Candomblé: Conhecer para
Respeitar
Uma jornada pelas origens, crenças, divindades e legado de uma das religiões
mais ricas e mal compreendidas do Brasil. Esta apresentação é um convite à
curiosidade, ao respeito e à desconstrução de preconceitos.
RELIGIÃO CULTURA AFRO-BRASILEIRA DIVERSIDADE
As Origens do Candomblé
O candomblé não nasceu no Brasil por acaso. Ele é o resultado direto de um dos capítulos mais dolorosos da história da humanidade: o
tráfico transatlântico de escravizados. Entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos foram arrancados de suas terras — principalmente
das regiões que hoje correspondem à Nigéria, ao Benin, ao Daomé, a Angola e ao Congo — e trazidos à força para o Brasil.
Esses homens e mulheres trouxeram consigo muito mais do que força de trabalho. Trouxeram sua língua, sua memória, seus mitos, sua
música e, acima de tudo, sua espiritualidade. Diante da proibição e da perseguição impostas pelos colonizadores, eles encontraram
formas criativas de preservar sua fé, muitas vezes camuflando seus rituais e divindades sob nomes e imagens católicas.
Origem Geográfica Uma Religião que Resistiu
Principalmente da África Ocidental e Centro-Ocidental: povos Proibido, perseguido, demonizado — o candomblé sobreviveu
iorubás, fons, bantus, jejes e angolanos foram os maiores porque seus praticantes o viveram com coragem e criatividade.
contribuintes culturais e espirituais do candomblé. Cada ritual era um ato de resistência cultural e identitária frente à
opressão colonial.
Escravidão e Fé: A Ligação com a África
Compreender o candomblé exige entender o trauma e a força que moldaram sua existência. Os africanos escravizados foram separados
de suas famílias, proibidos de praticar sua religião e forçados a se converter ao catolicismo. Ainda assim, sua espiritualidade não foi
apagada — ela se transformou e resistiu.
Sincretismo como Estratégia Os Terreiros como Espaços de A Memória que o Mar não
de Sobrevivência Resistência Apagou
Para continuar adorando suas Os terreiros — locais de culto do Apesar de separados de sua terra
divindades sem ser punidos, os candomblé — foram desde o início natal por um oceano, os africanos
escravizados associaram os orixás a muito mais do que espaços religiosos. escravizados conseguiram manter
santos católicos. Ogum virou Santo Eram comunidades de acolhimento, vivos, de geração em geração, os
Antônio, Iemanjá virou Nossa Senhora, onde os escravizados e seus mitos, os cânticos em iorubá, os
Xangô virou São Jerônimo. Era uma descendentes encontravam nomes dos orixás e os rituais sagrados.
forma inteligente e corajosa de solidariedade, identidade e O candomblé é, portanto, uma das
manter viva sua fé sob o olhar pertencimento. O mais antigo e maiores provas de resiliência cultural
vigilante dos opressores. famoso do Brasil é o Ilê Axé Iyá Nassô da história humana.
Oká, a Casa Branca do Engenho
Velho, fundado em Salvador (BA) no
início do século XIX.
Dogmas e Fundamentos do Candomblé
O candomblé não possui um livro sagrado único como a Bíblia ou o Alcorão, mas possui um conjunto profundo de princípios, valores e
visões de mundo que orientam a vida de seus seguidores. Conhecer esses fundamentos é essencial para entender a religião com
respeito e profundidade.
Axé — A Energia Sagrada Orixás — Divindades da Natureza
O axé é o conceito central do candomblé. Representa a força Os orixás são as grandes forças da natureza personificadas.
vital que anima tudo no universo — pessoas, plantas, animais, Não são deuses criadores do universo, mas sim intermediários
elementos da natureza. Cada ser vivo tem axé, e os rituais entre o mundo humano e o divino. Cada pessoa nasce sob a
servem justamente para alimentar, equilibrar e fortalecer essa regência de um orixá, que a acompanha ao longo de toda a
energia. vida.
