0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações6 páginas

Nevel

O capítulo apresenta um banquete real onde o protagonista, um cavaleiro, se sente deslocado entre jovens aristocratas. O príncipe Ed, herdeiro sem magia, precisa de uma consorte poderosa para garantir a continuidade da coroa, enquanto a princesa do Reino Natural, uma figura temida e poderosa, aparece embriagada e vulnerável. O cavaleiro, ao tentar protegê-la de nobres predadores, se depara com a arrogância e a complexidade da realeza.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações6 páginas

Nevel

O capítulo apresenta um banquete real onde o protagonista, um cavaleiro, se sente deslocado entre jovens aristocratas. O príncipe Ed, herdeiro sem magia, precisa de uma consorte poderosa para garantir a continuidade da coroa, enquanto a princesa do Reino Natural, uma figura temida e poderosa, aparece embriagada e vulnerável. O cavaleiro, ao tentar protegê-la de nobres predadores, se depara com a arrogância e a complexidade da realeza.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

CAPÍTULO 1

O Banquete dos Arrogantes

O
lho para o salão imenso e a única coisa que vejo é uma parede intransponível de jovens
aristocratas. Todos impecavelmente bem-vestidos, ostentando joias que poderiam comprar
vilarejos inteiros e sorrisos tão falsos quanto suas promessas. Realmente, a opulência esconde muita
podridão.

Suspiro, girando o vinho na minha taça de cristal. Por que eu vim, afinal? Não conheço ninguém aqui, e
nenhum deles perderia tempo falando com um homem que passa mais tempo limpando o sangue de monstros
da armadura do que polindo sapatos de dança. Falta-me a elegância performática necessária para transitar por
um lugar como este. Para ser sincero, a soberba que exala dessas conversas sussurradas me embrulha o
estômago.

Minha presença aqui é puramente um favor real. O rei me convidou pessoalmente para a festa de seu
único filho, o príncipe Ed, que está prestes a atingir a maioridade. Pelas leis e tradições, ele já deveria estar
noivo. No entanto, o destino foi cruel com o rapaz: Ed nasceu sem uma gota de magia relevante. Em um
mundo onde a densidade do poder mágico dita o valor de uma alma, conseguir uma pretendente de alto nível
para ele tornou-se uma piada de mau gosto nos bastidores da corte.

Felizmente, o rei é um homem profundamente respeitado e cheio de prestígio militar. Muitas famílias
nobres venderiam a própria alma para cravar uma aliança com a coroa, e é por isso que este salão está lotado
de abutres disfarçados de pavões. Todos sabem o segredo que ecoa nos corredores: o garoto dificilmente
herdará o trono da forma tradicional.

Pela primeira vez em séculos, o sangue da linhagem real enfraqueceu. Ed é o herdeiro mais fraco de
toda a história do reino. Para salvar a coroa da ruína política, eles necessitam desesperadamente de uma
herança genética avassaladora — sangue novo que garanta que a próxima geração nasça com magias
devastadoras. E neste mundo, a força bruta da magia é o único argumento que importa. O gênero de quem
governa? Irrelevante.

Por isso, o rei foi forçado a tomar a decisão que passou a vida evitando: a mulher escolhida para se
casar com Ed não será apenas uma consorte decorativa. Ela governará. Será a próxima Rainha Soberana,
assumindo o comando militar e político absoluto. Embora isso já tenha acontecido em impérios vizinhos,
neste reino a tradição de reis homens sempre foi uma moralha intocável. O monarca resistiu até onde pôde,
mas esta é a única salvação para o futuro do nosso povo. Um reino precisa que seu governante seja a espada
mais afiada e o escudo mais denso.

O Banquete dos Arrogantes — Capítulo 1 1


Assim que o decreto real foi espalhado, as fronteiras colapsaram com tantas carruagens. Todas as jovens
nobres e poderosas do continente garantiram seus lugares. O rei também foi astuto em convidar filhos de
comerciantes influentes para tecer novas alianças financeiras, mas meu caso é diferente.

Eu sou apenas um cavaleiro. Como ganhei a confiança do rei nos campos de batalha anos atrás, ele
insistiu que eu usasse o banquete para aproveitar minha folga, beber e relaxar. Antes de eu entrar, ele ainda
me deu um tapinha pesado no ombro e aconselhou, com um sorriso cúmplice: "Aproveite a noite, rapaz.
Quem sabe você não encontra uma bela dama que goste de cicatrizes?"

