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Sofia

A impugnação à gratuidade da justiça pelos réus é considerada infundada, pois a Constituição garante assistência jurídica a todos que comprovarem insuficiência de recursos, independentemente da profissão. A alegação de complexidade técnica para a análise do caso é contraditória e não justifica a necessidade de perícia, uma vez que os documentos apresentados são suficientes para a avaliação. Além disso, a defesa apresenta contradições em relação à conduta clínica adotada, evidenciando omissões e falhas que comprometem a responsabilidade profissional dos veterinários envolvidos.
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Sofia

A impugnação à gratuidade da justiça pelos réus é considerada infundada, pois a Constituição garante assistência jurídica a todos que comprovarem insuficiência de recursos, independentemente da profissão. A alegação de complexidade técnica para a análise do caso é contraditória e não justifica a necessidade de perícia, uma vez que os documentos apresentados são suficientes para a avaliação. Além disso, a defesa apresenta contradições em relação à conduta clínica adotada, evidenciando omissões e falhas que comprometem a responsabilidade profissional dos veterinários envolvidos.
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I.

Da impugnação à gratuidade da justiça

A ré impugna a concessão do benefício da justiça gratuita aos autores com


base na profissão de servidor público e na alegação de que um dos autores
exerce a medicina veterinária. Tais argumentos são juridicamente
infundados.

A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso LXXIV, garante que "o Estado
prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem
insuficiência de recursos". Tal dispositivo não estabelece distinções por
categoria profissional ou área de atuação.

Adicionalmente, o artigo 99, §3º do Código de Processo Civil dispõe que a


declaração de hipossuficiência feita pela parte é presumida verdadeira,
sendo ônus da parte contrária apresentar prova em sentido contrário, o que
não ocorreu nos autos.

A condição de servidor público ou de profissional liberal, como médico, por si


só, não afasta o direito à gratuidade da justiça. Ademais, cumpre destacar
que o autor servidor possui financiamento habitacional ativo, o que
compromete parcela relevante de sua renda mensal, além de arcar,
temporariamente, com os custos de aluguel de outras duas residências sob
sua responsabilidade. Esses encargos compromissos somam-se às demais
despesas ordinárias da função pública, como transporte, alimentação,
assistência médica e encargos familiares, o que evidencia a limitação de sua
capacidade financeira. Quanto à autora médica veterinária, trata-se de
profissional recém-formada, com carga horária reduzida em razão da
especialização em andamento e com compromissos financeiros advindos de
financiamento estudantil (FIES), o que compromete diretamente sua renda
disponível.

Outrossim, é importante destacar que a estratégia adotada pela defesa ao


tentar afastar a justiça gratuita com base em suposições e na profissão dos
autores revela, em verdade, uma tentativa de dissuadir ou dificultar o acesso
à justiça, o que contraria frontalmente os princípios do devido processo legal
e da ampla defesa.

Assim, a ausência de provas concretas da alegada capacidade financeira


impõe o reconhecimento da validade da declaração de hipossuficiência
apresentada pelos autores, mantendo-se o benefício concedido.

II. Da superveniente alegação de complexidade e pedido de perícia

A contestação afirma que o caso demandaria complexidade técnica


incompatível com o Juizado Especial. Contudo, essa alegação entra em
contradição com a própria narrativa da ré, que afirma que os sintomas
apresentados pela cadela eram simples, dentro da normalidade, e que não
justificavam internação ou exames de urgência.

Ora, se a defesa sustenta que a clínica agiu corretamente diante de quadro


clínico rotineiro e de baixa gravidade, como então sustentar que a análise
judicial desses mesmos fatos requer conhecimento técnico profundo e
produção de prova pericial? O próprio argumento de defesa revela que o
caso se baseia na avaliação de sinais clínicos comuns, interpretáveis com
base em documentação objetiva e literatura técnico-científica amplamente
acessível.

É exatamente o que se verifica neste caso, com prontuário, hemograma,


laudo de necropsia e manifestação técnica veterinária baseada em literatura
já anexados e compreensíveis sem necessidade de laudo pericial judicial.

O fundamento da ação, ademais, não é a certeza absoluta do nexo causal,


mas sim a perda de uma chance terapêutica e que pode ser apurado com
base na análise lógica e técnica dos indícios documentais, como ocorre no
presente feito.

