INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO DO BITA
ISPOB
TRABALHO DE INTRODUÇÃO DA ÉTICA E LEGISLAÇÃO DA
ENFERMAGEM
AUTONOMIA E LIMITES LEGAIS DA PRÁTICA DO
ENFERMEIRO NO CONTEXTO MULTI-PROFISSIONAL
ELABORADO PELO GRUPO Nº 03
Docente
__________________________
Suzete Otalia Paulina Cristina
LUANDA, 2025
INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO DO BITA
ISPOB
Sala nº: C17
Turno: Tarde
Ano: Iº
Curso: Enfermagem
Trabalho académico científico apresentado
ao Instituto Superior Politécnico do Bita, no
Curso de Enfermagem, na cadeira de
Introdução da Ética e Legislação da
Enfermagem, sob orientação da Profª.
Suzete Otalia Paulina Cristina
ELEMENTOS DO GRUPO Nº 03
Nomes Notas
Adelina Toko
Albertina Pemba Mabiala
Ana Cinquenta
Anastácia Samuel
Esperança dos Santos
Esmeralda Luzia Zinga
Fatimata Mamuha Sisse
Helena João
Ilda Teresa Chitema Spelman
Ilma Chumbo
Inês Niaxi Afonso
Juliana Augusto
Marcelina Suca
Maquiesse Fialho Alves
Moisés António
Maria Flor Diakiese
Madalena Félix
Suzana Lourenço António
Victória António Cambuta
LUANDA, 2025
II
ÍNDICE
INTRODUÇÃO.........................................................................................................................4
CAPÍTULO I – A AUTONOMIA NA ENFERMAGEM: FUNDAMENTOS TEÓRICOS E
ÉTICOS......................................................................................................................................6
1.1. Compreensão da autonomia na enfermagem...............................................................6
1.2. Conceito de Autonomia na enfermagem.........................................................................6
1.3. A autonomia profissional................................................................................................7
1.4. Fundamentos éticos.........................................................................................................7
CAPÍTULO II – ENQUADRAMENTO LEGAL DA PRÁTICA DO ENFERMEIRO...........9
2.1. O enquadramento jurídico da enfermagem em Angola...................................................9
2.2. A autonomia legal e os limites normativos da prática...................................................10
2.3. Dimensões ético-legais da responsabilidade profissional.............................................10
2.4. Perspectiva comparada: enquadramento internacional da profissão.............................11
2.5. Desafios contemporâneos e perspectivas de fortalecimento.........................................12
CAPÍTULO III - O ENFERMEIRO NO CONTEXTO MULTI-PROFISSIONAL:
DESAFIOS E PERSPECTIVAS..............................................................................................14
3.1. O trabalho em equipa multi-profissional e a interdependência das práticas.................14
3.2. A hierarquia médico-centrada e os conflitos de autonomia..........................................15
3.3. A dimensão colaborativa da autonomia........................................................................16
3.4. Formação, conhecimento científico e poder profissional..............................................16
3.5. Perspectivas de fortalecimento da enfermagem no contexto multiprofissional angolano
..............................................................................................................................................17
CONCLUSÃO.........................................................................................................................19
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.....................................................................................20
III
INTRODUÇÃO
A enfermagem é uma das profissões basilares do sistema de saúde, desempenhando um
papel central na promoção, prevenção, tratamento e reabilitação da saúde. No contexto
contemporâneo, marcado pela complexidade das demandas assistenciais e pela
interdisciplinaridade das equipas de saúde, a autonomia profissional do enfermeiro tornou-se
um tema de grande relevância ética, legal e prática.
O conceito de autonomia refere-se à capacidade do profissional exercer juízo clínico e
tomar decisões baseadas em conhecimento científico e responsabilidade ética, sem
dependência directa de outras categorias profissionais. Contudo, essa autonomia é limitada
por normas legais, regulamentos institucionais e directrizes interprofissionais, que definem o
escopo e os limites da actuação do enfermeiro.
