ARTIGOS
Direito à educação, diversidade e educação em direitos humanos
Vera Maria Ferrão Candau
Doutora em Educação e professora titular do Departamento de Educação da Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), E-mail: vmfc@[Link]
RESUMO
Os direitos humanos estão no centro da problemática das sociedades
contemporâneas. Afirmados e continuamente violados, são referência para a
construção de sociedades humanas e democráticas. Construídos no contexto histórico
da modernidade ocidental, têm privilegiado a afirmação da igualdade. No entanto,
estão hoje desafiados a incorporar as questões da diversidade. O presente trabalho
tem por objetivo, tendo por referência a tensão entre igualdade e diferença na
concepção e prática dos direitos humanos, discutir as especificidades e articulações
entre o direito à educação e a educação em direitos humanos. Esses dois campos se
entrelaçam, sendo a educação em direitos humanos considerada atualmente como um
componente fundamental do direito à educação. Essa perspectiva nos coloca no
horizonte de promover processos educativos capazes de formar sujeitos de direito,
considerando suas especificidades, e de fortalecer processos democráticos, em que
redistribuição e reconhecimento se articulem.
Palavras-chave: Direitos humanos. Direito à educação. Educação em direitos humanos.
Igualdade-diferença. Diversidade.
Introdução
A questão dos direitos humanos constitui um dos eixos fundamentais da problemática
das sociedades contemporâneas. Do plano internacional ao local, das questões globais
às da vida cotidiana, os direitos humanos atravessam nossas preocupações, buscas,
projetos e sonhos. Afirmados ou negados, exaltados ou violados, eles fazem parte da
nossa vida individual, comunitária e coletiva.
Desde a promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização
das Nações Unidas (ONU), em 1948, no plano internacional foi construída uma sólida
arquitetura dos direitos humanos através de inúmeros tratados, resoluções, pactos e
declarações, de caráter ético, político e normativo. Os Estados que aderiram
formalmente a estes diferentes documentos comprometeram-se a incorporar em suas
legislações e políticas públicas a proteção e promoção dos respectivos direitos.
A Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos, realizada em Viena, em 1993, para
comemorar os 45 anos da promulgação da Declaração Universal, reafirmou, após
intenso debate, a universalidade, assim como a indivisibilidade, interdependência e
interrelação dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais.
Também afirmou enfaticamente a relação entre democracia, desenvolvimento e
direitos humanos.
Segundo Norberto Bobbio (1992), no meio das contradições e das graves questões que
atravessam o nosso tempo, a preocupação pelo reconhecimento dos direitos humanos
constitui um sinal positivo na busca da construção de sociedades humanas e
democráticas.
No plano nacional, a partir da Constituição de 1988, denominada Constituição Cidadã,
que incorporou fortemente a afirmação dos direitos humanos, o Estado brasileiro tem
feito um esforço sistemático orientado à defesa e proteção dos direitos fundamentais
e, respondendo em muitas ocasiões às demandas de diferentes movimentos sociais,
vem ampliando progressivamente a inclusão de novos temas em suas preocupações.
Hoje possuímos um significativo conjunto normativo e de políticas públicas centradas
na proteção e promoção dos direitos humanos.
No entanto, esta realidade convive com violações sistemáticas, e em muitos casos
dramáticas, destes direitos. Na sociedade brasileira, a impunidade, as múltiplas formas
de violência, a desigualdade social, a corrupção, as discriminações e a fragilidade da
efetivação dos direitos juridicamente afirmados constituem uma realidade cotidiana.
Ao mesmo tempo, também é possível detectar neste cenário a progressiva afirmação
de uma nova sensibilidade social, ética, política e cultural em relação aos direitos
humanos. Nesta perspectiva, cresce a convicção de que não basta construir um
arcabouço jurídico cada vez mais amplo em relação aos direitos humanos. Se eles não
forem internalizados no imaginário social, nas mentalidades individuais e coletivas, de
modo sistemático e consistente, não construiremos uma cultura dos direitos humanos
na nossa sociedade. E, neste horizonte, os processos educacionais são fundamentais.
