O Movimento Zapatista e seu projeto de emancipação: elementos de uma educação
não formal para a autonomia
Luciana Palhares de Souza1
Se, por um lado, é frequente relacionar educação e autonomia, por outro, é possível
perceber que esta relação recebe os mais diferentes matizes no debate acerca da
educação não formal. Acreditamos que a experiência de um processo organizativo
anticapitalista como o Movimento Zapatista e sua “Escuelita Zapatista por la Libertad”,
projeto que teve início em 2013, poderá contribuir para essa reflexão. No presente
artigo, pretende-se investigar alguns elementos presentes no discurso zapatista com o
objetivo de delimitar o sentido contrahegemônico ou anti-sistêmico dessa relação. As
experiências zapatistas se desenvolvem em um contexto muito específico e, mesmo
assim, nos permitem compreender a educação não formal sob a perspectiva
anticapitalista. Nesse sentido, é necessário levar em consideração a relação estabelecida
entre o conhecimento individual e o processo coletivo, as relações de trabalho, as
formas de sociabilidade criadas nas comunidades indígenas, sua história e os desafios da
luta cotidiana frente às formas sociais hegemônicas.
Palavras-chave: educação, educação não formal, autonomia, emancipação, zapatismo.
El Movimiento Zapatista y su proyecto de emancipación: elementos de una
educación no formal para la autonomía
Si, por una parte, es frecuente relacionar educación y autonomía, por el otro, es posible
percibir que esta relación recibe los más diferentes matices en el debate acerca de la
educación no formal. Creemos que la experiencia de un proceso de organización
anticapitalista como el movimiento zapatista y su "Escuelita zapatista por la Libertad",
un proyecto que comenzó en 2013, puede contribuir con esta reflexión. En el presente
artículo se pretende investigar algunos elementos presentes en el discurso zapatista con
el objetivo de aclarar el sentido contrahegemónico o anti-sistémico de esa relación. Las
experiencias zapatistas se desarrollan en un contexto muy específico y, asimismo, nos
permiten comprender la educación no formal bajo la perspectiva anticapitalista. En este
sentido, es necesario tener en cuenta la relación establecida con el conocimiento
individual y el proceso colectivo, las relaciones de trabajo, las formas de sociabilidad
creados en las comunidades indígenas, su historia y los desafíos de la lucha cotidiana
frente a las formas sociales hegemónicas.
Palabras-clave: educación, educación no formal, autonomía, emancipación, zapatismo.
1 Graduação em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (2015). Estudante de mestrado
pela Faculdade de Educação da UNICAMP desde 2016, com bolsa CNPq. Contato:
[Link]@[Link]
“Allá abajo, se adivina, hombres y mujeres hablan y
escuchan, caminan, se tropiezan y caminan de nuevo, buscan.
Buscan muchas cosas, por ejemplo, buscan encontrar lo que
buscan. Parecen alegres en esa búsqueda. No se ve nada
especial en ellos, parecen hombres y mujeres comunes y
corrientes.”
Don Durito de la Lacandona
Introdução
Há 23 anos, o Movimento Zapatista tem traçado seus caminhos de resistência por
Democracia, Liberdade e Justiça, voltando-se aos seus antepassados para poder seguir adiante 2.
Entre o antes e o depois, entre o mirar pa'fuera y para dentro, praticam sua autonomia e
autogoverno no cotidiano de suas comunidades e nas formas de se relacionar com o mundo. Esse
governar-se desde abaixo não se dá sem adversidades e falhas que, como eles dizem, são suas
falhas, assim como as respostas para contorná-las. Enquanto a complexa “hidra capitalista” não
cessa de avançar sob a ética da destruição, as e os zapatistas buscam seu próprio passo sob a ética
da busca, a partir de sua geografia e seu tempo muy otro3.
Desde o cessar fogo em janeiro de 1994, após doze dias de conflito armado contra as forças
militares do governo federal, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) tem cumprido
sua principal função: garantir a construção de um caminho coletivo de luta e resistência entre as
comunidades zapatistas, mantendo uma rede de comunicação com a sociedade civil do México e de
outros países. “Mantendremos el respeto al cese al fuego para permitir a la sociedad civil que se
organice en las formas que considere pertinentes para lograr el tránsito a la democracia en nuestro
país”, afirmam na Segunda Declaração da Selva Lacandona, publicada em 10 de junho de 1994.
