Luna and Klein
1. Introdução: A "Questão Social" e a Mudança de Paradigma
● Tensões Sociais: O surgimento da classe média urbana e do operariado industrial
criou tensões que a República Velha (oligárquica) não conseguia resolver apenas com
repressão.
● A Revolução de 1930: Marcou a transição para um Estado centralizado e autoritário
que promoveu a intervenção estatal nas relações trabalhistas, saúde pública,
previdência e economia para modernizar o país.
● Aliança Populista: O regime reduziu o poder das oligarquias rurais e cooptou a classe
média e a classe trabalhadora urbana, oferecendo proteção social em troca de apoio
político.
● Ausência de Revolução Social: Apesar da centralização política, não houve
mudanças radicais na distribuição de renda nem na estrutura agrária; as elites rurais
cafeeiras mantiveram relevância devido à importância do café nas exportações.
2. A Crise da República Velha e os Antecedentes de 1930
● Tenentismo: Movimento de jovens oficiais do Exército focado em reformas
morais/políticas contra a corrupção das oligarquias. Destaques: a Revolta Paulista de
1924 e a Coluna Prestes (1925-1927), que percorreu ~24.000 km.
● Instabilidade nos Anos 1920: Forte inflação (acima de 70% entre 1922 e 1925) e
estado de sítio constante no governo Artur Bernardes. Em 1926, a fundação do Partido
Democrático de São Paulo defendeu o voto secreto.
● A Ruptura da Política do Café com Leite: Washington Luís (paulista) indicou outro
paulista (Júlio Prestes) para a sucessão, rompendo o revezamento com Minas Gerais.
Isso motivou a criação da Aliança Liberal em apoio a Getúlio Vargas.
● A Grande Depressão e o Golpe de 1930: A crise de 1929 devastou o mercado do
café. Após a vitória eleitoral de Júlio Prestes, o assassinato de João Pessoa (vice de
Vargas) foi instrumentalizado para desencadear o movimento armado que depôs
Washington Luís.
● A Emergência das Massas Urbanas: Com a quebra do equilíbrio oligárquico, a massa
urbana passou a ser a principal fonte de legitimidade do novo regime, impulsionando a
ascensão do populismo.
3. A Trajetória Política: Do Governo Provisório ao Estado Novo
● Centralização Inicial: Vargas dissolveu o Congresso e as assembleias estaduais,
substituindo governadores por "interventores".
● A Revolução Constitucionalista de 1932: Oposição de São Paulo exigindo autonomia
e retorno à legalidade. Apesar da derrota militar paulista, Vargas nomeou um interventor
local e aprovou medidas para o setor cafeeiro.
● Constituição de 1934 e Radicalização: Promulgação da nova carta e eleição indireta
de Vargas. Em seguida, houve o avanço da Lei de Segurança Nacional (1935), a
ascensão da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e o crescimento dos fascistas
(Integralistas).
● Golpe do Estado Novo (1937): Vargas alegou ameaça comunista para dar um golpe
de Estado, outorgar a Constituição de 1937 e impor uma ditadura sem Legislativo até
1945. Houve censura, forte aparato de propaganda e eliminação tanto da esquerda
quanto dos integralistas (1938).
4. A Política Econômica: A Defesa do Café e a Crise Externa
● O Problema da Superprodução do Café: No final dos anos 1920, as colheitas
atingiam 30 milhões de sacas para um consumo mundial de 23 milhões.
● Estratégia Anti-Crise de Vargas:
○ Compra de estoques e queima de café (78,2 milhões de sacas destruídas até
1944).
○ Proibição de novos plantios e criação do Conselho Nacional do Café (depois
Departamento Nacional do Café).
○ Cancelamento de 50% das dívidas dos cafeicultores em 1933.
● Efeito Anticíclico (Tese de Celso Furtado): Garantir a renda do setor exportador
manteve o nível de emprego e a demanda interna, acelerando a recuperação
econômica do Brasil em relação aos países desenvolvidos.
● Controle de Câmbio: O governo centralizou as operações cambiais no Banco do
Brasil, priorizando a dívida externa e as importações essenciais.