Estas são questões que nos vêm instigando e que orientam a linha de pesquisa que
vimos desenvolvendo, "Educação, direitos humanos e formação de educadores",
vinculada ao Programa de Pós-Graduação do Departamento de Educação da PUC-Rio.
O objetivo do presente trabalho, tendo por referência a tensão entre igualdade e
diferença na concepção e prática dos direitos humanos, é discutir as especificidades e
articulações entre o direito à educação e a educação em direitos humanos.
Direitos humanos hoje: a tensão entre igualdade e diferença
É possível afirmar que a luta pelos direitos humanos tem estado protagonizada pela
busca da afirmação da igualdade entre todos os seres humanos. O primeiro artigo da
Declaração Universal (1948) "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em
dignidade e direitos e, dotados que são de razão e consciência, devem comportar-se
fraternalmente uns com os outros" tem sido o centro das preocupações e suscitado
inúmeras ações e políticas orientadas a garantir a igualdade entre todas as pessoas e a
denunciar as múltiplas desigualdades que necessitamos superar para que se logre a
efetivação dos direitos humanos, realidade ainda muito precária e frágil na maior parte
do planeta, especialmente quando referida aos grupos excluídos, marginalizados e
discriminados.
No entanto, consideramos que na contemporaneidade é possível detectar uma nova
perspectiva em relação à problemática dos direitos humanos. A relação entre questões
referentes à justiça, superação das desigualdades socioeconômicas e as referidas ao
reconhecimento de diferentes grupos socioculturais se faz cada vez mais estreita.
Neste sentido, a problemática dos direitos humanos, muitas vezes entendidos como
direitos exclusivamente individuais e fundamentalmente civis e políticos, se amplia.
Cada vez mais se afirma a importância dos direitos coletivos, sociais, econômicos,
culturais e ambientais. E, neste movimento, as questões relativas à diversidade vêm
adquirindo cada vez maior relevância.
Nancy Fraser (2001) destaca que as demandas por reconhecimento se vêm afirmando
na arena política desde o fim do século XX. Para ela,
Demandas por "reconhecimento das diferenças" alimentam a luta de grupos
mobilizados sob as bandeiras da nacionalidade, etnicidade, raça, gênero e sexualidade.
Nesses conflitos "pós-socialistas", identidades grupais substituem interesses de classe
como principal incentivador para a mobilização política. Dominação cultural suplanta a
exploração como a injustiça fundamental. E o reconhecimento cultural desloca a
redistribuição socioeconômica como remédio para injustiças e objetivo da luta política.
(p. 245)
No entanto, Fraser aponta para a questão da possível dissociação entre essas
demandas, a contraposição entre a política cultural e a política social, política da
diferença e política da igualdade, afirmando que esta pode nos colocar diante de uma
falsa escolha: redistribuição ou reconhecimento, já que hoje a justiça requer tanto
redistribuição quanto reconhecimento; nenhum desses campos sozinho é suficiente. A
autora propõe então que
Os aspectos emancipatórios das duas problemáticas precisam ser integrados em um
modelo abrangente e singular. A tarefa, em parte, é elaborar um conceito amplo de
justiça que consiga acomodar tanto as reivindicações defensáveis de igualdade social
quanto as reivindicações defensáveis de reconhecimento da diferença. (Fraser, 2007,
p. 3)
Na mesma perspectiva, Boaventura de Sousa Santos, em seu artigo "Uma concepção
multicultural dos Direitos Humanos" (1997), publicado com uma revisão também no
livro por ele organizado, Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo
multicultural (2003), parte da afirmação de que os direitos humanos são uma
construção ocidental e moderna e hoje necessitam ser ressignificados numa
perspectiva multicultural, para que tenham relevância social e política, isto é, têm de
incorporar as questões relacionadas à diversidade cultural.