Ori — A Cabeça Sagrada Orun e Aiyê
O ori representa a individualidade e o destino de cada pessoa. O universo no candomblé é dividido em dois planos: o Orun (o
É a essência do ser, o princípio que guia cada um em sua mundo espiritual, habitado pelos orixás e ancestrais) e o Aiyê
trajetória. Cuidar do ori — por meio de rituais, equilíbrio (o mundo material, onde vivemos). Os rituais são pontes entre
emocional e alinhamento espiritual — é fundamental no esses dois mundos.
candomblé.
No candomblé, não existe a noção de pecado original ou de culpa eterna. A religião é focada no equilíbrio, na harmonia e no
pertencimento comunitário.
Os Orixás: Divindades do Candomblé
Os orixás são as divindades do candomblé, cada uma associada a elementos da natureza, cores, dias da semana, alimentos e
características de personalidade. São entidades poderosas que representam forças naturais e arquétipos humanos. Conheça as
principais:
Iemanjá Xangô Ogum Oxóssi
Rainha do mar. Protetora das Orixá da justiça, do trovão e do Orixá do ferro, da guerra e do Orixá das matas e da caça.
mães, das crianças e dos fogo. Rei poderoso e guerreiro. trabalho. Protetor dos Senhor da fartura e da natureza
pescadores. Representada pelas Cores: vermelho e branco. Seu trabalhadores e viajantes. Cores: selvagem. Cor: azul-turquesa.
cores azul e branco. Seu dia é o dia é a quarta-feira. Associado a azul e verde. Associado a Santo Associado a São Sebastião.
sábado. Associada a Nossa São Jerônimo. Antônio e São Jorge. Orixá muito cultuado na Bahia.
Senhora dos Navegantes.
Os Orixás: Continuação
Oxum Exu Iansã (Oyá) Oxalá (Obatalá)
Orixá dos rios e das águas O mensageiro entre os orixás e Orixá dos ventos, das O mais velho dos orixás. Criador
doces. Senhora do amor, da os humanos. Senhor das tempestades e dos raios. dos seres humanos. Senhor da
beleza e da fertilidade. Cores: encruzilhadas e da Guerreira corajosa e paz, da sabedoria e da pureza.
amarelo e dourado. Sua joia é o comunicação. Sem ele, nenhum apaixonada. Cores: vermelho e Cor: branco. Associado a Jesus
espelho. Associada a Nossa ritual pode começar. Cores: marrom. Associada a Santa Cristo e Nosso Senhor do
Senhora da Conceição. vermelho e preto. Não é o Bárbara. Tem ligação com o Bonfim.
diabo — essa é uma das mundo dos mortos (éguns).
maiores confusões criadas pelo
preconceito religioso.
Outros Orixás Importantes
Ossaim
Orixá das folhas e das ervas medicinais. Sem suas folhas, não existe candomblé — elas são usadas em todos os rituais de
cura e iniciação. Representa o conhecimento da natureza.
Omolu (Obaluaiê)
Orixá das doenças e da cura. Temido e respeitado, ele é o senhor da terra, da morte e das epidemias. Também é curandeiro
poderoso. Associado a São Roque e São Lázaro.
Olokun
Senhor das profundezas do oceano. Representa o inconsciente, os mistérios e as riquezas ocultas. Em algumas nações do
candomblé, é considerado o pai ou mãe de Iemanjá.
Oxumaré
Orixá do arco-íris e da serpente. Representa a dualidade, o movimento e a continuidade da vida. É tanto masculino quanto
feminino, dependendo do período do ano.
Ibejis
Os orixás gêmeos, protetores das crianças e da alegria. Representam a inocência, a brincadeira e a leveza da vida. São
associados a São Cosme e Damião.
Nanã
A mais antiga das mães d'água. Orixá da lama, da morte e da sabedoria ancestral. Representa o fim do ciclo da vida e o
retorno à terra. Cor: lilás e azul escuro.
Locais Sagrados: O Terreiro
O terreiro — também chamado de ilê (que em iorubá significa "casa") — é o espaço físico e espiritual onde o candomblé acontece. Mas
ele é muito mais do que um local de culto: é uma comunidade, uma família religiosa, um espaço de preservação cultural e de
acolhimento.
