o Reconhecimento Do Direito Fundamental
o Reconhecimento Do Direito Fundamental
190 p.
ISBN 978-85-65604-20-8
DOI 10.1111/9788565604208
1. Palavras chaves.
CDD 341.2
3
CAPÍTULO 7
Abstract: The present work aims to discuss the exercise of the fundamental right to
strike by public servants in Brazil. It analyses the legislation on the issue that, first,
ignored the existence of such a right, then forbid it and, finally, recognized its
exercise in the Brazilian Constitution of 1988. Furthermore, it will present the different
viewpoints debating the effectiveness of article 37, VII, of the Constitution. This essay
will finally comment on the Brazilian Supreme Court (STF)’s decisions of claims, in
the period when there was no specific legislation recognizing public servants’ right to
strike, and the perspective of the enforcement of this fundamental right.
129 1
Graduada em Direito pelo Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA), Especialista em Direito
Processual Civil pelo Instituto de Direito Romeu Felipe Bacellar e Mestranda em Direitos
Fundamentais e Democracia pela Unibrasil. Advogada nas áreas de Direito Administrativo e
Previdenciário, sócia do escritório Rafanhim, Souza e Rosa Advogados Associados, integra a
assessoria jurídica do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Araucária (Sismmar), do
Sindicato de Servidores Públicos do Município de Curitiba (Sismuc) e do Sindicato dos Servidores
Estaduais da Saúde do Paraná (Sindsaúde-PR)
130
Advogada, sócia fundadora do escritório Campos e Domingues Sociedade de Advogados, Belo
Horizonte-MG, Brasil. Graduada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Mestranda em Direito Administrativo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Coordenadora-Geral Discente do Programa Universitário de Apoio às Relações de Trabalho e à
Administração da Justiça da UFMG (Prunart-UFMG). Integrante da Comissão de Direito Sindical da
Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Minas Gerais (OAB-MG).
137
Keywords: Fundamental right of strike; Public servants; Brazilian Constitution of
1988;. Brazilian Supreme Court; Decisions.
Introdução
131
MOREIRA NETO bem ilustra a visão unilateralista e organicista da função pública: “Pelo sistema
institucional estabelece-se um vínculo legal, cria-se um status para o servidor público, que implica em
direitos e deveres, tornando-se, de certa forma, aquele titula de um cargo público, uma parte da
Administração Pública, sua expressão física, através do qual realiza-se a ação executiva do
Governo”. (MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Regime jurídico único dos servidores públicos
na Constituição de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 1990, p. 34-35)
138
2 O direito de greve na história e a sua vedação aos servidores
públicos no Brasil até a Constituição Federal de 1988
Mas não basta que os trabalhadores envolvidos sejam livres para que se
possa verdadeiramente chamar seu movimento de greve. Maildes Alves de MELLO
afirma que há, entre alguns autores “confusão da rebelião de escravos com
movimentos paredistas ou com manifestações nitidamente políticas e sociais” 135.
Destaca, também, a ocorrência de greve no Egito Antigo, de caráter religioso, isto é,
uma greve contra os deuses, e, já em 1440 e em 1330 a.C., registra a ocorrência de
greves contra as autoridades faraônicas. Mas afirma que só se pode
verdadeiramente falar em greve quando existe, além da liberdade dos trabalhadores,
o “fator psicológico de classe”, de modo que só configura como greve, segundo
MELLO, os movimentos ocorridos a partir do século III d.C., no Império Romano e
durante a Idade Média.136
132
VIANA, Segadas. Greve. Direito ou Violência? São Paulo, Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos.
1959.p. 17
133 5
CERNOV, Zênia. Greve de servidores públicos. São Paulo: LTr, 2011. p. 13.
134
ROBOREDO, Maria Lucia Freire. Greve, lock-out, e uma nova política laboral. Rio de Janeiro:
Renovar, 2006. p. 65
135
MELLO, Maildes Alves de. A greve no direito positivo brasileiro. Porto Alegre: Síntese. 1980?.p.
17.
136
Ibidem,p. 18.