Para Santos (2006), para que os direitos humanos possam verdadeiramente ser
ressignificados hoje, numa perspectiva que não nega a sua história, mas quer trazê-los
para a problemática contemporânea, terão que passar por um processo de
reconceitualização, que tem como questão-eixo a articulação entre igualdade e
diferença, isto é, a passagem da afirmação da igualdade ou da diferença para a da
igualdade na diferença. Não se trata de, para afirmar a igualdade, negar diferença,
nem de uma visão diferencialista absoluta, que relativize a igualdade.
Nesta perspectiva, consideramos importante explicitar uma vez mais este pensamento
de Santos, amplamente difundido, que ele chama de o novo imperativo transcultural e
que, no seu entender, deve presidir uma articulação pós-moderna e multicultural das
políticas de igualdade e diferença, por sintetizar de modo consistente e incisivo o que
consideramos o centro da problemática dos direitos humanos hoje: "temos o direito a
ser iguais, sempre que a diferença nos inferioriza; temos o direito de ser diferentes
sempre que a igualdade nos descaracteriza" (Santos, 2006, p. 462).
Entre nós, a posição de Flavia Piovesan (2006, p. 24) expressa na mesma perspectiva a
postura de diversos juristas e cientistas sociais:
A efetiva proteção dos direitos humanos demanda não apenas políticas universalistas,
mas específicas, endereçadas a grupos socialmente vulneráveis, enquanto vítimas
preferenciais da exclusão. Isto é, a implementação dos direitos humanos requer a
universalidade e indivisibilidade desses direitos, acrescidos do valor da diversidade (...).
Ao lado do direito à igualdade, surge, também, como direito fundamental, o direito à
diferença. Importa o respeito à diferença e à diversidade, o que lhes assegura um
tratamento especial.
É nessa dialética entre igualdade e diferença, superar as desigualdades e, ao mesmo
tempo, valorizar a diversidade, promover redistribuição e reconhecimento, que se
situa hoje a problemática dos direitos humanos. Consideramos que este desafio
atravessa, consequentemente, as questões relacionadas ao direito à educação e à
educação em direitos humanos hoje, assim como suas interrelações.
Direito à educação e educação em direitos humanos: entre especificidades e
articulações
A educação como direito humano é considerada um direito social integrante da
denominada segunda geração de direitos, formulados e afirmados a partir do século
XIX.
São muitas as referências à importância do direito à educação, mas poucas as
reflexões que têm se dedicado a aprofundar o conteúdo deste direito numa
perspectiva ampla, sem reduzi-lo à escolarização, abordagem que constitui a tendência
quase exclusiva dos trabalhos que vêm sendo realizados.
Sergio Haddad afirma, na introdução do Relatório sobre o Direito à Educação, realizado
pela Plataforma Brasileira de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais e Culturais, em
2004:
Conceber a Educação como Direito Humano diz respeito a considerar o ser humano na
sua vocação ontológica de querer "ser mais", diferentemente dos outros seres vivos,
buscando superar sua condição de existência no mundo. Para tanto, utiliza-se do seu
trabalho, transforma a natureza, convive em sociedade. Ao exercitar sua vocação, o ser
humano faz História, muda o mundo, por estar presente no mundo de uma maneira
permanente e ativa.
A educação é um elemento fundamental para a realização dessa vocação humana. Não
apenas a educação escolar, mas a educação no seu sentido amplo, a educação
pensada num sistema geral, que implica na educação escolar, mas que não se basta
nela, porque o processo educativo começa com o nascimento e termina apenas no
momento da morte do ser humano. Isto pode ocorre no âmbito familiar, na sua
comunidade, no trabalho, junto com seus amigos, nas igrejas, etc. Os processos
educativos permeiam a vida das pessoas.
Os sistemas escolares são parte deste processo educativo em que aprendizagens
básicas são desenvolvidas. Ali, conhecimentos essenciais são transmitidos, normas,
comportamentos e habilidades são ensinados e aprendidos. Nas sociedades modernas,
o conhecimento escolar é quase uma condição para sobrevivência e bem estar social.
(p. 1)
As implicações do direito à educação, tendo por referência âmbitos como a família, os
diferentes espaços de educação não formal, como as organizações da sociedade civil e
os movimentos sociais, ainda não estão aprofundadas e adequadamente
desenvolvidas entre nós.
