nítida.
Organossolos Solos orgânicos, com predominância de material orgânico sobre mineral; pouco
evoluídos, elevados teores de carbono; coloração preta, cinzenta escura ou brunada;
resultantes do acúmulo de restos vegetais em ambientes mal drenados ou úmidos de
altitude.
Planossolos Horizonte superficial arenoso (O e A) com contraste textural abrupto para um
horizonte B subjacente adensado, endurecido quando seco e de permeabilidade muito
lenta; sinais visíveis de hidromorfismo (cores acinzentadas).
Vertissolos Pronunciada mudança de volume conforme a variação de umidade, devido ao elevado
teor de argila; fendas de retração largas e profundas em períodos secos; coloração
acinzentada a preta; elevada fertilidade química, mas baixa permeabilidade e
drenagem lenta.
3. Acidez do Solo e Aplicação das Técnicas de Calagem e Gessagem
3.1 Acidez do solo
A acidez trocável refere-se aos íons H⁺ e Al³⁺ retidos na superfície dos coloides minerais ou orgânicos
por forças eletrostáticas. A acidez não trocável é representada pelo hidrogênio de ligação covalente
(mais difícil de ser rompida), associado aos coloides de carga negativa variável e aos compostos de
alumínio. A acidez potencial corresponde à soma da acidez trocável e da acidez não trocável do solo.
3.2 Parâmetros da análise de solo relevantes à calagem
● t (CTC efetiva, cmolc/dm³): reflete a capacidade efetiva de troca de cátions do solo, ou seja,
a capacidade do solo em reter cátions próximos ao valor do pH natural;
● T (CTC a pH 7,0, cmolc/dm³): também chamada de capacidade de troca potencial,
corresponde à quantidade de cátions adsorvida a pH 7,0 — nível de CTC que seria atingido
caso a calagem elevasse o pH do solo a 7,0. Diferencia-se da CTC efetiva por incluir o
hidrogênio em ligação covalente, comum em solos brasileiros ricos em radicais orgânicos e
óxi-hidróxidos de ferro e alumínio;
● S (soma de bases trocáveis, cmolc/dm³): soma de cálcio, magnésio, potássio e, quando
aplicável, sódio, na forma trocável;
● V% (saturação por bases da CTC a pH 7,0): percentual das cargas negativas passíveis de troca
a pH 7,0 que estão ocupadas por Ca, Mg, K (e eventualmente Na), em comparação às
ocupadas por H e Al — excelente indicativo da fertilidade geral do solo, sendo inclusive
utilizado para classificar solos em eutróficos (mais férteis) e distróficos (menos férteis);
● m% (saturação por alumínio): percentual da CTC efetiva ocupado pela acidez trocável (Al³⁺).
Solos distróficos muito pobres em Ca²⁺, Mg²⁺ e K⁺, com m% superior a 50%, são classificados
como álicos.
3.3 Métodos de calagem utilizados no Brasil
Existem três métodos principais de recomendação de calagem, aplicados conforme a região do país:
a) Método do Índice SMP (Shoemaker, McLean e Pratt)
Requer uma tabela previamente calibrada por incubação do solo com CaCO₃, de modo a se atingir
determinado pH-alvo (geralmente entre 6,0 e 6,5). É mais adequado para solos com CTC efetiva e
saturação por bases altas, que não sofrem alterações consideráveis na disponibilidade de
micronutrientes com o aumento do pH. Geralmente recomenda quantidades maiores de calcário,
sendo bem aceito na região Sul do Brasil — como a calibração foi feita para solos de Santa Catarina e
Rio Grande do Sul, não deve ser utilizado para solos de cerrado ou de regiões semiáridas.
b) Método do Alumínio Trocável
Baseia-se nos teores de Al, Ca e Mg trocáveis, com o cálculo da necessidade de calcário (N.C.) variando
em função do teor de argila do solo: solos com CTC (T) superior a 4,0 cmolc/dm³, teor de argila acima
de 15% e teor de Ca+Mg superior a 2,0 cmolc/dm³ seguem uma fórmula específica; solos arenosos
(Neossolos Quartzarênicos, teor de argila inferior a 15%) utilizam o maior valor obtido entre duas
fórmulas alternativas; e solos com CTC superior a 4,0 cmolc/dm³, argila acima de 15% e Ca+Mg inferior
a 2,0 cmolc/dm³ seguem uma terceira fórmula. As doses recomendadas por este método são, em
geral, mais baixas que as dos métodos SMP e de saturação por bases, elevando o pH a valores
próximos de 5,5 e a saturação por bases a 50–60%.
