Aula 1 A
Extensão Rural no Brasil e em Minas Gerais
Objetivos:
Conhecer o histórico da Extensão Rural no País e em Minas Gerais
Entender como foi e como está a Extensão Rural hoje.
I . Vamos conhecer um pouco desta história ?
A Extensão Rural no Brasil se inicia no Estado de Minas Gerais com a
assinatura de um convênio entre o governo do Estado, Dr. Jucelino Kubitschek de
Oliveira e a AIA – Associação Internacional Americana para o Desenvolvimento
Econômico e Social , na data de 6 de Dezembro de 1948 .
O objetivo deste era desenvolver um programa de crédito supervisionado para
atender os pequenos e médios agricultores mineiros, introduzindo no Brasil e na
América do Sul uma inovação : a Assitência técnica vinculada ao crédito rural e ,
simultaneamente, assistência ao lar.
Para tanto, o trabalho era desenvolvido por um técnico da área de agricultura
e uma técnica da área de economia doméstica.
Para execução do programa criava-se uma organização: Associação de Crédito
e Assistência Rural – ACAR , com a finalidade de realizar o árduo trabalho de
aumentar a renda e melhorar as condições de vida da população rural.
Muitos obstáculos foram enfrentados e superados pela ACAR: as grandes
distâncias percorridas, as precariedades das estradas, a dificuldade de encontrar
elementos com qualidades profissionais e idealismo, dentre outros.
Mesmo assim, em 1949, a ACAR iniciava o seu trabalho nos Municípios de
Pedro Leopoldo, Santa Luzia, Ubá e Curvelo.
II . E o que foi o Crédito Rural Supervisionado ?
O agricultor mineiro teria então o auxílio de alguém que o orientasse na
decisão do que plantar , onde e como plantar e , se necessário, o financiamento para a
execução do planejado.
A cargo do técnico ficaria o planejamento agrícola , onde constariam todos
os procedimentos e melhoramentos necessários, bem como orientações técnicas. Ao
mesmo tempo, era traçado o plano para a Caixa Econômica Estadual e Banco do
Brasil, bem como o plano do lar
, visando o bem-estar da família.
Aprovado o planejamento, iniciava-se o trabalho com visitas regulares ao
agricultor, prestando-lhe a assitência técnica indispensável. Enquanto isso a técnica de
bem-estar social trabalhava com a família do agricultor, através de grupos e clubes
femininos organizados, onde ensinava higiene, nutrição, costura, trabalhos manuais e
atividades afins.
III – Os Jovens e os Clubes 4 – S :
A participação dos jovens em ações para o desenvolvimento do meio rural foi
incentivada com a formação dos clubes 4 –S . Em 15 de julho de 1952 , foi fundado o
primeiro Clube 4-S , na comunidade rural da Igrejinha , município de Rio Pomba,
objetivando criar nos jovens o espírito comunitário e ao mesmo tempo iniciando-os
nos princípios básicos de uma agricultura moderna e em aspectos sociais e de
economia doméstica.
IV – O Pioneirismo Mineiro
Os frutos do Trabalho da ACAR , em Minas Gerais , mostraram a importância
da Extensão Rural, sendo este exemplo seguido em outros estados. Já em 1954 , surgia
a associação Nordestina de crédito e Assistência Rural . A Ancar . Posteriormente,
outros estados implantaram seus serviços de extensão, o que motivou , em 1956 , a
criação de uma organização que coordenasse este trabalho – a ABCAR – Associação
Brasileira de Crédito e Assistência Rural, criando então o SIBER – Sistema Brasileiro
de Extensão Rural.
V- De ACAR para EMATER-MG :
Em 29 de junho de 1976, criava-se a EMATER-MG – Empresa de Assistência
Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais , que veio dar continuidade aos
trabalhos desenvolvidos pela ACAR. A EMATER-MG vinculou-se diretamente à
Secretaria Estadual de Agricultura e juntamente com mais outras 22 filiadas de outros
estados compôs o sistema brasileiro de ATER coordenado pela EMBRATER –
Empresa Brasileira de Assistência técnica e Extensão Rural.