Por fim, vale destacar que a própria ré se valeu de documentos técnicos


juntados pela parte autora para embasar sua contestação, o que demonstra,
por si só, que houve plena capacidade de contraditar os fatos sem
necessidade de perícia judicial. Assim como na tentativa de afastar a
gratuidade da justiça, a alegação de complexidade aqui parece configurar
estratégia para artificialmente criar obstáculos processuais, forçando a
remessa dos autos à Justiça Comum com o objetivo protelatório de
desestimular o regular andamento do processo.

III. Da omissão clínica e contradições entre prontuário, exames e


laudo necroscópico

A contestação apresentada pela ré apresenta contradições evidentes quando


confrontada com a cronologia dos fatos e a documentação constante dos
autos.

Inicialmente, a defesa afirma que o exame físico realizado no dia 16/07


revelou parâmetros dentro da normalidade. No entanto, no mesmo
atendimento foram registrados:

 TPC de 3 segundos (limítrofe);

 Sensibilidade abdominal;

 Recusa alimentar e vômito com presença de alimento;

 Presença de muco perianal.


Ainda no dia 16/07, foi colhido material para realização de hemograma, cujo
resultado ficou disponível no dia seguinte, 17/07. O exame revelou:

 Leucocitose com desvio à esquerda e presença de corpúsculos de


Döhle;

 Plaquetopenia severa (104.000/mm³);

 Proteína plasmática total elevada (9,4 g/dL).

Esses dados laboratoriais demonstram que já na noite do dia 16 a paciente


apresentava grave comprometimento sistêmico.

Na manhã do dia 17/07, a tutora entrou em contato com a clínica relatando


esforço respiratório e recusa alimentar. Em vez de solicitar reavaliação
imediata, a clínica orientou apenas a introdução de patê e envio de
estimulante de apetite. Não há qualquer registro de convocação para
avaliação presencial, apesar da piora relatada e do agravamento clínico
evidente.

Ou seja, se os achados clínicos estavam “normais” como sustenta a ré, como


então justificar a existência de um hemograma colhido no mesmo
atendimento com alterações tão graves, a evolução clínica registrada na
conversa, e por fim, a constatação necroscópica de sepse? Apresenta-se,
abaixo, o quadro comparativo dos exames laboratoriais, com seus
respectivos valores de referência, demonstrando as alterações significativas
que indicavam a gravidade do quadro clínico:

Valor
Parâmetro Valor de Referência
Encontrado
Hemácias (milhões/mm³) 7.01 5.7 – 7.4
Leucócitos (/mm³) 22.800 6.000 – 17.000
Segmentados 20.292 2.760 – 11.730
Plaquetas (/mm³) 104.000 200.000 – 500.000
Proteína Plasmática (g/dL) 9.4 6.0 – 8.0
Creatinina (mg/dL) 5.20 0.5 – 1.5
ALT/TGP (U.I./L) 3818.2 10 – 86
Ureia (mg/dL) 203.4 10 – 54
Fosfatase Alcalina (U.I./L) 2730.9 10 – 156

Todos os elementos (sinais clínicos iniciais, exames laboratoriais, relato da


tutora e laudo de necropsia) indicam que o quadro já era grave desde o
início e foi subvalorizado. A literatura técnico-veterinária indica com clareza
que sinais como TPC aumentado, prostração, sensibilidade abdominal e
alterações hematológicas demandam conduta agressiva e monitoramento
intensivo.
Adicionalmente, vale ressaltar que a autora chegou a relatar, em mensagem
à clínica, uma aparente melhora do quadro clínico após o atendimento de
16/07. No entanto, tal melhora foi temporária, sendo compatível com o efeito
transitório das medicações administradas durante o atendimento. Após o
término do efeito, observou-se nova degradação clínica, condizente com a
ausência de suporte terapêutico intensivo.

Portanto, a alegação da defesa de que não havia sinais de urgência carece


de respaldo técnico, sendo incompatível com a evolução clínica
documentada, os achados laboratoriais e o laudo necroscópico e se mostra
incompatível com toda a cronologia e os elementos objetivos dos autos.