c) Método da Saturação por Bases (V%)
Em geral, recomenda-se a calagem quando a saturação por bases do solo se encontra mais de 10%
abaixo do valor recomendado para a cultura em questão; caso contrário, a aplicação é dispensável ou
as doses seriam tão baixas que dificultariam uma distribuição homogênea em campo. A relação entre
os teores de Ca e Mg no solo (cmolc/dm³) deve, em geral, situar-se entre 1:1 e 10:1, respeitado o teor
mínimo de 0,5 cmolc/dm³ de Mg. Uma saturação por bases de 50% satisfaz a maioria das culturas de
sequeiro cultivadas em cerrado; dados experimentais indicam que a produtividade de grãos (soja,
milho, trigo, feijão) aumenta com a saturação por bases até 40%, estabiliza entre 40% e 60% e diminui
acima de 60% — faixa em que o pH em água supera 6,3 e pode induzir deficiência de zinco, cobre,
ferro e manganês.
Exemplo de aplicação — necessidade de calagem
Enunciado típico: a partir da análise de solo de uma camada (0–20 cm), calcular a necessidade de
calcário pelos métodos da saturação por bases e do alumínio trocável, e a necessidade de gesso,
considerando a cultura do feijão, saturação por bases desejada V2 = 60% e PRNT (Poder Relativo de
Neutralização Total) de 70%.
No método da saturação por bases, a necessidade de calcário é proporcional à diferença entre a
saturação desejada (V2) e a saturação atual (V1), ponderada pela CTC a pH 7,0 (T) e corrigida pelo
PRNT do calcário utilizado — quanto menor o PRNT, maior a quantidade de calcário comercial
necessária para fornecer a mesma quantidade de neutralizante.
No método do alumínio trocável, calcula-se a N.C. a partir dos teores de Al, Ca e Mg trocáveis,
conforme a fórmula aplicável à classe textural do solo (ver item 3.3-b).
3.4 Gessagem
O gesso agrícola (CaSO₄·2H₂O) é utilizado para melhorar as condições do ambiente radicular em
subsuperfície. Diferentemente do calcário — cuja ação de neutralização é limitada às camadas
superficiais onde é incorporado —, o íon acompanhante SO₄²⁻ do gesso permite que o Ca²⁺ desça pelo
perfil do solo. Em consequência, ocorre maior participação do Ca²⁺ e menor participação do Al³⁺ no
complexo de troca, neutralizando o excesso de alumínio em profundidade, favorecendo o
desenvolvimento do sistema radicular em camadas mais profundas e aumentando a resistência das
plantas à seca. O gesso agrícola não altera o pH do solo.
A necessidade de gesso (N.G.), pelo método da saturação por bases, é calculada por:
NG = [(V2 − V1) . CTC] / 500
onde NG é a necessidade de gesso (kg/ha), V2 é a saturação por bases esperada (%), V1 é a saturação
por bases atual na camada de 20–40 cm (%) e CTC é a capacidade de troca catiônica na camada de
20–40 cm (mmolc/dm³).
3.5 Recomendações práticas de aplicação do calcário
● Em áreas de fitorremediação ou reflorestamento, a calagem deve ser realizada cerca de 3
meses antes do plantio da cultura;
● O calcário deve ser distribuído a lanço e incorporado uniformemente ao solo, até a
profundidade de 17 a 20 cm, por meio de aração e gradagem — exceto em sistemas de
plantio direto;
● No plantio direto, a correção da acidez é feita pela aplicação de calcário na superfície, sem
incorporação, utilizando calcário mais finamente moído para facilitar a reação com o solo;
● A calagem superficial normalmente não tem efeito rápido na redução da acidez do subsolo;
por isso, o calcário deve ser aplicado o quanto antes, mesmo antes dos 3 meses de
antecedência recomendados;
● No plantio direto, a calagem também atua ao longo dos anos, amenizando os efeitos nocivos
da acidez em camadas mais profundas;
● Deve-se aproveitar a chuva ou a irrigação para umedecer o solo e facilitar a reação do
calcário.