Assim, este trabalho propõe-se a analisar de forma detalhada a autonomia e os limites
legais da prática do enfermeiro no contexto multi-profissional, com enfoque nas dimensões
ética, jurídica e técnica da profissão.
Pergunta de partida:
Quais são os limites legais e as possibilidades de autonomia do enfermeiro dentro do
contexto multi-profissional de saúde?
Objectivo geral:
Analisar a autonomia e os limites legais da prática do enfermeiro no contexto
multi-profissional.
Objectivos específicos:
Identificar o conceito de autonomia profissional na enfermagem;
Descrever o enquadramento legal da profissão de enfermagem;
Analisar os desafios e limites impostos pela actuação multi-profissional;
Discutir os caminhos para o fortalecimento da autonomia do enfermeiro na
prática clínica.
4
Hipótese:
A autonomia do enfermeiro é essencial à qualidade da assistência, mas sofre restrições
decorrentes da legislação, da hierarquia médica e da organização institucional.
Justificação:
A compreensão dos limites legais e da autonomia do enfermeiro é fundamental para o
fortalecimento da identidade profissional, para a melhoria da qualidade dos cuidados e para a
consolidação do trabalho em equipa multidisciplinar.
Metodologia:
O trabalho segue uma abordagem qualitativa e descritiva, baseada em revisão
bibliográfica de autores da área da enfermagem, ética profissional e legislação sanitária
vigente em Angola e em outros contextos lusófonos.
5
CAPÍTULO I – A AUTONOMIA NA ENFERMAGEM: FUNDAMENTOS
TEÓRICOS E ÉTICOS
1.1. Compreensão da autonomia na enfermagem
A compreensão da autonomia na prática de enfermagem exige uma análise
epistemológica e ética sobre o papel do enfermeiro enquanto sujeito activo do cuidado. A
autonomia profissional constitui-se como uma condição necessária para que o enfermeiro
possa exercer o seu julgamento clínico de forma consciente, responsável e fundamentada
cientificamente, dentro dos limites estabelecidos pela legislação e pelos princípios éticos da
profissão.
Segundo Florence Nightingale (1859), considerada a precursora da enfermagem
moderna, o exercício profissional deve ser norteado pela observação rigorosa, pela
racionalidade e pela responsabilidade individual do enfermeiro diante das necessidades
humanas de saúde1. Essa concepção inaugura a noção de autonomia técnica e moral,
distinguindo a enfermagem de uma actividade meramente subordinada à medicina.
No entanto, o desenvolvimento da autonomia profissional foi historicamente limitado
por relações de poder no campo da saúde, especialmente pela hegemonia médica. Conforme
analisa Michel Foucault (1979), as práticas de saúde são permeadas por mecanismos
disciplinares e hierarquias institucionais que moldam os papéis e as subjectividades dos
profissionais2. Assim, a autonomia do enfermeiro deve ser compreendida dentro de um
contexto de tensões entre saber, poder e prática assistencial.
1.2. Conceito de Autonomia na enfermagem
Do ponto de vista teórico, a autonomia na enfermagem pode ser entendida como a
capacidade de tomar decisões clínicas e éticas com base em conhecimento próprio e
responsabilidade pessoal, sem depender totalmente de ordens médicas. Henderson (1978)
define o enfermeiro como “aquele que auxilia o indivíduo, doente ou são, na execução de
actividades que contribuem para a saúde, a recuperação ou uma morte tranquila, actividades
que ele realizaria sozinho se tivesse a força, a vontade ou o conhecimento necessário” 3.
1
NIGHTINGALE, F. Notes on Nursing: What it is and What it is not. London: Harrison, 1859
2
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
3
HENDERSON, V. The Nature of Nursing. New York: Macmillan, 1978.
6
Essa definição enfatiza a independência funcional e o papel educativo da enfermagem,
reforçando a dimensão ética da autonomia, que está intrinsecamente relacionada à dignidade
humana e à capacidade de escolha do paciente.