139
consequente alargamento das desigualdades, formando duas classes com
interesses antagônicos: a capitalista e a proletária.”137
Isto nos leva a observar que, em âmbito mundial, a posição do Estado frente
às greves passou por três períodos ou fases típicos, embora com pequenas
diferenças de um país para outro, sendo um período ou fase de proibição, um de
tolerância e um de reconhecimento, conforme a exposição de Bento Herculano
Duarte Neto.141
Inicialmente, o Estado via a greve como “um fato social contrário à soberania,
comparando-se a mesma a uma guerra entre nações.”142 E assim é que, após a
Revolução francesa, o Estado burguês, sentindo-se ameaçado pela greve, a proibiu,
atitude que, segundo Duarte Neto, foi “um ato, mais que espúrio e repugnante, por
demais contraditório, uma vez que as elites então dominantes tinham chegado a tal
condição justamente empunhando, como bandeira principal de luta, a ampla
liberdade do cidadão.”143 O autor explica, ainda, que, quase que de forma
automática, proíbe-se o associativismo dos trabalhadores, pois este normalmente
137
CERNOV, Zênia. Op. cit. p. 13.
138
VIANA, Segadas. Op. cit. p. 26-31.
139
Ibidem, p. 31.
140
MELLO, Maildes Alves de. Op. cit. p. 20.
141
DUARTE NETO, Bento Herculano. Direito de greve: aspectos genéricos e legislação brasileira.
São Paulo: LTr, 1992. p. 28.
142
Ibidem, p. 29
143
Idem.
140
precede a greve.144 Apesar disso, ressalta que, na prática, as greves continuaram a
ocorrer.
Duarte Neto explica que esta fase “foi um mero estágio preparador da
instituição do direito de greve”147, da chamada fase do reconhecimento. Isto porque
“a condição política mundial, considerada como um todo, não permitiu uma
passagem direta, do delito ao direito”148, tendo sido necessária a passagem pelo
estágio intermediário de mera tolerância à greve.
No Brasil, esta trajetória foi parecida, mas fez algumas curvas, devido à
sucessão de regimes, em especial ao período de ditadura militar. E isto fica muito
claro a partir da análise da história constitucional brasileira.
144
Ibidem, p. 30-31.
145
Ibidem, p. 33
146
Idem
147
Idem
148
Ibidem, p. 34.
141
As duas primeiras Constituições brasileiras, a de 1824 e a de 1891, já no
período republicano, sequer mencionaram o tema das greves. Apesar disso, ele já
era tratado pela legislação infraconstitucional nestes períodos. Zênia CERNOV se
refere a “um curto período de proibição”149, no ano de 1890, quando entrou em vigor
o Código Penal que caracterizava qualquer greve como crime, até mesmo as
pacíficas. Pouco tempo depois, o Decreto n.º 1.162/1890, passou a criminalizar
apenas a violência quando do exercício da greve, pois, segundo Marcio André
Medeiros Moraes, “era incoerente dar à greve tratamento penal, quando o princípio
político reinante era o liberal”150.
149
CERNOV, Zênia. Op. cit., p. 16
150
MORAES, Márcio André Medeiros. O direito de greve no serviço público. Curitiba: JM Livraria
jurídica e editora, 2012. p. 83
151
CERNOV, Zênia. Op. cit. p. 16
152
MORAES, Márcio André Medeiros. Op. cit. p. 85.
153
CERNOV, Zênia. Op. cit. p. 17
154
MORAES, Márcio André Medeiros. Op. cit. p. 85
155
CERNOV, Zênia. Op. cit. p. 17
142
verificada uma vez que a greve até então era um ato ilícito e daí por diante um
direito sujeito a algumas restrições”156.
Nos anos que se seguiram, foram promulgadas várias leis que restringiam
cada vez mais o direito de greve. Uma delas é o Decreto-Lei n.º 1.632/78, que,
conforme Maildes Alves de Mello, determina que são igualmente considerados
serviços públicos, para fins da proibição do direito de greve, os prestados
diretamente pelo Estado e aqueles prestados por concessionárias 158, questão que,
até então, levantava polêmica no meio jurídico. Também merecem destaque outros
diplomas legais que tratavam a greve de servidores públicos como caso de polícia,
como ameaça à segurança nacional159, como é o caso do Decreto n.º 898/69 e da
Lei n.º 6.620/87.
156
NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Comentários à lei de greve. São Paulo: LTr, 1989. p. 12.
