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O livro 'Trabalho, lar e boTequim' de Sidney Chalhoub explora o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro durante a belle époque, desafiando a historiografia tradicional que limita a experiência dos trabalhadores a movimentos políticos organizados. A obra defende a utilização de processos criminais como fontes valiosas para entender a vida cotidiana e as relações sociais dos trabalhadores, ampliando a compreensão da história social. Esta nova edição, com correções e adições, mantém a essência do trabalho original e reflete sobre a evolução da historiografia brasileira.

Enviado por

Marcos Gomes
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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O livro 'Trabalho, lar e boTequim' de Sidney Chalhoub explora o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro durante a belle époque, desafiando a historiografia tradicional que limita a experiência dos trabalhadores a movimentos políticos organizados. A obra defende a utilização de processos criminais como fontes valiosas para entender a vida cotidiana e as relações sociais dos trabalhadores, ampliando a compreensão da história social. Esta nova edição, com correções e adições, mantém a essência do trabalho original e reflete sobre a evolução da historiografia brasileira.

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Trabalho, lar e boTequim

TRABALHO LAR E [Link] 1 25/07/2012 09:43:32

universidade estadual de campinas


Reitor
Fernando Ferreira
costa

coordenador Geral da universidade


edgar Salvadori De Decca

conselho editorial
Presidente
Paulo Franchetti
Alcir Pécora – christiano Lyra Filho
José A. R. Gontijo – José Roberto Zan
Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago
Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara

TRABALHO LAR E [Link] 2 25/07/2012 09:43:32

Sidney Chalhoub

Trabalho, lar e boTequim


O cotidiano dos trabalhadores no
Rio de Janeiro da belle époque
TRABALHO LAR E [Link] 3
ficha catalográfica elaborada pelo
sistema de bibliotecas da unicamp
diretoria de tratamento da informação

C35t Chalhoub, Sidney.


Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos traba lhadores no
Rio de Janeiro da belle époque / Sidney Chalhoub. – 3a ed. –
Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012.

1. Trabalhadores – Rio de Janeiro (RJ) – Condições sociais. 2.


Rio de Janeiro (RJ) – Usos e costumes. 3. Lazer. I. Título.

cdd 301.24098153
isbn 978-85-268-0985-7 790.0135

Índices para catálogo sistemático:

1. Trabalhadores – Rio de Janeiro (RJ) – Condições sociais


301.24098153
2. Rio de Janeiro (RJ) – Usos e costumes
301.24098153
3. Lazer 790.0135

Copyright © by Sidney Chalhoub


Copyright © 2001 by Editora da Unicamp

1a edição, 1986 Editora Brasiliense


2a edição, 2001 Editora da Unicamp

Nenhuma parte desta publicação pode ser


gravada, armazenada em sistema eletrônico,
fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou
outros quaisquer sem autorização prévia do
editor.

Editora da Unicamp

25/07/2012 09:43:33
Rua Caio Graco Prado, 50 – Campus
Unicamp cep 13083-892 –
Campinas – sp – Brasil
Tel./Fax: (19) 3521-7718/7728
[Link] – vendas@[Link]

[Link] 4 25/07/2012 09:53:38


Prefácio à segunda edição

Prefaciar não é ofício leve — como raspar mandioca, exem


plo de cousa tida por suave no Brasil oitocentista. Prefaciar nova
edição de livro próprio, passados 15 anos da pu blicação original,
é tarefa canhestra, quase improvável. Não sei como isso foi
acontecer. Talvez eu queira finalmente dar resposta sorridente às
várias pessoas que perguntam, ain da hoje em dia, quando haverá
nova edição de Trabalho, lar e botequim. Cá está. Escrevo essas
linhas e fico em paz .
O tempo e lugar de um livro explicam muito de seu fei tio. A
pesquisa e redação deste aqui ocorreram em meio a um turbilhão
político contínuo: ressurgimento dos movimentos sociais de
massa no país, luta pela derrubada da ditadura militar, anistia,
redemocratização, eleições para governador, campanha para as
DiretasJá. Tempo que deixou saudade, não apenas pelo motivo
próprio da juventude vivida e ida. Era um momento histórico raro,
desses em que a crença no futuro vira experiência coletiva. À
história vivida pertencia também a empreitada de produzir
conhecimento histórico. Surgiam novos programas de pós-
graduação, os debates teó ricos alargavamse, possibilidades de
pesqui

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sa e exploração de fontes inéditas apareciam a cada dia. O que


lembro deste livro e daquela época é de um estado de excitação

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política e intelectual constante, que parecia mais do que
idiossincrasia individual.
Penso que o autor de Trabalho, lar e botequim formulava, ao
lado de outros estudiosos do período, uma crítica à maneira como
a sociologia e a historiografia sobre movimentos sociais em geral,
e sobre movimento operário em particular, “representavam” os
trabalhadores e sua experiência na história, isto é, havia a
tendência de reduzir a história dos trabalhadores àquela dos
movimentos políticos organizados, julgados todos a partir de um
modelo determinado de desenvolvimento da “consciência de
classe”. Era uma visão evolucionista e teleológica, que além disso
excluía da história a maior parte dos trabalhadores — todos
aqueles que nunca haviam participado de uma revolta, de uma
greve, ou aderido a sociedades operárias.1
O interesse em ler e analisar processos criminais estava
exatamente na expectativa de que tais documentos flagrassem
trabalhadores — homens e mulheres — agindo e descrevendo os
sentidos de suas relações cotidianas fora do espaço do movimento
operário, do lugar da fala política articulada. A hipótese era a de
que os conflitos fora dos momentos coletivos de resistência
política ajudariam a explicar as características e os limites desses
movimentos. Por exemplo, a importância das rivalidades
nacionais — especialmente entre brasileiros e portugueses — no
Rio do iní cio do século XX esclareceriam, em parte, os
problemas do movimento operário carioca do período, e assim por
diante. Essa maneira de formular o problema pareceme um tanto
mecânica ou simplista — quiçá seja eu agora quem atribua
simplismo ao jovem autor do livro —, mas o fato é que, à

