0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações12 páginas

Download (2)

Este estudo qualitativo investiga a percepção de profissionais que acompanham homens autores de violência contra mulheres em um núcleo interdisciplinar no Brasil. Os participantes avaliam positivamente suas atuações, apesar de enfrentarem desafios como falta de recursos e ausência de avaliação de efetividade. O trabalho busca confrontar ideias machistas e promover discussões sobre gênero, destacando a importância de ampliar essa temática nos atendimentos.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações12 páginas

Download (2)

Este estudo qualitativo investiga a percepção de profissionais que acompanham homens autores de violência contra mulheres em um núcleo interdisciplinar no Brasil. Os participantes avaliam positivamente suas atuações, apesar de enfrentarem desafios como falta de recursos e ausência de avaliação de efetividade. O trabalho busca confrontar ideias machistas e promover discussões sobre gênero, destacando a importância de ampliar essa temática nos atendimentos.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Psicologia USP, 2025, volume 36, e230145 1-12

1
Artigo
Acompanhamento psicossocial a homens autores de violência
contra as mulheres: perspectivas da equipe interdisciplinar
Juliana de Oliveiraa
Fabio Scorsolini-Cominb*
a
Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, Brasília, DF, Brasil
b
Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil

Resumo: Este estudo qualitativo teve como objetivo compreender como os profissionais de um núcleo que realiza
o acompanhamento psicossocial de homens autores de violência contra as mulheres avaliam suas atuações e
o serviço no qual estão inseridos. Participaram quatro profissionais de um núcleo interdisciplinar do Centro-
Oeste. As entrevistas foram submetidas à análise temático-reflexiva e interpretadas pela teoria bioecológica.
Os profissionais percebem suas atuações de forma positiva, apesar de dificuldades como a escassez de recursos
humanos e a ausência de avaliação de efetividade da intervenção. O trabalho grupal busca confrontar ideias
machistas, sexistas e legitimadoras de violência, ao mesmo tempo que tenta oferecer espaço de escuta, cuidado,
reflexão e aprendizagem no qual as nuances do ser homem, do sentir e do cuidar sejam o centro das discussões.
Ampliar a discussão de gênero nesses espaços é um desafio perene para esses profissionais.

Palavras-chave: violência contra a mulher, violência de gênero, grupos focais.

A violência representa uma das principais capazes de refletir sobre as mudanças e as permanências
ameaças à saúde da mulher, configurando-se como em torno desse fenômeno (Fórum Brasileiro de Segurança
um problema não só social, mas também político e de Pública, 2021; Magrin & Oliveira, 2023).
saúde pública (Aguiar et al., 2023; Tonelli, Beiras, & A notoriedade crescente sobre o enfrentamento
Ried, 2017). O aumento de casos de violência contra as à violência contra as mulheres reforça a necessidade
mulheres é influenciado por variáveis diversas e uma de implementação de políticas públicas integradas e
delas é a maior informação da população sobre o tema e, articuladas que abarquem os diversos pilares que
consequentemente, o aumento no número de denúncias sustentam essas situações e formulem estratégias voltadas
realizadas (Cepia, 2016). não só às vítimas, como tem predominado na literatura
Durante o ano de 2020, 230.160 mulheres científica (Aguiar et al., 2023), mas também aos autores
denunciaram ao menos um caso de violência doméstica no dessas violências (Pereira, Guizardi, & Loyola, 2023).
Brasil. As pesquisas mostram que houve uma diminuição No contexto brasileiro, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340,
das denúncias nesse ano devido à pandemia da covid- 2006) prevê atendimento multidisciplinar de orientação,
19, impedindo não apenas que essas mulheres saíssem encaminhamento, prevenção e outras medidas voltadas
de casa para fazerem a denúncia, mas também em para a ofendida, o agressor e os familiares, com especial
função do medo de realizá-la estando muito próximas atenção às crianças e aos adolescentes (Beiras, Moraes,
do parceiro em um contexto de isolamento social. Desse Alencar-Rodrigues, & Cantera, 2012).
modo, é importante que as vulnerabilidades da mulher Trabalhar na perspectiva do acompanhamento
nesse contexto sejam exploradas e possam se refletir ao autor de violência é também buscar promover uma
nessas estatísticas (Marques, Moraes, Hasselmann, prevenção da recorrência dessas práticas, uma vez que os
Deslandes, & Reichenhein,, 2020). Mesmo com objetivos desses programas visam a ações educativas e
essa redução influenciada pelo cenário pandêmico, culturais que possam interferir na mudança dos padrões
além da subnotificação historicamente referida, os sexistas, perpetuadores das desigualdades de poder entre
números encontrados ainda são elevados, reforçando a homens e mulheres e da violência contra as mulheres
necessidade de que esse contexto seja melhor investigado (Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2011).
e acompanhado no período pós-pandêmico por meio de Em relação ao acompanhamento ao autor de
levantamentos e estudos que envolvam diferentes métodos violência, de acordo com Lima e Büchele (2011),
de investigação, além do emprego de perspectivas teóricas o Emerge: Counseling & Educations to Stop Domestic
Violence, fundado em 1977 nos Estados Unidos, é um
* Endereço para correspondência: [Link]@[Link] dos programas pioneiros no mundo que trabalha com

[Link]
Juliana de Oliveira& Fabio Scorsolini-Comin
2
homens autores de violência íntima e tem sido referência estudo tem como objetivo central compreender como os
para outros programas em diversos países. No Brasil, o profissionais de um núcleo que realiza o acompanhamento
Instituto NOOS, situado no Rio de Janeiro e fundado psicossocial de autores de violência contra as mulheres
em 1994, assume o pioneirismo desse tipo de serviço avaliam suas atuações e o serviço no qual estão inseridos.
(Lima & Büchele, 2011; Tonelli et al., 2017). No período Adicionalmente, serão abordados os sentidos que atribuem à
pós-Lei Maria da Penha, a primeira experiência relatada violência doméstica, a compreensão que possuem acerca da
pela literatura está localizada em Nova Iguaçu, Baixada participação no grupo e os efeitos dessa vivência por parte dos
Fluminense (RJ) (Cepia, 2016). homens, bem como os limites, dificuldades e os principais
Pesquisa realizada no contexto brasileiro mapeou desafios dessa atuação. Os achados dessa investigação podem
de forma não exaustiva os programas que realizavam ser úteis não apenas na construção de outros equipamentos
atendimentos individuais e grupais ou exclusivamente de escuta e acompanhamento psicossocial nesse campo,
grupais. No total, foram encontrados 41 programas como também para uma melhor organização dos serviços já
em todo o país, sendo que 26 destes responderam ao existentes, reforçando a necessidade de que essas iniciativas
estudo. Dos 26 aparelhos acessados, cinco (19,23%) sejam conhecidas e acompanhadas em suas particularidades
são executados por organizações da sociedade civil para seu aprimoramento.
(OSC), 19 (73,07%) têm caráter governamental, como
prefeituras, universidades públicas, setor judiciário ou Método
secretarias especializadas, e dois (7,6%) são fruto de
parceria entre OSC e equipamentos governamentais Tipo de estudo
(Beiras, Nascimento, & Incrocci, 2019).
Tonelli, Beiras e Ried (2017) salientam que, Trata-se de um estudo descritivo, exploratório,
apesar dos importantes desdobramentos da Lei Maria amparado na abordagem de pesquisa qualitativa e aprovado
da Penha, que refere a necessidade de um trabalho com pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal
o autor da violência, políticas nesse setor são muito do Triângulo Mineiro (CAAE 67578117.1.0000.5154, sob
frágeis ainda, trazendo à discussão a relevância de mais Parecer nº 2.110.458). Para a validade do estudo qualitativo,
estudos, intervenções e ações nesse contexto. Beiras et al. esta presente investigação seguiu as recomendações do
(2019) também ressaltam a necessidade de uma política protocolo Coreq (Consolidated Criteria for Reporting
pública nacional que possa apontar diretrizes mínimas Qualitative Research), por meio de sua lista de verificação
para esses programas, além de fortalecer as iniciativas já (Tong, Sainsbury, & Craig, 2007).
existentes. Na ausência de direcionamentos mais claros
e padronizados, as equipes interdisciplinares existentes Participantes
assumem um papel ainda mais importante nesse contexto.
Sobre as equipes interdisciplinares que possibilitam Participaram quatro profissionais membros da
o acompanhamento desses autores de violência, percebe-se equipe de um núcleo que atende autores de violência
que as pesquisas têm se preocupado em descrever como contra as mulheres e seus familiares, localizado na região
elas se organizam para os acompanhamentos, como são Centro-Oeste do Brasil. A escolha por esse serviço
compostas e outros aspectos mais técnicos e pontuais se deu pelo fato de ele ser pioneiro na região e pela
(Beiras, 2014; Cepia, 2016; Lopes & Leite, 2013). Outros disponibilidade de acesso da pesquisadora. Como critério
estudos buscam destacar as experiências dos participantes de inclusão, os profissionais deveriam já ter coordenado
desses grupos (Belarmino & Leite, 2020; Oliveira & pelo menos uma vez o grupo de acompanhamento a
Scorsolini-Comin, 2021), mas com foco sobre os autores homens autores de violência, do início ao fim, de modo
de violência e com pouco ou nenhum espaço para a que fosse possível investigar as experiências e percepções
inclusão das percepções e experiências dos profissionais no atendimento ao homem autor de violência, já que no
que também compõem esses encontros. Assim, os serviço há também atendimentos voltados às mulheres.
grupos acabam sendo significados como produções Ao final, as categorias profissionais que participaram
exclusivas desses homens, desconsiderando também os foram: um técnico em assistência social (homem), dois
posicionamentos assumidos pela equipe e performados analistas em assistência social da área da Psicologia (um
no espaço grupal. Por meio de uma revisão de literatura, homem e uma mulher) e uma analista em assistência
Pereira et al. (2023) mapearam a existência de 309 grupos social da área do Serviço Social (mulher), de modo que
no contexto nacional. Acessando 87,7% desses grupos, os todos os profissionais que coordenam os grupos deste
autores evidenciaram a falta de formação continuada da núcleo foram entrevistados. O perfil desses participantes
equipe de facilitação, as dificuldades financeiras para a será apresentado na seção de Resultados e discussão.
manutenção dessas estratégias, bem como a fragilidade
na avaliação e monitoramento das atividades, o que pode Instrumentos
impactar na continuidade e na efetividade dessas ações.
A fim de contribuir com o panorama de pesquisas Foi empregado um roteiro de entrevista
sobre o assunto, em uma perspectiva qualitativa, este desenvolvido exclusivamente para este estudo, aplicado