4. Ciclo da Água e de Nutrientes nas Plantas
4.1 Absorção de água pelas plantas
O suprimento de nutrientes às raízes depende das características físicas e químicas do solo, da espécie
iônica do nutriente e das características das raízes (densidade, comprimento e superfície). O pH do
solo influencia diretamente o crescimento radicular, o desenvolvimento de fungos e bactérias, e a
disponibilidade de nutrientes.
A maior parte da água absorvida pelas plantas penetra pelas partes mais jovens da raiz —
especialmente pela região dos pelos radiculares e de alongamento, que propiciam uma enorme
superfície de absorção. Do total de água absorvida, cerca de 98% é perdida por transpiração,
permanecendo retidos apenas cerca de 2%. Deve haver contato íntimo entre a superfície radicular e
o solo para que a absorção ocorra eficientemente. Na absorção há seletividade iônica, podendo
ocorrer acúmulo contra um gradiente de concentração, variando com o germoplasma da espécie. O
transporte dos solutos absorvidos ocorre via xilema (corrente transpiratória, ascendente) e via floema
(translocação, bidirecional).
4.2 Ciclos biogeoquímicos e esgotamento de nutrientes
O tema conecta-se diretamente aos ciclos biogeoquímicos da água, do carbono e do nitrogênio. Em
condições naturais, sem interferência antrópica, os restos culturais (folhas, raízes, resíduos de
colheita) permaneceriam no solo para mineralização, devolvendo os nutrientes ao sistema.
Entretanto, a retirada contínua de grãos e frutos pela agricultura empobrece progressivamente o solo
em cátions (Ca, Mg, K), sendo as cargas de troca gradualmente ocupadas por H⁺ proveniente da água
da chuva — um dos mecanismos centrais da acidificação progressiva dos solos cultivados.
A degradação biológica do solo, discutida em conjunto com os ciclos biogeoquímicos, inclui: a perda
de matéria orgânica associada aos ciclos de nitrogênio e carbono; a disseminação de patógenos pela
aplicação de dejetos; e a modificação da cobertura vegetal original, com impactos em cascata sobre a
fauna do solo e sobre a própria estrutura física do solo (agregação, porosidade, infiltração).
5. Fitorremediação e suas Técnicas
A fitorremediação é o uso de plantas para remediar contaminantes em solos e águas poluídas,
aplicável tanto a contaminantes inorgânicos (metais pesados) quanto orgânicos (hidrocarbonetos de
petróleo, pesticidas, entre outros).
5.1 Vantagens da fitorremediação
● Técnica aplicada no próprio local contaminado, geralmente sem necessidade de escavação,
utilizando energia solar como insumo principal;
● Custo reduzido em comparação a outras técnicas de remediação;
● Aplicável a grandes áreas contaminadas, onde outras técnicas seriam economicamente
inviáveis;
● Produz melhoria visual da paisagem;
● Pode remediar simultaneamente vários contaminantes (sais, pesticidas, hidrocarbonetos de
petróleo); a biomassa que acumula substâncias tóxicas pode, em certos casos, ser
reaproveitada (ex.: biomassa rica em selênio utilizada como nutriente em áreas deficientes
nesse elemento);
● Melhora a qualidade física do solo — aumento da porosidade e da infiltração, estabilização
do solo e prevenção de processos erosivos;
● Não utiliza motores ou bombas, evitando emissão de monóxido de carbono e ruído;
● Emprega os mesmos equipamentos e insumos da agricultura e silvicultura convencionais,
com fácil aquisição, menor custo e ampla disponibilidade de mão de obra.
5.2 Variantes técnicas da fitorremediação
Técnica Mecanismo
Fitoextração Absorção do poluente pelo solo, com acúmulo nos tecidos vegetais — as plantas
devem ser posteriormente colhidas e destinadas a reaproveitamento
(incineração, aterro, coprocessamento em cimenteiras, produção de
fibras/móveis), a depender da espécie, da capacidade de acúmulo e do risco
ambiental associado. Utiliza plantas hiperacumuladoras (naturais ou
geneticamente modificadas), capazes de acumular metais em níveis até cem vezes
superiores a uma planta comum. Remedia solos contaminados por Ag, Cd, Co, Cr,
Cu, Hg, Mn, Mo, Ni, Pb e Zn. Exemplos de espécies acumuladoras: mostarda-da-
índia, canola, girassol e alfafa.
Rizofiltração Mecanismo correlato à fitoextração, em que os contaminantes se acumulam nas
raízes por adsorção ou precipitação.
