Tema: Autonomia e limites legais da prática do enfermeiro no contexto multiprofissional
---
1. Introdução
A enfermagem é uma das profissões basilares do sistema de saúde, desempenhando um papel
central na promoção, prevenção, tratamento e reabilitação da saúde. No contexto contemporâneo,
marcado pela complexidade das demandas assistenciais e pela interdisciplinaridade das equipas de
saúde, a autonomia profissional do enfermeiro tornou-se um tema de grande relevância ética, legal
e prática.
O conceito de autonomia refere-se à capacidade do profissional exercer juízo clínico e tomar
decisões baseadas em conhecimento científico e responsabilidade ética, sem dependência direta de
outras categorias profissionais. Contudo, essa autonomia é limitada por normas legais, regulamentos
institucionais e diretrizes interprofissionais, que definem o escopo e os limites da atuação do
enfermeiro.
Assim, este trabalho propõe-se a analisar de forma detalhada a autonomia e os limites legais da
prática do enfermeiro no contexto multiprofissional, com enfoque nas dimensões ética, jurídica e
técnica da profissão.
Pergunta de partida:
Quais são os limites legais e as possibilidades de autonomia do enfermeiro dentro do contexto
multiprofissional de saúde?
Objetivo geral:
Analisar a autonomia e os limites legais da prática do enfermeiro no contexto multiprofissional.
Objetivos específicos:
Identificar o conceito de autonomia profissional na enfermagem;
Descrever o enquadramento legal da profissão de enfermagem;
Analisar os desafios e limites impostos pela atuação multiprofissional;
Discutir os caminhos para o fortalecimento da autonomia do enfermeiro na prática clínica.
Hipótese:
A autonomia do enfermeiro é essencial à qualidade da assistência, mas sofre restrições decorrentes
da legislação, da hierarquia médica e da organização institucional.
Justificação:
A compreensão dos limites legais e da autonomia do enfermeiro é fundamental para o
fortalecimento da identidade profissional, para a melhoria da qualidade dos cuidados e para a
consolidação do trabalho em equipa multidisciplinar.
Metodologia:
O trabalho segue uma abordagem qualitativa e descritiva, baseada em revisão bibliográfica de
autores da área da enfermagem, ética profissional e legislação sanitária vigente em Angola e em
outros contextos lusófonos.
Capítulo 1 – A autonomia na enfermagem: fundamentos teóricos e éticos
A compreensão da autonomia na prática de enfermagem exige uma análise epistemológica e ética
sobre o papel do enfermeiro enquanto sujeito ativo do cuidado. A autonomia profissional constitui-
se como uma condição necessária para que o enfermeiro possa exercer o seu julgamento clínico de
forma consciente, responsável e fundamentada cientificamente, dentro dos limites estabelecidos
pela legislação e pelos princípios éticos da profissão.
Segundo Florence Nightingale (1859), considerada a precursora da enfermagem moderna, o
exercício profissional deve ser norteado pela observação rigorosa, pela racionalidade e pela
responsabilidade individual do enfermeiro diante das necessidades humanas de saúde¹. Essa
concepção inaugura a noção de autonomia técnica e moral, distinguindo a enfermagem de uma
atividade meramente subordinada à medicina.
¹ NIGHTINGALE, F. Notes on Nursing: What it is and What it is not. London: Harrison, 1859.
No entanto, o desenvolvimento da autonomia profissional foi historicamente limitado por relações
de poder no campo da saúde, especialmente pela hegemonia médica. Conforme analisa Michel
Foucault (1979), as práticas de saúde são permeadas por mecanismos disciplinares e hierarquias
institucionais que moldam os papéis e as subjetividades dos profissionais². Assim, a autonomia do
enfermeiro deve ser compreendida dentro de um contexto de tensões entre saber, poder e prática
assistencial.
² FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
Do ponto de vista teórico, a autonomia na enfermagem pode ser entendida como a capacidade de
tomar decisões clínicas e éticas com base em conhecimento próprio e responsabilidade pessoal, sem
depender totalmente de ordens médicas. Henderson (1978) define o enfermeiro como “aquele que
auxilia o indivíduo, doente ou são, na execução de atividades que contribuem para a saúde, a
recuperação ou uma morte tranquila, atividades que ele realizaria sozinho se tivesse a força, a
vontade ou o conhecimento necessário”³.
³ HENDERSON, V. The Nature of Nursing. New York: Macmillan, 1978.
Essa definição enfatiza a independência funcional e o papel educativo da enfermagem, reforçando a
dimensão ética da autonomia, que está intrinsecamente relacionada à dignidade humana e à
capacidade de escolha do paciente.
Na perspectiva ética, o Código Deontológico do Enfermeiro estabelece que a autonomia é uma
expressão do dever profissional de agir de acordo com os princípios da beneficência, da não
maleficência, da justiça e do respeito à dignidade da pessoa humana⁴. A decisão clínica autônoma,
portanto, não é arbitrária, mas guiada por valores morais e pelo compromisso com o bem-estar do
paciente.
⁴ CONSELHO DE ENFERMAGEM DE ANGOLA. Código Deontológico do Enfermeiro. Luanda: Ministério
da Saúde, 2018.
De acordo com Beauchamp e Childress (2001), a autonomia profissional é uma extensão do princípio
bioético da autonomia pessoal, que implica o direito de agir segundo convicções próprias, desde que
respeitados os limites éticos e legais⁵. No caso do enfermeiro, isso significa decidir sobre
procedimentos e cuidados dentro da sua competência técnica, reconhecendo, ao mesmo tempo, as
responsabilidades compartilhadas com outros profissionais da saúde.
⁵ BEAUCHAMP, T. L.; CHILDRESS, J. F. Principles of Biomedical Ethics. Oxford: Oxford University Press,
2001.
Em contextos multiprofissionais, a autonomia não deve ser confundida com independência absoluta.
Pelo contrário, pressupõe interdependência responsável. Como destaca Almeida (2016), a
enfermagem é uma ciência aplicada cuja prática requer tanto autonomia técnica quanto
colaboração interdisciplinar, na medida em que o cuidado é uma construção coletiva⁶.
⁶ ALMEIDA, M. C. P.; ROCHA, J. S. Y. O trabalho de enfermagem e a organização do cuidado. São
Paulo: Cortez, 2016.
Nessa linha, Paim (2015) argumenta que o enfermeiro deve afirmar sua autonomia não em
oposição, mas em complementaridade às demais profissões, fortalecendo o diálogo técnico e a
decisão partilhada⁷. O reconhecimento dessa autonomia exige, portanto, a consolidação de um
corpo de saber próprio, sustentado pela investigação científica, pela formação contínua e pelo
exercício ético da profissão.
⁷ PAIM, J. S. O que é o SUS. São Paulo: Fiocruz, 2015.
Além disso, a autonomia está diretamente relacionada à responsabilidade legal. O enfermeiro
responde civil, ética e criminalmente pelos seus atos profissionais, o que reforça a necessidade de
agir dentro dos limites da sua competência. Segundo Silva e Mendes (2019), “a autonomia do
enfermeiro é proporcional à sua capacidade de responder pelos resultados das suas decisões
clínicas”⁸.
⁸ SILVA, M. J. P.; MENDES, I. A. C. Ética e Enfermagem: fundamentos e práticas. São Paulo: EPU,
2019.
Em suma, a autonomia do enfermeiro é um conceito multidimensional, que envolve:
A liberdade técnica e científica de decidir com base em conhecimento próprio;
A responsabilidade ética e jurídica pelas ações tomadas;
O respeito à interdisciplinaridade e aos limites institucionais;
A defesa da dignidade humana e dos direitos do paciente.
Assim, o exercício da autonomia na enfermagem exige uma postura crítica, reflexiva e
comprometida, capaz de articular saberes, valores e responsabilidades em prol de um cuidado
integral, humanizado e socialmente justo.