IV. Do quadro comparativo entre conduta, literatura, exames e


necropsia

A conduta profissional adotada no caso em tela deve ser confrontada com as


obrigações técnicas e éticas impostas ao profissional médico-veterinário,
conforme estabelece a legislação vigente.

A Resolução CFMV nº 1321/2020, que dispõe sobre a elaboração e guarda de


prontuários médicos-veterinários, determina expressamente em seu artigo
9º:

"Art. 9º O prontuário médico-veterinário, além de observar o contido nos


artigos 2º e 3º desta Resolução, deve, para cada atendimento realizado,
conter: (...) IV - observações sobre o estado geral do animal e parâmetros
mensurados; V - achados importantes obtidos por meio do histórico do
animal, da anamnese, do exame clínico e laboratorial; (...) VIII -
procedimentos realizados no paciente."

"§2º Uma cópia impressa ou digitalizada de cada exame complementar


clínico-laboratorial especializado ou de imagem deve ser sempre anexada ao
prontuário do animal."

Já o Código de Ética Profissional do Médico Veterinário (Resolução CFMV nº


1138/2016), determina em seu art. 8º, inciso IX, que é vedado ao médico-
veterinário:

"IX - deixar de elaborar prontuário e relatório médico veterinário para casos


individuais e de rebanho, respectivamente;"

Complementarmente, o mesmo código estabelece em seu art. 9º, caput,


que:

"O médico veterinário será responsabilizado pelos atos que, no exercício da


profissão, praticar com dolo ou culpa, respondendo civil e penalmente pelas
infrações éticas e ações que venham a causar dano ao paciente ou ao
cliente (...)."
Dessa forma, a omissão no registro de dados clínicos relevantes como a
glicemia, a medicação aplicada e o estado clínico completo da paciente,
além de descumprir as normas técnicas, evidencia infração ética grave, pois
compromete a rastreabilidade, a segurança jurídica e a qualidade da
conduta profissional.

Essa fundamentação normativa reforça a análise comparativa já apresentada


no quadro da réplica, revelando que a atuação da clínica ré contrariou não
apenas a boa prática clínica segundo a literatura, mas também os
normativos que regem a conduta obrigatória da profissão.

A conduta adotada pela clínica também merece crítica específica no que


tange à prescrição de estimulante de apetite (Apevitin BC) sem avaliação
presencial, sobretudo após o relato da tutora de esforço respiratório no dia
17/07. Tal conduta é flagrantemente irresponsável, tendo em vista que a
bula do medicamento (disponível em:
[Link] alerta expressamente:

“Este medicamento é contraindicado em casos de hipersensibilidade aos


componentes da fórmula. Deve ser usado com cautela em pacientes com
distúrbios hepáticos ou renais, em pacientes debilitados e em crises
asmáticas.”

Ao prescrever medicamento contraindicado justamente para pacientes


debilitados, situação evidente a partir dos sintomas relatados, a clínica não
apenas agiu sem a devida diligência técnica, mas também incorreu em
conduta temerária. O simples fato de prescrevê-lo sem avaliação presencial
e em descompasso com o quadro clínico demonstra grave falha de
julgamento. Trata-se de uma prática incompatível com a boa técnica médica-
veterinária e que reforça o despreparo e a negligência com que o caso foi
tratado.

A fim de demonstrar, de forma objetiva, as contradições da conduta clínica


adotada em relação aos protocolos recomendados pela literatura e os
resultados efetivos observados nos exames e na necropsia, observa-se
também que as demais medicações prescritas no atendimento de 16/07,
tiveram ação meramente paliativa. Tais medicamentos tratam sintomas
superficiais (dor, vômito, gases), sem qualquer atuação direta sobre a causa
sistêmica subjacente, no caso, um processo infeccioso agudo e avançado.