1.3. A autonomia profissional
De acordo com Beauchamp e Childress (2001), a autonomia profissional é uma
extensão do princípio bioético da autonomia pessoal, que implica o direito de agir segundo
convicções próprias, desde que respeitados os limites éticos e legais 4. No caso do enfermeiro,
isso significa decidir sobre procedimentos e cuidados dentro da sua competência técnica,
reconhecendo, ao mesmo tempo, as responsabilidades compartilhadas com outros
profissionais da saúde.
Em contextos multi-profissionais, a autonomia não deve ser confundida com
independência absoluta. Pelo contrário, pressupõe interdependência responsável. Como
destaca Almeida (2016), a enfermagem é uma ciência aplicada cuja prática requer tanto
autonomia técnica quanto colaboração interdisciplinar, na medida em que o cuidado é uma
construção colectiva5.
Nessa linha, Paim (2015) argumenta que o enfermeiro deve afirmar sua autonomia não
em oposição, mas em complementaridade às demais profissões, fortalecendo o diálogo
técnico e a decisão partilhada 6. O reconhecimento dessa autonomia exige, portanto, a
consolidação de um corpo de saber próprio, sustentado pela investigação científica, pela
formação contínua e pelo exercício ético da profissão.
1.4. Fundamentos éticos
Na perspectiva ética, o Código Deontológico do Enfermeiro estabelece que a
autonomia é uma expressão do dever profissional de agir de acordo com os princípios da
beneficência, da não maleficência, da justiça e do respeito à dignidade da pessoa humana 7. A
decisão clínica autónoma, portanto, não é arbitrária, mas guiada por valores morais e pelo
compromisso com o bem-estar do paciente.
4
BEAUCHAMP, T. L.; CHILDRESS, J. F. Principles of Biomedical Ethics. Oxford: Oxford University Press, 2001.
5
ALMEIDA, M. C. P.; ROCHA, J. S. Y. O trabalho de enfermagem e a organização do cuidado. São Paulo: Cortez,
2016.
6
PAIM, J. S. O que é o SUS. São Paulo: Fiocruz, 2015.
7
CONSELHO DE ENFERMAGEM DE ANGOLA. Código Deontológico do Enfermeiro. Luanda: Ministério da Saúde,
2018.
7
Além disso, a autonomia está directamente relacionada à responsabilidade legal. O
enfermeiro responde civil, ética e criminalmente pelos seus actos profissionais, o que reforça
a necessidade de agir dentro dos limites da sua competência. Segundo Silva e Mendes (2019),
“a autonomia do enfermeiro é proporcional à sua capacidade de responder pelos resultados
das suas decisões clínicas”8.
Em suma, a autonomia do enfermeiro é um conceito multidimensional, que envolve:
A liberdade técnica e científica de decidir com base em conhecimento próprio;
A responsabilidade ética e jurídica pelas acções tomadas;
O respeito à interdisciplinaridade e aos limites institucionais;
A defesa da dignidade humana e dos direitos do paciente.
Assim, o exercício da autonomia na enfermagem exige uma postura crítica, reflexiva e
comprometida, capaz de articular saberes, valores e responsabilidades em prol de um cuidado
integral, humanizado e socialmente justo.
8
SILVA, M. J. P.; MENDES, I. A. C. Ética e Enfermagem: fundamentos e práticas. São Paulo: EPU, 2019.
8
CAPÍTULO II – ENQUADRAMENTO LEGAL DA PRÁTICA DO
ENFERMEIRO
A prática da enfermagem não pode ser compreendida fora do contexto normativo e
institucional que lhe confere legitimidade. O exercício profissional do enfermeiro, além de
possuir uma base científica, está intrinsecamente vinculado a princípios legais, éticos e
deontológicos, que delimitam o campo de actuação, os deveres e as responsabilidades desse
profissional perante a sociedade.
Segundo Pinto (2017), a legalidade do ato de enfermagem constitui o elemento central
que diferencia o exercício profissional autorizado de uma mera prestação empírica de
cuidados. A lei, portanto, não limita apenas — ela também protege o enfermeiro, definindo as
fronteiras seguras de sua autonomia9.