157
MELLO, Maildes Alves de. Op. cit. p. 72
158
Ibidem, p. 46
159
ROBOREDO, Maria Lucia Freire. Op. cit. p. 110
143
3 O direito de greve da função pública e a Constituição de 1988.
Ademais, temos que nem todos os servidores públicos, pelo simples fato de
sê-lo, exercem atividades essenciais para o interesse geral, havendo, inclusive, um
grande número de trabalhadores do setor privado que prestam serviços bem mais
importantes para a comunidade do que certas categorias de servidores públicos 161
Assim, a interrupção do trabalho pela prática de greve desses servidores nem
sempre causaria “males irreparáveis”, mas apenas “simples transtornos” para a
coletividade. Aliás, “alguém já disse que uma greve de açougueiros e padeiros
chega a ser mais prejudicial à coletividade do que a de algumas categorias de
servidores públicos.”162
160 33
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 65
161
Neste sentido, LÓPEZ-MONÍS De CAVO, Carlos. O direito de greve: experiências internacionais
e doutrina da OIT. São Paulo: LTR: IBRART, 1986.p. 20-21 e ROMITA, Arion Sayão. A greve dos
Servidores Públicos. In: Revista Acadêmica Nacional de Direito do Trabalho. São Paulo: LTR, ano
I, n.I, 1993. p.30
162
FONSECA, Vicente José Malheiros da. Greve dos servidores do Estado: lei complementar.
Problema atual e sugestões. In: Revista do TRT da 8ª Região. Belém, v.26, n.50, jan/jul. 1993. p. 74
144
Com precisão, Florivaldo Dutra de Araújo defende que o princípio da
continuidade dos serviços públicos não pode impedir o direito de greve dos
servidores públicos em termos gerais, destacando que
163
ARAÚJO, Florivaldo Dutra de. Conflitos coletivos e negociação na função pública: contribuição
ao tema da participação em direito administrativo, 1998. Tese (Doutorado em Direito Administrativo) –
Faculdade de Direito, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. p. 405
164
Cf. SILVA, Antônio Álvares da. Os servidores públicos e o direito do trabalho. São Paulo: LTr,
1993. p.65 e seg. ARAÚJO, Florivaldo Dutra de. Conflitos coletivos e negociação na função
pública: contribuição ao tema da participação em direito administrativo, 1998. Tese (Doutorado em
Direito Administrativo) – Faculdade de Direito, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.
p.136 e seg. LÓPEZ-MONÍS De CAVO, Carlos. O direito de greve: experiências internacionais e
doutrina da OIT. São Paulo: LTR: IBRART, 1986. p. 22-23
145
Son cada vez menos los países cuyogobienosiguefijando
unilateralmente tales condiciones; em La mayoria de los países
intervenien em ellolos sindicatos Del servicio público, con arreglo a
um sistema de consultas paritárias o, em medida cresciente, hasta a
negociacióncolectiva.165
165
OIT, El trabajo em el mundo. p.115. Apud: SILVA, Antônio Álvares da. Os servidores públicos e
o direito do trabalho. São Paulo: LTr, 1993. p.66
166
LÓPEZ-MONÍS De CAVO, Carlos. Op. cit. p. 21
167
Ibidem, p. 22
168
ARAÚJO, Florivaldo Dutra de. Op. cit. p. 02
146
o trabalhador luta pelo salário, e a empresa defende seu lucro. Revela notar que no
setor público não há empresário nem lucro.”169.
169
DALARI, Adilson Abreu. Regime constitucional dos servidores públicos. 2. ed., São Paulo:
Revista dos Tribunais, 1992. p.154
170
ARAÚJO, Florivaldo Dutra de. Op. cit. p. 110.
171
DUSSEL, Enrique. El último Marx (1863-1882) y La liberación latinoamericana. México, Siglo
XXI, 1990, p. 373-377.
172
SILVA, Antônio Álvares da. Os servidores públicos e o direito do trabalho. São Paulo: LTr,
1993. p. 52
147
coletivo, é o princípio da função social da propriedade, consagrado como direito
fundamental na Constituição da República de 1988 (art. 5º, XXIII173).
173
Art. 5º (...) XXIII - a propriedade atenderá a sua função social
174
SILVA, Antônio Álvares da. Op. cit., 1993. p. 112.
