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A B
11 de agosto de 2026
O C AMINHO DA M ENOR A ÇÃO
Cálculo Variacional e Introdução à Mecânica Lagrangiana
A natureza não faz nada em vão; e, quando algo pode ser feito com menos, é feito em vão
se for feito com mais.
— Isaac Newton, Principia, Livro III
Há uma suspeita antiga, quase religiosa, escondida no coração da física: a de que o universo
é avaro. Não no sentido mesquinho da palavra, mas no sentido de um artesão que não
desperdiça um só grama de material, um só instante de tempo, um só gesto de energia. Uma
bola de bilhar encontra, entre os infinitos caminhos possíveis até a tabela, exatamente um. Um
raio de luz, atravessando da água para o ar, não hesita: já sabe, antes de partir, qual trajetória
lhe custará o mínimo de tempo. Há, em cada fenômeno natural, algo que se parece com uma
escolha — e o espantoso é que essa escolha pode ser escrita em linguagem matemática precisa.
Esta apostila nasce do desejo de contar essa história com o rigor que ela merece e com o
encantamento que ela provoca. Não é uma obra de referência exaustiva — para isso já existem
tratados centenários, sólidos como catedrais, escritos por Lagrange, Euler, Hamilton e por
tantos que vieram depois. É, antes, um primeiro mapa: um convite para quem nunca visitou
esse território a caminhar por ele com segurança, sem se perder, mas também sem pressa.
Começaremos devagar. O Cálculo Variacional — a arte de extremizar não uma função,
mas um funcional, isto é, uma grandeza que depende de uma curva inteira — será construído
dos seus alicerces: o que significa variar uma curva, o que é a equação de Euler–Lagrange, e
por que ela aparece, com insistência quase suspeita, em toda parte onde exista um problema
de mínimo ou máximo. Visitaremos os problemas clássicos que deram origem à disciplina:
a braquistócrona, a catenária, o princípio de Fermat. Depois, e só depois de o terreno estar
firme, atravessaremos a ponte que liga essa matemática à física: o Princípio de Hamilton, que
afirma — com uma economia de palavras à altura do seu conteúdo — que a trajetória real
de um sistema físico é aquela que torna estacionária uma quantidade chamada ação. Dessa
afirmação nascem as equações de Lagrange, e com elas uma nova mecânica: mais elegante,
mais geométrica e, em muitos casos, mais poderosa que a mecânica newtoniana da qual você
provavelmente já ouviu falar.
Um aviso sincero: este texto é introdutório, mas não é superficial. Cada definição será enun-
ciada com precisão; cada teorema, demonstrado ou, quando a demonstração completa
exigir ferramentas que ainda não construímos, ao menos esboçado com honestidade. O
vigor matemático cresce ao longo dos capítulos — começamos caminhando por avenidas
largas e bem iluminadas, e terminamos já nas primeiras trilhas mais estreitas, prontas
para quem quiser continuar a subida em direção à Mecânica Hamiltoniana, à Teoria de
Noether completa e além. Esta apostila é o primeiro acampamento, não o cume.
Para aproveitar bem este texto, é recomendável ter em mãos os instrumentos usuais do
cálculo de uma e várias variáveis: derivadas, integrais, regra da cadeia, e uma familiaridade
i
A O LEITOR P RELÚDIO
básica com equações diferenciais ordinárias. Nada além disso será pressuposto sem explicação.
Que esta leitura seja, ela mesma, um caminho de menor esforço e máximo entendimento —
o que, como veremos, não é apenas uma metáfora simpática, mas quase uma lei da natureza.
— O autor
ii
Sumário
Ao leitor i
1 Antes do Cálculo 1
1.1 A geometria da luz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.2 O desafio dos irmãos Bernoulli . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
1.3 De Euler a Lagrange . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
1.4 Da matemática à física . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
2 Funcionais 5
2.1 De funções a funcionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
2.2 O espaço das curvas admissíveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
2.3 A variação de uma curva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
2.4 O que significa extremizar um funcional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
3 A Equação de Euler–Lagrange 9
3.1 A primeira variação de um funcional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
3.2 O Lema Fundamental do Cálculo Variacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
3.3 A equação de Euler–Lagrange . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
3.4 Dois casos particulares importantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
3.5 A geodésica do plano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
6 O Princípio de Hamilton 25
6.1 Coordenadas generalizadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
6.2 Ação e Princípio de Hamilton . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
6.3 As equações de Lagrange do movimento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
6.4 Por que L = T − V? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
iii
A O LEITOR P RELÚDIO
8 Simetria e Conservação 35
8.1 A energia como integral primeira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
8.2 Simetrias e conservações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
B Problemas Complementares 43
Cálculo variacional — fundamentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
A galeria de curvas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
Generalizações e vínculos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
Mecânica lagrangiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
Simetrias e conservação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
C Sugestões de Leitura 47
Para consolidar o que foi visto aqui . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
Para aprofundar o formalismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
Para o Cálculo Variacional em si, com mais rigor matemático . . . . . . . . . . . . . . 48
Para seguir rumo à mecânica hamiltoniana e além . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
Glossário de Símbolos 51
iv
C APÍTULO 1
Muito antes de existir uma equação de Euler–Lagrange, muito antes de qualquer símbolo δ
riscar um caderno, já havia quem suspeitasse que a natureza escolhe. Este capítulo é sobre essa
suspeita: de onde ela veio, como foi amadurecendo, e por que, no fim, ela se transformou em
uma das ideias mais fecundas de toda a física matemática. Não há aqui uma única equação
essencial — há apenas a preparação do terreno, o levantamento do pano antes do espetáculo.
Note a estrutura lógica dessa afirmação, porque ela vai se repetir, com pequenas variações,
em toda esta apostila: existe uma classe de caminhos admissíveis (aqui, os que tocam o
espelho) e existe uma grandeza a ser extremizada (aqui, o comprimento total). A física
escolhe, dentro da classe admissível, o extremo dessa grandeza. Troque “comprimento”
por “tempo” e “espelho” por “interface entre dois meios”, e Heron se transforma em
Fermat. Troque “caminho no espaço” por “trajetória no espaço-tempo” e Fermat se
transforma em Hamilton. É sempre a mesma melodia, tocada em tons diferentes.