VI – Objetivos da EMATER , na Época :
Interiorização de Políticas agrícolas;
Apoio a programas de educação, saúde e alimentação;
Promoção da organização da população rural;
Colaboração na eliminação de barreiras que limitavam o processo de
desenvolvimento rural;
Trabalho em estreita integração com instituições que se relacionavam com o
desenvolvimento rural.
VII – Objetivo da Extensão Rural Hoje :
Promover o desenvolvimento rural sustentável, de forma participativa, centrado
na expansão e fortalecimento da agricultura familiar por meio de processos educativos
que assegurem a construção do pleno exercício da cidadania e a melhoria da qualidade
de vida da sociedade.
VIII – Paralelo entre a Extensão Rural de Ontem e a dos Dias Atuais :
CARACTERÍSTICAS ONTEM ATUALMENTE
Execução das políticas
Ação Extensionista O extensionista é o dono do públicas para a agricultura
saber familiar
As tecnologias são
Difusão de tecnologia O extensionista detém adaptadas à realidade do
conhecimento soberano, agricultor e de sua
impõem a tecnologia comunidade
Assistência. técnica Individualizada pelo Grupal , coletiva – para a
crédito rural comunidade
Crédito Rural Pacotes tecnológicos são Prioridade para projetos
financiados para a grupais comunitários e para
produção. associações.
Foco da extensão Difundir técnicas e Aplicar os princípios da
produtos através do Agroecologia para o
crédito rural Desenvolvimento Rural
Sustentável
IX – Questões para reflexão :
1- O que você entendeu por Extensão Rural ?
2-Qual é o perfil profissional para se trabalhar como
extensionista rural hoje?
3- Faça um paralelo entre a missão do extensionista do tempo da ACAR e a do
extensionista de hoje?
4- Pesquise sobre o Tema : Agroecologia e Desenvolvimento
Sustentável.
IX – Sugestão de Leitura:
1. Site do Ministério da Agricultura – secretaria de agricultura familiar e cooperativismo -
[Link]
2. Site da EMATER-MG – [Link]
3. Textos científicos pesquisados na internet sobre a “RevoluçãoVerde” e
desenvolvimento rural sustentável.
4. Livro MEXPAR. Metodologia participativa de extensão rural. Emater-MG. Acesso
pela internet.
AULA 1B
Conceito de Extensão Rural e sua Importância para o Desenvolvimento
Sustentável da Agricultura
Objetivos:
Entender o conceito de Extensão Rural e a sua aplicação para o desenvolvimento
Sustentável da agricultura
Conhecer a função social da Extensão Rural Atual
I – Vamos entender o que é esta tal Extensão Rural?
O termo extensão, levado ao pé da letra, se refere a estender, levar, passar uma
mensagem, código ou conhecimento. O emissor ( técnico) passa através da comunicação
ou demonstração prática uma mensagem para o receptor ( agricultor). A discussão mais
importante que temos sobre isso está na maneira de como o agente irá chegar e passar esta
mensagem, ou seja, como será este diálogo entre quem emite e recebe a mensagem .
Um dos Educadores de maior renome do Brasil - Paulo Freire, escreveu um livro
sobre este assunto, intitulado: “Extensão ou Comunicação?”, onde mostra a preocupação
de se fazer extensão rural, apenas como um meio de se repassar técnicas ao agricultor,
passando por cima de seu conhecimento empírico, natural e espontâneo adquirido por
várias e sucessivas gerações familiares.
Segundo Paulo Freire, o sujeito, seja o técnico agrícola ou outro profissional do
meio rural deverá, primeiramente, se aproximar do agricultor e num diálogo humanizador
(onde os dois se colocam num mesmo nível – não há superioridade) , fazer a troca de
experiências. Aproveitar os conhecimentos vivenciados a anos , se apropriar , interagir e
buscar meios de adequação de sua linguagem para não “ferir”, “desintegrar” ou violentar a
cultura daquele indivíduo ou de uma comunidade rural.