Essa abordagem, centrada em sintomas e não na investigação diagnóstica


adequada, contribuiu para a subvalorização do quadro clínico e adiou
medidas terapêuticas efetivas. Assim, além da prescrição de estimulante de
apetite incompatível com o quadro, a conduta adotada no primeiro
atendimento negligenciou protocolos diagnósticos essenciais à elucidação do
caso.
Apresenta-se, a seguir, o seguinte quadro comparativo com a inclusão de
trechos literais da literatura técnico-veterinária e dos normativos aplicáveis:

Sinais
Conduta Conduta Resultado
Clínicos Achados da
Adotada Recomendada pela dos
Identifica Necropsia
pela Clínica Literatura Exames
dos

“Tentar alimentar o
cão com pequenas
quantidades assim
que a alimentação
Alterações
não causar uma
Recusa hematológic
Medicação grande exacerbação
alimentar e as Enterite e
sintomática de vômitos. [...]
vômito com indicativas necrose
e orientação Administrar nutrição
alimento de processo intestinal
de retorno parenteral se
digerido inflamatório
anorexia prolongada
agudo
ocorrer.” (Nelson &
Couto – Clínica de
Medicina Interna de
Pequenos Animais)
“Na presença de dor
abdominal e
sensibilidade à Leucocitose
palpação, a avaliação com Inflamação
Sensibilida Nenhuma
por imagem é granulações intestinal e
de investigação
indispensável para tóxicas e infecção
abdominal adicional
excluir abdome corpúsculos sistêmica
agudo.” (Feitosa, de Döhle
Semiologia
Veterinária)
“O tempo de
preenchimento
capilar (TPC) maior
Plaquetopen
que 2 segundos pode Sepse
TPC = 3 Nenhum ia e
indicar choque sistêmica em
segundos monitoramen aumento de
compensado ou estágio
(limítrofe) to ou suporte proteína
vasoconstrição avançado
plasmática
periférica.” (Feitosa,
Semiologia
Veterinária)
“Nos casos mais Comunicaçã Estado clínico
Esforço
Prescrição de graves de angústia o da tutora terminal
respiratório
estimulante respiratória, o animal sobre piora compatível
no dia
de apetite adota posturas que clínica não com
seguinte
otimizam a motivou insuficiência
oxigenação [...]. Esse
quadro representa
uma grave congestão
reavaliação respiratória
pulmonar.” (*Feitosa,
Semiologia
Veterinária)
“O prontuário
médico-veterinário
deve conter [...] Hipoglicemi
Inconsistência
parâmetros a suspeita
entre sinais
mensurados [...] e os não
Ausência Informação clínicos e
exames laboratoriais confirmada
de registro omitida no ausência de
complementares por
da glicemia prontuário registros
devem ser ausência de
médicos
anexados.” registro
detalhados
(Resolução CFMV nº técnico
1321/2020, art. 9º, IV
e §2º)

Cumpre destacar, ainda, que parte da literatura técnico-científica utilizada


na presente réplica, incluindo autores como Francisco Feitosa e Nelson &
Couto, integra o conteúdo previsto na ementa do curso de graduação em
Medicina Veterinária da Universidade Federal de Goiás (UFG), conforme
consta no Projeto Pedagógico do Curso aprovado pela Resolução CEPEC/UFG
nº 1850/2023. Tal fato reforça a legitimidade e credibilidade dos
fundamentos técnicos adotados, demonstrando que a argumentação
apresentada está alinhada ao que se espera na formação acadêmica e
científica de um médico-veterinário.

V. Da imputação de responsabilidade aos tutores

A ré tenta transferir aos tutores a responsabilidade pelo agravamento do


quadro, o que se mostra indevido. A orientação expressa da clínica foi para
tratamento domiciliar com retorno apenas em caso de persistência
dos sintomas. Quando a autora relatou piora, a clínica não convocou
reavaliação presencial urgente, limitando-se a prescrever estimulante de
apetite, postura que contribuiu diretamente para a perda da chance de
intervenção eficaz.

Importa destacar que a tutora, leiga, agiu com zelo e proatividade desde o
primeiro momento. No dia 17/07, conforme transcrição de mensagens
anexadas, comunicou à clínica sintomas como esforço respiratório e recusa
alimentar, solicitando orientação e buscando compreender a gravidade do
quadro. Em um dos trechos, a tutora apresenta o vídeo e informa: "Ontem
melhorou muito e hj amanheceu assim" e "Acabei de dar a medicação", em
seguida indaga expressamente: “Parece esforço respiratório, é normal?”,
seguido de "Acabei de dar água de coco na seringa", demonstrando
preocupação genuína e atenção aos sinais clínicos. A clínica, por sua vez,
limita-se a responder: “Bom dia! Ela está se alimentando?”, desviando do
foco do sintoma respiratório relatado e sem realizar qualquer triagem ou
convocação para reavaliação presencial. Tal postura reforça a ausência de
senso de urgência e a banalização de sinais clínicos potencialmente graves.
Posteriormente, a clínica informa:

"A alimentação deve ser manter, devido a glicemia.


