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Brecht

O texto discute a ignorância política como um dos piores tipos de analfabetismo, ressaltando que a falta de participação política impacta diretamente a vida das pessoas. Além disso, reflete sobre a injustiça social e a indiferença diante das dificuldades alheias, culminando em uma crítica à apatia e à falta de solidariedade. A obra também aborda a desumanização e a exploração, utilizando metáforas como a dos tubarões e peixinhos para ilustrar a opressão e a manipulação social.

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Brecht

O texto discute a ignorância política como um dos piores tipos de analfabetismo, ressaltando que a falta de participação política impacta diretamente a vida das pessoas. Além disso, reflete sobre a injustiça social e a indiferença diante das dificuldades alheias, culminando em uma crítica à apatia e à falta de solidariedade. A obra também aborda a desumanização e a exploração, utilizando metáforas como a dos tubarões e peixinhos para ilustrar a opressão e a manipulação social.

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O pior analfabeto é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, nem participa dos


acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do
feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e
do remédio depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e
estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe
o imbecil que da sua ignorância política nasce a
prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os
bandidos que é o político vigarista, pilantra, o
corrupto e lacaio dos exploradores do povo.

Eu vivo em tempos sombrios.

Uma linguagem sem malícia é sinal de

estupidez,

uma testa sem rugas é sinal de indiferença.

Aquele que ainda ri é porque ainda não

recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando

falar sobre flores é quase um crime

Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Aquele que cruza tranqüilamente a rua

já está então inacessível aos amigos

que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.

Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço


Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.

Por acaso estou sendo poupado.

(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!

Fica feliz por teres o que tens!

Mas como é que posso comer e beber,

se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?

se o copo de água que eu bebo, faz falta a

quem tem sede?

Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.

Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:

Manter-se afastado dos problemas do mundo

e sem medo passar o tempo que se tem para

viver na terra;

Seguir seu caminho sem violência,

pagar o mal com o bem,

não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.

Sabedoria é isso!

Mas eu não consigo agir assim.

É verdade, eu vivo em tempos sombrios!


II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,

quando a fome reinava.

Eu vim para o convívio dos homens no tempo

da revolta

e me revoltei ao lado deles.

Assim se passou o tempo

que me foi dado viver sobre a terra.

Eu comi o meu pão no meio das batalhas,

deitei-me entre os assassinos para dormir,

Fiz amor sem muita atenção

e não tive paciência com a natureza.

Assim se passou o tempo

que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas

em que nós perecemos, pensem,

quando falarem das nossas fraquezas,

nos tempos sombrios

de que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,


mudando mais seguidamente de países que de

sapatos, desesperados!

quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:

o ódio contra a baixeza

também endurece os rostos!

A cólera contra a injustiça

faz a voz ficar rouca!

Infelizmente, nós,

que queríamos preparar o caminho para a

amizade,

não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.

Mas vocês, quando chegar o tempo

em que o homem seja amigo do homem,

pensem em nós

com um pouco de compreensão.

Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao

senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?

Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens,

construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo

tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as


gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas

sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana,

ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse

antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas

aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor

do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas.

Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em

direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo,

para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo

mar.

O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime

do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer

nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade

futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se

estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar

toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar

imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.

Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si,

para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles

fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme

diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos,

proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas

diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que
matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra

língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e

receberia uma comenda de herói.

Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles,

naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos

tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se

brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos

peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E

a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos,

como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais

sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.

Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela

ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou

seja, na barriga dos tubarões.

Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os

peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e

seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até

poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois

eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os

peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna

entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias,

construtores de gaiolas, etc.

Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no

mar.
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários


Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis


Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados


Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando


Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

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