175
Art. 142 (...)§ 3º Os membros das Forças Armadas são denominados militares, aplicando-se-lhes,
além das que vierem a ser fixadas em lei, as seguintes disposições: (...)IV - ao militar são proibidas a
sindicalização e a greve
176
Art. 42 (...) § 1º Aplicam-se aos militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios, além do
que vier a ser fixado em lei, as disposições do art. 14, § 8º; do art. 40, § 9º; e do art. 142, §§ 2º e 3º,
cabendo a lei estadual específica dispor sobre as matérias do art. 142, § 3º, inciso X, sendo as
patentes dos oficiais conferidas pelos respectivos governadores
148
Transitórias concedido a anistia aos servidores públicos civis e empregados públicos
que tivessem sido punidos em razão da participação em movimentos paredistas.177
177
Art. 8º. É concedida anistia aos que, no período de 18 de setembro de 1946 até a data da
promulgação da Constituição, foram atingidos, em decorrência de motivação exclusivamente política,
por atos de exceção, institucionais ou complementares, aos que foram abrangidos pelo Decreto
Legislativo nº 18, de 15 de dezembro de 1961, e aos atingidos pelo Decreto-Lei nº 864, de 12 de
setembro de 1969, asseguradas as promoções, na inatividade, ao cargo, emprego, posto ou
graduação a que teriam direito se estivessem em serviço ativo, obedecidos os prazos de permanência
em atividade previstos nas leis e regulamentos vigentes, respeitadas as características e
peculiaridades das carreiras dos servidores públicos civis e militares e observados os respectivos
regimes jurídicos. (...) § 5º - A anistia concedida nos termos deste artigo aplica-se aos servidores
públicos civis e aos empregados em todos os níveis de governo ou em suas fundações, empresas
públicas ou empresas mistas sob controle estatal, exceto nos Ministérios militares, que tenham sido
punidos ou demitidos por atividades profissionais interrompidas em virtude de decisão de seus
trabalhadores, bem como em decorrência do Decreto-Lei nº 1.632, de 4 de agosto de 1978, ou por
motivos exclusivamente políticos, assegurada a readmissão dos que foram atingidos a partir de 1979,
observado o disposto no § 1º.
178
Art. 39 (...) § 3º Aplica-se aos servidores ocupantes de cargo público o disposto no art. 7º, IV, VII,
VIII, IX, XII, XIII, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XX, XXII e XXX, podendo a lei estabelecer requisitos
diferenciados de admissão quando a natureza do cargo o exigir.
149
por muito tempo, de sérias divergências na doutrina. Passou-se, então, a discutir a
eficácia do dispositivo normativo, se de eficácia plena, contida ou limitada179.
Parte dos doutrinadores brasileiros entendeu o inciso VII, do art. 37, da CR/88
como norma constitucional de eficácia limitada180. Para os defensores desta
corrente, a amplitude do direito de greve dos servidores públicos dependerá dos
contornos estabelecidos pelo legislador infraconstitucional. Isso significa que, ainda
que reconheça o “mínimo de eficácia”181 ao art. 37, VII, da CR/88, na prática, a
simples omissão do legislador infraconstitucional é capaz de impedir o exercício
legítimo do direito constitucionalmente garantido.
179
O exame da eficácia das normas constitucionais consiste em tema de grande relevância para o
Direito Constitucional, principalmente em sociedades, como a brasileira, caracterizadas por
constantes alterações políticas e constitucionais. A doutrina moderna classifica as normas
constitucionais, no que diz respeito à sua eficácia, em três categorias distintas: a) normas
constitucionais de eficácia plena; b) normas constitucionais de eficácia contida; e c) normas
constitucionais de eficácia limitada ou reduzida. Na primeira categoria, normas de eficácia plena,
temos preceitos constitucionais que desde a entrada em vigor da Constituição, “produzem todos os
seus efeitos essenciais (ou têm a possibilidade de produzi-los)” (SILVA, José Afonso da.
