lagran
lagran
2 Ferramentas Matemáticas 9
2.1 O que ainda falta antes da reformulação . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
2.2 Transformações de coordenadas e velocidades generalizadas . . . . . . . 10
2.3 Duas identidades fundamentais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
2.4 A energia cinética como forma quadrática . . . . . . . . . . . . . . . . 12
2.5 Exemplo resolvido: coordenadas polares planas . . . . . . . . . . . . . 13
2.6 Deslocamentos virtuais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
Resumo do capítulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
iii
iv SUMÁRIO
Capítulo 1
1
2 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO À MECÂNICA ANALÍTICA
diretamente m⃗r¨ = F⃗ a cada massa exige incluir as tensões desconhecidas nas duas
hastes, decompor essas tensões em componentes x e y, e eliminar essas incógnitas
algebricamente do sistema final. É um cálculo tedioso, propenso a erro, e que esconde
a simplicidade essencial do problema atrás de uma álgebra pesada que nada tem a ver
com a física.
m1 ℓ2
ℓ1
θ2
m2
θ1
Figura 1.1: O pêndulo duplo tem quatro coordenadas cartesianas (x1 , y1 , x2 , y2 ), mas
apenas dois graus de liberdade físicos: os ângulos θ1 e θ2 . As hastes rígidas de com-
primentos ℓ1 e ℓ2 eliminam duas das quatro coordenadas cartesianas.
Definição 1.1 (Vínculo holônomo). Um sistema de N partículas, com posições ⃗r1 , . . . , ⃗rN ,
está sujeito a um vínculo holônomo se existe uma função
que deve ser satisfeita em todo instante do movimento. Se f não depende explicita-
mente do tempo, o vínculo é dito holônomo e esclerônomo; caso contrário, é holônomo
e reonômico.
fα (⃗r1 , . . . , ⃗rN , t) = 0, α = 1, . . . , k,
tem posto k nesse ponto. Isso permite escolher k das 3N coordenadas – reordenando
os índices, chamemo-las x1 , . . . , xk – tais que a submatriz k × k correspondente seja
4 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO À MECÂNICA ANALÍTICA
invertível. O teorema da função implícita garante então que existe uma vizinhança
de ⃗q0 na qual as equações fα = 0 podem ser resolvidas de forma única para essas k
coordenadas em função das n = 3N − k restantes:
xi = xi (xk+1 , . . . , x3N , t), i = 1, . . . , k.
As n coordenadas restantes xk+1 , . . . , x3N variam livremente numa vizinhança de seus
valores em ⃗q0 , e determinam, através dessas funções, toda a configuração do sistema
compatível com os vínculos. Logo, localmente, a superfície de vínculo é parametrizada
por n parâmetros independentes. ■
Interpretação 1.3. O conteúdo físico dessa demonstração é simples, ainda que sua
justificativa formal exija o teorema da função implícita: cada vínculo holônomo in-
dependente é uma equação que, localmente, permite expressar uma coordenada em
função das outras. Não importa quais k coordenadas escolhemos eliminar – a condição
de posto máximo garante que sempre existe alguma escolha viável –, o resultado lí-
quido é sempre a perda de exatamente um grau de liberdade por vínculo independente.
Geometricamente, a superfície definida por fα = 0, α = 1, . . . , k, dentro do espaço
R3N , é uma hipersuperfície de dimensão n = 3N − k: uma variedade suave, ao menos
localmente, que pode ser explorada por n coordenadas locais.
Definição 1.4 (Graus de liberdade). O número n = 3N − k de coordenadas inde-
pendentes necessárias para especificar a configuração de um sistema de N partículas
sujeitas a k vínculos holônomos independentes é chamado de número de graus de
liberdade do sistema.
Exemplo 1.5 (Pêndulo duplo). No pêndulo duplo da Figura 1.1, N = 2 e as coordena-
das cartesianas são (x1 , y1 , x2 , y2 ), logo 3N seria 6 se o movimento fosse tridimensional;
como o pêndulo está confinado a um plano vertical, o problema já nasce com 2N = 4
coordenadas cartesianas relevantes. As hastes rígidas impõem os vínculos
f1 = x21 + y12 − ℓ21 = 0, f2 = (x2 − x1 )2 + (y2 − y1 )2 − ℓ22 = 0,
dois vínculos holônomos e esclerônomos independentes (seus gradientes, calculados
em relação a (x1 , y1 , x2 , y2 ), são linearmente independentes exceto em configurações
degeneradas de medida nula, como ℓ2 = 0). Pela Proposição 1.2, o número de graus de
liberdade é 4 − 2 = 2, exatamente os dois ângulos θ1 , θ2 já identificados intuitivamente.