2.1. O enquadramento jurídico da enfermagem em Angola
Em Angola, a Lei de Bases do Sistema Nacional de Saúde (Lei n.º 21-B/92, de 28 de
agosto) estabelece as normas fundamentais para o funcionamento do sistema sanitário e
reconhece o enfermeiro como um profissional essencial à concretização do direito à saúde 10.
Esta lei dispõe que a assistência deve ser prestada por equipas multi-profissionais,
respeitando as competências e atribuições de cada categoria profissional.
Complementarmente, o Decreto Executivo n.º 241/10, do Ministério da Saúde, regula a
formação, exercício e fiscalização das profissões de saúde, estabelecendo que o enfermeiro
possui autonomia técnica no desempenho de funções de cuidados, ensino e gestão, desde que
dentro do seu escopo de prática e de acordo com protocolos clínicos vigentes11.
O Conselho de Enfermagem de Angola (CEA), criado em 2015, é a entidade
responsável pela regulação ética e técnica do exercício profissional. O seu Código
Deontológico (2018) explicita que a actuação do enfermeiro deve basear-se na competência,
responsabilidade e respeito pela vida humana, reafirmando que a autonomia é inseparável da
ética e da legalidade12.
9
PINTO, M. L. Direito e Enfermagem: fundamentos para o exercício legal. Lisboa: Lidel, 2017.
10
REPÚBLICA DE ANGOLA. Lei de Bases do Sistema Nacional de Saúde (Lei n.º 21-B/92, de 28 de agosto). Diário
da República, I Série, Luanda, 1992.
11
MINISTÉRIO DA SAÚDE DE ANGOLA. Decreto Executivo n.º 241/10: Regulamento das Profissões de Saúde.
Luanda, 2010
9
Esses instrumentos formam o arcabouço jurídico que orienta o enfermeiro angolano na
sua prática, definindo direitos, deveres e limitações funcionais, e protegendo tanto o
profissional quanto o paciente contra actos indevidos ou negligentes.
2.2. A autonomia legal e os limites normativos da prática
A autonomia do enfermeiro tem fundamento legal, mas não é absoluta. De acordo com
Almeida (2016), o exercício da autonomia em saúde deve ser entendido como uma autonomia
relacional, ou seja, o profissional é livre para decidir dentro do seu campo de competência,
mas interdependente das demais categorias da equipa13.
Em termos práticos, a lei permite que o enfermeiro realize actos técnicos e decisões
clínicas próprias, como avaliação de enfermagem, planeamento e execução de cuidados,
educação terapêutica e gestão de unidades. Contudo, actos médicos exclusivos, como
diagnósticos clínicos complexos, prescrição farmacológica fora de protocolos e
procedimentos cirúrgicos, continuam sob reserva de competência médica14.
Essa delimitação evita conflitos de competência, mas também gera debates sobre
subalternização profissional, uma vez que o enfermeiro, em muitas instituições, é restringido
por barreiras hierárquicas e culturais. Segundo Nunes (2019), a ausência de legislação
específica que detalhe o escopo da enfermagem em Angola contribui para interpretações
arbitrárias e desigualdades de poder nas equipas multi-profissionais15.
2.3. Dimensões ético-legais da responsabilidade profissional
A autonomia legal está sempre acompanhada da responsabilidade jurídica. O
enfermeiro é civil, disciplinar e criminalmente responsável pelos actos praticados no
exercício da profissão. Assim, cada decisão clínica deve ser sustentada em evidência
científica, julgamento técnico e observância das normas deontológicas.
Conforme Silva e Mendes (2019), “a autonomia do enfermeiro é proporcional à sua
responsabilidade moral e jurídica perante o paciente e a instituição” 16. O descumprimento das
12
CONSELHO DE ENFERMAGEM DE ANGOLA. Código Deontológico do Enfermeiro. Luanda: Ministério da
Saúde, 2018.
13
ALMEIDA, M. C. P.; ROCHA, J. S. Y. O trabalho de enfermagem e a organização do cuidado. São Paulo: Cortez,
2016.
14
CONSELHO DE MINISTROS DE ANGOLA. Decreto sobre a Regulamentação das Profissões de Saúde. Luanda,
2015.