Fitodegradação Bioconversão do poluente no interior da planta ou em sua superfície, gerando
(fitotransformação) formas menos tóxicas.
Fitovolatilização Absorção do contaminante e conversão em forma volátil, liberada na atmosfera.
Alguns íons dos subgrupos II, V e VI da tabela periódica — mercúrio, selênio e
arsênio — são absorvidos pelas raízes, convertidos em formas não tóxicas e
liberados na atmosfera. Também usada no controle hidráulico de plumas:
espécies com grande consumo de água (raízes que atingem a zona saturada)
atuam como "bombas orgânicas" (vazões de até 1.300 L/dia). Espécies utilizadas:
eucaliptos, Populus sp. (álamo), Brassica napus (colza), Hibiscus cannabinus,
Festuca arundinacea e Arabidopsis thaliana.
Fitoestimulação Estímulo à biodegradação microbiana por meio de exsudatos radiculares e/ou
fornecimento de tecidos vegetais aos microrganismos do solo.
Fitoestabilização física A presença de plantas evita a erosão superficial e minimiza a lixiviação do
poluente; os vegetais protegem o solo da incidência direta de vento e chuva.
Fitoestabilização química Ocorre por mudança química/microbiológica na zona das raízes ou alteração
química do contaminante, baseada na mudança de solubilidade e mobilidade do
metal, por meio da exsudação radicular ou da produção de CO2 que altera o pH
do solo; aplicada quase exclusivamente a contaminantes inorgânicos. A
permanência do contaminante pode ser revertida por mudanças ambientais,
exigindo aplicação com ressalvas. Espécies de gramíneas tolerantes a metais
Técnica Mecanismo
utilizadas: Agrostis tenuis, Festuca rubra, Andropogon gerardi, Festuca
arundinacea e Glycine max.
5.3 Índices ecológicos de eficiência: FBC e FT
A avaliação técnica da fitoextração emprega dois índices fundamentais:
FBC = [Cd]parte aérea / [Cd]solo (FBC > 1 → espécie hiperacumuladora)
FT = [Cd]parte aérea / [Cd]raiz (FT > 1 → fitoextração ativa)
O Fator de Bioconcentração (FBC) mede a capacidade global de absorção do metal a partir do solo —
valores maiores que 1 confirmam que a espécie acumula mais metal no tecido do que existe no solo.
O Fator de Translocação (FT) mede a transferência do metal da raiz para a parte aérea; valores de FT
maiores que 1 validam a estratégia de corte e remoção da biomassa aérea para destinação final, já
que o metal se concentra na porção facilmente colhível da planta. É importante notar que uma espécie
com FBC menor que 1 não é adequada para fitoextração, mesmo que apresente FT elevado — a etapa
limitante é a absorção do solo, e não apenas a translocação interna.
5.4 Memorial de cálculo — fitoextração
O dimensionamento de um projeto de fitoextração segue um roteiro de cálculo estruturado:
N = A × D (número total de plantas na área; A = área, D = densidade de plantio)
Cd/planta = (Mraiz × [Cd]raiz) + (MPA × [Cd]PA) (massa de contaminante acumulada por
planta)
Cd total = (Cd/planta) × N (massa total de contaminante removida na colheita)
Estudo de caso — solo contaminado por cádmio (Cd) com Brachiaria decumbens
Etapas do memorial de cálculo: (1) calcular o número total de plantas na área (N = A × densidade de
plantio); (2) calcular a massa de Cd acumulada por planta, somando a contribuição da raiz e da
parte aérea, cada qual como o produto entre a massa seca do tecido e a concentração de Cd nesse
tecido; (3) calcular a massa total de Cd removida em uma colheita (Cd por planta × número de
plantas); (4) calcular o FBC e o FT e classificar a espécie; (5) estimar quantas safras (ciclos de cultivo)
são necessárias para que a concentração de Cd no solo atinja o valor orientador da
CETESB/CONAMA.
Resultado ilustrativo do estudo de caso: com apenas 1 colheita (ciclo de 90 dias), o projeto removeu
231 g de cádmio puro do ecossistema considerado.
Discussão técnica complementar: cálculo do número de ciclos necessários para atingir o limite
regulatório de Cd em solo agrícola; estimativa do volume de solo impactado na camada radicular (a
partir da densidade aparente do solo); e análise de custo/logística para a destinação final da
biomassa contaminada (incineração ou coprocessamento) — decisão crítica, já que metais pesados
não se degradam biologicamente, e o descarte incorreto da biomassa reintroduziria o contaminante
no ambiente.