O exemplo canônico é o disco vertical que rola sem deslizar sobre um plano ho-
rizontal. A condição de "rolar sem deslizar"relaciona a velocidade do centro do disco
à sua velocidade angular de rotação – é uma restrição sobre velocidades, não sobre
posições –, e a orientação final do disco depois de percorrer um caminho fechado no
plano depende, em geral, do caminho percorrido, não apenas do ponto de chegada.
Isso é precisamente a manifestação física de que a relação diferencial não é exata: se
fosse, a integral ao longo de qualquer caminho fechado seria nula, e a orientação final
dependeria apenas da posição final, não da trajetória.
Observação 1.7. Vínculos não-holônomos genuínos – como o do disco rolante – não
reduzem o número de coordenadas necessárias para descrever a configuração instan-
tânea do sistema, embora restrinjam quais velocidades são admissíveis a partir de
cada configuração. Por essa razão, eles exigem um tratamento mais delicado do que os
vínculos holônomos, e a formulação lagrangiana que construiremos nos próximos docu-
mentos aplica-se, em sua forma mais simples, apenas a sistemas holônomos. Sistemas
não-holônomos serão retomados, com as ferramentas adequadas – multiplicadores de
Lagrange associados a vínculos de velocidade –, quando essas ferramentas estiverem
disponíveis.
Por essa razão, a partir daqui, e até que seja dito o contrário, todo vínculo menci-
onado neste livro será holônomo, salvo indicação explícita.
que satisfazem o vínculo identicamente para quaisquer θ ∈ (0, π), φ ∈ [0, 2π). Note
que essa parametrização falha nos polos (θ = 0, π), onde φ deixa de ser bem definido
– um lembrete de que a Definição de coordenadas generalizadas é, em geral, apenas
local, exatamente como antecipado pela demonstração da Proposição 1.2, que também
é um resultado local.
sobre a conta. Precisamos de um princípio que nos diga, de forma geral e sistemática,
como essas forças de vínculo podem ser eliminadas do problema antes de escrevermos
as equações de movimento finais – não depois, como um ajuste posterior.
Esse princípio existe, é conhecido como o princípio dos trabalhos virtuais e sua
extensão dinâmica, o princípio de D’Alembert, e sua ideia central é notavelmente
simples: as forças de vínculo que realmente aparecem na natureza – superfícies lisas,
hastes rígidas, fios inextensíveis – compartilham uma propriedade comum, a de não re-
alizar trabalho em qualquer deslocamento compatível com o vínculo. Essa observação,
transformada em princípio matemático, é capaz de eliminar completamente as forças
de vínculo das equações de movimento, produzindo uma formulação que depende ape-
nas das forças "verdadeiras"do sistema e das coordenadas generalizadas escolhidas. É
essa construção que ocupará o Documento 4 deste livro, depois que tivermos desen-
volvido, no Documento 3, as ferramentas do cálculo das variações necessárias para
expressá-la em sua forma mais poderosa: o princípio de Hamilton.
Resumo do capítulo
A mecânica newtoniana, embora conceitualmente completa, torna-se pouco prática em
sistemas vinculados, porque exige tratar explicitamente forças de vínculo desconheci-
das e trabalhar com mais coordenadas do que os graus de liberdade reais do sistema.
Vínculos holônomos – expressos por equações entre posições – reduzem o número de
graus de liberdade de 3N para n = 3N − k, resultado que decorre rigorosamente do
teorema da função implícita. Coordenadas generalizadas (q1 , . . . , qn ) exploram essa
redução, parametrizando diretamente o espaço de configurações Q, uma variedade de
dimensão n, e eliminando automaticamente a necessidade de impor vínculos manu-
8 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO À MECÂNICA ANALÍTICA
Ferramentas Matemáticas
A pergunta parece técnica, mas esconde uma armadilha conceitual real. Em coor-
denadas cartesianas, a velocidade é simplesmente a derivada temporal da posição,
⃗r˙ = d⃗r/dt, e essa derivada tem componentes constantes na base (ı̂, ȷ̂, k̂): derivar
⃗r = xı̂ + yȷ̂ + z k̂ no tempo produz ⃗r˙ = ẋı̂ + ẏȷ̂ + ż k̂ sem complicação, porque os
próprios vetores da base são fixos. Em coordenadas generalizadas isso deixa de ser
verdade: a base local associada a coordenadas curvilíneas – pense nos vetores radial e
angular da coordenada polar – muda de direção de ponto para ponto, e essa mudança
contribui para a velocidade tanto quanto a variação das próprias coordenadas. Igno-
rar essa contribuição é o erro mais comum de quem tenta atalhar a passagem para a
mecânica analítica sem antes organizar essa ferramenta.