2 Psicologia USP I [Link]/pusp


Acompanhamento psicossocial a homens autores de violência contra as mulheres
3
face a face com cada um dos participantes individualmente, um acordo judicial em audiência concordando com a
contendo perguntas relacionadas à atuação profissional, Suspensão Condicional do Processo (SCP), o qual não há
à prática de coordenar o grupo e a percepções sobre o sentença condenatória ou absolvitória, fazendo com que
serviço, limites e dificuldades da atuação. Para contribuir o homem tenha que passar pelo acompanhamento grupal
com a discussão dos resultados, também foram explorados como acordo para ser liberado. O não cumprimento
trechos do diário de campo produzido pela pesquisadora, do acordo pode gerar prejuízos no processo judicial,
que acompanhou todo o trabalho da equipe na oferta o que acaba tornando a participação obrigatória (Lei
do grupo. Esse diário traz reflexões da pesquisadora ao 9099, 1995).
acompanhar o grupo e ao se posicionar como mulher, O acompanhamento psicossocial se inicia com
em seu processo de inserção ecológica (Koller, 2011). atendimentos individuais para acolhimento, escuta
qualificada e encaminhamentos necessários. Em seguida,
Procedimento a pessoa será, preferencialmente, direcionada a participar
do grupo, que tem duração aproximada de três meses,
Coleta de dados o que corresponde de 10 a 12 encontros. Ao final, é
feita uma avaliação e a equipe redige um relatório. O
Após a autorização do serviço para a realização da acompanhamento psicossocial tem como objetivo provocar
pesquisa, a pesquisadora entrou em contato com os profissionais reflexões acerca de questões de gênero, comunicação,
a fim de apresentar a proposta da pesquisa por meio do Termo reconhecimento e expressão dos sentimentos, Lei Maria
de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Após a leitura da Penha, entre outros assuntos de relevância relacionados
e assinatura do documento, foi agendada a coleta de dados à violência doméstica contra as mulheres. Os temas são
com os participantes. As entrevistas individuais aconteceram trabalhados por meio de dinâmicas e atividades que
presencialmente em ambiente reservado e foram audiogravadas suscitem reflexão e discussão dos participantes.
com equipamento de áudio e transcritas na íntegra e literalmente
pela própria pesquisadora. Análise dos dados
Além dessas entrevistas, a pesquisadora
responsável pela coleta acompanhou 10 encontros grupais As entrevistas foram submetidas aos procedimentos
ao longo de sete meses. A pesquisadora teve abertura da análise temático-reflexiva (Clarke, Braun, & Hayfield,
para realizar apontamentos sobre as discussões, haja 2019), com a posterior produção de temas emergentes a
vista a sua condição de psicóloga e pesquisadora do partir das falas dos entrevistados. A interpretação dos
tema. Essa abertura foi concedida pela equipe, mesmo temas produzidos a partir das entrevistas foi pautada
que a pesquisadora tenha optado por se posicionar como na teoria bioecológica (Bronfenbrenner, 2011) e na
observadora, estritamente. Após cada encontro, anotações literatura da área. O diário de campo, produzido a partir
eram feitas no diário de campo pela pesquisadora. das orientações inspiradas nesse modelo, segundo as
Coordenaram o grupo acompanhado nesta pesquisa proposições de Koller (2011) para a inserção ecológica, foi
dois profissionais membros da equipe, um homem e uma empregado de modo complementar para a compreensão
mulher e uma estagiária. A pesquisadora atuou como dos eixos temáticos. A escolha pelo modelo bioecológico
observadora. O corpus analítico deste estudo, portanto, deu-se pela possibilidade de compreensão sistêmica do
foi composto pelos registros no diário de campo e pelas fenômeno, considerando os atores envolvidos, seus
transcrições das entrevistas com os membros da equipe. A contextos desenvolvimentais e a relação entre esses
coleta de dados foi realizada de maio a dezembro de 2017. sistemas de modo dinâmico e atravessando um dado
período de tempo, que foi o do acompanhamento grupal
Caracterização do serviço pela pesquisadora.
O núcleo de atendimento à família e aos autores Resultados e discussão
de violência doméstica é um programa desenvolvido e
ofertado pelo Governo do Distrito Federal (DF), por meio Conforme mencionado, quatro profissionais
da Secretaria de Estado do Trabalho, Desenvolvimento participaram do estudo, sendo dois homens e duas
Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos mulheres. A Tabela 1 mostra a caracterização dos
(SEDESTMIDH), que realiza acompanhamento participantes conforme idade, escolaridade, gênero, tempo
psicossocial aos envolvidos em situações de violência de atuação e raça/cor.
doméstica contra a mulher, tipificadas pela Lei Maria da Conforme a Tabela 1, a média de idade dos
Penha (Lei 11.340, 2006). Este serviço foi criado em 2003 participantes foi de 38 anos e de atuação no serviço foi de
e teve a idealização do Conselho dos Direitos da Mulher quase sete anos (média=6,6 anos). Todos os profissionais
do Distrito Federal para seu surgimento (Silva, 2015). possuem nível superior, dois se autodeclararam brancos
Este núcleo recebe, em sua maior parte, e dois pretos. Os nomes fictícios tiveram como objetivo
encaminhamentos da Vara de Violência Doméstica desta não permitir a identificação dos participantes. Os três
mesma região administrativa de homens que firmaram eixos temáticos produzidos serão discutidos a seguir.