15
NUNES, A. M. O. A Enfermagem em Angola: desafios da regulamentação e exercício profissional. Luanda:
Universidade Agostinho Neto, 2019.
16
SILVA, M. J. P.; MENDES, I. A. C. Ética e Enfermagem: fundamentos e práticas. São Paulo: EPU, 2019.
10
normas pode configurar negligência, imperícia ou imprudência, infracções que acarretam
sanções previstas tanto no Código Deontológico quanto na legislação penal comum.
No contexto angolano, as infracções de natureza profissional são julgadas pelo
Conselho de Disciplina do CEA, que tem autoridade para aplicar advertências, suspensões e
até cassação de licença profissional em casos graves17.
Essa responsabilização reforça que a autonomia não se confunde com liberdade
irrestrita: trata-se de uma liberdade com deveres, orientada pelo princípio da ética do cuidado
e pelo respeito à lei.
2.4. Perspectiva comparada: enquadramento internacional da profissão
No cenário global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Conselho Internacional
de Enfermeiros (CIE) vêm defendendo a ampliação do escopo de actuação dos enfermeiros
como resposta à crescente demanda de cuidados primários e à escassez de médicos em muitos
países de baixa e média renda18.
Em nações como Portugal e Brasil, por exemplo, o enfermeiro possui autonomia legal
mais consolidada. Em Portugal, o Decreto-Lei n.º 161/96, que regula o exercício profissional
dos enfermeiros, reconhece explicitamente a independência técnica e científica desses
profissionais19. No Brasil, a Lei n.º 7.498/86 define o exercício profissional da enfermagem e
confere ao enfermeiro o direito de planejar, organizar, supervisionar e avaliar os serviços de
enfermagem20.
Esses modelos legais podem servir de referência comparativa para Angola,
especialmente no que concerne à definição mais detalhada do âmbito de prática e à
valorização da autonomia decisória do enfermeiro. Conforme observa Pereira e Oliveira
(2020), quanto mais clara for a legislação, maior a segurança jurídica e o reconhecimento
social da profissão21.
17
CONSELHO DE ENFERMAGEM DE ANGOLA. Estatuto Orgânico do Conselho de Enfermagem. Luanda, 2015.
18
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório Mundial sobre Enfermagem e Obstetrícia. Genebra:
OMS, 2020.
19
REPÚBLICA PORTUGUESA. Decreto-Lei n.º 161/96, de 4 de setembro. Diário da República, I Série, Lisboa,
1996.
20
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Lei n.º 7.498/86: Dispõe sobre a regulamentação do exercício da
Enfermagem. Brasília, 1986.
21
PEREIRA, A. F.; OLIVEIRA, L. P. Enfermagem e Autonomia Profissional: Perspectivas Éticas e Legais. Revista
Brasileira de Enfermagem, v. 73, n. 2, 2020.
11
2.5. Desafios contemporâneos e perspectivas de fortalecimento
Apesar dos avanços normativos, persistem desafios significativos à consolidação plena
da autonomia legal da enfermagem em Angola. Entre eles destacam-se:
Fragilidade regulatória, com ausência de lei própria e detalhada sobre o
exercício profissional;
Subvalorização institucional, que mantém o enfermeiro em posição hierárquica
inferior;
Limitações na formação jurídica dos profissionais, que muitas vezes
desconhecem seus direitos e deveres;
Deficiência na fiscalização ética, dificultando a responsabilização de más
práticas.
Como defende Paim (2015), a profissionalização plena da enfermagem exige não
apenas competência técnica, mas também participação política e capacidade de influenciar
processos decisórios na formulação de políticas de saúde22.
Nesse sentido, o fortalecimento da autonomia legal depende de três eixos estratégicos:
1. Revisão legislativa, criando uma Lei do Exercício Profissional de Enfermagem
específica;
2. Educação permanente, incluindo conteúdos de ética e legislação nos currículos
universitários;
3. Empoderamento institucional, com maior representação do CEA nas decisões de
política sanitária nacional.