Há uma segunda razão, ainda mais importante, para tratar esse assunto com cui-
dado antes de prosseguir. A energia cinética do sistema, T = i 21 mi⃗r˙i · ⃗r˙i , é a grandeza
P
9
10 CAPÍTULO 2. FERRAMENTAS MATEMÁTICAS
Lema 2.2 (Cancelamento dos pontos). Seja ⃗ri = ⃗ri (q1 , . . . , qn , t) de classe C 1 . Então,
para todo j = 1, . . . , n,
∂⃗r˙i ∂⃗ri
= .
∂ q̇j ∂qj
Demonstração. Partimos da expressão (2.1) e a tratamos como uma função das 2n + 1
variáveis independentes q1 , . . . , qn , q̇1 , . . . , q̇n , t – independentes no sentido de que, antes
de restringirmos a uma trajetória específica, posição e velocidade generalizada podem
ser prescritas livremente, exatamente como x e ẋ podem ser especificadas indepen-
dentemente como condições iniciais de uma equação de segunda ordem. Derivando
parcialmente em relação a q̇j , com q1 , . . . , qn , t mantidos fixos:
∂⃗r˙i n
! !
∂ X ∂⃗ri ∂ ∂⃗ri
= q̇k + .
∂ q̇j ∂ q̇j k=1 ∂qk ∂ q̇j ∂t
O segundo termo é nulo, porque ∂⃗ri /∂t não depende de nenhuma velocidade generali-
zada. No primeiro termo, os coeficientes ∂⃗ri /∂qk também não dependem de q̇1 , . . . , q̇n ,
de modo que a derivada em relação a q̇j atravessa a soma e atua apenas sobre q̇k ,
produzindo o símbolo de Kronecker δjk = ∂ q̇k /∂ q̇j :
∂⃗r˙i n
X ∂⃗ri ∂⃗ri
= δjk = . ■
∂ q̇j k=1 ∂qk ∂qj
Interpretação 2.3. O nome "cancelamento dos pontos"é uma referência mnemônica
à notação de Newton para derivadas temporais: o lema afirma que, ao derivar ⃗r˙i em
relação a q̇j , os "pontos"que indicam derivada temporal desaparecem de ambos os lados,
restando exatamente a mesma relação que valeria entre ⃗ri e qj . Fisicamente, isso reflete
o fato de que a velocidade se transforma pela mesma matriz jacobiana que a posição –
não deveria surpreender, já que
a relação (2.1) é, para t fixo, exatamente a aplicação
linear cuja matriz é ∂⃗ri /∂qj . O lema apenas formaliza essa observação de modo a
poder ser usado dentro de manipulações algébricas mais longas sem reconstruí-la a
cada vez.
Lema 2.4 (Comutação da derivada total com a derivada parcial). Seja ⃗ri = ⃗ri (q1 , . . . , qn , t)
de classe C 2 , e seja qj = qj (t) uma trajetória arbitrária suave no espaço de configura-
ções. Então
∂⃗r˙i
!
d ∂⃗ri
= .
dt ∂qj ∂qj
Demonstração. Calculamos os dois lados separadamente e comparamos. Para o lado
esquerdo, ∂⃗ri /∂qj é, ao longo da trajetória, uma função composta de t através de
q1 (t), . . . , qn (t), e sua derivada total no tempo é dada pela regra da cadeia usual:
n
!
d ∂⃗ri X ∂ 2⃗ri ∂ 2⃗ri
= q̇k + .
dt ∂qj k=1 ∂qj ∂qk ∂qj ∂t
Para o lado direito, partimos novamente de (2.1) e derivamos parcialmente em relação
a qj , tratando as velocidades generalizadas como variáveis independentes das posições
(mesma hipótese usada no Lema 2.2):
∂⃗r˙i n n
! !