Mil e seiscentos anos depois, em 1662, Pierre de Fermat generalizou radicalmente essa
ideia. Ele propôs que, ao atravessar de um meio para outro — do ar para a água, por exemplo
— a luz percorre o caminho que minimiza o tempo total de viagem, não a distância. Como a
luz viaja mais lentamente na água do que no ar, o caminho de tempo mínimo não é uma reta:
é uma linha quebrada, que se curva na interface, exatamente como a experiência mostra ao
observarmos um lápis parcialmente submerso em um copo de água. Esse é o célebre Princípio
de Fermat, e no Capítulo 4 vamos deduzir dele, com todo o rigor do cálculo variacional, a
lei de Snell da refração — algo que Fermat só conseguiu justificar de modo parcial, com as
ferramentas de sua época.
1
A NTES DO C ÁLCULO O DESAFIO DOS IRMÃOS B ERNOULLI
Entre dois pontos A e B, não alinhados verticalmente, encontre a forma da curva ao longo
da qual uma partícula, deslizando sem atrito e partindo do repouso, sujeita apenas à
gravidade, vai de A a B no menor tempo possível.
A resposta intuitiva — a linha reta, o caminho mais curto — está errada, e isso já é revelador.
Uma partícula que cai primeiro mais abruptamente ganha velocidade rapidamente, e mesmo
que percorra uma distância maior ao final, pode chegar antes. A curva vencedora, como
veremos com todo o desenvolvimento matemático no Capítulo 4, é um arco de ciclóide — a
mesma curva descrita por um ponto na borda de uma roda que rola sem deslizar.
O problema foi resolvido, de formas distintas, por Johann Bernoulli, por seu irmão Jakob
Bernoulli, por Gottfried Leibniz, por Guillaume de l’Hôpital e, anonimamente (mas facil-
mente reconhecido pelo estilo, segundo a lenda, por Johann, que teria dito “reconheço o leão
pela garra”), por Isaac Newton. Cada solução usava truques específicos, engenhosos, mas
particulares daquele problema. Faltava um método geral — uma máquina que, alimentada com
qualquer problema desse tipo, produzisse a equação da curva extremal automaticamente. Essa
máquina é o que hoje chamamos de Cálculo Variacional, e sua construção sistemática coube a
duas gerações seguintes de matemáticos.
2
D A MATEMÁTICA À FÍSICA A NTES DO C ÁLCULO
3
A NTES DO C ÁLCULO D A MATEMÁTICA À FÍSICA
4
C APÍTULO 2
Assim como a linha reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva variacional é o
caminho mais curto entre uma pergunta e sua resposta ótima.
— adaptado de um antigo aforismo geométrico
No cálculo que você já conhece, uma função f recebe um número x e devolve outro número
f ( x ). A tarefa de encontrar extremos — máximos e mínimos — de f é resolvida derivando f e
igualando a derivada a zero. Neste capítulo, damos um passo conceitual decisivo: em vez de
perguntar “qual número extremiza esta quantidade?”, perguntaremos “qual curva extremiza
esta quantidade?”. Essa mudança de perspectiva — de números para curvas — é o que separa
o cálculo comum do cálculo variacional.
Z bq
L[y] = 1 + y′ ( x )2 dx. (2.1)
a
Note a notação L[y], com colchetes em vez de parênteses: ela é proposital. O comprimento L
não depende de um número, mas de toda a função y(·) — de sua forma completa entre a e
b. Se trocarmos a curva y por outra curva ỹ (respeitando as mesmas condições de contorno),
o valor de L muda. L é uma regra que transforma funções em números. A essa regra damos um
nome preciso.
O funcional mais importante para o que segue tem a forma de uma integral definida cujo
5
F UNCIONAIS O ESPAÇO DAS CURVAS ADMISSÍVEIS
2. O funcional tempo de s
queda, central no problema da braquistócrona (Capítulo 4), tem
1 + y ′2
a forma F ( x, y, y′ ) = , que mede o tempo que uma partícula caindo sob a
2gy
gravidade g leva para percorrer a curva y( x ).
Avaliemos L[y] para dois candidatos concretos ligando A = (0, 0) a B = (1, 1): a reta
R1√ √
y1 ( x ) = x e a parábola y2 ( x ) = x2 . Para a reta, y1′ = 1, logo L[y1 ] = 0 2 dx = 2 ≈
R1√
1,414. Para a parábola, y2′ = 2x, logo L[y2 ] = 0 1 + 4x2 dx ≈ 1,479. A reta já vence a
parábola — e, de fato, veremos no Capítulo 3 que a reta vence qualquer curva admissível,
como a intuição exige.
Vale insistir num ponto sutil: F é um espaço de dimensão infinita. Enquanto um ponto de
Rn é especificado por n números, uma função em C1 [ a, b] é especificada, informalmente,
por “um número para cada x” — infinitos graus de liberdade. É exatamente essa dimensão
6
A VARIAÇÃO DE UMA CURVA F UNCIONAIS
y ε ( x ) = y ( x ) + ε η ( x ), ε ∈ R pequeno, (2.3)
y ε ( x ), ε > 0
B = (b, y B )
y( x )
y ε ( x ), ε < 0
A = ( a, y A ) x
Eis o golpe de mestre da construção de Lagrange: ϕ é uma função comum de uma variável real,
ϕ : R → R. Todo o aparato do cálculo elementar — derivadas, condições de estacionariedade
— está à nossa disposição para estudá-la. Transformamos um problema de dimensão infinita
numa família de problemas de dimensão um, um para cada escolha de η.
7
F UNCIONAIS O QUE SIGNIFICA EXTREMIZAR UM FUNCIONAL
Essa definição é o coração conceitual de todo o capítulo seguinte. Ela diz, em palavras: y∗ é
candidata a extremo se, ao perturbá-la em qualquer direção admissível η, a taxa de variação de J nessa
direção, medida em ε = 0, se anula. A quantidade ϕ′ (0) recebe um nome e uma notação própria,
que introduzimos formalmente já no próximo capítulo: a primeira variação de J , denotada
δJ .