Psicologia USP, 2025, volume 36, e230145 3


Juliana de Oliveira& Fabio Scorsolini-Comin
4
Tabela 1. Caracterização dos participantes
Nome fictício Idade Gênero Tempo de atuação Raça/cor Escolaridade
Caio 42 anos Homem cisgênero 9 anos Preta Superior
Cássia 37 anos Mulher cisgênero 2 anos e 10 meses Branca Superior
Lara 39 anos Mulher cisgênero 9 anos Branca Superior
Paulo 34 anos Homem cisgênero Cinco anos e seis meses Preta Superior

Atribuição de sentidos sobre a violência contra esse homem pra possibilitar essa reflexão” (Lara), sendo
as mulheres que “dificilmente o homem vem pro nosso atendimento
se não tiver amarrado à questão da Justiça” (Caio). Para
Entendendo que o desenvolvimento humano deve alguns juristas, a SCP possibilita imediata determinação
ser compreendido levando-se em conta que a pessoa por participação em grupo e o acompanhamento judicial,
é apenas um dos elementos dos sistemas, estudar os além de oferecer celeridade processual e atendimento ao
processos e as interações que ocorrem na vida de um autor de violência, gerando, por consequência, proteção à
sujeito passa a ser o principal foco da teoria bioecológica vítima. Contudo, vários setores do movimento feminista
(Bronfenbrenner, 2011). Ao considerar a construção de questionaram o seu uso, afirmando que a SCP banaliza
políticas públicas que visam ao enfrentamento da violência a violência, desqualifica a vítima, não observa as
contra as mulheres, os serviços que acompanham autores complexidades dos eventos, não garante a segurança
de violência, um dos pilares que compõem essa política, das mulheres e legitima o discurso da desigualdade de
devem ser compreendidos como um dos microssistemas gênero (Lopes & Leite, 2013).
em que o autor está inserido e que pode vir a gerar A abordagem ecológica do desenvolvimento
mudança de percepção e comportamento a partir da humano permite uma leitura multissistêmica da violência,
sua participação do grupo. Sendo assim, na direção de entendendo que ela é um fenômeno que depende do
que mudanças possam ocorrer, a atuação da equipe passa contexto, das experiências que a pessoa vivencia, dos seus
a ser um locus de análise, tendo em vista que os grupos processos psicológicos, do momento que ela está vivendo
são coordenados por esses profissionais. e de características individuais (Koller, 2011), o que nos
Ao serem questionados sobre o que pensam sobre possibilita incluir marcadores como raça/cor, gênero,
a violência contra as mulheres, os quatro participantes classe social e outros vértices que compõem a dimensão
relataram que “é um fenômeno muito cruel e que está da pessoa em desenvolvimento. A equipe entrevistada
muito presente na sociedade” (Paulo). Os profissionais entende que a violência é multifatorial, mas aponta que
acreditam que as pessoas têm uma dificuldade em os principais aspectos relacionados são as “relações de
reconhecer as práticas violentas, já que elas estão tão poder desiguais entre homens e mulheres, sustentadas
naturalizadas nas relações: “Isso fica notório quando pela cultura machista e patriarcal na qual a sociedade
se percebe que sequer as vítimas reconhecem que está inserida” (Caio). Desse modo, apesar dos aspectos
sofreram violência” (Lara). Dessa forma, o fenômeno individuais presentes em cada caso, a explicação mais
acaba sendo minimizado e banalizado, pois as estruturas aventada pelos profissionais para a violência de gênero
que compõem tanto os microssistemas (família, trabalho, faz referência ao macrossistema, o que pode contribuir
grupo de amigos) quanto os macrossistemas (cultura, para uma compreensão mais global, mas, ao mesmo
ideologias, valores, crenças) reforçam essa ideia. tempo, pode fragilizar as intervenções realizadas no
Por esse motivo, a profissional Cássia acredita que microssistema, como os grupos em tela, haja vista que
a violência nunca deixará de existir na sociedade. Afirma se compreende que as transformações são mobilizadas
que a SCP é fruto dessa cultura que naturaliza as práticas por movimentos mais amplos, em uma dimensão social
violentas, “passa a mão na cabeça dos homens”, pois e cultural. No entanto, os grupos de acompanhamento,
“de fato, a gente nunca vai saber o que essas mulheres justamente por incluírem a pessoa em desenvolvimento,
sofreram”. A participante traz o contraponto de que essa possuem um papel relevante na promoção de mudanças
modalidade de medida despenalizadora regulamenta, nesse cenário.
consequentemente, que as situações de violência Scott (1995) compreende que as relações de
sofridas são “leves” e, por isso, o homem não precisa poder estão imersas e permeiam as relações de gênero,
ser condenado, fazendo com que a punição seja uma via ou seja, não se consegue apreender essas relações sem
de sentença extremamente importante nesse processo esmiuçar como o poder se constitui nas relações sociais
de responsabilização, por se tratar de uma resposta à que se apresentam nas diferenças construídas entre o
sociedade sobre a não permissibilidade desses atos. masculino e o feminino. Gênero aqui não é o único campo
Já os demais profissionais entendem que o uso da de existência do poder, mas um espaço privilegiado
SCP é positivo “porque é um tempo que a Justiça amarra que possibilita o entendimento da organização da vida

4 Psicologia USP I [Link]/pusp


Acompanhamento psicossocial a homens autores de violência contra as mulheres
5
social. Portanto, dizer o que é ser homem ou o que é ser gerações (Bronfenbrenner, 2011; Koller, 2011). Além
mulher e atribuir significados, papéis e funções a partir disso, cabe destacar que essa ressalva não deve buscar
dessa identidade vai estabelecer relações de poder que, justificar a violência como um problema de falta de
por vezes, colocará os sujeitos em polos opostos, o que habilidades sociais apenas, desresponsabilizando os
pode acabar gerando a violência (Aguiar et al., 2023; homens por seus atos, mas de tornar visível o quanto a
Tonelli et al., 2017). cultura patriarcal, sexista e machista é disfuncional e gera
Cabe ressaltar que os estudos feministas vêm sofrimento também aos homens, já que essa exigência
demonstrando cada vem mais a importância em de realização da “essência” masculina gera tensões e
compreender o fenômeno da violência de gênero levando-se conflitos permanentes, adoecendo-os nesse lugar de ter
em consideração aspectos da interseccionalidade, que que dar conta de tudo o tempo todo e a todo custo (Zanello
traz à discussão um caráter dinâmico da discriminação, et al., 2015). Vemos, portanto, que elementos presentes
provocada por diversos eixos de poder tais como as no macrossistema podem ser endereçados e trabalhados
desigualdades de raça/cor, etnia, classe social, orientação no nível microssistêmico, ampliando o potencial dos
sexual, identidade de gênero, entre outros. Desse modo, grupos de acompanhamento em tela. No entanto, nem
entender as relações de poder entre homens e mulheres sempre esse potencial é reconhecido pelos profissionais,
apenas pelo viés de gênero é muito frágil e desconsidera haja vista a compreensão de que o macrossistema possui
que a estrutura patriarcal, sexista e machista opera de uma estrutura pouco permeável à mudança, pelo menos
mãos dadas com outras estruturas de dominação como o a curto prazo.
racismo, a cisheteronormatividade, o classismo, o etarismo, Durante um dos encontros sobre gênero no
entre outras (Kimmel, 2011; Magrin & Oliveira, 2023; grupo acompanhado, quando a equipe questionou
Zanello, 2018). Para os profissionais entrevistados, por aos participantes “do porquê as mulheres terem mais
sua vez, a institucionalização de arcabouços teóricos pelos facilidade para chorarem, eles responderam que isso
quais eles precisam se pautar, bem como o fortalecimento acontece pelo fato de terem sido criados para não serem
de práticas de capacitação, são importantes e estão em fracos, para não falharem, e que o choro traz essa ideia”
falta no serviço. Dos quatro participantes, apenas um (Diário de Campo). Sobre esse aspecto das construções
(Paulo) abordou em sua fala sobre a necessidade de do masculino e do feminino na sociedade, os membros
maior instrumentalização da equipe sobre o racismo, da equipe divergem um pouco em suas concepções. Paulo
compreendendo que há intersecções não trabalhadas nos percebe o masculino “ainda marcado por privilégios e
grupos com os autores de violência. a relação entre os dois polos ainda muito desigual”.
A subjetivação masculina hegemônica ordena Em contrapartida, Cássia, Lara e Caio acreditam que
que haja uma recusa do homem a características mudanças estão ocorrendo, fato que pode ser visto nas
compreendidas como femininas, que o “ser homem” gerações mais novas, em que as demarcações do que é
é uma construção feita no imperativo, ou seja, deve-se ser homem e ser mulher estão menos polarizadas.
assumir uma postura o tempo todo de provar que de fato A profissional Lara acrescenta que as mudanças
se é homem, como uma forma de validar a virilidade são pequenas, mas que consegue ver “vários femininos
masculina (Zanello, Fiuza, & Costa, 2015). Diante e vários masculinos”. Ela salienta que gosta de trazer
dessas construções de gênero estereotipadas, algumas para o grupo a reflexão de que “eu não deixo de ser
habilidades nos homens tendem a ser pouco desenvolvidas homem se eu sou sensível, eu não deixo de ser homem
ou completamente negligenciadas, tais como a expressão se eu choro, eu não deixo de ser homem se eu falo com
dos próprios sentimentos. Uma leitura ecológica é a de a minha esposa sobre o que eu estou sentindo” (Lara).
que aquele que comete a violência não teria habilidades Para Cássia, “as pessoas devem se libertar dessas
emocionais para resolver situações de embate, uma amarras, dessas exigências, desses padrões que são
vez que não apresenta experiências e conhecimentos impostos pela cultura heteropatriarcal” (Cássia). Nesse
mobilizados durante sua trajetória desenvolvimental. sentido, para a maioria dos profissionais entrevistados,
Nesse sentido, esses recursos assumiriam o cenário macrossistêmico vem sendo modificado aos
um papel importante, enfraquecendo as disposições poucos, embora de modo contínuo, o que não significa
pessoais da pessoa diante dos seus processos proximais. uma transformação radical, mas uma movimentação no
Especificamente, segundo a teoria, essa pessoa sentido de desestabilizar estruturas outrora concebidas
utilizaria recursos desorganizadores ao recorrer a como fixas, como o machismo e o patriarcado. É salutar
agressões e à violência, justamente por ter dificuldade destacar que além de ofertar esse espaço para que o
ao conter emoções ou comportamentos, ou seja, não homem possa expressar suas emoções, o grupo também
apresentando habilidades emocionais para lidar com os pode ser propício para se discutir os privilégios do homem
conflitos de outra forma. É importante salientar que o nas relações e na cultura, além de possibilitar traçar meios
desenvolvimento de uma pessoa envolve principalmente eficazes de quebrar o silêncio cúmplice dos homens com
os processos proximais e as interações, bem como os a violência (Zanello, 2020), bem como propor estratégias
padrões de estabilidade e de mudanças das características de envolvimento desses autores na promoção da equidade
biopsicológicas dos sujeitos em suas vidas através das e igualdade de gênero (Beiras et al., 2019).