Olho novamente para o salão. O teto alto e os detalhes em ouro refletem o mundo intocável em que
essas pessoas vivem. É uma realidade que pertence a outra esfera, algo que um homem de espada simples
como eu jamais desejará alcançar. Definitivamente, este lugar não é o meu lugar.

Enquanto os nobres bebem, riem e conspiram, um silêncio repentino e violento engole o ambiente.

A música para abruptamente, deixando apenas o eco das harpas morrer no ar. A temperatura na sala
parece despencar vários graus em um piscar de olhos, congelando a respiração dos presentes.

Toda a atenção do salão é magneticamente arrastada para as grandes portas duplas.

Quando olho na mesma direção, compreendo instantaneamente o motivo do choque coletivo.

É ela. A princesa do Reino Natural.

Eu não costumo acompanhar as fofocas venenosas da corte, mas os boatos sobre ela correm rápidos
como pólvora acesa: dizem que é uma mulher impiedosa, fria como o gelo do norte e dotada de uma
arrogância implacável que beira a crueldade. Relatos sussurrados afirmam que ela sente um prazer quase
sádico em humilhar plebeus, pisando sem hesitar em qualquer um que ouse não abaixar a cabeça diante de
sua presença. No entanto, neste mundo hipócrita, sua beleza surreal parece anestesiar o julgamento das
pessoas. Para a nobreza, sua tirania não passa de um capricho perdoável, um privilégio concedido a uma
criatura divina.

Mas o perigo real não reside apenas nos traços perfeitos de seu rosto, e sim no poder avassalador que
ela carrega nas veias. A princesa domina duas das dez magias mais raras e destrutivas do mundo. Manifestar
apenas uma dessas forças já a colocaria no topo da cadeia alimentar do continente; dominar duas é uma
aberração de poder. Além disso, sua inteligência é incontestável. Ela fala diversas línguas arcanas e domina a
arte proibida de criar poções e feitiços complexos — um conhecimento sombrio que, segundo as más
línguas, ela adquiriu pagando fortunas obscenas para que bruxas banidas fossem secretamente ao seu palácio
pessoal.

O salão agora exala uma tensão palpável. Até mesmo os nobres mais poderosos tremem diante de sua
influência política. Para desposar uma mulher assim, o pretendente precisaria ser uma lenda viva.

O Banquete dos Arrogantes — Capítulo 1 2


E é aí que a conta simplesmente não fecha. Os boatos dizem que ela despreza a própria ideia de
casamento. Odeia a possibilidade de ser comandada ou possuída por um homem, ciente de que é superior a
todos eles. Como seu pai nunca ousou pressioná-la por um herdeiro, a pergunta que ecoa no silêncio do salão
é óbvia: o que diabos ela está fazendo aqui? O príncipe Ed não passa de um fracassado impotente perto dela,
e a coroa deste reino é quase humilde se comparada às riquezas da terra natal da princesa.

Balanço a cabeça, afastando esses pensamentos. Nada disso me interessa. A futilidade e as intrigas
políticas daquele lugar estão me sufocando. Preciso urgentemente de um maço de tabaco e de um pouco de
ar puro.

◆ ◆ ◆

Deixo o salão principal e caminho pelos corredores externos de pedra fria. O vento da noite ajuda a limpar a
névoa de futilidade da minha mente. No meio do caminho, dou de cara com Logan, um dos meus colegas da
guarda. Ele está de prontidão em seu posto, a armadura impecável, mas a postura tensa entrega seu
nervosismo. Assim que me vê, seus olhos brilham com um alívio quase cômico.

Ele se aproxima rapidamente, pedindo um favor com urgência. Pelo desespero em seu rosto, por um
segundo imagino que se trata de uma brecha na segurança ou alguma ameaça real ao banquete.

Para o meu absoluto desgosto, a "urgência" dele é puramente carnal. Logan se inclina e sussurra, com
um sorriso sacana, que marcou um encontro secreto com uma das criadas pessoais da alta nobreza nos
aposentos vazios dos fundos. Ele implora para que eu cubra o posto dele por alguns minutos para que possa
dar sua escapada. Agarrando meu ombro como se sua vida dependesse daquilo, ele promete pagar as
melhores garrafas na taverna na nossa próxima folga.

Olho para ele, incrédulo, mas solto um suspiro derrotado.

— Vá logo antes que o capitão passe por aqui, seu imbecil — digo, empurrando-o levemente. — Mas
você vai me dever o estoque inteiro daquela taverna.