Tais medidas são indispensáveis para transformar o enfermeiro em protagonista do
cuidado e agente de transformação social, conforme os princípios da Saúde Universal
defendidos pela OMS.
Síntese conclusiva do capítulo
O enquadramento legal da enfermagem em Angola reflecte um sistema em evolução,
onde a autonomia do enfermeiro é reconhecida, porém limitada por lacunas normativas e
barreiras culturais. A consolidação dessa autonomia exige uma abordagem integrada entre
22
PAIM, J. S. O que é o SUS. São Paulo: Fiocruz, 2015.
12
legislação, ética e políticas públicas, de modo que o enfermeiro possa exercer sua função com
liberdade técnica, segurança jurídica e responsabilidade social.
CAPÍTULO III - O ENFERMEIRO NO CONTEXTO MULTI-
PROFISSIONAL: DESAFIOS E PERSPECTIVAS
A prática da enfermagem contemporânea insere-se num cenário de complexidade
organizacional e interdisciplinaridade, no qual diferentes profissionais da saúde interagem
para alcançar um mesmo objectivo: a promoção do bem-estar e da vida humana. Nesse
contexto, o enfermeiro assume papel essencial na coordenação e execução do cuidado, sendo,
ao mesmo tempo, agente técnico, gestor e educador em saúde.
13
Conforme assinala Foucault (1979), as instituições de saúde reflectem estruturas de
poder e saber que condicionam a autonomia dos sujeitos que nelas actuam 23. No interior
dessas estruturas, o enfermeiro ocupa uma posição singular, frequentemente tencionada entre
a subordinação administrativa e a necessidade de afirmação científica e ética.
Assim, compreender a inserção do enfermeiro no contexto multi-profissional implica
analisar as relações de poder, as dinâmicas de colaboração e as formas de reconhecimento da
sua autonomia técnica e moral, tanto no plano institucional quanto no social.
3.1. O trabalho em equipa multi-profissional e a interdependência das práticas
O conceito de trabalho multi-profissional designa a actuação conjunta e complementar
de profissionais com formações diversas, que compartilham responsabilidades no
planeamento, execução e avaliação do cuidado à saúde.
Segundo Peduzzi (2001), a equipe multi-profissional não é mera justaposição de
tarefas, mas um espaço de cooperação dialogada, em que as diferenças de saber se tornam
instrumentos de integração24.
Nesse contexto, o enfermeiro desempenha papel estratégico, pois é o profissional que
mantém maior continuidade e proximidade com o paciente, articulando as acções médicas,
psicológicas, farmacológicas e sociais.
Para Almeida e Rocha (2016), o enfermeiro é “o elo que interliga os diferentes
segmentos da assistência, sendo responsável por organizar o cuidado e garantir a coerência
das acções terapêuticas”25.
A sua autonomia técnica manifesta-se, portanto, na capacidade de gerir processos de
cuidado, avaliar necessidades, tomar decisões imediatas e coordenar intervenções de outros
membros da equipa. Porém, essa autonomia é mediada por estruturas institucionais que,
muitas vezes, reproduzem hierarquias verticais, colocando o enfermeiro numa posição de
dependência funcional em relação ao médico.
23
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
24
PEDUZZI, M. Equipe multi-profissional de saúde: conceito e tipologia. Revista de Saúde Pública, v. 35, n. 1,
p. 103–109, 2001.
25
ALMEIDA, M. C. P.; ROCHA, J. S. Y. O trabalho de enfermagem e a organização do cuidado. São Paulo:
Cortez, 2016.
14
3.2. A hierarquia médico-centrada e os conflitos de autonomia
A tradição médica ocidental construiu, ao longo dos séculos, um modelo de assistência
centrado na figura do médico como principal detentor do saber e da autoridade em saúde.
Essa herança histórica ainda influencia profundamente as práticas hospitalares e a
organização dos serviços.
De acordo com Collière (1999), “a enfermagem, nascida no seio de uma medicina
patriarcal, teve de lutar pela sua identidade e reconhecimento científico” 26.