É possível afirmar que o desenvolvimento do direito à educação no nosso país,
certamente um processo acelerado nas últimas décadas, pode ser caracterizado por
duas ênfases: a expansão da escolarização e a afirmação da construção de uma
educação escolar comum a todos, na perspectiva da afirmação da igualdade.
No que diz respeito à primeira característica, o direito à educação escolar, num
primeiro momento a ênfase foi posta na ampliação dos anos de obrigatoriedade
escolar, na perspectiva da universalização do ensino fundamental. Com este objetivo
praticamente alcançado em linhas gerais, passa-se também a implementar políticas de
ampliação do acesso à educação infantil, ao ensino médio e ao ensino superior. No
entanto, a expansão do sistema e a presença dos diversos grupos sociais e culturais
que passaram a frequentá-lo colocaram em evidência a heterogeneidade dos
resultados, os altos índices de evasão e fracasso escolar, a distorção idade-série,
particularmente de determinados sujeitos e grupos, colocando no centro dos debates
e das preocupações a questão da qualidade da educação. Contudo, esta expressão, ao
mesmo tempo em que explicita um aparente consenso, também admite distintas
interpretações e encobre diferentes marcos conceituais e políticos de se conceber a
educação, relacionando-a com o tipo de sociedade e cidadania que se quer construir.
Trata-se de uma expressão polissêmica, de um conceito socialmente construído e em
constante reformulação, que suscita fortes polêmicas e debates entre os educadores e
na sociedade em geral. Esta polissemia da expressão "qualidade da educação" pode
ser evidenciada nos discursos cada vez mais frequentes que sentem a necessidade de
acrescentar um adjetivo à palavra qualidade: fala-se de qualidade total, qualidade
humana, qualidade social, qualidade cidadã, qualidade corporativa, entre outras. O
que está em jogo é o confronto entre diferentes modos de conceber as relações entre
educação, escola e sociedade.
Partindo-se da concepção de educação já explicitada por Haddad, a educação escolar
não pode ser reduzida a um produto que se negocia na lógica do mercado; nem ter
como referência quase que exclusivamente a aquisição de determinados "conteúdos",
por mais socialmente reconhecidos que sejam. Deve ter como horizonte a construção
de uma cidadania participativa, a formação de sujeitos de direito, o desenvolvimento
da vocação humana de todas as pessoas nela implicadas.
Este deslizamento da ênfase na expansão do sistema escolar para as questões da
qualidade permitiu também ampliar a discussão sobre o tipo de educação que as
escolas devem promover. Concebido na perspectiva da igualdade, o direito à educação
é afirmado procurando-se garantir uma escola igual para todos. Nesta perspectiva,
sistemas de larga escala de avaliação escolar são implementados, municípios e estados
elaboram currículos para todas as suas escolas, é produzido material didático
padronizado, cadernos de exercícios para todos os alunos, entre outros aspectos, e
está sendo elaborado, no momento atual, um currículo comum em nível nacional.
Nesta perspectiva, a igualdade é muitas vezes interpretada como homogeneização e
uniformização do sistema.