Psicologia USP, 2025, volume 36, e230145 5


Juliana de Oliveira& Fabio Scorsolini-Comin
6
É oportuno, também, considerar que há hierarquias Esse entendimento reafirma a noção de gênero trazida
dentro das masculinidades e das feminilidades, as por Scott (1995) de que é uma categoria fundamental
quais devem ser observadas em intervenções grupais por meio da qual se atribui sentido a tudo (por exemplo,
com homens autores de violência, a fim de possibilitar azul é masculino e rosa é feminino), é uma maneira
a identificação de outras discriminações e formas de de organizar as relações sociais (roupas, profissões,
dominação que podem estar sendo perpetradas pelos banheiros separados pelo sexo) e é também uma estrutura
participantes do grupo. Segundo Kimmel (2011), nem de identidade pessoal (meninos, homens, meninas,
todo homem ou toda mulher estão similarmente situados, mulheres). Pela sua relevância, as questões de gênero e
pois há outros status (raça/cor, classe, idade, sexualidade, poder não podem ser negligenciados pelos programas.
religião, deficiência, etnicidade, entre outros marcadores) Nesse sentido, a equipe entrevistada mostra-se alinhada
que configuram o ser homem e o ser mulher. Por isso a essa perspectiva.
deve-se usar os termos no plural, a fim de alcançar as Além dessas temáticas, a equipe citou outras que
diferentes situacionalidades. Há de se considerar, por frequentemente são levadas para os encontros. Caio e
exemplo, que a mulher negra sofre muito mais violências Cássia mencionaram as relações familiares e os aspectos
que a branca, pois tem o racismo e o sexismo como voltados à constituição dos relacionamentos. Ambos
sistemas que a atingem conjuntamente. Nesse sentido, acreditam que discutir “família, filhos, o que é um
o grupo deve ser um lugar no qual essas violências conceito de família, o que é uma realidade de família,
estruturais são nomeadas e colocadas em xeque. o que é uma família hoje” está intimamente ligado à
De modo geral, todos os participantes possuem violência, “porque a violência vai chegar até os filhos,
uma ideia plural tanto do masculino quanto do feminino, ela não fica só na relação conjugal” (Caio).
contudo, não apresentaram falas que abarcassem as Discutir a rede de apoio do homem também é um
hierarquias presentes entre as masculinidades ou entre tema relevante, tendo em vista que ele “acaba vivendo
as feminilidades, nem nas entrevistas nem no grupo em um isolamento, ele tem uma rede, mas muitas vezes
observado. Ademais, os quatro profissionais não só é a rede de boteco, da bebida, e a gente precisa ter
expuseram a ideia de que haja um perfil homogêneo do uma rede muito maior” (Caio). Outros temas considerados
homem que comete violência contra as mulheres. Nos importantes foram o alcoolismo, sexualidade, políticas
encontros grupais, a título de informação, a média de idade públicas e cidadania. De acordo com os estudos
dos homens autores de violência foi de 37,9 anos. Dos 20 feministas, é salutar considerar a importância de se
homens que iniciaram o grupo de acompanhamento, todos discutir a violência não apenas como fenômeno de âmbito
se declararam homens cisgênero e heterossexuais, oito doméstico ou privado, mas como violências múltiplas e
com o ensino fundamental incompleto e apenas um com
pós-graduação completa. Das profissões mais presentes, variadas, presentes de modo geral na sociedade e que
três declararam ser comerciantes, dois pedreiros, dois sofrem intersecções. Nesse sentido, temas como raça/cor,
servidores públicos e dois autônomos. classe, geração, religião, identidade de gênero, orientação
Dessa forma, a equipe entende que a participação sexual, etarismo, entre outros, também devem ser alvo de
dos homens no grupo é de fundamental importância, a discussão nesses espaços (Crenshaw, 2020; Zanello, 2018).
fim de levá-los a questionar esses papéis engessados Por entender que gênero é um tema que perpassa
que devem exercer nas relações e interações sociais. tantos outros, a equipe respondeu acreditar que o fato
Além disso, o intuito é responsabilizá-los pelas condutas de o grupo ser coordenado por homens é diferente de
cometidas a partir do reconhecimento da violência. quando a coordenação é feita por mulheres. Lara e Paulo
Essa participação se faz necessária ao pensarmos nas acreditam haver mais desafios para as mulheres nessa
rígidas e desiguais relações de poder que existem entre condução, tendo em vista que algumas coisas que são
homens e mulheres e nas diferenças de gênero e de outros ditas no grupo mobilizam as mulheres para além do
marcadores, como os aqui mencionados, que legitimam campo profissional, mas pela condição de ser mulher.
as práticas violentas. Paulo afirma que há uma dificuldade quando um homem
coordena o grupo pois, em alguns momentos, precisa
O autor de violência: uma intervenção possível mostrar que não está fazendo uma aliança ou que não
está formando uma irmandade com os participantes
De acordo com a equipe, os temas que serão quando a discussão se polariza nas questões de gênero.
trabalhados a cada grupo são escolhidos a depender da Os profissionais percebem que os homens se sentem
demanda e realidade que o conjunto de participantes mais à vontade para falar de determinados assuntos
apresenta. Contudo, os profissionais entendem que há quando a coordenação é feita apenas por homens, em
quatro eixos temáticos que devem ser discutidos em contrapartida, acreditam que ter as duas figuras na
todos os grupos, pois são fundamentais no trabalho com coordenação é mais interessante, pois é importante que
o autor de violência: gênero, sentimentos, comunicação e os dois gêneros interajam nas discussões que emergem
tipos de violência/Lei Maria da Penha, sendo que, para nesse espaço, assim como evocado na literatura científica
eles, a questão de gênero atravessa todas as demais. (Beiras, 2014; Lopes & Leite, 2013).