Caso a senhora não consigo realizar a alimentação dela ofertando o patê
hipercalórico recovery que conversamos ontem, peço que retorne com ela
para internarmos, visto que ela não pode se manter sem se alimentar, aqui
conseguimos fazer essa alimentação auxiliada"

Ou seja, condicionou o retorno à clínica somente após a tentativa de


introdução do patê e encaminhou prescrição adicional, sem reavaliação.

A autora também declarou que havia tirado o dia de folga para cuidar da
cadela, demonstrando total envolvimento com a recuperação do animal.
Quando percebeu o agravamento abrupto do quadro, agiu imediatamente,
dirigindo-se com urgência à clínica e solicitando preparo para internação,
conforme consta da transcrição:

“Cheguei em casa, a Sofia está sem movimento, batimento muito fraco, tô


levando ela pra internar. Por favor, preparem, ela não pode esperar.”

Portanto, a responsabilidade não pode ser deslocada para quem, sem


conhecimento técnico, seguiu rigorosamente as orientações especializadas.
É absolutamente desarrazoado e injusto imputar qualquer parcela de culpa à
tutora, uma vez que todo o manejo clínico foi conduzido por profissional
veterinário habilitado. Se uma profissional com formação específica
demonstrou postura negligente frente aos sinais clínicos, como ficou
amplamente evidenciado, seria razoável exigir que uma pessoa leiga
compreendesse a gravidade do quadro por conta própria? A sequência de
omissões por parte da clínica, desde o atendimento inicial até a ausência de
reavaliação urgente, demonstra que o erro foi exclusivo da ré, sendo
incabível qualquer tentativa de transferir essa responsabilidade à tutora, que
agiu de boa-fé e com diligência. A atuação cuidadosa da tutora reforça o
nexo entre a omissão da clínica e a perda da chance terapêutica. Vale ainda
destacar que, ao menos em dois momentos distintos, a clínica teve
oportunidades concretas de oferecer à cadela tratamento adequado e
urgente: a primeira no atendimento presencial do dia 16/07, quando já havia
sinais clínicos relevantes e material foi colhido para exame; e a segunda no
dia 17/07, quando a própria tutora relatou piora clínica e buscou orientação.
Ambas as oportunidades foram negligenciadas. Assim, imputar
responsabilidade à tutora é, além de injusto, incompatível com a realidade
fática e documental dos autos.

VI. Da omissão documental e infração aos deveres técnicos do


médico-veterinário

A ré deixou de registrar dados clínicos essenciais no prontuário da paciente,


como o valor da glicemia, a identificação precisa das medicações aplicadas e
o detalhamento do estado clínico no momento do atendimento. Tal omissão
representa grave violação aos deveres técnicos e éticos do profissional
médico-veterinário, especialmente à luz da Resolução CFMV nº 1321/2020,
que dispõe, em seu art. 9º, que o prontuário médico-veterinário deve conter:

“IV - observações sobre o estado geral do animal e parâmetros mensurados;


V - achados importantes obtidos por meio do histórico do animal, da
anamnese, do exame clínico e laboratorial; VIII - procedimentos realizados no
paciente.”

E ainda:

“§2º Uma cópia impressa ou digitalizada de cada exame complementar


clínico-laboratorial especializado ou de imagem deve ser sempre anexada ao
prontuário do animal.”

Dessa forma, a ausência de informações clínicas fundamentais, como a


glicemia aferida e os procedimentos realizados, além de contrariar os
preceitos de rastreabilidade, configura violação normativa e
comprometimento da responsabilidade técnica. Cabe ainda destacar que,
embora ausente do prontuário, a aferição da glicemia é mencionada pela
própria tutora no documento de manifestação de necropsia, o que reforça a
tese de que o exame foi realizado, mas não registrado, o que é ainda mais
grave sob a ótica da omissão documental.

