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nariz

O texto apresenta a história de Narizinho, uma menina que vive com sua avó e uma boneca chamada Dona Emilia. Durante um passeio à beira de um ribeirão, Narizinho encontra um peixinho vestido que a convida para visitar o Reino das Águas Claras. Juntos, eles embarcam em uma aventura cheia de personagens curiosos e situações engraçadas.

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nariz

O texto apresenta a história de Narizinho, uma menina que vive com sua avó e uma boneca chamada Dona Emilia. Durante um passeio à beira de um ribeirão, Narizinho encontra um peixinho vestido que a convida para visitar o Reino das Águas Claras. Juntos, eles embarcam em uma aventura cheia de personagens curiosos e situações engraçadas.

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LOBATOSC? :
silobadal
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A MENINA DO
NARIZINHO
ARREBITADO
LIVRO DE FIGURAS
POR MONTEIRO
LOBATO com
DESENHOS
DE VOLTO-

Epição DA “REVISTA DO BRASIL,


MONTEIRO LOBATO & COMP.
Ss A Oo PAU A —
3 LE
O SOMNO Á BEIRA DO RIO

AQUELLA casinha branca, — lá muito longe, móra uma triste velha,


N de mais de setenta annos. Coitada! Bem no fim da vida que
está, e tremula, e catacega, sem um só dente na bocca— jururú... Todo
o mundo tem dó d'ella: — Que tristeza viver sozinha no meio do matto...
Pois estão enganados. A velha vive feliz e bem contente da vida, graças
a uma netinha órfã de pae e mãe, que lá mora des'que nasceu. Menina morena,
de olhos pretos como duas jaboticabas — e reinadeira até alli!... Chama-se
Lucia, mas ninguem a trata assim. Tem appellido. Yayá? Nenê? Maricota?
Nada disso. Seu appellido é “Narizinho Rebitado”, — não é preciso dizer
porque. Alem de Lucia, existe na casa a tia Anastacia, uma excellente negra

nie
|doidos, EE
4 á 4 MENINA DO

de estimação, e mais a Excellentissima Se-


nhora Dona Emilia, uma boneca de panno,
fabricada pela preta e muito feiosa, a pobre,
com seus olhos de retroz preto e as so-
brancelhas tão lá em cima que é ver uma
cara de bruxa.
Mas apesar disso Narizinho quer
muito bem á Sra. Dona Emilia, vive a con-
versar com ella e nunca se deita sem primeiro
accommodal-a numa rêdinha armada entre
dois pés de cadeira. Fóra esta bruxa de
panno, o outro encanto de Narizinho é um
ribeirão que passa no fundo do pomar, de
aguas tão claras que se vêem as pedras do fundo e toda a peixaria miuda.
Não se passa um dia sem que Lucia vá sentar-se à beira d'agua, na
raiz de um velho ingázeiro, alli ficando horas, a ouvir o barulhinho da corrente
e a dar comida aos peixes. E elles bem que a conhecem! É vir chegando a
menina e todos lá vêm. correndo, de longe, com as cabecinhas erguidas, numa
grande famiteza. Chegam primeiro os piquiras, os guarús barrigudinhos, de olhos
saltados; vêm depois os lambarys ariscos de rabo vermelho; e finalmente uma
ou outra parapitinga desconfiada. E. nesse divertimento fica a menina até que a
tia Anastacia appareça no portãosinho do pomar e grite com a sua voz soce-
gada: — Narizinho! Vovó está chamando!
E assim vivem aguellas tres creaturas, lá no fundo do grotão, muito
socegadas da vida, sem inquietações nem aborrecimentos.
Certa vez, estando a menina á beira do rio, com a sua boneca, sentiu
os olhos pesados e uma grande lombeira pelo corpo. Estirou-se na relva e logo
dormiu, embalada pelo murmurinho do ribeirão. E estava já a sonhar um
NARIZINHO ARREBITADO =)

lindo sonho quando sentiu cocegas


no rosto. Arregalou os olhos e, com
grande assombro, viu de pé na ponta
do seu narizinho um peixinho ves-
tido. Vestido sim, pois não! Trazia
casaco vermelho, cartola na cabeça
e flor ao peito: — uma galanteza!
O animalzinho olhava para o rosto
della com ar de quem não está
comprehendendo coisa nenhuma.
Tão admirada ficou a me-
nina da maravilhosa scena que re-
teve o folego, com medo de assustar o curioso,
e assim permaneceu algum tempo até que a
zoada de um insecto a distrahiu. Era um be-
sourão que voava por cima da sua cabeça e que depois dumas tantas voltas
veiu pousar-lhe na testa. Narizinho, arrepiada, ia espantalo com um bom tabefe,
quando notou que tambem elle estava vestido de gente, com sobrecasaca, oculos
e bengalão. Conteve-se e ficou bem quietinha a ver em que dava aquillo. O
besouro, notando a presença do senhor peixe, levou a mão ao chapéo e
cumprimentou-o amavelmente :
— Ora viva, mestre Escamado! Como lhe vae a saúdinha?
— Ássim, assim, amigo Cascudo. Lasquei hontem tres escamas do
lombo e o medico receitou-me ares de campo. Vim tomar o remedio, mas
aqui encontrei este morro que não é meu conhecido, e estou a parafusar que
diacho de terra tão branca e lisa é esta. Será porventura marmore? disse,
batendo com a biqueira do guarda-chuva no nariz de Narizinho.
O besouro, sujeitão muito entendido em questões de terra, pois vive
6 A MENINA DO

a fazer buracos, aga-


chou-se, ageitou no bico
os oculos e depois de
examinar a “terra” disse:
— Marmore
não é. Parece antes bor-
racha ou requeijão !...
— E estasplan-
tinhas sem folhas? per-
guntou Escamado, mos-
trando; 'as sobrancelhas.
— Devem ser
varas de vime ou barbatanas, não vê como são flexiveis? Vou levar um feixinho
dellas ao compadre Grillo para que me faça um balaio de costura.
— E eu outro, para Dona Aranha Costureira collocar nos espartilhos.
E puzeram-se os dois a tirar fios da sobrancelha de Narizinho. Cada “barba-
tana” que arrancavam era uma dorzinha aguda, e bem vontade teve a “terra” de
varrelos d'alli com uma tapona, mas tudo supportou, sem a menor careta, [tão
interessante estava
achando a singular
aventura. E ficou
immovel, a espiar a
manobra dos curio-
sos bichinhos entre-
tidos na colheita
das varas de barba-
tana, pensando lá
comsigo :
um

NARIZINHO ARREBITADO 7

— Esta é boa! Parece que virei baleia!...