---
Queres que eu prossiga agora com o Capítulo 2 (enquadramento
Capítulo 2 – Enquadramento legal da prática do enfermeiro
A prática da enfermagem não pode ser compreendida fora do contexto normativo e institucional
que lhe confere legitimidade. O exercício profissional do enfermeiro, além de possuir uma base
científica, está intrinsecamente vinculado a princípios legais, éticos e deontológicos, que delimitam o
campo de atuação, os deveres e as responsabilidades desse profissional perante a sociedade.
Segundo Pinto (2017), a legalidade do ato de enfermagem constitui o elemento central que
diferencia o exercício profissional autorizado de uma mera prestação empírica de cuidados. A lei,
portanto, não limita apenas — ela também protege o enfermeiro, definindo as fronteiras seguras de
sua autonomia¹.
¹ PINTO, M. L. Direito e Enfermagem: fundamentos para o exercício legal. Lisboa: Lidel, 2017.
---
2.1. O enquadramento jurídico da enfermagem em Angola
Em Angola, a Lei de Bases do Sistema Nacional de Saúde (Lei n.º 21-B/92, de 28 de agosto)
estabelece as normas fundamentais para o funcionamento do sistema sanitário e reconhece o
enfermeiro como um profissional essencial à concretização do direito à saúde². Esta lei dispõe que a
assistência deve ser prestada por equipas multiprofissionais, respeitando as competências e
atribuições de cada categoria profissional.
² REPÚBLICA DE ANGOLA. Lei de Bases do Sistema Nacional de Saúde (Lei n.º 21-B/92, de 28 de
agosto). Diário da República, I Série, Luanda, 1992.
Complementarmente, o Decreto Executivo n.º 241/10, do Ministério da Saúde, regula a formação,
exercício e fiscalização das profissões de saúde, estabelecendo que o enfermeiro possui autonomia
técnica no desempenho de funções de cuidados, ensino e gestão, desde que dentro do seu escopo
de prática e de acordo com protocolos clínicos vigentes³.
³ MINISTÉRIO DA SAÚDE DE ANGOLA. Decreto Executivo n.º 241/10: Regulamento das Profissões de
Saúde. Luanda, 2010.
O Conselho de Enfermagem de Angola (CEA), criado em 2015, é a entidade responsável pela
regulação ética e técnica do exercício profissional. O seu Código Deontológico (2018) explicita que a
atuação do enfermeiro deve basear-se na competência, responsabilidade e respeito pela vida
humana, reafirmando que a autonomia é inseparável da ética e da legalidade⁴.
⁴ CONSELHO DE ENFERMAGEM DE ANGOLA. Código Deontológico do Enfermeiro. Luanda: Ministério
da Saúde, 2018.
Esses instrumentos formam o arcabouço jurídico que orienta o enfermeiro angolano na sua prática,
definindo direitos, deveres e limitações funcionais, e protegendo tanto o profissional quanto o
paciente contra atos indevidos ou negligentes.
---
2.2. A autonomia legal e os limites normativos da prática
A autonomia do enfermeiro tem fundamento legal, mas não é absoluta. De acordo com Almeida
(2016), o exercício da autonomia em saúde deve ser entendido como uma autonomia relacional, ou
seja, o profissional é livre para decidir dentro do seu campo de competência, mas interdependente
das demais categorias da equipa⁵.
⁵ ALMEIDA, M. C. P.; ROCHA, J. S. Y. O trabalho de enfermagem e a organização do cuidado. São
Paulo: Cortez, 2016.
Em termos práticos, a lei permite que o enfermeiro realize atos técnicos e decisões clínicas próprias,
como avaliação de enfermagem, planejamento e execução de cuidados, educação terapêutica e
gestão de unidades. Contudo, atos médicos exclusivos, como diagnósticos clínicos complexos,
prescrição farmacológica fora de protocolos e procedimentos cirúrgicos, continuam sob reserva de
competência médica⁶.
⁶ CONSELHO DE MINISTROS DE ANGOLA. Decreto sobre a Regulamentação das Profissões de Saúde.
Luanda, 2015.