X ∂ ∂⃗ri ∂ ∂⃗ri X ∂ 2⃗ri ∂ 2⃗ri
= q̇k + = q̇k + .
∂qj k=1 ∂qj ∂qk ∂qj ∂t k=1 ∂qj ∂qk ∂qj ∂t
12 CAPÍTULO 2. FERRAMENTAS MATEMÁTICAS
As duas expressões coincidem termo a termo, sem qualquer hipótese adicional além
da igualdade das derivadas parciais mistas ∂ 2⃗ri /∂qj ∂qk = ∂ 2⃗ri /∂qk ∂qj , garantida pelo
teorema de Clairaut–Schwarz porque supomos ⃗ri de classe C 2 . ■
Interpretação 2.5. Este segundo lema afirma que a ordem das operações "derivar em
relação ao tempo ao longo da trajetória"e "derivar parcialmente em relação a uma
coordenada generalizada"pode ser trocada sem alterar o resultado. Isso não é automá-
tico: d/dt e ∂/∂qj agem sobre objetos matemáticos de natureza distinta – um sobre a
dependência temporal ao longo de uma curva específica, o outro sobre a dependência
funcional de ⃗ri em relação a suas variáveis independentes –, e a comutatividade só se
estabelece porque ambas, em última análise, se reduzem a derivadas parciais mistas de
uma mesma função suave. Junto com o Lema 2.2, esta identidade será o mecanismo
algébrico exato que permitirá, no Documento 4, transformar a expressão do princípio
de D’Alembert – inicialmente escrita em termos das acelerações cartesianas ⃗r¨i – na
forma que reconhecemos hoje como as equações de Euler–Lagrange.
e substituímos a expressão (2.1) para cada ⃗r˙i . O produto escalar de duas somas se
expande em uma soma dupla de produtos escalares, e a conta, embora um pouco longa,
segue apenas a distributividade do produto interno:
!
∂⃗ri ∂⃗ri X ∂⃗ri ∂⃗ri
⃗r˙i · ⃗r˙i =
X
q̇j + · q̇k +
j ∂qj ∂t k ∂qk ∂t
! !
X ∂⃗ri ∂⃗ri ri ∂⃗ri
X ∂⃗ ∂⃗ri ∂⃗ri
= · q̇j q̇k + 2 · q̇j + · .
j,k ∂qj ∂qk j ∂qj ∂t ∂t ∂t
Multiplicando por 12 mi , somando sobre i = 1, . . . , N e trocando a ordem das somas
em i e em j, k, obtemos
n n
1 X X
T = gjk (q, t) q̇j q̇k + aj (q, t) q̇j + T0 (q, t), (2.2)
2 j,k=1 j=1
| {z }
| {z } | {z } T0
T2 T1
onde definimos
N N N
!2
X ∂⃗ri ∂⃗ri X ∂⃗ri ∂⃗ri 1X ∂⃗ri
gjk (q, t) = mi · , aj (q, t) = mi · , T0 (q, t) = mi .
i=1 ∂qj ∂qk i=1 ∂qj ∂t 2 i=1 ∂t
Definição 2.6 (Tensor métrico cinético). A matriz n × n de coeficientes gjk (q, t)
definida acima é chamada de tensor métrico cinético, ou matriz de massa generalizada,
do sistema.
2.5. EXEMPLO RESOLVIDO: COORDENADAS POLARES PLANAS 13
Proposição 2.7. Para todo (q, t) na região de validade das coordenadas generalizadas,
a matriz gjk (q, t) é simétrica e positiva definida.
Demonstração. A simetria, gjk = gkj , é imediata da comutatividade do produto es-
calar. Para a positividade, tome um vetor arbitrário não nulo (ξ1 , . . . , ξn ) ∈ Rn e
considere a forma quadrática associada:
2
n N N n
!