Naquele momento de descenso das lutas sociais e defesa de perspectivas teóricas como “o fim
da história”4, os zapatistas inspiraram organizações populares em todo o mundo – como a Ação
Global dos Povos, em 1998 – e reascenderam o debate com relação à negação do Estado e das
políticas neoliberais. Apesar das mais de duas décadas que se colocam entre aquele período e hoje,
2 Cf. “La historia de los caminos y los caminadores”, palavras do Subcomandante Marcos na Reunião Preparatória
Americana do Encontro Intercontinental pela Humanidade e contra o Neoliberalismo, 7 de abril de 1995. In:
Subcomandante Insurgente Marcos. El Viejo Antonio. México, D.F.: Ediciones y Gráficos Eón, 2012 (4ª ed.)
3 Cf. El Pensamiento Crítico Frente a la Hidra Capitalista I, uma compilação de textos publicados pelo Exército
Zapatista de Libertação Nacional, com a participação da Comissão Sexta do EZLN.
4 Teoria retomada no final dos anos 1980 por autores, como o estado-unidense Francis Fukuyama, sugerem o fim dos
processos históricos enquanto processos de transformações sociais e políticas. Tal ideia ressurge no contexto da
queda do Muro de Berlim, quando acreditava-se que os antagonismos entre projetos políticos havia terminado e que
a consequência seria a estabilidade sob o capitalismo.
pode-se dizer que a experiência auto-gestionária zapatista continua sendo uma referência para
muitos movimentos sociais e coletivos de diferentes países.
No primeiro dia daquele ano de 1994, quando os zapatistas tomaram as armas e a palavra,
iniciaram também a retomada de uma parte de seus territórios ancestrais, a começar pelos centros
político-administrativos de sete cidades do estado de Chiapas. No mesmo dia em que iniciava o
Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), entre Estados Unidos, Canadá e México,
os zapatistas decidiram romper o silêncio e sair da clandestinidade.
Hoje ocupam pelo menos 27 Municípios Autônomos em Rebeldia Zapatista (MAREZ), nos
quais se organizam as comunidades zapatistas. Esses municípios intensificaram seus processos de
autonomia sobretudo depois de 1996, após o descumprimento dos Acordos de San Andrés5 por parte
do Estado, quando o movimento zapatista suspendeu as negociações com o governo mexicano.
Com a criação do Congresso Nacional Indígena durante o período das negociações (no ano de
1996) e o apoio da sociedade civil, o EZLN e suas bases de apoio zapatistas decidiram então centrar
forças na construção de sua autonomia. Estruturados no final de 1995, os cinco Aguascalientes
foram espaços de intensa atividade política, educativa e cultural, onde organizaram-se assembléias e
encontros com apoiadores e simpatizantes. Em 2003, esses Aguascalientes abriram caminho para a
formação dos centros políticos-administrativos de autogoverno zapatista, nomeados Caracóis.
Sobre a importância e significado do surgimento dessas cinco regiões do território insurgente,
escreve o então chefe militar do EZLN:
Dizem que dizem que diziam que o caracol representa o entrar no próprio coração, que é
assim que os mais primeiros chamavam o conhecimento. E dizem que diziam que o caracol
também representa o sair do coração para andar pelo mundo, que é assim que os primeiros
chamavam a vida. E não só, dizem que dizem que diziam que com o caracol se chamava o
coletivo para que a palavra fosse de um para outro e o acordo crescesse. E também dizem
que dizem que diziam que o caracol era ajuda para que o caracol ouvisse inclusive a palavra
mais distante. (Subcomandante Marcos, 2004, p. 79)
Em cada Caracol, onde chegam as palavras mais distantes e crescem os acordos coletivos, se
reúnem também as Juntas de Bom Governo (JBG), formadas por representantes escolhidos a cada
três anos pelos municípios zapatistas. As principais responsabilidades das JBG são: coordenar os
projetos relativos aos MAREZ, garantir o cumprimento dos princípios ético-políticos do
movimento, mediar os conflitos internos e as relações com a sociedade civil, de modo geral.