6 Psicologia USP I [Link]/pusp


Acompanhamento psicossocial a homens autores de violência contra as mulheres
7
A partir dos dados registrados em diário de (Martínez-Moreno, 2018), ampliando a complexidade
campo pela pesquisadora, a impressão é a de que os dessas intervenções.
homens se sentem mais à vontade para tratarem de
assuntos relacionados à masculinidade e à sexualidade A equipe e o serviço: percepções dos
quando há um homem conduzindo a intervenção. Em profissionais sobre o programa e suas atuações
alguns momentos, houve um incômodo por parte da
pesquisadora com falas preconceituosas, que traziam Os participantes percebem o serviço de forma
a visão dos participantes de que “mulher é mais frágil positiva, apesar de toda dificuldade enfrentada. De forma
e mais dramática”. Ao mesmo tempo, ficou perceptível geral, acreditam que é um programa que tem uma grande
que muitos deles nunca tinham falado sobre alguns importância dentro da política de combate à violência
assuntos e por vezes se incomodaram com a presença doméstica contra as mulheres no DF (Silva, 2015),
da pesquisadora e da participante Laura, psicóloga que demonstrando ter “um diferencial ao incluir a mulher
compõe a equipe. Para os participantes mais velhos, no acompanhamento”, levando “o trabalho pra uma
conversar com outros homens a respeito de questões perspectiva familiar” (Caio). Cássia questiona este aspecto
relacionadas à construção da masculinidade pareceu ao considerar que o núcleo não oferece atendimentos
ser algo muito novo. psicossociais às famílias dos acompanhados (mulheres e
A participação do encaminhado é fundamental filhos), tal como o nome do programa sugere. Para ela, o
para que a política de enfrentamento à violência possa acompanhamento é realizado prioritariamente aos homens
ter resultados mais favoráveis na não reincidência e na autores de violência, sendo insuficiente no atendimento
prevenção do problema, entendendo que o homem que prestado aos demais membros do microssistema familiar.
participa pode disseminar o que foi aprendido naquele Para a teoria bioecológica, os processos proximais
microssistema (grupo) para outros microssistemas dos são elementos centrais no estudo do desenvolvimento
quais faz parte (Koller, 2011). Os profissionais veem humano e são compreendidos como sendo a interação do
o grupo como um espaço no qual o homem tem a ambiente com as características da pessoa que operam
oportunidade, por exemplo, de refletir sobre o que é ao longo do tempo (Koller, 2011). Dessa forma, envolver
ser homem em nossa sociedade e de que a construção as mulheres e os filhos no acompanhamento e realizar
do masculino pode legitimar as desigualdades de poder efetivamente uma intervenção familiar pode aumentar
entre homens e mulheres. a chance de rompimento do ciclo da violência, além de
A partir desse reconhecimento, o participante ampliar o cuidado aos membros da família, já que todos
pode buscar desconstruir ideias machistas e sexistas, fazem parte do microssistema conflituoso. Trabalhar nessa
bem como identificar as práticas violentas presentes perspectiva é fomentar fatores de proteção na família, ao
em seu cotidiano. Esse processo tem como objetivos: buscar prevenir ações violentas no macrotempo familiar,
promover nesses autores de violência a responsabilização ou seja, na transmissão geracional de comportamentos.
e a prevenção de outros atos que possam vir a acontecer, a Obviamente que essa participação deve se dar de modo
busca por soluções para que os conflitos sejam resolvidos protegido e com diversos cuidados, a fim de não expor a
pela via da não violência, a oferta de informações sobre família a revitimizações. Avaliar a possibilidade ou não
os tipos de violência e as questões referentes à Lei desse trabalho mais integrado deve ser uma constante
Maria da Penha, a reflexão sobre seus relacionamentos nesses serviços.
e os papéis sociais que homens e mulheres exercem, Para Cássia, a maior fragilidade do núcleo é o
o reconhecimento de sentimentos, além da busca por fato do serviço absorver a demanda apenas do judiciário,
estratégias de comunicação mais assertivas e não pois “ao mesmo tempo que a suspensão obriga o homem
violentas. Outro fator levantado foi o espaço que o grupo a realizar o acompanhamento, ela o desresponsabiliza
oferece ao servir como um lugar onde o homem pode do ato cometido, pois, no fim, não haverá condenação”.
chorar, desabafar e falar de coisas que são difíceis e que, Para a profissional, a mulher passa por um processo
geralmente, não expressaria em outros locais. muito doloroso até conseguir realizar a denúncia e a não
A equipe acredita que o trabalho com o autor de condenação desse homem faz com que esse processo
violência para que não haja reincidência deve incluir, seja desconsiderado. Além disso, acredita que a Justiça,
além da reflexão e informação dos temas destacados, ao aceitar a suspensão e encaminhar o homem para o
a responsabilização dos homens, pois ao chegarem no núcleo, desobriga-se desse problema, ou seja, deixa a
grupo poucos concordam que devam participar das responsabilidade de trabalhar esse tema com o acusado
atividades. O discurso dos autores está sempre no campo nas mãos do núcleo de acompanhamento.
da culpabilização da mulher, da vítima, na tentativa de O formato que o núcleo tem de acolher a demanda
justificar seus comportamentos agressivos e violentos. da vara de violência é delicado, pois, com isso, “a equipe
No entanto, há que se destacar que os participantes se fecha em atender apenas esse público da judicialização,
nem sempre compõem um grupo homogêneo, sendo e acaba por depender sempre da vontade da promotoria
importante acessar as diferentes masculinidades que e de juízes no encaminhamento ou não dos homens”
atravessam as experiências desses autores de violência (Cássia). Para ela, o serviço tem potencial para ampliar

