O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos
acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do
feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e
do remédio depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e
estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe
o imbecil que da sua ignorância política nasce a
prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os
bandidos que é o político vigarista, pilantra, o
corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
II
Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
III
Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.
Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao
senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?
Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens,
construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo
tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as
gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas
sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana,
ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse
antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas
aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor
do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas.
Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em
direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo,
para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo
mar.
O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos.
Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime
do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer
nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade
futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se
estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar
toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar
imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si,
para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles
fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme
diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos,
proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas
diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que
matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra
língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e
receberia uma comenda de herói.
Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles,
naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos
tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se
brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos
peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E
a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos,
como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais
sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.
Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela
ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou
seja, na barriga dos tubarões.
Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os
peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e
seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até
poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois
eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os
peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna
entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias,
construtores de gaiolas, etc.
Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no
mar.
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.