Essa delimitação evita conflitos de competência, mas também gera debates sobre subalternização
profissional, uma vez que o enfermeiro, em muitas instituições, é restringido por barreiras
hierárquicas e culturais. Segundo Nunes (2019), a ausência de legislação específica que detalhe o
escopo da enfermagem em Angola contribui para interpretações arbitrárias e desigualdades de
poder nas equipas multiprofissionais⁷.
⁷ NUNES, A. M. O. A Enfermagem em Angola: desafios da regulamentação e exercício profissional.
Luanda: Universidade Agostinho Neto, 2019.
---
2.3. Dimensões ético-legais da responsabilidade profissional
A autonomia legal está sempre acompanhada da responsabilidade jurídica. O enfermeiro é civil,
disciplinar e criminalmente responsável pelos atos praticados no exercício da profissão. Assim, cada
decisão clínica deve ser sustentada em evidência científica, julgamento técnico e observância das
normas deontológicas.
Conforme Silva e Mendes (2019), “a autonomia do enfermeiro é proporcional à sua responsabilidade
moral e jurídica perante o paciente e a instituição”⁸. O descumprimento das normas pode configurar
negligência, imperícia ou imprudência, infrações que acarretam sanções previstas tanto no Código
Deontológico quanto na legislação penal comum.
⁸ SILVA, M. J. P.; MENDES, I. A. C. Ética e Enfermagem: fundamentos e práticas. São Paulo: EPU,
2019.
No contexto angolano, as infrações de natureza profissional são julgadas pelo Conselho de Disciplina
do CEA, que tem autoridade para aplicar advertências, suspensões e até cassação de licença
profissional em casos graves⁹.
⁹ CONSELHO DE ENFERMAGEM DE ANGOLA. Estatuto Orgânico do Conselho de Enfermagem.
Luanda, 2015.
Essa responsabilização reforça que a autonomia não se confunde com liberdade irrestrita: trata-se
de uma liberdade com deveres, orientada pelo princípio da ética do cuidado e pelo respeito à lei.
---
2.4. Perspectiva comparada: enquadramento internacional da profissão
No cenário global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Conselho Internacional de
Enfermeiros (CIE) vêm defendendo a ampliação do escopo de atuação dos enfermeiros como
resposta à crescente demanda de cuidados primários e à escassez de médicos em muitos países de
baixa e média renda¹⁰.
¹⁰ ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório Mundial sobre Enfermagem e Obstetrícia.
Genebra: OMS, 2020.
Em nações como Portugal e Brasil, por exemplo, o enfermeiro possui autonomia legal mais
consolidada. Em Portugal, o Decreto-Lei n.º 161/96, que regula o exercício profissional dos
enfermeiros, reconhece explicitamente a independência técnica e científica desses profissionais¹¹.
No Brasil, a Lei n.º 7.498/86 define o exercício profissional da enfermagem e confere ao enfermeiro
o direito de planejar, organizar, supervisionar e avaliar os serviços de enfermagem¹².
¹¹ REPÚBLICA PORTUGUESA. Decreto-Lei n.º 161/96, de 4 de setembro. Diário da República, I Série,
Lisboa, 1996.
¹² REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Lei n.º 7.498/86: Dispõe sobre a regulamentação do exercício
da Enfermagem. Brasília, 1986.
Esses modelos legais podem servir de referência comparativa para Angola, especialmente no que
concerne à definição mais detalhada do âmbito de prática e à valorização da autonomia decisória do
enfermeiro. Conforme observa Pereira e Oliveira (2020), quanto mais clara for a legislação, maior a
segurança jurídica e o reconhecimento social da profissão¹³.
¹³ PEREIRA, A. F.; OLIVEIRA, L. P. Enfermagem e Autonomia Profissional: Perspectivas Éticas e Legais.
Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, n. 2, 2020.
---
2.5. Desafios contemporâneos e perspectivas de fortalecimento
Apesar dos avanços normativos, persistem desafios significativos à consolidação plena da autonomia
legal da enfermagem em Angola. Entre eles destacam-se:
Fragilidade regulatória, com ausência de lei própria e detalhada sobre o exercício profissional;
Subvalorização institucional, que mantém o enfermeiro em posição hierárquica inferior;
Limitações na formação jurídica dos profissionais, que muitas vezes desconhecem seus direitos e
deveres;
Deficiência na fiscalização ética, dificultando a responsabilização de más práticas.