Em Angola, esse modelo médico hegemónico persiste, embora a legislação já
reconheça formalmente a autonomia técnica do enfermeiro. Muitas instituições ainda operam
sob estruturas administrativas que subordinam o trabalho de enfermagem à autoridade
médica, mesmo em áreas de competência exclusiva do enfermeiro, como a supervisão de
equipas, o cuidado básico e a educação sanitária.
Nunes (2019) observa que “a autonomia do enfermeiro angolano é frequentemente
simbólica, pois a cultura institucional continua a valorizar a hierarquia médica em detrimento
do trabalho colaborativo”27.
Essa realidade produz tensões e conflitos de autoridade dentro das equipas multi-
profissionais, o que impacta negativamente a qualidade do cuidado, a motivação dos
profissionais e a eficiência organizacional.
3.3. A dimensão colaborativa da autonomia
A verdadeira autonomia profissional, segundo Beauchamp e Childress (2001), não
significa isolamento, mas sim a capacidade de contribuir de forma livre e responsável para
decisões compartilhadas28.
Assim, a autonomia do enfermeiro deve ser entendida como colaborativa, não
hierárquica. O enfermeiro actua como parceiro técnico e ético no processo terapêutico,
26
COLLIÈRE, M. F. Promover a vida: da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem. Lisboa:
Lidel, 1999.
27
NUNES, A. M. O. A Enfermagem em Angola: desafios da regulamentação e exercício profissional. Luanda:
Universidade Agostinho Neto, 2019.
28
BEAUCHAMP, T. L.; CHILDRESS, J. F. Principles of Biomedical Ethics. Oxford: Oxford University Press,
2001.
15
oferecendo uma visão holística do paciente e um olhar que integra as dimensões biológicas,
emocionais e sociais do cuidado.
Para Carvalho e Silva (2015), “a prática multi-profissional não anula a autonomia, mas
a redefine como interdependência produtiva”, isto é, cada profissional tem liberdade decisória
dentro de suas competências, mas o resultado é fruto de cooperação técnica e ética 29.
Em Angola, essa concepção colaborativa começa a emergir em programas de atenção
primária, onde o enfermeiro tem papel de liderança comunitária, actuando na prevenção,
vacinação, aconselhamento e vigilância epidemiológica. Tais experiências revelam que,
quando reconhecida e valorizada, a autonomia do enfermeiro contribui directamente para a
eficácia do sistema de saúde e para a redução da mortalidade evitável.
3.4. Formação, conhecimento científico e poder profissional
A autonomia no contexto multi-profissional está intimamente relacionada ao nível de
formação e à capacidade científica do enfermeiro.
Segundo Pereira e Oliveira (2020), “quanto maior o domínio do conhecimento e da
evidência científica, maior a legitimidade do enfermeiro para exercer autoridade técnica” 30.
Infelizmente, muitos enfermeiros angolanos enfrentam desafios de formação
continuada limitada e escassas oportunidades de investigação científica, o que enfraquece sua
voz nos espaços de decisão institucional.
Conforme Silva (2018), a fragilidade científica da enfermagem em países africanos
lusófonos ainda é reflexo de políticas coloniais que restringiram o acesso à educação superior
e à autonomia intelectual31.
Portanto, o fortalecimento da autonomia multi-profissional exige o investimento em
formação universitária sólida, pós-graduação, pesquisa aplicada e capacitação ética,
promovendo a emancipação intelectual do enfermeiro e o reconhecimento de seu papel
estratégico nos sistemas de saúde.
29
CARVALHO, E. C.; SILVA, R. M. Enfermagem e trabalho em equipe: interdependência e autonomia.
Revista Brasileira de Enfermagem, v. 68, n. 4, p. 745–752, 2015.
30
PEREIRA, A. F.; OLIVEIRA, L. P. Enfermagem e Autonomia Profissional: Perspectivas Éticas e Legais.
Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, n. 2, 2020.
31
SILVA, T. R. História da Enfermagem em África Lusófona: colonialismo, formação e identidade profissional.
Lisboa: ISCSP, 2018.