Psicologia USP, 2025, volume 36, e230145 7


Juliana de Oliveira& Fabio Scorsolini-Comin
8
sua rede social de atendimento e para ser referência no manual de procedimentos que documente ou oriente de
território, acolhendo demandas de outros instrumentos modo mais detalhado o trabalho realizado. A construção
da rede e realizando trabalho de prevenção nas diversas dos encontros foi realizada ao longo dos anos, conforme
instituições da comunidade, tais como escolas, presídios, cada equipe entendia que deveria ser e a partir das
rede de saúde, assistência, entre outras. No atual formato, experiências acumuladas ao longo de cada grupo.
o núcleo acaba acompanhando apenas casos nos quais Profissionais relataram que utilizam vários referenciais
a violência já está instaurada e foi judicializada, além teóricos para embasar suas atuações, tais como: Cristina
de deixar de servir a população ao priorizar atender ao Ravazzola, Instituto NOOS, Adriano Beiras, Gláucia
judiciário, pois trata-se de uma política pública realizada Diniz, Instituto Promundo, Instituto Papai, entre outros
pelo executivo e não pelo judiciário. autores importantes na temática. O serviço conta com
Mesmo diante desse cenário, os quatro reuniões de equipe que acontecem semanalmente e nelas
profissionais acreditam que o trabalho realizado no há trocas de experiências e conhecimentos entre os
serviço é diferente daquele feito pela Justiça. Lara justifica profissionais, o que ajuda na construção das intervenções.
sua resposta trazendo que o judiciário tem um conceito Embora esses grupos, na experiência relatada, estejam
de responsabilização diferente da proposta do serviço: sustentados em referências, o que denota a preocupação
“Aqui, a responsabilização dos homens está num nível da equipe nesse sentido, percebe-se que não existe um
de conscientização, de reconhecimento da violência. Pra olhar formativo mais complexo, de modo que essas
Justiça, um processo penal é uma responsabilização, referências vão sendo utilizadas de modo justaposto,
uma condenação pode ser uma responsabilização, pra sem uma maior reflexão sobre os pontos de proximidade
gente não” (Lara). Paulo acrescenta que “o judiciário é e distanciamento entre as proposições existentes. Isso
muito mecânico e os atendimentos são muito vinculados também promove, como efeito, a percepção de que o
às figuras de poder como o juiz e o promotor”. Já no trabalho se deve, exclusivamente, ao engajamento da
grupo, “há a possibilidade de gerar conversas reflexivas equipe, o que é mobilizado mais pelo interesse individual
e encontros genuínos” (Paulo). Caio completa trazendo ou a competência atribuída aos profissionais do serviço
que “o serviço não está preocupado com a quantidade do que por uma política orientada para essa formação e
para solucionar casos processuais, mas com a qualidade para o fazer nesse campo. A ausência de uma formação
no atendimento”. Ele justifica afirmando: “A gente aqui continuada nesse campo também é reportada pela maioria
pensa no ser homem e ser mulher. São duas pessoas que dos profissionais que atuam nesses grupos em todo o
precisam muito mais do que a solução de um conflito de Brasil (Pereira et al., 2023).
lei, entende? A questão da violência doméstica é muito De forma geral, os profissionais falaram da grande
mais além do que uma punição, do que uma solução do fila de espera que existe no serviço à época da coleta de
que trata a lei, é uma solução de relacionamento e isso dados, cerca de oito meses a um ano para iniciarem o
depende de tempo, reflexão e sensibilização” (Caio). acompanhamento, tempo contado a partir do primeiro
Essa necessidade de tempo, ref lexão e dia que homem compareceu ao serviço. Para Cássia, esse
sensibilização verbalizada por Caio pode ser tensionada período de não intervenção desprotege a mulher e, apesar
quando ocorre uma tentativa de uniformização dos homens dos profissionais acreditarem que o serviço ofertado é
que chegam a esses grupos, rotulados como “homens muito diferente daquele realizado na Justiça, essa espera
autores de violência” ou “em situação de violência”. Essa se assemelha ao timming do judiciário, quando se refere
nomeação, segundo Martínez-Moreno (2018), não permite à morosidade da resolução dos litígios judiciais.
que esses homens sejam considerados em suas histórias Esse aspecto faz com que a equipe se sinta
de vida, de modo que também as intervenções grupais pressionada a realizar acompanhamentos mais
tomam como referência uma determinada descrição rapidamente, encurtando o tempo que o homem fica
do autor de violência contra a mulher. As experiências vinculado ao núcleo. Sobre isso, Caio também concorda
grupais retratadas na literatura, no entanto, têm destacado que “não deveria haver essa espera”, por acreditar
como esses participantes se posicionam de maneiras que “casos de violência são como em um hospital,
diferentes, não se considerando como iguais entre si se você está doente e vai na emergência, vai querer
dentro e também fora dos grupos (Martínez-Moreno, ser atendido naquele dia, ser medicado, vai fazer
2018; Oliveira & Scorsolini-Comin, 2021). Reconhecer o mínimo pra compreender o que você tem?”. Nesse
esse aspecto na coordenação dos grupos pode permitir sentido, eles acreditam que a intervenção é mais eficaz
que, de fato, tal estratégia seja suficientemente flexível quando ocorre “logo no início, no momento que tá ali no
e porosa a esses marcadores, em contraposição a uma ciclo da violência” (Caio). Com a demora do início do
atuação mais padronizada e engessada, como a referida acompanhamento, “o homem não dá muita credibilidade
por Paulo em relação ao Poder Judiciário. no trabalho”, pois “o conflito que gerou a violência já
A equipe relatou que não passa por capacitação passou” (Caio). Cássia mencionou que o serviço deveria
periódica e que cada núcleo trabalha os temas que acha realizar uma avaliação de risco inicial, logo no primeiro
que são mais importantes e de formas diferentes. Não contato que o homem e a mulher têm com o núcleo. Essa
existe, portanto, um marco teórico-metodológico ou avaliação é feita atualmente no momento da acolhida,

8 Psicologia USP I [Link]/pusp


Acompanhamento psicossocial a homens autores de violência contra as mulheres
9
ou seja, depois que se passaram os meses de espera para temporalidades, como proposto pelo mesmo autor, podem
o atendimento. contribuir para uma revisitação da dimensão tempo na
Quando questionados sobre como avaliam suas abordagem bioecológica, questionando seu caráter, por
atuações, os quatro participantes disseram que tentam vezes, linear e desenvolvimentista.
fazer o melhor para que o acompanhamento possa Para Paulo, Caio e Lara, em muitos momentos,
provocar reflexões e gerar mudanças efetivas na forma há dificuldade também com questões estruturais, como
de os homens atendidos lidarem com os conflitos. A falta de material físico para o pleno desenvolvimento das
alta demanda justifica a necessidade de ampliação ações, tais como papel, cartucho de impressora, telefone,
das equipes. A sobrecarga de trabalho pode promover internet, entre outros itens. Outro apontamento é o fato de
alterações em relação aos atendimentos realizados, como o executivo “não disponibilizar espaço físico adequado
a aceleração do acompanhamento, como relatado na e com segurança para que o serviço funcione” (Caio).
presente pesquisa, promovendo impactos na qualidade O local utilizado pelo núcleo, à época, era cedido pelo
do serviço prestado e em sua efetividade. Assim, os Ministério Público por meio do termo de cooperação
profissionais parecem atuar com adaptações em resposta que as duas instituições firmaram. Além disso, em
ao aumento da demanda, sem que isso seja mais bem todos os núcleos, falta equipe para compor o quadro de
coordenado ou também acompanhado em termos de funcionários, o que acarreta uma sobrecarga e acúmulo
resultados e possíveis ressonâncias ao longo do tempo. de serviço para quem já está atuando. Em conjunto com
A ausência de um processo avaliativo sistematizado, a falta de uma formação continuada, esse cenário aponta
de caráter formativo, não permite que a equipe em tela para a precarização do trabalho desses profissionais,
possa rever processos de trabalho, revisitar os resultados o que pode impactar na qualidade e na perenidade do
alcançados e propor adaptações, quando necessário. serviço de acompanhamento junto aos homens autores de
Assim, o movimento existente reafirma a existência de violência, aspecto que vem sendo reportado na literatura
uma equipe engajada, capaz de abordar de modo crítico (Pereira et al., 2023).
a atuação nesse contexto, mas que, mobilizada pelo Outro aspecto ligado à equipe é que, de acordo com
excesso de demanda e pela precarização do trabalho, não Caio, os profissionais do programa são, em sua maioria,
consegue, efetivamente, avaliar as ações desenvolvidas psicólogos, ou seja, a equipe que, teoricamente, deveria
com vistas à implementação de melhorias. ser multiprofissional, não possui a diversidade necessária
Associado a esse apontamento, Caio, Paulo e para ampliar o olhar sobre o fenômeno da violência.
Lara destacam a dificuldade em mensurar a eficácia Apesar desse aspecto, Lara, Cássia e Paulo acreditam que
do serviço, tendo em vista que uma análise de efeito o quadro de funcionários conta com bons profissionais,
com os participantes após o término do grupo não é engajados no tema e que buscam aprimoramento sempre.
feita. Os referidos profissionais acreditam não ser esse o No entanto, o olhar multidisciplinar ou interprofissional
objetivo do trabalho oferecido e entendem que mudanças pode permitir o compartilhamento de diferentes visões e
de comportamentos são processuais e que a reflexão posicionamentos, de modo que as reflexões não se pautem
dos temas discutidos já se configura como um avanço exclusivamente por uma determinada tradição, no caso,
importante. Esse refletir é percebido por boa parte dos a psicológica, o que nem sempre se apresenta de modo
participantes, mas “não se sabe como é depois lá fora, a permitir a coexistência de outras inteligibilidades, em
na relação, na vida social” (Caio). uma perspectiva de trabalho integrado.
É importante compreender que o processo Os quatro participantes criticaram a mudança
avaliativo não deve visar, necessariamente, a uma constante de gestão, tanto em nível micro, de secretaria,
perspectiva que busca reunir evidências para indicar quanto macro, de governo. Essa mudança acaba por
uma determinada prática, como pode ser depreendido dificultar a continuidade de algumas ações e acarreta
pelo próprio sentido da palavra eficácia, mas que haja inseguranças pela instabilidade gerada, assim como
um acompanhamento com vistas ao amadurecimento discutido em outros estudos (Beiras, 2014; Lopes &
contínuo do grupo e das estratégias utilizadas. Além Leite, 2013). Na maioria dos casos, conforme mencionado
disso, o alcance dos desfechos esperados não deve nas entrevistas, os secretários são pessoas que pouco
compor a única forma de mensurar os grupos, sobretudo entendem da política de enfrentamento à violência, bem
considerando a complexidade do fenômeno da violência como as nuances que perpassam o trabalho, como, por
contra a mulher em nossa sociedade. Nesse sentido, as exemplo, as questões de gênero, marcador este priorizado
reflexões trazidas por Martínez-Moreno (2018) acerca na presente reflexão.
da cronologia moderna desse fenômeno podem ser úteis Lara exemplifica esse aspecto pontuando que
para que as polaridades morais não sejam fixadas nas as equipes ficam “meio que a mercê de governos, é
trajetórias de passado, presente e futuro desses autores como se fosse a família que tem os pais que não são
de violência, mas que possam ser permanentemente presentes, e que não são participativos, e que não conhece
refletidas em cada contexto, cuidando para que o os filhos”. De acordo com ela, esses fatores contribuem
julgamento moral não atravesse as práticas profissionais também para a desmotivação dos profissionais. Ao
desses grupos. Ainda, a associação das moralidades às mesmo tempo, afirmou que sua motivação “vem muito