Em seguida o peixinho, com o feixe de barbatanas debaixo do braço,
desceu e principiou a examinar attentamente os labios e as faces da menina.
Deante do nariz parou e, apontando-lhe para as ventas, disse: |
— Ora aqui está uma tóca muito geitosa para um casal de besouros.
Dois commodos, um para o
marido, outro para a senhora
besoura, Optimo !...
— Geitosa ella é,
disse o besouro, mas bom
será que não more aqui al-
gum maldicto escorpião !...
— Não creio, retru-
cou o peixinho. Os escorpiões
mudaram-se para o outro lado

do rio, onde ha muitos cupins


velhos.
— Apesar disso, ac-
crescentou o besouro, corre na
bocca do povo que um delles anda por cá, assolando estas para-
gens. E bem pode ser que esteja escondido justamente nesta cavema.
— Não creio, disse o peixinho. Tenho uma boa policia que me informa
dos menores passos desses monstros.
— Em todo o caso vejamos, disse prudentemente o besouro, sacudindo
dentro da “tóca” o seu bengalão :
- — Hu! Hu! Sae fóra, tinhoso!
Mas aconteceu que a bengala fez cocegas nas ventas da menina e
ella, por mais que se expremesse, não poude conter um grande espirro: “Atchin |”
8 4 MENINA DO

Os dois bichinhos,
pegados de surpreza, revi-
raram de pernas para o ar,
cahindo um grande tombo
no chão.
— Não disse? ex-
clamou o besouro, erguen-
do-se e limpando com a
manga o chapéo sujo de
terra. Não disse que havia
“coisa” ahi dentro? É a tóca
do Escorpião Negro, não
resta a menor duvida, e eu
com raças de ferrão vene-
noso não quero historias,
não! Até logo, amigo Es-
camado, sáre bem e seja muito feliz. Caspité!
E lá se foi pelos ares afóra, zumbindo que nem um aeroplano .. .

peixinho, porem, era um guarú valente que nunca teve medo de cucas,
O e porisso alli continuou firme, cada vez mais interessado em decifrar o
enigma. Pensou, pensou muito tempo, de mãosinha no queixo, e de
repente, vendo a boneca ao lado da menina, bateu na testa, numa grande
alegria:
— E esta! Pois não é que é Narizinho Rebitado, a nossa amiguinha
de todos os dias? Bello encontro! Vou convidala a visitar o Reino das
NARIZINHO ARREBITADO 9

Aguas Claras. Empertigou-se todo, arrumou a gravata e gritou no ouvido


della:
— O' de casa!
— Quem fala? respondeu Narizinho, fingindo não saber de nada.
— Sou eu, o principe Escamado, guarú de prata para te servir.
— E que queres tú, peixinho?
— Quero convidar a menina para conhecer os meus dominios, lá na
cidade das Pedras Redondas, no Reino das Aguas Claras.
Narizinho, que não desejava outra coisa, bateu palmas de alegria e
exclamou : Ê
— Com todo o prazer! Estou às tuas ordens, amavel principe das
Escamas de Prata.
Dizendo isto, ergueu-se,
deu-lhe o braço, e seguidos pela
Emilia, que, muito têsinha, ia
atraz feito criada, foram-se os
dois, como um casal de namo-
tados, em direcção ao Reino das
Aguas Claras.
Depois de muito cami-
nhar, chegaram a uma grande
pedreira, numa curva do ribeirão.
— A entrada do meu
reino é por aqui, disse Escamado,
apontando uma fuma entre as
pedras e dando a mão à menina
para ajudala a subir. Entraram.
Mas a escuridão era pelor que a
10, A MENINA DO

de uma noite sem estrellas, e Narizinho parou, cheia de medo. O peixinho


somu e disse :
— Os filhos dos homens só enxergam quando ha luz, mas os filhos
das aguas são como as corujas: — tanto vêem no claro como no escuro. E
puxou do bolso um vagalume de olhos accesos, pendurado num cabinho de
arame, À cavema clareou á luz da lantema viva, e Narizinho poude ver que
se achava n'um corredor
comprido, especie de tun-
- nel, com uma porta ao
fundo, fechada. Encostado
nessa porta estava um sapo
rajado, de espada à cin-
tura, capacete na cabeça
e lança na mão. Era o
guarda do palacio. Mas
dormia a somno solto, num
regalo!
— É isto! ex-
clamou o principe, furioso.
Pago a mestre “Agarra -
e - Não - Larga - Mais” cincoenta moscas por dia para me
tomar conta desta porta e assim que sáio o ladrão ferrame
no somno! Mas desta vez me paga! disse preparando-se para acordalo a
ponta
-pés.
— Não! Não! interveiu Narizinho. Vamos antes pregar-lhe uma
boa peça. Tiramos as armas desse dorminhoco e vestimol.o com a roupa da
Emilia. Imagine o espanto delle quando acordar! ai
Escamado achou optima a idéa e, pulando os dois de contentes, puze- d
NARIZINHO ARREBITADO nm

ram-se a despir o sapo, muito devagarinho ; depois amarraram-lhe à cintura o -


saiote de pintas vermelhas da Emilia, puzeram-lhe na cabeça a touca da boneca
e, em lugar da lança, um guarda-chuva. Ficou tão engraçado o pobre sapo que
a menina a custo continha as gargalhadas.
— Vamos acor-
dalo agora, disse Esca-
mado, pespegando-lhe um
formidavel pontapé na
bamiga.
— Hum! gemeu
o sapo, arregalando os
olhos e abrindo a bocca,
espantado de ver o principe
em companhia d'uma me-
nina desconhecida e d'uma
senhora boneca muito en-
vergonhada de achar-se em
fralda de camisa. Escama-
do, muito têsinho, engros-
sou a voz e ralhou:
— Bella cousa,
mestre Agarra. Vestido de mulher, você o guarda do palacio!
— Vestido de mulher? Eu? disse o sapo espantado.
— Mire-se neste espelho, disse o principe.
Só então o sapo percebeu a judiaria de que tinha sido victima. Ficou
apalermado, a olhar para o principe, para a menina e para o espelho, sem nada
| comprehender do caso.
— Agora, por castigo, disse o principe, em vez das cincoenta
12 A MENINA DO