Caso a defesa venha a sustentar que tal exame sequer foi realizado, a
omissão torna-se ainda mais grave. Diante do quadro clínico apresentado
(recusa alimentar, vômito, mucosas alteradas, sensibilidade abdominal e TPC
limítrofe) a ausência de aferição da glicemia por profissional habilitado
configuraria negligência flagrante. Tal postura se mostra incompatível com a
preocupação expressa pela própria clínica no dia seguinte, quando questiona
sobre a alimentação da cadela, o que evidencia a existência de indícios
clínicos relevantes que exigiriam conduta mais diligente e criteriosa.

Além disso, a omissão da clínica em registrar valores críticos, como o da


glicemia, impede a análise do quadro clínico em toda sua extensão e nega à
parte autora o direito à comprovação da falha terapêutica. Trata-se de
infração ética e elemento probatório de negligência técnica, nos termos do
próprio Código de Ética Veterinária.
Cabe destacar que, embora ausente do prontuário, a aferição da glicemia é
mencionada pela própria tutora no documento de manifestação de
necropsia, o que demonstra que o procedimento foi efetivamente realizado
durante o atendimento. Essa menção espontânea, feita por quem presenciou
os fatos, reforça a tese de que houve a aferição, mas não o devido registro,
violando o dever ético de documentação técnica fidedigna.

VII. Da desqualificação dos documentos juntados

Resposta às Impugnações da Ré aos Documentos (itens 65 a 70 da


Contestação)

Item 65 – A alegação de que os documentos apenas “reafirmam os termos


da contestação” é contraditória com o próprio pedido de desconsideração.
Se os documentos confirmam a defesa, não há razão para impugná-los. Além
disso, os documentos foram juntados dentro do prazo legal, antes da
apresentação da contestação, e a própria ré os utilizou em sua
argumentação, o que demonstra ausência de surpresa e prejuízo.

Item 66 – A imagem referida pela defesa diz respeito à avaliação feita pela
tutora na plataforma Petlove, cujo objetivo foi registrar formalmente a
insatisfação com a prestação do serviço, em razão da ausência de realização
do exame ultrassonográfico previamente agendado. O comentário tem
função administrativa e preventiva, servindo para evitar eventual cobrança
por serviço não prestado. Trata-se de exercício legítimo do direito de
manifestação do consumidor, fundado em fatos compatíveis com os
documentos dos autos. Alegar que esse registro “denigre a imagem da ré” é
tentativa de restringir indevidamente o direito à informação e à autodefesa
do consumidor.

Ainda em relação ao item 66, cumpre destacar que o comentário feito pela
tutora no plano Petlove limita-se a relatar os fatos conforme sua experiência
pessoal, de forma respeitosa e sem conteúdo ofensivo gratuito. Trata-se de
manifestação amparada pelo exercício regular do direito de crítica do
consumidor, com base em fatos compatíveis com os documentos dos autos
— como a ausência de USG de urgência e a orientação de tratamento
domiciliar, mesmo diante de dor abdominal. Tal manifestação não configura
denegrimento de imagem, mas sim narrativa legítima sobre o atendimento
prestado.

Item 67 – O laudo de necropsia é prova técnica que descreve a causa da


morte por sepse e deve ser avaliado em conjunto com o prontuário, exames
e evolução clínica. Sua impugnação revela tentativa da defesa de restringir a
análise probatória. O Código de Processo Civil, em seus artigos 369 e 434,
reconhece os documentos técnicos como meios legítimos de prova. O laudo
de necropsia, elaborado pela Universidade Federal de Goiás, Escola de
Veterinária e Zootecnia, instituição pública de reconhecida excelência
acadêmica e técnica, por profissional capacitado, possui natureza técnica e
deve ser analisado em conjunto com os demais elementos dos autos, como
os exames laboratoriais e o prontuário clínico. A jurisprudência brasileira
admite expressamente que provas técnicas, ainda que produzidas
extrajudicialmente, possuem validade desde que idôneas, pertinentes e
compatíveis com os fatos narrados, sendo cabível sua valoração pelo
magistrado conforme o art. 371 do CPC. Assim, o laudo necroscópico é peça
central para demonstrar a evolução do quadro clínico da cadela Sofia e a
omissão de conduta eficaz por parte da clínica ré.