8
C APÍTULO 3
A Equação de Euler–Lagrange
Como o edifício inteiro do universo é o mais perfeito e foi estabelecido pelo mais sábio
Criador, nada ocorre no universo em que não brilhe alguma regra de máximo ou mínimo.
— Leonhard Euler
Chegamos ao ponto mais importante desta primeira metade da apostila. Vamos transformar
a condição abstrata “ϕ′ (0) = 0 para toda variação admissível η”, apresentada no capítulo
anterior, em uma equação diferencial concreta que a curva extremal y( x ) deve satisfazer. Essa
equação — a equação de Euler–Lagrange — é o motor que move todo o resto desta apostila.
onde usamos a regra da cadeia para uma função de três variáveis, tratando η e η ′ como as taxas
de variação de yε e y′ε em relação a ε. Avaliando em ε = 0 (isto é, substituindo yε → y, y′ε → y′ ),
obtemos a primeira variação de J em y, na direção η:
Z b
′ ∂F ∂F ′
δ J ≡ ϕ (0) = η ( x ) + ′ η ( x ) dx. (3.2)
a ∂y ∂y
O segundo termo ainda contém η ′ , o que impede uma comparação direta com η. Removemos
essa assimetria com uma integração por partes:
Z b b Z b
∂F ′ ∂F d ∂F
′
η ( x ) dx = η (x) − η ( x ) dx. (3.3)
a ∂y ∂y′ a a dx ∂y′
b
Como η ( a) = η (b) = 0 por definição de variação admissível, o termo de fronteira ∂F/∂y′ · η a
9
A E QUAÇÃO DE E ULER –L AGRANGE O L EMA F UNDAMENTAL DO C ÁLCULO VARIACIONAL
Lema 3.1
Seja g : [ a, b] → R uma função contínua tal que
Z b
g( x ) η ( x ) dx = 0
a
Demonstração. Suponha, por absurdo, que g( x0 ) ̸= 0 para algum x0 ∈ ( a, b); sem perda de
generalidade, g( x0 ) > 0. Como g é contínua, existe um intervalo ( x0 − δ, x0 + δ) ⊂ ( a, b) no
qual g( x ) > 0. Construa a função de teste
( x − x0 )2 − δ2 2 se | x − x0 | < δ,
η (x) =
0 caso contrário,
10
D OIS CASOS PARTICULARES IMPORTANTES A E QUAÇÃO DE E ULER –L AGRANGE
Esta é, sem exagero, uma das equações mais fecundas de toda a física matemática. Ela é,
em geral, uma equação diferencial ordinária de segunda ordem para y( x ) — de segunda
ordem porque, ao expandir d/dx (∂F/∂y′ ) pela regra da cadeia, aparecem termos com
y′′ , sempre que F depender de y′ de forma não linear. Resolvê-la, com as duas condições
de contorno y( a) = y A e y(b) = y B , é — ao menos em princípio — resolver o problema
variacional original.
Vale a pena expandir explicitamente a derivada total d/dx no segundo termo, para deixar
claro por que aparece y′′ . Como ∂F/∂y′ é, ela mesma, uma função de x, y( x ) e y′ ( x ), a regra da
cadeia dá
∂2 F ∂2 F ′ ∂2 F ′′
d ∂F
= + y ( x ) + y ( x ), (3.6)
dx ∂y′ ∂x ∂y′ ∂y ∂y′ ∂y′2
∂F ∂2 F ∂2 F ′ ∂2 F ′′
− − y − ′2 y = 0. (3.7)
∂y ∂x ∂y′ ∂y ∂y′ ∂y
Não usaremos, em geral, essa forma expandida — ela existe apenas para que você veja, com
seus próprios olhos, de onde vem a segunda ordem.
∂F
H ≡ F − y′
∂y′
11
A E QUAÇÃO DE E ULER –L AGRANGE A GEODÉSICA DO PLANO
cadeia:
dH dF ′′ ∂F ′ d ∂F
= −y −y
dx dx ∂y′ dx ∂y′
∂F ′ ∂F ′′ ′′ ∂F ′ d ∂F
= y + ′ y −y −y
∂y ∂y ∂y′ dx ∂y′
∂F d ∂F
= y′ − , (3.8)
∂y dx ∂y′
onde, na segunda linha, usamos que dF/dx = ∂F/∂y · y′ + ∂F/∂y′ · y′′ (pois F não depende
explicitamente de x) e cancelamos o termo y′′ ∂F/∂y′ que aparece duas vezes com sinais opostos.
O termo entre colchetes é exatamente a equação de Euler–Lagrange, que se anula ao longo de
qualquer extremal. Logo dH/dx = 0 sobre extremais. ■
Não é acidente que a letra escolhida para essa constante seja H: no Capítulo 8, veremos
que, quando F é a Lagrangiana de um sistema mecânico e x representa o tempo, essa
mesma quantidade H é — a menos de identificações de notação — a energia total
do sistema, e a condição “F independente de x” se traduz fisicamente em “as leis do
sistema não mudam com o tempo”. A identidade de Beltrami é o embrião matemático da
conservação da energia. Guarde essa observação: ela vai florescer mais adiante.
Fechamos o capítulo com o exemplo mais simples possível, mas ainda assim instrutivo: mostrar,
com a máquina que acabamos de construir, que a curva de menor comprimento entre dois
pontos do plano é a reta — um fato que todos já sabíamos, mas que agora sabemos deduzir.
Teorema 3.4,
∂F y′
= = c (constante).
∂y′
p
1 + y ′2
Elevando ao quadrado √ e isolando y′2 , obtemos y′2 = c2 (1 + y′2 ), donde y′2 (1 − c2 ) = c2
e portanto y′ = ±c/ 1 − c2 ≡ m, uma constante. Integrando, y( x ) = mx + k: a curva
extremal é, de fato, uma reta, com inclinação m e intercepto k determinados pelas condições
de contorno y( a) = y A , y(b) = y B .