moscas do nosso trato, vae engulir hoje cincoenta pedrinhas redondas, ouviu?
O sapo- derrubou um grande beiço, e foi encorujar-se a um canto,
muito desconsolado da vida, emquanto Narizinho ria a mais não poder.
Em seguida Escamado abriu a porta e, dando a mão à menina, introdu-
ziu;a numa grande sala onde havia um throno.
— E aqui a sala do govemo, onde dou audiencias aos meus subditos
e distribuo justiça, castigando os mãos e premiando os bons.
Sentou-se no throno e bateu, com um martellinho de prata, tres pancadas
num gongo de bronze: pom! pom! pom! Immediatamente surgiu um desta-
camento de grillos fardados sob o commando do capitão Gafonhoto. Perfilaram-se
todos e ficaram immoveis como se fossem de páu.
— Adeante-se! ordenou o principe. O capitão adeantou-se e veiu
postar-se em frente do throno.
NARIZINHO ARREBITADO 13

— Que novidades ha no reino? ) i !


— Poucas, Magestade. Houve um crime na Tóca Preta, A rã verdo-
lenga embriagou-se, e entrando em casa d'uma familia de baratas matou a ba-
rata-mãe,feriu gravemente a barata-pae e comeu todas as baratinhas-filhas.
— Mande enforcar a criminosa num galho do espinheiro grande.
Que mais?
— Corre noticia que o Escorpião Negro anda a rondar o reino,ládos
lados da Pedra Branca.
— Mã nova! exclamou o principe, franzindo a testa. O Escorpião é
o nosso peior inimigo. Precisamos reforçar as muralhas da fronteira. Que mais?
— Foram encontrados sem sentidos dois bagres amarellos, a boiar na
lagoa pequena. Recolhi-os à enfermaria e lá estão sob os cuidados do doutor
Caramujo, que receitou purgante e suadouro.
— É isso mesmo. Que mais?
— Saberá Vossa Magestade que é só.
— Perfeitamente, disse o principe. Faz-se mister agora que o reino
saiba da presença, entre nós, desta linda princeza de olhos negros, afim de que
o povo e a nobreza lhe prestem todas as homenagens. Quero uma grande
14 A MENINA DO

“festa como nunca houve igual. Avise a côrte e dê as ordens necessarias, mas
“antes de nada, mande vir o coche real. O capitão saudou militarmente e sahiu
acompanhado dos guardas.
Nao demorou muito e uma carruagem aPRfieceu à porta, puxada por
tres parelhas de lambarys.
Servia de cocheiro um bello camarão de libré vermelha, muito teso no
no alto da boléa. Mal o principe e a menina entraram na carruagem, maio
Camarão estalou o chicote e os lambarys partiram como raios. d

A ENFERMARIA

MQUANTO a carruagem corria pelo fundo do ribeirão, ia Narizinho


É admirando, atravez das vidraças, os bellos panoramas, as avenidas de
areia branca, as pedras redondas e os peixes que paravam respeitosa-
mente para vel-os passar. Em certo ponto a carruagem mudou de rumo, tomou
por uma tóca e foi parar ás portas do hospital. Era uma/grande sala, cheia
de camas e mesinhas
com vidros de reme-
dio. Estava lá o dou-
tor Caramujo, famoso
sabio do reino, e mais
algumas baratas en-
fermeiras, vestidas de
irmãs de caridade. O
principe chamou o me-
dico e pediu notícias
NARIZINHO ARREBITADO 15

dos doentes. Os dois bagres de barriga amarella estavam numa das camas,
embrulhados em tres cobertores, muito pallidos e suando em bicas. Escamado
tomou-lhes o pulso e viu que tinham febre alta.
— Queira Deus não batam as botas!... disse elle para Narizinho. O.
doutor Caramujo é um grande medico mas os doentes d'elle morrem todos...
Não tem sorte nenhuma...
Mais adeante, em outra cama, gemia o pae-barata, ferido mortalmente
pela rã verde.
— Como vae este freguez? perguntou o principe,
— Muito mal, respondeu Caramujo. Quebrou cinco pernas, rasgou uma
asa, e está todo arrebentado por dentro. Dei-lhe as pilulas de mestre Escara-
velho mas não tenho esperanças de salval-o.
— Já se confessou? indagou o principe.
— Confessou-se agorinha
mesmo e yae commungar neste ins-
tante. Ahi vem Frei Louva-a-Deos
com os sacramentos.
Nem bem pronunciara o
medico taes palavras, eis que entra
Frei Louva-a-Deos, acompanhado
dum mosquito coroinha. Era tão
triste a scena que Narizinho sentiu
vontade de chorar. O frade animou
o doente, falou da belleza do céo
e offereceulhe a hostia sagrada:
uma escamazinha de peixe. Nem
podia sentar-se na cama, o pobre.
Foi preciso que as irmãs enfermeiras
16 A MENINA DO

o erguessem pelos hombros


e ficassem all a sustelo.
O baratão moribundo en-
guliu a hostia, fez uma
careta, engasgou, tossiu e
morreu. ê
— Antes assim,
disse o medico. Si sarasse,
que triste vida seria a sua,
só no mundo, sem mulher,
nem filhos...
Todos concorda-
ram, enxugando cada um a
sua lagrima. O principe, depois de ordenar o enterro, perguntou a mestre Caramujo:
— E os outros doentes, doutor ?
— Os outros?... os ou-
tros morreram, respondeu elle um
tanto enfiado.
* Escamado piscou para a
menina como quem diz: “Vê?
ninguem escapa das mãos delle...”
e convidou-a a retirar-se. Antes
de sahir, porem, Narizinho espiou
pela janella e viu a rã assassina
pendurada pelo pescoçoa balan-
çar-se no: galho dum “espinheiro.
Teve dó, mas lembrando-se do
pae-barata moribundo, disse com-
sigo: — Bem feito!
NARIZINHO ARREBITADO 17