Guiando-se pelos sete princípios do “mandar obedecendo”6, as bases de apoio do EZLN em seus
5 Cf. LÓPEZ Y RIVAS, G. Autonomías: democracia o contrainsurgencia. México, D.F.: Ediciones Era, 2004.
6 “Obedecer y no mandar / Representar y no suplantar / Bajar y no subir / Servir y no servirse / Convencer y no
vencer / Construir y no destruir / Proponer y no imponer”
três níveis de organização – o local (representantes das comunidades), o municipal (conselheiros
dos MAREZ) e o regional com as Juntas de Bom Governo de cada Caracol – pensaram e
construíram suas próprias escolas, hospitais e as formas de auto-sustento a partir dos recursos
naturais, do cultivo e da criação de animais. Também formularam suas leis, como a Lei
Revolucionária de Mulheres, a Lei dos Direitos e Obrigações dos Povos em Luta e a Lei Agrária
Revolucionária.
Durante esses vinte e três anos, como afirma o chefe militar do EZLN desde fevereiro de
2013, Subcomandante Insurgente Moisés, surgiram outras necessidades e é na prática que mulheres
e homens zapatistas tem descoberto o que lhes faz falta7. Identificam, por exemplo, a falta de um
outro saber científico para conseguirem responder às próprias perguntas e dificuldades materiais
que encontram em diversos campos do conhecimento, entre eles a saúde, a alimentação e a
produção de recursos. Assim, colocam essas e outras questões em pauta no I Encontro de L@s
Zapatistas y las ConCiencias por la Humanidad, organizado entre o final de 2016 e início de 2017.
Afirmam ser necessário produzir uma arte e uma internet muy otras, e organizam os Festivais
CompArte por la Humanidad “Contra el Capital y sus muros, todas las artes… también las
cibernéticas”. Tratam de aperfeiçoar cada vez mais sua estratégia de comunicação por meio da
internet, das rádios insurgentes, de comunicados, encontros, debates e marchas. Decidem apoiar a
candidatura de uma mulher indígena e porta-voz de um Conselho Indígena de Governo para as
eleições de 2018, o que reverberou críticas e reflexões no amplo campo da esquerda.
A semelhança que marca o contexto do início dos anos dois mil e hoje é o risco da destruição
e do desaparecimento diante da guerra de baixa intensidade, encabeçada pelo Estado desde 1995.
Entretanto, observa-se seu poder de convocatória em diversos momentos – Primer Encuentro
Intercontinental por la Humanidad y contra el Neoliberalismo em 1996, Marcha del Color de La
Tierra em 2001, La Otra Campaña em 2006, Marcha do Silêncio em 2012, para dar alguns
exemplos.
O ano de 2001, como afirma Glória Muñoz Ramírez 8, foi um divisor de águas na luta
zapatista. Após a Marcha del Color de La Tierra, uma mobilização que percorreu 6 mil quilómetros
em 37 dias, entre San Cristóbal de Las Casas (Chiapas) e o distrito federal, o movimento indígena
viu como esgotadas as possibilidades de diálogo com o governo. De acordo com Ramírez,
7 Cf. comunicado do Subcomandante Moisés, “Qué sigue I: antes y ahora”, por ocasião do I Encuentro de L@s
Zapatistas y Las ConCiencias por la Humanidad, entre 26 de dezembro de 2016 e 4 de janeiro de 2017.