II – O Extensionista não é o Dono do Saber ...
Um dos maiores problemas atuais quanto à atuação dos agentes extensionistas ainda
é a questão da forma como este indivíduo se interage com os agricultores, seus familiares e
a comunidade. A ação extensionista é um processo pedagógico, educativo. É preciso
entender que a educação do adulto rural é complexa e passa pelo conhecimento de ciências
como : antropologia , sociologia e comunicação social.
Não basta apenas o conhecimento técnico agronômico do agente extensionista. Se
não houver o diálogo humanizador, haverá falhas de comunicação, ou seja, o agricultor não
receberá a mensagem.
Trabalhar com o agricultor exige de nós,técnicos, muito cuidado , pois uma questão
tecnológica aparentemente clara e adaptável aos nossos olhos pode ser de difícil
entendimento ou fora da realidade deles. Na pedagogia do adulto rural tentaremos usar
exemplos concretos, físicos, coisas do seu dia-a-dia , partir de exemplos de acontecimentos
da sua vida , do trabalho diário . Nunca usaremos linguagens teóricas como aprendemos no
nosso curso de faculdade e sim mais prática e coerente com sua realidade .
No livro : Extensão ou Comunicação? de Paulo Freire, existe a discussão sobre estas
questões de entendimento da cultura e realidade do agricultor. São duas situações distintas,
mas que estão dentro de uma mesma esfera de análise sociológica rural: o “Mutismo” e a
“Magia”.
A explicação resumida e simplista destes termos utilizados por Paulo Freire é dentro
do contexto das situações de diálogo entre o técnico e o agricultor. O mutismo ( de mudo,
que não fala), seria o comportamento do agricultor frente à invasão cultural do té[Link]
não entende, muitas vezes a linguagem e o comportamento de superioridade nas relações de
trabalho na assistência técnica, por exemplo.
A magia é um certo misticismo por parte do agricultor por acreditar e viver num
contexto onde sua aprendizagem é natural, vivenciada pelas ações da natureza, nas
experiências de vida, adaptando seu manejo de acordo com suas condições econômicas e
culturais passadas de muitas gerações ancestrais e que muitas vezes os técnicos da
academia não entendem e até criticam negativamente.
A extensão rural é uma forma de educação e educação não se faz com imposição de
idéias do saber científico. Educação se faz quando um saber é construído, respeitando as
diferentes culturas e diversidades do ser humano. Só assim conseguiremos, através da
extensão rural, o desenvolvimento sustentável na agricultura, principalmente na chamada
Agricultura Familiar, categoria com uma função social importante que iremos discutir nas
próximas aulas.
O extensionista deve ser um indivíduo com grande capacidade de empreendimento,
visão , dinamismo, criativo mas sobretudo sociável , comunicativo e humano para poder
trabalhar com pessoas de diferentes níveis sócio-econômicos de uma comunidade , sem
distinguir ou relevar alguém. Deverá gostar de trabalhar com o povo e em prol das causas
sociais.
A maior demanda hoje, para trabalhar na extensão rural, é de pessoas que sejam
agentes animadores de grupos para a organização de um projeto de produção seja ela
artesanal ou agroindustrial sempre com objetivos sociais, geradores de ocupação e renda.
Por isso, os municípios tendem a se organizarem com suas secretarias de promoção social e
agricultura, trazendo verbas de projetos sociais de órgãos públicos e ou de entidades
beneficentes, onde, na maioria dos casos, quem será o grande beneficiário é a população
rural , geralmente mais pobre.
III – A Função da Extensão Rural
As comunidades rurais se desenvolvem a partir da mobilização e organização das
famílias de agricultores. Este trabalho de mobilização e organização pode ser facilitado
pelo serviço de extensão rural.