NO PALACIO REAL

E volta ao palacio real teve a menina occasião de visitar numerosas sa-


las, lindamente enfeitadas com avencas, samambaias e musgos de to-
das as cores. Viu tambem a bibliotheca, cheia de livros onde ossa-
bios escreveram toda a historia do reino. E lá estava, ainda, folheando-osum
,
por um, quando um grilo recadeiro veiu chamal-a para o jantar. Foi, sentou-
se à mesa ao lado do principe, e muito admirou o bom gosto com que tudo
estava arrumado, ; 5
— Artes das senhoras saúvas, disse Escamado. Sao ellas que colhe:
as florinhas do campo e enfeitam estes vasos.
Os pratos eram 4
lindas conchas côr de ro-
sa, e as terrinas, busios
de brilhante esmalte. Grnil-
los verdes serviam de cria-
dos e traziam da cozinha
os pratos em que um ca-
ranguejo gordo, de aven-
tal branco e gorra, ia
dando os ultimos retoques.
Veiu uma deliciosa sopa
de barbas de camarão, e,
depois, lombo de marisco,
filé de cigarra, entrecosto
de mãe-d-agua, omelete
18 É A MENINA DO

de ovos de tainha. Para a sobremesa trouxeram mel de jity em petalas de


magnolia, e mil outras preciosidades.
Emquanto jantavam, uma excellente orchestra de cigarras, piuns e per-
nilongos, afinadissimos, executava lindas musicas compostas pelo maestro Sabiá-
do-campo. Vieram depois os dançarinos tangarás e dançaram graciosos bailados.
Em seguida appareceu um papagaio real que tinha fama de orador.
Subiu á tribuna de um poleiro de ouro e fez um bello discurso a respeito
da arte de falar. Nesse discurso provou que os homens tinham aprendido a
falar com os papagaios, e não os papagaios com os homens, como diz a
sciencia destes. Uma chuva de palmas acolheu suas palavras.
O mesmo não aconteceu, porem, com a poetiza Lagartixa, que prin-
cipiou a recitar uma longa poesia e engasgou no meio, acabando o recitativo
em chõro e faniquito. Para destruir essa má impressão vieram tres vagalumes
magicos que fizeram varias sortes, sendo muito apreciada a sorte de comer
fogo.
NARIZINHO ARREBITADO 19

Narizinho, encantada,
batia palmas a cada novidade
e riase muito das graças e
*micagens que o bôbo da côrte
fazia, Este bôbo era o carun-
cho Carlito Pirolito, um cor-
cundinha pegado dentro dum
caroço demilho e criado pe-
lo principe para divertir a
côrte. Durante o jantar sen-
tou-se de Narizinho e
não parou de fazer diabruras
e molecagens o tempo todo.
E assim correu a alegre refei-
ção, deixando no espirito da me-
nina recordações inesqueciveis.
Logo que saiu da me-
sa recolheu-se Narizinho ao
quarto afim de preparar-se para o baile da noite. Para servika encontrou lá
Dona Aranha, a melhor costureira do reino, e tambem varias mucamas for-
migas. Dona Aranha adeantou-se e disse respeitosamente:
— Quer a menina examinar nossa collecção de vestidos de baile?
— Com muito gosto, respondeu Narizinho, encantada.
As formigas, incontinenti, abriram os guarda-roupas, delles retirando uma
porção de vestidos luxuosos, cada qual mais lindo. Um era feito de céo
azul todo enfeitado de estrelinhas. Outro, de petalas de rosa com entremeio
de myosotis. O que mais encantou Narizinho, porem, foi um vestido de cauda,
feito de teia de aranha e enfeitado com diamantezinhos de orvalho.
20 A MENINA DO

Não podia haver coisa mais


linda e Narizinho bateu palmas de
alegria, deixando a aranha toda cheia
de si porque esse vestido era intei-
rinho obra della; ella mesma fabri-
cára o fio, tecera a gaze e ella
mesma o cosera.
— Vejo que a menina tem
muito bom gosto! disse a aranha
lisonjeada. E, linda como é, si fôr
com elle à festa, certamente que
será a rainha da noite.
E poz-se a vestila, deante

de um espelho de prata. Penteou-lhe o ca-


bello á moda do reino, calçoulhe nos
pés lindos escarpins de ouro e, nas mãos,
luvas fabricadas com pellica de pecego.
Deu-lhe depois um maravilhoso leque
bordado a raios de sol sobre asas de
mãe-d'-agua.
Narizinho não cabia em si de
NARIZINHO ARREBITADO 21

gosto e mirando-se, ao espelho, duvidava dos proprios olhos:


— Serei eu mesma ou uma fada das Mil e Uma Noites?
Quando julgou que já estivesse prompta veiu a Aranha com varios
cofres cheios de diademas, collares, anneis e braceletes capazes de dar inveja
ás mais opulentas princezas do mundo.
Narizinho escolheu as mais lindas e assim recamada de ouro e brilhantes
ficou a scintillar como um sol.
— Está “quasi” prom-
pta, disse a Aranha.
— Quasi? disse Na-
rizinho, sorrindo. Pois falta ain-
da alguma cousa?
A aranha respondeu
mandando vir escrinios com
pó das asas das mais raras
borboletas e polvilhou-a in-
teira de azul furta-côr. Que
maravilha! O proprio espelho
chegou a abrir a bocca, es-
pantado de tanta formosura.
Subitamente a porta abriu-se e appareceu o principe.
— Senhora, disse elle, a côrte reunida no grande salão aguarda an-
ciosa a rainha da festa. Vinde!
E, dando-lhe a mão, conduziu-a com grande cerimonia ao baile.
Mal Narizinho entrou, pela sala real correu um murmurio de admira-
ção, muito explicavel, visto como jamais apparecera em Aguas Claras creatura
assim tão deslumbrante. E começaram a cochichar que com certeza era a pro-
pria Fada dos Rios que se encamára na menina. Algumas damas chegaram
22 4 MENINA DO

a morder os labios de inveja quando Narizinho passou á frente delas, pelo


braço do principe, em direcção ao throno. E uma feia barata descascada,
amarella de inveja, murmurou ao ouvido de uma besoura de pernas cambaias,
torcendo 'o nariz:
— Nem porisso !...
Mas um gentil grillinho verde que estava atrás ouviu o desabafo da invejosa
e castigou-a, ferrando-lhe uma temivel den-
tada na pema secca. A barata gemeu de
dôr mas aproveitou a lição, ficando bem
caladinha o resto da noite. 25
A sala estava que era um céo
aberto. Em vez de lampadas havia no
tecto, pelas paredes e pelos vasos, formo-
sos buquês de raios de sol colhidos pela
manhã. Flores em quantidade, lindas flo-