8 Cf. artigo publicado em La Jornada Ojarasca, “A diez años de la Marcha del Color de la Tierra”
([Link] acesso em 25/09/2017)
(…) fue el año de la traición de la clase política toda, del desconocimiento oficial de los
derechos y cultura indígena y de la búsqueda de otros caminos, no sólo para el movimiento
indígena nacional, sino para muchos colectivos, organizaciones e individuos que a partir de
ese momento tuvieron claro que con la interlocución con los partidos políticos, los
gobiernos y las instituciones no llegarían a ningún lado. La autonomía y la autogestión en la
práctica serían el esfuerzo siguiente. (RAMÍREZ, 2011, p. 4)
Em 2006, através da Outra Campanha, delegados do EZLN e bases de apoio percorreram o
país para trocar experiência com outros coletivos e comunidades que se declararam aderentes à
Sexta Declaração da Selva Lacandona. No mesmo ano, o levante popular que culminou na tomada e
controle da cidade de Oaxaca, conhecido como a comuna de Oaxaca, amplia o debate sobre
autonomia, organização política e outros modelos de educação9. Uma década depois da Sexta
Declaração e da Outra Campanha, em quase três meses de consulta após o V Congresso Nacional
Indígena, os 43 povos que compõe o CNI – entre zapatistas, não zapatistas e aderentes à Sexta –
decidem apoiar a formação de um Conselho Indígena de Governo que irá disputar as eleições de
2018, tendo como portavoz uma mulher indígena.
Os Subcomandantes Moisés e Galeano explicam o contexto em que a proposta se coloca
como necessária no sentido de combater a morte e o esquecimento.
Nuestro dolor cada vez llega a menos personas. Nuestras muertes no encuentran eco como
antes. Y no es que la gente de afuera se haya hecho cínica o apática. Es que la guerra que
padecemos desde hace tiempo como pueblos originarios, ya les llegó, ya está en sus calles,
en sus casas, en sus escuelas, en sus lugares de trabajo. Nuestros dolores son ya uno más
entre muchos otros. Y, aunque el dolor se extiende y se hace más hondo, estamos más solos
que nunca antes. Cada vez vamos a ser menos. (Subcomandante Insurgente Moisés e
Subcomandante Insurgente Galeano, “Una história para tratar de entender”, novembro de
2016)10
Apesar do avanço da guerra dos “de cima”, onde o medo, a intolerância e a morte fazem parte
da estratégia de aniquilação de qualquer coesão existente em um território, cultura ou organização
social (para depois reconstruir o mesmo território sob nova ordem), os zapatistas e povos
originários do México gritam “basta!”. No atual contexto, cabe resgatar de 1996 uma comparação
feita por Don Durito de La Lacandona 11 ao falar sobre arquitetura e neoliberalismo: “la ética del
Poder es la misma que la de la destrucción, y la ética del caracol es la misma que la de la
9 Cf. BRANCO, J. F. M. Movimento Docente, Insurreição Popular e Propostas Coletivas de Educação Alternativa
em Oaxaca. 2015. 216 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2015.
10 Cf. [Link] (Acesso em 22/09/2017)
11 Cf. “El caracol del fin y el principio” y “La historia de la persona viva y la persona muerta”, outubro de 1996
([Link]
la-persona-muerta/, acessado em 20/09/2017). Don Durito é um personagem criado pelo Subcomandante Marcos
em 1995.
búsqueda”. A busca por liberdade e autonomia zapatistas depende da rebeldia e organização do
movimento orientado pelas perguntas coletivas que ecoam dos Caracóis. O método zapatista de
caminar preguntando, envolve não só os espaços de discussão e prática políticas, mas também a
educação proposta pelas comunidades.
Educação, autonomia e organização anti-hegemônica
De forma incipiente, pretendemos trazer uma reflexão sobre a noção de autonomia e educação
presentes nessas comunidades que se organizam em Caracóis. Este estudo é atravessado pela
seguinte pergunta: quais elementos do processo de construção da autonomia zapatista produzem o
sentido anti-hegemônico da educação não formal praticada pelas comunidades em rebeldia? Talvez
seja necessário esclarecer dois pontos dessa questão. 1. Incluímos a educação zapatista no campo da
educação não formal pelo fato de ela ser realizada para além do Estado e como forma de resistência
à educação formal oferecida pelo governo mexicano. 2. Entendemos a palavra “autonomia” como
um conceito em disputa, que pode significar tanto um processo de ruptura com relação à
heteronomia e alienação promovidas no capitalismo, como adquirir sentidos que se adaptem
perfeitamente ao discurso neoliberal de privatização, por exemplo.
Partimos da análise de alguns textos zapatistas e da Escuelita Zapatista por la Libertad, por
ser esta uma proposta de aprendizado-ensino que traz alguns elementos para a nossa investigação.