5. Modernização Administrativa e Institucional do Estado
● DASP (1938): O Departamento Administrativo do Serviço Público criou o funcionalismo
de carreira (concursos) e padronizou o orçamento público, sendo chave para a
centralização federal.
● Novas Autarquias de Setor: Criação de institutos para gerenciar commodites (Açúcar
e do Álcool, Pinho, Sal, Cacau) e agências para energia e mineração (Departamento
Nacional da Produção Mineral, Conselho Nacional do Petróleo, etc.).
● Legislação e Finanças: Códigos de Águas, Minas, Florestal e Comercial; ampliação do
papel do Banco do Brasil e criação da SUMOC (1945), antecessora do Banco Central.
6. Industrialização por Substituição de Importações e Estado Empresário
● Industrialização Induzida por Tarifas e Câmbio: Restrições às importações
incentivaram a produção industrial doméstica para suprir o mercado interno.
● Impacto da II Guerra Mundial: Estimulou a produção interna devido à falta de produtos
importados, gerando superávits comerciais, mas também pressões inflacionárias.
● Intervenção Direta do Estado na Indústria de Base:
○ Criação de estatais estratégicas: Companhia Siderúrgica Nacional (CSN),
Companhia Vale do Rio Doce, Fábrica Nacional de Motores (FNM), Companhia
Nacional de Álcalis e a Companhia Hidroelétrica do São Francisco.
○ A CSN (1942), financiada com apoio do Eximbank norte-americano em meio às
negociações de guerra, representou um marco decisivo para a segurança
nacional e a consolidação da infraestrutura industrial brasileira.
7. Educação, Saúde e Políticas Sociais (págs. 99-105)
● Educação e Conservadorismo: Sob o ministro Gustavo Capanema, promoveu-se uma
cultura moralista e o ensino religioso. O ensino superior cresceu devagar no âmbito
federal, mas elites paulistas criaram a Universidade de São Paulo (USP) em 1933.
● A Criação do SENAI e SENAC: Parceria do Ministério do Trabalho com lideranças
industriais (como Roberto Simonsen da FIESP) financiada por imposto sobre a folha de
pagamento para capacitação profissional.
● Legislação Trabalhista e Unicidade Sindical:
○ Criação do Ministério do Trabalho (1930), instituição do salário mínimo,
regulamentação da jornada de trabalho e restrição a trabalhadores estrangeiros.
○ Modelo corporativista: aprovação da unicidade sindical (um sindicato por
categoria/município) e do imposto sindical (1940) para vincular os sindicatos ao
Estado. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943.
● Previdência Social: Evolução das antigas CAPs para os Institutos de Aposentadoria e
Pensões (IAPs) por setor profissional. Os fundos acumulados foram utilizados pelo
Estado para financiar obras públicas e industrialização.
● Saúde Pública: Centralização das campanhas sanitárias com o Departamento
Nacional de Saúde Pública e reforço no atendimento preventivo e clínico ligado aos
IAPs.
8. Desempenho Econômico e Estrutura Industrial (1920-1950)
● Crescimento Acentuado: Entre 1930 e 1945, o PIB brasileiro cresceu a uma taxa
média de 4% ao ano, sendo impulsionado pela indústria (6,2% ao ano). A participação
da indústria no PIB passou de 20,3% (1929) para 28,6% (1945).
● Concentração Regional: O Sudeste consolidou sua liderança industrial (absorvendo
3/4 do valor da produção em 1940), liderado pelo estado de São Paulo (responsável por
45% do valor industrial total).
● Perfil das Empresas Industriais em 1940:
○ Setores dominantes: Alimentos (30% das empresas, 20% da produção) e Têxtil
(18% da produção).
○ A indústria de bens de capital representava apenas 6% do valor total.
○ Predomínio de pequenas unidades (89% com até 25 empregados), mas alta
concentração do operariado em grandes fábricas (1% das indústrias com mais
de 250 operários concentravam 40% de toda a força de trabalho). O setor têxtil
destacou-se com maior média de trabalhadores por empresa e forte presença de
mão de obra feminina (52%).