5.5 Sementes e revegetação
A escolha de sementes de qualidade é etapa central para o sucesso da revegetação em áreas
degradadas. O poder germinativo, o grau de pureza e o vigor inicial são requisitos essenciais na
aquisição de sementes. A qualidade é medida pelo Valor Cultural (VC), obtido pelo produto entre a
pureza (%) e a germinação (%) da semente, dividido por 100:
VC (%) = (Pureza % × Germinação %) / 100
Quanto maior o VC, menor a quantidade de sementes necessária por área para atingir a taxa de
recobrimento desejada em determinado período de tempo. O VC é, portanto, o parâmetro correto
para dimensionar as quantidades de sementes a aplicar e para comparar preços de aquisição entre
lotes de sementes de proveniências distintas.
Fatores que aumentam a necessidade de sementes
● Preparo do solo e coveamento deficientes;
● Talude inclinado;
● Incidência de vento;
● Região com deficiência hídrica;
● Presença de pássaros e outros predadores de sementes;
● Sementes de baixo valor cultural;
● Baixa fertilidade natural do solo;
● Técnicas rudimentares de proteção do solo;
● Material do talude arenoso ou siltoso.
Fatores que permitem reduzir a quantidade de sementes
● Preparo do solo e coveamento eficientes;
● Aplicação de grande quantidade de mulch orgânico;
● Aplicação de grande quantidade de fertilizantes;
● Uso de condicionantes de solo e adesivos;
● Boa fertilidade natural do solo;
● Uso de técnicas eficientes de proteção do solo.
O ressemeio de uma área deve ser considerado quando se observa grande quantidade de plantas
fracas, poucas plantas vigorosas, redução da taxa de sobrevivência, baixa taxa de recobrimento do
solo, baixo índice de enraizamento, baixa tolerância a pragas/doenças e ao pastoreio, ou baixa
sobrevivência durante períodos de estiagem.
6. Projeto de Wetlands (Sistemas Alagados Construídos)
Wetlands — também denominados sistemas alagados construídos (SACs), banhados construídos,
leitos cultivados, solos encharcados ou terras úmidas construídas — são sistemas inundados ou
saturados por águas superficiais ou subterrâneas com frequência e duração suficientes para manter
condições predominantemente saturadas. Em ecologia, são classificados como ecótonos, por
representarem regiões de transição entre os ambientes aquático e terrestre. O primeiro uso mundial
de SACs data da década de 1940; no Brasil, o uso começou em 1982. Inicialmente voltados à
remediação de águas contaminadas e ao tratamento de águas residuárias, atualmente são também
empregados no tratamento do ar e do solo.
6.1 Classificação quanto ao tipo de fluxo
● Fluxo superficial: a água escoa acima da superfície do substrato, exposta à atmosfera;
● Fluxo subsuperficial horizontal (WCH): a água escoa através do meio suporte (substrato),
abaixo da superfície, no sentido horizontal;
● Fluxo vertical: a água percola verticalmente através do substrato, proporcionando grande
transferência de oxigênio;
● Fluxo híbrido: combinação de fluxo vertical seguido de fluxo horizontal, buscando reunir as
vantagens de ambos os sistemas.
No sistema híbrido, a etapa de fluxo vertical demanda cerca de 1–2 m² por habitante equivalente (HE)
e proporciona elevada remoção de DBO com nitrificação completa; a etapa de fluxo horizontal
subsequente demanda cerca de 5–10 m²/HE e promove desnitrificação parcial. A configuração
convencional emprega 2 estágios verticais seguidos de 2–3 estágios horizontais, buscando o ciclo
completo de nitrificação–desnitrificação.
6.2 Mecanismos de remoção de poluentes
Os mecanismos envolvidos no tratamento incluem filtração física, degradação microbiana da matéria
orgânica, absorção de nutrientes pelos rizomas das plantas e por microrganismos, e adsorção no
substrato. Os microrganismos se desenvolvem aderidos à superfície do meio suporte, ao caule e à raiz
das plantas, e aos sólidos suspensos acumulados, formando biofilmes. A oxidação do meio ocorre
pelos rizomas das plantas e pela difusão do ar atmosférico na superfície do meio suporte,
possibilitando a formação de sítios aeróbios e anaeróbios dentro do próprio leito.