Entendemos que as experiências autônomas de educação dos MAREZ, justamente por situarem-se
abaixo e à esquerda no mundo capitalista (e não de forma isolada com relação ao sistema) são
resultado da construção de novas formas sociais internas às comunidades indígenas. Ou seja, é a
materialidade das relações estabelecidas na luta que determina a abordagem pedagógica implicada
no projeto político de emancipação.
A Escuelita Zapatista foi um espaço criado pelo Movimento Zapatista, em que as
comunidades compartilharam seu cotidiano, suas experiências e reflexões sobre o significado de
liberdade. A proposta surgiu alguns meses depois da marcha silenciosa de pelo menos 40 mil
zapatistas, com a qual demonstraram novamente a persistência de sua dignidade rebelde. No dia 21
de dezembro de 2012 – último dia do ciclo maya, que alguns interpretaram como o fim do mundo e
outros como o início de uma nova era, como lembra Ramírez 12 – tzeltales, tzotziles, choles,
tojolabales, zoques, mames e mestiços ocuparam os cinco centros municipais com dois gestos
12 Cf. artigo “De qué callada manera”, escrito por Gloria Muñoz Ramírez em 23 de dezembro de 2012
([Link] acesso em 20/09/2017)
simbólicos: o punho erguido e o silêncio. “Escutaram?”, pergunta o Comitê Clandestino
Revolucionário Indígena, através do comunicado de seu vocero Marcos.
Compreendemos a Escuelita como parte desse movimento dos Caracóis: de abertura, após um
período de aparente recolhimento, com a condição de que “o outro” os entendam a partir da mirada
que têm sobre si mesmos e desde sua própria geografia. Entre 11 e 16 de agosto de 201313, mais de
mil e setecentas pessoas de várias nacionalidades fizeram parte da primeira turma do curso “La
libertad según l@s Zapatistas”14, dividido entre os seguintes temas: Governo Autônomo I e II,
Participação das Mulheres no Governo Autônomo e Resistência Autônoma. Escritos no formato de
cadernos de estudo, esse material foi produzido por zapatistas dos cinco Caracóis – La Realidad
(Caracol I), Oventic (Caracol II), La Garrucha (Caracol III), Morelia (Caracol IV), Roberto Barrios
(Caracol V). Tratam-se de relatos sobre a história do movimento, o processo de organização do
governo autônomo, os direitos e obrigações das autoridades escolhidas nos três níveis de governo, o
processo de formação dessas autoridades, a relação com outras organizações, a participação das
mulheres e as noções de política, cultura, território, educação, saúde, justiça, trabalho coletivo e
resistência.
Nos cadernos de estudo, a educação zapatista aparece como mais uma área de trabalho
coletivo que mulheres e homens se comprometem a organizar coletivamente, com os recursos e a
experiência que tem. Como observamos nos depoimentos a seguir, a noção de autonomia também é
fruto de um processo de experimentação e resistência.
Antes de 1994, en lo que era la clandestinidad, algunos compañeros y compañeras que
hemos venido trabajando ya participábamos también en desde ese tiempo en los trabajos
colectivos, en diferentes trabajos que hemos realizado, pero en ese tiempo nadie pensaba
que eso ya era autonomia (Lorena, MAREZ San Pedro de Michoacán, História del
Gobierno Autonomo)15
Nació todo esto porque los pueblos antes de crear los municipios autónomos nos
declaramos en resistencia y vinieron muchas necesidades que había que resolver, por eso se
vio la necesidad de agruparnos en pueblos, en regiones y formar nuestros municipios y así
nace el gobierno autónomo zapatista. (...) Así se empezaron los trabajos de la autonomia en
la zona, de acuerdo a las posibilidades de los pueblos y a las capacidades de los
compañeros, porque nadie estaba preparado para eso pero la necesidad nos obligó y lo
tuvimos que hacer (Doroteo, MAREZ Libertad de los Pueblos Mayas, História del
Gobierno Autonomo)16
13 Naquele contexto de 2013, estudantes de várias partes do mundo questionavam o projeto neoliberal de educação e
suas reformas privatizantes com a ocupação das escolas, universidades, das ruas e outros espaços públicos.