Psicologia USP, 2025, volume 36, e230145 9


Juliana de Oliveira& Fabio Scorsolini-Comin
10
da crença no trabalho e na política, por acreditar que o seus sentimentos, medos, anseios e angústias. Percebe-se
serviço cumpre um papel importante na sociedade”. Tais que a equipe tem que balizar sua atuação sempre na lógica
aspectos estão relacionados aos elementos de demanda, de confrontar ideias machistas, sexistas e legitimadoras
que podem estimular ou não o estabelecimento dos de violência, ao mesmo tempo que se propõe a oferecer
processos proximais dos integrantes da equipe (Koller, um espaço de escuta, cuidado, reflexão e aprendizagem
2011; Lordello & Costa, 2014). no qual as nuances do ser homem, do sentir e do cuidar
Os profissionais afirmaram que ainda não há um sejam o centro das discussões.
regimento interno que documente as práticas realizadas, Contudo, percebe-se que o serviço tem potencial
além de pouco investimento em capacitações periódicas para buscar discutir os privilégios do homem nas
para a equipe. Com a sobrecarga dos profissionais diante relações e na cultura, podendo traçar meios eficazes
da grande demanda, a equipe se percebe pouco reflexiva de quebrar o silêncio cúmplice dos homens com a
sobre a atuação e o formato do serviço, muitas vezes. violência, bem como propor estratégias para a promoção
Além disso, destaca-se a alta rotatividade de profissionais da equidade e igualdade de gênero, como aponta a
nesses serviços, de modo que nem sempre esses técnicos literatura da área. Nessa direção, a proposta grupal
podem desenvolver uma prática mais densa, com uma também pode oportunizar o conhecimento e a reflexão
visão mais ampla do processo e com maior engajamento, sobre os diversos marcadores da diferença, como as
inclusive em termos políticos. Todos esses fatores relacionadas à raça/cor, etnia, classe social, orientação
corroboram para a não valorização da política pública sexual e identidade de gênero que se interseccionam
de combate e enfrentamento à violência (Beiras, 2014; com o sexismo, o patriarcado e o machismo, a fim de
Lopes & Leite, 2013), bem como para a sua fragilização identificar essas violências e buscar superá-las. O estudo
em alguns cenários. mais detido dessa interseccionalidade nas práticas
Esses apontamentos trazem à baila a necessidade interventivas desenvolvidas por esses profissionais
de maior investimento nesses profissionais como segue como recomendação para estudos vindouros
potencializadores de uma política de combate à violência, nesse cenário.
atenção essa que não passa apenas pelo constante Por fim, o combate à violência contra a mulher
incremento da formação, mas também pelo cuidado não é uma luta exclusiva dos serviços que realizam o
com a saúde e as condições de trabalho em uma temática acompanhamento do homem autor de violência, mas deve
complexa e de forte repercussão emocional. Apesar das envolver outros espaços e setores públicos, tais como a
demandas ainda descobertas e de diversos elementos educação, a saúde, a assistência, o setor privado e os
que circunscrevem uma atuação profissional considerada coletivos. Embora o presente estudo tenha acompanhado
mais efetiva nesse contexto, tal grupo de entrevistados um único serviço, com características específicas e
demonstrou engajamento e vasto repertório teórico e de que nem sempre podem ser generalizadas para outros
práticas para a execução de um trabalho necessário e que contextos de atuação, destaca-se que o retrato das
pode ser aprimorado. demandas dos profissionais em tela pode balizar o modo
como essas práticas têm sido planejadas e executadas,
Considerações finais haja vista que o fenômeno da violência é complexo e
multidimensional. Nesse sentido, a teoria bioecológica
Apesar das dificuldades relatadas pela equipe, empregada na presente reflexão mostrou-se adequada,
esta está engajada na oferta de um serviço de qualidade, permitindo a mobilização de diferentes movimentos
pautado na responsabilidade de promover mudanças que atravessam esse campo. Para estudos futuros,
nesse quadro da violência intrafamiliar. Entendendo que recomenda-se o delineamento de propostas que possam
a participação no grupo faz parte dos processos proximais auxiliar no acompanhamento desses casos pós-grupos,
que o homem autor de violência tem na sua trajetória, esses bem como a inserção de medidas de efetividade das
profissionais tentam garantir a oferta da escuta, já que, de estratégias grupais, permitindo o aprimoramento do
forma geral, os homens pouco ou nunca conversam sobre trabalho prestado nesse contexto.

Psychosocial support for men who perpetrate violence against women: the team’s view

Abstract: This qualitative study aimed to understand how the professionals of a center that provides psychosocial support
to men who have perpetrated violence against women evaluate their actions and the service in which they are inserted. In
total, four professional members of the interdisciplinary team in the Brazilian Midwest participated in this study. The interviews
were subjected to thematic-reflective analysis and interpreted by bioecological theory. Professionals perceive their actions
positively despite difficulties such as the scarcity of human resources and the absence of evaluation of the effectiveness of the
intervention. Group work seeks to confront sexist and legitimizing ideas of violence while trying to offer a space for listening,
care, reflection, and learning in which the nuances of being a man, feeling, and caring lie at the center of discussions. Expanding
the discussion of gender in these spaces offers a perennial challenge for these professionals.

10 Psicologia USP I [Link]/pusp


Acompanhamento psicossocial a homens autores de violência contra as mulheres
11
Keywords: violence against women, gender-based violence, focus groups.

Intervention psychosociale auprès des hommes auteurs de violences contre les femmes : perspectives d’une
équipe interdisciplinaire

Résumé: Cette étude qualitative examine comment les professionnels d’un centre de suivi psychosocial d’hommes auteurs
des violences contre les femmes évaluent leurs actions et le service dans lequel ils sont insérés. Quatre professionnels d’un
centre interdisciplinaire au centre-ouest y ont participé. Les entretiens ont été soumis à une analyse thématique-réflexive et
interprétés par la théorie bioécologique. Les professionnels perçoivent leurs actions de manière positive, malgré des difficultés
telles que la rareté des ressources humaines et l’absence d’évaluation de l’efficacité de l’intervention. Le travail de groupe
cherche à confronter les idées sexistes qui légitime la violence, tout en offrant un espace d’écoute, de soin, de réflexion et
d’apprentissage dans lequel les nuances d’être un homme, de ressentir et de prendre soin sont au centre des discussions. Élargir
la discussion sur le genre dans ces espaces est un défi permanent pour ces professionnels.

Mots-clés: violence contre les femmes, violence sexiste, groupes de discussion.