A extensão rural pública,presente em todos os estados brasileiros realizada pelas
empresas ou instituições públicas como a EMATER em Minas Gerais ou através de ONGs
(organizações não-governamentais) tem a função de agir na animação,facilitação e
intermediação das ações nas comunidades em projetos de desenvolvimento rural
sustentável.
Para este trabalho contamos com as técnicas de uma metodologia que não interfere na
autonomia das lideranças comunitária, não subestima a capacidade humana, pelo contrário
valoriza e contribui como um facilitador, catalisador, estimulando e animando todo
processo de trabalho comunitário.
De acordo com o documento elaborado pelo MDA(Ministério de Desenvolvimento
Agrário) e representantes da sociedade civil organizada, a Política Nacional de
Assistência Técnica e Extensão Rural ( PNATER), se entende que o extensionista atual
deverá atuar como um agente executor de políticas públicas governamentais que favorecem
a agricultura familiar.
IV – Atividades:
a) O que seria das comunidades rurais sem a extensão rural, nos dias de hoje?
b) No tempo de nossos avós, décadas de 40 a 50 , quando não havia nenhum profissional
técnico no meio rural , era tão necessário a extensão rural ?
c) Faça uma recapitulação mental, voltando ao tempo de nossos avós e/ou bisavós que
moravam “na roça”. Compare aquelas famílias com as nossas atuais. A força de trabalho
era quem? As famílias tinham muitos filhos – por que motivos? A produção prioritária era
para subsistência? E hoje?
d) Observe a letra da música Caboclo da Cidade, no tópico sugestão de leitura e descreva o
que ela tem a ver com a matéria estudada nesta aula.
III – Sugestão de Leitura:
1. Livro “Extensão ou Comunicação ?” de Paulo Freire . Disponível na internet.
2. Textos científicos sobre a “Revolução Verde” . Disponível no Google acadêmico ou sites
públicos de centros de pesquisa.
3. Refletir a letra da Música “Caboclo da Cidade”
Música : Caboclo da Cidade
Cifra de Dino Franco e Mouraí
Seu moço eu já fui roceiro no triângulo mineiro onde eu tinha meu ranchinho
Tinha uma vida boa com Isabel minha patroa e quatro barrigudinhos
Tinha dois bois carreiros , muito porco no chiqueiro e um cavalo bom arreado
Espingarda cartucheira , quatorze vaca leiteira e um arrozal no banhado
Na cidade eu só ia a cada quinze ou vinte dias pra vender queijo na feira,
No mais estava folgado todo dia era feriado, pescava a semana inteira
Muita gente assim me diz que não tem mesmo raiz essa tal felicidade,
Então aconteceu , nisso eu resolvi vender o sítio e vir morar na cidade.
Já faz mais de doze anos que eu aqui estou morando, como estou arrependido
Aqui tudo é diferente não me dou com esta gente , vivo muito aborrecido.
Não ganho nem pra comer já não sei o que fazer , estou ficando quase louco
È só luxo e vaidade, penso até que a cidade não é lugar de caboclo.
Minha filha Sebastiana , que sempre foi tão bacana , me dá pena da coitada
Namorou um cabeludo que dizia ter de tudo , mas fui ver não tinha nada
Se mandou para outras bandas ninguém sabe onde ela anda, deve estar abandonada...
Como dói meu coração vendo sua situação nem solteira , nem casada...
Até mesmo minha velha está mudando de idéia , tem que ver como passeia
Vai tomar banho de praia está usando minissaia e arrancando as sobrancelhas
Nem comigo se incomoda quer saber de andar na moda com as unhas todas vermelhas
Depois que ficou madura começou a usar pintura , credo em cruz que coisa feia ...
Voltar pra Minas Gerais sei que agora não dá mais , acabou o meu dinheiro
Que saudade da palhoça , eu sonho com minha roça no triângulo mineiro
Nem sei como se deu isso quando resolvi vender o sítio pra vir morar na cidade
Seu moço naquele dia eu vendi minha família e a minha felicidade !