Aplicabilidade das normas constitucionais. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1982. p. 72-
73). Em outras palavras, são normas constitucionais que não necessitam da intermediação do
legislador ordinário para que alcancem aptidão para reger situações concretas da vida social, pois a
normatividade criada pelo legislador constituinte foi suficiente. Já entre as normas de eficácia contida,
inserem-se aquelas em que o legislador constituinte disciplinou suficientemente os interesses
relativos a determinada matéria; no entanto, deixou certa margem à atuação restritiva por parte da
competência discricionária do poder público (SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas
constitucionais. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1982. p. 105). As normas de eficácia
contida apresentam aplicabilidade imediata e direta, ou seja, apresentam aptidão para incidir em
situações concretas da vida social, independentemente da intervenção do legislador
infraconstitucional. Contudo, tais normas podem ter sua extensão limitada pelo legislador ordinário. As
normas de eficácia contida são dotadas de eficácia prospectiva, ou seja, à míngua de legislação
infraconstitucional integradora (restritiva), apresentam eficácia total e imediata, no entanto, o advento
de norma regulamentadora tem o condão de torna o seu campo de abrangência restrito, contido. Por
fim, na terceira categoria, temos as normas de eficácia limitada. Nos dizeres de José Afonso da Silva,
as normas de eficácia limitada são aquelas “que não produzem, com a simples entrada em vigor,
todos os seus efeitos essenciais, porque o legislador constituinte, por qualquer motivo, não
estabeleceu, sobre a matéria, uma normatividade para isso bastante” (SILVA, José Afonso da.)
Aplicabilidade das normas constitucionais. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1982. p. 73).
Com isso, fica a cargo do legislador ordinário ou de outro órgão estatal integrar a eficácia dessas
normas, mediante providências normativas que lhes confira aptidão de execução nos termos dos
interesses constitucionalmente estabelecidos. Embora tais normas apresentem eficácia menos
intensa do que as de eficácia plena e contida, seus preceitos são dotados de relativa eficácia, pois
têm aptidão para obstar a edição de normas infraconstitucionais que apresente sentido antiético ou
incompatível com os seus
180
Tal corrente doutrinária é advogada por Adilson Abreu Dalari (DALARI, Adilson Abreu.
Regime constitucional dos servidores públicos. 2. ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 1992. p.
144-156), José Cretella Júnior (CRETELLA JÚNIOR. José. Comentários à Constituição brasileira
de 1988. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1992, v. II. p.2199-2200), Alexandre de Moraes
(MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 19. ed. São Paulo: Atlas, 2006. p. 187 e 319),
Maria Sylvia Zanella Di Pietro (DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 20. ed. São
Paulo: Atlas, 2007.p. 153), dentre outros
181
SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. 2. ed. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 1982.p. 146
150
Vale destacar que, nas entrelinhas, os autores que defendem a tese da
inaplicabilidade imediata do art. 37, VII, da CR/88, acabam aderindo à posição da
tradicional doutrina administrativista, que, arraigada na concepção estatutária, busca
impedir a possibilidade de aplicação de institutos jurídicos da seara laboral privada
ao regime jurídico da função pública. Sabedores de que a leitura democrática da
Constituição Cidadã impede, como abordado, a defesa da tese de incompatibilidade
do direito de greve com o regime de trabalho da função pública, a saída encontrada
pelos defensores do tradicional regime unilateral foi negar a aplicabilidade do texto
constitucional.
Muitos dos autores que entendem ter o art. 37, VII, da CR/88 eficácia contida,
defendem a aplicação analógica da Lei nº 7.783/1989 à greve dos servidores
182
Essa corrente é defendida por Arion Sayão Romita (ROMITA, Arion Sayão. A greve dos Servidores
Públicos. In: Revista Acadêmica Nacional de Direito do Trabalho. São Paulo: LTR, ano I, n.I, 1993.
p. 789-808), Celso Antônio de Bandeira Mello (BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Regime dos
servidores da administração direta e indireta (direitos e deveres). 3. ed. São Paulo: Malheiros,
1995. p. 85), Maurício Godinho Delgado (DELGADO, Maurício Godinho. Direito Coletivo do
Trabalho. São Paulo: LTr, 2001a. p.171), Odete Medauar (MEDAUAR, Odete. Direito
Administrativo moderno. 9. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005), entre outros
183
Redação dada pela Emenda Constitucional de 1998.
184
ROMITA, Arion Sayão. Op. cit. p. 807-808
151
públicos185. Segundo tais doutrinadores, a Lei nº 7.783/1989 constitui parâmetro
normativo adequado à regulamentação do direito de greve no setor público.