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época, era “libertadora” em dois sentidos. Primeiro, abria uma


enorme possibilidade de buscar novas fontes e problemas de
pesquisa, pois tornavase “legítimo” recuperar a experiência dos
trabalhadores em geral, e não apenas a daqueles mais articulados,
dotados de uma determinada forma de “consciência de classe”.
Segundo, na conjuntura do início dos anos 1980, “libertava” a
atividade política da política tradicional, contida em partidos,
sindicatos etc. — isto é, ajudava a fundamentar historicamente a
idéia de que havia uma pluralidade de sujeitos políticos na
sociedade, lutando a seu modo para atingir objetivos que lhes
eram caros e assim governar a própria vida. Nesse sentido, foi
importante, em seguida, repensar a história da escravidão, e
mostrar que os sujeitos históricos mais estereotipados da história
do país — pois escravos, por definição, eram heróis da resistência
ou vítimas indefesas do arbítrio senhorial — foram, na verdade,
muito mais ati vos, sutis e complexos do que muitos logravam
imaginar.2
Há coisas que ainda aprecio neste velho livro. Talvez não
apenas porque goste de lembrar o gosto de descobrilas e escrevê-
las. Por exemplo, a forma de apresentar, logo ao início, o modo de
conceber e utilizar processos criminais como testemunho
histórico. Questão candente à época. Se as fontes para o estudo da
experiência dos trabalhadores já não podiam se reduzir a jornais
operários e outras que tais, onde buscar alternativas? Havia um
contingente de pesquisadores céticos quanto à possibilidade de
utilizar processos penais para estudar temas outros que não a
própria criminalidade ou as representações jurídicas sobre
determinados assuntos. Tais fontes “mentem”, os depoimentos são
manipulados, respondem a uma multiplicidade de interesses que
os tornam praticamente inúteis para os historiadores. Outros

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achavam que seria possível utilizar essas fontes para recuperar o


cotidiano dos trabalhadores, seus valores e formas de conduta. Os
seminários de pósgraduação pegavam fogo. Trabalho, lar e
botequim é quase um libelo em defesa da utilização abrangente de
processos criminais em estudos de história social. O livro foi bem
sucedido neste sentido, pois outros pesquisadores logo dialogaram
com seu modo de ler tais documentos. A polêmica, todavia, era
até certo ponto equivocada. Dois ou três anos depois, Martha
Abreu publicava livro primoroso mostrando que com processos
judiciais podiase fazer uma e outra coisa, e outros belos estudos se
seguiram, culminando com o de Sueann Caulfield, que faz com
processos muito mais do que imaginávamos há 15 ou 20 anos, e
ainda mais, que aparentemente só as geringonças da infor mática
tornaram viáveis.3
Desde a primeira edição deste meu livro, a histo riografia
brasileira mudou muito, diversificouse, sofis ticouse, ampliou
horizontes teóricos e apurou o rigor das pesquisas empíricas. A
produção acadêmica sobre o Rio de Janeiro, já significativa em
meados dos anos 1980, não cansa de surpreender em abrangência
e qualidade.4 Seria tolice minha tentar “atualizar” o livro para esta
segunda edição. Trabalho, lar e botequim continua a ter o seu
lugar na sólida tradição da história social marxista, preocupada
em descrever e interpretar a cultura política dos trabalhadores,
escravos ou “livres”, homens ou mulheres, integrantes de
movimentos sociais organizados ou não, e assim por diante. Num
país em que o costume acadêmico e político de “coisificar” os
trabalhadores — isto é, de imaginar que as suas formas de lidar
com as políticas de dominação são historicamente irrelevantes —
continua duro de matar, Trabalho, lar e botequim deve estar
disponível a quem desejar lêlo. Com os anos,

viii

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corrigi rumos e arrependime de um ou outro argumento presente


no livro. Fiz até uma auto crítica relativamente detalhada em
trabalho posterior (Visões da liberdade). Nunca me afastei, por um
minuto sequer, do impulso original de combater produções
acadêmicas que, intencionalmente ou não, contam a história do
país a partir do mote da desqualificação política dos
trabalhadores, escravos ou não.
Esta nova edição sai então com pouquíssimas emendas e
correções. Todavia, resolvi introduzir material que ficara ausente
da publicação original devido a exigências editoriais. Há aqui
mais fotos encontradas nos processos criminais, um anexo, lista
de fontes e bibliografia. O fato é que nada disso altera a feição do
livro. Nem podia ser de outro modo. Encerro com Machado de
Assis, em “advertência” ao leitor numa reedição de Helena,
ocorrida muitos anos após a publicação original:

Ele [o livro] é o mesmo da data em que o compus e imprimi,


diverso do que o tempo me fez depois, correspondendo assim
ao capítulo da história do meu espírito, naquele ano de 1876.
Não me culpeis pelo que lhe achardes romanesco. [...] Agora
mesmo, que há tanto me fui a outras e diferentes páginas, ouço
um eco remoto ao reler estas, eco de mocidade e fé ingênua. É
claro que, em nenhum caso, lhes tiraria a feição passada; cada
obra pertence ao seu tempo.

Machado de Assis explicoume. Agora posso raspar


mandioca, que é ofício leve.

Sidney Chalhoub
unicamP, abril de 2001

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