Estrutura Física do Terreiro Terreiros Históricos do Brasil
Um terreiro tradicional é composto por vários espaços com Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Casa Branca) — Salvador, BA. Fundado
funções específicas: no século XIX, é o mais antigo terreiro do Brasil ainda em
funcionamento, tombado pelo IPHAN como patrimônio cultural.
Barracão: salão principal onde acontecem as festas e rituais
públicos com música, dança e incorporação dos orixás. Ilê Axé Opô Afonjá — Salvador, BA. Fundado em 1910, é um dos
Peji: santuário de cada orixá, espaço privado onde ficam os mais influentes terreiros do Brasil, com forte ligação histórica
assentamentos (objetos sagrados que representam a com intelectuais como Jorge Amado e Pierre Verger.
divindade).
Terreiro do Gantois (Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê) — Salvador, BA.
Roncó: câmara de iniciação, local reservado aos noviços Famoso pela Mãe Menininha do Gantois, uma das lideranças
durante o processo de iniciação (o "fazer o santo"). religiosas mais respeitadas do candomblé no século XX.
Axé da casa: o centro espiritual do terreiro, onde está a
energia fundadora da comunidade.
Sacerdotes e Lideranças Religiosas
O candomblé não possui profetas no sentido bíblico — isto é, figuras que receberam revelações divinas para fundar a religião. Em vez
disso, a religião é transmitida oralmente de geração em geração por meio de suas lideranças sacerdotais, que são os guardiões do axé e
do saber religioso.
Ialorixá (Mãe de Santo) Babalorixá (Pai de Santo)
A sacerdotisa feminina que lidera o terreiro. É a figura máxima O equivalente masculino da Mãe de Santo. Exerce as mesmas
de autoridade espiritual, responsável por conduzir os rituais, funções sacerdotais com autoridade plena sobre o terreiro e
iniciar novos membros e preservar os ensinamentos sagrados. seus filhos de santo. A relação entre pai/mãe de santo e filhos
O candomblé é historicamente uma religião de liderança de santo é de profundo respeito e cuidado espiritual.
feminina.
Babalaô / Iyanifá Iaô (Filho/Filha de Santo)
Especialistas no sistema de adivinhação chamado Ifá, um O iniciado que passou pelo processo de iniciação (o "fazer o
complexo sistema de consulta oracular que interpreta a santo") e está sob os cuidados espirituais do pai ou mãe de
vontade dos orixás. São figuras de enorme prestígio e santo. A hierarquia dentro do candomblé é baseada no tempo
conhecimento, guardiões dos odús — os poemas sagrados da de iniciação e no aprendizado acumulado.
tradição iorubá.
Figuras históricas importantíssimas: Mãe Menininha do Gantois, Mãe Aninha (fundadora do Opô Afonjá) e Mãe Senhora são
reverenciadas como as grandes guardiãs do candomblé no século XX.
Principais Práticas e Rituais
Os rituais do candomblé são momentos de profunda conexão espiritual, coletividade e celebração. Cada prática tem um significado
específico e é realizada com grande cuidado, conhecimento e respeito pelas tradições ancestrais.
Os Atabaques A Dança Ritual
Os tambores sagrados (atabaques) são o coração dos rituais. Cada orixá possui danças específicas que reproduzem seus
Cada ritmo convoca um orixá específico. Tocar os atabaques é gestos e atributos. A dança é uma forma de invocar a presença
uma função especializada, exercida pelos alabês (tocadores do orixá e expressar devoção. Não é entretenimento — é oração
sagrados). em movimento.
Oferendas (Ebó) Incorporação (Transe)
As oferendas são presentes feitos aos orixás: alimentos, flores, Durante os rituais, os orixás podem "baixar" — ou seja,
velas, objetos específicos. Cada orixá tem suas preferências. O manifestar-se através do corpo dos iniciados, em um estado de
ebó é um ato de agradecimento, pedido ou renovação transe. Este momento é sagrado e celebrado pela comunidade.
espiritual.