Florivaldo Dutra de Araújo, ainda quando vigia a redação original do inciso VII, do
artigo 37,abordou o tema com propriedade:
Há, ainda, os que argumentavam que o inciso VII, do art. 37, da CR/88, teria
aplicabilidade imediata, sob o fundamento de que o direito de greve é um direito
fundamental e a Constituição Cidadã, em seu art. 5º, § 1º, dispõe que: “as normas
definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”187. Esse
entendimento é defendido por aqueles que advogam que ainda que o direito de
greve dos servidores públicos não estivesse previsto expressamente no art. 37, VII,
CR/88, o mesmo estaria garantido pelo art. 9º da Carta Magna, já que no âmbito dos
direitos e garantias fundamentais deve prevalecer sempre interpretação extensiva.
Nesse sentido, a posição de Rogério Viola Coelho:
Para esta corrente, sendo a greve dos servidores públicos direito de caráter
fundamental, consagrado nas mesmas bases relativas aos trabalhadores da
185
Neste sentido ROMITA, Arion Sayão. A greve dos Servidores Públicos. In: Revista Acadêmica
Nacional de Direito do Trabalho. São Paulo: LTR, ano I, n.I, 1993. p. 808; DELGADO Maurício
Godinho. Direito Coletivo do Trabalho. São Paulo: LTr, 2001a. p.171 e ARAÚJO, Florivaldo Dutra
de. Conflitos coletivos e negociação na função pública: contribuição ao tema da participação em
direito administrativo, 1998. Tese (Doutorado em Direito Administrativo) – Faculdade de Direito,
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. p.430.
186
ARAÚJO, Florivaldo Dutra de. Op. cit.. p. 430
187
Neste sentido, COELHO, Rogério Viola. A relação de trabalho com o estado: uma abordagem
crítica da doutrina administrativa da relação da função pública. São Paulo: LTR, 1994 e FONSECA,
Vicente José Malheiros da. Greve dos servidores do Estado: lei complementar. Problema atual e
sugestões. In: Revista do TRT da 8ª Região. Belém, v.26, n.50, jan/jul. 1993. p. 1046-1048
188
COELHO, Rogério Viola. Op. cit. p. 80.
152
iniciativa privada, aplica-se ao mesmo o disposto no art. 5º, § 1º da CR/88, que
garante aplicabilidade imediata.189
Vivemos, em todo o mundo, nas últimas décadas o que alguns autores tem
chamado de neoconstitucionalismo (ou constitucionalismo), que é o cenário das
“democracias constitucionais, caracterizadas pela positivação de uma Constituição
longa e densa, que compreende, além das regras de organização do poder, também
um mais ou menos extenso catálogo de direitos fundamentais.” 190 Não foi diferente o
que ocorreu com a Constituição brasileira de 1988, que apresenta um amplo rol de
direitos fundamentais, entre os quais o direito de greve, reconhecido tanto aos
trabalhadores da iniciativa privada como aos servidores públicos civis.
189
O Ministro Carlos Velloso, ao despachar a ADIN nº 339-RJ, afastou esse argumento sob a
alegação de que: a) a regra do art. 5º, § 1º, da CF, só diz respeito aos direitos inscritos no art. 5º; b) o
princípio consagrado no art. 5º, § 1º não é absoluto, devendo ser entendido com temperamentos. A
decisão proferida pelo Ministro Carlos Velloso na ADIN 339 – RJ, foi citada pelo próprio Ministro ao
proferir o seu voto no MI nº 20 – DF, Rel. Min. Celso de Mello.
190
POZZOLO, Susanna. O neoconstitucionalismo como último desafio ao positivismo jurídico. A
reconstrução neoconstitucionalista da teoria do direito: suas incompatibilidades com o positivismo
jurídico e a descrição de um novo modelo. In:___ e DUARTE, Écio Oto Ramos
Neoconstitucionalismo e positivismo jurídico: as faces da teoria do direito em tempo de
interpretação moral da constituição. São Paulo: Landy, 2006.p. 79
191
SILVA, Antônio Álvares. Greve no serviço público depois da decisão do STF. São Paulo: LTr,
2008. p. 23.
153
Já no que toca ao direito de greve dos servidores públicos, embora tenha sido
previsto no art. 37, VII, da Carta, ainda não foi regulamentado pelo legislador
ordinário, mesmo depois de 25 anos.