14 Para esta análise, nos baseamos em relatos encontrados na internet e em autores que abordam tanto a experiência da
Escuelita Zapatista quanto a questão da autonomia e educação indígena. O material utilizado pela primeira turma da
Escuelita está disponível no link: [Link] (acesso em 20 de setembro
de 2017).
15 “Cuaderno de texto de primer grado del curso 'La Libertad según l@s Zapatistas' – Gobierno Autónomo I”, p. 6
16 Idem, p. 7
A partir da necessidade de resistir, as mulheres e homens zapatistas se viram como
responsáveis por formar suas próprias autoridades e seu governo autônomo. “Como resistimos ao
ataque à nossa cultura?”17, escreve Geraldo, um dos delegados da JBG da Região Felipe Ángeles,
Caracol V. Sua resposta está na construção dos próprios meios de comunicação, no ensino em
língua materna dos saberes e conhecimentos ancestrais, na celebração das festas tradicionais e na
conservação das sementes criollas, assim como dos hábitos alimentares.
Na ocasião do “Primeiro Encontro d@s Zapatistas com os Povos do Mundo” 18, em 2007, os
promotores de educação dos cinco Caracóis expuseram a realidade dessa área de trabalho. Segundo
uma das promotoras, ao nomear e formar as educadoras e os educadores em cada região também
buscaram decidir o que é importante ensinar. E buscaram à sua maneira, em sua língua, com a sua
tradição e história. Os primeiros vinte promotores de educação foram responsáveis por capacitar
outros oitenta, multiplicando assim o número de educadores, estudantes e escolas autônomas. Com
a construção das escolas primárias e secundárias nos MAREZ, a intenção é que as e os zapatistas
utilizem o conhecimento para valorizar e apoiar os próprios povos a seguirem em resistência. Esse é
seu projeto de educação coletiva e autônoma. No prólogo de um livro de contos escrito por
estudantes de uma das escolas secundárias definem a educação da seguinte maneira:
La educación es vista como una responsabilidad colectiva, creativa, que dignifica y que
promociona la visión de la autonomía. De este modo se aleja de la visión institucional de
escuela en donde se enseña para modelar una masa de individuos productivos no reflexivos
ni críticos y que alimenta el individualismo y la competitividad, fortaleciendo así el sistema
del mercado.19
Como zapatistas que são, mais à frente defendem a escola autônoma: “esta escuela es
autónoma, es decir que no depende del gobierno oficial. Es una escuela de los pueblos zapatistas y
de los pueblos de todo el mundo construída con la solidaridad de todos los seres solidarios”. A partir
de suas palavras, entende-se que as formas de sociabilidade (e solidariedade) experimentadas
passam pela relação estabelecida entre o conhecimento individual e o processo coletivo de
construção de um auto-governo, de uma história e de como responder aos desafios da luta cotidiana
frente às formas sociais hegemônicas.
A noção de autonomia não só pelo zapatismo, mas também por outros movimentos indígenas
17 “Cuaderno de texto de primer grado del curso 'La Libertad según l@s Zapatistas' – Resistência Autônoma”, p. 83
18 Cf. [Link] (acesso em 20/09/2017)
19 "HABÌA UNA VEZ UNA NOCHE... CUENTOS, LEYENDAS, HISTORIAS DESDE LAS MONTAŇAS DE
CHIAPAS", Livro de contos escrito pelos/as alunos/as da ESRAZ em abril de 2002. A ESRAZ ( Escuela
Secundaria Rebelde autónoma Zapatista) também é uma parte do Sistema Educativo Rebelde Autônomo Zapatista
de Libertação Nacional da zona Altos de Chiapas. Esse material está disponível através do link: [Link]
[Link]/habia_una_vez_una_noche_cast_tsotsil.pdf
e populares do México, se coloca também como processo permanente. Ao compartilhar a palavra e
a experiência, os zapatistas não só fortalecem sua rede de apoio com a sociedade civil, mas também
reapresentam a articulação entre as estratégias da luta anti-hegemônica a nível local e global. Como
afirmam no início da Sexta Declaração,
Ésta es nuestra palabra sencilla que busca tocar el corazón de la gente humilde y simple
como nosotros, pero, también como nosotros, digna y rebelde. Ésta es nuestra palabra
sencilla para contar de lo que ha sido nuestro paso y en donde estamos ahora, para explicar
cómo vemos el mundo y nuestro país, para decir lo que pensamos hacer y cómo pensamos
hacerlo, y para invitar a otras personas a que se caminan con nosotros en algo muy grande
que se llama México y algo más grande que se llama mundo. Esta es nuestra palabra
sencilla para dar cuenta a todos los corazones que son honestos y nobles, de lo que
queremos en México y el mundo. Ésta es nuestra palabra sencilla, porque es nuestra idea el
llamar a quienes son como nosotros y unirnos a ellos, en todas partes donde viven y luchan.