Ele agradece quase chorando de alívio e desaparece na escuridão dos corredores secundários.

Ajusto as tiras da minha couraça e assumo a posição de guarda na ala mais isolada, que dá acesso direto
aos jardins internos. Ficar parado ali só me faz refletir sobre o quanto este castelo se transforma em uma
corte de libertinagem sob a fachada de um banquete real. Eu conheço os podres deste lugar. Afinal, como
guarda, você acaba vendo tudo.

Ainda esta semana, flagrei o mordomo-chefe prensando a cozinheira contra a parede de pedra da
despensa, as mãos por baixo das saias dela em um momento nada profissional. E os escândalos sobem até o
topo: todos na guarda sabem que a própria rainha costuma se retirar para os salões reservados com seus
jovens amantes. Ela inclusive já me lançou um olhar sugestivo e predatório durante uma ronda noturna que

O Banquete dos Arrogantes — Capítulo 1 3


me fez dar as costas imediatamente. Credo. Esta festa está mais para uma orgia aristocrática mascarada de
diplomacia do que um evento de Estado.

Cerca de dez minutos se passam no silêncio da noite, que engole o som abafado e distante da música do
salão. No entanto, a quietude dura pouco.

Passos pesados, arrastados e completamente irregulares ecoam na pedra fria. Alguém está vindo em
direção aos jardins isolados. Imediatamente entro em posição de alerta, minha mão direita repousando
casualmente sobre o punho da minha espada de serviço.

Mas a figura que cruza o arco de pedra me faz congelar por completo.

É ela. A princesa arrogante e intocável.

Ela está completamente sozinha, tendo de alguma forma despistado sua guarda pessoal de elite e a
horda de pretendentes babões que a cercavam. O vestido luxuoso, antes perfeitamente alinhado, está
ligeiramente desalinhado no decote. Em uma das mãos, ela segura uma garrafa de vinho caro diretamente
pelo gargalo, sem qualquer cerimônia.

Seus movimentos são lentos, pesados. Suas bochechas estão coradas de um jeito febril, quase lascivo, e
os olhos azuis, antes tão gélidos, calmos e calculistas, agora parecem nublados, pesados e perdidos pelo
efeito do álcool. A soberana implacável e temida está visivelmente ébria, cambaleando sob o peso da bebida.

Eu, que aceit cobrir o posto do meu amigo apenas para passar o tempo, agora me vejo como a única
testemunha na escuridão, observando a mulher mais perigosa e desejada do continente em seu momento de
maior e mais perigosa vulnerabilidade.

◆ ◆ ◆

Ela caminha até a balaustrada de mármore da varanda, cambaleando levemente no trajeto. Olho de soslaio
para baixo. Nos pátios mal iluminados do palácio, percebo vultos emergindo das sombras: vários homens da
alta nobreza. Eles não conversam, não se movem; apenas observam a varanda de baixo com olhares
predatórios e fixos, como lobos esperando o momento de cercar uma presa isolada. É uma situação
perigosíssima. Uma mulher daquela posição política, visivelmente embriagada e vulnerável, é o alvo perfeito
para esquemas de chantagem, casamentos forçados ou pior. Aqueles aristocratas não hesitariam em
aproveitar a menor das fraquezas.

Praguejo mentalmente. Eu realmente não queria me meter em problemas dinásticos hoje, mas o meu
dever e o meu maldito senso de cavaleiro falam mais alto.

Dou passos firmes em direção à varanda externa. Conforme me aproximo, a luz prateada do luar atinge
o corpo dela, e sinto minha garganta secar instantaneamente. Minha nossa... Meus olhos lutam para encontrar

O Banquete dos Arrogantes — Capítulo 1 4


um lugar neutro onde focar. A pele dela é tão branca e impecável que parece irreal, esculpida em marfim pelo
melhor dos artesãos. O decote desalinhado revela muito mais do que a etiqueta da corte permitiria. Sinto um
nó imediato no estômago e uma pontada aguda de culpa; é uma tremenda falta de caráter e de
profissionalismo cobiçar uma mulher que claramente não está em seu juízo perfeito.

Forço-me a manter a postura militar ereta, pigarreio e mantenho uma distância respeitável para não
assustá-la.

— Vossa Alteza... Peço desculpas por incomodá-la, mas a situação aqui fora não é tão segura...

— Cala a boca.