Iniciação e o "Fazer o Santo"
O processo de iniciação no candomblé — popularmente chamado de "fazer o
santo" ou bori (na etapa inicial) — é um dos momentos mais importantes na
vida de um filho ou filha de santo. É um rito de passagem profundo que
transforma espiritualmente a pessoa e a integra definitivamente à comunidade
religiosa.
Roncó Saída
Bori Raspagem
Recolhimento Apresentação
Fortalecimento sagrado e Raspagem e pública do
do ori/cabeça introspecção pintura: iniciado
renascimento
espiritual
O processo pode durar semanas. O iniciado fica recluso no terreiro, aprende os
fundamentos da religião e é preparado para receber seu orixá. A raspagem da
cabeça simboliza o nascimento para uma nova vida espiritual. A saída —
quando o iniciado é apresentado publicamente à comunidade — é motivo de
grande festa e celebração.
O Candomblé e a Morte: Uma Visão Diferente
No candomblé, a morte não é o fim — é uma transição. A relação com os mortos é parte essencial da religião e está longe de ser algo
sombrio ou maligno. Pelo contrário, é uma expressão de respeito e continuidade entre as gerações.
Éguns — Os Ancestrais Axexê — O Ritual Funerário
Os éguns são os espíritos dos mortos, especialmente dos Quando um filho de santo morre, o terreiro realiza o axexê, um
antepassados. No candomblé, eles são cultuados com respeito e ritual funerário que tem como objetivo desligar o espírito do
veneração, pois são vistos como guardiões e guias espirituais falecido de suas obrigações terrenas e enviá-lo ao Orun (o mundo
dos vivos. Existe até uma sociedade específica para o culto dos espiritual) em paz. É um ato de amor, não de medo.
éguns, chamada Egungum, onde os ancestrais são invocados
com máscaras e trajes elaborados. Iansã: A Guardiã dos Mortos
A orixá Iansã (Oyá) tem ligação direta com o mundo dos mortos
— é ela quem acompanha as almas na transição entre o Aiyê e o
Orun. Por isso, é presente nos rituais fúnebres do candomblé com
grande devoção.
A visão do candomblé sobre a morte é de respeito e continuidade, não de terror. Honrar os ancestrais é uma prática universal
presente em culturas ao redor de todo o mundo.
O Candomblé e o Mal: Desmontando o Maior Mito
Exu não é o diabo.
Esta é, sem dúvida, uma das maiores e mais prejudiciais confusões sobre o candomblé. A associação de Exu com Satanás é um equívoco
histórico criado pelos colonizadores e missionários cristãos que, ao entrar em contato com as religiões africanas, demonizaram tudo o
que não conheciam.
Quem é Exu de verdade? O Mal no Candomblé Magia Negra? Desfazendo o
Exu é o mensageiro entre os orixás e os No candomblé, não existe uma figura Estigma
humanos. É o guardião dos caminhos, do mal absoluto como o diabo cristão.
O candomblé não pratica "magia
das encruzilhadas e da comunicação. O bem e o mal são vistos como forças
negra". Os rituais que envolvem
Sem Exu, nenhum ritual pode complementares presentes na
oferendas e trabalhos espirituais têm
acontecer — ele é sempre o primeiro a natureza e nos seres humanos. O
como objetivo buscar proteção, cura,
ser saudado. Sua função é de mediação equilíbrio entre essas forças é o
equilíbrio e resolução de problemas —
e proteção, não de maldade. objetivo — não a guerra entre elas.
não causar mal a outros. Práticas
voltadas ao mal existem em toda
sociedade humana, mas não são
características do candomblé como
religião.
As Nações do Candomblé
O candomblé não é uma religião uniforme. Ele se divide em diferentes nações — grupos que se distinguem pela origem africana de
suas tradições, pela língua utilizada nos rituais, pelos orixás cultuados e pela forma como os ritos são conduzidos. Cada nação carrega
uma identidade cultural própria.