Do ponto de vista biótico, a remoção de DBO e DQO ao longo do leito ocorre principalmente por
assimilação de bactérias adaptadas ao ecossistema, organizadas em biofilmes; parte do carbono e dos
nutrientes é assimilada diretamente pela biomassa das macrófitas cultivadas — mecanismo, no
entanto, considerado desprezível quando comparado à degradação microbiológica.
6.3 Parâmetros e etapas de dimensionamento
Os principais modelos de dimensionamento de wetlands incluem: (i) cinética de primeira ordem
aplicada a reatores de fluxo em pistão; (ii) relação de área per capita (ex.: modelo de Cooper et al.,
1996, indicando cerca de 5 m²/pessoa, para DBO afluente entre 150 e 300 mg/L); (iii) carregamento
orgânico superficial e taxa hidráulica aplicados; e (iv) taxa de transferência de oxigênio (relevante
sobretudo em sistemas de fluxo vertical).
O roteiro de projeto, segundo a abordagem cinética de primeira ordem (modelo de reator em pistão),
segue as etapas:
● Passo 1: escolher o tipo de wetland mais indicado para o objetivo de tratamento (remoção
de matéria orgânica, nutrientes, patógenos etc.);
● Passo 2: caracterizar físico-quimicamente o esgoto a ser tratado, determinando a
concentração afluente (Co) do principal poluente-alvo;
● Passo 3: definir a eficiência de remoção desejada e/ou a concentração efluente-alvo (Ce);
● Passo 4: determinar a vazão média a ser tratada, em função da contribuição per capita e da
população atendida;
● Passo 5 (implícito): selecionar o modelo cinético apropriado, relacionando Ce/Co ao tempo
de retenção hidráulica (t) e à constante de reação (KT);
● Passo 6: determinar o coeficiente de decaimento do poluente (KT), dependente da
temperatura de operação do sistema;
● Passo 7: definir a altura da coluna de líquido (nível do esgoto) — a USEPA recomenda um
nível de 0,5 m para wetlands construídos;
● Passo 8: calcular a área superficial (As) necessária para a instalação do leito, a partir dos
parâmetros definidos nos passos anteriores;
● Passo 9: definir as dimensões (largura e comprimento) do leito a partir da área superficial
calculada, recomendando-se comprimento consideravelmente maior que a largura, de modo
a garantir o modelo de fluxo em pistão;
● Passo 10: calcular o tempo de detenção hidráulica (TDH), razão entre o volume da wetland
construída e a vazão média afluente.
Os valores típicos de TDH situam-se entre 5 e 30 dias para wetlands de fluxo superficial, e entre 2 e 5
dias para wetlands de fluxo subsuperficial (USEPA, 2000) — em geral, sistemas voltados à remoção de
matéria orgânica e sólidos requerem TDH menores, enquanto a remoção efetiva de nutrientes exige
TDH maiores.
Critérios de projeto para wetland construído subsuperficial horizontal (WCH)
● Taxa de aplicação orgânica superficial: 6 a 15 g DBO/m².dia;
● Taxa de aplicação hidráulica superficial máxima: 0,02–0,08 m³/m².dia (pós tanque séptico)
ou 0,04–0,12 m³/m².dia (pós-tratamento secundário pouco eficiente);
● Taxa de aplicação orgânica máxima na seção transversal: 250 g DBO/m².dia (seção = largura
× profundidade útil do líquido);
● Eficiências de remoção esperadas: DBO 25–75%; DQO 20–70%; SST superior a 65%.
Parâmetros de oxigênio para wetlands de fluxo vertical
● Demanda de O2 para degradação de DQO: 0,7 g O2/g DQO;
● Demanda de O2 para nitrificação: 4,3 g O2/g NTK;
● Recuperação de O2 pela desnitrificação: 2,9 g O2/g NO3-N desnitrificado;
● Desempenho típico: remoção de 85% de DBO e desnitrificação de cerca de 10%.
7. Barreiras Reativas
As barreiras reativas permeáveis (PRB) são estruturas de remediação in situ de águas subterrâneas
contaminadas, instaladas transversalmente à direção de fluxo da pluma de contaminação. A água
subterrânea contaminada atravessa a barreira sob o próprio gradiente hidráulico natural (sem
bombeamento forçado), passando por um material reativo capaz de degradar, precipitar, adsorver ou
de outra forma imobilizar o contaminante antes que este avance para além da barreira.