Como defende Paim (2015), a profissionalização plena da enfermagem exige não apenas
competência técnica, mas também participação política e capacidade de influenciar processos
decisórios na formulação de políticas de saúde¹⁴.
¹⁴ PAIM, J. S. O que é o SUS. São Paulo: Fiocruz, 2015.
Nesse sentido, o fortalecimento da autonomia legal depende de três eixos estratégicos:
1. Revisão legislativa, criando uma Lei do Exercício Profissional de Enfermagem específica;
2. Educação permanente, incluindo conteúdos de ética e legislação nos currículos universitários;
3. Empoderamento institucional, com maior representação do CEA nas decisões de política sanitária
nacional.
Tais medidas são indispensáveis para transformar o enfermeiro em protagonista do cuidado e
agente de transformação social, conforme os princípios da Saúde Universal defendidos pela OMS.
---
Síntese conclusiva do capítulo
O enquadramento legal da enfermagem em Angola reflete um sistema em evolução, onde a
autonomia do enfermeiro é reconhecida, porém limitada por lacunas normativas e barreiras
culturais. A consolidação dessa autonomia exige uma abordagem integrada entre legislação, ética e
políticas públicas, de modo que o enfermeiro possa exercer sua função com liberdade técnica,
segurança jurídica e responsabilidade social.
Capítulo 3 – O enfermeiro no contexto multiprofissional: desafios e perspectivas
A prática da enfermagem contemporânea insere-se num cenário de complexidade organizacional e
interdisciplinaridade, no qual diferentes profissionais da saúde interagem para alcançar um mesmo
objetivo: a promoção do bem-estar e da vida humana. Nesse contexto, o enfermeiro assume papel
essencial na coordenação e execução do cuidado, sendo, ao mesmo tempo, agente técnico, gestor e
educador em saúde.
Conforme assinala Foucault (1979), as instituições de saúde refletem estruturas de poder e saber
que condicionam a autonomia dos sujeitos que nelas atuam¹. No interior dessas estruturas, o
enfermeiro ocupa uma posição singular, frequentemente tensionada entre a subordinação
administrativa e a necessidade de afirmação científica e ética.
¹ FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
Assim, compreender a inserção do enfermeiro no contexto multiprofissional implica analisar as
relações de poder, as dinâmicas de colaboração e as formas de reconhecimento da sua autonomia
técnica e moral, tanto no plano institucional quanto no social.
---
3.1. O trabalho em equipa multiprofissional e a interdependência das práticas
O conceito de trabalho multiprofissional designa a atuação conjunta e complementar de
profissionais com formações diversas, que compartilham responsabilidades no planejamento,
execução e avaliação do cuidado à saúde.
Segundo Peduzzi (2001), a equipe multiprofissional não é mera justaposição de tarefas, mas um
espaço de cooperação dialogada, em que as diferenças de saber se tornam instrumentos de
integração².
² PEDUZZI, M. Equipe multiprofissional de saúde: conceito e tipologia. Revista de Saúde Pública, v.
35, n. 1, p. 103–109, 2001.
Nesse contexto, o enfermeiro desempenha papel estratégico, pois é o profissional que mantém
maior continuidade e proximidade com o paciente, articulando as ações médicas, psicológicas,
farmacológicas e sociais.
Para Almeida e Rocha (2016), o enfermeiro é “o elo que interliga os diferentes segmentos da
assistência, sendo responsável por organizar o cuidado e garantir a coerência das ações
terapêuticas”³.
³ ALMEIDA, M. C. P.; ROCHA, J. S. Y. O trabalho de enfermagem e a organização do cuidado. São
Paulo: Cortez, 2016.
A sua autonomia técnica manifesta-se, portanto, na capacidade de gerir processos de cuidado,
avaliar necessidades, tomar decisões imediatas e coordenar intervenções de outros membros da
equipa. Porém, essa autonomia é mediada por estruturas institucionais que, muitas vezes,
reproduzem hierarquias verticais, colocando o enfermeiro numa posição de dependência funcional
em relação ao médico.