Nação Ketu (Nagô) Nação Jeje
A nação mais difundida no Brasil. Tem origem nos povos Originária dos povos fons e ewes do Daomé (atual Benin).
iorubás da atual Nigéria e Benin. Os rituais são conduzidos em Cultuam as voduns — divindades com características
língua iorubá. Cultuam os orixás (Iemanjá, Xangô, Ogum, semelhantes aos orixás. O principal vodun é Mawu-Lisa. Possui
Oxum etc.). É a nação dos grandes terreiros históricos baianos. rituais próprios com cânticos em língua fon.
Nação Angola (Bantu) Nação Efon
Originária dos povos bantus de Angola e Congo. Cultuam os Uma nação menor, também de origem iorubá, com tradições
inkices (ou inquices), entidades equivalentes aos orixás. Os específicas e um panteão de orixás com características
rituais utilizam línguas bantus. Esta nação também cultua os próprias. Presente principalmente na Bahia, preserva rituais
caboclos, espíritos de índios brasileiros, revelando uma fusão com traços muito conservadores da tradição africana.
única com a cultura indígena.
O Candomblé e a Umbanda: Qual a Diferença?
Muitas pessoas confundem candomblé e umbanda — são religiões diferentes, embora ambas sejam afro-brasileiras e compartilhem
alguns elementos. Entender a distinção é importante para respeitar cada tradição em sua singularidade.
A umbanda surgiu no Brasil no início do século XX como uma síntese de elementos africanos, indígenas, espíritas e católicos. Já o
candomblé busca preservar com mais rigor as tradições africanas originais. Ambas merecem respeito e reconhecimento como
expressões legítimas da espiritualidade brasileira.
Legado do Candomblé para a Cultura Brasileira
O candomblé não é uma religião fechada em si mesma. Ao longo dos séculos, ele deixou marcas profundas e indeléveis em
praticamente todos os aspectos da cultura brasileira. Sem o candomblé — e sem a resistência dos africanos que o preservaram — o
Brasil seria um país completamente diferente.
Música e Ritmo Gastronomia
O samba, o afoxé, o ijexá e inúmeros outros ritmos brasileiros têm Pratos como acarajé, vatapá, moqueca, caruru e xinxim de galinha
raízes diretas nos atabaques e cânticos do candomblé. Artistas são originários da culinária sagrada do candomblé — alimentos
como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Daniela Mercury reconhecem oferecidos aos orixás que se tornaram símbolos da identidade
abertamente essa influência em suas obras. baiana e brasileira.
Carnaval e Festas Populares Literatura e Artes
Os blocos afro como o Ilê Aiyê e o Olodum, fundados em Salvador, Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros, ambientou
têm raízes profundas no candomblé e são expressões do orgulho e muitos de seus romances no universo do candomblé. Pierre
resistência negra. O próprio carnaval brasileiro tem forte influência Fatumbi Verger foi um fotógrafo e pesquisador que dedicou sua
da estética e dos ritmos afro-religiosos. vida a documentar os orixás entre o Brasil e a África. O candomblé
fertilizou a imaginação criativa do Brasil.
O Preconceito Sofrido: Uma História de Perseguição
Apesar de toda a sua riqueza cultural e espiritual, o candomblé foi — e ainda é — alvo de perseguição sistemática. Essa história precisa
ser conhecida para que não se repita.
Século XVI–XIX Século XX
Durante a escravidão, os rituais africanos eram Mesmo com a liberdade religiosa na
proibidos pelos senhores e pela Igreja. Praticar o Constituição, terreiros continuavam sendo
candomblé podia resultar em punição física e invadidos pela polícia até a década de 1970 na
até morte. A religião sobreviveu na Bahia. Os pais e mães de santo precisavam de
clandestinidade. autorização policial para realizar seus rituais até
1976.
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Final do Século XIX Século XXI
Após a abolição (1888), o candomblé foi O racismo religioso persiste. Terreiros são
criminalizado pelo Código Penal da República atacados, destruídos e incendiados. Crianças
(1890), que proibia "práticas de espiritismo, sofrem bullying nas escolas por pertencerem ao
magia e seus sortilégios". Terreiros eram candomblé. Relatórios do governo registram
invadidos, objetos destruídos e líderes presos. centenas de casos de intolerância religiosa por
ano no Brasil.