No entanto, especialmente a partir dos anos de 1990, esta tendência vem sendo
desestabilizada por várias políticas, programas e iniciativas orientadas para o
reconhecimento da diversidade, em geral promovidas em resposta a demandas dos
movimentos sociais. Políticas de ação afirmativa, escola inclusiva, introdução da
história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nos currículos escolares, educação
quilombola, educação no campo, educação intercultural indígena, elaboração de
materiais pedagógicos para o enfrentamento da homofobia, do sexismo, do racismo
no ambiente escolar, entre outros, são alguns exemplos do desenvolvimento desta
perspectiva. Estas iniciativas vêm provocando muitos debates entre educadores e na
sociedade em geral. Políticas de igualdade e de reconhecimento da diversidade
referidas à educação escolar parecem, algumas vezes, estar em contraposição e, em
outras, se desenvolver através de movimentos justapostos, sem a necessária
articulação. No entanto, é fundamental que se tenha presente que
O movimento da sociedade civil nos últimos anos vem produzindo e constituindo
novos direitos, na defesa e no respeito às diferenças e pela superação das
desigualdades. Quando estudamos e trabalhamos do ponto de vista educacional, dos
seus indicadores, as desigualdades estão claramente marcadas, no tratamento
desigual destinado às faixas etárias, nas questões de gênero, de etnia e raça, nos
grupos vulneráveis, o rural, o urbano. Temos que mostrar que o educando, o
estudante, tem cor, tem sexo, um lugar social em que ele está inserido, além de sua
condição de classe social. (Haddad & Graciano, 2006, p. 5)
O desenvolvimento deste processo torna cada vez mais urgente a promoção de
processos de educação em direitos humanos que colaborem na construção de uma
cultura dos direitos humanos na sociedade como um todo e, particularmente, nos
processos educativos.
A educação em direitos humanos tem se desenvolvido de forma heterogênea nos
diferentes países da América Latina, apresentando diversas trajetórias, sempre
intimamente articuladas com os processos político-sociais vividos nos diferentes
contextos.
Especialistas nesta temática são unânimes em afirmar que, em geral, esta preocupação
emerge da necessidade de redefinir a atuação dos movimentos e organizações não
governamentais de direitos humanos, superados os regimes ditatoriais instalados,
tendo por finalidade promover processos de (re)democratização em várias regiões do
Continente.
Basombrio (1992), pesquisador que realizou um trabalho abrangente de registro e
análise do que foi a construção de uma educação em direitos humanos nos últimos
anos, em diferentes países latino-americanos, assim sintetiza o processo vivido:
A educação em direitos humanos na América Latina constitui uma prática recente.
Espaço de encontro entre educadores populares e militantes de direitos humanos,
começa a se desenvolver simultaneamente com o final dos piores momentos da
repressão política na América Latina e alcança um certo nível de sistematização na
segunda metade da década de 80. (p. 33)
Em geral, a partir dos anos de 1980, as organizações e movimentos de direitos
humanos, sem deixar de se dedicar à denúncia das violações realizadas e de promover
ações orientadas à proteção e defesa dos direitos, ampliam seu horizonte de
preocupações e seus espaços sociais de atuação. Junto aos problemas que podemos
considerar tradicionais e básicos, relativos aos direitos civis e políticos, passam a ser
enfatizadas questões relacionadas com os direitos sociais, econômicos e culturais, no
âmbito pessoal e coletivo. E, neste momento, adquirem especial relevância as
atividades de educação em direitos humanos.
No Brasil, a educação em direitos humanos vem se desenvolvendo e ampliando suas
ações a partir dos finais dos anos de 1980 (Candau, 2000; Monteiro, 2005; Candau &
Sacavino, 2009). Num primeiro momento, as principais atividades desenvolvidas foram
promovidas pelas organizações não governamentais e tiveram como preocupação
central, no contexto da (re)democratização do país, a afirmação dos direitos civis e
políticos e a construção de uma cidadania democrática, ativa e participativa. Pouco a
pouco, diferentes órgãos públicos, em geral estaduais e municipais, vão se implicando
no processo. A partir dos anos de 1990, o governo federal assumiu um protagonismo
importante neste campo e a formulação de políticas públicas se foi ampliando.
Multiplicam-se parcerias e ações conjuntas entre as iniciativas da sociedade civil e
governamentais. Neste momento emergem com crescente força questões relativas à
diversidade. Um marco importante no âmbito da educação é a inclusão nos
Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Básico (1995) do tema transversal
"pluralidade cultural".
Na última década, a educação em direitos humanos vem se consolidando cada vez
mais no Brasil, tanto no âmbito das políticas públicas como das organizações da
sociedade civil, especialmente a partir do lançamento do Plano Nacional de Educação
em Direitos Humanos (primeira edição em 2003 e segunda em 2006), elaborado pelo
Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos, da Secretaria de Direitos
Humanos, órgão vinculado à Presidência da República.