DS
pi
nd
aS
aic
NARIZINHO ARREBITADO 23

res do campo, arrumadas em fes-


tões pelas senhoras abelhas. Em
redor da sala, sentada em cadei-
rinhas de madreperola, a nobreza
da côrte, em trajes de gala, espe-
rava as ordens do principe.
Havia de tudo. Besouros
sérios, de oculos e casaca preta.
Baratinhas de mantilha, com myo-
sotis no cabello. Abelhas doura-
das, muito finas de cintura, com
laços de fita nas asas. Moscas
azues; rãs de todas as côres; lin-
das mães-d-agua de corpo esguio
e leves como bailarinas; camon-
dongos de collete branco e sapa-
tos de fivella; borboletas com tou-
cadinhos de gaze; mariposas, ma-
24 A MENINA DO

E mangavas... Havia ainda peixes de


Aid todos os formatos, caranguejos cas-
; cudos que só andam de lado; ca-
marões que se atrapalhavam com tantas pernas; mariscos de casca aberta co-
mo livros; caramujos que carregam a casa ás costas e andam apalpando o
caminho com as trombas. Havia até um velho kagado de olhinhos pretos e
casca envemnizada de novo.
A orchestra era composta de cigarras e passarinhos miúdos: canarios,
pintasilgos, papacapins, corruiras, viuvinhas. A” frente della estava, de batuta
no bico, um sabiá-do-campo, maestro de fama. Essa orchestra executou as
musicas mais lindas do
mundo, fados de rouxinol,
canções de patativa, bar-
carolas de Martim-pesca-
dor. Uma lindeza!...
Afinal o principe
deu ordem para a qua-
drilha. A orchestra rom-
peu uma composição do
maestro Colleirinha e os
cavalheiros principiaram a
NARIZINHO ARREBITADO EE)

tirar as damas. Quem marcava era um faceiro tangará, famoso mestre sala
da côrte. Narizinho, sentada no throno, estava doidinha por dançar. Mas a
quadrilha passou-se e ninguem veiu tirala. Logo depois, entretanto, a orches-
tra rompeu a Valsa Real e o principe, levantando-se, disse á menina:
— É chegada a nossa vez. Quer dar-me a honra desta valsa ?
) Narizinho, que não queria outra cousa,
desceu “do throno e nos braços do principe
rodopiou pela sala em gyros tão velozes que:
mais parecia um pião vivo. O kagado vendo
aquilo cochichou para o caramujo: Si aquel-
le foguetinho te tirasse para dançar, que seria
de ti, compadre?
26 4 MENINA DO

Respondeu o caramujo:
— Talvez me sahisse melhor do que um cascudo da tua marca! E
cada um riu-se lá por dentro da triste figura que faria o outro, porque no
reino dos animaes, bem como entre os homens, ninguem se conhece.
Terminada a valsa Narizinho voltou para
o throno e assistiu a uma polka dançada por um
caranguejo e uma tatorana vermelha, muito gor-
da, de grande faixa de gorgorão na cintura.
Apesar do respeito devido ao principe,
a corte riu-se a mais não poder, e Narizinho che-
gou a perder o folego. Porque não havia nada
mais comico do que o senhor caranguejo a pu-
lar passos de polka nos braços da senhora tato-
rana, que suava em bicas numa grande afobação.
Quando a musica parou, a dama nem suster-se em pé podia, de tão cançada,
e foi preciso carregarem-na a braços e entregala aos cuidados do doutor Ca-
ramujo. Depois desse comico incidente, surgiram na sala as bailarinas libeli-
nhas. Uma azul, outra vermelha, outra verde esmeralda, todas muito leves-
e nervosas, começaram a bailar, treme-tremendo as lindas asas transparentes.
Tão vivos e rapidos eram seus movimentos que aquillo mais parecia um bai-
lado de raios de luz viva-
mente coloridos.
Foi um deslumbra-
mento. E estavam todos no
maior encanto, suspensosno
ar pela admiração, quando
se ouviu barulho d'umã cor-
reria em frente do palacio.
NARIZINHO ARREBITADO 27

Eram “os grilos da guarda que entravam espavoridos e pallidos de terror.


— O escorpião negro! annunciaram elles, arregalando os olhos.
— O escorpião!... repetiram aterrorisados os convivas.
Foi o mesmo que annunciar a peste. As damas nervosas cairam para
trás, desmaiadas; outras treparam em cima das cadeiras, gritando de pavor.
A tatorana, com ataque de nervos, tombou desacordada nos braços do Caran-
guejo. O kagado fechou-se dentro da casca. Os caramujos encolheram-se
dentro das conchas. E bichinho de asa não ficou nenhum que não voasse
para o tecto. E

Era tempo. O horrendo Escorpião Negro assomou á porta, do pa-


lacio, de ferrão arreganhado. Parou. Bufou de colera e correu pela sala um
olhar de desafio.
— Quem é essa pequena humana que ousa penetrar no reino dos
animaes? disse elle trincando os ferrões.

za
a “ae
28 A MENINA DO

Depois, vendo Narizinho de pé no espaldar do throno, pallida de es-


panto e muito atrapalhada com o seu vestido de cauda, arreganhou um sor-
riso feroz, marcou-a bem e investiu contra ella.
Um grito de horror encheu a sala, e todos os olhos se fecharam pa-
ra não ver a catastrophe. O Escorpião Negro avança, gingando o corpo. Es-
tá já a um metro da menina. Um passo mais
ea alcançará com o seu venenoso ferrão.
Narizinho, desvairada, olha para o
principe, implorando soccorro. Era sua ultima
esperança.
Escamado não vacila um momento:
arranca da espada e atira-se contra o monstro.
Trava-se um medonho duel-
lo. A fera lança successi-
vos botes de ferrão mas o
principe apara-os com a es-
pada, e depois de muitos
golpes consegue acutilar a
cabeça do inimigo. O Es-
corpião solta um berro de
dor e investe com redo-
A brada furia.
J Todos tremem pelo
principe que corre sério pe-
rigo pela desigualdade das suas forças com as de um monstro daquelle
porte. Mas o principe defende-se com heroismo, arremessando golpes sobre
golpes à cabeça do Escorpião, embora já se sentisse cançado. E a lucta ter-
minaria de um modo tragico si um facto assombroso não viesse mudar a si-
NARIZINHO ARREBITADO “29