(EZLN, Sexta Declaración de la Selva Lacandona)
A força das palavras e a firmeza dos passos de mulheres e homens zapatistas nos levam de
volta aos significados do caracol. Com este, o coletivo poderia ouvir a palavra mais distante e
atender ao chamado para passar a palavra e fazer com que o acordo crescesse. O caracol também
significa o movimento de entrar no próprio coração, o que representa conhecimento, e ao mesmo
tempo sair dele para andar pelo mundo, o que representa a vida. Podemos entender o processo de
autonomia das comunidades zapatistas como um acordo coletivo a partir do qual se aprende a mirar
y escuchar, desde dentro e desde fora, a fim de compreender o sentido de suas perguntas. Assim,
como disse o porta-voz do EZLN, Subcomandante Marcos: “Mirar es una forma de preguntar,
decimos nosotros, nosotras las zapatistas. O de buscar…”20.
Conclusão
Tischler (2011) fala de um “fluxo contracorrente” como o tempo em que a coletividade é
capaz de transpor os limites da ordem dada. No entanto, isso só é possível se a relação entre esse
fluxo social e a organização revolucionária não estiver baseada na lógica de dominação-
subordinação. Para o autor, o exemplo mais importante de rompimento com essa relação, do ponto
de vista político, é o Movimento Zapatista.
O Exército Zapatista é a forma operativa de autodefesa da comunidade. Como exército
cumpre funções específicas mas não independentes do fluxo rebelde das comunidades
zapatistas, organizadas em Caracóis. Nesse sentido, a autonomia zapatista pode ser
entendida como movimento de emancipação da comunidade concreta que se desdobra
20 Cf. [Link] (acesso em 20/09/2017)
negando os modos da abstração e síntese social como forma da comunidade abstrata,
burguesa. O zapatismo não está subordinado a um esquema. Sua temporalidade não é
abstrata e linear. O tempo do “aqui e agora” é o tempo da autodeterminação que se expressa
na figura da autonomia. (TISCHLER, 2011, p. 348)
Diante dessa perspectiva, apresentam-se as seguintes perguntas: a pretensão à uma aparente
universalidade poderia ser considerada como um indício do sentido hegemônico presente em certos
projetos de educação não formal? Se existe uma apropriação das noções de autonomia,
emancipação e transformação social pela leitura hegemônica da educação não formal, como
diferenciá-las da leitura anti-hegemônica? Tais perguntas podem nos auxiliar na investigação sobre
a autonomia e suas possíveis relações com projetos de transformação social.
Enquanto nos anos 1980 discutia-se a educação popular como projeto de ordem social, vemos,
a partir dos anos 1990, muito por influência das ideias zapatistas difundidas com os embates
travados entre o Movimento Zapatista e o Estado Mexicano, que a questão da ordem social talvez
não devesse se subordinar ao papel do Estado ou à política maior. Era decisivo para a questão da
ordem social e da educação popular resistir ao próprio Estado, inclusive ao projeto de educação que
o mesmo passou a desenvolver para os setores populares. Observamos também que a passagem de
educação popular para educação não-formal, poderiam ou não se configurar como anticapitalistas.
Ao tratar a experiência de educação zapatista como um caso de educação não-formal anti-
hegemônica ou anti-sistêmica, devemos atentar para o fato de que ela tem suas próprias
necessidades, coloca outras demandas, muito ligadas à sua relação com o tempo e às suas práticas
de auto-governo. O estabelecimento de uma aliança entre os sujeitos das lutas anti-hegemônicas de
diversos países, sem negar ou eliminar o particular e o local, parece ser um elemento importante
para analisar o conceito de autonomia e educação zapatistas, já que aponta para a necessidade de
uma alteridade das relações sociais que se dão “abaixo e à esquerda” 21 em contraposição a
reificação e a fragmentação como riscos presentes ao seu projeto de educação não formal.