Esse exemplo, embora simples, contém em miniatura toda a estratégia que repetiremos,
com integrandos mais elaborados, no próximo capítulo: (1) identificar se F depende
explicitamente de y ou de x; (2) usar a integral primeira correspondente para reduzir
a ordem da equação; (3) integrar o que restar; (4) impor as condições de contorno. É
uma receita — mas, como toda boa receita, sua elegância está em como ela se adapta a
ingredientes muito diferentes, da braquistócrona à catenária.
12
A GEODÉSICA DO PLANO A E QUAÇÃO DE E ULER –L AGRANGE
para alguma constante c. (Não é necessário resolver a equação diferencial resultante agora
— faremos isso, com toda calma, mais adiante.)
13
A E QUAÇÃO DE E ULER –L AGRANGE A GEODÉSICA DO PLANO
14
C APÍTULO 4
4.1 A braquistócrona
Retomamos o desafio de Johann Bernoulli. Coloque a origem do sistema de coordenadas no
ponto de partida A, com o eixo y apontando para baixo (a favor da gravidade) e o eixo x na
horizontal. Uma partícula de massa m parte do repouso em A = (0, 0) e desliza sem atrito, sob
a ação da gravidade g, ao longo de uma curva y( x ) até um ponto B = ( x B , y B ).
1 2
p Pela conservação de energia, 2 mv =p mgy, logo a velocidade ao longo da curva é v( x ) =
2gy( x ). Como v = ds/dt, onde ds = 1 + y′2 dx é o elemento de arco, o tempo total de
percurso é o funcional s
1 + y ′2
Z xB Z xB
ds
T [y] = = dx. (4.1)
0 v 0 2gy
O integrando F (y, y′ ) =
p
(1 + y′2 )/(2gy) não depende explicitamente de x: aplicamos a
identidade de Beltrami (Teorema 3.4). Um cálculo direto (que você pode reproduzir como
exercício) fornece
∂F 1
F − y′ ′ = p p = C,
∂y 2gy 1 + y′2
donde, elevando ao quadrado e reorganizando,
y 1 + y′2 = 2a,
(4.2)
Já aqui vale um comentário: a equação (4.2) não depende mais de g! A forma da curva
de tempo mínimo é a mesma em qualquer campo gravitacional (a intensidade de g só
afeta a rapidez com que a partícula percorre essa forma, não a forma em si). Isso já é uma
pequena surpresa que a força bruta do cálculo nos entrega de bandeja.
15
G ALERIA DE C URVAS N OTÁVEIS A CATENÁRIA
Essas são as equações paramétricas de uma ciclóide — exatamente a curva descrita por um
ponto marcado na borda de uma roda de raio a que rola, sem deslizar, sobre uma reta horizontal.
A constante a é determinada exigindo que a curva passe pelo ponto final B = ( x B , y B ).
A
x
arco de ciclóide B
Compare com a linha reta e com um arco de círculo ligando A a B: ambos parecem, à
primeira vista, candidatos razoáveis. Mas a ciclóide tem uma vantagem sutil — ela desce
mais abruptamente perto de A, ganhando velocidade rapidamente, e essa velocidade
extra compensa, no tempo total, o fato de o caminho ser um pouco mais longo. É a mesma
lição da braquistócrona que abre este capítulo: o caminho de menor tempo raramente é o
caminho de menor distância.
de modo que F (y, y′ ) = y 1 + y′2 (o fator 2π é irrelevante para a equação de extremos e pode
p
y (1 + y ′2 ) − y ′2
yy′ y
q
∂F′ ′
F−y ′ = y 1 + y ′2 −y · p = p =p = c,
∂y 1 + y ′2 1+y ′ 2 1 + y ′2
16
P RINCÍPIO DE F ERMAT G ALERIA DE C URVAS N OTÁVEIS
x − x0
y( x ) = c cosh , (4.8)
c
onde c e x0 são constantes fixadas pelas condições y( a) = y A , y(b) = y B . Essa curva é a célebre
catenária — do latim catena, corrente — pois é também, como veremos com uma dedução
ligeiramente diferente no Capítulo 5, a forma que uma corrente flexível e inextensível assume
ao pender livremente sob seu próprio peso entre dois pontos de sustentação.
y
argola em x = a
17
G ALERIA DE C URVAS N OTÁVEIS P RINCÍPIO DE F ERMAT
x d−x
t′ ( x ) = q − q = 0. (4.10)
v1 x2 + h21 v2 (d − x )2 + h22
q q
Reconhecendo que x/ x2 + h21 = sin θ1 e (d − x )/ (d − x )2 + h22 = sin θ2 , onde θ1 e θ2 são
os ângulos que os dois segmentos de reta fazem com a normal à interface, a condição t′ ( x ) = 0
se torna
sin θ1 sin θ2
= . (4.11)
v1 v2
Como o índice de refração de um meio é n = c/v (com c a velocidade da luz no vácuo), essa
relação é exatamente a lei de Snell, n1 sin θ1 = n2 sin θ2 , obtida aqui não por um postulado
sobre ondas ou raios, mas como consequência direta de um único princípio de mínimo tempo.
Este exemplo é instrutivo por uma razão estrutural: mostra que o Cálculo Variacional,
em sua forma mais geral (funcionais sobre curvas inteiras), contém o cálculo elementar
de extremos (funções de uma variável) como caso particular — basta que a classe de
curvas admissíveis, por alguma razão física ou geométrica, já esteja restrita a uma família
descrita por um único parâmetro. Guarde essa observação: o Princípio de Hamilton,
no Capítulo 6, terá a forma geral dos Capítulos 3 e 5, mas em problemas com simetria
suficiente ele também poderá, às vezes, ser reduzido a otimizações muito mais simples.
18
P RINCÍPIO DE F ERMAT G ALERIA DE C URVAS N OTÁVEIS
19
G ALERIA DE C URVAS N OTÁVEIS P RINCÍPIO DE F ERMAT
20
C APÍTULO 5
Dai-me um ponto de apoio e moverei o mundo; dai-me um vínculo bem posto e resolverei
o problema.