7.1 Configuração funil-portão (funnel-and-gate)
Uma configuração muito empregada é a do tipo funil-portão: paredes de baixa permeabilidade
("funil"), como as descritas no encapsulamento geotécnico da Parte 1, são utilizadas para direcionar a
pluma de contaminação através de aberturas específicas ("portões"), preenchidas com o material
reativo. Essa configuração permite concentrar o material reativo — normalmente mais caro que uma
barreira contínua — apenas nos portões, reduzindo o custo total da instalação.
Para que a barreira funcione corretamente, o material reativo do portão deve possuir permeabilidade
maior que a do solo natural adjacente, garantindo que o fluxo de água subterrânea seja efetivamente
direcionado através do portão (e não desviado ao redor dele) e que o tempo de residência do
contaminante no material reativo seja suficiente para que as reações de degradação/imobilização se
completem — parâmetro tipicamente determinado por ensaios dinâmicos de laboratório.
7.2 Dimensionamento — número e largura dos portões
O dimensionamento geométrico de uma barreira do tipo funil-portão considera a largura total da
pluma de contaminação (medida perpendicularmente à direção do fluxo), a permeabilidade do solo
natural e a permeabilidade do material reativo escolhido, dividindo a largura total necessária pela
largura unitária de cada portão para obter o número de portões a instalar.
Exemplo de dimensionamento — barreira reativa tipo funil-portão
Situação típica: aquífero contaminado por solvente clorado (ex.: TCE), com a barreira projetada até
o estrato impermeável; gradiente hidráulico na região contaminada conhecido; largura máxima da
pluma medida perpendicularmente ao fluxo; permeabilidade do solo natural (ex.: 3×10⁻⁹ m/s)
inferior à do material reativo (ex.: 1×10⁻⁸ m/s) — esta última suficiente, com base em ensaios
dinâmicos, para garantir o tempo de residência necessário do contaminante na barreira.
Dimensionando portões de largura unitária definida (por exemplo, 4,0 m cada), o número de
portões necessários é obtido dividindo a largura total da pluma pela largura unitária do portão,
arredondando-se para o próximo número inteiro que garanta a cobertura total da pluma.
A barreira hidráulica (apresentada também na Parte 1, associada ao bombeamento e tratamento)
constitui uma alternativa ou complemento às barreiras reativas passivas: consiste em redirecionar os
gradientes hidráulicos por meio de bombeamento ativo, de modo a impedir o avanço da pluma —
sendo particularmente útil quando a pluma se aproxima de rios ou nascentes, permitindo inverter o
sentido do fluxo de água contaminada e conduzi-la a uma estação de tratamento.
8. Planos de RAD / PRAD
O Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD) é o instrumento técnico que consolida e
formaliza as estratégias de reconstituição ambiental de uma área impactada, sendo exigido pelos
órgãos de licenciamento como condição para a regularização de atividades que causem degradação.
8.1 Marco legal (Instrução Normativa ICMBio)
Segundo a normativa do ICMBio, o PRAD deve definir as medidas necessárias à recuperação ou
restauração da área perturbada ou degradada, fundamentado nas características bióticas e abióticas
da área e em conhecimentos secundários sobre o tipo de impacto causado, a resiliência da vegetação
e a sucessão secundária. Os Termos de Referência (TR) constantes na normativa estabelecem
diretrizes técnicas para a apresentação do PRAD e do PRAD Simplificado — este último aplicável a
pequenas propriedades ou posses rurais familiares, bem como a imóveis urbanos em que a gravidade
do dano e a capacidade econômica do interessado assim justifiquem.
O PRAD deve propor métodos e técnicas de acordo com as peculiaridades de cada área e do dano
observado, incluindo medidas que assegurem a proteção contra quaisquer fatores que possam
dificultar ou impedir a recuperação — utilizando-se, isolada ou conjuntamente, técnicas de eficácia já
comprovada, em especial a condução da regeneração natural de espécies nativas. Deve-se dar
atenção especial à proteção do solo e dos recursos hídricos, executando-se, quando necessário,
técnicas de controle da erosão (retomando diretamente os conteúdos da Parte 1 da disciplina). O
PRAD deve, ainda, apresentar embasamento teórico que contemple as variáveis ambientais e seu
funcionamento, de forma similar ao dos ecossistemas da região.