O primeiro deles foi o MI n.º 20, impetrado pela Confederação dos Servidores
Públicos do Brasil, em 20 de outubro de 1988, que foi julgado pelo Pleno do STF em
19 de maio de 1994. Naquele julgamento, não houve dúvida acerca da mora do
Poder Legislativo, que, quase seis anos após a promulgação da Carta Magna, não
havia elaborado a citada lei. Contudo, o entendimento acolhido pela maioria dos
Ministros do Supremo Tribunal Federal, foi no sentido de ser a norma de eficácia
limitada, desprovida, consequentemente, de autoaplicabilidade. Em razão disso,
nesse julgamento, o STF, apesar de julgá-lo procedente por maioria (restando
vencidos os Ministros Sepúlveda Pertence e Marco Aurélio), reconhecendo a mora
192
BARROSO, Luís Roberto. O direito constitucional e a efetividade de suas normas. Limites e
possibilidades da Constituição brasileira. 9. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2009. p. 159
154
do Congresso Nacional, restringiu-se a notificar o órgão responsável pela elaboração
da legislação necessária, abstendo-se de fixar os parâmetros para o exercício do
direito de greve pelos servidores públicos até que criada a lei complementar em
questão. Voto vencido neste ponto, o Ministro Carlos Velloso votou pela aplicação,
ao caso dos servidores públicos, da lei de greve n.º 7.783/89. Do mesmo modo, o
Ministro Marco Aurélio, embora tenha votado pelo não conhecimento do mandado de
injunção, declarou que, caso o fosse, não poderia o STF se limitar a notificar o
Congresso Nacional acerca da mora. Ambos os Ministros declararam que, em sede
de Mandado de Injunção, a função do Poder Judiciário deveria ser de possibilitar o
exercício do direito que estava sendo obstado pela omissão legislativa.
155
Neste ponto, de fato, o Supremo Tribunal Federal tomou um passo
importante, buscando regular um direito fundamental dos servidores públicos que
vinha sendo negligenciado. Isto, de acordo com Antônio Alvares da SILVA, vem
responder a um reclamo que não é apenas brasileiro, mas mundial: “declaram-se os
direitos, mas nada se faz para efetivá-los. A parte substancial está pronta. (...)
A decisão da Suprema Corte, serviu, até certo ponto, para garantir um mínimo
de efetividade ao direito, mas esteve longe de resolver o dilema da greve dos
servidores públicos.
193
SILVA, Antônio Álvares. Op. cit., 2008. p. 45
194
Para Zênia Cernov a garantia do direito de greve aos servidores públicos na Constituição de 1988
constituiu um avanço histórico, que aliados a outros direitos, “tornou a vida funcional do servidor
público mais protegida dos abusos administrativos”. (CERNOV, Zênia. Op. cit. p. 21
195
SILVA, Antônio Álvares da. Op. cit., 1993. p. 115
156
Ou seja, ante à proliferação das greves de servidores públicos, “desapegadas
de qualquer procedimento, em movimentos tão livres quanto fortes em seus
efeitos”196, e que vinham conquistando uma série de melhorias em termos de
remuneração e condições de trabalho, o STF mostrou-se muito mais apegado à
“alegada necessidade de colocar limites ao seu exercício do que na necessidade de
”197
efetivar a garantia constitucional.
196
CERNOV, Zênia. Op. cit. p. 37.
197
CERNOV, Zênia. Op. cit. p. 39.
157
doutrina, como pelo Poder Judiciário, limitando, cada vez mais, o exercício desse
direito pelos servidores públicos.
198
PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVOS REGIMENTAIS. AÇÃO ORDINÁRIA
DECLARATÓRIA COMBINADA COM AÇÃO DE PRECEITO COMINATÓRIO DE OBRIGAÇÃO DE
FAZER E DE NÃO FAZER. TUTELA ANTECIPADA. GREVE DOS SERVIDORES DO PODER
JUDICIÁRIO FEDERAL EM EXERCÍCIO NA JUSTIÇA ELEITORAL. FUMUS BONI IURIS E
PERICULUM IN MORA EVIDENCIADOS. 1. Os agravos regimentais foram interpostos contra decisão
liminar proferida nos autos de ação ordinária declaratória de ilegalidade de greve, cumulada com ação
de preceito cominatório de obrigação de fazer e de não fazer, e com pedido de liminar ajuizada pela
União contra a Federação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores do Judiciário Federal e
Ministério Público da União - FENAJUFE e Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário do Ministério
Público da União - SINDJUS/DF, para que seja suspensa a greve dos servidores do Poder Judiciário
Federal em exercício na Justiça Eleitoral em todo o território nacional. 2. Ainda em juízo de cognição
sumária, é razoável a manutenção do percentual de no mínimo 80% dos servidores durante o
movimento paredista, sob a pena de multa de cem mil reais por dia, principalmente por tratar-se de
ano eleitoral. Nesse aspecto, o eminente Ministro Gilmar Mendes, ao proferir seu voto nos autos da
Rcl 6.568/SP, ressalvou que “a análise de cada caso, a partir das particularidades do serviço
prestado, deve realizar-se de modo cauteloso com vista a preservar ao máximo a atividade pública,
sem, porém, afirmar, intuitivamente, que o movimento grevista é necessariamente ilegal. (DJe de
25.09.09; fl. 786 - sem destaques no original).” (STJ, AgRg na Pet 7933-DF 2010/0087027-1, Rel.