tuação. E foi que no melhor da batalha surgiu inesperadamente da cozinha


uma bruxa de panno, armada de um espeto de assar lombo de porco.
— Emilia!... gritou Narizinho, que desde o caso do sapo, no dia
da chegada, esquecera completamente a sua querida boneca.
Emilia, em fraldas de camisa, avançou para o Escorpião e zás! zás!
fura-lhe os dois olhos
num relance. O mons-
tro dá tamanho urro que
o palacio estremece, e
depois rebola-se no chão
espumando de colera e
dor. Hurrah! Estava
ganha a batalha, gra-
ças ao espeto da estra-
nha creatura em fraldas
de camisa.
— Quem é?
quem é? interrogavam de
todos os lados os bichinhos numa grande curiosidade de saber quem era a exo-
tica heroina. Narizinho saltou do throno e veiu para ella de braços abertos.
— Perdoa, boa Emilia, ter-me esquecido de ti! Mas deixa estar
que pedirei ao principe que te faça condessa desta côrte
— e abraçou-a, cho-
rando. Em seguida dirigiu-se ao principe e beijou-lhe as mãos em agradeci-
mento por haver arriscado a sua preciosa vida por amor della. Foi uma scena
commovente. Mas, apesar da gravidade do momento, a barata invejosa es-
plou si o grillinho verde não estava perto e disse ao ouvido da besoura:
— Vae ver que isto inda acaba em casamento...
E suspirou. Coitada! Eram ciumes. Apesar de velha e feia essa
30 A MENINA DO

barata solteirona não perdera nuncaa esperança de casar com o principe.


A coróca não se enxergava...
A festa parou ahi, Os convidados recolheram-se às suas casas, inda
assustados, emquanto cincoenta saúvas possantes
arrastavam o Escorpião para fóra. Bem que es-
pemeou elle, mas lá foi parar num carcere de pe-
dra, com uma corrente de [Link] pescoço!...
— Bufa agora, ladrão! disse um gril-
lo da guarda fincando-lhe um valente pon-
ta pé no focinho.
— Alto lá! gritou o
Capitão. É prova de covardia
bater nos inimigos que não po-
dem defender-se. E mandou
fechar a entrada do carcere
com uma pedra pesada para
evitar que o povo lynchasse o
prisioneiro.

DEPOIS DA FESTA

O dia seguinte Narizinho e Emilia levantaram-se tarde e almoçaram na


N cama servidas por criadas abelhas, muito galantes em suas toucas en-
tiotadas. Estavam ainda nervosas do grande susto da vespera. O dou-
tor Caramujo receitou-lhes Biotonico, recommendando passeios pelo campo.
Narizinho, depois de tomar o remedio, saiu em companhia de Dona Aranha
NARIZINHO ARREBITADO 31

e passeou durante uma


bôa hora pelos jardins
do palacio, emquanto
as saúvas experimen-
tavam vestidos em
Emilia. A menti
na pediu noticias
do principe. Disse-

outros monstros. Narizinho sus-


pirou de saudades e disse:
— Vou confessar-te,
amiga aranha, o meu grande
segredo. Desde hontem que
me sinto apaixonada pelo prin-
cipe... Disse e corou. A Ara-
nha sorriu-se e respondeu:
— E elle muito me-
rece o amor da menina, por-
que não existe no mundo in-
teiro principe mais valoroso.

498
Meu desejo é que se casem
porque do contrario o principe
é capaz de engraçar-se d'al-
32 A MENINA DO

guma barata e o reino soffreria a vergonha de ser govemado por uma rainha
que volta e meia perde a casca...
E assim, conversando, caminhavam as duas pelas alamedas muito lim-
pinhas e bem arrumadas do jardim. Todas as manhãs as formigas corriam
o parque inteiro catando todos os cisquinhos, aparando os gramados e dei-
xando tudo que era um primor. Havia um lago à beira do qual pararam,
mirando-se no espelho liquido. Estavam pensativas ambas: Narizinho com sau-
dades do principe e a Aranha com saudades das sessenta filhas papadas por
mestre sapo. Nisto ouviram um gemido a certa distancia. Approximaram-se.
Era mestre Agarra que ali gemia com uma barriga enorme estufada de
pedrinhas.
— Ai de mim, chorava elle, que não posso nem andar!... Menina
dos cabelos de
ouro, tenha dó
deste pobre sapo
e peça ao prin-
cipe que me per-
dõe!...
Narizinho
tinha bom cora-
ção e, compade-
cida da miseria
do infeliz animal,
prometteu inter-
vir em seu favor.
— Veja,
disse ella à Ara-
nha, este coita-
NARIZINHO ARREBITADO 33

do está pagando o crime de ser dorminhoco. Foi castigado só porque não


poude resistir no somno ...
— É bem feito, respondeu a aranha. Quem o mandou comer as
minhas sessenta filhas2
— Então, disse Narizinho, aqui neste reino, um pilhando o outro de
geito é zás, para o papo?
— Isso mesmo, minha filha, tal qual entre os homens, que são uns
urubús comedores de came de cadaveres.
Narizinho espantou-se
muito com a idéa que os bi-
chos faziam dos homens e quiz
desmentir a aranha. Mas não
poude porque a aranha a in-
terrompeu dizendo :
— São urubús, sim,
e comem cadaveres de
animaes. Já tive minha
teia num açougue da
cidade e todas as noi-
tes via chegar um car-
roção cheio de cadave-
res de bois, cameiros e
porcos esfolados, que
um homem, chamado
açougueiro, todo sujo
de sangue, vendia aos
pedacinhos ás criadas
de cesta.

(Ea “a
Ea
(3
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=
34 A MENINA DO

“Narizinho calou-se porque era bem verdade aquilo...