---
3.2. A hierarquia médico-centrada e os conflitos de autonomia
A tradição médica ocidental construiu, ao longo dos séculos, um modelo de assistência centrado na
figura do médico como principal detentor do saber e da autoridade em saúde. Essa herança histórica
ainda influencia profundamente as práticas hospitalares e a organização dos serviços.
De acordo com Collière (1999), “a enfermagem, nascida no seio de uma medicina patriarcal, teve de
lutar pela sua identidade e reconhecimento científico”⁴.
⁴ COLLIÈRE, M. F. Promover a vida: da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem.
Lisboa: Lidel, 1999.
Em Angola, esse modelo médico-hegemônico persiste, embora a legislação já reconheça
formalmente a autonomia técnica do enfermeiro. Muitas instituições ainda operam sob estruturas
administrativas que subordinam o trabalho de enfermagem à autoridade médica, mesmo em áreas
de competência exclusiva do enfermeiro, como a supervisão de equipas, o cuidado básico e a
educação sanitária.
Nunes (2019) observa que “a autonomia do enfermeiro angolano é frequentemente simbólica, pois
a cultura institucional continua a valorizar a hierarquia médica em detrimento do trabalho
colaborativo”⁵.
⁵ NUNES, A. M. O. A Enfermagem em Angola: desafios da regulamentação e exercício profissional.
Luanda: Universidade Agostinho Neto, 2019.
Essa realidade produz tensões e conflitos de autoridade dentro das equipas multiprofissionais, o que
impacta negativamente a qualidade do cuidado, a motivação dos profissionais e a eficiência
organizacional.
---
3.3. A dimensão colaborativa da autonomia
A verdadeira autonomia profissional, segundo Beauchamp e Childress (2001), não significa
isolamento, mas sim a capacidade de contribuir de forma livre e responsável para decisões
compartilhadas⁶.
⁶ BEAUCHAMP, T. L.; CHILDRESS, J. F. Principles of Biomedical Ethics. Oxford: Oxford University Press,
2001.
Assim, a autonomia do enfermeiro deve ser entendida como colaborativa, não hierárquica. O
enfermeiro atua como parceiro técnico e ético no processo terapêutico, oferecendo uma visão
holística do paciente e um olhar que integra as dimensões biológicas, emocionais e sociais do
cuidado.
Para Carvalho e Silva (2015), “a prática multiprofissional não anula a autonomia, mas a redefine
como interdependência produtiva”, isto é, cada profissional tem liberdade decisória dentro de suas
competências, mas o resultado é fruto de cooperação técnica e ética⁷.
⁷ CARVALHO, E. C.; SILVA, R. M. Enfermagem e trabalho em equipe: interdependência e autonomia.
Revista Brasileira de Enfermagem, v. 68, n. 4, p. 745–752, 2015.
Em Angola, essa conceção colaborativa começa a emergir em programas de atenção primária, onde
o enfermeiro tem papel de liderança comunitária, atuando na prevenção, vacinação,
aconselhamento e vigilância epidemiológica. Tais experiências revelam que, quando reconhecida e
valorizada, a autonomia do enfermeiro contribui diretamente para a eficácia do sistema de saúde e
para a redução da mortalidade evitável.
---
3.4. Formação, conhecimento científico e poder profissional
A autonomia no contexto multiprofissional está intimamente relacionada ao nível de formação e à
capacidade científica do enfermeiro.
Segundo Pereira e Oliveira (2020), “quanto maior o domínio do conhecimento e da evidência
científica, maior a legitimidade do enfermeiro para exercer autoridade técnica”⁸.
⁸ PEREIRA, A. F.; OLIVEIRA, L. P. Enfermagem e Autonomia Profissional: Perspectivas Éticas e Legais.
Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, n. 2, 2020.
Infelizmente, muitos enfermeiros angolanos enfrentam desafios de formação continuada limitada e
escassas oportunidades de investigação científica, o que enfraquece sua voz nos espaços de decisão
institucional.