Min. Castro Meira, Pub. DJ 16.8.10)
158
Zenia Cernov já alertou sobre o sentido atribuído pela Constituição quando
estabeleceu o direito de greve dos servidores público, dizendo ser “preciso deixar
claro (...) que a ideia central do nosso Constituinte foi a de reconhecer o direito à
greve, e não a de dificultá-lo.” 199
o
Não foi por menos que o Congresso Nacional aprovou a Convenção n 151 e
o
a Recomendação n 159 da Organização Internacional do Trabalho - OIT sobre as
o
Relações de Trabalho na Administração Pública, por meio do Decreto Legislativo n
199
CERNOV, Zênia. Op. cit. p. 40
200
Cf. artigo 7º da Convenção nº 151 da OIT: “Artigo 7. Devem ser tomadas, quando necessário,
medidas adequadas às condições nacionais para encorajar e promover o desenvolvimento e
utilização plenos de mecanismos que permitam a negociação das condições de trabalho entre as
autoridades públicas interessadas e as organizações de trabalhadores da Administração Pública ou
de qualquer outro meio que permita aos representantes dos trabalhadores da Administração Pública
participarem na fixação das referidas condições.”
201
Projeto de Lei nº 401/91 de autoria do Dep. Paulo Paim-PT/RS; Projeto de Lei nº 1781/99 de
autoria do Dep. Jovair Arantes-PSDB/GO; Projeto de Lei nº 4497/01 de autoria da Dep. Rita Camata-
PMDB/ES; Projeto de Lei nº 5662/01 de autoria do Dep. Airton Cascavel-PPS/RR; Projeto de Lei nº
6032/02 de autoria do Poder Executivo; Projeto de Lei nº 6141/02 de autoria da Dep. Iara Bernadi;
Projeto de Lei nº 6668/02 de autoria da Dep. Elcione Barbalho-PMDB/PA; Projeto de Lei nº 6775/02
de autoria da Comissão de Legislação Participativa; Projeto de Lei nº 424/03 de autoria do Dep. Paes
Landim-PFL/PI; Projeto de Lei nº 1950/03 de autoria do Dep. Eduardo Paes-PSDB/RJ; Projeto de Lei
nº 981/07 de autoria do Dep. Regis de Oliveira-PSC/SP; Projeto de Lei nº 3670/08 de autoria da
Comissão de Legislação Participativa; Projeto de Lei nº 7378/10 de autoria da Comissão de
Legislação Participativa; Projeto de Lei nº 4276/12 de autoria do Dep. Arnaldo Faria de Sá-PT/DF;
Projeto de Lei nº 4532/12 de autoria do Dep. Policarpo-PT/DF e Projeto de Lei do Senado nº
710.2011 de autoria do Sen. Aloysio Nunes Ferreira-PSDB/SP.
159
reconhecimento normativo”202. É preciso parametrizar os projetos propostos, tendo
em vista a necessária proteção dos direitos fundamentais dos trabalhadores na
Administração Pública. Nesse sentido, Cernov pondera que “referida lei, que
sobrevier, não poderá ser limitativa a ponto de dificultar seu exercício. Esperamos
por uma lei que não vise a “coibir” a proliferação das greves (pensamento que
parece ter conduzido o pensamento do STF), mas sim que vise a garantir seu pleno
exercício e proteger os que ela exercitem.”203
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203
CERNOV, Zênia. Op. cit. p. 42
204
SILVA, Sayonara Grillo Leonardo Coutinho da. Op. cit. p. 28
205
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