Nisto soaram tambores e clarins ao longe. Era o principe que volta-
va à frente duma guarda de grillos. O coração de Narizinho bateu apressado.
-— Salve! disse o principe logo que viu a menina. Salve a senhora
do meu coração!
— Si sou a senhora do teu coração, respondeu ella, quero pedir-te
undiaia *
— — Ordene que será ein ida,disse o principe.
— Quero o perdão de mestre Agarra, declarou Narizinho, que alli
está gemendocom as cincoenta pedras na barriga.
O principe concedeu a graça pedida e ordenou que chamassem o
doutor Caramujo para extrahir as pedras. Veiu o doutor com a sua maleta
de cirurgião. Examinou o sapo empanturrado, apalpou, ergueu os oculos para
a testa e disse:
— E preciso abrir-lhe
uma “casa” na barriga.
— Pois abra, ordenou
o principe.
O doutor Caramujo ar-
regaçou as mangas, pôz o aven-
tal e, ajudado por varias formi-
gas, deu começo á operação.
- O sapo foi posto de costas,
com a barriga para o ar, e as
saúvas, com os afiados ferrões,
abriram nella um córte. De-
pois entraram pela abertura a
dentro e foram tirando uma
sd

NARIZINHO ARREBITADO 35

por uma as cincoenta pedrinhas do castigo. Quando saiu a ultima, mestre


Agarra deu um grande suspiro de allivio. Reunidas as pedras e feita lá den-
tro uma limpeza, o medico tratou de costurar o córte. Para isso uniu as bei-
radas da “casa” e mandou que as formigas ferrassem alli o ferrão, de modo
que cada ferrotoada era
um ponto. E assim deu
trez pontos, ficando trez
formigas agarradas á bar-
riga do sapo. Depois o me-
dico tomou uma tesoura e
foi guilhotinando as formi-
gas, de geito que só f-
cassem na pelle do sapo
as cabeças das coitadas.
Mestre Agarra a-
gradeceu ao doutor o ser-
viço e, afim de não per-
der tempo, foi chamando
para o papo os corpos
das tres formigas degoladas que esperneavam no chão. Era um grande pande-
go, este mestre Agarra!
Terminada aquella curiosa operação, Narizinho continuou o seu passeio
com Dona Aranha, recolhendo-se mais tarde muito satisfeita comsigo por ter
salvado a-vida a uma pobre creatura de Deos, condemnada a um supplicio
doloroso pelo simples facto de ser dorminhoco.
— Amiga aranha, disse ella, o principe perdoou ao pobre sapo.
Perdoas tambem? :
— Nunca ! respondeu a aranha, Não posso esquecer dos meus filhos...
ad ;

36 A MENINA DO

A FESTA VENEZIANA

ESSA noite houve uma pequena festa noctuma nos jardins do palacio.
Pelas avenidas de areia muito alva perfilavam-se vagalumes immoveis,
de olhos arregalados como tochas, servindo de lampiões. No lago,
pequenas rás serenatistas coaxavam, compassadamente, o “Noctumo do Luar”,
acompanhadas do cricri de milhares de grillinhos. O principe deu uma volta
pelo jardim em companhia da menina e depois a convidou para um passeio de
gondola. Lá se foram, na gondola de madreperola, remada por doze cavallos
marinhos. 4
E vogaram sobre as aguas, embalados pelos formosos versos que
uma libelinha poetisa recitava ao som -de pequenina harpa tangida por mestre
Louvya-a-Deus.
NARIZINHO ARREBITADO 37

De volta desse lindo passeio o principe convidou-a para voar.


— Até aeroplanos ha por aqui? perguntou a menina, espantada.
— E mais seguros que os aeroplanos dos homens, vaes ver, respon-
deu o principe. k
Apesar do medinho a menina encheu-se de coragem e acceitou o convite.
Veiu logo um aerogrillo. Era um grillão verde, que trazia nas costas
a barquinha de vime e na cabeça dois insectos, um besouro e um vagalume.
Este vagalume, com os seus grandes olhos phosphorescentes, servia de pharol
ao aeroplano e o besouro estava all para zumbir, fingindo o barulho da he-
lice, Narizinho achou muita graça na engenhosa invenção e trepou á barqui-
nha sem medo. O besouro zumbiu e o aerogrillo disparou como um raio pe-
los ares afóra. Subiram, subiram, subiram tão alto que a terra de lá parecia
uma laranja, Atravessaram nuvens, chegaram muito pertinho da lua, que a me-
nina teve o gosto de tocar com a pontinha do dedo. E só desceram quando o sol
vinha raiando.

A TRAMA

A noite desse
N dia estava
Narizinho
no melhor do somno
quando acordou com

uma batida na ja-


nella.
— Toc!... toc!...
soe

38 A MENINA DO

— Quem é? disse el-


la, pulando da cama, tremula
de medo.
— Boa noite, bella prin-
ceza, respondeu uma voz conhe-
cida. Tenho um segredo a te
revelar.
Erao sapo. Narizinho res-
Rig
pirou aliviada e, abrindo a janel-
la, perguntou-lhe o que desejava.
— Tu me salvaste a
vida, respondeu o sapo, e eu
quero salvar a tua. Escuta lá.
Depois que me tiraram as pe-
drinhas da barriga, eu sahi do
jardim e fui encorujar-me num
as canto escuro para sarar da cor-
tadura com todo o meu socego,

procurando para esse fim uma tóca de pedra. Achei uma tóca a meu geito,
e lá estava a cochilar quando á meia noite ouvi rumor de vozes ao lado,
Como sou muito curioso, encostei o ouvido a uma fresta e puz-me a escutar.
Essa fresta ia ter ao carcere do Escorpião Negro. A principio me pareceu
que o monstro cego falava comsigo mesmo. Mas não era assim. O monstro
conversava com o capitão da guarda, cuja voz conheço muito bem. Estavam
conspirando contra o principe, e muito tempo levaram combinando os planos
duma revolta afim de matar o principe e enforcar todos os nobres do reino.
Combinaram tambem que subiria ao throno o Escorpião cego, sendo Narizi-
nho obrigada a casar com elle.
NARIZINHO ARREBITADO 39

A menina,- mal ouviu aquilo, te-


ve um chilique, e mestre Agarra viu-se
em apuros para despertala com bomifos
d'agua fria. Quando Narizinho voltou a
si o sapo disse:
— Vamos, menina!
Nada de fraquezas. É preciso
avisar o principe emquanto é
tempo.
Narizinho, com lagrimas
nos olhos, agradeceu o aviso do
sapo e sahiu correndo em direc-
ção aos aposentos do prin-
cipe. Lá bateu na porta,
furiosamente. O principe,

assustado, pulou da car


ma de espada na mão e
vendo em sua frente Na-
rizinho em camisola, mais
espantado ficou ainda.
e! D epressa,

principe! Estão conspi-


rando contra a nossa vi-
dal... disse ella. E des-
fiou toda a historia con-
tada pelo sapo. O prin-
cipe ouviu tudo em si-
40 A MENINA DO

lencio, de cara amarrada. E, depois de meditar uns momentos, disse com


grande calma:
— Estou acostumado à lucta e sei defender-me. Volta para o teu
quarto e dorme socegada que esta noite mesmo castigarei os criminosos.