— parodiando livremente Arquimedes
O formalismo construído até aqui trata de uma única função y( x ), sem restrições além
das condições de contorno. A física — e a própria geometria — raramente é tão generosa.
Sistemas mecânicos reais têm várias coordenadas simultâneas; problemas geométricos clássicos
frequentemente impõem vínculos globais, como um comprimento total fixo. Este capítulo
estende o Cálculo Variacional em duas direções que serão indispensáveis no capítulo seguinte,
quando finalmente cruzarmos para a mecânica.
Como cada ηi é arbitrária independentemente das demais, podemos anular todas as outras exceto
uma e aplicar o Lema Fundamental (Teorema 3.2) a cada termo isoladamente. Chegamos assim
a um sistema de equações de Euler–Lagrange:
21
G ENERALIZAÇÕES DO P ROBLEMA VARIACIONAL V ÍNCULOS INTEGRAIS
∂F ∗ d ∂F ∗
∗
F ≡ F − λ G, isto é, − = 0.
∂y dx ∂y′
Esboço da razão pela qual isso funciona: imagine uma família de curvas a dois parâmetros,
yε 1 ,ε 2 = y + ε 1 η1 + ε 2 η2 . A condição de vínculo K[yε 1 ,ε 2 ] = L define implicitamente ε 2
como função de ε 1 próximo de (0, 0) (pelo Teorema da Função Implícita, desde que δK
na direção η2 não se anule). Ao longo dessa curva vinculada de curvas, J deve ser
estacionário em ε 1 = 0. Repetindo, passo a passo, a mesma manipulação algébrica usada
para deduzir os multiplicadores de Lagrange no caso de funções ordinárias — mas agora
com δJ e δK no lugar de ∇ f e ∇ g — chega-se exatamente à condição δJ = λ δK para
toda variação admissível, que é precisamente a equação de Euler–Lagrange do integrando
combinado F − λG.
22
V ÍNCULOS INTEGRAIS G ENERALIZAÇÕES DO P ROBLEMA VARIACIONAL
∂F ∗ y ′2
q
λ
F ∗ − y′ = y−λ 1 + y ′2 + λ p = y− p = C.
∂y′ 1 + y ′2 1 + y ′2
p
Isolando, 1 + y′2 = λ/(y − C ), donde
λ2 λ2 − ( y − C )2
1 + y ′2 = =⇒ y ′2 = .
( y − C )2 ( y − C )2
Separando variáveis e integrando (os detalhes são deixados como exercício guiado a
seguir), obtém-se
( x − x0 )2 + ( y − C )2 = λ2 ,
que é a equação de um círculo de raio |λ| centrado em ( x0 , C )! A resposta ao problema
de Dido é, portanto, um arco de circunferência — e, no caso em que os pontos extremos
coincidem (curva fechada), a circunferência completa. A intuição geométrica milenar —
de que a forma que encerra a maior área com um perímetro dado é o círculo — ganha,
finalmente, uma demonstração analítica completa.
Exemplo 5.2 — A catenária revisitada: agora como corrente, não como espuma
No Capítulo 4, obtivemos a catenária como a superfície mínima de revolução — um
problema sem vínculo. Mas o nome “catenária” vem de outro problema, fisicamente
distinto: a forma de uma corrente flexível, inextensível, de comprimento fixo L, pendendo
sob seu próprio peso entre dois pontos de sustentação. Esse é, precisamente, um problema
isoperimétrico: minimizar a energia potencial gravitacional
Z b q
U [y] = y 1 + y′2 dx (a menos de constantes físicas irrelevantes para a forma)
a
Z bq
sujeita ao vínculo de comprimento fixo 1 + y′2 dx = L. Pelo Teorema 5.2, buscamos
a
extremos do integrando combinado
q q q
∗
F = y 1 + y − λ 1 + y = ( y − λ ) 1 + y ′2 .
′ 2 ′ 2
23
G ENERALIZAÇÕES DO P ROBLEMA VARIACIONAL V ÍNCULOS PONTUAIS : UM PRENÚNCIO
x − x0 x − x0
y( x ) − λ = c cosh =⇒ y( x ) = λ + c cosh ,
c c
Esse reencontro não é coincidência nem truque de cálculo: é uma manifestação, ainda
modesta, de um fenômeno que atravessará toda a segunda metade desta apostila —
a mesma matemática subjacente governa fenômenos fisicamente distintos, sempre
que esses fenômenos compartilham a mesma estrutura de minimização. Aprender a
reconhecer essa estrutura comum, por trás de disfarces físicos diferentes, é uma das
recompensas mais duradouras do estudo do Cálculo Variacional.
que restringem, em cada instante (ou em cada valor de x), os valores permitidos das funções
yi — por exemplo, “a partícula está proibida de deixar a superfície de uma esfera” ou “duas
partículas estão ligadas por uma barra rígida de comprimento fixo”.
Vínculos desse tipo também podem ser tratados por multiplicadores de Lagrange — mas,
curiosamente, agora o multiplicador λ não é mais uma constante: torna-se, ele próprio, uma
função λ( x ), já que o vínculo precisa ser satisfeito ponto a ponto, não apenas em média. Essa
distinção técnica — multiplicador constante para vínculos globais, multiplicador variável para
vínculos pontuais — terá consequências físicas importantes quando revisitarmos o assunto com
maior generalidade em estudos futuros de mecânica com vínculos. Por ora, não precisaremos
desse aparato: no capítulo seguinte, resolveremos os vínculos pontuais de um modo mais
direto e físico, escolhendo, desde o início, coordenadas generalizadas que já os satisfazem
automaticamente — uma elegante fuga por cima do problema, em vez de um ataque frontal a
ele.
24
C APÍTULO 6
Os movimentos dos corpos podem ser regulados por uma lei tão simples, tão elegante, que
se assemelha antes a um teorema de geometria do que a uma prescrição da natureza.