Parece-nos que essa problemática – o risco de isolamento, o problema de um território anti-
hegemônico comum e o risco de perder o que é próprio, específico e regional – é comum entre as
experiências de educação voltadas para a emancipação, em que os movimentos sociais tomam “em
suas mãos a educação e a formação de seus dirigentes, com critérios pedagógicos próprios,
inspirados na educação popular” (ZIBECHI, 2008, p. 26). Ainda de acordo com este autor, a prática
emancipatória nasce na vida cotidiana dos oprimidos; ela não se reproduz a partir das organizações
21 “Abaixo e à esquerda” foi o lema com o qual os zapatistas começaram a Outra Campanha, uma iniciativa de
articulação política do Movimento Zapatista e do EZLN, cujo objetivo era construir um Programa Nacional de Luta
e criar uma nova constituição federal que atendesse às demandas do povo mexicano.
armadas ou partidárias, nem mesmo seus dirigentes, mas sim das comunidades em rebeldia (Cf.
ZIBECHI, 2008, p. 16).
Segundo Pedro García Olivo (2009), os riscos do isolamento levaram os zapatistas a
estabelecerem um outro olhar e uma escuta sobre outras organizações sociais e a sociedade em
geral. A “Sexta Declaração da Selva Lacandona” e outros textos divulgados no contexto da Outra
Campanha, são documentos publicizados no site oficial do movimento que marcam uma
preocupação com a identificação de um terreno comum entre as lutas anti-hegemônicas.
Ver e escutar o outro, através do olhar e da escuta deste sobre si mesmo, constitui um
exercício ao qual os zapatistas nos convidam em seus comunicados. Dois anos depois da primeira
turma da Escuelita, no dia 27 de julho de 2015, o Exército Zapatista lança um comunicado para
aqueles que foram aprovados no primeiro nível a realizarem a segunda etapa do curso fora das
terras zapatistas, desde seus próprios lugares de trabalho, estudo e resistência. No texto divulgado
para a segunda turma, afirmam:
lo que nosotras, nosotros, zapatistas, queremos, es que nuestros compas de la Sexta nos
vean directamente, nos miren y nos escuchen, y, cómo debe ser, tomen lo que crean que les
puede servir y dejen a un lado lo que crean que no les sirve o les estorba. Cómo tomamos
en cuenta todas esas cosas, pues tenemos que pensar cómo hacerle para seguir hablando
con ustedes y aprendernos mutuamente22.
Ao final do comunicado da Escuelita, nos deparamos com a seguinte frase: “Y no olvidemos
ni el hoy ni el ayer, así recordaremos mañana lo pendiente”. Walter Benjamin, ao discorrer sobre o
conceito de história, afirma que, a história dos vencidos constitui-se como uma experiência com o
passado. De acordo com a leitura de Gagnebin, exposta na introdução do livro Magia e Técnica,
Arte e Política, que reúne obras do autor, Benjamin demonstra o enfraquecimento da Experiência
no mundo capitalista moderno e, ao mesmo tempo, “a necessidade de sua reconstrução para garantir
uma memória e uma palavra comuns” (BENJAMIN, 2012). Com base nessa ideia, podemos afirmar
que compreendermos a história da educação não formal “a contrapelo” - como afirma Benjamin em
suas Teses - significa olharmos para o discurso e a prática daqueles que estão “abaixo e à esquerda”.
22 Cf. em: [Link] (consultado em 27.03.2016)
Referências Bibliográficas
BENJAMIN, W. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura
(Obras Escolhidas, Vol. I). São Paulo: Brasiliense, 2012.
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complementa el trabajo represivo de las fuerzas policíacomilitares en los pueblos indios de México
(libro, ensayo). Virus Ed., Barcelona, 2009.
RAMÍREZ, G. M. A diez años de la Marcha del Color de La Tierra. La Jornada Ojarasca. Março
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