O CASTIGO

OGO ao clarear do dia Narizinho pulou da cama, afflicta por saber o


que tinha acontecido, e soube o seguinte. O principe, assim que a
menina se recolheu, tomou as armas e dirigiu-se ao corpo da guarda,
pé ante pé. E pelo
buraco da fechadura
descobriu o capitão
em conferencia com
dois grillos trahidores.
— Vocês,
dizia elle, vão agora
ao palacio, sobem pela
janella, entram no
quarto dó principe, e
amarram-no á cama,
emquanto eu vou com-
binar com o Escorpião
o resto da festa. Va-
mos! Toda a caute-
la é pouca !..
is

NARIZINHO ARREBITADO 41

Nem bem o prin-


cipe ouviu aquilo e já
voltou correndo para o
seu quarto. Entreabriu a
janella por onde os tra-
hidores haviam de entrar
e collocou em baixo uma
gaiola de alçapão, de
modo que quem pulasse
para dentro cahiria prisio-
neiro. E ficou esperando.
D'ahi ha pouco ouviu vo-
zes abafadas do lado de fóra e logo em seguida tres cabeças que assoma-
vam á janella, muito resabiadas. Os conspiradores pararam um momento á
escuta. Depois, certos de que o principe dormia a bom dormir, saltaram para
dentro e... cahiram presos na gaiola!
O principe incontinente agarrou um cadeado e trancou bem trancadi-
nha a porta da gaiola. Os grilos, de tão assombrados, estavam de bocca
aberta sem poder falar. O principe não disse nada. Sahiu do quarto e foi
acordar um grilo fiel, dizendo-lhe :
— Vá procurar o capitão da guarda e diga-lhe baixinho ao ouvido:
— “Os tres emissarios te mandam dizer que o “negocio” está feito, mas
que precisam da tua presença no quarto do principe”. Diga isso baixinho e
suma-se |
O grilo recadeiro lá foi em procura do capitão e encontrou-o ron-
dando o carcere do monstro. Approximou-se e repetiulhe no ouvido o re-
cado. O capitão quiz perguntar mais coisas, mas quando abriu a bocca já o
mensageiro tinha sumido.
42 A MENINA DO

— Muito bem! exclamou elle. O tyranno já


está seguro! Vou lá agora e com as minhas proprias
unhas arranco-lhe os figados. E esfregando as mãos
foi correndo para o palacio.
Viu a janella do quarto do
principe aberta e subiu pela
escada que os outros haviam
deixado. Chegando ao ul-
timo degrão pulou para den-
tro do quarto. Mas antes de
alcançar o chão sentiu uma
dor no peito. Ai! ai! gr-
tou. Era o principe que o
RE nd
ecc rats 2 tinha varado no àr com a
sua terrivel espada.
— Miseravel! Toma, para justo castigo da tua deslealdade! disse o
principe cortando-lhe a cabeça com um novo golpe de espada. O corpo do
capitão pererecou no tapete uns instantes, ao lado da cabeça, em cujo olhos
estava gravado o espanto pelo imprevisto desenlace da conspiração.
O principe, embainhando a espada, chamou alguns soldados fieis
para que levassem dalli a gaiola com os tres trahidores.
— Ponham dentro, junto com estes trahidores, o Escorpião, amarrem
em cima da gaiola uma grande pedra e lancem-na ao lago.
Os guardas assim fizeram e o monstro, em vez de casar com Narizi-
nho e subir a um throno, foi morrer afogado no fundo da lagõa ...
— Bem feito! disse a menina quando soube do castigo. Assim mor-
ra toda a raça dos trahidores! E foi correndo dar parabens ao principe vic-
torioso, que a abraçou e a beijou na testa, commovido.
NARIZINHO ARREBITADO 43

— Salvaste o meu reino. Em recompensa vaes receber e corôa de


princeza e sentar-te no throno, ao meu lado, como a mais adorada das espo-
sas, disse pondo-lhe no dedo o annel de noiva.
Narizinho sentiu uma alegria immensa e, toda perturbada, ia responder,
quando uma voz conhecida a despertou:
— Narizinho, vovó está chamando!
A menina sentou-se na relva, esfregou os olhos, viu o ribeirão a des-
lisar como sempre e lá na porteira a tia velha de lenço amarrado na cabeça.
Que pena! Tudo aquilo não passara dum lindo sonho...
DA “REVISTA po BRASIL,
NEGRINHA, oontos por Moxterro Lonaro a$do assoo
o» parMorrriçnd LOBATO,
ago
NORIAS cantos por osrenso
2a dio NE
lit porMos-
DBNTO,A edi o
MERIDIONARS DO BRA-
tsnudo do sotiologia. por 3%.
A VINNSAS 47
PROFESSOR JEREMIAS, E is: Vat,
VIDAS3 NONE DE GONZAGA DE SÁ,
romanbo por LIMA BanniTo º
TAVRO DE HORAS SORDR DOLOROSA,
poesia poe GRILINRMI DE Alina
ALMA OABDEIAS versos do Pavio fre
TOMAS adição o 5 5
ADIAR DE GUERRA DE SERTÃO, tu.
ferem bra polo, VISCONDE Da
AUNAV 22»
MADAME: PONMBRY, romano tg,
por Piano Paura e
BRASIL CON 8 OU COM Z pus E: As
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VIDA OCTOSA, semanoépor“Qomornno
Raxont, voa nor Y ;
08 OAHOOLOS, contos vorVisonino
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HISTORIAS DA NOSSA. nr
Visio QORnhAr,
PR Por APRARIÓ Piixoro, Cam-
intbeos. Atnvarênaue
É E Pnaão Conuiha
PEDIDOS AOS lipirônrs.

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DA SA Ro é
S/PAÚLO q pt dido

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