— livremente inspirado em William Rowan Hamilton
Todo o trabalho dos cinco capítulos anteriores foi, em certo sentido, uma longa preparação
para esta única página. Vamos agora dar o passo que transforma o Cálculo Variacional —
até aqui uma disciplina matemática autônoma, embora inspirada pela física — na própria
linguagem da mecânica. O salto é curto na escrita, mas imenso no significado: uma única
frase, o Princípio de Hamilton, contém dentro de si toda a mecânica newtoniana e aponta,
além dela, para toda a física teórica que viria depois.
25
O P RINCÍPIO DE H AMILTON A ÇÃO E P RINCÍPIO DE H AMILTON
partícula permanece sobre um círculo de raio R”, deixa de ser um obstáculo a ser tratado
por multiplicadores: torna-se, simplesmente, invisível, absorvido na escolha de uma
única coordenada generalizada — o ângulo θ — em vez das duas coordenadas cartesianas
( x, y) originais, agora redundantes.
Por ora, tome L como uma função dada; já na Seção 6.4 justificaremos, com um exemplo
concreto, por que ela assume a forma específica que assume. A partir de L, definimos o
funcional mais importante de toda a física clássica:
Note que S[q] é, formalmente, um funcional idêntico em estrutura aos que estudamos nos
Capítulos 2 a 5 — apenas com x → t, yi → qi e F → L. Toda a maquinaria já construída se
aplica sem qualquer modificação. O que muda é a interpretação física, condensada no seguinte
postulado, formulado por Hamilton em 1834:
Dentre todas as trajetórias q(t) que ligam uma configuração inicial fixa q(t1 ) a uma confi-
guração final fixa q(t2 ), a trajetória fisicamente realizada pelo sistema é aquela que torna
a ação S[q] estacionária:
δS = 0.
26
A S EQUAÇÕES DE L AGRANGE DO MOVIMENTO O P RINCÍPIO DE H AMILTON
trajetórias virtuais
q ( t2 )
trajetória física
q ( t1 )
t
A trajetória física q(t) de um sistema com Lagrangiana L(q, q̇, t) satisfaz, para cada grau
de liberdade i = 1, . . . , n,
d ∂L ∂L
− = 0. (6.2)
dt ∂q̇i ∂qi
Compare esta caixa com a caixa análoga do Teorema 3.3, no Capítulo 3. São, literalmente,
a mesma equação, escrita com letras diferentes. Não há física nova nesta transcrição — a
física inteira está contida no postulado do Princípio de Hamilton (Teorema 6.2) e na escolha
específica da Lagrangiana L, à qual dedicamos a próxima seção. O que a matemática nos
oferece, gratuitamente, é a garantia de que, uma vez aceito o postulado, as equações de
movimento seguem por dedução pura, sem mais suposições.
27
O P RINCÍPIO DE H AMILTON P OR QUE L = T − V?
L = T − V, (6.3)
onde T é a energia cinética total do sistema (uma função das velocidades generalizadas q̇i , e
possivelmente também das coordenadas qi , dependendo do sistema de coordenadas escolhido)
e V é a energia potencial (uma função apenas das coordenadas qi , e possivelmente do tempo).
Note a assimetria propositada com a energia mecânica total E = T + V, que soma as duas
contribuições. A Lagrangiana subtrai V de T — e é exatamente essa diferença, e não a
soma, que produz a dinâmica correta quando submetida ao Princípio de Hamilton. Não
há, ao menos neste nível introdutório, uma explicação puramente intuitiva de por que
a subtração funciona; a justificativa completa vem de mostrar, como faremos a seguir
no caso mais simples possível, que essa escolha reproduz exatamente a segunda lei de
Newton — e, por indução de confiança, aceitá-la também nos casos mais gerais em que
Newton seria muito mais difícil de aplicar diretamente.
∂L ∂L dV
= m ẋ, =− = F ( x ).
∂ ẋ ∂x dx
A equação de Lagrange, d/dt (∂L/∂ ẋ ) − ∂L/∂x = 0, torna-se
d
(m ẋ ) − F ( x ) = 0 =⇒ m ẍ = F ( x ),
dt
que é, exatamente, a segunda lei de Newton. O momento generalizado p = ∂L/∂ ẋ = m ẋ
coincide, neste caso simples, com o momento linear usual.
Esse exemplo, por mais elementar que pareça, é a pedra de toque de tudo o que segue:
ele mostra que o edifício variacional que construímos — funcionais, primeira variação,
equação de Euler–Lagrange — não é uma reformulação vazia da mecânica newtoniana,
mas uma reformulação equivalente nos casos em que Newton já sabíamos resolver, e,
como veremos no próximo capítulo, frequentemente muito mais prática nos casos em que
Newton se torna trabalhoso — sistemas com vínculos, coordenadas curvilíneas, vários
corpos interagentes.
28
P OR QUE L = T − V? O P RINCÍPIO DE H AMILTON
29
O P RINCÍPIO DE H AMILTON P OR QUE L = T − V?
30
C APÍTULO 7
Dê-me as coordenadas certas, e eu lhe darei o movimento sem uma única força desenhada.
— parodiando o espírito do método lagrangiano
θ
l
31
P RIMEIRAS A PLICAÇÕES EM M ECÂNICA L AGRANGIANA A MÁQUINA DE ATWOOD
Derivando em relação ao tempo, ẋ = l cos θ θ̇ e ẏ = l sin θ θ̇, de modo que a energia cinética
é
T = 21 m( ẋ2 + ẏ2 ) = 12 ml 2 θ̇ 2 cos2 θ + sin2 θ = 12 ml 2 θ̇ 2 .
Tomando o pivô como referência de altura zero, a energia potencial gravitacional é V = mgy =
−mgl cos θ. A Lagrangiana é, portanto,
g
θ̈ + sin θ = 0, (7.1)
l
a célebre equação do pêndulo simples — não linear, obtida aqui sem jamais precisar decompor
a tensão da haste em componentes ou desenhar um único vetor de força. Para pequenas
oscilações,
p sin θ ≈ θ, e recuperamos um oscilador harmônico com frequência angular ω =
g/l.