X X X ∂⃗ri ∂⃗ri X X ∂⃗ri
gjk ξj ξk = mi · ξj ξk = mi ξj ≥ 0,
j,k=1 i=1 j,k ∂qj ∂qk i=1 j=1 ∂qj
2
onde usamos que j,k (⃗uj · ⃗uk )ξj ξk =
P P
uj ξj para quaisquer vetores ⃗uj . A soma é
j⃗
P
uma soma de quadrados, logo não negativa. Ela se anula se e somente se j (∂⃗ri /∂qj )ξj =
⃗0 para toda partícula com mi > 0, isto é, se e somente se o vetor (ξ1 , . . . , ξn ) estiver
no núcleo da matriz jacobiana da transformação ⃗ri (q, ·). Mas a independência das
coordenadas generalizadas, garantida pela Proposição 1.1 e pela condição de posto
máximo ali exigida, assegura que essa matriz jacobiana tem núcleo trivial. Logo a
forma quadrática se anula apenas em ξ = 0, e gjk é positiva definida. ■
Interpretação 2.8. A Proposição 2.7 tem uma consequência de longo alcance, que só
poderemos explorar por completo mais adiante, mas que vale a pena registrar desde
já: como gjk (q, t) é simétrica e positiva definida em cada ponto q do espaço de confi-
gurações Q, ela define, para t fixo, um produto interno em cada espaço tangente a Q –
ou seja, uma métrica riemanniana sobre Q. A energia cinética T2 é, a menos do fator
1
2
, exatamente o quadrado da norma da velocidade generalizada nessa métrica. Essa
observação é o embrião de toda uma reformulação geométrica da mecânica clássica, em
que o movimento livre de forças corresponde a geodésicas de Q; não a desenvolveremos
neste livro, mas o leitor deve guardar a conexão, porque ela explica por que a energia
cinética – e não a energia potencial – é o objeto que determina a geometria subjacente
ao problema mecânico.
Observação 2.9. Se todos os vínculos do sistema são esclerônomos, então ⃗ri = ⃗ri (q, ·)
não depende explicitamente do tempo, logo ∂⃗ri /∂t ≡ 0 para todo i, e consequente-
mente aj ≡ 0 e T0 ≡ 0. Nesse caso importante, a energia cinética se reduz à forma
quadrática pura
n
1 X
T = T2 = gjk (q) q̇j q̇k ,
2 j,k=1
sem termos lineares ou constantes em q̇. A grande maioria dos exemplos tratados neste
livro cai neste caso, e é útil reconhecê-lo de imediato: sempre que a transformação
de coordenadas não envolver relógios, motores ou suportes móveis, T é puramente
quadrática nas velocidades generalizadas.
y
êθ
êr
r P
θ
x
Figura 2.1: Base local (êr , êθ ) das coordenadas polares no ponto P . Ao contrário da
base cartesiana (ı̂, ȷ̂), essa base gira com o ponto: sua direção depende de θ, e essa
variação contribui para a velocidade quando θ muda no tempo.
A Figura 2.1 mostra a base local êr = (cos θ, sin θ) e êθ = (− sin θ, cos θ), de modo
que ⃗r = r êr . Derivando no tempo e usando dêr /dt = θ̇ êθ (consequência direta de
derivar êr (θ(t)) pela regra da cadeia, já que dêr /dθ = êθ ), obtemos diretamente
Resumo do capítulo
A transformação de velocidades entre coordenadas cartesianas e generalizadas segue
da regra da cadeia, ⃗r˙i = j (∂⃗ri /∂qj )q̇j + ∂⃗ri /∂t, uma expressão linear (ou afim, no
P
caso reonômico) nas velocidades generalizadas. Dela decorrem duas identidades pura-
mente matemáticas, mas de uso constante na mecânica analítica: o cancelamento dos
pontos, ∂⃗r˙i /∂ q̇j = ∂⃗ri /∂qj , e a comutação d/dt(∂⃗ri /∂qj ) = ∂⃗r˙i /∂qj . Substituindo a re-
gra da cadeia na definição newtoniana de energia cinética, obtemos T = T2 + T1 + T0 ,
uma soma de termos quadrático, linear e constante nas velocidades generalizadas,
cujos coeficientes formam o tensor métrico cinético gjk (q, t), simétrico e positivo de-
finido; para sistemas esclerônomos, T reduz-se à forma quadrática pura T2 . Por fim,
P
o deslocamento virtual δ⃗ri = j (∂⃗ri /∂qj )δqj distingue-se do deslocamento real por
manter o tempo congelado, distinção que será decisiva na formulação do princípio de
D’Alembert. Com essas ferramentas em mãos, o próximo passo é desenvolver a lin-
guagem que trata trajetórias inteiras como variáveis de um problema de otimização:
o cálculo das variações, tema do Documento 3.