Tanto a Secretaria de Direitos Humanos quanto o Ministério da Educação vêm
promovendo atividades e oferecendo apoios diversos, muitas vezes conjuntamente.
São realizados seminários, cursos, palestras, fóruns, publicações de textos e materiais
didáticos, entre outros, em diferentes regiões do país, promovidos por universidades,
secretarias de Educação e outros órgãos públicos estaduais e municipais, movimentos
sociais, organizações não governamentais, entre outros. A formação de educadores
constitui uma preocupação central destas ações.
No presente ano, foram aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação e
homologadas pelo ministro da Educação as Diretrizes Nacionais para a Educação em
Direitos Humanos, publicadas no Diário Oficial da União em 30 de maio de 2012.
A expressão "educação em direitos humanos" tem sido objeto de muitos debates.
Existem diferentes concepções que disputam sentidos e ênfases conceituais e políticas
(Candau & Sacavino, 2010). Algumas estão centradas fundamentalmente na
perspectiva da igualdade e outras, mais recentes, procuram articular a perspectiva da
igualdade e da diferença.
Segundo as Diretrizes Nacionais, a educação em direitos humanos tem por base os
seguintes princípios:
Art. 3º - A Educação em Direitos Humanos, com a finalidade de promover a educação
para a mudança e a transformação social, fundamenta-se nos seguintes princípios:
I - dignidade humana;
II - igualdade de direitos;
III - reconhecimento e valorização das diferenças e das diversidades;
IV - laicidade do Estado;
V - democracia na educação;
VI - transversalidade, vivência e globalidade; e
VII - sustentabilidade socioambiental.
Fica assim claramente evidenciada a opção do governo brasileiro pela afirmação da
necessidade da articulação entre direitos da igualdade e da diferença no
desenvolvimento de processos de educação em direitos humanos.
No que diz respeito à interrelação entre direito à educação e educação em direitos
humanos, num primeiro momento, as reflexões sobre estes campos se deram de modo
independente. No entanto, foram se aproximando progressivamente e foi sendo
assumida a perspectiva que considera a educação em direitos humanos como um
componente do direito à educação e elemento fundamental da qualidade da educação
que desejamos promover. Sendo assim, estas duas preocupações se entrelaçam na
busca da construção de uma educação comprometida com a formação de sujeitos de
direito e a afirmação da democracia, da justiça e do reconhecimento da diversidade na
sociedade brasileira. A construção de uma cultura dos direitos humanos em diferentes
âmbitos da sociedade constitui seu eixo principal. No entanto, se no plano teórico esta
articulação foi sendo conquistada, ainda é muito frágil no âmbito das políticas públicas,
da formação de educadores e das práticas pedagógicas.
Considerações finais
Os direitos humanos constituem um foco central da problemática das sociedades
contemporâneas. Afirmados e continuamente violados, são referência para a
construção de sociedades humanas e democráticas. No entanto, podem ser
concebidos a partir de diferentes marcos teórico-políticos. Defendemos a perspectiva
que considera que a articulação entre direitos da igualdade e direitos da diferença é
uma exigência do momento atual. Somos conscientes da tensão que existe entre estes
dois movimentos. Contudo, é nesta tensão que é importante trabalhar e a
consideramos como geradora de criatividade, de buscas e novos compromissos.
Defendemos neste trabalho que esta tensão igualdade-diferença está presente tanto
no desenvolvimento do direito à educação, quanto nos processos de educação em
direitos humanos. Estes dois campos, que tiveram diferentes origens e
desenvolvimentos autônomos, hoje se entrelaçam, constituindo uma teia em que a
educação em direitos humanos se configura como um componente básico do direito à
educação. Esta perspectiva nos coloca no horizonte de promover processos educativos
capazes de potencializar a vocação humana (Haddad, 2004) de educandos e
educadores, formando sujeitos de direitos a partir do reconhecimento de suas
especificidades de gênero, raça, etnia, territorialidade, etapa de vida, orientação
sexual, opção religiosa, características sensório-motoras, aspectos psicológicos, de
classe social, entre outras