Compare o esforço desta dedução com o que seria necessário pela via newtoniana: seria
preciso decompor o peso mg em componentes tangencial e radial, identificar que a tensão
da haste não realiza trabalho (por ser sempre perpendicular ao movimento) mas ainda
assim entra na equação radial, e isolar a componente tangencial da aceleração. O método
lagrangiano dispensa toda essa contabilidade geométrica: a tensão da haste — uma força
de vínculo, que não realiza trabalho ao longo do movimento permitido — simplesmente
nunca aparece nas contas, porque a coordenada θ já foi escolhida de modo a satisfazer
automaticamente o vínculo “a massa permanece a distância l do pivô”.
m1
x
m2
32
C OORDENADAS CÍCLICAS P RIMEIRAS A PLICAÇÕES EM M ECÂNICA L AGRANGIANA
Para a energia potencial, tomando a posição inicial de cada massa como referência: m1 desceu
x (logo V1 = −m1 gx) e m2 subiu x (logo V2 = +m2 gx). Assim,
L( x, ẋ ) = 12 (m1 + m2 ) ẋ2 − (m2 − m1 ) gx.
As derivadas são ∂L/∂ ẋ = (m1 + m2 ) ẋ e ∂L/∂x = −(m2 − m1 ) g = (m1 − m2 ) g. A equação de
Lagrange fornece diretamente
( m1 − m2 )
ẍ = g, (7.2)
( m1 + m2 )
o resultado clássico da máquina de Atwood — obtido sem jamais precisar isolar a tensão do fio,
que desapareceu das contas assim que escolhemos x como a única coordenada, já compatível
com o vínculo de inextensibilidade.
3. O que você acabou de deduzir, com meia página de álgebra, levou Kepler mais de
uma década de observações astronômicas e tentativa e erro geométrico para descobrir
empiricamente. Reflita sobre a economia — no sentido mais literal da palavra — que o
33
P RIMEIRAS A PLICAÇÕES EM M ECÂNICA L AGRANGIANA C OORDENADAS CÍCLICAS
34
C APÍTULO 8
Para cada simetria contínua das leis da natureza, existe uma lei de conservação
correspondente — e reciprocamente.
— paráfrase do resultado de Emmy Noether, 1918
Conservação de H 8.1
Se a Lagrangiana L(q, q̇, t) não depende explicitamente do tempo (isto é, ∂L/∂t = 0),
então H é constante ao longo de qualquer trajetória que satisfaça as equações de Lagrange.
dH h i dL
dt
= ∑ q̈i pi + q̇i ṗi −
dt
i
∂L ∂L
h i
= ∑ q̈i pi + q̇i ṗi − ∑ q̇i + pi q̈i −
i i
∂qi ∂t
∂L ∂L
= ∑ q̇i ṗi − − . (8.2)
i
∂qi ∂t
Ao longo de uma trajetória física, as equações de Lagrange garantem ṗi = ∂L/∂qi para cada
i, de modo que o somatório se anula identicamente, restando dH/dt = −∂L/∂t. Se L não
depende explicitamente de t, o lado direito é zero, e H é conservada. ■
35
S IMETRIA E C ONSERVAÇÃO S IMETRIAS E CONSERVAÇÕES
Para a vasta maioria dos sistemas mecânicos — sempre que a energia cinética for uma
forma quadrática homogênea nas velocidades, T = ∑i 21 mi q̇2i (como em todos os exemplos
do capítulo anterior), e o potencial V depender apenas das posições — vale a identidade
direta ∑i q̇i ∂T/∂q̇i = ∑i mi q̇2i = 2T (basta calcular ∂T/∂q̇i = mi q̇i e substituir). Como
∂V/∂q̇i = 0, segue que ∑i q̇i ∂L/∂q̇i = 2T, e portanto
H = 2T − L = 2T − ( T − V ) = T + V = E,
onde Ki são funções dadas (os “geradores” infinitesimais da transformação). Dizemos que essa
transformação é uma simetria da Lagrangiana se L permanece invariante, a primeira ordem
em ε, para qualquer trajetória (não apenas para as que satisfazem as equações de movimento):
d
L Q(t, ε), Q̇(t, ε), t = 0. (8.4)
dε ε =0
∂L ∂L d
0=∑ Ki ( q ) + Ki ( q ) ,
i
∂qi ∂q̇i dt
onde usamos que dQi /dε|ε=0 = Ki (q) e dQ̇i /dε|ε=0 = dKi (q)/dt (a derivada temporal ao
longo da trajetória não perturbada). Ao longo de uma trajetória física, as equações de Lagrange
dão ∂L/∂qi = dpi /dt; substituindo,
dQ
dpi d d
0=∑ Ki ( q ) + p i Ki ( q ) = ∑ p i Ki ( q ) = .
i
dt dt dt i dt
36
S IMETRIAS E CONSERVAÇÕES S IMETRIA E C ONSERVAÇÃO
Q = p x (−y) + py ( x ) = m( x ẏ − y ẋ ) ≡ Lz ,
Pare, por um instante, e olhe para trás: começamos o Capítulo 1 com a curiosidade antiga
de que a luz parece “escolher” o caminho mais rápido. Terminamos este capítulo com um
teorema que liga, de modo preciso e demonstrável, toda simetria do universo físico a uma
lei de conservação correspondente — momento, momento angular, energia, e (em teorias
de campo mais avançadas) cargas elétricas, cores em cromodinâmica quântica, e outras
grandezas que ainda nem mencionamos. O Teorema de Noether é, talvez, a mais bela
consequência prática de toda a construção que fizemos: ele transforma perguntas sobre
simetria — uma noção quase estética — em previsões físicas quantitativas e testáveis.
Poucos resultados na física merecem tanto o adjetivo “poético” quanto este, e poucos são
tão implacavelmente precisos.
37
S IMETRIA E C ONSERVAÇÃO S IMETRIAS E CONSERVAÇÕES
38
Epílogo: Rumo ao Espaço de Fases
∂H ∂H
q̇i = , ṗi = − .
∂pi ∂qi
O espaço (q, p) — o espaço de fases que dá nome a este epílogo — é o palco da mecânica
hamiltoniana, da mecânica estatística e, por uma estrada mais longa ainda, da própria
mecânica quântica.