Item 68 – O comprovante de R$ 320,00 refere-se à realização do exame de


necropsia junto à Universidade Federal de Goiás – Escola de Veterinária e
Zootecnia, documento esse constante nos autos. Tal despesa foi arcada
pelos autores em decorrência direta da morte da cadela e da ausência de
esclarecimentos técnicos mínimos por parte da clínica, que sequer registrou
integralmente os dados clínicos essenciais no prontuário.

Além disso, informa-se que será acostado comprovante de pagamento no


valor de R$ 164,00 à própria clínica ré, quantia esta não mencionada
expressamente na inicial. Este pagamento, reforça que outros serviços foram
prestados e cobrados, mas não registrados no prontuário. Tal fato corrobora
a tese de omissão documental e fragilidade nos registros clínicos, sendo
indicativo de falha ética e procedimental.

Com isso, o valor total despendido ultrapassa os R$ 480,00, reforçando a


legitimidade dos danos materiais invocados. A realização da necropsia
representou uma conduta reparadora, probatória e necessária, diante da
ausência de documentação clínica detalhada. É indissociável, portanto, do
dano causado pela falha na prestação do serviço, devendo ser compreendida
como despesa conexa e justificada para fins de comprovação dos prejuízos
materiais sofridos.

Portanto, o pedido de reembolso dos valores investidos é legítimo,


proporcional e encontra respaldo legal e jurisprudencial, devendo ser
integralmente acolhido.

Item 69 – O vídeo da cadela em repouso, com possível esforço respiratório,


é prova indiciária que reforça os sintomas descritos pela tutora. Embora não
seja prova técnica por si só, contribui para ilustrar a evolução do quadro
clínico, o zelo da tutora e a verossimilhança do alegado. Ademais, trata-se do
ponto de partida da conversa travada entre a tutora e a clínica no dia 17/07,
sendo elemento central na construção do contexto clínico que se
desenvolveu a seguir. Portanto, é documento plenamente relevante para
demonstrar a preocupação da tutora e a omissão da clínica frente ao
agravamento do quadro.
Item 70 – O vídeo do passeio demonstra o vínculo afetivo dos autores com a
cadela e é relevante para fixação do dano moral. A jurisprudência admite a
utilização de vídeos como meio de prova lícito, conforme o art. 369 do
Código de Processo Civil, desde que produzidos de forma legítima, como no
presente caso. Além disso, a prova audiovisual contribui para demonstrar o
impacto emocional da perda e reforça a existência de laços afetivos
relevantes. Trata-se de elemento válido para valorar o sofrimento vivenciado
pela parte autora.

Portanto, o vídeo é prova legítima e relevante para demonstrar o sofrimento


experimentado e a profundidade da relação afetiva com o animal, devendo
ser plenamente considerado no julgamento do pedido de indenização por
danos morais.

Portanto, nenhuma das impugnações deve ser acolhida, pois todos os


documentos são pertinentes, lícitos e relevantes para o deslinde da
controvérsia. A defesa solicita desconsideração dos documentos
apresentados pela parte autora, alegando surpresa. Entretanto, os
documentos foram juntados dentro do prazo legal e antes da apresentação
da contestação, sem causar qualquer prejuízo à ampla defesa. A própria ré
utilizou trechos desses documentos para fundamentar sua defesa, o que
contradiz sua alegação.

Importante ainda destacar que, dentre os documentos juntados, consta o


relato da tutora presente na manifestação de necropsia, onde se menciona
que a glicemia foi aferida durante o atendimento. Tal menção, feita com
naturalidade por quem presenciou os fatos, reforça a probabilidade de que a
aferição realmente ocorreu, ainda que não tenha sido registrada no
prontuário.

Caso a defesa venha a sustentar que a glicemia sequer foi aferida, a omissão
torna-se ainda mais grave. Diante de um quadro clínico com recusa
alimentar, vômitos e mucosas alteradas, não realizar e nem registrar a
aferição da glicemia representa falha técnica inaceitável, especialmente
quando a própria conversa no dia seguinte à consulta revela preocupação da
clínica com a alimentação da cadela. Tal conduta revela incoerência entre a
suposta simplicidade do quadro e a omissão de condutas básicas diante de
sinais sugestivos de emergência.