16
3.5. Perspectivas de fortalecimento da enfermagem no contexto multiprofissional
angolano
A consolidação da autonomia do enfermeiro em Angola depende de mudanças
estruturais em três dimensões principais:
1. Dimensão normativa – criação de uma Lei do Exercício Profissional de
Enfermagem, nos moldes das legislações de Portugal e Brasil, definindo
claramente as competências, direitos e deveres da profissão;
2. Dimensão institucional – fortalecimento do Conselho de Enfermagem de
Angola (CEA), com maior autonomia administrativa, poder fiscalizador e
participação em políticas públicas;
3. Dimensão educacional – incorporação obrigatória de disciplinas de ética,
bioética e legislação profissional nos cursos de enfermagem, e incentivo à
investigação científica sobre práticas de cuidado.
Essas medidas visam construir um modelo de autonomia participativa, em que o
enfermeiro não apenas execute tarefas, mas participe activamente das decisões clínicas,
políticas e administrativas.
Como defende Paim (2015), a democratização da saúde passa necessariamente pela
valorização dos trabalhadores da base, e o enfermeiro, pela sua inserção directa nas
comunidades, é actor-chave da transformação sanitária e social32.
Dessa forma, o futuro da enfermagem angolana, inserida no contexto multi-
profissional, dependerá do equilíbrio entre autonomia e responsabilidade, liberdade e
cooperação, ciência e ética.
Síntese conclusiva do capítulo
O enfermeiro, no contexto multi-profissional, desempenha um papel indispensável e
cada vez mais estratégico na organização do cuidado. A sua autonomia técnica e ética não
deve ser vista como ruptura, mas como expressão de competência e co-responsabilidade.
O desafio em Angola consiste em romper com estruturas hierárquicas obsoletas,
investir na formação e valorização profissional, e harmonizar a legislação com as práticas
contemporâneas da saúde.
32
PAIM, J. S. O que é o SUS. São Paulo: Fiocruz, 2015.
17
Somente assim será possível consolidar uma enfermagem autónoma, científica e
socialmente reconhecida, capaz de contribuir, em igualdade de condições, para a efectivação
do direito à saúde e da dignidade humana.
CONCLUSÃO
A análise desenvolvida ao longo deste estudo sobre “Autonomia e limites legais da
prática do enfermeiro no contexto multiprofissional” permitiu compreender que o exercício
profissional da enfermagem está inserido num sistema complexo de relações institucionais,
jurídicas e éticas.
Constatou-se que a autonomia do enfermeiro é um valor fundamental não apenas para a
sua identidade profissional, mas também para a qualidade e a humanização do cuidado
prestado ao paciente. Ela representa o reconhecimento da competência técnica e da
responsabilidade moral que caracterizam o trabalho do enfermeiro no sistema de saúde.
18
Contudo, verificou-se que a autonomia enfrenta limitações de natureza legal,
institucional e cultural, principalmente nos contextos em que ainda prevalece o modelo
médico-hegemônico e uma estrutura hierárquica pouco aberta à interdisciplinaridade. Em
Angola, embora existam dispositivos legais que reconheçam a importância do enfermeiro, a
ausência de uma Lei específica do Exercício Profissional de Enfermagem fragiliza a proteção
jurídica e o reconhecimento formal de suas competências exclusivas.
A investigação evidenciou que, no contexto multiprofissional, o enfermeiro atua como
mediador essencial entre os diferentes saberes da saúde, integrando dimensões biológicas,
psicológicas e sociais do cuidado. Assim, a autonomia profissional deve ser compreendida
numa perspetiva colaborativa e solidária, na qual o enfermeiro exerce liderança técnica e
ética sem ruptura com os demais profissionais.
Conclui-se, portanto, que o fortalecimento da autonomia do enfermeiro depende da
articulação de três fatores fundamentais:
1. Reforço jurídico – através de uma legislação específica, clara e protetiva;
2. Valorização institucional – com reconhecimento do papel do enfermeiro na gestão,
educação e coordenação do cuidado;
3. Desenvolvimento científico e formativo – por meio da formação contínua, da
pesquisa em enfermagem e da inserção do enfermeiro em espaços de decisão política e
sanitária.
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