• Vínculos, mais a fundo. A Seção 5.3 apenas insinuou como tratar vínculos pontuais
através de multiplicadores de Lagrange dependentes do tempo. Um tratamento completo —
incluindo o Princípio de D’Alembert, do qual as próprias equações de Lagrange podem ser
derivadas de modo totalmente rigoroso, sem o postulado extra do Princípio de Hamilton —
revela uma arquitetura lógica ainda mais econômica do que a que apresentamos aqui.
Se você chegou até aqui, você já não é mais a mesma pessoa que abriu esta apostila
esperando aprender “mais uma técnica de cálculo”. Você aprendeu a reconhecer, por trás
de fenômenos aparentemente desconexos — a queda de uma partícula, a forma de uma
39
E PÍLOGO
40
C APÍTULO A
Este apêndice reúne, de forma compacta e sem pretensão de originalidade, três resultados de
cálculo diferencial que foram usados livremente ao longo da apostila. Nenhum deles é novo
para quem já estudou cálculo de várias variáveis — a utilidade deste apêndice é apenas reunir,
em um só lugar, os enunciados precisos que foram invocados nos capítulos anteriores.
Se F = F ( x, y, z) é uma função suave de três variáveis, e x, y, z são, por sua vez, funções suaves
de um parâmetro ε, então
d ∂F dx ∂F dy ∂F dz
F x ( ε ), y ( ε ), z ( ε ) = + + . (A.1)
dε ∂x dε ∂y dε ∂z dε
Seja f ( x, ε) uma função contínua, com derivada parcial ∂ f /∂ε também contínua, em um
retângulo [ a, b] × (−δ, δ). Então
Z b Z b
d ∂f
f ( x, ε) dx = ( x, ε) dx. (A.2)
dε a a ∂ε
Essa regra — que permite trocar a ordem de uma derivada e de uma integral — foi utilizada,
silenciosamente, logo na primeira linha de cálculo do Capítulo 3, ao calcular ϕ′ (ε) derivando
o integrando de J [yε ] ponto a ponto, em vez de calcular a integral inteira antes de derivar.
As hipóteses de continuidade que a acompanham são, em geral, satisfeitas automaticamente
pelas funções suaves (C2 ou melhor) que assumimos ao longo de toda a apostila — por isso
raramente as mencionamos explicitamente no corpo do texto, embora estivessem sempre
silenciosamente em vigor.
41
A PÊNDICE A — F ERRAMENTAS DE C ÁLCULO U TILIZADAS
F UNÇÕES HOMOGÊNEAS E O TEOREMA DE E ULER
42
C APÍTULO B
Problemas Complementares
vada total exata), então a equação de Euler–Lagrange associada a F é satisfeita por qualquer
curva y( x ), não apenas por extremos isolados. Interprete fisicamente esse resultado: o que
ele diz sobre o valor de J [y] para diferentes curvas admissíveis, nesse caso especial?
A galeria de curvas
43
A PÊNDICE B — P ROBLEMAS C OMPLEMENTARES
1
p = constante,
v ( y ) 1 + y ′2
Generalizações e vínculos
Mecânica lagrangiana
44
A PÊNDICE B — P ROBLEMAS C OMPLEMENTARES
Simetrias e conservação
45
A PÊNDICE B — P ROBLEMAS C OMPLEMENTARES
46
C APÍTULO C
Sugestões de Leitura
• J. R. Taylor, Classical Mechanics. Uma introdução em inglês, gradual e muito didática, com
boa quantidade de aplicações físicas e problemas de dificuldade crescente; um excelente
segundo passo para quem quer mais prática antes de aprofundar o formalismo.
47
A PÊNDICE C — S UGESTÕES DE L EITURA
Nenhuma dessas obras precisa ser lida na íntegra, nem nesta ordem. O critério mais
honesto é: volte a elas quando uma pergunta específica desta apostila — um “e se?”, um
“mas por quê exatamente?” — não tiver encontrado aqui uma resposta que lhe satisfaça
plenamente. Foi exatamente assim, aliás, que a maior parte da física se ensina de verdade:
não em linha reta, mas em espiral, retornando aos mesmos temas com instrumentos cada
vez mais afiados.
48
C APÍTULO D
Este apêndice reúne respostas breves — às vezes completas, às vezes apenas o esqueleto do
argumento — para uma seleção dos exercícios propostos ao longo da apostila. A ideia não é
substituir o trabalho de resolver cada problema, mas oferecer um ponto de verificação honesto
para quem já tentou.
este é, aliás, o mesmo cálculo refeito com mais vagar na Seção 4.2.
Exercício 4.1 (Reflexão como caso particular). Refletindo B através do espelho para obter sua
imagem B′ , o caminho A → ( x, 0) → B tem o mesmo comprimento que o caminho reto A → B′
(a reflexão preserva distâncias verticais absolutas). Minimizar o tempo de A a B via ( x, 0)
equivale, portanto, a minimizar a distância de A a B′ passando por ( x, 0) — e essa distância
é mínima exatamente quando A, ( x, 0) e B′ são colineares, o que, desfazendo a reflexão, é
precisamente a condição θ1 = θ2 .
49
A PÊNDICE D — R ESPOSTAS E D ICAS S ELECIONADAS
a Kepler formular sua Segunda Lei (“a linha que liga o planeta ao Sol varre áreas iguais em
tempos iguais”), já que dA/dt = 21 r2 φ̇ = p φ /(2m) é constante se, e somente se, p φ o for.
Exercício 8.1 (Verificação direta no pêndulo). Como L = 12 ml 2 θ̇ 2 + mgl cos θ não contém t
explicitamente, H = θ̇ ∂L/∂θ̇ − L = ml 2 θ̇ 2 − 21 ml 2 θ̇ 2 + mgl cos θ = 21 ml 2 θ̇ 2 − mgl cos θ, que é
constante pelo Teorema 8.1. Como T = 12 ml 2 θ̇ 2 e V = −mgl cos θ (a mesma convenção de sinal
usada na Seção 7.2), de fato H = T + V, a energia mecânica total, confirmando a observação
geral da Seção 8.1.
50
Glossário de Símbolos
Símbolo Significado
51