VIII. Do valor da indenização e da natureza não enriquecedora do


pedido

O valor de R$ 20.000,00 pleiteado a título de dano moral não se trata de


enriquecimento sem causa, mas sim de compensação pelo sofrimento dos
autores e instrumento pedagógico e dissuasório. Ressalte-se que se trata de
pedido formulado em nome de dois autores, ambos diretamente impactados
emocionalmente pela conduta negligente da ré, o que justifica, por si só, a
fixação de valor mais robusto.

Ademais, o caráter pedagógico da indenização deve ser observado à luz da


capacidade financeira da ré, que atua de forma comercial na área de
serviços veterinários. A jurisprudência tem reconhecido que o valor da
reparação deve ser suficiente para não apenas compensar o abalo sofrido,
mas também inibir a repetição da conduta lesiva.

O valor postulado mostra-se razoável diante da gravidade do caso, da


sucessão de omissões clínicas demonstradas, da perda de um ente afetivo
da família e da postura adotada pela ré durante e após os fatos narrados.
Trata-se de pedido proporcional, juridicamente fundamentado e adequado
aos princípios da razoabilidade e da função reparatória e educativa da
indenização por dano moral.

O valor de R$ 20.000,00 pleiteado a título de dano moral não se trata de


enriquecimento sem causa, mas sim de compensação pelo sofrimento e
instrumento pedagógico e dissuasório. O valor postulado é razoável diante
da gravidade do caso e da capacidade econômica da ré.

IX. Da tempestividade dos documentos e da contradição da defesa

Observa-se ainda que, apesar de ter tido acesso à ampla documentação


técnica acostada pela parte autora, composta por exames, laudo
necroscópico, manifestações técnicas e literatura especializada, a defesa
optou por não apresentar explicações técnicas compatíveis com os dados
objetivos dos autos. Limitou-se a tentar invalidar formalmente tais
documentos, sem oferecer interpretação clínica ou científica alternativa que
justificasse a conduta da clínica. Tal postura revela recusa em debater o
mérito técnico da omissão, fragilizando ainda mais sua tese e demonstrando
que, diante da robustez do acervo probatório, restou-lhe apenas a tentativa
de desqualificação retórica da prova.

A alegação de que documentos foram juntados fora do prazo, conforme itens


71 a 79 da contestação, não se sustenta diante do disposto no art. 435 do
CPC, que autoriza a apresentação de novos documentos para comprovar
fatos já alegados na inicial, como é o caso presente. Não se trata, pois, de
inovação ou modificação da causa de pedir, mas de complemento probatório
legítimo e coerente com os fundamentos iniciais da demanda.

A juntada de transcrições, imagens e vídeos decorre da necessidade de


aprofundar e esclarecer o que já havia sido narrado desde o início,
especialmente diante da necessidade de detalhamento documental das
omissões técnicas cometidas pela clínica ré. Em nenhum momento os
documentos alteraram a tese inicial de omissão veterinária e perda de
chance terapêutica, apenas reforçaram a narrativa com provas adicionais, as
quais, inclusive, foram acessadas e parcialmente utilizadas pela própria ré na
contestação, demonstrando ausência de prejuízo processual.

No que diz respeito especificamente às avaliações e depoimentos colhidos


em plataformas públicas, há uma grave contradição da defesa. A ré alega
que o comentário da tutora na questão da Petlove prejudicaria sua imagem,
mas ignora que a própria clínica utilizou forma de tratamento inadequada e
desrespeitosa a outros clientes, o que pode ser constatado em resposta
pública a consumidores. A tentativa de desqualificar manifestações legítimas
de insatisfação é incompatível com os princípios do Código de Defesa do
Consumidor e revela estratégia de ocultar padrões de conduta já
reiteradamente registrados por terceiros.

Assim, os documentos apresentados são tempestivos, pertinentes e


essenciais ao deslinde da controvérsia, devendo ser integralmente mantidos
nos autos. Além disso, observa-se que a clínica ré, além de não demonstrar
abertura para receber críticas construtivas quanto ao serviço efetivamente
prestado, manifesta, por meio de suas respostas públicas, um padrão de
comunicação pouco profissional, revelando uma gestão despreparada. Tal
postura coaduna-se com a forma como o caso da cadela Sofia foi tratado,
corroborando a narrativa de negligência e despreparo clínico e
administrativo apresentada nesta demanda.

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