A voz dela sai cortante e afiada como uma lâmina de gelo, antes mesmo que ela se dê ao trabalho de
virar o rosto para me olhar.

— Mas, senhora, eu só estou tentando avisar que...

— Caralho, cala a boca! — ela esbraveja, virando-se abruptamente.

Seus olhos azuis, antes uma calmaria assustadora, agora estão ligeiramente injetados e nublados pelo
álcool, mas ainda exalam uma soberba e uma fúria arrogantes.

— Escutar a sua voz irrita os meus ouvidos. Quem deu permissão para um plebeu insignificante como
você dirigir a palavra a mim?

No calor de sua própria indignação bêbada, ela tenta dar um passo agressivo e intimidador na minha
direção. No entanto, o equilíbrio de seu salto alto falha drasticamente. O corpo dela pende perigosamente
para o lado esquerdo, prestes a despencar direto contra o chão de pedra implacável.

Em um reflexo puramente moldado por anos de treinamento de combate, eu avanço. Minhas mãos agem
antes mesmo de eu formular um pensamento racional: envolvo a cintura fina dela com firmeza, puxando seu
corpo contra a rigidez da minha farda para amortecer totalmente o impacto. Por uma fração de segundo, o
tempo parece desacelerar. Sinto o calor intenso de sua pele, o perfume embriagador de flores raras e o cheiro
doce do vinho de safra real.

— Me solta, plebeu nojento! — ela rosna imediatamente, cravando as unhas polidas com força no
tecido resistente da minha farda militar enquanto tenta se debater.

— Quem te deu o direito de tocar em mim?

Afasto-me no mesmo instante em que ela recupera o equilíbrio, erguendo as mãos abertas na altura do
peito em sinal inequívoco de trégua. Que deusa terrível, penso comigo mesmo. Com uma personalidade
azeda e podre dessas, não importa se ela tem o rosto mais perfeito do continente. Quem diabos em sã
consciência conseguiria suportar essa mulher no dia a dia?

O Banquete dos Arrogantes — Capítulo 1 5


— Tudo bem, peço desculpas — respondo, mantendo o tom de voz calmo e profissional, embora minha
paciência com a realeza esteja por um fio.

— Eu só estava tentando alertar Vossa Alteza de que há homens no pátio inferior observando-a desde o
momento em que subiu. Nenhum deles parece ter boas intenções, e a senhora está aqui em cima,
completamente ébria e com o decote desalinhado. Como cavaleiro, sugiro veementemente que retorne aos
seus aposentos privados. É mais seguro.

A princesa pisca os olhos pesados algumas vezes, claramente processando as minhas palavras através da
névoa espessa do vinho. Ela desvia o olhar desconfiado para o pátio escuro lá embaixo, nota os vultos dos
nobres que rapidamente desviam as cabeças ao perceberem o flagrante, e parece finalmente compreender a
gravidade do meu aviso. Sua postura arrogante não quebra, mas ela engole o orgulho ferido por um instante.

Sem me dar uma palavra de resposta ou um mísero agradecimento, ela passa por mim a passos rápidos,
porém incertos, apoiando a mão espalmada contra as paredes de pedra fria do corredor para manter a postura
e não cambalear.

Por pura obrigação de segurança inerente ao meu fardamento e posto, sigo-a de perto, mantendo uma
distância protocolar de três passos.

Caminhamos em um silêncio tenso pelos corredores agora desertos da ala leste, até que ela para
bruscamente diante de uma imensa porta de madeira maciça, esculpida com os brasões rúnicos do Reino
Natural. É o quarto de hóspedes reais dela. Ela empurra a porta pesada e entra sem olhar para trás.

Solto um suspiro longo de alívio. Quando seguro o puxador de bronze do lado de fora para fechar a
porta e dar as costas, pensando que finalmente havia me livrado de um desastre diplomático iminente, a voz
dela corta a escuridão do quarto.

Ela estala os dedos de forma imperiosa e me chama, ordenando como se falasse com um de seus cães de
caça.

— Ei. Volte aqui. Eu ainda não te dei permissão para se retirar.

Travo no lugar, a mão congelada no bronze frio da fechadura. Olho lentamente para o interior do quarto
luxuoso, fracamente iluminado por algumas velas aromáticas. Ela está parada perto da cama dossel de dossel
alto, encarando-me fixamente com aqueles olhos azuis nublados e desafiadores.

O que diabos essa mulher quer de mim agora?

O Banquete dos Arrogantes — Capítulo 1 6

Você também pode gostar