Conforme Silva (2018), a fragilidade científica da enfermagem em países africanos lusófonos ainda é
reflexo de políticas coloniais que restringiram o acesso à educação superior e à autonomia
intelectual⁹.
⁹ SILVA, T. R. História da Enfermagem em África Lusófona: colonialismo, formação e identidade
profissional. Lisboa: ISCSP, 2018.
Portanto, o fortalecimento da autonomia multiprofissional exige o investimento em formação
universitária sólida, pós-graduação, pesquisa aplicada e capacitação ética, promovendo a
emancipação intelectual do enfermeiro e o reconhecimento de seu papel estratégico nos sistemas
de saúde.
---
3.5. Perspectivas de fortalecimento da enfermagem no contexto multiprofissional angolano
A consolidação da autonomia do enfermeiro em Angola depende de mudanças estruturais em três
dimensões principais:
1. Dimensão normativa – criação de uma Lei do Exercício Profissional de Enfermagem, nos moldes
das legislações de Portugal e Brasil, definindo claramente as competências, direitos e deveres da
profissão;
2. Dimensão institucional – fortalecimento do Conselho de Enfermagem de Angola (CEA), com maior
autonomia administrativa, poder fiscalizador e participação em políticas públicas;
3. Dimensão educacional – incorporação obrigatória de disciplinas de ética, bioética e legislação
profissional nos cursos de enfermagem, e incentivo à investigação científica sobre práticas de
cuidado.
Essas medidas visam construir um modelo de autonomia participativa, em que o enfermeiro não
apenas execute tarefas, mas participe ativamente das decisões clínicas, políticas e administrativas.
Como defende Paim (2015), a democratização da saúde passa necessariamente pela valorização dos
trabalhadores da base, e o enfermeiro, pela sua inserção direta nas comunidades, é ator-chave da
transformação sanitária e social¹⁰.
¹⁰ PAIM, J. S. O que é o SUS. São Paulo: Fiocruz, 2015.
Dessa forma, o futuro da enfermagem angolana, inserida no contexto multiprofissional, dependerá
do equilíbrio entre autonomia e responsabilidade, liberdade e cooperação, ciência e ética.
---
Síntese conclusiva do capítulo
O enfermeiro, no contexto multiprofissional, desempenha um papel indispensável e cada vez mais
estratégico na organização do cuidado. A sua autonomia técnica e ética não deve ser vista como
ruptura, mas como expressão de competência e corresponsabilidade.
O desafio em Angola consiste em romper com estruturas hierárquicas obsoletas, investir na
formação e valorização profissional, e harmonizar a legislação com as práticas contemporâneas da
saúde.
Somente assim será possível consolidar uma enfermagem autônoma, científica e socialmente
reconhecida, capaz de contribuir, em igualdade de condições, para a efetivação do direito à saúde e
da dignidade humana.
---
Referências complementares do Capítulo 3
BEAUCHAMP, T. L.; CHILDRESS, J. F. Principles of Biomedical Ethics. Oxford: Oxford University Press,
2001.
COLLIÈRE, M. F. Promover a vida: da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem.
Lisboa: Lidel, 1999.
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
NUNES, A. M. O. A Enfermagem em Angola: desafios da regulamentação e exercício profissional.
Luanda: Universidade Agostinho Neto, 2019.
PEDUZZI, M. Equipe multiprofissional de saúde: conceito e tipologia. Revista de Saúde Pública, v. 35,
n. 1, 2001.
PEREIRA, A. F.; OLIVEIRA, L. P. Enfermagem e Autonomia Profissional: Perspectivas Éticas e Legais.
Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, n. 2, 2020.
SILVA, T. R. História da Enfermagem em África Lusófona: colonialismo, formação e identidade
profissional. Lisboa: ISCSP, 2018.
PAIM, J. S. O que é o SUS. São Paulo: Fiocruz, 2015.
ALMEIDA, M. C. P.; ROCHA, J. S. Y. O trabalho de enfermagem e a organização do cuidado. São Paulo:
Cortez, 2016.