8.2 Considerações e planejamento inicial
O processo de recuperação ambiental é complexo, demandando tempo, recursos (financeiros, mão
de obra e tecnologia) e conhecimento aprofundado dos diversos fatores relacionados à área a ser
recuperada — solo, água, fauna, flora e as modificações inerentes ao processo de degradação. O PRAD
deve ter, desde o início, objetivos bem definidos, ajustando variáveis como necessidades legais, desejo
do proprietário do terreno e aspectos sociais e econômicos, sem perder de vista que o objetivo
principal é sempre promover a recuperação ambiental da área degradada.
O planejamento deve buscar a solução mais rápida, eficiente e econômica, o que exige conhecer o
passado da área, analisar o presente e planejar o futuro com visão de longo prazo. "Pacotes" e
"receitas" generalistas não funcionam nos processos de recuperação — cada situação específica deve
receber tratamento adequado às suas peculiaridades.
8.3 Estrutura típica de um PRAD
● a) Impactos ambientais negativos do empreendimento — descrição dos impactos, com base
no EIA/RIMA quando existente, e das medidas mitigadoras correspondentes;
● b) Processo de degradação — desmatamento, decapeamento, uso de explosivos, geração de
ruído e poeira, bota-fora;
● c) Recomposição topográfica e paisagística — tratamento da superfície do terreno, evitando
declives abruptos e taludes muito inclinados;
● d) Tratos da superfície final — preparo do solo para as etapas finais de recuperação
(revegetação);
● e) Obra de engenharia — em áreas inclinadas, é indispensável a instalação de rede de
drenagem para conter o processo erosivo;
● f) Relocação da camada fértil do solo — redistribuição na superfície da área a recuperar do
solo previamente retirado e armazenado no início do empreendimento;
● g) Redução do grau de compactação do solo, quando necessária;
● h) Correção da fertilidade do solo — com base em análises química e física, aplicando as
técnicas de calagem/gessagem descritas no item 3;
● i) Estratégias (metodologia) para recomposição da vegetação — todo o trabalho de
restabelecimento da vegetação original, incluindo os critérios de seleção de sementes e
espécies apresentados no item 5.5;
● j) Custos e produtividade — custos referentes a cada operação programada e rendimentos
operacionais previstos;
● k) Cronograma de execução — referência temporal para o acompanhamento técnico e
orçamentário de todas as etapas previstas;
● l) Sistema de monitoramento e avaliação — acompanhamento contínuo do desempenho da
estratégia de recuperação, permitindo eleger as práticas mais adequadas ao alcance dos
objetivos predeterminados;
● m) Meio físico — monitoramento das propriedades químicas do solo: pH em água, carbono
orgânico total, P e K disponíveis, Ca, Mg e Al trocáveis, soma de bases e CTC efetiva e a pH
7,0;
● n) Meio biótico — acompanhamento, por meio de parcelas permanentes, da evolução da
sucessão ecológica da vegetação (espécies presentes e novas espécies desenvolvidas na
área), permitindo comparação com a vegetação primitiva;
● o) Manutenção de plantios — talvez a etapa mais importante de todo o processo, sendo a
manutenção da vegetação implantada frequentemente determinante para o sucesso ou
fracasso do PRAD;
● p) Bibliografia;
● q) Anexos — fotos, plantas ou croqui de localização e Anotação de Responsabilidade Técnica
(ART), obtida junto ao CREA.
8.4 Exemplo de aplicação: PRAD em áreas de mineração
Um exemplo consagrado de aplicação de PRAD são as áreas degradadas por mineração no estado de
Minas Gerais, na transição entre floresta atlântica, cerrado e campos de altitude, onde a recuperação
de áreas mineradas é praticada há décadas. Desde a Constituição Federal de 1988 — que tornou
obrigatória a recuperação dessas áreas — desenvolveram-se e adaptaram-se diversas técnicas, como
telas de contenção (metálicas, sintéticas e naturais) e hidrossemeadura. Atualmente, todo o solo
superficial retirado na fase inicial da lavra é armazenado durante a extração do minério e recolocado
ao término da operação, o que facilita substancialmente o trabalho de revegetação por preservar o
horizonte A original.
Este exemplo ilustra a integração entre os conteúdos das duas partes da disciplina: as técnicas físicas
e geotécnicas de recuperação de taludes e controle de erosão (Parte 1) e as técnicas biológicas de
correção de fertilidade, revegetação e monitoramento contínuo (Parte 2) convergem, no PRAD, para
um único instrumento de planejamento e execução da recuperação ambiental.