Seguimiento psicosocial a los hombres que perpetran violencia contra las mujeres: la perspectiva del equipo
interdisciplinario

Resumen: Este estudio cualitativo tuvo por objetivo comprender cómo los profesionales de un centro que realiza seguimiento
psicosocial a los hombres perpetradores de violencia contra las mujeres evalúan sus acciones y el servicio en el cual se insertan.
Participaron cuatro profesionales integrantes del equipo interdisciplinario en la región Centro-Oeste de Brasil. Las entrevistas se
sometieron a un análisis temático-reflexivo, y se interpretaron los datos desde la teoría bioecológica. Los profesionales consideran sus
acciones positivamente, a pesar de las dificultades como la escasez de recursos humanos y la ausencia de evaluación de la efectividad
de la intervención. El trabajo en grupo busca confrontar las ideas machistas, sexistas y legitimadoras de la violencia, al mismo tiempo
que intenta ofrecer un espacio de escucha, cuidado, reflexión y aprendizaje en el que los matices de ser hombre, sentir y cuidar estén
el centro de las discusiones. Estos profesionales se enfrentan al desafío constante de ampliar la discusión de género en estos espacios.

Palabras clave: violencia contra la mujer, violencia de género, grupos focales.

Referências

Aguiar, J. M., Schraiber, L. B., Pereira, S., Graglia, C. G. Bronfenbrenner, U. (2011). Bioecologia do desenvolvimento
V., Kalichman, B. D., Reis, M. S. . . . , & D’Oliveira, A. humano: tornando os seres humanos mais humanos.
F. P. L. (2023). Atenção primária à saúde e os serviços Porto Alegre, RS: Artmed.
especializados de atendimento a mulheres em situação Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação [CEPIA].
de violência: expectativas e desencontros na voz dos (2016). Violência contra as mulheres: os serviços de
profissionais. Saúde e Sociedade, 32(1), e220266pt. responsabilização dos homens autores de violência.
doi: 10.1590/S0104-12902023220266pt Recuperado de [Link]
Beiras, A. (2014). Relatório Mapeamento de Serviços de atenção contra-as-mulheres-os-servicos-de-responsabilizacao-
grupal a homens autores de violência contra mulheres no dos-homens-autores-de-violencia/
contexto brasileiro. Rio de Janeiro, RJ: Instituto NOOS. Clarke, V., Braun, V., & Hayfield, N. (2019). Análise
Beiras, A., Moraes, M., Alencar-Rodrigues, R., & Cantera, temática. In J. A. Smith (Ed.), Psicologia qualitativa:
L. M. (2012). Políticas e leis sobre violência de gênero – Um guia prático para métodos de pesquisa (C. Liudvik,
reflexões críticas. Psicologia & Sociedade, 24(1), 36-45. Trad., pp. 295-327). Petróplis, RJ: Vozes.
doi: 10.1590/S0102-71822012000100005 Crenshaw, K. (2002). Documento para o encontro de
Beiras, A., Nascimento, M., & Incrocci, C. (2019). Programas especialistas em aspectos da discriminação racial relativos
de atenção a homens autores de violência contra as ao gênero. Revista Estudos Feministas, 10(1), 171-188.
mulheres: um panorama das intervenções no Brasil. Fórum Brasileiro de Segurança Pública [FBSP]. (2021).
Saúde e Sociedade, 28(1), 262-274. doi: 10.1590/S0104- Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021.
12902019170995 Recuperado de [Link]
Belarmino, V. H., & Leite, J. F. (2020). Produção de uploads/2021/07/[Link]
sentidos em um grupo reflexivo para homens autores Kimmel, M. (2011). Three and a half things men have
de violência. Psicologia & Sociedade, 32, e218781. learned from feminist scholarship. Journal of Feminist
doi: 10.1590/1807-0310/2020v32218781 Scholarship, 1(1).

Psicologia USP, 2025, volume 36, e230145 11


Juliana de Oliveira& Fabio Scorsolini-Comin
12
Koller, S. H. (Org.). (2011). Ecologia do desenvolvimento Pereira, L. P., Guizardi, F. L., & Loyola, V. M. Z. (2023).
humano: pesquisa e intervenção no Brasil (2a ed). São Panorama institucional do trabalho grupal com homens
Paulo, SP: Casa do Psicólogo. autores de violência contra mulher no Brasil. Saúde e
Lei n. 9099, de 26 de setembro de 1995. (1995, 26 de setembro). Sociedade, 32, e220935pt.
Dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá Secretaria de Políticas para as Mulheres. (2011). Política
outras providências. Presidência da República. Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres.
Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006 . (2006, 7 de agosto). Brasília, DF. Recuperado de [Link]
Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e br/institucional/omv/copy_of_acervo/outras-referencias/
familiar contra a mulher. Presidência da República.. copy2_of_entenda-a-violencia/pdfs/politica-nacional-de-
Lima, D. C., & Büchele, F. (2011). Revisão crítica sobre o enfrentamento-a-violencia-contra-as-mulheres
atendimento a homens autores de violência doméstica Scott, J. W. (1995). Gênero: uma categoria útil para análise
e familiar contra as mulheres. Physis Revista de histórica. (Dabat, C. R., & Ávila, M. B. Trad.). Educação
Saúde Coletiva, 21(2), 721-743. doi: 10.1590/S0103- & Realidade, 20(2), 71-99.
73312011000200020 Silva, M. V. O. (2015). NAFAVD: Um retrato de um serviço
Lopes, P. V. L., & Leite, F. (Orgs.) (2013). Atendimento a de atendimento a autores de violência no distrito
homens autores de violência doméstica: desafios à política federal. Brasília, DF: Departamento de Serviço Social;
pública. Rio de Janeiro, RJ: Instituto de Estudos da Religião. Universidade de Brasília.
Lordello, S. R., & Costa, L. F. (2014). Gestação decorrente de violência Tonelli, M. J. F., Beiras, A., & Ried, J. (2017). Homens
sexual: um estudo de caso à luz do modelo bioecológico. autores de violência contra mulheres: políticas públicas,
Contextos Clínicos, 7(1), 94-104. doi: 10.4013/ctc.2014.71.0 desafios e intervenções possíveis na América Latina e
Magrin, J. C., & Oliveira, W. A. (2023). Men’s perceptions Portugal. Revista de Ciências Humanas, 51(1), 174-193.
of domestic violence against women: a qualitative study. doi: 10.5007/2178-4582.2017v51n1p174
Paidéia, 33, e3302. doi: 10.1590/1982-4327e3302 Tong, A., Sainsbury, P., & Craig, J. (2007). Consolidated criteria
Marques, E. S., Moraes, C. L. de, Hasselmann, M. H., for reporting qualitative research (COREQ): a 32-item
Deslandes, S. F., & Reichenhein, M. E. (2020). A checklist for interviews and focus groups. International
violência contra mulheres, crianças e adolescentes Journal of Qualitative Health Care, 19(6), 349-357.
em tempos de pandemia pela COVID-19: panorama, Zanello, V. (2018). Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura
motivações e formas de enfrentamento. Cadernos de e processos de subjetivação. Curitiba, PR: Appris Editora.
Saúde Pública, 36(4), e00074420. doi: 10.1590/0102- Zanello, V. (2020). Masculinidades, cumplicidade e misoginia
311X00074420 na “casa dos homens”: um estudo sobre os grupos de
Martínez-Moreno, M. J. (2018). Civilizar a cultura: questões whatsapp masculinos no Brasil. In L. Ferreira (Org.),
de modernização e a afirmação da dignidade entre Gênero em perspectiva (pp. 79-102). Curitiba, PR: CRV.
homens acusados de violência doméstica e familiar Zanello, V., Fiuza, G., & Costa, H. S. (2015). Saúde mental e gênero:
contra a mulher. Tese [Doutorado em Antropologia facetas gendradas do sofrimento psíquico. Fractal: Revista de
Social – Universidade de Brasília]. Psicologia, 27(3), 238-246. doi: 10.1590/1984-0292/1483
Oliveira, J., & Scorsolini-Comin, F. (2021). Percepções sobre
intervenções grupais com homens autores de violência Recebido: 05/06/2024
contra as mulheres. Psicologia & Sociedade, 33, e221163. Aprovado: 26/06/2024

12 Psicologia USP I [Link]/pusp

Você também pode gostar