Por Que o Candomblé É Tão Estigmatizado?
O estigma que recai sobre o candomblé não surgiu do nada — ele foi construído historicamente por meio de mecanismos muito
concretos de poder e dominação. Entender suas causas é o primeiro passo para combatê-los.
1 Racismo Estrutural 2 Desinformação e Falta de Conhecimento
O candomblé é uma religião negra, criada por africanos A maioria das pessoas que tem preconceito contra o
escravizados. Em uma sociedade profundamente racista candomblé nunca leu um livro sobre o assunto, nunca
como a brasileira, a cultura e a espiritualidade negra foram conversou com um praticante e nunca visitou um terreiro. O
sistematicamente desvalorizadas, ridicularizadas e medo do desconhecido alimenta estereótipos. Informação
criminalizadas. Depreciar o candomblé é uma forma de de qualidade é o principal antídoto para o preconceito.
racismo — mesmo que quem o faça não perceba.
3 Influência Religiosa e Demonização 4 Representação Negativa na Mídia
Algumas correntes religiosas — principalmente Por décadas, filmes, novelas e reportagens apresentaram o
neopentecostais — associam ativamente o candomblé ao candomblé de forma sensacionalista, associando-o ao
demônio e à bruxaria. Essa demonização aumentou muito medo, ao mistério negativo e ao exotismo. Essa
nas últimas décadas com a explosão de igrejas evangélicas representação distorcida moldou a visão de milhões de
no Brasil, gerando conflitos religiosos e ataques a terreiros. brasileiros que nunca tiveram contato real com a religião.
Liberdade Religiosa: Um Direito de Todos
"Toda pessoa tem direito à liberdade
de pensamento, consciência e
religião."
— Declaração Universal dos Direitos Humanos, Artigo 18
A Constituição Federal Brasileira de 1988 garante a liberdade religiosa como direito fundamental. Atacar um terreiro, ridicularizar uma
religião ou discriminar alguém por sua fé não é apenas errado — é crime. No Brasil, a intolerância religiosa é punida pela Lei 9.459/1997.
O Que Você Pode Fazer O Que a Escola Pode Fazer Respeitar É Diferente de
Questionar os preconceitos que você Incluir a história e a cultura afro-brasileira Concordar
mesmo carrega. Pesquisar fontes de forma respeitosa e aprofundada —
Você não precisa acreditar no
confiáveis antes de repetir estereótipos. como já determina a Lei 10.639/2003,
candomblé para respeitá-lo. Respeito
Defender colegas que são discriminados que torna obrigatório o ensino de
significa reconhecer o direito do outro de
por sua religião. Visitar um terreiro história e cultura africana e afro-brasileira
ter sua própria fé sem ser discriminado,
aberto ao público com respeito e nas escolas. Combater o bullying
agredido ou humilhado. Isso vale para
curiosidade. religioso com firmeza e empatia.
toda e qualquer religião.
Candomblé: Resistência, Beleza e Pertencimento
O candomblé chegou ao Brasil acorrentado, proibido e perseguido. Sobreviveu à escravidão, à criminalização e ao preconceito. Hoje, é
um dos maiores patrimônios culturais e espirituais do Brasil — e do mundo. Seus rituais, seus orixás, sua música, sua culinária e sua visão
de mundo enriqueceram profundamente o que chamamos de "ser brasileiro".
🌍 Uma Religião de Raízes 💛 Um Legado Para o Brasil ✊ Um Ato de Resistência
Africanas Da música à gastronomia, da literatura Cada terreiro que permanece de pé,
à arte, o candomblé moldou a cada ritual que acontece, cada filho de
Preservou por séculos a memória, a
identidade cultural brasileira de forma santo que se inicia é uma declaração de
língua e a espiritualidade de povos
profunda e irreversível. que a cultura africana vive — e que a
africanos que foram violentamente
história de resistência continua.
arrancados de sua terra.
"Não existe Brasil sem África. Não existe cultura brasileira sem o legado das religiões de matriz africana."